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M I L T O N S A N TO S

A Natureza do Espaço

Técnica e Tempo. Razão e Emoção

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Santos, Milton, 1926-2001 A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção / Milton Santos. - 4. ed. 2. reimpr. - São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006. - (Coleção Milton Santos; 1)

Bibliografia. ISBN 85-314-0713-3

1. Espaço e tempo 2. Geografia 3. Geografia - Filosofia 4. Geografia humana I. Título. II. Série. CDD -910.01

02-3478

Índices para catálogo sistemático: 1. Espaço e tempo: Geografia: Teoria 910.01 2. Tempo e espaço: Geografia: Teoria 910.01

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Segunda Parte A PRODUÇÃO DAS FORMAS-CONTEÚDO

______ SUMÁRIO

4. O ESPAÇO E A NOÇÃO DE TOTALIDADE ......................................................................................................................................... 72 Introdução .................................................................................................................................... 72 A Noção de Totalidade ................................................................................................................. 74 A Cisão da Totalidade ................................................................................................................... 75 Totalidade e Totalização ............................................................................................................... 76 A Precedência do Processo ........................................................................................................... 77 O Universal e o Particular: A Atualidade ....................................................................................... 78 A Totalidade como Possibilidade .................................................................................................. 79 Individuação, Objetivação, Espacialização: As Formas -Conteúdo ..................................................... 80 O Papel do Símbolo e da Ideologia no Movimento da Totalidade ................................................... 82

5. DA DIVERSIFICAÇÃO DA NATUREZA À DIVISÃO TERRITORIAL DO TRABALHO .....................................................................................................................................84 Introdução ..................................................................................................................................... 84 Da Diversificação da Natureza à Divisão do Trabalho .................................................................... 84 Divisão do Trabalho e Repartição dos Recursos ............................................................................ 86 Os Tempos da Divisão do Trabalho .............................................................................................. 88 Rugosidades do Espaço e Divisão Social do Trabalho .................................................................... 91

Prefácio - História de um Livro ......................................................................................................... 7 Introdução ......................................................................................................................................... 9

Primeira Parte UMA ONTOLOGIA DO ESPAÇO:NOÇÕES FUNDADORAS
I.

6. O TEMPO (OS EVENTOS) E O ESPAÇO ............................................................................................................................ 93 Eventos: Os Nomes, Características, Tipologia .............................................................................. 93 Duração, Extensão, Escalas, Superposições ................................................................................... 96 O Tempo como Intérprete da Realidade dos Objetos Diacronia e Sincronía: O Eixo das Sucessões e o das Coexistências ......................................................................................................................................102 Universalidade e Localidade: A Totalidade em Mov imento Diacronia e Sincronia: O Eixo das Secessões e o das Coexistências ....................................................104 como Trama ................................................................................................................................. 105 O Processo Espacial: O Acontecer Solidário .................................................................................. 108

AS TÉCNICAS, O TEMPO E O ESPAÇO GEOGRÁFICO ..............................................................................................................................16 Introdução .................................................................................................................................... 16 A Negligência com as Técnicas .........................................................................................................16 A Técnica, Ela Própria, é um Meio ............................................................................................... 22 A Necessidade de um Enfoque Abrangente ....................................................................................... 25 As Técnicas e a Empiricização do Tempo ........................................................................................ 30 A Idade de um Lugar .................................................................................................................... 35

Terceira Parte POR UMA GEOGRAFIA DO PRESENTE

7. O SISTEMA TÉCNICO ATUAL .................................................................................................................... 111 Introdução .................................................................................................................................... 111 Os Períodos Técnicos ................................................................................................................... 111 Os Sistemas Técnicos ................................................................................................................... 114 O Sistema Técnico Atual .............................................................................................................. 115 As Técnicas da Informação ........................................................................................................... 119

2. O ESPAÇO: SISTEMAS DE OBJETOS, SISTEMAS DE AÇÃO ............................................................................................ 38 Introdução ..................................................................................................................................... 38 Sistemas de Objetos ...........................................................................................................................40 Um Objeto Geográfico? .....................................................................................................................45 Sistemas de Ações ......................................................................................................................... 50 Uma Geografia da Ação? .............................................................................................................. 53 3. O ESPAÇO GEOGRÁFICO, UM HÍBRIDO ................................................................................................................................57 Entre Ação e Objeto: A Intencionalidade ...................................................................................... 57 A Inseparabilidade dos Objetos e das Ações ................................................................................. 61 O Espaço Geográfico, um Híbrido ................................................................................................ 65 Uma Necessidade Epistemológica: A Distinção entre Paisagem e Espaço ....................................................................................................................................... 66

8. AS UNICIDADES:APRODUÇÃO DA INTELIGÊNCIA PLANETÁRIA ......................................................................................123 Introdução .................................................................................................................................... 123 A Unicidade Técnica ..................................................................................................................... 123 A Unicidade do Tempo: A Convergência dos Momentos ..................................................................128 O Motor Único ............................................................................................................................. 133 4

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A Dimensão Espacial do Cotidiano ......................................................................................................... 217 Os Pobres na Cidade ........................................................................................................................... 218 Os Migrantes no Lugar: Da Memória à Descoberta ................................................................................ 222

9. OBJETOS E AÇÕES HOJE. AS NORMAS E O TERRITÓRIO ............................................................................................. 141 Os Objetos, Hoje .......................................................................................................................... 141 As Ações, Hoje ............................................................................................................................. 148 As Normas e o Território .............................................................................................................. 152
I O. DO MEIO NATURAL AO MEIO TÉCNICO-CIENTÍFICOINFORMACIONAL .....................................................................................................................................156

I 5.ORDEM UNIVERSAL,ORDEM LOCAL:RESUMO E CONCLUSÃO

.............................................................................................. 225 Introdução ...........................................................................................................................................225 Objetos e Ações ..................................................................................................................................226 Uma Globalização do Espaço? ................................................................................................................ 227 Da Ação Globalizada como Norma ao Território Local como Norma .......................................................................................................................................229 Uma Ordem Global, uma Ordem Local .............................................................................................. 230

Bibliografia .............................................................................................................................................232

Introdução ...................................................................................................................................156 O Meio Natural ............................................................................................................................. 157 O Meio Técnico ............................................................................................................................ 158 O Meio Técnico-Científico-Informacional ..................................................................................... 159 O Conhecimento como Recurso .................................................................................................... 162 O Espaço Nacional da Economia Internacional ............................................................................. 163 Universalidade Atual do Fenómeno de Região .............................................................................. 165 A Produtividade Espacial e a Guerra dos Lugares .......................................................................... 166 Fixidez, Rigidez e Fluidez ............................................................................................................. 167 A Crise Ambiental ........................................................................................................................ 169 O Alargamento dos Contextos ...................................................................................................... 171 A Tecnosfera e a Psicosfera ........................................................................................................... 171 Do Reino da Necessidade ao Reino da Liberdade .......................................................................... 173
I I. POR UMA GEOGRAFIA DAS REDES

............................................................................................................................................176 Introdução ..................................................................................................................................... 176 Que é uma Rede? .......................................................................................................................... 176 O Passado e o Presente das Redes ................................................................................................. 177 Tempos Rápidos e Tempos Lentos ................................................................................................ 179 Um Espaço Não-homogêneo e Instável ......................................................................................... 180 O Global e o Local ........................................................................................................................ 182 A Rede e as Dialéticas no Território .............................................................................................. 183 As Redes, a Competitividade e o Imperativo da Fluidez ................................................................. 185 Dissipando as Ambiguidades da Noção ......................................................................................... 187

I 2. HORIZONTALIDADES E

VERTICALIDADES ..................................................................................... 190 Introdução ..................................................................................................................................... 190 Dois Arranjos e Duas Segmentações ............................................................................................. 192 Verticalidades, Horizontalidades e Ação Política ...............................................................................194
I 3. OS ESPAÇOS DA RACIONALIDADE

.................................................................................................................. 196 Introdução ..................................................................................................................................... 196 É Possível um Espaço Racional? ................................................................................................... 196 A Produção de uma Racionalidade do Espaço ............................................................................... 200 O Espaço Racional ........................................................................................................................ 204

Quarta Parte A FORÇA DO LUGAR
I 4. O LUGAR E O COTIDIANO

............................................................................................................................... 212 Introdução ..........................................................................................................................................212 Atividade Racional, Atividade Simbólica e Espaço ................................................................................. 213 O Papel da Proximidade ..................................................................................................................... 215 6 5

por exemplo. foi rigorosa na crítica às minhas ideias e à sua formalização. Cuba etc. São Paulo Agosto de 1996 8 7 . Eliza Pinto de Almeida. onde as condições de calma e conforto necessárias estavam reunidas a um quadro natural inspirador: foi neste lugar. todavia. com ele. ele se inicia em janeiro de 1994. Neste. Prefácio entre outras..USP. entre os estudantes o diálogo foi mais frequente e frutífero com Maria Laura Silveira e (USP). Lia Osório. junto com Maria Adélia Aparecida de Souza. em Paris). Espanha. do tempo e do sistema de objetos e ações. foram-me muito preciosos o apoio e as conversas. como é o caso. ocasião preciosa para troca de informações e de ideias com colegas desses países. não apenas novas questões se levantaram. já que nessas ocasiões não é raro que haja esquecimentos lamentáveis. e junto com a família. também. As biblio tecas da oportunidades. Mas esse trabalho também se fez em São Paulo. Maria Adélia Aparecida de Souza. este livro deve. Ruy Moreira. da técnica. com meu afetuoso amigo Bernard Kayser e também com Jacques Lévy. que várias vezes me emprestaram seu apartamento de Paris. Venezuela. Dias e Maurício Abreu. sentidamente. uma bonita biblioteca de filosofia. a enfrentar uma questão nova e a encontrar uma ordem para as Adriana Bernar-des (que também se incumbiram da preparação da bibliografia e dos índices. proximamente. em sua propriedade de Roquepiquet. sobretudo de Pós-Graduação. Livros e artigos meus publicados antes haviam enfrentado alguns dos problemas de que trata este livro. como em outras oportunidades. fui muito ajudado por Ana Elisa Rodrigues Pereira. Em todos os momentos da produção deste livro. Pierre George. HISTÓRIA DE UM LIVRO tarefa extremamente pesada. e em diversas oportunidades. fui beneficiado pelo acolhimento de amigos como Jean-François Malecot e Hélène Lamicq. como todos os livros. assim como a estágios e visitas que pude empreender a diferentes países como a França. FINEP) constituíram. ser publicado. que me permitiu fazer um estágio nos Estados Unidos e na França. Marcos António de Moraes Xavier. Leila C. editados pela Hucitec. sistematizados e aprofundados. também E realização desta longa pesquisa. MILTON SANTOS Paris. na qual. do Instituto de Geografia da Universidade de Paris e da Maison dês Sciences de FHomme de Paris. em cuja coleção de Geografia da Editora Harmattan.1995 e 1996. economia e literatura. mas também com Mónica Arroyo. em São Paulo. Lídia Lúcia Antongiovanni. uma ajuda insuperável. às pesadas tarefas diárias de um pesquisador e de um professor. à organização. Estes últimos meses foram gastos no difícil trabalho de organiza ção técnica e material do livro. A bem dizer. entre fevereiro e agosto. em 1994. A pesquisa de veu muito aos cursos. A pesquisa muito deveu também. Beneficiei -me. oferecido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Meu filho Milton Santos Filho esteve presente em todas as etapas e à sua memória dedico. O plano original da obra foi muitas vezes refeito durante esse processo. na França. Olivier Dollfus. como temas de nossa preocupação anterior aparecem mais documentados. cada ano. Ricardo Castillo. no de Janeiro (e para Maurício. Argentina. Roberto Lobato Corrêa. da hospitalidade da família Tiercelin. FAPESP. Ajudas materiais diversas proporcionadas em diversas ocasiões. nos fins de semana e nos momentos roubados. de diversas reuniões científicas nacionais e internacionais. Ana Clara Torres Ribeiro. Tal ocasião se repete durante o ano de 1995. ste. Roquepiquet. quando me beneficiei de uma bolsa pós-doutoral da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). como em tantos outros livros meus. por agências nacionais de fomento à pesquisa (CNPq. Armen Mamigonian. além do permanente interesse demonstrado por Georges Benko. contei com o interesse e a dis cussão de meus colegas e alunos. Jacqueline Beau-jeu-Garnier. este livro. longe que estava das rotinas de minhas obrigações cotidianas no Brasil. Remy Knafou. durante a semana. na Dordogne. Entre os colegas estão aqueles que vejo mais frequentemente. Nesse último país. Agora. mantidas em diferentes O processo de redação também foi longo. fo- ram-me valiosos o apoio e a amizade de Flávio George Aderaldo. ocasião em que tive diante de mim a possibilidade de contar com largo tempo livre dedicado exclusivamente à busca de fórmulas para a redação. Minha mulher Marie-Hélène. que utilizava as férias universitárias para o trabalho de redação. junto respectivas exposições. uma contribuição valiosa para a com Paula Borin). assim. que ministrei na Universidade de São Paulo É sempre difícil dizer nomes. trazendo-me. tem uma história: a história de uma pesquisa que durou muitos anos. foram-me de grande ajuda. a história da busca de urna forma para exprimir os resultados alcançados. beneficiado por um estágio-sênior. México. Na França. quando pude permanecer. Fábio Betioli Contei. Ana Fani Alessandri Carlos. na rue Nationale. que me permitiu ampliar as minhas pesquisas mesmo em casa. ë que me obrigaram. e. para atender a um ideal de coerência que espero haver atingido. Estados Unidos.

o corpus de uma disciplina é subordin ado ao objeto e não o contrário. Quanto à interpretação da atualidade." ia pouco a pouco tomando mais corpo. na ausência de uma definição clara de espaço. Quando este faz falta. Na realidade. Mas o que é uma boa descrição? Descrição e explicação são inseparáveis. Falar em objeto sem falar em método pode ser apenas o anúncio de um problema. A ideia de período e de periodização constituí um avanço na busca desta união espaço -tempo. distanciando -nos do ideal de coerência próprio a um dado ramo do ______ INTRODUÇÃO saber e do objeto de pertinência indispensável. que balbuciava pergunta tem recebido respostas as mais dis paratadas. A tarefa se foi avolumando como também foi crescendo a nossa hesitação diante do que deveria realmente ser o seu conteúdo. Mas a moda avassaladora das citações frescas não pode eliminar os debates inspirados em ideias filosóficas cuja lição não é circunstancial. ao mesmo tempo. Desse modo. um ponto de partida para a apresentação de um sistema descritivo e de um sistema interpretativo da geografia. representa um marco considerável. na introdução ao seu Tratado. A primeira tem que ver com o próprio objeto do trabalho do geógrafo. o que inclui toda ação humana sobre o planeta. enunciá-lo. Quando Jean Brunhes publica. Então. o que tanto contribui para identificar a natureza do espaço. atras ando a realização daquele sonho. Daí a ressalva: "aceitarei esta desgraça sem estar demasiadamente afetado. a nossa timidez e as nossas hesitações cresceram ainda mais. frequentemente. após a listagem de um ro - sário de intenções. porque nosso projeto é ainda mais velho. quase um quarto de século. um esforço interpretativo de dentro. mesmo quando é o contrário que se afirma. e a pretexto de liberdade. atravessa. é que. fertilizados reciprocamente por sua associação obrigatória. e a proposta de Hàgerstrand. e isto supõe o domínio do método. pois. a discussão é sobre o espaço e não sobre a geografia. mediante a consideração da inseparabilidade das duas categorias. que supõe a existência prévia de um sistema. que. Um outro tema de nossa insatisfação é a famosa união espaço -tem-po. o seu livro A Geografia Humana.cada vez são peças isoladas. a geografia é o que faz cada qual e assim há tantas geografias quanto geógrafos. com frequência a resposta é buscada numa interminável discussão a respeito do que é geografia. o lugar tem importância. A pesquisa em que se baseia esta obra. Tal sta obra resulta de um velho projeto e envolve uma pesquisa começada há muitos an os. à pergunta "o que é geografia". sobre uma disciplina. se o leitor lhe quiser solicitar sobretudo uma orientação e um método". não substitui o essencial. o que resulta em E que é a discussão sobre seu objeto. a resposta acaba por constituir um exercício de fuga. Temática central é também aquela representada pela expressão an glo-saxônica place counts. Se não pelo que alguns geógrafos afirmam explicitamente. A verdade. fundado num exer cício de análise da história. O período técnico -científico da história humana. e de que resultaram outros trabalhos. O que deve estar no alicerce da descrição é a vontade de explicação. de seus habitantes e das relações destes entre si e das obras resultantes. mostrando aqui e ali seus aspectos centrais. Discorrer. Desse modo. Nossa culpa é dobrada. dizer que "o meu atraso deve-se ao escrúpulo e não à negligência". É indispensável uma preocupação ontológica. do papel do lugar e do espaço no processo social. Havíamos já sustentado esta tese em nosso liv ro de 1978. arrastando com ela as consequências conhecida s neste género de exercício. como para encontrar as categorias de estudo que permitam corretamente analisá-lo. e tornados capazes de utilização sobre a realidade em movimento. 10 9 . nestes tempos acelerados. porém. Mas podemos. mesmo a abundância de exemplos pode ter valor demonstrativo. sem. também. Esta disciplina sempre pretendeu construir -se como uma descrição da terra. o tropel dos eventos desmente verdades estabelecidas e desmancha o saber. porém. sabemos. com ele. ele também se desculpa diante de seu público e do seu edi tor por um atraso de dez anos. Essa tarefa supõe o encontro de conceitos.. quando permite pensar na ordemjíriada pelo tempo. e isto talvez justifique a rapidez com a qual esta temática se esgotou. desde o fim da Segunda Guerra Mundial. o tempo aparece na prática separado do espaço. A essa indagação. quando temia que certas páginas de seu livro pudessem estar envelhecidas antes de impressas. possamos escapar àquele medo de Maximilien Sorre. todavia. mas permitindo apenas lentamente uma apropriação sistemática dos seus fundamentos. A literatura que vem depois revela. tirados da realidade. isto é. em 1914. veio a grande aceleração. um esforço constitucio nal e não adjetivo. A isso também se pode chamar a busca de operacionalidade. ainda que exaustivamente. que. Por uma Geografia Nova. mas pelo que muitos praticam. Com os anos 80. mas não explicativo. raramente permitindo ir além de formulações tautológicas. Mas a questão cons titucional continua sendo uma lacuna. Nosso desejo explícito é a produção de um sistema de ideias que seja. Este livro resulta sobretudo de uma antiga insatisfação do autor diante de um certo número de questões. Talvez por isso mesmo.

levados pelo investigador. e sua presença no enredo se subordina a verdadeiras modelizações qualitativas. no processo comum de conhecimento do real total. dotado de coerência interna e exter na. isto é. o critério da realidade total. e que é o seguinte: a definição de um objeto para uma disciplina e. Partindo de uma outra ponta. Para Georges Gurvitch (1968. aliás. 250). daí esse nome de homúnculos. permaneça integrado nessa realidade total. Ele é visio através de um dado prisma. a própria delimitação e pertinência dessa disciplina p assam pela metadisciplina e não o revés. A coerência interna é obtida através da separação de categorias analíticas que. a geografia sucumbiu às fragilidades do enfoque da pósmoder-nidade. no seu livro Aramis ou 1'amour dês techniques (1992). e se entrega a um exercício cego sem uma explicitação dos procedimentos adotados. liberta do risco das analogias e das metáforas. vistos em sua própria história conjunta. ao espaço. imaginamos poder construir um quadro analítico unitário que permita ultrapassar am biguidades e tautologias. conforme a observação de G. É toda a questão da pertinência que aí se instala. susceptível de mostrar -se autónomo e que. Construir o objeto de uma disciplina e construir sua metadisciplina são operações simultâneas e conjugadas. ou como queria o geógrafo Sauer (1963. para o conjunto de disciplinas. ao mesmo tempo. completado e complemento. da possibilidade da produção de um sistema. O método em ciências sociais acaba por ser a produção de um "dispositivo artificial" onde os atores são o que Schutz (1945. ele. por uma dada disciplina. p. e ao mesmo tempo constitutivos e operacionais. enquanto outros assumem posições secundárias ou são jogados para fora. Como lembra Dominique Lê Court (1974. 157-158) chama de marionetes ou homúnculos. o que une as diversas disciplinas e o que para cada qual. E aqui enfrentamos um outro problema importante. do saber geral. de um objeto e de uma disciplina. Todavia. Uma disciplina é uma parcela autónoma. p. ao mesmo tempo. e de sabermos muito bem.1971. Canguilhem (1955). constituem uma base para a cons trução. a 12 11 . as verdades parciais. isto é. Os conceitos assim destacados devem. por conseguinte. Assim ao mesmo tempo demonstramos sua indispensabilidade e legitimamos o objeto de estudo. o que se busca é uma caracterização precisa e simples do espaço geográfico. Tal comportamento é muito frequente e le vanta a questão da necessidade de construção metódica de um campo coerente de conhecimento.1987. é a partir do espírito de sistema que emergem os conceitos-chave que. p. A partir da noção de espaço como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações podemos reconhecer suas cate gorias analíticas internas. ser internos ao objeto correspondente. cuja versão mais popular é uma abordagem frequentemente adjetival e metafórica. É assim que se transcendem as realidades truncadas. noções e instrumentos de análise apareçam como verdadeiros atores de um romance. aqui a demarche é a oposta: no caso da transcendência. 316). Desse modo estaremos em condições de formular problemas e ao mesmo tempo de ver aparecer conceitos. Cada vez que um geógrafo decide traba lhar sem se preocupar previamente com Uma outra insatisfação nossa vem do tratamento dado pela geogra fia ao período atual. Quem afinal lhes dá vida é o autor. deve garan tir. mas não independ ente. Ora. de algum modo. dentro do conjunto das ciências sociais. desse modo. mas. retirados do processo histórico. p.expulso do sistema central. adequação e pertinência. de fato. longe. p. transcender não é escapar. por outro lado. Externamente tal coerência se apura em relação a outros saberes. o seu objeto. superfícies da vida social. é indispensável que conceitos e instrumentos de análise apareçam dotados de condições de coerência e de operaciona lidade. "não existe um para lelismo rigoroso entre as esferas do real e as ciências que o estudam". O que se torna residual é considerado como "dado" e. por definição. A possibilidade de transcender sem transgredir depende estritamente de sabermos. como uma forma de controle. daí porque são marionetes. p. é que esses conceitos. Como se estivesse demasiado prisioneira de uma moda. dêem conta da respectiva superfície do real. O desafio está em separar da realidade total um campo particular. No caso vertente.128). é como se para ele tudo fossem "dados". mesmo sem a ambição de filosofar ou de teorizar. por sua vez. 1950). Para que o espaço possa aspirar a ser um ente analítico independente. própria a tal fração do saber e. O mundo é um só. qual é o objeto de nossa preocupação. sem regras de consistência. É isso. O brilho literário as comparações nem sempre é sinônimo de enriquecimento conceitual. Mas o texto deve prever a possibilidade de tais bonecos surpreenderem os ventríloquos e alcançarem alguma vida. mediante a possibilidade de o campo respectivo mostrar -se distinto e ser. Entre elas. Mas é melhor que tais domínios de estudo sejam. Não será a ciência. 1987. se aproxima de William James (1890. Através desta ambição de sistematizar. propomos que o espaço seja definido como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações. quando este se refere à realidade de tudo que é concebido. Como ponto de partida. por um lado. a regra da metadisciplina é a própria disciplina. portanto. Nas diversas disciplinas sociais são essas categorias analíticas e es ses instrumentos de análise que constituem a centralidade do método. Para evitar essa transgressão. produzindo uma história inesperada: é assim que fica assegurada a conformidade com a história concreta. 154) "uma forma de contar histórias"? Nesse processo.79) "as metáforas e as analogias devem ser analisadas e referidas ao seu terreno de origem". permitam a produção de instrumentos de análise. al guns atores tomam a frente da cena. Nossa secreta am bição. tal como propôs Neil Postman (1992. os materiais constitutivos são os mesmos. em outras palavras. a exemplo de Bruno Latour. secções da realidade. ao mesmo tempo. A noção de "subuniversos" de James encontra paralelo na ideia de "províncias limitadas de significado". qual é a superfície do real de que estamos tratando ou. estão a paisagem. de Schutz (1945.

Aqui o que passa à frente da cena já não são as noções fundadoras. para apreendermos a constituição atual do espaço e surpreendermos a emergência de conceitos. considerando o espaço como forma -conteúdo. como uma forma -conteúdo. devem refletir a própria ontologia do espaço. como uma forma que não tem existência empírica e filosófica se a consideramos separadamente do conteúdo e um conteúdo que não poderia existir sem a forma que o abrigou. nas condições atuais do mundo. isto é. Partindo da já mencionada inseparabilidade dos objetos e das ações. é o traço dinâmico central da sua ontologia e constitui o capítulo 3. É assim que os lugares se criam. A coerência interna da construção teórica depende do grau de re -presentatividade dos elementos analíticos ante o objeto estuda do. devem esposar o conteúdo existencial. próprios à realidade do espaço geográfico. a ação. Paralelamente. e em sua construção privilegiamos quatro momentos. A ideia de técnica como algo onde o "humano" e o "não-humano" são inseparáveis. com a sucessão interminável de formas-conteúdo. tomados como noções cornfins a toda a História e a todas as disciplinas sociais e sem as quais o en tendimento das categorias analíticas internas seria impossível. em outras palavras. e aí também a técnica tem um papel central. levanta -se a questão dos recortes espaciais. a norma e os eventos. susceptíveis de ajudar a encontrar sua buscada ontologia: a técnica. a noção de intencionalidade é fundamental para entender o processo pelo qual ação e objetos se confundem. Já no segundo capítulo. Esses quatro momentos darão as quatro grandes divisões do livro. consideramos o movimento da produção e da vida derredor de objetos e de ações. unindo 14 13 .nas demais formas de racionalidade. a partir de estruturas internas a ele. com o um todo. No segundo momento. e se recriam e renovam. ao mesmo tempo. as rugosidades e as formas-conteúdo. e o mesmo pode ser dito das ações. A primeira parte. o tempo. intitulada "Uma Ontologia do Espaço: Noções Fundadoras". formando sistema. ao mesmo tempo. A partir de tais premissas. e sejamos guiados. a temporalização e a temporalidade. como inspiradora de um método unitário (afastando dualismos e ambiguidades) e. A coerência externa se dá por intermédio das estruturas exteriores consideradas abrangentes e que definem a sociedade e o planeta. permitindo empiricamente assimilar coerência externa e coerência in terna. O motor desse movimento é a divisão do trabalho (capítulo 5). pelo fenómeno técnico visto filosoficamente. finalmente. mas também nos seus aspectos imateriais. cujo sistema é aberto. seria impossível pretender superar dicotomias tão tenazes na geografia e nas ciências sociais. A produção e reprodução desse híbrido. e cuja dialética. Em outras palavras. conforme sua condição técnica. isto é. junto à questão de uma ordem mundia l e de uma ordem local. a divisão territorial do traba lho. No quarto momento. como garantia da conquista do futuro. O conteúdo geográfico do cotidiano também se inclui entre esses conceitos constitutivos e operacionais. tentamos trabalhar com as noções fundadoras do ser do espaço. as noções acima estabelecidas são revisitadas à luz do presente histórico. E do mesmo passo podemos propor a questão da racionalidade do espaço como conceito histórico atual e fruto. já que a consideramos como existindo dentro de um processo permanente de totalização que é. O estudo dinâmico das categorias internas acima enumeradas su põe o reconhecimento de alguns processos básicos. encarregada a cada cisão da totalidade de transportar aos lugares um novo conteúdo. que se distinguem segundo os diversos graus de intencionalidade e racionalidade. ou. a idealização e a objetivação. quanto as que opõem o natural e o cultural. impõem-se a realidade do meio com seus diversos conteúdos em artifício e a complementaridade entre uma tecnoesfera e uma psicoesfera. um processo de unificação e de fragmentação e individuação. propondo debates de problemas como o da região e o do lugar. o reconhecimento de racionalidades configuração territorial. Sem isso. funcionando como sistemas que marcam as diversas épocas. os símbolos e a ideologia. os objetos. No terceiro momento. mil novo significado e um novo sentido. São os eventos (capítulo 6). Da mesma maneira e com o mesmo ponto de partida. desde que não nos deixemos ofuscar pelas técnicas particulares. em face da racionalidade dominante. repousa na forma hegemónica e concorrentes. o das redes e das escalas. A categoria de totalidade é como uma chave para o entendimento desse movimento (capítulo 4). As técnicas. trata da natureza e do papel das técnicas (capítulo 1) e do movimento da produção e da vida. originariamente externos ao espaço: a técnica. através do movimento permanente de dissolução e de recriação do sentido. Objetos naturais e objetos fabricados pelo homem podem ser anali sados conforme o seu respectivo conteúdo. a cada movimento da sociedade. que é o espaço. No primeiro. o global e o local etc. revela as novas perspectivas da^método e de ação. a intencionalidade. as categorias de análise. este livro deseja ser uma contribuição geográfica à produção de uma teoria social crítica. mas o resultado historicamente obtido. são examinadas através de sua própria história e vistas não apenas no seu aspecto material. isto é. A técnica deve ser vista sob um tríplice aspecto: como reveladora da produção histórica da realidade. autorizando mudanças de perspectiva quanto à evolução espacial e social e aconselhando mudanças na epistemologia da geo grafia e das ciências sociais como um todo. a universalidade e a particula ridade. retomamos a questão ontológica. A segunda parte do livro retoma a questão da ontologia do espaço. A centralidade da técnica reúne as categorias internas e externas. É assim que a noção de técnica permite empiricizar o tempo e se encontra com a noção de meio geográfico. da emergência das redes e do processo de globalização. cuja arquitetura prevê quinze capítulos. O espaço será visto em sua própria existência. materializados nos objetos e ações. o objetivo e o subjetivo. é central. o espaço produzido ou produtivo. a totalidade e totalização. que constituem os vetores dessa metamorfose. através dos objetos e das ações (capítulo 2). em nosso método.

constituem o capítulo 11. todavia. mas de um tempo empiricizado. os espaços da contiguidade (capítulo 12). entre o homem e o meio. Wajcman referem-se a diversas preocupações dos estudos sobre tecnologia. na prática. esse "espaço" de fluxos formado por pontos. por uma ordem local. e apontam caminhos novos e insuspeitados ao pensamento e à ação. Essa parte do livro trata do que estamos chamando aqui de força do lugar. Certamente. Adam Schaff (1990. como os capítulos "outros temas". reconhecidos historiadores da tecnologia. a literatura dos respectivos estudos estaria 16 15 . mas o espaço não é mencionado nem mesmo em um lugar secundário. As técnicas são um conjunto de meios ins trumentais e É sociais. e os problemas e ambiguidades que suscita. É a partir. com os quais o homem rea liza sua vida. Esses dados dinâmicos da história contemporânea permitem retomar uma das discussões centrais do livro. produto da condição contemporânea das técnicas. Mas não dá um lugar específico às mudanças geográficas. mostrando como a marcha do capitalismo.se estabeleceram as condições materiais e políticas que autorizaram a produção de uma inteligência planetária (capítulo 8). dotado de um papel regulador em todas as escalas geográficas. cria espaço. a tão buscada união entre espaço e tempo.Primeira Parte objetos e. Desse modo. Ordem Local". intitulado "Ordem Universal. porém. igualmente. a partir das condições da técnica atual. A mesma ideia inspira o capítulo 15. dado exatamente através desse portador de um acontecer histórico. A realidade das redes. concreto. alinhando quatro tipos de mudanças: económicas. culturais e sociais. desde o primeiro momento. A noção de racionalidade do espaço (capítulo 13) também emerge das condições do mundo contemporâneo. já que se surpreendem evidências da efetividade de contra-racionalidades e de racionalidades parale las. UMAONTOLOGIADO ESPAÇO: NOÇÕES FUNDADORAS I ------------------------ ASTÉCNICAS. ou melhor. A NEGLIGÊNCIA COM AS TÉCNICAS Um inventário dos estudos empreendidos sobre a técnica deixa ver que esse fenómeno é frequentemente analisado como se a técnica não fosse parte do território. D. completamente explorada. Concluindo o seu livro de 1985. Essa forma de ver a técnica não é. Alguns exemplos o mostram. um elemento de sua constituição e da sua transformação. o conhecimento do que constitui o sistema técnico atual (capítulo 7).OTEMPOEO ESPAÇOGEOGRÁFICO INTRODUÇÃO por demais sabido que a principal forma de relação entre o homem e a natureza. políticas. Mackenzie &c J. aparece mais próxima de ser tratada de forma sistemática em geografia. Para Pinch &C Bijker (1987). política e cultural. isto é. 1992) se refere às consequências sociais da revolução técnico-científica. que é sede de um sentido e aponta um destino. . ao mesmo tempo. ele não é o primeiro pensador de grande fôlego a desconsiderar o espaço como urna categoria autónoma do pensar histórico. e de como. pode parecer uma. defrontada e afrontada. é dada pela técnica. produz e. enquanto se renovam ou se recriam horizontalidades. do funcionamento das redes. Não se trata de um tempo sem nome.uma técnica in-formacional . A ordem universal frequentemente apresent ada como irresistível é. conduz. que é o evento. que podemos falar de verticalidades. São esses mesmos dados que levam à caracterização do meio geográfico atual como um meio técnico-científico-informacional (capítulo 10). A terceira parte do livro pretende oferecer uma discussão sobre o tempo presente e as condições atuais de realização e de transformação do espaço. Esse capítulo aponta na direção de uma ruptura epistemológica.-ações. acrescentando o papel das normas (capítulo 9). a que tal racionalidade se instale na própria constituição do território. O capítulo 14 busca mostrar as relações entre o lugar e o cotidiano. sobretudo. isto é. além de ensejar a difusão da racionalidade hegemónica nos diversos aspectos da vida econômica. Mas como ela cuida de perspectivas. que se levantam como realidades ante a racionalidade hegemónica. A quarta parte do livro não foi concebida como uma conclusão. revelando os usos contrastados do mesmo espaço segundo as diversas perspectivas que se abrem aos diferentes atores. social. Enfrentar esta questão supõe. a questão dos objetos e das ações como hoje se verificam. todavia.

pp. críticas posteriores. linhas de eletricidade. nem a geografia regional. encontram-se as rodovias. Be aver (1961) trabalhou a relação entre geografia e tecnologia. apontados por não levarem em conta coisas tais como barragens. Se esse conselho houvesse sido aceito. externo ao espaço. incluindo sociólogos ï cientistas políticos. p. mas fica em aberto a questão propriamente geográfica da ciência e da tecnologia. M.] parece-me que é nas disciplinas mais próximas. tanto à arqueologia. b) etnógrafos (que escrevem a história dos povos "sem história") e c) tecnólogos propriamente ditos. como Lucien Febvre. exceções. 19). com os processos técnicos dos "traços materiais deixados pelas mesmo desapreço é também apontado em relação à economia espa cial por Begag. com frequência. chamaram a atenção de historiadores e de geógrafos. portos. Tal ideia de espaço é metafórica. 64-76). Historiadores da ciência e especialistas da técnica. e depois as rodovias. 70). condutos. ele inclui a organizaçã o do terr cório ("aménagement du territoire"). Mas é raro que um esforço de generalização participe do processo de produ ção de uma teoria e de um método geográficos. aliás. que em sua grande História das Técnicas (B. também.a Tecnomorfologia . 22-23) traça um inventário de setores a estudar e entre os grupos de problemas propostos. que têm no entanto as relações mais diretas com os fatos que lhes interessam" (François Sigaud. Tal crítica. 189). pp. condutos de gaz. não é recente. Daí porque eles podem ser considerados entre os pioneiros da produção de uma geografia vinculada às técnicas. Gille (1981. ante a realidade constitucional do território e ao seu conteúdo em técnica. Claisse ôc Moreau (1990. 1991. 2) História da Tecnologia. é mais ampla.! Jtos e aos objetos da vida corrente. mas não fazem referência aos objetos com que elas trabalham. haja um capítulo sobre "A Geografia e as Técnicas" confiado a André Fel. tiraram partido da noção de progresso técnico na elaboração de suas sínteses. Não é de estranhar. Mauss. dividida em três partes: 1) Estudos sobre as inovações. transformadores. dizendo que "em função das técnicas é que observaremos a base geográfica da vida social: o mar. p. 1 . quando estes frequentemente falam de empresas. No mesmo diapasão. um dos principais seguidores de Durkheim. pois. Esse Mesmo na obra de Barre & Papon (1993). junto à exploração da na - tureza. Olivier Buch -senschultz (1987) lamenta que os arqueólogos raramente se preocupem com os problemas tecnológicos. O exemplo mais típico é talvez o da Geografia. Há. isto é. reatores. ao escreverem que "a economia espacial permanece frequentemente muda a propósito das questões relacionadas com o desenvolvimento da tecnologia das comunicações à distância". 5298). lembrava. Tecnologia. não basta que a tecnologia seja considerada apenas por analogia com outros fenómenos sociais. Por que os geógrafos se interessam por quase tudo. havia proposto a criação de um saber . Denis-Clair Lambert (1979. S. 291-293). um compêndio em que o território ganha uma enorme dimensão. Um dos seus capítulos. 16). 3) Sociologia da embora alinhando algumas exceções. com o qual não aparecem integradas. ao se referir a três grupos de estudiosos que "tomaram consciência" da importância da técnica: a) pré-historiadores e arqueólogos.que se ocuparia do conjunto das relações entre as técnicas e o solo e entre o solo e as técnicas. capaz de identificá-lo e distingui-lo. quando se interessa pelo comércio internacional. 187).. B. Tanto Vidal de La Blache. também se interroga sobre a razão pela qual "os geógrafos evitam tão sistematicamente o estudo das técnicas que estão no centro das relações sociedade -meio"1. à transformação dos pró. Sorre. M. pipe-lines e estocagem de combustíveis líquidos. A preocupação com a técnica aparece mais explícita em livros como o de Philip Wagner (1960). canais. p. e é estranho ver com que tenacidade a maioria dos geógrafos procura explicações em todas as direções. geradores. Joerges (1988. aliás. não abordando de frente essas questões. p. como conteúdo do espaço. Essa crítica. com sua noção de "potências científicas" já havia utilizado a expressão "espaço científico" para significar a densidade ou não da presença de pesquisadores e atividades de pesquisa e produção científica em diversos países. Mauss (1947. até certo ponto. ocupa-se da distribuição espacial de cientistas e de tecnólogos nas diversas áreas e países do mundo. sobretudo entre os geógrafos da escola antiga (Roger Dion. como é o caso de B. publicada na Encyclopédie de Ia Plêiade (Paris). salvo nas atividades técnicas. no seu projeto de pesquisa sobre a "arqueologia industrial". pon tes. a evolução da paisagem. quanto à geografia. o tratamento da questão da ciência e da tecnologia é. a montanha. estradas de ferro. eclusas e edifícios anexos. Essa crítica é compartida por Armand Cuvillier (1973. num dos seus textos da revista UHomme Sociologique. "[. faltando a conceptualização. 4. a laguna". lamentam o fato de que nos estudos históricos a realidade dos sistemas técnicos apareça como um dado entre aspas. podem progredir muito sem que se dê a devida atenção ao papel peculiar do meio artificial na biologia do homem e no esquema da natureza". François Sigaud (1981). que a sociologia de Durkheim não havia atribuído a importância devida ao fenómeno técnico. intitulado "A Geografia da Ciência e da Tecnologia" (pp. As técnicas têm sido. Jules Sion.). a posição dos economistas. Mas eles são exceções.sociedades humanas". aliás. dedicada à economia e à política da ciência e da tecnologia. decerto. onde este geógrafo anglo-saxão declara que "nem a ecologia humana. Mas. Pierre Deffontaines etc. como se não fosse necessário reconhecer que a tecnologia embutida nos objetos constitui matéria central da análise sociológica. tenho -me perguntado há vários anos (1981. a ssim como as construções e urbanismos e. Para Joerges. o rio. logicamente. consideradas em artigos e livros de geógrafos. Outra vez silêncio sobre o espaço. 67-79 e p. H. Esse mesmo autor critica. As estradas de ferro. menos pelas técnicas?. também. Nesse item. pp. p. 18 17 . teriam sido evitadas. 1978). túneis. Esse também é o caso de Albert Demangeon.. sobretudo em estudos empíricos de casos. Gille. da tecnologia que a recusa desta é mais forte.

Pour une géographie humaine. fazem-no para responder a necessidades materiais fundamentais dos homens: alimentar -se. as transformações generalizadas impostas pelo uso da máquina e pela execução dos novos métodos de produção e de existência". 113) referem -se à forma como a sociedade opera no espaço geográfico.] Em todos os casos. todo grupo humano é sustentado por té cnicas que fazem de seus membros seres 'civilizados'. 10). técnica. 1. o primeiro geógrafo a propor. o seu sentido mais amplo. 1948. também. incumbida dessa tarefa7. colocando alguns po vos no topo e outros embaixo de uma planejamento. Por isso ele sugere a criacão de uma disciplina que se poderia chamar de geotécnica. Buttimer (1986. Ela se estende a tudo o que pertence à indústria e à arte humanas. À medida que mudam a tecnologia e as aspirações humanas.. 1974. “Sendo uma civilização uma combinação de técnicas de produção e de enquadramento. 1062-1110) traça um inventário das múltiplas 2 relações entre a técnica e o fato geográfico. pp. D. Os fatos humanos do espaço teriam de ser examinados em função de um conjunto de técnicas. "Introduction" ao tomo II. Fel (1978. que o consideram como uma paisagem e espaço não são sinónimos. no mundo inteiro. p. as técnicas da energia. mesmo se as suas ideias foram objeto de urna larga aceitação em outras disciplinas. . p. 5) . "os geógrafos franceses deram pouca atenção a Sorre: tenderam a vê -lo mais como um geógrafo ortodoxo. pp. 17. 20 19 . Nysten. Se os objetos técnicos ocupam a superfície da Terra. 30-31)5. controle de um grande número de homens sobre uma grande extensão e durante longo tempo. com detalhe. a explicação geográfica se exaure em impasses. somente existe porque ele é membro de um grupo que em si mesmo é um tecido de t écnicas". sobretudo. pp. o nível da civilização seria medido pelo próp rio nível das técnicas 4. Mas Sorre foi pouco seguido pêlos seus colegas geó grafos. Lês fondements techniques. Gourou introduz. Num belo livro. por M. em todos os domínios da atividade humana" (Sorre. 82) distingue a cidade atual da cidade anterior. 30 -31). espaços reservados à circulação) e. esse geógrafo nos mostra quão vasto e apaixonante é o campo que assim se abre à nossa curiosidade. Hoje. "[ . e faltando clareza quanto ao papel das dinâmicas sociais e políticas combinadas. Sorre. trata -se efetivamente de analisar. técnicas de subsistência. Ele estava convencido de que o en tendimento da relação entre mudança técnica e mudança geográfica era fundamental. ci dades enormes" (P. No já mencionado artigo que escreveu sobre a geografia e as técnicas. um critério da mesma ordem será aplicado às técnicas de produção. a consideração do fenómeno técnico. 4 . consideradas segundo a sua potência de ação sobre as paisagens" (P.apreciação quantitativa a priori das civilizações. também. simultaneamente. a noção de "eficácia paisagística" (1973. 1062). As técnicas são estudadas por diversas disciplinas. deslocar-se. na metade do século XIX. mostrando os problemas eventuais ligados ao movimento das coisas e das ideias2. 1974. a cidade "está a caminho de se tornar muito rapidamente. Kolars 8c John D. Segue-se que a propriedade desses sistemas é importante na condução de todas as nossas atividades. O interesse pela técnica também preocupa o geógrafo André Fel. de outro lado. verborrágico e talvez inclinado a confundir ciência com filosofia". "A sociedade opera no espaço geográfico por meio dos sistemas de comunicação e trans porte. rádio. isto é.] Dou a essa palavra. esse fazedor de paisagens. a noção de seu autocrescimento e rápida difusão (1948. técnicas de enquadramento. 1948. É a eficácia paisagista que pe rmite medir o valor explicativo das técnicas de enquadramento. A. de localizar. Roca e sobretudo D.-J. 7 . fazem -no de um ponto de vista do pirâmide cultural inigualitária. lembrando que esta. O interesse não é demonstrar as molas da organização familiar. limitado a aplicações mecânicas. p. p.]. pp. 5). uma referência particular à obra de Maximilien Sorre. em toda sua amplitude. pp. às quais cumpre pedir justifi cações impostas pelo exame das paisagens. As limitações podem ser físicas. Gourou. Quando J. rodear-se de objetos úteis". institucionais e culturais. alojar-se. Gourou. Kolars & J. "Toda paisagem habitada pêlos homens traz a marca de suas técnicas [.. sugerindo. telefone. as técnicas da conquista do espaço e da vida de relações e as técnicas da produção e da transformação das matérias -primas (Sorre. 11-12). publicidade comercial e propaganda política) que podem controlar vastos espaços. em todos os domíni os da atividade da espécie" (M. e não no seu 6 sentido estreito. 6-7). Sua preocupação é exposta em A Técnica: Construções ou Destruições (Pierre George. Para Sorre. carrières. 13). 1973). Em suma. Gourou). a técnica é universal". p. limitado a apli cações mecânicas". Segundo A. minas. pode-se todavia perguntar em qual dos dois reside a eficácia. Como O tema da relação entre a técnica e o espaço é também objeto do interesse de geógrafos como Pierre George. as técnicas da vida social. 1973. As técnicas de enquadramento nos interessam por sua eficácia no modelamento e na transformação das paisagens. Ele divide as técnicas em dois grandes grupos: técnicas da produção e técnicas de enquadramento 3. p.. é para atender às necessidades materiais fundamentais dos homens: alimentar-se. F.. Tomando um aspecto concreto da análise geográfica. Para ele.. A análise geográfica ocupa um lugar em qualquer investigação sobre as civilizações. seria um produto cultural. 6 . cercar-se de objetos úteis. claramente definida em seus objetos e em seus métodos (p. mas precisar o grau de eficácia dessas técnicas: agressividade paisagista. Um outro geógrafo que se deteve longamente sobre a questão da técnica foi Pierre Gourou (1973). P. "A civilização moderna tem um enorme poder de ação paisagista. ou psicológicas. E acrescenta: "a cultura era nacional ou regional. onde lembra que "a influência da técnica sobre o espaço se exerce de duas maneiras e em duas escalas diferentes: a ocupação do solo pelas infra-estruturas das técnicas modernas (fábricas. Gourou. ou o mecanismo da escolha das autoridades políticas. e da mesma forma. em coações exercidas sobre o funcionam ento da sociedade. Cabe. a coação no interior dos sistemas também muda" (John F. 1973. por que conjunto de técnicas de produção (técnicas de exploração da natureza. Pierre George (1974. através dos sistemas de transporte e comunicação. A ideia da técnica como sistema já lhe era presente. então. 1948. E não existem 'selvagens'" (P. de explicar. "essa palavra 'técnica' deve ser considerada no seu sentido mais largo. 1973. a sociedade atinge níveis cada vez maiores de com plexidade pelo uso das hierarquias e pelo manejo especial dos materiais e das mensagens. para quem "o homem. técnicas da matéria) e de enqua dramento (técnicas das relações entre os homens. uma escalados níveis de eficácia deve levar em consideração essas duas ordens técnicas” (P. residir. 17). 66 -67). entre outros. 3 . Dory (1989). "Sem um recurso às técnicas de enquadramento. Para Gourou. numerosas populações." Parte. lembrando que "se os objetos técnicos se instalam na superfície da terra. um produto técnico". ela dispõe de técnicas de exploração muito eficazes (limitadas contudo pelas exigên cias dos homens e pelas condições de funcionamento das máquinas) e de técnicas de enquadramento irresistíveis (transporte. p. Porque a paisagem não é senão um ponto de partida. técnicas de organização do espaço): a existência do mais pequeno grupo exige regras do jogo. que os estudos geográficos levassem em conta. por sua vez. tornando possíveis novas conexões e às vezes fechando todas as velhas rotas. controle de largos espaços durante longo tempo. e não seu sentido estreito. Nysten (1974. p. de responder a uma pergunta que é sempre a mesma: Como os fatos humanos do espaço estudado se justificam? E. p. conceito criticado. "[. Essas paisa gens 'nos fazem perguntas' (P. Gourou. 5 . À medida que o tempo passa. Essa soma de ligações e de técnicas é a civilização. 113). A sua noção de técnica é abrangente. pp. a noção de técnica "estende -se a tudo o que pertence à indústria e à arte. Bruneau (1989). televisão. deslocar-se. Quaisquer limitações ao movimento das coisas e dos pensamentos através dessas hierarquias converte -se.. Mas ele reconhece a ausência de uma verdadeira ciência geográfica das técnicas.

uma matéria e um instrumento de trabalho ou meio de ação sobre a matéria. Bóhnee propõe a noção de Tecnoestrutura. incluídas as técnicas da própria ação. por exemplo. para os fins de nossa análise. Mas é insuficiente para tratar a noção de espaço geográfico. de apenas considerar as chamadas técnicas da produção. formam um conjunto coerente. Esses esquemas são os seguintes (Roca. por um obstáculo independent e dos pesquisadores. entre os requisitos de uma atividade técnica". Ruy Moreira (1995). no qual o ponto forte é o estudo das técnicas a partir dos instrumentos de tra - A atual revolução técnica. A verdade. em relação com o êxito ou o fracasso prováveis. pp. A. 1978. ideia que servirá. 1977. pelo fato da carência de comando dos métodos específicos9. vista como um meio de realizar este ou aquele resultado específico. em diversos livros. 1994. Uma visão assim pode levar a noções como a de espaço agrícola. diz ainda Roca (p. eles quase não abordaram nem a técnica. S. UM MEIO Como trabalhar a questão da técnica de modo a que sirva como base para uma explicação geográfica? Cremos que um primeiro enfo que é considerar a própria técnica como um meio. 'O mundo inteiro está envolvido numa sucessão de revo luções' (P. Para Cresswell. para quem a ordem criada pela técnica inclui o homem em um verdadeiro novo meio natural 10. "No entanto. M. Sorre. 1994. p. portanto. como de H. Essa. mas. p. 9 . é abrangente de todas as manifestações da técnica. concentrarem seus esforços apenas sobre as relações homem/meio ou sociedade/entorno. 22): "será objeto técnico todo objeto susceptível de funcionar. sobretudo no capítulo 14. ou como outros preferem. mais uma vez. dos grandes clássicos aos mais jovens . juntas. ou espaço económico. p. 1987. é evidente que. Tornqvist (1968. conformam. através de um processo de desenvolvimento desigual e combinado. obje -tar a ausência de um estudo de dentro do espaço. p. deixando -nos mais longe ainda da construção adequada de uma epistemologia da geografia que leve em conta o papel do fenómeno técnico na construção do espaço banal. Cohen. Um segundo esquema. a sua introdução sobre "In ovações Técnicas e Espaço". ao seu ver. 1970. se os geógrafos trataram com frequên cia das técnicas. Para citar apenas alguns geógrafos franceses. P. Ele também se pergunta se um grão de trigo ou um exemplar de um jornal podem ser considerados objetos técnicos. como meio o u como resultado. 1973. Cresswell. ELA PRÓPRIA. É o caso. se é considerado o critério do uso possível. p. deve-se constatar que uma verdadeira ciência geográfica das técnicas . A noção de objeto técnico será central nesse e noutro s enfoques. um esforço para enten der o espaço a partir de um enfoque que isola essas novas técnicas daquelas preexistentes. "Como foi sugerido na introdução. as técnicas. pp. espaço industrial (Y.-P. Tal enfoque. quando se trata de técnica em evolução. entre o espaço e o fenómen o técnico. as sociedades que as utilizam e o meio geográfico que as acolhe. "El Espacio y Ia Inno vación Tecnológica" (p. Mas esse esquema. O próprio progresso técnico transforma a geografia. Mas em nenhum caso a difusão dos objetos técnicos se dá uniformemente ou de modo homogéneo. segundo regiões e cidades. constitui uma redução. isto é. foi. assim com suas inter-relações. porém. cujo livro Informatique et Geógraphie. constituindo. Essa heterogeneidade vem da maneira como eles se inserem desigualmente na história e no território. a vaguidade das análises continua sendo um obstáculo com o qual nos chocamos constantemente. É. Não se trata. no dizer de B. p. o fenómeno técnico. não apenas externo a essa realidade social e que permitisse uma interpretação da forma como as novas presenças técnicas vêm agindo e transformando o ter ritório. 1989. de relações entre sociedades onde a técnica não tem o mesmo lugar.atribuindo-o a R. e a técnica. Uma retificação é portanto. Mais ainda. é também mencionado por Roca. Roca (1989. que dá um lugar proeminente à informa ção. p. 51). J. três esquemas bastante distintos. mas a relação. 95). diante de novas técnicas. visto como uma totalidade 8.-J. Joan-Eugeni Sánchez no livro Espado. tem-se dado segundo três enfoques principais. A eficácia do objeto técnico foi bem analisada por M. uma das propostas principais de Jacques Ellul. George. as técnicas e o meio. o discurso dos geógrafos sobre a técnica. 24) se pergunta se todo objeto artificial constitui um objeto técnico. Aqui. 43 -61. George)" (André Fel. Sua adoção pelas sociedades seria função de uma avaliação dos valores técnicos. 17) para exorcizar as ambiguidades do conceito de técnica e de tecnologia nas ciências sociais. 120): um primeiro esquema em torno do conceito de género de vida de Vidal de La Blache.claramente definida em seu objeto e em seus métodos está longe de se ter constituído. talvez. constitui. De -mangeon. 35). a técnica específica . Joerges (1988. que seria o resultado das interrelações essenciais do sistema de objetos técnicos com as estruturas sociais e as estruturas ecológicas. traz um inventário adequado do aparelho informático francês. 8 . enriqueceram sucessivamente um domínio de estudos que insiste em permanecer impreciso. segundo o seu autor. A TÉCNICA. Labasse etc. a propósito das estradas de ferro e. Akhrich (1987. eles estão certos. Isso implicaria ir além da pura informática e obr igaria a ver o conjunto de técnicas.uma geotécnica? . em que. 1990). desde já. com abstração. Um terceiro esquema. P. Esses objetos técnicos estariam sujeitos (Seris. no tempo e no espaço. J. pois. Ver o capítulo II ("La technique comme lieu") de Jacques Ellul. Se é válida a proposta de Seris (1994. Só o fenómeno técnico na sua total abrangência permite alcançar a noção de espaço geográfico. 119). Um esforço considerável nessa direção foi recentemente feito por um geógrafo espanhol. presentes e passadas na conformação do território. Gottman. Vidal de La Blache. do espaço que todas elas. Para P. de G. não tem deixado indiferentes os geógrafos. é que. J. p. p. Gourou. nem o seu papel na sociedade. já utilizado aliás no passado. is to é. aliás. p. Cabe marcar a distinção entre as técnicas particulares examinadas na sua singularidade. 120). Bakis (1984. 1062-1110). 10 . 119). 263-319) e por um geógrafo brasileiro. no dizer de André Fel. Seris (1994. Economia y Sociedad (1991). 22 21 . a um pro cesso similar ao da seleção darwiniana. e cuja interação permite a fabricação de um objeto ou de um produto. mesmo os objetos naturais poderiam ser incluídos entre os objetos técnicos. das estradas de rodagem. 1985. No livro organizado por Pierre Musso (1994). a técnica seria definida como "toda uma série de ações que compreendem um agente. depois. oferece o risco de ver os geógrafos. P. Esse método pode ser útil do ponto de vista dos utilizadores potenciais dessas novas técnicas ou como estratégia de vendas. onde se poderia. espaço banal. Não por falta de pesquisas e de reflexões. que se deve buscar. põe em relação três entidades: a sociedade. Quando geógrafos escrevem que a sociedade opera no espaço geo gráfico por meio dos sistemas de comunicação e transportes. balho. G. 1990) e de Susane Pare (1982). neces sária" (Pierre-Jean Roca. as "técnicas industriais". eles foram limitados e nós também. para quem o objeto técnico vive num "pisca-pisca" incessante entre o "interior" e o "exterior".

É esse fato que autoriza Stiegler (1994) a dizer que esse mecanismo limita o fenómeno da hipertelia do objeto técnico 11. e que hoje estamos propondo considerar como meio técnico-científico-informacional. desde que demos ao termo meio "sua acepção mais larga. com a recusa em ver a técnica integra da ao meio como uma realidade 24 . também. Frades (1992. Segundo Simondon. 6). uma chave para entender.Sem dúvida. Por exemplo.1989. conforme propõe Langdon Winner (1985. 1989. p. p. e que a síntese realizada através do espaço não implica uma harmonia pree stabelecida. em virtude da inteligência do homem e sempre sugere a presença de uma função inventiva de antecipação. 92). incompleta. 67). p. que essa 11 disciplina insistentemente tendeu a ver de maneira dual. no objeto concreto. os "objetos técnicos concretos" são distintos dos "objetos abstratos". 92). de nosso ponto de vista. 52) considera que "o objeto técnico é um ponto de encontro entre dois meios. isto é. construímos cada vez mais objetos com possibilidades funcionais sobredeterminadas. na natureza. Mas se há um senão na proposta de Simondon. quanto mais tecnicizado. como diz J. que sobrevenha nas condições de utilização ou de fabricação" (B. mais ele é imperfeito e. uma só função abstraía. É dessa forma que se cria o que ele vai chamar de meio tecnogeográfico. Akhrich (1987) oferece-nos. ao seu ver. 1994.tudo isso formando sistema -. um meio ao qual se chamou de meio técnico ou maquínico durante dois a três séculos. p. diz ele. ao incluí-los num conjunto coerente onde a contiguidade obriga a agir em conjunto e solidariamente. permitindo desse modo um comando mais eficaz do homem sobre ele. espaço que determina os objetos: o espaço visto como um conjunto de objetos organizados segundo uma lógica e utilizados (acionados) segundo uma lógica. lembra Thierry Gaudin (1978. Nossa pergunta é a seguinte: porque uni -los. a produção e a transformação de um meio geográfico. Stiegler. e "deve ser integrado aos dois. apesar de suas vocações originais. nem nos objetos técnicos já constituídos (1958. exata -mente pelo fato de que tende a reproduzir os dualismos e as ambiguidades da proposta epistemológica tradicional da geografia. É nesse sentido que podemos dizer com Rotenstreich (1985. de muito. quanto mais próximo da natureza é o objeto. De tal modo. Mas cada vez que o objeto está inserido num conjunto de objetos e que a sua operação se inclui num conjunto de operações . típicos das primeiras fases da história humana. é que tal ideia. "em um momento dado as escolhas são limitadas pelo entorno geográfico e social" (p. cada qual. mas da produção de outra coisa. 1994. a partir do fenómeno técnico. ao passo que. O "objeto abstraio". 52) o objeto técnico define ao mesmo tempo os atores e um espaço. sua completa imisção no meio que o acolheu. o espaço é formado de objetos. necessárias à introdução de uma nova técnica. Cada vez se produz uma nova síntese e se cria uma nova unidade. de tal maneira que o objeto técnico aparece como condição de existência de um meio misto. Stiegler. mesmo quando recentemente retomada por Stiegler (1994. o "objeto técnico concreto" acaba por ser mais perfeito que a própria natureza. p. através de uma separação. M. Segundo essa autora (p. Essa proposta de Simondon deveria ajudar -nos na construção de uma noção adequada de meio geográfico. Esses objetos concretos tendem a alcançar uma especialização máxima e'"a obter uma intencionalidade extrema.18). que ultrapassa. 56). 374). assim como. Assim. ao engendrar seu próprio meio. É o É dessa forma que. Essa discussão deve ser aproximada da ideia de Simondon de naturalização do objeto con creto. segundo Simondon. as condições de organização social e geográfica. Ela estava trabalhando sobre a difusão da rede elétrica na Costa do Marfim e avaliando o seu peso na produção de uma solidariedade forçada entre os indivíduos. com George Balandier. "Ao se naturalizar. o meio técnico e o meio geográfico". criadas a partir da introdução de objetos técnicos (no caso a eletricidade em meio subdesenvolvido). 23 . (p. "a técnica adquire uma presença e esposa um meio". por outro lado. a noção de entorno natural" (1991. antes como meio técnico e já agora como mei o técnico-científico- informacional. tendendo a se reunir em uma mesma forma. A hipertelia é uma 'especialização exagerada do objeto técnico' que o desadapta em relação a uma mudança. O que sempre se criou a partir da fusão é um meio geográfico. Conforme observa Usher (1929). E a isso que Simondon vai chamar de meio associado. não se trataria. é formado pela justaposição de componentes que e xercem. mais perfeito. Essa lógica da ins talação das coisas e da realização das ações se confunde com a lógica da história. quando Simondon (p. O que. pai da ideia de objeto técnico concreto. p. a hipertelia do objeto técnico concreto se torna condicionada. um meio que viveu milénios como meio natural ou pré -técnico. Ele é um compromi sso entre os dois" (B. dizemos nós. à qual o espaço assegura a continuidade. este é certamente uma herança da própria posição da geografia diante do seu quinhão da realidade. é irónico. podemos afirmar que cada novo objeto é apropriado de um modo específico pelo espaço preexistente. A noção de hipertelia deve ser creditada a Simondon (1958). que as noções de técnica e de meio são inseparáveis. Para Simondon (1958. o objeto escapa ao fenómeno da hipertelia. não há essa coisa de um meio geográfico de um lado e de um meio técnico do outro. cada qual de suas partes colabora mais intimamente com as outras. É o espaço que redefine os objetos técnicos. todavia. p. 36). cada elemento se integra no todo e à medida que o objeto se torna mais concreto. A pretexto de analisar as redes sociotécnicas. de uma simples adição do meio técnico ao meio natural. 31). é. p. Na realidade. em vez de considerá-los como fundidos ao produzir o meio geográfico? De fato. 58) que a própria his tória se torna um meio (um environment). ainda que ligeira. Os objetos técnicos têm de ser estudados juntament e com o seu entorno. 94). Essa antecipação não se encontra. Podemos dizer. que limita sua indeterminação ao torná-lo dependente de um meio artificial. que é técnico e geográfico ao mesmo tempo. Graças aos progressos da ciência e da técnica. o que ele chama de processo de adaptação -concretização. mas não são os objetos que determinam os objetos. p. p. Esse meio tecnoge -ográfico só é possível. É como se se buscasse renovar a oposição entre um meio natural e um meio técnico. 55).

convivem subsistemas técnicos diferentemente datados. 94). A forma como se combinam sistemas técnicos de diferentes idades vai ter uma consequência sobe as formas de vida possíveis naquela área. de "reverse sa-lient". não é nos E. 1978. Mas o espaço é um misto. quando nos referimos ao papel de "inércia dinâmica" dessas formas herdadas? Há. É a partir disso que os E. um híbrido. passam a estimular. ele está levantando um problema propriamente técnico: o de sua eficácia. Do ponto de vista específico da técnica domi nante. enquanto na análise geográfica não há valores em si. resulta do fator político. numa sábia utilização política da desigualdade tecnológica. Se a técnica fosse um absoluto. Esse ponto. a produção de um clima picológico e intelectual favorável ao processo de descolonização. mediante os conhe cidos pactos coloniais. quando uma parcela progride. Devemos partir do fato de que esses diferentes sis temas técnicos formam uma situação e são uma existência num lugar dado. Essas normas iam da criação de monopólios. paral elamente. uma regulação em circuito fechado. Perrin (1988.A. De tal maneira. 136-140). Quando J. Graças às novas técnicas. p. e se exprime através da realidade do espaço em que se encaixou. todavia. Segundo Joerges (1988).U. a uma geografia humana "integrada ao processo de concretização" (e não a uma geografia física) feita por Stiegler (1994. é dado pelo conjunto da sociedade. sediada em cada metrópole era utilizada para impor normas comerciais rígidas às colónias. Quando os Estados Unidos se sentiram prontos a entrar vantajo samente na competição. Se consideramos o conjunto dos países. Hughes (1980. As rugosidades não podem ser apenas encaradas como heranças físicoterritoriais. As lutas pela independência.. uma outra se atrasa. p. a criação de novos países. um salient é uma protusão resultante da expansão nãohomogênea dos sistemas tecnológicos. de algum modo. mas não de colónias.. estruturas pertencendo a um sistema precedente". 56-76). equivalente à nossa noção de rugosidade? (Santos. decorre dessa contingência histórica. pp. Por exemplo. o que se passou no fim do século passado. A diferença entre 26 25 das técnicas novas foi sempre relativa e sempre incompleta. quando se instala a grande indústria. são descritos e explicados. 26) lembra que "um sistema técnico pode absorver. compreenderam que a primeira tarefa era desmante lar as condições socioeconômicas e sociopolíticas que lhes constituíam um obstáculo. e por meio dos sistemas produtivos correspondentes. reverse salient são anomalias técnicas ou organizacionais que resultam da elaboração desigual ou da evolução desigual de um conjunto e de tal maneira que. e a crise vai dar-se quando os países que dispunham de novas tecnologias. foi possível ao mundo entrar na fase do imperialismo. as ações humanas se realizam.). Não é assim. Os reverse salients são componentes do sistema técnico que se tornou velho. no qual a técnica se torna universal.rugosidades e reverse salient vem. p. Outro enfoque ligado a usa difusão desigual das técnicas permite distinguir entre tudo o que se A NECESSIDADE DE UM ENFOQUE ABRANGENTE passou em data anterior e o período atual. por exemplo. os desequilíbrios produtivos eram compensados pêlos equilíbrios comerciais. a partir desse substrato. A unidade de mando. se existe compatibilidade das técnicas. Vejamos. do caráter quase absoluto do valor em si de uma unitária. 73). Portugal. decorre desse vício fundamental. mesmo as da informação. uma primeira re alidade a não esquecer é a da propagação desigual das técnicas. Mesmo os países responsáveis pêlos maiores avanços tecnológicos jamais apresentaram um quadro de homogeneidade na sua implantação. sugere um importante debate a respeito do processo de difusão das técnicas e de sua implantação seletiva sobre o espaço. pp. para tratar de entender como. uma análise parecida pode ser feita. examinando sob esse aspecto a história dó mundo. pela sedução ou mediante o aberto incentivo à implosão dos impérios. direta ou indiretamente presente em toda parte Ora. que estão as melhores estradas de ferro do mundo. descobrem a necessidade de penetrar nesses circuitos fechados. com frequência. que foi corretamente discutido por Jean-Louis Lespes (1980. seja ele o objeto técnico mais concreto ou mais performante. desmantelam o arcabouço que permitia aos impérios crescer ou subsistir sem uma contribuição . desse sistema imperialista. isto é. e depois. Não seria isso. Holanda. Num mesmo pedaço de território. não seria possível imaginar a permanência. nem os correios americanos se encontram entre os mais velozes. independentemente das desigualdades às vezes gritantes de poder tecnológico das respectivas metrópoles. no mundo como um todo. proposta por Th. também. De um ponto de vista propriamente geográfico a questão se coloca de forma diferente. com os equilíbrios permanentemente recriados pela força de normas rígidas de comércio. com a coexistência entre impérios coloniais (Inglaterra. Esta produz uma crise no interior de cada império.A. O sistema vai durar praticamente um século. até o estabelec imento dos preços e quotas de importação e de exportação. a questão é outra. mas também como heranças socioterritoriais ou sociogeográficas. é a de verificar como os resíduos do passado são um obstáculo à difusão do novo ou juntos encontram a maneira de permitir ações simultâneas. diferenças. Essa possibilidade de funcionamento simultâneo e harmónico desses impérios. através das suas novas tecnologias. mas as possibilidades técnicas disponíveis não foram completamente utilizadas. um meio técnico e um meio geográfico? Mesmo a alusão a um meio humano. durante tanto tempo. Segundo este autor.U. um composto de formas-conteúdo. existência técnica. já que a plena eficácia do sistema técnico está condicionada a uma articulação entre as suas diversas peças. França. vemos que a aceitação No domínio das relações entre técnica e espaço. elementos técnicos provenientes de épocas diversas. neste último caso. Bélgica. que. A noção. O valor de um dado elemento do espaço. segundo níveis os mais diferentes de tecnologia presentes no centro e na periferia.

é significativo. -P. É um equívoco. 90) considera a geografia e a história como condicionantes específicos constran gedores. essa é a razão pela qual es pecialistas de outras disciplinas. sozinha. atribuindo. o que é discu tível. segun do ele. sistematicamente. o império americano do após guerra não tem como base a posse de colónias. aberta a porta para o triunfo de um novo sistema. referências às técnicas do espaço. e. Mas. mas. Leroi-Gourhan e Lewis Mumford. e de um sistema de referências elaborados para entendê -la. na verdade. E o valor relativo só é identificado no interior de um sistema da realidade. perguntar: terão importante e obrigatória de novas tecnologias. em que medi da a noção de espaço pode contribuir à interpretação do fenómeno téc nico.. Sem dúvida. 91). e de "mediação generalizada" (J. Sem dúvida. -P. Aquela "unidade sistemática" que a integra no "todo social" [. por co nseguinte. Uma outra crítica é feita por Henri Lefebvre ( 1949).]". em si mes mo.. p. O exemplo do "espaço do automóvel" dado por Séris (p.o tempo das coisas .-P. que apenas tomaria expressão como um reflexo do ator. da alegoria de Foucault na Arqueologia do Saber.sobre o qual vêm agir outras manifestações do tempo. 50). que a própria geografia tem dificuldade para participar em um debate filosófico e interdisciplinar. do fenómeno geográfico. 102). quando o autor considera que a partir da norma em vigor (p. Não é que esta suprima o espaço e o tempo. então. E está certo. critica o que chama de escola tecnológica. De um modo geral. sem levar dev idamente em conta os quadros sociais onde as técnicas e os instrumentos nasceram e agiram.. há referência à geografia na obra de J. referindo-se ao que intitula de falsos problemas da sociologia do século XIX. que Séris cita. Séris. isto é.. Séris à normalização é típica desse entendimento do espaço. pp. O processo de globalização. quando ele nos convoca para estar bem atentos a fim de conjurar a "ilusão tecnológi ca". em sua fase atual. 9 1) e não mais à geografia. É assim que Lefebvre cáustica aquela visão de Proudhon. senão enquanto essas relações se mantêm [. marmórea. para arrancar os fatos isolados da sua solidão e seu mutismo. e. necessar iamente espaço. Ao nosso ver. Séris (1994. Esta. apenas os altera em sua textura. No seu livro A Vocação Atual da Sociologia. é por falta de uma epistemologia. De que maneira pode a categoria espaço ser útil a esse enquadra mento sistémico da técnica? O filósofo J. 53). que presidiram durante o neolítico a ocupação do solo e a as técnicas do espaço deixado de existir ao longo do tempo? O espaço de Séris presta -se a essa maneira de olvido. p.-P. Mas ele também inclui. como um dado ativo cujo papel nas orientações. Essa visão é inaceitável porque o conteúdo técnico do espaço é. 95. assegura a "continuidade histórica" (Séris. no fenómeno técnico e não nas técnicas. podemos. Ellul & J. seria uma metadisciplina da geografia. mas o controle de um aparelho produtor de ciência e de tecnologia e a associação entre esse aparelho.sedentarização (p. Apenas o espaço não participa da história como um destes "grands socles imobiles et muets". de um lado. Cabe. devido a uma visão estática. quando este supõe "a hipótese de uma história da máquina ou da técnica tomada como um dado independente". escolhas. Estava. verifica -se exatamente sobre um espaço. Georges Gurvitch (1950). G. de um espaço-receptáculo. pois são domesticados e como que anulados. isto é. quando diz que a "técnica é necessariamente história" (p. -P. a técnica é também geografia. 60). é à história como disciplina que ele se dirige (p. o tempo como ação e o tempo como norma. também. embora para este último ele acrescente reservas e matizes. Mas a realidade dos territórios e as contingências do "meio associado" asseguram a impossibilidade da desejada homogeneização. o automóvel particular apenas se concretiza no conjunto das relações técnicas ou das relações tecnicamente estabelecidas no espaço e no tempo [. 1994. de outro lado. Ele escreve: "símbolo da autonomia perfeita. verificar. que se inspire na técnica: na técnica. p. evoluindo e se renovando. dizer que a técnica é. Séris insiste nessa relação entre técnica e história. ações e resultados. Mas quando o problema é menos a constatação pura e simples de um fato ou de uma situação (conjunto de condições) e a questão se desloca para a explicação desse fato (conjunto de conceitos).] e não permanece concreto. renunciam a incluí -los nos seus próprios debates. a técnica é um elemento importante de explicação da sociedade e dos lugares. obrigatoriamente. J. quando ela é considerada como determinante de todas as outras mudanças sociais. Ogburn. um papel predominante aos utensílios. de Taylor a J. Ao contrário dos anteriores. na tecnologia. X) também critica a ênfase dada à tecnologia. o papel do fenómeno técnico na produção e nas transformações do espaço geográfico. teria desejado interpretar a realidade social e o seu movimento a partir exclusivamente dos meios técnicos. gente como Veblen. Todavia. 313). sobre uma área cultural comum). assim.. um conteúdo em tempo . 1994. Culpa de Séris? Culpa dos geógrafos? Preferimos tender para uma resposta negativa à primeira questão e afirmativa à segunda. no entanto. é crescente ao longo da história. ele parece limitar-se a essa aurora da história. Séris (1994. a atividade económica e a atividade militar. até mesmo. Gurvitch inclui entre os que assim pensaram os partidários da tecno cracia. claramente expressa.] (na totalidad e dos recursos em um dado momento da história. O fato de que os geógrafos tenham com frequência desconsiderado a técnica em suas formulações metodológicas ou que a tenham con siderado como um dado externo e não propriamente 28 27 . 95). na verdade. Apenas o valor relativo é valor. não sabendo claramente o que fazem os geógrafos. O que faz falta. p. Se esta não se alçou às condições de considerar a técnica como um dado explicativo maior. mas. mas aí ele está referindo-se às noções de extensão e sucessão. se manifesta de modo indiscutível. e pode também alterá-los em sua duração.. Burnhan. A questão que aqui se coloca é a de saber. Também a referência de J. revela uma von tade de fundar o domínio do mundo na associação entre grandes organizações e uma tecnologia cegamente utilizada. Trata-se. esse mesmo espaço que. por exemplo. a técnica não explica nada. É no espaço que esse papel de "nó de problemas" (p. 84) o tempo e o espaço não contam mais. aliás. Daniel Bell (1976.

