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Onde Mora O Destino

Three Kids and a Cowboy

Natalie Patrick

Uma família ideal? As palavras de Héctor foram seguidas de um olhar apaixonado. Por um momento, Miranda pensou que tudo aquilo fosse verdade. Que eles realmente formavam um casal feliz. Mas ela sabia que tudo não passava de encenação: Héctor precisava dela apenas para conseguir a adoção de três órfãos, nada mais. Depois que todos os papéis estivessem legalizados e ele tivesse adotado as crianças, Miranda voltaria a ser apenas a ex-esposa. E o pior de tudo era que ela estava começando a gostar um pouco demais da brincadeira de faz-de-conta.Revisão: Cris Paiva

Você está convidado para comemorar a adoção de Bubba, Grace e Katie pelo sr. e sra. Héctor Sykes. Local: Fazenda Circle S. Lost River, Texas. Data: Assim que Héctor e Miranda entenderem que ainda estão apaixonados e que permanecerão casados para sempre. Presentes e bons conselhos serão bem-vindos.

PRÓLOGO

— Aonde você vai, Héctor Sykes? Para o inferno, se eu acertar o caminho — Héctor respondeu ao cozinheiro da fazenda, Curtis Holloman, e puxou o bocado do freio de seu cavalo. — Como se lá alguém fosse querê-lo... — Crispy, ranzinza, murmurou. — Muita coisa precisa mudar por aqui. — A começar pelo companheiro. — Héctor se virou para o único homem de quem aceitava uma repreensão. Héctor Sykes exercia uma administração rígida. Impunha temor a todos os trabalhadores da Circle S, com exceção do genioso Crispy. Desde que contratara o irascível cozinheiro, e apesar do mútuo tratamento ríspido, ele se mostrava sempre preocupado com Héctor e disposto a ajudá-lo. Héctor aspirou os cheiros familiares do cavalo e dos arreios de couro. — O que eu desejo de verdade é mudar de ambiente, Crispy. — É... Até já sei aonde vai: para a enseada às margens de sua propriedade. Também não sei por que tem de ir tão longe. Para ruminar ainda mais seu humor, qualquer lugar serve. A montaria resfolegou. Héctor acariciou o pescoço do animal e não respondeu. Crispy abriu a porteira rangente. — Ela já foi embora mesmo, menino. Terá de prosseguir sua vida sozinho. Héctor sentiu o acerto daquela afirmação e apertou a barrigueira da sela. Crispy, com sua teimosia, não podia ver que a vida de Héctor perdera o sentido, apesar de seus trinta e três anos. A partida de sua esposa, havia mais ou menos onze meses, contribuíra muito para essa tristeza. Héctor saudou o cozinheiro com o chapéu, pôs um pé no estribo e montou no cavalo. — Vou cavalgar um pouco. Críspy se encostou no pilar da porteira dos fundos. A brisa de verão revolveu as mechas ralas de cabelos acinzentados do homem idoso. — Você comprou a fazenda de seus sogros há apenas trinta dias, Héctor.

— E o que tem isso? — Desde então, posso contar nos dedos da mão direita quantas vezes você ficou para jantar. E veja que me faltam dois, perdidos, aliás, no cumprimento do dever! Héctor sorriu sem muita vontade e colocou as luvas de couro macio. — Falando desse jeito, Crispy, parece que os perdeu cortando carne na cozinha, quando todos nós sabemos que foi um acidente no exército. Crispy gargalhou. Além de ser cozinheiro, era um funcionário muito especial na Circle S, Héctor admitiu, alisando os cabelos loiros para trás e enterrou o chapéu de vaqueiro na cabeça. — Eu nem me preocuparia com sua ausência se soubesse que está namorando, mas... — Já chega. — Héctor fitou o homem rijo e magro. — Contratei você para fazer comida, e não para brincar de Cupido. — Até que não seria mau negócio aproveitar algumas das idéias dele, meu jovem. — Não me interesso por isso. — Héctor cerrou os dentes e bateu com a mão fechada contra o peito. — Esqueça. Tudo o que dizem de mim é verdade. Sou um camarada frio e de coração duro. Por isso minha mulher me deixou, ou melhor, fugiu. — É mesmo? Em Lost River, no Texas, todos sabiam que Héctor e seu irmão, órfãos desde crianças, haviam trabalhado na agricultura com vários membros da família até poderem se sustentar por conta própria. Ávida difícil os deixara acostumados a conversas diretas, sem evasivas. — Aprendi muito cedo que família é tudo, meu velho. Só quem a perdeu pode entender isso. Eu daria a vida para ter filhos. — E... Héctor suspirou, esfregou o lábio com a mão enluvada e fitou o pôr-dosol. As cores brilhantes do céu laranja e carmim incomodaram sua vista. — Os médicos disseram que Miranda não podia ter filhos. Tentamos tudo. Especialistas até sugeriram operações, sem garantir resultados. — Pensaram em adoção? — Seria a última coisa a fazer. — Héctor afrouxou o lenço azul amarrado no pescoço e ajeitou o colarinho da camisa de cambraia. — Eu queria esgotar todas as possibilidades antes. Insisti tanto em tratamentos que Miranda foi

Cada vez que abria a porta da frente. tirou o chapéu de couro preto e passou a mão entre os fios sedosos. Miranda. Tinham esperança de que sua filha.. ouviu um rangido forte. — Era o que me faltava! Este caubói aqui não sabe o que é isso! Héctor despediu-se de Crispy com um toque na aba do chapéu. Héctor teve um pressentimento estranho. incapaz de imaginar a origem daqueles ruídos ao anoitecer. mais nada. E dos momentos em que ele e a mulher namoravam.embora. . Devido à vontade de se aposentar. Héctor lembrou-se dos beijos trocados sob as árvores majestosas de suas margens. Mas Miranda não voltaria. mas era muito honesto consigo mesmo. procurou por algum sinal que o orientasse na direção dos gritos de uma criança pedindo socorro. Héctor se ajeitou na sela e fixouse nas nuvens escuras que rodeavam o ocaso. que cortava as terras compradas havia pouco. Apurou a audição e perscrutou o horizonte. quando as terras ainda pertenciam aos pais dela. Mas o vento trouxe um som da planície que o arrepiou. Era sua maneira de relaxar. ao sul de Circle S. bateu de leve os pés nos flancos do cavalo. seguido de vários baques metálicos e surdos. Nisso. queriam vender-lhe as terras. Suspirou. o Kissing Creek. Assim que perdeu a fazenda de vista.. Desesperado. deu um grito de comando e saiu cavalgando o alazão. antes que o enterrasse de novo na cabeça. seu coração disparava. Os Robbins tinham a melhor propriedade daquela região do Texas. esperando encontrá-la voltando para casa. — Você ainda ama sua mulher? — Amar? Eu. voltaria a viver com Héctor no lar da família. Ouviram o tilintar do metal das rédeas. pois confiavam em seu trabalho. — Héctor engoliu em seco e sentiu um aperto no coração. Depois. Foram em direção ao riacho sinuoso. De repente. que se desmancharam com o vento. Héctor não se importava com a opinião dos outros. viu uma nuvem de poeira vermelha próximo à rodovia. Sentia-se mais à vontade em cima de uma montaria do que numa cadeira confortável.

por favor! A visão do carro destruído tirou-lhe as esperanças de encontrar mais sobreviventes. — Depressa. Enquanto galopava em direção ao veículo. lembrava-se da última conversa que tivera com o casal. rezou e chegou até os destroços. Achou uma perna rechonchuda. Estirou-se para dentro e tateou à procura das crianças. — Oh. Arrancou o lenço azul do pescoço e amarrou-o em volta do rosto. — Você precisa tirar os pequenos antes que o fogo se espalhe. Arrancou a única porta que ainda não estava em chamas. percebeu que era de seus amigos e vizinhos. Desmontou e deu graças ao Senhor por estar com as luvas grossas de trabalho. Deixe que tiro Bubba.. Com cuidado. Héctor sentiu o cheiro da fumaça e se arrepiou. Os cabelos claros estavam manchados de sangue. Héctor. retirou uma menina de uns cinco anos. — Corra para longe! Héctor inspirou ar puro e voltou para o automóvel. — Você precisa respirar. ajoelhou-se ao lado da mulher ferida que soluçava e da menina pequena que gritava a seu lado. Héctor. Héctor a afastou. — Bubba está preso lá. Cerrou os dentes. chegando ao lado do motorista. Foi no dia em que os Stone trouxeram três irmãos órfãos que planejavam adotar para uma visita de experiência. — Eu estou bem — a garotinha disse e fez menção de se desvencilhar.. sujas de fuligem. — Héctor parou o cavalo junto à cerca. Héctor a empurrou na direção oposta ao carro. mas não consigo me mexer mais. — Deus permita que as crianças estejam bem. e uma pequena mão se agarrou na manga de sua camisa. estou muito mal! Tirei Katie. Puxou o arame farpado e passou para o outro lado. cobrindo a boca e o nariz. Assim que viu a caminhonete bege. mas ainda assim tentaria. Ela o encarou. A fumaça negra que envolvia o banco da frente queimou os olhos de Héctor e o sufocou. — Agarrou-lhe a camisa com muita força. — Donna? O que. Donna e Travis Stone. Num instante. O calor e a fumaça do . — Travis? Pode me ouvir? — gritou. que disparou pela planície.Atiçou o cavalo. e as faces.

Héctor conhecia aquele olhar. da época em que teve de assumir a tarefa de tomar conta de seu irmão menor. as crianças se encostaram umas nas outras. para protegê-lo das pontas de metal muito quentes. e. . estavam sós no mundo. precisariam encará-la mais uma vez. mas conseguiu se soltar. — Bubba? Está me ouvindo? Um som abafado veio do assoalho. Não era a primeira vez que aqueles pequenos enfrentavam uma perda terrível. Recordou. chegaram a um local seguro. Em segundos. Com rapidez e delicadeza. Respirou o ar quente sem se importar com o calor seco em seus pulmões. Os três inocentes. A família que eles pensavam haver encontrado já não existia mais. Héctor escorou as pernas contra o chão do carro e puxou com firmeza. Ante a nova tragédia.banco da frente estavam mais intensos. Assim que Héctor se ajoelhou outra vez ao lado de Donna. Héctor saiu do veículo. O menino chorou. de repente. — Bubba. Só o Altíssimo poderia auxiliá-lo na tarefa. tudo estaria envolto em chamas. com toda a força de que foi capaz. chegou até os tornozelos presos da criança sob a lateral do assento. Héctor largou o assento caído e agarrou Bubba de encontro ao peito. Não podia ver o que era. Mesmo sem enxergar nada. um ano ou dois mais velho. de costas. a passos largos. procurou não praguejar. O garoto esfregou uma mancha de sangue do nariz e fitou as irmãs mais novas com um ar de responsabilidade comovente. procurando consolo mútuo. e Héctor sentiu uma dor aguda e quente em sua coxa. mas não conseguiu movê-los. O metal se tomava mais vermelho. mas sabia que nem ele nem o menino tinham tempo a perder. e Héctor apalpou um punhado de cabelos macios. e não queria desapontá-lo. Frustrado. mais uma vez. O menino gritou. você está bem? — a menina de cinco anos perguntou ao irmão. Forçou o assento para cima.

CAPITULO I Seis Semanas Mais Tarde. para encontrar um futuro para si mesma. Tentou ajeitar os fios compridos que lhe emolduravam as faces e caíam por sobre os ombros bronzeados. viu um movimento a sua direita. Fechou os olhos e aspirou o aroma de madeira e lavanda. — Você não veio para enfrentar o passado. da rainha do rodeio de Lost River e da segunda colocada no concurso de Miss Texas? Miranda afastou as finas mechas da testa e torceu o nariz para a imagem refletida. doce lar. Ou melhor. Sorriu e largou a bolsa junto da pequena valise que tirara do carro. quando chegava para as férias. — Mamãe? Miranda se olhou no espelho da entrada e ficou surpresa. você é uma mentirosa — ela se admoestou. mas sim para se confrontar com seu marido. Puxou a cintura da calça jeans. — Fechou um olho e apertou os lábios. embora tivesse certeza . — Miranda Jean Robbins Sykes. Os tempos das grandes esperanças lhe pareceram tão distantes quanto a infância naquele lugar. Quem diria que era o da primeira princesa do condado de Cameron. fazendo-a se abrir e bater no mancebo que ficava na parede da entrada. — Mamãe? Papai? Podem comemorar. desviou o olhar e tornou a encarar a mulher em que havia se transformado. que estava mais justa do que antes. ela se corrigiu. A longa viagem desde Tulsa deixara aquele ar cansado no rosto. de relance. Miranda jogou os cabelos escuros para trás e... Lar. depois de empurrar a porta da frente com um joelho erguido.. Consultou de novo o reflexo. — Não conseguirá levar isso adiante se não admitir que voltou para encará-lo e dizer-lhe que o casamento. do mesmo jeito como Miranda sempre fazia na sua infância. Suspirou.. A filha pródiga voltou para casa! — Miranda Robbins Sykes entrou na residência da fazenda de seus pais. Não conseguiu pronunciar a palavra “terminou”. Os olhos grandes e verdes não pareciam ser dela. Havia voltado para Lost River a fim de encarar o passado.

especialistas. Héctor ficaria livre. Mais uma teoria. Entretanto. triste. Nos últimos tempos. Héctor fora inflexível no propósito de terem um bebê. A paixão que os inflamava com um simples olhar se reduzira a um ato calculado e clínico. começara a desmoronar desde o dia em que soubera que não poderia dar a Héctor aquilo que ele mais desejava no mundo: filhos. Poderia até voltar a se casar com uma mulher que pudesse ser a mãe de seus bebês. Tudo tinha de funcionar à perfeição.. Compêndios. Eles se amavam. que ia muito a Tulsa. Inalou mais uma vez os cheiros familiares e olhou o tapete pequeno a seus pés. aumentava a distância entre os dois. sabia que era o fim. Mais tarde. tivera a mesma atitude ao enfrentar a infertilidade da esposa. Quando os pais dele morreram. Héctor se empenhara a fundo para cuidar de seu irmão caçula e na formação de um plantei de gado campeão. antes de Miranda ir embora. Héctor insistia. Ainda depois de tanto tempo. E tudo isso a levou ao desespero e à fuga. e isso era fruto de sua experiência de vida. Abraçou-se. a fria realidade a constrangia. afinal. As deliciosas conversas sobre o futuro se transformaram em discussões a respeito de vantagens e estatísticas dos novos processos auxiliares da concepção.. Miranda conhecera um jovem advogado de Dallas. Conrad Harmon III. E que seu relacionamento com Héctor chegara ao fim. Desse modo. . A cada tentativa fracassada. disfarçar a dor e a frustração não fazia parte do temperamento de Héctor Sykes. Ironia do destino! O que Miranda mais amava em Héctor eram sua paixão animal e indomável. mais uma opinião médica. Tinha voltado para mostrar o que um ano de isolamento e introspecção lhe ensinaram. contanto que o marido estivesse de acordo. Quando soube de sua infertilidade. tratamentos. e se oferecera para entrar com um processo de separação sem ônus algum. Ainda assim. o homem que ela amava com todas as fibras de seu ser não iria passar o resto da vida censurando-a no íntimo por prejudicá-lo. Divórcio era uma palavra terrível. seria a solução mais acertada. Mesmo sabendo que sairia do litígio com o coração arrebentado. Conrad se condoera de sua aflição e suas lágrimas. sua obstinação e a lealdade a toda prova.do que pretendia. Miranda achou que conseguiriam superar o problema. Aliás. e juntos. mal se falavam. Apesar da dor que lhe invadia a alma.

Crispy? Que nome estranho!” . A última coisa que desejava era a censura dos pais e um marido prevenido a sua espera. aos berros. e você não manda em mim! Miranda se assustou e fitou a escada a sua frente. — O quê. “Quem será Katie?”. — Vou segurar pela asa — a voz de um homem afirmou. Ouviu uma série de batidas no andar de cima. e nós não conseguimos segurar. “E comprar uma casa enorme como esta e enchê-la de crianças alegres e felizes. — Ela está escorregando. disposta a verificar o que estava acontecendo.Miranda refletiu. Miranda se perguntou.. Mal havia subido dois degraus e a gritaria recomeçou. O que teria acontecido na sua ausência? Seus pais teriam aberto uma escola maternal ou estariam tomando conta dos filhos dos vizinhos? Ela não falava com seu pai e sua mãe havia três meses.. Crispy — uma das crianças se queixou. Não queria que tentassem dissuadi-la do divórcio. com mágoa e resignação. segure Katie! — Agarre-a e espere — o homem encorajou.. seguida de uma confusão de vozes.. “Sr. — Essa coisinha me mordeu! Pelo jeito. nem deixar Héctor a par do assunto.. — Ela foi para quarto! — Segure. Miranda apoiou-se no corrimão de carvalho envernizado e liso. mas parou no primeiro degrau ao ouvir sons de uma corrida com pés descalços. — Mãe? Pai? O que está acontecendo por aqui? — Ai! — o adulto gritou. Katie não era um anjo. — Não vou tomar banho. sr. — Mas cuidado com os dentinhos! Miranda não entendia nada. Não que aquela algazarra fosse melhor.” Até podia ouvi-las. As velhas dobradiças da porta do banheiro superior rangeram. Foi até a escada.. Miranda imaginou seus pais lutando com um anjo. Miranda apressou-se a subir. — Pegue Katie! Pegue! — duas vozes infantis entoaram em uníssono.

— Nossa! E a mulher do retrato que está na parede do escritório! — Como vai. vinham atrás do homem. sra. A garota mal tocava os degraus. educado. fazendo balançar os óculos de aro de tartaruga. desafiador. Sykes? — Crispy cumprimentou-a. um menino e uma menina mais nova. mas quem são vocês e o que estão fazendo na casa de meus pais? — Uau! — Crispy berrou diante de Miranda. As crianças trombaram nas costas ossudas do homem. Miranda olhou para cima e viu uma menina pequena. à direita da escadaria. Os olhos azuis pareceram enormes atrás dos aros escuros. — Quem é o senhor. O senhor magro era uma figura engraçada descendo a escada com os joelhos protuberantes e os cotovelos se movimentando em ângulos estranhos. com os cachos loiros cobertos de espuma. — Ela foi por ali! As duas crianças. A menina esbarrou nela numa confusão de braços e pernas molhados. Miranda ergueu um braço e tentou aparentar naturalidade. Nenhum dos perseguidores se deu conta de sua presença até pararem quase em cima dela. — O que está acontecendo aqui? — insistiu. encharcando seu jeans. — Ela quem? — Bubba tornou a perguntar e ergueu as sobrancelhas. na pressa de descer e fugir das outras duas e de um homem idoso. e o que faz na casa de meus pais? . muito bem arrumados. mas não foi rápida o suficiente. — Desculpem-me. rechonchuda e nua.. A escada... A garota segurava um roupão vermelho desbotado. Crispy apontou as manchas de bolhas de sabão que formavam uma trilha no living impecável. — Está indo para. — Ela quem? — o garoto perguntou. e a fitou por detrás de uma das pernas de Crispy. — É ela — a menina murmurou. que Miranda reconheceu como o que esquecera no closet havia muitos anos. — Crispy pôs as mãos na cintura e ergueu a cabeça. bonita. mas Miranda não perdeu a pose. — Se é mesmo. que corriam atrás dela.— Ela fugiu — a mesma menina continuou. Miranda pensou em segurar o anjinho. me belisque para eu ver se estou acordado. admirada.. cruzou os braços sobre o peito e franziu o nariz.

— Encantado. a senhora não acha? — E. Miranda fitou o homem que se afastava e se voltou. Decididamente. — Sou Curtis Holloman. encostados um no outro. acho que não. se me permite dizer isso. arregalavam para ela os olhos azuis.. o fôlego na tentativa de deter Crispy. Não queria ofendê-lo e lhe estendeu a sua. Inclinou-se num cumprimento.. — Pode me chamar de Crispy. senhor. os cabelos grisalhos e as pernas tortas. mas todos me chamam de Crispy. Miranda imaginou que o gesto seria devido às pessoas que se sentiam mal em lhe apertar a mão defeituosa. mas não costumo me meter em assuntos particulares. Ele fitou os dedos longos e os olhos verdes de Miranda. mas tem de me explicar o porquê de sua presença na casa de meus pais e.. Miranda retribuiu o cumprimento caloroso. apoiada no corrimão. —. — Não se preocupe.. Crispy. senhora. madame. como se tocasse a aba de um chapéu inexistente. e não será nada bom se ela encontrar uma das crianças correndo pela casa sem roupa. — Levou uma das mãos ao peito. se me der licença. Agora. . Ele baixou a cabeça e levou a mão à cabeça. — Desculpe-me. O cozinheiro se desvencilhou. Curioso era o termo exato para o momento. sem largar Crispy. madame.. — Prazer em conhecê-lo..— Desculpe-me. andou rápido até a porta e se virou para trás. — Miranda perdeu. — Será que vocês poderiam me dizer o que está acontecendo aqui? — Miranda perguntou. — Mas. preciso achar a pequena Katie.Prazer em conhecê-lo. sou mesmo um mal-educado. e esticou o braço para a frente no maior entusiasmo. sra. feito um bichinho. não o conhecia. madame. Miranda notou-lhe a falta de dois dedos. — Hoje virá aqui uma assistente social. Os dois pequenos de cabelos loiros e Usos. Sykes! Estava muito curioso de encontrar a senhora. — Crispy sorriu.

Os irmãos se entreolharam e nada responderam. — Pelo menos, digam onde estão os donos da casa. O garoto estreitou os olhinhos, chegou mais perto de Miranda e estufou o peito. — Não podemos falar com estranhos — afirmou, com firmeza. — Mesmo que pudesse, não iríamos lhe dizer uma coisa tão importante. — Ela não é uma estranha, Bubba. — Grace enrolou o roupão, cutucou o irmão com a trouxa de pano e também se aproximou. — Essa moça é a princesa da parede. Miranda não pôde deixar de sorrir. A garotinha decerto se baseara nas fotos dela, usando um belo vestido com insígnias reais, no escritório de seu pai, para tirar suas conclusões. Acariciou o queixo rechonchudo de Grace. — Não sou... — A senhora é linda, igual às fotos, Alteza — Grace murmurou, interrompendo Miranda. — Todo o mundo acha isso, sobretudo Héctor, porque ele fica muito tempo olhando... — Héctor? — Miranda se admirou, com o coração aos saltos. — Héctor Sykes? O que faz ele nesta casa, olhando minhas fotografias? — Ele mora aqui, ora! — Grace deu uma risadinha afetada e apertou o roupão amassado contra o corpo. Miranda se perdeu no redemoinho da incompreensão. — Héctor mora aqui? Nesta casa? Não acredito. — A senhora pode não acreditar. — Bubba ergueu o queixo, insolente. — Acontece que ele está chegando. Miranda mal teve tempo de se virar antes de a porta bater de novo, e com força, no mancebo. — Héctor... — Não conseguia se mover. Ele surgiu à soleira, com os ombros largos e o chapéu de caubói. A luz do sol atrás de Héctor deixava seu rosto na sombra, impedindo que Miranda lhe visse a emoção. Apenas o barulho das sacolas da mercearia, seguras por dedos nervosos, denunciaram que ficara surpreso ante a presença dela. Miranda tentou engolir, piscar, pensar no que dizer após tanto tempo. Não conseguiu reagir, no entanto. — Randi... — Héctor quase não moveu os lábios. Sua voz era um

simples sussurro. Miranda estremeceu com a lembrança do apelido carinhoso. Héctor parou junto ao batente, mudo, com o sol do Texas às suas costas e a visão de sua esposa queimando-lhe a alma. Teve de lutar para vencer um tremor intenso e quase incontrolável. Não podia acreditar naquele milagre. Teria Miranda voltado para casa? Para ele? O tempo fora capaz de curar as feridas que Héctor causara na mulher que tanto amava? Se Héctor tivesse certeza de que Miranda havia, na verdade, voltado para ele, não hesitaria. Iria se ajoelhar a seus pés e lhe pediria perdão. Agradeceria a Deus e a todos os anjos do Universo, e a levaria para o quarto mais próximo. Fariam amor até perder o fôlego, para esquecer as noites solitárias daquele ano inteiro. Até ter a certeza de que jamais se separariam. Mas o olhar de Miranda deixava claro que ela viera, após tantos meses de separação, encontrar os pais, e não o marido. Héctor sentiu suas esperanças se esvaírem e a dor crescer no peito, junto com a angústia e a solidão dos dias passados. Aspirou o perfume de Miranda, que impregnava o ambiente e lhe trazia a memória de sua sedução. Como podia amar tanto uma mulher a ponto de pensar na morte por ela tê-lo abandonado, e, naquele momento, só querer recuperar o tempo perdido e amá-la até morrer? Levou a mão até a aba do chapéu e o baixou um pouco, para que Miranda não lhe visse o grande amor estampado no rosto. Se ela percebesse o tamanho de seu sofrimento, talvez nem reagisse. Permanecia imóvel, lívida pela surpresa, a respiração leve e o corpo tenso, como se fosse saltar à menor provocação. Após um ano de distância, Héctor percebeu-lhe uma mudança, mas não soube precisar em que sentido. Parecia mais humana, feminina e confiante. Miranda lhe daria a chance de provar que ele também mudara pela infelicidade daqueles doze meses? Acreditaria nele? E por que se incomodava com isso, depois de tudo o que ela fizera? Héctor se recusara categoricamente a aceitar a idéia de adoção e, naquele dia, Miranda voltara e encontrara a casa cheia de crianças. Sorriu com tristeza e fitou Bubba e Grace, ambos excitadíssimos. Héctor não podia antecipar a reação de Miranda no momento em que ela soubesse dos fatos, e nem mesmo se poderiam tentar uma reconciliação. Devagar, pôs as sacolas cheias no chão. Os três o encaravam, e só se ouvia o barulho de papel amassado. Embaraçado, Héctor derrubou uma delas.

