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INTRODUÇÃO

Garantia constitucional e princípio reitor do processo penal, o Estado de Inocência, é a forma em que deve permanecer o suspeito de um delito, até sentença condenatória irrecorrível. Sendo assim, podemos dizer que a pessoa incriminada está envolta por uma camada protetora, esta camada tem a função de assegurar que o acusado não será condenado por nenhum crime até que se tenha comprovado sua culpa e não haja mais como recorrer de tal decisão. Arraigado nas bases da Revolução Francesa, e inserido na Constituição daquele país, logo ganhou proporções maiores, sendo recebido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. No Brasil ele só veio a ser estabelecido na chamada Constituição Cidadã, a Constituição de 1988. Este princípio mudou o curso da história processual penal, dando a todos os cidadãos o direito de não ser pré-julgado e condenado também encaminhando a sociedade a romper seus laços com tão importante princípio. É a partir deste aspecto que se fundamenta o presente trabalho, fruto de monografia jurídica defendida no curso de Direito/UNIRON e sob argüição dos professores Mestres Marco Bonito(Coordenador e professor dos cursos de Comunicação/UNIRON) e Aramis Nassif(Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Realizando um levantamento a cerca da questão percebemos que a nova sociedade de inseguranças formada nos últimos tempos, foi altamente influenciada pela mídia, que no afã de elevar sua programação a numerosos índices de audiência, vem violando constantemente o princípio do Estado de Inocência. Percebemos que na guerra pela audiência vale tudo até mesmo infringir os princípios constitucionais. Procuraremos neste estudo retratar as definições sobre o Princípio da Presunção de Inocência, conhecer o seu processo histórico, analisar a formação da sociedade de insegurança e o papel da mídia na espetacularização da notícia. Noções Preliminares sobre o Princípio do Estado de Inocência A Presunção de Inocência é uma garantia Constitucional e um dos princípios mais importantes do Processo Penal. De acordo com Tourinho Filho em seu livro Processo Penal, “[...] representa o coroamento do due process of Law”.1

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TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65.

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Nas palavras de A. Castanheira Neves: “um ato de fé no valor ético da pessoa, próprio de toda a sociedade livre”.2 Segundo Antônio Ferreira Gomes o princípio da inocência: “assenta no reconhecimento dos princípios do direito natural como fundamento da sociedade, princípios que, aliados à soberania do povo e ao culto da liberdade, constituem os elementos essenciais da democracia”.3 O estado de inocência advém do próprio princípio do direito natural, fundamentado nas bases de uma sociedade livre, democrática, que respeita os valores éticos, morais, mas principalmente os valores pessoais, aqueles que têm por essência a proteção da pessoa humana. Tal instituto remonta ao Direito Romano. Durante a Idade Média este pressuposto foi fortemente atacado, neste período a presunção era de culpa e não de inocência. Se as provas não eram suficientes para libertar ou mesmo para prender o réu era condenado por suposição. De acordo com Aury Lopes Júnior, “No Directorium Inquisitorum, EYMERICH orientava que o suspeito que tem uma testemunha contra ele é torturado. Um boato e um depoimento constituem juntos, uma semiprova e isso é suficiente para uma condenação”. 4 No final do século XVIII, ainda durante o iluminismo, o princípio de presunção de inocência era contraditório a sua essência. Nesta fase a Europa Continental vivia sob um regime de sistema penal inquisitório, onde na maioria das vezes, as pessoas eram condenadas antes mesmo de se ter sido comprovada a culpa. Um exemplo clássico do que foi o bárbaro sistema inquisitório na época da inquisição religiosa foi o processo de Joana D‟Arc. Essa história foi transcrita em inúmeros livros e retratada nas telas de cinema, mostrando ao mundo a história da jovem francesa, que seguindo suas crenças, promoveu um dos mais famosos processos a época da inquisição. Instaurado na França em 21 de fevereiro de 1431, o processo teve como juiz e acusador o Bispo Cauchon, que deu a Joana o direito de escolher entre seus acusadores, um defensor.
Agora só resta a Joana a possibilidade de apelar à benevolência dos juízes. O texto da acusação está pronto e será lido e rebatido durante longos dias. A donzela só pode
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NEVES, A. Castanheira. Sumários de Processo Penal. Coimbra, 1967, p.26, apud, TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 3 GOMES, Antônio Ferreira. A sociedade e o trabalho: democracia, sindicalismo, justiça e paz. In: Direito e Justiça. Coimbra, 1980, v.1, n.1, p.7, apud, TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 4 JÚNIOR, Aury Lopes. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juirs, 2007, p.187.

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ter como defensores os seus próprios acusadores: a pior situação para qualquer 5 acusado. Ela decide defender-se sozinha.

Durante este período não havia em que se falar em direitos e garantias. Era urgente e necessário proteger o cidadão contra os desmandos do Estado, que buscava de qualquer forma a condenação do réu. A regra era a presunção de culpa e não de inocência. Nas palavras de Paulo Rangel:
Nesse período e sistema o acusado era desprovido de toda e qualquer garantia. Surgiu a necessidade de se proteger o cidadão do arbítrio do Estado que, a qualquer 6 preço, queria sua condenação, presumindo-o, como regra, culpado.

No final do século XVIII, mais precisamente no ano de 1789 explode a maior de todas as revoluções que mudaria o mundo. A Revolução Francesa marcada principalmente pela queda da Bastilha, local em que durante anos, todos os direitos e garantias dos cidadãos franceses ou não, foram suprimidos. Deu-se nesta fase então o início de um novo tempo. Portando a bandeira da Liberté, Égalité et Fraternité, surge o diploma dos direitos e garantias fundamentais do homem. A Constituição francesa proclamava: “todo homem é presumido inocente até que ele tenha sido declarado culpado; se ele está julgado indispensável prendê-lo, todo rigor que não seria necessário para a segurança de sua pessoa deve ser severamente reprimido pela Lei”.7 8 Estava desta forma estabelecida a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, que trouxe em seu art. 9º:
Todo homem é considerado inocente, até ao momento em que, reconhecido como culpado, se julgar indispensável a sua prisão: todo o rigor desnecessário, empregado 9 para a efetuar, deve ser severamente reprimido pela lei.

Começava naquele momento uma grande mudança do sistema processual penal na Europa que influenciaria fortemente outros países. O Processo Penal dava um grande salto, saindo da fase inquisitória passando então para o sistema acusatório. Alexandra Vilela em seu livro acerca da Presunção de Inocência em Direito Processual Penal destacou que: “Foi exatamente quando o processo penal europeu

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BENAZZI, Natale. D’AMICO, Matteo. O Livro Negro da Inquisição: A Reconstituição dos Grandes Processos, Lisboa: Âncora, 2001, p.65, apud, RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2005, p.52. 6 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.24. 7 Traduzido de: tout homme étant présuée innocent jusqu’ a ce qu’il ait été déclaré coupable; s’ il est jugé indispensable de l’ arrêter, toute rigueur qui ne serait nécessaire pour s’ assurer de sa personne, doit être sévèrement reprimée par La loi. 8 TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65. 9 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.25.

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passou a se deixar influenciar pelo sistema acusatório que surgiu uma maior proteção da inocência do acusado”.10 O sistema acusatório figura em pólo diverso do inquisitivo, um é a antítese do outro. Se no sistema inquisitivo o juiz é o autor e a acusação, no acusatório cada personagem tem papel próprio e distinto não cabendo ao juiz decidir, mas mediar o processo de forma a se aplicar a lei adequadamente.
O sistema acusatório, antítese do inquisitivo, tem nítida separação de funções, ou seja, o juiz é órgão imparcial de aplicação da lei, que somente se manifesta quando devidamente provocado; o autor é quem faz a acusação, assumindo, todo o ônus da acusação, e o réu exerce todos os direitos inerentes à sua personalidade, devendo defender-se utilizando todos os meios e recursos inerentes à sua defesa. Assim, no sistema acusatório, cria-se o actum trium personarum, ou seja, o ato de três 11 personagens: juiz, autor e réu.

Proclamado em 1948 na Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU – Organização das Nações Unidas, o princípio da presunção de inocência ganhou força, legalizado no Art. 11: “ninguém será condenado à pena de ofensa tendo o direito de ser presumido inocente até provado a culpa de acordo com a Lei no processo público ele tem toda a garantia necessária para a sua defesa”.12 Seguindo a mesma concepção da Declaração Universal dos Direitos do Homem a Convenção do Conselho da Europa, estabeleceu em seu Artigo 6º, inciso 2º: “ninguém será condenado de um crime de ofensa, sendo presumido inocente até que seja provada a culpa de acordo com a Lei”.13 De acordo com Tourinho Filho, na Itália a questão da presunção de inocência, agitou a época da Assembléia Constituinte, que depois de muita luta, venceu a corrente liberal. O Artigo 7º da Constituição Italiana trouxe então em seu § 2º: “o acusado não é considerado culpado se não há condenação definitiva”.14 A Declaração Universal dos Direitos do Homem completou no ano de 2008 sessenta anos, porém, o princípio do Estado de Inocência só veio a ser consagrado na Constituição
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VILELA, Alexandra. Acerca da Presunção de Inocência em Direito Processual Penal. Coimbra: Coimbra Editora, 2000, pp.29–36, apud, RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Juris, 2005, p.24. 11 RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005, p.52. 12 Traduzido de: Everyone charged with a penal offense has the right to be presumed innocent until proved guilty according to Law in a public trial at which he has all the guarantees’ necessary for his defense. In: TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2000, p.65.
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Traduzido de: Everyone charged with a criminal offence shall be presumed innocent until proved guilty according to Law”. In: Idem, ibidem. Traduzido de: L’ imputato non è considerato colpevole sino alla condanna definitiva. In: Idem, Ibid.

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Federal Brasileira no ano de 1988. O art. 5º, inciso LVII, que trata especificamente deste princípio traz:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] LVII – ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença 15 penal condenatória; [...]

A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, entrava então o Direito Processual Penal Brasileiro em uma nova fase, mais humanista, protetora dos direitos sociais, coletivos e individuais, garantindo principalmente a preservação da dignidade da pessoa humana. O princípio da inocência vinha naquele momento assegurar, ou seja, garantir que ninguém fosse considerado culpado até sentença condenatória definitiva. Alexandre de Moraes faz uma ressalva importante, quando consagra a presunção de inocência, como um dos princípios basilares do Estado de Direito de garantia processual penal, no intuito de se obter à tutela da liberdade pessoal: “dessa forma, há a necessidade de o estado comprovar a culpabilidade do indivíduo, que é constitucionalmente presumido inocente, sob pena de voltarmos ao total arbítrio estatal”.16 O fato é que com a adesão do Brasil à Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), conforme Decreto nº 678, de 06.11.1992, vige em nosso país a regra do art. 8º, 2, da Convenção: “toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma sua inocência enquanto não se comprove legalmente sua culpa”. 1.1.1 Princípio do estado de inocência como dever de tratamento No Brasil, consagrado no art. 5º da Constituição Federal, o princípio da presunção de inocência tomou seu próprio sentido. Estudado e avaliado por muitos processualistas penais, ganhou de cada um uma interpretação própria e características diferentes. Na visão, por exemplo, de Paulo Rangel não há em que se falar em presunção de inocência e sim em declaração, para ele a constituição Federal não presume que ninguém seja inocente, mas declara sim, que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória.

