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PROFESSOR: PROFISSÃO, OFÍCIO OU PRÁTICA?

Ana Maria Falsarella PUC-SP / Educação: História, Política e Sociedade

RESUMO Este trabalho propõe uma reflexão sobre a profissionalização docente e sobre os conceitos de profissão, ofício e prática. Destaca a autonomia e a reflexão como bases do profissionalismo docente, para além de uma concepção técnicoespecializada. Destaca o conceito não estático de profissão como decorrência de um processo de construção social. Aponta as ambigüidades e os conflitos que cercam o exercício do magistério, tanto do ponto de vista individual como do ponto de vista coletivo. Fala sobre a dupla vinculação contraditória a que estão sujeitos os professores: como profissionais da educação, ao seu próprio grupo ocupacional; como funcionários públicos, ao Estado, seu empregador. Palavras-chave: formação profissionalização. docente, profissão, ofício, prática docente,

Desejaria que qualquer um pudesse experimentar o nervosismo que existe no ensino, a ansiedade por entrar em aula. É a coisa mais estranha.... não importa que você esteja triste ou não se encontre muito bem ou que as coisas não transcorram favoravelmente, você chegará à classe e, enquanto uma criança progride, tudo lhe parecerá melhor. Porque necessitam de você. Talvez o menino esteja triste e você esquecerá suas preocupações; ou quem sabe ele chegue com algo que simplesmente tenha que lhe dizer e que para ele é o mais importante do mundo. E de repente, eu sei, esqueço meus problemas. Pergunto-me se existem outras profissões como esta, onde se alcance a mesma gratificação. Depoimento de Professora (In: Philipp Jackson, La vida en las aulas, p.169)

O que leva alguém a querer tornar-se professor? Esta pergunta, primeira frase do editorial de um jornal paulistano de grande circulação (Folha de S. Paulo, 20/10/2003, p. A3), levou-me à elaboração deste texto, tendo por fonte principal estudos que eu já havia desenvolvido em minha dissertação de mestrado.

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A resposta, dizia tal artigo, não está evidentemente no salário, muito menos nas condições de trabalho oferecidas, principalmente quando nos referimos ao professorado do ensino público. No Brasil, os professores formam um exército de 2,6 milhões de pessoas. Quando escutam, em palestras ou encontros, quão precária é a formação dos docentes no nosso país, os professores costumam reagir como se esta declaração fosse um ataque pessoal. No entanto, os dados são incontestes. Tendo por fonte o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o mesmo jornal (Folha de S. Paulo, 16/10/2003, p.A1), dias antes, denunciava em manchete de primeira página o quadro soturno sobre a escolaridade docente no Brasil. Para se ter uma idéia, em 2002, apenas 26,4% dos professores que lecionavam para alunos de 1ª a 4ª série do ensino fundamental haviam cursado ensino superior. E ainda havia 2,8% de professores leigos! Não se pode negar que em paises de economia periférica, com seu crônico desemprego, caso do Brasil, a escola é uma grande fonte de empregos, onde, ao lado de vocações verdadeiras, há pessoas que ali estão simplesmente porque precisam trabalhar, por falta de alternativas, para complementar renda. Muitos ainda há que, apesar da extrema boa vontade, são obrigados a multiplicar turnos de trabalho, e fazem o que conseguem dentro das circunstâncias em que trabalham. Sejam quais forem as razões que levam alguém a se tornar professor, concluía o jornal, o fato é que o país ter necessidade urgente deles. Inclusive, por falta de atrativos na carreira, nos próximos anos podem faltar docentes, principalmente professores especialistas para ensino médio. Medidas que invistam na formação dos professores e tornem a carreira mais atraente são urgentes sob pena de continuarmos perpetuando o subdesenvolvimento. E por falar em formação de professores, considero importante abordar um assunto que perpassa toda a prática educativa escolar, qual seja, o da profissionalização docente. O professor é um profissional? Exerce um ofício? Ou é simplesmente um prático? Dentre os diversos autores que tratam do tema, encontrei referência à ocupação docente, ora como profissão, ora como ofício, embora tenham surgido também, para referir-se àquele que se dedica à tarefa de ensinar, os termos semi-profissional e prático.