Rolaram maçãs e latas pela saleta. Adiantou-se, sem dar atenção ao fato. — Bubba, Grace, onde está Crispy? — ele quis saber. — Atrás de Katie. — Grace sorriu. — Nossa irmã saiu correndo do banho quando entrou sabão no olho dela. — Quem sabe vocês possam ajudá-lo a lavar a cabeça dela? — Héctor se admirou pela tranqüilidade que demonstrava ao falar. Esperava poder continuar mantendo a calma. Pôs as mãos úmidas na cintura e inspirou fundo. — Randi... Quer dizer, sra. Sykes, gostaria de lhe falar por um momento, a sós.

CAPITULO II

— O que aconteceu, Héctor? Onde estão meus pais? Por que você está morando aqui? — Miranda perguntou tudo sem ao menos respirar. Seguiu Héctor até o escritório que sempre fora de seu pai. O coração batia descompassado, e ela não podia imaginar que a simples visão de Héctor caminhando a sua frente poderia perturbá-la tanto. As pernas bambeavam, e Miranda tremia sem controle. Esfregou as palmas das mãos suadas na blusa leve de verão. Héctor teria ficado contente por revê-la de modo tão inesperado? “Isso não tem a mínima importância”, decidiu. Para o bem deles mesmos, não o deixaria perceber a fraqueza e emoção que a invadiam. Jogou os cabelos para trás e ergueu o queixo. Tinha vindo para enfrentar Héctor, e era o que faria, assim que se inteirasse do que acontecia naquele lugar. Ficou em pé junto à porta, encostada na parede fria, e cruzou as mãos no peito, à espera de explicações. Devagar, Héctor deu a volta na mesa enorme. O painel cheio de retratos ainda estava lá, um tanto amarelado. Aquele cômodo tratava-se de um verdadeiro escritório de fazenda. Aparentando indiferença, Héctor sentou-se na poltrona de couro e puxou-a para a frente. O ruído do estofamento rompeu o pesado silêncio. Tirou o chapéu e o pôs sobre o tampo. Durante aqueles momentos angustiantes, antes de obter as respostas, Miranda não teve como deixar de observá-lo. Lembrou-se da última vez em que vira Héctor, adormecido sob os

sem desviar o olhar. Ele não cortara os cabelos por ela não estar perto ou para ficar mais atraente para outras mulheres? Teria Héctor mudado tanto? Não que se importasse com isso. Por outro lado. ela o abandonara. Héctor. combinava muito bem com seu rosto bonito. Héctor sempre lhe parecera um personagem saído de um filme de faroeste. Um riso gelado e duro.. seu apelo sexual. — Eu é que preciso saber o que está acontecendo. — Por favor. . as pernas longas. Miranda se mexeu. esperando que sua blusa solta escondesse os cinco quilos que engordara comendo doces e chocolates para enganar a tristeza. que estavam bem mais longos. Parecia impossível. Héctor estendeu as mãos sobre a mesa. nu e com um sorriso sedutor nos lábios. Héctor passou uma das mãos sobre as ondas de seus cabelos loiros. Miranda voltara.lençóis amarfanhados. Miranda suspirou. Héctor a encarou com os olhos azuis e penetrantes. Muito bem-apessoado. mas aquele ano aumentara seu encanto masculino. o que. com tantos problemas não resolvidos. aliás. musculoso e esbelto. de ombros largos e com um visual de fazer inveja a qualquer mortal. pois alguém tinha de tomar a iniciativa. não me chame assim. Os lábios finos esboçaram um sorriso. que era um homem fiel. Héctor tinha o direito de achar uma companheira. O sol penetrava pela janela e se refletia na aliança da mão esquerda. censurando a própria angústia. Ele riu. — Gostei de vê-la outra vez. Só mesmo um idiota estaria atrás de um relacionamento. E também não fazia o estilo de Héctor. Afinal. e você sabe disso — Miranda afirmou. Randi. com tremor na voz. — Héctor pediu. — Miranda baixou o olhar para a ponta das botas. Sempre fazia esse gesto quando tirava o chapéu. ainda estava casado com ela. — Não. Miranda não gostou.. inquieta. o tronco e os braços musculosos delineados sob o tecido fino. — Muita coisa mudou. Miranda não se afastou da parede e respirou fundo. — Você gostava desse apelido. — Pode falar. — Essa situação não pode continuar.

por seu olhar.. — Agora chama-se Circle S.. talvez um pouco de ternura. Era como eles haviam batizado a velha propriedade onde moravam.. fazer uma surpresa. Não liguei este mês. De novo. — Encarou-a. com armas. bagagens e relíquias. Não teria coragem. — Não nego que voltei para resolvermos nossa situação. — Comprou? — Miranda encolheu os ombros. — Bem. escrevi uma carta. Como não os achei em casa ultimamente. Circle S. — Eu também. gostaria de saber por que chama de sua a casa de meus pais. Telefonava apenas para informar que estava bem. Héctor.. Não demonstrou nenhuma emoção. — E o que vamos fazer a respeito? Quando cheguei. com a cabeça ereta. Para começar. Miranda esboçou um sorriso pálido. — Você comprou a Fazenda Robbins Nest? Héctor se remexeu na poltrona. aturdida. O capataz e a mulher estão na moradia velha. Um sentimento de culpa a invadiu. Você foge durante a noite. — Porque a comprei deles há três meses. — Está morando aqui? — Claro. pude entender. inflexível. que não voltou para mim. pensando em vir e. — Por que deu-lhe esse nome? — Piscou. se telefonasse com mais freqüência para eles ou lhes informasse de seu paradeiro. sem energia para acreditar. como símbolo de seu amor eterno. Estou surpreso. Mas ela não podia acreditar que aquele homem impenetrável ... Apenas aumentei a área da outra fazenda. — Não dei nome nenhum. — Acho que seus pais não gostariam de ver a residência vazia. Miranda não entendeu o significado daquela atitude. Ran. enquanto estive fora. você conseguiu. Poderíamos tentar solucionar o problema”. Miranda. Só queria fugir. pensou Miranda. Você saberia dos fatos. — Eu não tinha muito a dizer a eles. “Se ao menos ele deixasse transparecer o que lhe passava pela mente. passa um ano sem dar notícias e de repente aparece na minha casa e pergunta a mim o que está acontecendo? — É isso mesmo.— Engraçado. Héctor. Héctor permaneceu impassível. Ainda bem que não tivera de dizer aquilo.

se ele percebesse o quanto estava perturbada. Héctor — repetiu. O escabelo de couro trabalhado e as estantes enormes também. — Quer mesmo. — Diga que não me ama. Passou a mão úmida no brim da calça e balbuciou: — Seria bom se me dissesse onde estão meus pais para eu poder encontrá-los. Até poesias rurais que evocavam o passado daquela terra. Piscou para disfarçar as lágrimas. furiosa. . E o futuro. — Não precisa fingir. Tinha de sair dali. Não adiantava se iludir. Bebês: Técnicas Modernas de Concepção. mas. num sussurro. O olhar azul penetrante não deixava entrever seus sentimentos. Estou invulnerável a ele. Uma Pausa Para a Gravidez: Por Que Você Não Pode Esperar Para Tratar a Infertilidade.não a odiasse por não lhe ter dado um filho. Umedeceu os lábios secos. na esperança de que a familiaridade a confortasse. Ela sentiu o aroma da pele. ainda assim. Não queria passar o resto da vida pensando que Héctor se sentiria logrado. Héctor! Sei que está irritado e tem vontade de despejar um monte de desaforos em cima de mim. Fitou os livros nas prateleiras. com suavidade. por favor — pediu. — O que você quer dizer com isso? Miranda chegou até a mesa e se apoiou nela com as duas mãos. da camisa engomada do marido. Miranda percorreu com os olhos o vasto escritório. Compreendeu tudo naquela noite em que foi embora. O papel de parede de cores delicadas era o mesmo. Não conseguiria levar adiante seu propósito de separação. Como Héctor podia manter a calma diante de uma situação como aquela? Héctor se levantou e fez a poltrona virar para trás e bater na parede coberta de fotos. Quem sabe seja não encontrou outra mulher? Pode falar! Diga que não me ama mais! Héctor se inclinou na direção de Miranda. Miranda estremeceu. e o encarou. Havia de tudo. — Não precisa usar seu charme comigo. Miranda? — Não brinque. até os rostos quase se tocarem. Héctor. com angústia e paixão.

se eu ligasse para cá.. sem acreditar. — Fiz uma grande bobagem. sou eu. Teve vontade de agarrá-lo e colocar bom senso em sua cabeça teimosa. Miranda já sabia que. Em vez disso. Venha depressa! Vem aí a moça da confusão. — No Arizona? — indagou. — Héctor a encarou. — Mas por quê? — Aposentaram-se. severo. Héctor se fechava ainda mais em si mesmo. frustrada. será que ainda pode usar a imaginação? — Héctor falava entre os dentes.. lisonjeada e. — Mas papai e mamãe planejavam fazer isso só o ano que vem. os fatos eram muito mais sérios. — Também pensaram que. certo? Héctor apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça. . — Pode crer nisso.. — Quer dizer que foram para a pequena comunidade de aposentados da qual sempre falavam? — Exato. — Papai. fitou o teto e gemeu. Imaginei que teria muito tempo antes de. e tentou afastar a agitação que sentia pela presença da esposa. Mas se falar se constituía no único recurso e ele respondia com monossílabos.. você me informaria.— Não.. Miranda. — Papai? — Miranda quase gritou. incrédula. porém. — Por favor. — Nem de longe poderia imaginar que a volta para casa seria tão inoportuna e caótica. — Em Phoenix. acabrunhada. — Ele parecia triste. deixando Miranda com vontade de acariciá-lo. sem graça. — Héctor se endireitou. diga-me onde estão meus pais. Entendeu que Héctor também sofria com tudo aquilo. por que mudaram de idéia? — Você. Miranda se sentiu confortada. — Miranda. — Ela suspirou. e uma mecha loira caiu sobre sua testa. Quando as situações eram muito graves.. Miranda bateu com o bico da bota no pé da mesa. Ouviram uma leve batida à porta. na opinião do marido. Quero dizer. Só queria sair dali. — Acho que eles se cansaram de esperar por meus telefonemas e decidiram antecipar os planos.

Héctor se inclinou e passou a mão na cabecinha da menina. antes que ela as encaminhe para um lar temporário de adoção.. Ela apertou os lábios carnudos. Katie. o aroma delicado do perfume da esposa o perturbou. balançou a cabeça e saiu de trás da escrivaninha.. que precisavam tanto dele. com os cabelos molhados e metida num roupão velho e grande.. — Aquela moça da assis. papai! — A pequena se virou e saiu arrastando o roupão com dignidade. O bem-estar deles era mais importante que sua situação. Era um pai em potencial para as três crianças. — No entanto. e seus olhos verdes tornaram-se mais . se não o fizesse. — Acho que é minha vez de surpreendê-la. da so. — Katie disse “papai” — Miranda murmurou. Ele ainda se sobressaltava quando a escutava.. — Preciso ir. não tenho tempo para muitas explicações. O que poderia ele fazer? Tinha de causar boa impressão.. está aqui. — Tudo bem. Miranda talvez tornasse a fugir. Não podia abandoná-las. Já vou. Precisava explicar o motivo dos mantimentos espalhados. — É a assistente social. — Certo. — Miranda. eu. hein? — Héctor ergueu uma sobrancelha. — Olhou na direção do saguão de pé-direito alto e depois de novo para ela.Héctor passou um dedo do nariz ao queixo e a encarou. Como explicar em alguns segundos a morte de Travis e Donna? Mas. sem contar com o fato de que Katie ainda não estava vestida. para ver o efeito daquela palavra. sem entender nada. Passou por Miranda. estupefata.. Suspirou. a presença de Miranda. Diga a Crispy que ofereça café a ela. querida. No entanto. que procurou segurá-lo pela manga da camisa com um olhar interrogativo. e abriu a porta. A excitação de ver Miranda o fez esquecer por completo a visita agendada para aquele dia. o carpete molhado. não podia ser agora. Preciso me apressar e convencer aquela assistente social intragável que posso adotar esses pequenos. Katie estava descalça. mas não tinha coragem de corrigir Katie. — Adotar? Mais uma vez.

— Héctor sorriu. solene. Jogou para trás os cabelos castanhos e fartos e se encaminhou para a porta. Beetle. Katie bateu no ombro de Héctor. — Ela disse que. Héctor não pôde deixar de achar graça na entonação da garota. . cheias de expectativa. — A sra. — E está cheia de pessoas bondosas. falando com três crianças loiras e de olhos azuis como os dele. Não podia se ater a problemas pessoais. Grace. Miranda se comoveu com a Seriedade das palavras do garoto. o ambiente era bom. — A sra. Miranda. Héctor — Grace afirmou. parada à soleira. — Como é que a gente vai fazer. — Eu vi a moça. quando nós ficamos com os Stone. Antes de chegar a seu destino. Como não gostar de pequenos adoráveis como vocês? — É. — Não seja bobinha. — Faremos o melhor possível. — Ele se abaixou e abraçou os irmãos para lhes transmitir uma confiança que não sentia. as três crianças já estavam a sua volta. Beetle é a responsável pelo caso. Héctor. — O que quero dizer é que ela não gosta de você. Héctor baixou a cabeça e não respondeu. — Você não tem mais gente boazinha. musculoso e alto. Daremos um jeito nisso. Saiu em direção à entrada. — A sra. — O número do telefone de seus pais está na agenda em cima de minha mesa. — É a sra. As crianças o olharam. meu anjo. agachado como um peão.. Miranda teve a intuição de que precisavam de um suporte emocional para uma situação que escapava ao controle de Héctor. papai? — Isto aqui é uma fazenda. — Falaremos mais tarde. Beetle diz que temos problemas de abandono.. espantada. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. eu quis ser gentil. — Grace olhou para o teto. Katie. — E não nos quer morando aqui — Bubba completou. Héctor a pegou pelo braço e resistiu ao desejo de abraçá-la.escuros e brilhantes. Héctor? — A menina mais velha se lamuriou. Beetle não gosta de nós. não entendia o que se passava.

baixou a cabeça e depois a ergueu. Acho que a opinião dele não vai pesar muito. Os quatro caíram na gargalhada. No entanto. com a voz de Héctor se sobrepondo à dos pequenos. Mas a lei não exige isso. Beetle duvida que Crispy e eu possamos tomar conta de vocês. — Crispy é muito magro. — Meus sogros testemunhariam. senão vai nos tirar daqui num instante. a sra. Ele tentava fazer com que elas se sentissem melhor ante a perspectiva de se defrontar com a sra. tranqüilo. minha querida. Katie arregalou os olhos. papai. enquanto acariciava o rostinho rosado de Katie com as costas da mão. e os três o imitaram. — Não conte para ninguém. — Mas o que ela recomenda é importante para o juiz — Bubba afirmou. A sra.Ele juntou as mãos. por isso não pesa. — Meu irmão também não se enquadra muito bem nos padrões familiares — Héctor continuou o raciocínio. Beetle. Beetle acha que vocês serão mais felizes numa casa com pai e mãe.. — O que é isso? O olhar de Héctor era de profunda preocupação. como todos dizem. Grace. formando um círculo de cabelos loiros. — Meu bem. — Ai. — Katie franziu o nariz. Katie agarrou os cabelos loiros e cacheados com as mãozinhas gordas.. — Não é bem assim. parece que todos têm essa opinião a meu respeito. mas eu acho que Crispy é quase tão bonzinho quanto eu. ela disse que você precisa provar que não é um ermitão rabugento. Héctor. não deixe que ela faça isso! — Farei o impossível. porém. Héctor inclinou o pescoço. Miranda quase não acreditou no brilho daquele olhar e no carinho de seu sorriso. — A assistente social falou que prefere separar nós três em vez de deixar todos juntos num lugar onde o ambiente não é apropriado — Bubba explicou. . com uma serenidade e competência de veterano no assunto. — Você não conhece ninguém que não pense assim? — Só Crispy. Ela pensa que precisamos de. Bubba. — Sabe. minha querida. — Uma mamãe — o garoto concluiu. devagar.

estamos encrencados — Grace considerou. E agora eles estavam mortos! Então. por princípio. Ela falou que você e o sr. Miranda se aproximou com um amplo sorriso. viu a ironia do destino. Umedeceu os lábios e se virou na direção do marido.. Donna se apressara em lhe dar apoio. na universidade. — Em princípio ela deve ter razão. Devia-lhe isso. mudaria todos os seus planos e a vida de Héctor.. Beetle acha que não é uma família normal. ele jamais aceitara. — Miranda fitava os quatro. — Ela indicou a porta do escritório. Por outro lado.. — Ah. — Katie. — Então. elas também queriam muito ficar com ele. Beetle. Miranda? — Ali. Tinham sido colegas de classe de Héctor. — Ouvi tudo. Conhecia Donna e Travis fazia muito tempo. — . e a sra. Miranda. Quando Miranda descobrira que não podia ter filhos. para melhor. mas acho que ele combina mais com um celeiro de que com um lar. que não tiravam os olhos dela. Mas Miranda se afastara. balançando os cabelos. Ficou chocada. pois ela também se encontrava na mesma situação.. Héctor lutava para não perder um esquema familiar que.. E só ela. Os únicos que poderiam.... Miranda suspirou. que não refletia o quanto estava apavorada. — Não conheço Crispy. embora não fosse íntima deles. mas eles já morreram — Bubba completou por ele.. E. poderia ajudá-lo. Miranda compreendeu toda a situação e o empenho de Héctor em ficar e cuidar daquelas crianças. Confusa e com a alma ferida. Estava a ponto de cometer a maior burrice ou fazer a coisa mais acertada de sua existência. — Onde você estava. Crispy não servem. que a olharam com muito espanto. .seriam o sr. papai. Stone. Miranda não acreditou no que ouviu. pelo jeito. — A sra.. Fitou com intenso carinho os garotos boquiabertos. por entender que Donna apenas se colocava ao lado de Héctor na busca dos tratamentos milagrosos. ela não disse “não servem” — Bubba corrigiu.mas estão no Arizona. se o juiz só vai ter a palavra da sra. depois daquele ano infernal com que o presenteara. Tinha de ajudar aqueles órfãos encantadores a encontrar uma família.

Beetle. Beetle. sra. Apesar disso. — Randi? — Héctor se aproximou e a abraçou pelos ombros. e se preparar mentalmente para defender o caráter de Héctor. Parece que houve uma pequena confusão quanto a minha viagem. Fiquei muito feliz quando seu cozinheiro me disse que havia voltado à fazenda. Héctor estendeu o braço para recebê-la. grande e luxuosa.. Beetle piscou atrás das lentes grossas de seus óculos. — Miranda tentou se esquivar de Héctor.. que só outra mulher poderá lhe dar. Nem o fato de você querer seus próprios filhos. — Meu bem. por medida de segurança. um tanto inconsciente do que dizia. — Héctor se inclinou e sussurrou-lhe a informação. — Meu cozinheiro? — Miranda se esforçava para entender.. eu me ofereço para convencer a assistente social de que essas doces criaturas terão o lar mais estável e o melhor pai de todo o Texas. assomou à porta da sala . Ela tentou sorrir. a assistente social. sei que isso não vai apagar a maneira cruel como fui embora.. minha senhora. — O prazer é todo meu. para podermos conversar. — Hum. — Uma expressão aborrecida acompanhou as rugas ao redor dos olhos. — Como? — A sra. Ela havia subido por alguns minutos para se recompor um pouco após a longa viagem. — Sra. querida. A boa educação texana a fez cumprimentar a senhora de cabelos prateados sentada na bergere que fora a favorita de seu pai. admirada. — Aquele danado falou com ela antes que eu o fizesse e pintou um belo quadro de sua chegada. venha até aqui. O roçar dos lábios quentes em sua orelha despertou-lhe a ânsia não esquecida. CAPÍTULO III Miranda. minha querida. — Crispy. — Como está. sem sucesso.— Héctor. Beetle? Muito prazer em conhecê-la — murmurou. indecisa.de estar. — Quer dizer que não veio de uma longa viagem? . gostaria de lhe apresentar minha esposa. O que teria acontecido na sua ausência? — Randi. — Espero que não esteja cansada da viagem. quero que conheça a sra. “Minha o quê?” Miranda vacilou.