AS TÉCNICAS E A EMPIRICIZAÇÃO DO TEMPO O enfoque das técnicas pode tornar-se fundamental quando se trata de enfrentar essa questão escorregadia das relações entre o tempo e o espaço em geografia. cujo entendimento passa pela história da sua produção. Com uma só penada. malgrado alguns firmes avanços. Já vimos que Simondon. Com ela. em sua démarche teórico-empírica. Mas o que seria esse "explícito reconhecimento do tempo" . Harvey (1967. ao menos. 352). mas frequentemente externo à realidade. ao escrever: Do mesmo modo que Marshall considerou a dimensão espacial como relativamente sem importância na formulação do seu sistema económico. Toda situação é uma construção real que admite uma construção lógica. Em revanche. Esses elementos são dados históricos e toda técnica inclui história. Quanto ao problema epis-temológico propriamente dito da geografia. sem dúvida. Resultado: perdeu a geografia. como os registrados recentemente com a chamada geografia do tempo de T. senão propriamente como uma contribuição específica para a produção de uma filosofia das técnicas. Quando Anne Buttimer (1979. conduziu os geógrafos a negligenciar a dimensão temporal . Os medos de E. isto é. ou. A técnica nos ajuda a historicizar. mas. isto é. ou mesmo mais. e não apenas historista e analítico. a técnica é história no momento da sua criação e no de sua instalação e revela o encontro. D. em vez de considerar o meio técnico como uma normal evolução do meio geográfico. políticas. O uso dos objetos através do tempo mostra histórias sucessivas desenroladas no lugar e fora dele. para dar conta dessa associação entre técnica e meio. ou da utilização racional do espaço tempo. onde vão mudando ao longo do tempo. vai ter implicações na maneira como outros especialistas tratam a questão do espaço. ser vista como um estudo de caso para as filosofias da técnica. socioculturais. a maneira como a unidade entre tempo e espaço vai dando-se. ao longo do tempo. 1996) permite construções lógicas. Trata se. o objeti vo correto não é uma geografia preocupada com investimentos. geográficas). toda técnica é história embutida. pode ser entendida através da história das técnicas: uma história geral. p.um defeito de que Sauer firmemente culpa Hartshorne (Sauer. que não permita a produção de aqui delineadas. trabalha. 138) sugere que estes procuram um revide. quando se quei xam de uma ausência frequente no tra balho dos geógrafos: a ausência da ação. um discurso elegante e talvez coerente em si mesmo. até hoje tímida e hesitante quanto a uma clara explicitação do que deva ser o seu objeto. e a propósito da neglicência quanto ao tratamento do assunto. sem se preocuparem eles próprios com a validez de uma geografia construída em um espaço situado fora do tempo. simplesmente. a geografia deve. a produzir uma geografia como ciência histórica. e perdeu a filosofia das técnicas.conceitos operacionais. Escolar. das condições históricas (económicas.o estudo da modernização e da difusão de inovações. pela ausência de um enfoque geográfico paralelo. podemos correr o risco de construir um discurso metafísico da geografia. Cada objeto é utilizado segundo equações de força originadas em diferentes escalas. assim como Isard (1956. 30 29 . visando assegurar eficácia económica à administração dos investimentos. A epistemologia da geografia deve levar isso em conta. Assim pode-se também produzir uma epistemologia geográfica de cunho historicista e genético. atrasando -se a sua própria evolução. mas com todas as formas de existência. 249) observa que "entre as preo cupações centrais para a geografia moderna encontra-se a organização do espaço e do tempo". que permit iram a chegada desses objetos e presidiram à sua operação. 1963. mas testemunha. p. Assim. viu -se levado a propor a noção de meio associado e de meio tecnogeográfico. E conclui: "um explícito reconhecimento do tempo ajudaria os geógrafos a se orientarem sen sível e objetivamente nessa direção interessante". a considerar o espaço como fenómeno histórico a geografizar. de fins normativos. da experiência técnica. em Chor-ley &C Haggett) produzira uma frase acerba. E. p. da mesma forma o 'viés anglo -saxão'. em cada lugar. Mediante um enfoque que leve em consideração e aperfeiçoe as premissas constitucional. A técnica é tempo congelado e revela uma história. 24) o chama. Na reali dade. Através dos objetos. a delimitação de períodos históricos segundo as escalas geográficas. p. O re curso à técnica deve permitir identificar e classificar os elementos que constróem tais situações. desse modo. fruto da marcha da história. uma história local. antes. os geógrafos nem sequer se aperceberam da importância dos achados de Simondon. de privilegiar um enfoque que leve em conta todos os aspectos de uma dada situação. Referindo-se também aos "amigos economistas". ainda. Todavia. 550. p. A epistemologia analítica (M. a ambiguidade do esta tuto epistemológico da geografia. Para esse resultado. uma certa frouxidão conceituai. Quanta gente envolvida! Para Morrill (1965) os geógrafos são gente que critica a "maravilhosa terra sem espaço" dos economistas. Com frequência o que vemos são circunlocuções e tautologias e uma volta ao ponto de origem. Ullmann (1973. o enunciado da inseparabilidade do tempo e do espaço? O tratamento da questão do tempo nos estud os geográficos não é mais um tabu. seu objetivo não é explicitamente uma desco berta da experiência humana total. Soja (1989) são assim espantados. ele passa pelo encontro do caminho adequado para sistematizar as relações da técnica com o "tempo" e com o "espaço". mas que se realizam num lugar. Hãgerstrand.

estudando as formas de utiliza ção do território pêlos diversos agentes. Não era atingido o objetivo de prover. então. As pesquisas de Hagerstrand e da Escola de Lund. Nossa proposta de um tempo espacial (Santos. atual ou potencial". 1980. assim como os estudos sobre modernização de J. com um método.ou totalmente incerto . reconhecer o encontro de um tem po real e de um espaço real. Mas. mas ela o faz assentada no pre sente. um marco nesse esfor ço inicial. p. também assim o problema não se resolve. E. mediante a relativização de um e de outro? Como traduzir em categorias analíticas essa mistura. judiciosamente. há um século. assim como a D. Hagers trand (1973. p. o movimento do tempo e do espaço se dão de modo unitário. propriamente. 57-72. numa total integração. Sua proposta inclui o esforço de mapear os tempos de uma realidade em movimento. de modo a que sejam analisados segundo seus respectivos conteúdos. Em que medida ela pode revelar o que arbitrariamente se chama de passado. A geografia histórica de certo modo desejou inverter esse enunciado. Essa questão. por sua vez. apenas reúne instantes disparatados e distantes da mesma flecha do tempo? Enfrentamos. Quando Amos Haeley (1950. vistos isoladamente ou em conjunto. em vez de mostrar a coerência simultaneamente espacial e temporal de um mesmo momento. 1989. Thrift (1980. Ridell (1970). 1991a) explora a noção de domínios. em sua afirmação de que "toda geografia é geografia histórica. através de uma geografia retrospecti va. 1973. era como se apenas o "tempo" fosse atravessando o "espaço". o espaço e o tempo se tornam coincidentes como espaço -tempo". o difícil problema de discernir. e do próprio discurso de autocrítica de uma geografia igualmente faltosa? Como ultrapassar o enunciado gratuito de um tempo unido ao espaço. o presente. 27) fez um avanço significativo em sua Geografia do Tempo. Também nos incluímos. considerou como fundamental o estudo da inter -relação entre período e lugar. sem dúvida.que possamos mecanicamente transcrever esse raciocínio para uma disciplina histórica como a geografia. continua sendo um pesadelo para os geógrafos. Desde que escreveu que "pedir um registro dos fatos que leve em conta a unificação do tempo e do espaço é pedir muito". entre outros. q uando. um enfoque espaço-temporal? Os estudos consagrados à difusão das inovações e à modernização mostraram -se ricos de respostas quanto à génese dos fenómenos e das formas geográfcas. É certo que Élisée Reclus havia escrito. É menos certo . Sem dúvida. o mais simples e. através da chegada de um novo item. Gould (1970). A fusão do espaço relativo e do tempo relativo que havia inspirado J. Ullmann (1973) ao dizer que o uso do planeta exige a organização do espaço e do tempo. buscando. Não é sempre o caso. porém. 1971) estava baseada num exercício dessa natureza. Hagerstrand (19 85. ainda hoje. válido como p rincípio da física. 320 e E. Soja (1968) e outros são. p. agindo. através do artifício de "congelar" os eventos em padrões gráficos. 133). 4) insistir no fato de que tempo e espaço reciprocamente se substituem. p. que a geografia é a história no espaço e a história é a geografia no tempo. o mais naïf dos enfoques. são muitos a falar na insep arabilidade do tempo e do espaço. Beguin (1992. porque as periodizações nos dão. Quando Parkes ScThrift (1980. ultrapassar essa constatação de ordem geral e obter os recursos analíticos ao tratamento de casos do mundo. do discurso de crítica dos outros especialistas que menosprezam esse enfoque. positivamente. em um dado momento (Santos. Na esteira de Einstein. Para dizer que há um padrão temporal em todos e cada qual dos padrões espaciais. 279) diziam que "como movi mento. p. Como. as relações do "espaço" e do "tempo" com a sociedade. a partir do momento em que é escrita. 128). 6) que não podemos traçar uma linha divisória entre a geografia e a história "porque o processo do devir é um só?" E Darby talvez não obtivesse o acordo dos geógrafos históricos. passando mas não se misturando ao lugar. direta ou indiretamente. milionariamente repelida. Em uma geografia do movimento. essa fusão do tempo e do espaço. 2) permite a E. fazer uma geografia no tempo. certa mente.específicos? Uma primeira resposta é obtida com a construção não apenas de uma periodização à escala Como ir além do discurso que prega a necessidade de tratar parale lamente o tempo e o espaço. origem nesse debate. Por isso. a um determinado lugar. p. Bailly &t H. mas separadamente. A geografia histórica também se preocupou com a questão das periodizações. a cada sistema temporal o espaço muda. a cada momento. isto é. reconstruindo as geografias do passado. Smith (1965. isso é. P. Mas de que serve dizer como Darby (1953. A geografia histórica pretende retraçar o passado. Mais recentemente. 73- 84). numa determinada data. Mas. ela própria. E a maior parte das questões que atualmente enfrentamos tem. num dado ponto do passado. jamais se pretendeu um guia de método. mas em que medida será. T. 1972). como sugerido por E. não é difícil manifestar noss a concordância (citado em Parkes & Thrift. certamente. mas apenas um tempo externo a cada subespaço. espera -se. mas com a elaboração de outras periodizações a escalas menores. p. Ullmann. 32 31 . sobre escalas espaciais mais inferiores. A rejeição da noção de espaço absoluto e a aceitação da ideia de espaço relativo se amplia. aqui. mas essa frase. Os anos 60 e 70 marcaram um progresso considerável quanto à busca de explicações geográficas incluindo a noção do tempo. onde. Blaut (1961. em primeiro lugar. a solução de analisar. p. faltando resolver a questão do seu tempo interno. Mas a premissa que o leva a essa afirmação exige mais do que ficar simplesmente de acordo. entre os que consideravam que a periodização histórica poderia ser o instru mento adequado para enfrentar o tratamento do espaço em termos de tempo. p. de que resulta uma verdadeira compartimentação. que faz com que o espaço seja também o tempo e vice -versa? A reafirmação das relações entre a geografia e a história é. 288) escreve que somente podemos separar espaço e tempo em abstração. Ullmann (1973). A. o que. T. pp. mediante objetos e ações. Essa unidade espaço-tempo obriga a tratá-los em termos de processo histórico. Minkowski e tantos outros. como o fizeram. constitui um avanço. era. Parkes & N. C. um tempo.

O espaço distância é também modulado pelas técnicas que comandam a tipologia e a funcionalidade dos deslocamentos. tornando-o material. Assim. Folha de S. de ser medido em termos de tempo. tanto por sua existência física. E. é. Harnecker). nos querem fazer crer" (Karl H.. para o lazer e como condição de "vive r bem". Ambos são outra coisa que não manifestações físicas ou biológicas de uma função material ou de um ritmo orgânico. p. 1988. Como meio operacional. como pelo seu imaginário. se pretendemos que possam ser mutuamente includentes. Em qualquer momento. ou como realidade percebida. nota 3). pois. É por intermédio das técnicas que o homem. qu e devem ser mutuamente conversíveis. Segundo K. L Watkin. 6). desta ou daquela forma. realiza e ssa união entre espaço e tempo. 15 . Se queremos unificar tempo e espaço. A técnica é.159-160. o tempo deve ser. Ullmann (1973. para a comunicação. isto é. Uma outra abordagem desse problema da empiricização do tempo é encontrada em M. um componente d e materialidade donde lhe vem uma parte de sua concretude e empiricidade. com que instrumentos de trabalho". G. o que há são invasões recíprocas entre o operacional e o percebido. sempre. 49 em Gras. 132. 126) afirma que o espaço é "uma dimensão mais concreta do que o tempo". citado por Maria Sylvia de Carvalho Franco. p. fortemente entrelaçados. e M. se a nossa preocupação epistemológica é totalizadora. "António Cândido Revela o Universo Caipira". toda técnica esconde.] sendo baseado no movi mento. para a circulação. p. 13 . com toda a evidência. de outro lado. espaço e mundo são realidades históricas. que marca as sensações diante da velocidade. inseparável da matéria corpórea". sendo irreversível. 31-35. p. para a residência. necessitamos primeiro de uma definição de ambas essas categorias. Tempo. Ao longo da história. 21) propôs reconhecer a existência paralela de um esp aço usado (como material que se consome) e percebido (como mercadoria que se compra). citado por E. 71. E. Ela poderia. Scardigli). como o espaço. solidária com as características de cada época. Caderno Letras. O es paço se incorpora à sociedade por meio do trabalho. as técnicas se dão como sistemas. a distância supõe a extensão. a materialidade e suas diversas formas. Mas o mesmo espaço pode ser visto como o terreno das operações individuais e coletivas.. a possibilidade de uma qualificação precisa da materialidade sobre a qual as sociedades humanas traba lham. metamorfoseando-se um no outro. As relações entre a técnica e o tempo estão em geral muito mais emaranhadas do que as análises mais correntes. Através do processo da produção. temos de igualar espaço e tempo. "o que distingue as épocas económicas umas das outras.As técnicas são datadas e incluem tempo. 50). p. A técnica entra aqui como um traço de união. neste ou naquele ritmo. Nos já historicamente determinado de técnicas. p. o processo produtivo direto é adequado ao lugar.] fazendo com que o mundo possa ser percebido como atividade sensível total e viva dos indivíduos" (António Cândido. Paulo. Joerges. Santos. edição de M. o tempo e seu uso. "Técnicas e tempo estão. o ponto de partida é a sociedade humana em processo. Tudo isso é tempo. o "espaço" torna o "tempo" concreto. Ambos estão fortemente mesclados à modelação de fenómenos e de processos sociais sempre novos. Segun do uma frase muito frequentemente citada de Marx (Capital. Na real idade. Horning (1992. Está aqui toda a diferença entre o medida do tempo: o tempo do processo direto de trabalho. também. Segundo Jacques Maritain (Theonas. O trabalho realizado em cada épo ca supõe um conjunto .. também. para o exercício da política. 1980) 14. 13 O espaço é formado de objetos técnicos. Fischer (1980. pp. N. Fischer. 1978. Então. dão -nos a possibilidade de empirici zação do tempo e. diferentemente caracterizadas. esse elemento unitário. G. Broek & Webb (1968. As técnicas participam na produção da percepção do espaço. Mas se queremos ir além do discurso e operacionalizá-lo para que se torne um conceito eficaz. essa empiricização pode ser a base de uma sistematização. Ambos têm a técnica como origem e por essa via nossa avaliação acaba por ser uma síntese entre o objetivo e o subjetivo. 30) distinguem. a circulação é adequada à extensão.. um dado constitutivo do espaço e do tempo operacionais e do espaço e do tempo percebidos (Broek & Webb. 23/6/90. e desse modo o assimilamos ao espaço. um meio operacional e um meio cognitivo (cognized). 1950. o tempo da divisão territorial do trabalho e o tempo da cooperação. empiricizado. As técnicas são uma discurso e o método do tempo em geografia. p. "De fato. . capaz de assegurar a "equivalência" tempo-espaço. uma teoria do tempo vimos. vice -versa. 48. Os Parceiros do Rio Bonito. tanto ou mais do que no estudo dos modos de produção. assim. de um lado. no entanto. que a técnica pode ser fundamento de uma teoria do espaço. pp. as ações e suas diversas feições. Essa realização se dá sobre uma base material: o espaço e seu uso. para o exercício das crenças. Horning. não é o que se faz. ser essa buscada referência comum. um valor histórico e 12 14 . Esse imaginário tem uma forte base empírica. está à altura de "medir" o tempo e. isto é. através dessas duas manifestações no uso do tempo. p. 34 33 . 1968. Esta noção tem. no trabalho. Essas duas manifestações do espaço geográfico unem-se. O espaço do traba lho contém técnicas que nele permanecem como autorizações para fazer isto ou aquilo. tratá -los segundo parâmetros comparáveis. pois. que as reduzem a relações de causa e efeito. e tam bém da percepção do tempo. As técnicas. que o transforma sem cessar e o define [. 1992. o desenvolvimento do tempo como duração social incorpora o espaço à história dos grupos e evidencia os diferentes aspectos da solidariedade entre ambos. O trabalho supõe o lugar. Assim empiricizamos o tempo 12. O problema está todo aí. p. no entorno. O espaço se impõe através das condições que ele oferece para a produção. N. o tempo da circulação. Santos. assim. segundo esta ou outra sucessão. presta -se a uma avaliação objetiva e como meio percebido está subordinado a uma avaliação subjetiva. qualitat ivamente e quantitativamente. em todas as circunstâncias. O espaço tem. A questão da medida recíproca pode ser vista como uma maneira de dizer que tempo e espaço são uma só coisa. a noção de trabalho15 e a de instrumento de trabalho são muito importantes na explicação geográfica. Não se trata propriamente de apurar qual dos dois é mais concreto. I. realizando -se. que não existe sem a materialidade. mas como se faz. historicamente e epistemologica mente. "o tempo verdadeiro [. de algum forma.

de tal modo que o efeito de idade de uma delas é sempre condicionado pelo das outras. portanto. da história. Desde o início dos tempos históricos. 1945). E o capitalismo vai contribuir para a aceleração do processo que leva à internacionalização das técnicas. por ordem do rei de Portugal. é possível identificar o momento de sua origem. essas "técnicas industria is". A cada lugar geográfico concreto corresponde. E. mas não propriamente uma técnica 16. A observação da incidência local dos processos naturais lhes permite datar áreas inteiras. do ponto de vista técnico. incluindo as técnicas da vida. Para muitos autores. do controle. Por isso. Esse fato já foi amplamente analisado. o que há é talvez um objeto. isto é. A história universal seria. Na realidade. Sem o sopro vital da sociedade que a utiliza. será possível encontrar um método de observação que produza idêntico resultado? Pode a técnica exercer. da políti ca e. exatamente. sobretudo. neste fim de século. integrando-as num conjunto de vida. Por exemplo. a data em que. que deixam perceber a natureza das diversas camadas. Mas isso pode ter apenas importância para a história da ciência. como no que toca às técnicas domésticas. antes mesmo de desembocar. Há uma idade científica das técnicas. daí por diante. São todas essas técnicas. não pode ser confundida com a relatividade de sua existência histórica.. são manejadas por grupos sociais portadores de técnicas socioculturais diversas e se dão sobre um território que. ao lado dessa idade científica. uma história absoluta das técnicas e. Esta seria a história contada a partir do momento de sua instalação em um determinado ponto do ecúmeno. A tendência universalizante dos primórdios da his tória humana permitia criar. 36 35 . uma máquina. as técnicas aparecem como algo absoluto e abstrato. Esta é sua data de nascimento jurídico e. em sua constituição material. apesar de sua empiricidade. também. Já o processo iniciado com o capitalismo e hoje plenamente afirmado com a globalização. de transporte. uma técnica é uma virtualidade em estado puro. mas como fato. num labora tório. permite existe quando utilizada. em sua globalização: a universalidade das técnicas não mais como tendência. Diante das paisagens elaboradas pelo homem. aguardando a sua historicização. Esta somen te Pode-se falar em "idade" de um lugar? A propósito desta ou daquela cidade nascida com a colonização é frequente ler que foi fundada em tal ou tal ano. um conjunto de técnicas e de instrumentos de trabalho. será possível um critério propriamente "geográfico"? Os geomorfólogos o fazem. uma virtualidade máxima. ele próprio. sua espessura e a ordem de sua su perposição. mesmo.). por intermé dio das técnicas: técnicas da produção. segundo as respectivas formas de produção. É o lugar que atribui às técnicas o princípio de realidade histórica. é diverso. soluções técnicas próprias mas convergentes. Tomada isoladamente. 16 . a máqui na. somente existe técnica quando o instrumento de trabalho. técnicas da sociabilidade e da subjetividade. Cada técnica pode. ter sua história particular de um ponto de vista mundial. algo muito mais do domínio da cronologia que. Será possível falar da idade de um lugar segundo outro critério? Por exemplo. Ela é também possível à escala de um país.. do dinheiro. A autonomia de existência do objeto técnico. não há técnicas isoladas. num determinado lugar. relativizando o seu uso. De um ponto de vista propriamente histórico é esta a data que conta: é aí que se estabelece a certidão de batismo universal da nova técnica. a realidade que vem de sua s capacidades funcionais absolutas. ao considerarmos o território nacional como um conjunto de lugares. mas não havia simultaneidade em sua aparição. nacional ou local. do transporte. é aqui que a técnica deixa de ser ciência para ser propriamente técnica. técnicas agríc olas. Vistas desse modo. seria acreditar no caráter absoluto das técnicas. Essa datação é tanto possível à escala de um lugar. em diversos lugares. comércio ou marketing. tanto que se refere aos grandes sistemas técnicos. elas são concebidas. nem o seu surgimento em um dado ponto da superfície da terra acarretava obriga toriamente repercussões em outros lugares. a data em que. a cidade de Salvador da Bahia "foi fundada" em 1549 por Tomé de Sousa.falar em uma idade universal das técnicas. O que há num determinado lugar é a operação simultânea de várias técnicas. na história concreta. retiran do-as de sua abstração empírica e lhes atribuindo efetivi dade histórica. espacial. quanto a escala do mundo. As técnicas são um fenómeno histórico. segundo a disposição das camadas que revelam as fases da história natural. Essa observação é frequentemente ajudada pela abertura de cort es. uma das características da técnica é ser universal como tendência (Leroi-Gourhan. desse modo. Daí o império das condições sociais sobre o processo de difusão das inovações. sua data cívica de aniversário. Essas técnicas particulares. da comunicação. o modelo de organização se inserem numa sociedade e se instalam num lugar. que nos dão a estrutura de um lugar. isto é. idade que pode ser contada a partir do momento em que surgem determinada. Ceder a uma interpretação puramente "histórica" das técnicas. industriais. técnicas que são diferentes segundo os pro dutos e qualitativamente diferentes para um mesmo produto. E. como se cada qual se definisse em si mesma. em cada momento. em rel ação à geografia. há uma idade A IDADE DE UM LUGAR propriamente histórica. um papel semelhante ao dos cortes geológicos e geomorfológicos? A materialidade artificial pode ser datada. resultado de uma combinação específica que também é historicamente (cada uma dessas técnicas. essa téc nica se incorpora à vida de uma sociedade. por exemplo. a partir das histórias particulares de cada técnica em cada lugar.

mais rápidos. O que há de original nessa démarche é que o leitor acompanha o processo de pensamento do autor. Tente mos. expressam a realidade geográfica e é desse modo que conjuntamente aparecem como um objeto possível para a geografia. mais numerosos. ------------------------ O ESPAÇO:SISTEMAS DE OBJETOS. só que hoje os fixos são cada vez mais artificiais e mais fixados ao solo. de outro. aqui. ele a considera insatisfatória. sobretudo nos países subdesenvolvidos. onde a história da produção é intimamente ligada à criação. dissemos que a geografia poderia ser construída a partir da consideração do espaço como um conjunto de fixos e fluxos (Santos. mas quanto ao espaço geográfico. permitem ações que modificam o próprio lugar. Essa situação relativa é resultado não apenas da produção local. fixados em cada lugar. de novas formas de produzir. Jean Brunhes propõe uma definição da geografia. modificando a sua significação e o seu valor. 1988). A configuração territorial. uma certa quantid ade e qualidade de mão-de-obra. Após redigir N uma primeira tentativa. esse tempo espacial (Santos. Cada objeto ou ação que se instala se insere num tecido preexistente e seu valor real é encontrado no funcionamento concreto do conjunto. É dessa maneira que se constitui uma espécie de tempo do lugar. Os elementos fixos. SISTEMAS DE AÇÃO INTRODUÇÃO o início do século. 75-85). 1988. e envolve lugares próximos. 1982. tem. afinal. Fixos e fluxos juntos. Mais uma vez. em seu livro clássico. já que sua realidade vem de sua materialidade. graças ao alargamen to dos contextos tornado possível com os progressos nos transportes e nas comunicações e com a estandardização da produção. interagindo. as possibilidades de expansão ou de estancamento diferem para cada lugar. enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima. já vimos. a idade dos instrumentos de trabalho tem implicações com o resto da economia (em virtude das possibilidades concretas de relações) e com o emprego (em virtude da possibilidade concreta de postos de trabalho). os fluxos são cada vez mais diversos. todos os obje tos e ações vêem modificada sua significação absoluta (ou tendencial) e ganham uma significação relativa. Foi assim em todos os tempos. e também longínquos. Os respectivos "tempos" das técnicas "industriais" e sociais presentes se cruzam. também. Daí uma segunda proposta e. e redefinem cada lugar. A idade das variáveis presentes em cada lugar acaba sendo medida com referência a fatores internos e externos. uma terceira. Santos. La GéographieHumaine. 53. se intrometem e acomodam. Numa primeira hipótese de trabalho. Tomemos como exemplo um instrumento de trabalho. as etapas consecutivas do aperfeiçoamento de s ua construção intelectual e o resultado final. a configuração territorial e. mas do que é produzido no conjunto de lugares de um espaço dado. nos países do centro. diferente daquela do momento anterior e impossível em outro lugar. não mais em relação à geografia. Como essas relações presidem à hierarquia entre lugares produtivos. uma certa quantidade de energia. uma existência material 38 37 . p. ou configuração geográfica. fluxos novos ou renovados que recriam as condições ambientais e as condições sociais. Uma outra possibilidade é a de trabalhar com um outro par de categorias: de um lado. uma fábrica: suas características técnicas induzem certo desempenho em função da utilização de um certo capital de giro. o mesmo exercício. A configuração territorial não é o espaço. ao mesmo tempo em que. Assim. redefinem as técnicas. provisoriamente verdadeira. pp. pois. mediante um exercício de aproximações sucessivas. que é sua definição da geografia.2 Os lugares. A configuração territorial é dada pelo conjunto formado pêlos sistemas naturais existentes em um dado país ou numa dada área e pêlos acréscimos que os homens superimpuseram a esses sistemas naturais. as re lações sociais (Santos. se modificam (Santos. Os fluxos são um resultado direto ou indireto das ações e atravessam ou se instalam nos fixos. 1971) que é o outro do espaço. mais amplos. Sua presença também modifica os valores preexistentes. 1978).

Henri Focillon diz que as coisas . como processo e como resultado. mas a partir de categorias susceptíveis de um tratamento analítico que. Sistemas de objetos e sistemas de açõ es interagem. 15). plantações. estas sendo o produto de uma elaboração natural. teríamos um sistema de objetos sinónimo de um conjunto de forças produtivas e um sistema de ações que nos dariam um conjunto das relações sociais de produção. Nem tampouco se trata de reviver a proposta de Berry & Marble (1968) fundada na teoria de sistemas então em moda e segundo a qual "todo espaço consiste em um conjunto de objetos. um carro são objetos artificiais. É assim que o espaço encontra a sua dinâmica e se transforma. Depois de dizer que "a diferença entre objetos artificiais e naturais parece imediata e não -ambígua a todos nós [. po voado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade. os sistemas de objetos condicionam a forma como se dão as ações e. O espaço é formado por um conjunto indissociável. p. terem sido moldados pelo jogo das forças físicas. p. as chamadas forças produtivas são. uma é cada vez mais a outra. p. de um lado objetos naturais e de outro lado artefatos. Mas depois 18 ele nos pede que analisemos essas ideias para 17 . Isto é. de sistemas de objetos e sistemas de ações. relações de produção. solidário e também contraditório. artefatos. isto é..o desenvolvimento das relações de produção conduz ao desenvolvimento das forças produtivas e. assim como estamos propondo. "A diferença entre objetos artificiais e naturais parece imediata e não -ambígua a todos nós. as coisas não podem ter propósito nem projeto. A história é totalmente outra no caso do rio ou da rocha que sabemos. porém. através de suas características próprias. Primeiro ele nos diz que "a diferença entre objetos naturais e artificiais aparece sem ambigu idade para todos nós" 17. também. nem de sistemas de ações tomados separadamente. formada por objetos naturais.. Não se trata de sistemas de objetos. 15) tem uma opinião reservada sobre essa classificação. No começo era a natureza selvagem. Nossa proposta atual de definição da geografia considera que a essa disciplina cabe estudar o conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ação que formam o espaço. um automóvel. e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lug ar e a seus habitantes. própria. isto é. mas como o quadro único no qual a história se dá. a um só tempo. não nos permitem o conhecimento. De um lado. Neste caso. É assim que às "rochas. As coisas seriam um dom da natureza e os objetos um resultado do trabalho. SISTEMAS DE OBJETOS Há quem distinga os objetos das coisas. Cria-se uma configuração territorial que é cada vez mais o resultado de uma produção histórica e t ende a uma negação da natureza natural.]". fazendas modernas. permite. estradas de ferro. O espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais. substituindo -a por uma natureza inteiramente humanizada. que o desenvolvimento das forças produtivas conduz ao desen volvimento das relações de produção. Jacques Monod (1974. que a natureza é objetiva e não projetiva" (Jacques Monod. essas duas categorias clássicas as mais das vezes aparecem confundidas. Uma rocha. Como a natureza é objetiva e não prospectiva. de um lado. nenhum projeto ou propósito. mecanizados e. a configuração territorial é dada pelas obras dos homens: estradas. Através da presença desses objetos técnicos: hidroelétricas. ou nisso acreditamos. 1981. 40 39 . Hoje. um enfoque no estudo do espaço que apenas deseje partir dessa famosa dialética das forças de produção e das relações de produção não pode levar a nenhum a clareza metodológica. Desse modo. fábricas. À medida que a história vai fazen do-se. 1971. A interdependência entre forças produtivas e relações de produção se amplia. casas. 4). o sistema de ações leva à criação de objetos novos ou se realiza sobre objetos preexistentes. rios e nuvens". suas influências são cada vez mais recíprocas. p. Isto é simples demais. portos. estradas de rodagem. 18 . que ao longo da história vão sendo substituídos por objetos fabricados. de outro lado. mas sua existência social. somente lhe é dada pelo fato das relações revés.são obras de Deus. sua existência re al. portos. cidades. 197 4. e se verá que eles não são nem imediatos nem estritamente objetivos" (Jacques Monod.. Conside rar o espaço como esse conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Os objetos não têm realidade filosófica. e sua forma é explicada pelo desempenho que dele se espera mesmo antes de ele assumir sua configuração. relações de produção. uma define a outra cada vez mais. dê conta da multiplicidade e da diversidade de situações e de processos. já que. o espaço é marca do por esses acréscimos. uma montanha. Mas vale a pena lembrar que a in terpretação simplória da relação dialética entre forças produtivas e relações de produção há muito tempo deixou de ter vigência plena. É indispensável encontrar outros pontos de partida. de outro lado.] O objeto traduz na forma material a intenção preexistente que lhe deu origem. Os siste mas de ações também não se dão sem os sistemas de objetos. As forças produtivas são relações de produção. depo is. se aceitarmos a premissa básica do método científico. ao sociais. um lenço. não considerados isoladamente. enquanto os objetos seriam o produto de uma elaboração social. deixam de ser analiticamente válidas. trabalhar o resultado conjunto dessa interação. No seu famoso livro Vie dês Formes (1943. uma faca. E No começo da história do homem. a que não podemos atribuir nenhum desígnio. Beaujeu-Garnier. forças produtivas e. Copiando de forma simplória o que está escrito por Marx. que lhe dão um conteúdo extremamente técnico. enquanto os objetos . 1974.formas artificiais - são obras dos homens. cidades etc. objetos técnicos. e se tornou irrelevante afirmar que vice-versa. p. ele afirma: "Analisem-se esses juízos. cibernéticos. se os vemos separados dos sistemas de ações. fazendo com que a natureza artificial tenda a funcionar como uma máquina. montanhas. nas condições históricas atuais.. a saber. fábricas. Esta é uma outra forma de apreender o objeto da geografia.formas naturais . [. depósitos. ele opõe "uma faca. um rio ou uma nuvem são objetos naturais. verdadeiras próteses. É insuficiente dizer que há. 15). um lenço. a configuração territorial é simplesmente o conjunto dos complexos naturais. 93). os caracteres desses objetos e suas inter -relações" (citados por J. as relações de produção são forças produtivas.

seriam objetos pois "o objeto é algo independente e móvel". isto é. p. que julgamos da 'naturalidade' ou 'artificialidade' de um dado objeto. Leroi-Gourhan reconheceu. o objeto é independente do sujeito que conhece. de M. também. Hewitt 6c F. p. nem estritamente objetivos. mas que. tudo eram coisas. Ilusão ou certeza. é apenas relativa- mente verdadeira: se o objeto realmente precedesse nosso pensamento. o automóvel fortalece no seu possuidor a ideia de liberdade do movimento. para lembrar que. um objeto é "um elemento do mundo exterior. 62) se desvia da definição de Moles. O objeto tem existência porque se comporta em relação à consciência de maneira a poder ser constatado. porém. 196). um ar de família entre utensílios fundamentais. pela qual se distingue de outros objetos. um porto. O automóvel é um elemento do guarda-roupa. Madrid. August Messer. como produtores de artefatos -. "Por isso é mediante a referência à nossa própria atividade. como falo. dando-lhe o sentimento de ganhar tempo. para quem um objeto é tudo aquilo a que se pode dirigir a nossa consciência20. O fato simples de reconhecer e nomear um objeto supõe um aprendizado. enquanto hoje tudo tende a ser objeto. uma quase-vestimenta. intencio nal e propositiva . 'Objeto' não quer já só dizer o que existindo na 'natureza' precede o nosso pensamento e como tal apenas por este pode ser recontituído. Baudrillard (1973. Objeto seria aquilo que o homem utiliza em sua vida cotidiana. Vilhena. 196). falamos de tal coisa e sabemos que é diferente de tal outra. de n ão perder um minuto. explícito ou implícito. Mas os objetos assim criados não se restringem ao lugar da criação. contra os objetos naturais. é a partir do nome que produzimos o pensamento e não o contrário. Os ho mens 19 realidade vivida. ge - rando objetos semelhantes (K. O indivíduo se defronta com essa objetividade que lhe é exterior. de M. O automóvel é. p. estão ao alcance da mão. lembra uma opinião do filósofo Messer. Ele tem. A história esta cheia desses casos. do mesmo modo que os outros utensílios. 15). ironicamente. X. e cada vez mais. Segundo ele. mas o automóvel é. com a 20 . 196. 16) objetividade dos critérios escolhidos. As cidades não seriam hoje o que elas são se o automóvel não existisse. é o próprio movimento ecológico que completa o processo de desnatu ralização da natureza. Nesse capítulo primeiro de sua obra. "Por 'objeto' é de uso entender-se o que. quando utilizadas pêlos homens a partir de um conjunto de intenções sociais. . incluindo a redefi nição da sociedade e do espaço. 1901. Para Vilhena. resultantes do jogo gratuito das forças físicas? Para se estar certo da completa (p. Por isso mesmo. consciente e projetiva. Voltemos. aparecendo como utensílio. p. Assim a natureza se transforma em um verdadeiro sistema de objetos e não mais de coisas e. à classificação mais intuitiva entre objetos e coi sas. 1973. uma casa. desde há certo tempo. passam. Para alguns autores. 42 41 . Poderia haver pad rões objetivos e gerais para se definirem as características dos objetos artificiais (p. intitulado "Sobre Objetos Estranhos" ("About Strange Objects"). diz Moles. Nascidos de uma concepção original. 15 -16). objeto. Para esse geógrafo. 1979. ultrapassa o quadro doméstico e. 1929. o homem se imagina mais plenamente realizado. um campo. os objetos tendem a se reproduzir e difundir. Henri Van Lier diz que "é dispensável aplicar uma definição uni versal aos objetos"(1971. 1974. precede nosso pensamento. 14 e 222). se concebe como existente com independência do sujeito que conhece.ainda que não independente da história da sociedade. 'tudo aquilo a que pode dirigir-se a consciência". por Voeikoff. mas o sílex não o é. dentro de casa. a afirmação segundo a qual o objeto. através dos nomes já dados. independente do sujeito que conhece. p. também. incide sobre ele. trad. dádivas da natureza. hoje. com a filosofia alemã. não poderíamos nomeá-lo. dando a esta última um valor. Segundo A. uma distinção já era feita. produtos de uma atividade intencional consciente. Porém. entre objetos moveis e imóveis.acabam considerando o automóvel como indispensável e esse dado psicológico torna -se um dado da chegarmos à conclusão de que tais julgamentos não são imediatos. Para esse autor. um dos mais impo rtantes signos de nosso tempo e seu papel na produção do imaginário tem profunda repercussão sobre o conjunto da vida do homem. Tem uma existência própria. sem dúvida seria melhor perguntar se. K. para Baudrillard. poderíamos indagar -nos sobre a hipótese de elaborar um programa de computador "para distinguir um artefato de um objeto natural"19. 129). 1979. nem uma montanha. resultado de uma história própria . porém. assim respondendo às demandas de status e do narcisismo. nem uma casa.isto é. ele nos lembra que nosso julgamento se faz "através de uma referência à nossa própria atividade. o ato fundador é dar um nome e. fato que lhe permitiu formular como hipótese a universalidade da técnica. um signo. V. uma cidade. No princípio. uma usina hidroelétrica. considerados objetos geográficos. Desde o início do século. p. Hare. "os objetos sobre os quai s os homens dispõem de controle são as coisas móveis". a casa reúne a totalidade dos objetos. castelhana: Filosofia y Educación. Usado na rua. Estudando vários povos considerados primitivos. 13). p. essência porque possui uma certa e determinada natureza. pp. um raspador de sílex é um objeto. Cria-se um elemento de complicação para a utilização de um tal conceito na geografia. uma estação de estrada de ferro. já que as próprias coisas. p. Com o veículo individual. na medida em que esta frequentemente tra balha com objetos fixos: uma ponte. uma plantação são. a consciência o constata porque ele tem existência (1979. consciente e prospectiva". o que 'mencionamos' na nossa vivência" (V. Desse modo. neste século da velocidade e da pressa. também constitui um símbolo. A linguagem tem um papel fundamental na vida do homem por ser a forma pela qual se identifica e reconhece a objetividade em seu derredor. p. Weltanschauung und Erziehung. Fosse o nosso critério estritamente objetivo. mas significa. a noção foi largamente ampliada. seria possível programar um computador para distinguir entre um artefato e um objeto natural" (Jacques Monod. parece prolongar o corpo do homem como uma prótese a mais. pp. distanciados en tre eles cultural e geograficamente. tendo lugar no tempo e no espaço. Vilhena (1979. fabricado pelo homem e que este deve assumir ou manipular". usando esses critérios. os objetos tomam o lugar das coisas. característicos da era pós -moderna. Moles (1969 e 1971. 98). como algures escreveu Messer. por isso. Para esse mesmo autor (Vilhena. 196). num artigo dos Annales de Géographie (vol. realidade que dele não depende. 11). Vilhena explica que o objeto tem essência e existência. a ser objetos. pêlos geógrafos.

não representando automa ticamente "uma função inserida numa forma" 22. E a difusão é muito ma is rápida e generalizada. já agora. para quem o autor teria buscado inspiração na obra de Peirce (1960) . isto é. Algumas pessoas adotam a novidade em breve espaço de tempo. a partir do objeto original. como todos os outros objetos 'artificiais'. com vistas a realizar um certo número de produtos. a comple xidade estrutural é dada pelo conjunto de peças elementares reunidas por quem a fabricou.. Segundo G. autómatos (nível 8) e os bens não-repetitivos. . Desse mesmo modo. Toda criação de objetos responde a condições sociais e técnicas presentes num dado momento histórico.. ou preferem recusá-la. O ní vel l seria o dos objetos a que chama de "pré-significativos". com suas características de idade.. quanto. já que sua apreciação reside em fatores externos aos mesmos. funcionais. A complexidade estrutural de um objeto é sua informação porque é a forma como pode comunicar-se com outro objeto. p. p. Classificações de objetos são numerosas. segundo diversos graus de determinação funcional: objetos naturais. 1989. n. reúne os objetos da produção "global". a partir da desc rição das populações de objetos.. 1970. 78). Em São Paulo. obedece à lei da imitação. Para Bense. Dizer que uma máquina de escrever está feita para escrever implica o seu emprego. como comple xidade funcional e como complexidade estrutural. numa casa ou numa paisagem. mesmo de longe. mais eficaz e rapidamente oferece uma resposta adequada.define-se. Objeto e Valor". Segundo Lucrécia Ferrara (1989). enquanto outras não reúnem as condições para fazê -lo." 12. Krampen (1979. d eve ser completada com uma outra noção. "Desenho Industrial. Os objetos de "design". nos fins do século XIX aparece uma primeira casa geminada e. 1971. de comportamento. p. em que as espécies são fixas. haveria mais dez níveis sucessivos de complexidade. ansioso para salvar-se da crise. objetos de arte e objetos de design -. 102) que a arte é "o lugar que a cultura moderna reservou para essa dimensão transcendente do objeto. seguidas pelas máquinas agregadas (nível 7). Essa difusão de objetos. visto como uma situação de "vida" (A Moles. a noção de população. Revista Design e Interiores. são planejados mas não completamente determinados quanto às suas funções". mais recentemente. Se retomamos o mesmo exemplo da máquina de escrever. o que ele nos pode oferecer . tarefa interdisciplinar que conduziria ao reconhecimento de uma verdadeira ecologia de objetos. comparáveis aos fonemas na articulação secundária da linguagem. localizados no observador. tanto Henri Focillon no seu livro já citado. 10). "Reinventa-se o funcionalismo: a função do produto dos nossos dias é a sua capacidade de informar sobre tecnologias materiais. os novos objetos. Os objetos na categoria da arte são pelo menos funcionalmente determinados" (M. objetos de arte e objetos de "design". p. já que. renovam o sistema local de relações redefinindo o meio que os a colhe. 1994). nosso contemporâneo. 1979. seja construída a respectiva demografia. segundo ele. depois de 20 ou 24 e. protótipos únicos (nível 9). ou servir a uma pes soa ou empresa ou instituição tanto aquela que trabalha diretamente sobre ele. Moles (1971.objetos naturais. e ao contrário da ecologia propriamen te dita. é função do desenho industrial p roduzir um "estímulo para a sagacidade do usuário".outra ideia de Moles . A complexidade funcional de um objeto está relacionada com o repertório de funções que podem ser combinadas no seu uso. 10). como podemos usálo. Desde que escolhidos e localizados. interior e não-racional que seus objetos constantemente adquirem. fossem despidas dessa dimensão emocional. Bense divide todos os objetos em quatro categorias . Lembra - nos Eduardo Subirats (1989. 21 44 43 . 99). proposta por Gabriel Tarde. pelas respectivas funções dentro do conjunto. p. como bem nota Baudrillard (La société de consommation. 1989).]" (E. gerações sucessivas nos deram. 1979. Krampen. ao menos para aqueles objetos correspondentes aos novos modos de produzir contemporâneos. são planejados mas não são plenamente determinados em suas funções como os segundos. 14 -15) e sem contar com os objetos formados por elementos naturais não trabalhados.. que neste século ocorre facilmente a uma escala global. Subirats. Segundo Rossi-Landi (1968. depois. há objetos mais e menos complexos. quanto André Malraux em Lês Voix du Silence se referiam a essa "ilusão" de potência repro dutora que parece residir nas coisas. hoje uma marca da paisagem paulista. Este é o nível superior de evolução d os objetos mecânicos. "[. enquanto o nível 10. citada por M. Se cada época cria novos modelos. seja pêlos acidentes que acompanharam sua sorte. Baseia -se na semió tica de Peirce (1960). prédios de até 12 andares. objetos técnicos. O Desenho Industrial já não comunica uma função inserida numa forma. Uma dessas classificaçõe s é a de Bense (1974). Mas o fato central é a produção de réplicas.tem comando sobre operações económicas e sociais locais. tão rica. seja por qualquer característica singular a eles inerente. com 40 pavimentos (Souza. objeto. citado por M. p. segundo os objetivos de quem as propõe ou conforme os 21 aspectos que se deseja realçar. 102). Kubler (1973. atribuindo-lhes diferentes graus de determinação funcional. Ainda para Bense. outros comportamentos. presentes desde o nível 6 com as máquinas simples. materiais brutos extraídos. p. outro modo de viver. a de sistema. O "parque" de objetos . o seu uso porém não é geral. a partir das suas funções elementares.". no sujeito. igualmente. pp. A complexidade dos objetos aparece em dois níveis. "O lugar que a cultura moderna reservou para essa dimensão transcendente do objeto e para a esfera intuitiva da sua experiência é a arte [. 22 . outra ideologia" (Lucrécia d'A. permanecendo com modelos anteriores. mais ou menos fiéis. 23 Abraham Moles (1971. Quanto mais estrutural mente complexo é um difusão da arquitetura dos castelos ou dos bangalôs. objetos técnicos.] As vidas humanas perderiam boa parte de seu encantamento e riqueza se. "Nessa realidade. o Desenho Industr ial exerce uma curiosa função representativa de estímulo para a sagacidade do usuário e sua habilidade de saber comprar.. Os objetos de design. que é largamente considerado como o fundador dessa ciência. Mas para entender essa situação de vida. Desse ponto de vista. p. segundo A. 23). "como todos os outros objetos artificiais. 23 . Ferrara. Para A. p. podendo demonstrar -se que não há diferença entre complexidade estrutural e informação. Neste caso. Krampen. ano 2. No meio geográfico é também assim. Moles "a complexidade funcional é a dimensão estatística dos usos": o que podemos fazer com o objeto. aqui novas espécies estão sempre surgindo. A complexidade estrutura l do objeto se relaciona com a variedade do repertório de seus elementos. Sua reprodução também obedece a condições sociais. por algum acaso. já na era do elevador e do cimento armado. "Uma teoria similarmente orientada para o design é a de Bense (1974). existem quatro categorias de objetos. 22) sugere que. mas representa o ágil processo de associação de ideias que caracte riza o usuário dos nossos dás. a que. os objetos de arte são "os menos determinados funcionalmente". outras com o mesmo modelo e a mesma feição.

tal uma 20) poucos objetos são. pois a moda é também um processo no qual os objetos já nascem com data certa de morrer (quanto à sua apreciação e valor). numa disciplina geográfica sequiosa de autonomia . mas também imóveis. naturais ou artificiais (M. Auge. "Ais Mitteilung und Formung". ainda que sábia e metódica. por exemplo. Podemos olhar o écran da televisão domiciliar sem nenhuma outra reflexão sobre o sistema em que está inserido. um subsistema. considerando essa parte como se fosse o todo. n. 9) 24. trabalhar ou transportar algo. sistemas de objetos que facilitam relações pragmáticas (em M. toda herança da história natural e todo resultado da ação hu mana que se objetivou. devemos perguntar-nos. Esses objetos geográficos são do domínio tanto do que se chama a Geografia Física como do domínio do que se chama a Geografia Humana e através da história desses objetos. essa o bjetividade. hoje. os depósitos frios nos comércios e os grandes frigoríficos e fábricas. Para os geógrafos. Essas relações são respostas ao processo produtivo no sentido largo. uma plantação. Onde. Sauer escrevia que os objetos da paisagem existem em correlação. não hou vesse a produção do programa. Demoule. Krampen. 1979. Mas não nos poderíamos beneficiar do que ela nos traz se. do seu uso combinado pê los grupos humanos que os criaram ou que os herdaram das gerações anteriores. os "objetos. e no espaço. Ortiz (1994). e o sentido de um objeto específico mudará portanto de uma situação para outra. 18). Praxis der Psychotherapie. p. de que fala R. Seu papel pode ser apenas simbólico. Essa correlação não era. vigente entre sociólogos e antropólogos e do que muitos chamam de espaço de objetos. 1979. oferecidos sós. Lembremos. A ideia de sistema da moda é rica de ensinamentos. p. UM OBJETO GEOGRÁFICO? Para ambas. ao mesmo tempo. 1994. Os objetos que constituem o espaço geográfico são obrigatoriamen te contínuos e a população de objetos considerada pelo geógrafo n ão resulta de uma seleção. essa Geografia Física e essa Geografia Humana se encontram. isso que se cria fora do homem e se torna instrumento material de sua vida. isto é. lanni (1993) e em outros autores é também tributária dessa mesma noção de objeto. 19). 9: T. O espaço dos geógrafos leva em conta todos os objetos existentes numa extensão contínua. mas. tão indispensável como hoje. talvez. geralmente. entende -se que. seu modo de fabricação e sua função" também são um terreno estável para o geógrafo. von Uexhüll se refere aos "sistemas pragmáticos" de objetos. Há uma relação necessária. - indo. cidade. isto é. passada.também se queira afirmar a existência de um objeto próprio. do pesquisador. O espaço serial. da forma como foram produzidos e mudam . O 'diálogo' entre o objeto e o usuário é parte de um sistema de programas pragmáticos interativos nos quais os homens e os objetos funcionam juntos" (M. Os objetos são esse extenso. O arqueólogo busca identificar u ma cultura e uma época. ou futura vem. Ess a resposta contém informação sobre 'direções para uso'. o caminhão refrigerado. Jean Baudrillard insiste sobre essa vida sistémica dos objetos. pp. frequentemente. ." 18. primeiro. mesmo. Trat a-se de um todo cujos elementos apenas são viáveis em conjunto. Nessa dir eção é que T. um dado. a estação emissora de sinais e as torres de sua distribuição e redistribuição. O enfoque geográfico supõe a existência dos objetos como sistemas e não apenas como coleções: sua utilidade atual. Buchsenschutz (1987. No seu livro O Sistema dos Objetos. os objetos são tudo o que existe na superfície da Terra. Eles também não funcionam isoladamente. von Uexhüll. Mas que seria esse objeto geográfico? 24 geógrafo se interessa pelo conjunto de condições características de várias épocas mas a partir do presente. a relação entre os elementos da cadeia do frio. do mundo dos objetos existentes em um lugar. a noção e a realidade do objeto melhor se aproxima da geografia é na arqueologia. O objeto geográfico seria tudo isso e muito mais e onde está indicada uma utilização passada forçosamente haveria que agregar a utilização atual. a ideia de objetos em sistema era fundamental para o trabalho geográfico. um porto. cujo exame permite. um objeto geo gráfico? Assim como. Para o arqueólogo. aliás. A partir do reconhecimento dos objetos na paisagem. Sem isso. Mas. um objeto é todo elemento sólido que foi utilizado pelo homem para se abrigar. A própria noção de desterritorialização como aparece em O. tão nítida. O sentido não aparece senão em situações pragmáticas. exatamente. em ambos os casos uma exterioridade. von Uexhüll a 'resposta' do objeto a uma 'hipótese de significado' que o usuário potencial aventou. costuma-se dizer que existe um objeto social ou um objeto antropológico. por exemplo. Em 1925. entre a geladeira e o freezer domésticos. uma montanha. isto é. aliás. Mas esse é também um aspecto dos objetos técnicos atuais. 46 45 . Sem contar com os sistemas elétricos e eletrônicos adrede criados e instalados em edifícios com desenho especial. em outras disciplinas. é também funcional. somos alertados para as relações que existem entre os lugares. um lago. a partir das amostras encontradas. Na mesma linha. haverá. hoje tão essencial ao cotidiano de boa parte da humanidade.Os objetos que interessam à Geografia não são apenas objetos mo veis. p. O que J. formados. uma barragem. a construção intelectual de sua realidade. Mas as respectivas démarches apresentam diferenças. 137-150). O Mas. o objeto é. uma estrada de rodagem. a rapidez com que são substituídos e perdem valor. 1994). Como para o arqueólogo (J. uma floresta. von Uexhüll chamava de 'sentido' tornou -se na terminologia de T. por objetos do culto. depois. P. privilegia uma parte. p. já então.e de legitimidade epistemológica . segundo exprime O. cada objeto não faz sentido. Tudo isso são objetos geográficos. todos sem exceção. deste para o passado. Krampen. von Uexhüil (1973) continuou a obra de seu pai ordenando os objetos no que ele chama de sistemas pragmáticos. a proposta -de R. incluindo desde a produção de mercadorias à produção simbólica. "T. Barthes no seu Sistema da Moda é a de um sistema de objetos defini do como um "conjunto de unidades de funções e de forças".

pois a ideia de Durkhe im (1895. mas não objetivados. tais obj etos geográficos? Como eles existem. a família acabam conduzindo ou se relacionando a um tipo de organização geográfica.os objetos . 113) para quem o meio era formado de "coisas e pessoas". Essa cristalização dos meios de ação segundo Durkheim pode ser considerada como equivalente ao "trabalho morto" da terminologia de Marx e seria mais bem representada. a explicação do mundo passa pelas formas e pela vida. para o geógrafo o objeto é um teste munho atual da ação. ao que vem do passado e se cristaliza como forma e. configuração territorial ou configuração geográfica. 1991. não obrigatoriamente materializados.e fatos sociais do domínio do real. vemos como as ações do presente incidem sobre objetos vindos do passado. Beguin. as formas não-espaciais se transformam em formas geográficas. de um lado. o costume. uma disciplina chamada de Morfologia Social. Diante do mesmo objeto. a mesma forma pode realizar-se em conteúdos muito diversos. 1962. H. também. um dia ou outro. os respectivos padrões são dinâmicos e móveis. em um certo momento. Buttimer. e as formas podem compreender uma infinidade de conteúdos logicamente possíveis. definiríamos como objetos geográficos. Se para os arqueólogos o objeto é o único vestígio da ação (L. Bailly. da qual a paisagem é um aspecto ou uma fração. realçando sua efetividade como para justificar ainda mais a cientificidade da disciplina que ajudava a fundar. constitucionalmente. em torno da ideia de que o que existe são fatos sociais coisificados .configuração geográfica e paisagem . encontramos pelo menos duas acepções do seu objeto. Pickles (1985. um objeto religioso? Ou poderíamos partir de um outro começo? O que aqui estamos buscando não é propriamente uma estrutura mitológica dos objetos. Não devemos confundi-las.e o agir humano deve. dentro da Sociologia. enquanto o espaço geográfico é um dado social. Ele reclama a necessidade de compreender e alcançar esse modo de ser específico. os costumes. Será mesmo indispensável sair à procura de materialidades a que. na qual os geógrafos enxergaram então uma concorrente da geografia (A. J. Mas. Na démarche geográfica.Acrescentaríamos a esse raciocínio de Durkheim que as formas sociais não -geográficas Arqueólogos e geógrafos partem de objetos concretos. votando ao termo e aos conceitos subjacentes um combate feroz e duradouro. Essas formas geográficas aparecem como uma condição da ação. Para Simmel. A evolução social cria de um lado formas espaciais e de outro lado formas não-espaciais. A questão de saber o que é. A partir de sua visão fenomenológica da geografia. um caso particular dos "meios de existência". 128). na terminologia geográfica corrente. em nossos dias. a partir da província da experiência que nos interessa. um objeto estético. com exclusividade. pp. Schutz (1987. pp. É assim também com as ações. poderia haver aproximado a geografia de uma definição do seu objeto epistemologicamente operacional. Foi isso que levou Durkheim a propor. 1978). são um ponto de partida importante para a Ge ografia. 31-33). Emile Durkheim (1895. Durkheim havia proposto considerar os fa tos sociais como coisas. A lei. as obras de arte. Muitas foram as críticas que essa postulação acarretou. resta inteira. p. um objeto económico e. Ele está se referindo. 75). Foi uma pena. O soció logo alemão refere-se às cristalizações da ação social. no momento seguinte. haveria. 1994 . A primeira é o objeto como coisa objetivada e a segunda se refere a fenómenos objetivos. Outros meios de ação cristalizados seriam a lei . realmente. outra é o seu estatuto epistemológico. isto é. 95-39) chama a atenção para o fato de que todas as coisas sendo coisas do mundo. e. tornam-se. forçosamente. Berdoulay. independentemente deles. podemos atribuir -lhe 48 47 . mas os geógrafos trabalham também com os objetos do presente. Também encontramos essa ideia nos escritos de Simmel. p. levar em conta esses meios de existência. confundindo o ser com o objeto. isto é. pelo conjunto de objetos culturais que. Ora a configuração espacial é um dado técnico. cuja existência se im põe à sociedade. mas a construção epistemológica de um objeto de pensamento. devemos evitar o risco de tomar sua aparência como se fosse a realidade. No fim do século passado. Pierre Boudon (1971) nos lembra de que uma coisa é a classificação dos objetos. a música. apesar de terem sido criadas num moment o anterior. quando se pergunta sobre "o modo de ser característico dos objetos geográficos". essas duas expressões . Segundo ele. Lendo os sociólogos. de outro lado. meios de existência . mas. um objeto etnográfico. então. falar de um objeto geográfico? (A. um objeto artístico. 12 -13) distinguia entre meio de ação e meio de existência. John Pickles (1985) põe o dedo na ferida. formam o que podemos chamar de configuração espacial. um objeto antropológico. V. A propriedade é um bom exemplo porque é.substituem frequentemente e equivocadamente a palavra espaço. Thévenot. Em sua famosa definição dos fatos sociais. Por isso. 1962. uma forma jurídica e uma forma espacial. p. Ambas as coisas juntas explicam o que temos em torno de nós e. cuja significação modificam. toda uma enorme gama de relações entre os homens que permanecem e vigoram no presente. formas sociais geográficas. um objeto sociológico. Mas o que são. como nascem e como evoluem? Qual a sua realidade entitativa? E cabe. Voltaremos a esse tema mais adiante. 1982. ao mesmo tempo. Nessa definição ele inclui os "meios de ação fixos". pp. É esta que constitui a realidade se bem entendemos A. A questão pode ser formulada em outros termos.que vem do passado e se impõe no presente. que seria a vida. que distinguir um objeto geográfico. "meios de ação cristalizados". ao lado ou no lugar dos objetos "naturais". um objeto geográ fico. Ele estava chamando a atenção para a realidade do fato social. substancialmente. por conseguinte. ao presente. a sociologia. para bem circunscrever um objeto para a geografia? A ser isso legítimo. aos indivíduos. isto é.

p. 80). 34). a partir de um ponto de vista. ficamos em condições de tratar. 138-139) e Schutz (1967. uma existência geográfica. autores como B. A noção de atuação liga-se diretamente à ideia de práxis e as práticas são atos regularizados. rotinas ou quase rotinas que par ticipam da produção de uma ordem. Parafraseando o que B. a lógica da história passada (sua datação. E o que é agir. o que é um ato? Inspirado em T. objetos sociais e. mais precisa que a ideia de uma geografia como "estado de espírito". de um lado. A significação geográfica e o valor geográfico dos objetos vem do papel que. 1962. E. 2) que se dá em situações. uma modificação do meio. o que é ação. Um ato seria um segmento identificado de uma ação. ação. sobre o meio. Lê Lannou provocou um escândalo. A questão que se coloca é. consagra um livro inteiro à questão da forma social. ao mesmo tempo em que modifica a natureza externa. sua natureza íntima. uma questão de método. a ação é a execução de um ato projetado e o sentido da ação é o correspondente do ato projetado. Baulig (1948). 80). segundo Morgenstern (1960. p. económico. Raymond Ledrut (1984). à fase atual das técnicas da inteligência. Aliás. A partir do entendimento que tivermos do que deve ser o objeto da disciplina geográfica. as mesmas coisas seriam. A ação é subordinada a normas. e sistemicamente interligados. Quando. "aqui é o ponto de vista que cria o objeto". Esta. sua causação original) e a lógica da atualidade (seu funcionamento e sua significação presentes). sua realidade material. analiticamente. pois. pp. um objeto geográfico em si. A própria escolha e uso da energia que vai mover as ações depende parcialmente das normas. sobre os outros. Parsons & E. p. 61). De um ponto de vista epistemológico. Trata-se de formular um sistema de conceitos (jamais um só conceito!) que dê conta do todo e das partes em sua interação. Stiegler (1994. 44) escreveu. pois. ao dizer que a geografia era um ponto de vista. sobre as coisas da Terra". 301). objetos geográficos. 264) é um deslocamento visível do ser no espaço. p. 3) que é normativamente regulado. A ação é um processo. isto é. 40) é 50 49 . alterar. com a projeção sobre o objeto geográfico do objeto semiótico. desde a fase inicial das técnicas do corpo. criando uma alteração. Ele nos convida a entender a ação como a "corrente de intervenções causais reais ou observadas de se res corpóreos num processo contínuo de acontecimentos no mundo" (1978 . Esta se daria com o um conjunto de atos ou como um processo formado de subprocessos. atu -ação. geograficamente. um dado a priori. muda a si mesmo. o homem exerce ação sobre a natureza. Rogers. 1969. formando uma extensão contínua. eles desempenham no processo social. Pensamos que nossa proposta atual de considerar o espaço geográfico como a soma indissolúvel de sistemas de objetos ej sistemas de ações pode ajudar esse projeto. Trata-se de reconhecer o valor social dos objetos. Este não é um dado em si. pelo fato de estarem em contiguidade. da construção de um sistema intelectual que permita. Giddens (1978. p. p. p 61) também nos chamam a atenção para a distinção necessá ria entre comportamento e ação. a propósito da linguística. Esses dois movimentos são conco - mitantes. Trata-se. abordar uma realidade. propõe distinguir entre ato. como uma situação e como movimento. E assim como um sociólogo. Os geógrafos Philippe e Génèvieve Pinchemel (1988. os objetos encontrados. do mesmo modo que o seu campo relacional". sempre lembrados de que o processo social como um todo é indivisível. mas um comportamen to orientado "no sentido de atingir fins ou objetivos" (E. Moles em sua Phénomenologie de l'Action (1974. e no qual um agente. Segundo Pagès (1979. 40) nos recordam de que "os homens são seres de ação: eles agem sobre si. se não buscarmos as categorias analíticas que permitam rever o todo como realidade e como processo. 50) "o conjunto do campo de atividades de cada indivíduo é codificado pelo sistema de regras. 3). através do trabalho. que seja indispensável continuar buscando a definição de um objeto com existência separada. segundo Morgenstern (1960. Rogers (1962) nos lembra que um ato é formado de: 1) um comportamento orientado. G. O tempo da ação. Para Schutz (1967. levantada por H. a Geografia pode igualmente buscar entender o mundo através das formas geográficas. Mas esta proposição restará tautológica. formais ou infor mais e a realização do propósito reclama sempre um gasto de energia. É nesse sentido que a realidade social é intelectualmente construída. E o ato supõe uma situação. mesmos. Shils (1952). isto é. atos consecutivos. Escrevendo nos anos 40. A. p. Hindess (1987. sobre a qual se projeta a ação. segundo escreve A. pois. Um dos resultad os da ação é. isto é. antropológico. mas um processo dotado de propósito. p. aliás. Não cremos. p. 117) chama a atenção para o perigo reducionista de superpor níveis de organização. mudando alguma coisa. modificar a situação em que se insere.SISTEMAS DE AÇÕES diferentes estatutos epistemológicos. Em sua geografia estrutural. Os mesmos objetos podem dialogar com as mais diversas discipli nas. escritas ou não. 4) que envolve um esforço ou uma motivação Um ato não é um comportamento qualquer. do outro. p. ele muda a si mesmo. mas uma construção. Esses objetos e essas ações são reunidos numa lógica que é. de uma das ideias de base ou Marx e Engels. Ritchot (1991. ao mesmo tempo. assim como nos relembra Schumpeter (1911. sobretudo. expressão. p. mediante um enfoque geográfico. p. aliás.

tomado como um todo. A corporeidade do homem é um instrumento da ação. e que é lento o progresso na produção de normas legais para protegê -lo. como fazer. as empresas multinacionais. p. Segundo G. Humbert. sabemos que as formas de ação que nos estão realmente abertas são pouco numerosas. p. Simondon. 112 -113) que inclui. Essas ações racionais são cada vez mais numerosas. Essa distinção se torna fundamental no mundo de hoje: muitas das ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias. Habermas (1 968. Braun 8c B. a primeira estando relacionada com o trabalho. mas a sua razão é. servir a uma ação racional. ambos submissos às mesmas regras de marketing? Essa limitação à consciência implica uma forma particular de tomar ação. p. é limitada. Impõe-se distinguir entre atores que decidem e os outros. Essa ideia é desenvolvida por J. na linguagem sociológica. ler o discurso dos políticos e das mercadorias. G. em mu itas das ações que empreende. formal e simbólico. Mas a ação humana não é exclusivamente uma ação racional. Hottois (1994. neste mundo pós -moderno. Qual a possibilidade real. os governos. O agir formal supõe obediência aos formalismos jurídicos. não precisamos saber exatamente o que fazer. o ator é apenas o veículo da ação. para distingui-los de outros. um período intermediário. sua ordem. p. em virtu de desse distanciamento e dessa esquizofrenia no processo criador dos eventos. uma imagem. Já o projeto "prepara uma execução". o conjunto de tarefas e suas etapas. escre vendo nos anos 50. 1978. 81-82) haverá três tipos de agir: técnico.1988) ao escrever sobre o problema das escalas. enquanto o propósi to supõe ambições ou projetos de longo prazo. podendo dispensar essa ideia de conjunto. A intenção é central na prática diária. aliás. em grande parte. E isto é ainda mais válido hoje do que há alguns decénios atrás. Sua racionalidade deve-se. que não é completo. Uma delas é a limitação da consciência. essa urgência das etapas. as grandes agências de notícias. racionais pelo valor. as primeiras servindo à transformação da natureza. muito mais. sempre segundo Gaston Berger. Gaston Berger refletia que o tempo da ação é o tempo do projeto. se chama uma ação racional? Em sua proposta de Legitimation Crisis (1975) Habermas nos fala de subsistemas de ação racional deliberada. emotivas. e não o seu verdadeiro motor. J. é o que se poderia chamar de alienação regional ou alienação local. Dentro de uma ordem pragmática. É somente assim que a ação projetada se torna eficaz. um tempo solidamente definido. 69). E existe um agir simbólico. as ações chamadas racionais tomam com frequência esse nome a partir da racionalidade alheia. 81) também propõe distinguir entre intenção e propósito. nem co mo fazê-lo. Em virtude do papel dos objetos técnicos. enquanto as segundas se fazem sobre o ser humano. exige aplicação e trabalho metódicos. Como. e que não é incompleto. de distinguir claramente o que é bom e o que é mau? Como. isto é. Giddens (1978. Isso que estamos vivendo no presente momento histórico. Weber já o havia dito em Economia e Sociedade quando enumerou as suas quatro formas básicas: ações racionais por via do instrumento. nos dias atuais. e um agora bem corpo do homem ao próprio mundo. à própria natureza dos objeto s técnicos.. 55). frequentemente. causal. claramente distinguia entre ações técnicas e ações simbólicas. pp. 79). No passado. entre os grandes decididores. mais cegas. As ações são cada vez mais estranhas aos fins próprios do homem e do lugar. económicos e científicos. levar em conta o que. É. também. p. Basta lembrar. tradicionais e afetivas. porque obedientes a um projeto alheio. bras. por exemplo. Segundo I. graças às técnicas concretas (M. por exemplo. os objetos revelavam propósitos de cada sociedade e eram os seus meios próprios à realização dos se us próprios fins. A geografia também começa a incorporá -la. A escolha do homem comum. o projeto não se deixa confundir com o sonho porque no sonho basta exprimir um voto. as organizações internacionais. O projeto inclui reconhecer de antemão o que f azer. Neil Smith (1984. Frequentemente. a racionalidade do que é fim para outrem acaba sendo a racionalidade do meio e não a do sujei to. que pertence à condição da ação. frequente que nossas ações se dêem sem que antes haja uma clareza em nosso espírito. a ação é cada vez mais racional. uma estrutura que tem três períodos: um período inicial. assim. O agir técnico leva a interações formalmente requeridas pela técnica. o tema foi aberto a uma vasta dis cussão. A outra vertente na limitação das escolhas vem das limitações à própria ação. Masini (1988.1973. tão sensível aos impulsos. Todavia. rituais. 22) fala de uma oposição entre atividade instrumental e atividade comunicacional. nesse sentido. que não é regulado por cálculo e compreende formas afetivas. Já no mundo de hoje. os chefes religiosos. Escrevendo em 1952 sobre essa relação entre ação e projeto. ed. Mas é sempre preciso levar em conta que o governo do corpo pelo homem é limitado. de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da Terra. Depois que estamos munidos d e um determinado quinhão de consciência. cuja vocação original é. uma denominação talvez mais adequada para aquilo que An -thony Giddens (1991) apelidou de "lugar fantasmagórico". Essa categoria de corporeida de está ganhando espaço nas ciências do homem nesta fase da globalização. a noção e a r ealidade do consumo. ele lembra o fato de que raramente os homens agem com um fim claro na cabeça. completo. 52 51 A limitação nas escolhas pode apresentar-se com duas vertentes (Giddens. Um deci -didor e aquele que pode escolher o que vai ser difundido e. se vai realizar. ação que se quer precisa. As ações são cada vez mais precisas e. enquanto a segunda tem que ver com as interações simbólicas. E. determinadas . aquele capaz de escolher a ação que. considera que estas conhecem uma progressão que vai do estreito quando culmina o processo da ação. Daí a necessidade de operar uma distinção entre a escala de realização das ações e a escala do seu comando. Joerges (1992. pp. graças a incitações da publicidade.. Mas é sempre por sua corporeidade que o homem participa do processo de ação. fundados numa ordem. 1991. Depois. uma razão técnica. exata -mente. O sonho não exige um tempo objetivo..

1993. a materialidade do mundo físico é experimentada pelo contato corporal direto com esse mesmo mundo. as empresas. redutíveis ao 'espaço* como causa" (B. onde o que é força está na afetividade. Um outro ponto fundamental na analise de Werlen é a importância que ele atribui à ação subjetiva. como uma condição e uma consequência necessária da ação humana" (p. vão desembocar nos objetos. mas não as condições do agir formal. A natureza não tem ação porque ela é cega. A ação é o próprio do homem. enquanto o agir simbólico se confunde com as formas culturais de apropriação e utilização da técnica. 1993. Existiriam. 139-140). sendo a geografia social uma ciência baseada na ação. Essas funções. 142 -143) . em expressar uma delas sem invalidar a outra" (Whitehead. culturais. finalidade. Fora do nada se consuma. a ordem técnica e a ordem da norma impõem -se como dados. em lugar do espaço. a força de transformação e mudança. A transição é real. a teoria geográfica de B. não tem futuro. porque só ele tem objetivo. p. dos diversos sistemas sociais. p. É como se houvéssemos que decidir entre um e outro. esses artefatos estabelecem coações sobre a na tureza da mediação subjetiva. paralelamente essas três ordens: a ordem da forma técnica. Ma s esta não é causa das ações nem os eventos são causados pelo espaço (Werlen. p. mostramos nesse capítulo que esses artefatos materiais imóveis não são. de uma forma ou de outra. E explica o seu ponto de vista: como toda ação se dá no espaço. mas pêlos modelos gerais de significação e de representação. também.. pp. ainda que. Parafraseando Whitehead (1938. Em certos casos. mas não podem ser consideradas como uma causa das ações. ao papel do indi víduo. O agente experimenta assim o mundo físico e representa as suas dimensões espaciais da perspectiva de seu próprio corpo. 1993. pp. Werlen. para a linguagem. Ele simboliza a complexidade da realização imediata [.]. como se a escolha de um excluísse. por si mesmos. a ordem da forma jurídica e a ordem do simbólico. No entanto. aqui também. Werlen poderia ser assim enunciada: 1) a geografia não deve ser considerada como uma ciência do espaço. Mas se. A perspectiva subjetiva principia com a ideia de que por intermédio do corpo o agente assume uma posição concreta no mundo físico" (B. Werlen (1993) é que a geografia falhou em seu enfoque do espaço. 1993. Werlen. capítulos. podemos dizer que "fora do espaço. p. Tratar-se-á. Só o homem tem ação. afetivas. não é o "espaço" a principal unidade de análise. 1993. incluindo. 139-140). é que conduzem os homens a agir e levam a funções. morais. Em ambos casos. nem da ação. 1993. 100). Em outros casos triunfam as condições do agir formal. 3) a dimensã o espacial deve ser considerada. A dificuldade consiste. Hindess. dão -se as formas de ação chamadas "racionais". por outro lado. escolha metodológica que vai marcar toda a obra. por não haver dado bastante ênfase ao que chama de "action-based theory of social geography. de plano. 161). Werlen (1993. Mas os propósitos relativos às ações são realizados por meio dos indivíduos. Essas necessidades: materiais. pois. Werlen. As ações resultam de necessidades. a cada passo (p. imat eriais. triunfam as condições do agir técnico. 1938. conforme assinala B. 143) considera que as chamadas dimensões espaciais da realidade são significativas. 25 . Similarmente. "Ainda aqui dados a minha ênfase na mediação subjetiva e o argumento da necessidade de uma geografia social orientada pela ação. sua importância relativa não seja a mesma. "O espaço no mundo físico é con stituído via a experiência corporal do próprio sujeito através do eu consciente em movimento. 275). As ações humanas não se restringem aos indivíduos. Em resumo. é particularmente necess ário encarecer a importância dos artefatos materiais na reprodução e na mudança das condições sociais existentes. mas como uma ciência da ação: 2) a ação subjetiva deve ser destacada numa pesquisa geográfica.. o espaço sendo produzido "por um conjunção particular de processos materiais e de processos de significação" (Lagopoulos. highlighting subjective agency" (p. isto é. pp. um tal enfoque (ação no espaço) em nada serviria à explicação. e m cada circunstância. Mais adiante ele afirma que "se a ação. a surpresa e a recusa ao passado. A importância do lugar na formação da consciência vem do fato de que essas formas do agir são inseparáveis. ele também chame a atenção para o papel das condições físico-materiais que enquadram a ação humana. Como afirmei no Capítulo I. a O argumento central de B. 174) 27. Modes ofThought. O cotidiano se dá mediante essas três ordens. económicas. 139-140). elas próprias conduzem à criação e ao uso de objetos. 143). ainda que. o arranjo espacial dos objetos seria relevante não como u ma causa. mas ela não é causa dos eventos. se tornasse o conceito teórico proeminência da ação e seu papel central na Geografia. 174). 27 . sociais. mas não as condições do agir técnico. Realizadas através de formas sociais. A insistência de Werlen quanto ao papel central da ação em sua ge ografia social não exclui o 26 reconhecimento do papel exercido pelo que chama de "dimensão espacial". ainda que compareçam como o quad ro da ação. não há re alização" 25. "uma teoria da geografia social onde a ação subjetiva é realçada". Ele repisa essa tecla. Essa visão do mundo físico centrada no sujeito também afeta a definição dos sistemas de coordenadas espaciais correspondentes. naturais ou criadas. nos modelos de significação e representação. a partir das propostas de Derek Gregor y e outros. e a realização é real. por um lado. p. Ele parece sobretudo referir -se ao trabalho de numerosos geógrafos anglo -saxões. para defender ainda mais sua premissa de que. 26 . 139) também não é a "ação no espaço" que constitui a base de pesquisa nesta sua nova geografia social. formas geográficas. de um ponto de vista espacial. Para Werlen (1993. vêm do agir simbólico.central da geografia social. O espaço é condição para a consecução. mas a "ação" e o "ato" (B. a relevância do outro. desde a introdução à conclusão. As principais tarefas de uma pesquisa de geografia social baseada em uma ativa teoria da ação seriam as seguintes: 1) compreender e explicar as ações humanas. também em todos os capítulos. UMA GEOGRAFIA DA AÇÃO? A noção de um espaço influente sobre as ações humanas aparece em todos os. p. Tempo e Espaço expressam o universo como incluindo a essência da transição e o sucesso da realização. pp. 54 53 . Mas isso não impede o autor de asseverar. as instituições. 2) clarificar a relação entre ações humanas e os mundos social e físico (Werlen. 139).

aliás. Werlen fica mais próximo da solução do problema teórico da definição do espaço é quando se refere à obra de Durkheim. Metáforas são flashes isolados. Parece-nos que Werlen não tira todo partido das ideias de Durk heim. antes de tentar emprestar formulações de outros campos. Uma geografia social deve encarar. Conceitos em uma disciplina são frequentemente apenas metáforas nas outras. todos os lugares teriam o mesmo valor de uso e o mesmo valor de troca. definem os objetos. à sua época. 56 55 .dá conta da sua realidade histórica. Werlen admite (p. para a disciplina geográfica. Mesmo as ideias seminais de Einstein. 165). Assim. 70). O espaço geográfico deve ser considerado como algo que participa igualmente da condição do social e do físico. Nesse sentido não há significações independentes dos objetos. ao reclamar que a sociologia teria muito a ganhar com a contribuição teórica vinda da geografia: os conceitos geográficos poderiam ajudar os sociólogos a incorporar em suas análises a realidade do espaço. como a da relatividade e a equivalência entre o tempo e o espaço. um dado. podem nascer predestinados a um certo tipo de ações. noção que. Werlen faz desfilar ideias próprias e opiniões de outros autores. a construção do respectivo método frequentemente reconduz a esse dualismo. É.. Giddens. por mais vizinhas que se encontrem. segundo a qual uma mesma sigficação pode instalar- se em diversos objetos e um mesmo objeto pode simbolizar diferentes significações sociais. devem ser tratadas unitariamente. ao mesmo tempo. responsável por avanços teóric os na geografia.. Durkheim ainda está esperando qu e suas ideias a respeito do espaço sejam retomadas e devidamente aperfeiçoadas. Citando essa frase. Durkheim. era considerado pêlos geógrafos como sendo o espaço. Onde. num texto assassino (1984. em cada momento. objeto e ação. A lista é grande de alusões ao papel ativo do espaço. pp. dado essencial no cálculo dos custos.1987. de modo uno. 183) e de Parsons o papel da localização como base de operações (p. Trata-se. ele. mas. 125). Há. do corpo do agente (p. é toda uma pista aberta à construção de uma teoria geográfica. 200-201). para se tornarem operacionais em geografia. material. aqui'. Admitir a "existência" do espaço não é ser "geodeterminis -ta". materialidade e evento. Quando este (1982. na significação dos artefatos materiais imóveis (p. De todos os sociólogos e filósofos citados no livro. Incompreendido pêlos geógrafos. Werlen insiste na importância das condições físico-materiais da ação (pp. não se dão em sistemas e não permitem teorizações. necessitam de adequação. Para Giddens. na influência da posição física. sem isso. ao nosso ver. uma relação entre valor da ação e o valor do lugar onde ela se realiza. 203) a possibilidade de uma integração entre um enfoque centra do no curso da ação e. 190). "elas são como moldes nos quais somos forçad os a incluir nossas ações". A frase de Simmel. que tanto pode levar a postulações ambíguas. 172) que "os artefatos materiais podem dirigir as ações". não -separado. na realidade. os objetos "va lorizam" diferentemente as ações em virtude de seu conteúdo técnico. alcance atual o u potencial. a falta de apetite dos geógrafos viria do fato de que estes se contentariam em acolher e utilizar a produção teórica dos sociólogos. Nem os conceitos de espaço que essas disciplinas estabelecem podem passar. A. Os eventos. p. buscava aperfeiçoar. Há uma diferença entre dizer que o espaço não é uma causa e negar que ele é um fator. retomada por Werlen (1993. De Simmel é mencionado o constrangimento da distância. onde Schutz e Luhman são citados. é Durkheim aquele que revela uma clara noção do que. De Weber são lembradas as relações da ação com o artefato e o mundo físico (p. como na crítica de Werlen (p. As duas categorias. Pois o valor do espaço não é independente das ações que ele é susceptível de acolher. 433-434). não é aceitável quando o objeto é examinado de um ponto de vista geográfico. Fica a impressão de que Werlen hesita em dar o passo definitivo que o levaria a alcançar uma outra visão do fato geográfico. as ações não se geografizam indiferentemente. a cuja plena eficácia se tornam indispensáveis. incluindo as mais diversas acepções com que a palavra é utilizada em obras de geógrafos e de outros cientistas so ciais. p. na estrutura objetiva. criva os geógrafos de sarcasmo. não atribuindo a importância devida à noção de "meios da ação" introduzida por Durkheim em sua proposta de morfologia social. valores que não seriam afetados pelo movimento da história. e sua influência sobre a interação social. mas o faz para voltar a insistir não apenas na relevância da ação. ideia a que Werlen (p. como a uma atitude maniqueísta. isto é. a propósito do alcance material do corpo humano. Pois Werlen. falando das formas. aliás. 6). aproximando-se de Popper. São as ações que. sobretudo no período histórico atual. considerar as ações separadamente ou os objetos separadamen te não objetos e ações "agindo" em concerto. dando-lhes um sentido. chega a admitir (p. para mostrar que leva em conta a importância dá materialidade ante a ação. assevera que. 186) acrescenta a noção de distância funcional. Uma definição consistente do espaço geográfico não pode ser encontrada nas metáforas provindas de outras disciplinas. de um equívoco. Mas hoje. em última análise. Objetos não agem. automaticamente. na época dos seus escritos. 147). da velha e pertinaz herança dualista que tanto tem marcado a disciplina durante mais de um século? Mesmo entre os que afirmam discordar dessa postura. mas no seu império. um híbrido. um misto. É à geografia que cabe elaborar os seus próprios conceitos.

Mas a noção de intencionalidade não é apenas válida para rever a produção do conhecimento. Essa

3
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noção é igualmente eficaz na contemplação do processo de produção e de produção das coisas, considera dos

como um resultado da relação entre o homem e o mundo, entre o homem e o seu entorno.

O EPAÇO GEOGRÁFICO, UM HÍBRIDO

Ao propor o que chama de "fato primitivo" de uma filosofia exis tencialista, Luijpen (1966, pp. 88-

89) denomina de encontro (encounter) essa "implicação mútua do sujeito e do mundo", essa "reunião do

homem e do objeto". Ele chega a se perguntar se a expressão diálogo não seria mais adequada para
ENTRE AAÇÃO E OBJETO:A INTENCIONALIDADE

exprimir o fenómeno, já que "nenhum dos dois participantes [...] pode ser pensado se o separamos do

outro, pois assim estaríamos destruindo o próp rio diálogo" (p. 89). Para Luijpen, as expressões "encontro"

e "diálogo" seriam, no vocabulá rio da fenomenologia, como sinónimos da noção de "presença", em

Merleau-Ponty, ou "participação", em G. Mareei.

noção de intencionalidade permite uma outra releitura crítica das relações entre objeto e ação. "A intencionalidade é o traço fundamental do vivido em geral" disse Jean Beaufret, referindo-se à ideia de Husserl, para quem a intencionalidade é "essa presença das coisas e

É a própria ação humana que assim se define. E, conf orme Szilasi (1973, p. 35) o vocábulo ato "não nas coisas"28.

designa apenas uma ação, atividade ou processo, mas a própria relação intencional". Ele desenvolve seu

A

argumento, dizendo que "os atos são acontecimentos de consciência que têm o caráter da

intencionalidade". Para esse autor, o produto já está contido no ato produtivo e, assim, a faculdade da

De acordo com Brentano (1935, p. 29), "não há pensamento sem um objeto pensado, nem apetite sem um objeto apetecido". Para o filósofo português V. de Magalhães Vilhena (1979, p. 203) que o cita, "ter uma ideia é ter uma ideia de algo; toda afirmação é afirmação de algo: todo desejo é desejo de algo"29. Por isso, a intencionalidade, no dizer de B. Latour (1991, p. 79), "transforma a distinção, a separação, a contradição, em uma insuperável tensão entre o objeto e o sujeito". Pode, sem dúvida, ser objetado que a ideia de intencionalidade é apenas válida na reconstrução da teoria do conhecimento. Opondo-se à ambiguidade do cogito do enfoque cartesiano, e também reclamando a supressão da dualidade entre cogito e percipio, Husserl enxerga nessas duas categorias operações integradas e inseparáveis, cuja unidade deveria servir para recusar, ao mesmo tempo, os simplismos do idealismo e do realismo. A própria consciência, diz Husserl, é intencional e "quando levamos a cabo um ato de conhecimento [...] quando estamos vivendo nesse ato de consciência, nós estamos lidando com a coisa objetiva que esse ato pensa e expõe, através, precisamente, do modo de conhecimento" (Husserl, 1959,1, p. 249) ou, como lembra W. A. Luijpen (1966, p. 31), o intelecto é tanto uma inteligência ativa como uma inteligência passiva. ("The intellect is an intellectus agens [...] the intellect also is intellectus patiens.)

consciência que torna possíveis as suas ações produtivas consiste em estar sempre fora dela mesma. Desse

modo e como consequência da intencionalidade, encontramo-nos desde o início implicados na "trama das

coisas" (Szilasi, 1973, pp. 41-42).

Um outro enfoque relevante para a nossa discussão vem de Gabriel Mareei (1949, 1965). O eixo

central de sua filosofia é a distinção e, ao mesmo tempo, a unidade, entre Ser e Ter. Trata -se,

essencialmente, da distinção entre o que somos e o que temos. Mas o ter se relaciona com o tomar e o que

temos são coisas independentes de nós (1965, pp. 144 e 155). Daí a relação, proposta por Mareei, entre o

ter e a espacialidade.