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Pérez Gómez (1997) detém-se em duas concepções básicas: o professor como técnico-especialista e o professor como prático autônomo. A primeira tem suas raízes na concepção tecnológica da atividade profissional, vista sobretudo como instrumental. No entanto, como qualquer situação educativa é única, variável, complexa, incerta e não se deixa encaixar em esquemas pré-estabelecidos, para o autor, não se pode considerar a atividade profissional do professor como prioritariamente técnica, mesmo considerando que a técnica não deva ser de todo abandonada. Na segunda concepção, na tentativa de superar uma imagem linear e mecânica do papel do professor como profissional, parte-se da análise de como o professor enfrenta os problemas de natureza eminentemente prática que se lhes apresentam na vida escolar, determinados por características situacionais do contexto. Dentro desse enfoque, o pensamento do professor como profissional prático é vital, pois dele depende sua capacidade de mobilizar seus conhecimentos tácitos e técnicos e seus recursos intelectuais para resolver os problemas práticos trazidos pelas múltiplas solicitações da vida escolar. A tradição inicial na sociologia das profissões, esclarece Sarmento (1994), fundada numa visão estática, fixava um conjunto de atributos para considerar um grupo ocupacional como profissional (longa escolaridade, controle na admissão e liberdade de exercício na profissão, a existência de um código de conduta profissional). Foi a aplicação destas categorias ao grupo ocupacional docente que permitiu considerar os professores como semiprofissionais, tal como enfermeiros e assistentes sociais, de acordo com Etzioni (1969), visto que “a sua formação é mais reduzida, o seu status está menos legitimado, o seu direito a uma comunicação privilegiada menos estabelecido, têm menor autonomia de supervisão ou do controle social do que as verdadeiras profissões” (apud Sarmento, 1994, p. 39). Mais recentemente, dentro da sociologia, emerge um conceito não estático de profissão que tem como vantagem considerar a profissionalização como decorrência de um processo social. Assim, segundo Popekwitz (1997), não há um significado universal intrínseco para a palavra profissão, pois ela envolve um conceito de construção social, isto é, só adquire sentido na sua relação com as condições sociais e cenários institucionais a que as pessoas estão sujeitas. Uma profissão pode ser definida pela

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autonomia, pelo conhecimento técnico e pela ética de trabalho que envolve um grupo ocupacional, pode identificar um grupo altamente formado e especializado, que corresponde à confiança pública, ou, ainda, ser vista como categoria social que concede posição e privilégio a determinados grupos. No entanto, alerta o autor, em qualquer das posições, faltaria uma base de sustentação, na medida em que ignoram lutas políticas, confrontos e compromissos envolvidos na formação das profissões. Para Sarmento (1994), profissão é entendida como “o desempenho de uma atividade humana, apoiada num saber e em valores próprios, possuidora de atributos específicos e como tal reconhecida pelo todo social e confirmada pelo Estado” (p. 38). E profissionalismo como “o estado de todos quantos manifestam a sua adesão prática às normas resultantes do processo de socialização profissional” (p. 38). Assim, os professores comporiam “um grupo profissional em plena profissionalização” (p. 43). Se acreditamos que a autonomia e a reflexão estejam na base do profissionalismo, é preciso estabelecer espaço para que elas se dêem. No entanto, na formação de professores, não é isso o que tem acontecido, destaca Popekwitz (1997). A preocupação tem incidido mais sobre uma fragmentária aquisição de informações e de competências dirigidas para a prática que para uma verdadeira orientação intelectual. Na atual reforma educacional, o profissionalismo docente acaba sendo utilizado como uma estratégia para encobrir o aumento da carga de trabalho dos professores e do nível de controle das práticas de ensino, fato que, na verdade, prejudica sua profissionalização. Nesta mesma linha de pensamento, Sarmento (1994) destaca o perigo de que o profissionalismo docente seja utilizado como um dos dispositivos de retórica da reforma educacional que objetiva “submeter os professores a uma tecnização de seu trabalho, que em última análise determina uma perda de autonomia e desvia os professores da consciência crítica sobre as condições de produção social do trabalho docente” (pp. 39-40). No uso corrente da linguagem, no Novo Dicionário Aurélio (1996), a palavra profissão aparece como sinônimo de ofício, havendo, no entanto, certas nuances a diferenciá-las. Exercer uma profissão significa desempenhar uma atividade ou ocupação especializada, que supõe determinado preparo. Exercer um ofício implica ter uma ocupação permanente, de ordem intelectual ou não, que