Héctor Sykes. — Oh. irritado. Porém. Como saber se aquele sonho daria certo? O medo de falhar de novo era muito forte.. Respirou fundo. Héctor continuava a lhe abraçar pelos ombros. mas em se tratando de adoção. com uma animação discreta. mas.... — É preciso dizer que a lei não impede a adoção por pais separados ou solteiros. sem que a assistente social percebesse. mas não teve coragem de relatar a verdade. Beetle acreditar em nada. — A sra. na verdade.Eles esperavam que ela dissesse alguma coisa esclarecedora. — Bem. — A sra.. e Miranda não tinha idéia do que falar. Beetle estava sentada. eu fiz uma longa viagem. impedindo-a de se afastar. Não vou ficar parada enquanto você faz esta senhora acreditar. — Como Crispy garantiu a ela que você ficaria na fazenda para se tornar a mãe deles. Beetle cruzou os braços sobre o busto amplo. — Estava tão preocupada em deixar essas três crianças aos cuidados de. — Será que estou ouvindo direito? — Miranda sussurrou para Héctor. — Não estou fazendo a sra. — O sr.. Miranda o encarou. a sra.. Héctor cochichou para Miranda.. Era o que mais desejava. Sykes. — Estava nos dizendo. prefiro recomendar a colocação em lares com pai e mãe. Bem. mas a idéia também era apavorante. resignada. pelo fato de Miranda ficar na Circle S? . que consentirá na adoção. rezando para que Héctor não percebesse a mistura de angústia e paixão resultantes daquela situação. Beetle mudou de opinião sobre a custódia.. Sykes e seu cozinheiro tiveram uma atitude louvável ao socorrer os pobrezinhos numa situação de emergência. Héctor conduziu Miranda até o sofá de couro ao lado da cadeira onde a sra. Beetle. Foi Crispy quem lhe contou. de dois homens tão ocupados. nem pode imaginar minha alegria — a mulher confirmou. Beetle já lhe disse como ficou feliz quando Crispy lhe falou sobre a volta de minha esposa à fazenda? — Sra. Ser mãe de três crianças e formar uma família com Héctor. e Miranda suspirou. na maior demonstração de posse. — O que minha esposa está querendo dizer é. Miranda refletiu. sra. — Posso explicar eu mesma.. minha querida! — Héctor interveio. Héctor interromper sua explicação já era demais.

frustrado. eu lhes darei mais um mês de prazo de custódia temporária. Agora que a sra. e entre pais e filhos. — Sofrer também faz parte de meu vocabulário — Héctor murmurou. — Se. só pelo retorno repentino da sra. Miranda se remexeu. e o ranger do estofado pareceu mais desagradável naqueles instantes de silêncio. Miranda sabia que sua fuga o deixara arrasado. — Ah. Miranda ficou ainda mais angustiada. — E como pretende acomodar a situação. — Reconheço. — Agradecemos muito por a senhora ter permitido que os meninos fiquem. há três. é mesmo? — Héctor perguntou. — O senhor deve saber que vim aqui hoje com o propósito de levar os irmãos para outro lar candidato. Em um mês. para haver tempo de a situação se consolidar. mas evitou o olhar de Héctor.“Oh. — E depois? — Miranda perguntou. Sykes. Beetle apertou os dedos de Miranda. soltando-a. e fui casada por vinte e sete anos. — Tenho muitos anos de carreira. — É mesmo? — Claro que sim. Sykes. — A severa senhora não deu margem a apelações. — Miranda lhe estendeu a mão. sem forças para se manter em pé. Sykes voltou para casa. Não quero!” — Sr. e abandonar os meninos naquele momento acarretaria muito mais dor. sr. — Acho que é melhor assim. Miranda implorou em silêncio e afundou no assento. contudo. minha tarefa terá chegado ao fim. — Simples. Entendo as dificuldades de relacionamento entre o casal. que essas crianças já sofreram muito. antes de ficar viúva. poderemos avaliar se a adoção será conveniente. “Não ponham a responsabilidade sobre meus ombros. senhora? — Héctor parecia adivinhar os pensamentos de Miranda...o processo for encaminhado. Miranda refletiu com tristeza no trauma e na dor dos três órfãos. e um outro lugar. . eu não posso garantir que os recomendarei no processo. A sra. não!”. Alívio e culpa se alternavam no coração de Miranda. Sykes.

sei que pretende tranqüilizar a sra. os olhos verdes falseando de raiva. O esforço para retirar a bagagem restante a fez arfar. Uma delas bateu na sua canela. Beetle e ele poder realizar seu intento de adotar os irmãos. Era pedir muito para uma mulher que o fizera sofrer tanto? — Sra.. pela maneira como agiu na frente da sra. há algumas coisas sobre mim que eu gostaria de esclarecer. Sinta-se à vontade para visitar-nos a qualquer hora. Beetle. dentro da calça jeans. Héctor ergueu a tampa e se abaixou para retirar de lá duas valises de couro. para acalmar a sra. Héctor apreciou a deliciosa visão traseira e feminina de Miranda. pois ela vai deixar as crianças ficarem aqui. — Não posso acreditar que você não achou uma afronta ela ter liberdade para visitar as crianças. Sykes. — Não se preocupe. — Eu é que deveria lhe atirar pedras. Beetle apanhou a pasta que estava a seus pés e se encaminhou em direção à saída. sem lhe dar chance de se afastar. Só não faço isso porque elas são mais frágeis do que essa sua cabeça dura. — Pode ter certeza de que virei mesmo. Puxou-as com esforço e as deixou cair a seus pés. — Miranda falou. Beetle. — Miranda se ergueu do sofá com uma pose e calma que estava longe de sentir. Beetle. — Obrigado. preciso tomar cuidado com minhas pernas. deixando os cabelos desalinhados e o rosto afogueado. Miranda se voltou e apanhou outra maleta de dentro do porta-malas. — O que lhe importa o que há dentro delas? — Se você traz um carregamento. — O que trouxe aqui dentro? Todos os seus pertences ou sacos cheios de pedras? Miranda o encarou. que também se levantara. querida. Como se tivesse acabado de fazer . severa. e destrancou com a chave o compartimento de bagagem de seu carro azul. Héctor estendeu a mão livre na direção da assistente social. — Héctor a enlaçou outra vez. Viu algo diferente.Héctor fitou Miranda. sr. — Randi.. porém. minha senhora. que precisaria ficar um mês fingindo ser sua esposa. mas também não soube precisar o que era. A sra.

Deu mais um passo. passou por Héctor e se voltou. Pigarreou e respirou fundo. — Miranda. — E você teve coragem de dizer aquilo. Héctor se excitou com aquele simples pensamento. — Não me chame de doçura! — Miranda agarrou a mala de mão. e seus lábios se tornavam ainda mais desejáveis. para contradizer os mexeriqueiros. — Bobagens? Eu. no mínimo. nervosa. — Calma. para Miranda nada perceber. Ela tirou as mechas da testa. Já sofrerá muito. — Nem tive chance de explicar a situação.. doçura — ele disse. não eu. prevendo a reação contrária. E só! Se bem a conhecia. e não tinha mais paciência para agüentar . e me cortar a palavra por. hoje — resmungou. — Os olhos de Héctor se entristeceram. Nem sei por que está se queixando. Mesmo achando que não deveria ter dito aquilo. — Disse que sua mulher estava de volta e iria cuidar das crianças. iria levar os meninos embora. duas vezes.. — Eu não disse nada além da verdade! — Só em parte. — Foi Crispy quem disse. — Foi você quem se ofereceu. — Miranda enrubesceu... Héctor não se arrependeu. — Héctor arrastou as malas pela varanda e empurrou a porta de tela com um rangido. Não sabia se ela queria enlouquecê-lo ou se partiria para a agressão. — Miranda o fitou. Héctor tentaria provar que havia mudado... não ouviu o que ela disse? Apesar de admirar a atitude de Crispy e a minha. Héctor se aproximou.. — Miranda chegou até a varanda da frente e subiu a escada em direção à porta principal. — A sra. podia prever que o episódio ainda não terminara. E não me venha com bobagens. Durante a permanência de Miranda na fazenda. Jamais se perdoaria se não fizesse isso. Beetle só mudou de idéia porque você ficou na fazenda. Preparou-se para o ataque e suspirou. após dar alguns passos.amor. — Eu? Ofereci-me para falar com ela sobre suas qualidades morais. Héctor nem se abalou com o estrondo. baixou e bateu com força a porta do compartimento. Com duas largas passadas. — Não depois do que você disse àquela mulher. por sobre o ombro.. e o piso antigo estalou.

melindres. — Não tem noção do que deveria ser dito à sra. Beetle — ele resmungou, era voz baixa. — Não conhece a situação dessas crianças e o quanto tenho lutado para ficar com elas. — Até o ponto de mentir para satisfazê-la e a suas idéias antiquadas sobre o que é melhor para os garotos? — Eu não menti. — Héctor a encarou. — Eu lhe disse que minha mulher havia voltado. Você está aí! Miranda empalideceu e mordeu o lábio. Ambos entraram, e a porta de tela rilhou de novo, e bateu. Héctor subiu para verificar se Crispy seguira sua ordem: levar os irmãos para cima depois do jantar. Iriam assistir a um filme no vídeo da suíte principal. Tudo em ordem. — Vamos conversar a respeito, Miranda. — Ah, agora? Depois do estrago feito! Francamente, Héctor, não posso discutir o assunto. Gritar, fazer um estardalhaço talvez. Ou dizer coisas de que me arrependerei depois. Mas conversar? De jeito nenhum! — Miranda... — Héctor, tudo o que quero é tomar um bom banho e me jogar na cama. Aquela palavra na boca carnuda de Miranda parecia um convite aos olhos de Héctor. Apesar de tudo o que acontecera, ele a desejava em seu leito mais do que nunca. Ela percebeu-lhe a intenção. — Sozinha! — Miranda estremeceu, chegou até a escada e se virou. — Posso ocupar meu antigo quarto? — Não. As meninas estão lá. Bubba está no aposento de hóspedes. — E o dormitório aqui do térreo? Héctor balançou a cabeça. — Crispy dorme nele. — Ergueu uma sobrancelha. — Você não vai querer dividir a cama com ele, não é? Só resta uma possibilidade. Héctor não pôde deixar de fazer uma tentativa. — Escute bem. — Miranda percebeu a insinuação. — Prefiro dormir no beliche do quarto de Crispy, ou com as crianças, ou na casinha do cachorro ou... — Entendi. Estava só brincando. Você pode dormir no meu quarto. Vou me acomodar no sofá.

— Desculpe-me por despejá-lo, Héctor, mas a culpa é sua. — Os olhos verdes adquiriram um brilho malicioso. — Foi você quem prometeu que eu ficaria aqui em tempo integral. Miranda subiu os degraus, e Héctor a seguiu, carregando as malas. — Agora, seu grande mentiroso, pode dormir no diva! — Engraçadinha! — ele murmurou, arranhando o assoalho com as botas. Foram para o quarto onde ela iria dormir sozinha.

CAPITULO IV

— Hora de dormir, querida. Já está pronta? Miranda se assustou ao ouvir as leves batidas à sua porta. — Héctor, já discutimos sobre isso antes. — Miranda esbarrou no toucador que fora de sua mãe e, de chinelos cor-de-rosa, foi até a porta. Pegou no trinco, disposta a não se desconcertar pela presença do marido, e a abriu. — Pensei ter deixado claro que iria dormir sozinha. Não tem graça nenhuma você começar com estratagemas. — O quê? — Ele se espantou. — Sabe muito bem o que quero dizer. — Cruzou os braços sobre o roupão listrado rosa e branco, deixando entrever as pernas. Héctor estava encostado no batente, e deu-lhe uma olhadela provocante. — Querida, não sei do que está falando — ele afirmou, com voz inocente. “Imagine se não sabe...”, Miranda pensou, ansiosa. Ali estava ele, descalço, de olhos sonolentos, cabelos despenteados, a camisa para fora do jeans colado no corpo. Demais para os nervos tensos e saudosos de Miranda. Além do aroma de loção após a barba que emanava da gola aberta e do hálito perfumado de café. Miranda fechou os olhos e suspirou. — Héctor, eu não sei por que veio até aqui... — Eu lhe disse: é hora de dormir. Miranda se arrepiou até a medula. Mesmo assim, ergueu o queixo e se

colocou em posição de alerta. — E eu lhe disse... — É hora de as crianças dormirem, Miranda. — Como? — perguntou, atônita. — Bubba, Grace e Katie, lembra-se? — Héctor se afastou da entrada. — Sei quem são, mas... — É hora de dar-lhes um boa-noite. Miranda não podia acreditar. Ela e Héctor num ritual para fazer os filhos dormirem. Quantas vezes havia sonhado com isso e rezado para que acontecesse? E, naquele momento, não tinha a mínima vontade de participar da cerimônia. — Não posso, Héctor. Amanhã cedo eu... — Tentou fechar a porta, no que foi impedida por ele. Miranda sentiu a proximidade daquele corpo quente, o pulsar do sangue nas veias dos braços musculosos e a energia dos olhos azuis. Deu um passo atrás e parou. Héctor poderia pensar que ela estava dando espaço para sua entrada. Miranda teve consciência da cama atrás de si. Héctor conservara a maioria dos móveis de seus pais, mas trouxera a cama deles da outra casa. O leito da lua-de-mel e de tantas noites... As emoções daquele dia haviam sido muito fortes. Miranda só precisava de forças para se afastar de Héctor e sumir para algum lugar onde pudesse ficar sozinha com seus pensamentos. Impossível. — Miranda, você sabe que pôr uma criança para dormir é o vínculo mais importante entre pais e filhos. — Vínculo? Soa permanente demais. Não acho uma boa idéia. Desejelhes boa noite por mim. Héctor a impeliu para o corredor, colocando uma das mãos nas costas de Miranda. — Acontece que eles estão alvoroçados e não dormirão sem tornar a vêla. Conversamos sobre você durante o jantar. Miranda não jantara com eles, alegando estar sem apetite, após ter sentido o cheiro da comida feita por Crispy. Pernil de porco gorduroso, batata doce frita, ervilhas com bacon e mais alguma coisa que não soube distinguir o que era. — Entendo — Héctor respondera então. — Mas eu lhes prometerei que

Afastou depressa a roupa de cama. e ele e Miranda depararam dois rostinhos radiantes. Ouviram o barulho das duas se enfiando embaixo das cobertas. — Vamos lá. — Já sou muito grande para isso — Grace afirmou. Vestia uma camisola estampada com personagens de desenhos animados e. Héctor lhe contara a história dos órfãos. — Miranda e eu viemos cobrir vocês. — Entre. franzindo o narizinho e a boca para Miranda. Héctor saiu à frente e bateu à porta. — Miranda sorriu. — Muito bem. Adoro quando me cobrem. com um gesto das cabeças loiras. — Gostaria de ouvir suas preces noturnas. — Eu. Héctor abriu a porta.. Naquele momento. e vamos dormir. Alteza — Grace observou. — Está bem — ela murmurou. Héctor indicava o antigo quarto dela. — Hora de dormir. Grace. as senhoritas já fizeram as obrigações? Escovaram os dentes e lavaram o rosto? — Héctor interrompeu a conversa que ameaçava se tornar desagradável. — E também já rezamos. . — Não sou princesa. desviando a atenção do clima tenso que se instalava. — Já oramos. com frieza. As duas confirmaram. — Cubra-me primeiro. princesa! — Katie gritou. meninas. — Uma princesa nunca me deu boa-noite. A garota dispensou Miranda com um olhar. onde as meninas dormiam.a mãe temporária virá vê-los mais tarde. embora o sorriso de Grace fosse mais cauteloso. — Miranda. — Agora é tarde — Grace disse. — Katie também fitava Miranda. chinelos. Enquanto ela desfazia as malas. — Miranda divertiu-se com o engano ingênuo. não. essas crianças já passaram por tantos lares provisórios que se agarram à mínima demonstração de carinho. querida. — Nós vimos as fotos. papai — Katie chamou.. e Miranda não pudera deixar de se comover com tanta tristeza. segura e formal.

— Então acho que não vai precisar disto. — Aposto que você é sonâmbula. — Não é? A menina deu outra risada e agitou o corpo da cintura para cima. Entraram no aposento e. — Pronto para dormir. — Bubba é o nome dele? — Miranda queria esquecer os próprios sentimentos. — Durma bem. Miranda se voltou para Grace. — Miranda suspirou e deu uma palmada leve no acolchoado. Tudo pronto. Como tudo havia mudado. que se cobriu rápido até o queixo. Miranda se admirou em ver o homem que nunca deixara de amar demonstrar carinho por uma menina que não era sua filha legítima. Bubba? — Héctor indagou. — Ele se chama Simon. Era uma garoto amadurecido para a idade. — Boa noite.. Miranda pensou com tristeza.— Katie — Héctor repreendeu-a. riu e sacudiu a cabecinha. — Beijou os cachinhos claros. feliz por aparentar uma calma que na realidade não sentia. Grace. — Noite. imperava a ordem nos dormitórios. — Miranda tirou os chinelos dos pequeninos pés e os ajeitou ao lado do leito. Virou-se a tempo de ver Héctor dar um beijo rápido e doce na testa de Katie. pelo menos aquela. Então. noite.. — Agora. Katie levou as mãozinhas à boca. senhor. — Boa noite. — Katie sussurrou. a apreciava. do lado de fora do quarto. mas parece não gostar do nome. Teria de se dar por feliz em conseguir alguma coisa além de um cenho carregado. — Sim. negando. cobriu a garota e ficou feliz por ver que. Alteza. vamos ver Bubba. — Miranda se ajoelhou ao pé da cama.. Bubba era o mais difícil dos três e já demonstrara o desprezo por Miranda. apesar de as crianças estarem na casa havia seis semanas. Ela se ergueu e foi até a porta.. doçura. — Héctor fechou a porta atrás deles.. Exceto por um brinquedo . — Quantas vezes já lhe disse para se descalçar antes de se deitar? — Veja só..

— Por um instante. — Muito mais? — perguntou. Miranda baixou a cabeça. sem saber o que dizer. Antes de fechá-la por completo. — As meninas já rezaram e. — Eu sei rezar sozinho. pelo . com voz emocionada: — Boa noite. O pequeno obedeceu. Miranda e Héctor caminharam em silêncio até a suíte principal. Quando não.. Não posso. Ali. — Miranda.. — Héctor pôs as mãos em seu ombros..aqui ou um livro de histórias ali. pararam. ela teria se atirado no leito e soluçado por tudo o que não voltaria mais. — Luzes apagadas. Héctor foi até a soleira e se voltou. Pelas crianças que não foram concebidas e pelas noites solitárias e tristes. Fitava com saudade a beleza do pinho entalhado das colunas que sustentavam o dossel. — Tentarei reparar o erro com minha ajuda. Mas não com meu corpo. quando Bubba ergueu o queixo e pôs os óculos sobre o pequeno nariz. filho. Miranda. Héctor apagou a luz central e puxou a porta. Héctor. o caubói valente e empedernido que Miranda tanto amava tossiu e falou. com cuidado. e o edredom leve e aconchegante de plumas. Héctor pôs as mãos na cintura e inclinou a cabeça. os quartos estavam tão arrumados como no tempo em que seus pais moravam na casa. Paramos apenas para lhe desejar boa noite.. — Boa noite. solene. — Acho que nunca poderei lhe agradecer pelo que está fazendo por mim. — Eu lhe devo muito mais do que isso. — Entrou no quarto e. Miranda se sentiu uma tola por tentar. Se Héctor não tivesse permanecido à soleira.. meu apoio ou qualquer sacrifício que seja necessário. — Sei que você não gosta de espalhafato. confusa pelas fortes emoções. Miranda ficou acordada até tarde na cama enorme onde vivera tantos momentos felizes ao lado de Héctor. — Héctor. garotão. com voz quase inaudível. fechou a porta entre eles. — Você já fez as orações? — Miranda teve vontade de ser agradável. soltou-se dele e virou-se de costas.. a voz do menino vacilou. obrigado. Óculos na mesa-de-cabeceíra. Miranda viu um movimento parecido com o de Héctor. do lado de fora.

Crispy ergueu a forma. Hum. Ali. Também nem havia necessidade. foi tomada pela memória dos dias de sua infância e juventude. Crispy cantarolava e se entrelinha. Não quero dar palpite. A manhã chegou. — Eu sei. animado. pode me tratar pelo nome. não é? Espero que tenha dormido bem. Não queria dar-lhe uma impressão errônea sobre suas intenções. ia e voltava. e Héctor. Ela achou graça e encolheu os ombros. — Muito bem. mas você não está lavando a panela. — Crispy mostrou a vasilha para Miranda. Os grandes espaços de trabalho e utensílios em quantidade eram objeto de desejo de todas as esposas de fazendeiros daquela região do Texas. — Bom dia. As crianças e o cozinheiro não notariam. e franziu a testa. os armários de carvalho. provando sua teoria. Miranda.. . sem descansar. Era o lugar predileto de sua mãe. Caminhou até a grande cozinha da fazenda. Posso tratá-la assim. Alisou os cabelos e pensou se disfarçaria as olheiras com corretivo facial. Crispy — Miranda cumprimentou-o com voz alegre e sentou-se ao balcão para tomar o desjejum. Acontece que fica mais fácil lavar depois de tirar o grosso com um pano. O sol da manhã iluminava o piso de lajota. obrigada — mentiu. Além de nada ter dito ao marido a respeito. Nem precisava se arrumar para ele. com movimentos enérgicos.sentimento de culpa que a invadia. Crispy esfregava o fundo de uma panela de ferro. Cochilou e acordou. como se olhasse um espelho de mão. esquelético. Está esfregando com um pano seco. vai precisar de dinamite para limpar isso aí. Miranda voltara com o propósito de conseguir o divórcio. e se refletia na cabeça quase sem cabelos do cozinheiro. os fogões e as coifas de aço inoxidável. — Crispy.. Espreguiçou-se e pôs os pés no degrau. — E sim. e seu cotovelo direito. — Bom dia para você também. e Miranda pouco havia dormido. planejada para atender às necessidades da família e da propriedade. decerto. ainda estava na casa dele e fingia uma reconciliação para acalmar uma assistente social. já teria saído. na frente da grande pia dupla.

— Não é incômodo de jeito nenhum. Miranda ergueu a mão para impedir um comentário desagradável e se apressou em explicar: — É que minha mãe sempre preparava as refeições da família. não! Não quero incomodá-lo. é importante que os pequenos comam junto conosco.. Sykes. — Cocou . na sala de jantar. Héctor inclinou a cabeça e cumprimentou-a em silêncio. com a caneca de café na mão. Crispy. — Você tem medo da minha comida? — Imagine! Tenho certeza de que é ótima. Crispy balançou a cabeça e soltou um assobio de descrédito. A senhora gosta de cereais? — Gosto sim. Crispy? — Miranda saiu do devaneio. — Por outro lado. Mas não precisa. Ele soltou o avental improvisado que se enrolou em seu jeans escuro. Miranda esfregou a pele arrepiada dos braços nus. O sol iluminou seus cabelos dourados e a camisa branca. Eu gostaria de tentar. Você entende a importância disso. — Crispy. batatas e. Miranda. — Crispy secou as mãos encarquilhadas no pano de prato amarrado em sua cintura. — Oh.O cozinheiro deu risada e enfiou a caçarola na pia cheia de água e detergente.. fazendo com que os ombros parecessem ainda mais largos. e os dentes brilhavam. O tecido leve de sua camisa se enrugou. Os lábios eram pálidos. — Em um minuto farei ovos fritos com salsichas. — Talvez tenha razão. Ele emanava sensualidade logo pela manhã. não quero ferir seus sentimentos. em contraste com o bronzeado de sua pele. como uma família de verdade. — Héctor entrou na cozinha. — Eu posso cozinhar e servir para a família na sala de jantar. Vou deixar de molho enquanto preparo seu café. e a fitou intensamente. — Miranda achou por bem parar com os rodeios. — O quê. como se estivessem sozinhos no mundo. não é? — Eu entendo e gosto da idéia. mas posso cozinhar para as crianças e para mim. — Acho que está tudo resolvido. sra. Mas crianças em fase de crescimento têm necessidades nutricionais diferentes dos trabalhadores da fazenda.

Miranda. o calor de sua mão e o perfume da loção de barba. — E. — Desde que está aqui. ele se voltou para pegar o necessário. por falar nisso. O pobre homem fez um bico. eu mando aqui e quero que Miranda cozinhe! — Héctor meneou a cabeça e riu à vontade. com um olhar infeliz. Miranda teve vontade de fazer a mesma coisa. não é isso! — Miranda estendeu a mão. Miranda fitou Héctor e implorou ajuda. — Bem. desconsolado. Crispy fez uma expressão de enfado. Miranda. — O pior — Héctor continuou —. pergunte por quê. com todos os apetrechos. Então. Prefiro que ela cozinhe para nós. Vou sair de seu caminho num instante. Miranda pensou que Crispy fosse se recusar. aproximou-se de Miranda e a enlaçou. Sei quando não me querem mais. — Ei.o queixo barbudo com o nó dos dedos. Crispy abriu e fechou a boca. — Não acredite nisso — Héctor advertiu. pôs a caneca no balcão. sim. — Não sei do que ele está falando. — Qual é? — Hoje há muito trabalho no escritório. — O cozinheiro bufou. — Você não gosta do que faço. tão próximo dela que seu hálito fazia voar os fios de cabelos escuros da esposa. é que ele não admite. — Estou pedindo agora. — Oh. Crispy. Crispy fez uma carranca. Por um momento. mas havia humor e afeição em seu olhar. Crispy. entre bravo e brincalhão. meu velho. Finge-se de inocente e pergunta o que está acontecendo. tenho um servicinho para você. e ele sabe disso — Héctor corrigiu. — Você nunca me pediu isso antes. Miranda ficou tensa pela proximidade do marido. Crispy já queimou a comida uma porção de vezes. — E. e preciso de uma cafeteira pequena por perto. — E. sem retrucar. negando. — Héctor o encarou. A proximidade do marido . já provei sua comida e a de Miranda. antes que se comova com esse velhaco. Héctor. — Não se preocupe.