A ação humana, pois, inclui um retro-efeito de parte das coisas que ela própria, ação humana,

vivifica, o que Mareei apropriadamente equipara a um efeito de boomerang (p. 163). A intencionalidade

seria uma espécie de corredor entre o sujeito e o objeto. Assim, essas coisas não são apenas externas, já que

atingem o agente "clandestinamen te". Assim, o fato de ter, diz G. Mareei (pp. 164 -165), provoca uma

tendência à sua própria destruição. A perda do sujeito se daria na própria coisa que começou por possuir,

e que agora absorve o senhor que havia pensado controlá -la. Na realidade, corrige Mareei (p. 165), esse

processo não leva o ter a ser destruído, mas a ser sublimado e transformado em ser.

O filósofo italiano C. Diano (1994, p. 90) talvez vá ainda mais longe, ao lembrar que "no ato

teórico, sujeito e objeto constituem uma unidade, mas o sujeito aparece como objeto". Segundo ele, pode -

se pretender que sujeito e objeto criam -se mutuamente, eles se substan cializam um à custa do outro na

28 . Segundo Jean Beaufret (1971, pp. 182), o termo intencionalidade teria sido usado por Franz Brentano, "filósofo que se torna psicólogo em Viena". 29 . "Cada vez que sentimos", escreveu algures Herbart, "há de existir algo na consciência como representado; de modo que esse determinado sentir implica esse determinado re presentar. E cada vez que apetecemos [...] temos no pensamento aquil o que apetecemos". "Em quaisquer atos de representação, sentimentos e juízos, em qualquer fenómeno psí quico - assim disse, em página de tardia mas considerável repercussão, Franz Brentano, o grande precursor da filosofia germânica deste século, desenvolvendo o citado passo de Herbart - há a necessária presença de um 'objeto' imanente ou contido. Ter uma ideia é ter uma ideia de algo; toda afirmação é afirmação de algo, todo desejo é desejo de algo. Não há pensamento sem um objeto pensado, nem apetite sem um objeto apetecido" (V. de Magalhães Vilhena, 1979, p. 203).

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temporais da matéria" (Hàgerstrand, 1989, p. 114) 31. É nessa direção que se pode reinterpretar a define-se como a ação exercida pelo entorno sobre o ser e cuja natureza é mais ou menos imprevisível.

"empiricidade", onde, sob a ação da forma, revelam-se no evento 30. Este, para A. A. Moles (1974, p. 106),

ideia de Heidegger (1992, p. 90), segundo quem "o onde determina o como do Ser, porque Ser

significa presença". Segundo o geógrafo sueco, a ação é ação e m uma paisagem e é a paisagem que dá

A ação intencional é "movimento consciente e voluntário" do agen te na direção das coisas (Jean-Luc Petit, 1990, pp. 71-72), envolvendo uma projeção do agente (L. Quéré, 1990, pp. 87 -88), já que as crenças, os desejos, as intenções implicam um objeto. Pelo fato de não ser um objeto entre outros objetos, mas um su jeito que se relaciona com o se u entorno, é que o homem pode ser definido por sua intencionalidade (F. O. Bollnow, 1969, p. 241). Mas Bollnow se pergunta se a intencionalidade é, em si mesma, bastante para a compreensão da essência do espaço (p. 242). Ele talvez estivesse pensando no espaço hodológico de Lewin (1934), um espaço aberto pêlos caminhos, o que constitui, de nosso ponto de vista, uma visão restritiva. O espaço geográfico é muito mais do que simples oferta de caminhos, ainda que também seja isso. Uma outra noção de intencional idade, vinda da psicologia e da psicanálise, pode ser apropriada na análise geográfica, com a acepção que, aqui, estamos querendo sugerir. Para Elliot Jacques (1982,1984, p. 144) "a ideia do evento intencional está implícita na ideia de con duta, de ação" (1984, p. 144) e, dentro dessa categoria geral, propõe destacar a noção de episódio, "implícita na ideia de intencionalidade e de direção dessa conduta e dessa ação". O episódio possuiria una estrutura "determinada e analisável", que o distingue da conduta intencional em geral. Segundo essa concepção, a atividade se desenvolve a partir de uma imagem-meta, acarretando uma conduta orientada a atingir um objeto-meta satisfatório. Este é representado pêlos meios disponíveis "em forma de coisas, pessoas, ideias , que existam objetivamente e que possam ser utilizados [...] tal como estão ou após uma transformação adequada" (E. Jacques, 1984, pp. 145-146). Essa noção de episódio quadra-se bem à ideia (que estamos buscando desenvolver) dessa vida unitária das ações e dos objetos, na definição simultânea da produção dos eventos e da reprodução do espaço geográfico. Em sua versão da tese da intencionalidade, T. Hàgerstrand (1989) completa e aperfeiçoa as propostas anteriormente avançadas por D. Ley (1977), A. Buttimer (1976), N. Smith (1979), D. Seamon (1982), J. Pickles (1985) e outros. Fundando-se no filósofo sueco Jakob Mel0e (1973), referese à ação humana como uma projeção da matéria. A paisagem, segundo Hàgerstrand, ofereceria uma versão extrema da tese da intenc ionalidade. Sua geografia do tempo, conforme a inter pretação de M. A. Díaz de Munoz (1991, pp. 132 -133), não seria fundada na atividade real dos indivíduos, mas nas condições para sua atividade potencial. É assim que as "ações se convertem em trajetórias espaço30

forma a ação. Mas onde Hàgerstrand escreve paisagem, teríamos escrito espaço. Feita essa ressalva,

o importante é realçar a inseparabilidade entre ação e objeto, para afirmar, como estamos fazendo, que o

tema central da geografia não é separadamente os objetos, nem as ações, mas objetos e ações tomados em

conjunto.

A ação é tanto mais eficaz quanto os objetos são mais adequados. Então, à intencionalidade da

ação se conjuga a intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da respectiva carga de

ciência e de técnica presente no território.

Lembremo-nos, porém, de que os resultados da ação humana não dependem unicamente da

racionalidade da decisão e da execução. Há, sempre, uma quota de imponderabilidade no resu ltado,

devida, por um lado, à natureza humana e, por outro lado, ao caráter humano do meio.

Os atores podem engajar-se em ações que não são consequência de decisões (B. Hindess, 1987, p.

141 )32. Por outro lado, ações intencionadas podem conduzir a resulta dos não-intencionados, característica,

aliás, muito comum no processo de mudança social ou de mudança espacial (Hãgerstrand, 1991 b, p.
33

113). O caso extremo, referido por P. Ricoeur (1986, p. 193) em seu livro Do Texto à Ação, é quando a

ação se separa do agente desenvolvendo suas próprias consequências e produzindo efeitos não buscados .

Ao contrário da produção do conhecimento, impossível de separar do processo que lhe dá causa, no

domínio da ação, lembra R. Guénon (1945, p. 61), "os resultados são sempre separados daquele que a

produz", graças ao "caráter essencialmente momentâneo da ação".

Essa imprevisibilidade do resultado é denominada por Ricoeur (1986, p. 193) autonomia da

ação. Uma razão pela qual não se pode prever completamente o resultado da açã o vem, exatamente,

31

. "[...] Quando comentou (meu artigo. T. H.) 'Qu e há acerca...?', meu colega de Amsterdã Christian Van Paasen assinalou, com uma formulação feliz, que 'o homem como um su jeito reprodutor de significado é também um veículo físico do significado' (1976, p. 326). Vista dessa perspectiva, a sociedade não é só um conjunto de mentes e de papéis e institui ções intangíveis em interseção. Mesmo se excluirmos o entorno das casas, a sociedade tem corporeidade, tal como claramente se expressa em palavras tão antigas como somebody e anybody. Noutras palavras, o significado e a matéria vão juntos na pessoa humana. A ação na paisagem, qualquer que seja o significado, é também matéria atuando sobe a matéria. Vistas dessa perpectiva, as ações se convertem em trajetórias espaço-temporais da matéria. Alguns casos simples podem refletir-se sobre o papel facilmente. No entanto, mais importante é que o olho interno aprende a ver os acontecimentos dessa forma e que não continua raciocinando dentro dos limites compreendidos pela conceptualização. Esse tipo de 'fisicalismo' está muito longe do significado original da palavra" (T. Hàgerstrand, 1989, 1991b, p. 114; Christian Van Paasen, 1976, pp. 324 -341). 32 . "[...] Os atores fazem as coisas como consequência de decisões. Estas são chamadas ações, e as decisões do ator desempenham importante papel em suas explicações. Os atores podem também fazer as coisas que não são consequência de decisões, e sua explicação assume uma forma totalmente distinta" [...). "Naturalmente, Weber reconhece que muita ação humana não é racional e que a racionalidade está portanto sujeita a condições" (Hindess, 1987, p. 141). 33 . "Da mesma forma que um texto se separa do seu autor, uma ação se separa do seu agente e desenvolve suas próprias consequências. Essa autonomização da ação humana constitui a dimensão social da ação. A ação é um fenómeno social não somente porque é obra de vários agentes, de tal sorte que o papel de cada um deles não pode distinguir -se do papel dos demais, mas também porque os nossos atos nos escapam e têm efeitos a que não visamos" (Paul Ricoeur, 1986, p. 193).

. "É somente na esfera da forma que existe o objeto, e ele existe aí porque o sujeito é apenas o seu espelho. E quando se diz que é o sujeito que cria o objeto, não se dá mais do que quando s e pretende que o sujeito é criado pelo objeto. Mas ambas as coisas podem ser ditas unicamente se sujeito e objeto são tomados separadamente e substancializados um à custa do outro na empiricidade na qual, sob a ação da forma, eles se revelam no acontecimen to. Daí o caráter ambíguo do sujeito de que fala o idealismo. Com efeito, no ato teórico, sujeito e objeto são uma só coisa, mas o sujeito não pode aparecer senão como objeto [...]" (C. Diano, 1994, p. 90).

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de objetos. Em realidade, não há apenas novos objetos, novos padrões, mas, igualmente, novas formas de ação.

do fato de que a ação sempre se dá sobre o meio, combinação complexa e di nâmica, que tem o poder de deformar o impacto da ação. É como se a flecha do tempo se entortasse ao se encontrar como espaço. Segundo A. Moles (1974, p. 106), o "evento" seria, ele mesmo, uma interpretação dessa autonomia. Um evento é o resultado de um feixe de vetores, conduzido por um processo, levando uma nova função ao meio preexistente. Mas o evento só é identificável quando ele é percebido, isto é, quando se perfaz e se completa. E o evento somente se completa quando integrado no meio. Somente aí há o evento, não antes. Segundo Simmel (1903, p. 43) o rendez-vous tanto denota o encontro, quanto o lugar do encontro. Se aquele feixe de vetores pudesse ser parado no caminho, antes de se instalar, não haveria evento. A ação não se dá sem que haja um objeto; e, quando exercida, acaba por se redefinir como ação e por redefinir o objeto. Por isso os eventos estão no próprio coração da interpretação geográfica dos fenómenos sociais.

Como um lugar se define como um ponto onde se reúnem feixes de relações, o novo padrão espacial pode

dar-se sem que as coisas sejam outras ou mudem de lugar. É que cada padrão espacial não é apenas

morfológico, mas, também, funcional. Em outras palavras, quando há mudança morfológica, junto aos

novos objetos, criados para atender a novas funções, velhos objetos permanecem e mudam de função. Aliás,

Kant escrevia, já em 1802 34, que os objetos mudam e propõem diferentes geografias. Na realidade essa frase

pode ser lida de duas maneiras. Primeiro, como ao longo do tempo surgem novos objetos, a cada momento a

população de objetos se caracteriza como um conjunto de idades diferentes. A segunda maneira de

interpretar essa frase vem do fato de que o mesmo objeto, ao longo do tempo, varia de significação. Se as

suas proporções internas podem ser as mesmas, as relações externas estão sempre mudando. Há uma

alteração no valor do objeto, ainda que materialmente seja o mesmo, porque a teia de relações em que está

inserido opera a sua metamorfose, fazendo com que seja substancial mente outro. Está sempre criando-se
A INSEPARABILIDADE DOS OBJETOS E DAS AÇÕES

uma nova geografia.

A cada novo momento, impõe -se captar o que é mais caracterís tico do novo sistema de objetos e

do novo sistema de ações. Os con juntos formados por objetos novos e ações novas tendem a ser mais Em sua visão crítica da epistemologia da modernidade, B. Latour (1991, p, 174) mostra -se irónico ao lembrar que o modo "moderno" de ver as coisas nos levaria a admitir a sociedade como "o artefato simétrico da natureza, o que sobra quando arrancamos dela todos os objetos". Na verdade, porém, o que chamamos de sociedade somente adquire concretude quando a enxergamos simultaneamente como continente e como conteúdo dos objetos. E estes se individualiza m e ganham expressão e significado, quando ao serviço da sociedade. As sim como posto por Whitehead (1919, p. 196), reconhecemos a vida específica de um objeto a partir do reconhecimento da natureza de sua relação com o evento que o situa. A.A. Moles (1972) lembra que os objetos são duplamente me diadores, porque se colocam entre o homem e a sociedade e entre o homem e sua situação material. E, para Baudrillard (1973, p. 16), a descrição de um sistema de objetos depende da descrição de um sistema de práticas. Não basta definir os objetos em sistema. Temos de definir qual o sistema de práticas que sobre ele se exerce. Há uma interferência contínua entre os dois. A evolução que marca as etapas do processo de trabalho e das relações sociais marca, também, as mudanças verificadas no espaço geográfico, tanto morfologicamente, quanto do ponto de vista das funções e dos processos. É assim que as épocas se distinguem umas das outras. Todo e qualquer período histórico se afirma com um elenco cor respondente de técnicas que o caracterizam e com uma família correspondente de objetos. Ao longo do tempo, um novo sistema de objetos responde ao surgimento de cada novo sistema de técnicas. Em cada período, há, também, um novo arranjo 62 61

produtivos e constituem, num dado lugar, situações hegemónicas. Os novos sistemas de objetos põem-se à

disposição das forças sociais mais poderosas, quando não são deliberadamente produzidos para o seu

exercício. Ações novas podem dar -se sobre velhos objetos, mas sua eficácia é, assim, limitada.

São as propriedades fundadoras de uma coisa que dizem como ela se relacionará com outras coisas .

Lembremo-nos do pensamento de Hegel, para quem "[...] uma coisa tem propriedades; estas são, antes de

tudo, suas relações com outras coisas" (Ciência da Lógica, T. l, Livro 2, pp. 148-149). Esta é a base em

que os sistemas de objetos se constróem e obtêm um significado. E, como exprime Ernesto Laclau (1990,

p. 109), ler os objetos equivale a reincluí -los no conjunto das condições relacionais. Essas condições

relacionais incluem o espaço e se dão por intermédio do espaço. Nesse sentido é o espaço considera do em

seu conjunto que redefine os objetos que o formam. Por isso, o objeto geográfico está sempre mudando de

significação. É o que Laclau denomina "instabilidade dos objetos".

A afirmação do físico teórico D. Bohm (1959, p. 146), para quem uma coisa não pode existir à

parte do contexto, é também válida para o espaço geográfico . Uma geografia apenas interessada num

35

determinado tipo de objetos (por exemplo, os tecnopolos) ou numa determinada idade dos objetos (por

34

. "[...] os objetos mudam e criam diferentes geografias em diferentes épocas [...]" (Kant, 1802). . Não basta, todavia, considerar as qualidades empíricas, mas é indispensável pensar todo o conuunto de possibilidades de combinação com outros objetos, recomenda A. R. Moreno (1974, p. 72).

35

Ledrut. 1980. pois é uma forma real que possui a sua materialidade. Essas duas 'abstrações' têm contudo uma verdade parcial que encontra o seu valor quando elas são situadas em seu nível e em seu conjunto relativamente às formas sociais reais" (R. 1980. Krampen. op. p. Ollman (1971. Eis por que as formas são condições necessárias para a inteligibilidade da vida. "Introduction". "não entendemos o interior das coisas" (1980. relações suficientemente precisas e constantes para sugerir um sistema de referência firme: o espaço. em Simmel. mas "a linguagem da forma é incompleta" (p. p. p. em última análise. também. 159) 40. A relação entre o continente e o conteúdo. considera necessário. recorda-nos B. das for ças em movimento. Como nos lembra G. do virtual sobre o atual. Acrescentemos: por mais antigo que seja um objeto. 39 . p. para dentro e para fora. p. Também não basta lembrar que o objeto se esconde porque. "Separar o continente e o conteúdo na vida social é uma operação que dissolve a Forma Social como tal e não nos dá senão uma Forma 'abstrata' ou 'formal'. aumen tando e intensificando suas próprias potencialidades e energias.no nível 'físico'. A ideia de . Nenhum esquema conceptual pode fornecer uma classificação completa da realidade. e porque "não há mais visibilidade da significação técnica das coisas". os objetos tecnológicos atuais) n ão seria capaz de dar conta da realidade. Ambos são indispensáveis para que nosso pensamen to chegue ao estabelecimento de uma ordem do mundo f ixa" (E. Entre eles. no di zer de G. Cabe aqui reproduzir a advertência de Georges Waysand (1974. p..] Primeiro. J. os objetos não têm existência fora das atividades simbólicas da sociedade (em M. o objeto permite saber o que realmente ele é. cif. mas está longe de nos dar um ponto de chegada. forma e vida. exemplo. outra . 38) realça a inseparabilidade do continente e do conteúdo. 32 )41. relações precisas e constantes" 37. No fundo temos com Durkheim e Simmel duas operações redutoras qu e pertencem simplesmente a dois níveis diferentes: uma . No seu livro Forme etSens. com Henri Van Lier (1971. segundo Henri Van Lier (1971. "ela difunde uma influência do futuro sobre o presente. abstrações que somente reencontram seu valor quando vistos em conjunto (R. A linguagem de cada forma é incompleta. Para alcançar o conhecimento. a vida multiforme encontra-se num estado de fluxo perpétuo. Melhor seria afirmar. 25). entre a forma e o fundo. 159). 37 . Por que isso? A discussão de Simmel desse problema é sempre estimulante e esclarecedora.. Fisher. Krampen (1979. Buenos Aires. O acesso conveniente a esse problema é propiciado por seu breve ensaio On Aesthetic Quantities" (Oakes. de objetos e ações. já que. 13. R. devem ser tomadas em sua unidade. p.. Baudrillard propõe resolver o problema já que. A forma e o conteúdo somente existem separadamente como "verdades parciais". as atividades s imbólicas lhe concederiam existência. Simmel. "[. nem a vida têm existência autónoma..que forma e vida são os pólos da produção do conhecimento é retomada por um grande número de pen homogénea36. enquanto as formas são o sistema da atualidade". Nós sabemos que. O sentido do objeto aparece nas situações pragmáticas. não surpreende aprender que nenhuma forma é exaustiva. pela sua aparência e forma física. Communications.a de Durkheim . 137). Mas é indispensável precisar que as redes são também humanas. Simmel chama às formas 'objetivações' da vida" (Guy Oakes. Quando alteramos a funcionalidade de alguma de suas partes.a de Simmel . para dentro e para fora de si mesmas. do potencial. ela permanece inconclusa. ser o espaço um "sistema firme de referência [. pp. desse modo.] sugerido pelo fato de que as coisas mantêm. 14). Comunicaciones. Simmel descreve às vez es esse aspecto definitivo da vida (p. 64 63 . acompanhando Berry 8c Prakasa (1968. como M.no nível 'lógico'. p. segundo ele. porque não existe continente social separável do conteúdo salvo por uma abs -tração que destrói a unidade do continente e do conteúdo. diminuímos sua eficácia e. o lugar que ele ocupa ou ocupará no sistema económico". Forma e causa. Subirats (1989. a partir do conteúdo técnico dos objeto s que começamos o seu aprendizado e enfrentamos a tarefa de sua compreensão. se as formas constituem o sistema da atualidade. nele as necessidades encontram satisfação e. sem a qual não existe realidade social. já que nem a forma. a função a que vai ser destinado. 137). A vida como tal não é um possível objeto de experiência ou conhecimento. Segundo. como o resultado da conjugação entre sistemas de objetos e sistemas de ações. "[. Cassirer. não indica. 40 . trabalhar com os conceitos de Forma e Causa (1974. 162) "a técnica demonstra. A forma social perde aí a sua realidade. Cassirer. "Objeto y Estética". permite transitar do passado ao futuro. Eis por que Simmel representa essas entidades como sendo mais que a própria vida. Pois o fundo é o sistema das virtualidades. A partir da referência aos símbolos que encarnam. Discutindo essa proposta. formadas. 41 . que "a rede do espaço é uma série de redes interdependentes e superpostas. mesmo. Muito meno s aceitável seria admitir. Lês Objets. p. 21): "Por mais novo que seja.. na prática. que confirma decisivamente o abstraio e concreto como duas faces de uma mesma captação do real" (Henri Van Lier. que o mistério não existe".. 13) afirmando que a vida é essencialmente 'mais-vida'. 1984. p. Ledrut. 1979. A dissociação entre continente e conteúdo nos extravia. Embora sejam produtos da vida. Mas atribuir um sentido aos objetos não será. 38 . sozinha. Simondon. os objetos dispõem de uma "definida transparência analítica e conceituai". fazendo dele outra coisa. 145-146). a forma nos dá um ponto de partida. Moles (1969 e 1973) prefere considerar que o significado do objeto provém de sua função. Lugar de um trabalho simbólico. 102) considera que uma ordem nada misteriosa submete o objeto.1969). que o espaço pode ser visto como "um palco onde os humanos entram em relação com outros homens e com objetos". p. que é total e jamais é sadores. tanto no seu livro As Formas Simbólicas.. porém. E segundo Jacques Ellul (1964. A. justamente. O enfoque do espaço geográfico. 17) 39. é pouco dizer. 13-14). a vida como processo homogéneo e indiferenciado permanece inacessível à análise. 21). designado com antecedência. separadas do ritmo e do fluxo da vida adquirem propriedades estáveis que se tornam justapostas ao processo constantemente imutável da vida. Buscar Nesse caso. Elas se tornam 36 interpretá-las separadamente pode conduzir a graves erros de julgamento. Los Ofo/eíos. Nas palavras de G. p. p. pp. 90). e tem também a capacidade de se transcender pela criação de novas entidades que são 'm ais-do-que-vida' (p. 137. "Dado que as formas criam mundos autónomos e irredutivelmente heterogéneos. Edito rial Tiempo Contemporâneo. quando assevera que a separação destrói a unidade de um e de outro. para entender o mundo. nenhum objeto traz consigo. Na análise final. e desse modo as r enovam. Quando lhe indagamos o trabalho que ele pode fornecer. 38). Está constantemente criando. quanto mais explicitamente em The Logic ofthe Humanities. 1974. p. uma materialidade social.sua fonte última nas energias da vida e sua emancipação final dessas energias -. inseparavelmente. A vida só tem exibido a tendência de se renovar pela produção de mais vida. 1971. É. Ledrut (1984. 7). onde mudanças numa afetam as demais". E. é muito mais do que uma simples relação funcional. uma explicação. A lógica do objeto provém de sua unidade. é somente porque as ações nelas existentes são sempre atuais. p. Para articular essas duas propriedades das formas . mediante a consideração do presente. ela é indispensável ao conhecimento da vida 38. uma me táfora? O objeto não tem vida própria. podemos adulterá-lo mortalmente. "O conceito de forma e o conceito de causa constituem os dois pólos em torno dos quais gira a nossa compreensão do mundo. 1984. p.] as coisas mantêm. sendo insuficiente para oferecer. 17).

ele, os mistos são um conjunto de objetos e de normas. Tais seres interme diários, como os autómatos, não
O ESPAÇO GEOGRÁFICO, UM HÍBRIDO

pertencem à arte nem à natureza e se incluem no mundo dos seres acidentais, diverso do mundo dos seres Se o espaço é, como pretendemos, um resultado da inseparabilidade entre sistemas de objetos e sistemas de ações, devemos causticar, com B. Latour (1991) em seu livro Nous n'avons jamais été modernes, o equívoco epistemológico, herdado da modernidade, de pretender trabalhar a part ir de conceitos puros. De um lado, estaria Hobbes, fundador da ciência política e das ciências sociais e, de outro lado, encontraríamos Boyle, o grande autor das ciências naturais e exatas. Essa separação entre "um poder científico, representativo das cois as e um poder político, representativo dos sujeitos" é um dos pontos de partida do paradoxo moderno, "com a separação total entre nature za e cultura" (B. Latour, 1991, pp. 46-47). Na realidade, entretanto, insiste Latour (p. 108), não temos necessidade de amarrar nossas teorizações a duas formas puras: de um lado, o objeto e de outro, o sujeito-sociedade, já que "natureza e sociedade não são mais os termos explicativos, mas, ao contrário, requerem uma explicação conjunta" (Latour, 1989, p. 108). Já que a realização concreta da história não separa o natural e o artificial, o natural e o político, devemos propor um outro modo de ver a realidade, oposto a esse trabalho secular de purificação, fundado em dois pólos distintos. No mundo de hoje, é frequentemente impossível ao homem comum distinguir claramente as obras da natureza e as obras dos homens e indicar onde termina o puramente técnico e onde começa o puramente social. De fato, os objetos técnicos com que diariamente lidamos "não são carne nem peixe", eles são um ente intermediário em que se associam "homens, produtos, utensílios, má quinas, moedas..." (M. Akhrich, 1987, p. 50). Seguindo a proposta de Michel Serres, indaga -nos Latour (1991, p. 73) por que, então, em nossa construção epistemológica não pre ferimos partir dos híbridos, em vez de partir da ideia de conceitos puros? Esta é, também, a posição de Hàgerstrand (1989, 1991b, p. 117) quando propõe tratar de forma simultânea o mundo da matéria e o mundo do significado humano. Quando Simondon se refere ao papel exercido pelo fundo sobre as formas, poderia estar referindo-se à inseparabilidade do sistema de objetos e do sistema de ações, que elegemos como dados centrais de uma definição do espaço geográfico. Essa mesma ordem de ideias é elaborada por Geo rges Balandier (1991), quando propõe a exploração e o reconhecimento desse uni verso atual tão movediço, no qual se inscrevem esses compostos de homens e de técnicas, esses mistos que fazem com que "a definição do social e dos modos de poder seja tão importante quanto o controle das técnicas" (G. Balandier, 1991, p. 9). Daí porque, já sugeria M. Gode lier, nos anos 60 (1966, pp. 254 -255), "todo sistema e toda estrutura devem ser abordados como realidades "mistas" e contraditórias de objetos e de relações que não podem existir separadamente". Para 66 65

naturais (Ph. Queau, 1987, p. 8).

Esses objetos não têm por si mesmos uma história, nem uma geo grafia. Tomados isoladamente em

sua realidade corpórea, aparecem como portadores de diversas histórias individuais, a começar pela

história de sua produção intelectua l, fruto da imaginação científica do laboratório ou da imaginação

intuitiva da experiência. Mas sua existência histórica depende de sua inserção numa série de eventos -

uma ordem vertical - e sua existência geográfica é dada pelas rela ções sociais a que o objeto se subordina,

e que determinam as relações técnicas ou de vizinhança mantidas com outros objetos - uma ordem

horizontal. Sua significação é sempre relativa.

Esses "quase-objetos estabilizados" de B. Latour (1991, p. 130) seriam os mesmos "objetos

viventes" ("living objects") ou "objetos expressando vida" ("objects expressing life") de Whitehead (1919,

p. 195-196) ou ainda esses "seres inorgânicos organizados" ("étants inorganiques organisés") de que fala

B. Stiegler (1994, p. 30).

Nossa proposta da noção de forma-conteúdo (Santos, 1978) é, em geografia, o correlato dessa ideia

de mistos ou híbridos e, ao mesmo tempo, da ideia de forma "monumental" ("forme evénementielle") de

Diano (1994), noção talvez herdada de Aristóteles. A cada evento, a forma se recria. Assim, a forma-

conteúdo não pode ser considerada, apenas, como forma, nem, apenas, como conteúdo. Ela significa que o

evento, para se realizar, encaixa-se na forma disponível mais adequada a que se realizem as funções de que é

portador. Por outro lado, desde o momento em que o evento se dá, a forma, o objeto que o acolhe ganha uma

outra significação, provinda desse encontro. Em termos de signi ficação e de realidade, um não pode ser

entendido sem o outro, e, de fato, um não existe sem o outro. Não há como vê-los separamente.

A ideia de forma-conteúdo une o processo e o resultado, a função e a forma, o passado e o futuro, o

objeto e o sujeito, o natural e o social. Essa ideia também supõe o tratamento analítico do espaço como um

conjunto inseparável de sistemas de objetos e sistemas de ações.

UMA NECESSIDADE EPISTEMOLÓGICA:A DISTINÇÃO ENTRE

PAISAGEM E ESPAÇO

Paisagem e espaço não são sinónimos. A paisagem é o conjunto de formas que, num dado momento,

exprimem as heranças que repre sentam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza. O

espaço são essas formas mais a vida que as anima.

distinguidos "a paisagem percebida, cujo único elemento de unidade é o homem que percebe, e o espaço

A palavra paisagem é frequentemente utilizada em vez da expres são configuração territorial. Esta é o conjunto de elementos naturais e artificiais que fis icamente caracterizam uma área. A rigor, a paisagem é apenas a porção da configuração territorial que é possível abarcar com a visão. Assim, quando se fala em paisagem, há, também, referência à configuração territorial e, em muitos idiomas, o uso das duas expressões é indiferente. A paisagem se dá como um conjunto de objetos reais -concretos. Nesse sentido a paisagem é transtemporal, juntando objetos passados e presentes, uma construção transversal. O espaço é sempre um presente, uma construção horizontal, uma situação única. Cada paisagem se caracteriza por uma dada distribuição de formas-objetos, providas de um conteúdo técnico específico. Já o espaço resulta da intrusão da sociedade nessas formas-objetos. Por isso, esses objetos não mudam de lugar, mas mudam de função, isto é, de significação, de valor sistémico. A paisagem é, pois, um sistema material e, nessa condição, relativamente imutável: o espaço é um sistema de valores, que se transforma permanentemente. O espaço, uno e múltiplo, por suas diversas parcelas, e através do seu uso, é um conjunto de mercadorias, cujo valor individual é função do valor que a sociedade, em um dado momento, atribui a cada pedaço de matéria, isto é, cada fração da paisagem. O espaço é a sociedade, e a paisagem também o é. No entanto, entre espaço e paisagem o acordo não é total, e a busca desse acordo é permanente; essa busca nunca chega a um fim. A paisagem existe através de suas formas, criadas em momentos históricos diferentes, porém coexistindo no momento atual. No espa ço, as formas de que se compõe a paisagem preenchem, no momento atual, uma função atual, como resposta às necessidades atuais da so ciedade. Tais formas nasceram sob diferentes necessidades, emanaram de sociedades sucessivas, mas só as formas mais recente s correspondem a determinações da sociedade atual. Segundo C. Reboratti (1993, p.17) "a paisagem humana é uma combinação de vários tempos presentes". Na verdade, paisagem e espaço são sempre uma espécie de palimpsesto onde, mediante acu mulações e substituições, a ação das diferentes gerações se superpõe. O espaço constitui a matriz sobre a qual as novas ações substituem as ações passadas. É ele, portanto, presente, porque passado e futuro. Paisagem e espaço participam da condição daquelas coisas com "duplo rosto", a que se refere François Ricci (1974, p. 132). Diante delas, corremos o risco de não distinguir essas duas faces ou de separá las de tal modo que acabamos por apenas considerar uma só face de cada vez. A operação só pode ser levada a bom termo quando "a face ignorada, mas não abolida, vem se impor, como face escondida sob a face reconhecida". Tal preocupação já havia sido expressa no primeiro número da revista Espaces-Temps (n.° l, 1975, p. 26) em um artigo intitulado "La Géographie aux Champs", on de o autor (ou autores) pede que sejam

significativo de um fenómeno". Mas a ideia não parece ter prosperado, seja porque o espaço banal é

frequentemente negligenciado (fala-se mais no espaço de um fenómeno do que no espaço de todos os

fenómenos), seja porque a herança epistemológica da geografia constitui um obstáculo a um

tratamento não dualista do problema 42. E Pierre George (1974, p. 7) considera essa noção de

paisagem, tal como utilizada correntemente, como "uma das ambiguidades da geografia, ciência

bifronte, sempre tentada pela pesquisa das fontes da realidade que ela deve estudar" 43.

O espaço não pode ser estudado como se os objetos materiais que formam a paisagem tivessem

uma vida própria, podendo assim expli car-se por si mesmos. Sem dúvida, as formas são importantes.

Essa materialidade sobrevive aos modos de produção que lhe deram origem ou aos momentos desses

modos de produção. Mas, como lembra Bau -drillard (1973, p. 16), "a única coisa que nos dá conta do

real não são as estruturas coerentes da técnica, mas as modalidades de incidência das práticas sobre

as técnicas ou, mais exatamente, as modalidades de obstrução das técnicas pelas práticas".

Só por sua presença, os objetos técnicos não têm outro significado senão o paisagístico. Mas

eles aí estão também em disponibilidade, à espera de um conteúdo social. Marx já dizia que "a

economia política não é a tecnologia" (Grundrisse, Caderno M.). Se o homem, por seu trabalho -

enquanto produtor, residente ou ocupante ocasional - não transmite vida à coisa, essa vida da qual

somente ele é detentor, o objeto permanecerá sempre como tecnologia, e não como economia. Assim

como as forças materiais naturais não se tornam produtivas senão pelo trabalho humano, no dizer de

Jakubowsky (1971, p. 60), o mesmo se passa com as forças materiais sociais, criadas um dia pelo homem

mediante o processo da produção, presente ou passada. Korsch (1967, p. 273, Ap. II) lembra a citação de

Marx (nos Manuscritos Económicos e Filosóficos) da frase de Pecquer, "que falava da virtude mágica da

fecundidade comunicada ao elemento morto da matéria pelo trabalho, isto é, pelo homem". Numa

perspectiva lógica, a paisagem é já o espaço humano em perspectiva.

Durante a guerra fria, os laboratórios do Pentágono chegaram a cogitar da produção de um

engenho, a bomba de nêutrons, capaz de aniquilar a vida humana em uma dada área, mas preservando

todas as construções. O Presidente Kennedy afinal renu nciou a levar a cabo esse projeto. Senão, o que na

42 . "Cumpre pois distinguir entre a paisagem percebida, cujo único elemento de unid ade é o homem que percebe, e o espaço significativo de um fenómeno, que-'ínterfere, é certo, nos demais espaços mais ou menos superpostos em lugares idênticos, mas sem criar um su-perespaço sintético qualquer, aquele que os geógrafos reivindicam, aquele qu e a excursão tradicional pretende estudar. Toda demanda de análise espacial é pois necessariamente invertida; já não se trata de partir de um espaço considerado como em si cujos fenómenos se estudam, mas de fenómenos que criam os seus espaços - eis por que gostaríamos de definir o nosso trabalho coletivo por temas, e não por lugares" ("La géographie aux champs", Espaces-Temps, n." l, outubro de 1975, p. 26). 43 . Para Claude Raffestin (1979, p. 103), não é possível assimilar paisagem e espaço. Para ele, são finalmente duas coisas muito distanciadas uma da outra, dois signos que comunicam mensagens diferentes a uma mesma geoestrutura.

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paisagem supõe a inclusão de seu funcionamento no funcionamento global da sociedade. A paisagem é para mostrar a diferença entre esses dois conceitos.

véspera seria ainda o espaço, após a temida explosão seria apenas paisagem. Não temos melhor imagem

testemunha da sucessão dos meios de trabalho 44, um resultado histórico acumulado. O espaço humano é a

síntese, sempre provisória e sempre renovada, das contradições e da dialética social.45 O que nos interessa

Ao nosso ver, a questão a colocar é a da própria nat ureza do espaço, formado, de um lado, pelo resultado material acumulado das ações hu manas através do tempo, e, de outro lado, animado pelas ações atuais que hoje lhe atribuem um dinamismo e uma funcionalidade. Paisagem e sociedade são variáveis complementares cuja síntese, sempre por refazer, é dada pelo espaço humano. Os movimentos da sociedade, atribuindo novas funções às formas geográficas, transformam a organização do espaço, criam novas situ ações de equilíbrio e ao mesmo tempo novos pontos de partida para um novo movimento. Por adquirirem uma vida, sempre renovada pelo movimento social, as formas tornadas assim formas-conteúdo - podem participar de uma dialética com a própria sociedade e assim fazer parte da própria evolução do espaço. O seu caráter de palimpsesto, memória viva de um passado já morto, transforma a paisagem em precioso instrumento de trabalho, pois "essa imagem imobilizada de uma vez por todas" permite rever as etapas do passado numa perspectiva de conjunto. O autor dessas pala vras, o historiador Marc Bloch (1974, p. 49-50), é, por assim dizer, um dos criadores dessa geografia retrospectiva da qual F. Braudel (1949) nos dá um modelo definitivo em seu livro La Mediterranée. M. Bloch nos põe em guarda contra o risco de querer impor essa imagem - oferecida pela paisagem - "a cada etapa do passado". O que temos diante de nós são apenas fragmentos materiais de um passado - de sucessivos passados - cuja simples recolagem não nos ajuda em muito. De fato, a paisagem permite apenas supor um pa ssado. Se queremos interpretar cada etapa da evolução social, cumpre -nos retomar a história que esses fragmentos de diferentes idades representam juntamente com a história tal como a sociedade a escreveu de momento em momento. Assim, reconstituímos a hist ória pretérita da paisagem, mas a função da paisagem atual nos será dada por sua confrontação com a sociedade atual. Enquanto simples materialidade, nenhuma parte da paisagem tem, em si, condições de provocar mudanças no conjunto. Conforme nos indicou Isac henko (1975, p. 635) "mesmo se todos os componentes da paisagem estão, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamen -te relacionados, uma alteração verificada em uma dada relação não pode 'automaticamente' e 'sem delongas' afetar, na mesma proporção, todas as partes do sistema". Aliás, as mudanças são sempre conjuntas e cada aspecto ou parte é apenas uma peça, um dado, um elemento, no movimento do todo. A paisagem é história congelada, mas participa da história viva. São as suas formas que realizam, no espaço, as funções sociais. As sim, pode-se falar, com toda legitimidade, de um funcionamento da paisagem, como, aliás, foi proposto por C. A. F. Monteiro (1991). Se o conhecimento, como diz Whitehead (1938, p. 225), "nada mais é que a análise do funcionamento dos funcionamentos", então o conhecimento da

aqui mais de perto é que isto nos pode oferecer uma solução para o nosso problema epistemológico.

Marx havia sugerido que os fenómenos fossem considerados sob dois aspectos qualitativos, a

saber: seja a partir de suas qualidades naturais, seja a partir de suas qualidades específicas. Kusmin (1974,

pp. 72-73) retoma essa ideia e considera que, no primeiro caso, são os aspectos mais gerais e abstratos que

primam, enquanto, na segunda hipótese, o fenómeno é visto como um elemento ou um componente de um

dado sistema, isto é, como um fenómeno sistémico.

Considerada em si mesma, a paisagem é apenas uma abstração, apesar de sua concretude como

coisa material. Sua realidade é histórica e lhe advém de sua associação com o espaço social. Lembremos,

aqui, a diferença, proposta, com variantes, por diversos autores, entre "existência substancial" e "existência

relacional", duas formas complementares e opostas de manifestaçã o da objetividade da natureza. Nessa

mesma ordem de ideias, está a distinção feita por Marx e reto mada por Kusmin (1974, p. 67) entre

qualidades sociais de primeira ordem e qualidades sociais de segunda ordem.

As qualidades sociais de primeira ordem são funcionais e materialmente sistémicas porque, de um

lado, refletem certas demandas e estândares sociais e, de outro lado, tem uma forma objetiva

compulsória e são, clara e inequivocamente, materializadas em coisas concretas individuais. Em

contraste, as qualidades sociais de segunda ordem são sistémicas no sentido próprio da palavra. Elas

não são diretamente materializadas em coisas individuais e exprimem as qualidades integrativas do

todo social.

Pode-se pensar numa dialética entre a sociedade e o conjunt o de formas espaciais, entre a

sociedade e a paisagem? Ou a dialética se daria exclusivamente entre sociedade e espaço?

É a sociedade, isto é, o homem, que anima as formas espaciais, atribuindo -lhes um conteúdo,

uma vida. Só a vida é passível desse processo infinito que vai do passado ao futuro, só ela tem o poder de

tudo transformar amplamente. Tudo o que não retira sua significação desse comércio com o homem, é

incapaz de um movimento próprio, não pode participar de nenhum movimento contraditório, de nenh uma

dialética.

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. "A história nada mais é que a sucessão das várias gerações, cada uma das quais aproveita os materiais, os capitais, as forças de produção que lhe transmitem todas as anteriores, e assim, por um lado, continua em condições completamente mudadas a velha atividade e, por outro, modifica as velhas condições com uma atividade completamente mudada [...]" (Marx, I A 34 - trad. cit., p. 49, em Gyorgy Markus, 1973, nota 40, p. 85). 45 . A frase de J. J. Goblot serve para definir tanto a marcha da produção quanto a história do espaço humano: "Tudo se passa como se a humanidade, para progredir, devesse a um tempo preservar a aquisição de su a história passada e livrar-se de seu peso: preservar, sob pena de voltar à estaca zero, a aquisição de seu desenvolvimento histórico anterior, romper com tudo o que, nesse desenvolvimento, era natureza e lhe exprimia os limites" (J. J. Goblot,*agosto de 1967, p. 20).

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uma floresta. A forma já utilizada é coisa diferente. e mais frequente. a precedência que é dada à noção de sistema -mundo é uma dificuldade maior. mas entre sociedade e espaço. os aprofundamentos da ideia central de sistema-mundo. Esse enfoque abre espaço para uma maré de ambiguidades. como paisagem. já que 46 . pois. Não existe dialética possível entre formas enquanto formas. geralmente. em última análise. Ao nosso ver. não se A pode dizer que o tenha abordado de modo sistemático. Esses objetos da ação são. hierarquizado (em relação a zonas fracas) e com limites (que o separam das outras economias) que variam lentamente" (Yves Cohen. não é entre sociedade e paisagem. um presente inconcluso querendo realizar-se sobre um presente perfeito. uma montanha não participam do processo dialético senão porque lhes são atribuídos determinados valores. mas que são um mundo que tem por cacterísticas o ser centrado (em uma cidade). Quando a sociedade age sobre o espaço.Segunda Parte Uma casa vazia ou um terreno baldio. preparado para emoldurar outras formas de ver a realidade. Quanto mais se procuram. não basta. Duas são as versões mais frequentes no tratamento do prob lema. E os fatores considerados não são enxergados como o que eles realmente são. entre paisagem e sociedade. quando são transformados em espaço. O principal escolho está em imaginar que esse quadro. a ideia de totalidade -mundo. vem da vontade de tratar o fato geográ fico como um "fato social total". Mas. Por outro lado. sempre provisória. isto é. é a de reunir todos os elementos que definem uma região. o apelo à noção de sistema -mundo proposta por F. p. O simples fato de existirem como formas. E vice-versa. "O termo não significa que essas economias cubram o mundo. e de alinhar todos os fatores possíveis de uma dada situação local. portadores de ações concluídas mas ainda presentes. à maneira de M. A sociedade se geografiza através dessas formas. A primeira. que também é passado objetivado nas formas sociais e nas formas geográficas en contradas. e jamais sobre a materialidade exclusivamente. O espaço é a síntese. porque forma conteúdo. ou um país. Braudel e vulgarizada por I. Mauss. Em cada momento. a sociedade está agindo sobre ela própria. entre o conte údo social e as formas espaciais. 104). pode. Não se pode dizer que a disciplina haja completamente abandonado esse tema. maior a dispersão e a distância quanto a uma proposta analiticamente válida. A dialética se dá entre ações novas e uma "velha" situação. dotados de uma presença humana e por ela qualificados. a rigor. ser atribuído ao fato geográfico. A paisagem é apenas uma parte da situação. como solução epistemológica. A busca. também. mas como realidade social. enquanto sociedade e como espaço. isto é. 1994. Quase sempre o lugar acaba sendo visto como se fosse autocontido. A situação como um todo é definida pela sociedade atual. inspira um fastidioso discurso filosófico e encontra. APRODUÇÃODAS FORMAS-CONTEÚDO 4 ------------------------ OESPAÇOEANOÇÃODETOTALIDADE INTRODUÇÃO questão da totalidade tem sido enfrentada pela Geografia de maneira tímida. isto é. na economia e em outras disciplinas. e um presente localizado. forrnás-conteúdo. isto é. entre um presente invasor e ubíquo que nunca se realiza completamente. Ela se torna espaço. 72 71 . ao longo da história. vai mudando. tão simplesmente. Wallerstein 46. um sistema. Mas a contradição principal é entre sociedade e espaço. pois seu conteúdo é social. Nem. atribuindo-lhes uma função que. A dialética. isto é. ela não o faz sobre os o bje-tos como realidade física. objetos sociais já valorizados aos quais ela (a sociedade) busca oferecer ou impor um novo valor. A ação se dá sobre objetos já agi dos. desse modo. um lago. não raro.

no Tractatus. as partes de B (b b b . no momento B. explicita ou implicita mente. No Tempo 2. clássica nos legou. Além disso. imediatamente consecutivo ao mo - mento A. e apenas ela. que se transformam 1 2 3 em b b b . enquanto as mudanças são globais e estruturais e abrangem a sociedade total.. É. p.. reconhecer as suas metamorfoses e o seu processo e analisar as suas implicações com a própria existência do espaço. a ideia de totalidade-mundo é reduzida a um dos seus aspectos e. O aumento da população total. Isto pode ser expresso em outros termos. Mas não é essa a ambição correta. Goldmann (1967. Brunet & O. a totalidade das situações. Cada coisa nada mais c que parte da unidade. o papel dos eventos e da divisão do trabalho como uma me diação indispensável. e 74 73 . L. urgente. Cumpre-nos.. A noção de totalidade é uma das mais fecundas que a f ilosofia. Johnston &c P.para examinar as relações efetivas entre a To talidade-Mundo e os Lugares. É assim que a totalidade evolui ao mesmo tempo para tornar-se outra. Em nosso ponto de vista. uma Formação Social. Citemos. divide -se novamente em partes. a realidade é a totalidade dos estados de coisas existentes. incorporar a ideia de totalidade à análise geográfica. não há como deixar de reconhecer a emergência dos espaços da globalização. retomar a ques tão. 13) "o geógrafo se esforça por realizar o velho sonho do filósofo: apreender o real em sua totalidade". Para isso. Dollfus (1990). As partes de A (a a a . pois. é a Totalidade que explica as partes. quem fale num espaço global. a população urbana já não é a mesma. Brunet (1962. mesmo.. é bem circunscrever o nosso objeto de trabalho. Mas trata -se de outra entidade? Ou estaremos diante da mesma sociedade em movimento? Quando a sociedade muda. Ao contrário. A totalidade é o conjunto de todas as coisas e de todos os homens. o Mundo. isto é. Mas essas áreas geográficas de realização concreta da totalidade social têm papel exclusivamente funcional. b"). sem a qual o requisito da pertinência não será atingido. da população urbana e da pro dução industrial não se deve à influência do movimento próprio das parcelas localizadas nas diferentes regiões. geralmente. A Totalidade B. substituem a visão cons titutiva do fenómeno. uma metageografia que ofereça um sistema de conceitos capaz de reproduzir. a questão se coloca com mais acuidade e mais urgência. na inteligência.. Se esta última asserção suscita dúvidas. mas ao movimento global decorrente das forças mais gerais responsáveis pela distr ibuição geográfica das diversas variáveis sobre o conjunto. . R. ou seja o resultado do movimento de transformação da Totalidade A. de uma população urbana em crescimento e de uma produção indus trial também em crescimento. isto é. e em seu movimento. constituindo em elemento fundamental para o conh ecimento e análise da realidade. da técnica e da informação. Retaillé (1992). Taylor (1986). Lévy. Peet (1991) e os de Durand. de um aspecto da realidade global. isto é. Segundo essa ideia. isto é. as situações reais enxergadas do ponto de vista dessa província do saber. 94) nos diz que a totalidade é o "conjunto absoluto da s partes em relação mútua". e possível. São 1 2 3 diferentes. metáforas. Imaginemos que ela dispõe de uma população global em crescimento. Tomemos o caso de uma dada sociedade. graças aos progressos conjuntos da ciência. este ficando subjugado por alusões. retomar o conceito de totalidade. o enfoque adotado conduz. um caminho seria partir da totalidade concreta como ela se apresenta neste período de globalização . sob esse ângulo. O que a caracteriza no Tempo l não é aquilo que a define no Tempo 2. que 1 2 3 n explica suas próprias partes. o conjunto de suas funções muda em quantidade e em qualidade. todas as coisas presentes no Universo formam uma unidade. do todo. Segundo R.A NOÇÃO DE TOTALIDADE conduz a dois problemas. por exemplo. Cabe. mas a totalidade A que se transforma em totalidade B. ou a Formação Socioeconômi ca. As partes que formam a Totalidade não bastam para explicá-la. Mas ainda não foi tirado todo proveito da noção de totalidade como categoria analítica capaz de ajudar a construir uma teoria e uma epistemologia do espaço geográfico. analogias. 1984). p. mas é indispensável que o faça a partir de sua própria província do saber. 1 2 3 Eis por que se diz que o Todo é maior que a soma de suas partes.. reexaminando.. No seu livro Origem da Dialética. de outro lado. o Todo é diferente do Todo anterior. Isso equiv ale a revisitar o movimento do universal para o particular e vice versa. encontraremos situações diferentes daquelas do Tempo 1. R. A primeira tarefa. reexa -nínar as suas formas de aparência. De um lado. Recentemente esforços têm sido feitos para. mas a totalidade não é uma simples soma das partes. estamos convivendo com uma universalidade empírica (Santos. Assim. sem dúvida. que. já que agora dispomos das condições históricas que permitem irver o assunto e avançar novos enfoques. Hoje. Para Wittgenstein. é a Totalidade B. os estudos de R. em sua realidade. Pela primeira vez na história da humanidade. a produção industrial já não é a mesma. As partes correspondentes à Totalidade B já não são as mesmas partes correspondentes à Totalidade A. O mundo se globaliza e há. a primeira tarefa é a construção de uma filosofia menor. E não são as partes a a a . em nenhum caso. desse modo. Tais funções se realizam onde as condições de instalação se apresentam como melhores.uma totalidade empírica . A totalidade é a realidade em sua integridade. A população total já não é a mesma. em suas relações.. É o que pretendemos fazer a seguir. comparações. a noção de totalidade permite um tratamento objetivo. a análises externas ao fato geográfico. a ) deixam de existir na totalidade B. ao geógrafo propor uma visão totalizante do mundo.

] O leitor que nos seguiu até aqui. pp. à totalização em processo" (Sartre. pp.. sem pensar a sua cisão é como se a esvaziássemos de movimento. um resultado e uma totalidade in-fieri. A totalidade estruturada é... um outro todo. 52) a A CISÃO DA TOTALIDADE totalização compreenderia o passado. TOTALIDADE E TOTALIZAÇÃO Uma forma de afrontar o problema é retomar de Sartre a distinção entre totalidade e totalização. assim. constitui para nós a mais importante categoria filosófica. 49 . Kosik (1967).a partes: "Teoria do Homem e do Cidadão"). p. não foi invenção de Sartre. vol. a e 3. 1968. mas a natureza historicizada. a natureza se tornando natureza e a natureza feita natureza já não são mais a natureza natu ral. continuar a ser totalidade. que está sempre se desfazendo para voltar a se fazer. um processo. como no campo ético e estético. Em seu tratado Elementorum Philoso-phia. 47 . p. Será adequado aproximar dessa noção a ideia de "espaço espacia -lizante e espaço espacializado". mas apenas totalidades em movimento. E Wittgenstein (1921. Como. 281-282) na Phénomenologie de Ia Percept ion? Ou retomar de Feuerbach as expressões natura naturans. A isso se chama de totalidade concreta. essa convergência e essa distinção são fundamentais ao encontro de um método. Segundo Benetti (1974). Mas o universo não é desordenado. 41-42). E. o futuro. em movimento. ao mesmo tempo. Em outras palavras. sua divisão. não vemos nessa totalidade alguma coisa de já existente e de dado. o cosmos" (Lucien Goldmann. como Georg Lukács. mas as duas convivem. p. Daí a necessidade de buscar reconhecer a ordem no universo. segundo G. a verdade é algo que se torna. a palavra já havia sido usada por Proudhon em De Ia création de 1'ordre dans l'humanité. aparece. num incessante processo de totalização. Jonathan Lee. Gurvitch (Cahiers de Sociologie. têm. 1976. na verdade. conjuntamente o Planeta. Desse modo. 30) considera a decomposição do todo como "o traço mais característico do conhe cimento".. a natureza e a comunidade humana 47. enfrentar a árdua tarefa de entender a totalidade? A primeira noção a levar em conta é a de que o conhecimento pressupõe análise e a segunda noção essencial é a de que a análise pressupõe a divisão. "Para nós.. Lefebvre já a distinguia da totalidade em seu ensaio de 1955 sobre o asunto e. elas próprias . Karel Kosik (1967. de novo. assim. nos diz Sartre 49. totalidade.. pp. por outro lado. O processo histórico é um processo de complexificação. conforme ensinado por K. Fatos isolados não significam nada.]". salvo desmontando o todo e estudando. mas a ordem que as coisas. "[. Ou.. 46]" (Martin Jay. dá origem e explica a outra. [JeanPaul Sartre. em sua Dialética do Concreto. a totalidade se vai fazendo mais densa. l. como quer Karpik (1972). a flecha do tempo somente se dá por intermédio de totalizações. Para a análise geográfica. London. Na interpretação de Urs Jaeggi (1969. A ordem buscada não é aquela com a qual organizo as coisas no meu espírito. mais complexa. Como. em outras pala vras.1961. toda totalidade é incompleta. 1967. O real é o processo de cissiparidade. Cada qual. apreendê -lo? A propósito da totalidade.] A totalização. É uma totalização que está sendo totalizada continuamente. devemos distinguir a totalidade produzida e a totalidade em produção. a cada momento. Theory of Practical Ensembles. pela mediação das diferentes totalidades parciais. Coube a Sartre entretanto elaborar em pormenores extraordinariamente ricos os processos de totalização e destotalização que constitu íam o que ele chamava de 'a inteligibilidade da Razão Dialética'. a forma e o movimento dos elementos [. no mesmo momento e nos mesmos lugares. oferecida por Merleau-Ponty (1945. o nós. isto é. é impossível saber com exatidão qual é a função de cada uma das peças e pequenas engrenagens. única coisa capaz de criar a comunidade humana. Daí o interesse de compreender o processo pelo qual a totalidade é cindida. pp. de acordo com Georges Gurvitch [1962. p. "[. e o conjunto do universo. 1984. E não há precedência a buscar entre natura naturans e natura naturata. esse par contraditório e complementar que revela a marcha da história e as relações da sociedade com o meio? Apenas. ao seu tempo.4.. Essa totalidade do real. em suas duas formas principais: o universo e a comunidade humana. produto de um movimento real. desse modo. compreende subdivisão. não são nem ver dadeiros nem falsos enquanto não são relacionados. de 1843. natura naturada. 173]. A Totalidade está sempre em movimento. Thomas Hobbes diz que "tal como num relógio ou outro mecanismo algo complexo. um por u m. a primeira sendo o resultado e a segunda o processo 48. do país. de uma cidade. não há para Sartre totalidades estáticas. acabada. Mas a totalidade é uma realidade fugaz. quando se refere ao Estado (2. O todo é algo que está sempre buscando reno var-se. uma totalidade "perfei ta". a É a realidade do todo o que buscamos apreender. Essa é a história do mundo.O conhecimento da totalidade pressupõe. Não é isso mesmo o que vemos na cidade no campo ou em qualquer outro recorte geográfico? Tal evolução retrata o movimento 48 . Search for a Method. Merleau -Ponty nos alerta para os riscos de trabalharmos com uma totalidade confusa. já compreendeu sem dúvida que a totalidade. 351 -352). Pensar a totalidade. esfacelamento. 30-31). t anto no campo epistemológico. este podendo ser visto como um todo estr uturado do qual nos incumbe descobrir suas leis e estruturas internas. em que as relações representacionais se cancelam mutuamente. 462) chama a atenção p ara os perigos de uma totalidade tautológica. Assim. porque está sempre buscando totalizar -se. o presente. mas somente um fim a ser atingido peia afão. a matéria. "como um conjunto inerte e um momento da totalização que está em curso". 76 75 . "Critique of Dialectical Reason". ela tem e terá de tornar-se. porque vazia. 1971). para se tornar. porque sem referência à realidade.

Enquanto diferencial. ela é apreciada em suas manifestações particulares de forma. num primeiro momento. O problema do tempo se levanta em toda plenitude. não apenas projeto e não ainda realidade terminada. e a" existência é o ser em ato. p. incluindo as geográficas. for others. Badiou (1975. para os outros e para o todo ("Every thing hás some value for itself. Trata -se de um movimento pelo qual o único se torna múltiplo e vice -versa. Pode-se dizer que é a Terra que estabiliza a existência". and for the whole"). O particular se origina no universal e dele depende. OUNIVERSAL E O PARTICULAR:AATUALIDADE O processo histórico é um processo de separação em coisas particu lares. "está permanentemente em processo como História e como Verdade histórica". da essência em existência. como o afirma E. Para alcan çar a verdade total. diz o Sartre dos Problemas de Método (1960). conseqüentemente. de transportar o universal no particular e logo expulsar este último do universal. como aquilo que lhe dá corpo e atribui um lugar a cada coisa existente. através do processo de totalização. O existencialismo de Sartre receberia duas heranças de Hegel. A produção em geral.. p. escreve Regis Debray (1991. Dardel (1952. de fragmentação e de recomposição. isto é. antes do mais.. também. é necessário reconhecer o movimento conjunto do todo e das partes. O todo somente pode ser conhecido através do conhecimento das partes e as partes somente podem ser conhecidas através do conheci mento do todo. p. relação ou produção específicas. especificação do todo social. 21) reside no reconhecimento do processo.. só se realiza completamente. A significação somente é obtida quando alcançamos entender o que Whitehead chama "the specious Present". é a realidade configuração territorial e a totalização que se está fazendo. para ser despedaçado50. a sociedade seria.193Q. da potência em ato é. Essa totalização.] o espaço terrestre aparece como a condição de realização de toda realidade hist órica. significada pelo que chamamos de espaço. A totalidade é. parciais. o Ser e o espaço. a metamorfose da unidade em multiplicidade. Como nos diz A. de relação. 1953. Assim. mas é sustentado e contido no todo. 59) "[. não são mais que um real abstrato. mas um encadeamento de divisões". p. diz Whitehead (1938. Só se torna existência. isto é. A atualidade é unidade do universal e do particular: este aparce como se fosse separado. através do qual o todo é visto como cisão. pois a "interpretação dinâmica dos fenómenos" sugerida por F. A coisa acabada nos dá uma cristalização do movimento. Essas duas verdades são. através de fins particulares. Short Treatise.] Não existe senão Uma Totalidade. "O Se o ser é a existência em potência. existindo por si. 83). a sociedade em geral. o espaço. de função. ao mesmo tempo. E a cada momento de sua evolução. Daí o erro stalinista. 78 77 . através das formas sociais. essa atualidade cuja percepção exige que o todo seja surpreendido em seu A PRECEDÊNCIA DO PROCESSO movimento. 105) para con siderar que o movimento da totalidade permite entendê -la. a verdade tende a se tornar uma totalização.1968. movimento não é uma sucessão de unidades. Enquanto integral. pois o presente contém um apetite para um futuro não realizado. como uma integral e.um estado de divisão -. representada pela paisagem e pela do processo total que constitui a realidade verdadeira. 61). frequentemente. porém. Volta a ser real -abstrato. l. que existe por si mesma e é um suporte para todos os outros atributos" (Spinoza. de valor.sempre emergindo. Parafraseando Lukács. mas não a própria vida. "[. em abstraio. p. p. segundo Sartre. um aspecto particular da sociedade global. o real -abstratõ e o real-concreto. J. 1965. um enfoque "duplo e contraditório". Por isso. já um outro todo. 16). A metamorfose do real-abstrato em real-concreto. O todo múltiplo volta a ser único no momento seguinte. num segundo momento. a totalidade é v ista como algo uno e. Barnes (1963. em concreto. cuja realização concreta somente pode dar -se no espaço. afinal. É o espaço que. um processo de análise e síntese ao mesmo tempo. . p. Para esse filósofo. vem do valor que as coisas têm para elas mesmas. p. p. o real concreto sendo uma ação. 61). E a melhor maneira de surpreender esse movimento é observar a cisão da totalidade. Riu (1968. O sentido da atualidade. permanente que interessa à análise geográfica: a totalização já perfeita. Também Lukács chama a atenção para esse momento de passagem. Cada nova totalização cria novos indivíduos e dá às velhas coisas um novo conteúdo. é. como uma diferencial. o presente iminente. X): a verdade é algo que está 50 A atualidade deve ser vista como realização do interesse objetivo do todo. E. O processo de totalização conduz da velha à nova totalidade e constitui a base do conhecimento de ambas. pronto. inconcluso. apontado por J. que é a realidade definitiva. "O múltiplo é o futuro do único". o ser do estado transitório é o processo .. 128). O processo pelo qual o todo se torna um outro todo é um processo de desmanche. a totalidade sofre uma nova metamorfose. específicas. Goblot (1967. assim. permite à s ociedade global realizar-se como fenómeno. cuja historicidade. a Existência. na interpretação de H. Inspiremo-nos em Cassirer (vol. a essência da existência reside na transição entre o já dado e a nova solução.

ela é plena. por tais efeitos de especialização. 1975. E viceversa.. A palavra Objeto é aqui empregada na acepção que geralmente lhe dão os sociólogos. "Por 'objeto' entendo qualquer r ealidade. pois o espírito é o movimento de se tornar outra coisa para si mesmo. condicionar as novas qualidades e quantidades possíveis. Essas são possibilidades. através da experiência. Enquanto real-abstrato. por exemplo. Essa noção de "inércia-dinâmica". ed. A particularidade resultante combina algumas das possibilidades atualmente oferecidas pelo 52 Todo e mais o que resta da particularidade ultrapassada. transformam-se em extenso. compreendendo tudo o que existe no mundo da concreção e no mundo da representação e do imaginário 51. um absoluto. É o papel do contexto preexistente. esses objetos. A fenomenologia é a transmutação do real-abstrato em real-concreto. cria uma particularidade. 1. 1972). uma nova ação apenas pensada. uma certa combinação de quantidades e qualidades. juntamente com a ideia de "forma -conteúdo". na Metafísica (Livro III. uma maneira de ser: ele reproduz o Todo e só tem existência real em relação ao Todo. isto é. Meliujin acrescenta: "Para que a pos sibilidade se transforme em realid ade precisam-se de dois fatores na natureza: primeiro. 56). na prática não o é.OBJETIVAÇÃO. A palavra Perfeito se aplicará. a essência é o que um ser tem para fazer. Para Aristóteles. ao movimento do Todo. Teoricamente. Essa metamorfose é permanente. e segundo. Segundo Hegel. conceito. simultaneamente. São possibilidades ainda não colhidas pêlos atores. a essas entidades. então. . como: indivíduo. Pré face to Phenomenology. com a plenitude de seu ser ou. III.]" (M. 51 Lugar. Através da fac-ticidade. a criação de condições propícias" (p. depois. nos quais algumas de suas possibilidades se tornam realidade. todo ser em ato tem a potência. real-concreto. como possibilidade realizada". ainda irrealizado. INDIVIDUAÇÃO. passamos do "absoluto" irrealizado ao "relativo" realizado: para cada caso. como. com um máximo de potência. em outras palavras. a ação de leis objetivas. Kaufman. É a ação que une o Universal ao Particular. um objeto operacio-nalizado. p. Cada ator a toma segundo uma maneira. o todo de existências é dado como relatividade. Cada indivíduo é apenas um modo da totalidade. chamadas a se realizar. mas o que tem a potência nem sempre passa ao ato. O movimento que a transforma em multiplicidade i ndividualiza a totalidade por meio das formas. um objeto para si mesmo e. que continua íntegra.ESPACIALIZAÇÃO:AS FORMAS-CONTEÚDO A totalidade (que é una) se realiza por impactos seletivos. Tais essências seriam. mas raramente é usada em plenitude. esse papel de inércia dinâmica das formas-conteúdo . assim. possibilidades reais. em um dado momento e lugar. E esta sobreviva como Particular. Pessoas. O movimento da totalidade é também um movimento de busca da objetividade. Daí essa resistência do espaço quando do impacto dos novos eventos. O todo de essências. As existências são manifestações particulares do Ser: este gene ticamente precede a existência. "a possibilidade representa uma tendência real . e Santos. aqui. que caracteriza as diversas direções no desenvolvimento do sistema. e não ide ais. 6). é proposta notadamente em Santos. 1966. vagando. oculta nos objetos e fenómenos. instituições se caracterizam. "o espírito torna -se um objeto. A totalidade como latência é dada pelas suas possibilidades reais mas histórica e A TOTALIDADE COMO POSSIBILIDADE geograficamente irrealizadas. 80 79 . para ser ultrapassada pêlos novos movimentos. sublimar esse estranhamento" (Hegel. uma ação historicizada e geografizada. absoluta. Há.Então o mundo se dá como latência. uma técnica é nominalmente plena. a totalidade é potência: é através das formas que se torna ato. geografizadas) através da ação. Assim. cap. porque a totalidade está em perpétuo movimento. mas sempre como função da totalidade. elas se tornam realizadas (historicizadas. portanto são latências. pois. uma técnica perfeita. 227).. Através do processo histórico. uma norma em vigor como resultado de um jogo de forças possível. De resto. Já a realidade é tudo quanto existe objetivamente. em um dado momento: uma técni ca nova ainda não historicizada. Esse Real se dá como configuração viável da natureza e do espírito. Levando o universal ao O que Hegel descreve como a Fenomenologia do Espírito é a metamorfose da Ideia em Objeto e do Objeto em Ideia. 226) distingue entre possibilidade e realidade. A particularidade ultrapassada precede a universalidade atual e sucede à universalidade defunta. isto é. O que chamamos totalidade é a Ideia hegeliana. instituição. Godelier. classes. um objeto técnico perfeito. o Real Possível. Por exemplo. Meliujin (1963. p. podemos conceber a totalidade como um todo de "essên cias" e como um todo de "existências". Segundo Aristóteles. para considerá-los como plenos. Eles ocupam os objetos como sua essência e atividade. O mesmo se dá com os lugares. 1984. definidos em 52 . As existências são uma técnica em funcionamento. um movimento interativo no qual particularidade e universalidade fertilizam-se mutuamente. coisa [. Disponíveis até então. até que. essas combinações irão. por sua vez. Para ele. coletividades. isto é. como um conjunto de possi bilidades que ficam por aí. uma ação perfeita. como fonte de sua possibilidade. é formado por Objetos Perfeitos. uma norma perfeita. em qualidades e quantidades. Os fragmentos de totalidade assim tornados objetivos continuam a integrar a totalidade. empresas.

É assim que a história se fa z. aparece como realidade e assim é vivida. É esse o próprio princípio da diferenciação entre lugares.. a unidade com a diferença. ou de uma maneira unívoca pois. portanto não-real. de fato não é algo estranho à realidade.. as "circunstâncias". Mas. porque o espaço não é apenas Durante muito tempo. a essência se transforma em existência. pp. Carlos. a formaconteúdo tem um papel ativo no movimento do todo social. função e forma segundo um movimento linear. Também não podemos pensar numa totalidade. considerar uma dialética que hierarquize estrutura (essência. mas não pode fazê-lo no movimento real (movimento do real e da ideologia conjuntamente). modelando um subespaço do espaço global" (M. em nossos dias.] O lugar não é um fragm ento. No exame do processo que levou a constituição de um evento. exatamente porque o s ímbolo. De acordo com Sartre (Critique de La Raison Dialectique. Anderson (1973. Essa seletividade tanto se dá no nível das formas. totalidade nua) processo. que é também particularização. a forma torna -se capaz de influenciar. o todo em partes e. estrutural. p. L. Quando. As ações não se localizam de forma cega. "[. O desen volvimento desigual e combinado é. É asim que eles se dão como indivíduos e que eles participam da realidade social. por meio de suas variáveis. Tomada forma-conteúdo pela presença da ação. 139). a ideologia não pode apenas ser vista em termos puramente subjetivos. Melhor. no mesmo objeto.. a ideologia e os símbolos. à materialidade. ape nas. pois isso nos obriga a refazer o caminho que leva da essência à existência e no qual encontramos as coisas em movimento. Desse modo. assim. numa essência que seriam formadas de uma parte "real" e uma parte "falsa". a totalidade se dá de forma específica. é insuficiente considerar.. Nessas condições. neste fim do século XX. desse modo. o processo de transformação de uma totalidade em outra totalidade. desse modo. Mas. lembra J. da dialética soci al. nesse lugar a história real chega também com os símbolos. as "condições". 81 . 1960. como essa parte dita falsa da estrutura têm um papel motor e . Silveira. de volta. o universal. porque é real. pensar um objeto que seria constituído de uma parte "real" e de uma parte "falsa". consagrando mudanças não homólogas do valor relativo de cada variável. a estrutura necessita da forma para tornar -se existência e. que é uma integral. há objetos que já nascem como ideologia e como realidade ao mesmo tempo. dos impactos do Todo. o desenvolvimento da totalidade. pois. devem paralelamente ser considerados.. dáse. assim. p. quantitativ a e qualitativamente. e que frequentemente tomam a forma de objetos. talvez. em suas partes . os lugares reproduzem o País e o Mundo segundo uma or dem53. já que a ideologia é também essência. na representação. 303). E la é mais do que aparência. quando aconselha fazer encontrar. na origem. cada v ez mais se manifesta como real concreto. participando.. no e spaço. como cria o real. por sua própria natu82 53 . E mais: tanto essa parte dita real. J. Não se pode. às configurações geográficas. O movimento da t otalidade para existir objetivamente é um movimento dirigido à sua inclui. Esse caminho não é mais capaz de portar frutos. como estando "toda apenas na cabeça" dos outros. através do evento. O mesmo se dá com as instituições e infra-estruturas. de pleno direito. assim. A ideo logia é. produzindo combinações específicas em que as variáveis do todo se encontram de forma particular. um dado da essência e um dado da existência. pois "não podem ser reduzidos à lógica universal". 1993.. por uma distribuição ordenada. o meio histórico. mas condição de sua realização qualificada. constituía uma necessidade opor essência e aparência. Essa dialética concreta também espacialização. 2). às paisagens.] o todo está inteiramente presente na parte como seu sentido atual e seu destino". na medida em que a vida social se complica. estaremos atri buindo um novo estatuto aos objetos geográficos. também. p. outrora considerada como falsa. real.] O lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial que se anuncia e a especificidade histórica do particular" (Ana Fani A. 1993. A ideologia produz símbolos. uma ordem. de outro lado. Assim. Fica mais claro. para cada lugar. p. a ideologia toma o lugar do referido. desse modo. Ela está na estrutura do mundo e também nas coisas. mas também a partir de sua realidade concreta. A ideo logia. "[. num lugar. já que. cuja inteligência é apenas possível mediante o p rocesso de totalização. A ideologia é um nível da totalidade social e não apenas é objetiva. de um lado. se afirma e se nega. a totalidade social é formada por mistos de "realidade" e "ideologia". Goblot (1967. nem é aparência apenas. Os homens também não.que são as suas diferenciais. "[. separadas uma da outra. Essa visão renovada da dialética concreta abre novos caminhos para o entendimento do espaço .. 204-205). pois as determina ções do todo se dão de forma diferente. que é também meio geográfico. 10). criados para fazer parte da vida real. O PAPEL DO SÍMBOLO E DAIIDEOLOGIA NO MOVIMENTO DA TOTALIDADE A transformação do todo. é opor e confrontar essência e existência. A realidade inclui a ideologia e a ideologia é também real. Não podemos. como no nível do conteúdo. fatual. numa estrutura. isto é. um real abstrato. Ela é um fator constitutivo da história do presente. virtude dos impactos que acolhem. É essa ordem unitária que cria a diversidade. é a própria totalidade em movimento que. Assim como propôs J. ao mesmo tempo. Sendo. Trata-se de uma evolução diacrônica.um receptáculo da história.

O trabalho a que preside corresponde ao tempo que sobre ela se estende". mediante as trocas de energia entre os seus elementos.1964. ao mesmo tempo.1965. desse modo. essência e aparência guardam todo seu valor analítico. num mesmo movimento. "as mudanças de um objeto resultam das suas diversas relações com eventos diversos" (pp. Para Whitehead (1919 ). mas o momento seguinte as separa. tornam -se possíveis o entendimento do processo e a busca de um sentido. 63). INTRODUÇÃO categoria divisão do trabalho pode ser mais largamente explorada nos estudos geográficos. a reunião in dissociável de objetos e eventos. a comparação de um evento com outro seria intrinsecamente impossível". A divisão do trabalho constitui um motor da vida social e da diferenciação espacial. Uma vez iniciada. há. 62-63). e. 282).. enquanto mudam os seus aspectos e ela própria muda como um todo. o movimento da sociedade. existindo por si só. É o seu processo de interação. enfrentar a tarefa da análise? As noções do real e simbólico. Para Eaton (1925. o movimento da totalidade (e do espaço) modifica a significação de todas as variáveis constitutivas. diferentes camadas de validez tornam se evidentes e a realidade parece se separar brutalmente da aparência" . 205) "[. aos outros. 63) já que. o símbolo se destaca.] todo símbolo é equivalente a si mesmo e pode substituir a si mesmo em qualquer contexto sem alteração de sentido. para os fabricantes de significados. não importa qual seja o contexto. real e ideológico. produtos cujas características derivam a cada movimento do respectivo modo de diversificação.o movimento do Todo é. isto é. Para ele. dispõe de autonomia. novos Mundos. p. Em outras palavras. o que permite distingui-las. mais sistematicamente.. em sua Cosmologia. ao mesmo tempo em que. se solta. que cria e recria o espaço e o tempo. Com a sociedade em movimento . movimento dos elementos de "verdade" e movimento dos ------------------------ DA DIVERSIFICAÇÃO DA NATUREZA À DIVISÃO TERRITORIAL DO TRABALHO Como escreve Cassirer (1957. Cada símbolo guarda a mesma identidade. a cada movimento. pois cada símbolo apenas pode ter um sentido". "a questão da verdade parece somente aplicar-se para determinadas partes e não para o todo da realidade. É assim que a natureza faz -se outra. desse modo. É nesse mesmo sentido que o mesmo Kant afirma ser a História progresso infindo. Dentro desse todo. não pára. paralelamente. Por isso mesmo. conhece um movimento perpétuo. sua qualidade epistemológica. O presente une as coisas. associando a ideia de distribuição de A recursos à própria noção de evento. às noções de totalidade e de tempo. DA DIVERSIFICAÇÃO DA NATUREZA À DIVISÃO DO TRABALHO O mundo natural. o objeto é sem tempo e sem espaço (p. 84 83 . Quando a sociedade. p. uma exigência de renovação das ideologias e dos universos simbólicos. do movimento geral e continua o mesmo que era no momento anterior.5 elementos ideológicos. Trata -se de combiná-la. jamais se completa. a cada nova divisão do trabalho. produzindo novos objetos. Está sempre ocupada. Como. pelo qual sua identidade se renova enquanto se modificam os seus aspectos. quando diz que "a criação jamais termina. A tese de Whitehead supõe. reza. A um modo de diversificação sucede um outro modo de diversificação. processo pelo qual se constituem entida des a que chama de elementos naturais. "os objetos somente estão no espaço e no tempo por causa de suas relações com os eventos" (p. porque este não segue o movimento. "sem os objetos. novos cenários. Kant já o havia assinalado. a cada nova transformaç ão social. mesmo numa situação de movimento e mudança. com a história se fazendo . é cindida.isto é. É o que Whitehead intitula diversificação da natureza. também a do símbolo.