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envolve certos deveres e encargos e um pendor natural ou certo grau de habilidade. O profissional é conceituado como aquele que exerce uma atividade por profissão ou ofício. Já o prático é o perito, aquele que se vale de um saber provindo da experiência. Profissionalismo é entendido, por sua vez, como carreira ou conjunto de profissionais, ou então, como maneira de ver ou de agir dos profissionais. Professores, na verdade, não formam um grupo homogêneo e não se deve esperar deles uma atitude coesa em nome do interesse comum, alerta Sarmento (1994). Essa ambigüidade de “grupo profissional em plena profissionalização”, e que, então, ainda não é totalmente profissional, perpassa toda a ocupação docente. Lembrando que estamos falando da escola pública, vemos o estado moderno exercendo crescente controle e normatização da educação, o que leva os professores a uma relação ambígua com a própria profissão, a uma dupla vinculação: como profissionais da educação, estão vinculados ao seu próprio grupo ocupacional; como funcionários públicos, estão vinculados ao Estado. Por outro lado, a estrutura burocratizada configura relações impessoais, ao passo que a atividade educativa com os alunos exige uma intervenção personalizada só compatível com a autonomia profissional. Portanto, a ambigüidade se estende ao dilema: orientação para a autonomia com conseqüente aumento de responsabilidade pelos próprios atos versus sujeição ao controle do Estado, com maior estabilidade e segurança no emprego. Face ao exposto, mesmo cientes dos limites colocados à autonomia do professor no exercício de sua ocupação e de toda ambigüidade que a cerca, creio podermos utilizar, para o professor, tanto o termo profissão quanto o termo ofício, embora o primeiro seja mais abrangente, pois, mais que um pendor natural ou habilidade, pressupõe preparo para exercer uma ocupação que é especializada. Agora, sem dúvida, ser professor é mais que ser um prático (com exceção de algumas regiões do Brasil, onde ainda é considerável o contingente de professores leigos, isto é, não habilitados para exercer a profissão em curso de formação para o magistério), uma vez que o professor não se vale somente do saber que lhe traz a experiência, mas também de saberes adquiridos na sua formação inicial e contínua. Neste cenário, não são poucos os paradoxos que envolvem a profissão docente. Ou ofício, se preferirmos. Pede-se ao professor que planeje cuidadosamente suas aulas, mas que saiba lidar com o imprevisto, improvisando.

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Que tenha criatividade e “jogo de cintura”, mas que se adapte às “regras do jogo”. Que utilize formas inovadoras de ensinar, mas que se conforme a classes lotadas e a más condições de trabalho. Que pense no coletivo de sua classe, mas ensine cada aluno de acordo com suas peculiaridades. Assim, exercer o magistério atualmente configura uma situação de permanente ambigüidade e conflito. Do ponto de vista coletivo, o que temos é um grupo ocupacional que avança para a profissionalização, porém que se apresenta ainda muito heterogêneo e submetido á tutela do Estado em diferentes graus. Do ponto de vista individual, o que se nos apresenta é um professor que transita entre a rotina e o imprevisto, entre a conformação e a criatividade, entre o planejamento e a improvisação.

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