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BRASIL. Constituição. Brasília: Senado Federal, 1988. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. São Paulo: Atlas, 2003, p.132.

Lei. Aury Lopes. e a outra. Significa dizer que a presunção de inocência (e também as garantias constitucionais as imagem.]”. pode sofrer restrições pessoais fundadas exclusivamente na possibilidade de condenação. se o réu não pode ser considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória. uma coisa é a certeza da culpa. Para Amilton B. 5º.17 Primeiro não adotamos a terminologia presunção de inocência. afim de que o réu seja protegido da publicidade que na maioria das vezes é extremamente abusiva e da estigmatização precoce do acusado. pois. é a presunção 17 da culpa. Em outras palavras. Na dimensão externa ao processo a presunção de inocência irá atuar como um limitador. bem diferente.. mesmo.. Além do que outro princípio constitucional garante ao acusado o direito de não ter que produzir provas contra si mesmo. mas declara que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (art. Segundo o autor este é um princípio muito importante. pp.51. que este princípio não estivesse normatizado na Declaração dos Direitos do Homem. em nenhum momento do inter persecutório. 2007. JÚNIOR. A Constituição não presume a inocência. De acordo com Carvalho. [. Para ele este princípio impõe ao Estado a observância e respeito a duas regras específicas ao acusado.191–192.” Eugênio Pacelli de Oliveira em sua concepção a cerca do tema fala em estado ou situação jurídica de inocente.187. CARVALHO. também não pode ser presumidamente inocente. para que(m)? In: Escritos de Direito e Processo Penal. se preferirem.] tratamento. uma com relação ao tratamento e outra de fundo probatório. Paulo. apud. O bizarro espetáculo montado pelo julgamento midiático 19 deve ser coibido pela eficácia da presunção de inocência. ou. ibidem. 19 Idem. Esse dever de tratamento interno impõe ao juiz que a carga de provas seja obrigatoriamente do acusador. de fundo probatório. chegando a afirmar que: “o Princípio da presunção de Inocência não precisa estar positivado em lugar nenhum: é pressuposto [. assim mesmo ele seria garantia fundamental. Rio de Janeiro: Lumen Juirs. p. Rio de Janeiro: Lúmen Júris. a estabelecer que todos os ônus da 17 18 RANGEL. que atua em duas dimensões: interna ao processo e exterior a ele”. outra. .24. O professor por sua vez entende que a presunção de inocência impõe que o réu seja tratado como inocente: “a presunção de inocência impõe um verdadeiro dever de tratamento (na medida em que exige que o réu seja tratado como inocente). a certeza da inocência ou a presunção da inocência. afinal se o réu é inocente ele não precisa provar nada. Direito Processual Penal. LVII). segundo a qual o réu. dignidade e privacidade) deve ser utilizada como verdadeiros limites democráticos à abusiva exploração midiática em torno do fato criminoso e do próprio processo judicial. Amilton Bueno de. de Carvalho a presunção de inocência é pressuposto.18 Na visão de Aury Lopes Júnior o princípio é um dever de tratamento. 2005. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional.. p. Ou.. p. em nossa Carta Magna.

. acusado de heresia por ter escrito o livro Dei delitti e delle pene (1763).] Se o crime é incerto. BECCARIA. A liberdade é o bem mais precioso de qualquer cidadão.] e a sociedade apenas lhe pode retirar a proteção pública depois que seja decidido que ele tenha violado as normas em que tal proteção lhe foi dada..31. remonta a idéia de muitos estudiosos. 20 21 OLIVEIRA. O fato é que inúmeros artigos do CPP não possuem compatibilidade constitucional neste ponto. . visto sua incompatibilidade com a própria Constituição. não é hediondo atormentar um inocente? Efetivamente. é 21 inocente aquele cujo delito não está provado. não entendemos por que o legislador perdeu o momento e deixou passar a excelente oportunidade de mudar o dispositivo do art. É preciso que nossos magistrados façam uma avaliação dos velhos conceitos e posicionamentos. alterando-se os primados mais subliminares do processo penal constitucionalizado. 408 e 594. p. demonstrando de acordo com o artigo 312 do Código de Processo Penal. [. o Marquês foi a primeira voz contra a tradição jurídica em nome da humanidade. Cesare Bonesana de. Para tanto. deve fundamentar a decretação do ato constritivo... aplicando desta forma a norma. que por sua vez deve ser o norte do Estado Democrático de Direito. Dos Delitos e das Penas. Curso de Processo Penal. 2005.18 prova relativa à existência do fato e à sua autoria devem recair exclusivamente sobre 20 a acusação. também. 2001. é preciso que não se deixe levar pelo clamor público. mesmo que a reforma processual penal de 2008 apesar de tardia tenha significativas alterações no modelo processual anterior. mas ser um intérprete perspicaz e humanista. que terá desde o início da persecução criminal uma carga de contraprovar sua inocência. a real necessidade da medida cautelar. São Paulo: Martin Claret. Como exemplo. Eugênio Pacelli de. O juiz não deve ser um mero aplicador da Lei tal qual ela é. que há décadas passadas denunciavam as barbáries do sistema inquisitório e defendiam novos processos que respeitassem a dignidade humana do acusado. mas buscando em sua essência a justiça. Porém. podemos citar o Marquês Cesare Bonesana de Beccaria. por isto. Neste livro Beccaria já afirmava que um homem não pode ser considerado culpado antes da sentença do juiz. é relevante que a prisão do réu seja mesmo necessária. 393 do CPP. que se faça a justiça tal qual deva ser. Na prática cria-se uma presunção de culpa contrária ao acusado. perante as leis. que também é inaplicável. O juiz ao decretar na sentença condenatória a prisão do réu. entre eles a não incorporação dos arts. Belo Horizonte: Del Rey. p.37. Esta concepção apesar de só ter sido inserida em nossa Constituição de 1988. [.

22 FERRAJOLI. JÚNIOR. A presunção de inocência é um estado em que se encontra o acusado até ser declarado culpado. A estigmatização precoce do acusado é uma violação de proporções irreparáveis a pessoa e a moral do réu.] é um princípio fundamental de civilidade. A mídia monta em cima de cada fato que lhe possa render audiência um espetáculo de julgamento de horrores. até o trânsito em julgado de sentença condenatória”. ainda que para isso tenha-se que pagar o preço da impunidade de algum culpável. Para limitar esses excessos cada vez mais comuns é que invocamos a não violação do princípio mais importante do processo penal o da Presunção de Inocência. Luigi. estejam protegidos. 549. Rio de Janeiro: Lúmen Juirs. 2007. p. Isso porque. pois o maior interesse é que todos os inocentes. e externamente tem o importante dever de atuar como um limitador. Diante de tudo que falamos sobre o chamado princípio do estado de inocência. fruto de uma opção garantista a favor da tutela da imunidade dos inocentes. ao corpo social. lhe basta que os culpados sejam geralmente punidos.. culpado ou inocente. podemos destacar que ele como garantia constitucional e direito fundamental do Processo Penal. 22 sem exceção. [. Aury Lopes.188. Uma forma de tratamento que internamente impõe ao juiz que a carga de provas seja obrigatoriamente do acusador. O réu necessariamente deve ser protegido da publicidade que na maioria das vezes é extremamente abusiva. O princípio da presunção de inocência reitor do Processo Penal estabelece assim parâmetros para que a dignidade humana seja respeitada. . Derecho y Razón.. p. Este princípio vem estabelecer regras e proteger todo e qualquer cidadão até que o mesmo seja declarado em sentença condenatória definitiva. consagra e garante que: “ninguém será considerado culpado. Direito Processual Penal e sua Conformidade Constitucional. Neste Reality Show o acusado é presumidamente culpado até que se prove ao contrário.19 Luigi Ferrajoli destaca que o importante é que todos os inocentes sejam sem exceção protegidos. apud.

]. tem passado por uma incrível mutabilidade. completamente transmutada nos padrões da atualidade. consumir e assim. nasceu na Inglaterra com a invenção da máquina a vapor por James Watt em 1776 [. ambas as revoluções. na qual podemos caracterizar pela comunidade emblemática da Idade Média. retrata. que se estendeu até 1840.. em seu livro “Propagandas Silenciosas”. com muito louvor. a coluna social foi estabelecida na forma de uma comunidade simplificada.A CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DE INSEGURANÇA INFLUENCIADA PELA MÍDIA NA DESCARACTERIZAÇÃO DO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA A Construção da Sociedade Moderna Através dos tempos a sociedade em si. horas para modificá-lo. em seu capítulo “Manipular Massas” da divisão social feita pelo historiador François Caron. ela se apresenta de forma mais modular. se encontram intimamente ligadas às revoluções político-sociais e tecnológicas. Na nova sociedade. Já num terceiro momento encontramos a sociedade estabelecida de forma mais complexa. Há que se observar que essas mudanças sociais. Com a primeira central elétrica aberta em 1882 por . podemos dividi-la em três momentos de ruptura para uma nova sociedade. conseqüentemente. Em um segundo momento de sua evolução.. leva milhões de anos para formar um ecossistema e o homem. Uma revolução industrial não é simplesmente o desenvolvimento de uma tecnologia a mais. A primeira. Primeiramente. companheira primordial do homem. com relação à revolução industrial que influenciou diretamente na maneira de se produzir e consumir. mudando desta forma completamente os valores da sociedade. Ignácio Ramonet. produzir. Pode-se dizer que o mundo já conheceu duas revoluções. Ao analisarmos a evolução social. são direcionadas pelo poder econômico. Mas toda esta mutabilidade e rapidez fazem parte do gênero efêmero que nos seres humanos criamos ao longo da história. é uma revolução fundamental na nossa maneira de produzir e consumir. no qual a palavra de ordem está baseada em um único fator. Interessante como a natureza. o de uma nova e emergente sociedade globalizada. caracterizada pela era primitiva em que se encontrava. apenas.