O espaço como um todo reúne todas essas formas locais de funcionalização e objetivação da totalidade. mais ou menos detalhadas e. populações. ainda não dotado de próteses que aumentem seu poder transformador e sua mobilidade. Esta é o valor que permite à totalidade dos recursos (mundial ou nacional) funcionalizar -se e ob- jetivar-se. Graças a essa ação transformadora. isto é. movida pela produção. 166).energia comandadas pelo homem. as expressões "entidades" e "elementos naturais" da tese de Whitehead devem ser lidas como "lugares" em nossa versão disciplinar. A diversificação da natureza é processo e resultado. de população. A análise de fato revela os componentes. Esses padrões são analisados através do que Whitehead chama de "eventos ou ocasiões". 1946. Isso se dá em lugares. se renovam. já que estas interferem em todas as fases do processo de produç ão. o mundo humano se renova e diversifica. A primeira presença do homem é um fator novo na diversificação da natureza. também à escala global. da significação conjunta que todos e cada qual obtêm pelo fato de participar de um lugar. que a definem. que correspondem aos pontos -instantes de Alexander. isto é. O movimento das partes. nenhum recurso tem. juntamente com outras atividades. se realize uma outra diversificação. aqui. Com a indústria. valores. as inven ções técnicas vão aumentando o poder de intervenção e a autonomia relativa do homem. até certo ponto. sentimentos. admitem que. a rigor. . tornada claramente internacional. instituições). Sem dúvida. um valo r absoluto. embora mude a energia que as move. uma diversificação da natureza em estado puro. propomos comparar o papel que. Ao papel que. Por outro lado. "Sua teoria da natureza assemelha-se muito à de Alexander. a teor ia de Whitehead vê "a natureza como consistindo de padrões móveis. uma totalidade. por recurso. o "social" ficava nos interstícios. p. seja ele um estoque de produtos. de fato. porém lhes desintegra a estrutura. Hoje. material ou não. amplia-se a tendência a que. É a partir da distribuição desses dados que os homens vão mudando a si mesmos e ao seu en - torno. segundo suas próprias classificações mais ou menos específicas. enquanto a divisão do trabalho é um processo progressivo. dinheiro. mas subordinado. o motor da divisão do trabalho. ideias. isto é. sempre presente a cada momento os recursos são outros. Com a marcha do capita lismo. Mas. é representado pela divisão do trabalho. são idênticas a essência e a estrutura (ou padrão. Depois. En tendemos. inovações. de emprego ou de inovações. juntos. e Whitehead partilha a visão de Alexander segundo a qual a essência de uma coisa complexa é idêntica à sua estrutura ou ao que Alexander chama de seu ' padrão'" {Collingwood. As economias mundo de que fala Braudel marcam uma etapa importante nesse processo. e estes são analisados no que ele chama de eventos ou ocasiões. por si mesmo. isto é. através das novas formas de é a informação. mediante forças sociais. ele se recusa a acreditar que o ser ou essência real de uma coisa complexa seja descoberto pela análise dos e ventos de que ele se compõe. Mas. nas coisas complexas. A definição conjunta e individual de cada qual depende de uma dada localização. Primeiro. Recursos são coisas. ser vista como um processo pelo qual os recursos disponíveis se distribuem social e geograficamente. p. Nessa versão geográfica. no mundo histórico. naturais ou artificiais. acrescentando ao processo de mudança um dado social. hoje é o "natural" que se aloja ou se refugia nos interstícios do social. também. ao contrário de alguns que adotaram o seu método analítico. deriva de um processo devido unicamente às energias naturais desencadeadas. como prefere Alexander) 54. Num primeiro momento. Esses eventos e ocasiões coincidiriam com o que Alexander intitula ponto-instantes. de ação oferecida aos homens (indivíduos. Tal distribuição de atividades. A divisão inter nacional do trabalho é processo cujo resultado é a divisão territorial do trabalho. as duas situações se aparentam. E o seu efetivo valor somente é dado pelo lugar em que se manifest a. O valor real de cada um não depende de sua existência separada. produtos. ao mesmo tempo em que se vai ampliando a parte da "diversificação da natureza" socialmente construída. causa e consequência de suas metamorfoses. são abstrações. Assim. ou uma soma de dinheiro. mais ou menos enganosas. outra totalidade. tal distribuição da totalidade de recursos. pois ela atribui às coisas um valor. teríamos. atribui. um novo conteúdo e uma nova função aos lugares. DIVISÃO DO TRABALHO E REPARTIÇÃO DOS RECURSOS A divisão do trabalho pode. reencontra a sua identidade e a sua unidade enquanto os seus aspectos se tornam outros. a cada movimento. a toda possibilidade. resulta da divisão do 54 trabalho. empresas. no mundo natural. por mais concretos que pareçam. cujo movimento é essencial à sua existência". Quando a natureza ainda era inteiramente natural. operada pelas forças naturais. sobre a diversificação da natureza. Para ele a natureza consiste em padrões móveis cujo movimento é essencial ao seu ser. 166). Segundo Collingwood (1946. já que as mudanças afetam cada vez mais lugares e não têm origem unicamente local. Os recursos do mundo constituem. Os diversos momentos da diversificação da natureza criam padrões específicos. criando outra constelação de dados. E tanto Whitehead quanto Alexander. Fora dos lugares. graças às técnicas que o homem passa a dispor. Também os recursos de um país formam uma totalidade. o homem é criador. na opinião de Collingwood. esta tendência se acentua ainda mais. 86 85 . a natureza é um processo repeti tivo. Esta. relações compulsórias ou espontâneas. Cada atividade é uma manifestação do fenómeno social total. Por isso a formação socioespacial e não o modo de produção constitui o instru mento adequado para entender a história e o presente de um país. As diversas disciplinas buscam enumerá-los. é representado pela diversificação da natureza. mas de sua qualificação geográfica.

a partir de suas mais diversas manifestações. afinal. Comentemos duas situações. tornados bem mais numerosos. induzem a uma divisão do trabalho que corresponde ao seu próprio interesse. Pois os luga res assim constituídos passam a condicionar a própria divisão do trabalho. que é ao mesmo tempo uma cadeia de captação e de distribuição. pois o simpies acesso físico a este ou àquele instrumento financeiro em boa parte depende do lugar em que se encontram. duas entradas. senão um fator. comporta. suas causas e consequências. ações. nos diversos lugares. pelo menos. Lembremo-nos. Em contrapartida a essa multiplicidade de formas. "correm". Cada lugar. Estes são A cada momento. Estatísticas mesmo simples permitem desenhar o respectivo mapa e reconhecer sobre o território áreas de densidade e áreas rarefeitas. os lugares de sua inci dência. Não é um movimento unidirecional. debêntures. aplicações. Os lugares também se distinguem em razão dos tipos de dinheiro susceptíveis de nele conviver. Mas os instrumentos financeiros. não são os mesmos segundo os lugares. certificados e tantos outros produtos. onde não há circulação de dinheiro em sua forma-moeda nacional. e segundo os res pectivos processos produtivos. os bancos são. sendo -lhe. Sabemos todos que a finança é um grande denominador comum. Não é em toda parte que podemos encontrar todos os dinheiros. O primeiro é a disputa entre o Estado e o Mercado. onde são tratadas e metamorfoseadas. 87 . hoje. para a quase totalidade dos atores sociais. de que a cada 88 . umas das formas superiores de inteligência financeira é. OS TEMPOS DA DIVISÃO DO TRABALHO Pode-se falar em tempos da divisão do trabalho? Um estudo da divisão do trabalho sob o enfoque do tempo. aliás. ao desenrolar simultâneo de várias divisões do trabalho. Este último enfoque é mais propriamente geográfico. num mundo em que os bancos. E as diversas escalas do poder público também concorrem por uma organização do território adaptada às prerrogativas de cada qual. conduzidas por ações novas ou renovadas. Aliás. Raro é hoje o lugar. É assim que se forma e mantém a sua individualidade. incorporam e unificam a mais-valia. constitui um limite a mais à sua capacidade de agir financeiramente. estão a discrição e a seletividade de sua repartição geográfica. Esse dreno para o centro se 55 servidos por redes de computadores hierarquicamente localizados ao longo do sistema. como meda estrangeira. duplicatas. e independentemente do seu nível. cheque. É a forma por excelência ubíqua de dinheiro. um importante fator geográfico. todas as noites para as metrópoles. em primeiro lugar. A outra entrada levaria a reconhecer as divisões do trabalho sobrepostas. warrants. Devemos levá-los em conta para empreender uma análise do fenómeno que seja válida. mais generalizada. um só ou uns poucos lugares permitem a utilização de todas as formas financeiras possíveis. os períodos assim estabelec idos e a sua duração. Mas é a divisão do trabalho que tem a precedência causal. relocalizar o produto ao seu talante. segundo sua própria interpretação da lei do valor e. esse movimento dos lugares é discreto. também. de todo o país. um resultado e uma condição. Mas o dinheiro pode.dá segundo um modelo hierárquico. qualificar e classificar tudo o que é f inanceiro. circular com outras formas. Dentro do mercado. A divisão do trabalho supõe a existência de conflitos. open e over. Visto pela ótica do espaço como um todo. todas as modalidades de dinheiro e as reenvia às outras áreas segu ndo as denominações que convêm aos seus bancos. ao longo do tempo histórico uma cadeia das transformações ocorridas. obrigações. os próprios países se distinguem entre eles pela respectiva típologia de instrumentos financeiros. Entre esses conflitos. Vejamos o exemplo do dinheiro. atualmente. também. em todo o mundo. heterogéneo e conjunto. duas acepções. Aliás. somente para simplificar nosso discurso. "desigual e combinado". num mesmo momento histórico. segundo a sua força. As modalidades de exercício da po lítica do poder público e da política das empresas têm fundamento na divisão territorial do trabalho e buscam modificá -la à sua imagem. São as informações instantaneamente recolhidas nos centros de inteligência bancária que. Por isso. mais banal. cartão de crédito local. cada lugar recebe determinados vetores e deixa de acolher muitos outros. Mas nem todos os lugares podem transacionar todas essas modalidades. internacional. cada dia. quanto à circulação financeira 55. cada lugar se caracterizando por uma determinada combinação. que é o fundamento de uma verdadeira hierarquia financeira entre lugares. e encaixadas em objetos recentes ou antigos. pois todos são sujeitos à divisão territorial do trabalho. através de reinversões. notas promissórias. somente São Paulo dispõe da totalidade dos instrumentos financeiros nacionalmente disponíveis. redefine a capacidade de agir de pessoas. Pela sua ação. Em cada país. tornados globais. segundo diversas modal idades e tipos. as diversas empresas. obrigando ao casamento objetivo de noções frequentemente tão vagas como as de tempo e de espaço. ao mesmo tempo. firmas e instituições. alguns são mais relevantes. Essa divisão territorial do trabalho cria uma hierarquia ente lugares e. bónus. Pois o dinheiro aparece. mais ou menos numerosa e rica. as formas de d inheiro que "correm" nesses lugares. como testemunha e como ator. na verdade. Cabe -lhe recolher. a capacidade de inventar novos produtos. Uma delas analisaria as divisões do trabalho sucessivas. cada subespaço. O movimento do espaço é resultante deste movimento dos lugares. Mas não nos podemos referir a essas duas entidades como se fossem um dado maciço. Todos os tipos de lucro e de perdas são processados pelo sistema financeiro. No caso do Brasil. até mesmo as de relocalização seletiva dos dinheiros. Tal situação. correspondente à pujança espe cífica dos centros-relé. na medida em que é ela a portadora das forças de tr ansformação. A moeda nacional é a forma mais simples. Chamemos dinheiro a todos esses instrumentos. é válido para os outros dados da vida económica e social. nacional. graças à sua intervenção sobre a divisão do trabalho. segund o a sua distribuição espacial. permitem tomar as decisões financeiras. São Paulo recebe. assiste. que as tornam possíveis. fundos. Esse raciocínio.

Isso. As manifestações temporais e espaciais dessas divisões do trabalho sucessivas são tanto mais eficazes e visíveis quanto mais o tempo se divide. de efetuar mais divisões competentes do tempo e de melhor reconhecer as etapas e o sentido do acontecer histórico e do acontecer geográfico. Haveria. se essas partições fornecidas pela técnica condicionam o exercício de numerosas atividades particulares. Não importa. seja quantitativamente. cada agente promove sua própria divisão do trabalho.devemos levar em conta os fatores não- técnicos e não-técnico-econômicos. Assim. prenhe de ambiguidades. em um dado subespaço. a partir de cada agente. de um lugar . apenas. aqui. dentro do todo. a partir da novo momento histórico muda a divisão do trabalho. um tempo dos mercados comuns regionais ou sub -regionais? Essa discussão merece ser feita. mas desde logo sabemos que apenas alguns vetores não-globais têm eficácia supranacinal. e. e. distingue cada lugar dos demais. em primeiro lugar. diferente do tempo anterior. em uma dada situação. "temporalizações práticas" no dizer de J. as temporalidades. Ou. de diversas divisões do trabalho. A escala logo abaixo do Estado-Nação é a dos subespaços nacionais. Nesta. quanto mais o tempo possa ser historicamente dividido em períodos e subperíodos pelo observador interessado. p. É uma lei geral. Em cada lugar. falar também de tempos supranacionais embora não mundiais. que "nossa geração conta em minutos". quando a história conhece uma formidável aceleração e. Visto em sua particularidade . cujo papel é crescentemente importante na produção dos comportamentos. o trabalho é a somatória e a síntese desses trabalhos individuais a serem identificados de modo singular em cada momento histórico. -P. mais rica. com o computador. independentemente de escala. Enquanto A. se estabelecem as temporalidades (interpretações. Há. aliás. nessa hierarquia e nessa ordem. mas os períodos não são um fruto desse tempo homogéneo das máquinas. Entre esses dois. 160) dizia. novas divisões do trabalho chegam e se implantam. diversas. Num dado lugar. é muito geral. Ficamos em medida de periodizar. 99) lembrava que "a escala do tempo dentro do computador se mede em termos de milissegundos". Isso equivale a discutir a presença. Aqueles ele mentos definidores do modo de produção seriam a medida geral do tempo. também. pois esse "tempo" acaba por ser abstrato. O computador e as demais conquistas da técnica são instrumentos essenciais para esse resultado. os tempos relati vos aos elementos mais "atrasados". Mas qual a escala menor dos lugares. os fenómenos. sobretudo ao nível de um país . portanto. não é propriamente o manejo de instrumentos de medida. Sartre) que são a matriz das espacialidades vividas em cada lugar.É certo que estas últimas podem ser objeto de uma análise mais detalhada e precisa. na vida ativa. embora nem todos os lugares sejam. local) que é dado pelas respectivas divisões do trabalho. um "tempo africano" ou "sul -america- no". a medida e a divisão do tempo se tornam mais possíveis56.e mercados comum regionais. A definição dos fenómenos fica mais fácil. de diversas escalas d e tempo simultâneas. B. obrigatoriamente. Ao contrário. O tempo da divisão do trabalho vista genericamente seria o t empo do que vulgarmente chamamos de Modo de Produção. Mas. portanto. cujo tempo é o das empresas médias e pequenas e dos governos provinciais e locais. p. atingidos por ele. Em outra situa ção. mas do tempo vivido das sociedades (mundial. das culturas continentais ou su bcontinentais. Na interpretação das divisões do trabalho. aqui. também. Siegfried (1955. dois problemas. dez anos após o fim da Segunda guerra mundial. O segundo problema vem do fato de que a palavra lugar é. mas sem exclusão da presença dos restos de divisões do trabalho anteriores. reconhecer esse tempo interno mais pequeno. isto é. Na verdade. os lugares se diferenciam. isso não afeta a totalidade das atividades e muito menos da vida. como outras do vocabulário geográfico. 89 . pêlos diversos agentes sociais. para fins analíticos. hoje mais detalhistas e precisos. heranças de modos de produção anteriores. mas não sabemos q ual a extensão do tempo mais interno. um lugar e a própria expressão região serve para designar extenções di ferentes. as consequências do ponto de vista da elaboração científica são palpáveis.isto é. essa combinação específica de temporalidades. 1977). de cada classe ou grupo social. nossa análise pode tornar-se mais fina e mais complexa. pelo fato de que são di versamente alcançados. quinze anos depois E. O tempo do mundo seria o tempo mais externo. que. por esses tempos do mundo. à qual se referem. Isso. do ponto de vista da análise. isto é.o das organizações regionais supranacionais . com a sua cara geográfica. Sabemos a priori que a dimensão geográfica do tempo mais externo é o mundo.e. ou melhor. mais acuradamente. abrangente de todos os espaços. O que é fundamental. objetivado . regiões e lugares. Pode-se. tempo do modo de produção dominante. haveria um tempo regional . conduzem à noção de formação socioespacial (Santos. É neste último sentido que podemos dizer que cada divisão do trabalho cria um tempo seu próprio. já que a região é. Agora. consideremos. nacional. O Tempo do Mundo é o das empresas multinacionais e o das instituições supranacionais. mas o reconhecimento de que a cada lugar é teatro de tempos "externos" múltiplos. Ainda que um método laboriosamente estabelecido pudesse permitir. O Tempo dos Estados-Nações é o tempo dos Estados nacionais e das grandes firmas nacionais: são os únicos a poder utilizar plenamente o território nacional com suas ações e os seus vetores. em cada subespaço. apreciação dos conteúdos desses tempos abstratos dos relógios. a posteriori. ainda melhor. seja qual for o período hi stórico. tempos continentais? Haveria um "tempo europeu". seja qualitativamente. Parker (1970. o tempo. apenas ganhando concretude com a sua interpretação. a par tir do 90 56 . que lugar mereceria ser chamado o lugar mais pequeno? Resta-nos consagrar mais alguns parágrafos à questão anterior mente levantada da sobreposição. formas particulares de utilização daquele tempo geral. em um mesmo ponto do tempo. tal constatação não seria absoluta.e. também. É assim que. para serem contabilizados. tempos do Estado -Nação e tempos dos lugares. os diversos tempos concorrentes trab alham conjuntamente e todos recobram sua completa significação a partir desse funcionamento e dessa existência conjunta. Todos os lugares existem em relação com um tempo do mundo.

Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma. E a divisão social do trabalho não pode ser ex plicada sem a explicação da divisão territorial do trabalho. A ação humana tanto depende do trabalho vivo como do trabalho morto. Falta realçar o seu papel na explicação geográfica. A divisão social do trabalho é frequentemente considerada como a repartição (ou no Mundo. durante este século. Uma plantação. paisagem. Essa distribuição. Marx (Capital. Para o tempo atual. há uma divisão territo rial do trabalho morto. mas apenas ao conhecimento. E a partir do mais mínimo tempo interno . isto é. o meio ambiente construído se contrapõe aos dados puramente sociais da divisão do trabalho. ainda que limitadas por sua própria estrutura. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço -fator. cuja influência era determinante no início da história. a utilizar ou não. A relevância dos fatores naturais tem sido tradicionalmen te objeto de atenção e as diversas propostas de explicação dessa influência alimentaram. um vivo debate interno na geografia humana. já que tem um papel na localização dos eventos atuais. sempre é redutível aos sentidos. O tempo do Estado-Nação é interno em relação ao tempo mundial e externo em relação ao tempo das regiões e ao tempo dos lugares. pois. os outros tem pos comparecem como tempos internos. O meio ambiente construído constitui um património que não se pode deixar de levar em conta. na forma de meio ambiente construído (built environtnent) tem um papel fundamental na repartição do trabalho vivo. não é suficiente. 165-166) já havia chamado a atenção. cristalizado em formas. representa um tempo do passado. está ainda muito longe de se esgotar e muito terá a ganhar se levarmos em conta o papel das formas no processo social.'pp. as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do trabalho). mas cuja presença no processo de trabalho é importante (condicionada por sua própria estrutura interna). havia proposto essa considera ção desde fins do século XIX. superposição. que depende. com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. O processo social está sempre deixando heranças que acabam constituindo uma condição para as novas etapas. O trabalho morto. ela própria. nem sempre é visível como tempo. Em cada qual dos seus momentos. As divisões anteriores do trabalho permitem rever as formas her dadas segundo uma lógica que as restabelece no momento mesmo de sua produção.O que na paisagem atual. Ainda que RUGOSIDADES DO ESPAÇO E DIVISÃO SOCIAL DO TRABALHO sem tradução imediata.todos os demais lhe são externos. nem tempo mundial. têm. das formas geográficas herdadas. Em cada lugar. Aliás. Desse modo. E essa redistribuição não é indiferente às condições preexistentes. o tempo atual se defronta com o tempo passa do. O trabalho já feito se impõe sobre o trabalho a fazer. A atual repartição territorial do tra balho repousa sobre as divisões territoriais do trabalho anteriores. vista através da localização dos seus diversos elementos. livro H. Esse enfoque. 1985). influência sobre a maneira como se dá a divisão do trabalho. VIII.o lugar ou o ponto . vistas individualmente ou nos seus padrões. a prática depositada nas coisas. revelam combinações que eram as únicas possíveis em um tempo e lugar dados. As rugosidades se apr esentam como formas isoladas ou como arranjos. I. prov enientes de momentos anteriores. espaço construído. Mas a questão do meio ambiente construído. acumulação. A noção de prático-inerte introduzida por Sartre é igualmente fundamental. um porto. As rugosidades. uma estrada mas também a densidade ou a distribuição da população. todavia. assim como Durkheim. às formas herdadas. 92 91 . se não levarmos em conta que. É nesse sentido que falamos da inércia dinâmica do espaço (Santos. os r estos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho. prontos para eventualmente exercer funções. no que toca à economia das nações. ainda hoje. os restos do passado constituem aquela espécie de " escravidão das circunstâncias anterio res" de que falava John Stuart Mill. Esses conjuntos de formas ali estão à espera. tornada condição para novas práticas. o processo social envolve uma redistribuição dos seus fatores. cap. Ess as duas formas de considerar a divisão do trabalho são complementares e interdepen dentes. é chamada de divisão territorial do trabalho. as feições naturais do território. As formas naturais e o meio ambiente constru ído incluem-se entre essas formas herdadas. o que resta do processo de supressão. além da divisão do trabalho vivo. participam dessa categoria de prático-inerte. Formas naturais e formas artificiais são virtualidades. Simmel. tornada re centemente uma moda. que é o tempo extenso absoluto. ou no Lugar) do trabalho vivo.

nem volta. Assim. 77). 6 - 20). O momento se pretende livremente total. desse modo. p. esgotam suas possibilidades. o seu "caráter princi pal" sendo o fato de "poder situar-se com precisão nas coordenadas do espaço e do tempo" (A. pp. conseqüentemente limitada e parcial. pp. um ponto evento é um instante de tempo num dado ponto do espaço. Mas o evento também pode ser o vetor das possibilida des existentes numa formação social. São os eventos que criam o tempo. porém. Quando falamos num evento passado. 1968. todos novos. é determinada. Na verdade trata-se de um instante do tempo dando -se em um ponto do espaço. 289). mas a construção de uma teoria geográfica do evento pode utilizar tais vocábulos quase indiferentemente. Essa possibilidade "se dá". elementos de atualidade" ("events are es -sentially elements of actuality"). Assim como escreve Whitehead (1919. As circunstâncias não são as mesmas duas vezes. 58 . ou numa região. OTEMPO(OSEVENTOS)EOESPAÇO Os eventos são. Eles acontecem em um dado instante. Quando eles emergem. Morin. o conceito mais elementar é o de ponto-evento. 1943. a palavra onde. lembra Focillon (Vie dês Formes. 1948. 1970. 61). Toda realização como totalidade im plica uma ação constitutiva. "um dado instante em um dado lug ar"59. mas isso representa apenas um aspecto da questão e não pode ser tomado como definição [. 39). 99). 105). ele se esgota enquanto vivido. É nesse sentido que Whitehead diz que "eles passam". tam bém estão propondo uma nova história. nós sublinharíamos. 1981. há mudança. 1968. Um evento. 348). o que aqui estamos considerando como evento aparece. Por isso. de fato. ele impõe uma estruturação.TIPOLOGIA acontece. pois. Bachelard fala de instante e Whitehead de ocasião. o vocabulário corrente. a sinonímia não é exata. também. O autor sublinhou a palavra é. 45). Segundo Eddington. uma fração de tempo que eles qualificam. de um "presente passado" que estamos falando. "os eventos são. Daí a sua eficácia e sua irreversibilidade. Onde Lefebvre escreve a palavra momento. p. É a sua singularidade (E. quando se dão. essencialmente.numa teoria da natureza que leve em conta a relatividade. Presente. 99). No dizer de Lefebvre (1958. esgotá -la e preenchê-la ao mesmo tempo. o evento é uma noção que completa a noção de momento. O princípio da diferenciação deriva da combinação de uma ordem temporal e de uma ordem espacial. Kubler. p. 1993).1966. Já para Russell (1948. Esse ato simultaneamente cria um sentido e o libera. 45). e pode ser vivida como uma totalidade. E nos dicionários filosóficos. um ato inaugural. um evento resulta de uma serie de instantes 57. e onde algo acontece o tempo está" ("Time is only because something happens. é exatamen - 6 ------------------------ te "um ponto nesse espaço -tempo". p. 346 -347) falando em "momento" e Bachelard (1932. pp. como portadores da ação pre sente (G. 85). para Eddington (p. Ernst Bloch (1963. a sup osição de que se realizará num presente futuro. Em seu livro A Phihsophy of Future. o momento é a tentativa v isando à realização total de uma possibilidade.. "Na teoria da relatividade da natureza. "Gostaríamos de definir 'instante' de tal modo que cada evento existisse numa série con tínua e linear de instantes [. "A possibilidade se oferece. a cotidianidade que aparecia como 'real' (sólida e certa). que é uma estrutura da qual o evento faz parte" (Bertrand Russel. p. p. Onde ele se instala. p. atribua um valor próprio a esses termos. pois o evento é uma brutalidade eficaz (une brus-querie efficace). o evento é um veículo de uma ou algumas dessas possibilidades existen tes no mundo. do evento. Somos pois compelidos a buscar uma definição que faça do instante uma estrutura composta de uma seleção adequada de eventos. 287). 30-31) referindo-se ao "instante" os considera como um absoluto. É preciso.] combinando a ordenação temporal e a ordenação espacial dos eventos da natureza numa única ordem de quatro dimensões. diz B. 59 . o que significa realizá-la e esgotá-la58. que serão instantes durante os quais ele existe: 'a' cada instante. 94 93 . todos. quando ganhamos a certeza de que nenhum momento se repete. p. 57 . também. Os eventos são. lembra Sir Lewis Namier (citado por Freeman. não só obtemos uma maior simplicidade para fenómenos nos quais a separação entre tempo e espaço é irrelevante como entendemos melhor a natureza da diferenciação quando esta é relevante" (Eddington. Bosi. 1973. Russell. p. Eddington (1968. 1973. p. Ou.] Não devemos ver os instantes como algo independente dos eventos e que possa ser ocupado por estes como os chapéus ocupam os cabides. 186). Se consideramos o mundo como um conjunto de possibilidades. Sobre o fundo incerto e transitório da cotidianidade. com outros nomes. é de sua presença an terior num dado ponto da flecha do N tempo. 124) escreve que "o tempo somente é porque algo EVENTOS:OS NOMES. é de uma Cada autor qualifica o vocábulo no interior do seu siste ma de ideias. 186) nos fala de ponto -evento como o conceito mais elementar suposição que estamos falando. que a teoria geográfica seja internamente coerente e.. 1961. Quando falamos dum evento futuro.. como escreve H. a palavra evento ganha diferentes acepções e é utilizada em múltiplos sentidos.. obrigatório. num país. Cada ato difere do precedente e do seguinte (G. 1981. p. p. desco bre-se. a matriz d o tempo e do espaço. Em linguagem comum. revela-se incerta e transitória" (Lefebvre.] O aglomerado de todos os pontos -eventos chama-se universo" (Eddington. Schaltenbrand. p. Assim. esse lugar como um conjunto circunscrito e mais limitado que o mundo. 1958. considerados esse país. um evento é "um instante do tempo e um ponto do espa ço". Focillon (1943. Cada evento será parte integrante de muitas dessas estruturas. Essa presença absoluta funda a eficácia do evento. simultaneamente. e então decidimos agir dentro dessas "malhas estreitas".. É nesse sentido que Lefebvre (1958. p. Essa ir-reversibilidade é o que dá a cada homem o "sentimento de aventura" diz o Sartre de La Nausée (1938. 1972. Os eventos são. O lugar é o depositário final. Não há escapatória. ou num lugar. ela "se descobre".CARACTERÍSTICAS. p. isto é. Querer vivê -la como totalidade significa. essa região. and where something happens there time is"). 1966. "[.348). Os eventos não se repetem..

a sociedade se instalava sobre lugares naturais. en ordonnant lê déroulement infini d'événements non identiques en un système fini de similitudes"). DURAÇÃO. Essa assimilação da ideia de evento e da ideia de ação é fundamental para a construção de uma teoria geográfica. Berger. desde o curtíssimo ao mais longo prazo. no tempo e no espaço. 66). como uma categoria de análise. também. Uma análise do mundo que deseje levar em conta os eventos obri ga-se. entrevista a André Barcinski. através do uso diversificado do trabalho e da inform ação. Exemplos de eventos infinitos são a liberdade. Ali. 11/6/94. pouco modificados pelo homem. continua faltando em geografia humana. Jornal do Brasil.EXTENSÃO. 146). Angeles Díaz de Munoz (1991. como. Por isso. p. do lapso de tempo em que um dado evento. uma classificação das ações. p. um terremoto) dos eventos sociais ou históricos (a chegada de um trem. No início. a cada novo acontecer as coisas preexisten tes mudam o seu conteúdo e também mudam sua significação. submetendo -nos ao conflito. também. e os inesperados. Kubler (1973. "Hoje é mais perigoso cobrir uma guerra". 1964. 63 Há acontecimentos que se dão sem plano algum. p. transformam os objetos. Em seu artigo de 1973. ali mesmo onde estão. Nora (1976. que ele considera como um complexo de acontecimentos. graças aos constantes progressos técnicos e organizacionais. isto é. caracterizada pelo aporte a um dado ponto. como que de surpresa. todos os lugares estão sujeitos a acolher exnovações e. 63 . publicado no livro organizado por J. p. Desse modo. que alteram o valor. propondo-nos outras. as ações se instalavam nos interstícios das forças naturais. Não há evento sem sujeito. Já os eventos so ciais resultam da ação humana. segundo Deleuze (C. da interação entre os homens. uniformity"). é menos a novidade. guardando suas características 61 . a referência explicita ao evento. desde que se dá. mas o presente não é obrigatoriamen te o instantâneo. Peter Arnett. ev ento e ação são sinónimos 61. p. quando os comunistas provaram que não estavam mortos. a democracia. 191). o número delas tende a aumentar em frequê ncia e número para boa parcela dos lugares existentes. Faltava. considera que "existem dois tipos de momentos históricos: os predeterminados. que ficou famoso durante a Guerra do Golfo por suas transmissões televi sivas. vivi alguns desses momentos: em 1965. Diano (1994. Caderno Ideias. cabendo-nos reconstituí-lo através da percepção do movimento conjunto das coisas e dos eventos. 1994. destrói todo o resto" (G. Diante da nova história e d a nova geografia é o nosso saber que também se dissolve. p. quando se referiu a uma nova espécie d e complicação resultante de diferentes fenómenos que se sucedem no curso do tempo no mesmo espaço. Arnett. em categorias. A repetição seria a exceção. Dá-se. O cenário geográfico. Antes. Daí decorre a ideia de duração. p. a vontade de determinar o futuro se explicita segundo diversos horizontes temporais.. É assim que a natureza muda pela sua própria dinâmica. a diferenciá-los. dando-lhes. também. a signi - ficação dos acontecimentos naturais. 1993. a população de um país. em 1975. o dinheiro de que dispomos. e é útil pensá-las como eventos que. um comício. Nesse sentido toda teoria da ação é. também. os eventos mudam as coisas. tive a impressão de estar escrevendo nossa história" (P. 116). E "teste do saber". e por ocasião da queda de Saigon. a informação geral. a regularidade. diz Whitehead. Os primeiros resultam do próprio movimento da natureza. Aqui. No período atual. Vi os americanos correndo como galinhas e o embaixador dos Estados Unidos fugindo de helicóptero. dos seus efeitos sobre os dados naturais. em sequências repetitivas ou acumulativas. 17). Não há evento sem ator. 105) já o havia sugerido ao dizer que "não podemos apreender o universo se não o classificamos por tipos.A história da humanidade parte de um mundo de coisas em conflito para um mundo de ações em Segundo P. um acidente de automóvel). como no caso dos recursos finitos. Os eventos também são ideias e não apenas fatos. Para ele. novas características. acrescenta Brunhes. Os primeiros resultam da distribuição de possibilidades ou recursos fi nitos: o tempo de cada qual (se escol ho ir a um lugar. Uma primeira distinção a estabelecer separaria os eventos naturais (a queda de um raio. regularity. segundo Ma. 60 . A novidade é a essência da história. Alexander (1936. diz S. Há aqui uma certa confusão entre o "geográfico" e o "material". Os eventos dissolvem as coisas (C. 16). G. eles dissol vem as identidades60. Chorley com a preocupação de apresentar um paradigma para a geografia moderna. Uma inovação é um caso especial de evento. Podemos igualmente dividir os eventos em finitos e infinitos. não há diferença de natureza e ntre um acontecimento e uma crise. "as ações individuais contam-se às miríades. a anormalidade. a uniformidade ("It is not novelty that calls for explanation só much as repetition. "permanece o mesmo. uma "exnovação". Outros são planejados . p. 96 95 . em que a história surge diante de nossos olhos. 41). da manifestação diversificada da energia natural. na ofensiva do Têt. o começo de uma chuva.. O que tem de ser explicado. em sua Geografia Humana. enquanto hoje é o natural que ocupa tais interstícios. 62 . hoje. é o movimento da sociedade que comanda. Já há os eventos infinitos que resultariam da distribuição de possibilidades e recursos cujo uso não os esgota. isto é. uma teoria do evento e vice-versa. mutáveis e crescentemente complexas".] Cada instante. os eventos naturais se dão em lugares cada vez mais artificiais. aliás. De fato. sua classificação é.ESCALAS. mas o que conta é a ideia inspiradora do texto. lembra -nos C. 91). o desvio. "[. sua distribuição podendo ser cumulativa e não competitiva. contribuem para os processos espaciais" (p.1963. Os eventos históricos supõem a ação humana. de organizar ou de entender a realidade62. ordenando o fluxo infinito de acontecimentos não idênticos em um sistema finito de similitudes" ("n ous ne pouvons saisir Punivers qu'en lê classant par types. de um dado que nele renova um modo de fazer. p. então. mas a repetição. mostrando que não são fixas e por isso. No Vietnã. não posso ir a outro ao mesmo tempo). 6). como as eleições na África do Sul. Boundas. Na verdade. Brian Berry ocupa -se da noção de processo e se aproxima da questão do evento.SUPERPOSIÇÕES O evento é sempre presente. O problema havia sido exposto por Jean Brunhes. Diano. mas os homens que nele habitam passam por necessidades crescentes. conforme a expressão da Escola de Lund.

A noção de situação. Considerando o tempo não apenas como transcurso ou intensida de. dirão outros . também. porém. de um determinado produto agrícola ou uma dada eventos consecutivos ou simultâneos. As áreas de ocorrência podem ter conteúdos parecidos. áreas de pre - propriamente organizacionais. Cada lugar é uma combinação quantitativa e qualitativamente específica de vetores (sementes melho res ou menos boas. Não basta.ficamos perto de entender. características que também se traduzem em termos de tempo. 42). preços internacio nais. Do nível da organização depende a escala de sua regulação e a incidência sobre a área de ocorrência do evento. A relação geográfica mais simples. Por isso também muda a superfície de incidência. Tais condições não se dão de modo absoluto. dos modos de organização. o evento também pode ter uma duração organizacional. A fixação. A dificuldade. Uma determinada espécie vegetal. faze r uma referência genérica à área de produção de trigo ou de milho. uma decisão governamental. acessibilidade e qualidade da informação e da assistência técnica. absoluta ou relativa. plantações de milho ou de trigo. é cada vez menos determinada pelas características da área e pelo processo direto de produção. formas especulativas. tem leis de comportamento ligadas à sua própria natureza. Isso é importante reconhecer. uma portaria de um Banco Central. em grande parte. É indispensável referir a uma área determinada. Pensemos no ar de família. uns e outros tendem a se confundir. amputando o seu período de ação. como extensão . Cada produto é condutor de certos fins. no seu funcionamento e no respectivo controle e regulação. É evidente que podemos tra çar. essa noção de extensão de um evento. de longe e de cima. distintas segundo o tipo de produto.ou espacialidade. constitucionais. ainda que sua identificação seja menos fácil. tal como aqui estamos tentando defini -la. 98 97 . quando não a determinam diretamente.). como quer M. a situação e sua exten são. treinada ou não. de objetivos finais ejobjetiv os intermediários. mas nunca idênticos. fazendo-o durar além de seu ímpeto próprio. por exemplo. Vejamos. E scolar (1992. tal ou qual curva de temperatura? No domínio da ação. muda ao longo do tempo. estocagem e transportes. sem maior dificuldade. eficaz ou ineficaz. tarifária e de preços mínimos. altera-se o seu processo natural. onde. de suas qualidades individuais. que nos oferecem. Mas o conteúdo não é o mesmo. uma regra de um banco privado ou uma empresa são formas organizacionais que interferem na duração dos eventos. de sua estrutura íntima. rentável ou não. ao mesmo tempo. única ou compartida. a área de ocorrência. diga mos uma variedade de milho ou de trigo. aqui. e cada vez mais um resultado do processo de organização da produção vista como um todo. mediante um recurso organizacional. dos eventos de natureza social. quando desejamos distinguir a ação de produção industrial ou de serviços. aqui. informação em tempo real ou defasada. Um dos elementos distintivos de nossa época é o papel oni presente da organização em todos os processos vitais. transporte mais ou menos acessível e mais ou menos adequado. Os eventos não se dão isoladamente mas em conjuntos sistémicos . pela autoridade nacional. Em vez de ser deixado a si mesmo. se localiza na busca de uma explicaçã o. desse modo. a relação homem/terra. fiscal. por uma inundação? Que áreas registraram. prolongá -lo. mediante um principio de ordem. num período dado. é um desses dados organizacionais que delimitam e qualifi cam o tempo social. A duração natural deriva da natureza original do evento. Como também é possível limitar ou reduzir sua existência. mais ou menos adubos. atualmente. chegada pon tual ou tardia de crédito e seus custos diversos. a dura ção e a amplitude do evento. igualmente. Mas o rendimento final vai depender da organização da produção. a duração e o nível da atividade económica em bom número de centros de vilegiatura. é saber que características "naturais" ou técnicas induzem determinadas formas organizacionais e vice-versa. Foi Lucien Goldmajnn o primeiro talvez a identificar o capitalismo atual como um capitalismo de organização. dos recursos e possibilidades e das formas em que se devem encaixar as determinações depende. irrigação em tempo ou atrasada. e os fatores propriamente técnicos. Cada área constitui uma situação particular. de um calendário escolar. num dado mom ento. em geografia. O uso completo ou incompleto.que são cada vez mais objeto de organiza ção: na sua instalação. sendo moduladas pêlos vetores propriamente " organizativos": políticas de crédito. o mesmo fenómeno se dá. Se o evento não é o equivalente de localização. de um ponto de vista geográfico. di - versos outros eventos se juntam. um exem plo retirado da economia. que. Os fatores técnicos podem ser postos em paralelo com os dados propriamente naturais da duração dos eventos do mundo físico. formando uma combinação coerente e ocupando uma determinada extensão. estão o seu processo produtivo (incluindo a qualidade dos insumos. p. o conteúdo das diversas áreas tem o que ver com a natureza dos eventos que nela se estendem. por exemplo. valor externo da moeda etc. Dessa organização vão depender.sença. isto é. Qual a superfície atingida. já referida por Whitehead (1919) e outros filósofos. mão-de-obra disponível ou não. sua relação física com o mercado etc. Uma lei. seus problemas de conservação e escoamento. ditando. Assim como a potência de um motor na determinação da velocidade. lembrando. ao lado de uma duração natural. absoluto ou relativo. ser assimilada à noção de área de ocorrência. podemos.verdadeiras "situações" . utilizada em filosofia e em sociologia. tem presença eficaz. mas. sua área de ocorrência. relacionados com suas características "técnicas" e "organizacionais". junto à produção específica de milho ou de trigo. Entre as características técnicas. pode. Mas. Haveria que distinguir entre os fatores Podemos admitir que. Essa combinação de fins e de meios. frequentemente. O difícil. Esse fenómeno é mais fácil de constatar no domínio dos eventos naturais. O horário dos bancos modula os ritmos de atividade em outros ramos da vida económica.

ele é a qui e agora 64. de sua realização. mas um ponto do espaço -tempo. mas o evento. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional criam eventos mundiais. devemos levar em conta o lugar geográfico ou económico ou político de onde atuam as variáveis. uma norma pública age sobre a totalidade das pessoas. Alinhados cronologicamente. Daí poder-se falar numa ordem de eventos. A primeira é a escala da "origem" das variáveis envolvidas na produção do evento. 301) nos ensina que "é necessário considerar o ser como uma síntese apoiada simultaneamente no espaço e no tempo. e não aqui e amanhã. Vista desse modo. das empresas. E Bachelard (1932. de empresas. No primeiro caso. os eventos históricos não se dão isoladamente. Além do mais. Pode-se. Nem as instituições supranacionais. de institui - ções. de início. Por exemplo. Se. Diano (1994. de eventos solidários. Ele insiste em dizer que "não há evento senão no lugar preciso em que estou e no instante preciso em que o reconheço". que estão sempre mudando. A segunda é a escal a do seu impacto. Esses vetores ele diferentes dinâmicas que decidem sobre o acontecer regional ou local. não é lá e hoje. Segundo Eddington (1968. sua eficácia se faz sentir além dos níveis local. Hic et nunc é a expressão de que se vale. comunas. províncias) ou entidades locais (municípios. alguém pode considerar essas quatro ordens 64 . sua ordem temporal. A lei. Quanto à escala das forças operantes. em diversos lugares. locais. a consideração do mundo é também sujeita a caução. Se estas podem colher indiretamente resultados globais. no âmbito geográfico de uma região ou de um existe mesmo um fluxo-evento mundial? No segundo caso. Assim. a palavra escala deveria ser reservada a essa área de ocorrência e é nesse sentido que se pode dizer que a escala é um dado temporal e não propriamente espacial. extensas? Que forças são capazes de produzir eventos que incidam. respectivamente. ocor rendo numa área comum. cuja incidência se faz. a escala de origem do evento tem o que v er com a força do seu emissor. Através do seu poder de império. Aqui os diversos eventos concomitantes são solidários porque estão superpostos. O primeiro tem como base a origem do evento. O outro tipo de solidariedade tem como base o lugar d a objetivação do evento. por exemplo. a escala do fenómeno. 67 -79) assevera que "não são o aqui e o agora que localizam e temporalizam o evento. E nas respectivas dimensões territoriais. eventos regionais ou locais. num mesmo momento. um país pode tornar ou deixar de tomar decisões que alteram o acontecer dentro de suas fron teiras. O instante não é aqui e amanhã. regiões autónomas. As autoridades "intermediárias" (províncias. é. 36). eventos regionais e eventos locais. n em as empresas multinacionais têm esse poder. há eventos nacio nais. geral. a escala é um limite e um conteúdo. o que o circunscreve igualmente no tempo e no espaço. porque podemos arranjar os eventos segundo quatro modalidades: à direita e à esquerda. É também nesse sentido que para Whitehead um evento é o que ele é. essa ordem é quadrupla. um evento mundial se origina numa empresa multina cional. E Bachelard nos aconselha considerar o instante como um ponto do espaço -tempo. C. em cima e em baixo. sua causa eficiente. ao falarmos de incidência dos eventos. ou. que é a sua escala de realização. O instante de Bachelard se situa no ponto de união do lugar e do presente. E os próprios organismos supranacionais têm influência relativa sobre o mundo tomado como um todo. quando ele é e como ele é. Assim. p. E aqui caberia indagar se A primeira delas é o Estado. adiante (na frente) e atrás. ao mesmo tempo. E. mas sobre superfícies menores que o território nacional. já que a área de ocorrência é dada pela extensão dos eventos. de relações. num dado momento. Essa é a supe rioridade da ação do Estado sobre outras macroorganizações. O mesmo se pode dizer de qualquer outra entidade cujo poder s e exerça sobre uma totalidade: de pessoas. Mas há ações capazes de ter efeitos de abrangência. pp. ou o que toma seu nome. Enquanto isso. pelo seu "uso legítimo da força". M as uma empresa multinacional não tem diretamente poder sobre a totalidade mundial de empresas. eventos nacionais. numa instituição supranacional. É raro que o governador de um estado ou o prefeito de um município tenham condições para criar outra coisa além de. Não é apenas um ponto no tempo e um ponto no espaço. Esse não -isolamento se traduz por dois tipos de solidariedade. É só nesse sentido que se pode falar em eventos mundiais. que temporaliza o nunc e localiza o hic". Trata-se. que a escala varia com o tempo. por natureza. e não lá e hoje". regionais.lugar. ao sabor das variáveis níveis hierárquicos se combinam para solidariamente constituir uma área comum de ocorrência. seus efeitos diretos são sobretudo pontuais ou lineares. 100 99 . sobre áreas Será mesmo adequado distinguir os eventos segundo a escala de sua origem e segundo a escala de sua incidência ou eficácia? No primeiro caso pensamos nos eventos como fluxos. encarnado ou não no direito. Aliás. num banco transnacional. no sentido de que. entidades regionais (como estados federados. mesmo. antes e depois. temos a escala das forças operantes e no segundo temos a área de ocorrência. regional ou nacional. Eddington nos fala de um ponto-evento. A noção de escala se aplica aos eventos segundo duas acepções.. as escalas superiores de ação estão frequentemente enviando vetores. mas não superpostos: sua ligação vem do movimento de uma totalidade superior à do lugar em que se instalam.mundial. sua própria geografização. regiões metropolitanas). falar em superposição de eventos? Enquanto Alexander se refere a um ponto -instante. próximos ou longínquos. aqui. p. áreas metro politanas) exercem seu papel de produtoras "oficiais" de eventos. regiões. interessando pontos numerosos situados em diversos países e continentes. Ele se encontra no ponto de confluência do lugar e do presente: hic et nunc. de lugares. os eventos se sucedem uns aos ou tros. das instituições e do território. ainda melhor.

A pri meira porque todo objeto toma um lugar. não é em si mesmo uma ocasião real. Kubler distingue entre valor absoluto e valor sistemático. p. Vilhena (1979. o valor do objeto em forma absoluta envolve as suas carac terísticas intrínsecas. necessária à sua atu -ação solidária. É assim. poderia estar-se referindo a esse dado de interesse geográfico. que vem da sua constituição material. por exemplo. p. Laclau (1990. eles estão criando a continuidade do mundo O TEMPO COMO INTÉRPRETE DA REALIDADE DOS OBJETOS Do ponto de vista do evento. De outro lado. p. diz Eddington.. Mas os eventos não se dão isoladamente. É assim também que deve ser entendido o Henri Focillon de Vie dês Formes. Estendem -se para outros eventos e passam a fazer parte deles. a ordem temporal dos instantes e a relação entre os instantes do tempo e os estados da natureza que acontecem nesses instantes". sendo. pois a natureza da resultante é diversa da soma das partes constitutivas. verificamos que eles se superpõem. logo depois tentará combinar algumas delas. o evento exerce essa função de relação. de M. também. mas uma combinação. dando lugar a "uma fusão de ocasiões atuais. O primeiro procede do que o objeto é em si mesmo. p. Mas os objetos também têm uma idade. p. já o vimos. É assim que as situações geográficas se criam e recriam. 195). "a passagem dos eventos e a extensão de uns eventos sobre outros são as qualidades de que se originam. 126). enquanto a pedra lascada ou a pedra polida são velhíssimos objetos. eles próprios expressão atual de experiências e eventos passados e de esperanças no futuro". Mas na medida em que se estendem uns sobre os outros. Para Whitehead. O lugar de uma barragem é muito mais es pecificamente seu do que o lugar de uma geladeira. O fato da inserção em um determinado meio é diferente do fato de 102 65 . absolutos. que é seu conteúdo temporal (S. 12). Outra fosse a ordem da combinação. é. e o valor sistemático vem da consideração desse objeto dentro de um sistema de objetos (1973. como nos propõe V. O objeto tem uma realida de per se. Para Whitehead (The Concept ofNature. 1966. um objeto cibernético é jovem. p. finitos. Quando B.. As formas asseguram a continuidade do tempo mas o fazem atra vés da sucessão dos eventos. 1920. O caminho de um corpo em movimento ou de uma molécula. Quando consideramos o acontecer conjunto de numerosos eventos. 119). a continuidade temporal e a distinguir entre tempo e espaço (Eddington. É como se o evento amarrasse essas diversas manifestações do presente. Esse conjunto de eventos é também um evento. e outro seria o resultado. que mudam o seu sentido. unitariamente dotado de extensão e se impõe sobre uma área. o valor sistemático do objeto supõe uma a nálise ou uma síntese: se partimos do existente: uma síntese. que se começa a coerência espacial. p. 126)65. inter-relacionadas numa determinada maneira e numa dada extensão" (em Leslie Paul. 125): "os lugares são. 1963. cumpre notar. Kluber sugere que se trabalhe com três coordenadas. Essa valoração do objeto está ligada à maneira como a sociedade dele se utiliza. quer dizer. É desse modo que o espaço testemunha a realização da história. O objeto tem autonomia de existência. p. do qual os eventos singulares que o formam são elem entos. um resultado da mudança paralela da sociedade e do espaço. 1968. a um só tempo. Ou como escreve E. no mo mento em que nele se instala. p. a coordena da do lugar. Mas essa idade expressa em termos absolutos é a idade do objeto fora de contexto. 1971.vivente e em movimento (Leslie Paul. então. os seus atributos. cuja ordem e duração não são as mesmas. 34). passado. 36). atribuindo-lhe a função conectiva que Russell já lhe atribuíra. Não é apenas uma superposição. Como enfrentarmos essa questão? O objeto tem a idade da técnica que lhe deu origem. que tipo de esforço ele pede. 287) distingue o evento como uma série de instantes. Por isso diz Whitehead que 'a Natureza se faz conhecida para nossa experiência como um complexo de eventos que passam e não. interrelacionadas de alguma forma num quantutn extensivo. o tempo e o espaço" e "a teoria reclama que sejamos conscientes dessas duas relações funda mentais. O evento possibilita a experiência da extensão no tempo. mas não tem autonomia de significação. "A mudança em um objeto vem das diferentes relações que mantém com os diversos eventos". Descreve -o como um 'nexo' de ocasiões reais. De um lado. 126). e a coordenada de sequência. necessário discernir entre a existência do objeto e o valor do objeto. É através do evento que podemos rever a constituição atual de cada lugar e a evolução conjunta dos diversos. ou. diz Whitehead (1919. 140). 1961. como um complexo de entidades reais que desaparecem'" (Leslie Paul. 'devendo portanto ser algum tipo de nexo de ocasiões reais'. parti cipando uns dos outros. "[. o objeto existe geograficamente em um lugar e. Russell (1948. que é tanto mais nítido quanto ele é mais fixo. lugares. quando ele considera o evento como um nó. se desejamos propor uma outra forma de utilização do objeto. mas o seu valor como dado social vem de sua existência relacional. que tipo de trabalho pode oferecer. outro o ponto em que se verifica. Um objeto tomado isoladamente tem um valor como coisa.. Os eventos são atuais. Os eventos se sobrepõem. presente e futuro.. 63). ganha uma outra certidão de idade. como abstrações. p. o que se pode esperar dele. 1961. É o caráter contingente do ser dos objetos de que fala E. A noção de escala do acontecer pode assim ser fundida com a noção de escala geográfica. devida à sua existência corpórea. Relph (1976.] Como. como independentes. a entidade real se relaciona com o mundo movediço e fhiltável que observamos? Aqui Whitehead introduz o 'evento'. su cessivos. Devemos. Fornecem a continuidade óbvia do mundo vivo e movediço. distinguir entre ser objeto e valer como objeto. Todavia. um lugar de encon tro. a coordenada da idade. Alexande r. em outras palavras. Podemos admitir que cada combinação de eventos ao mesmo tempo cria um fenómeno unitário. 1961. p. 101 . pois. p. Vem daí o papel central que a noção de evento pode representar na contribuição da geografia à formulação de uma teoria social. unificando esses instantes atuais através de um verdadeiro processo químico em que perdem suas qualidades originais para participar da produção de uma nova entidade que já aparece com suas próprias qualidades. individualizados.

funcional mente perceptíveis. depende da consideração do eixo das sucessões e do eixo das coexistências. foi durante muito tempo considerado como uma base do estudo geográfico. que é a idade do primeiro objeto de quarenta andares construído no mundo ou no país. da região do país inteiro. uma sequência. um edifício de quarenta andares tem uma idade. isto é. 118-119). dá-se segundo tempos diversos que se casam e anastomosam. em sua situação atual e em sua evolução. a cada momento. Em cada lugar. Os fluxos não têm a mesma rapidez. Objetivos particulares. O modelo sistemas de objetos/sistemas de ações somente se entende como um existir de forma absoluta como possibilidade de geografização ainda não rea lizada. Muito mais difícil é discutir sobre a idade social do objeto. as diversas ações se dão conjuntamente. O mundo em movimento supõe uma permanente redistribuição dos eventos. e muda a função das coisas. dependendo dos meios com que contam. o espaço é a ordem das coexistências possíveis. segundo a ordem verificada. A vida social. por que o comportamento dos objetos em tal ou qual meio é apenas ima ginado em função da resistência dos materiais. materiais ou não. num dado momento. Pensamos que a simultaneidade das diversas temporalidades sobre um pedaço da crosta da Terra é que constitui o domínio propriamente dito da Geografia. isto é. Em cada momento. O espaço é que reúne a todos. o tempo das diversas ações e dos diversos atores e a maneira como utilizam o tempo social não são os mesmos. da grande cidade. Haveria mais um elemento importante a considerar. Laclau fala do caráter histórico contingen te do ser dos objetos (1990. dos instrumentos de trabalho. Temos. seu valor específico. a sincronia de sua existência comum. aqui. somente ex post. e um terceiro momento. O entendimento dos lugares. Este é o eixo das sucessões. Por isso. para os diversos agentes sociais. que são individuais. A base mesma da geografia é que o mundo está sempre redistribuindo-se. fundem-se num objetivo comum. perguntar se é assim mesmo. Os even tos são todos filhos do mundo. Mas. do mundo. Poderíamos mesmo dizer. que o tempo como sucessão é abstrato e o tempo como simultaneidade é o tempo concreto já que é o tempo da vida de todos. ao contrário. Segundo'Leibniz (1695). A conexão existente entre os objetos é dada pêlos eventos. se estabelecemos primeiro a escola ou o hospital.moral e física . se as temporalidades não são as mesmas. para poder encontrar os objetos. Constatamos. se criamos antes a rua asfaltada e depois melhoramos as infra-estruturas subterrâneas. É diferente se. O valor total das coisas se modifica. seus intérpretes atentos. suas manifes tações particulares. mas só depois que um objeto é instalado e utilizado é que sabemos q uanto tempo dura aquela estrutura inicial. no espaço geográfico. o momento da formação social quando esse objeto é inserido num país. qualidade. aparece a possibilidade de criar tal ou qual objeto. seja qual for a escala . Esse viver comum se realiza no espaço. DIACRONIA E SINCRONIA: O EIXO DAS SUCESSÕES E O DAS COEXISTÊNCIAS Em cada lugar. empresas e instituições. entrelaçados no chamado viver comum. ou se. Mas existem complicações porque não se conhece a priori a duração . funcionalidade) isto é. o tempo se fazendo empírico. 104 103 . nas suas diferenças e hierarquias. elas todavia se dão de modo simultâneo. de um lado. mas dificilmente discernível. permitindo falar de hoje e de ontem. mudam os processos que asseguram a incidência do acontecer. O tempo como sucessão. Pode-se.das coisas. A cada momen to muda o valor da totalidade (quantidade. com uma valorização diferencial dos lugares. A velocidade de uma carta não é a de um telegrama. O resultad o das combinações não é o mesmo. todavia. que acaba por determinar um sentido àq uele meio. A ordem espacial é a ordem geral. que são possibilidades diferentes de uso do espaço (do território) relacionadas com possibilida des diferentes de uso do tempo. de outro lado. o eixo das coexistências. arrastando a alteração do valor de cada coisa. em que o objeto é localizado num lugar preciso. criamos primeiro um edifício ou se a asfaltamos. Mas esse edifício também terá uma idade num lugar A ou B. Os homens não percor rem as mesmas distâncias no mesmo tempo. os sistemas sucessivos do acontecer social distin guem períodos diferentes. Na realidade. É o instante que valoriza diferentemente os objetos. uma assincro nia na sequência temporal dos diversos vetores e. exatamente em função do momento em que foi incluído nesse meio. com certa ênfase. se regeografizando. que é a noção de sequência. o chamado tempo histórico. a unidade do mundo produz a diversidade dos lugares. numa rua. quando queremos entender a produção do espaço? A história real de vida dos lugares mostra que os objetos são inseridos num meio segundo uma ordem. A duração física não pode ser completamente conhecida com anterioridade. os eventos não são sucessivos.do lugarejo. o hospital ou o banco. Ela revela as determinações pelas quais a realidade total vai mudando para se encaixar nas formas modelo espaço-temporal. No viver comum de cada instante. O que podemos considerar como sequência. que coordena e regula as ordens exclusivas de cada tempo particular. um telex. mas concomitantes. Tal distribuição de valores não é aleatória. um fax. no mundo. numa interpretação geográfica de uma outra ideia de Kubler.preexistentes ou criadas. o estudo geográfico não é muito mais essa outra forma de ver o tempo como simultaneidade: pois não há nenhum espaço em que o uso do tempo seja idêntico para todos os homens. A ideia de tempo é inseparável da ideia dos objetos e de seu valor. com suas múltiplas possibilidades. pp. haveria diversas idades para cada um e para todos os objetos: o momento dos modos de produção quando. o envelhecimento moral depende de um jogo de fatores que não é conhecido ex ante. Cada ação se dá segundo o seu tempo. Por exemplo.

Não apenas um evento sucede outro.. E somente há poucos decénios o processo de internacionalização alcança o nível atual de globalização. E isso se dá ao mesmo tempo em que o homem se torna capaz de gerar eventos naturais e de produzir fatos físicos ou então de mudar. o dos climas. graças aos progressos técnicos e à mundialização da economia. 1961). tal como definidas por F. Isto tanto se dá com os grandes fatores de mudança global. 225-226). como. as consequências dos fenómenos naturais. a conjunção das coisas envolve alguma doutrina de imanência mútua. Eles estão unidos entre si por laços internos e a presença de cada um modifica os demais em sua natureza profunda". 209): "O Mundo que a teoria da relatividade oferece à nossa imaginação não é tanto um mundo de 'coisas' em 'movimento' mas um mundo de acontecimentos". Simmel. de procurar uma medida da sua completude ou incompletu -de ou de sua eficácia em função do elenco total de possibilidades. isto é. acrescentando que "cada acontecer é um fator na natureza de todo outro acontecer". 1980. Os chamados climas continentais. p. Ou. 226). No começo da história. conjuntos de economias. de uma comunidade humana universal (tal como proposta por L. Tractatus Logico-Philo- sophicus. conforme à totalidade . com ainda mais força. 1980. Melhorar o trânsito em uma área repercute em outras positivamente ou negativamente caso não sejam alterados o traçado das vias ou a estrutura do movimento. Como entender esse processo de condicionamento?" (Whitehead. Foram necessários milhares de anos para que se registrassem eventos geograficamente mais amplos. 131). Ao se realizarem simultaneamente. a significação. com a emergência das economias-mundo. mas o faz pela via do universo. a causa de outro evento (. Assim como as ações não têm existência independentemente dos objetos a que dão vida. Todo o mundo anterior conspira para engendrar uma nova ocasião. Uma modificação em um quarteirão afeta outros e não só os vizinhos. pp. l.. p. como que exposta na essência fundamental de nossa experiência. vol. London. também os eventos não ganham realidade fora dessa associação com os objetos. mas vivendo em intercâmbio. 134). viver plenamente e ativamente essa particularidade e assim c ontribuir à permanência do todo. O que é universal é a sua trama diz V. Ainda com Whitehead (1938. uma incidência local. a asseveração de Wittgenstein (1961. jamais ele esgota ou utiliza todas as possibilidades oferecidas pelo mundo. Os fatos humanos tiveram. É apenas nesse sentido que se pode dizer que um evento é uma causa de outro evento. É nesse sentido que devemos interpretar a frase de Lefebvre (1958.. numa dada etapa da flecha do tempo. p. 106 105 . Agora. "Assim. p. Seu destino é realizar a totalidade na particularidade. a universalidade abrange também os fatos do homem. em cada acontecer. 67 .. p. The Problem ofHistorical Time. Routledge and Kegan Paul. Um exemplo é marcante. 225-226) "[. Hoje. Somente agora pode-se. mas o faz como uma parte do todo. 1967. Não se trata. têm um comportamento mundial. deixando-o renascer com novas características. . 1938. locais. como em níveis inferiores 67 e em episódios banais. p. Wittgenstein. pp. verdadeiramente. só a totalidade em movimento cria novos eventos. 7). Para Eddington (1968. uma fagulha do mundo. a partir daí. eles se produzem conjuntamente na unidade superior de um todo.] Se aceitarmos que os eventos conhecidos da história constituem estruturas exaustivas nas sequências causais. p. ao dizer que "o mundo preexistente como um todo conspira para produzir uma nova ocasião"66. incluindo-os na corrente de uma história humana universalizada. Goldmann. geograficamente distantes. 348) quando ele diz que a possibilidade vivida em cada evento é "limitada e parcial".incompleta. primeiro. nem com- pletamente. 168) "o agregado de todos os pontos-eventos tem um nome: o mundo". E as ações não são indiferentes à realidade do espaço. p. 225). 11) Sartre nos recorda de que "os fatos não são aparições isoladas. essa é a única maneira de entendermos noções habitualmente empregadas na vida diária. cabe retomar. Russell (1974. falar de eventos históricos globais. p. É talvez nesse sentido que se deve ler a afirmação de Whitehead em Modes ofThought (1938. Mas certas ocasiões condicionam amplamente a formação das que se lhes seguem. e graças à globalização da divisão internacional do trabalho. pois a própria localização dos eventos é condicionada pela estrutura do lugar. nenhum evento é por inteiro e exclusivamente a causa de outro evento. O que dá universalidade aos eventos não é apenas o seu acontecer mas sua imbricação. "[. 1938. o alcance. como "um evento é causa de outro" escreveu Whitehead (Mo-des ofThought. 225) aprendemos que "nenhum acontecimento pode ser sozinho. Mas a totalidade em movimento tamb ém inclui as ações tornadas possíveis em um lugar particular. por sua aç ão.. se exprime B. regionais.] a comunidade das atualidades no mundo". Como lembrou Simmel (1916. por ém. Um evento é a causa do outro. p. p. então a totalidade desses eventos constitui o único complexo que possibilita a compreensão de cada evento isolado" (G. a partir do qual acabam por influenciar outros lugares. a existência. Consideremos a noção de 'causação'. O evento se inscreve na totalidade característica de um determinado momento. Isso o evento deve exatamente a preeminência dos seus dois níveis de existência: o global e o local. Se o evento esgota as suas próprias possibilidades. Em um ou outro sentido. os eventos constituem. com a intermediação da totalidade. somente eventos físicos eram universais. essa continuidade de realidades do mundo significa que cada acontecimento é um fator na natureza de cada outro acontecimento. 5) para quem o mundo é constituído pela totalidade de eventos e não de coisas (L. na mesma direção. no event can be wholly and solely the cause of another event)". Braudel. A ampliação de sua pertinência se deu lentamente. Li Carrillo (1968. quando buscamos reconhecer o processo em que o conteúdo de um evento se inscreve na totalidade cósmica. Em sua Crítica de Ia Razón Dialéctica (1970. p. Afinal. 41) UNIVERSALIDADE E LOCALIDADE:A TOTALIDADE EM MOVIMENTO COMO TRAMA permite reconhecer. De fato. Como poderá um evento ser causa de outro? Em primeiro lugar. Criar um sinal lu minoso em um cruzamento repercute quilómetros mais longe. ainda que 66 Em nosso tempo atual. nosso pensamento padece de incompletude.. segundo Whitehead (1938.

Na era da globalização mais do que antes. a população. p. Desde o nascimento. capazes de ação. O PROCESSO ESPACIAL:O ACONTECER SOLIDÁRIO Comecemos por admitir que o planeta.] cada ocasião. os homens não saem do mundo. mas na trama complexa dos próprios acontecimentos" (citado em Victor Li Carrillo. 1923. 229-230) nos recorda de que "[. esses acontecimentos reproduzem a totalidade. 1974. Phys.. 166). Em conjunto. Essa ideia de Einstein está em seu artigo "On the Electrodynamics of Moving Bodies". o acontecimento se inclui num sistema para o qual atrai o objeto que ele acabou de habitar.. Sua significação é dada pela totalidade de recursos e muda conforme o movimento histórico. leia-se. Estas são. nos adverte Alexander. Todavia. A cada mo mento. É assim que a integração entre o universal e o individual ganha um novo conteúdo histórico em nosso mundo atual. parafraseando Sartre. Segundo a admirável expressão de Leslie Paul (1961. As diversas situações são resultantes do acontecer solidário. jun tamente com os indivíduos. 1938. "a verdade não está no céu absoluto das essências. como entidade mat erial e humana. 131). A divisão internacional do trabalho pode ser considerada a energia desse movimento. permitindo encarar. Mas o acontecer local é referido (em última instância) ao acontecer mundial. então. por isso são complementares e se explicam entre si. tais recursos são distribuídos de diferentes maneiras e localmente combinados. formando situações. pp. de técnica e da informação. pois. p. globalmente solidários. p. ao mesmo tempo em que se superpõem e interdependem. para reconstituir -se no momento seguinte. Assim como disse Alain Gras. p. 32. empresas. se não desintegramos sua estrutura. os eventos são. Collingwood nos pede não esquecer de que. entidades que são. também. d. outra vez. Os recur sos totais do mundo ou de um país. E Whitehead (Modes ofThought. É assim que o mundo pode ser visto como um caleidoscópio de situ ações. Se os eventos se dão em padrões. O acontecimento é a cristalização de um momento da totalidade em processo de totalização. instituições de toda na tureza. Eddington (1968. Com a aceleração a que assistimos. onde o tempo empiricizado entra como condição de possibilidade e a entidade geográfica preexistente entra como condição de oportunidade. Tanto a região quanto o lugar são subespaços subordinados às mesmas leis gerais de evolução. uma definição atual dos su-bespaços e o processo histórico que leva à sua existência e evolução. o evento é "uma gota de existência" e "repete no microcosmo o que o universo é no macrocosmo"..] a simult aneidade dos eventos em diferentes lugares nenhum significado absoluto tem". na natureza e na sociedade. que desrespeita as solidariedades e os limites anteriores e cria novos. 68 Mundo e do Lugar. para quem somente a totalidade dos eventos permite entender um evento individual. 9). 125). 39. produto da evolução concomitante da ciência. A distinção entre lugar e região passa a ser menos relevante do que antes. seu motor último. 1923).. a força de trabalho. os chamados "momentos" da divisão do trabalho se tornaram muito mais numerosos. esses padrões são móveis (Collingwood. sob esse prisma. a história também é uma totalidade. o qu e acarreta uma diferenciação no interior do espaço total e confere a cada região ou lugar sua espe cificidade e definição particular. é dele que retiram as possibilidades. quando se trabalhava com uma concepção hierárquica e 108 . A região e o lugar. ou.. A interdependência dos eventos se dá em vários níveis. para tornar -se. os eventos são localmente solidários. a serem realizadas nos lugares. Ambos. A. p. e que em cada um dos seus momentos. pela sua origem primeira. quer seja o capital. Eles são inter-relacionados e interdependentes e é nessas con dições que participam de situações. citado por Lancelot Law White. Nestes.. os eventos. é uma totalidade. Estados. Lembremos que ação e evento são movimentos imbricados. isto é. Cada evento é um fruto do Mundo e do Lugar ao mesmo tempo. isto é.O nível global e o nível local do acontecer são conjuntamente essenciais ao entendimento do Não basta analisar eventos isoladamente. seu padrão. Por isso. seriam realidades que permanentemente se transformam. Onde escrevemos homens. se não soubéssemos que a unidade é o próprio do planeta e da história e a diversidade é o próprio dos lugares. Daí a lição de G.. mas não há eventos isolados. A cada momento histórico. se inserem em outros objetos no mesmo momento. 17. 1905. agindo para realizar o Mundo. A região e o lugar não têm existência própria. 1968. Simmel (1980. "todos os nossos julgamentos nos quais o tempo desempenha um papel são sempre julgamentos de eventos simultâneos" 68. mediante sua realização concreta. o excedente etc. definem-se como funcionalização do mundo e é por eles que o mundo é percebido empiricamente. Mas cuidado. mas.". A cada temporalização prática cor responde uma espacialização prática. ao menos do ponto de vista geográfico: o nível do mundo e o nível do lug ar. Nada mais são que uma abstração. dividem -se pelo movimento da totalidade. planeta e história. p. embora engajada em sua imediata auto -realização é concernida pelo universo. em última análise. Para agir. dois desses níveis são os mais relevantes. 107 . somente há situações porque os eventos se sucedem. Não distinguiríamos entre unidade e diversidade. Consideremos que o acontecer. Isso quer dizer que outros acontecimentos. é como se a totalidade se estivesse cindindo. através da divisão do trabalho e na forma de eventos. ao contrário. aliás. 1946. 51) nos chama a atenção para o fato de que "[. eventos simples são amalgamados. são consequência da existência dos ho mens sobre a Terra. Segundo Einstein (1905. se os considerarmos à parte da totalidade. isto é. p. as duas formas essenciais de inter dependência e simultaneidade dos eventos. padrões que estão sempre mudando para oferecer uma nova trama e uma nova verdade. totalidades em permanente processo de totalização. planeta e história. levados pelo mesmo movimento. e também em The Principie of Relativity. onde uma nova cisão renova o movimento. Os eventos operam essa ligação entre os lugares e uma história em movimento. Os eventos são individuais. Na realidade.

aquela presença de corpos ausentes. No caso do acontecer homólogo e do acontecer complementar isto é. chama de "domínios". oriunda dos próprios processos naturais. a região pode ser considerada como um lugar. Como vimos anteriormente. Antigamente. Tanto o acontecer homólogo quanto o acontecer complementar supõem uma extensão contínua. as informações utilizadas tendem a se generalizar horizontalmente. região ou lugar. trata-se de teleação (A. o que chamamos de verticalidades. resultante das ordens e da informação provenientes de um lugar e realizando -se em um outro. O acontecer complementar é aquele das relações entre cida de e campo e das relações entre cidades. chamando a atenção para a realização compulsória de t arefas comuns. mas é um centripetismo do outro. ao contrário. É a outra cara do sistema urbano. as relações podem ser pontuais. gerando contigüidades funcionais que dão os contornos da área assim definida. de solidariedade. num dos capítulos esparso s de sua Geografia do Tempo. desde que a regra da unidade. nas áreas de produção homóloga no campo ou de produção homóloga na cidade. No primeiro caso. no passado remoto. O acontecer homólogo é aquele das áreas de produção agrícola ou urbana. Em cada momento. E os lugares . para utilizar uma imagem do poeta Paul Valéry. entre lugares. trata -se. dominada por uma mesma produção industrial. Aqui. o acontecer hierárquico é um dos resultados da tendência à racionalização das atividades e se faz sob um comando. era reservado à energia. se apresenta sob três formas no território atual: um acontecer homólogo. temos a primazia das normas. também. E há. a solidariedade independe da contiguidade. entre pessoas. Finalmente. Neste último caso. Na realidade. 110 109 . na era da globalização (Santos. 1994). era a energia. No segundo. centripetismo.veja-se o exemplo das cidades grandes . o acontecer hierárquico. cobrindo inteiramente a superfície da Terra e cujo desenho é fornecido pelo curso da história: a escala deixa de ser uma noção geométrica para ser condicionada pelo tempo. geométrica onde o lugar devia ocupar uma extensão do espaço geográfico menor que a região. temos o domínio de forças localmente centrípetas. de um cotidiano comandado por uma informação privilegiada. para ser hoje o verdadeiro instrumento de união entre as diversas partes de um território. A. criam-se o que chamamos de horizontalidades e. na cidade e no campo sendo a contiguidade o fundamento da solidariedade. Não é que haja um lugar comandando um outro. numa mesma cidade. é possível identificar esse acontecer homólogo. como trabalho. mesmo que o projeto não seja comum.No acontecer homólogo e no acontecer complementar. o que reunia as diferentes porções de um território. é aquela encontrada em Durkheim e não tem conotação moral. e a relevância aqui não é da técnica. no segundo caso. é a informação que vai ganhando essa função. consequência igualmente de necessidades modernas da produção e do intercâmbi o geograficamente próximo. sem dúvida. Esse acontecer solidário. esse acontecer solidário é homologo. 1974). Esses são os novos recortes territoriais. Ao longo da história. trata-se de um acontecer solidário. Já no caso do aco ntecer hierárquico. É a diferença entre proximidade espacial e proximidade organizacional (Laurent Gille. malgrado todas as formas de diferença. também há. Em todos os casos. Mas os limites à escolha de comportamentos num lugar podem ser devidos a interesses sediados em um outro. levando à criação e à recriação daquilo a que Hàgerstrand. ele é complementar como t ambém. o território atual é marcado por um cotidiano compartido mediante regras que são localmente formuladas ou refor muladas. um acontecer complementar e um acontecer hierárquico. enquanto no acontecer hierárquico o domínio é de forças centrífugas. a co-presença é uma causa ou um efeito da aç ão. A noção. aqui. que tendem a ser concentrados. Moles. nas relações interurbanas. uma informação que é segredo e é poder. Neste caso. a territorialidade do acontecer históri co está sempre mudando. mas da política. Nos dois casos. Nas relações entre a cidade e o campo. em estado bruto. Mas. Quanto ao acontecer hierárquico. uma organização. a informação joga um papel parecido àquele que. há sempre um mosaico de subespaços. senão como metáfora. No caso do acontecer hierárquico. que se modernizam mediante uma informação especializad a.também podem ser regiões. No primeiro caso. 1987). e da continuidade do acontecer histórico se verifique. Na primeira hipótese (acontecer homólogo e acontecer comple mentar) temos a primazia das formas com a relevância das técnicas. que define um subespaço. Numa região agrícola.

a de E.. e um terceiro. 1980. três são os estágios do desenvolvimento da tecnologia desde então: o da máquina a vapor. 1980. antes de considerar o sistema de linhas de montagem. Também para H. de um sistema de máquinas a vapor de fabricação industrial. partilhado pelo espaço e pela sociedade. em resumo. finalmente. Desse modo. a introdução da produção de massa. é um conjunto de ferramentas que exige uma energia não -humana. C. Mandei. a revolução cibernética. Heidegger simplifica a questão. Por isso é frequente iniciar com essa data a periodização da história da técnica. faz desse momento um marco definitivo. com a imitação de processos naturais e onde a grande novidade foi a descoberta das minas de carvão. Mas aqui há apenas "destreza e não ciência". ponto de partida para transformações consideráveis. L. o das técnicas intuitivas que utilizam a água e o vento. o conhecimento dos sistemas técnicos sucessivos é essencial para o entendimento das diversas formas históricas aceleração. a máquina. 34 -36). Em suas expressões. Visão tripartite é. É verdade. a revolução industrial. de fabricação e funcionamento artesanal.antigos e uma técnica dos modernos. É. INTRODUÇÃO O papel que as técnicas alcançaram. 43) se refere a quatro sistemas de máquinas. 117). dos instrument os artificiais utilizados pelo homem. Cada período é portador de um sentido. iniciado em torno de 1900. inteiramente sob o seu controle. o da automação. o das técnicas científicas da eletricidade e das ligas metálicas.. seria resumida em três palavras: a ferramenta. em torno dos quais se organiza cada tec nologia específica e uma forma específica de organização do trabalho. Olhando o processo evolutivo das técnicas. e em ter ceiro lugar o desenvolvimento de sistemas baseados nos computadores. a técnica do técnico ou do engenheiro. a primeira no século XVIII. 160 - 162). Ele distingue um sistema de máquinas a vapor. 74). e. em um dado momento de sua evolução. 1962. propondo que se reconheça uma técnica dos 112 111 eletricidade. De modo diferente. 43). p. também. que Mandei (1980. Rose (1974) a propor três grandes tempos: a revolução neolítica. A ferramenta é OSISTEMATÉCNICOATUAL movida pela força do homem. . É. Suas definições revelam momentos decisivos na evolução das relações entre o homem. p. na terceira fase que se instala esse "estudo consciente. quando se refere às três revoluções tecnológicas sucessivas. Uma história geral. dizendo que na primeira fase não há um método para descobrir ou tra nsmitir as técnicas utilizadas. 62 -63) comenta esta última periodização. [. Arendt (1958. Ronald Anderton (1971. a segunda datando de fins do século XIX e a terceira sendo a atual. o das técnicas empíricas do ferro e do carvão. mas simplificada. a história da industrialização deve ser lida segundo três marcas: "em primeiro lugar. Attali (1982) referir-se às técnicas do corpo. incluindo entre aqueles os dois primei ros momentos da classificação Terceira Parte de Ortega (Mitcham. representativo da forma como a história realiza as promessas da técnica. um segundo. os fluxos contínuos com máquinas semi-automádcas dependentes da eletrônica. Mandei (Long Waves. a tecnologia. os materiais. p. na automação". o estabelecimento de métodos fabris da manufatura. funcionamento e articulação dos territórios. o autómato. a máquina. Para A de estruturação. através da máquina. no OS PERÍODOS TÉCNICOS controle e nas comunicações. Mitcham (1991. na seguinte já há algumas técnicas conscientes transmitidas entre gerações por uma classe especial. porém.. p. nessas circunstâncias foge ao controle humano (Laloup & Nélis. Ortega y Gasset (1939) tam bém identifica três momentos nessa evolução: a técnica do acaso. 1981. a partir da revolução industrial. a dos artesãos. capaz de responder às informações recebidas. confundindo-a. A divisão do tempo histórico posterior à revolução industrial é maiorita riamente tripartite. às técnicas das máquinas e às técnicas dos signos. o autómato. estão em relação com um determinado estado das técnicas. reunindo máquinas equipadas com motores elétricos e. na pro dução da história mundial. em segundo lugar. 9). são quatro tipos de tecnologias e de máquinas radicalmente distintos (E. e autorizou J. o mundo vivo. 1991. um momento de grande s características da sociedade e do espaço geográfico. p. o da A evolução milenar das técnicas permitiu a J. pp. as formas de energia. finalmente. situado entre 1750 e 1900.] com o desenvolvimento do modo ana lítico de pensar vinculado à ciência moderna". p. vigente até cerca de PORUMA GEOGRAFIA DOPRESENTE 7 ------------------------ 1750. igualmente.. pp. também controlada pelo homem. apenas. desde os albores da historia até a época atual. Mumford (1934) também propõe agrupá -las em três momentos: um primeiro. assim com a história do maquinismo. a técnica do artesão.