. com um estrondo. Fitou Héctor e sorriu. isso sim. — Não posso. foi até a pia. segurando-a pelos ombros. . — Vamos parar com isso. — Obrigada por seu apoio em relação às refeições. Héctor passou a ponta do dedo sobre os lábios carnudos e ansiosos. trêmula. Claro que pode. desviou-se dele. Miranda se enterneceu e nem teve mais vontade de se afastar.. — Você é que é especial. — Miranda. — Crispy é uma pessoa especial. Sem se conter mais. Héctor. não comece. Ele procurou com a língua o sabor inesquecível da boca de Miranda. — Héctor pôs a mão espalmada em seu peito largo. ausente por um ano. depois de eu a ter metido nessa encrenca toda. abraçou Héctor com força e retribuiu seu carinho... — Eu é que lhe agradeço. — Por favor. com gosto. — Por favor. Só iríamos piorar a situação. do fundo de meu coração. apanhou a caçarola que Crispy havia largado dentro da água com detergente e se empenhou em sua limpeza. Ele a virou. Randi.. que caiu ao chão. — Embaraçada. — Você me deixa doido com esse seu sorriso.. Héctor. — Miranda se abaixou e apanhou a caçarola. — Minha querida. — Héctor riu. Miranda se agarrou no ferro áspero da panela e se encostou na pia. contra sua vontade. Miranda sorriu. em alguns segundos. ela se desvencilhou e se afastou. pela falta de sono. preocupando-se com o bem-estar das crianças. — Por que não? — Héctor se encostou ainda mais. justificadas pela falta que um homem sente de sua esposa. De repente. e ela se preparou para segui-lo. feliz. beijou-a com ânsia e paixão. Além de sua resistência estar em baixa. Ouviu os passos de Héctor e. sentiu o aroma da loção e a quentura daquele corpo másculo aquecer sua pele sob as roupas. Crispy saiu da cozinha. Então. não — ela sussurrou. — Isso não deve acontecer de novo.. Miranda soltou a panela.. não é? — Uma mala sem alça.a deixava em pânico.

. — Deixarei os trabalhos de escrita para amanhã e irei junto com vocês. — Temos muitas coisas para fazer hoje. — Isso não é de sua conta. — O quê? — É preciso muita astúcia para fazer isso. — Deixei você sozinho com a moça por alguns minutos. Crispy sempre o surpreendia.. mas estraçalha seu brio. Miranda se afastou e subiu os degraus correndo. e ela já teve de ameaçá-lo com a caçarola! — Miranda não está me ameaçando — Héctor protestou. Achou estranha aquela palavra na boca de um homem esquisito como ele. Aliás. O . Fico nervosa. — O que você disse aí. não. — Não o deixe atacá-la. homem! Crispy apenas riu. Estava apenas pensando.. — Não tenha tanta certeza — Miranda desafiou-o. Héctor Sykes — ela observou.— Mas eu pensei. — Sugiro que nos vejamos no jantar. — Crispy o encarou. — Que beleza de guardião! — Crispy voltava para a cozinha. — E isso aí. enérgica. madame. Crispy? — Em como domar cavalos. — Fineza? — Héctor caiu na gargalhada. — Pensando em quê. É mais na base da fineza. — Pretendo passear com as crianças e fazer um piquenique. — De jeito nenhum! Preciso de tempo para conhecê-las melhor e não quero você a minha volta. Héctor passou os dedos pelos cabelos e tentou manter a calma. frustrado. — Héctor falou em voz baixa. Força não resolve. — Quem usa a força domina o cavalo. — E na hora do almoço? — indagou. seu velho cabeçudo? — Nada. — Você não vai! Bem feito! — Crispy cruzou os braços e franziu a boca. — Ótimo! — Héctor bateu palmas. e Miranda se encaminhou para a escada.. — Pode apostar o contrário! — Héctor esbravejou. Crispy resmungou algumas palavras ininteligíveis. com tristeza.

e segurava com firmeza as rédeas com as duas mãos. com Grace no mesmo selim. estava com a língua no canto da boca. companheiro. Miranda estava alegre na companhia das crianças. —Não quero me perder. — Pode crer. Se for duro demais. Parece que esta trilha não tem sido capinada há tempos — Miranda advertiu o menino. ao sentir Miranda no comando da situação. Sei que o Charlie é um cavalo manso. — Você tem certeza de que isto é uma trilha? — Bubba indagou. Este arbusto pode causar problemas. ele precisa usar todos os artifícios. mas não quero que levem um tombo. O garoto cavalgava imitando a determinação de Héctor. — Segure firme o cavalo. — Héctor disse que faz assim — Grace interveio. Bubba. é só levantar e montar de novo. Grace já assumia uma atitude mais amável. meu amigo. A tristeza de seus pais em não vê-la mais devia ser o motivo daquele abandono todo. Bubba. Conheço este lugar como a palma de minha mão. por sobre os ombros. filho. sua tábua de salvação. Mas se o caubói não tem muito tempo e espera conservar seu poder. Uma planta espinhosa se agarrou no estribo. — Se nós cairmos. que acaba quebrando o pescoço. — Héctor resolveu encerrar a conversa. Miranda enlaçava Katie. — Entendi o que você quer dizer. e desviou o olhar para trás. muitas vezes. concentrado.camarada inteligente e delicado faz do cavalo seu companheiro e. Mas Crispy sempre dava a última palavra: — Calma. vocês dois. — Tenham cuidado. . CAPITULO V — Cuidado agora. — Bubba sacudiu os ombros pequenos. sentada à sua frente. o animal corcoveia até derrubar o cavaleiro. enquanto cavalgavam por um caminho estreito. Miranda se sentiu culpada.

. — Não brinque! — Os cabelos esvoaçavam. Héctor riu e se aproximou. — Katie. Miranda segurou as rédeas com firmeza. — Ou será melhor chamá-la de Alteza? — Ora.. com sua voz fina e um enorme sorriso. — Por favor.. está bem? As crianças fizeram um gesto afirmativo com a cabeça.. — De onde você surgiu? Héctor apoiou as mãos sobre o santantônio e se aprumou. como de costume. E aquela eterna segurança no olhar.— É verdade — Miranda pensou em voz alta. Ela havia esquecido como aquela imagem era poderosa. se esticou sob o braço de Miranda. minha mãe e meu pai se apaixonaram. por favor. ora! Chame-me assim e vai ver o que lhe acontece. — Alteza? Como quer que a chamem? “Meu Deus. — Miranda se voltou para Grace e Bubba. e então. tão elegante.. Héctor fitou a garotinha e deu uma piscada. Volta e não quer saber se você está interessado ou não. montado em seu cavalo. A visão de Héctor. não!” Era a voz quente e sensual de Héctor. Randi. Os músculos firmes e visíveis sob a camisa branca e o jeans pareciam sempre de prontidão para salvar um bezerro perdido ou uma mulher em perigo. surpreso com o próprio bom . — É a maneira de Héctor agir na vida. — Não podemos escutá-la. — Sabe. se quer experimentar novas possibilidades. Deixei bem claro que não seria convidado para nosso piquenique. para demonstrar seu desgosto. Está falando conosco? — Grace perguntou. espantados e curiosos. Alteza. Miranda. — Eu só trouxe comida para quatro pessoas. Ela tratou de tocar a montaria para a frente.. Héctor.. — Não vejo a mínima graça em você ter nos seguido. — Bobagem. a desconcertou. gosto que me chamem de Miranda. séria. não me chame de. E. — Ele cumprimentou-a com a ponta do chapéu entre os dedos. — Não faz mal.. E sem jamais perder a pose ou o chapéu preto... — Não os segui. que sombreava seu rosto. — Héctor! Você quase me mata de susto! Miranda cerrou os lábios.

— Eu adoro. ambos se voltaram para Bubba. e não um rio — Héctor afirmou. não? — E você acha que não saberia onde estava. Katie se contorceu. batendo com as botas novas no chão. — Nesta fazenda.humor. Eu sabia onde estavam. Miranda havia seguido a trilha. — Nem tudo. Bubba. Crispy fez um sanduíche para mim. Héctor desmontou e. conheço mais ou menos trinta quilômetros de caminhos para andar a cavalo. é um riacho. ao ritmo do cavalo lerdo. queridos. ao lado de Miranda. com as rédeas nas mãos. — Na verdade. Podem comer sossegados. — Não os segui. Miranda parou a montaria e deu um puxão para virar o animal.. e eu. Queria apreciar as águas lentas. Miranda não se deu por vencida. guiada pelo subconsciente. Bubba. — Héctor levou o cavalo para perto do de Miranda. — Papai fica com minha parte. sem auxílio. que ficou em pé nos estribos e gritou: — Achamos um rio! Era Kissing Creek. também parou e virou o cavalo. Randi? Nesse momento. — Grace balançava. querendo esquecer. aproximou-se de Grace e ajudou-a a descer da sela. — Pode comer os meus picles.. — Katie arregalou os olhos e passou a língua nos lábios. tivera certeza de que a encontraria naquela direção. Você nos seguiu. ondulantes e sinuosas que cortavam a ravina vermelho-escura. por sua vez. — Então Katie fica com os de Grace e tudo se resolve. Ajeitou os óculos que haviam saído do lugar e deu a . — Mas eu não gosto de picles — Grace protestou. Héctor. um lugar de muitas lembranças para ambos. — E com a rainha também — Bubba ofereceu. moço. Bubba desmontou em seguida. e você nos achou logo aqui? Que coincidência. com a destreza ensinada por Héctor. — Este lugar chama-se Kissing Creek — Miranda disse. — Não precisa. curvou a cabeça para trás e olhou para Miranda.

minha querida. se falarmos perto de uma das orelhas. com muito cuidado. também sabe? — Sei. — Héctor bateu de leve com o nó dos dedos nas têmporas. — Não os quero próximos da água sem um adulto por perto. — Miranda. de esguelha. — Ele fez sinal para ela voltar. Grace. ante as advertências de Miranda e retornou. orgulhoso pelas habilidades demonstradas. — Do lado de fora. Assim mesmo. será possível até ouvir o eco das palavras. com uma expressão de azedume. Grace desistiu de tentar. pois há alguns buracos mais fundos. Era sinal de que se sentia à vontade. Héctor esticou as pernas e prosseguiu: — E também não esqueço que entrei de cabeça dentro da água. Miranda corou. Miranda. Katie. — Miranda tirou os picles do sanduíche de Grace e piscou para ela. Grace. . senhora. você já andou nesse riacho? — Sim. Grace e Katie riram.. Héctor gostou do fato de a esposa brincar com ele. e acredito que foi no Kissing Creek que molhei meus pés pela primeira vez. fiquem longe da margem — Héctor advertiu.volta. O jogo de palavras e entendimentos era excitante.. O máximo que se pode fazer é passear e chapinhar na água.. — E você. Grace parou e pôs uma das mãos em pala sobre os olhos para evitar o sol. pôs a salada de batatas no prato descartável de Bubba. e Bubba franziu as sobrancelhas. mas por dentro. que se afastavam. — Pensei ter ouvido você dizer que minha cabeça era dura como pedra. — Bubba. — Crianças. mas. — Héctor.. Mas esse córrego não tem profundidade bastante para isso. — Não digo que seja um vácuo total. Héctor ergueu Katie da frente de Miranda e a pôs no solo. Bubba e Katie voltaram até a toalha de mesa que Miranda havia estendido. — Ele fitou Miranda. — Você tem uma cabeça tão oca que devia ter flutuado. já sentada. com pratos e copos por cima. segurando as rédeas. Miranda olhou os três. você sabe nadar? — Sim. — Não sei como conseguiu. — Héctor.

— É verdade. Aposto que será muito interessante. Héctor. — Vamos lá. — Parece que foi ontem. Ele afrouxou o colarinho da camisa. — Crianças. Héctor empurrou o chapéu para trás. muito mais do que a rígida educação dela permitia. Katie demonstrou preocupação no rostinho mimoso. Miranda empalideceu. Héctor entendeu que ela se lembrava de tudo o que houvera entre eles. Ela também se lembrava. — O que aconteceu. — Ah. antes de começar a rir. tudo aconteceu há uns cento e vinte anos. Randi. . O vento fustigava as plantas contra as costas de Miranda. Héctor recordou a jovem de dezesseis anos. — Quando você era pequeno? — Katie se deixou cair no chão e tomou o prato das mãos dele. Bubba deu uma tossida. quando a beijara pela primeira vez. Era óbvio que ele pretendia afligi-la. apavorada. papai? — Katie puxou a mão de Héctor. Conte a história. Os carinhos que se tornaram intensos com o tempo. — Não sou tão velho assim. — Ajudou Katie a se acomodar sobre a manta. Enquanto isso. Miranda baixou a cabeça para que ele não lhe visse os olhos enevoados. lembro-me de ter entrado na água. Héctor! — Miranda caçoava. Miranda girou o garfo e observou Héctor desembrulhar o sanduíche que havia trazido. Héctor apontou os pratos dos pequenos. e sua respiração tornou-se difícil. — Parece que foi nos tempos de nossa juventude.Grace espiou Héctor. cheios de comida. e sorriu. Bubba. Miranda o fitou e não conseguiu desviar o olhar. sentem-se e comam. contando o que ocorrera para as crianças. entregando-se ao homem que viria a ser seu marido. Miranda abriu muito os olhos verdes. e o sol se refletia a seu redor. O Kissing Creek está cheio de recordações. mas não sei se posso contar o que aconteceu à beira do Kissing Creek. lhes contarei tudo sobre o Kissing Creek. Tudo às margens daquele riacho. que retornou à realidade e suspirou. — De qualquer modo. — Bem. Da noiva às vésperas do casamento.

— Ah. — Ele fez um trejeito com a boca. e Grace se agitou. este córrego dividia as propriedades de duas famílias envolvidas numa eterna contenda. — Não sou. e o vento lembrou-lhe o acontecido no Kissing Creek. — Sim.. — Héctor segurava o lanche. — Conte! Conte! — Katie bateu palmas. — Tenho uma bela história. — Há muito tempo. — Um bebê com a cabeça cheia de picles.O suave vaivém das folhas de um salgueiro solitário. dos ombros largos e braços fortes.. — Miranda admoestou. Miranda ergueu as mãos. — Bebê chorão! Bubba ficou vermelho. os beijos ansiosos e a paixão intensa que os consumia. — Ela cruzou os braços. Estão prontos para ouvi-la? Bubba assentiu. — Grace riu da irmãzinha. Katie mostrou a língua para Grace. tornou-se agitado com a brisa. — Vocês duas! Chega! Elas se calaram. dos cabelos dourados com algumas mechas mais claras. — Você é que pensa! — E ainda dorme no berço! Héctor conteve uma risada. apreensiva. sem mais uma palavra. num gesto de desconsolo. — É. — Acho que os fatos são verdadeiros. . que não se cansava de arreliar a outra. pela visão das coxas fortes e esticadas. não — Katie se defendeu e cruzou os pequenos braços. à beira do riacho. — O que é contenda? — Katie quis saber. Grace. — Você não sabe nada. — Tudo bem com você. As mãos de Héctor em seu corpo.. Héctor — Miranda falou. Miranda fechou os olhos. — Muito bem. — Acredite. Miranda? — Mal posso esperar. Miranda se sentia hipnotizada pelas palavras de Héctor.. sim — Grace teimou. — Espero que não conte um amontoado de tolices. Héctor deixou seu lanche em cima da toalha e se estendeu de lado. E criança mesmo. levantou-se e fuzilou as irmãs com o olhar.

. sentado no chão e com o prato no colo. notou que perdera o apetite. — Por que elas brigavam? — Bubba indagou. — Mas é só uma briga de criança — Grace observou. Chegou uma hora em que só ficaram um jovem de uma das linhagens.. De repente.. ninguém se lembrava do porquê das discussões. Miranda! Talvez por isso os caminhos para os cavalos estejam imundos. — Depois de algum tempo. — Foi o que aconteceu com elas — Héctor continuou a fantasia. Miranda se perguntou. que não é bem assim. toda essa briga e confusão. Mas como essas famílias eram inimigas. — Por que o rapaz e . da outra.. — Ou tinham de ir embora para encontrar seu par. começou a diminuir o número de pessoas. — Grace pôs o dedo sobre o lábio. era costume dos rapazes se casar com as garotas das vizinhanças.nem se casavam. — Correto. — Isso mesmo — ele confirmou. — Acertou. plausível ou não. e uma garota. para fazer os trabalhos cotidianos para os parentes idosos dos brigões. — Ah. nem tinham filhos — Bubba presumiu. querida. Esperava pela confissão de Héctor. — As brigas são engraçadas.. Começam por alguma razão. — Como as duas famílias da história? Miranda sentia no peito o bater descompassado de seu coração. — Héctor fitou Miranda. ponderando. — Não. Na época. — E então. — Elas se matavam? — Bubba empurrou os óculos na face. isso é uma contenda. Eram apenas inimigos.— Katie. Será que Héctor pensava que o motivo deles era tão simples assim?. — Muitos adultos agem dessa forma a vida inteira. exultante. como um adulto.. Héctor? — Ela esfregou o nariz com força. e podem se prolongar para sempre. — Você quer dizer. balançando a cabeça. mesmo sem nenhuma causa aparente. — Acontece. — Oh. Bubba sorriu. — Grace não tirava os olhos dele. — .

. sem ferir muito o outro. crianças. — Mas e aí? Eles não mudaram de idéia? — Bubba se sentiu um tanto desapontado pelo gesto de Héctor para com Grace. sabe o que aconteceu? — Apaixonaram-se! — Grace apertou as mãos no peito e fingiu que desmaiava. — E verdade. vaidoso.. Héctor. mas também sabiam que jamais poderiam cruzar o riacho. — Héctor apanhou o chapéu que havia tirado e o colocou na cabeça de Grace.. Bubba apenas tornou a ajeitar os óculos. — Hum! Quer dizer que você é o rapaz. ou seriam deserdados. O menino sorriu. Quando os dois se olharam. só durante um tempo. esquecessem as velhas brigas que não os ajudavam em nada.a moça. sem se alterar. Que história boba! — Grace olhou para cima e bufou. — Héctor assentiu. teríamos um belo final. na mesma hora. — Nenhum deles podia fazer o que gostaria. — Se os dois. — Eu sou o dono disto aqui — Héctor murmurou. donos deste lugar. — Sem solução. — Héctor transferiu o chapéu para a cabeça de Bubba. “E um pouco tarde. com uma careta aborrecida. — Quer dizer que eles não tiveram escolha — Miranda interveio. um impasse e tanto. e Héctor retribuiu. os jovens não queriam contrariá-los. os dois tinham muitas tarefas. que se amavam de verdade.. — Com certeza. — Foi assim até o dia em que eles trouxeram seus bois para beber no riacho.. Estavam num beco sem saída. com medo de que Héctor falasse além da conta. Fim. E. Seria melhor cada um cuidar de sua vida antes que se destruíssem. . e uma delas era levar o gado para beber água no Kissing Creek. mas levantou o olhar para Grace. — Você tem razão. como os familiares dependiam deles. — Héctor abaixou a cabeça. — Sem dúvida.” Ele pouco mudaria. — Como eu ia dizendo. estavam muito ocupados com outras tarefas e não tinham tempo para limpá-los. Miranda e Katie riram. — Miranda parecia muito calma. Apaixonaram-se. em recompensa pela assertiva. e Miranda não ficaria satisfeita. em voz baixa. — Pensei que vocês regassem as flores. minha menina.. Grace. — Bem.

De certo modo. Héctor? — Foi atrás dele. A jovem não tinha idéia do que a esperaria àquela distância. — Eles se encontraram? — Grace o cutucou. sim. — Héctor pigarreou. e conversavam. no mesmo horário. iria querer um filho de seu próprio sangue? — O casal vinha até aqui todos os dias. — Héctor encarava Miranda. nada o teria impedido de fazê-lo. Miranda concluiu. Vasculhou quilômetros de moitas e margens . foi atrás da namorada. Baixou a cabeça. — O que ela fez. Temia os coiotes e os linces que habitavam por ali. — Certa vez. — O rapaz tinha de cuidar de seu próprio gado — Miranda acrescentou. — Mas a donzela simplesmente foi embora e deixou o rapaz preocupado sobre o que poderia acontecer a ela e ao amor deles. Só queria que ele parasse com aquela narrativa. cada um de seu lado. — Ficavam sentados. Grace — Bubba respondeu por ele. — Héctor não desviava a atenção de Miranda. Grace. senhor. sempre frio e distante.Aquele não era o Héctor insensível de um ano atrás. — Sim. Miranda teve a intuição de ter se precipitado. os olhos marejados pelas lágrimas. um bezerro pertencente aos parentes da garota resolveu passear córrego abaixo. Katie se encostou no irmão. — Podem acreditar: se o moço soubesse onde encontrá-la. bem mais longe do que eles costumavam levar os animais. quando escureceu. poderiam conviver com os problemas? Ou. satisfeita com a inteligência de Bubba para entender a situação. num tom de desafio. O garoto não agüentou mais esperar e. ela se assustava com a transformação de seu caubói. Se Héctor houvesse se modificado. — Por que ele não foi atrás da moça? — Ele não sabia onde encontrá-la. e trocava olhares apaixonados — Héctor prosseguiu. — Miranda sentiu-se culpada. sério. — Hum? Ah. — A garota apenas fez o que tinha de ser feito. se não voltasse. num pai verdadeiro. Miranda se espelhava na descrição de Héctor. — A moça tinha obrigação de cuidar do filhote. pelo fato de haver sentido o gosto da paternidade. — Suponho que fosse verdade.

Estava quase desistindo. — Que linda história! — Katie se agitou tanto que quase derrubou o copo. imitando seus gestos. Katie. saco plástico. — E se beijaram! — Grace concluiu. mas tiveram de trabalhar juntos. — Como um bebê? Héctor assentiu. Grace. Tinha de encontrar uma maneira para reverter a situação e impedir que ela o deixasse. Héctor a fitou e também se emocionou. cada um de seu lado. o que achou da narrativa? Ela despejou seu prato. — Miranda. — Eles conseguiram! — Isso mesmo. numa parte rasa do riacho. — E então? — Grace perguntou. — Correto. Héctor levantou-se e alongou as pernas. dramática. Miranda piscou para conter o pranto. ainda cheio. — Ele estava com fome? — Não. agarrou-o e o levantou. Miranda sabia que a frase era dirigida a ela. Assim como haviam feito todos os que ele havia amado. Precisava se afastar do olhar intenso e triste de Miranda. Ele se atirou para o lado do pobrezinho. — E depois? — Grace esfregava uma mão na outra. na parte mais estreita do Kissing Creek. A jovem não conseguia soltá-lo. — Após soltarem o filhote. Ainda mais: compreenderam como haviam sido tolos de ficar em lados opostos. . Encontraram-se no meio do córrego e prometeram ficar juntos para sempre. estava com a pata enterrada na lama. — Sim. permaneceram sentados. Estavam tão próximos que poderiam se beijar. enquanto a jovem libertava sua pata.. Héctor suspirou e percebeu Bubba de pé a seu lado.lodosas.. — Ele ouviu o bezerrinho gritar. — Oba! — Katie gritou. num. — O rapaz ajudou? — Claro que sim. O encontro era muito melhor.

— Senão? — ela perguntou.. desafiadora. querida? Pensa que tudo isso não aconteceu? — Até poderia. Se Miranda tiver coragem de me ajudar a demonstrar. — Ah. — Isso mesmo. — Claro. — Mas o que foi que aconteceu com você? — ele perguntou. nunca mais pronunciarei esse nome. — Bem. — Já disse para não me chamar assim. — Grace apoiou-o. — Os olhos verdes de Miranda chispavam. Randi. se a história não for verdadeira. Héctor. — Sorriu... — Mas será que posso? — Héctor viu o salgueiro onde haviam trocado os primeiros beijos e muito mais. — Nem sequer pode imaginar. — A idéia não me agrada. tenho uma idéia de como posso provar que a história é real. Randi? — Héctor estendeu a mão para a esposa. animada. Miranda suspirou fundo. então concordará que eu a chame de Randi. — Se eu estiver certo. — Acha mesmo. mas. — Queremos ver se aconteceu mesmo.. pelo menos de vez em quando... — Ela umedeceu os lábios e apertou a gola entre os dedos. o que me diz. nauseado pelo cheiro de feijão cozido misturado com o de sua vestimenta molhada e imunda. papai! — Katie pulava. prove para ela. — Héctor.— Um belo conto de fadas. — Esperem. nervosa. claro. Miranda. incapaz de deixar extravasar as emoções que lhe invadiam a alma. companheiro — Héctor resmungou. se eu estiver errado. Ele abaixou-se um pouco e a fitou com as pálpebras semi-cerradas. — Traga-me roupas limpas e aproveite para dar uma . Crispy fazia suas tarefas habituais na cozinha. — Você me auxilia na demonstração e. espantado. CAPITULO VI No meio da tarde. — Grace se lamentou.