1 Sociedade de Inseguranças: um interesse econômico midiático A nova sociedade caracteriza pelos riscos que ela proporciona. consumia apenas o necessário. Do consumo banal da realeza para o consumo banal da plebe. Na fase primária em que a economia baseava-se na troca. conservando sempre. Trocou. logo. é a segunda revolução que deslancha nos Estados Unidos [. como a Internet. alguns necessários em meio a tantos desnecessários. é como se as pessoas estivessem felizes e satisfeitas apenas quando consume. que avançou progressivamente antes de invadir o conjunto do sistema técnico.1. novos desejos. Propagandas Silenciosas – Massas. . Ignácio. A partir dela outras tecnologias vieram.. inverteu a satisfação pessoal. gera automaticamente a formação de outra sociedade. mas principalmente as político-sociais. pp. na robótica e em 23 redes. 2002. pois criamos uma sociedade nova sociedade de necessidades supérfluas onde tudo é passageiro.21 Thomas Edison. a massa. Neste exato momento criamos também uma sociedade de risco. pela satisfação do ter e possuir. A Revolução Industrial foi um grande passo para o novo modelo social. passamos agora então para a denominada sociedade de inseguranças. A terceira é a revolução eletrônica. sem importância. que trazemos para dentro de nossas casas. O desnecessário. apud. esta cheia de medos e perturbações.]. Petrópolis: Vozes. e de desembocar na informática. a sociedade criou novos hábitos. Ao longo dos tempos. aquilo é deixado de lado. 27 de abril de 2000. 23 CARON. 2. Mas pela própria característica efêmera do homem.15–16. o fator econômico como o grande exponencial. quando compra algo. Com o advindo das grandes revoluções não só tecnológicas. RAMONET.. para dentro de nossas vidas. mas. em desuso. onde a proporção de nossos desejos é tão grande quanto os riscos diretos e indiretos. L’Express. grande parte do povo. Televisão e Cinema. da vida de nossas famílias. caracterizado pelo luxo e ostentação era material de consumo apenas da Corte e dos Senhores. François. Da troca ao poder de compra proporcionado pela moeda (dinheiro). muitos hábitos mudaram com relação à economia.

. Maria Cristina Castilho. O Poder – uma nova análise social. iremos notar que apesar de tanto tempo já ter se passado as concepções de Marx e Engels nunca foram tão atuais. São Paulo: Moderna. o poder econômico. o capitalismo selvagem. podemos dizer que. gera poder e poder sempre foi o ponto fraco dos homens. o quanto esta influência foi poderosa. 25 WEBER. Hoje. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. pp. p. dinheiro.124–125. algo permaneceu intacto. possibilitando o investimento produtivo do capital. As restrições impostas ao gasto de dinheiro serviram naturalmente para aumentá-lo. Esse poder. [. Ralf.Russel em sua famosa frase dizia que: “a sede de poder aumenta de maneira notável pelo exercício do poder”. COSTA.. Max Weber considerado por muitos o “Marx da burguesia” aborda de forma peculiar à questão do consumo e do capital. As classes e seus conflitos na sociedade industrial. muitas foram às alterações. [. os conflitos entre explorados e exploradores. Max. O estágio do desenvolvimento econômico. p. mas também ingênuo e irresponsável. 1979. Nenhum físico se me perdoam a analogia – ignoraria Einstein por não aprovar sua atitude política ou alguns aspectos de sua teoria. 26 RUSSEL. retrata não só as fases e desenvolvimento da sociedade. B. essa teoria foi refutada. Se fizermos uma viagem pela história. o resultado prático inevitável é óbvio: o acúmulo de capital mediante a compulsão ascética para a poupança. 1987. mas não 24 superada.. São Paulo: Martin Claret. No livro Sociologia Introdução à Ciência da Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar. 24 DAHRENDORF. p.26 De certa forma então. esta sociedade de inseguranças interessa única e exclusivamente aqueles que detêm o poder econômico. Quando a limitação do consumo é combinada com a liberação das atividades de busca da riqueza. mas também a opinião de influentes pensadores como Ralf Dahrendorf. 2001. não é passível de demonstração estatística exata. apud. defensor do lucro e não da melhoria social criou um imenso abismo entre os detentores deste poder e as pessoas manipuladas por ele..] sua formulação da teoria de classes é não só a primeira. mas também.87–88. a única em seu gênero..111-112.187.22 De um modelo de sociedade para outro. Para Karl Marx o campo econômico sempre foi o “fator exclusivo da mobilidade social”.] Ignorar Marx é conveniente. Maria Cristina Castilho. Infelizmente. como sabemos agora. Bertrand.25 O desenvolvimento econômico gera dinheiro. que relata os conflitos de classes propostos por Marx: O estudo das classes sociais sofreu no passado pela propensão dos cientistas sociais a reagir contra a influência de Karl Marx. as desigualdades sociais. porém. Sociologia Introdução à Ciência da Sociedade.

Este por sua vez tem por objetivo a dominação de outros indivíduos para a realização de seus interesses próprios. se produz mais e se vende mais. isto se seguindo a seqüência tradicional traçada por Montesquieu.. precisamente. Jhon B. reticular e consensual (um consenso obtido. Um consenso geral foi criado. 28 Desta maneira Ramonet coloca a mídia então como sendo não mais o quarto e sim o “segundo poder”. Na realidade. Muitos autores afirmam que esta manipulação está diretamente ligada à influência midiática. que atualmente alcança a máxima da manipulação das massas. O segundo (cuja imbricação com o primeiro se mostra muito forte) é certamente 27 THOMPSON. em seu livro “A Mídia e a Modernidade”. 28 RAMONET. vazia e frágil. Para gerar lucro é preciso fazer com que a sociedade consuma mais. p. [. Ao acumular recursos dos mais diversos tipos... não surgiu do nada. sem que as mesmas percebam esta manipulação. Petrópolis: Vozes. Petrópolis: Vozes. Indivíduos que ocupam posições dominantes dentro de grandes instituições podem dispor de vastos recursos que os tornam capazes de tomar decisões e perseguir objetivos que têm conseqüências de longo . se precisa de qualquer maneira consumir. 2005. o primeiro poder é hoje claramente exercido pela economia. Esta concepção de que é necessário se consumir coisas desnecessárias. p. ou melhor.] para falar de “quarto poder” ainda seria preciso que os três primeiros existissem e que a hierarquia que dispõe na classificação de Montesquieu fosse sempre válida. dando vazão e valor a coisas antes sem menor importância.21.23 Estes por sua vez. executivo e judiciário. Mas de acordo com Ignácio Ramonet.41.]. idéia de que se deve. legislativo.27 prazo Durante muito tempo a mídia foi considerada o “quarto poder”. Ignácio. os indivíduos empregam os recursos que lhes são disponíveis. recursos são os meios que lhes possibilitam alcançar efetivamente seus objetivos e interesses. Porém para que esta cadeia ocorra é necessário se criar necessidades ou mesmo desnecessidades. Este com certeza não foi um trabalho simples. e há também recursos acumulados dentro de organizações institucionais. 2004. Thompson. que são bases importantes para o exercício do poder. No exercício do poder. assim. Estes desejos efêmeros foram implantados na forma de pensar de cada um. traçando o perfil dos indivíduos que buscam tornar estáveis essas relações ou redes de poder. . A Mídia e a Modernidade – Uma teoria social da mídia. mas complexo e de longo prazo. estão intimamente ligados a um único objetivo “lucro”. os indivíduos podem aumentar seu poder [. “estamos passando para um poder horizontal. Há recursos controlados pessoalmente.. levanta a questão do poder e a comunicação. utilizada de maneira a criar uma cultura de massa. A Tirania da Comunicação. por meio de manipulação midiática)”. John B.

São Paulo: Summus Editorial. STF e as Grandes Transformações do Direito Criminal. O objetivo é claro. Mídia O Segundo Deus. correlatamente nascia também naquele momento um grande instrumento de manipulação de massa. a de manipular a massa de acordo com o que o poder econômico determina. Luiz Flávio. de ação e de decisão incontestável – de modo 29 que o poder político só vem em terceiro lugar. com vários sentidos de interpretação. 1985. trouxe novas técnicas. 2. O professor Luiz Flávio Gomes. GOMES. falou sobre o poder de uma forma em geral e do poder da informação.2 MÍDIA: MEIO DE COMUNICAÇÃO E INFORMAÇÃO OU MANIPULAÇÃO DE MASSA O desenvolvimento do sistema de impressão por Gutenberg em 1450 abriu as portas para uma nova realidade. estava naquele momento nascendo à expansão das informações e das idéias. SCHWARTZ. apud. a Guerra do Golfo pela televisão. Tony 29 30 Idem. 30 Uma mensagem subliminar. nas palavras dele. “Na era da informação manda quem tem a informação”. mas com um aspecto bem claro. que vão embora tão rápido quanto chegam. Marshall McLuhan acreditava que a televisão transformaria o mundo todo numa grande “aldeia”. criar desta forma uma sociedade de idéias e desejo volantes. Biblioteca UNIRON – Faculdade interamericana de Porto Velho/RO. Com o advento da eletrônica era então chegado um novo tempo para a sociedade agora dotada de mais informação. DVD. que no Brasil teve a 1ª estação. a TV AO VIVO. com a instalação da 1ª estação em 1950. 31 Marshall em sua análise realmente passou muito perto do que viria a se tornar o poder da televisão. ibidem. por exemplo. instalada em 1922. pp. . em palestra proferida na III Semana Jurídica Direito da Uniron. Outros meios de comunicação ainda viriam primeiramente o rádio. 2008. Característica realmente impressionante essa da mídia. Pudemos acompanhar. A divulgação da informação em tempo real.24 midiático – instrumento de influência. 31 MCLUHAN. esta é a era da informação. Anos mais tarde se presenciaria a chegada da televisão. em nosso país. Tony. Marshall.26–27.

ligando o individuo ao mundo em frações de segundos. Marco Antônio Araújo. o último senso de 2007. era chegada então à vez do “real time”. Umberto. É a evolução da comunicação. falha esta 33 que os teria condenado à total ignorância em outros tempos. 32 33 SCHWARTZ. pp. Biblioteca UNIRON – Faculdade interamericana de Porto Velho/RO. São Paulo: Summus Editorial.50–51. De acordo com Umberto Eco esses meios de comunicação e informação hoje são utilizados com outras finalidades. logo passou a ser um utilitário doméstico. mais necessário que o rádio ou a televisão. Crescendo em um ambiente pós-literário. para muitos. agora sim. 32 Por conseguinte. constatou 39 milhões de usuários. 35 ECO. Tony. uma astronômica expansão da informação. impressas. 34 Atualmente o computador já está em grande parte das casas por todo o país. A mídia eletrônica marcou uma mudança na sociedade. pp. . através da internet. dos aparentes benéficos. A princípio o computador era utilizado. O problema da cultura de massa é exatamente o seguinte: ela é hoje manobrada por “grupos econômicos” que miram fins lucrativos. sem que se 35 verifique uma intervenção maciça dos homens de cultura na produção. idéias e até mesmos desejos. Mas toda essa rapidez ainda era pouco para a mídia da comunicação. nossa sociedade ainda não estava preparada esta revolução tecnológica. 34 JÚNIOR. dissociadas pela cultura de massa. nossos filhos receberam uma grande quantidade de informações sobre o mundo em que vivemos. Mídia O Segundo Deus. Idem. a de manipulação de informações. e realizada por “executores especializados” em fornecer ao cliente o que julgam mais vendável. ibidem. Apocalípticos e Integrados. São Paulo: Editora Perspectiva. não estávamos preparados para as mudanças que ocorreriam quando aparecesse um novo meio de comunicação. lançando sementes da mesma maneira que a invenção do tipo móvel e da máquina de impressão: iniciava-se a era pós-literária. 2001. sem precisar ler ou escrever. 1985. a grande e verdadeira “Aldeia Global”. Era preciso algo mais. no Brasil este mesmo fato só veio a acontecer no ano de 1995. 2008. cada vez mais forte e ostensiva. a informação em tempo real. ou seja. Com o advento da televisão em 1/6 de segundos uma mesma mensagem pode ser recebida por milhões de pessoas ao mesmo tempo. DVD.26–27. que apesar.25 Schwartz afirma em seu livro “Mídia o Segundo Deus”. apenas nas empresas. Direito Eletrônico: aspectos jurídicos relevantes. No ano de 2000 o Brasil tinha aproximadamente 6 milhões de usuários. “A Internet”. A liberação do uso comercial da internet aconteceu nos Estados Unidos em 1987. Nada se pode comparar à agilidade e o poder de difusão dela. falada e televisionada. difundida principalmente nas últimas décadas pelas mídias.