Mas. o telefone e o automóvel. . uma relação cronológica e cultural". 1987. cada etapa vencida no progresso técnico supõe a produção paralela de novas rigidezas. Salomon. ainda. são erigidas em sistema. Setores de Crescimento -máquinas têxteis -química -fundição Paradigma Tecnoeconô mico Primeira Mecanização 1770-1840 Máquina a Vapor e Strada de Ferro 1830-1890 Eletricidade e Engenharia Pesada 1880-1940 Produção Fordista Massa 1930-1990 Informação Comunicação 1980-? como em outros momentos de grande avanço tecnológico. p. Hughes. 1980. 24). M. apresentada nas páginas anteriores. incompleto. onde parecem residir os principais elementos do mundo novo a cuja formação estamos assistindo (Ver Tabela 2). revela que uma técnica nunca Novas Inovações -máquina vapor a aparece só e jamais funciona isoladamen te. o da máquina a vapor e da estrada de ferro (steam powerand railway) (18301890). Gros. ligados aos escritórios e às residências. M.) -Instrumentos primitivos Segundo Fu-chen Lo (1991). A estabilidade encontrada é.Telecomunicações -Novos materiais -Robótica -Biotecnologia A história. mera continuação das conquistas e dos processos característicos do século. Em sua listagem dos paradigmas tecnoeconômicos vigentes desde a revolução industrial. J. O período atual. até que outro sistema de técnicas tome o lugar. A vida das técnicas é sistémica e sua evolução também o é. cabe perguntar se o que estamos presenciando constitui realmente uma mutação. -aço -eletricidade -gás -corantes artificiais para quem a noção de sistema é inse parável da ideia de técnica. pois. Ellul. Andersson (1986) seria marcada pêlos sistemas multiuso de informação. Bertrand Gille (1978) insiste em que esse termo deva ser usado no plural (J. E não se trata apenas. Essa quarta revolução industrial prevista por A. iniciado em 1980 (ver Tabela 1). As técnicas constitutivas do sistema são integradas funcionalmente. Debray (1991. 1961). é difícil prognosticar com firmeza seus futuros -Automóveis -Aviões -Produtos sintéticos -Petroquímica contornos. De fato. novos avanços na biotecnologia (euphenics) e o controle do tempo (B. o da energia elétrica e da engenharia pesada (electrical and heavy engi-neering) (1880-1940). OS SISTEMAS TÉCNICOS -máquinas a vapor -estradas de ferro e seus equipamentos -máquinas -instrumentos -Engenharia elétrica -Engenharia mecãnica -Cabos e fios -Produtos siderúrgicos -Computadores -Bens eletrônicos de capital . ainda que sumária. por sua vez. Conjuntos de técnicas aparecem em um dado momento. Não é possível entender plenamente uma -automóvel -avião -rádio -alumínio -petróleo -plásticos -computadores -televisão -radar -máquinasinstrumentos -drogas técnica fora do todo a que pertence (J. T. É essa a lógica de sua existência e de sua evolução. Muitos somente querem ver. pp. de uma adição. 1980.-J.TABELA 2. E. MUDANÇAS TECNOLÓGICAS / AVANÇOS ESTRATÉGICOS Meios (Mass. a televisão e o foguete espacial. uma etapa superior mas apenas uma etapa. nos formidáveis avanços recentes da técnica. Tsuru. p. Perrin. a fusão nuclear. 88). e de A certeza quanto aos desenvolvimentos possíveis a partir das técnicas atuais é generalizada. haveria cinco períodos: o da mecani zação incipiente (early mechanization) (1770-1840). 1982. O primeiro sistema industrial durou quase um século. mantêm -se como hegemónicos durante um certo período. Gross. Ellul (1977. relativa e precária. "Há uma solidariedade de fato" diz R. p. PERÍODOS SUGUNDO FU -CHEN LO (I99I) -Fusão atômica Fonte: B. Fu-chen Lo (1991) deixa o espaço vazio para as novas inovações relativas à informação e à comunicação. levando a novas disfunç ões e à emergência de novas invenções que. pp. O seguinte foi menos longevo. 114 113 avião. 239) entre o telégrafo elétrico e a ferrovia. em relação ao período anterior. segundo J. 1971. 272-273. 272-273). constituindo a base material da vida da sociedade. o rádio e o Como em outras passagens decisivas da história. o da produção fordista de massa (fordist mass production) (1930-1990) e o período da informação e comunicação (information and communication). Período Pré-agrícola Informação -Linguagem Agrícola Energia -Fogo -Animais -Pólvora -Charrua -Ferro -Aço -Máquinas avançadas -Estradas de ferro Industrial -Máquina a vapor -Eletricidade Atual -Fissão atômica -Baterias elétricas -Lasers Iminente (antes do ano 2000) -Escrita -Imprensa -Telégrafo -Telefone -Fonógrafo -Rádio -Cinema -Televisão -Satélites -Computadores -Sistemas de controle -Multimídia -Burótica e domótica -Transporte supersônico e interplanetário -Novos materiais sintéticos -Próteses -Controle do tempo -Biotecnologia TABELA I. cheio de promessas é. 1971.

está situada a base material e ideológica em que se fundam o discurso e a prática da globalização. p. Kubler (1973. Maynz. J. Com a tecnociência. significado pela cibernética (L. Os presentes sistemas técnicos incluem o que se denomina ma -crossistemas técnicos. o período de desenvolvimento. Esse desenvolvimento. "As técnicas estabelecem entre elas relações de dependência".. graç as. Ménard. Joerges. do efeito desejado para estabelecer a cadeia causal necessária. de 37 anos. utilizados em jogos. televisão por cabo. americanos e franceses (B. Essa rapidez na adoção das novas tecnologias também pode ser medida com outros parâmetros. Hoje. aeroportos. "a ideia de sucessão também pressupõe que na sequência das invenções existe uma ordem estrutural. em grande parte. 5) produtos que invisivelmente incorporam componentes eletrônicos (máquinas fotográficas.) em L’Action Humaine. mas realidades que permitem ree ncontrar as suas relações.. Schon (1971. novas apropriações das virtualidades da natureza é poderosamente multiplicado. A comple mentaridade entre técnicas. técnicos sem os quais . constituído pela soma de dois momentos. uti lizando "meios de circulação materiais e imateriais (informacionais). Mas. criam-se microssistemas técnicos. apontada por tantos autores. Joerges. novas engrenagens. 224). 3) microcomputadores e computadores domésticos. p. Ellul. A.). também. Chesneaux (1983. no aprendizado. independente das outras condições". 1977. teleOSISTEMA TÉCNICO ATUAL alarmes. prazo que baixa para 24 anos no período entre as duas guerras mundiais. Os sistemas técnicos envolvem formas de produzir energia. ou. 73) desenha um quadro sinótico das diferenças Mas a interpretação do tempo das técnicas não é única. o período de desenvolvimento de uma tecnologia era. com o seu uso generalizado. formas de discurso e interlocução. pp. As inovações técnicas introduzidas nos vinte anos após a segunda guerra mundial se espalha ram duas vezes mais rapidamente do que aquelas introduzidas depois da primeira guerra mundial e três vezes mais do que as introduzidas entre 1890 e 1919.. para red uzir-se a 14 anos após a Segunda Grande Guerra. 1973) prefere falar de invenção da organização da invenção. p.). e que se caracteriza por ser um sistema "flexível. 71) havia prognosticado. é estrutural. na gerência das atividades e do orçamento doméstico. formas de infor mação. 1992a e 1993).). ao labor inventivo de Thomas Edison. o processo criativo de novos objetos. Uma das características marcantes do sistema atual. Perrin (1988. diz J. Lojkine (1992. Foray. p. e constituem o fundamento material das redes de poder. longamente preparado desde o século XVIII. Pode-se dizer que a evolução interna dos sistemas técnicos é ca racterizada por uma busca de coerência entre suas peças. p. Os macrossistemas técnicos promovem grandes trabalhos (barragens. Gertler. de máquinas polifunciohais" . formas de relacionar os homens entre eles. 65). aparelhos domésticos automóveis. p. Miquel 8c G. Siegfried (1955. o tempo que dura entre o encontro de uma nova tecnologia. Essa expressão é utilizada por alguns autores alemães. tornou-se possível o método de estudo e antecipa ção. As épocas se distinguem pelas formas de fazer. hoje. deve -se. câmaras cinematográfic as. como A. 2) novos serviços ligados à rede telef ónica (secretária eletrônica. vídeos. bancos de dados. teletexto. 126) nos adverte para o fato de que não sendo elas eventos isolados. decentralizados e interativos (telemática em redes)". auto-regulado. 1988: T. jogos. 192 ss. também. Braun & B. um outro dado de sua existência sistémica. essa miniaturização da sociedade de que fala J. Onde Whitehead fala de "invenção do método da invenção". 1992. Será temerário indicar qual é.. aliás.os outros sistemas técnicos não funcionariam. p. Cada período é desse modo marcado por uma espécie de coesão.. O casamento da técnica e da ciência. novos materiais. Em sua versão atual como tecnociência. 1976. como a maior invenção do século XIX.). 28) e o seu desenvolvimento histórico "multiplica o número de inter -relações". veio reforçar a relação que desde então se esboçava entre ciência e produção. em outras palavras. bens e serviços.. p... 4) produtos novos nascidos da combinação das três precedentes categorias (videotexto. Hériard. isto é. Hughes 8c R. às associações cada vez mais íntimas entre ciência e técnica. 116 115 . referindo -se. Victor Scardigli (1983... 1988. 23). partindo -se. ao fato de que toda modificação de um elemento incide sobre os demais (J. 98). Gras. pp. 1994). por exemplo o resp ectivo período de desenvolvimento. isto é. como carne de endereços .). seus elementos materiais e sociais. entre o sistema sociotécnico anterior e o que agora se está implantando. também.. I. sua aceitação como válida para fins industriais e sua afirmação histórica. que permite enxergar nele um conjunto técnico auto-regulado (Ch.Em sua obra bastante didática. p. reuniões à distân cia . 24-25) reúne em cinco categorias os produtos e serviços advindos da presente revolução científico -técni-ca: 1) inovações ligadas à mídia rádio -televisiva (rádios e televisões locais. em media. No começo do século XX. para se referirem àqueles sistemas de transporte terrestre. 1988... que já havia sido evocado por Simondon é. vias rápidas telecomunicações etc. o período de incubação e o período de desenvolvimento comer cial. pelas técnicas. 1992. frequentemente. comparado com os anteriores. responsável pelo f ato de que a produtividade de cada invenção depende da disponibilidade de tecnologias comple mentares e um novo sistema técnico não funciona plenamente antes da mise au point e instalação das chamadas "técnicas afluentes" (D. 24). é a rapidez de sua difusão. transferências bancárias eletrônicas. tal como foram descri tos por Pierre George (1986. isto é. A velocidade de adoção neste último período é duas vezes maior que no segundo e três vezes maior que no primeiro. explicitamente. G. D. Esse "meio ambiente técnico". fax. tomado como um símbolo da "paixão técnica" (B.

Mas. na medida em que. Um outro característico das técnicas atuais vem do fat o de sua indiferença em relação ao meio em que se instalam. Nesses lugares. incorporadas à natureza e ao território. Os sistemas integrados são representativos dos sistemas eco nómicos hegemónicos e buscam instalar-se em toda parte. em seu livro The Republic o f Technology69. Para Thierry Gaudin (1978. para definir o fenómeno técnico contemporâneo: racionalidade e artificialidade. Na realidade. para o outro a curiosidade e a necessidade. 160). "não podemos ir para frente e para trás. Neste sentido elas são irreversíveis. p. 1983. defrontamo-nos com um verdadeiro endurecimento organizacional. Stiegler (1994. Em sua versão contemporânea. Ainda que fosse possível abandonar algumas. Paralelamente. p. desse modo. sobretudo. estão presentes nos lugares mais ermos e invadem nossas casas. irreversíveis. A imagem de W.o nosso autor (Th. A ra pidez com que geograficamente se difundem as tecnologias do presente período mostra-se ainda maior quando a comparamos com o que o mundo conheceu na fase anterior. que a tecnologia aparece como um elemento exógeno para uma grande parte da humanidade. Essa inevitabilidade tanto se deve ao fato de que a sua difusão é comandada por uma mais-valia que opera no nível do mundo e opera em todos os lugares. do livro de W. Há. É a primeira vez na história. numa área. cada Vivemos a era da inovação galopante (Kende. 186-196) trata a questão de outra for ma. dois modos extremos de existência. 64 -79. Estas seriam. em um primeiro momento. em toda parte. Esses limites são dados pela divisão do trabalho e pelas condições de criação de densidade. elas são produtoras da história. lembra sociedade é caracterizada pela convivência de diversos modos de existência técnica. tanto mais rígidas quanto mais se pretende alcançar a produtividade e a sacrossanta competitividade. então. Nada é levado em conta. Os sistemas técnicos característicos do período atual b uscam afirmar-se com ainda mais força do que os precedentes. não são encontrados em estado puro. como bem nota Marc Humbert (1991). a tecnologia se pôs ao serviço de uma produção à escala planetária. tanto mais há tendência para que esses sistemas técnicos hegemónicos se instalem. 40) é bem ilustrativa. p. p. que inventa objetos da vida cotidiana. sistemas integrados não -flexíveis e sistemas autónomos flexíveis. técnicas elitistas e técnicas populares. exceto a busca desenfreada do lucro. tanto é devida à técnica contida nos instrumentos. Nas palavras de Daniel J. Boorstin. enquanto em nossos dias esse processo é brutal. Tais modos extremos.. 159). Thierry Gaudin (1978. nem os dos recursos. 78-79). permanecem aquela s que se impuseram como modo de ser. como nos períodos anteriores. pp. onde quer que se encontrem os elementos capazes de permiti -lo. devido à indispensabilidade das normas de ação. aquelas que caracterizam os sistemas integrados inflexíveis. E a tecnologia atual se impõe como praticamente inevitável. cada qual com suas próprias armas: para um deles. são um produto da história. um processo gradual de difusão. e. ou buscando incluí -los em sua lógica. 1978. diz Amilcar Herrera (1977. assim. Para se tornar localmente história. 1971. mobilizam meios consideráveis e utilizam especialistas e as segundas result am da combinação do savoirfaire e da imaginação das massas. Rybczynski. 159 -160) haveria. quanto ao método de sua utilização. onde nem os limites dos Estados. Citado no frontispício do capítulo 5. desalojando os sistemas autónomos. costuma -se dizer que ela é irreversível. que coexistem e se afrontam. 1992). as novas tecnologias envolvem muito mais gente e colonizam muito mais áreas. pp. é mais eficaz a ação dos motores da economia mundializada. ser identificados por um grande número de ca racterísticas. Gaudin.. que facilita a sua inserção em toda parte. as tecnologias contemporâneas se tornam. os sistemas técnicos atuais podem. entre a lâmpada de querosene e a lâmpada elétrica". Não é esse um dos menores paradoxos a que nos leva o discurso contemporâneo: quando tanto se fala em flexibilização e flexibilidade como características do presente modelo de acumulação. em termos. sua generalização não significa homogeneização. como paisagem artificial. pp. que incluem as instituições supranacionais. já que diretamente participam desse processo. isto é. a técnica não nece ssita compor a priori com a herança cultural. também.é um fator de divisão do trabalho. há. Mas. essa dureza (Th. técnicas como modo de fazer. Praticamente inevitáveis. As primeiras respondem à demanda do príncipe. p. 80) chama de evolução técnica industrial. na realidade. Taming the Tiger. o confisco institucional. Mas ela também não está obrigada a esposar as virtualidades do meio geográfico. E a densidade . 118 117 . quando propõe distinguir as técnicas atuais entre o que chama de técnicas doces (techniques douces) e técnicas duras (techniques dures}. 118). enquanto o rádio e a televisão penetram no coração dos países. Mas. Gaudin fala de endur ecimento da técnica atual). Da técnica em geral. pois facilita a cooperação. que impõe o abandono da hipótese antropológica. direta ou indiretamente. Era. Quanto mais forte. Se os atuais sistemas técnicos são invasores. as empresas e bancos multinacionais. "Ghost Dancing". que uma vez uma inovação implantada é impossível viver sem ela. Acrescentemos que essa inflexibilidade. É a isso que um filósofo como B. Rybczynski (1983. segundo diferentes graus de dependência. Assentes sobre esses novos produtos. 69 . sua capacidade de inva são tem limites. em um segundo momento. nem os dos direitos humanos são levados em conta.já notavam Marx e Durkheim . é a divisão do trabalho. quando ele escreve que "a mecanização parou na plataforma da estrada de ferro". Mas essa quantidade de aspectos pode ser resumida nas duas dimensões propostas por Jacques Ellul (1964. Sua irreversibilidade advém de sua factibilidade. múltiplos níveis de integração e de flexibilidade. p. quanto em razão da formidável força do imaginário correspondente (Gras & Poirot -Delpech. Onde o novo sistema técnico pode implantar -se ele o faz como sistema integrado. 101.

Dias. mediante a qual foi possível a v itória da "coalizão telemática" ante a coalizão postal -industrial. [de] uma terceira informática. Isso é devido a extrema intencionalidade do objeto técnico atual. 30) chamaram de "tecnologias con vergentes".]" (R. muito mais que há três decénios. conduziram progressivamente a um crescimento quantitativo. Para muitos. Morgan. p. incumbida do estudo da "co municação e controle no animal e na máquina" 72. Mc Bride. p. De uma multiplicidade de instalações e uma plurali dade de comandos encaminhamo -nos para um comando único. apoia a produção de protótipos e normas. 314). portador de virtualidades precisas que o distinguem e distanciam das incertezas da natureza. Pastré 1983. Agora não é mais possível repetir o erro apontado por F. A racionalidade resultante se impõe às expensas da espontaneidade e da criatividade.]" (Jacques Robin. ao menos.. como em 1940 chamou Wiener a essa nova disciplina. 71 . telecopia. isto é. mediante especializações cada vez mais estritamente funcionais. 1992. 3). Morgan (1992. 120 119 . biotec -nologias. A revolução informática e do controle tornou possível a realização da previsão de P. A grande mutação a que estamos assistindo não seria possível sem aquilo a que P. robótica. inegalitária e AS TÉCNICAS DA INFORMAÇÃO concentradora é a base do poder (M. p. 1993. Naville (1963. p. p. a que vivenciamos na atualidade" (Ph. p. computação e burótica. desde a origem. 1986. 9). Kubernan. dos usos. 97). 177-178) na análise económica das sociedades ocidentais. VI).informática". no dizer de G. e governar \gouverner]. poderosos bancos de dados. auto-expansiva e relativamente autónoma. "Esses termos mudaram de registro porque designam noções físicas. dos produtos. isso pode ajudar a entender a importância atual do processo de informação. Vivemos a era da informação que. uma mobilidade medida. C. no tempo e no espaço). resultado da segunda vaga de mudanças tecnológicas dos anos 90 (J. 15). p. indivisível. 1993. da energia. VI). finalmente. a informação. pp. cada intervenção técnica sendo uma redução (de fatos. prevista. mapas seletivos à puce [. uma segunda onda de mutação tecnológica. Paché. e. Hoje. é a matéria-prima da revolução tecnológica (L. . 1991. A fase atual é chamada por Philippe Breton (1991.] uma primeira informática. de forças e de meios). sem criação de empregos. Traber. É assim que ele se torna concreto. mensageiros eletrônicos. Hall & P. telecomandos de concepção e produção. isto é. exigentes de um c ontrole coordenado. telecomunicações. Os sistemas técnicos são. mas ab arca a totalidade dos sistemas técnicos. "Nestes anos 90.donde se conclui que controle e comunicação estavam.. p. 89 -90). A primeira onda fornecera os instrumentos que facilitam a maneira inédita da produção de bens e serviços: informática. 1986. A técnica alimenta a estandardização. mas seu desenvolvimento teve de esperar pelo advento das tecnologias do microprocessamento. A segunda onda proporciona instrumentos ainda mais sofisticados: software performantes. cada vez mais. de instrumentos. Esta teria começado nos Estados Unidos no século XIX. por exemplo. p. que não se apercebia do papel central representado pela "transferência regular de uma infor mação utilizável" para os agentes implicados no processo produtivo. não seria eficaz sem a desregulação. baseada na combinação entre a tecnologia digital.. contrariamente a todos os prognósticos. atinge até os centros nervosos das empresas e das administrações. apenas viveríamos agora a continuação de um pro cesso. inter-relacionados [. unificado. p. 1990.. pp. 72). Perroux (1962. 254) quanto à mobilidade gene ralizada (dos homens. p. 1990. Debray. que avança até o final da década de setenta. com a microeletrônica 70. p. p. isto é. em su a forma atual. Da informatização pode ser dito que é um novo modo -dominante de organização do trabalho (O. 1986. grandezas mensuráveis e contáveis . 1986. ou. de muitas outras tecnologia s e a condição de sua operacionalidade (S. porque ao serviço de um lucro a ser obtido univers almente. Simondon (1958). 3). "[. Essa tendência não é exclusiva de apenas um sistema técnico. Benniger. Mas a "sociedade da informação" não teria sido possível sem a "revolução do controle" (J. que as segura aos centros de decisão um real poder sobre os outros pontos do espaço. Mas essa "convergência tecnológica" entre telecomunicações. como o da eletricidade. pelo amadurecimento da ciência da cibernética. levando consigo a respectiva racionalidade a todos os lugares e grupos sociais. que tende à informatização generalizada das sociedades ocidentais. acrescenta K. De 1975 a 1990 esses instrumentos transformaram a paisagem da sociedade industrial e. R. É dessa forma que se cria a chamada "era das telecomunicações". 1991. na eletromecânica e numa primeira fase da eletrônica) e de uma terceira e atual geração de tecnologias da informação. Preston (1988. p. atribuindo ao método apenas a sua dimensão lógica. Como os sistemas técnicos funcionam em uníssono com os sistemas de ações.. É a partir dessa artificialidade que a característica de racionalidade se constrói. a política neoliberal e os mercados globais (K. controlada. 293). Cerca de noventa por cento de todos os dados veiculados por meio de satélites o fazem entre grandes corporações e metade das mensagens transnacionais cabe dentro das redes das empresas multinacionais (M. Robin. iniciada nos anos 80 71. 72). que se estende de 1945 até mais ou menos a metade da década de sessenta: [de] uma Segunda informática. "Leme \gouvernail\ se diz em grego kuberné. da combinação de uma segunda geração de tecnologias da informação (baseadas na mecânica. Daí se tirou ultimamente cibernética para designar "o conjunto das teorias relativas ao tratamen to da informação" ou "transformação programada de uma comunicação em comando" ou da informação em execução. sistemas experts. servida por um discurso.. Controle centralizado e organização hierárquica conduzem à ins talação de estruturas inegalitárias. iconografias interativas. É dessa forma que a técnica se torna autopropulsiva. 318). As tecnologias da informação constituem a substância (life-blood) A artificialidade do objeto técnico é a garantia de sua eficácia para as tarefas para que foi concebido. 72 . p. graças ao seu papel na circulação física das mercadorias e na regulação dos circuitos pro - dutivos e dos estoques (G. Breton. 15) de "terceira 70 já que a informação essencial é exclusiva e apenas transita em circuitos restritos. Traber. captadores de todos os tipos.

uma convergência dos momentos. uma simultaneidade dos instantes. o rádio. Graças. Joerges. Mani -pulador da informação. pp. torna-se historicamente operante. como ficou dito. p. a ferrovia obriga à instalação de um horário unificado. diz Alain-Marc Rieu (1987. mas contribui à sua apresentação simplificada. a única maneira de recusar o que Carneiro Leão. mesmo. 1971. por sua vez. o volume da comunicação é aquela que está crescendo mais rapidamente (excetuada. "Quando aliado à rede de transmissão de dados em alta velocidade ele assume o seu papel como manipulador de informação (incluindo a informação não-numérica) de potencialidade ilimitada e é visto como um instrumento de comunicação. 106-107). A nova situação antropológica. a única máquina com status conceituai nas ciências sociais era a máquina-instrumento (machinetool). A 73 racionalidade que estamos testemu nhando no mundo atual não é apena s social e económica. exatamente. 1993. É o que Louis Pawels (1977) chama de pensamento calculante. Ele não simplifica o que é complexo. p. Par a permitir a operação combinada das linhas. ela reside. 11) e ainda hoje preenche o imaginário da socie dade neste fim de século. J. 51). conforme nos lembra Philippe Queau (1987. A aparição do computador constitui um momento fundamental nessa evolução. A história das técnicas é. maior a exigência dessa racionalidade instru mental que. Ellul. sobretudo. Ellul retrata esse processo ao dizer que o computador detesta o que é diferente e odeia o particular. A influência das técnicas sobre o comportamento humano afeta as maneiras de pensar. das multinacionais financeiras. cada localidade tinha sua própria hora. 122 121 . Todas essas inovações amplificaram o poder de comunicar. como diz J. O que não parece útil é retirado. o domínio da lógica matemática sobre a lógica da historia. no território. exige mais artificialidade e racionalidade. a televisão. 64). Sua base de funcionamento é a delimitação do saber e sua eficácia tem esse preço. Indicadores como as conversões do número de telefone estão mostrando tempos duplicadores de apenas alguns anos" (Ronald Anderton. De todas as tendências explosivas a que nos referimos antes. O último e mais importante desenvolvimento é o computador. que não é apenas. p. Esse rigor matemático vai também inscrever -se no território. uma maneira de ver subordina da às formas padronizadas e automaticamente processadas. o computador é símbolo deste período histórico. onde as consequências da globalização impõem práticas estritamente ritmadas. nessas circunstâncias? Rieu acredita que a informática fará voltar o tempo da filosofia. 1991. sugerindo uma economia de pensamento adapta do à lógica do instrumento. como utilizá-lo de modo absolutamente rigoroso. à construção técnica e social desse tempo real é que vivemos uma instantaneidade percebida. Mas o que é pensar. Gras. o computador amplia o poder de comunicar (antes realizado pelo automóvel. testemunhas dessa transcendência da técnica que conduz a uma verdadeira concretização da metafísica. Cada nova técnica não apenas conduz a uma nova percepção do tempo. Para ser eficaz. com a produção das realidades artificiais e das imagens de síntese. 21). a uma obediência cada vez mais estrita ao relógio. o rádio e os meios de comunicação em massa impressos. 31). Na França. O computador foi a única vitrina da informática perante o grande público (Ph. pois ele necessita de grandes séries ho mogéneas. A cidade moderna nos move como se fôssemos máquinas. Ele o deve às suas qualidad es na tomada de decisão e nos processos de coordenação e concentração. isto é. criticado por Daniel Base da telemática e da teleinformática. um supercalculador. a um rigor de comportamento adapta do ao novo ritmo. a viagem aérea e o telefone. o que somente obtém à custa de um processo brutal de redução. a história da convergência dos momentos e a partir da estrada de ferro esse processo de unificação marcha a galope. para se tornar umas das bases de operação das multinacionais da produção e. são unificados os processos produtivos e tanto é possível adotar uma subdivisão extrema do tempo. processo que Halévy (1948. p. Anderton. pensamento preocupado com o útil. O exemplo mais flagrante é o da vida urbana atual. Breton. imediatez na transmissão e recebimento das mensagens e ordens (J. baseada numa lógica redutora que elimina os dados considerados inúteis. 121). também. Nossos minutos são os minutos do outro e a articulação dos movimentos e gestos é um dado banal da vida coletiva. acentua o risco da prevalência do que ele chama de pensamento associado. o pensamento calculante exclui o acidente e sub mete a elaboração intelectual a uma prática onde a sistematização e a estandardização impõem sua lógica própria. É a partir do computador que a noção de tempo real. a descoberta do ivhirewird é depois assumida pela economia. uma permanente corrida atrás dos horários. produto mecânico da submissão às máquinas de pensar e contra o qual devemos mobilizar nosso pensa mento crítico. e os nossos menores gestos são comandados por um rel ógio onipresente. juntos. produto do tempo real criado no laboratório. O relógio de Taylor torna -se muito mais preciso. lugar agora cedido ao com putador (B. a nossa capacid ade de matar). . É como se as matemáticas ganhassem vida própria. ao mesmo tempo produz o tempo real das instituições e empresas multinacionais. O computador. seja pela mobilidade física ou por alguma forma de transferir informação remota por meio das telecomunica ções. 122 -123).data do século 18. em seu livro A Máquina e Seu Avesso (1987). p. ou basicamente. Máquinas chamadas inteligentes e pensamento calculante são. 1988. 122-123)73 e permitindo rapidez e. p. "Os mais poderosos geradores de mudança social no século XX foram o automóvel. permitindo a coerência da ação e a possibilidade de previsão. Chesneaux (1983. pp. Trabalhada primeiro nos laboratórios universitários para fins militares. Quanto mais artificial é o meio. antes de sua introdução. um dos motores fundamentais da nossa era. Veja-se o exemplo das estradas de ferro. Mas esses imperativos da vida urbana estão cada vez mais invadindo o campo modernizado. denomina de cegueira radical. No século passado e durante muito tempo. a televisão e a mídia impressa) (R. Ela também obriga a um novo uso do tempo. A racionalidade que os seus cálculos constróem é. realmente. p. pp. A mate -matização do homem. 1971. 6) ou como se o espaço matemático se encarnasse materialmente (A. Através dele. 1977. é o corolário dessa tendência que vai conduzir ao pensar numérico.

então autónomas. pelas técnicas locais. ser vidos apenas pelas técnicas do corpo. que após se instalarem 8 ------------------------ no seu novo meio e formarem sistema com as técnicas preexistentes. o novo sistema técnico ganha essa enorme vitória. A criação das economias-mundo de que fala F. Os sistemas técnicos eram locais. diminui o de uma unicidade do motor da vida económica e social. por uma população local. coincide com a emergência de uma técnica capaz de se universalizar. de certa forma. então. número de modelos técnicos. entre imposiç ão brutal ou dissimulada. antes de incluir a cultura no processo global das mudanças. a escolha é. havia ainda. inevitável. entretanto. onde os recursos de sua inteligência e os recursos naturais combinados permitiam a emergência de modos de fazer dependentes do entorno imediato. havia tantos sis temas técnicos quantos eram os lugares e os grupos humanos. e o seu domínio sobre grandes porções do resto do mundo vai se dar a partir de um comando do comércio. um conjun to coerente. o movimento local das técnicas deixa de ser apenas horizontal. eram dependentes de áreas geográficas restritas. envolvendo um número crescente de sociedades e territórios. Estes. jogando abaixo as únicas fronteiras que poderiam impedir sua difusão. que A UNICIDADE TÉCNICA vão. Ao longo da história. Os mercados eram ainda nacionais (o que deve ser interpretado em sentido largo. consagrando fusões. Pode-se. na medida em que as trocas entre grupos se intensificam e se ampliam geograficamente. Tais invasões. as condições de. cria -se a possibilidade de trocas intercon tinentais onforme já vimos. O último quartel do século XIX é marcado pela afirmação de técnicas materiais revolucionárias. A concorrência entre os países centrais não tinha como base a tecnologia. sobre uma dada fração do planeta. As escolhas eram várias. a escolha se torna mais estreita. À medida que o capitalismo se desenvolve. a um só tempo. a criação de organismos supranacionais. Braudel é um momento importante nessa evolução. O lugar definia. antropológico. com a expansão do capitalismo. acabam por impor a certos grupos as técnicas de outros. acarretar transformações fundamentais nas demais técnicas da vida social. um componente vertical. a entrada em cena da informação e do consumo como denominador comum universal. múltiplas equações técni cas. mas a política comercial. Mas a difusão dessas técnicas foi. de uma unicidade do tempo (com a convergência dos momentos ) e e criação de recursos. cuja base é política. de animais e de home ns. carentes de mobilidade. no processo da produção de uma inteligência planetária. um sist ema político local. Cada ponto habitado da superfície terrestre constituía. queremos destacar a e transoceânicas. Esse movimento unitário se dava praticamente sem outras media ções além dessa relação ao mesmo tempo horizontal e vertical entre o grupo e o seu meio. formado. As técnicas particulares tendem a se contaminar mutuamente. O surgimento de numerosos Estados nacionais. então. vida e as condições (os processos) de sua evolução. considerando que as fronteiras dos Estados coloniais abrangiam os territórios dominados distantes) e as diferenças de poder tecnológico eram compensadas pelas vantagens comerciais que cada um deles se podia atribuir livremente. numerosas formas de utilização emergência de uma unicidade técnica. um regime económico local. Entre aceitação dócil ou reticente. . E a cada novo movimento. Daí por diante. conhecem o que se pode inti tular de "reterritorialização". tudo isso trabalha para facilitar --'o triunfo das técnicas baseadas na informação e que iriam revolucionar doravante a economia e a política. Entre essas manifestações. o estoque de sistemas técnicos fica INTRODUÇÃO menor. em suas manifestações atuais. A morte dos impérios. É assim que conjuntos inteiros ou pedaços de técnicas se incorporam a outros pedaços mudando-lhes os antigos equilíbrios e acrescentando elementos externos às histórias até 124 123 coloniais reforça o poder das potências europeias. que o fim da segunda guerra mundial vai precipitar. também. antes mesmo de se instalar amplamente. as trocas entre grupos e. de plantas. referir a uma "desterritorialização" das técnicas. A partir do século XVI. supressões e integrações. A criação dos grandes impérios No começo da história social do planeta. Essa três unicidades são a base do fenômeno de globalização e das transformações contem porâneas do espaço geográfico. com seus modos de fazer e de ser. C Nos inícios do capitalismo. atenuada por motivos políticos. Na verdade. sobretudo. as desi guais. e recebe uma influência. o entendimento da arquitetura e funciona mento do mundo passa pela compreensão do papel do fenômeno técnico. incluindo o lugar numa história técnica e ASUNICIDADES:APRODUÇÃODA INTELIGÊNCIAPLANETÁRIA social mais abrangente. misturas e composições acabam por reduzir o nú mero de sistemas técnicos.

116-133). em sua forma atual. pois as diversas civilizações não receberam os mesmos impactos durante as diversas fases da evolução técnica. exceto em sua fase inicial. 1973. E é dessa forma que a técnica se transforma num "meio univer sal e uniforme". Em terceiro lugar. FIGURA I – AFUNILAMENTO DA ESCOLHA sobre a totalidade dos espaços. para hoje alcançar o seu ápice. em toda parte. segundo as civilizações. que corresponde à própria natureza do capitalismo. Isso é novo na história do mundo. Mas cada período vê nascer uma nova geração técnica que o carac teriza. os grupos humanos utilizaram uma só geração de técnicas da vida material ou uma só geração de técnicas imateriais. o que é universal é todo um sistema de objetos. Em outras palavras. O caráter sistémico da técnica . N. pp. há apenas um modelo. M. Daí a possibilidade de programas semelhantes para todos ou quase todos os países. Segundo porque permite uma apreciação também geral das hipóte ses relativamente ao futuro. a antinomia das fórmulas ou a unidade industrial. Com a emergência do período técnico -científico. p. é um dos caracteres distintivos da técnica atual. de um único sistema técnico. o respectivo sistema técnico se torna comum a todas as civilizações. A universalidade atual é diferente. todas as culturas. nos termos de Miquel 6c Ménard (1988. 1964. esses objetos técnicos semelhantes e atuais existem numa situação de interdependência funcional.agora se reafirma com ainda mais força. por se mostrar mais eficaz que os demais. Na realidade. mas uma realidade. porque toda a hu manidade conhece esse denominador comum. base material da globalização. aliás. Sua área de ação é o globo inteiro. o sistema socialista representaria um subsistema do sistema capitalista.. 53). igualmente universal. Referindo-se à oposição entre os sistemas capitalista e socialista. Humbert (1991. 1991. desde os inícios da história. em lugares e tempos distintos. 63) nos adverte para o fato de que a tecnologia. os países. Humbert. Hoje. em nenhum momento da história. objetos semelhantes foram criados. 126 125 . A partir da segunda metade do século XX. quando as relações transcontinentais eram no mínimo raras e extremamente lentas". Primeiro. Mas as técni cas atuais se difundiram universalmente. Baudrillard. "é mais que a soma total de instrumentos separados e pro dutos des-conectados". todas as civilizações devendo referir -se a esse molde." (J. ainda que com diferente intensidade e seus efeitos se fazem sentir. Pode-se falar de unicidade técnica pelo fato de que os sistemas téc nicos hegemónicos são cada vez mais integrados. convivendo juntas segundo uma ordem estabelecida por cada cedo. os respectivos sistemas hegemónicos não dispunham de um alcance global. no imediato pós-guerra. A herança material permanece. Cada nova família de técnicas não expulsa ideia por Leroi-Gourhan. Ellul (The Technological Society.. essa realidade vem fazer parte dos lugares praticamente num mesmo momento. Esse novo subsistema. Essa "interdependência das peças" apontada por G. Isso quer dizer que o passado não é comple tamente varrido. As camadas provenientes do passado não são as mesmas. sobre esses restos de uma sucessão de elaborações. alguns objetos se universalizam.completamente as famílias precedentes. não há mais escolha (ver Figura 1). Unicidade técnica não significa presença única de uma técnica . É a sua universalidade. cunhada por J. É a "universalização das técnicas e dos produtos" que enseja a emergência do "sistema industrial mundial" (M. sem defasagens notáveis. por também diferentes grupos étnicos. as regiões. No passado. p. direta ou indiretamente. Hoje o subsistema técnico hegemónico tornou -se ubíquo. Rotenstreich (1985. vai se sobreimpor o novo conjunto de técnicas carac terístico do período atual. todos os continentes e lugares. se acelera. Este dado tem importância extrema. p.dado essencial de sua definição . p. graças à introdução dessa O movimento de unificação. podendo estar ausentes em certos países ou em certas regiões. No começo da his tória. 55) nos recorda de que "o sílex lascado era o mesmo sobre todo o planeta. com apoio das grandes potências industriais e finance iras. Para esse autor. p. É dessa forma que devemos en tender a expressão "universalismo técnico". em proporções diferentes. com a predomi nância. 72) se indaga sobre o que seria' mais decisivo. p. todos os sistemas políticos. não é uma ten - dência. mas se dão isoladamente. Edgar Morin (1965. emerge como um subsistema hegemónico. A expressão "universalidade das técnicas" é familiar aos antropó logos. esse fenómeno geral dá lugar a ações que também têm um conteúdo universal. Em quarto e último lugar. como esses famosos planos de ajustamento do Banco Mundial e do FMI. E certas áreas passaram incólumes diante das inovações técnicas de cada período. Esse. Em primeiro lugar. E. Daí a banalização da ideia segundo a qua l nessas condições. 11). formando conjuntos de instrumentos que operam de forma conexa. Simondon (1958) deve muito à intenciona lidade dos objetos técnicos. É desse modo que "cada peça importante é de tal forma dependente das outras por trocas recíprocas de energia que ela somente pode ser o que ela é. 281 ). Essa generalidade das formas técnicas se impunha como tendência. Em segundo lugar. a escolha de tal forma e com um rapidez se afunila que sociedade em suas relações com outras sociedades.

no nível mundial. pela universalidade relacional. Em sua opinião. cujas bases de operação se encontram em diversos outros pontos na superfície da terra. as técnicas que se abrem umas sobre as outras. 1971. Ladrière (1968. As atuais efemérides permitem relembrar a sensibilidade das gerações precedentes diante dos acontecimentos. pois. Essa força invasora. jogo combinatório que é uma nova solução para o problema humano da unidade na diversidade" (Abraham Moles. p. Há. 258) fala das quatro leis de Partant. "motor essencial da potência" (D.. com regras de complexidade estrutural semelhantes para satisfazer a diferentes finalidades. Cabe. em Frankfurt. Paris estava à mesma distância atual de Versalhes. não obstante se encontrarem no mesmo quadrante de relógio. é exercido o comando único de processos técnicos. Ludovico de Baviera regente supremo do império. p. largamente exercida. 82). 216) havia feito r eferência a esse "projeto tec-nicista" como um projeto global. algo como se a chamada flecha do tempo apontasse e pousasse num ponto dado da superfície da terra.] no ano de 1314. o projeto global se torna explícito. saber o que ocorria na 74 capital do país. também. o resto do mundo deve alinhar -se para continuar competitivo. Chesneaux (1983. o processo económico se fragmenta. Mas ele cita S. induzidos por um projeto global implícito. 1985. p. então estamos presenciando uma convergência dos momentos e sua unicidade se estabelece através das técnicas atuais de comunicação. é respon sável por dois traços económicos aparentemente antagónicos. 82) 74. combinada ao seu caráter sistémico. as empresas multinacionais não poderiam existir. como totalidade de determinações complementares" (S. 22) nos conta que "[. p. comparando com os anteriores subsistemas hegemónicos. Em O Nome da Rosa. por sua natureza. 217). enquanto o controle se torna ainda mais concentrado. Esta é mais uma face desse fenómeno de unicidade técnica. Havia simultaneidade dos eventos. Mas ele via esse projeto global como implícito. p.. Ele acaba impondo-se. como verdadeiras "escalas técnicas". povo - ando-o com um novo acontecer. Essa é uma grande novidade. assim. data da queda da Bastilha. sistémico. Sem isso. recusando-se "a capacidade de conceber um projeto total que abarca ria. Também poderíamos considerar esse fato como uma convergência dos momentos. 1987.. relações mundializadas na definição de Leroi-Gourhan e a universalidade da técnica tal como hoje se verifica. Ladrière.Segundo o próprio S. num apelo à complementaridade que tanto condiciona sua possibilidade de existir como sua eficácia" 76. É o caráter sistémico da técnica que assegura. graças à presença. p. Chesneaux (1983. Navarro de Britto (1986). retomar a diferença entre a universalidade da técnica como tendência real. em um só plano gigantesco [. considerando. Essa "planetarização da técnica" (Tavares d'Amaral. J. a segurança do resultado. a sucessão das etapas. Nesse sentido. mas realmente complementares. "[. O mundo técnico se caracteriza. mas era impossível.. ou ainda pêlos sistemas dos pragmate. Isso explica a maior rapidez e generalidade de sua expansão. O subsistema atual de técnicas hegemónicas é. p. é em nessa época que se torna completamente verdadeira a frase de Marx no Manifesto Comunista: 'A burguesia molda o mundo à sua imagem'. A UNICIDADE DO TEMPO:A CONVERGÊNCIA DOS MOMENTOS Outra grande maravilha do nosso tempo é o que estamos chaman do de unicidade dos momentos. 1968. "Sua conexão permite compreender essa nova fisionomia do mundo a que chamamos 'o universo da Techne'. realizada. O que realmente se dá. ao seu ver emergente na humanidade desde o século XIX. 35) é responsável pela banalização planetária a que se refere J. p.. unidos por uma lógica comum. p. Esses momentos não são iguais. em diversos pontos do globo. económicos e políticos. 128 127 . nesse caso. nestes nossos dias.] todo o desenvolvimento futuro. de uma extrema dispersão dos diversos momentos da produção. ('La bourgeoisie façonne lê monde à son image')". p. J. do ponto de vista de uma feno -menologia. mas não é disso que se trata. 258) citando a quarta lei de Partant 75. um sistema invasor. um privilégio de nossa geração. de pedaços desse aparelho técnico unitário e disperso. outro ponto é atingido e podemos conhecer o acontecer que ali se instalou. 3 quarta das quais é a "lei da banalização planetária": "Desde que um progresso nas técnicas de produção é realizado em algum lugar sobre um ponto particular. Breton. À noite do 14 de julho de 1789. . pelo seu papel unifi cador dos processos globais. preenchido e comandado por sistematicamente unificadas. 11) quando este afirma que a técnica "se manifesta como um universal concreto e não mais como uma categoria do pensamento em plena expansão". p. é a possibilidade de conhecer instantaneamente eventos longínquos e. Breton (1968. 1968. onde a Corte estava instalada.. Há quem prefira dizer que o tempo se unifica. Umberto Eco (1983. direta ou indiretamente. a possibilidade. ser impróprio falar de mercado. p. cinco príncipes germânicos elegeram. uma concentrização no dizer de L. no mesmo instante. A comemoração do segundo centenário da Revolução Francesa trouxe uma série de lembranças. 89) se refere a esses pontos por onde "transitam os produtos em via de elaboração". Mas são momentos unitários. Poder -se-ia dizer que o universo técnico tende a uma espécie de 'mecano' universal. Janicaud.. Breton.] A grande novidade da tecnologia moderna parece ser o aparecimento cada vez mais insistente de sistemas combinatórios nos quais um mesmo repertório de peças pode estar reunido de diversas maneiras. 75 . a complementari dade e coordenação dos processo. o soberano francês descrevia o ocorrido durante o dia com uma única palavra: nada. 115). a possibi - lidade de perceber a sua simultaneidade.. 117). aqui. entre as quais a do diário escrito por Luís XVI. a partir de um con- junto técnico homogeneizado. Ingmar Granst edt (1980. Moles (1971." (J. O evento é uma manifestação corpórea do tempo histórico. Quando. mas não havia como percebê-la. Mas no 76 . até me smo ao Rei. a "universalidade relacional" se ob tém com a "comunicação de todas A nova realidade foi diferentemente batizada: é a "mecano uni versal" de A. De um lado. apenas os projetos parciais eram explícitos. Hoje. A partir de um ponto escolhido.

uma relação inequívoca entre as novas possibili dades de conhecimento do que é o planeta. no intercâm bio que cria um campo único. agora. no início do século. em 1. cada lugar está à mesma distância de todos os outros" (Warf. 259). Virgínia. Hiernaux (1994. comunicando a mesmo dia. Hoje. na outra margem do Reno. p. Hoje. A mídia. a espaços de tempo regulares. "as notícias provenientes de Roterdã e de Paris são datadas de 25 de dezembro de 1787 . a simultaneidade percebida não é apenas a que era trazida. diz -se que os satélites são independentes da distância. p. p.]. Desse modo é obtido um conhecimento extenso e aprofundado do que é cada lugar. pelo cabo submarino ou pelo telefone. 79 . Pode-se dizer que o mundo teve dois grandes momentos. destruição de florestas. Paradoxalmente. lugar das trocas reciprocas das quais a sociedade retira os meios de sua reprodução. as mensagens e os dados chegam aos escritórios e lares diretamente. 1948. nem sistemas produtivos e fmanceiros transnacionais. a fibra óptica e as tecnologias das microplaquetas conjugadas criam uma vasta rede interativa de comunicações e de informação susceptível de permitir a cada um dialogar com o outro e de tornar cada dado. p. Movimentos dos corpos na terra e nos ares. incentivo para grande desordem. 303). disponível a todos os olhos" (B. 1989. satélites artificiais fotografam a terra. 165) . O homem já se transformou naquele "ser natural unuversal". o satélite.. todos os lugares. Baudelaire se incluía entre os entusiastas desse progresso. seguindo órbitas estabelecidas ou relativamente fixas num ponto do firmamento. por exemplo. 80 . 111). A diversidade das distâncias e dos meios para vencê -la eram as causas essenciais da defasagem. p. porém. um d os grandes feitos da era contemporâ nea. O material. igualmente. É fato que fotógrafos e cinegrafistas pod em. Mattelart.. 1993. o geral e o particular.. as telecomunicações permitiram aos bancos aumentar suas atividades de empréstimos e ajustar -se instantaneamente às flutuações da taxa de câmbio" (Warf. 7). só foi noticiada em Nova York sete dias depois (A. As notícias eram simultâneas. sobretudo as técnicas da velocidade e da medida do tempo. agir 78 . a começar pelas empresas multinacionais. possível reconhecer e até mesmo contabilizar. p. sem nenhuma defa -sagem. Markus. 130 129 .. ainda que com a intermediação frequentemente perversa das instituições supranacionais. através de sua sucessão. O primeiro foi dado com as grandes navegações e o outro se dá recentemente com os satélites. 58 -59). 81) reproduz o relato trazido por Max Nordau (1892) em seu livro Dégéneration. Sem isso. praticamente sem intermediários. "Sincroniza -se o global e o fragmento. o acontecer de cada qual 78. 92). a informação ganhou a possibilidade de fluir ins tantaneamente. e a generalização das possibilid ades de uso de todos os recursos. começa a desempenhar um papel no processo de globalização nos últimos decénios do século XIX. o trabalho se torna universal quando as varias frações do mesmo processo produtivo são cada vez menos geograficamente solidárias77. nem informação geral mundializada. realizada com a televisão. 1992. o produto e o processo. a tecnologia da ir/forma -ção permite uma abordagem muito mais livre da escolha da localização (Daniels. A conquista da velocidade permite um deslocamento mais rápido das coisas dos homens e das mensagens. 1982. cada octet. aliás. "Os custos de transmissão por satélite são insensíveis à distância e realizam uma conver gência tempo-espaço: do ponto de vista do satélite. eliminou a flutuação de dezesseis horas que custa aos bancos bilhões de dólares anualmente em ganho perdido e acelerou rapidamente o negócio do processamento de cheques [. não haveria um sistema técnico universalmente integrado. as de Frankfurt de 14 de dezembro e as de Varsóvia de 5 de dezembro" (A. E as técnicas da exatidão na contagem do 80 tempo. já permitia uma maior aproximação entre os eventos. Giddens. o laser. 77 . pp. 1973. o cabograma. 1989. onde se expande o conhecimento e a ação" (L. a marcha do povoamento são alguns dos aspectos cujo dinamismo é. O efeito total das atuais inovações tecnológicas é a possibilidade de transferir informações audiovisuais e de dados a baixo preço a qualquer distância a um tempo quase real. 1993). esse "trabalho universal" ao qual Marx já se referia (ver em G. pelo telégrafo. p. na verdade. Markus. O equipamento elétrico. Esse conhecimento das galáxias e do próprio pla neta em que vivemos está intimamente relacionado ao domínio do espectro eletromagnético. Há. "As empresas.Por outro lado. quando este considera que um leitor de jornais de uma cidadezinha tinha uma compreensão mais ampla dos eventos contemporâneos que o primeiro-ministro de cem anos atrás. a natureza toda se torna o corpo inorgânico de todos os homens. Em nível internacional. p. acompanhar processos inteiros que nos dão conta da evolução dos fenómenos. D. e o processo amai de globalização seria impossível 79. Ferrara. 1992. 1990. desse modo. 19). 63). E Allan Pred ( 1966) nos lembra que a morte de George Washington em Alexandria. que lê monde est grana à Ia dane dês lampes Aux yeux du voyageur que lê monde est petit" (citado em D. os eventos não. p. que transportavam sinais e vozes sem outra defasagem que os horários de funcionamento preestabelecidos ou os at rasos na distribuição. Além disso. (Zdravko Mlinar. desde o comando do tempo astro nómico ao estabelecimento de relógios ultraprecisos. também. "O sistema de transferência de fundos eletrônica. os bancos e o comércio são todos tributários do fluxo de informação fa cilitado pelas novas tecnologias de comunicação. essa inteligência universal. ao escrever esses versos: "[. além disso. desde os anos 60 do século XIX. As telecomunicações têm a capacidade de encurtar as distâncias. p. 111). 1973.. Barbe r." Quando o Times de Londres publica o seu primeiro exemplar. do ponto de vista de seu conhecimento geográfico.] Dieu. o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colónia tinham eleito à mesma dignidade Frederico da Áustria". A esse respeito ver. da transmissão imediata de imagens. a parte e o todo. emitindo imagens que permitem. O processo de convergência dos momentos corre paralelamente ao desenvolvimento das técnicas. Giddens (1991.° de janeiro de 1788.. Nos Manuscritos. habitados ou não. p. A. faltando apenas obter que essa mutação possa ser obtida em benefício de todos (G. Trata -se. permitem a consciência da passagem do tempo e o reconhecimento de suas divisões. 261). Marx se referia à natureza como corpo inorgâni co do homem. Halévy. E acrescenta: "Dois imperadores para uma única sede e um único papa para duas: situação que se tornou. Hoje. 1984.

A International Business Machine (IBM) com 400. sociais e culturais que tanto são locais quanto mundiais. 57). a geografia não teria mais razão de ser. O dinheiro. A verdade é que "as informações não atingem todos os lugares [.1976. laser. fibr as óticas e as tecnologias das microplaquettes conjugadas" (B. em que realidade estaria baseada a noção desse mundo só? A ideia de que as novas possibilidades de informar estariam conduzindo a um retorno do fato. cada vez mais internacionalizadas e concen tradas. aliás. mesmo. os acontecimentos. D.] podendo descaracterizar o produto" (A. a possibilidade de comunicar à distância. a distância não sendo mais um fator de isolamento (Z. mesmo nos países mais ricos.. de Brie. 1975. é concentrado e controlado. ibid. o que mais circula por esses computadores gl obais são informações pragmáticas. Entre eles. C. uma rede instantâ nea por onde fluem informações económicas. No momento atual aumenta em cada lugar o númer o e a frequência dos eventos. p. tornados comuns à escala do mundo (O. vivemos uma situação de "comunicação generalizada" (G. 62) haviam comp arado o interesse dos geógrafos pelas atividades industriais e comerciais.] há inúm eros filtros intermediários [. p. Barber. dois se repetem com mais força: a idei a de uma aldeia global e a ideia de que. aos negócios. Tais críticas são. p. graças à globalização financeira. Se acaso houvesse a decantada aldeia global. manipuladas por uns poucos atores. 105) e o seu papel. distinguir entre o fato e a notícia.000 empregados. 1992. p. televisões. da Silva. consiste em concorrer por todos os meios com as empresas homólogas. esse "dinheiro sem lugar". p. 1992. Mlinar. Segundo Brzezinski (1970. a seu modo. p. 28). cada lugar está à mesma distância dos outros". Vattimo. Mesmo para esses indivíduos privilegiados. mobilizando capitais que não lhes pertencem e dos quais apenas controlam uma pequena fração" (Ch. Através desse "sistema de comunicação planetária" (Joel de Ros nay. 1993. P. 258). e sem descompasso. 1992). É como se a simultaneidade virtualmente possível com o progresso técnico se houvesse tornado uma realidade para todos. estabeleceram -se lugares comuns. Na verdade. com a escolha do ângulo pelo qual os trans mitem. 1988. 1972. Afinal. e. 1993. Slater (1995. isto é. nem estar submetidos a qualquer controle prévio. mais complexo. cada vez mais. Lloyd (1981. Morin. essa opulência de 132 131 . O papel das finanças na produção de uma nova arquitetura do espaço não tem escapado aos geógrafos. A Europa realiza apenas 36% das vendas informáticas sobre seu próprio mercado. É assim que os operadores financeiros podem funcionar todo o tempo e em todos os lugares "sem ter que respeitar a menor regra ju rídica. Deve-se.] que interferem na natureza da informação [. presente em 117 países. tal como nas comunidades primitivas. em que os gigantes do ramo buscam tornar-se ainda mais gigantes. ainda que estes sejam fre quentemente acusados de não prestar suficientemente atenção a esse fato. não se trata da supressão do espaço: o que se dá é um novo comando da distância. que já é uma interpretação. enganosa (E. O mercado informático é controlado por um punhado de firmas gigantes.). E o tempo é também unificado pela generalização de necessidades fundamentais à vida do homem. personalizadas. por contraste. Em realidade. p. enquanto os Estados Unidos controlam a quase totalidade do mercado mundial. fluir globalmente. 367) cáustica essas chamadas "perspectivas globais" tão carregadas de ideologia. É desse modo que a noção de tempo real ganha realidade. 1990.. foram. Mas isso não invalida o fato que estamos descrevendo. a metáfora mais adequada seria a de cidade global e não a de aldeia global. O uso adequado e preciso do tempo e do espaço multiplica a eficácia dos processos e o poder das firmas capazes de uti lizar essas novas possibilidades. agora. como atores. mostra -se. situadas num pequeno número de países. Finanças sem lugar? Esse. 24 sobre 24 horas... 75). coisas e informações. 1974). interpretando. o seu desinteresse pelo setor financeiro. desre -gulamentadas desde os anos 70. é mínima a parcela das pessoas que. satélites. Isso corresponderia ao velho sonho de um mundo só. mais denso. celebrado no f im da Segunda Guerra Mundial pelo livro famoso do estadista inglês Harold Laski. Mas essa nova acumulação de presenças. e tornando possível um jogo mortal de concorrências. mas esquece de incluir as finanças internacionais. Targowski (1990) descreve a arquitetura dessa aldeia global. p: 19). p. p. Peter Dicken 8c Peter E. quando Roger Lee (1991) critica um autor como lain Wallace (1990) quando este busca descrever a economia global como um sistema. dito "moderador" no mercado. como consequência do colapso dos acordos de Bretton-Woods (Warf. 1990. Pontos estrategicamente dispostos na superfície da terra são interligados me diante "computadores. como um dado central. trazendo à vida social e política. o q ue está acontecendo. mas também da informação geral. o tempo termina por apagar o espaço. com os atuais progressos no uso da velocidade pelas pessoas. não apenas a especializada. utilizando verdadeiros relês. formada por cidades interligadas eletronicamente. cujas atividades. 259). Mas são as atividades financeiras as que melhor se beneficiam desse enquadramento rigoroso do tempo. também. Também o mercado da informação. O espaço se torna mais encorpado. 176). cabos submarinos. Por isso. em seu próprio benefício. Barber. Nora. 7) funcionando sem descanso. li gados por "uma vasta rede interativa de comu nicações" (B. A ideia de que o tempo suprime o espaço provém de uma interpreta ção delirante do encurtamento das distâncias. "para um satélite. Daí a enorme importância adquirida pela -economia da informação.A partir dessa nova percepção do tempo que passa. p. realiza um volume de negócios igual a 55 bilhões de dólares em 19 90 (Weissberg. pode. portanto. E o espaço não é definido exclusivamente por essa dimensão. p. se beneficiam plenamente dos novos meios de circulação. é um dos motivos centrais que levaram Richard O'Brien (1992) a dizer que. mas sobretudo. ao lado do Estado e das grandes corporações. como diz Warf (1989. lanni. novos pontos de apoio.. em suas múltiplas formas.. com as novas condições. 24).

vida internacional (C. adaptada às novas condições da concorrência. p. e. devemos. p. Lloyd. Nesse caso. 3). A instantaneidade da informação globalizada apro xima os lugares. p. assim. tudo se mundializa: a produção. Carreras. p. p. . torna possível uma tomada de conhecimento imediata de acontecimentos simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relação unitária à escala do mundo. 1993. Cooke. Os atores hegemónicos da vida económica. por intermédio dos satélites. "o novo espaço das empresas é o mundo" (M. apenas. Essa é um lei implacável. 1993. merece o nome de globalização. graças a esse do mínio do tempo e do espaço à escala planetária. direta ou 134 133 (Y. Alianças entre firmas de grandes dimensões organizam os mercados e os circuitos de produção (C. 38). social e política podem escolher os melhores lugares para sua atuação e. o consumo. multina cionais. 1992. a história do homem faz -se a partir de momentos divergentes. "fundado no intercâm bio global e na lei do valor universal" (Th. o seu estoque de recursos. que são os grandes atores atuais da ações não se precipita de forma cega sobre qualquer ponto da Terra. 107) as decisões.são um fator determinante da realização histórica. Boismenu. permitemnos.constituem as coordenadas que orientam as novas ações. a dívida. Conforme nos mostra P. o dinheiro. Veltz. 1993. 132-133). Jpermitem a fotografia do planeta. Esse conjunto de mundali-zações. materiais ou não. obtemos. p. os paradigmas. e de organização . disparatados. resultantes da combinação entre o imperativo da integração e o imperativo da globalização (Ph. e o tempo como as ações que nele se vão inserir. 1984) . Uma das diferenças entre a firma multinacional e a firma global vem exatamente da mudança no conceito de autonomia operacional. 1993. o crédito. 1993. É desse modo que a criação de firmas-rede se torna uma tendência e uma necessidade. responsabilidades e recursos estratégicos descentralizados se submetem a um es treito controle que inclui a integração no nível mundial da concepção dos produtos. as condições preexistentes em cada lugar. 1993. emblema-ticamente. uma visão empírica da totalidade dos objetos instalados na face da Terra. Se con sideramos o espaço tal como existe em dado momento. 2). As maiores empresas não são. Sua orga nização é bem diferente se as compararmos com as transnacionais que funcionam em um âmbito geográfico mais restrito (Ph. 167). even tos que são interdependentes. de sua fabricação e de sua distribuição (P. arrastando. 52). são empresas globais. 19). Junto com a unicidade das técnicas e a convergência dos momentos. incluídos em um mesmo sistema global de relações. Como as fot ografias se sucedem em intervalos regulares.indiretamente. Hoje. a política e a cultura.base para a empiri-cização da universalidade (Santos. num mundo sequioso de produtividade e onde o lucro é uma resposta ao exercício da produtividade. O setor produtivo é constituído por uma rede de interdependências (G. cada qual sustentado. e assim reduzir os seus custos de produção Paralelamente à unidade das técnicas e à unicidade dos momentos. O MOTOR ÚNICO Michalet. também. também. As informações que constituem a base das ações são seletivas. como uma realidade objetiva. que alcança um novo patamar. Agora. J. o acontecer de cada lugar podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro. também. considerar a existência de uma unicidade do motor da vida económica e social em todo o Planeta. Durante milénios. 4) ampliadas pela constituição de comunidades polític o-cconômicas e mercados comuns. pela emergência de uma mais -valia no nível mundial e assegurada. em consequência. alterando-lhes. para o correspondente enfoque das ciências do homem. As Empresas Globais Assim. 1993. Dulong. Veltz. Já a história do ho mem de nossa geração é aquela em que os momentos convergiram. a mais-valia no nível global contribui para ampliar e aprofundar o processo de internacionalização. A simultaneidade retratada é fato verdadeiramente novo e revolucionário para o conhecimento do real. Os progressos técnicos que. 212). assim. desconexos. pela existência sistémica de grandes organizações. Dicken (1994. O campo de ação da mais-valia universal é esse chamado mercado global. p. dos Santos. p. esta devendo ser subordinada a uma estratégia de conjunto. pp. como uma soma de aconteceres dispersos. A liberalização dos mercados regionais reforça a liberalização multilateral e fortalece o mercado global (P. em todos os lugares. aproveitar as especializações produtivas das firmas associadas. A.essas rugosidades . 5). de modo a beneficiar-se de economias de escala. escolher as melhores implantações. p. ajudando a impor a outra. então é o tempo que depende do espaço e não o contrário. um retrato da própria evolução do processo de ocupação da crosta terrestre. buscando incidir sobre os lugares onde se possam tornar mais eficazes. cada momento compreende. 1993. p. Berthelot. O conhecimento empírico da simultaneidade dos eventos e o en tendimento de sua significação interdependente . o produto. Savy & P. a localização dos demais atores é condenada a ser residual. representada. 1993.

. 54 -55). Dessa demanda advém o conceito de Complexo Industrial Transnacionalizado.. Este conhece uma grande mutação. 1993. 99). p. de modo a torná -las flexíveis e móveis (Ph. a saber: controle da inovação (força produtiva científica e técnica). E. A produção e a distribuição de um produto têm assim tanto mais tendência a se globalizar quanto mais elevado é o componente desse produto em informação. B. que são os números serviços bancários e financeiros. o fenómeno de rede ultrapassa os limites das firmas dominan tes e coloniza. ".A Globalização Financeira As empresas globais funcionam em redes. É em 1984 que. controle da gestão do capital em sua forma dinheiro (força produtiva da gestão financeira). p. "O processo de multinacionalização bancária corresponde à penetração dos bancos no sistema financeiro de outros países e à utilização de uma rede mundial de agências pêlos bancos comerciais. permitindo "o contato instantâneo entre todas as praças e estimulando a afirmação de novas técnicas e novos instrumentos financeiros". cuja importância na produção cres ce significativamente. 1994. p. constituindo a principal alavanca da s atividades económicas internacionais. p. 122) chama de "dualidade sis témica". P. das no vas possibilidades de controle do processo global da produção. e na Alemanha de 7. 122). outubro de 1988. p. Chesnais. desde o começo. p. tendendo a criar espaços homogéneos no seio dos quais se impõe progressivamente um sistema de normas. 28) e autorizando um funcionamento contínuo das grandes praças. Santos Filho. Cingapura. "O desenvolvimento das operações financeiras internacionais baseou -se numa estrutura financeira criada por dois processos conhecidos sob os nomes de multinacionaliza ção e transnacionalização bancárias [. racionalidade e natureza são diferentes" 81. 1989. 1993. Esse fenóme no é particularmente acentuado pêlos serviços de 'informação pura'. 1982. todo o tecido produtivo. 1993. Assim como a "globalidade" de uma firma está relacionada com a participação dos serviços em sua atividade. A especialização em operações de exportação de poupança nacional. B. Daí deriva o que J. p. 119-127. Esses mercados desenvolvem sobretudo especializações em operações de triangulação e offshore.3% do PIB em 1980 para 109. controle da circulação (forças produtivas da comercialização e da distribuição). 209). de racionalidades e de naturezas independentes: ". "Essas estruturas em redes subentendem um novo tipo de organização que hoje se costuma designar pelo termo 'empresa global'. Bahamas etc. mediante os processos. graças às novas técnicas da informação. Cahier du GEMDEV. de produtos. já que as novas condições técnicas e políticas ofereceram novos suportes à circulação do dinheiro. Assim os serviços (publicidade. que se funda no levar em conta. Os empréstimos bancários que deram lugar a movimentos internacionais somavam 324 bilhões de dólares 81 em 1980 e alcançam 7.estruturas industriais transnacionais. 50). p.8% (F. 1993.. 1634. Os progressos obtidos com a conjugação da informática e das tele comunicações e as franquias abertas com a desregulação "permitiram aos operadores intervir em tempo real. As redes assim constituídas são tributárias da informação. 82 . Desde então esse mecanismo se aperfeiçoa. 1989). 1981. se veri fica o fato mais importante com a extensão do fenómeno às telecomu - nicações. consultoria. 119) que a revolução eletrônica assegura mais força às grandes "feudalidades técnico-industriais". 1991) é um outro 83 . conhece uma diminuição" (M. pp. p. Lanvin (1987. essa dualidade de estruturas e de lógicas" (Jean-Benoit Zimmermann. cujos produtos são altamente "desmaterializados" e onde "os mercados tendem não apenas a se globalizar mas a se confundir". 1987. 1989. Hong Kong. direta ou indiretamente. 8. A multinacionalização se dá com a penetração nos sistemas fi nanceiros de todos os países através das redes comerciais.. são as empresas ligadas à informação que se globalizam com mais força82. A transnacionalização é devida à emergência e crescimento de novas praças e centros financeiros em todos os continentes. Santos Filho. 54)83. cuja responsabilidade pelas condições de reprodução é da alçada dos Estados. Nze-Nguema. I. p. O conceito de "complexo industrial transnacionalizado" resulta da interação de todos esses processos característicos da globalização. de Brie. . incluindo mercados off-shore e paraísos fiscais (Warf. desenvolvendo toda sorte de ramificações e interdependências globais (J. Nesse domínio. O mecanismo acima descrito é fortemente apoiado no sistema fi nanceiro. reunindo sistemas produtivos nacionais e estruturas industriais transnacionais "duas categorias cuja estrutura. vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. 17). 42). Daí derivam um crescim ento considerável das atividades bancárias fora dos países de origem dos bancos e um crescimento ainda mais notável do lucro obtido no exterior [. Poche (1975. Mas. que resultam do desenvolvimento pelas firmas internacionais de seus espaços industriais de atividade em escala mundial.. Attali. p. 6).5% para 90. Defarges.] O processo de transnacionalização bancária se caracteriza pelo crescimento e emer gência de várias praças e centros financeiros internacionais . entronizando um sistema de poder controlado por uns poucos grupos (F. pp. Luxemburgo. 19) havia entrevisto alguns característicos centrais da nova situação. "Lês complexes industrieis transnationalisés". nos Estados Unidos. B.]. "Devemos aqui fazer face a uma dualidade sistemática entre duas categorias de estruturas.]. os mercados tendem não só a se globalizar mas também a se confundir: a noção de 'aliança' entre grandes grupos torna-se aqui uma base primordial das estruturas de competitividade" (B. conjugados de multinacionalização e transnacionalização (M. A finança se torna global. "[. com a quebra do monopólio da ATT (American Telephone and Telegraph) (Warf. 1993. em qualquer ponto do globo" (Ch.3% em 1992. Panamá.sistemas produtivos nacionais. p. permanentemente ou ocasionalmente. 43). Defarges. Nota Georges Corm (1993.5 trilhões em 1991 (Ph. As operações além-fronteiras com ações e obrigações nos Estados Unidos passam de 9. p. além de autorizar a operação mais segura das compras e vendas a termo. engenharia) tornam -se candidatos naturais à globalização. 16-17) nos fala de "informação pura" para designar a matéria-prima das atividades do sistema financeiro e ban cário. que caracterizava as praças financeiras internacionais anteriores à segunda guerra mundial. 259). a ponto de per mitir que se fale numa economia desmaterializada. A planetarização das bolsas (Beteille.. 136 135 . Ramonet.Londres. pp. Uma das consequências é a passagem de um regime de regulação concorrencial a um regime de regulação monopolista (J. Zimmermann (1988. levando a concentrações. McConnell. 1993. Lanvin. A onda atual de desregulação encontra seus primeiros momentos decisivos nos anos 1970. p. de procedimentos e de organização industrial.

p.1% respectivamente. 26). Segundo Pagès et ai. (1979. 1 990. Cada vez que se troca l dólar de mercadoria. Paris. 1989. pp. "O mais forte dentre os poderes privados que tendem a regular os setores esse nciais da vida internacional é provavelmente o setor financeiro (bancos. mais seguro e eficaz86. Três praças . cambistas) e notadamente o setor bancário. Gauthier. do mercado a termo e 38% do mer cado de câmbio em 1991 (La Croix. 137)85. em 1991.. 43). A cidade de Nova York realizou. Kebabdjian (1994.são responsáveis por 56% das transações em ações. 2/10/1992). É o caso de perguntar. 1991. da Ásia ou de Sydney" (Beteille. Em Londres 43% e em Nova York 40% das transações eram realizadas pêlos 10 maiores bancos". Atlanta e Miami) em conjunto representavam 92% do total dos empréstimos no país (B. p. 249).. O crescimento do setor é espetacular. 215).] 30 a 50 bancos e um punhado de casas de corretagem asseguram o mercado das divisas fortes. 278). 27). Essas três ci dades e outras três mais (São Francisco. Chesnais (1994. p. da expansão e da dominação" (Pagès et ai. o que é feito dos 39 dólares que restam. Segun do F. sociedades de investimento. p. trocam-se 40 dólares no mercado financeiro. Fontes: 1. Fow Directory and Review. seguida por Los Angeles e Chicago. 1979. Swedberg. "Designa-se por globalização financeira a evolução que conduz à integração dos mercad os financeiros e à suspensão progressiva de todos os controles que freiam a livre circulação do capital entre os grandes países industrializados" (G. Carroué. 7-8). ela é tanto mais segura e eficaz. Federação Internacional de Bolsas de Valores. p. Essa concentração geográfica também se verifica no plano mundial. Eram 250 milhões em 1985 (Ph. 1992.Nova York. a nova "mão invisível" é mais escondida do que antes e o imperativo da economia é menos aparente e ao mesmo tempo. p. Badie & M. 1992. 1973. O setor financeiro se torna o verdadeiro regulador da economia internacional (Badie & Smouts. 138 137 . Smouts. que vê nisso um paradoxo. justificando-se a si mesma e ganhando um volume muitas vezes maior que o comércio de mercadorias. A 'mão invisível' tão cara aos economista s liberais está mais escondida que nunca e mais operante no sentido da sujeição do conjunto do sistema social aos objetivos do lucro. 68) agora tornado mais eficaz com a introdução na atividade financeira de mecanismos baseados na informação em tempo-real. que assegura o essencial dos empréstimos internacionais e desempenha nos domínios monetári o e financeiro um papel ainda mais importante que o do FMI" (B. Kebabdjian. 3. Em 1990. 2 out. p. Nota-se ao mesmo tempo. Um bilhão de dólares é o movimento diário de um mercado financeiro que tem agora uma lo calização multicontinental. 84 . 1992. p. 137). o resto do mundo devia ao Japão algo como 400 bilhões de dólares (L. Paralelamente a atividade financeira ganhou autonomia. beneficiando-se do aperfeiçoamento do antigo processo de auto -regulação (D. 249). companhias de seguro. 1993. p. mais uma ameaça ao papel de controle que cabia aos Estados (Warf. E essa forte concentração também se encontra nos dois principais centros financeiros do Planeta. como "o sistema global que liga eletronicamente a bolsa de Chic ago às da Europa. p. London School of Economics. p. 245) "[. Óh Uallachaín. 19 94. p. 54). com 16% e 12.TABELA 3 – TRANSAÇÕES FINANCEIRAS degrau importante nessa evolução. 1992. "O paradoxo é que à medida que a injunção económica se torna menos evidente. 1994. como o faz G. 4) ou o Sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunica-tion) que em 1977 interligava 519 bancos em 21 países e hoje reúne mais de 2 mil em mais de 50 países (R. A concentração geográfica das transações é também significativa. p. A entrada em cena do Japão (Y. p.1% dos empréstimos feitos nos Estados Unidos. Londres e Tóquio . p. p. Ao mesmo tempo em que o banco se torna capaz de unificar os mais diversos tipos de mais-valia. Paris. mesmo se novas localizações se fortalecem ou se instalam (Beteille. Schon. 1991. uma tendência à concentração. 27) 84. 86 . 1994. 182) completa esse processo de "globalização financeira" (G. C. 1992. esta se mundializa. 2. 54. por 74%. 1989. Apud La Croix. 85 .. Defarges. 265). Kebabdjian.

senão o motor unitário. a afastar concorrentes do mercado. das ações mais características da economia globalizada. lugares. garantia de maior acumulação e maior lu cro (Ph. Garelli &c L. "mas no longo prazo nenhum é mais im portante do que a procura do próprio lucro". que constitui o principal barómetro de sua "saúde" empresarial. 97).]". nume rosos opositores. R.] o imperativo que comanda essa disposição do mundo como um circuito automático tem hoje a força irresistível de uma lei de natureza [. Prestowitz. que duvida fortemente da veracidade do conceito. É dentro desse quadro que a velha competição cede lu gar à nova competição. neste fim de século. E isso estará sempre levando a competir. por intermédio das quais ganham o comando do tempo hegemónico e realizam a mais-valia hegemónica. a propor e a realizar novas fusões e. Peter Dicken (1992. fiscal e monetária. Suprema ironia: essa mais -valia tão fugaz não pode ser medida.. Wells. dentre os quais R. para construir o processo de globalização. 73). S. Scharping Sc B. Como esta é a lei da produção e da circulação das firmas globais. normas e desregulações. H. Cohen. um campo único de concorrência (Ph. também contribui para que a relação entre as empresas . Ver na revista Foreign Affairs o debate entre Paul Krugmann (1994. Esse controle tanto se dá por intermédio da pro dução direta. Quando "o planeta constitui. 28-44). política do emprego. 1972. os quais se encontram no âmbito da circulação. a competitividade. como ele atualmente se dá. 53) uma nova palavra se instala no vocabulário da economia e da política. p. Esta. no caminho. dos aspectos políticos da produção. e seus antigos companheiros de trabalho C. Tudo o que contribui Nessas circunstâncias. afirma-se o imperativo do crescimento e da expansão. L.e.. 120) nos lembra de que uma firma pode ter uma variedade de objetivos além do lucro. recentes deserções no campo de seus antigos defensores. Cooke & P. Esses aspectos políticos são aqui tão relevantes quanto os técnicos: política financeira. 186 199). p. os países. mesm o. os homens . Há. 140 139 . como é o caso da ruptura entre oaformuladores do programa econômico da campanha eleitoral do Presidente Clinton 87.Tudo o que serve à produção globalizada também serve à com petitividade entre as empre sas: A Mais-valia Fugaz. Assim. se torna a principal alavanca. Stiel (1994. A propósito desse motor da atividade económica.. todas essas políticas sendo hoje induzidas no nível mundial. 1993. Best (1990). as sociedades.. pp. isto é. um Motor Unitário processos técnicos. da distribuição e do consumo. Defarges. É assim que se constituem as grandes organiz ações no nível mundial. A situação atual nos permite parafrasear a bela fórmula de Raphael Célis (1992. ao mesmo tempo. Petrella (1995) e S. no dizer de M. e. tornada uma espécie de verdade axiomática e aconselhada a todas as empresas e a todos os países como uma tábua única de salvação. a busca da cada se torna constante. Thurow. quando ele diz que "[. porém. já encontra.esteja fundado numa guerra sem quartel. política da informação. 87 . a cada momento a maior mais-valia está buscando ultrapassar a si mesma. pp. informacionais e organizativos. São elas que comandam as técnicas hegemónicas da produção da informação e da finança. p. Guertechin (1995). p. por extensão. quanto através dos seus dados não estreitamente técnicos. E o encontro da escala global e da primazia no mercado supõem um desempenho crescentemente eficaz. política do comércio de mercadorias e de serviços.

produção tem como base intelectual a pesquisa e não a descoberta ocasional. E esta é inspirada no 9 ------------------------ próprio funcionamento das coisas ou das situações. Hoje. p.HOJE 1. cuja. acabamos por não saber o que nos rodeia. perfazer-se e morrer. A celeridade das mudanças deve -se. viviam em comunhão conosco e nos eram subordinados. sua aparência repetitiva. levados a repetir com Georges Bernanos (Journal d'un Cure de Campagne): "quimeras. "Vivemos a era dos objetos: quero dizer que vivemos no seu rit mo e segundo sua incessante sucessão. Daí vem o ar de família de tantos lugares. o objeto técnico é inspirador de metáforas. Aliás. Ante a banalidade e o mistério da técnica atual. p. um objeto pode transmitir informação a outro objet o. não conhecemos nada deste mundo. Na era cibernética que é a nossa. algumas são particularmente significativas na definição dos seus principais aspectos: OS OBJETOS. resultado de que o sistema técnico funciona no nível global. p. ficamos. em sua es trutura. igualmente. Na verdade. Vivemos. à novidade das forças que portam e à sua incidência sobre os objetos. instrumentos ou monumentos que sobreviviam às gerações humanas" (Jean Baudrillard. 1970. à multiplicidade de vetores que 5. dispõe de uma . Renato Ortiz (1994) considera que toda metáfora é um relato figurado. já proposta por Marx. de um lado. conteúdo em informação V regras próprias predeterminadas. A metáfora é um elemento do discurso. à rapidez de sua substituição. não estamos OBJETOSEAÇÕES. mas não profunda. perde-se em precisão conceituai. a explicação. ainda que o homem não esteja ausente. Acostumados à ideia de que o ator é o homem. chocados e intrigados co m a frase de Baudrillard (1973. Vida sistémica e auto -expansão são correlates. ao menos no início do processo. mas não pode substituir o conceito. universalidade e auto-expansão 2. a teoria.HOJE. Da grande lista de características do atual sistema técnico. porque ele próprio é um sistema. 200-201) no livro Lês Trois Mondes. 142 141 . intencionalidade. mas não toma o lugar da explicação. Attali (1981. 18). uma das causas da alienação contemporânea.pode ajudar o entendimento de uma situação. é técnico por sua estrutura interna. em suas aparências e em 3. pp. hoje. A submissão do produtor diante do objeto produzido é. concretude 4. a ciência e não a experiência. E o Sartre de Lflmagination escreve que o objeto atual é um objeto que se tornou sujeito. Os autómatos asseguram uma cadeia causal eficaz. tal como o fez J. para B. tratam-se de objetos científico-técnicos e. suas relações. 62). diz ele. Estes. também. diante da relativa inanidade de nossa oposição aos objetos atuais. já que as atividades correspondentes tendem a se difundir larg amente. revalorizados ou desvalorizados. Um exemplo banal: aquele barbeador. enquanto em todas as civilizações anteriores eram os objetos. p. que somente funciona com um tipo de corrente. eles se apoderam do nosso cotidiano. Quando isso falta. substancialmente. ela 88 O objeto é científico graças à natureza de sua concepção. a um tempo. mesmo recentes. os objetos são eles próprios informação: e não apenas movidos pela informação. cercados de objetos técnicos. de outro lado. A grande distinção entre o hoje e o ontem é que antes os objetos eram pouco numerosos. 18). vida sistêmica ivemos o tempo dos objetos. quando ele diz que os objetos são atores. A ideia de alienação. É assim que o espaço está sempre mudando em sua fisionomia. "que vivemos segundo o seu ritmo e sua incessante sucessão" 88. Esse objeto-ator nos aponta comportamentos. são rapidamente trocados. graças à sua competitividade. informacionais. Antes da produção material. funciona a partir de informações. A universalidade é. Ollman (1971. Recurso de estilo. também. E é. impõe-se com mais força. há a produção cientí - fica. é científico-técnico porque sua produção e funcionamento não separam técnica e ciê ncia. 46). ASNORMASEOTERRITÓRIO no mundo". é chamado a produzir um trabalho preciso . o percorrem. mas com eles nossa interação é prática. Somos nós que os vemos hoje nascer. No seu livro Mundialização e Cultura. um mecanismo que apenas funciona se obedecemos às Os objetos técnicos atuais se encontram praticamente em todas as latitudes e longitudes. infor-macional porque. no qual o que se ganha em consciência. vivemos junto com os objetos técnicos.que é uma informação - e. como quer Baudrillard (1970. Essa comunhão total com a sociedade e os indivíduos permitia falar de objeto vivo. mediante um sistema de objetos que transmitem informação uns aos outros. em sua fisiologia. o que significa.