. inclinou-se tanto que levou um tombo.. Jack. evitando chegar perto de Héctor e de seus trajes cobertos de estrume e lama. Seria um gracejo ou uma acusação? — E não será a última — Héctor admitiu.espiada nas crianças. babá. Olhe as crianças. — Nesta casa sou tudo. coração. Elas devem estar no quarto. — Desabei na. como se ele ainda fosse o jovem que a cortejara às margens do Kissing Creek.. — Quase me afoguei por isso. — Jackson fitou Miranda com aprovação. e apertar o corpo macio. Randi. Miranda não compreendeu a observação do cunhado. — O que aconteceu. — Na verdade. sentir a plenitude daqueles seios e as curvas irresistíveis dos quadris de Miranda. Miranda entrou e respondeu por ele. rindo também. Tais pensamentos aumentaram o desejo que sentia por sua esposa. meu velho? Perdeu uma aposta? A voz familiar de Jackson Sykes. — Traga minhas roupas. — E. Eu fico lhe devendo. Crispy. ele ganhou a aposta. — Apostamos ver se duas pessoas conseguiriam se beijar no riacho. Héctor faria qualquer coisa para conseguir isso e tê-la de volta. — Ainda bem. — Não é a primeira vez que Miranda o derruba. Héctor estremeceu ao sentir o olhar de Miranda em seu corpo e lembrou-se de quase terem se beijado.. o irmão mais novo de Héctor. surpreendeu-o.. hein? — Jackson riu.. fingindo dormir. lá mesmo! — ela caçoou e fitou o jeans sujo. — Miranda sacudiu os cabelos para trás e piscou com afetação. mas não precisava exagerar. à vontade. Héctor passou as mãos sujas na camisa úmida e esfregou os pés no capacho. dentro da água. — Pode considerar como um presente.. concluiu Héctor. — Crispy arremedou e desligou o gás do fogão.. Mordomo. Então. — Randi vive me passando rasteiras. O irmão adivinhava a ânsia malcontida que o maltratava. Não é minha culpa se pensou que eu iria deixar que me beijasse. — Se não o .

sacudirem de vez em quando. Deus é testemunha de que já tentou uma centena de emoções fortes e perigosas. — Não sei do que está falando. isso sim. Miranda riu e beliscou-lhe as faces. e ambos se envolveram num forte abraço. — Eu não acreditaria se não a visse com esses olhos que a terra há de comer! — Jackson estendeu os braços para Miranda. — Espere aí. deixando ver seus olhos faiscantes. Você não pode fazer isso comigo.. — Boa resposta! Você é uma pessoa divertida. — Mas não age como tal. — Miranda voltou-se e. Jack? — Ela recordou que não o havia cumprimentado. E um serviço muito arriscado! — Surpreende-me que ainda não o tenha experimentado. jogou a toalha e pôs as mãos nos quadris lambuzados. — Tudo bem. . seu humor “excelente” poderá azedar de vez. — Sabe o que dizem. então você acertou.. minha querida. Héctor franziu as sobrancelhas. garoto. com raiva. Jackson ergueu o queixo quadrado. nem o invejara. — Não namoro nenhuma bela jovem — Jackson concluiu. Jack! Héctor nunca sentira ciúme do caçula. não devo nada a ninguém. e faz tempo que. fitou-o de cima a baixo. — Héctor amassou o pano. — Jack me parece bem crescido. Héctor atravessou a cozinha e apanhou uma toalha pendurada ao lado da pia. não é? Os texanos sempre acabam voltando para casa. ainda com as mãos nos braços musculosos do cunhado. mal-humorado.. Jack. meu irmão. — Bem-vinda ao lar.. — Héctor esfregou a sujeira dos dedos. — Devíamos arranjar um nariz vermelho. meu irmão. — Se “não muda” quer dizer não cresceu. Randi. acariciou os cabelos crespos de Jackson. — E um desordeiro. — Você não muda. — Minha fazenda vai de vento em popa. uma barrica e dar-lhe um emprego de palhaço no rodeio. Héctor. Mas se abalou ao ver sua esposa fechar os olhos e se render à ternura sincera de Jackson. — Miranda riu.

. — Está ótimo assim. teria feito um bolo! — Crispy anunciou. sarcástico —. Héctor? — Jackson inclinou a cabeça para a frente. Até lá. quase gritando. — Jackson soltou Miranda. perto de Héctor. — Você gosta mesmo de viver perigosamente. — Jackson a abraçou pelos ombros e brindou-a com uma piscadela.. — Fique fora disso. — Ele não agüenta. grandalhão. como se fosse um cumprimento. — Héctor respondeu com indiferença. É um assunto entre mim e ele. o que acontece com você? Jack queria apenas. — Vai me bater só por eu estar agradando minha cunhada favorita? — Eu não pretendo esmurrá-lo. . — Miranda quis defender o cunhado. Pôs tudo em uma cadeira.. Héctor fez um gesto de enfado e pouco-caso. Ele voltou para a cozinha trazendo um jeans e uma camisa limpos. — Mas um pouco de juízo não faz mal a ninguém. além de uma toalha de banho. Não é mesmo. Jack? Jackson não dava a impressão de perceber a irritação de Héctor. Héctor afastou as pernas. Miranda? — Claro que não! — Miranda fez graça. Héctor Sykes. — Ela me ama.— Héctor. minha querida. se não quer Randi envolvida em nossos assuntos. — Embora eu não necessite de ajuda.. beligerante. menino. Héctor é um retrógrado. devagar. Miranda se conteve para não rir dos dois. se me der licença. — Não há nada de errado comigo. — E. — Eu sou um sujeito criativo e dou asas a minha imaginação. — O que posso fazer. Ela só quer ajudar. por que não tira as mãos de cima dela? — Farei isso — Jackson concordou. e se afastou. não é. Jackson retribuiu. cavalheiro. — Ah. se a jovem senhora me pedir. Héctor apertou os dedos nas palmas das mãos e não retrucou. — Não critique Miranda. se eu soubesse que você viria. — Precisa tanto de auxílio que nem uma comissão médica de psiquiatras poderá resolver seu caso. — E não o proteja! — Farei tudo o que tiver vontade. — Héctor pigarreou.

de costas. abriu a torneira num jato de água forte e deixou-o escorrer por suas mãos sujas. patrão? Encher a banheira? Providenciar espuma perfumada? Enfiar sua cabeça dentro da água? Jackson assobiou assim que viu Crispy sair. por que você não volta a trabalhar em tempo integral na fazenda? Estou aqui para ajudar. sei muito bem disso. lavou o rosto. e Miranda não podia deixar de se oferecer outra vez. — Por quê? — Miranda interveio. Héctor nada respondeu. E por isso estou aqui..— O que mais quer que eu faça para o senhor. Jack. Seria preciso tempo e paciência para ela voltar a merecer credibilidade. — Você não trabalha? — Claro que sim. perdia uma bela ocasião de ficar com a boca fechada. Héctor. irritada. — Vai mesmo ficar. com certeza. . Randi? — ele perguntou. mas também já estava atolada até o pescoço nesse episódio. As palavras de Héctor no Kissing Creek encheram-na de esperança.. Em seguida. Héctor endireitou os ombros largos e a fitou de soslaio. — E semelhante à história do Kissing Creek. Mas o futuro deles valia o sacrifício. incrédulo. Ora. Miranda conhecia esses silêncios. sob as pálpebras semicerradas. mas prometolhe: não sairei daqui. o que veio fazer aqui? — Héctor indagou. — Afinal. — Teremos de trabalhar juntos. De novo. — Héctor. resmungando. Tomarei conta das crianças e não o abandonarei. ela pensou. Os irmãos a encararam. até você conseguir a adoção legal das crianças.. — Ela suspirou e lhe estendeu a mão. — O quê?-— Héctor fechou a torneira. — E vai continuar fazendo isso até que se resolva a situação das crianças. Héctor foi até a pia. Um pouco a mais não faria a menor diferença.. virou-se e enxugou-se. tanto quanto você. — Não entendi. — Mereço seu descrédito. — Vim para lembrá-lo de que seu capataz vem se matando de trabalhar nas últimas semanas.

Ela apreciava o aconchego e a segurança que havia ali dentro. passeando o olhar pelo quarto. Também não podia chorar. Héctor enxugou as mãos com a toalha e pegou-lhe os dedos úmidos. e se voltou para Grace. muito feliz. Héctor não havia modificado quase nada em seu aposento de solteira. Daí a pouco. Ela deu uma espiada em Katie. Miranda sorriu. suspirou profundamente e balançou a cabeça. . Grace também começava a chamá-la pelo apelido carinhoso. acariciando-lhe o rosto. Miranda manteve o braço estendido e trêmulo. fechou os olhos e adormeceu. A menina virou-se para o lado de Miranda e prendeu-lhe a mão com a face rosada. — Querida. A garota tirou a mãozinha de debaixo do lençol e tocou-lhe o braço. Bubba ainda a chamava de “senhora”. e Miranda se preocupava muito a respeito. Miranda se rejubilou. Se as crianças fossem embora. — Queria que Héctor falasse de novo sobre o Kissing Creek. — Eu não estou com sono. Ainda assim. — Não vá ainda. Agora está na hora de dormir. Aproximava-se a data decisiva no processo de adoção. Randi. — E eles viveram felizes para sempre. Ele fitou a mão da esposa. Miranda se perguntou o que faria se o marido recusasse o aperto de mão. — Sei que quer esperar Héctor subir. o aposento guardaria recordações ainda maiores. Ele aceitava sua promessa. Fim. Ir embora apenas provaria que Héctor estava certo. Miranda se curvou e beijou-lhe a testa. Depois de quase duas semanas com eles. Tinha de ser forte e esperar.O olhar de Héctor era acusador. Katie havia sido a primeira a imitar Héctor. que dormia na cama de meia grade. apesar de seu olhar cheio de cautela. eu dois contos para você. as memórias de momentos despreocupados e felizes. Mas hoje é dia de pagamento e há uma porção de pessoas querendo falar com ele. — Miranda pôs o grande livro vermelho de contos sobre o criado-mudo e ajeitou o cobertor amarelopálido da cama de Grace.

— Sim. Miranda fora uma garota muito bonita. largou a caneta sobre a mesa e esfregou as mãos. Afastou o olhar das fotos. Hesitou um pouco. foi com ele à igreja onde haviam se casado e ao curral onde Bubba praticava equitação. cozinhou para elas. A luz do quarto de Bubba ainda estava acesa. Era um homem da terra. controlar as finanças. Miranda o ajudava muito. Praguejou e massageou o pescoço. mas foi até a porta fechada. Héctor terminou de assinar os cheques constantes da folha de pagamentos. dar-lhe boa-noite. Héctor reclinou-se na poltrona.Apagou a lâmpada e se dirigiu para a escada. Ela suspirou. — Nossa. e ainda era. que semana! Nos dois meses que se seguiram à chegada das crianças. dolorido pelo excesso de trabalho à frente do computador. com tristeza. Miranda cumpria a promessa. Quem sabe conseguiria furar o bloqueio daquela resistência? — Bubba? — Miranda bateu à porta. ela arquivara todas as pastas de contabilidade da Circle S. O garoto não gostava de histórias para dormir. mas também não lhe permitia nenhum tipo de aproximação física. senhora? Havia muitas palavras de coragem e conforto para serem ditas.. Seria mesmo dele? Suspirou.. Desceu os degraus e foi ver se podia ajudar o marido.. ia para a cama dele. Naquelas duas semanas. — Queria apenas. ao mesmo tempo. Sua doce Randi. Só satisfação. todas as noites. Virou-se para a frente e passou os dedos pelas bordas trabalhadas de . ele quase esquecera a dificuldade em administrar a fazenda e. Ainda não fora dessa vez.. senhora. E. girando-a para trás. garotão. Encostou-se ao batente e sussurrou o que Héctor sempre dizia ao menino: — Durma bem. Cavalgar horas a fio nas pastagens não lhe causava nenhuma problema. Sempre admirava as fotos da esposa na parede. Sozinha. Miranda cuidou das crianças. Naquele dia. — Boa noite. nem de beijos de boanoite. Mas não podia deixar de fazer mais uma tentativa.

Levantou-se e abriu uma caixa vazia que reservara para guardar as lembranças de Miranda. Ainda não o eram. E. Primeiro. — Uma moeda pelo que está pensando! — E você tem dinheiro? — Héctor fitou-a. Tinha de se redimir e fazer com que Miranda quisesse ficar. Beetle. Héctor a atormentara muito. um por um. Era o desespero de saber que seria abandonado pela mulher que amava tanto. se você me emprestar. sorridente. depois do processo terminado. Héctor se ajeitou no assento e fixou-se nos livros da estante. Héctor amava os pequerruchos como se fossem seus filhos. angustiado. avistando várias obras sobre as causas e as prováveis curas da infertilidade. Miranda iria embora. mas admitia ter sido o responsável por sua fuga. e. alegando que não havia “fotografias familiares” por ali. Estar perto dela de novo o fazia entender os erros e aumentava sua vontade de acertar. O que aconteceria quando tudo estivesse legalizado? Tinha de dar razão à sra. teria de apagar o erro que os afastara. já tentara se aproximar e envolvê-la com emoções fortes e evidentes. Tirou da estante todos os livros sobre infertilidade e fez uma pilha em cima da mesa.um porta-retratos com a foto dos pequenos. Beetle. Ele e Crispy não poderiam cuidar dos irmãozinhos e da propriedade de modo adequado. Enfiou lá dentro. Tornou a sentar-se e observou a prateleira sem os livros. e aquele ato o remetia às profundezas de sua própria alma. Forçar a relação amorosa não era o caminho certo para diminuir o abismo existente entre eles. a menos que ele passasse pelo crivo da sra. Cada um deles devia ser um abalo no coração de sua esposa. Eles haviam se tornado uma família. Ainda não havia superado o ressentimento por ela ter ido embora na primeira vez. Miranda providenciara o presente. os motivos que a fizeram ir embora. Passou os dedos entre os cabelos. porém. Sem sucesso. — Retribuiu o sorriso. O sofrimento crescia e dilacerava seu coração. mais uma vez. Fora mesmo um imbecil. no entanto. Miranda tivera razão em fugir. com raiva e determinação. Ficou abismado pela quantidade de volumes. jamais seriam. . Miranda abriu a porta do escritório. Queria sepultar seu comportamento absurdo. — Terei.

Levantou-se e deu a volta por trás da escrivaninha. — Primeiro. Héctor? Para Miranda mudar de opinião.. — Estou esperando — desafiou-o. aturdida e radiante. Bem. talvez Miranda mudasse de opinião a seu respeito e aceitasse ser outra vez sua mulher. está querendo me dizer que perdoou minha fuga? Héctor não podia dizer-lhe que já a havia perdoado. Sempre mantendo uma distância prudente. Héctor imaginou.. a alegria de estarmos reunidos à mesa de jantar.— Desculpe-me. você nem pode imaginar o que significaram para mim essas duas semanas. Isso para mim é fundamental. Arregalou os olhos verdes e esperou. — Não quer me dizer mesmo em que estava pensando. Miranda endireitou-se. — Randi? — Héctor pigarreou e desviou o olhar do corpo de Miranda. todos os dias. Héctor. Acho que preciso rever todos os meus pontos de vista. Miranda jogou para trás os cabelos escuros. A segurança de saber que os três irmãos estão sob seus cuidados e sua dedicação. — Quero que veja uma coisa. quando Héctor passou por ela.. garota? Ela escorregou os braços um pouco para a frente e se agarrou no espaldar de couro. Estou sem um centavo. Héctor sentia aumentar sua devoção e desejo pela esposa. — Quer mesmo saber. Miranda disfarçou sua decepção. mas acabei de fazer a folha de pagamentos. — O que é? . — Randi.. Se conseguisse fazê-la entender o tamanho de seu amor. Héctor pensou era como era excitante ver as belas formas arredondadas traseiras mais salientes e o busto exuberante empinado para a frente. até ter certeza de que Miranda não o deixaria mais. — Boa desculpa! — Miranda entrou e apoiou os braços no encosto de uma cadeira em frente à mesa. — Um elogio desses vindo de outra pessoa não me surpreenderia. ele refletiu. seria melhor começar logo. Mas de você. Mas apenas deu um passo e apontou para a caixa de papelão ao lado da escrivaninha. E isso era o que ele mais desejava no mundo... à medida que os dias se passavam.

Quando descobriram que Miranda era infértil. Não posso acreditar que não vai acabar me odiando. Depois de alguns segundos. o problema assumiu proporções inimagináveis e. — Você me exclui emocionalmente de qualquer processo decisório. Fitou a caixa a seus pés. Então. Quero lhe mostrar que jamais tornarei a fazer esse tipo de coação com você.. Isso — apontou para a caixa —. Miranda sacudiu a cabeça. — Não a odiei por ter ido embora. Nem poderia.. — Compreendi que fui um tolo em pressioná-la tanto.. — Nunca poderia odiá-la. Héctor? — E o nosso passado. — Vou jogá-los fora ou doá-los para alguma biblioteca. ele procurou inúmeros médicos. ficar comigo de novo. Héctor.Ela inspirou fundo para afastar o sentimento de frustração e se aproximou para verificar do que se tratava. — Mas eu pensei. e desviou o olhar. poderia pensar em. Não é o fato de eu ser infértil que se toma uma barreira a nossa felicidade. Randi. tratamentos e cirurgias especiais. — Havia pânico em seu belo rosto. é apenas um exemplo dos problemas reais existentes entre os dois. Randi.. — Você planeja tudo de acordo com o que acha certo. — No quê? — Héctor encolheu os ombros até quase encostá-los um no outro. Ela saiu de trás da poltrona e veio para perto dele. Nós não resolvemos nada juntos! Héctor se conteve para não lhe dizer qual fora a origem dos problemas deles.. — Eu? — ele gritou. — Miranda apertou o encosto da poltrona de couro. — O que quer dizer isso.. por que a desprezaria por ser estéril? — Porque você não me aceita como sou.. — Você escutou o que disse? Você decidiu que vai se desfazer dos livros. Héctor não respondeu. com movimentos lentos. Assim. .. — Não entendo. — Eu não acredito. Examinou o conteúdo e corou. arisca. encarou-o. Miranda levantou as mãos.

enfiado em algum canto. pessoal! Posso entrar? — Era a voz inconfundível de Crispy. — Crispy agitava um pedaço de papel no ar. tímida. — O que houve. Beetle me telefonou. — Tão cedo? — Miranda engasgou. fui para a cozinha e vi que a folha ainda estava em cima do balcão. ansiosa. — Ainda está aí. devagar. homem? Pensei que já estivesse dormindo. meu velho — Héctor pediu. É da amável Arlene Beetle. Miranda fungou. Miranda mordia a ponta do lábio. que a apertou entre as suas. as crianças me ensinaram muito a dar e receber. — É que telefonaram hoje de manhã e deixaram um recado. — Eu já não disse? Arlene avisou que vai voltar para uma visita. . com os olhos marejados. — Leia logo.. Ela sorriu. mas Crispy continuava agitando a mensagem. — Sou eu. Conversamos muito. Randi. Héctor.. deu uma tossida e. — Você acha que não me modificaria sob outros aspectos? — Se ainda estou aqui é por ter esperança de que sim — ela confessou. — Dê-me uma chance. ela é viúva. — Bem. com um enorme sorriso no rosto enrugado. — Agora há pouco. Miranda afastou-se rápido. Héctor suspirou e estendeu-lhe a mão. Sabe. Até Miranda se animou com a alegria do amigo. — Sim. Crispy? — ela perguntou. — Será que isso é um convite? — O cozinheiro entrou. eu notei.— Até pode ser. e daí? Quero saber por que a sra. Mas e seu inconsciente? — Posso me modificar! Embora não seja um tipo de pai muito sensível. — Do que se trata? — Miranda tentou ler.. Ouviram batidas animadas à porta. Héctor sorriu para a esposa e experimentou um misto de vazio e esperança. pôs a mão sobre a de Héctor. se você quer. — Sei..

— Sei disso. e a decisão sobre o futuro das crianças será dela. — Faz tanto tempo assim? — Miranda se espantou e tomou um gole de café. — A sra. Comprar mobílias infantis e outras coisas do gênero. Pelo amor de Deus! O que foi agora? Miranda pegou a caneca de cerâmica branca e inalou o aroma da bebida forte. Beetle esteve aqui. mas está apenas usando uma das oportunidades que você lhe ofereceu! — Acha mesmo? — Faz duas semanas que a sra. — Héctor Sykes. você não vê? — Miranda segurou-lhe o braço. mas não teremos tempo para isso. — Nossa! — Crispy entrou no dormitório das meninas. estes aposentos não foram pintados desde sua adolescência! — Héctor andava de um lado ao outro. pela manhã.. sobre o que fazer no quarto das crianças. porém muito importante. Miranda — Crispy deu seu palpite e bateu a caneca de Héctor em cima do criado-mudo. — Não é por isso que Arlene vem. se é só isso. — Quer entregar alguns documentos na segunda-feira. amanhã cedo começaremos a fazer modificações nesta casa. — Héctor acha que devemos pintar os quartos. recordando esse detalhe pequeno. — Héctor tem razão. — As paredes nem estão muito descascadas. — Será que não conseguem decidir-se? Os garotos vão ouvir esse bate-boca lá de baixo.. — Miranda. — Ah. sem chegar a nenhuma conclusão. Seria melhor pendurar alguns pôsteres e mudar a decoração. trazendo café fumegante. — Crispy piscou.. Beetle diz que vai entregar alguns documentos. Visita rápida. CAPÍTULO VII Miranda e Héctor discutiam em voz alta. com as mãos nos bolsos. na sala de televisão.. .— Ela falou que iria fazer uma avaliação depois de um mês! — Héctor estava aflito. — Héctor.

— E então. e Héctor sabia bem disso. surpresa. provocante: — Acredite. Frustrado. inclinou-se e murmurou.. — Qual sua sugestão. Para se fazer algo. Randi? — Bem.. — Como assim? — Garotas também gostam de cavalos. — Como é que é? — Héctor quase engasgou com a bebida amarga. A corrente elétrica da sensualidade apareceu e se desfez num instante. — É melhor seguir meus planos. Nada. e endereçou-lhe um sorriso irresistível. triunfante.. penduraríamos pôsteres.. — Não sei não. — Deixe-me ver. — Crispy fez um meneio com a mão defeituosa. Para o dormitório das meninas. veja bem. teremos tempo de trabalhar bastante. bonecas. Miranda. meu velho. — Eu não falei? — Miranda sorriu. — Héctor! — O que foi? — Não afirmou ontem que tomaríamos as decisões em conjunto? Que você poderia mudar.. — Miranda. cortinas franzidas e algumas bonecas. tem de ser bem-feito. É um motivo interessante. Héctor. poderíamos usar temas de contos de fadas. mas tinha de mostrar que honrava sua palavra. Havia muitas mágoas a serem esquecidas. — Também pode parecer que as estamos forçando a seguir nossos . Randi. — Ela o olhou. — Acho Grace e Katie muito pequenas para se interessarem por equitação. Assim. não quero fazer nada sozinho. — Miranda estalou os dedos. duendes.. compraríamos colchas de babados. Héctor refletiu. — Um verdadeiro quarto de menina! — O que acha de cavalos? — Héctor perguntou. Irei à cidade comprar as tintas e. não temos condições de fazer tudo em apenas um final de semana — Héctor concluiu. Ela tomou outro gole de café para disfarçar o embaraço e o tremor.— Por outro lado. apanhou o café em cima do criado-mudo. — Talvez seja melhor achar uma terceira opção. e outras coisas mais? Miranda tinha razão. Pedirei a Jack para ficar com os três durante o dia. Ainda não podia dizer o que ela queria ouvir. cismado. — Miranda ficou tamborilando um dedo na face por alguns segundos. Chegou mais à frente.