. A mídia antes centrada a fornecer informações hoje se concentra em repassar aquilo que os detentores do poder midiático visualizam potencialmente rentável. e transmitidas segundo os canais comerciais de consumo regido pelas leis da 37 oferta e da procura. elaborada industrialmente em série. [. . 51. homem massa e cultura de evasão” 36. que em muito nos tem ajudado. mas ao mesmo tempo. Apegamo-nos a tecnologia. Não fazer parte do grupo da mass media ou meios de massa é como ser ridicularizado a todo o momento por estar fora da moda. Idem.26 O autor ainda afirma ser este um código de quem não comunica “mensagem massificante. abrimos as portas para uma sociedade de riscos. todos os que pertencem à comunidade se tornam. Acessando a internet podemos perceber a enxurrada de informações que recebemos por frações de segundo. 36 37 Idem. como versa o objeto do presente trabalho. Com o advento de novas tecnologias. ibidem. É clara a influência que a mídia exerce sobre toda a sociedade de uma forma quase geral.3 PÓS-MODERNIDADE UMA SOCIEDADE DE RISCOS INCALCULÁVEIS A sociedade evoluiu. é natural que se defenda uma cultura de prisionalização. ibidem. gera riscos e automaticamente inseguranças. Criou-se uma necessidade quase irreversível de estar conectado a este mundo das informações. p.. em diferentes medidas. p. Neste contexto. Assim. 27. É natural que viver em uma estrutura social assim. o Estado de Inocência é a primeira vítima.] o alargamento da área de consumo das informações criaram a nova situação antropológica da „civilização de massa‟. O autor inverte a definição de cultura de massa para comunicações de massa. tornando-se uma altamente consumista. No âmbito de tal civilização. hoje as informações são repassadas em tempo real. 2. e é neste contexto de insegurança que a sociedade tem clamado por leis mais severas e redução da maioridade penal. consumidores de uma produção intensiva de mensagens a jato contínuo. tornando banal a medida externa de restrição de liberdade.

O grande conflito começa então. Nosso sentido de insegurança e desconfiança está tão fragilizado que atualmente acusamos e incriminamos as pessoas antes mesmo de conhecermos a verdade. São Paulo: LZN.. Os riscos acentuados implicam novas modalidades de 40 riscos. adquiridos mediante muita luta e sofrimento. antes. O princípio constitucional da presunção de inocência foi posto de lado. p. São Paulo: LZN. De acordo com Cavalcanti: Os riscos que se podiam calcular na esteira da Modernidade tornaram-se incalculáveis e imprevisíveis na sociedade de risco. 2005.27 Figueiredo Dias já dizia: “[. 2005. diluindo as linearidades e certezas. p. 38 DIAS. Eduardo Medeiros. todos são culpados até que se prove ao contrário. “[.. 39 CAVALCANTI.39 Porém a pós-modernidade trouxe novos e diferentes riscos. e porventura será – sempre uma sociedade de risco”. p. Crime e Sociedade Complexa: Uma abordagem interdisciplinar sobre o processo de criminalização..] uma análise histórica equilibrada e livre de preconceitos conduzirá antes. nunca imaginados pelo homem. apud. passado ao longo de todo o processo de democratização de nosso país. CAVALCANTI. muito provalvemente. hoje. cheia de medos de fantasmas que ela própria criou. Eduardo Medeiros.151. Crime e Sociedade Complexa: Uma abordagem interdisciplinar sobre o processo de criminalização. antes mesmo de o devido processo legal ser estabelecido e a questão julgada por seu juízo competente. quando esta sociedade que agora passamos a chamar de “sociedade da insegurança”. Ao revés da noção linear de causa e efeito.38 Não há que se negar que o penalista português tenha total razão quanto ao risco sempre ter existido. à conclusão de que a sociedade foi sempre – e talvez mais do que hoje. mas ao mesmo tempo tem gerado inseguranças que antes não existiam. .] viver em uma sociedade significa compartilhar os riscos”. Este é o perfil da nova sociedade. 40 Idem.151. afinal como relata Eduardo Medeiros Cavalcanti. ibidem. a sociedade de risco produz a entropia nos fenômenos. A tecnologia tem aberto novas portas com relação à quase tudo. rompe os limites da lei. infringindo e desestabilizando princípios fundamentais do homem.152. O Direito Penal entre a ‘Sociedade Industrial’ e a ‘Sociedade do Risco’. Jorge de Figueiredo. possibilitando a delimitação de responsabilidade pelos danos e perigos..

que a mercê da ditadura. principalmente a impressa. Neste contexto duas garantias constitucionais são amplamente refletidas neste trabalho. Primeiramente a garantia do Estado de Inocência em que o cidadão. Em segundo plano temos a liberdade de imprensa. garantias essas fundamentais.“ESTADO DE INOCÊNCIA E LIBERDADE DE IMPRENSA” 1. Livre em seus atos. Tais garantias e princípios fundamentais inerentes a todos vêm fixados então como Cláusulas Pétreas. mas só foi realmente consagrado em 1984 com a Eleição de Tancredo Neves. Neste contexto nasce à trajetória de importantes e fundamentais garantias a pessoa humana. Surgindo desta maneira o Direito de ser verdadeiramente cidadão. em atos e pensamentos.28 CAPÍTULO III A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA DEMOCRACIA NA BUSCA PELAS GARANTIAS CONSTITUCIONAIS . para que o novo Estado fosse e permanecesse realmente Democrático. gravados como Pedra em nossa Constituição de 1988. muitos foram os Direitos usurpados e castrados. muito sofreu. que na maioria escondidas em porões imprimiam nas frias madrugadas de 1943 Boletins de Desagravo ao fascismo e a ditadura. Durante o período totalitário. ou seja. Naquele período comandado por Getúlio Vargas. uma nação livre. na qual encontramos um meio de limitar os excessos principalmente do Estado. vindo a tornar-se realidade em 1988 com a promulgação da Constituição Federal. Muitos foram os fatores para o surgimento deste Estado Democrático de Direito. com o fim da ditadura. Nesta fase começava a ser traçada uma nova sociedade em que os homens agora cidadãos livres no Estado Democrático de Direito. No Brasil este período acontece por volta do ano de 1946.1 A LUTA PELO ESTABELECIMENTO DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO A luta pela Democracia retrata diretamente a busca pelos Direitos. tem o direito de não ser pré-julgado. livre em seus pensamentos. Estes foram tempos difíceis e primordiais para o estabelecimento do que somos hoje. Aquele foi o tempo em que a força repressora do estado não era algo distante de se . livre para escolher ou mesmo para ser escolhido. passavam a ter novas garantias de direito. estas foram duas garantias subtraídas da população brasileira. livre enfim para viver. entre eles estava à imprensa.

Espalharam-se o medo e a incompreensão. onde as perseguições eram constantes e ser contra a ditadura era praticamente uma blasfêmia. há que se remontar ao período da vingança privada da era primitiva. estudantes. Para Francisco de Assis Silva este foi o período em que o povo brasileiro teve suas garantias fundamentais subtraídas: “Nessa época desapareceram as liberdades e as garantias do indivíduo”. em todos os momentos e em todos os lugares.Império e República. 43 Idem. torturados e mortos . devido à opressiva censura do DIP. pois é justamente neste período em que as garantias fundamentais do indivíduo estavam suprimidas. 42 Idem. O Estado Novo de Getúlio Vargas foi um momento histórico para o país. Mas aquele também foi um período de terror e medo. de 07 de dezembro de 1940. mas uma mão pesada nos ombros de todos. Getúlio criou o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). p. dos interesses nacionais e protetor da indústria brasileira. pois. escritores. Foi um período de pouca realização intelectual. p. políticos de oposição e operários foram 42 presos. O Estado Novo teve seu auge entre os anos de 1937 a 1945. 1991. que surgem tão importantes regulamentos para a nação brasileira. Controlava a imprensa e determinava o que podia e que não 41 podia ser publicado .96.98. A história do Direito Penal brasileiro passou por muitas e importantes fases. Para melhor analisá-las. artistas. torturas e mortes. advindo do decreto – Lei n° 2.95. Processual Penal e da Lei de Imprensa. Para começarmos falaremos do Código Penal Brasileiro. Jornalistas.29 ouvir falar. Ibidem. em que as formas punitivas eram basicamente realizadas por sanções corporais. defensor das riquezas.43 Vamos aqui abrir um espaço para falar um pouco do Código Penal. o ditador se mostrou nacionalista. São Paulo: Moderna. O povo vivia sufocado e aterrorizado com as agressões da polícia política de Vargas. Jornais foram fechados. professores.848. p. . E para maior sustentação da ditadura. História do Brasil . comandado por Vargas este foi um dos piores momentos políticos vividos pelo povo brasileiro. Luiz Régis Prado e Cezar 41 SILVA. ibidem. Posteriormente a esta fase estabelecer-se-ia o Brasil Colônia primeiramente regido pelas Ordenações Afonsinas e depois estas substituídas pelas Ordenações Manuelinas de 1521. chefiada por Filinto Müller responsável por centenas de prisões arbitrárias. Francisco de Assis. O DIP era o órgão responsável pela propaganda do governo e pela censura.