1989. que vão determinar o materia l com o qual esse objeto imaginado será construído (Parrochia. p. quando utilizados. ao contrário. do trabalho mais produtivo economicamente. mas sugerem o papel a desempenhar. tanto carregam informação como necessitam de informação para funcionar. o material determinava como o objeto seria fabricado. empregado e. a segurança do progresso. por conseguinte. 26). não mais que um livro que fosse empregado como cunha ou pedestal. Hoje. de tal modo que. da busca de adequação entre a estrutura. um objetivo claramente estabelecido de antemão. poderemos definir 'objeto técnico' como a coisa que emana de uma produção obtida metodicamente. indispensável a que participem das formas de trabalho hegemónico. penetrado de inteligibilidade funcional. Akhrich. ao serviço do capital hegemónico. conforme já notamos. Aliás.] O objeto técnico pode ser lido como portador de uma informação definida. em menor escala. o avião e. se for apenas utilizado. o automóvel e os próprios edifícios ins truem a criação de um material adequado àquilo que o arquiteto ou o engenheiro desejam obter. Quando nos dizem que as hidrelétricas vêm trazer. 1987. 1992. ao cabo de uma série de operações de convergência (G. 1958. Os novos objetos técnicos são "concretos". semanas. Essa intencionalidade é mercantil. 89 . 50). p. isto é. traz consigo uma informação pura. Moles (1971. isto é. tornando o espaço mais denso e mais complexo. A. tudo isso são símbolos que nos permitem aceitar a racionalidade do objeto que. Sua funcionalidade é extrema. A sua produção não implica utilização imediata. p. Moles. 1992. através de um sistema de ações subordinado a uma mais-valia mundial. Lucrécia d'Alessio Ferrara (1989) mostra como o desenho industrial é um dos mecanismos intelectuais de proposição dessa precisão e plenitude funcional dos objetos. porque são ins talados obedecendo a uma lógica que nos é estranha. 91 juntos. Ele pode ficar em repouso dias. 1989.] Objetos e necessidades se encontram ligados a uma dialética de pedidos e respostas cujo aspecto dimensional acabamos de definir: complexidade das necessidades. constituem as duas dimensões dessa situação do Homo faber" (A. além disso. da integração no mundo. "A nos atermos ao nível mais evidente.. a 90 . específica e duplamente exigida: informação para os objetos. sistema de ações menos informadas e demandas menos exigentes de mais -valia. como motor.Essa intencionalidade dos objetos fez um sociólogo como Maffe -soli (1989) exclamar um dia: foi fabricado. Uma informação especializada. em que a inteligência do homem busca a forma de realizar materialmente o instrumento compatível com uma função. cristalização material de um esquema operatório e de um pensamento que resolveu um problema" (G. mas não raro é. a 'tecnociència' como o conjunto institucionalizado de valorização sistemática da pesquisa e das aplica ções científicas e técnicas" (J. pode exatamente vir destroçar a nossa relação com a natureza e impor relações desiguais. de resistir à velocidade. Frades. p. mas seus fins últimos nos escapam. isto é. para ser mercantil. sociais e políticas convergem para a sua produção. técnica e produção em nossos dias. mesmo. o que se conhece no obj eto técnico é a forma. p. p. Outros objetos têm. e a função que dele se espe ra. os objetos obedeciam a nós no l ugar onde estávamos. Objetos criados delibe -radamente e com intenção mercantil são movidos por uma informação concebida cientificamente. Isso eles deve m à possibilidade de desenhá -los previamente para serem por tadores de uma informação. É o que Simondon (1958) chama de operaçõ es de convergência. informação nos objetos. Concretude e conteúdo em informa ção são. 11). Simondom). eles tendem a ser mais perfeitos que a própria natureza. 86). "Présentation". informação "momen -tual". preenchidos e animados por eventos. p. mas. sujeitado. É exatamente G. o objeto técnico é cada vez mais eficaz (M. sobretudo. materiais. levando a que ele se recuse a responder a um estímulo diferente daquele para o qual "os objetos não mais nos obedecem". valorizado segundo as suas normas internas. Da mesma forma. São objetos programados (P.. Um objeto técnico nasce porque uma série de operações. segundo o ato humano de invenção que o fundou. aquela que só pode ser compreendida se o sujeito que a recebe suscitar nela uma forma análoga às formas trazidas pelo suporte da informação. Mas os objetos em si apenas carregam informações puras e so mente adquirem uma informação definida. criado na mente do homem. o objeto técnico resulta de uma produção metodicamente o btida (J. p. II) 89. Claval. meses ou anos. Todos esses objetos modernos aparecem com uma enorme carga de informação. na realidade. para um país ou para uma região. hoje. até que a energia social venha incluí -lo no movimento da vida. técnicas. intelectuais. mais perfeitos. A história das viagens interplanetárias e da aviação é a história da produção de um material capaz de resistir a uma dada temperatura. simbólica. 91 . isto é. que é o fundamento de sua eficácia. Em nenhuma outra fase da história do mundo. No passado. para exercer uma precisa função predeterminada. Mas. Pode -se chamar de informação pura aquela que não é eventual. Há uma relação entre objetos e necessidades. também. 86) 90. Trata-se da busca de um arranjo. Nas palavras de Simondon (1958. uma nova fonte de alienação. As naves espaciais. 144 143 . 1993. p. No passado. cada objeto é também localizado de forma adequada a que produza os resultados que dele se esperam. 247 ) quem nos fala dessa "information événementielle". no lugar onde estamos os objetos não mais obedecem a nós. e complexidade do sortimento. 2 46) construir um objeto técnico é preparar uma disponibilidade. 179). enfim. eles são. por outro. sinónimos de intencionalidade na sua concepção. mediante uma intencionalidade científica e tecnicamente produzida. não poderá trazer nenhuma informação. "[. 1971. p.. Na realidade tanto mais distantes eles se encontram do natural tanto mais concretos. isto é. de um material e de uma forma. os objetos foram criados. passam a ser. Assim se estabelecem na mesma área fluxos mais numerosos e diversos. a esperança de salvação da economia. por um lado. frequentemente necessita ser sim bólica antes. como hoje. Frades. os 'sistemas técnicos' como conjuntos coerentes de objetos materiais ou imateriais e como princípios e soluções técnicas e. informação. Os objetos já não trabalham sem o comando da informação. no sentido que lhes foi atribuído por Simondon.. produzido no laboratório antes do que pela técnica. uma síntese. informação específica. Simondom. É o resultado de um encontro. E o jogo entre pe didos e respostas a que se refere A. A. Graças à interdependência entre ciência. "[. 247). Para Jacques Frades. de entrar e sair da atmosfera. 1993. é a forma do objeto. e onde os criávamos. que permitam à sociedade realizar -se plenamente mediante a menciona da função. O objeto técnico apreciado e conhecido segundo a sua essência. Isso redefine inteiramente o sistema espacial. Simondon (1958.

tanto na sua realização como na sua funcionalidade. Mas esta abrigava uma instrumentalidade múltipla. eles se vão tornando objetos técnicos. 1988. Pode -se dizer que os sistemas naturais se constituíam sem finalidade. natureza interna do objeto e a função a que se destina. mais extensa e exigente. estacionamentos adequados e acessíveis. ao mesmo tempo. a cada dia que passa. sua complexidade. estava ao serviço do grupo. Um grande supermercado ou shopping center seriam incapazes de existir se não fossem servidos por vias rápidas. É a primeira vez na história do homem em que há apenas um sistema técnico regendo toda a atividade humana. presidida. ainda q ue desde logo sejam susceptíveis de outros tipos de utilização. as transferências de técnicas frequentemente aparecem como o meio de aumentar a encontra. os objetos naturais respondiam às questões de outros objetos naturais. nenhum deles se apresentou com tal força de difusão e tal capacidade de se impor e espalhar quanto agora. é. exatamente. em si mesmo. Os portos. No começo da história humana. O mesmo se pode dizer da "socialização" dos objetos naturais. criada a partir de uma tal multiplicidade e diferenciação dos lugares. isto é. um shopping center são bons exemplos. Era a partir de escolhas sociais que eles se tornavam sistémicos. que em nenhum momento. E esta também depende do arranjo espacial em que o objeto se produtividade e a produção e buscar. Sua energia é a informação. quando as pessoas dormem. Siegfried (1955. publicado em 1973. aqueles que são criados para responder às necessidad es de realização das ações hegemónicas dentro de uma sociedade. Ao mesmo tempo. Esse é o caso dos gran des edifícios. É a época da miniaturiza -ção e do gigantismo. A noção de poder e de escassez era ligada a essas escolhas. e. Antes. o homem criava objetos (de trabalho) carregados de intencionalidade. as coisas e os objetos se davam como conjuntos localizados. de formas combinadas de utilização dos recursos locais. 1993). os objetos tendem a se dar cada vez mais c omo sistemas. 146 145 . os objetos m ecânicos) retiravam sua finalidade da ação humana. como quer Pascal. Gras. O número de técnicas.Desde então. Ainda que as respectivas lógicas sejam diversas.". dos armazéns. e às vezes também o seu tamanho. cada vez mais imóveis. para produzir o essencial à sua subsistência. vivemos num mundo onde objetos infinitamente pequenos e objetos incomensura-velmente grandes convivem e colaboram. lembra o historiador Jean Chesneaux. mas complementares. informa dos. 171) o havia. o sistema de objetos. Um certo número de agentes hegemónicos utiliza os subsistemas técnicos mais novos. nem mesmo agora . escapar a uma situação de inferioridade. aos formidáveis avanços da informática. intencionais são mais numerosos e diversos que em qualquer outro momento da história. mesmo. No seu romance The Tower. um conteúdo técnico e participam da condição da técnica. e se tornam cada vez mais especializados. p. a rede ferroviária são exemplos de objetos complexos e sistémicos. O mundo microscópico a que se refere David Hamilton (1973. Eram coleções e não propriamente sistemas. fixados ao solo e seu funcionamento supõe o de outros objetos. previsto. de um lado. O objeto técnico se insere num sistema mais amplo. A. 47-52) é. uma estação de estrada de ferro. como meios de produção... há uma lógica comum a todos eles. Esses sistemas técnicos atuais são formados de objetos dotados de uma especializa ção extrema. diminui assim. pelo subsistema hegemónico. e. de circulação ou distribuição. aumentam a Objetos técnicos concretos. essa extrema adaptação a uma ação planejada que torna possível sua exatidão e eficác ia. regente e tributário dos megaobjetos e das megamá -quinas (B. A técnica que lhes era subjacente. O número e a qualidade de fluxos que os atravessam é exponencialmente superior ao que se verificava no período anterior. um sistema. As diversas peças do conjunto realizam tarefas às vezes aparentemente estanques. Richard Martin Stern erige um edifício de 125 andares em seu ator principal. A. as técnicas se desenvolvem para que o grupo se imponha no comércio. ao mesmo tempo em que. desejada por quem os concebe e quem os implanta. A materialidade do território é dada por objetos que têm uma génese técnica. Esses objetos polivalentes constituíam um sistema a partir de sua disponibilidade para um uso social. Nos períodos anteriores. Atualmente. o sistema técnico representativo da atualidade tende à unidade. universalizados. A atual divisão territorial do trabalho. enquanto no mesmo lugar permanecem subsistemas técnicos hegemo nizados. no seu próprio interior. também. cada vez menos dotados de mobilidade geográfica. a rede rodoviária de um país. não-intercambiáveis. mais precisamente. Cada objeto é. Mas todos eles trabalham em conjunto. trabalhados por agentes não - hegemônicos. Ao mesmo tempo. sistemas de transportes públicos corri horários regulares e conhecidos e se. um certo grau de liberdade e de fantasia em seu uso. por isso mesmo hegemónicos. desse modo. e dormindo à noite. num meio entre o nada e o tudo. não - reversíveis. durante o dia. funcionando sistemica -mente. Nunca na história do mundo houve um subsistema de técnicas tão invasor. Isso é sobretudo válido para os objetos que participam dos sistemas hegemónicos. Joerges. sobretudo.. Um aeroporto. e podemos perguntarnos se vivemos. sistémicos. de certo modo. ao dizer que "estamos perdidos no infinitamente grande. Hoje. inventada pelo grupo. através das funções que abriga. É verdade. Ele o descreve respirando. desse modo. Antes da instalação do homem.. Graças aos progressos recentes da ciência e da tecnologia. e do outro. no infinitamente peque no. uma reversibilidade nos objetivos. as atividades não estivessem subordinadas a uma coordenação. dos silos etc. Os primeiros objetos sociais (e. À medida que as trocas se intensificam. os objetos técnicos são originariamente criados para comu nicar entre si e para responder a uma finalidade. ou são adaptadas para que ele seja menos perdedor em uma cooperação cada vez mais desigual. um sistema técnico se impôs completamente à totalidade dos lugares e dos homens. mediante troca de energia em estado bruto. pp. os objetos consagrados ao trabalho.

Trata-se. espantando toda forma de espontaneidade. São ações pragmáticas. p. A ação seria. elas não são informadas de modo endógeno. dentro da sociedade. Onde J. isto é. onde as ações de um nível inferior não eram obrigatoriamente hegemonizadas. sobre os seus resultados. nos espaços "burros" a informação é menos presente e menos necessá ria. num território como o do Brasil. é o seu corolário. entre indivíduos. para impor ao uso do território ainda mais racionalidade instrumental. da tecnologia e da informação. A inteligência prática limita o horizonte ao momento imediato (Horkheimer. 10 3). onde a inteligência pragmática. Uma outra história. 103). substitui a meditação. mas da política. Essas ações racionais são movidas por uma racionalidade obediente à razão do instrumento. de novos -novosnovos objetos. 80) considera que. assim. mesmo.do ponto de vista económico e social . entre os lugares. Gras (1993. Nestes a racionalidade instrumental é fraca ou espasmódica. ténues. permitiria que a vida útil . cria-se uma tensão nos objetos do conjunto. dotados de qualidade operacional superior. 184) enxerga uma "linguagem que estrutura a ordem". tem como base essa aceitação da alienação. desse modo. Agora há uma clara hierarquia daquelas ações que se instalam em objetos igualmente hierarquizados. o primado da ação racional. diria Horkheimer (1947. um instrumento bem mais do que um ator. obediente a essas lógicas abst raias de que fala A. Não vem da técnica essa necessidade frenética de competitividade. empresas globais. uma razão técnica. um outro tipo de relações entre as empresas. O que conduz a esse envelhecimento rápido do património técnico que nos cerca é a doutrina e a prática da competitividade. J. num usuário transformado em cliente. espaços da racionalidade. conforme aos meios e despreocupada de teleologia. Attali (1984. de saber. instituições. 1947. há mais necessidade e densidade da informação. É uma ação nutrida na razão do instrumento. poderíamos dizer que. no tempo e no espaço. como. A ação codificada é presidida por uma razão formalizada. A situação é diferente daquela do passado. Agnes Heller (1982.HOJE Esses sistemas técnicos do mundo p resente tendem a competir vantajosamente com os sistemas técnicos precedentemente instalados. pp. Nesse sentido. de uma ação informada. reclamando uma linguagem matemática. mas informadas de fora. precisas. p. Mas esse processo não é técnico. em grande parte. reciprocamente. objetos recentes e que instalamos recentemente. tolerantes. sobre a ação simbólica. tornado obrigatório. fria. no Brasil. mediante as quais "o saber-fazer teórico incluído nas máquinas implica. a esse conteúdo em ciência e técnica. a maior parte do Estado de São Paulo. A atual divisão do trabalho. paralela à tensão que se levanta. Os objetos preexistentes vêem -se envelhecidos pela aparição dos objetos tecnicamente mais avançados. mais precisamente do que antes. precisamente. que é tanto meio quanto fim. entre as pes soas. o que realmente são. os tipos de 148 147 . entre ações he gemónicas e ações nãohegemônicas. linguagem do cálculo. de novas-novas-novas formas de organização. graças. aos lugares ser competitivos. Desse modo. tal racionalidade é uma presença e uma necessidade permanentes. e rapidamente substituído. mas a política. Para a maior parte da humanidade. Habermas re conhece que a "linguagem coordena a ação". podemos conceber u m mundo onde não sejamos obrigados a considerar como velhos. empresas. enquanto em outras áreas.dos objetos fosse maior. elas também se baseiam na ciência e na técnica. às empresas. instituições globais. É a informação que permite a ação coordenada. indicando o momento e o lugar de cada gesto e sugerindo as séries temporais e os arranjos territoriais mais favoráveis a um rendimento máximo da tarefa projetada. en quanto ação instrumental. densas e espaços trabalhados segundo racionalidades moles. na "sociedade moderna. Na era em que vivemos. plena mente. há espaços trabalhados segundo racionalidades duras. ação deliberada por outros. É assim q ue a ação exprime a "razão formalizada" expressa por Horkheimer. que deseja impor-se com a exclusão da emotividade e da surpresa. Esse resultado imperativo da competitividade faz com que equipamentos e lugares se tornem rapidamente envelhecidos e sejam declarados incapazes ou insuficientes para fornecer novos esforços úteis. Esta induz a um uso acelerado. ação não isolada e que arrasta. Desse modo. A ação codificada tanto se vale do seu próprio discurso. resultando numa " formalização abstrata do saber". Nestes. É o contraste entre espaços "burros" e espaços "inteligentes". Não é a técnica que exige aos países. p.AS AÇÕES. p. uma maneira racional de pensar". as ações também não poderiam escapar dessa marca: assim como os objetos. Uma atividade parcelizada. O mundo de hoje marca. Um mundo que resista à atual noção de competitividade permitiria certamente. 220 -221). mas a política pro duzida pêlos atores globais. ação que se dá em sistema. que nos permite inquirir-nos. quanto do discurso dos objetos. Daí essa incapacidade dos homens de nosso tempo de se avaliarem corretamente e. Os espaços inteligentes. ação insuflada. Não é a técnica em si que leva ao envelhecimento rápido das situações. e tem um papel fundamental na organização da vida coletiva e na condução da vida individual . bancos globais. menos preocupada c om a velocidade e com a rapidez das mudanças. ele é histórico. coincidem com as frações do território marcadas pelo uso da ciência.

dizer que. A materialidade herdada reage às ações novas. aliás. ao mesmo tempo. se caracte rizam. o proble ma da superposição. Essa unidade de co mando à escala global não era possível nos períodos históricos ante riores ao nosso. mas a ação de cada qual contribui para mudanças mais amplas. um princípio de equilíbrio. que encaminham suas ordens "desvalorizadas". em cada lugar. Cada lugar é teatro de O conhecimento do planeta. dado fundamental do movimento do mundo. a que Pagès chama de "nova mão invisível". portadoras de contextos com diversa abrangência geográfica e força ativa (ou reativa) diversa. onde as exigências de natureza global têm um papel fundamental. Isso. a partir de um mesmo centro decisório que envia suas mensagens e ordens com eficácia. O aparelho de barbear traz a in dicação de como utilizá-lo e o instrumento mais complicado tampouco se usa sem discurso. os objetos nos podiam falar diretamente. A produtividade das ações e dos lugares também está ligada a esta outra característica das ações atuais.objetos e corpos . criando. neles. p. É. o que consagra na prática o princípio do tempo real. suas ações "desvalorizadas". apenas é possível parcialmente. cujo fator de mudança é esse dado global. a possibilidade atual de mundialização de um grande número de ações acarreta. mas. ond e se realizam formas consequentes de vida. pelas mãos dos Estados. desde que se tornou possível a teleação. sejam eles locais (a integração das metrópoles). de ações com escalas diversas. O chamado "tempo real " permite a atores presentes em diversos lugares a possibilidade de agir. a causa última desse evento. a possibilidade de ação imediata que gera a possibilidade da ação global. isto é. em seu próprio tecido. sua extrema substitutbilidade. Estamos longe de uma territorialidade absoluta da ação. ainda que relativo e precário. a cada ins - tante. formas de vida terri-torializadas. se não houver a possibilidade de uma tradução. Desse modo. Podemos ter uma variável global com uma ação local. os especialistas dos discursos especiais. hoje.1975. mas também na hora adequada. a materialidade não plenamente conforme à modernidade atual pode ser objeto de (nova) utilização por capitais e pessoas "desvalorizados". desse modo tornadas mais eficazes.Essas ações globais. também. Os objetos têm um discurso que vem de sua estrutura e revela sua funcionalidade. não obriga toriamente percebida. atingidos. uma raison d'être. é a velha materialidade que dissolve o novo tem po e são os tempos do lugar que dissolvem o tempo do mundo. em que a informação se pode transmitir instantaneamente. à possibilidade de empreender uma ação imediata. onde o cálculo é desnecessário e a emoção é possível. Essas ações parcelizadas exigem uma coordenação. desejando dissolvê-los. porém. Ao mesmo tempo. É dessa forma que as ações individuais participam da ação globalizada. Como escreveu Cassirer (1953. a única garantia. ação racional preocupada com os fins 'devoram' completamente os tipos de ação racional preocupada com fluidez. assegurado pelo uso das técnicas de detecção e de medida. próximos (áreas complementares) ou distantes (regiões e lugares da divisão longínqua do trabalho). de entender a história e propor uma nova história. nós os mir amos e eles nada nos dizem. uma variável distante com uma ação loc al. às vezes invisível. como pressuposto me todológico. como. Vários pontos distantes são. a diferença entre a escala da ação e a escala do resultado. em cada lugar o chamado tempo do mundo convive com outros tempos. as formas de teleação. A ideia. na sociedade. não apenas no lugar escolhido. 30) a ação humana é discreta . É o discurso do uso. também. bastante difundida. pois nenhum lugar viv e em isolamento. sugerimos considerar. de ação just in time. da teleação e da com petitividade. Cada lugar é. Mas os dados propriamente locais não são dissolvidos. do qual depende sua legitimação. Uma coisa é um evento dando -se num lugar e outra é o motor. responsáveis pela circulação universal da mais-valia. III. assim. as ações indicadas se dêem. deve ser completada com uma outra noção. É assim que o lugar acaba por encontrar. Nessas condições. maior rentabilidade. Em nosso livro Lê métier de géographe en pays sous-développé. eram indispensáveis para lermos as virtudes dos remédios. por sua extrema o valor". a essas parcelas "desvalorizadas" do espaço. sobretudo as instituições financeiras. A partir das características atuais dos sistemas técnicos. é a materialidade . a de ação just in place para dar conta dessa precisão das ações da qual depende a sua eficácia no mundo de hoje. permitindo que. A materialidade das coisas e a objetividade da sociedade (a corporeidade do s homens) permitem. que transportam o sis tema das técnicas atuais exigem um discurso. são hoje uma permanente precisão no mais tolo afazer de cada dia. objeto de um processo de desvalorização e revalorização. aos propósitos daqueles que as controlam. Assim desvalorizada. ao mesmo tempo em que se debilita a capacidade de produzir o discurso do todo. por exemplo. É uma ação precisa. até mesmo globais.que acaba por ser. uma sucessão possível de ser alucinante. para usos escolhidos pêlos portadores de ações. O mundo de hoje é o cenário do chamado "tempo -real". isto é. Até ontem. As bulas que. graças aos eleitos conjugados da inteligência universal das empresas e bancos. torna -se possível uma ação unificada no nível do planeta. A interação é possível. aqui e agora. e das firmas transnacio -nais. o da sedução. para muitos lugares. maior produtivi dade. A adaptação à modernidade não se submete a leis absolutas. das organizações internacionais. Os objetos novos. E há o discurso das ações. metaforicamente. inseridas em conjuntos mais amplos. Essa legiti - 150 149 . atribuindo maior eficácia. Um outro elemento da ação atual é a retórica. sequiosa d e resultados. através dos sistemas de ação fundados na técni ca. combinações pouco duráveis. permite uma descoberta "global" dos lugares e sua avaliação. no passado.

Aumenta o número de pessoas letradas e diminui o número de pessoas cultas. Nunca. hoje.. é cada vez mais normada. a força própria do lugar vem das ações menos pragmáticas e mais espon tâneas. que são interpre tações locais da distância. dos custos e dos preços. As próprias exigências do intercâmbio internacional. L. de regras de ação e de comportamento a que se subordinem todos os domínios da ação instrumental. Por isso. 152 151 .Aliás. Por isso. houve tanta necessidade de um saber competente.mais ou menos de acordo com o Estado organizam o seu sistema de normas e o impõem progressivamente. e contras tando com as anomias crescentes no interior das unidades políticas extra -ocidentais. C. o que se verifica. criando a surpresa e impondo a novidade. "Paralelamente aos esforços com vistas a um acordo entre grandes potências. as normas. -P. Esse fato responde à preeminência da técnica em todos os aspectos da vida social. para reinterpretar a lição dos objetos que nos cercam e das ações de que não podemos escapar. as normas também se classificam em função da escala de sua atuação e pertinência. Esse é um grande dado do nosso tempo. Quanto menos dominam esses segredos. A ordem mundial é cada vez mais norm ativa e. p. Daí a necessidade de adoção. para entender o espaço. Como o discurso invadiu o cotidiano. O discurso das ações e o discurso dos objetos às vezes se com pletam como base da desinformação e da contra-informação e não propriamente da informação. convocados pelas novíssimas inovações a aprender tudo de novo. Badie & M. Pelo simples fato de vi ver. 1992. fazem nascer "uma lex mercatoria fundada sobre as leis do mercado e seu acompa nhamento jurídico" (B. a necessidade de ir além da função localmente exercida e de também considerar suas motivações. o teatro do encontro de dois sistemismos: o sis -temismo dos objetos impele ao sistemismo das ações e o condiciona. Frequentemente. mação prévia tornou-se necessária para que a ação proposta seja mais docilmente aceita. a lex mercatoria. 37). da acessibilidade. 1992. cada dia somos ignorantes do que são e do que valem as coisas novas.. Dois exemplos: os contratos económicos internacionais e as associações profissionais" (B. áreas de agricultura moderna e respectivas cidades acolhem um grande número de pessoas treinadas para ler sistemas técnicos. a superposição desses dois sistemismos é geradora de uma seletividade de uso e é criadora de escassez. de objetos susceptíveis de participar dessa ordem e. quando o discurso dos objetos é apenas chamado para legitimar uma ação. Smouts. os costumes. que podem ser distantes e ter até mesmo um fundamento planetário. a começa r pelas relações com o capital e o trabalho. a "organização" das "coisas" passa a ser um dado fundamental. A necessidade de estabelecer relações contratuais para lá das fronteiras gerou uma forma de regulação na qual se podem ver as premissas de certa ordem pública transna -cional. Num mundo globali zado. normativo e normado (J. mas sem revelar suas propriedades escondidas ou o discurso como base de uma ação comandada de fora que leva a construir uma história através de práxis invertidas. isso supõe. Por exemplo. a um tempo. 97) "no campo da gestão. 136). Séris. Essa criação cotidiana do homem ignorante também leva regiões inteiras a ignorar o que elas são. desse modo. mediante os quais sempre se estão redefinindo as especializações e a totalização. as representações herdadas ou ensinadas. uma ordem mercantil parece estar a instaurar -se. os operadores privados . da tecnologia. O espaço é. C. ele se torna presente em todos os lugares onde a modernidade se instala. no período atual. de um lado. a saber. a religião. em parte. Godelier (1972) "objetos não relacionados constituem uma realidade desprovida de existência". presidem a uma certa tipologia de relações. somos. sempre que não conhecem os seg redos do funcionamento dos respectivos objetos e ações. segundo J. a essa "ordem da matéria". Mas os seus atores estão longe de um entendimento completo do que fazem. e rnais ativa se frequentemente. Existem mediações e. fundada nas leis do mercado e em seu acompanhamento jurídico. Com todos os dias o mundo está inventando uma novidade. O fato de o sistemismo dos objetos condicionar o sistemismo das ações não significa que entre eles haja uma relação automática. Margolin (1991. no conjunto do campo das relações sociais (Z. 36) e onde 92 "ao lado dos direitos nacionais e do direito internacional público. já que o próprio do fenómeno técnico é ser. Paralelamente à proliferação de normas jurídicas. 1994. C. Ao lado dos direitos nacionais e do direito público -internacional. p.] "normas criadas intencionalmente". nessas é grande a presença do trabalho intelectual que ajuda a formar os novos terciários. torne na vida social. Beaune (1994). p.organizam o seu sistema de normas e progressivamente as impõem" . AS NORMAS E O TERRITÓRIO Em tais condições. 1992. impõe-se uma outra tendência. os operadores privados . entre elas. Como as ações. verdadeiros tradutores.mais ou menos de acordo com o Estado . p. das normas gerais. como agora. Segundo M. Smouts. Laïdi. do consumo e dos modos de vida". à uniformização. todos os dias. Os objetos técnicos são susceptíveis de influenciar comportamentos e. graças. a que se refere J. enquanto a vida social é organizada em derredor de "princípios explí citos" [. Badie & M. de outro lado. um conjunto de princípios gerais e de regras cons uetudinárias elaboradas para as necessidades da troca económica interna cional. Mas a interação humana pode forjar novas relações. a lei. 71). têm menos condições de comandar a sua própria evolução e mais dirigidas de fora tendem a ser. p. baseadas em objetos tecnicamente menos modernos e que permitem o exercício da criatividade. também. 92 .

São escolhidas por uma seleção natural que filtra as soluções válidas. uma das locomotivas do seu de sempenho e de sua rentabilidade. classificando-as. Voyé (1981. com outras firmas. parcelas significativas do espaço geográfico. As normas ditas internas atingem o entorno da empresa. o tempo e o espaço não contam mais". Passei (1979. o processo contábil. p. (especialmente as grandes cidades dos países subdesenvolvidos). acompanhá-las e regulá-las. p. regulares ou não. segundo os lugares. Tais d enominações. p. É nesse sentido que se pode afirmar que as normas a que se submetem são "dinâmicas e auto -reguladas". é definida por R. pp. Pagès (1979. Tais normas são estruturadoras da realidade. p. Por sua vez. nas suas relações com o poder público e nas suas relações. situada nos centros motores da informação. referindo-se ao meio urbano. em função de uma inteligência maior. Através de ações normadas e de objetos técnicos. As normas são o efeito de um rigor extraindividual e extrapsicológico. se cria uma ordem formal. tratá-las.. seus custos e pre ços. situadas sobretudo nas cidades . É o rigor de uma exigência que não é colocada pelo indivíduo e que não é ordenada para o bem do indivíduo. 80). como externas. por seu conteúdo técnico. 27). uma vez que um processo produtivo tecnicamente fragmentado e geograficamente espalhado exige uma permanente reunificação. hoje. P. Pontos de cálculo e de controle são dois aspectos da localização desses elos de uma mesma corrente. 173). já que as normas administrativas (além das normas internas às empresas) é que. antes de as redistribuir entre os mesmos pontos. direta ou indiretamente. Mediação jurídica e mediação técnica se completam. criando "contact flows" por intermédio dos quais os fluxos internos e os fluxos externos reunidos encontram uma superfície de operação e influência mais extensa que a de cada agente. Velhos objetos e ações menos informadas e menos racionais constróem paralelamente um tecido em que a 154 153 . porém. 50). de informações etc. pois o conteúdo técnico e informacional de cada área tem um papel fundamental no compor tamento dos agentes. p. A existência de normas regula os diversos fluxos entre agentes. amiúde.-P. Remy & L. 1994. p. 1778) o desempenho das em presas supõe dois tipos de mediação: uma mediação jurídica e uma mediação técnica. Mas a totalidade dos agent es modernos se submete a uma ampla rede de regras interdependentes que acabam por constituir o que Pagès (1979. a O. a única. "Devemos pensar as normas no sistema e podemos talvez compreendê -las pelo sistema. Ellul (1964. em sua con dição de conjuntos sistémicos de previsão de todas essas etapas 93. Uma análise do seu dinamismo mostrará que as normas de ordem técnica são também políticas. relativas ao seu funcionamento técnico. 136 -137) já distinguia entre um "internai flow" e um "externai floiv". é integrar -se em um plano. 84). seus impostos e suas isenções atingem. É aliás essa uma das razões pelas quais as normas funcionam em sistema (J. p.. aliás. isto é. Séris (1994. sejam essas relações de cooperação ou de concorrência. Guillaume (1978. 80). um sistema é tanto mais ordenado. 277) como "a quantidade de sujeição estabelecida num sistema: o constrangimento da posição por exemplo". consideram a empresa num dado momento de sua atividade. a lógica das normas. se chama "infra -estrutura". retém os processos comprovados e só reproduz os artefatos que sobreviveram" (J. Tinland (1994. já que suas pausas e seus horários de funcionamento. mas um regulador regulado. Para esse autor. Essa inteligência das grandes empresas e dos Estados não é. para ser eficaz. maior ou menor. é regulador. p. no sentido proposto por F. como pretende J. Normas gerais são diversamente eficazes. escapam aos rigores das normas rígidas. considera os equipamentos "ditos coletivos" como um dos elementos importantes do "modo de normalização". Em níveis inferiores. As normas das empresas são. o fenómeno se reproduz. A ordem. determinam os comportamentos. As regras a que se submetem as empresas em seu funcionamento são destoadas a regular os processos produtivos. É assim que. no dizer de M. As normas nem sempre são editadas de maneira deliberada. P. Segundo A. um sistema mercantil com bases territoriais. e de pontos de controle e desse modo de dependência". Séris.). E o que. em última análise. a seu próprio serviço. Daí a considerar que "graças à normalização. onde as normas são recriadas ao sabor das conjunturas localmente definidas. relativas ao seu comportamento político. consciente.] inscrevem os seus próprios ritmos de mudança no movimento do mundo". O espaço. aliás. 50) intitula de "gigantesca administração". um campo rela cional em que o conjunto de atividades de cada indivíduo é codificado pelo sistema de regras. no dizer de J. M. A força desses núcleos vem de sua capacidade. fundada na generalização de "pontos de cálculo e desse modo de autonomia. Séris. mas também a planificação e a pontos que constituem um campo de forças interdependentes. Estas novas necessidades de regulação e controle estrito mesmo à distância constituem uma diferença entre as complementaridades do passado e as atuais. ainda que com menos eficácia mercantil. O máximo de ordem se dá quando cada elemento ocupa uma posição determinada e uma só. Segundo J. quanto maior o número de posições determinadas. a regulação da economia e a regulação do território vão agora impor-se com ainda mais força. 1994. Lipietz (1978. 1979. Ao mesmo tempo. o universo social e geográfico em que estão inseridas ativamente. 59). As novas necessidades de complementaridade surgem paralelamente à necessidade de vigiá-las. p. 55). valorizando-as e hierarquizando-as. 93 ordem significando "interdependência entre elementos que se condicionam mutuamente e cujas interações fazem surgir novas modalidades de relações com as quais [. p. reside um abismo. Tais normas tanto podem ser internas. Wárneryd (1958. Esta seria "fornecida pelo sistema de transportes e telecomunicações que produz deslocamentos ou transferências (de mercadorias. O aprofundamento resultante da divisão do trabalho impõe formas novas e mais elaboradas de cooperação e de controle. a circulação dos re sultados. desde que se tornam essenciais. O território como um todo se torna um dado dessa harmonia forçada entre lugares e agentes neles instalados. p. Seu rigor não emana da decisão de um indivíduo. Mas também se criam ordens menos formais e até mesmo ordens informais.Território e mercado se tornam conceitos xifópagos. de receber in formações de toda natureza.

a da substituição de um meio natural. sucessivamente instrumentalizado por essa mesma sociedade. Uma primeira etapa que principiaria com a conquista da m atéria e do espaço (fabricação de instrumentos e seqüencialização dos gestos e dos deslocamentos) . É hora de fornecermos os meios de estudar melhor esse domínio" (Sander E. "[. uma terceira etapa na qual especializações. 95 . caracterizado por aquilo que se convencionou chamar de "a revolução informática" ou mesmo igualmente genética. pode ser vivida ------------------------ DOMEIONATURALAOMEIO TÉCNICO -CIENTÍFICO-INFORMACIONAL INTRODUÇÃO história das chamadas relações entre sociedade e natureza é. em todos os lugares habitados. inspirada em relações pessoais mais diretas e mais frequentes e menos pragmáticas. "Bem entendido. é um nível de criação. Moscovici (1968). 1994. depois. vida. A passagem de um estado de natureza a outro ocorre da seguinte maneira: a atividade de conhecimento suscita a formação. 41).]. [. Alguns autores preferirão falar de meio pré-técnico em lugar de meio natural. Moscovici tentou reconstruir esses estados naturais e particularizou três deles: o sistema orgânico definido pela filosofia e artesanato gregos. de suas máquinas. 1991. Es tamos transpondo novos limites. o sistema mecânico que triunfa de Galileu a Newton.] Para Moscovici. e o sistema cibernético nascido com as ciências experimentais e a descoberta da química e da eletricidade. "Vivemos hoje provavelmente o começo de um quarto episódio.. num dado sistema 94 156 155 . Podemos admitir que a história do meio geográfico pode ser grosseiramente dividida em três etapas: o meio natural. 73)95 e a inexistência de artefatos mais complexos ou de máquinas não significa que . trocas comerciais e instituições administrativas se instalariam para redundar no urbanismo e na conquista de um espaço "generalizado". enfim. e a parte do "natural" e do "artificial" também varia. o meio técnico.conquista que implica uma lenta introdução da temporalidade e da estruturação espacial num nível microscópico. Cada uma das fases dessa 'história' teórica da humanidade resultaria na instauração de uma nova dinâmica auto -organizadora e complementar que reforçaria as dinâmicas existentes". que o homem moldaria por meio de seus utensílios e. mas antes um modo particular de constituição da natureza. o caminho que vai de uma situação a outra se dá de maneira particular. van der Leecew. Um estado natural é um tipo.. Em cada fração da superfície da terra. Uma segunda etapa na qual a sedentaridade e a agricultura conduziriam à colonização de um espaço macroscópico. 28 -42. Para S. e cada estado da natureza substitui o precedente à medida que aumenta a ação do conhecimento sobre a matéria [. pp. dado a uma determinada sociedade. "Tende pois a conceber o desenvolvimento da humanidade segundo duas etapas gros seiras.IO na emoção e o intercâmbio entre os homens é criador de cultur a e de recursos econômicos. Não existe natureza em si. o estado do trabalho não determina diretamente um tipo de socie dade. Mas a própria ideia de meio geográfico é inseparável da noção de técnica. E. Esses sistemas são a princípio in strumentos de trabalho. mas é também e em primeiro lugar criação e reprodução de um estado natural. isto é. O trabalho humano tem duas faces: é elemento de um sistema de trocas e de uma organização económicas e portanto de relações .... o meio técnico-científico-informacional. p.. por A um meio cada vez mais artificializado. A natureza é um modelo de conhecimento. assim como mudam as modalidades do seu arranjo 94.sociais. as condições do trabalho estão em relação direta com um modo particular de constituição da natureza (citado por Busino.].

o pousio. nos lugares atingidos. utilizada. A isso também se chama técnica97. entre outros. natural ou já socializada. eles são culturais e técnicos. aumentam as necessidades e depois se transformam em recursos e em novas forças de produção" (G. as regiões. objetos culturais. "Os meios naturais são. A partir do Paleolítico superior. que constituem. O que alguns consideram como período pré-técnico exclui uma definição restritiva. ente as quais a domesticação de plantas e animais aparece como um momento marcante: o homem mudando a Natureza. meios relativamente técnicos: Homo faber. Séris. Ela se metamorfoseia de 'geração' em 'geração'. no trabalho. Ela somente se impôs ao longo dos dois últimos séculos. locais. Exemplo disso são. p. sobretudo.] a natureza não era apenas um quadro fixo. 1994.. ao mesmo tempo. 1964. unidas ao solo. mistos ou híbridos conflitivos. Berger. com instrumentos que já não são prolongamento do seu corpo. alimentar-se. Quanto ao meio técnico-científico-informaciona 96 é o meio geográfico do período atual. criadora das técnicas utiliz adas. Inversamente. dos quais ela constitui o traço dominante. não conhecemos. ajudavam a reconstituir. talvez. apenas. motivações de uso eram. Os tempos sociais tendem a se superpor e contrapor aos tempos naturais. juntam à razão natural sua própria razão.dizer. uma lógica instrumental que desafia as lógicas naturais. a agricultura itinerante. p. reservando a apelação de meio técnico à fase posterior à invenção e ao uso das máquinas. 231. Outras contribuições foram apresentadas em reuniões científicas e publicadas em diversas revistas: Boletim Paulista de Geografia (1989). ao mesmo tempo. ainda que o papel do intercâmbio nas determinações sociais pudessem ser crescentes. 99 . As transformações impostas às coisas naturais já eram técnicas. logo retomavam seu papel" (G. o homem começa a fabricar um tempo novo. criando. por força de mudanças materiais. "A mecanização do espaço técnico é muito mais recente do que a 'mecanização da ima gem do mundo'. Esse meio natural generalizado era utilizado pelo homem sem grandes transformações. no intercâmbio. já que estas. também. p. George. graças à sua superposição triunfante às forças naturais. Os objetos técnicos e o espaço maquinizado são locus de ações "superiores". com a qual se relacionavam sem outra mediação. 98 . 97 . essas condições naturais que constituíam a base material da existência do grupo. Ela povoa o imaginário coletivo: a ciência-ficção somente imagina o futuro como sendo invadido e saturado por máquinas.. também. respeitosa da natureza herdada.o maior dos quais é a prerrogativa de enf rentar a Natureza. Busino. dão uma toda nova dimensão à respectiva geografia. quando apresentamos uma comunicação ao En contro Nacional dos Geógrafos promovido pda AGB em Porto Alegre. vestir-se. os sistemas técnicos não tinham existência autónoma. 1966. Mas o número e a qualidade de artefatos varia. As áreas. ao mesmo tempo. mas que representam prolongamentos do território. uma série de comportamentos. p. P. 158 157 . Produzindo-a. nos países ocidentais e no Japão. alojar-se. pois. pp. tendentes a conciliar o uso e a "conservação" da natureza: para que ela possa ser outra vez. p. Esse trabalho foi depois reproduzido em nosso livrinho Espaço e Método. 186). o homem escolhia da natureza aquelas suas partes ou aspectos considerados fundamentais ao exercício da vida. os espaços. Os ob jetos que formam o meio não são. meio técnico 'puro'. Os objetos técnicos. Quando tudo era meio natural. Sua simbiose com a natureza resultante era total (G. "O Período Técnico -Científico e os Estudos Geográficos". Utilizando novos materiais e transgredindo a distân cia. a sociedade local era. a sociedade territorial produzia. As uma dada sociedade não disponha de técnicas. consideradas superiores pela crença de que ao homem atribuem novos poderes . os países passam a se distinguir em função da extensão e da densidade da substituição. vinda do período anterior. ela era também um regulador constante. no processo de criação de uma nova natureza. mesmo nos centros mais urbanizados. 1986). Levamos também uma comunicação a um simpósio da OEA (Washington. retomando o livro de Dijksterhuis. Resgate (1991). "[. valorizando. pelo fato de serem indissolúveis em relação à Natureza que. social. regras sociais e regras O MEIO NATURAL territoriais. decorar seus abrigos ou seus lugares de culto implicam técnicas já complexas. no lar. 96 . impondo-lhe leis. comandante dos tempos sociais e dos limites de sua utilização. por objetos técnicos 99. desse modo. em sua operação. Nesse período. desde as origens da pré -história e por definição. 1991. do qual esteja excluída qualquer ação de elementos naturais (se bem que em últim a instância isto se possa conceber)" (G. os trabalhos do homem para defender-se. diferentemente. Tais ações são. segundo os lugares e as culturas. fracamente modificados pela intervenção do homem. Assim. Estamos porém. Espaço e Debates (1988). Cahiers de Géographie du Québec (1988). cuja razão é a preservação e a continuidade do meio de vida. a rotação de terras.73). As nossas ações se incorporavam rapidamente e tudo se podia experimentar sem grandes riscos. Friedmann. 154). P. de "quase-recursos" cuja utilização continua sendo inicialmente marginal mas que. Terra Livre (1992) etc. Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos não eram. As técnicas e o trabalho se casavam com as dádivas da natureza. Quanto ao espaço. A harmonia socioespacial assim estabelecida era. agressivos. 1964. onde os objetos mais proeminentes são elaborados a partir dos mandamentos da ciência e se servem de uma técnica informacional da qual lhes vem o alto coeficiente de intencionalidade com que servem às diversas modalidades e às diversas etapas da produção. Ela se tornou um fenómeno planetário. Caderno Prudentino de Geografia (1992). neles. Vimos tratando desse tema desde 1980. 24. porque os equilíbrios naturais. Berger. que o possibilismo da criação mergulhava no determinismo do funcionamento 98. 26) e podemos O MEIO TÉCNICO O período técnico vê a emergência do espaço mecanizado. às vezes dominado e às vezes aniquilado por elas" (J. 1974. verdadeiras próteses. maquínicos. em particular demográficas. dos objetos naturais e dos ob jetos culturais. 231). o componen te material é crescentemente formado do "natural" e do "artificial".

o meio geográfico tende a ser universal. igualmente. p. as motivações de uso dos sistemas técnicos são crescentemente estranhas às lógicas locais e. o mundo rural. de um ponto de vista organolético. neve processo de comércio. Eram poucos os países e regiões em que o progresso técnico podia instalar-se. 40). de inevitabilidade do "nexo informacional". de modo que tanto seus efeitos estavam longe de ser generalizados.. o combate social contra os miasmas urbanos. temos a nítida sensação de que não pertencem ao mundo natural". supressões. equipados para facilitar a sua circulação. a energia principal de seu funcionamento é também a informação. objeto de modificações. e a respeito dos quais. 39). era limitado. A diferença. Richta (1968) chamou de período técnico-científico. quando nos referimos às manifestações geográfi cas decorrentes dos novos progressos. Em outras palavras. edifícios. a informação não apenas está presente nas coisas. desse modo. torna -se um mercado global. mesmo nestes poucos. eles já surgem como informação. Num verbete da Encyclopédie Universalia 1981. espécies (animais e vegetais). na verdade. no dizer de N. A reação antimaquini sta. produzindo um espaço cada vez mais denso. Segundo Ernest Gellner (1989). p.. "a natu - reza deixou de ser uma parte significativa do nosso meio ambiente". Estamos diante da produção de algo novo. Essa união entre técnica e ciência vai dar -se sob a égide do mercado. A ideia de ciência. protagonizada pêlos diversos ludismos. mesmo. e. O fenômeno. Esse mundo artificial inclui. não é mais de meio técnico que se trata. dedicado aos camponeses franceses. inexistentes na natureza. da presença de sistemas técnicos eficazes. este é marcado pela presença de "materiais plásticos. Bernard Kayser mostra como os seus investimentos em bens de produção . estes acabam por ser cada vez mais presentes. Labriola em 1896 (em seu estudo intitulado "Del Materialismo Storico") faz -se uma evidência. tende a recuar. vem da lógica global que acaba por se impor a todos os territórios e a cada território como um todo. como a visão desses efeitos era. táctil. hoje. A O MEIO TÉCNICO -CIENTÍFICO -INFORMACIONAL técnica. Como em todas as épocas. junto com a informação. nas grandes cidades inglesas e continentais. Pode -se falar. que formam o espaço. de 20 para 50 por cento. Como o êxito. 160 159 Podemos então falar de uma cientificização e de uma tecnicização da paisagem. Por outro lado. depende. Frades. p. uma situação em que a natureza natural. A ideia de um meio artificial.terra. O meio técnico-científico-informacional é a cara geográfica da globalização. Bosque Maurel. fertilizantes. O terceiro período começa praticamente após a segunda guerra mundial. limitada. em grande parte. co -lorantes. a ciência e a tecnologia. fertilizantes. Segundo G. E. É a fase a que R. como S. Dorfles (1976. e sua afirmação. os sistemas técnicos vigentes eram geograficamente circunscritos. Antes. máquinas. porém. antecipa a batalha atual dos ambientalistas. ele assegura o funcionamento dos processos encadeados a que se está chamando de globalização. Neste período.Da mesma forma como participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas O componente internacional da divisão do trabalho tende a aumen tar exponencialmente. 1994. p.] tende a funcionar como uma unidade" (J. então. a que estamos chamando de meio técnicocientífico-informacional. A informação é o ve -tor fundamental do processo social e os territórios são. 1992. E o mercado. Cria-se um verdadeiro tecnocosmo (J. avançada por A. os objetos técnico-informacionais conhecem uma difusão mais generalizada e mais rápida do que as precedentes . os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos e informacionais. A razão do comércio.no século XIX. a tal ponto que certos autores preferem falar de tecnociência para realçar a inseparabilidade atual dos dois conceitos e das duas práticas. Já hoje. Pelo fato de ser técnico-científico-informacional. Os espaços assim requalificados atendem sobretudo aos interesses dos atores hegemónicos da economia. graças exatamente à ciência e a técnica. nacionais. graças à extrema intencionalidade de sua produção e de sua localização. e não a razão da natureza. E a própria chegada ao campo das estradas de ferro suscita protesto.e causticadas . incluindo os países de terceiro mundo. nos objetos técnicos. cada vez mais sofisticados e mais carregados de artifício. como ela é necessária à ação realizada sobre essas coisas. é que preside à sua instalação. Mesmo onde se manifesta pontualmente. às vezes brutalmente. Rotenstreich (1985. recentemente. e que se distingue dos anteriores pelo fato da profunda interação da ciência e da técnica. eram apenas as grandes cidades que se apresentavam como o império da técnica. . 177). o novo não é difundido de maneira ge neralizada e total. Mas. Gertel (1993). 71). cromático. transforma - se no meio de existência de boa parte da humanidade. da cultura e da política e são incorporados plenamente às novas correntes mundiais. acréscimos. O espaço "no qual o homem sobrevive há mais de cinquenta mil anos [. Assim.passaram. a ideia de tecnologia e a ideia de mercado global devem ser encaradas conjuntamente e desse modo po dem oferecer uma nova interpretação à questão ecológica. estão na própria base da produção. mas já são lar gamente notadas . vai realmente dar-se nos anos 70. já que. já que as mudanças que ocorrem na natureza também se subordinam a essa lógica. Esse era. sua presença torna -se crescentemente indiferente às condições preexistentes. ante as formas anteriores do meio geográfico. onde ela ainda existe. pesticidas etc. A poluiçã o e outras ofensas ambientais ainda não tinham esse nome. e a importância da troca na sobrevivência do grupo também cresce. da utilização e do funcionamento do espaço e tendem a constituir o seu substrato.

quando empreendidas em condições meteorológicas favoráveis. permitindo apreciar. fertilizantes. Pode-se. de um modo geral. O processo de especialização. durante muito tempo o único existente no país. Alguns lugares tendem a tornar -se especializados. circulação. dos capitais utilizados. até mesmo imaginar a sucessão dos eventos em períodos futuros. As atividades que mais se aproveitam das informações são ligadas à cana-de-açúcar e à laranja (D. Agora. a sementeira ou o plantio. crescendo o número e a importância dos fluxos. é possível produzir muito mais. mas que não dispõem desses recursos de conhecimento. criando áreas separadas onde a pro dução de certos produtos é mais vantajosa. fenómeno a que o mesmo Marx intitulou "ampliação da área". enquanto a respectiva área se amplia.O CONHECIMENTO COMO RECURSO famílias de objetos. Tomemos o exemplo do radar meteorológico da Universidade. no Estado de São Paulo.) e dos capitais constantes (maquinário. dizer que a s porções do território assim instrumentalizadas oferecem possibilidades mais amplas de êxito que outras zonas igualmente dotadas de um ponto de vista natural. desse modo. técnicas e organizacionais. Tais informações são 162 161 . beneficiar-se de suas informações -. Isto significa que as empresas que se encontram nesse perímetro . graças ao uso just-in-time dos recursos materiais e humanos. ainda que pontual.) aumenta também a necessidade de movimento. a técnica e a ciência presentearam o homem com a capacidade de acompanhar o movimento da natureza. As possibilidades.. Esse círculo vicioso . Como se produzem. Tudo isso tende a favorecer os empresários. terra arada etc.ou virtuoso? . aumenta a necessidade de intercâmbio. em Bauru. cada vez mais po derosos e precisos. graças aos progressos da teledeteção e de outras técnicas de apreensão dos fenómenos que ocorrem na superfície da terra. científicos. a mobilização dos mesmos recursos técnicos. têm condições de operação muito superiores às daquelas localizadas em outros lugares.depende da fluidez das redes e da flexibilidade dos regulamentos. A preparação das terras. também financeiros. faz com que essas especializações produtivas sejam solidárias no nível mundial. da química. Consequência mais estrita mente geográfica. mais eles se subordinam às lógicas globais. 6). aquela mais bem equipada cientificamente será capaz de oferecer uma melhor relação entre investimento e produto. 1993. cada vez mais. sementes especializadas. que agora se vai dar em espaços mais vastos. em muitos casos. nos dias atuais. ambos são os responsáveis principais no atual processo de globalização. também. Quanto mais "tecnicamente" contemporâneos são os objetos. na transformação da produção e do espaço. A expressão meio técnico-científico pode. 1985 e 1994). Os radares meteorológicos. a evolução das situações e. a utilização de adubos ou de fungicidas podem ter mais ou menos eficácia segundo as condições de tempo em que são feitas. porque permitem que as previsões se realizem com intervalos ainda menores. Rompem-se os equilíbrios preexistentes e novos equilíbrios mais fugazes se impõem: do ponto de vista da quantidade e da qualidade da população e do emprego. antecipadamente. de modo ritmado. mas sua captação de sinais é economicamente eficaz num raio de 300 km. da organização. ser tomada em outra acepção talvez mais específica. pestici das etc. os movimentos da natureza. Uma de suas consequências é. torna -se fundamental. tendentes a convocar. antever o respectivo comportamento e. Por outro lado. outra vez. marca a totalidade do espaço. As áreas em que tal instrumentação é disponível podem permitir aos seus usuários um maior grau de certeza e sucesso na realização de operações.e podem. Brasil. veículos. Corrêa eí ai. sabido que. de posse dessas preciosas informações. Numa obterá uma resposta região desprovida de meios para conhe cer. de transferir à distância produtos e ordens. na agricultura e na indústria. alcançar uma implementação consequen te das atividades económicas e sociais. se levarmos em conta que. Imaginando duas regiões com as mesmas virtualidades físicas. Ao mesmo tempo em que aumenta a importância dos capitais fi xos (estradas. O papel desta. na Patagônia norte argentina (Ana M. valores de troca. p. uma vez que tenham prévio conhecimento das condições meteorológicas em que cada fração do trabalho e cada fração de capital serão utilizadas. por unidade de tempo e de superfície. distribuição e consumo. e essa especialização se deve mais às condições técnicas e sociais que aos recursos naturais. diminui a arena da produção. Na realidade. É por isso que estamos considerando o espaço geográfico do mundo atual como um meio técnico -científicoinformacional (Santos. e dando um relevo especial à vida de relações. Restringe-se o espaço reservado ao processo direto da pro dução. A nova fruticultura no vale médio do rio Negro provoca o que se chamou de big-bang de inversões em Chimpay. Essa redução da área necessária à produção das mesmas quantidades havia sido prevista por Marx. pontes. sua presença. silos. 1996). o aprofundamento das especializações produtivas. no campo como na cidade. As fotografias por satélite retraíam a face do planeta em intervalos regulares. exatame nte. Graças aos avanços da biotecnologia. que a esse fenómeno chamou de "redução da arena". enquanto se alarga o espaço das outras instâncias da produção. das formas de organização das relações sociais etc. em muitos casos. Elias. são colaboradores preciosos nessa tarefa. financeiros e organizacionais comparativamente mais medíocre. Seu raio de ação virtual é de 400 km. a especiali zação não tarda a ser seguida pela necessidade de mais circulação. Cientistas puros e aplicados valem -se desses instrumentos de acom panhamento e previsão para aperfeiçoar o conhecimento das leis da natureza física. certas etapas do processo produtivo alcançam maior rentabilidade. mais circulação 7. torna-se mais nítida a associação entre objetos modernos e atores hegemónicos.

163 . Pires (1993. 1992. Beaud (1987. Picciotto (1991). 51).U. lanni.A. o rearranjo de atividades e do respectivo poder económico seria duplo: na escala da área instrumentalizada e na da região de que tal área é uma parte privilegiada. O mesmo raciocínio conduz a admitir que. Whiteman (1990). 1994. Andrade. Segundo A.]". Verifica-se uma verdadeira "erosão da soberania nacional". distinguem-se zonas servidas pêlos meios de conheci mento e áreas desprovidas dessa vantagem. a desindustrialização e a diminuição da soberania [. com as firmas mais dotadas do ponto de vista técnico e financeiro tendendo a buscar uma localização onde o lucro potencial será mais forte. 19). a globalização "visa a conseguir a abertura indiscrimi nada dos mercados nacionais e assim a quebra da reserva de mercado. os negócios governam mais que os governos (E. p. dos territórios". Sob esse aspecto. A. como o da supres são do espaço pelo tempo (Virilio. p. com exemplos. todavia. ele também não Agora. Cooke. Auge. Correia de Andrade (1994).. Nessas condições. onde as empresas multinacionais curto -circuitam os Estados (R. 1994) à confederação de estados semi -autônomos (B. 94. que o Estado se tornou desnecessário é um equívoco. p. e à América Latina. Lobato Corrêa (1994). Giddens. 1992. p. 1993. P. Schiller (1986. 1992. Laszlo. pp. Neves. Savy & Veltz (1993. por J. também. R. 1994). Masuda. 1984. diz M. a emergência de organizações e firmas multinacionais realça o papel do Estado. são mais bem utilizados por firmas transnacionais que pela própria sociedade nacional. pp. servem-se de todas as redes e se utilizam de todos os territórios. L. ainda que com virtualidades naturais semelhantes. 5) nos convidam "a repensar a relação entre as entidades territoriais nacionais. Aliás. a firmas menos potentes. con forme realçado por H. H. o que legitima a impe-riosidade da elaboração de um projeto nacional (G. Veltz (1993. Tal atuação das grandes empresas "por cima dos Estados" permite pensar que "presentemente os mercados estão triunfando sobre as políticas dos governos. criados em cada país. após a i nstalação dos novos recursos técnico -científicos de conhecimento. 1992) 100. tanto para o caso bras ileiro como em geral. O ESPAÇO NACIONAL DA ECONOMIA INTERNACIONAL 1995). 1982. Diversas soluções são aventadas. p. Arroyo. a diferença de oportunidades entre produtores tende a aumentar rápida e brutalmente. 164 . retrabalhar os dados obtidos. mas sua influência alcança também os espaços banais mais escondidos. no sistema ca pitalista. 1977. p. o Estado não seria mais necessário para gerir as transformações internacionais. a noção de territorialidade é posta em xeque e não falta quem fale em desterritorialização (O. 19). Eles preferem o espaço reticular. mundial. 100) atribuindo-lhe alguns significados extremos. 1992) e. Em tais condições. 1993. O conhecimento exerceria assim . ver M. Ciccolella. G. que os cita. p. 125 -136) chamam de "gestão externa Uma nova dinâmica de diferenciação se instala no território. 275) para cada país que deseje ter algum comando no processo de sua inserção na nova ordem global que se desenha. como têm a capacidade de encorajar ou inibir a integração global ou nacionalmente responsável frente aos desígnios das empresas transnacionais". 1). Groupe de Lisbonne. p. 1992. tornado mais indispensável do que antes (A.. os Estados aparecem como servos das corporações multinacionais (R. lembram Warf (1989. Pedro Geiger (1994) e outros. A globalização. cabendo a cada firma ou conjunto de empresas (é o caso das Cooperativas) Ciccolella. deixando o resto do territ ório. referindo -se aos E. M. 103 e 146. multinacio nal.e fortemente . M. Gervásio Neves (1994). Boismenu. diz P. p. Paviani e N. I. Acreditar. e a um "capitalismo sem fronteiras" (P. pp. pp. a frequente menção a um espaço 100 perdeu sua dimensão nacional". Daí. 1994. E possível imaginar que tal seletividade espacial e socioeconômica conduza a mudanças rápidas na divisão territorial do trabalho. 50). 135. Geiger. Ellul. mas uma economia inter nacional. Mamigonian (1994. 17. 13. "Se o capitalismo tem hoje dimensões internacional. Margolin. precisas mas genéricas. p. com a globalização da tecnologia e da economia. em função de objetivos específicos. E dentro das próprias áreas "conhecidas" as empresas se distinguirão pela sua maior ou menor capacidade de utilização das informações.seu papel de recurso. os atores hegemônicos. Segundo Hisrt & Thom pson (1992) "não temos uma economia completamente globalizada. A necessidade de intervenção nos setores estratégicos é evocada. exercendo o que A. 1993). Y. Barber. Para Peter Dicken. cujas respostas são dadas pelas políticas nacionais". Michalet (1993. Petrella. desde o reforço dos blocos regionais (P. Silver.sem fronteiras (J. os detentores de recursos competem vantajosamente com os que deles não dispõem. a essèncialidade do Estado para assegurar o bem-estar social numa época de globalização é lembrada por J. 265) e C. L. 104-106. Em primeiro lugar. C. p. Assinalando essa passagem de uma economia internacional para uma economia global. 21-34). p. A propósito do tema territorialidade -desterritorialidade. deve ser entendida como "uma gestão global de múltiplas diferenciações territoriais". 1994. 1989). armados com uma informação ade quada. 1989. enquanto o controle do mercado está sendo apropriado pelas empresas que dispõem das tecnologias de ponta" (Ph. 205). p. Na realidade. Eis por que os territórios nacionais se transformam num espaço nacional da economia internacional e os sistemas de engenharia mais modernos. J. 1984) ou o da emergência do que chamam "não-lugar" (M. p. Delcourt (1992) e a inelutabilidade de uma resposta popular internacional prevista por S. p. "não apenas os Estados ainda são atores importantes. as estra - tégias e as organizações das empresas em via de mundialização". 90). numa mesma área assim instrumentalizada. 1991. participando do clássico processo pelo qual. Petrella.

ao "trabalho" do espaço.] O espaço passa a ser modelado segundo os mesmos critérios de eficiência e raciona -lidade que comandam o processo técnico-científico. apenas ela muda de conteúdo. Walker (1978. de uma plantação. A espessura do acontecer é aumentada. relações trabalhistas. 54). criam -se novas formas espaciais e as anteriores se ajustam às novas determ inações" (I. C. acentuando a diferenciação dos eventos. 26-27) ganha. em segundo lugar. segundo regiões e países. Mas a rentabilidade aos velocidade das transformações mundiais deste século. sem outra mediação. em função dos arranjos locais. seja qual for a sua definição. O avanço técnico redefine as relações sociedade/espaço. Nesse sentido. onde prevaleciam suas características de identidade. aqui. podemos. fizeram com que a configuração regional do passado desmoronasse. cunhada por R. o resto do espaço e o resto das ações são chamados a colaborar. então. também. que a expansão do capital hegemónico em todo o planeta teria eliminado as diferenciações regionais e.por unidade de tempo. Acostumamo-nos a uma ideia de região como subespaço lon gamente elaborado. que as ações hegemónicas se estabelecem e se realizam por intermédio de objetos hegemónicos. Já vimos. já que o espaço se torna mundial. na forma e no conteúdo das regiões. Mas isso não suprime a região. diante do maior volume de eventos por unidade de espaço e A PRODUTIVIDADE ESPACIAL E A GUERRA DOS LUGARES Os novos subespaços não são igualmente capazes de rentabilizar uma produção. As regiões são o suporte e a condição de relações globais que de outra forma não se realizariam. de um verdadeiro exército profissional. noção que se aplica a um lugar. impostos. mas com um nível de complexidade jamais visto UNIVERSALIDADE ATUAL DO FENÔMENO DE REGIÃO pelo homem. portanto. como se diz. legando. infra-estrutura. Seria uma outra forma de cons iderar a valorização do espaço. com a extensão a todo ele do fenómeno de região. exatamente. Sem minimizar a importância das condições naturais. ainda que a reconhe çamos como um espaço de conveniência e mesmo que a chamemos por outro nome 101. No decorrer da história das civilizações.. neste mundo globalizado. como num sistema de sistemas. As condições atuais fazem com que as regiões se transformem conti nuamente. falar de produtividade espacial ou produtividade geográfica. quando. A diferença entre áreas se devia a essa relação direta com o entorno. com ritmos diversos e. inclui-se. Estaremos diante de um determinismo de tipo novo. ao contrário. Podemos dizer que. p. uma construção estável. proibido de prosseguir pensando que a região existe. privilegiando certas áreas. isto é. hoje. a negação da ideia de região. um novo significado. nenhum subespaço do planeta pode escapar ao processo conjunto de globalização e fragmentação. tradição laborai). 101 . mas se refere a um determinado produto e não a um produto qualquer. aceleradas vertiginosamente no após-guerra. Então. Moraes & W. também se afirma. uma menor duração ao edifício regional. enquanto expressão dos processos técnicos e dos suportes geográficos da informação. dão -se. 14). Os lugares se distinguiriam pela diferente capacidade de oferecer investimentos 102. cada membro devendo ser preparado para bem exercer determinadas funções. é lícito admitir que vivemos em um mundo onde os lugares mostram uma tendência a um mais rápido envelhecimento (de um ponto de vista técnico e socioeconôm ico). Essa categoria se refere mais ao espaço produtivo. isto é. Assim como se fala de produtividade de uma máquina. Quanto a nós. Faggin Pereira Leite. É um novo conteúdo social que vai se viabilizar e se concretizar numa nova estrutura espacial. um neodeterminismo do espaço artificial? Tal produtividade pode não ser duradoura. pensamos que: em primeiro lugar. em virtude das condições locais de ordem técnica (equipamentos. Da mesma forma. expressos através da territo rialidade absoluta de um grupo. p. então. acessibilidade) e organizacional (leis locais. que a distingue das outras entida des. quase que exclusivamente. Na mesma vertente pós-moderna que fala de fim do território e de não-lugar. é que não se pode deixar de considerar a região. Barbosa. desde qu e outro lugar passe a oferecer àquele produto melhores vantagens comparativas de localização. A noção de "exército de reserva de lugares". é certo que. o ecúmeno se redefine. ela está intimamente ligada às formas de produção que vi goram em determinado momento histórico" (M. exatamente. nas mesmas condições. "Embora seja difícil estabelecer com precisão o significado da palavra região. uma aceleração do movimento e mudanças mais repetidas. mesmo. Cada combinação tem sua própria lógica e autoriza formas de ação específicas a agentes económicos e sociais específicos. 102 . são as condições artificial mente criadas que sobressaem. exclusividade e limites. inesperados. com a ampliação da divisão internacional do trabalho e o aumento exponencial do intercâmbio. devidas à única presença desse grupo. que o tempo apagou o espaço. individualização e regionalização. C. até mesmo. A. também. Mas o que faz a região não é a longevidade do edifício. pp. Essa eficácia mercantil não é um dado absoluto do lugar. 1994. já analisada por A. paralelamente. mas em função de uma determinada atividade ou conjunto de atividades. 1983.. Costa (1984). Agora. Essa rentabilidade é maior ou me nor. A região continua a existir. Agora. por exemplo. o tempo acelerado. as regiões foram configu rando-se por meio de processos orgânicos. aumenta a diferenciação dos luga res. mas a coerência funcional. Trata -se. 166 165 . vizinhas ou não. O fato de ter vida curta não muda a definição do recorte territorial. "[. de uma empresa. a solidariedade característica da região ocorria.

estranhos até então à sociedade territorial. tem efeitos cumulativos e acelerados sobre todos os processos de mudança. lembrada por Parkes &: Thrift (1980. p. 114 e 134) se refere a essa atenuação das diferenças morfológicas entre lugares. aliás. espaciais. Fenómenos como as disparidades espaciais de tipo mercantil e a macrocefalia ganham novas dimensões. e. Na maioria desses países. que sobre o assunto escreveu um artigo sobre a geografia do arranha -céu. culturais. isso se dava sem alterações fundamentais ou substanciais nos mecanismos sociais. M. p. Já em 1956. que. aplica-se a muitos outros ramos da atividade económica e justifica a metáfora da "guerra dos lugares". Mesmo se as novas relações A unicidade das técnicas induz a uma certa similaridade entre muitos objetos. 1994). levou a melhor. pêlos próprios lugares. também. como. E. paisagem construída (built environment): o bangalô e o arranha-céu. de sua realidade técnica. uma cres cente estandardização e banalização das paisagens culturais (P. também. de Souza (1994) nos dá o exemplo de São Paulo. ao mesmo tempo em que os desequ ilíbrios instalados são mais profundos. Sánchez. nas vias e meios de transportes e comunicaç ões. Em muitos dos países. Essa guerra ganha cores dramáticas quando está em jogo o pro blema do emprego. nos últimos 25 anos. Johnson. Isso responde à exigência de maior segurança e re ntabilidade para capitais obrigados a uma competitividade sempre crescente. uma vida de relações mais intensa. J. económicos. D. já que não apenas se parecem arquitetonicamente. na forma de intercâmbio.. A. É desse modo que os lugares se tornam competitivos. mas. A guerra foi conduzida por organismos centrais de planejamento. Estudando as mudanças nas áreas apenas alcançam parcelas reduzidas da economia e do território e incidem de forma incompleta sobre a sociedade. Aliás. pp. Tais efeitos são sociais.RIGIDEZ. o número de prédios altos aumenta excepcionalmente nos Estados Unidos e a inovação se banaliza nas cidades de outros continentes. 58). A operação custou cerca de 8 milhões de dólares aos cofres britânicos. à geografia. mais endurecidas. Frampton (1988. O fato de que as transformações se dão ao mesmo tempo. em função de suas virtualidades natu rais. relações de trabalho e formas de consumo cujo fundamento era buscado na sua própria história. com a presença. com uma divisão do trabalho mais profunda e. Os centros das cidades são a mostra mais visível dessa vocação à mesmice. p. mediante uma redistribuição de papéis que inclui novos roles. Na medida em que as possibilidades dos lugares são hoje mais fa cilmente conhecidas à escala do mundo. uma procura às vezes escancarada de novas implantações e um cuidado por reter aquelas já presentes (N. sua escolha para o exercício dessa ou daquela atividade torna-se mais precisa. na monetarização. incluindo os países subdesenvolvidos. há. chamados atrasados. geográ ficos. A transferência do grupo americano Hoover de Dijon (na França) para Glasgow (na Escócia) é. criadas para responder a necessidades renovadas. Harvey (1993. políticos. 39) descreve como. O dogma da competitividade não se impõe apenas à economia. material e funcional mente. Isso conduz a uma marcante heterogeneidade entre as unidades territoriais (Z. 128 -129. apenas. zonas produtivas. de um lado pela DATAR francesa e de outro pela LOCATE na Escócia. nas relações de trabalho. levando a uma reor ganização do território. trazendo consequências de peso quanto à significação do território como um todo e de cada uma de suas partes cidades regiões. Mesmo quando uma parte da produção era exportada e uma parcela do consumo impor tada. uma paisagem urbana ou regional agradável ou outro artifício". também. de paisagens com o mesmo ar de família. mas também pela atração de consumidores. neste caso preciso. Disso. p. igualmente. só há poucos decénios começa a se instalar uma civilização técnica. na estrutura FIXIDEZ. O efeito desestruturador da tecnologia é tanto mais brutal quan to menos implicado estiver o país em relação às inovações técnicas precedentes. E. pp. com a emergência. 132). Ao lado da busca pelas empresas dos melhores sítios para sua instalação. lem brada por Julie Graham (1993) em relação às máquinas -instrumento (machine-tools). morais. em diversos lugares. 168 167 . um dos muitos episódios do rearranjo a um tempo té cnico-econômico e geográfico da Europa em vias de unificação. A ideia de uma dupla estratégia das empresas e do poder público. se assemelham por trabalhar a um ritmo induzido sim ilar. as gerações se sucederam transmitindo umas às outras modos de vida baseados em atividades produtivas. e K. dos edifícios inteligentes e das vias expressas. 128 -129) mostra dois exemplos de difusão global da Os lugares se especializam. Relph (1976. pp. p. nos bairros centrais. As formas novas. o impacto da atual revolução científica e técnica e da globalização é mais expressivo naqueles países cuja inserção estrutural no movimento da economia internacional se deu mais recentemente. Cunill. 1990. depende o sucesso dos empresários. têm já bastante força para induzir transformações fundamentais ao conjun to. King (1990. onde o processo de modernização foi tardio.metropolitanas centrais. Passamos de uma cidade plástica a uma cidade rígida. mais rígidas tanto do ponto de vista das técnicas implicadas como de sua localização. nos hábitos de consumo. Anthony D. o desenvolvimento metropolitano nos países subdesenvolvidos é testemunha do que chama de "vitória da civilização universal sobre a cultura localmente modelada". 150).FLUIDEZ produtiva. 1984. nas formas de controle etc. Smith. Por sua vez. tornam-se mais exclusivas. 1991. Desde então. Mlinar. as construções em altura chocavam o geógralo norte-americano James H. de suas vantagens de ordem social. 8) nos lembra de que "a competição interlocal não é apenas pela atração da produção. através da criação de um centro cultural. também.

os objetos técnicos requeridos para otimizar uma produção. graças à competitividade. Por outro lado. Esses lugares. Brunhes) seja apátrida. Podería- mos falar de desterritorialização do desastre ecológico? . geográficos e políticos. sua mais alta com posição orgânica. No campo. mais extensos e mais seletivos. isto é.ou pós-modernos . que transmitem valor às atividades que aí se localizam. a melhoria das estradas e dos meios de comunicação também conduz à ampliação do estoque de capital fixo. desse modo. Esses objetos modernos . Da mesma forma.vão do infinitamente pequeno. nas condições atuais de mundialidade e de suas repercussões nacionais. tendem a configurar as demais. como a região ou o Estado.são obrigatoriamente locais. dão margem a uma nova modalidade de criação de escassez. 170 169 produção local de riscos ambientais. como. Numa economia em que a circulação ganha um papel preponderante. somente autorizam essa otimização ao preço do estabelecimento e da aplicação de normas jurídicas. Essa contradição entre fluxo de investimentos públicos e fluxo de mais-valia consagra a possibilidade de ver acrescida a dotaç ão regional de capital constante ao mesmo tempo em que a sociedade local se descapitaliza. Esses fenômenos podem ser paralelos ao do "esvaziamento" políti co local. impondo mudanças radicais à natureza. tornado ainda mais anárquico. de Mattos (1990. o caso da A dinâmica dos espaços da globalização supõe uma adaptação permanente das formas e das normas. surgem como elementos centrais na produção do que se convencionou chamar de crise ecológica. e a uma nova segregação. em função dos círculos de cooperação que. É o caso do que C. a tipologia dos objetos técnicos e as motivações de seu uso no presente período histórico. porque essas empresas dispõem da força política para impor o que hoje se chama de modernização do território. A busca de mais-valia ao nível global faz com que a sede primeira do impulso produtivo (que é também destrutivo. transportados por técnicas movidas por inter esses distantes. 224) chama de "desterritorialização do capital" e é. sem risco de produzir um paradoxo. necessário à produção. na verdade. mas o que se d á. se instalam em um nível su - perior de complexidade e em uma escala geográfica de ação bem mais ampla. isto é. repercutindo sobre o tamanho da cidade e ampliando a tendência às especializações funcionais. dois objetos enormes cuja presença tem um papel de aceleração das relações predatórias entre o homem e o meio. como os microssistemas. induzidas por organismos suprana cionais e pelo mercado. O investimento público pode aumentar em uma dada região. Tanto as grandes hidrelétricas. Assim.financeiras e técnicas. intitulamos "corpo-ratização do território" (Santos. 1 990 e 1993). As formas geográficas. ao extremamente grande. Essa rigidez tanto se manifesta pela existência de novas técnicas convergentes. criam condições materiais sempre mais rígidas para o exercício do trabalho vivo. mais uma vez. a vulnerabilidade ambiental pode aumentar com o crescimento econômico local. dizer. somam-se todos esses adendos químicos que também são capital constante. para usar uma antiga expressão de J. tende a ser ainda mais anárquica do que antes. sua maior densidade. extraterritorial. também. Fala-se muito em flexibilidade e flexibilização como aspectos maiores da produção e do trabalho atuais. Certamente por isso a chamada crise ambiental se produz neste período histórico. Essas normas são criadas em diferentes níveis O endurecimento da cidade é paralelo à ampliação da intencio nalidade na produção dos lugares. E as normas de mercado tendem a configurar as normas públicas. em pontos espalhados ou concentrados do espaço. indiferente às realidades locais e também às realidades ambientais. é a ampliação da demanda de rigidez. Esse é o resultado final do exercício combinado da ciên cia e da técnica e do capital e do poder. Na medida em que os atores recém A CRISE AMBIENTAL chegados tragam consigo condições para impor perturbações. de mais rigidez. por exemplo. adaptadas às necessidades do mercado. às infra-estruturas e benfeitorias adicionadas ao solo. a tendência atual ao uso das técnicas e à implantação dos respectivos objetos. que a fluidez somente se alcança através da produção de mais capital fixo. a produção do meio técnico -científico obriga a uma reinterpretação qualitativa do investimento público. E há também consequências sobre o sistema de movimento. o acontecer em uma dada fração do território passa a obedecer a uma lógica extra-local. onde o poder das forças desencadeadas num lugar ultrapassa a capacidade local de controlá-las. cuja interpretação não pode ser feita sem levar em conta. de firmas monopolistas ou transnacionais com vocação a utilizar todo o território orienta a escolha desses capitais dormentes . com repercussões diretas ou indiretas em escala mais ampla. que não . com uma quebra às vezes profunda dos nexos locais. qualificando os espaços nacionais à imagem dos seus interesses próprios. cuja forma é qualitativa e quantitativamente adaptada aos propósitos da produção no momento em que são instalados. diante dos usos preestabelecidos. Os fluxos decorrentes são mais intensos. A presença. o aprofundamento do capital. Na medida em que cada produção supõe necessidades específicas. as grandes hidrelétricas e as grandes cidades. quanto as grandes cidades. ao mesmo tempo em que os fluxos de mais-valia que vai permitir irão beneficiar a algumas firmas ou pessoas. Essa rigidez tem consequências sobre a forma urbana. A esse processo. como pelas formas de trabalho que esse meio técnico renovado acarreta. com a desvalorização mercantil e o envelhe cimento precoce de certas seções do espaço urbano. mesmo. Pode-se. na reprodução da cidade. mas as normas globais. p. atribuindo-lhes valores específicos e mais precisos.

p. 142): "todas as classes e todas regiões entram em cena". reino das ideias. de pessoas e de empresas em todos os países. Ao longo da história. 1990).tecnosfera e psicosfera . por intermédio das finanças e da especulação. Subirats O ALARGAMENTO DOS CONTEXTOS (1986-1988. Sua inspiração e suas leis têm dimensões mais amplas e mais interdependência crescente. de circu itos com âmbito local. aderindo ao lugar como uma prótese. porém. De um lado. Ellul. como elo articulador e agilizador dos mercados. Na medida em que se multiplicam as interdepen dências e cresce o número de atores envolvidos no processo. no espaço utilizado pêlos homens. Aumenta exponencialmente o número de trocas e estas ocupam um número superlativo de lugares em todos os continentes multiplicando -se o número e a complexidade das conexões (G. 23). p. diz Ernest Gellner (1989). Ribeiro (1991. no 172 171 conteúdo em técnica e ciência. À revolução urbana como forma de criar uma segunda natureza. podemos dizer que não apenas se alarga a dimensão dos contextos como au menta a sua espessura. A noção de urbanização do campo é uma dessas ideias controversas cada vez mais utilizadas: ela quer significar o processo de mudança das relações sociais. Ambas . é que vai ensejar o resultado apontado por Daniel Bell (1976. proposta por G. 16). antecede a expansão do meio técnico-científico". a irracionalidade e a contra -racionalidade. na verdade. p. T. mas também do conteúdo material do território. Como "nosso meio ambiente é hoje constituído só de outras pessoas e de significados [. Dupuy (1975. constitui um dado local. 27). Somos levados a ver o mundo como uma metrópole total. junta-se essa revolução tecnoagrícola do mundo atual.. N. segundo a fórmula de J. São as novas possibilidades de fluidez que estão na base dessa formidável expansão do intercâmbio. Tecnosfera e psicosfera são os dois pilares com os quais o meio científico -técnico introduz a racionalidade. condiciona os novos comportamentos humanos. e estes. -P. o espaço geográfico se oferece. ser enxergada de modo menos rígido: a natureza já modificada pelo homem também é primeira natureza. Rib eiro (1991. hoje. desse modo. p. 1977. pai xões e lugar da produção de um sentido. que se instala. no próprio conteúdo do território. cada vez mais. Ao mesmo tempo em que se instala uma tecnosfera dependente da ciência e da tecnologia. essa explosão do espaço de cada qual. O meio geo gráfico atual.dizer de Ettore Sottsass (1991. p. de uma interação local entre sociedade regional e natureza a uma espécie de socialização capitalista territorialmente ampliada. e a criação de uma base técnica e económica dos processos modernos de comunicação" é identificada por Ana Clara T. e. Nas cidades.. uma psicosfera. à existência predominante de circuitos mais amplos. quando inclui o sistema moderno de comunicação "como parte do aparelho institucional criado para o desenvolvimento de estratégias de controle do território e. acompanha e. a divisão do trabalho se amplia abrangendo muitos mais espaços. em sua face económica. onde é central o papel dos sistemas de engenharia concebidos para assegurar uma maior fluidez dos fatores hegemónicos e uma maior regulação dos processos produ tivos. A técnica comparece como um verdadeiro universo de meios (J. também faz parte desse meio ambiente. "Essa psicosfera". A segunda natureza tende a tornar-se total. p. paralelamente. 768). Essa hegemonia da circulação segundo Chesneaux (1983. de outro lado. O aprofundamento da divisão do trabalho impõe formas novas e mais elaboradas de coo peração e de controle. a produção não é mais ação do tra balho sobre a natureza. por vezes.] o que chamamos trabalho é. p. A tecnosfera se adapta aos mandamentos da produ - ção e do intercâmbio e. e com as mesma bases. de um lado. a antiga distinção de um certo marxismo entre primeira natureza e segunda natureza deve. C. Um outro dado importante de nossa época é o que se pode chamar o alargamento dos contextos. A relação entre "a organização da estrutura produtiva do país. essa necessidade de deslocamento. desse entorno da vida. graças ao seu A geografia dos fluxos depende. freque ntemente traduz interesses distantes. 23). de lugares. ela se aprofunda interessando a um número muito maior de pontos. 1980. que constituem a base operacional de novos automatismos sociais. desde. pp. Daghini (1983. fornecendo regras à racionalidade ou estimulando o imaginário. . a manipulação de significados e de outras pessoas". graças à complexidade da produção e ao papel que nela exercem os serviços e a informação (Britton. Fischer. Estas passam a cobrir praticamente toda a superfície da Terra. passamos de uma autonomia relativa entre subespaços a uma Na verdade. consolida "a base social da técnica e a adequação comporta -mental à interação moderna entre tecnologia e valores sociais" e é por isso A TECNOSFERA E A PSICOSFERA mesmo que a psicosfera "apoia. cria-se. p. assim. Se. como abstração a ser interpretada. 48). Tecnosfera e psicosfera são redutíveis uma à outra. complexas. conforme E. 39-40). à escala do mundo. 46). aceleram a necessidade da utilização de recursos técnicos. 48). da geografia dos fixos. ele serve de base a uma vida econó mica e social crescentemente intelectualizada. p.são locais. A psicosfera. crenças. mas do trabalh o sobre o trabalho. substituindo o meio natural ou o meio técnico que a precedeu. porém. por sua vez. mas constituem o produto de uma sociedade bem mais ampla que o lug ar. apenas rompidos por alguns poucos produtos e pouquíssimos produtores. de outro lado. diz A.