— Sim. — Feito! — Ela sorriu. O que acha? — Sim. — Hum? — O unicórnio. O perfume da pele e dos cabelos deixava-o saudoso do tempo em que eram casados. nada melhor do que motivos de faroeste.. — Acha mesmo que Bubba quer ser como eu. E combina com o beliche que vou comprar. . Podia até sentir a curva dos seios generosos sob o tecido macio da camiseta amarela. Tudo bem. Bubba acha você o máximo. Meninos sempre têm esse tipo de cama.. Só mesmo o medo de afugentá-la e um controle férreo contiveram o ímpeto de beijá-la. Onde já se viu? Unicórnios! Miranda o fitava. Beetle verá que temos planos para o futuro de Bubba. Héctor tornou a cerrar os dentes.. — Para mim. — Você não vai colocar bonecas com cara de palhaço nem dinossauros montados em bicicleta para Bubba! — Claro que não. — E daí? — A sra. Héctor tinha de se controlar para não tocá-la. Mas fadas? — Héctor balançou a cabeça. Nunca tive um beliche. Concordo. — Por isso você se tornou uma pessoa tão simpática. — Héctor? — A voz de Miranda acordou-o da fantasia sensual.. Quando ele passar a freqüentar a escola em Lost River. — Está bem. Héctor encolheu os ombros e suspirou.passos. — E que tal pôneis? — Unicórnios são mais interessantes! Ele cerrou os dentes. para ele. parece inútil. — Beliche? — Lógico. Depois. Pode comprar o tal beliche. os olhos verdes grandes e inocentes.. desceu a inspeção até os quadris e imaginou a delicadeza das nádegas redondas. poderá trazer amiguinhos para dormir aqui. Randi? — Ele o idolatra. E.. nem amigos para dormir em minha casa. Miranda estava de braços cruzados e o fitava com malícia.

noite. ajeitou os óculos e se afastou da entrada. Bubba estava parado à soleira. Miranda sorriu e acariciou o rosto da garota. para tranqüilizar as pequenas. . Grace acenou afirmativamente. envergonhada. Um trovão chacoalhou o vidro da janela. com aprumo. — Ele é bonito. — Vocês se divertiram bastante na casa de tio Jackson? — Resolveu mudar o assunto. — Você foi tão boa deixando a gente dormir aqui esta noite! — Grace se acomodou. — Veio ver como estão suas irmãs. queridas. entre as cobertas. Se não voltasse a viver com Héctor. Um clarão iluminou a grande janela panorâmica. com um gesto de cabeça. mexendo o narizinho. Voltou-se. Miranda se virou para ver o que era. Um raio cortou o céu escuro.. mas também as crianças a quem muito se afeiçoara. porém. Com toda certeza. Grace e Katie gritaram e se abraçaram debaixo das cobertas da cama de casal enorme do quarto de Miranda. Assoou o nariz e limpou as lágrimas. uma sombra passara em frente à porta. teimosas.Passava um pouco das nove horas da. nada viu. — Que lindo! — Miranda não queria melindrá-lo. com voz suave: — Não tenham medo. — Ele é tão engraçado! — Katie exultou. Trovões fortes faziam estremecer o ambiente. que. perderia não só o homem amado. — Mas não tanto quanto você. pálido e com os olhos arregalados. — Eu também o acho divertido — Miranda assentiu e fez cócegas nas duas. e a escuridão era total. É apenas uma tempestade de verão. Ela ajeitou os travesseiros sob as cabecinhas loiras e as acalmou. com evidente prazer.. Bubba? Ele vacilou por alguns instantes. Miranda — Grace segredou. Miranda podia jurar ter percebido um pequeno movimento à entrada do quarto. — Katie fez uma careta. caíram sob os cílios. apertou os lábios. Miranda emocionou-se e apanhou um lenço no bolso de sua calça jeans. — Héctor e eu trabalhamos bastante aqui.

Randi — elas responderam. mas será que poderia ficar com elas. “Meu Deus. — Não sou um bebê. depois com Bubba.. — Obrigada por ficar com suas irmãs esta noite. E se o processo de adoção não chegasse a um bom termo? E se. Miranda arrumou o acolchoado. Miranda beijou-o de leve na testa e saiu do quarto. ela se regozijou. Miranda fitou Bubba. ao lado das irmãs. está errado. Esta lingüeta é para enfiar na . sim. — Boa noite. mas estava com receio de deixá-las sozinhas. enquanto terminamos a montagem? Miranda afofou o travesseiro grande e branco do lado vazio da cama. sem saber como se despedir. — De jeito nenhum. Randi — O menino apenas mexeu os lábios.. só tinha um jeito de descobrir isso: ir até o quarto de Bubba e ajudar Héctor. minhas meninas.. — Boa noite. querido. senhora. Bubba fez um muxoxo e fitou os próprios pés descalços. Primeiro com Héctor... O rosto de Bubba se iluminou. — Sei que é pedir muito. — Miranda desceu da cama e apontou para as garotas. Veja as instruções. — A senhora sabe.. Bubba.— Vim. — Claro que sei — Miranda demonstrou a maior sinceridade possível. Bubba correu e se enfiou embaixo dos lençóis. Héctor não pudesse perdoá-la? Bem. inclinou-se e beijou as duas. trovão interrompeu o diálogo. apesar de todas as promessas. que progresso!”. Não é que eu tenha medo. — Héctor. — Tudo bem — ele sussurrou.. mas ela entendeu. Boa noite.. — Boa noite.. — Não se esqueça de tirar os óculos. — Preciso ajudar Héctor a montar o beliche em seu quarto. A claridade intensa de um relâmpago e o ribombar de outro. — Foi ótimo ter vindo. Ao mesmo tempo ficou apreensiva..

— E bem a tempo. dobradiças. — E se não for. Miranda olhou o relógio da parede.. Não poderíamos dormir e terminar amanhã? — Sem chance. em forma de ferradura.ranhura B! Será que você não percebeu? Ele ergueu a sobrancelha. Randi. — Isso é chantagem. — Ele pôs a ponta da língua para fora e ajustou uma ripa na fenda do pé da cama.. Para seus pais. — Logo pela manhã precisaremos pendurar os quadros e arrumar todas estas embalagens. — O que está fazendo? . Parece que estamos chegando ao fim. — Héctor encaixou outra ripa. — É o mundo de Lost River. Héctor assentou todas as madeiras e se afastou para admirar sua obra. por exemplo. Mas. até encaixá-la. pegou um dos colchões que estavam encostados na parede e o arrastou até o beliche. mas não respondeu.. — Nós iremos à igreja. — Não vamos construí-la. Miranda não respondeu. — Igreja? — Gemeu. E fazia horas que eles lutavam com esquemas. — Você está brincando? Enfrentar todas aquelas comadres mexeriqueiras e explicar por que não posso participar das atividades sociais? Héctor bateu com a mão fechada sobre a extremidade da ripa. encaixes e madeiras de todos os tamanhos e formatos. — Eis aí! O que acha? — Héctor! Você terminou! — Bem. — Héctor. — Vamos fazer um intervalo? — Miranda mudou de posição. Temos de levar as crianças para o culto das onze. parafusos. Os trovões continuavam a distância. nós não vamos agüentar. ainda falta apertar os parafusos. — Héctor passou o polegar sobre o acabamento de um pedaço de madeira.. todas elas se encarregarão de espalhar a novidade para as faladeiras de plantão do país. O vendedor da loja de móveis havia jurado que até uma criança poderia montar o beliche. Miranda ergueu-se. cansada. — É quase meia-noite.

e depois a boca sedenta. todo o amor e a paixão que ela escondia em sua alma. — Vou ficar aqui. Randi. tenso e lhe acariciando o rosto. Se fingisse estar dormindo. — Por isso — ele sussurrou. e os pés da cama rangeram. Não. Héctor bateu-lhe no ombro. os ombros. Beijando-lhe o pescoço.. Miranda jogou o colchão azul-claro sobre as ripas recém-colocadas. a sensação de que sua pele estava eletrizada. Eram as lembranças de Héctor a seu lado. até a cabeceira e se virou. vá para seu quarto. Randi. Não dá para usar. — Você é exagerado. Miranda sentiu o calor da respiração de Héctor.. por seu olhar.. de novo. — Não posso mexer um músculo sequer. os seios. — Randi. Riu.. Mas não podia simplesmente levantar-se e sair do quarto. A cama oscilou um pouco. odeio fazer isso. você está mandando. arrastou-se por sobre o colchão. Por que deveria. se quer dormir. — Não é seguro. perto de Héctor ela não estava segura. — Não sei se posso. Miranda teve. Ela se deitou e fechou os olhos. — Não é possível. mas. — Ela fez um gesto de pouco-caso. — E por quê? Miranda levantou a cabeça e deu uma espiada para fora de seu refugio. Héctor — ela falou. Tentou. — Ande logo. ele iria embora.. — Randi. — E melhor se levantar. como se tivesse quase adormecido. saia daí. Não queria que ele percebesse. — Em primeiro lugar. — Deixe-me. ..— Procurando um lugar mais macio de que este carpete velho para me sentar. ainda preciso parafusar tudo. quando ele se ajoelhou perto dela e fez o móvel tornar a balançar. — Viu? Nada aconteceu. — Muito engraçado! Agora.

. Acariciou as faces amadas. Os relâmpagos riscavam o céu escuro. — Dois..— Bem. — Talvez fosse melhor. Miranda tirou a camiseta de dentro da calça. — Qual é? — Miranda não abriu os olhos. então fique. — Boa idéia — Miranda concordou e esperou ele se mover. — Héctor apontou para o lado de fora do beliche.. Ela se virou e abriu os olhos. — Quer dizer. Se Héctor não estivesse beijando a curva de seus ombros. Devagar... ela teria conseguido arrancar a camisa pela cabeça. A cama oscilou. o queixo e o pescoço. Randi. Acariciou-lhe os lábios com os seus. os cabelos loiros e o poder daqueles músculos de encontro às súplicas de seu próprio corpo. sobre e dentro de sua carne ardente. O móvel tornou a ranger e parou. . O cheiro da pele. Héctor se inclinou e segredou-lhe ao ouvido: — Vou ficar em cima. Héctor beijou-lhe os lábios. Eles não se moveram. Héctor. — Não sei o que dizer. — Contarei até três e sairemos num pulo só. Héctor se deitou na beira da cama estreita e a puxou para perto de si com uma das pernas. na parte de cima do beliche? — Você é quem manda. Tudo em Héctor a envolvia e excitava. Miranda assentiu. Miranda queria sentir aquele físico a seu lado. — Então não fale. Miranda perdeu o fôlego. Mas com uma condição. sem as roupas. — Um. Com os dedos trêmulos. Héctor apoiou um pé no chão. por favor! — ela implorou.. — Oh. Héctor procurou-lhe o interior da boca com a língua ansiosa e quente. Ajudou-a a fazer o mesmo.

— Amanhã cedo pendurarei os quadros e farei a limpeza. Héctor. Pôs o chapéu preto na cabeça. enquanto observava o interrogatório feito por um grupo de mulheres.A trovoada recomeçou e ressoou pela casa. Miranda sorriu com tristeza. — É como tem de ser — Crispy filosofava. preciso dar uma espiada neles. sem se voltar. Héctor chegou perto de seu irmão. não pretendia se aproximar muito da esposa. Miranda suspirou e se afastou do marido. não temos de parar. escutou o barulho das madeiras batendo no chão. Miranda saiu do quarto. das crianças e do cozinheiro. sem expressão. Mas nada aconteceu. — Três! Miranda pulou para fora do beliche e caiu nos braços de Héctor. Héctor a pegou pelo cotovelo. Antes que me esqueça. — Randi. Ao lado deles. — Com três pimpolhos dormindo nela. Depois da breve intimidade da noite anterior. — Ainda bem que não pudemos prosseguir. Crispy? . do lado de fora da igreja. No corredor. Miranda se agarrou no braço de Héctor. — Droga de móvel — Héctor murmurou. Boa noite. CAPITULO VIII — Miranda Jean Robbins Sykes! Por que não foi ao encontro do comitê de planejamento da escola bíblica. Sabia muito bem como seu marido estava se sentindo. Há um leito enorme à nossa espera. na semana passada? Todos perguntaram por você. Héctor pensou. Você pode terminar a obra sem mim? Ele apenas a fitou. Onde está se escondendo? “O mais longe possível de mim”. — De que está falando. ajeitou o paletó de seu temo cinza-chumbo e enfiou as mãos nos bolsos. o móvel balançou para a frente e para trás.

pode pedir à sua linda senhora para lhe fazer uma refeição mais refinada. e Katie não saíam de perto de Miranda. Grace. meu velho? — Héctor perguntou. Apenas corrigindo os jovens.— Nada importante. garota. animada. pois tomei conta de seus filhos ontem. Jack. querida? — Héctor fitou o rosto redondo da menina. Crispy fez.. — Parece que você deve desculpas a Crispy e um almoço para mim. Que tal hoje? — Tudo bem. — Randi. precisa de sal e talvez um pouco mais de cebola. — Se não gosta. .. — Ah. — É a comida que o sr. quando na verdade tinha muitas outras coisas a fazer. em desafio. posso. — Deus nos ajude! Crispy fez uma careta. filho. antes que me esqueça: o que fez para o almoço? — Carne de porco com feijão branco! — Katie puxou a barra do paletó de Héctor. Desculpe-me. Crispy — ele murmurou. — Há muita gente por aqui. — E pão de milho — Grace completou. — Crispy tirou um jarro branco pesado do grande refrigerador de duas portas. — Agora entendo por que minha mãe insistia em almoçar fora aos domingos. — Estou fazendo comida também. tirou um pouco do molho que borbulhava. — O que está tramando. — Sim. Héctor estava na cozinha resmungando com todos. com uma colher de pau. — Verdade? — Héctor franziu o cenho ante a idéia da refeição que não apreciava. Miranda fechou os olhos e ergueu o queixo. — Quero hambúrguer com fritas! — Grace gritou. Esperou um instante que esfriasse um pouco e experimentou. Jackson abraçou o irmão. Héctor. Jackson levantou a tampa da panela que estava em cima do fogão e. — Miranda soprou uma mecha de cabelos do rosto e fechou uma porta do armário com o joelho. Uma hora mais tarde. Se quiser. sem saber o motivo de sua irritação. — Vocês não têm nada mais interessante para fazer? — Vou ficar aqui.

em cima do fogão. — Nós ganhamos um copo de plástico vermelho que é um sapato de caubói. Héctor observava a cena. Miranda. — Você levou minhas crianças para comer essas porcarias? — Vamos lá de novo. agitando a tampa sobre o recipiente. observando a confusão. Você fez também frango assado com brócolis — Jackson consolou-a. Jackson aumentou a chama do forno e do queimador de trás. muito alegre. — Bubba encarou Grace. mas não o fez. — Botas. Meu Deus! — Ela correu para o fogão. — Ah. e não . — Droga! — Crispy derrubou um pouco do conteúdo da vasilha. — Miranda se virou e quase pegou o cunhado em flagrante delito. eu também! — Katie pulava. — O quê? — Miranda se espantou. tio! — Grace implorou. — O quê? — Héctor franziu as sobrancelhas. e quase derrubou a vasilha de leite das mãos de Crispy. — Crispy se inclinou para olhar o estrago e deixou cair mais líquido dentro. — Bubba desceu do banco alto em que estava sentado. — De novo! — Katie repetiu. — Katie se encostou em Jackson. — Bota de caubói. Assim que se virou. orgulhoso. Jackson poderia ter tampado a vasilha para evitar o desastre. para Miranda sentir o cheiro ácido. — Acho que dá para consertar. Miranda levou a caçarola até a pia. séria. — Isso mesmo — Katie confirmou. espalhando uma boa parte para dentro da panela com molho. não! — Miranda ergueu a panela e aspirou. — Oh. Randi. — Onde foi que comeram isso? — Tio Jack.— Eu também. Crispy disfarçou e jogou o leite azedo.. — Estragou! — Não se aborreça. Miranda. — Nossa comida veio com uma bota vermelha de plástico. — Veja o que aconteceu — Jackson lamentou. e não sapato. torcendo o nariz. onde estava a frigideira com brócolis. — Teremos de comer outra coisa..

— Jackson escondeu com o corpo a verdura que crepitava.. — Não fiz coxas de frango — Miranda retrucou e despejou o alimento estragado no triturador. Apagou o fogo e. para deixá-los a sós. — Jackson se afastou. Jack — Miranda insistiu. Héctor foi até o fogão e destampou a panela. vamos ao restaurante. Bubba endireitou os ombros e deu uma olhada para Jackson. que anuiu com um discreto gesto de cabeça. cunhada. Por isso. Não pretendo comer coxa de frango com brócolis! — Grace fez bico. Na assadeira. deixando à vista a fumaça cinzaesbranquiçada. — Se não tem coxa. — Se eles querem comer fora. então? — ele perguntou. espetou uma haste verde. — Nada disso! — Miranda bateu o recipiente vazio sobre a pia. Héctor pensou em interrogar Crispy e seu irmão sobre a sabotagem. — O que é. — Minha.sapato. sob a folha de alumínio. — Quero hambúrguer. — Eles já se divertiram muito neste final de semana. — Se não for sua calça que está queimando.. Naquele momento. — Ah.. jaziam pedaços de frango queimados.. Eles haviam visto a atitude reservada e fria de Miranda na igreja.. com um garfo. Há tantas pessoas que são vegetarianas! Comeremos brócolis. O que mais havia por trás da encenação daqueles malucos? — Não precisa. Jack! — Miranda gritou. Miranda apanhou uma luva térmica de cima do balcão e abriu o forno. na maior inocência. Héctor entendeu o comportamento de todos. .. — Miranda. resolveram montar uma farsa. Mas também Jackson não precisava ter estragado toda a refeição. tio Jack! Restaurante! — Katie não parava de pular. — Miranda pôs a panela com o molho sobre a pia. eu os levo comigo. fazendo papel de cupidos. — Não tem importância. — Está insinuando que não sou boa companhia para meus sobrinhos? — Não é isso. — Isso. — Nós só gostamos de perna de frango — Bubba asseverou. então é o fogão! — Héctor resolveu intervir.

Bubba fez uma careta e Miranda pigarreou. Miranda se agitou.. Miranda. Randi? — Bem. Miranda fitou. Katie inclinou a cabeça loira e cacheada para um lado. — Compraremos comida e iremos ao Kissing Creek. Katie encarou Crispy. o que deveria ter sido uma bela refeição. Agora. Crispy Holloman. Tocou o decote do vestido vermelho e branco que usava. toalha de mesa e talheres. Enquanto eu.. — Poderíamos fazer outro piquenique — Grace sugeriu. as crianças não passarão fome. — Não fale assim com o sr. mas não descartou a idéia. Héctor. exceto Miranda. com uma das mãos em seu ombro. domingo sempre foi um dia especial por aqui. — Sr. meninos. Crispy. Ele afagou-lhe as costas. — Prefiro comer uma bota de caubói! — Katie! — Miranda advertiu. — Genial! — Jackson se entusiasmou.. gargalharam. de um belo caldeirão com carne de porco e feijão branco? Grace sacudiu a cabeça. — Talvez seja uma boa idéia deixarmos os garotos almoçarem fora.— Isto é verdura ou macarrão? As crianças acharam muita graça da piada. O que me dizem. — Acho que posso dar um jeito. — Não se preocupe. Vou levá-los para a cidade e comprar comida. Os olhinhos azuis brilhavam. desconsolada. Ela abaixou os ombros e empurrou de volta para o forno o frango queimado. — Você se sentirá melhor se fizermos um passeio familiar. Crispy. Todos. contente por Miranda não se afastar nem corrigi-lo quanto à palavra “familiar”. Héctor confortou-a. estiver trabalhando aqui. com carinho. Encontramos vocês lá. fitando Jackson e Crispy. Peça desculpas. Randi. — Daqui a quanto tempo? — Miranda perguntou. me desculpe se prefiro comer uma bota suja em vez de sua carne de porco com feijão. . com as duas mãozinhas na cintura. — Combinado. mais alto do que a algazarra das crianças. vocês providenciam mantas.. Leve também um rádio.

— Héctor esticou os cabelos para trás. que tocava músicas suaves. com a sinceridade estampada nos olhos azuis. — Talvez devêssemos procurar por eles. talvez? — Bem. — Eles não vêm. — Randi. — Jackson fez um cumprimento com o chapéu e o pôs na cabeça. quando ele fora ao Kissing Creek com Miranda.. — Héctor levantou os joelhos e os abraçou. Promessa de caçula. depois de ter prometido. — Nós combinamos... — Onde será que eles se meteram? — Miranda levantou a cabeça por sobre a vegetação alta que cobria as margens do riacho. — Héctor! Não posso acreditar que você tenha aprontado essa armadilha. — Pode se apressar. — Imagine! — Ela riu. — Miranda puxou uma das mantas do chão e a atirou dentro da cesta de piquenique a seu lado. — Para quê? Ele olhou ao longe. Voltou-se para Héctor. — Até mais.. o quanto fosse necessário. senão ficará escuro antes de comermos. Assim fora na véspera do casamento.— O mais rápido possível.. com um tapinha na cabeça de cada um. que apenas sacudiu os ombros. — Entendi. à procura da caminhonete do cunhado. pessoal. sem responder. Jackson garantira sua privacidade e segurança. — Andem logo.. — O que está fazendo? — Arrumando tudo. — O plano era para nos deixar sozinhos. — Não. Nada. Suspirou e perscrutou outra vez o caminho. — Dois minutos. Eu. fazendo pouco-caso.. — Mas. Eu a descobri há pouco. A grama perfumada fazia cócegas em seus pés agitados. deixando uma prega sobre a manta azul e branca onde estava sentada. Héctor entendeu a mensagem. — Não fiz parte da trama. — . Mexeu na saia de seu vestido... — Tossiu para disfarçar o embaraço. meu irmão. Héctor a encarou.. — Jackson apressou os três. — Desligou o rádio. e Miranda se esforçava para ficar à vontade. Será como nos velhos tempos. fitando o horizonte e o regato.

fazia-a esquecer-se do perigo e perderse no desejo. Passou a ponta dos dedos no queixo redondo e ergueu o rosto da esposa.. — Aproximou-se. — Héctor. as pernas entrelaçadas como sempre. E nada mais adequado do que o cenário onde tinham se amado pela primeira vez. Agarrou-se aos ombros largos de Héctor e se ergueu para beijá-lo com ânsia.. pela simples proximidade do marido.. muito mais do que ele poderia imaginar. nem resistir à paixão que tomava vulto mais e mais. Miranda enterrou os dentes no lábio inferior para não gemer. Héctor a tocou. Ele acariciou as mechas escuras que lhe caíam sobre os ombros. Miranda sentou-se e segurou a roupa de encontro ao peito. com os lábios sobre os dela. — Tudo. Mirou o infinito. — Não. — Randi. temos de parar.. Precisamos voltar a ser o que éramos antes. Sua vontade era de se atirar era seus braços fortes. Ela se deitou. perigosamente. Quando Héctor se encostou em Miranda e o calor de seu corpo a invadiu. — Acariciou-lhe o ventre com as mãos . — Muito tarde. sem nada ver. — Eu quero. Aliás. Miranda não queria pensar nas conseqüências. nem pensar. Miranda sentiu aquelas palavras carregadas de emoção. Tinha de fazer amor com seu marido. Não posso. Héctor se apoiou no cotovelo para abaixar-lhe a alça do vestido leve de verão. e os músculos se contraíam. Senti-lo sobre si. Claro que ela sentira um crescer de tensões. ainda com a boca colada na de Héctor.. — E do que vai adiantar? Isso não muda nada. — Não depois do que sentimos ontem à noite. — Não diga isso.Se as crianças não vêm. a apreensão aumentou. eu quero tentar.. Miranda não podia respirar. A pele formigava. Vamos nos arrepender. não temos por que ficar. Héctor. — ele murmurou. doçura. Héctor deitou-lhe a cabeça para trás com as mãos poderosas e abriu-lhe a boca trêmula com sua língua ávida. e depois a pele delicada de seu pescoço.

expôs o busto nu.impacientes e sorriu. Mais cedo ou mais tarde. Passou as mãos na nuca.. — Héctor agarrou-lhe o vestido.. Miranda pegou a mão de Héctor e a pôs sobre sua barriga. que escorregou. Hoje eu te amo mais do que no dia em que nos casamos e tenho certeza de que sempre a amarei. meu amor. Não aceitar o fato é apenas uma das pedras em nosso caminho. — Ótimo! — Não. — Mas como poderemos resolver nossos problemas juntos se não se abre comigo? — Randi. com um dedo sobre a boca carnuda. — Aí é que está. por favor. — Héctor. — Eu não dou a mínima se você ficar grávida ou não. — Se começarmos com isso.. — Você sabe que. Então. — Foi o que tentei demonstrar quando encaixotei aqueles livros. querido. Ele não a deixou continuar. — Queria tanto acreditar nisso. Randi. As lágrimas caíam pelo rosto de Miranda. eu sou por natureza uma pessoa muito fechada. Mas você mesma observou que mudei. se fizermos amor sem nada termos resolvido.. — Eu preferia lhe mostrar.. — Minha adorada Miranda. O desejo pulsava entre suas coxas. Eles se amavam. não sei se conseguiremos parar... — Não diga nada. Quero que fale comigo e que me ouça. — Pode crer. Héctor. o olhar cheio de volúpia. no rosto e afastou os cabelos úmidos. . Já lhe prometi que todos os planos serão elaborados em conjunto. Largou o vestido. Miranda fechou as pálpebras e umedeceu os lábios. sem controle. — Héctor afastou os cabelos dela dos ombros nus. Que mais posso fazer? — Isso que estamos fazendo agora é um diálogo franco e honesto.. — O que mais? — Apenas diga o que sente. eu terei de dizer. — Eu aceito. desde a chegada das crianças. Não existe “se”. Randi. nunca saberei se foi por nos termos perdoado ou só pelo desejo incontido.