Nilo. como Código Penal.] os ordenamentos jurídicos referidos não chegaram a ser eficazes. Nas palavras de Luiz Regis Prado “[. p. apreciado por uma Comissão Revisadora. bem como o exemplo de códigos estrangeiros mais recentes. Para demonstrar suas idéias Greco ainda cita como exemplo a mulher de 1940: 44 TOMPSON.05. através da cominação. 45 BITENCOURT. p.45. que se transformara numa verdadeira colcha de retalhos. Rogério.. Em 1937 durante o Estado Novo. 2008.46.. p.05. São Paulo. p. Revista dos Tribunais. Curso de Direito Penal. Niterói: Impetus. aplicação e execução da pena”.46–47.] ignorou completamente os notáveis avanços doutrinários que então se faziam sentir. especialmente o Código de Zanardelli. BITENCOURT. o Código Penal surgia para proteger os bens mais importantes da sociedade. Escorço histórico do Direito Criminal luso-brasileiro. acabou sendo sancionado. Curso de Direito Penal. já não gozam mais deste status. 2008. 116.] o escopo imediato e primordial do direito Penal radica na proteção de bens jurídicos – essenciais ao indivíduo e à comunidade”. são puramente políticos. Augusto. 46 Idem. Logo vieram novos estudos para substituí-lo. haja vista os equívocos e deficiências apresentados pelo Código Republicano. em conseqüência do movimento positivista.. passando a vigorar desde 1942 até os dias atuais. evolui. 1976.48 De acordo com Rogério Greco o critério de seleção dos bens a serem tutelados pelo Direito Penal.44 Apenas em 1830 viria o então imperador D. São Paulo: Saraiva. aparecendo atrasado em relação à 45 ciência de seu tempo. Muitos dos bens que antes eram tidos como fundamentais. segundo ele. 47 PRADO. p. Cezar Roberto.] Alcântara Machado apresentou um projeto de código criminal brasileiro. O Código Penal de 1890 apresentava graves defeitos de técnica.. GRECO. a sociedade dia após dia. Com o advento da República em 1890 foi aprovado e publicado o código penal elaborado por Batista Pereira.. apud. Enquanto as garantias constitucionais eram subtraídas. pp. pois. 48 BATISTA. Tratado de Direito Penal. considerado o pior Código Penal da história brasileira. . em razão das peculiaridades reinantes na imensa colônia”. ibidem. Luiz Regis.30 Roberto Bitencourt comentam que nesta fase “[.47. [. p. 2008. Introdução crítica ao direito penal brasileiro. Cezar Roberto.76. Alcântara Machado apresentou o seu projeto que nas palavras de Cezar Bitencourt vinha em boa hora. Niterói: Impetus. Rogério. São Paulo: Saraiva. 2008. Pedro I a sancionar o Código Criminal e dois anos depois surgiria o primeiro Código de Processo Criminal.. embora 46 parcialmente reformado.. Na visão de Cezar Bitencourt: [.. que. GRECO. p. por decreto de 1940. apud. apud.47 Nilo Batista fala que: “a missão do direito penal é a proteção de bens jurídicos. Bem jurídico-penal e Constituição. Tratado de Direito Penal.

. Publicada no Diário Oficial da União de 13 de outubro de 1941. com algumas alterações. 49 ser por ele protegidos. Marques. Francisco.05. nas leis nacionais um acentuado espírito antiinquisitorial que nos preservou o processo penal. [. apud. por conseguinte. apud. PIERANGELLI. Bauru: Jalovi. A história do Código do Processo Criminal de Primeira Instância inicia-se ainda no governo de D.689 de 03 de outubro de 1941. Francisco Campos envia a Getúlio Vargas o projeto do Código de Processo Penal do Brasil. Getúlio Vargas.. que na sessão de 20 de maio de 1829 ordenou que o projeto fosse apresentado à Câmara. o interesse de boa administração 51 da justiça. hoje. José Henrique. lugar onde permaneceu em discussão por mais de dois anos. Tenho a honra de passar às mãos de Vossa Excelência o projeto do Código de Processo Penal do Brasil.. 28 de março de 2005.] Em virtude dessa constante mutação. Para José Frederico Marques o código trouxe um acentuado espírito antiinquisitorial. 49 50 GRECO. de há muito. Evolução Histórica do Processo Penal.. p.106. não estará apenas regulada a atuação da justiça penal em correspondência com o referido novo Código e com a Lei de Contravenções (cujo projeto. 2008. levada a efeito pela Lei nº 11.] Se for convertido em lei. ainda se daria a reforma de 03 de dezembro1841. perdurou.113.] síntese dos anseios humanitários e liberais que palpitavam no seio do povo e da nação. o regulamento nº 120 de 31 de janeiro de 1842. [. período em que foi editado nosso Código Penal. escrevendo seu nome na história do Processo Penal brasileiro. . Depois disto. Lei nº 61.533.98. José Henrique. p. é completamente diferente daquela que participava da nossa sociedade já no século XXI. aliado ao próprio interesse da unidade nacional. ainda se encontra em vigor... bens que outrora eram considerados de extrema importância e.] graças a ele. [. no mesmo passo. Niterói: Impetus. Curso de Direito Penal. vindo a ser aprovado por aquela casa em 20 de outubro de 1832 e promulgado em 29 de outubro do mesmo ano. de certos resíduos absolutistas 50 que ainda existem nos códigos europeus.. a reforma judiciária de 1871. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. p. finalmente realizada. 1983. Bauru: Jalovi. Através do Decreto-Lei nº 3. PIERANGELLI. Praticamente um ano depois.. 51 Campos.31 Exemplo disso foi à revogação dos delitos de sedução. Pedro I. A mulher da década de 1940. rapto e adultério. José Frederico. o Brasil viveria mais um importante momento a aprovação da reforma do então código de processo penal. e outros tantos decretos. Em 08 se setembro de1941. nesta data. Rogério. carecedores da especial atenção do Direito Penal já não merecem. p. sancionando e decretando a aplicação do novo Código de Processo Penal. [. cuja parte especial. apresento igualmente à apreciação de Vossa Excelência): estará. 1983. vigente até hoje em nosso país. só chegando ao Senado em julho de 1831. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas.

. 4º contra os particulares Art. d‟ a‟ quem e d‟ alem Mar em Africa. 1983. PIERANGELLI. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts. que de livre mesmo. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts.333. Com base no referido artigo.333. 9º e 10º das Bases da Constituição. p. Art. quando se estabelecem. 1983. só tinha o nome. mediante esta arma tão poderosa a imprensa. 54 dos seus Santos. José Henrique.32 Com a introdução do Código Penal e do Código de Processo Penal. apud. mas ainda havia muito pelo que se lutar. Constituição do Império. A liberdade de expressão e pensamento. publicar. PIERANGELLI. p. defendem dogmas falsos. pois a liberdade de ação e pensamento ainda não estava garantida. 3º contra os bons costumes. 1º Toda pessoa póde da publicação desta Lei em diante imprimir. ou de algum dos dogmas definidos pela Igreja. não se podia falar contra a Igreja Católica e que qualquer outro dogma que não fosse o dela era falso. José Henrique. muita coisa mudaria. Processo Penal: Evolução Histórica e Fontes Legislativas. 52 determinava os princípios sobre a liberdade de imprensa. era logo no Título II da própria Lei contraditado. etc. p. 8º Pode abusar-se da liberdade de imprensa: 1º contra a religião catholica romana. 9º e 10 daquela Constituição. 1983. apud. estes estabelecidos nos arts. Rei do Reino Unido de Portugal. Bauru: Jalovi. 3º. uma vez. apesar da lei de imprensa ser bem anterior a ela. 9º e 10º das Bases da Constituição. 2º. procuravam limitar o poder de difusão de idéias. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. PIERANGELLI. um importante passo fora dado. 2º contra o estado. 8º. quando se blasfema. quem neste período violava tal determinação em primeiro grau era condenado até a um ano de prisão. que o mesmo tratava como abuso da liberdade de imprensa falar da religião católica e contra o estado. ou do culto religioso aprovado pela Igreja. Art. José Henrique. era o começo. 8º. e só com as declarações seguintes: O mesmo enunciado do Decreto que dizia não haver prévia censura. ou zomba de Deos. 10 Abusa-se da liberdade da imprensa contra a religião: 1º quando nega a verdade de todos. No Brasil a Constituição do Império também controla a liberdade de imprensa.325. só veio a ser consolidada com a Constituição de 1988. Disposições sobre Direito Processual Penal. todos os governos monárquicos ou não. comprar e vender nos estados Portuguezes quaesquer livros ou escriptos sem prévia 53 censura. 52 53 54 BRASIL. No Decreto de 12 de julho de 1821 D. Bauru: Jalovi. 8º. Desde a descoberta da impressão em 1450. apud. Bauru: Jalovi. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Brazil e Algarves. João por graça de “Deos” e pela Constituição da Monarquia.

ou injuriando o Congresso Nacional. 1983. provocando-os directamente a desobedecer às leis. 9º e 10º das Bases da Constituição. Bauru: Jalovi. em 60$000. apud. as mudanças no país foram imensas.776 de 14 de julho de 1934. excitando os povos directamente à rebelião. atacando a fórma de Governa Representativo. e além destas penas haverá em todos os grãos a reparação 56 civil do dano e injúria.334. p. imputando a alguma pessoa. 12 Abusa-se da liberdade da imprensa contra o Estado: 1º. no quarto. no terceiro. ou às autoridades constituídas. 8º. em 40$000. imputando-lhe vícios ou defeitos. 2º. no segundo em 80$000. para o Brasil República. veio às mudanças da liberdade de imprensa. penalizando aqueles que exagerassem na exposição do suspeito.742 de 31 de outubro de 1923. Teríamos ainda outros decretos para regular a liberdade de imprensa. as pessoas que infligiam este artigo eram condenadas até cinco anos de prisão. Do Brasil Império. entre elas a proteção da pessoa. . 16. Getúlio Vargas. uma vez que visava proteger os particulares dos excessos da mídia. sempre que os Juízes de Facto declararem ter logar. 17. 3º. PIERANGELLI. decretado pelo chefe do governo provisório da República dos Estados Unidos do Brasil. conforme a gravidade da ofensa. como o Decreto nº 4. já trazia em seu contexto de forma arcaica a proteção do princípio do Estado de Inocência. O Decreto apesar de retrógado e imperialista. 4º. ou ignomínia. Pelo exposto podemos observar que a liberdade de imprensa era completamente controlada e vigiada pelo governo.33 Aqueles que eram condenados por abusos contra o Estado recebiam penas mais severas. A referida Lei de quase dois séculos atrás. mas desta vez o regulamento trazia apenas questões de abuso da liberdade de imprensa que visavam destruir o então sistema monárquico. que a exporiam ao ódio. adoptada pela Nação. 2º. insultando com termos de desprezo. infamando. José Henrique. Abusa-se da liberdade da imprensa contra os particulares: 1º. Pedro Imperador do Brasil decretou nova Lei sobre o abuso da liberdade de imprensa. o governo desta forma procurava se proteger e manter a hegemonia do Império Português. Art. tinha suas virtudes. Quem abusar da liberdade da imprensa contra os particulares em primeiro grão será condenado em 1000$000. agora regulamentada 55 56 Idem. juntamente com elas então. ibidem. ou desprezo publico. o decreto de nº 24. sancionado Pelo presidente da República dos estados Unidos do Brasil. 3º. Era a regulamentação implícita de tal importante princípio. ou Chefe do Poder 55 Executivo. Processo Penal – Evolução Histórica e Fontes Legislativas. Art. qualquer fagto criminoso. DECRETO – DE 21 DE JULHO DE 1821 – Desenvolve e determina os princípios que sobre a Liberdade de imprensa se acham estabelecidos nos arts. ou corporação. Art. Em 20 de setembro de 1830 D. que daria logar a procedimento judicial contra Ella.