Créditos internacionais são postos à disposição dos países mais pobres para permitir que as redes modernas se estabeleçam ao serviço do grande capital. a psicosfera é a esfera da ação. ainda. as últimas o são mais da esfera da materialidade. ser identificadas na realidade empírica. Nas condições atuais. normas regionais. a sede da resistência.no sentido proposto por N.. uma resultante desse meio social ambiente. e a mesma em todas suas situações perspectivas". em parte. Os lugares. quanto por sua existência relacional. como no centro de negócios renovado de uma grande cidade. dentro da realidade diretamente vivida (experimentada) que a mesa que estou vendo é a sua mesma DO REINO DA NECESSIDADE AO REINO DA LIBERDADE mesa. uma intervenção vertical.] posso assumir.ainda que com um discurso liberal. e tende a corroer a coesão horizontal que está posta ao serviço da sociedade civil tomada como um todo. Latour (1991) e A. de um lado. . à espera de um ator. A informação apenas se perfaz com a ação. de conteúdo comunicacional. obediente às regras de um ator hegemónico. mesmo quando são constituciona. porventura distante. As si tuações limite seriam. mas é possível pensar em elevar esse movimento a desígnios mais amplos e escalas mais altas. sem as ações. A densidade comunicacional resulta daquilo a que G. uma área onde haja apenas aquilo a que Simondon (1958) chamou de objetos técnicos maduros. são híbridos . da densidade técnica. as uniões horizontais podem ser ampliadas. facilmente. de outro lado. é assim que os subespaços existem e se diferenciam uns dos outros. A densidade informacional deriva. pois. A densidade técnica é dada'pêlos diversos graus de artifício. ao pensar na construção de novas horizontalidades que permitirão. mediante as próprias formas novas de produção e de consumo. uma área natural jamais tocada pelo homem . dos objetos.uma ecologia selvagem . se definem pela sua densidade técnica. A informação unívoca.não importa sua dimensão . com maior ou menor As relações técnicas e informacionais podem ser "indiferen tes" ao meio social ambiente. A densidade infor macional nos indica o grau de exterioridade do lugar e a realização de sua propensão a entrar em relação com outro s lugares. Na união vertical. pondo -se ao serviço de quem tem os bastões de comando. Para esse resultado. A tendência atual é a que os lugares se unam verticalmente e tudo é feito para isso. As duas primeiras são mais dependentes da esfera da materialidade. permitindo-lhes passar de um consumo puramente económico. 248). permanecendo em repouso ou inatividade. mediante o tratamento analítico do território. 173) chamou de "caráter humano do tempo da ação". reconstruindo aquela base de vida comum. às vezes involuntária.certeza. Mas as relações comunicacionais geradas no lugar têm. podem. valorativa. Assim cada lugar.. Como lugar do acontecer solidário. tanto se define por sua existência corpórea. Berger (1964. B. Por enquanto. os vetores de modernização são entrópicos. já que o evento pode ser visto como práxis intersubjetiva (J. 174 173 . as relações informacionais transportam com elas o reino da necessidade enquanto as relações comunicacionais po dem apontar para o reino da liberdade. do economista. pela sua densidade comunicacional. p. Para isso é indispensável insistir na necessidade de um conhecimento sistemático da realidade. e não sobrevive se não à custa de normas rígidas . funcionando de modo unitário. onde espaços inteligentes são dispostos para atender prontamente às intenções dos que o conceberam e produzi ram. de uma tecnosfera e de'uma psicosfera. 1950 p. p. naturais ou artificiais. porque a ordem que criam é em seu próprio e exclusivo benefício. ao contrário.já que não têm existência real. L. As relações comunicacionais são. da tecnosfera. Um exemplo é a maneira como produtores rurais se reúnem para defender o s seus interesses. A tecnosfera é o mundo dos objeto s. encontrar um caminho que se anteponha à globalização perversa e nos aproxime da possibilidade de construir uma outra globalização. Esse tempo plural do cotidiano partilhado é o tempo conflitual da co-presença. de cuja intencionalidade depende o seu nível.e. 1991) ou práxis transindividual (Simondon. a par tir da base da sociedade territorial. Os objetos. mais que as outras. da sociedade civil. atributos que se interpenetram e cuja fusão os caracteriza e distingue. do arquiteto ou do filósofo) é criador da interdependência obrigatória e da solidariedade. Eles trazem desordem às regiões onde se instalam. a despeito da origem. que acabam por afetar as normas nacionais e globais. adjetivado. ou. tecnosfera e psicosfera interagem. privilegiando setores e atores. de conteúdo informacional. particular. esse espaço banal da Geografia (e não o espaço especial. introduz. Mas a eficácia dessa união vertical está sempre sendo posta em jogo. em todos os casos.lmente ricos em informa ção. Isso se dá ao serviço do mercado. E os objetos. Enquanto isso. cada subespaço. Mas os lugares também se podem unir horizontalmente. Rotenstreich (1985).. um geographic flavour. mesmo se. De resto. todavia. Devemos ter isso em mente. ou do psicólogo. que geralmente ignora o seu entorno. pois. a um consumo político localmente definido.é. espontaneamente. necessário às respectivas produções. Os espaços da globalização se definem. não ser '"agidos". interrogando -o a propósito de sua própria constituição no momento histórico atual. o Lugar . susceptível de criar normas locais. dos homens e das ordens que os movem. Petit. no espaço. pela presença conjun ta. 60). Tais categorias podem. geradas pelas situações de cara a cara de que fala Schutz (1967. em toda parte. já que "somente nessa situação [. ou do antropólogo. indissociável. objetos muito mais perfeitos que a própria natureza. Os espaços da globalização apresentam cargas diferentes de conte údo técnico. Gras (1993) . é essencial que "você e eu tenhamos o mesmo entorno". pela sua densidade informacional.

na verdade. é com Lav oisier. isto é. pelas pessoas. ------------------------ PORUMAGEOGRAFIADASREDES INTRODUÇÃO egundo D. século XII) é uma variante (com outro sufixo) do francês antigo réseuil (do latim retiolus. Por analogia com a imagem de origem. com a química. "Reticule [retícula] faz sua aparição em francês em 1682. por alteração. tanto nas ciências exatas e sociais. de energia ou de informação. um conjunto de linhas entrelaçadas. quando o termo é usado para definir situações. Mas a rede é também social e política. no Journal dês Savants. sem distinção. afrouxa o seu sentido e. que também deu reis). regras e normas egoísticas e utilitár ias (do ponto de vista dos atores hegemônicos). seus nós de bifurcação ou de comunicação". É o latim reticulum. que. p. primitivamente. a "geografia da produção" e a sociedade civil . Com a presente demo cracia de Mercado. seus arcos de transmissão. pode. 212) assim retrata: "toda infra-estrutura. empregado inicialmente em astronomia. p. na passagem do século XVIII para o século XIX. a organização da produção. como na vida prática. S reclamando "instrumentos teóricos que estão na origem do conceito científico de "redes" (D. todas as pessoas.que generaliza . p. "A palavra reseau [rede] (de résel. QUE É UMA REDE? Mas o que é uma rede? As definições e conceituações se multipli cam. o território e suporte de redes que transportam as verticalidades. 1993. prestar-se a imprecisões e ambigüidades.II O território é a arena da oposição entre o -mercado . Parrochia. diminutivo de retis. chama -se "nó" da rede a cada interseção dessas linhas" (Daniel Parrochia. p. a rede é. 5). a sua realidade material.e desse modo envolve. antes de designar uma bolsinha de senhora (denominada em segui da. enquanto as horizontalidades levam em conta a totalidade dos atores e das ações. permitindo o transporte de matéria. mas pode-se admitir que se enquadram em duas grandes matrizes: a que apenas considera o seu aspecto. mensagens. paga o preço devido a essa popularidade.com as técnicas da produção. e que se inscreve sobre um território onde se caracteriza pela topologia dos seus pontos de acesso ou pontos terminais. 1993. Curien (1988. A polissemia do vocábulo tudo invade. Marie de France. 7). 1994. aparece "a ver dadeira ciência da ligação e da comunicação das substâncias". por isso. que N. e uma outra. A primeira ati tude leva a uma definição formal. Sem isso. uma mera . onde é também levado em conta o dado social. Parrochia. Dá-se o mesmo com a geografia.que singulariza . valores que a frequentam. A voga que a palavra e a ideia de rede estão encontrando. 21)103. "rede". e a despeito da materialidade com que se impõe aos nossos sentidos. redezinha. 103 176 175 . ridicule [ridícula])" (Daniel Parrochia. Ele designa.

as sociedades locais tinham suas necessidad es localmente satisfeitas. mediante o caráter deliberado de sua criação. O importante. diferentemente datados. abs-tração. se queremos entender como uma totalidade a evolução de um lugar. 21). conforme propõe H. b) projeção abstrata. pode ser enxergada segundo. As modernidades se localizam de modo discreto. 1992. também ser vista como uma situação. mesmo. Na realidad e. duas formas de perceber um movimento unitário. e cada situação pode ser vista como um corte num movimento que é desigual. este período técnico -científico-informacional. Se a respectiva formação socioeconômica se estende além dos oceanos. grosso modo. Os itens trocados eram pouco numerosos e as trocas pouco frequentes. 1970. essa expansão é limitada a alguns fins. agora. 336-368) dirigido por P. "a aposta não é a ocupação de áreas. as redes existentes serviam a uma pequena vida de relações. Talvez por isso um geógrafo como O. ainda melhor. Cada movimento se opera na data adequada. seus suportes são pontos. das redes de telecomunicações hertzianas. p. A verdade. O progresso técnico tem utilização limitada. Dollfus propõe (197 1. que é o caso dos meridianos e paralelos na cartografia do globo. No segundo momento. apesar da ausência de linhas e com uma estrutura física limitada aos nós. do uso que lhes é dado. às vezes subordinado. Um largo período pré-mecânico. instalados em diversos momentos. c) projeção concreta de linhas de relações e ligações que é o caso das redes hidrográficas. O exemplo de Colbert.. Diacronia e sincronia. "império" dos dados naturais. p. pois. Lévy. ao menos. vistas através do espaço geográfico são. Retaillé. três momentos na produção e na vida das redes. p. admitir. a avaliação das relações que os elementos da rede mantêm com a pre sente vida social. como num geógrafo como Claude Raffestin (1980. o engenho humano era limitado. p. há. isto é. cuja afirmação coincide com os albores da modernidade. complexa. Mas essa sucessão não é aleatória. ministro de Luís XIV. 148 -167). Os suportes das redes encontram -se. N.quantidade e da distribuição desses objetos. outros fora da área considerada. Uma visão atual das redes envolve o conhecimento da idade dos objetos (considerada aqui a idade "mundial" da respectiva técnica) e de sua longevidade (a idade "local" do respectivo objeto). Mediante as redes. três sentidos. mas igualmente ela é fundamental. em todos os seus aspectos. Desse modo. as redes assumem o seu nome. é unir esses dois esforços. Já o estudo atual supõe a descrição do que a constitui. quando o movimento social exige uma mudança morfológica e técnica. Fischer (1980. Seria impossível enfrentar de modo separado essas duas tarefas analíticas. isto é. Dentro dessas circunstâncias. O desenvolvimento das técnicas é uma nova etapa nesse segundo momento. No primeiro período. 4): a) polarização de pontos de atração e difusão. A rec onstituição dessa história é. pp. A "rede de etapas" de que fala A. das relações que tais objetos mantêm com porém. o computador . em períodos normais. Noção considerada como eminentemente geográfica no Dicionário da Geografia (Dictiònnaire de Ia Géographie. já que cada fase do processo pode A noção de um espaço reticulado (espace maillé) que tanto encontramos num psicólogo como G. das redes técnicas territoriais e. é que uns e outros apenas são valorizados pela ação humana. na França. O tempo era vivido como um tempo lento. No primeiro momento. No primeiro caso. parcialmente no território. nem há mais propriamente redes. deixando aos sistemas naturais o nome de circuitos. O "mercado mundial" é a soma dos mercados coloniais. mas o faz moderada mente. O comércio é direta ou indiretamente controlado pelo Estado. e. é abusivamente que ele conserva esse nome. são vistas como um processo e no segundo como um dado da realidade atual. também. 28). 26) ganha unidade funcional com as novas formas de energia. vem dessa construção deliberada do espaço como quadro de vida. Gras (1993. da A chamada pós-modernidade. Podemos. pp. A competitividade entre grupos territoriais era praticamente inexistente. As redes são formadas por troços. muitos dos quais já não estão pre sentes na configuração atual e cuja substituição no território também se deu em momentos diversos. Esses dois enfoques não são estanques. Em suas relações com o território. por intermédio das OPASSADO E O PRESENTE DAS REDES redes. marca um terceiro momento nessa evolução. pronto a responder aos estímulos da produção em todas suas formas materiais e imateriais. quando o fenómeno de rede se torna absoluto. às contingências da natureza. de algum modo. George. Exceto para uns poucos indivíduos. é ilustrativo dessa vontade explícita de "corrigir" e "melhorar" o território. mas a preo cupação de ativar pontos e linhas. 59) que o termo de rede seja limitado aos sistemas criados pelo homem. O estudo genético de uma rede é forçosamente diacrônico. um período mecânico intermediário e a fase atual. que é o caso das redes urbanas. Bakis (1993. exclusivamente. o consumo se amplia. também. ou de criar novos" (Durand. p.. as redes se formavam com um largo componente de espontaneidade. duas faces de um mesmo fenómeno. um estudo estatístico das quantidades e das qualidades técnicas mas. nas for - ças naturais dominadas pelo homem (o espectro eletro magnético) e parcialmente nas forças recentemente elaboradas pela inteligência e contidas nos objetos técnicos (por exemplo. as redes podem ser examina das segundo um enfoque genético e segundo um enfoque atual. ou. 178 177 . No segundo momento. também. essa qualidade de servir como suporte corpóreo do cotidiano. O espectro do consumo era limitado. pelo menos. ). segundo levemos em conta este ou aquele elemento. das modalidades de controle e regulação do seu funcionamento.

No passado. p. Com os recentes progres sos da ciência e da tecnologia e com as novas possibilidades abertas à informação. Esse modo de ver ultrapassou o domínio da história. Bakis (1990. são estes que oferecem as possibilidades e dão os limites. A noção de "sequence occupancy" de Se comparamos as redes do passado com as atuais. mais se impõe o caráter deliberado na constituição de redes. a justaposição do tempo lento e do tempo rápido. quando se refere a 'um espaço reticular que preside uma sociabilidade à distância. como as suas regras de gestão. e vice -versa. As redes buscam mun -dializar-se. em nossos dias. aliás. Margolin. 167 -168). não existe homogeneidade das redes. Os custos de implantação das redes são consideráveis e constituem temívei s barreiras à entrada (dos concorrentes). E. É certo que o tempo a considerar não é o das máquinas ou instrumentos e m si. De modo a aprimorar o método histórico. graças à globalização^ e a seus efeitos locais. Não há. "Suas redes são a retícula indispensável. É assim que se cria o que H. pp. Quanto mais avança a civilização material. A noção de rede t ambém se aplica à economia mundial (J. este último sendo característico das situações conjunturais. Mas a vantagem de nossa proposta é a sua objetividade. porção do espaço total cujo con teúdo técnico permite comunicações permanentes. Mas. militar. ao território ou seus subespaços tomados como um todo. De um lado. Mesmo assim. a referência é. os sistemas de reserva do transporte aéreo. pois. Dupuy. p. As sociedades japonesas de comércio internacional. enquanto o primeiro 104 UM ESPAÇO NÃO-HOMOGÊNEO E INSTÁVEL Mas não existe homogeneidade do espaço. mesmo quando este não se exerce diretamente sobre lugares ou grupos sociais. precisas e rápidas entre os principais atores da cena mundial. 1992. tais denominações não sendo absolutas. mas não. Como escreveram Begag. o que nós chamamos tempo lento somente o é em relação ao tempo rápido. propriamente. os tempos lentos são referidos ao tempo rápido. 2 -3). os "tempos intermediários" temperam o rigor das expressões tempo rápido e tempo lento. à gestão do pessoal no seio dos grupos. 18) chama de "espaço da transação". É nesse sentido que se deve entender que esse espaço da conectivi -dade seja organizado pelo discurso. instantâneos e simultâneos" (G. Aqui. era possível. O tempo rápido não cobre a totalidade do território n em abrange a sociedade inteira. Hagerstand. Whittlesey (1929) poderia ter sido retomada e desenvolvida. sobretudo. Ominami. Conforme escreve P. os movimentos de fundo. uma evolução paralela de um setor moderno e de um setor tradicional na maior parte do território da Indonésia poderia ter sido inspira da nessa dualidade dos tempos presentes em um mesmo lugar. multifuncionais. mas seu funcionamento é limitado. E essa contabilidade do tempo vivido pêlos homens. estamos falando de quantidades relati vas. nos anos seguintes ao fim da guerra mundial. ao fim das contas. além de político. também. como propõe Claudette Junqueira (1994). Remy. invadiu as demais ciências sociais. L. Michel Fouquin (1993. Assim as sociedades de comércio têm múltiplos papéis. no mesmo subespaço. mas o das ações que animam os objetos técnicos. J. considerada como uma interpretação particular do tempo social por um grupo. sem superposição funcional obrigatória. As fronteiras são um fato económico. mesmo se os geógrafos. a grande distin ção entre elas é a respectiva parcela de espontaneidade na elaboração respectiva. o financiamento e a seguran ça ligados às suas atividades. A ideia de Boeke (1953) ao retratar. 256) "as redes depositam uma camada 'geológica' suplementar às 'terras -história' acrescentando uma topologia à 'topografia'. 176). pp. para dar conta no espaço desse processo no qual sincronias e diacronias se dão concomitantemente. às redes e serviços existentes. "A imagem de um mundo apanhado nas malhas das redes de empresas capazes de observar e de intervir vinte e quatro horas por dia no mu ndo inteiro para gerar os seus lucros não pertence totalmente ao domínio da ficção científica" (Michel Fouquin. TEMPOS RÁPIDOS E TEMPOS LENTOS são múltiplos os graus e as modalida des de combinações. ou por um indivíduo. 179 . a compr a e a venda de produtos. Seu desenvolvimento atual repousa sobre a revolu ção técnica ligada às telecomunicações e aos computadores. Mas. com raras exceções (T. além disso. para estruturar o conjunto das atividades económicas. Graças à colonização. seria temporalidade. A palavra correta. claro. 3) lembra que essa estruturação do conjunto de atividades económicas se dá no mundo inteiro 24 sobre 24 horas. apenas aplicaram quase mecanicamente essa ideia. financeiro. a montagem das redes supõe uma antevisão das funções que poderão exercer e isso tanto inclui a sua forma material. no centro dos quais se encontram a coleta e a difusão da informação. o comércio internacional é "fechado". 1933. 1991. dando nascimento a um espaço 'contemporâneo do tempo real'". Esse discurso é a linguagem das normas e ordens que atores longínquos fazem repercutir instantaneamente e imperati vamente sobre outros lugares distantes. 1986. fiscal. a proposta de Braudel de um tempo longo e de um tempo curto perderá eficácia - em geografia e nas outras disciplinas territoriais . 1991. por exemplo). 180 . que serve .se a essa oposição não superpusermos uma outra ideia que sugerimos seja igualmente expressa em dois termos opostos: a noção de um tempo rápido ao qual se antepõe um tempo lento. Essas redes são.marcaria as estruturas. seduziu as ciências naturais e exatas e colonizou a geografia. as redes bancárias e. Quando se fala de "distribuição ho mogênea" e de "serviços ubiqüitários. e fisicamente o fazem. Em cada área. como. Fernand Braudel propôs | uma distinção entre um tempo longo e um tempo curt o. p. Musso (1994. diplomático. p. incompletamente apreendidos através do tempo curto. Ambos se podiam dar paralelamente. tempos absolutos. graças à revolução técnica presidida pelas telecomunicações e pêlos computadores104. empresas e instituições será diferente de lugar para lugar. Tais redes são os mais eficazes transmissores do processo de globalização a que assistimos. p. as redes de telecomunicação são exemplos bem conhecidos de atividades organizadas em rede que permitem às empresas que as possuem dispor de posições quase monopolistas. 96) e sua configuração ultrapassa as fronteiras nacionais (C. na verdade.

25). Através das redes. ou são zonas de baixa intensidade105. No 105 segundo capítulo do seu livro. instala -se o que bem se pode denominar de guerra dos lugares. essa produ ção de uma totalidade não apenas concreta. Mas as empresas menos performantes. para atrair atividades promissoras de emprego e de riqueza. o espaço permanece diferenciado e esta é uma das razões pelas quais as redes que nele se instalam são igualmente heterogéneas. imateriais (como os serviços). levadas a trabalhar em "redes externalizadas". Se olharmos a repre sentação da superfície da Terra. O mundo aparece como primeira totalidade. cad a vez mais as redes são globais: redes pro dutivas. de comércio. a homogeneização é u m mito. O próprio padrão geográfico é definido pela circulação. 182 181 . Esses níveis são o nível mundial. mais extensa. p. Braudel (1 979. As . e em primeiro lugar. ele vai conduzir à instalação de redes que são elas próprias diferenciadas" (H. mais numerosa. p.B. 31) se indagar "em que medida as grandes corporações. Lobato Corrêa (1993. podemos descobrir o movimento global através dos movimentos particulares. de informação. O lugar é a terceira totalidade. que inclui redes principais e redes afluentes ou tributárias. p. elas não são uniformes. Ganne. no processo global da produção. 1) mostram como "o espaço rural francês mesmo em suas zonas aparentemente marginais é crímpletamente integrado ao sistema socioecon ômico global". que não exclui a surpresa. Roux (1980) merece ser retomada. mesmo se ainda restam aos Estados nume rosas formas de regulação e controle das redes. já que "todos esses ciclos são contemporâneos e sincronizados. a circulaçã o prevalece sobre a produção propriamente dita. A noção de rede global se impõe nesta fase da história. p. de outra parte. p. Mas a mundialização das redes enfraquece as fronteiras e compromete o contrato. Brun (1993.uma formação socioespacial -. são muito depend entes do acesso a informações profissionais e serviços (B. 12). Mais ainda. o nível dos terri tórios dos Estados e o nível local. essas redes contribuem para uma nova diferenciação do espaço em termos de confiabilidade mas também de tarifas. alteram a divisão territorial do trabalho. 25). E cada lugar busca realçar suas virtudes por meio dos seus símbolos herdados ou recentemente elaborados. constelaç ões de pontos e traçados de linhas. totalidade resultante de um contrato e limitada por fronteiras. eles coexistem. p. Kayser & A. Como. um país e um Estado . Essas áreas são magmas. estão misturados e somam ou subtraem seus movimentos diante das oscilações do conjunto". e. Retaillé. 115). p. cujo reverso são outros tantos níveis de contradições. onde fragmentos da rede ganham uma dimensão única e socialmente concreta. estruturadas orgânica e espacialmente em forma de rede. a partir do movimento privilegiado que desejamos iluminar. 1990. e. Goldfinger. 1986) graças à desmaterialização do dinheiro e ao seu uso instantâneo e generalizado. As redes são um veículo de um movimento dialético que. Uma ideia. A segunda totalidade é o território. Ch. Suas exigências são grandes quanto ao conteúdo do seu entorno imediato (Fischer. isto é. há uma superposição de redes. mais densa. É a grande novidade do nosso tempo. 1993. registram -se desigualdades no uso e é diverso o papel dos agentes no processo de controle e de regulação do seu funcionamento. Mas estas são tam bém indispensáveis para entender como trabalham as redes à escala do mundo. con fronta o lugar ao território tomado como um todo . 57). 1990. regiões seriam vítimas do território reticulado. na contiguidade. empiricizada por in termédio das redes.. de transporte. mas. ao Mundo opõe o território e o lugar. Essa verdadeira instabilidade vai permitir a R. de fenómenos sociais agregados. "O espaço geográfico permanece diferenciado apesar das redes de telecomunicações. Levando em conta seu aproveitamento social. que é fruto da diversidade e num acontecer repetitivo. tanto pela renovação incessante dos produto s. Na batalha para permanecer atrativos. detém o comando das mudanças de valor no espaço. os lugares se utilizam de recursos materiais (como as estruturas e equipamentos). os fluxos se tornam mais im portantes ainda para a explicação de uma determinada situação. empírica. um parágrafo forte é dedicado ao que se chama de "redes contra regiões". Mas a forma mais acabada e eficaz de rede é dada pela atividade financeira (D. Estes não apenas devem utilizar suas presentes vantagens comparativas. grosso modo. como o espaço é e permanece heterogéneo.O GLOBAL E O LOCAL Claisse &c Moreau (1990. como pela incorporação de novos materiais e novos métodos. também. três tipos ou níveis de solidariedade. a especificidade produtiva das diversas áreas e os centros urbanos previamente existentes?" Graças aos progressos técnicos e às formas atuais de realização da vida económica. As redes seriam incompreensíveis se apenas as enxergássemos a partir de suas manifestações locais ou regionais. Segundo H. p. sua percepção sendo o resultado de um "delírio analítico" que associa à ideia de revolução espacial a existência de uma indiferença espacial. como criar novas. Bakis. de uma parte. Numa situação em que as virtualidades de cada localização estão sempre mudando. Bakis (1990. Conforme escreveu F. As atividades de ponta são as mais sensíveis a essa inconstância nos valores do espaço. avançada desde fins dos anos 70. além disso. de modo a utilizar a imagem do lugar como imã. baseados num acontecer solidário. nem tudo é rede. Aliás. já que esta. podemos reconhecer. 1992. por J. E onde as redes existem. -M. p. graças a ocorrência. Num mesmo subespaço. 118. verificaremos que numerosas e vastas áreas escapam a esse desenho reticular presente na quase totalidade dos países desenvolvidos. 189).

Os segmentos locais da configuração territorial do país condicionam o processo direto da produção. uma formação socioeconômica local (ou regional) a uma formação socioeconômica nacional. a dialética do território. A palavra poder deve ser aqui reconhecida no sentido que lhe dão Taylor & Thrift. na sua densidade funcional a que podemos 184 183 . maior assimetria nas relações entre os atores. o centro de decisão pode en contrar-se no estrangeiro. mesmo. uma socie dade local a uma sociedade naci onal. pode ajudar-nos nessa discussão. os conteúdos técnicos e funcionais. controle do movimento. Mas somente em cada lugar ganham real significação. desse ponto de vista. Em que medida. Faltava acrescentar que a própria estrutura do es paço constitui uma condição fundamental ao exercício do poder e à natureza local ou regional desse poder. isto é. e que pode chegar a fortes divergências entre as dinâmicas económicas das principais cidades e de seu retr o-país ou de suas regiões" (no caso da França). deixando os lugares envelhecer ou tornando possível sua modernização. a categoria de sociedade nacional. oportunidades e competências e a submissão a normas geradoras de relações internas e externas. isto é. cujo controle se dá em outras instâncias. tempo. assim. Taylor 6c Thrift (1982. ligado ao que. vista como um conjunto. A parcela técnica da produção per mite que as cidades locais ou regionais tenham um certo comando sobre a porção de território que as rodeia. 1604) apontaram um caminho interes sante ao lembrar que os sistemas de poder inerentes à ação das grandes organizações têm um papel importante na construção das estruturas organizacionais. esse papel de integração é funcional e territorial. Como definir. um território local ao território nacional e. mensagens. As decisões nacionais interferem sobre os níveis inferiores da sociedade territorial por intermédio da configuração geográfica. tudo isso que guia a circulação. Veltz levanta o argumento de uma "desconexão crescente. disposição da mais-valia. os aspectos técnicos do trabalho local. a capaci dade de uma organização para controlar os recursos necessários ao funcionamento de uma outra organização. no mesmo continente ou em outro. a distribuição'e a regulação. através das qualificações de uso da materialidade imóvel e duradoura. na divisão territorial do trabalho. as grandes escolhas produtivas e socioculturais. p. onde se realiza o trabalho a que presidem. A REDE E AS DIALÉTICAS NO TERRITÓRIO São as cidades locais que exercem esse comando técnico. É a sociedade nacional. também. colocadas em posições superiores no Por outro lado. segundo seu conteúdo material. que distribui. seja pela via legislativa ou orçamentaria ou pelo exercício do plano. deve-se à produção propriamente dita. a tentação é grande de opor. diante da realidade ao mesmo tempo global e local das redes. território local. mediante um con trole "local" da parcela "técnica" da produção e um controle remoto da parcela política da produção. Uma primeira questão deve ser colocada: cabe dizer que a sociedade local faz o trabalho local e a sociedade nacional faz o trabalho geral ou o trabalho nacional? Aí está um problema. por novas divisões espaciais do trabalho. 66) se refere à criação do que chama de "metrópole -rede" ("métropole-réseau") com a tendência à passagem de uma polarização de tipo zona a u ma polarização de tipo rede. quando observada na escala de atuação dos demais agentes por falta de congruência territorial entre esta escala e a espacialidade da lógica macroeconômica"? Ou quando Pierre Veltz (1990. território Como tratar analiticamente esses temas? nacional. Hoje. assim. em sua densidade técnica e. Em favor do seu argumento. no país. superiores e distantes. analítica. sua demanda em mão -de-obra. ainda mais. Em que medida essa ideia pode ser aproximada daquela de Rainer Randolph (1990. capital. de alguma forma. A divisão territorial do trabalho resultante atribui a alguns atores um papel pri vilegiado na organização do espaço. implica uma repartição s ubordinada de recursos. p. através dos mecanismos de poder. Que é esse trabalho nacional? Como ele se exprime. O trabalho nacional. Segundo Martin Lu (1984). que é. Através das relações gerais direta ou indiretamente impostos a cada ponto do país. sobretudo. também. Este co mando se baseia na configuração técnica do território. O trabalho local depende das infra -estruturas localmente existentes e do processo nacional de divisão do trabalho nacional. 13) quando este afirma que "a lógica das ativi -dades da grande empresa torna -se objetivamente incompreensível. p. Para esse autor "a integração pode ser conceituada como um processo de unificação do espaço da decisão com todas as consequências ao nível de mercados de fatores e produtos intermediários e finais".Cremos que a noção de divisão do trabalho. passível de demonstração estatística. t êm o comando político. o trabalho local dependeria da sociedade local? A sociedade local comanda. maior intensidade do capital. valores e pessoas. sendo resp onsável pela intensificação das especializações. formação socioeconômica local? sistema urbano (sobretudo as cidades globais). uma realidade e uma categoria A existência das redes é inseparável da questão do poder. além das certezas est atísticas? Qual o papel da configuração territorial nacional? A configuração pesa diferentemente nos diversos lugares. a sociedade nacional pesa com seu peso político sobre a parcela local da configuração geográfica e a correspondente parcela local da sociedade. me diante ordens. circulação mais ativa de mercadorias. enquanto é residual e incompleto seu comando sobre os aspectos políticos do trabalho local. formação socioeconômica nacional e a categoria de sociedade local. Cidades distantes. Afirma-se.

adaptados ao novo frenesi da velocidade. ao mesmo tempo. para que participe eficazmente da aceleração desejada. pois. as forças perfeitas são a condição de possibilidade da imposição de normas à escala do globo. ao mesmo tempo. um fruto da emergência da nova etapa de evolução da técnica. mensagens. tribunais mundiais e uma polícia mundializada. Ao contrário do imaginário que a acompanha. paradoxalmente. a partir dos volu mes que produzem ou movimentam. Sem isso. uma me sma área podendo ser comparada a uma outra ou a um seu momento anterior. são os mais velozes. A capacidade de atrair atividades competitivas depende de uma renovação técnica tanto mais significativa quanto maior a defasagem. assegurada por uma legislação mundial. tornado um mercado global. levando à procura de novas técnicas ainda mais eficazes. mas não têm a força de transformá-los em fluxos. É indispensável pôr a produção em movi mento. seria impossível a construção em série de automóveis. Mas o direito local e o direito internacional ainda não se transformaram. que são um dos suportes da competitividade. de um discurso universal. produzir. Aquela máxima do direito romano. localmente realizado sobre a parcela mencionadas migrações de pessoas e de empresas são um dos resultados dessas mudanças de valor do espaço. as frequências que permitem. O fenómeno de rede. 2) de normas universais. Com a ajuda de uma informação tornada ubíqua e instantânea. pela chamada desregulação. permitiram a um pequeno número de empresas aliarem-se entre si e operarem em nível mundial. tecnopolós. . assenta sobre esses pilares. mas é esta que conforma a produção. a pretexto de garantir a livre - concorrência e assegurar a primazia do mercado. entre aqueles que criam fluxos e aqueles que criam massas. da cibernética. O resultado é a aceleração do processo de alienação dos espa ços e dos homens. A fluidez atual é. incansa velmente. impõe distinguir. Daí sua estandardização. desregular significa multiplicar o número de normas 106 . a desregulação não suprime as normas. mas uma entida de sociotécnica. de um lado. isto é. supõe que se conheçam de antemão os tempos de seu uso. 1994. Constróem -se edifícios telemáticos. Nesse caso. Os objetos que entram na produção dessas máquinas complexas são exigentes de novas conquistas c ientíficas no campo da química fina. adequadas aos novos sistemas de objetos e aos novos sistemas de ações. bombas de gasolina. As formas perfeitas são. produtos ou dinheiro. que se tornou uma técnica informa cional. Na realidade. e a onda das 'desregulamentações'. Agir em nível mundial lhes permite beneficiar-se das economias de escala e escolher as melhores implantações para reduzir seus custos de produção" (Y. mas também a edificação das respectivas bases de operação. uma condição e um resultado. de uma desregulação universal. as velocidades que se podem alcançar. o direito de também intervir na vida política desse lugar. aeroportos. autopistas. dos novos materiais. 106 . Esses objetos transmitem valor às atividades que deles se utilizam. teleportos. ubi pedis ibi pátria (aonde estão os pés aí está a pátria). pode mos dizer que eles "circulam". As já política da produção. A COMPETITIVIDADE E O IMPERATIVO DA FLUIDEZ Tudo se passa como se a economia dominante devesse. portos. a começar. não é mais a produção que preside à circulação. hoje perde ou muda seu significado. ao lado das novas inovações técnicas. uma causa. tão característico de nossa época. Já o controle distante. Criam-se objetos e lugares destinados a favorecer a fluidez: oleodu tos. e. A economia contemporânea não funciona sem um sistema de normas. Aqueles que reúnem as condições para subsistir. entregar-se a uma busca desatinada de fluidez. que é base. os custos respectivos. trata -se de normas constituídas em vários subsistemas interdependentes. Dentro de uma cidade. A fluidez é. A fluidez contemporânea é baseada nas redes técnicas. da biotecnologia. Não basta. Na verdade. num mundo marcado por uma Uma das características do mundo atual é a exigência de fluidez para a circulação de ideias. cuja eficácia exige uma -vigilância contínua. Ela não alcançaria as consequências atuais. não estivessem operando novas normas de ação. aviões. Daí a busca voraz de ainda mais fluidez. canais. Uma fluidez que deve estar sempre sendo ultrapassada é respon sável por mudanças brutais de valor dos objetos e dos lugares. e 3) de uma informação universal. um resultado da realização conjunta de três possibilidades. gasodutos. interes sando aos atores hegemónicos. também. como vimos. É como se. de outro. mas nele moram ou trabalham. Mas a fluidez não é uma categoria técnica. fossem fluxos. Entre os agentes económicos. Berthelot. do qual um componente é a enorme mobilidade atual das pessoas. 186 185 inovação galopante e uma concorrência selvagem. e destinados a provê-los de um funcionamento mais preciso. a tendência atual é de um envelhecimento mais rápido do que antes dos subespaços que não dispõem dos meios de se atualizar. de um ponto de vista da fluidez. 12). que tanto autoriza prever as performances. navios. se. pois. p. Daí essa vontade de suprimir todo obstáculo à livre circulação das mercadorias. Mas a fluidez é sempre relativa. da informação e do dinheiro. AS REDES. igualmente chamar densidade informacional. também. como as deixa medir. provindas da existência de: 1) formas perfeitas univer sais. para reconhecer naqueles que não nasceram num lugar. "Os progressos das telecomunicações e dos métodos de gestão da informação.o mesmo processo de envelhecimento rápido é mais rápido em certos bairros do que em outros. Nessas condições. Em realidade. geram volumes. bairros inteligentes. é feito por cidades mundiais e os seus relês nos territórios diversos. aeroportos. O ritmo que se pede a cada objeto.

que é o movimento social. interdependentes. ao mesmo tempo. que reparte. e a cooperação. Na Inglaterra. Dicken. levar em conta essa natureza mista (e ambígua) das redes e do que eles veiculam. ao mesmo tempo. Pinaud. Nesse sentido a primeira característica da rede é ser vir tual. os bancos" (Georges Ribeill. aliás. Quando se fala em fluidez.mesmo quando esses fixos são pontos. em sua Exposition du Système de Ia Méditer ranée (1832). graças aos enormes ganhos de produtividade. como escreve Edgar Morin (1965. propondo que se defina o vivente como o fazem A. a discussão atu al sobre as telecomunicações ganha uma nova dimensão. 51). realmente efetiva. mas também são sociais. as vias de transporte.]". que unifica. as redes não prescindem de fixos . Parrochia (1993. As redes são técnicas. Berthelot (1994. Ela somente é realmente real. somente à primeira vista há paradoxo. p. ao mesmo tempo.as informações. as redes não têm em si mesmas seu princípio dinâmico. isto é. movidas pelas grandes organizações. Quando se sabe o papel indutor exercido pelas empresas privadas sobre o poder público na conformação das infra -estruturas da informação (Hepworth. 13). p. que Marx previra quanto ao uso do território: a diminuição da arena da pro dução e o alargamento de sua área. já que as redes integram e desintegram. É sobre essa base que se edificam. das forças desencadeadas sob a égide do mercado pelo processo de globalização. Lwoff (1969. A regionalização resultante é tanto o resultado de uma organização supranacional regulada. Ellul (1977. pp. pois. p. p. Ativas e não-passivas. assim. É comum. as redes são estáveis e. Jacob (1970. estabelecem redes priva das. que incluem as tele - comunicações. isoladamente ou associadas. ao mesmo DISSIPANDO AS AMBIGUIDADES DA NOÇÃO tempo está em via de heterogeneização. deve -se. p. 25) e F. condutoras de forças centrípetas e de forças centrífugas.. 87-145). 1992. p. diretamente ou por con cessões. há uma criação paralela e eficaz da ordem e da desordem no território. Como bem o notou Y. 1988. Os vetores que asseguram à distância a presença de uma grande empresa são. a realidade material independente das redes é ser uma promessa. de fato. O alargamento dos contextos possibilitado pela eficácia das redes torna também possível aquilo As redes são virtuais e ao mesmo tempo são reais. e as normas não são todas universais nem o seu alcance geográfico é igual. 65). isto é. para esta. 1988. mas também são viventes. ou. É por onde circulam . 4) vê uma evolução que levaria à unifor midade ou à fragmentação. diz D. 123). quando estes o consideram como um sistema de ordem dupla. 60% do tráfego de dados são rea lizados por conta de 300 empresas e na Noruega apenas 25 firmas são responsáveis pela metade da circulação de dados (Hepworth. A fluidez. p. Cabe ao Estado. Fixos e fluxos são intercorrentes. cuja geografia e funcionalização correspondem ao seu próprio interesse mercantil. 71) "o mundo em via de homogeneização. 70). a o mesmo tempo estrutural e funcional. que a mesma matriz funcione em duplo sentido. 6). Quando ele é visto pelo lado exclusivo da produção da ordem. 39). distinguir entre a produção de uma expectativa de fluidez. permitem um intercâmbio ainda mais eficaz sobre áreas mais vastas. a criação das condições para sua existência e o uso da fluidez por um agente. que dominam o seu imaginário.. 1989. Esse movimento tanto inclui dinâmicas próximas locais. de unificação e de organização. ao se referir às comunidades económicas nascentes. E assim que "a rede preexiste a toda demanda de comunicação e apenas realiz a a comunicação solicitada" (Ch. Onde B.não raro de forma exclusiva . Nos primeiros decénios do século XIX. apesar das aparências contrárias segundo as quais a técnica é sempre centralizadora [. e por um laço relativa mente espiritual. destroem velhos recortes espaciais e criam outros. dizia Michel Chevalier que a "indústria" (a economia) "se compunha de centros de produção ligados entre si por um laço rela tivamente material. p. Mas os objetos existentes não são todos perfeitos e os objetos perfeitos não são distribuídos de forma homogénea no planeta. Elas são materiais. as redes também são unas e múltiplas e "o singular é imediatamente plural". "o regionalismo é um produto da sociedade técnica. para muitas atividades preexistentes no lugar de seu impacto. Ao mesmo tempo globais e locais. é seletiva. 144). Assim. dinâmicas. e aos organismos supranacionais prover o território dos ma crossistemas técnicos sem os quais as demais técnicas não se efetivam: Já as empresas.Animadas por fluxos. Esses mesmos progressos. concentradoras e dispersoras. Os próprios agentes económicos não a utilizam igualmente. a divisão social do trabalho. os dados especializados e as ordens que estruturam a produção. uma visão geográfica do fenómeno enxerga uma tensão crise forças de globalização e de localização (P. universais. p. e. centrípetos. sua efetivação empírica. Os progressos técnicos e científicos permitem produzir muito mais utilizando uma porção menor de espaço. isto é. pois. Como todo e qualquer objeto técnico. Devemos. p. 1989).que informação também se dá segundo diferentes escalas. agem como fatores centrífugos. As redes são. à escala subnacional. historicamente válida. de conflitos e de crise". Parrochia (1993. diz D. Segundo J. A constituem-suas bases técnicas . de desorganização. da integração e da consti tuição de solidariedades 188 187 . p. quanto o resultado local. quanto dinâmicas distantes. de fun - cionalização e historicização. A produção da fluidez é um empreendimento conjunto do poder público e do setor privado. pelas suas formas diversas de realização. que também nos dá a pluralidade. Mediante as redes. A unidade primeira é dada pelo mundo. Barber (1992. quando utilizada no processo da ação.

Sorokin e o filósofo francês H. 190 189 . as relações entre coisas e seus fenómenos em um dado ponto da superfície da terra. o global. 2728). as vias férreas e aéreas... [são os] caminhos principais pêlos quais os valores se deslo - cam. 107 . um misto. A geografia deve trabalhar com uma noção de espaço que nele veja uma forma-conteúdo e considere os sistemas técnicos como uma união entre tempo e matéria. De Jong escreveu isso antes da generalização do progresso tecnológico à escala planetária. as rotas marítimas. A diferenciação corológica significa que as coisas de um lugar são diferentes daquelas em outras localidades. ITRODUÇÃO s palavras horizontal e vertical têm uma antiga presença na geografia e outras disciplinas. Ele dá como exemplos "uma pista na montanha.. pp. una e múltipla. mas é claro que a diferenciação coro-lógica está diretamente relacionada com a inter-relação vertical e apenas indiretamente com a interconexão horizontal. Ora . o rádio. mas já enxergava o efeito das "coisas estr angeiras" ("foreign things") sobre cada localidade. a heterogeneização. Mas A com sentido diverso da quele que lhes desejamos. animais ou automóveis. às quais chama de integração horizontal 108. uma grande escada para as carroças. Dematteis (1995. em um ponto qualquer da superfície da Terra". pobres sujeitos -obje-tos. 108 . sejamos literalmente esquartejados entre regiões ontológicas que mutuamente se definem e entretanto não mais se assemelham às nossas práticas" (B. diferente daquele do geógrafo italiano G. As relações horizontais exercem. de modo a evitar que "os recursos conceituais se acumulem nos quatro extremos [. faz com que a sua realidade.. e 2) "as relações entre coisas e seus fenómenos. à qual ele chama de inter-relação vertical. também. o sociólogo russo P. p. pp. o telefone. no dizer de B. Mas ela é igualmente presente . também-i direta ou indiretamente. nesse particular. Em cada ponto da terra coisas diferenciadas se influenciam mutuamente e se integram numa relação vertical. . 2. o papel dos mistos. Desse modo. uma grande influência. e utilizados como meios de comunicação. atribuir 107. o local. estável e dinâ mica. aqui. pequenos locais -globais. "Um exame mais detido dos complexos de coisas corologicamente diferenciadas permite dois tipos de integração corológica: 1. A. pp. o telégrafo. mas sobretudo pela própria estrutura socioespacial. Nosso ponto de vista é. mas não se manifestam de modo imediato em nossa experiência. Tomemos três autores como exemplo: o geógrafo holandês G. 1962. Latour.. Latour (1991. fenómenos e valores culturais. ao estudar a circulação dos objetos. espaciais que interessam a certos agentes.. P. vista num movimento de conjunto. é ocultada. 75). o social.. Para de Jong (1962. Sua ------------------------ HORIZONTALIDADESEVERTICALIDADES O fato de que a rede é global e local. a mistura de várias racionalidades cujo ajustamento. as relações entre coisas e seus fenómenos em diferentes pontos ou lugares no mundo. a que ch amamos de integração vertical. superaremos as dualidades que são. em pontos ou lugares diversos no mundo.. cada vez que não consideramos o seu caráter definitivo. fundadas em sua localização relativa".. "Essas duas espécies de integração são decisivas. quando ele trabalha as noções de vertical e de horizontal. A noção e a realidade da rede provocam um sentimento de am biguidade. mostrando como a interseção dos dois fenómenos contribui para a diversidade geográfica (p. Lefebvre. ao observarmos a dive rsidade corológica" (De Jong. são também os caminhos dos valores e dos objetos culturais". entre estabilidade e história. circulam e se propagam horizontalmente". é pr esidido pelo mercado e pelo poder público.. 1991. de Jong. 166 -167). p. a que chamamos de integração horizontal. aliás. os rios. é exatamente o de unir as quatro "regiões" criadas como sendo diferentes: o natural. em função de sua localização. Sorokin (1964) se refere a formas horizontais e verticais de comunicação entre os homens. esse fenómeno é como um processo de homogeneização.]" levando a que "nós. Para ele "os caminhos seguidos pelo homem. 51-56). humildes sociedades-natureza. as matrizes da maior parte das ambiguidades do discurso e do método da geografia. que é ser um híbrido. uma pista de c aravanas no deserto. 27) há dois tipos de diferenciação coroló-gica: 1) "a integração das coisas e dos respectivos fenómenos. revele a superposição de vários sistemas lógicos.I2 outra face. 167).

a influência dos fatos passados na existência atual. Veja-se. existindo pela troca de energia entre os seus elementos (tal como eles são e como estão dispostos). o espaço das firmas. Em seu Search for a Method. intitulado "Perspectives de Ia Sociologie Rurale". Por isso. sobre as características do processo de integração funcional que [. longe estamos daquela solidariedade orgânica que era o próprio cerne da definição do fenómeno regional. sendo o "meio pelo qual as pessoas das classes inferioresr e aquelas das classes. A complexidade vertical também pode ser chamada de complexidade histórica. Lefebvre propõe que. uma região. será tanto mais desenvolvida quanto haja mais coincidências entre as duas integrações. 14). em seu Sistema dos Objetos. as relações interurbanas. por isso. Enquanto as horizontalidades são. a seu ver. diz que apenas lamenta não ter tido Lefebvre seguidores no resto dos intelectuais marxistas. insiste na diferen ciação entre uma hierarquia funcional (ou setorial) e uma hierarquia espacial (ou territorial) 109. formas superpostas e interativas. cujos fluxos percorrem o espaço hierarquica mente. Segundo esse autor. os arranjos espaciais não se dão apenas atra vés de figuras formadas de pontos contínuos e contíguos. de grupo a grupo. asseguram o funcionamento global da sociedade e da economia. que comanda sua vida funcional. indiretamente. passamos a uma valorização das coisas. sejam consideradas duas formas de complexidade.. Sartre (1968. por intermédio da organização. como geograficamente. A integração territorial é resultado dos processos de consumo.. mas interligados. sobretudo. No segundo caso. Lefebvre busca unir sociologia e história. A integração funcional resulta dos processos produtivos. já que a cidade. conta dos outros momentos da produção (circulação. também. Um enfoque próximo do nosso é encontrado num economista re gional. p. ao lado dessas manchas. constelações de pontos descontínuos. no espaço social".DOIS ARRANJOS E DUAS SEGMENTAÇÕES Para P. Mas esta se daria pela transferência de elementos culturais de uma camada da sociedade a uma outra. como exemplo. que se admitam dois recortes. do intercâmbio e do controle. de homem a homem. acreditando na validade de se inferir. distribuição. a circulação horizontal se verificaria "[. O que temos hoje são solidariedades organizacionais. Sorokin. há pontos no espaço que. há extensões formadas de pontos que se agregam sem descontinuidade. como exemplo. as análises que "se concentram nos padrões da hierarquia territorial (ou espacial). superiores diretamente se encontram". p. As segmentações e partições presentes no espaço sugerem. Assim como nos diz Gilles Paché (1990. São as verticalidades. Nas atuais condições. há. consumo). as verticalidades dão. Noss a busca é a das categorias analíticas simples que dêem conta da inseparabilidade do "funcional" e do "territorial". Em um artigo de 1953.] comanda o processo de acumulação e de reprodução do capital no tempo e no espaço" (p. sobretudo. isto é..] comanda o processo de acumulação e ele reprodução do capital no tempo e no espaço" (p. na análise do mundo rural. É a partir dessas duas integrações que Martin Lu vai propor os conceitos de entorno funcional e entorno territorial. 15). De um lado. De uma estruturação dita "natural". utilizando os mesmos condutos que a circulação vertical. É a partir dessas novas subdivisões que devemos pensar novas categorias analíticas. 91). As regiões existem porque sobre elas se impõem arranjos organizacionais. porém. inseparavelmente. também.. tanto mais numerosas e atuantes quanto maiores as 109 . São as horizontalidades. quando ele disse que "a funcionalidade não é mais o que se adapta a um fim. Vejam. as verticalidades. como as faces de Janus" é insuficiente. como na definição tradicional de região. lembrando. mas uma ordem de sistema". A verticalidade cria interdependências. mas que se tornam um dos fundamentos da sua existência e definição. separados uns dos outros. sendo o veículo de uma cooperação mais ampla. nessa "nova 192 191 . e critica. é o lugar da regulação do trabalho agrícola. preferimos partir da noção de espaço banal. A complexidade horizontal é dada pela vida atual do grupo humano em suas relações com o luga r. Martin Lu (1984) insiste na diferenciação entre uma hierarquia funcional (ou setorial) e uma hierarquia espacial (ou territorial) para indicar que uma análise que as considere "como processos simultâneos e coincidentes.] de lugar a lugar. 52) após descrever mi nuciosamente a proposta com que. dentro de um país. sobretudo nas áreas mais fortemente tocadas pela modernidade.. capaz de ser descrito como um sistema de objetos animado por um sistema de ações. necessidades de cooperação entre lugares. a relação cidade/campo. tanto económica e politicamente. criadores de uma coesão organizacional baseada em racionalidades de origens distantes. espaço de todas as pessoas. pelo menos. O espaço se compõe de uns e de outros desses recortes. Martin Lu (1984). a solidariedade é obtida através da circulação. Hoje. em que a atração entre subespaços com funcionalidades diferentes atende à própria produção. "O processo de integração funcional [. Poderíamos parafrasear Baudrillard. nos Cahiers de Sociologie. que não há vinculação obrigatória entre os processos de integração funcional e territorial (p. por intermédio das técnicas e da estrutura social. ou por sobre essas manchas.. Trata -se de entender essas novas formas de solidariedade entre os lugares. Quanto à nós. H. a fábrica da produção propriamente dita e o locus de uma cooperação mais limitada. que também hierarquizam o espaço segundo as potencialidades de demanda e de oferta. Esse autor parte das noções de integração funcional e integração territorial. de todas as empresas e de todas as instituições. Na caracterização atual das regiões. De outro lado. que definem um espaço de fluxos reguladores. O ponto de partida de Martin Lu é o espaço económico. 14).

vão agir forç as centrífugas. as políticas públicas ditadas nas metrópoles nacionais ou estrangeiras. forças centrífugas conduzem a um processo de verticalização. Mas. quanto o da contrafinalidade. simultaneamente. continentais. Entre o lugar e o mundo. 1990. que asseguram a coesão do processo produtivo 110. seguramente. ao equilíbrio anterior. as demandas da grande indústria. Eles trazem desordem aos subespaços em que se instalam e a ordem que criam é em seu próprio benefício.. forças centrípetas e forças centrífugas atravessam o território. Créditos internacionais são postos à disposição dos países e das regiões mais pobres. a partir das forças dominantes. as necessidades do abastecimento metropolitano. As verticalidades são vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores he gemónicos. 172) chamam de "fluxos universais". Forças centrípetas conduzem a um processo de horizontalização. está permanentemente perturbada pelas forças centrífugas e deve permanentemente ser refeita. sobretudo ao serviço das forças económi cas hegemónicas e ao serviço do Estado. à base de ciência. No campo e na cidade. Essas forças centrífugas se dão em diversas escalas. imediata. A agricultura moderna. os fatores de coesão entre a cidade e o campo se tornaram mais numerosos e fortes. isto é. quando retiram à região os elementos do seu próprio comando. condição de funcionamento do sistema. e mostra como "essas lógicas cruzam as cidades e produzem um arranjo territorial" em que se superpõem vinculações horizontais e verticais. M. fatores de homo geneização e de aglomeração. de López (1993. uma base de vida que amplie a coesão da sociedade civil. as tarefas especializadas reduzem os respectivos custos unitários. Pode -se falar numa desestruturação. E o crescente processo de homogeneização se dá através um processo de hierarquização crescente. "[. referida a um ponto do espaço. geografia dos fluxos dos produtos" cria -se "um sistema de produção reticular" (résillaire). de longe e de cima.está sempre sendo posta em jogo e não sobrevive senão à custa de normas rígidas.] A desintegração da empresa industrial traça.HORIZONTALIDADES E AÇÃO POLÍTICA A tendência atual é no sentido de uma união vertical dos lugares. reconstruindo. As forças centrípetas resultam d o processo económico e do processo social. a partir das açõ es localmente constituídas. Silveira (1994. a suportes territoriais de atividades largamente redistribuídas" (Gilles Paché. au - mentando a produtividade e a rentabilidade de cada agente individual e fortalecendo o conjunto de cidades. Estudando a diferença entre lugares modernizados e lugares letárgicos no planalto no norte da Patagônia argentina. criando um cotidiano obediente e disciplinado. Entre os fatores longínquos. E a união vertical . mas não obrigatoriamente con-formista e. a incorporação desses nexos e normas externas têm um efeito desintegrador das solidariedades locais então vigentes. financeiras. Tal superposição faz com que a explicação do que se passa dentro de cada área deva obrigatoriamente incluir as escalas superiores. para permitir que as redes se -estabeleçam ao serviço do grande capital. Uribe Sc S. Essas forças centrípetas. A hierarquia se realiza através de ordens técnicas. há tendência à geração de um cotidiano 194 homólogo graças à interdependência que se estabelece horizontalmente. contamos o comércio internacional. Nessa união vertical. E de uma restruturação. deve ser en contrada na cidade próxima. p. o lugar da cegueira e da descoberta. são fatores de convergência. as cidades são o ponto de intersecção entre verticalidades e horizontalidades. localmente gerada. De um modo geral. supra-regionais.demanda um consumo produtivo cuja resposta. A partir de uma atividade 110 . p. políticas. As hor izontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de fora. providenciada pe las forças centrípetas. a ser buscado fora e longe dali. agem na cidade e agem entre cidade e campo. causadores de uma tensão local. Mas os lugares também se podem refortalecer horizontalmente. impondo novos mapas ao mes mo território. VERTICALIDADES. Elas agem no campo. os vetores de modernização são entrópicos. uma nova geografia dos fluxos de produtos. 9). elas são fatores de coesão. como tendências ao mesmo tempo contrastantes e confluentes. a serviço do interesse coletivo. E entre o campo e a cidade. respectivamente. Elas são o teatro de um cotidiano conforme.. As forças centrífugas podem ser consideradas um fator de desagr egação. quanto às surpresas da intersubjetividade. e seriam o que G. Nos outros lugares. A informação. L. da complacência e da revolta. se nos colocamos em relação ao passado. o fornecimento dos capitais. a maior delas sendo o planeta tomado como um todo. As antigas estruturas polares desaparecem para dar origem a um sistema de produção resilar e. é o grande regedor das ações que definem as novas realidades espaciais.seria melhor falar de unificação . e tanto podem estar subordinados às regularidades do processo de produção. Paralelamente. agindo em diversos níveis e escalas. Nas condições atuais do meio técnico -científico. em todos os casos. 75 -77) examina o funcionamento da produção e da circulação. nacionais. Com a suportes territoriais largamente redistribuídos. dentro ou fora do mesmo país. forças de agregação. elas são. com a perda correlativa da capacidade de gestão da vida local. 193 . A homogeneização exige uma integração dependente. Um incessante processo de entropia desfaz e refaz contornos e conteúdos dos subespaços. se vemos a coisa do ponto de vista do processo que se está dando. tecnologia e informação. Com a especialização funcional dos subespaços. sobre as forças centrípetas. a partir de divisão interurbana do trabalho. as outras escalas são regi onais. A solidariedade interna ao subespaço. Essas interdependências tendem a ser hierárquicas e seu papel de ordenamento transporta um comando. correlativamente. pp.

112 . para um interesse particular e específico. 196 195 . levando ao aumento local da produtividade. A racionalização designa. nossa afirmação central é que a sociedade submetidos aos critérios de decisão racional R marcha do processo de racionalização. 1968. em muitos casos. após haver (sucessivamente) atingido a economia. p. Bernardes. 1973. Isso tanto é válido no campo. uma ação política. J. vol. gerando. E o resultado é a busca de um sistema de reivindicações mais abrangente. a extensão dos domínios da . também. ao mesmo título com que nos referimos à racionalidade ou à racionalização de outras facetas da realidade social. apenas. agora. a extensão dos domínios da sociedade que se acham submetidos aos critérios d e decisão racional. Estado de São ------------------------ OSESPAÇOSDARACIONALIDADE INTRODUÇÃO eferindo-se à introdução. quando se formam áreas presididas por um ou por vários produtos agrícolas combinados. por Weber. rádio. Mas. Um estudo da mídia empreendido em São Carlos. que esse cotidiano homólogo leva a um aumento da eficácia política. provocam. apenas. em primeiro lugar. A questão crucial é saber se é lícito falar de uma racionalidade do espaço geográfico. no espaço da horizontalidade. trata-se da escolha entre os termos de uma alternativa" (J. o trabalhador racional e o consumidor racional. Mas aqui é po ssível distinguir duas tendências: uma racionalização 'por baixo' e uma racionalização 'por cima'" (Habermas. 1973. isto é. um debate que acaba por interessar ao conjunto da sociedade local. a política. 3) considera que a racionalização designa. frequentemente o da atividade hegemónica no lugar. adaptado às contingências da existência comum. lugar para uma referência ao que queremos chamar de "espaço racional"? 111 . a partir do seu conflito de preocu pações. A informação tornada comum não é ape nas a das técnicas de produção direta. 32). no meio geográfico. -horizontalidades. "A superioridade do modo de produção capitalista em relação aos que o precederam deve -se a duas coisas: o aprimoramento de um mecanismo económico que torna permanente a expansão dos subistemas de atividade racional com respeito a um fim e a elaboração de uma legitimação económica que permite ao sistema de dominação adaptar -se às novas exigências de racionalidade desses subsistemas em via de desenvolvimento. refere-se à organização de certos meios. do conceito de racionalidade111. como. 112 p. 38 -58) discorre sobre o empresário racional. As atividades que. pp. 3). se antepõem às tendências meramente verticalizantes. haveria. o que se vai impondo é um tipo de atividade racional com respeito a um fim (Zweck-rational): em um. talvez. Paralelamente assistimos a uma industrialização do trabalho social. o que faz com que os critérios da atividade instrumental penetrem também em outros domínios da existência (urbanização do modo de vida. mas tende também a ser a das técnicas de mercado. ser orientada. p. Habermas. em primeiro lugar. tecnicização das trocas e das co municações). Habermas (1968. Maurice Godelier (1974. revela esse movimento (A. Aqui. a forma burguesa das trocas ao nível do direito privado e a forma burocrática da dominação. em outro. as relações interpessoais e os próprios comportamentos individuais. neste fim de século XX. l. complementares ou não. 1968. das Paulo. nesse discurso. Mas este é. a informação necessária ao trabalho difunde -se mais fácil e rapidamente. 1995). também. um primeiro momento. desse modo. Brasil. É POSSÍVEL UM ESPAÇO RACIONAL? Como introdução a uma discussão mais aprofundada da racionalidade económica capitalista e para ao mesmo tempo balizar e qualificar o conceito. Pode-se dizer. é visível em cidades que se especializam numa dada produção industrial ou de serviços. É esse processo de adaptação que Max Weber concebe como uma 'racionalização'. Essa ação política pode. manifestada em formas de expressão comum. t elevisão) é um testemunho desse movimento pelo qual as forças oriundas do local. a cultura.I3 comum. A mídia local (jornais. "Max Weber introduziu o conceito de 'racionalidade' para caracterizar a forma capitalista da atividade económica. Os mesmos interesses criam uma solidariedade ativa. têm uma lógica diversa da atividade dominante. Nos dois casos. estaria instalando-se no próprio meio de vida dos homens.

p.-macional". p. 198 197 . em nossos dias. O soldado raso. ricos em informação. Mannheim. e que. a partir das transformações assim impostas "à infra -estrutura de uma sociedade obrigada a se modernizar". e não funcionam senão a partir de uma informação que é também específica. É assim que nasce a infra -estrutura de uma sociedade obrigada à modernização. 1954. quanto à força de trabalho. Como objetos técnicos. 1973. o automóvel. 197) se riam duas as formas de racionalidade: uma racionalidade intencional e uma racionalidade não-intencional. a mais perfeita convergência entre a tecnologia e a função desejada. com as novas técnicas de transmissão e coleta da informaçã o que estamos propriamente autorizados a falar de fluidez do território em sentido amplo. se incluiria nas condições da racionalidade não-intencional. Stiegler (1944. à própria família. por exemplo. com a institucionalização das trocas comerciais ao nível de todo o território e referentes tanto aos bens.. pois o âmbito geográfico de ação dessas novidades era relativamente limitado. o espaço geográfico se enquadraria ao menos nesta última classificação. de uma racionalidade como condição instru mental. por sua carga específica de intencionalidade. no caso da ação informada? Uma primeira objeção poderá tomar a forma de uma pergunta tenaz e bifronte: a racionalização encontra e qualifica um objeto. ser planejada por alguém e. no caso das coisas. pp. 55)113. uma urbanização da forma de vida. p. isto é. É nesse sentido que podemos tomar a A. 32 -33) distingue duas tendências paralelas e interdependentes: a racionalização por cima e a racionalização por baixo115. o espaço geográfico acrescenta a essa qualidade um novo atributo. assim. ao sistema escolar. Es se objetos perfeitos oferecem às ações igualmente perfeitas o máximo em eficiência e resultado. por esse motivo. 1971.. É também agora que. em discussões não apenas filosóf icas como técnicas. p. impossível de ser alcançada pela natureza. Esta resultaria de um "progresso cumulativo das forças produtivas" [. A. 114 .1954. Mannheim (1935. portanto carregadas de racionalidade. Mancina. acabando por impor. não se fala tanto. sua disponibilidade pode ser utilizada pelas ações informadas. das subculturas que forçam os indivíduos a estar a todo instante em condições de 'mudar de registro' e passar de uma relação de interação a uma atividade racional com respeito a um fim" (Habermas. na imaginação. A concretização é esse m ovi- mento da técnica para a perfectibilidade. p. E o que seriam as condições de racionalidade no meio material? A resposta pode ser simples demais: estas condições seriam aquelas susceptíveis de facilitar as ações ditas ações racionais. de forma alguma ou pelo menos nem sempre é verdadeiro. a distinção entre racionalidade substanciai e funcional não parece ser muito importante. 49). um campo de ação instrumental. de um lado. 48) essa expressão é também utilizada por René Boirel. E para reconhecer isso basta pensar num exército. dando -lhe vida. hoje. durante sua execução. p. ambas as formas não passam de aspectos diferentes do mesmo tipo de racionalidade. Chega. na construção de um utensílio. Sendo. pois. É dessa forma que as coisas fabricadas podem obter a condição de hipertelia .outro termo-chave no vocabulário de Simon don - isto é. também. se imponha o novo modo de produção. desde que. objetos informacionais. Dentro do sistema de trabalho social ficam assim assegurados um progresso cumulativo das forças produti vas e uma extensão horizontal dos subsistemas de atividade racional com respeito a um fim que é a sua consequência . Johnson (1970). as instituições de direito privado e. 1940. como a das ações que o percorrem. que envolve uma reorganização tendente a permitir que uma série de ações alcancem objetivos previamente designados. do território instrumentalizado sobre as ações dos indivíduos. as estruturas tradicionais se submetem cada vez mais às condições da racionalidade ins trumental ou estratégica: a organização do trabalho e do comércio. Crises económicas resultam da "pressão permanente" sobre as estruturas tradicionais. o telégrafo criaram apenas uma fluidez relativa do território. mas a racionalidade é atributo do ator ou do "agido"? Um primeiro movimento levaria a recusar a um objeto a categoria de ação. 1973. Ela se estende pouco a pouco a todos os domínios da existência: ao exército. tanto na cidade quanto no campo. como o fez E. po - dem ser dotados da racionalidade da técnica.embora ao preço de irises económicas. a noção de racionalidade do espaço se impõe mais clara e extensivamente. Pode -se. isto é. Já vimos que. por sua existência atual. Ushe r (1929. J. de outro. Por isso mesmo. 54) entre uma racionalidade substancial e uma racionalidade funcional. Ainda assim cada ato seu é funcionalmente racional porque dois critérios lhe podem ser aplicados: a) o ato é organizado com referência a um objetivo determinado e è) a pessoa pode ajustar -se a ele calculando suas próprias ações" (K. das empresas e das instituições114. pp.agora. 67) a expressão "determinismo frouxo" para caracterizar o papel. Segundo B. Podemos licitamente admitir que a emergência dessa novidade é contemporânea da difusão no território de objetos informacionais. e à instituição generalizada da empresa capitalista. É possível obj etar que uma série de ações funcionalmente racionais pode. além do conteúdo técnico que o caracteriza há dois séculos. pensada também pela pessoa que a executa: conseqüentemente. 1940. Isso. 115 . "De baixo.] "ao nível de todo um território" com a "extensão ho rizontal" do subsistemas de ação racional. informações e comunicações. desde que o vejamos como o que ele realmente é - Segundo Godelier (comentado por C. entretanto. ganha maior densidade e com plexidade. "À primeira vista. 1935. Se aceitamos a distinção proposta por K. A expressão "determinismelâche" (da técnica) seria devida a Abbot Usher (1929. A primeira se refere ao comportamento do agente económico e a segunda pertenceria ao sistema económico enquanto tal. a burocracia estatal. exerce-se uma pressão permanente que caminha para a adaptação. 1968. que é a informação. a vez de ser o espaço considerado como "racional". a rede transportes. isto é. Essa informacionalização do espaço tanto é a dos objetos que formam o seu esqueleto material. em face da racionalidade do sujeito. Fixos e fluxos são. um máximo de intencionalidade. Simondon (1958) propôs a noção de objeto técnico concreto para exprimir. oriunda da administra ção financeira. como "técnica infor . Tratar-se-ia. antecipadamente calculados (Mannheim. 33). É somente neste fim de século. aos serviços de saúde. enquanto no seu planejamento e manejamento poderá ser incluído na forma intencional da racionalidade. A racionalização do espaço geográfico se incluiria nesse modelo habermasiano de racionalização por baixo. falar de racionalidade do espaço a partir do momento em que este conhece sua mecanização. de racionalidade das máquinas e de racionalidade da técnica? 113 . executa toda uma série de ações funcionalmente racionais sem ter nenhuma ideia da estratégia geral. p. 1940. p. Mas. Os objetos são informados. 53-54). Mas a estra da de ferro. Se transferimos essa proposta ao espaço geográfico este. participa m da essência da técnica. 67) segundo Patrice Flichy (1995. Essa realidade do "espaço racional" não seria possível sem que a técnica se desse tal como ela hoje se dá. Já Habermas (1968.

isto é. isto é. Apenas. Por que não considerar urbanização.o espaço geográfico . Johnson compara as cidades. da união indissociável de siste mas de objetos e sistemas de ações. não se trata. no dizer de E. 57). Os sistemas de objetos. presente nas coisas e nas ações . E conclui: "a experiência do Midwest americano mos tra que. isto é. formam as configurações territoriais. ao mesmo tempo. negando experiências profundas ou ligações estreitas" (E. 1980. ação r acional ou não. já se 116 . É nesse sentido que E. o espaço-materialidade. e cidade como um todo unitário. Num sentido mais amplo. O espaço geográfico é um desses campos de ação racional. p. um híbrido. Entende-se aqui porque a história da racionalidade moderna é tantas vezes ass imilada à história das máquinas e da mecanização. uma racionalidade nas coisas? Neste último caso. pp. Mas a cidade e. as trata de modo separado. desde o nascimento do sistema de estradas de ferro dos Estados Unidos. capital e savoir-faire. frequentemente retangulares. a partir do mesmo objeto da ação. Relph (1976. E. história que associa o trabalho de engenheiros e de estrategistas mili tares à recriação do meio geográfico em bases técnicas (P. 36). para realizar mesmo um grau toleravelmente satisfatório de eficiência produtiva regional. Por haver pouca capacidade e comprometimento é que essa paisagem parece tão desprovida de paixão. "irracional" em relação às finalidades que eram desejadas na nova fase económica. paralelamente à "tecnicização das trocas e das comunicações". p. já experimentados na Nova Inglaterra (New England). como diria Latour. Fischer (1980. É assim que se criam. para o consumo de nossa problemática particular. no capítulo 2 do seu livro famoso sobre The Organization of Space in Developing Countries. social-natural. espaços da reflexão e da razão. explicitamente. têm significa ção para a ação racional são representados como um campo da ação instrumental. Referindo-se às necessidades da empresa industrial.é mais que o espaço social dos sociólogos porque também inclui a materialidade. a urbanização vista globalmente. Habermas (1968. os "lugares centrais" do Midwest com os do Terceiro Mundo. mesmo. p. no máximo. Polanyi em A Grande Transformação (1980. vem instalar-se para criar um espaço. A condição de racionalidade não é exclusiva desse "espaço social" dos sociólogos.1973. estaríamos num beco sem saída. isto é. a partir de visões dualistas do fenómeno: material-imaterial. já que não nos defrontamos somente com uma materialidade. p. físico-humano. não são mencionadas. o espaço é um misto. 58 -71) pôde. Ele se refere às condições de planejamento da ocupação humana no Midwest. Este espaço deve ser "um meio submetido às regras de uma ciência transformada em técnica". 70). A. com a introdução de novos meios de transporte (as estradas de ferro) com a adoção de modelos geométricos. os domínios que. apenas. S. no frigir dos ovos. graças à incorporação da técnica. na vida social. urbanização do modo de vida. Isso lhe vem da técnica. O que seria essa racionalidade nas coisas ou. uma tal dicotomia não suprime o problema. dotado de "uma vontade tecnológica de eliminar o aleatório". formado como já o dissemos. considera esta como um "espaço que se pretende racional" e que assim necessita de um "espaço instrumentalizado" que comparece "como garantia" (p. No dizer de Barry Hindess (1987.APRODUÇÃO DE UMA RACIONALIDADE DO ESPAÇO O que seria. mas da combinação entre ação presente e objetos da ação. A. "A paisagem da reflexão e da razão é a paisagem criada diretamente pela aplicação de técnicas racionais e científicas a conjuntos particulares ou a paisagem experimentada por intermédio das atitudes do racionalismo. 125). onde a ação dos sujeitos. Salsbury (1988. pp. de paisagens reflexivas e racionais. Johnson (1970. estaríamos de novo remetidos à questão inicial de distin guir no processo um ator e um agido. p. essa racionalidade das coisas? Ou seria. Essa vocação não escapou a G. Para ele. mas de algo mais. falar de "racionalização" das paisagens americanas ("The Rationalization of American Midwestern Landscape"). então. 31). -Ph. que proclamaria a unidade das partes. A esse processo ele chama de "melhoria pragmática da organização espacial" (p. Na realidade. p. mas. A racionalidade não se poderá exercer plenamente se a materialidade não oferecer as condições técnicas. p. De qualquer forma. uma metáfora? É aqui onde a discussão ao mesmo tempo se complica e se torna mais simples. essa racionalidade no espaço geográfico? Isso não equivaleria a reforçar o argumento segundo o qual apenas poderia existir uma racionalidade no espaço enquanto a racionalidade do espaço seria. 125) 116. resultado de uma ação já passada. o fenómeno urbano? As separações seriam ainda um produto de uma epistemologia "purificadora". apenas. 56 -60) já se havia referido à necessidade de estandardização e uniformidade. 31). Druet. as "paisagens da reflexão e da razão". 1976. o padrão dos lugares centrais e de suas funções precisa ser progressivamente reestruturado e racional izado". já que a ocupação começara de forma espontânea. Seguindo as epistemologias divergentes do espaço geo gráfico. Este espaço . lugares centrais "não são capa zes de oferecer um sistema inter -relacionado de trocas que ofereçam os incentivos requeridos para o uso intensivo de trabalho. caracteriza o espaço geográfico em nossos dias e lhe atribui a condição de ser um espaço da racionalidade . isto é.o que. 3) se refere à "urbanização do modo d e vida" como um domínio já penetrado pela racionalização. na superfície da terra. Relph. 200 199 . 151). N.