Deixou que o crescente prazer a conduzisse para a sua libertação. — Eu lhe mostrarei a intensidade de meu sentimento. Havia se esquecido da delícia daquelas pernas poderosas friccionando as suas. Héctor penetrou Miranda. Héctor tremia. Héctor beijou-lhe o pescoço e continuou a mover-se dentro dela. Miranda o segurou pelas nádegas filas e firmes. Miranda gritou pela dor maravilhosa daquele encontro após tanto tempo. o mundo pareceu explodir. para oferecer-lhe o que possuía de mais precioso: ela mesma. e depois desceu até a calcinha de seda. e salvaram-se apenas ela e o homem amado. Miranda relembrou o quanto o marido era forte e rijo. Tirou sua própria camisa e puxou o jeans. Héctor. um a um. contendo a custo o clímax tão iminente. o nome de sua mulher. à procura da intimidade máxima. e ambos se moveram. Os gritos de Miranda acompanharam as contorções de seus membros. Então. Héctor gritou e a apertou tanto que ela não conseguiu respirar. com a respiração pesada e o olhar inflamado pela lascívia. fazendo-a esquecer todos os receios. pois pertenciam um ao outro. Héctor balbuciava o tempo todo. com intensidade crescente. fazendo um barulho cristalino sobre as rochas ásperas. Héctor beijou-a com paixão. Miranda voltou à realidade. A brisa trazia o aroma delicado da grama e do verão. Ele a tomou nos braços e a deitou de novo sobre a manta. Beijou-lhe os seios. com voz rouca. . cobrindo-a com o próprio corpo. As águas do riacho corriam. Eles se ajustavam com perfeição. Miranda prendeu-o pela nuca e ergueu-se de encontro a ele. e como seu peito era largo e aconchegante. Fez movimentos sinuosos com seu corpo sob o dele e suspirou longamente.independente do que o futuro reservava para o casal. — Sei disso. Miranda cerrou os olhos. Deslizou devagar a peça delicada pelas pernas de Miranda. como se temesse perdê-la. Héctor tirou-lhe a roupa devagar. Naquele momento. fitando com prazer cada centímetro do corpo escultural.

.. — Agora. Héctor acariciou-lhe as faces vermelhas e a orelha. Sykes. — Héctor ergueu o lençol e acariciou-lhe as curvas do quadril. “Eu te amo... ela pensou. — Que sempre se pode melhorar um pouco.” CAPITULO IX Miranda se aconchegou no travesseiro fofo e .. ao lado do . encostandose nela. O sol da manhã entrava pela janela do quarto e aquecia seu braço. — Desjejum! Levantem-se. — Bom dia. sra. “E Deus nos ajude se não soubermos conduzir nosso amor pelos caminhos da verdade e da compreensão.Héctor afastou-se.. seus preguiçosos! Miranda fez uma careta. — O que está dizendo? — Miranda fingiu indignação. Sykes — Héctor murmurou-lhe ao ouvido. que estava sobre os lençóis.. — Eu estava muito ocupada fazendo outras coisas. — Beijou-a no rosto e mordiscou-lhe a orelha. — Dormiu bem? — Héctor beijou-lhe o ombro. Miranda virou-se e fitou o marido. apoiou-se nas mãos e fitou-a. Os movimentos a seu lado lhe deram a certeza de que não sonhava e que havia passado a noite com seu marido.. de costas. — Fez bem as outras coisas? — Vou responder com outra pergunta: o que você achou? — Então cabe a célebre frase: Foi bom para você? Deixe-me ver. tocou-lhe os lábios com os seus e sorriu.. Héctor”. na escada. Não sei. Miranda levantou um pouco a cabeça. sem abrir os olhos. — Então. e deitou-se a seu lado. Voltou-se para ele.sorriu. Miranda se deleitava com o calor dos corpos nus. Suspirou e fechou os olhos. Era a voz de Crispy. — Bom dia. Estava em paz. sr. se quiser aperfeiçoar isso logo de manhã..

— Héctor gemeu. — Esqueceu-se da vista da sra. — Apontou para si mesma e depois para ele. — E por que não? “Por muitas razões. Héctor riu e cocou a nuca. — Mas podemos fazer outra tentativa. A simples menção das intimidades a fez tremer.. voltou a lembrar-se da sra. que fora jogado no chão. — Miranda vestiu o robe e o amarrou. não sem antes lhe dar um beijo rápido. — Não. — Crispy virá até aqui e vai nos surpreender. Héctor tentou dizer algo.. Você não pretende explicar-lhes por que estamos aqui trancados e sem roupas. com malícia. — Vou tomar um banho para tirar os vestígios da grama do riacho de meus cabelos. e a barba por fazer roçou-lhe a nuca. acalorada. encostou-se à entrada do banheiro. No entanto. Ela se arrepiou. — Teremos de deixar a demonstração para a noite. de aperfeiçoamento. mas pulou da cama. Miranda escutou as crianças tagarelando e rindo no corredor e fez um gesto enérgico para que ele não falasse. senhor.. — E não me olhe desse jeito. vacilante. — Não quero que os pequenos saibam que você passou a noite aqui — Miranda sussurrou e esperou até acabar o barulho da correria. agora pela manhã? Héctor arregalou os olhos azuis e sacudiu a cabeça. Nem tivera . — Acho que vou junto. — Não. — Héctor encostou-se de novo em Miranda. não entendeu. — Podemos fingir que não ouvimos. Beetie. porém. Você não tem nem uma folhinha na cabeça! — Não quer que eu lhe esfregue as costas? — insinuou. obrigada. Héctor. não é? — Tem razão. — Não diga a eles que. — Héctor? — Sim? Miranda. descendo os degraus. perto da cama.quarto.. querido. — Apanhou o penhoar leve de verão. — Miranda virou-se para entrar no banheiro da suíte. É para o bem deles. Beetie.” Héctor ainda não lhe dissera que a havia perdoado.

para ver se estava no ponto certo.. hein? — Crispy levantou os olhos da panela que estava em cima do fogão. — Não pretendo inteirá-lo da situação antes da hora. meu velho? — Héctor estreitou os olhos. Não se importava que todos soubessem que estava feliz. sorrindo largo. Crispy? — Deus ajuda a quem cedo madruga. — Não se preocupe. afinal. — Que animação logo pela manhã. — Imaginei se não começou a trabalhar mais cedo. vi que você não tinha dormido no sofá. tudo poderia dar certo. — Dormi na minha cama. . — Crispy mergulhou uma colher de aço inoxidável dentro do mingau de aveia e a levantou. e você bem sabe disso. — Bem. — Crispy experimentou um pouco da iguaria pastosa. todo o Texas poderia ficar sabendo.. Levantou-se antes do alvorecer e até dobrou os lençóis! Héctor esperava outra insinuação. — É muito bonito um homem arrumar sua própria cama. do lado de dentro. — Acho que não há razão para alvoroçar as crianças antes da visita da sra. O que terá acontecido hoje? — Eu não dormi no sofá. velho tolo. — Obrigada! Miranda abriu a torneira do chuveiro pensando que. — Vai dizer que dormiu no celeiro. Beetie. Sykes sempre levanta cedo.. — E daí. Héctor chegou à cozinha. concorda? — Miranda entrou e fechou a porta. como um vaqueiro em dia de pagamento. — O que quer dizer com isso.. Miranda deixara-se levar apenas pelo coração. deixando escorrer o alimento. — E nem fale para Crispy! — ela gritou. Precisava de algum tempo para amadurecer a idéia e pensar no futuro deles.oportunidade de demonstrar que mudara suas atitudes. — Já deve ter feito muitas coisas.. Nossa! A sra. — Héctor riu. Então. — Hum.. — É isso aí. quando fui chamar todos para o café. — Pode ser. cauteloso. — Crispy continuou vigiando a panela.

para que não fiquem agitadas na presença da sra. Naquela manhã. sem graça pela calma com que o amigo recebeu a notícia. — Estava pensando. Não.. — Crispy está pensando em namorar. Beetle. Acho que vou convidar a sra. — Não sei não. Miranda pôs as mãos na cintura e sorriu com satisfação. Fitou a porta da sala de jantar e depois seu patrão. Héctor. Héctor concordou. — Ela é uma viúva muito bonita e cordata. Beetle para ir ao cinema ou dar um passeio pela cidade. não é? Acha que dará tempo de eu fazer a barba? Héctor cruzou os braços sobre o peito. — Vou espiar se os meninos estão comendo direito. Ela é minha mulher. Crispy. — Ninguém vai saber de minha boca que o senhor está se metendo com aquela doce senhora. Beetle. — Não foi isso o que vocês planejaram.. — Ela vem hoje. Crispy largou a colher e enxugou as mãos encarquilhadas no pano de prato amarrado na cintura.. Vamos. Crispy bateu várias vezes com a ponta do dedo nos lábios. diga a verdade. Curtis Holloman. — Vão mesmo? — Os olhinhos de Crispy brilharam. Crispy! Somos casados e. até Arlene Beetle pareceria uma rainha. vamos continuar assim. senhor! — Como é que é? — Héctor caiu na risada. Crispy baixou a cabeça. mas o sorriso era enorme. — O que vai ajudar? — Miranda entrou na cozinha. — Se alguém ouvir isso. mas acho que anda meio interessado pela sra. — Não queremos que as crianças saibam. Ou os dois. deixando que fôssemos juntos para o Kissing Creek? Crispy nada respondeu.. — Ótima idéia! Isso só vai me ajudar quanto ao processo de adoção. trajando uma camisa amarelo-canário e um belo jeans. . pelo jeito. — Gostaria que não comentasse nada com eles — Héctor pediu. Crispy passou os nós dos dedos no rosto.— Héctor teve a impressão de haver atordoado o cozinheiro.

Já está notando as meninas! Miranda achou graça e chegou perto do marido. eu sei. — Não é fingimento. Sykes estão lá dentro. — O café forte de Crispy pode matar. É real. — Eu sei. . — O sr. Miranda aprumou-se. Beetle? — Miranda se surpreendeu. — Todos merecem uma chance de felicidade neste mundo de Deus! — O cozinheiro ergueu as mãos. Héctor estendeu o braço para a esposa. — Os irmãos estão na sala de jantar. A campainha da porta soou e Crispy desistiu do que ia fazer. — Amém! — Héctor enlaçou Miranda. e a sra. Héctor aspirou a fragrância do xampu e viu a mancha de umidade na sua blusa. — Crispy pronunciou o nome como se fosse o de uma sereia. — Ela mesma — Crispy confirmou. — Cuidado com o que está oferecendo. sra. querido. — Alguma garota em particular? — Arlene Beetle. e não o de uma assistente social madura. de propósito. — Bom dia.. — Miranda acariciou-lhe a face. em virtude dos cabelos ainda molhados. — Miranda deu uma olhada para o marido. comendo mingau de aveia. Beetle. A assistente social entrou na cozinha.— É mesmo? Crispy riu e assentiu. — Héctor disfarçou e cochichou entre os cabelos molhados de Miranda. qual uma princesa. — Que bom. — A nossa sra. Aceita um café? — ela perguntou. — Veja como o nosso garoto cresceu. — Randi! — ele reclamou e a puxou de novo de encontro a si. demonstrando uma alegria não muito sincera. seguida por Crispy. meu amor. madame — Crispy falou bem alto. — Vou ver o que aqueles três estão fazendo e deixar os pombinhos a sós. Ela se agarrou nele e tornou a sorrir. Apoiou uma das mãos no peito largo e a cabeça no ombro dele. com idéias um tanto ultrapassadas. Miranda afastou-se de Héctor. — Hora do show..

. Vim apenas entregar estes documentos que incluem seu nome.. — Miranda observou o conteúdo. — É que. Héctor fitou-a. Beetle pegou a pasta de couro cora as duas mãos. — E pôsteres. como se fôssemos mocinhas! — Katie sorria. sem altura para alcançar a pia. Héctor suspirou. Beetle acenou para os três. Ele sentiu-se feliz por estar encarando as pessoas com maior atenção e complacência.— Ou talvez um suco? — Miranda emendou. — Grace vinha atrás. senhora. e Bubba ajudou Katie. aliviado. — Mostre.. obrigada. — Eu sou uma moça. sra. — Não fiz nada mais do que minha obrigação. se me dão licença. — Bom dia. trazendo a tigela vazia. Nada. até a pia. Beetle e levaram um susto quando a viram. — Alguma coisa mais... mas havia compaixão e bondade naqueles olhos castanhos. — Entregou um envelope grande para Miranda. triunfante. Sykes. rápido. — Grace empinou o nariz. — Acabei! — Katie entrou na cozinha. As crianças não haviam percebido a presença da sra. Claro. . Sykes? — Arlene perguntou. — Miranda tocou no braço dela. senhora — Bubba cumprimentou-a. — Eu também. sra. Sykes. de pijama. mostre! — Katie pulou várias vezes. tão embasbacada quanto Grace.. sra. A sra. — Agora. — A sra. — Ah. Miranda pôs a mão nos cabelos cacheados de Katie. — Ganhamos cortinas novas — Grace contou. feliz. redecoramos os quartos das crianças e gostaríamos que a senhora os visse. — Obrigada. Os mais velhos puseram a tigela sobre o mármore. O nome de Miranda estava incluso nos documentos da adoção. Katie agitou a pequena mãozinha e Grace inclinou a cabeça. em alerta contra possíveis deslizes infantis. Héctor nunca notara. apreensivo. Os adultos observaram o desfile dos pequenos. com a boca aberta. — Mas eu pensei. sim. — Está tudo em ordem. com Bubba em seu encalço. Será que ela desistiria? Miranda apenas levantou a cabeça e sorriu. — Não. no mesmo lugar.

no meu quarto só falta o cavalo. Não podia esperar nada melhor do que a expressão satisfeita da sra. — Para um caubói de verdade. Miranda. antes que a visita chegasse perto de seu aposento. estáticas no meio da cozinha. orgulhoso. Bubba.. sra. — Muito lindo! — Arlene exclamou. Crispy virou-se e lançou um olhar para as crianças.. quando a fitou. aliviada. . Todos foram até o quarto de Bubba. Sykes de fazer as camas todas as manhãs. rumo à escada. Héctor caiu na risada. surpreendidos pela armadilha. — Eu a levarei pela escada principal. — Bem. Grace e Katie se entreolharam. — Não é “ponicórnio”. pernas e cabeças loiras passaram como um furacão. Sykes. fitou Crispy e bateu com as unhas vermelhas na valise.. No mesmo instante. Ele afagou-lhe os dedos e. braços. — A nossa cama também está desarrumada.— Sra. Beetle. É unicórnio! — Bubba a corrigiu. encantada pela atenção de Crispy e das crianças. Subiram pela escada de trás. — Não vai levar mais de dois minutos — Crispy interveio. Beetle. ela e Crispy estavam de braços dados. — Arlene olhou para seu relógio prateado de pulso. ao entrar no aposento das meninas. eu ganhei uma colcha com “ponicórnio” rosa! Olhe que lindo! — Katie puxou a saia de Arlene. Beetle. — Tenho um compromisso urgente. mas Miranda o cutucou. suspirou. eles estão ansiosos para mostrar-lhe a novidade. — Eu ganhei um beliche — o garoto anunciou. Beetle largou a preciosa pasta e. encostada à porta. — É que eles parecem pôneis com chifre — Katie se desculpou. não parecia nem tão idoso nem tão magro. — Espero que essas adoráveis criaturas tenham se lembrado das regras da sra. O cozinheiro ofereceu-lhe o braço... — Se é assim. — Sra. A sra.. de repente. — Vamos subir para ver a obra de arte dos Sykes. — Arlene baixou os cílios.

. preocupada com a opinião da sra. mais se convencia de que havia assumido uma atitude correta. vinda de baixo. Você não poderia dar um jeito nisso? — Claro que posso. — Fitou-o com intensidade. abraçou a cintura de Miranda e puxou-a para dentro do dormitório deles.. com malícia. — Vou ver quem é. Beetle — murmurou. — Hum. está bem. Crispy e a sra. Mas quando estivermos a sós. O som da campainha. Será que vocês poderiam descer com as crianças pela escada de trás? . Voltou-se para Crispy.. querida. Miranda fechou os olhos. se você não pretende fugir de novo? — Héctor beijou-lhe o ombro. Héctor! Não podemos escandalizar a sra. vou gritar. e Miranda sentiu um frêmito de prazer. — É o senhor Sykes? Miranda ouviu uma voz conhecida. Beetle! — Que tal isto? — Mordiscou-lhe a nuca e a curva do pescoço. sim. e Miranda não sabia o que fazer. na entrada. a fez emergir de seus devaneios. Beetle saíram do quarto de Bubba. Quem é você? — Onde está Miranda? Todos prestavam atenção ao diálogo. Randi. A cada minuto que passava. — Para que um cavalo. implorando aos céus para que ele entendesse a mensagem. — Mas se não formos atrás deles agora. — Você está é fugindo da sra. — Mas. com volúpia. Tudo haveria de melhorar. — Héctor acariciou-lhe as costas.. reencontrar o homem amado e crianças que lhes haviam sido enviadas pelo destino. Beetle. — Exceto o cavalo — ela caçoou. Tivera a chance de retomar ao lar.— Que coincidência — Héctor cochichou. — Sou. — Héctor piscou e dirigiu-se à escada. parece ser um assunto pessoal. — Muito menos agora que ela já está mais a nosso favor. com as meninas agitadas ao redor deles. — Está bem. estou tão carente. — Tem razão. Miranda estava muito feliz. — Pare. — Aqui também tenho tudo o que um caubói precisa.

fiquei preocupado. E acho melhor trazê-la até aqui. Miranda correu escada abaixo. e estava com aspecto ameaçador. mas já se passaram mais de duas semanas e.. foi até a escadaria principal. irritado —. — Randi. — Como me achou? — Segui o mapa até Lost River e pedi informações no correio. na verdade. Miranda — Conrad pediu.. Ela fitou o marido e teve certeza de que jamais esqueceria a expressão de profunda angústia daqueles olhos azuis. senhor. meu rapaz — Héctor falava. — Graças a Deus que está bem! Você ficou de mandar detalhes para eu complementar a documentação. Já deveria ter desconfiado. Sykes. Acontece que está em minha casa e não tem o direito de ir invadindo assim.. — Exige? — Sim. — Ele é Conrad Harmon — ela falou. não sei quem você é. muito aflita.. e exijo falar agora mesmo com Miranda. sra. quem é esse sujeito? — Diga-lhe. CAPITULO X Divórcio! Miranda viera a Lost River para pedir-lhe o divórcio! Héctor estava inconformado. pois sou o advogado dela. Assim que eles saíram pelo corredor dos fundos. — E veio até aqui? — Ela não sabia o que dizer. Miranda. Todos a conhecem. — O advogado a quem pedi que me ajudasse a conseguir o divórcio. Tudo o que fizer para me afastar de minha cliente será usado contra o senhor no processo de divórcio. que chegava. Héctor parecia tenso. nem o que deseja. . — Sou Conrad Harmon. — Escute.— Pois não. com a voz esganiçada. — Divórcio? Quem pretende se divorciar? Conrad apontou para Miranda.

Randi? — Não. vou levá-lo até seu carro e lhe explicarei tudo. — Você contratou mesmo um advogado.. devo dizer. Héctor foi para a cozinha. Todos adivinharam que era uma mentira. Preciso ir. — Era um advogado procurando por Miranda. mas a aceitaram.. de cabeça baixa. Tentava salvar a situação dos pequenos. endireitou os ombros e ajeitou os cabelos para trás. Héctor esfregou as palmas das mãos na calça. Bubba relatava a história do Kissing Creek. Héctor mudou de posição várias vezes. Os cinco o encararam. — Héctor. e também por ela tê-lo magoado. Sykes. Chegando à porta. Tinha de agir com se nada houvesse acontecido. é? Miranda teve vontade de esbofeteá-lo. Se sua mulher o amasse bastante. acompanhe-me até o carro — Conrad pediu. Ele se sentia muito mal por têla ofendido. virou-se para Conrad. Beetle? — Obrigada. — Miranda. Beetle. e parou de falar. Encontrei um que se ofereceu para me ajudar. a respeito das propriedades. suspirou e entrou. na expectativa de explicações. — Aceita um café. com uma das mãos no peito. volte para a cozinha e faça as honras da casa para a sra. Héctor gostaria de lhe explicar seu sofrimento. sr. — Levantou-se da cadeira ao lado da .Miranda era a própria imagem da tristeza. já teria entendido. Quero dizer. — Miranda. — Um advogado com incrível senso de oportunidade. e ele retrucava com as velhas ironias. As vozes alegres das crianças vindas do corredor pareciam irreais naquele ambiente carregado. sra. Ela assentiu e se afastou. Para resolver assuntos familiares. não saberia que ela chorava. Se não fosse a lágrima indiscreta que Héctor viu cair sobre os dedos rígidos da esposa. aturdida e pálida. Chegou até a soleira. Mas jamais dissera nada a Miranda.. com o pensamento na visão de Miranda saindo. — Ah. você vai voltar. Miranda ficou imóvel. Conrad. Sempre pedira a Deus o privilégio de ter uma família a quem pudesse amar e se dedicar. incapaz de ficar quieto. até eu voltar.. por favor. Não tivera essa ventura na juventude.

Héctor piscou para a garotinha. — Se eles se casarem. Sykes. — Desculpe-me a interrupção. Curtis. — Que bom. Assim que eles saíram. — O sr. Katie? — Miranda se ajoelhou ao lado da menina. Beetle para ir ao cinema! — Ela disse sim! — Grace veio para a frente do irmão. Seu marido explicou o que o advogado queria. mas agora tenho de ir. — Arlene tornou a sentar-se. — Tudo bem.mesa redonda. .. — Héctor precisava detê-la. pois não queria que ouvisse a conversa de Miranda e Conrad. — Bem na nossa frente! — Calma! — Héctor sentiu-se aliviado por não ter de enfrentar a esposa naquele momento. Héctor imaginou se Miranda teria adivinhado a verdade. eu vou ser a dama de companhia. não seria melhor dama de honra? A menina balançou a cabeça cacheada para cima e para baixo.. papai. — O sr. — Vou acompanhá-la até o carro. com energia. Héctor nem ouviu se Bubba havia terminado a narrativa. Beetle respondeu. Arlene ergueu-se e pôs a pasta debaixo do braço. — Um de cada vez. Crispy pediu. as crianças pularam das cadeiras e começaram a falar ao mesmo tempo.. sra. Estou contente que tenha entendido... — A sra. — Katie agarrou-lhe o dedo mínimo com a mão rechonchuda. — Ótimo. gentil. — Quem lhe deu essa idéia. — Espere. Arlene — Crispy ofereceu-se.. Bubba. — Bem. — Eles são namorados. — Adorei estar com vocês. Crispy convidou a sra. — Katie. — É mesmo? — Ela piscou. — A senhora poderia ficar mais um pouco. você começa. Aquilo arruinaria todo o processo de adoção e seu relacionamento com Miranda. Só voltou a si quando Miranda entrou. alvoroçadas. para o final da história de Bubba. Beetle. sra.