Com o fim da 2ª Grande Guerra Mundial (1945). haja vista que esta era de certa forma restringida. era enfim chegado um novo tempo para a imprensa brasileira. estabelecendo desta maneira proteção aos princípios e garantias fundamentais do homem. Restava agora consolidar o novo regime democrático”. agora era difundida com certa liberdade. É importante salientar que o regime militar impôs. a insatisfação social ocasionou o fim da ditadura Vargas. Em 1945 acontecem no Brasil as eleições. comandadas pela Alemanha. p. 58 SILVA. Vinícius Ferreira. sobrepondo a vitória dos Aliados contra as ditaduras. novas e pesadas restrições à atuação dos jornalistas e das empresas.Império e República. São Paulo: Moderna. nas mãos então do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. logo após a aprovação da Lei de imprensa. tantas vezes cometidas pela polícia de Getúlio. e outorgava 57 plenos poderes ao Executivo. História do Brasil . 59 Idem.uol.58 O momento era de pura euforia uma alegria geral que tomava conta do Brasil.asp?id=146> Acesso em 15 nov.34 pela Lei nº 5. A Lei trouxe em seu texto a liberdade de manifestação do pensamento e de informação. voltemos agora ao curso da história. pois. ibidem. 2008. no ano em que a Lei de Imprensa foi decretada o Brasil se encontrava sobre a égide do governo militar.com. Respirava-se mais livremente. Havia chegado o fim do DIP e. Eurico Gaspar Dutra é eleito. 1991. que entrou em vigor em 14 de março do mesmo ano. Todos achavam que nunca mais o Brasil voltaria ao regime de governo autoritário. Frisemos a palavra “certa liberdade”. O povo acreditava na democratização plena do país. que vigorou de 13 de dezembro de 1968 a 31 de dezembro de 1978. onde enfim. que sancionou referida lei. Foi um período em que as palavras liberdade e democracia eram pronunciadas sem 59 medo.520 de 09 de fevereiro de 1967. Ainda nas palavras do historiador Francisco Assis: “Estava assegurado o fim do Estado Novo. O Congresso transforma-se em Assembléia Constituinte e em setembro de 1946 é promulgada a 57 LANER. A informação antes tão controlada e vigiada. 101. . Francisco de Assis. em defesa da democracia.br/doutrina/texto. como prisões arbitrárias e torturas de oposicionistas. Processual Penal e a Lei de Imprensa. dava-se início a consolidação da democracia no Brasil. p. não se admitiam mais os abusos e a violência das autoridades. Completou-se o cerco no período da vigência do Ato Institucional nº 5.98. Depois de um breve relato histórico sobre o Código penal. Isso ocorreu com a ampliação das penas dos delitos de imprensa pela Lei de Segurança Nacional. Disponível em: <http://juz2.

Veria ainda João Goulart tomar posse em meio às tensões sociais e conflitos de esquerda e direita radical que colocavam em risco o regime democrático do país. não chega nem mesmo a tomar posse. SILVA. 60 61 Idem. apoiado pelo militares. para ver o fim da República Populista com a deposição de Goulart. sucedido pelo General Ernesto Geisel e por fim o último da linhagem dos militares a comandar o Brasil o General João Baptista de Oliveira Figueiredo.61 No ano de 1983. que em seu discurso de posse disse: “Reafirmo meu inabalável propósito [. O Brasil acompanharia o retorno da égide militar ao poder. Francisco de Assis. O voto seria universal.. na seqüência o “milagre econômico” General Emílio Garrastazu Médici. De acordo com a Constituição de 1946: O país seria uma República federativa presidencialista. Os brasileiros viveriam também. São Paulo: Moderna. cabos e soldados. Era chegada a hora da transição do poder militar para o poder civil. 60 Apesar das mudanças.35 Constituição. ainda estava levada a defender os interesses dos latifundiários e dos empresários.123. No dia 15 de janeiro de 1985 foi realizada a tão espera eleição presidencial.Império e República. onde o presidente governaria por cinco anos. que elegeu Tancredo Neves para presidente. Não teria direito de voto os analfabetos. p. Judiciário e Legislativo. Comandada pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branca. ibidem. porém. Jânio Quadros assumir o poder em meio a uma astronômica dívida externa. Haveria três poderes autônomos: Executivo. muito tempo ainda se passaria até a verdadeira democratização do país. Quem toma posse em seu lugar é o então vice-presidente José Sarney que assumiu no mesmo dia da morte de Tancredo Neves a presidência da República Brasileira. 1991. História do Brasil .] de fazer deste país uma democracia”.. inicia-se em São Paulo a campanha pelas “Eleições Diretas Já”. mais uma vez o povo brasileiro é surpreendido pelo destino e o primeiro presidente do Brasil eleito pelo voto direto. Haveria respeito à liberdade de opinião e de pensamento. Reafirmava-se a defesa da propriedade privada etc. Acompanharia a ascensão de Juscelino Kubitschek. depois o país dirigido pelo General Artur da Costa e Silva. Apesar de esta ser uma Constituição mais liberal. . O povo brasileiro ainda veria o retorno de Vargas ao poder e seu suicídio. secreto e obrigatório para os maiores de 18 anos.

depois de sete operações e 38 dias no 62 hospital. . 2003. 1988. o bem-estar.1. Thomas. com a solução pacífica das controvérsias. a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna. O Preâmbulo da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 trás: Nós. Com a promulgação da Constituição Federal.48-49. Passando por este breve relato histórico. podemos observar que desde o início. pp. 63 CONSTITUIÇÃO FEDERAL.. promulgamos.133. reunidos em Assembléia Constituinte para instituir um Estado Democrático. São Paulo: Atlas. a segurança. Rio de Janeiro: Paz e Terra. e consiste em uma certidão de origem do novo texto e uma proclamação de princípios. O Estado de Inocência e a Liberdade de Imprensa. 64 MORAES. 62 SKIDMORE.] (grifo nosso) Nas palavras de Alexandre de Moraes o preâmbulo de uma Constituição traça as diretrizes políticas. São Paulo: Moderna. Com a promulgação da Nova Constituição o verdadeiro Estado Democrático de Direito foi estabelecido. apud Francisco de Assis Silva. só teriam seu verdadeiro lugar estabelecido na vida do povo brasileiro a partir da Constituição de 1988. 1991. a estabilização do estado Democrático de Direito e assim conseqüentemente a segurança de viver em um Estado onde as garantias e direitos fundamentais ao homem são respeitados. Brasil: de Castelo a Tancredo. agora se tornavam realidade.36 Quem sabe se um milagre de última hora não salvaria o homem destinado a conduzir o Brasil para uma nova era democrática? Mas o milagre não aconteceu. Alexandre de. os direitos e garantias antes inimagináveis. a chegada de uma nova fase para o país.. marcando enfim. Emanados da ânsia da sociedade pelo justo. a história do povo brasileiro tem sido a luta constante pela democracia. Tancredo Neves morreu em 21 de abril. representantes do povo brasileiro. a seguinte Constituição da República 63 Federativa do Brasil [. Direito Constitucional.1 Princípios e Garantias Constitucionais na Tutela Penal dos Direitos Fundamentais Depois de mais de 30 anos de liberdades e garantias fundamentais suspensas era chegada agora à hora da democracia. São Paulo: América Jurídica. demonstrado a ruptura com o ordenamento 64 constitucional anterior e o surgimento jurídico de um novo Estado. 1. a liberdade. fundada na harmonia social e comprometida. História do Brasil – Império e República. destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. sob a proteção de Deus. filosóficas e ideológicas de um povo: O preâmbulo de uma Constituição pode ser definido como documento de intenções do diploma. 2007. na ordem interna e internacional. o desenvolvimento. p. pluralista e sem preconceitos.

não são ilimitados. foram estabelecidos de maneira a garantir a soberania popular contra o poder do Estado. Alexandre de.18. não quer dizer em si os direitos e garantias do gênero masculino. 1998. Caracterizados por sua fundamentalidade. mediante intervenção do juiz. esses direitos. São Paulo: Malheiros. confundidos como um escudo de proteção para atos ilícitos. Curso de Direito Constitucional Positivo. Cada um responde na proporção de seus atos.. Os direitos e garantias fundamentais do homem. pelo caráter extremamente protetivo dos direitos e garantias fundamentais. que o Estado exerce seu poder punitivo. para jamais serem riscados ou arrancados de seu povo. como simples limitação ao Estado ou autolimitação deste. p. A expressão direitos fundamentais do homem [. protegidos por nossa lei maior.67 65 SILVA. mas limitação imposta pela soberania popular aos poderes constituídos do estado que dela dependem. a realização da pretensão punitiva do Estado devido à prática de uma infração penal”. trata-se então dos direitos e das garantias dos seres humanos. Savino Filho define que: “A finalidade imediata do processo penal é conseguir. p. 2003. No entanto não se deve e não se pode..150. 67 SAVINO FILHO. 2008. Dentre estes princípios Constitucionais.65 As garantias e direitos fundamentais do ser humano são as verdadeiras garantias da essência da democracia. serem estes direitos. desta forma. uma vez que encontram seus limites nos demais direitos igualmente consagrados pela Carta Magna (Princípio da relatividade ou 66 convivência das liberdades públicas). Na acepção de princípios fundamentais. Direito Constitucional. Alexandre de Moraes em aborda de forma clara e precisa o assunto: Os direitos e garantias fundamentais consagrados pela Constituição Federal.] com base em Pérez Luño. São Paulo: Atlas. não significa esfera privada contraposta à atividade pública. portanto. é importante analisarmos os Princípios Constitucionais atinentes ao Processo Penal. 66 MORAES. José Afonso da. Belo Horizonte: Inédita. afinal este fora o prêmio por tantos anos de luta.37 foram gravados em nossa Constituição Federal como se grava em pedra. mas sim da espécie humana. . Direito Processual Penal Resumido. afinal é mediante a Ação Penal. Cármine Antônio. Há que se analisar que para tudo existe uma regra limitadora e esta também se aplica aos princípios fundamentais inerentes a todos. logo vêem sobrepostos nos primeiros capítulos da Constituição de 1988. pois. onde as liberdades civis e políticas devem obrigatoriamente ser respeitadas. p.61. desta maneira os direitos e garantias fundamentais não afastando indivíduo a responsabilidade de responder civil ou penalmente por seus atos criminosos.