. Investida nos objetos. da técnica atribui aos recortes verticais do território uma vocação de possessividade. É. 31) "uma máquina desenhada intencionalmente para tomar decisões"? 118 A difusão simultânea e 117 telecomunicações aumenta a eficácia da informação. fabrica um espaço interno em relação ao qual a advertência de Korzybski. no dizer de J. 119 . 18).[. concebido como "instrumentação da realidade". 1977. A. aparece como uma "lógica inscrita. transformado em terri tório da racionalidade.. Fischer. Pode-se. A generalização. p. ou. graças ao engenheiro. Trata se. 1990. "[. devida aos seus requisitos técnicos e hoje. "a sociedade i ndustrial tende para um universo da medida. 198). É. Guillaume (1978. Um sistema cibernetizado ou de automação verdadeira é uma máquina projetada intencionalmente paia tomar decisões" (J. "[. Mesmo na União Soviética. informacionais. 1989. o ideal de "previsã o e comando do risco (G. A única noção de homogeneidade a ser aqui legitimamente aplicá vel é aquela oferecida por George Bataille. aliás. 29 -34) a parte intitulada "O Espaço. 54). Attali em seu livro intitulado 1492. venha frequentemente acompanhada de uma outra noção. indispensáveis a um desempenho exitoso. p. Dotado de "uma organização específica [. já não tem razão de ser. torna-se superlativo com a presença do meio técnico - informacional. o que quer dizer que o Estado. segundo Bataille (Oeuvres Completes. 1978. Gras (1993. p.. é conhecido a partir de um centro regulador. pois. graças à rede. p. . a noção de homogeneização.. É dessa forma que as noções de just-in-time e de just-in-place.1973. sobre os quais impõem uma ordem. E quanto maior for o espaço-tempo. 57. hoje. p. Rose (1978. o uso mais adequado do território pêlos agentes hegemónicos depende largamente desse fator informação. pp. N. p. e.. as 600 da Strojbank (Banco de Investimentos) e os 80. de um subsistema. os sistemas técnicos atuais "associam os seus objetos a uma tecnologia da informação que os torna constantemente presentes a eles mesmos". 15).mas que na verdade é restrita .. 118 . apr esentam a particularidade de emparelhar desde sempre seus próprios objetos técnicos a uma tecnologia da informação que os torna cons tantemente presentes a eles mesmos. na realidade. em cada ponto da superfície que eles recobrem. atribui a Gehlen a prova da relação entre técnica e atividade racio nal. do homogéneo generalizado". É preciso "descobrir os lugares onde a informação se concretiza" (L.. a lógica da máquina [ . t. que o comenta. A chamada homogeneidade é obtida através do "valor produtivo". 21. na natureza da s coisas" (B. seu curso de ação pode estar estabelecido segundo a capacidade de satisfazerem ou não a determinadas condições. O ca-ráter invasor. pp. "Outra distinção que se deve fazer entre os sistemas cibernéticos e de outras espécies é que os primeiros podem também compreender máquinas capazes de toma r decisões independentes. maior será a segurança" (A. onde o suporte essencial são os artefatos destinados a facilitar a fluidez e autorizar o movimento dos fatores essenciais da economia globalizada. Desse modo. Conforme escreveu A. nada tem valor em si mesmo". o conjunto das operações financeiras no território (Anton Brender. É certamente nesse sentido que se pode ler. p. 13) que. isto é.. começou a tomar corpo a ideia de um merca do auto-regulável" (Karl Polanyi. A técnica tornada "uma espécie de princípio para toda atividade. 170) "[. Instrumento da Racionalidade". "quanto mais artifi cial o espaço-tempo. Rio de Janeiro..] o espaço racionalizado é um espaço que pode ser manipulado como uma coisa" (p. As técnicas. no capítulo 3 do mencionado livro de Fischer (1980.. existem como autorizações para o fazer. 1980. 107-108). graças ao aparelho cibernético. através da técnica que se realiza a "objetivação progressiva da atividade racional com relação a um fim". Assim. onde "toda coisa é útil a uma outra. Para M. à escala do mundo. que é uma consequência d o nível técnico do equipamento.] a informação aumenta quando diminui a incerteza". p. Que dizer da época atual em que os territórios genuínos da globalização são marcados pela presença da automação. Gras. p.] que cria a eterna repetição de sua cadência própria" (G. N. 'o mapa não é o território'. 18). 1980. p. p. como no caso da hegemonia comercial de Génova nos albores da Idade Moderna.000 agências do Gosbank. Daí a hierarqui zação entre frações do território. já que a decisão (o sentido em qu e gira a chave para fechar ou abrir) depende da forma da chave (condição). sua medida comum. Os graus de intencionalidade dos objetos derivam daí. Ferrara. "[. 1985. Assim. 1993. Pizza Jr.. Informação e dinheiro há séculos comparecem como sinónimos. Fischer. afinal.inseparável das redes territoriais de computadores conjugados aos novos avanços tecnológicos na s referia às "máquinas complicadas" que serviriam de base material a um me rcado auto-regulável 117. aliás. também.000 guichês da Caixa Económica eram os elos dessa enorme e precisa cadeia de informações. Segundo Henri Laborit (1971.. p. conforme nos mostra J. uma fechadura de porta correspon de a essa definição em 202 201 . p. Tais ações buscam adaptar -se a esses planos heterogéneos. maior a segurança". p. Gras. 31). em si mesma. imaginar que um espaço tenderá tanto mais a se tornar um espaço racional quanto mais alto for nele o nível de artifício. linhas e manchas.] Quando máquinas complicadas e estabelecimentos fabris começaram a ser usados para a produção numa sociedade comercial. Campus. Rose. cujos sistemas cibernetizados constituem. O que comumente se chama de "espaço de fluxos" na realidade não abrange todo o espaço. comum que essa noção. IV. como escreveu Joel de Rosnay (1975. aceita como abrangente . sentido lato.] O sistema. mas o governo das ações dependentes se dá através de pontos ativos que reinam sobre planos heterogéneos.] Esses sistemas. 76). mas sem alterar sua heterogeneidade. o Banco de Estado (Gosbank) dispunha dos meios de conhecer e controlar. 120 . 34). 1980. como veremos. Tais referências ao meio industrial. fundada no dinheiro como norma fixa. 30) próprios ao meio técnico 120. 341). quer-se sempre a previsão e o domínio do risco: o único modo de ser eficiente é não confiar senão em uma lógica. formado por pontos ou. todos os respectivos pontos do território são conhecidos de um centro regulador 119. 110).. toda coisa" é. p. "uma mensagem é tan to mais susceptível de fornecer uma informação quanto menos sujeita ao aleatório". mencionada por Habermas (1968. 30).] A noção de humildade produtora é desconhecida das sociedades industriais. No meio técnico.. são as coisas possuídas. p. A eficácia da ação depende do grau de certeza com que é exercida. da forma dinheiro teve de esperar pela chegada da era cibernética. em todos os seus domínios. p. Segundo esse mesmo autor.. aplicam-se ao espaço geográfico. As 4. Nas condições atuais. "um princípio de racionalidade"diz Marc Humbert (1991. A Grande Transformação: As Origens da Nossa Época. 1993.de um espaço de fluxos. citado por W. Latour. deixam de ser um projeto e se tornam atuantes. no máximo.

na realidade. 122 . Assim. mas é decidido pela consciência de uma minoria planejadora. "a matematização do homem iniciada desde o século XVIII". "a práxis inscrita no instrumento pelo trabalho anterior define a priori as condutas. 63). mas as coisas são "a superfície de uma or dem abstraía" ("La surface d'un ordre abstrait". Desse sentido ora corrente deriva o conceito de tecnociência. O ESPAÇO RACIONAL A emergência atual desse espaço racional permite pensar que afinal se está realizando aquela previsão de Saint-Simon em seu Catéchisme dês Industrieis. pela sua natureza. funcionando como um laboratório ideal substituindo a natureza. descrito por A. uma ordem da matéria" (J. Leibniz propusera uma utopia semelhante. 64). uma dupla produção de ordem: "aquela que é produto da existência técnica de cada objeto. As ações dos seres humanos são totalmente adaptadas às demandas dos artefatos materiais. 71-94). quando falamos de tecnologia como uma ordem de realidade. O progresso seria. 1985.. p. 1978. "[. M. ao sugerir a hipótese de um "sincronismo absoluto dos acontecimentos psíquicos e físicos". 204 203 . 1994. p. "uma forma predeterminada de ação sobre a natureza". p. Nesse sentido. As inovações técnicas se encontram com a história portando suas próprias regras. com o "implacável rigor" previsto 121 por D. Ora. Esse pensador vaticinava a substituição do governo dos homens por um governo das coisas. p. É uma ordem visível nas formas.. 1972. p. como na lição de Sartre. por assim dizer. "torna-se cada dia mais claro que a ciência tem como objeto superpor à natureza um ateliê ideal formado de mecanismos que funcionam com rigor matemático. Segundo Langdon Winner (1985. e pode também ser vista em muitas outras áreas do mundo. Para Georges Sorel. a utilidade do capital como 'atividade racional visando a um fim"' (B. p.] Hoje. . sugerida por B. o sonho de um meio artificial. criação de redes televisivas e o recorte de traços aparentemente insignificantes em novas máquinas [. Stiegler. dá-se com mais frequência o nome de tecnologia à técnica que absorve a ciência. investimento económico e hábito social. p. Em ambos os casos. sobre a qual se instala. de que fala à sátira de D.]" (Langdon Winner. 182-183). a prévia determinação de uma racionalidade. 1976. 107). com o objetivo de imitar. se as inovações técnicas se comportassem como se fossem leis122. que o propôs. É como. de modo que como diz Horkheime r. a localização de infra -estruturas é resultado de um planeja mento que sobretudo interessa aos atores hegemónicos da economia e da sociedade. 1947. Da técnica como 'ciência aplicada" nasce a corporação dos engenheiros. 1991). os movimentos que se produzem nos corpos naturais [. 63) 121. 106). 284). a partir de um comando centralizado. desse modo. nessa predição. A validade mercantil da técnica depende das garantias de que iniciada a ação ela vai ter a trajetória e os resultados programados. Está tanto depende da técnica contida nas coisas e nas ações." A tecnologia constitui não apenas uma esfera da realidade. 102). 30) "as escolhas tendem a se fixar fortemente no equipamento material". "Certamente. 101). Werlen (1993.. p.O espaço racional supõe uma resposta pronta e adequada às demandas dos agentes. p. teriam o condão de dirigir o comportamento dos homens. às quais as demais escolhas devem curvar-se. Calvino (1991. quanto ao investimento económico e hábitos sociais". ainda podemos hesitar entre uma visão referente à tecnologia como um conjunto de meios — pendendo assim para o sentido original de técnica enquanto soma total dos produtos destinados a satisfazer às necessidades humanas — e uma visão que concebe a tecnologia como a esfera da realidade que já não é um domínio de meios ou um domínio interme diário. e aquela que resulta de sua disposição. Essa ordem da técnica se transfere ao espaço tecnicizado. Por isso. 30 -31). mas tem sua ratio essendi em si mesma" (N. pp. A cada período técnico corresponde uma mudança geral nas relações sociais. Eclipse da Razão. a primitiva originalidade se desvanece para todo s os fins práticos uma vez dados os passos iniciais. Halévy (1948. diz ele. Dá-se.. 123 . Beaune. dada pelas relações invisíveis cujo fundamento é a própria tecnicidade dos objetos. p. Sottsass. também a massa de sujeitos deve ajustar -se: o sujeito deve. "a administração das coisas"...]" (G. ] na medida em que o processo de racionalização não é mais o resultado de for ças anónimas do mercado. Daí a proliferação.. hoje. p. C. 147).. 64). de modo a 218).. Um outro sonho que se torna realidade. e. Daí a importância atual das normas de ação. situação que abriria caminho para a "harmonia universal" dos seus sonhos. dedicar todas as suas energias para estar "dentro e a partir do movimento das coisas" nos termos da definição pragmática" (Horkheimer. "a flexibilidade original se esvai para todos os propósitos práticos. Tal realidade foi estudada na região brasileira dos cerrados por Rogério Haesbaert (1995. J. como lembra. p. também realiza. 1985. um resultado da própria sistemacidade das técnicas. Landes (1992.. com grande aproximação. mas uma ordem da realidade. ficando a racionalidade submetida à utilidade — para Habermas. 1985. Rotenstreich. 1994). Rotenstreich. no objeto técnico. Guillaume. Sorel.] Uma vez que as opções apresentam a forte tendência de fixar -se em equipamento material. Subentende-se que as coisas. Há. as inovações tecnológicas lembram os atos legislativos ou políticos que estabelecem um quadro para a ordem pública capaz de resistir às gerações. Stiegler (1994. pp. dos "obsessivos tem porais". Koyré (1957) e por G.. graças à "conexão imediata da tecnologia com as atividades práticas da vida" (Wílliam Leiss. Os espaços da racionalidade funcionam como um mecanismo re gulado. pp. 55 ). possuidora de sua própria racionalidade (N. B. G. "[. é uma ordem que arrasta outros objetos e ações. de seu arranjo. a mesma atenção que se dá às reg as papéis e relações políticas deve ser dada também a coisas como construção de estradas. onde cada peça convoca as demais a se pôr em movimento. desse modo. por oposição às técnicas tradicionais pré-científicas. É essa a lógica da natureza artifi - cializada. Whithrow e por I. permitir que o encontro entre a ação pretendida e o objeto disponível se dê com o máximo de eficácia. 106)123. p. em sua busca de imitação e superação da natureza natura l (E. "[. Essa passagem do mundo do aproximativo para o mundo da preci são. conforme nos lembra C. no qual técnicas e ciências são inseparáveis. que permitem alcançar o ideal de uma racionalidade submetida à utilidade.. Jung (1984.

Éd. p. 628). na qual a história seria substituída pela estatística. começando a formular sua teoria antes em termos de processo que de causa primeira e outros semelhantes. Na verdade. Essa "existência real originada em ideias" segundo a formulação de F. sempre existiu: o homem sempre tentou criar máqui nas (p. 628). "O processo da máquina faz com que a atenção incida. pp. 1904. por essa mencionada carga de racionalidade. Estas são a base da ampliação do modelo de cooperação e. 47). "ilustram fisicamente uma dimensão característica da representação moderna do mundo. tem como conteúdo novo essa racionalidade. Friedmann e J. 160) em seu Éloge de Vaucanson. p. o atingimento do nível de cálculo considerado por Weber. inexistente e onde cabem outras formas de expressão que têm sua própria lógica. 206 205 . na evolução histórica do espaço geográfico. como também de criação. uma "era geral da mecanização". O espírito de invenção me cânica. 174 -175) de um pensamento subordinado ao processo e não às causas 124. diz A. [. A antevisão de Veblen (1904. mesmo. sobre fenómenos de caráter impessoal e sequências e correlações que não dependem. pois permanecem zonas onde ela é menor e. esse 'esquema de nossa ação possível sobre as coisas' (p. sujeito a regras preestabelecidas que incluem sua própria substância. Mais simplesmente. Th. Além disso. 1949. Há os es paços do mandar e os espaços do obedecer. dizemos nós. como necessário para impor um direito capitalista "sobre o qual se pode contar como sobre uma máquina". Friedmann. 1932. A participação no mundo da competitividade leva ao aprof undamento das novas relações técnicas e das novas relações capitalistas. vistas separadamente ou no seu conjunto. o génio da mecânica "consiste principalmente em dispor no espaço os diversos mecanismos que devem Séris (1994. 1234). Nele não resta nada do que era vital (G. A máquina elimina hábitos antropomórficos de pensamento.. numa época "pós-histórica". de configurações espaciais. em pleno séc ulo XIX. já que "o homem se encontra. da divisão social e territorial do trabalho. 1932. Éd. essa ideia deve ser aproximada àquela de Bergson. 157). o quadro estreito de suas aplicações militares e doravante são instrume ntos difundidos de conhecimentos e de ação. distribuir e dirigir a força motriz". aquilo que no passado se chamava de dependência regional. A nova relação entre regiões. 47 -48). Assim estaríamos diante do quadro antecipado por Cournot. e este alargamento do contexto conduz a um novo 126 . portanto. 178). Assim como escreve Ph.-P. pp. oferecendo perspectivas originais". 21). p. p.. p. Dessauer (1964. Cournot anunciava.-P. com o advento do espaço raciona l. 124 . Os novos espaços centrais informados substituem aquela noção de "core". cuja energia é a informação e onde são as pró prias coisas que constituem o esquema de nossa ação possível. Séris. onde reina a disciplina dos fatos impessoais levando a efeitos mecânicos (p. obedientes à lógica dos fins instrumentais. at ribuindo-se um espaço matemático que eles encarnam materialmente". Há espaços marcados pela ciência. 244). realiza-se com o presente espaço racional.] As ciências tipicamente modernas não indagam a respeito das causas primeiras. de forma mais ou menos constan te. 125 . pouco a pouco. que outrora nos foi apontada por J. du Centenaire. hoje tendente a ser completamente racionalizado. 1175).] A disciplina resultante é a da manipulação de fatos impessoais para efeitos mecânicos" (Veblen.. p. A nova centralidade depende dessa racionalidade que não se dá igualmente em toda parte. há tempos. Gras (1993. 148). do desígnio da natureza. enquanto os outros espaços se tornam apenas os espaços do fazer. independente da ciência. no estudo dos acontecimentos sociais. "[. outorgada pelas ações e pêlos objetos. p. O meio técnico-científico representaria. mediante a passagem. 174-175). 1994. of Business. Séris. essa racionalidade sistémica.-P.. Veblen. p. a especialização agrícola baseada na ciência e na técnica inclui o campo modernizado em uma lógica competitiva que acelera a entrada da racionalidade em todos os aspectos da atividade produtiva. Obriga o trabalhador a adaptar -se ao trabalho e não o trabalho a adaptar-se ao trabalhador. p. pp. pela tecnologia. Esse meio técnico-científico é formado de objetos que incluem sa ber técnico e são o suporte do saber hegemónico. As referências são a Bergson. suas técnicas.. de máquinas.produzir um dado efeito e que servem a regular. apon tado por Schiller mas para um "desencantamento do espaço geográfico". 160).1932. Para o mesmo J. desde a reorganização do território aos modelos de inter câmbio e invade até mesmo as relações interpessoais.. Évolution créatrice. suas instituições. Todavia. da desejabilidade dos efeitos dos resultados últimos ou das consequências escatológicas" ( Th. Mas Bergson remonta aos séculos XV e XVI a tendência caracterizada como 'frenética' (p. 1994. Queau (1987. Th. 1994. -P. a forma de simples objetos. E foi na Comunidade Britânica que a ciência moderna se restringiu às linhas demarcadas pelo pensamento tecnológico. é comentada por C.] O espaço. Boudeville. para sua força. "[. 148)125. quando ele faz do espaço "o esquema de nossa ação possível sobre as coisas"126 (Évolution Créatrice. Limites da Racionalidade no Campo e na Cidade Com a globalização. da predileção huma na nem foram criadas por hábito ou costume. du Centenaire. está agora realmente repleto de nossos mecanismos.. Mitcham (1991. produção e incepção são m ais frequentemente ditadas por motivos pragmáticos. of Business. não se dá de maneira total e homogénea. com a inteligência 'tão distanciada daquilo que a natureza queria para si' que a ferramenta tosca cedeu lugar a um imenso sistema de máquinas capazes de liberar a atividade humana (p. absorvido pela própria força dos produtos de sua razão. Séris.. as inovações tecnológicas atuais são "raciocínios materializados" (J. Conforme dizia Condorcet (citado por J. Essas novas realidades. do reino do vital para o domínio do racional. elas renovam o gosto por antigas questões filosóficas. Os grandes sistemas técnicos. cuja concepção. que tomam. e há os outros espaços. 5) "as imagens de síntese ultrapassam. pela informação. p. 1229) pela ampliação da vida material" (J. apontam não apenas para o "desencantamento da natureza".] A disciplina de uma indústria voltada predominantemente para a máquina fez com que se pensasse em termos de processo de máquina. este se torna uma verdadeira máquina. [. que a considera como uma "existência fora da ess ência".

Certos espaços da produção. quanto maiores forem a articulação com o campo tecnicizado e mo dernizado e mais complexas as interdependências entre as cidades. É desse modo que se produzem nexos estranhos à sociedade local. água. a presença do capital tecnológico que deva estar à mão para atender. mas são criaturas da bio tecnologia. a tempo e hora. praticamente. O processo de globalização acelera esta tendência. onde cada gesto e cada resultado deve ser previsto de modo a assegurar a maior produtividade e a maior rentabilidade possível. pois. O uso dos recursos sociais. Os objetos técnicos de alguma forma são o fundamento dos valores de uso e dos valores de troca dos diversos pedaços da cidade. as técnicas a serviço da produção. as atividades modernas tendem. cada vez mais. com os recursos reclamados pa ra produzir. da armazenagem. mesmo. Nestas. Criam-se novos modelos de ação e novas sociabilidades que tam bém estão na raiz das novas formas de urbanização: as cidades se tornam depósitos dos novos elementos do trabalho agrícola e pólos de sua regulação. também. as infra -estruturas "regulam" comportamentos e desse modo "escolhem". a co meçar pêlos bens coletivos. como no passado. que é tanto mais presente. A ação humana é desse modo comparti- mentada. Plantas e animais já não são herdados das gerações anteriores. a ser o reino dos horários. aos reclamos de cada etapa de produção. e. na técnica e no conhecimento. Isso não é apenas um privilégio da indústria. A globalização. As diversas frações da cidade se distinguem pelas diferenças das respectivas densidades técnicas e informacionais. as áreas correspondentes a um processo de racionalização exigências de racionalidade no campo. do transporte. tanto mais provavelmente alcançados. a um novo calendário agrícola baseado na ciência. levando. impondo novos usos e novas definições do tempo social. É assim que se expande no campo o domínio desse capital hegemónico com as suas exigências de racionalidade. pudesse agora encontrar uma réplica a que intitularíamos "o campo e o cronometro". hoje. ancoradas na ciência e na técnica e de pendentes de uma informação sem a qual nenhum trabalho rentável é possível. implanta -se um império do tempo medido. das normas. o capital financeiro destinado a prover. dos relógios. de outro. da tr ansformação dos produtos e da sua distribuição. Ao mesmo tempo. torna-se irracional. indispensáveis nesta fase de globalização. A expansão da urbanização e a maior importância do fenómeno urbano servem. exclusivamente de um domínio particular de atividade e se espalham por todo corpo social.) cede lugar. nacional e que passam a ter um papel determinante. um mundo rural sem mistério. mas se estende também aos serviços. Esse mundo da técnica invasora é também o mundo do capital tecnológico invasor que busca. segundo níveis de racionalidade da matéria. Nessas condições o campo imita a indústria numa busca permanen te de precisão. e consegue. lazer e segurança que as populações consumidoras reclamam. deixam de ser. que de alguma forma comandam o cotidiano das pessoas. contagiar as diversas tarefas rurais. insolação etc. tem um papel determinante na produção da irracionalidade e no uso irracional da máquina urbana. A cidade já vinha criando os seus excluídos e os seus irracionais. em que novas regularidades são buscadas. as técnicas invisíveis. quanto mais claro for o cálculo na sua escolha e na sua implantação. é crucial na explicação da tendência à racionalização das cidades. essa razão do mercado que se impõe como motor do consumo e da produção. da circulação e do consumo são a área de exercício dos atores "racionais". Sua adaptação ao cam po modernizado é tanto mais evidente quanto melhor respondam às cada vez mais intenso e com tendência a se instalar em todos os aspectos da vida. e mais o capital de conhecimento. "selecionam" os atores possíveis. O papel dos macrossistemas técnicos. como se a parábola de Benjamin Coriat (1979). de que não pode prescindir uma agricultura baseada na ciência. saúde. enquanto os demais atores se contentam com as frações urbanas menos equipadas. A difusão dessa informação no espaço da contiguidade asse gura a uma dada área 208 207 . No campo e nas cidades. de um lado. E aos macrossistemas técnicos devemos acrescentar também as técnicas Domésticas. o aprendizado e a crítica da racionalidade hegemónica se fazem através do uso da técnica e da experiência da escassez. quando escreveu sobre o "ateliê e o cronometro" para d escrever o taylorismo. Na cidade a ampliação da divisão do trabalho leva a uma socializa ção capitalista marcada pelo Cria-se. em proporções diversas. quanto como consequência da inovação técnica e da inovação organizacional. Acrescentem-se os estoques de possibilidades de educação. Os planos de ajuste económico que respondem a uma demanda de racionalidade agravam a situação acima descrita porque o imperativo da competitividade leva à aceleração da modernização de cer tas partes da cidade em detrimento do resto. Juntos. dos regulamentos e dos in terditos. Muitas delas só se tornam possíveis quando tem êxito a vontade de se subtrair às leis naturais. O respeito tradicional às condições naturais (solo. os produtores. no momento exato. as novas técnicas e o novo capital. apresentando se tanto como causa. tornandose os verdadeiros regedores do tempo social.capitalista. segundo os produtos e as regiões. Mas nem tudo é colonizado pelas técnicas modernas. aprofundamento do contexto. O campo modernizado é o lugar das novas monoculturas e das novas associações produtivas. Nesse mundo rural assim domesticado. O todo é movido pela força (externa) dos mitos comerci ais. res pondem ao modelo mundial e são calcadas em objetivos pragmáticos. de base para mais racionalização. Há. e logo se verá como os censos urbanos ganham maior conteúdo domínio dos valores de troca. há uma demanda de produtividade por atores privilegiados e uma produção de irracionalidade para a maior parte. e. Pode -se dizer que. consideradas em sua realidade técnica e em seus regulamentos de uso.

desde a defesa dos preços à deman da de implementos e a garantia de um mercado. aqui. com a defesa de interesses particularistas. na medida em que estas. falar de uma diversidade socioespacial. de maneira a obter o entendimento do que. num segundo momento. Há. Dentro de cada cidade. relegando a um segundo plano todo o resto: empresas menores. nem racionalidade absoluta". Na cidade. Na mesma cidade. Na medida em que os agentes locais da produção agrícola. de produção deliberada de situações não - razoáveis. autorizando comportamentos económicos e sociais diversos. Na cidade. as minorias. Os novos objetos custam caro. Enquanto novos objetos se instalam (prédios inteligentes. Desse modo. p. escapando à regulação direta dos atores uma certa comunidade de preocupações. Ante a racionalidade dominante. e substancialmente. renovar a materialidade é mais laborioso que no mundo rural. Podemos. isto é. dialeticamente. preocupa ções originariamente económicas se metamorfoseiam em preocupações políticas. os migrantes. sua riqueza. responsáveis pela unificação dos diversos segmentos característicos da vida urbana. na maior parte d a aglomeração permanecem objetos herdados representativos de outras épocas. das relações entre o mercado.podem ser operadas sem maior submissão a tais nexos. nas áreas menos modernas e mais "opacas". a cidade resiste a uma difusão mais rápida e mais ampla da racionalidade contemporânea. A paisagem urbana reúne e associa pedaços de tempo materiali zados de forma diversa. instalam -se diversos modos produtivos. vias rápidas. de informação e de organização. Assim. como "irracionalidade" e. desse modo. uma produção limitada de racionalidade. isto é. 51) quando ele diz que o conceito de ra cionalidade. O que muitos consideram. em cada aglomeração. várias modalidades de intercâmbio e múltiplas formas de distribuição e de consumo. ainda que os interesses dos diferentes atores sejam diversos. condicionam os momentos e as modalidades do fazer. divergentes e convergentes ao mesmo tempo. ligados ao dia -a-dia dos produtos e dos produtores. graças aos recursos públicos. encontram as condi ções de sua plena realização (fluidez. de um ponto de vista económico. agravan do a problemática social. a adaptação aos imperativos da modernização globali -zadora é mais difícil que no campo. Schutz (1953. a maioria. em cada caso. Tal solidariedade frequentemente se manifesta por uma fornia particular de exercício da política. "em 210 209 .sobretudo às grandes . rurais ou urbanos. as insti tuições e o chamado meio ambiente construído. constitui. tais cidades abrigam todos os tipos de capital e todos os tipos de trabalho. submercados e subcircuitos espaciais da produ ção específicos. segundo níveis de capital. Objetivamente. já que não dispõem dos meios para ter acesso à modernidade material contempo rânea. racionalidades paralelas. o princípio de unidade é dado. adjetivamente. os demais. de um ponto de vista social. adequação às novas necessidades técnicas da produção). ao mesmo tempo. 312) que "não há racionalidade em si mesma. Para um mesmo bem ou serviço. Essas contra-racionalidades se localizam. os excluídos. Enquan to as áreas "luminosas" são o teatro da ação dos vetores da modernidade globalizadora.a possibilidade de acolher atividades as mais diversas. 1987. igualmente. Essa atividade toma diversas formas. isto é. A exemplo da biodiversidade. O espaço urbano reúne áreas com os mais diversos conteúdos técnicos e socioeconômicos. as frações urbanas que "envelhecem" económicos e sociais hegemónicos. Podemos re petir com M. de capital e de organização. pode-se dizer também que. Essa experiência da escassez é a base de uma adaptação criadora à realidade existente. aparecendo como um limite à racionalidade. havendo. instalam-se paralelamente contra-racionalidades. têm um poder de controle limitado sobre o que é localmente produzido. o conhecimento das relações entre a produção local e os aspectos mais globais do intercâmbio acelera essa produção política. realizadas segundo os mais diversos níveis técnicos. p. por sua estrutura técnica e pelo seu arranjo. e. infra-estruturas) em algumas áreas urbanas. há lógicas específic as a cada um desses níveis de atividade. desejosa de tudo conquistar. a partir dessa racionalidade hegemónica. associada a uma produção ampla de escassez. outras formas de racionalidade. É esta. o poder público acaba aceitando uma ordem de prioridades que privilegia alguns poucos atores. uma lógica urbana unitária. pelo mercado e pelo território. tornadas irracionais para usos hegemónicos. aliás. falar de irracio nalidade. em nome da modernidade e das necessidades da globalização da economia. não têm resposta adequada para as suas necessidades essenciais. A superposição dessas lógicas individuais e complementares produz. É isso que assegura às cidades . Mercado urbano e território urbano são noções inseparáveis e realidades interdependen tes. É dessa forma que. encaixada em ecologias sociotécnicas recriadas ao longo da história urbana e ampliadas no momento atual. de um ponto de vista geográfico. na verdade. pode-se. como "contra-racionalidade". Estaria por ser intelectualmente construída a explicação dessas novas ecologias urbanas. porém. pessoas. de trabalho. entre os pobres. cada qual com a sua racionalidade. lembrar A. Todas essas situações se definem pela sua incapacidade de subordinação completa às racionalidades dominantes. de um ponto do vista dos atores não beneficiados. entre as atividades marginais. instituições menos estruturadas. Chamado a implantá -los. Rígida pelo seu estoque de capital fixo fixado duravelmente instalado. tradicional ou recentemente marginalizadas. enquanto alguns atores. podemos. uma vontade de contra riá-la ou o desejo de lhe sobrepor outros objetivos. Godelier (1967. são as relações entre a tempora lidade do fazer e a temporalidade das coisas.

temos uma nova relação com o mundo. a metáfora proposta por Pascal127 parece ter ganho realidade: o universo visto como uma esfera infinita.Quarta Parte social. Mas.. em certa medida. 57). "[. O mes mo se poderia N dizer daquela frase de Tolstoi. 212 211 . Weber. Antes. p. Mlinar (1990.e a racionalização do espaço é esse limite . indispensáveis à sua sobrevivência. não se refere a ações no interior da experiência comum da vida cotidiana no mundo AFORÇADO LUGAR O próprio M. por isso mesmo. 127 128 .. O momento que estamos vivendo . Citado em Jean-Claude Beaune. o corpo como uma certeza materialmente sensível.] nossa relação com o mundo mudou. ao dizer que "uma coisa não é jamais irracional em si mesma. nesse mesmo livro e em outros escritos. 194. Folha de S. É bom. segundo a qual. Weber. revelam. lembra-nos Z. mas é a expressão de um tipo particular de construções de certas modelizações específicas [. Michel Serres. Na verdade. Talvez. p. agora é local-global [.. ela era local-local. 54... onde ele vaticinava a perda da razão pela sociedade... 44) que "hoje cada um de nós é como o ponto singular de u m holograma que. p. 1994. para ser universal. desse ponto de vida. Através dos satélites. por contraste. possamos repetir com Edgar Morin (1990.]". guardar em mente uma outra asseveração de M. Como nos lembra Michel Serres. Paulo. A racionalidade dominante e cega acaba por produzir os seus próprios limites. aliás. . O fato de que a produção limitada de racionalidade é associada a uma produção ampl a de escassez conduz os atores que estão fora do círculo da racionalidade hegemónica à descoberta de sua exclusão e à busca de formas alternativas de racionalidade. que "hoje. temos imagens da Terra absolutamente inteira" 128. havia previsto a convivência de formas diversas de racionalidade. Recorda esse filósofo. americana). podem ser vistos como um inter médio entre o Mundo e o Indivíduo..aponta para essa perda da razão.. basta falar de sua aldeia. a frequência dos des locamentos e a banalidade do movimento e das alusões a lugares e a coisas distantes. a partir justamente da elaboração das contra -racionalidades que a análise geográfica revela nos comportamentos atuais do campo e da cidade. mas apenas de um particular ponto de vista racional". sentido estrito [. ed. O mundo da fluidez..]". ao mesmo tempo. I4 ------------------------ OLUGAREOCOTIDIANO INTRODUÇÃO as atuais condições de globalização. no ser humano. 21/4/1990. a vertigem da velocidade. quando o processo de expansão da racionalidade capitalista se tornasse ilimitado. tantas vezes repetida. porque o vemos por inteiro. diante de um universo difícil de apreender.. aponta para a possi bilidade da construção de um novo sentido. cujo centro está em toda parte. utilizando um argumento aproximativamente geográfico. entrevista a Bernardo Carvalho.. contém o todo planetário que o contém". Os lugares.. a globalização faz também redescobrir a corporeidade. p. para quem a lógica do desenvolvimento dos siste mas sociais se manifesta pela unidade das tendências opostas à individualidade e à globalidade. e felizmente. na Ética do Protestantismo (1958.].

Esta categoria da existência presta-se a um tratamento geográfico do mundo vivido que leve em conta as variáveis de que nos estamos ocupando neste livro: os objetos. pois. Benko (1990. torna-se exponencialmente diferente dos demais. A. p. p. entram as coisas e os outros homens. O mundo ganha sentido por ser esse objeto comum. van der Le ecew (1994. B. globalização e fragmentação são termos de uma dialética que se refaz com frequência. o tempo. e por isso "a análise É largamente conhecida a tipologia da ação social proposta por Weber. "Comunicar". 1960. 214 213 da vida cotidiana envolve con cepções e apreciações na escala da experiência social em geral" (H. também. J. em proporções variáveis. ensina G. de outro. em extensão e em profundidade. isto é. Esse processo. por exemplo. alimentam e restabelecem os laços sociais e a sociabilidade entre os indivíduos e grupos sociais que p artilham os mesmos quadros de experiência e identificam as mesmas ressonâncias históricas de um passado comum". a oposição entre uma interação mediada pelas técnicas e sua racionalidade e uma interação medi ada pêlos símbolos e pela ação comunicacional. de Souza (1995. Nessa construção. "todos os lugares são virtualmente mundiais". p. Sem o escrever explicitamente. Partindo do fenómeno técnico. ao mesmo tempo.1981. lembra-nos H. instituições. Buttimer. ao mesmo tempo em que se aprofunda a relação de cada qual com o sistema do mundo. o mundo. 1994). Ele nos lembra de que "podemos nos comunicar com o mundo que nos rodeia. Simondon (1958) já havia proposto distinguir entre. E Bakhtin (1986. encontrar os seus novos significados. "pontos de vista mais ou menos compartidos". de que participam preo cupações pragmáticas e valores simbólicos. Segundo ainda G. Lefebvre (1958. 15). assinalado por diversos geógrafos. Impõe-se. chamando a atenção para as dificuldades do seu tratamento teórico. A uma maior globalidade. cada lugar. A. tal como podemos transmitir informações sem criarmos ou alimentarmos quaisquer laços sociais". através de um processo incessante de interação. conforme. A seguir Tran-Duc-Thao (1951. as ações. Também devemos evitar o "risco de nos perder em uma simplificação cega". 54). a partir de uma noção de particularidade que apenas leve em conta "os fenómenos gerais dominados pelas forças sociais gl obais" (Georges Benko. p. 34). já que o mundo se encontra em toda parte. uma relação permanentemente instável. produ zem a alteridade e a comunicação. p. p. p.Stiegler (1994. e onde globa lização e localização.-P. sem nos confundir". 38) "etimologica -mente significa pôr em comum". Uma dada situação não pode ser plenamente apreendida se. 1992. A. É a esse fenómeno que G. mediada por símbolos. A. uma ação simbólica sobre o ser humano. 15) "a ideia dos outros implica a ideia de um mundo". "A práxis se revela também como totalidade" diz H. meio ambiente construído. das situações objetivas. a pre texto de contemplarmos sua objetividade. graças à individualização e especialização minuciosa dos elementos do espaço: homens. Cada lugar é. a técnica. um dinamismo que se está recriando a cada momento. 65) denomina "glocalidade". Para apreender essa nova realidade do lugar. o Eu-para-o outro ("basic moments: I- for-myself. 75) nos convida a estabelecer uma clara di stinção entre informação e comunicação. com os outros. segundo a qual se podem distinguir uma atividade racional visando a um fim prático e uma atividade comunicacional. "na experiência comunicacional. Garcia. deixamos de considerar as relações intersubjetivas que a caracterizam. G. Uma possibi lidade nos é dada através da consideração do cotidiano (A. prolongam a atividade própria do sujeito e abarcam a totalidade da tarefa comum. D. Lefebvre 1971. 73). . quando reinter -preta Gehlen e Habermas.1973. Ou. providos pelo movimento de cooperação. no qual entram em jogo diversas interpretações do existente. p.1987) e outros autores retomaram essa questão. que o mundo constitui "o meio de nos unir. A. empresas. Damiani. 1964. 25) aproxima essas duas propostas. 1993. além do próprio sujeito. p. corresponde uma maior individualidade.1971. Sartre. 28). Laborit (1987. 173) já nos lembrava de que "o caráter humano do tempo da ação é inter-subjetivo". para realçar o papel da interação na produção dos sistemas sociais. Berger (1943. essa multiplicidade de ações fazendo do es paço um campo e forças multicomplexo. Para este autor. 1976. p. É desse modo. p. diz S. Fischer (1994. É desse modo que se constróem e refazem os valores. refere -se à "redescoberta da dimensão local". aliás. e até mesmo conosco. G. os "esboços simbólicos". ao mesmo tempo. o outro-para-mim. paralelamente "uma apropriaçã o profunda e uma compreensão imediata" (J. mais perto de nós. revisitando o lugar no mundo atual. alcançado através das relações de reciprocidade que. a necessidade de. p. como afirma M. As próprias necessidades do novo regime de acumulação levam a uma maior dissociação dos respectivos processos e subprocessos. afirma que a arquitetura concreta do mundo atual dos atos realizados tem três momentos básicos: o Eu -para-mim mesmo. à sua maneira. resulta de uma verdadeira negociação social. A história concreta do nosso tempo repõe a questão do lugar numa posição central. Mas. de um lado. p. 260). the other-for-me. intervêm processos de interlocução e de interação que criam. and I-for-the-other"). irrecusavelmente imerso numa comunhão com o mundo. 238). 207). sem procedermos à transmissão de quaisquer informações. p. Rodrigues (1994. o que inclui.ATIVIDADE SIMBÓLICA E ESPAÇO cada sujeito a tomar consciência de que a universalidade é o verdadeiro sentido de sua existência singular. não basta adotar um tratamento localista. p. Berger (1964. p. levando ATIVIDADE RACIONAL. ao realçar Essa é uma realidade tensa. uma ação humana sobre o meio e. 1990. Habermas (1968. 65). Berger (1964. 65).

apenas as relações económicas que devem ser apreendidas numa análise da situação de vizinhança. Nelas. pela estruturação do seu território e do seu mercado . diversificam e renovam. também. medrosos do inimigo exterior. É também nesse sentido que Muniz Sodré (1988. O prático-inerte é uma expressão introduzida por Sartre. 248).não se limita a uma mera definição das distâncias. p. inapreensível pelas estruturas clássicas de ação e de representação. O espaço se dá ao conjunto dos homens que nele se exercem como um conjunto de virtualidades de valor des igual. diz J. dessas relações que se acumulam. A noção de co-presença. é que. Duvignaud (1977. transindividualidade. que "a relação espacial. e a compartimentação da interação humana no espaço (Sanguin. definida por Simondon (1958. O território compartido impõe a interdependência como práxis. p. podemos dizer que o espaço. p. 18). 56) "pode criar a solidariedade.impõe-se com mais força a unidade prático-inerte do múltiplo a que se refere A.. ao tamanho desmesurado das metrópoles e ao menor coeficiente de "racionalidade" na operação da máquina urbana. Werlen. lembra Schutz (1967). Indo além do ensinamento de Sartre. O papel da vizinhança na produção da consciência é mostrado por J. uma explicitação. 1980. corporificadas em formas sociais e. A noção de socialidade.num mesmo conjunto de pontos contínuos. pp. Gorz (1959. Não são Essa transindividualidade. 1994. "holista". 1977. 146. 20). cujo uso tem de ser disputado a cada instante. e levando a uma percepção global. uma "acumulação que provoca uma mudança surpreendente" movida pela afetividade e pela paixão. protegidos atrás de O PAPEL DA PROXIMIDADE muralhas. Tal socialidade. -L. Guigoü (1995. Esses lugares. as grandes cidades são muito mais buliçosas que as médias e pequenas. huis -clos). No dizer de Sartre. quando identifica na "densidade social" produzida pela fermentação dos home ns em um mesmo espaço fechado. Podemos comparar essa situação àquela com que Sartre (1960. as cidades atuais. e constitui uma garantia do exercício de possibilidades múltiplas de comunicação129. para significar as cristalizações da experiência passada. ganha um nova dimensão quando associada à noção e à realidade geográfica da vizinhança. laços culturais e desse modo a identidade". não são menos individualizadas. essa "condição de vizi nhança" referida por Sartre em Questions de Méthode. difundida entre os sociólogos. p. p. do mundo e dos homens. 1971) é tanto um aspecto da territorialidade como da transindividualidade. Em condições semelhantes. pelas suas formas geográficas materiais. O intercâmbio efetivo entre pessoas é a matriz da densidade social e do entendimento holístico referidos por Duvignaud (1977) e que constituem a condição desses acontecimentos infinitos. uma primeira leitura do seu texto pode levar a crer que a situação descrita estaria limitada àqueles lugares fortificados. com a sua gama infinita de No espaço . 91) consti tui uma mediação inevitável para o 216 215 . igualmente. p. como Muniz Sodré (1988. operação" da "comunidade" no dizer de Parsons (1952. 47) já o havia salientado. Simmel (1903. Soja. p. O fato. nessa situação "cada qual sabe que figura como obj eto no campo prático do outro" e "isso mesmo impede os dois movimentos de unificação prática de constituir com o mesmo entorno (environnement] dois campos de ação diferentes". C. ao distinguir entre os extremos da distân cia espacial e da proximidade espacial (B. vivendo com a intensida de de suas inter-relações. mas a. Berthelot. não apenas do fator económico. matrizes de trocas simbólicas que se multiplicam. enquanto a geração de relações interpessoais é ainda mais intensa.que é uno mas diferenciado . é inteligível como um princípio de coexist ência da diversidade". Lévy (1994). Raffestin. dessas soli - citações sem-número. A anarquia atual da cidade grande lhe assegura um maior número de deslocamentos. A noção de "emorazão" (S. A divisão do trabalho dentro dessas cidades é o resultado da conjugação de todos esses fatores. é a expressão mais acabada do prático -inerte. 210) define o fenómeno da escassez. 15) reconhecia uma dimensão territorial ou uma lógica geográfica da cultura. a co-presença e o intercâmbio são condicionados pelas infra -estruturas presentes e suas normas de utilização. E assim que a proximidade. p. Quando ele se refere a "es - paços fechados" (espace cios. e essa "base de . A territoria lidade é. A relação do sujeito com o p rático-inerte inclui a relação com o espaço. Laflamme. ela tem que ver com a contiguidade física entre pessoas numa mesma extensão.uno e múltiplo -. 1 totalidade das relações. noção realçada por Goffman (1961) e retomada por Giddens (1987). 53. p. é constituída pelas relações interhumanas que incluem o uso das téc nicas e dos objetos técnicos. do indivíduo e da sociedade. essa "unidade exterior da atividade de todos em sua condição de outros". pelo mercado territorialmente delimitado e pelas possibilidades de vida cultural localmente oferecidas pelo equipamento existente. será tanto mais intensa quanto maior a proximidade entre as pessoas envolvidas.conforme já vimos . graças à enorme gama de situações pessoais de renda. abertas a todos os ventos do mundo. 170). O movimento é potencializado nos países subdesenvolvidos. 1995). 1964). porém. 15-16). frequentes e densas. p. 129 situações. Os economistas também se preocupam com essa questão da proximidade. O número de viagens internas é mui tas vezes superior ao de deslocamentos para outros subespaços. sobretudo as metrópoles. É apropriado dizer. em configu rações espaciais e paisagens. A cidade é o lugar onde há mais mobilidade e mais encontros. 1991. a distância sendo considerada como um fator relevante na estruturação do comércio internacional (Y. são a fábrica de relações numerosas. de que a sociologia vem se servindo desde os seus fundadores. em função da força de cada qual. p. encontra seu fundamento nessas trocas simbólicas que unem emoção e razão. Mas a proximidade que interessa ao geógrafo . encontra em geógrafos como Di Meo (1991) e J. dos quais as cidades medievais são o melhor exemplo.

O espaço inclui. já que pessoas desconhecidas entre si trabalham conjuntamente para fazemos hoje que não seja a partir dos objetos que nos cercam. a política se territorializa. o mais significativo dos lugares. também não raro. Entre estas. nosso Próximo. como quer que seja. 249) assinala que "ao mesmo tempo [. a cidade grande é o espaço onde os fracos podem subsistir. segundo nossa habilidade ou generosidade. sim. buscando finalidades diversas. Nada alcançar. Sob certos aspectos. com o confronto entre organização e espontaneidade. ao mesmo OS POBRES NA CIDADE Com a modernização contemporânea. se superpõem. mas não evitar a pressão: ela é um fato. Como hoje nada fazemos sem esses objetos que nos cercam. ela existe. ao mesmo tempo em que esse cotidiano enriquecido se impõe como uma espécie de quinta dimensão do espaço banal. Berger. ela se dilata. Mas. Werlen (1993. O Mundo. atualmente.um cotidiano compartido entre as mais diversas pessoas. enlaçando. uma condição para a ação. força a criação de organizações que. talvez. Ravetz. o geógrafo é obrigado a trabalhar com todos os Teilhard de Chardin 130 já se referia ao que chamava de "pressão humana" resultado da acumulação crescente dos homens em espaços limitados. Nos lugares complexos. Podemos. 18-19). conviver. definitivamente. o eixo das sucessões. graças às grandes arenas. hoje. aqueles que interessam aos seus estudos setoriais. Porque cada qual exerce uma ação própria. as noções e as realidades de espaço e de tempo. A forma atual. Jerome R. onde tudo se funde. que "entram em cena. teorização) dessa relação entre espaço e movimentos sociais. ganha relevo a sua di mensão espacial. todas as técnicas e formas de organização podem aí se instalar. Entretanto se. mas também se confunde com ela. mas é também o teatro insubstituível A DIMENSÃO ESPACIAL DO COTIDIANO das paixões humanas.. Cria-se uma cultura popular de massas. que se dá nos lugares. firmas e instituições - cooperação e conflito são a base da vida em comum. Queiramos ou não. Através do entendimento desse conteúdo geográfico do cotidiano poderemos. um limite à ação. 1993). 249-250). que transmite os tempos externos das escalas superiores e o eixo dos tempos internos. São vetores de todas as ordens. que é. Trata-se de um fenómeno de importância considerável.] No mundo. a cultura popul ar assume uma revanche sobre a cultura de massas. ele pode esconder -se. que é o eixo das coe - xistências.. há profusão de vetores: desde os que diretamente representam as lógicas hegemónicas. isto é. estamos cada vez mais uns com os outros .] aumentam a agitação. Mas há lugares globais simples e lugares globais complexos. responsáveis. de for ma muito convincente. Berger. alimentada com a crítica espontânea de um cotidiano repetitivo e. pois. Por isso a cidade grande é um enorme espaço banal. diale -ticamente. conexão que "está sempre tomando novas formas". e porque a contiguidade é criadora de comunhão. esse fenómeno é ainda mais evidente.. através da ação comunicativa. já não temos escolha. ao criar estruturas novas. tudo o que fazemos produz informação. todos os lugares se mundiali -zam. 190). pois o padre Teilhard tomou consciência dessa pressão humana que aumenta cada vez mais e mostrou. p. A localidade se opõe à globalidade. supõe inf ormação para o seu uso e ela própria constitui informação. a vida social se individualiza. pontos de apoio para um desenvolvimento mais amplo de nossas liberdades. No lugar . 218 130 . não pode fazê-lo pela sua existência. Este último fenómeno é tanto mais significativo porque em nossos dias a cultura popular deixa de estar cantonada numa geografia res tritiva e encontra um palco multitudinário. mas en trelaçadas pelo espaço comum. objetos e todas as ações. conforme já vimos. p. serão ou ex clusivamente medidas coercitivas ou. enxergando na materialidade. um convite à ação. que tal pressão. Comentando essa ideia.. o espaço dos geógrafos. constitucionalmente destinada a sufocá-la. E enquanto outros especialistas podem escolher na listagem de ações e na população de objetos. conforme re alça B. ao contrário. do qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas. mesmo que es se discurso não venha com uma proposta sistematizada. como um fator de mudança qualitativa e rápida das relações sociais no mundo contemporâneo. uma estrutura de controle. pela sua essência. todos os trabalhos. esse componente imprescindível do es paço geográfico. pp. É bom pensar.e a pressão humana não pára de aumentar" (G. graças à intencionalidade de sua produção. que geralmente coincidem com as metrópo les. escolher entre escravidão e liberdade. 1964. com a agitação das partículas. 217 . todavia. essa "conexão materialística de um homem com o outro" de que falavam Marx e Engels na Ideologia Alemã (1947. No lugar. exercício dos papeis específicos de cada qual. pp. Nos primeiros apenas alguns vetores da modernidade atual se instalam.' como os enormes estádios e as vastas casas de espetáculo e de diver são e graças aos efeitos ubiqüitários trazidos por uma aparelhagem tecnotrônica multiplicadora. Com o papel que a informação e a comunicação alcançaram em todos os aspectos da vida social. entram em ação massas humanas que até há pouco eram relativamente estacionárias. malgrado elas. prosperar. com a pregação de mudanças. o raio de ação e as relações" entre os homens e compara esse fato com o fenómeno físico pelo qual a pressão de um gás depen de do número de moléculas comprimidas. às vezes externas. o cotidiano de todas as pessoas assim se enriquece de novas dimensões. pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da criatividade. Gaston Berger (1964. "A cultura de massas 'permissiva' do século XX extraiu uma nova liberdade de um sistema cultural anteriormente repressivo e hierárquico" (Silvio Funtowicz. resultados coletivos. e aumenta também com o aumento da temperatura. ela cresce sem parar. Nas cidades. é nosso estranho. ainda com G. "[. até os que a elas se opõem.tempo. O lugar é o quadro de uma referência pragmática ao mundo. massas que estavam estacionárias". talvez. contribuir para o necessário entendimento (e. Todos os capitais. Nos tempos de hoje.

a metrópole foi definida. em um outro lugar (Santos. estar em fase com esse imaginário perverso e ir descobrindo as fabulações. 131 . uma divisão do trabalho imitativa. acreditáramos que os homens mais velozes deti nham a inteligência do Mundo 131. uma economia expli citamente globalizada.° 4. exatamente. como as possibilidades e as vias da intersubjetividade e da interação. adaptáveis. as mais complexas? Nas grandes cidades. produzida de cima. que.acaba por ver pouco. ou vai comandar. chegar à velocidade que capitalizam dando-lhes acesso ao possível. Friedmann (1963). isto é. as divisões do trabalho consideradas mais simples pelo discurso dominante. Essas metamorfoses do trabalho dos pobres nas grandes. 220 219 . e um setor produzido de baixo. "Onde quer que o espírito europeu domine. vem. de fato. o máximo de modificação da natureza exterior.existem duas situações tipo em todas as grandes cidades. a "sua" civilização para o resto do mundo descobrindo que. também. incluídos os imigrantes. o próprio meio ambiente construído frequentemente constitui um obstáculo à difusão dos capitais no vos. p. dependente de normas implacáveis. La Plêiade. por muito tempo. é a sua perdição. Há. que tirou a citação de Pierre Pascallon (Cahiers d'économie personaliste. Essa era a base da teoria do pólo e da periferia de G. avultam as relações de proximidade. da cidade e do mundo. Myrdal (1957). F. esquema dual. Nas atuais condições de globalização. 54). sobretudo a grande. os guetos urbanos. ela tenderá a cindir-se unicamente em povos que esperam (a quem é permitido esperar. é o tempo dos homens lentos. o máximo de ambição. e sustentadas no seu próprio meio geográfico. Mas. Palco da atividade de todos os capitais e de todos os trabalhos ela pode atrair e acolher as multidões de pobres expulsos do campo e das cidades médias pela modernização da agricultura e dos serviços. 23). Cada qual é responsável pela instalação. para quem tais imagens são miragens. 1977. Vitesse et politique. aparece como diversidade socioespacial a comparar vantajosamente com a biodiversidade hoje tão prezada pelo movimento ecológico. com o reconhecimento da existência de um setor dito informal ao lado de um setor dito formal da economia. nos países ricos. o tempo que comanda. que criam outros tantos sistemas de solidariedade. depois. que tam bém são uma garantia da comunicação entre os participantes. o máximo de rendimento. Agora. 1991). encontra Durante muito tempo. que tanto se manifesta pela pro dução da materialidade em bairros e sítios tão contrastantes. as respectivas divisões proteiformes de trabalho. mais profundamente. Pode -se. 1922. nas cidades. Desse modo. vol. de divisões de trabalho típicas. a precar iedade da existência de uma parcela importante (às vezes a maioria) da po pulação não exclui a produção de necessidades. Diz-se destas normas que são complexas por causa do seu conteúdo científico e tecnológico e de sua busca d e precisão no processo produtivo. este sendo tomado como uma forma -conteúdo. Sua comunhão com as imagens.e permeadas por uma infinidade de situações intermediárias . comparados a outras áreas da cidade. Os homens "lentos". a cidade. Seu conforto. No primeiro caso. 132 . quanto pelas formas de trabalho e de vida. utilizado primeiro para os países do Terceiro Mundo (Santos. nos países subde senvolvidos pelo menos. também. o máximo de relações e trocas'" (Paul Valéry. Mas aqui o quadro ocupacional não é fixo: cada ator é muito móvel. uma multiplicidade de combinações em movimento permanente. Com isso. inclui os setores desprivilegiados da sociedade. entretanto. Quem. Lê système national mondial hiérarchisé. sobretudo no Terceiro Mundo. aliás. admitir que. Como resposta. a cidade é um grande sistema. p. na esteira de um Valéry sonhador. vemos surgir o máximo de necessidades. cidades cria o que. 4. I. de urrulado. o que se dá é tudo ao contrário. p. plásticas. Nesse sentido. calcadas no consumo as razões para se instalar e se reproduzir. instáveis. que moram e subsistem em um mundo finito" (Paul Virilio. Hoje. Graças à sua configuração geográfica. E a presença dos pobres aumenta e enriquece a diversidade socioespacial. para assumir um estado de fato. 1979) e hoje ampliado aos países ricos. frequentemente prefabricadas. graças ao fenómeno das redes e à difusão da modernidade no território. p. dizer que há uma especialização de atividades por cima e uma especialização de atividades por baixo. não podem. dotadas de grande capacidade de adaptação. Pode-se. à decisão. Há uma variedade infinita de ofícios. como o lugar em que se concentravam os recursos da Nação e a densidade capitalista era mais alta. na cidade. J. Perroux (1961) e J. "Com a realização de um progresso de tipo dromocrático. que não desejam perder. tem mobilidade . Em todos os casos. n. ao projeto. Durante séculos. na economia mais pobre.e pode percorrê-la e esquadrinhá-la . tanto se ampliam a necessidade e as formas da divisão do trabalho. A força é dos "lentos" e não dos que detém a velocidade elogiada por um Vi rilio em delírio. todos esses subcírculos ou subsistemas de solidariedade tendem a especializações que não têm a mesma natureza. tenderiam a dar às relações de proximidade um conteúdo comunicacional ainda maior e isso se deve a uma percepção mais clara das situaç ões pessoais ou de grupo e à afinidade de destino. dentro das cidades.das classes mais abastadas. ao infinito: a velocidade é a esperança do Ocidente) e povos que desesperam. a humanidade perderá a di versidade. Boudeville (1964). mediante incitações externas e internas. É por aí que a cidade encontra o seu caminho para o futuro. produto de superposição de subsistemas diversos de coope ração. e mais rapidamente. bloqueados pela inferioridade de seus veículos técnicos. do convívio com essas imagens. é um setor popular e. pode-se dizer que. um híbrido de materialidade e relações sociais. estamos civilizar-se primeiro e empurrar. Citado por Michel Beaud (frontispício). o máximo de trabalho. Sua s olidariedade se cria e se recria ali mesmo. podendo sem trauma exercer atividades diversas ao sabor da conjuntura. em Oeuvres. afinidade económica ou cultural. talvez caricatural. de cuja obediência depende a sua eficácia. adaptam -se a si mesmas. denominamos de "flexibilidade tropical". Não pretendemos aqui reproduzir um velho esquema de análise da economia urbana. 1987. o máximo de capital. em futuro. mas não dualista. sabemos que o capital novo se difunde mais largamente. enquanto a solidariedade imposta pela cooperação de tipo hegemónico é comandada de fora do meio geográ fico e do meio social em que incide. 132 A literatura que glorifica a potência incluiu a velocidade como essa força mág ica que permitiu à Europa . nas condições atuais . o máximo de poder. Hirschman (1958). grifo do autor). 1986. hoje. nos países pobres. 1014. Mas a primeira é rígida. no campo do que na cidade E nesta. Na grande cidade. A. são.

A cultura de massa é indiferente à ecologia social. tendem a abri - Na cidade "luminosa". e os espaços regulares são fechados. É na esfera comunicacional que eles. É assim que eles escapam ao totalitarismo da racionalidade. O choque entre cultura objetiva e cultura subjetiva torna -se instrumento da produção de uma nova consciência. 1992. reconhecendo-os como um jogo ou uma limitação (M. consumo material e imaterial. A cultura.As classes médias amolecidas deixam absorver -se pela cultura de massa e dela retiram argumento incapacidade de prospectiva. Os espaços inorgânicos é que são abertos. opostos às zonas luminosas. É a vitória da individualidade refortalecida. Tudo voa. Trata-se. forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo. da busca do futuro sonhado como carência a satisfazer . Heidegger. cuja memória lhe é estranha. Essa busca de caminhos é. Segundo P. a realidade e a noção de residência (Husserl. na cidade. com as populações e as coisas já pre sentes. frequentemente. da sociedade local e do lugar. crescentemente inegalitárias. quando os indivíduos e os grupos se desfazem de um sistema de costumes. também carência do consumo político. Estas são os espaços do aproximativo e da criatividade. a sucessão aluci nante dos eventos não deixa falar de mudanças apenas. o feitiço se volta contra o feiticeiro. Vir para a cidade grande é. p. Esse futuro é imaginado ou entrevisto na abun dância do outro e entrevisto. de cuja construção participava: uma familiaridade que era fruto de uma história própria. os pobres abrem um debate novo. visão iluminada do futuro e não apenas prisão em um presente subalternizado pela lógica instrumental ou aprisionado num cotidiano vivido como p reconceito. Em muitos casos. um sistema de gestos sem surpre sa. para eles. inédito. a "naturalidade" do objeto técnico cria uma mecânica rotineira. encon trando novos usos e finalidades para objetos e técnicas e também novas articulações práticas e novas normas. mas seu alcance é o mundo. como todas as demais pessoas. as mes mas imagens. Sartre) do 222 221 homem não se esvaem. O homem mora talvez menos. uma cultura de massa e uma cultura popular. na vida social e afetiva. mas ele mora: mesmo . 240). moderna. hoje. Essa historicização da metafísica crava no organismo urbano áreas constituídas ao sabor da modernidade e que se justapõem. é uma herança.essa "carência fundamental" no dizer de Sartre -. Quando o homem se defronta com um espaço que não ajudou a criar. desculturização. Diante das redes técnicas e informacionais. que se alimenta das coi sas. os mesmos trajetos. estão isentos dessa absorção. Desse modo. O movimen to se sobrepõe ao repouso. Seu quadro e seu limite são as relações profundas que se estabelecem entre o homem e o seu meio. A circulação é mais criadora que a produ ção. é. mesmo porque não dispõem dos recursos para adquirir aquelas coisas que transmitem e asseguram essa cultura de massa. fre quentemente. produz um desconforto criador. A cultura popular tem raízes na terra em que se vive. às vezes ruidoso. Lefebvre (1958. Ela responde afir mativamente à vontade de uniformização e indiferenciação. racionalizados e racionalizadores. que colaboram e se atritam. de orie ntação ao presente e de para racionalizar sua existência em pobrecida. O sujeito no lugar estava submetido a uma convivência longa e repetitiva com os mesmos objetos. as imagens. É por isso que as cidades. 283) "a cidade transforma tudo. ou mora muito menos tempo. cuja história desconhece. num mundo do movimento. acusados por uma literatura sociológica repetitiva. cultura popular. Santos. deixar atrás uma cultura her dada para se encontrar com uma outra. gar. também. como turistas ou como imigrantes. O consumo imaginado. esse lugar é a sede de uma vigorosa alienação. Os homens mudam de lugar. OS MIGRANTES NO LUGAR:DA MEMÓRIA ÀDESCOBERTA Vivemos um tempo de mudanças. certamente. nas zonas urbanas 'opacas'. Daí a ideia de De que cultura estaremos falando? Da cultura de massas. Por serem "diferentes". em elementos de cultura". Mas. desterritorialização. denominada cultura por ser hegemónica. as ideias. encarna a vontade de enfrentar o futuro sem romper com o lugar. Desterritorialização é. aven tura vedada aos ricos e às classes medias. inclusive a matéria inerte. O momento da consciência aparece. nas possibilidades apresentadas pelo Mundo e percebidas no lugar. a práxis inventiva de que fala H. p. como contrapartida. ou da cultura profunda. também. Mas também os produtos. um emoliente da consciência. Rimbaud (1973. somam -se e se subtraem num jogo dialético sem fim. as mercadorias. Os carentes. interferem e se excluem. mas não atendido . É assim que eles reavaliam a tecnoesfera e a psicoesfera. e de ali obter a continuidade. simboliza o homem e seu entorno. são fortemente ativos. Então. mas também um reaprendizado das relações profundas entre o homem e o seu meio. a mobilidade se tornou praticamente uma regra. mas de vertigem. através da mudança. Hoje. que é. diferentemente das classes ditas superiores. que ultrapassa a barreira das práxis repetitivas e se instala em uma práxis libertadora. uma outra palavra para significar estranhamento. 1987. espaços da exatidão. ao mesmo tempo. p. onde cada indivíduo era ativo. mais fixa mente olham para o futuro. que se nutre dos homens? A cultura de massa. às vezes silencioso. pobres e migrantes são passivos. são os pobres que. sobretudo os mais po bres.carência de todos os tipos de consumo. superpõem e contrapõem ao uso da cidade onde vivem os pobres. carência de partici pação e de cidadania. 64).

] q ue se substitui à profundidade da duração" (Roger Sue. são quadros de vida que têm peso na produ ção do homem. 133 . em seguida. espécie de consci ência congelada. do mesmo modo que o futuro não pode ser uma decorrência do presente. O novo meio ambiente opera como uma espécie de detonador.. Ao contrário do que deseja acreditar a teoria atualmente hegemó nica. O homem de fora é portador de uma memória. essa urgência. depende cada vez menos da experiência e cada vez mais da descoberta. Ia Espada y el Libro. local ou global. no quadro ele vida. El Mundo. e que de pouco lhes serve para a luta cotidiana.). Essa te se ganhou tal força que hoje. matriz de um processo intelectual. p. o lugar de trabalho. que ele seja desempregado ou migrante. isto é. a reinserção ativa. uma força renovadora. e mudando o homem.. diante de uma sociedade e uma cultura em perpétua agitação. se o Homem é Projeto. O passado comparece como uma das condições para a reali zação do evento. Trata -se de um embate entre o tempo da ação e o tempo da memória. consequente (re)descoberta são indivi duais. mais facilmente o choque da novidade o atinge e a descoberta de um novo saber lhe é mais fácil. mas. e o indivíduo recupera a parte do seu ser que parecia perdida. e mais especificamente sobre as periodizações. a ação comunicativa. e pouco a pouco vai substituindo a sua ignorância do entorno por um conhe cimento. A esse respeito. 134 . ainda melhor. Suas experiências vividas ficaram para trás e nova residência obriga a novas experiências. Cabe -lhes o privilégio de não utilizar de maneira pragmática e passiva o prático-inerte (vindo de outros lugares) de que são portadores. migran te. Quando. é o futuro que comanda as ações do presente. p. Borelli (1992. Assim.. ver Ernest Gellner. no dizer de S. exigindo novos saberes133. esse estado de alerta exigem da consciência um ânimo. quanto menos inserido o indivíduo (pobre. "Nuestros Magníficos Pasados". ao mesmo tempo. e graças ao tropel de acontecimentos. Quando essa síntese é percebida. O lugar novo o obriga a um novo aprendizado e a uma nova formulação. o passado é um outro país. Para os migrantes. A nova consciência olha para o futuro. O entorno vivido é lugar de uma troca. 11. isto é. A consciência pelo lugar se superpõe à consciência no lugar. El Arado. ou. diante da aceleração contemporânea. num outro lugar. 80)134. Ultrapassado um primeiro momento de espanto e atordoamento. 9 de abril de 1994. uma disposição. que interferem reciprocament e. A força desse movimento vem do fato de que. 224 223 . tanto mais surpreendido será o indivíduo. como nos dias atuais. Madri.] o fundamen - exercício de repensar tenha de ser heróico. o to permanente do trabalho subjetivo de pensar é o entorno vital". Digamos que o passado é um outro lugar. por mais breve que sejam. O espaço é um dado fundamental nessa descoberta. o espírito alerta se refaz. Quanto mais instável e surp reendedor for o espaço. Essa proibição do repouso. A memória olha para o passado. a memória é inútil. o passado não está. provinda com ele de um outro lugar. é mister encarar o futuro: perple xidade primeiro. Como escreveu Husserl (1975. enquanto a memória é coletiva..] é o presente que assume todo o espaço e se dá como representação global do tempo [. Na realidade. mesmo se este é uma "eterna novidade". Em que medida a "territorialidade longeva" seria mais importan te que a "efemeridade"? A memória coletiva é apontada como um cimento indispensável à sobrevivência das sociedades. O presente não é um resultado. em La Esíera. os eventos são mais numerosos e inéditos em cada lugar. A "residência"... mas o dado dinâmico na produção da nova história é o próprio presente. enriquecendo as relações interpessoais. 26) "[. O homem busca reaprender o que nunca lhe foi ensinado. reformulando a ideia de futuro a partir do entendimento novo da nova realidade que o cerca.. a cultura do movimento é apontada como o dado essencial da desagregação e da anomia. e tanto mais eficaz a operação da des coberta. a conjunção seletiva de forças existentes em um dado momento. Mas sabemos também que os eventos apagam o saber já constituí do.. necessidade de orientação.Não importa que. que vem do seu papel na produção da nova história. Sua relação com o novo morador se manifesta dialeticamente como territorialidade nova e cultura nova. o elemento de coesão garantidor da permanência e da elaboração do futuro. num processo sempre renovado. Precisam criar u ma terceira via de entendimento da cidade. mencionado por José Luiz Rodrigues Garcia. 1994). o que pareceria uma inferioridade . Ele é o tea tro dessa novação por ser. minoritário. A noção de espaço desconhecido perde a conotação negativa e ganha um acento positivo. "Hoje [. na realidade é uma vantagem. Obrigados a esquecer. uma decorrência do passado. c omo diz Sartre. diferenciados. mudando-se paralelamente territorialidade e cultura. ainda que fragmentário. No lugar novo. o processo de alienação vai cedendo ao processo de integração e de entendimento. um presente ao mesmo tempo concluído e inconcluso. consciente. seu discurso é menos contaminado pelo passado e pela rotina. p. Trazem consigo todo um cabedal de lembranças e experiências criado em função de outro meio. o esquecimento e a Segundo Lowenthal (1975). futuro imediato e passado imediato...

a difusão dos objetos modernos e a incidência das ações modernas não é a mesma em toda parte. um fator. mas. mas. num processo dialético. cuja sucessão nos dá a história do espaço geográfico. políticas e. quem. destacaremos três: 1. que neste nosso mundo belicoso. No plano global. para atribuir a maior produtividade económica ou política às ações e ao espaço em que incidem. somente possível através da instiga ção da competitividade. nas condições atuais. pois. essa técnica constitui. Na escala do globo. a uma perfeição maior que a da própria natureza. também. pode-se lembrar que sistemas de objetos e sistemas de ações em conjunto constituem sistemas técnicos. o confronta. 226 225 . paralelam ente. enquanto no plano local. é essa mais -valia global. económicas. com o que podemos chamar de racionalização do espaço buscam a exatidão funcional. Frutos da ciência e da tecno logia. Esse tempo despótico é um dado menos técnico que. uma ação racional sobre um espaço racional. todavia. 1993. um aspecto. p. É assim que se constitui. geográficas. graças à sua própria ordem. das quais. 3. cujo braço armado é a competitividade. sociais. dotados com as modernizações atuais. a um dinamismo parcial. graças às relações privilegiadas que podem ser estabelecidas entre esses objetos novos. novas relações entre o "espaço" e o "tempo". O exame da realidade geográfica advinda dessas transformações permitirá levantar muitas questões. Presente em todos os aspectos da vida. em si mesmo. podem acolher as açõe s de interesse dos atores hegemónicos. Os objetos que constituem o espaço geográfico atual são intencio nalmente concebidos para o INTRODUÇÃO exercício de certas finalidades. A ordem espacial assim resultante é. com a natureza dos objetos e a natureza das ações presentes em cada ORDEMUNIVERSAL. em cada caso. uma ordem. evoluindo de modo desigual. se dirige a um dado. se constituem. que busca substituir o meio natural e o próprio meio técnico. cons tituem normas de uso dos sistemas localizados de objetos. também. A partir dessas duas ordens. geográfico. uma razão global e uma razão local que em cada lugar se superpõem e. Já que as etapas da ação podem ser rigorosamente J previstas. desse modo. agora unificados sob bases empíricas. esses objetos técnicos á vimos como o movimento para a racionalização da sociedade que marcou o século das luzes e o início da revolução industrial foi. 5). as ações.OBJETOS E AÇÕES I5 ------------------------ Sendo o espaço geográfico um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. Já que a técnica é também so cial. Não se pode afirmar que será sempre assim. o motor implacável de tantas reorganizações. o que se poderia chamar de concertação geral das empresas não é. global. intencio nalmente fabricados e intencionalmente localizados.ORDEMLOCAL: RESUMOECONCLUSÃO momento histórico. quanto se contrariam. a ordem técnica. aqui. Alguns subespaços. intencional. em si mesma. juntas. pouco a pouco. considerado como um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de sistemas de ações. agora. sobre a qual assenta uma ordem social planetária e da qual é inseparável. produz os espaços"'da racionalidade e constitui o suporte das principais ações globalizadas. aspirando. É nesse sentido que o lugar defronta o Mundo. É desse modo que eles são mais eficazes que os objetos naturais e constituem as bases materiais para as ações mais representativas do período. tanto se associam. no contexto de nossa problemática. um subsistema hegemónico. a ordem temporal assim obtida se a ssocia à ordem espacial dos objetos. o território. dentro do conjunto de subespaços. criando. mesmo "desterritorializadas". se atrasa. que é a máquina de guerra de uma mais -valia universal de impossível medida. é a mais guerreira de todas as ações. quem não acerta o passo. Trata-se da possibilidade de Vimos. ocupando todos os recantos da vida social e alcança. Como o espaço não é homogéneo. também. O espaço geográfico assim remodelado é. É a partir desses objetos atuais que se realiza a "velocidade do mundo" e que o relógio do Mundo se dá como sincronização despótica. é penalizado. também. desse ponto de vista. que essa nova etapa do processo secular de ra cionalização é essencialmente devida à emergência de um meio técni -co-científico-informacional. isto é. e nem por isso menos eficaz. constitui uma norma para o exercício das ações. Esta questão já foi examinada em capítulos anteriores. Tentamos demonstrar como esse resultado se deve ao papel das técnicas do mundo de hoje na revolução planetária atual. Se a tendência à universalidade dos subsistem as hegemónicos é garantida pelo fato de que o novo espaço das empresas é o Mundo (Savy &c Veltz. 2. mesmo social. Vivemos o mundo da ação em tempo real. sua definição varia com as épocas. um novo patamar.

transportam. mas não refletem necessariamente os interesses da maioria da população nesses países" (R. nem os lugares: ela se insere. alvo de frequentes transformações. por mais maciças que sejam essas intervenções elas também são tópicas. As diversas empresas regulam as suas necessidades produtivas segundo regras que estabelecem. mas exclusivos . uma ordem espacial é permanentemente recriada. A esse recorte territorial. enquanto no "mundo" só o que cojlta é o global. É assim que. nos seus diversos níveis. hoje. suprimida. tudo conta. o universal ao local. A ordem trazida pêlos vetores da hegemonia cria. de 'território de duas velocidades'" (P. mesmo que possam ter efeitos profundos e mais gerais sobre espaços mais amplos. para responder localmente a imperativos ditos globais. subordinada. e las incluem materialidade e ação. A rede técnica mundializada atual é instrumento da pro dução. para distingui-lo daquele outro recorte. então. a rede praticamente se integra e dissolve através do trabalho coletivo. no sentido próprio.como os interesses das transnacionais . 228 227 . as interconexões. produção de normas. o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Por exemplo: o próprio Pode-se. localmente constituído. da circulação e da informação mundializadas. tanto maior o conflito. 256). quando intervém. a ser mantida. convivem no conflito. a com - petitividade) sugere uma utilização cada vez mais privatista? 136 . De alguma forma o Banco Mundial vem exercendo esse papel. criando o cotidiano da contiguidade. implicando um esforço solidário dos diversos atores. co -presença num. enquanto o "mundo" intervém no espaço e o transforma unilateral-mente. Quanto mais desigual a sociedade e a economia. conduz. já que o seu objetivo . espaços da globalização. No meio local. Mas em todos os casos há conflitos reclamando regulação. mas. um sentido que é seu próp rio. a cada momento. apenas. cuidam de interesses "globais". também. localmente. as redes são globais e. regulad a. Convivência necessária. e tanto vigoram no interior da firma como em suas relações verticais e horizontais. atenuada.. 1994. a globalização.Se o "mundo". espaços mundializados reunidos por produzem privatisticamente suas normas particulares. segundo as circunstâncias. Musso. cuja vigência é. acrescentando o deslocamento em tempo real dos fluxos de informação aos de slocamentos físicos dos homens e das mercadorias. 135 . mesmo. não apenas porque conduz a mudanças funcionais e es truturais. em seu estágio atual. Também já vimos que as redes são mistas. Nesse sentido. onde os objetos se adaptam aos reclamos externos e. Mesmo quando não podem atenuar ou suplantar as normas globais. a distribuição e o consumo135. em todo caso. torna-se ativo sobretudo por via das empre sas gigantes. a que chamamos de verticalidade. desse modo. conflito inevitável. Mas. ao mesmo tempo. p. p. Mas as redes também são locais e. constituem as condições técnicas do trabalho direto. aparentemente. desordem. espaço contínuo. quando.o mercado global . por exemplo. Esse trabalho solidário e conflitivo é.] A rede não substitui nem os territórios.. "[. os governos "globais".] O Banco [Mundial] (da mesma forma que o Fundo [Monetário Internacional] tem sido utilizado como instrumento de política externa dos países desenvolvidos no sentido de realização de reformas estruturais nos países em desenvolvimento que refletem os princípios básicos do liberalismo económico. Muitos desses conflitos pulam da ordem privada para a ordem pública. porque essa ordem não é portadora de um sentido. como um problema coletivo. na criação de infra -estrutu-ras ou na transformação dos transportes. colam aos interesses globais. O "mundo" não dispõe dos respectivos instrumentos de regulação. sobretudo. Mas. à sua proliferação e leva. acentua as polarizações. geralmente e sob muitos aspectos. A luta pelo uso do espaço coloca em posição ativa as empresas gigantes e reserva às demais uma posição passiva. Empresas e instituições dos mais diversos níveis. nos territó rios nacionais. 1994. É o caso dos países subdesenvolvi dos.é uma auto-refe-rência. único mas apenas um relógio mundial. Conviria falar. também não há um espaço global. Mas o fato de que a UMA GLOBALIZAÇÃO DO ESPAÇO? norma se tornou indispensável ao processo produtivo. direta ou indiretamente. formado por pontos.. sua finalidade sendo o próprio mercado global. mas. uma lógica interna própria. "[. pensar numa globalização do "espaço" no sentido de que seu manejamento e atualização incumbam ao "mundo"? uso do espaço. mediante as instâncias não-técnicas do trabalho . Essa é uma situação de conflito. encontram. unindo pontos distantes numa mesma lógica produtiva. É assim que se defrontam a Lei do Mundo e a Lei do Lugar. nessa condição. ao mesmo tempo. mediante a telecomunicação. a um conflito de normas que o mercado não basta para resolver. Gonçalves. sobretudo em suas grandes cidades. Como alcançar um uso coordenado do espaço quando a lei da concorrência (hoje. 120). Ass im. e não só empresas gigantes. as normas territorializadas enfrentam o mundo. do mesmo modo que as redes globais asseguram a divisão do trabalho e a cooperação. naturalmente. chamamos de horizontalidade. Por sua vez. "indiferente" aos contextos em que vêm inserir -se. As demais empresas e instituições raramente têm uma força "global" 136. É o funcionamento vertical do espaço geográfico contemporâneo. é uma globalização perversa para a maioria da Humanidade. Do mesmo modo que não há um tempo global. Nesses espaços da horizontalidade. isto é. essas empresas globais redes.a complexidade da organização espacial é agravada. Nesse sentido.. criam-se processos globais.a circulação. mas. o que constitui tarefa do poder nacional e dos poderes locais.

a existência de normas de uso. agrava outros. de outro lado. Ela é. territorializado. apenas. geograficamente. A utilização dos lugares pelas em presas. entre o Mundo e o Território. E os lugares respondem ao Mundo segundo os diversos modos de sua própria racionalidade. no sentido de teleagidas. das condições locais que garantam eficácia aos respectivos processos. o "Mundo" escolhe alguns lugares e rejeita outros e. 230 229 A ordem global busca impor. seja harmonizando interesses. uma norma global As situações extremas a que inicialmente nos referimos são. o conflito pelo uso dos recursos públicos destinados às infra -estruturas. um território local como norma e uma variedade de situações intermediárias. espaços da globalização. aumentando a velocidade da circulação. também. pois: Mais do que a formação socioeconômica é a formação socioespacial que exerce esse papel de mediação: este não cabe ao território em si. UMA ORDEM LOCAL É desse modo que se associam e se defrontam normas e formas. o território como norma. nesse movimento. A ordem global serve-se de uma população esparsa de objetos regidos por essa lei única que os constitui em sistema. uma única raciona -lidade. Mas o orçamento não é global. pois. como uma mediação entre o Mundo e a Região. é apenas um conjunto de possibilidades. em favor da economia globalizada. seja privilegiando este ou aquele. Esse dado é. O interesse das grandes empresas é economizar tempo. e a situação intermediária entre o país e o lugar são as regiões infranacionais. uma situação não -espacial. São ações "desterritorializadas". A situação intermediária entre o Mundo e o país é dada pelas regiões suprana - cionais. e o individual é o lugar. modifica o conjunto dos lugares. também. por s. os comércios locais) frequentemente é o oposto.i mesma. isto é. formas atualmente usadas e. Nesse sentido pode -se dizer que. o espaço territorial age como norma. separando. neste ou naquele lugar. económicos. num momento dado. Num dado momento. porém. já que. em sua funcionalização. o Mundo depende das virtualidades do Lugar. mas. mediadora. o Lugar. políticos e culturais. informacionais. o espaço como um todo. E ainda que não se formulem outras normas escritas ou consuetudi -nárias de seu uso. em diversos pontos. é. resolvendo um aspecto do conflito distributivo. um conflito. acaba por afetar toda a sociedade. a todos os lugares. Entre essas duas situações extremas.O Mundo. oportunidades oferecidas pêlos lugares. nesse caso. o que supõe de um lado uma existência material de formas geográficas. uma norma. DA AÇÃO GLOBALIZADA COMO NORMA AO TERRITÓRIO LOCAL COMO NORMA UMA ORDEM GLOBAL. o particular é dado pelo país. O orçamento é uma norma que. hoje. pois. fundamental. É o lugar que oferece ao movimento do mundo a possibilidade de sua realização mais eficaz. o exercício desta ou daquela ação passa a depender da existência. A corporatização do território. no caso do Lugar a norma é sobretudo forma. compondo duas situações extremas uma ação globalizada como norma. Considere-se. mas ao território e seu uso. subespaços legais ou históricos. a forma é sobretudo norma. trabalham como um conjunto indissociável. sobretudo as firmas gigantes. a causa eficiente e o efeito final. O interesse das co munidades locais e até mesmo das menores empresas (por exemplo. o território normado. já que o imperativo da competitividade exige que os lugares da ação sejam global e previamente escolhidos entre aqueles capazes de atribuir a uma dada produção uma produti vidade maior. ensejando a espacialização. o "Mundo" necessita da mediação dos lugares. regidos pela interação. mas que cria e recria espaços locais. A formação social nacional funciona. dos seus vetores técnicos. A ordem local é associada a uma população contígua de objetos. As regulamentações de uso da via pública respondem a esse conflito. reunidos pelo terri - tório e como território. No caso do Mundo. Em todos os casos há combinações diferent es de normas e formas. O universal é o Mundo como Norma. localmente. Mas o território termina por ser a grande mediação entre o Mundo e a sociedade nacional e local. . Nesse sentido. função de sua estrutura e de seu funcionamento. O mundo se dá sobretudo como norma. sociais. ou local. desterritorializada e um território local normativo. Formas e normas. com a destinação prioritária de recursos para atender à s necessidades geográficas das grandes empresas. formais ou simplesmente informais. Não existe um espaço global. instalam -se situações intermediárias entre a universalidade e a individualidade. em si mesmo. naturais ou transforma das pelo homem. a velocidade é. segundo as virtualidades destes para usos específicos. já que desse modo a despesa publica ganha um perfil largamente desfavorável à solução de problemas sociais e locais. Para se tornar espaço. cuja efetivação depende das Outro exemplo: objeto de normas locais. jurídicas ou meramente costumeiras. depende desses dois dados e não apenas de um deles. o território nacional. mas nacional.

Para que uma transformação seja adotada. prima a comunicação. As estruturas regionais evoluem lenta e desigualmente. é necessário que ela seja conhecida. "Ordem significa. O cotidiano imediato. Seus parâmetros são a razão técnica e operacional. Tinland. "A combinação regional não reage mecanicamente às solicitações da novidade. uma seleção dos aportes externos e. p. interdependência entre elementos que se condicionam mutua mente e cujas interações fazem aparecer modalidades novas de relações com aquilo que. 75) porque reúne numa mesma lógica interna todos os seus elementos: homens. é sinónimo de organização.No primeiro caso. e para que opere no interior da combinação. espaço irredutível (T. No primeiro caso. a ordem remete à emergência de um tipo de estruturação da realidade segundo formas geradoras de características irredutíveis aos efeitos de fatores externos ao mesmo tempo que permanecem sensíveis a este s" (F. formas sociais e jurídicas e formas geográficas 138. ainda que em cada uma se verifiquem aspectos da outra. Cada lugar é. 138 . cuja existência funcional é depen dente de fatores externos. 1976. 232 231 . A ordem local funda a escala do co tidiano. a vizinhança. a linguagem matemática. A resistência regional realiza portanto uma filt ragem. é a garantia da comunicação. que "reterritorializa". Assim. A ordem global funda as escalas superiores ou externas à escala do cotidiano. A ordem local. No segundo caso. a intimidade. p. a razão local é orgânica. 89). Seu "espaço". A or dem global e a ordem local constituem duas situações geneticamente opostas. do que o simples progresso técnico" (Armand Frémon t. por exemplo. o cálculo de função. objeto de uma razão global e de uma razão local. 1994. empresas. 1994. traço de união de todos esses dados. muito mais lentamente. é formado de pontos. ao mesmo tempo. aqui. inscreve seus próprios ritmos de mudança no curso do mundo. em larga medida. instituições. reconhecida como economicamente proveitosa e considerada culturalmente aceitável. é a do espaço banal. A razão universal é organizacional. dos Santos. movediço e inconstante. e seus parâmetros são a co-presença. p. É que a estrutura das inter -relações forma também uma espécie de resistência ao movimen to. No segundo caso. uma assimilação da inovação aos seus próprios valores. a emoção. A ordem global é "desterritorializada". aliás. é a organização que é produto da solidariedade. 27). a cooperação e a socialização com base na contiguidade 137. localmente vivido. 137 . sem o isolar. no sentido de que separa o centro da ação e a sede da ação. prima a informação que. Os traba lhos sobre a difusão da inovação mostram bem isso. convivendo dialeticamente. a solidariedade é produto da organização.

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