Contei tudo o que aconteceu para Conrad. — Sei que é chocante. com eles. — E quando me diria que mudou de idéia e não pretendia mais se divorciar? Parece que o tal Harmon III soube de tudo antes de mim. se vocês vão se casar. Ele já deve estar de volta a Dallas. — Mas saiba que estou muito arrependida por todas as atitudes . — Quando planejava contar-me seus planos. Beetle. — Só isso? — Sim. mas posso explicar.. Héctor movia o queixo. papai. Randi? — Sei que deveria ter lhe dito assim que cheguei. mas tudo aconteceu tão depressa e. Você ainda não me perdoou por tudo aquilo e talvez nem vá perdoar nunca.. — Que bom! — Pelo menos. — O que você quer dizer com isso? — Crianças.. não será por culpa de Katie. Assim que ouviu os passos miúdos na escada. Miranda cruzou os braços e suspirou. — É mesmo? — Claro. — Se por aqui vão indo mal. Héctor. — Ela cerrou os dentes. O sofrimento físico lhe dava forças para lutar pelo homem amado. Miranda o encarou. por que não sobem para se vestir? — Héctor sugeriu. posso ser a dama de companhia? — E o que eles responderam? — A sra. sra. Beetle disse que vai pensar. — Os adultos precisam conversar. para animá-los. e que eu não iria mais me divorciar. parecendo muito bravo. Héctor foi até a janela e mirou a estrada de terra vermelha da fazenda. Miranda ergueu o rosto banhado em lágrimas. Crispy.— Eu perguntei assim: sr. Ela pôs as mãos fechadas na cintura. — Héctor. abanando as mãos como um leque. as coisas vão indo bem — Miranda murmurou.. como também errei em não lhe contar sobre Conrad e o divórcio. sei que fui uma louca em ter ido embora daquele jeito.

Eu sou mesmo um cabeça-dura. meu amor. As ações é que importam. a não ser por intermédio de seus pais — ele confessou. fique e fale comigo. sem controle. durante um ano eu acordei sozinho e desesperado. — Você acha que vai resolver alguma coisa. — Tenho muito trabalho hoje. tremia. — Por favor. Não tive notícias suas. você esperasse começar de novo e. — Randi. Talvez tenha outra opção que não seja nosso casamento. Randi. Depois endireitou-se. — Não tive intenção de esconder. Miranda queria abraçá-lo e ficar junto dele até que tudo fosse esclarecido e só restasse o amor. você não pode sair e deixar as coisas desse jeito. Héctor deu um longo suspiro e encaminhou-se para a saída. quase num soluço. não quis dizer isso. Era visível a torrente de emoções que a invadia. — E nosso relacionamento? Pode? — Ela se arrependeu de imediato de ter dito tais palavras. e ainda não a ouvi dizer o mesmo. Héctor apoiou o antebraço na janela e a cabeça no dorso da mão. por precaução. — Espero que assim eu me sinta melhor. Só repete que não crê em mim. Miranda. cora ar de quem agia da maneira correta. — O rosto de Héctor estava tomado pela emoção. não me contou nada sobre o divórcio. — Você disse que não podia continuar casada comigo por não acreditar que eu mudaria e por eu tomar as decisões sozinho sem me importar com sua opinião. — Héctor abriu a porta. O medo de ser rejeitada. — Não me espere para jantar. abraçada a si mesma. Era muita mesquinhez para um homem que estava com os sentimentos arrebentados. saindo desse modo? . — Não posso abandonar a fazenda. Randi. — Falar não adianta nada.” — Você afirma que não sei exprimir meus sentimentos. — Desculpe-me. — Héctor. durante esse período após sua volta e talvez de maneira inconsciente. “Eu também.impensadas e por tê-lo feito sofrer tanto. Randi. Tenha certeza de que jamais tornarei a fazer algo parecido. Nisso tem razão. Héctor fechou os olhos e encolheu os ombros largos. Héctor. no entanto. — Preciso ir. — Entendo que. Mas afirmei que a amo. Miranda. deixava-a sem ação.

decidiu-se pela verdade: — Oh.. Bubba? — Héctor vai voltar? — o menino perguntou. — Entrou devagar e sentou-se na beira do beliche. — Boa noite.. se você e Héctor se divorciarem? Miranda se agarrou ao trinco da porta. O barulho da batida perseguiu-a o dia inteiro. .. Miranda e as crianças terminaram de jantar e jogaram banco imobiliário até a hora de dormir. A todo instante. que estava agarrada na colcha nova. Bubba. Este é seu lar e de suas irmãs. antes de se afastar. Bubba. tais como pedir vários copos de água ou repetir as orações. Ele era tão parecido com Héctor. Bubba apoiou-se em um cotovelo. O olhar de Bubba era resignado e comovente. As horas foram passando. Grace — Miranda se despediu da garota. Miranda inventou uma desculpa para a ausência de Héctor.— Deixe a roupa de cama no sofá — pediu. — Vocês não irão a lugar algum. com medo de cair. — Claro que sim. Surpresa pela perspicácia do garoto. Miranda beijou o rosto de Katie. — Não se esqueça de tirar os óculos.. Miranda acariciou-lhe os cabelos loiros e sedosos. Bubba piscou os grandes olhos azuis. Miranda saía para ver se Héctor havia voltado.. — Pronto? Posso apagar? — Randi? — Sim. quase dormindo. — Vamos apagar as luzes. Ela o amava muito. — Noite. vaqueiro. Miranda foi até o quarto de Bubba. tirou os aros escuros e colocou-os sobre a mesa-de-cabeceira. Há tarefas que devem ser terminadas. independente de horário. Esta é a casa dele. — Pôs a mão no interruptor e espiou dentro do quarto. Héctor e eu faremos tudo para que permaneçam aqui. A pequena sorriu em meio aos sonhos. — O que vai acontecer conosco? Onde vamos morar. garotão. que já havia adormecido. — Grace respondeu. com seriedade. deve saber que não é uma vida fácil. os irmãos a pouparam de tarefas extras. Se pretende ser um caubói. Sentindo seu mal-estar..

— Você está bem? Imersa em seus pensamentos. esperava que assim fosse. — Bom. mamãe. ela se surpreendeu com a voz doce de Bubba. sinto-me melhor se alguém me dá um abraço. Randi.. — Você está com medo. meu amor. já conversamos muito. Onde estaria Héctor? A que horas voltaria? O que aconteceria depois de seu retomo? . anjo. Isso não quer dizer que não vão conseguir resolver seus problemas. — Então espero que vocês também façam as pazes. vestiu a camisola e deitou-se. Entrou em seu quarto. — Pronto. Mas não quero que se preocupe com isso. querido. Aquelas palavras confortaram-lhe o coração ferido. ela pensou e sorriu. Mais ou menos assim. É hora de dormir. Randi? — Um pouco.. — Às vezes os adultos brigam. — Eu também. Está pronto? Bubba deitou-se de costas e puxou até o queixo o cobertor estampado com figuras de faroeste. — Boa noite. — Estou. — Apagou a luz e saiu. — Passou os dedos pela cabeça e pelas faces do menino. Pôde ouvir a voz abafada de Bubba: — Boa noite. — Quando estou assim.. Miranda ergueu-se. como na história do Kissing Creek? Héctor e sua história danada!. e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Miranda também o enlaçou e apertou o corpinho frágil junto ao seu. foi até a porta e virou-se. estou bem. — Pelo menos. — Quer dizer. — Bubba. — Sim. Bubba a abraçou antes que ela terminasse de falar e escondeu a cabecinha no ombro amigo. garotão. não vou mentir e dizer que tudo está às mil maravilhas entre Héctor e mim. Não conseguia dormir. — Vocês brigaram..

não saberíamos que as crianças não estão em casa. e fitava sua esposa. cinza sobre o corpo de Miranda. — Você. Héctor não teve coragem de tocá-la. Randi.. foi até o closet e vestiu depressa uma calça jeans. com a vista turva. — Mas por que não me avisou antes? — Não queria preocupá-la. um homem de ação. — Não está pensando que. — Não sabe? — Miranda deu um pulo. O sol da manhã se infiltrava por entre as árvores próximas e deixava desenhos tremeluzentes em ouro e... — Se eu não tivesse ficado na sala. Há quanto tempo eles estão desaparecidos? . como os reservatórios de água. — Meus Deus. — O quê? — Miranda saiu de debaixo das cobertas. — Não há motivos para pensarmos o pior. sei. ao lado da cama enorme. — Ela verificou o outro lado na cama: intocado. — Eu. que dormia.. Eu moro aqui. Pensei que os acharíamos logo. — Héctor ajoelhou-se ao lado do leito. que estava em suas mãos.. — Ah. — Randi. acorde.. — Temos de achá-las! — Meus homens já estão vasculhando as fazendas próximas e tudo o que possa parecer perigoso. ergueu-se e esfregou os olhos. É apenas uma precaução. — Não estava dormindo. — Ainda bem que dormi no sofá.. que horror! — Apertou a camisola florida que vestia. — Onde elas estão? — Não sei. Miranda piscou várias vezes. — Como sempre. — Ele deu um piparote no chapéu preto.. — Miranda ergueu o rosto do travesseiro. Randi! Você precisa acordar. — Héctor! Você voltou! — Claro que voltei.CAPITULO XI Héctor estava de pé. — Como assim? — Miranda passou a mão nos cabelos desalinhados.

— Calçou as botas. — Não confie muito nas aparências. — Como não lembrei? Acha que eles iriam a pé até lá? — Apesar do mato. — Oh. Sabe Tudo! Ela entrou no closet. na ponta dos pés. para cima da cama. não! Vamos embora! Não temos tempo a perder. — O riacho! — Héctor bateu com a mão fechada na testa. talvez — Héctor estava angustiado. e o cabide caiu ao chão. Bubba o adora e o imita em tudo. — Sua auto-suficiência pode ter nos custado horas preciosas. Ela o sacudiu para retirar a blusa do gancho— Bem. Randi — Héctor pediu. — Há quanto tempo foi isso? — Uma. — Héctor cocou a nuca. Não queríamos preocupá-la sem necessidade. Miranda encostou-se na parede. — Miranda amarrou os cabelos com um lenço estampado.. — O que está querendo dizer. um pouco mais aliviado. nós tomamos todas as providências. sr. — Está me dizendo que minhas crianças desapareceram há duas horas e ninguém me avisou? — Randi. — Bubba prestou bastante atenção ao caminho quando fomos ao Kissing. incitando o cavalo a ir mais . Bubba desejou que fizéssemos as pazes. Talvez eu tenha novidades. abotoando a blusa. Héctor viu a camisola voar de dentro. ainda dá para ver a trilha. — Sabe? — Héctor quase gritou. Miranda voltou para o quarto.. Eles podem ter entrado na água. — Na noite passada. Achei que iam para a cozinha e devo ter adormecido era seguida. — Temos de achar os três! — ela bradou. como na história do Kissing Creek. — Ao amanhecer. A peça não saiu. — Mais devagar. Héctor. Randi? — Eu sei onde eles estão. galopando ao lado da esposa. eu os ouvi passando por mim. duas horas.Miranda agarrou uma camisa de algodão que estava pendurada dentro do closet. — Claro! Você quer resolver tudo sozinho. com as pernas bambas. para reproduzir a história. incrédulo. Héctor suspirou.

o pior.. — Tem razão. meu marido.depressa. em vez de aproveitarmos a oportunidade e conversar sobre nosso casamento e nossos problemas? . Héctor experimentou uma súbita vontade de analisar os próprios sentimentos. — O onipotente Héctor Sykes poderia resolver tudo. ou decidido parar. eu só pensei. sem jeito. nem imagina o que poderia ser. E você. Não poderemos vê-los no meio desse mato crescido. — Mas ninguém pode fazer tudo sozinho. — O que quer dizer com isso? — Que podem ter se perdido e saído da trilha. quando se recusou a falar comigo? — Hoje foi uma burrice minha.. — Eu deveria ter lhe contado antes — Héctor teve de admitir. a não ser que nos vejam antes. Randi? Sempre pensei em nós dois. Héctor! Nem você! O vento levantava os cabelos deles. Até então. — Ontem o quê? Vai me dizer. — Você sugeriu que eu teria outra solução para nosso casamento.... — Acha mesmo? — zombou e balançou o chapéu leve de palha que usava. — A pé. — Randi. Ou. forte e silencioso. poderemos perder alguma pista importante. ainda não podem ter chegado ao Kissing Creek. — Como pode dizer isso. — Sei o que você pensou! Héctor não respondeu.. Ou fazia amor comigo para salvar nosso casamento. — Assim foi pela manhã. mesmo que tenham saído há duas horas. mas ontem. Héctor fez o mesmo. Nessa velocidade. Chegaremos antes deles. e as crinas e caudas dos cavalos. Da mesma forma que me levava a inúmeros especialistas para me fazer engravidar. quando decidiu procurar as crianças sem ao menos me avisar? Ou ontem à noite. Héctor. Miranda puxou as rédeas e parou. que teve motivos plausíveis para sair. sempre os comandava sem maiores remorsos. — Miranda virou-se para a frente e fungou. Héctor se encolheu. Randi. — Tem razão. para não começar uma discussão sem objetivo.

com voz sufocada —. Miranda sabia que eram palavras verdadeiras. — Senão — Miranda continuou. mas Héctor não lhe deu a oportunidade. Mas você é quem foi embora ontem. eu seria capaz de cair na tentação de lhe dizer o quanto te amo e. está me dizendo que temos chance de recomeçar? — Se nos empenharmos. não! — Miranda inclinou-se na direção dele. — Você quer que eu converse abertamente sobre o amor. — Minha querida. Randi. ao menos pelas crianças. A frente deles. nem me faça acreditar que é um ser humano. Héctor. confiante. — Tive sim. sem se exaltar. Héctor continuava calado. descrente. — Durante minha vida. tenho sido um tolo em achar que posso resolver tudo . — E o quê? — Héctor explodiu.. — Nunca mais vai me deixar? Não diga. — Oh. — Não queira assumir toda a culpa. que seguiu mais devagar. Héctor deu um pálido sorriso. — Desculpe-me. — E quais são essas razões? Ele não respondeu.Héctor perscrutou a planície ao longo da trilha e tentou pensar com clareza. — Então eu tomei a iniciativa de fugir. Não conseguiu evitar as lágrimas emocionadas.. só tenho convivido com pessoas que se opõem a mim ou me abandonam. — Isso mesmo. Gostaria de não ter feito o que fiz. como se fosse a única solução possível. Randi. sim — anuiu. Depois. compreendi que você ficaria. Minha estupidez pode ter me custado a perda da coisa mais importante.. o barulho das águas do Kissing Creek. Não diga nada. — Randi. com direito a coração e emoções. Miranda! Ela estremeceu e soltou as rédeas do cavalo. A confissão deixou-a arrasada. Nada mudou até este dia. É um assunto muito difícil e doloroso. confiança e como eu me sentia por não termos um filho. — E sabe por quê? Por medo que me deixasse outra vez. Héctor engoliu em seco. lutando contra o que imaginava ser sua fraqueza. Miranda quis retrucar. Eu também tenho minha responsabilidade..

— E como eu quero! — Héctor. Miranda inclinouse e escorregou da sela para os braços do homem amado. No mesmo instante. — Imagine se não! — Héctor inclinou-se para beijá-la. Ele voltou o olhar na direção das crianças. — Mas não serão seus. sem dizer nada. prometa que me dirá que estou errado. Héctor desmontou e. — Quer dizer que poderá viver comigo outra vez? — Se você quiser. abraçadas. e nem um milhão de tratamentos modificará a situação. — Seria preciso ser muito insensível para não se afligir nessas circunstâncias. — Mas não posso lhe prometer que serei um homem perfeito ou que não ficarei nervoso até o término dessa droga de processo de adoção. Perdoe-me pela maneira como a tenho excluído das decisões. que. Héctor tirou-lhe algumas mechas de cabelos da testa. As crianças dormiam.sozinho. acho que superaremos com facilidade o problema. Héctor puxou-a e abraçou-a com força.. chegou até ela. — Podemos muito bem conviver com isso. — Combinado.. Felizes. — Errar é humano. apertou-a com entusiasmo. — Estava com os olhos marejados de lágrimas. . Se eu tentar fazer isso de novo. — Miranda mostrava-se esfuziante. esperançosa.. e o rosto de Héctor se iluminou num amplo sorriso. —Miranda não conseguia conter a imensa alegria. não posso ter filhos. — E se um dia você quiser mais filhos? — Miranda se aconchegou no peito largo. em cima dos desenhos de faroeste do cobertor de Bubba. — Depois de todo esse trabalhão que elas nos têm dado. Pode me perdoar por eu não ter feito isso antes? — Lógico! — Héctor estendeu a mão para Miranda. adotaremos mais alguns. os dois cavalgaram mais alguns metros. — Então. Héctor parou o cavalo e aportou as margens verdejantes do riacho..

ela perdeu o equilíbrio e ambos escorregaram na sujeira. Bubba. abraçado a Miranda. e os óculos escorregaram para um lado. não -— Bubba declarou. — E se beijaram — Bubba concluiu. viu o casal e se ergueu. Miranda segurou-lhe a nuca e umedeceu os lábios. a plenos pulmões. — Eles vieram procurar os bezerrinhos perdidos — Katie complementou as palavras da irmã. fazendo-a estremecer. — Caubói! — Miranda ria muito. Grace rolou. espalhando água fria. Héctor entrou no Kissing. — Quando chegarmos em casa. — Fitou a esposa. Então.— Papai! Randi! — Katie os interrompeu. — Vocês vieram juntos até o Kissing Creek. Devagar. Ele a seguiu. Héctor! Não faça isso! — Miranda implorou. junto.. que respingou nos braços e nas pernas de Miranda. — Mas eles estão aqui. — Podemos fazer isso também. Bubba! Katie pegou a mão de Héctor e o puxou. gente! Funcionou! — ela berrou. — Do jeito que você falou. com as pernas entrelaçadas. Igualzinho à história! — Não é igual. ergueu-a e encaminhou-se para o córrego. Miranda ergueu-se na ponta dos pés e abriu a boca. — Viva! — Grace saltava sem sair do lugar. Naquele instante. Miranda fitou o rostinho redondo e angelical da menina. — Até o céu. Héctor beijou-a com paixão. — Ei. — Posso dar um jeito nisso. com as crianças. um tanto sombrio. agitando os braços. Você. sério. — Na história. rindo. que se voltou para os irmãos. você vai. — Você fez de propósito! — ela o acusou. — Héctor sorriu para o filho. Héctor puxou-a e abraçou-a de encontro ao peito forte. pulando. Miranda . — Grace apontou para eles. eles se encontraram no meio do riacho e prometeram ficar juntos para sempre.. Bubba deu um pulo. — Espere. com as palmas das mãos para cima. ele a pôs no solo molhado. alvoroçada. as crianças e a fazenda são o meu paraíso. Miranda se escorou nas pedras com as botas de couro. — De jeito nenhum! — Héctor se defendeu.

mas não sou homem de ficar repetindo isso a toda hora.. para delírio das crianças. — Transformou-nos em uma família. maliciosa.. — Eu também te amo.inclinou-se e segurou-lhe o rosto com as mãos enlameadas. — Héctor acariciou o rosto de Miranda e apertou-a pelos ombros. no pátio da igreja. querido! — Com certeza. Héctor vinha com ela nos braços e colocou-a no colo de Miranda. sou uma dama de honra de verdade! — Mas que maravilha! — Miranda assentiu. — Encarou-o. numa cadeira dobrável. — Crispy me contou que eles irão fazer um cruzeiro. Héctor ajudou-a. — Dá para acreditar que vieram tantas pessoas? — Ele se acomodou ao lado da esposa. Randi. durante a lua-demel. — O oceano que se cuide. Miranda fitou-o com muito carinho e sorriu. — Bom. que imitavam as suas. — É. com um laço de seda no mesmo tom. — Lembra-se da primeira vez. — O amor modifica toda nossa vida. não é todos os dias que se vê um cozinheiro velho e rabugento casar-se com uma assistente social ranzinza! Héctor achou graça nas palavras da esposa. Ainda bem que o processo terminou antes de . Eles se beijaram. Miranda Jean Robbins Sykes. — Que tal irmos para nosso lar. Miranda fitou o grande número de convidados à recepção. O amor muda nossa opinião sobre os outros. — Eu te amo. Randi? — Não poderia esquecer. Katie usava um vestido de organza amarelo-claro e florido. Héctor Sykes.. tomar um delicioso banho quente e então você me mostra o tamanho de seu amor? EPÍLOGO — Olhe para mim.. Prefiro demonstrar o que eu sinto. mamãe. e ambos foram até a margem.

Arlene se aposentar e se tornar nossa governanta. rindo. Héctor estendeu os braços para ampará-la e a enlaçou. coração? — Miranda observou. e congelarmos o restante para devolver à sra. — Bubba deu-lhe a mão. fazendo-o gemer. Katie. — Deixe-me ver — ele pediu. — Espero que os responsáveis pela agência não levem em conta o fato de a termos roubado deles. — O buquê bateu em seus braços e caíram ao chão — Bubba continuou. — Porque você já é nossa mocinha. — Garanto que Arlene vai ficar muito contente — Miranda considerou. Ou não poderemos dar o próximo passo. — E ela vai fazer nossos lanches da escola mais gostosos. — Vou guardar isto para sempre. — Não sei por quê! — Katie fez um beicinho. com as mãos no bolso de seu smoking infantil. Segurava nas mãos pequenas e gordas um lindo ramalhete. — E a srta. — Grace sorriu e entregou o arranjo para Miranda. — E Bubba será sempre um adulto vestido de criança. Grace franziu a testa. — E que tal se tiramos algumas flores para você secar e conservar. Foi a vez de Katie gargalhar. — Eu vou com você. Beetle? Isto é.Mamãe e papai querem adotar outro bebê. — E Grace é nossa jovenzinha — Miranda acrescentou. —. — E eu agarrei tudo. Héctor abraçou a esposa e observou suas crianças se afastarem de . — A sra. sra. Barrie fez assim. — Vou buscar mais bolo. papai? — Katie bateu a ponta do sapatinho de verniz branco no joelho de Héctor. — Grace juntou as mãos para cima. — Peguei o buquê! Peguei o buquê! — Grace chegou correndo e driblando a multidão. — Esperem por mim — Grace pediu. — O que é isso. debaixo do vestido dela! — Grace abraçou seu troféu. — Você não lembra. Holloman. Barrie — Bubba informou. — Héctor mal disfarçava o riso. Beetle atirou as flores direto para a amiga de tio Jack.

ela jura que sua lápide será provavelmente. Em meio à confusão de seu local de trabalho. mas não necessariamente arrumado”. — Nesse caso. você está ficando um tanto piegas. Ela almeja que seus livros iluminem os dias de suas leitoras. Fitaram os três. NATALIE PATRICK aposta no romantismo e sua primeira experiência a fez acreditar nisso. Conheceu seu marido em janeiro e casou-se com ele em abril do mesmo ano. Depois de dez anos e dois filhos. — Minha querida. “Ela deixou nesse mundo um lugar brilhante. — Os olhos de Miranda cintilaram. — Héctor tornou a beijá-la. .mãos dadas. rindo e brincando com Jackson. fitou as flores do ramalhete e levantou-se. A vida não poderia ter lhe dado presente melhor. Randi? — Comprar flores para levar ao túmulo de Donna e Travis. com muita emoção.. mas foram convencidos por amigos a fazer um casamento de verdade. — Mal posso esperar. — Se acha mesmo. — Héctor. já lhe disse o quanto te amo? — Beijou a testa da mulher. Lembro-me dos dois todos os dias. então espere até chegarmos em casa. Eles nem queriam esperar tanto.. — A melhor homenagem que podemos fazer é amarmos as crianças e dar-lhes um verdadeiro lar. — O que vai fazer. demonstrando todos os sentimentos e desejos que nutria por sua amada. Miranda sorriu. Gostaria que soubessem que não nos esquecemos deles. ela tem certeza de que achou um herói romântico em carne e osso.