23. assegurou o sistema acusatório no processo penal. OLIVEIRA. avalia. Para que não haja enganos e conseqüentemente injustiças o inquérito policial deve ser feito de forma clara. da ampla defesa e da afirmação de inocência antes da condenação definitiva. entre outros que visam garantir a eficiência do processo. do contraditório. muitos doutrinadores e processualistas definem o da Presunção de Inocência como um dos princípios mais 68 69 Idem.68 Com a promulgação da nova Constituição de 1988 muitas coisas mudariam dentro do Processo Penal Brasileiro. p. na busca da verdade real. 2004. Eugênio Pacelli de. consagrou vários princípios relativos ao processo penal entre eles: a plenitude de defesa. Na visão de Eugênio Pacelli. A Constituição Federal no Título I “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”. ampla de maneira a não restar dúvidas a cerca das provas levantadas. Por outro lado o juiz no processo deve avaliar todos os fatos. e garantista no sentido da exigência da instituição de regras e princípios que realizem concretamente a igualdade material (de fato e não de direito) entre a acusação e a defesa. era então estabelecido o novo perfil do processo penal no Brasil: Chegou-se então a um perfil do processo. como entre nós. Capítulo I: “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos”. Mas todos esses procedimentos devem ser realizados adequadamente como estabelecem as normas. como a base estrutural de um modelo democrático garantista. inadmissibilidade de provas obtidas por meios ilícitos. e. concisa. como instrumento de garantia individual contra eventuais e sempre possíveis abusos da força estatal. Processo e Hermenêutica na Tutela Penal dos Direitos Fundamentais. estabelecendo diversos princípios que visam proporcionar a eficiente prestação jurisdicional na concretização (nas palavras de Savino Filho) do “princípio da efetividade (efetivação judicial)”. ibidem. Democrático no sentido de efetivação da participação do réu em todas as fases do procedimento.69 Dentre tantos princípios atinentes ao processo penal. julga e puni na medida do que a Lei estabelece. Para que isto ocorra a nossa Constituição Federal. ampla defesa. p. instituindose. Belo Horizonte: Del Rey. 19. contraditório.38 Desta forma ocorrendo o fato concreto o Estado mediante os órgãos judiciários. os princípios do juiz natural. presunção de inocência. . que imponha ao juiz uma atuação imparcial e o dever de motivação de seus julgados. sobretudo. e particularmente o penal.

250/67que se encontrada defasada. inseriu o direito de resposta. pois afinal este estudo tem por escopo a violação do princípio da presunção de inocência e este por sua natureza é pressuposto constitucional e independente de lei específica velha ou nova. A principal delas foi quando à legitimação das liberdades de expressão.39 importantes e que dentro do próprio processo penal. informação e de imprensa. deve ser respeitado pela mídia. a imprensa e conseqüentemente a sociedade. . extinguiu a censura. artigos 220 à 224 da CF/88. Mas não nos estenderemos neste trabalho à inaplicabilidade de muitos artigos.. que se encontra no Título VII. ou mesmo a quase totalidade da Lei 5. Ao longo dos tempos este princípio tem sido violado não só pela autoridade judicial. também trouxe muitas alterações para velha Lei de Imprensa. da Comunicação Social. mas também. o dever de informar e o direito de ser informado.. que agora se tornava conflitante com a Carta Magna em muitas questões. influenciada pela mídia.] várias modificações sofreu a Lei 5. [. na maioria das vezes. Capítulo V. Este capítulo inscreveu normas de comunicação coletiva.250/67. pela autoridade policial competente. Falando em mídia devemos destacar que a Constituição de 1988. pode se dizer o mais conflitante e contraditório.

Petrópolis: Vozes. mas esta descrição aplica-se também à mídia eletrônica: “um segundo deus”. 70 71 SCHWARTZ. também criou sua própria definição.2 MÍDIA UM SEGUNDO PODER EXERCENDO A FUNÇÃO DE UM SEGUNDO DEUS É realmente extraordinário o progresso experimentado pelos meios de comunicação de 1970 para cá. e não poderemos nunca entendê-lo.70 O risco é calculado. no sentido de que não havendo esta reestruturação. na medida em que o avanço tecnológico impõe uma séria revisão e reestruturação dos pressupostos teóricos de tudo que se entende por comunicação”. primeiramente o poder econômico. uma do desafio e a outra do risco. p. Ignácio. Deus está sempre conosco porque é onipresente. É um mistério. ele define Deus. Televisão e Cinema. com um. uma conquista antes inimaginável. espírito onisciente e todo-poderoso que está dentro de nós. 1985. Propagandas Silenciosas – Massas. Para o autor assim também é a mídia poderosa. A rapidez. Na visão de Tony Schwartz este desafio é definido como uma séria revisão da comunicação: “Desafio. empostado pela possibilidade de ser onipresente. Mídia O Segundo Deus. na visão dele. Como ele é onipresente. com que tudo é transmitido nos levam a duas reflexões. para dar uma nova roupagem. citado no capítulo anterior.40 IV CAPÍTULO A VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO DE ESTADO DE INOCÊNCIA PELA MÍDIA 1. presente sempre em toda parte em todos os momentos. 2002. 71 Tony Schwartz. RAMONET. a versatilidade e a simplicidade. São Paulo: Summus Editorial. em segundo plano o poder da mídia e em terceiro o poder político. Ignácio Ramonet. criado 72 pelo homem. Deus é um espírito onisciente e todo-poderoso que está dentro e fora de nós. muitos de nossos princípios fundamentais garantidos mediante muitas lutas e conflitos. sempre consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo.41. a difusão da notícia e do conhecimento vai além do que previam os especialistas de décadas anteriores. Em seu livro Mídia: O Segundo Deus. p. mas numa escala digamos de poder sobrenatural. A humanidade hoje é outra. Tony. . Em termos gerais esta é a descrição de Deus do modo que nossos pais a aprenderam. se percam na espetacularidade das notícias. 05. desestrutura a clássica formação de Montesquieu de poderes.

a mídia pode alterar o curso de uma guerra. ibidem. elevar os humildes e humilhar os orgulhosos. São Paulo: Summus Editorial. 74 MCLUHAN. 19. Os meios de comunicação conseguem dirigir a atenção de milhões de pessoas sobre o mesmo caso e da mesma maneira. Já dizia Marshall McLuhan que: ”as vozes eletrônicas não têm corpo. A moral. este segundo deus parece ter o poder de agir 75 independentemente. 75 Idem. p. são absorvidos pela mídia a sua própria maneira. 72 73 SCHWARTZ. ou o criador manipulando a criatura para seus próprios e obscuros interesses? A resposta para este questionamento é simples. p. São Paulo: Summus Editorial.20. Eles transmitem a todos a mesma informação. provocando ou abortando uma guerra. Tony. 1985. Um deus sem estes princípios tão importante é um deus perigoso. Mídia O Segundo Deus. atender os interesses da sociedade. apud. 74 Na realidade. Apesar de ter sido criado por nós. ligar seu aparelho de comunicação. À maneira de Deus. e. e. está muito envolvido com banalidades.SCHWARTZ. pontos fundamentais em toda sociedade. levando o processo a milhares de telespectadores ao 73 mesmo tempo. como por exemplo. Tony. os meios de comunicação de uma forma em geral são oniscientes.41 A mídia. basta uma simples ação do próprio homem. as estruturas políticas e o estado psicológico de todo um país. Seria a criatura superando o criador. A mídia deveria no contexto integral para qual foi criada. este segundo “deus” é imperfeito e altamente influenciado pelo poder político e econômico. ocasionalmente podemos pedir-lhe que altere seus hábitos. Idem. uma vez que conseguem estabelecer um senso comum para os fatos. na verdade. uma vez que. Seu poder é tão grande que pode mudar o curso da história. e destruindo quase que instantaneamente a carreira do senador. os bons princípios e a ética. p. Muitos comentam que este deus aprecia a violência. Schwartz lembra que os meios de comunicação afetam profundamente as atitudes de uma comunidade. dado o seu grande poder de persuasão e difusão.21. 1985. criador e criatura se fundem em um mesmo elemento. sendo assim. ibidem. esse output assemelhava-se a um anjo”. Maeshall. deveria ser um instrumento social diário em poder da sociedade e trabalhando para que esta sociedade pudesse ser melhor em todos os aspectos. a cobertura dada às audiências do processo Exército X McCarthy. Mídia O Segundo Deus. do modo que lhe convém. como por exemplo. todo o output da mídia eletrônica é invisível. . letrados ou analfabetos. arrasar um presidente ou um rei.

ou seja. Entre elas e mais importante para os homens do poder econômico. como poderemos definir os sentimentos que cada notícia ou informação pode provocar nas pessoas que a recebem. Falando em informação. influenciando os milhões de sedentos pela informação a consumirem. & T. Uma campanha publicitária tem como objetivo aumentar suas vendas. São Paulo: Summus Editorial.26. mas não podemos calcular os efeitos colaterais. Os resultados de cada um podem ser calculados. De acordo com Tony Schwartz.1 Mídia . T. Os comerciais mostravam um relacionamento agradável. haja vista. ainda. Ninguém dizia: “Telefone”. familiares e amigos falando ao telefone. Tony. Quem pode prever o efeito que uma notícia pode causar em toda uma sociedade? Para Tony os efeitos são mais poderosos e perigosos do que a mensagem pretendida. mas como tudo na vida.76 Desta forma se pode calcular os resultados aparentes. breve espaço. para estes também existem os chamados efeitos colaterais. abriremos aqui. Mas esta informação não vem com apenas uma. não dão diretrizes. os comerciais mais eficientes. A trilha sonora da música “Feeling” servia de pano de fundo para a cena.Propagandas Silenciosas e suas mensagens subliminares Tony Schwartz. trás sempre uma mensagem subliminar daquilo que no fundo se quer dizer. principalmente os produtos ofertados. Nada mais. . uma campanha política tem por escopo aumentar seus votos. aborda a questão da problemática produzida pelos efeitos colaterais da mídia. Mídia O Segundo Deus.42 1. Uma série de comerciais da A. estes por sua vez completamente indefiníveis. a da publicidade. p. 1985.) as pessoas que assistem e ouvem tais mensagens não o fazem da mesma maneira que aqueles que as planejaram: o público responde de acordo com o contexto de sua própria problemática de vida”. induzindo indiretamente o consumidor. Ninguém induzia o espectador a fazer uma ligação interurbana.. servem como exemplo. para debater a respeito da mensagem subliminar contida nas propagandas silenciosas. Toda a informação ou entretenimento advindo da mídia. implantando subjetivamente o comportamento ou reação desejada. O comercial não “dirigia” o público para que fizesse 76 SCHWARTZ. transmitindo a alegria das vozes das pessoas ao telefone. de qual atitude tomar ou como reagir. cada um responder de acordo com aquilo que vivencia.2.. mas várias mensagens subliminares. “(. íntimo e amoroso entre pessoas. Eles lançam estímulos cuidadosamente escolhidos.

a sociedade estava caminhando para uma “sociedade de inseguranças”.. Alguém pode dizer que. 1985. o mundo absurdo. 2002. Como diz Ramonet: “[. Esta visão de insegurança pode ser interpretada pelos novos meios de praticar o delito e este desejo imensurável de ter e possuir. por um instante. em seu livro Propagandas Silenciosas – Massas. 2) que ela substitua. em crimes e conseqüentemente “inseguranças”. relatamos que. p. que muitas pessoas que não tem meios financeiros. por estas mensagens implícitas. resultando assim. enfim. . além de estimular a demanda ou mantê-la”. 1) que ela reduza os seres humanos ao estado de massa e entrave a estruturação dos indivíduos emancipados. Ignácio.] a precisão do marketing comercial permite a esses gigantes da mídia oferecer produtos (em particular um filme ou um programa de TV) perfeitamente ajustados aos desejos dominantes. RAMONET. no espírito dos cidadãos. a idéia de que os seres humanos desejam ser fascinados. Petrópolis: Vozes.10. Petrópolis: Vozes. para adquirir o que oferta o comercial. a legítima aspiração à autonomia e à tomada de consciência por um conformismo e uma passividade perigosamente regressivos. 79 RAMONET.43 ligações interurbanas. podem ser levadas a cometer delitos dos mais variados tipos.78 Ignacio Ramonet. televisão. mas fazia com que este mesmo público “tivesse vontade” de 77 fazê-las. Para o autor esta desconfiança se funda em três apreensões. são os produtos culturais. 3) que ela propague. retratando a desconfiança a respeito da indústria cultural e sua propaganda silenciosa. Outro meio de comunicação utilizado para implantar desejos e comportamentos. Televisão e Cinema. Ignácio.. Televisão e Cinema. Propagandas Silenciosas – Massas. programas de TV. pp. então assim será. Quando no capítulo anterior falamos em sociedade de riscos nascida a partir das novas tecnologias. Propagandas Silenciosas – Massas. alienados e enganados na esperança confusa de que uma espécie de satisfação hipnótica os fará esquecer. 2002. aborda com muita peculiaridade o tema.08-09. capazes de discernir e de decidir livremente. 77 78 SCHWARTZ. São Paulo: Summus Editorial. p. Mídia O Segundo Deus.62. cruel e trágico em que 79 vivem. novelas e seriados. São movidos por estes desejos. esta não deve ser uma desculpa para o crime. estes formados basicamente por filmes. Tony. mas neste momento o desejo é mais forte e se o delito é meio para a obtenção deste desejo. cinema.

. [. e mesmo assim. se alguém assistiu aquela matéria bombástica e outras coisas mais. através dos mais variados meios de comunicação. uma rápida passada pela internet. seus efeitos e o que dentre ela é realidade natural e realidade construída. já caiu na graça povo e cada dia é maior o número de pessoas que concordam com tal atrocidade. ou seja. nele os sujeitos vivem . 1.. desempenha o papel de mediadora entre o sujeito e a notícia. são tarefas cotidianas e obrigatórias na vida de cada cidadão. Para confirmar este fato. mais faz”.2 Notícia: uma Realidade Construída em detrimento do estado de inocência Receber uma informação. ao sairmos do trabalho ligamos logo no carro o rádio. A mídia como o próprio nome sugere. basta observarmos os inúmeros políticos condenados pelos mais diversos delitos. voltemos à questão da necessidade que o homem tem pela informação. Depois desta abordagem acerca das mensagens subliminares e as ditas propagandas silenciosas. reeleitos.2. Os textos da mídia oferecem não a realidade. mas uma construção que permite ao leitor produzir formas simbólicas de representação da sua relação com a realidade. Toda esta rotina é influenciada pela obsessiva necessidade da informação. afirmando que a realidade que recebemos é uma realidade construída de acordo com os interesses de cada veículo de comunicação. Ao chegarmos ao trabalho. para a certeza de que a humanidade caminha a passos largos para um senso cada vez mais comum de coisas cada vez mais importantes. conversamos com quase todo mundo. Maria Grelolin relata sem receio o lado negro da mídia. queremos saber o que se passa ao nosso redor. pois. antes de irmos para cama. sobre determinado pelo imaginário.44 As três apreensões de Ramonet deixam hoje o patamar da desconfiança. O dito popular “rouba.] O real é. ao chegarmos em casa ligamos de imediato a TV. como foi o futebol do fim de semana. que por muitas vezes se estende por horas. ela é o instrumento que media a realidade levada às pessoas. queremos informações sobre as últimas e mais importantes notícias do dia. se inteirar das notícias do Brasil e do Mundo.

Maria do Rosário. a mídia acertou no julgamento antecipado. uma vez. as elites e os detentores do poder aparecem na forma daquilo que Mattiussi (1997) chama de “denuncismo”: o uso da imprensa para legitimar as atitudes de uma autoridade política ou conferir tratamento pejorativo aos fatos a ela relacionados. o sujeito passa a ser culpado. até que ponto ela realmente surte efeito? Danos morais e a imagem revertidos em dinheiro? Ou tudo termina em nada.97-98. São Paulo: Claraluz. de acordo com aquilo que está vivenciando. sempre direcionado. 2003. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. p. afinal isto é liberdade de impressa. Pedro Luis Navarro. que fora feita a exposição de sua imagem. A mídia cria. ou até mesmo. diríamos que aí sim mora o perigo. A tendência é de que cada receptor entenda a mensagem a sua maneira.81 O poder dos meios de comunicação é tão grande que estes podem fazer de mocinhos bandidos e de bandidos mocinhos. apud. Baczko já dizia: “Funcionando como uma extensa rede de criação de símbolos que. o de estar em estado de inocência até sentença condenatória irrecorrível. . Quando a imprensa atribui determinado delito a alguém. 1984. mocinhos e bandidos. Perigo de ir além do que se pode e deve. Maria do Rosário. GREGOLIN. 82 BARBOSA. perigo de passar da informação a propriamente dita opinião. 82 portanto. mas precisamente. a mídia constitui verdadeiras comunidades de imaginação ou comunidade de sentido”. O discurso jornalístico.45 relações e representações reguladas por sistemas que controlam e vigiam a aparição 80 dos sentidos. não sendo respeitado aqui o princípio norteador do direito penal e garantia constitucional. 2003. o leitor ou telespectador irá conseqüentemente criar uma nova realidade embasado no que recebeu e naquilo que já possui. tudo certo. perigo do pré-julgamento. Sendo assim dentro da realidade construída pela mídia. Porém a partir do momento que ela faz um pré-julgamento. Se comprovada a culpa. pré-condenando o suspeito. 81 BACZKO. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. GREGOLIN. 2003. Mas se os veículos de comunicação erram o que fazer então. paira no ar até então a incerteza da culpa.113. apud. quando a moral da pessoa já fora completamente denegrida? Em muitos casos existe a chamada retratação. pp. Quanto ao poder. heróis e derrotados. à relação entre a chamada grande imprensa. mas. A mídia provoca com isto a violação de tão importante princípio.97 e 98. Analisando as palavras de Pedro Barbosa. Maria do Rosário. de uma pré-condenação. articula-se com saber e com poder. 80 GREGOLIN. p. por sua vez. alimentam o imaginário social. São Paulo: Claraluz. São Paulo: Claraluz.

Com o advindo da fase democrática. ou mesmo a tiragem do jornal. o que é levado em consideração é o interesse econômico e notícia ruim vende mais que notícia boa. São Paulo: Summus Editorial. Tony. o jornalista muitas vezes esquece de verificar a veracidade do fato. 1985. Para respaldar o que falamos basta observarmos durante alguns dias a quantidade de patrocinadores nos programas policiais e a quantidade de empresas que patrocinam outros tipos de programas.46 Durante o período da ditadura militar. Deixar a imprensa livre para noticiar é um risco que devemos correr ou não. Todavia há que se esclarecer que o limite da liberdade de imprensa deve terminar no exato momento onde começa a violar os direitos de qualquer cidadão. devemos achar uma resposta para a seguinte pergunta: deveriam as redes de comunicação ser os principais árbitros e os mais influentes porta-vozes dos problemas econômicos. a desgraça alheia. Não nos devemos esquecer. serem as redes de comunicação grandes empresas multinacionais. sociais.80.3 Presumidamente Culpado: o pré-julgamento da imprensa Em meio a tanta agilidade e voracidade na divulgação da informação. pois.2. no mundo da mídia o mais importante é a audiência. Sem comprometer a liberdade de imprensa. sempre vende mais. Às vezes boas muitas vezes ruins. Este é um poder positivo da mídia e que deve a qualquer custo ser mantido. a imprensa teve sua liberdade suprimida. cuja resposta a qualquer questionamento sobre seus valores e ações é bastante simples: liberdade de imprensa. pois. 83 SCHWARTZ. Às vezes certas outras muitas erradas. Mídia O Segundo Deus. tecnológicos e 83 políticos? Todos os dias são inúmeros os flagrantes em que a mídia atua como árbitro sobre os mais diversos assuntos que cercam a sociedade. . Os meios de comunicação têm por sua natureza o poder de formar opiniões. apenas põe de lado tal questão. os meios de comunicação tomavam um importante e fundamental papel na sociedade. Afinal. o de fiscalizador e controlador do poder e dos desmandos do Estado. 1. p. Não. ou a quantidade de acessos nos sites de notícias. A análise com certeza será rápida e a resposta óbvia. o jornalista não se esquece. muitas dúvidas ainda pairam sobre a questão. Estes riscos relacionados à diplomacia da televisão levantam algumas dúvidas sobre o papel das redes de comunicação. isto depende do levantamento acerca do verdadeiro papel desempenhado pelas redes de comunicação na sociedade atual. todavia.

folha. tivesse respeitado o fato de que um seqüestro deve ser negociado por um negociador profissional que estuda anos e mais anos na teoria e na prática para estar apto a solucionar um problema desta magnitude. Dias após o crime.wikipedia. respectivamente pai e madrasta da criança. catástrofes familiares. foram presos. em função das evidências deixadas no local do crime. que na voz da imprensa se transformaram em grandes espetáculos midiáticos. que foi jogada do apartamento de seu pai localizado no sexto andar do Edifício London no distrito da Vila Guilherme. ou ainda o caso Isabela Nardoni85 ou mesmo o caso Eloá. Outra emissora que também explorou o caso foi a Rede Record. 121. meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Eloá levou um tiro na cabeça. a moça de 15 anos e a amiga Nayara. e o irmão dele. Eles serão julgados por duplo homicídio triplamente qualificado --motivo torpe. a teatralidade da TV. O caso espetacularizado pela mídia teve um fim trágico com a morte da garota. Todos estes casos são tragédias da vida humana. Suzane. IV e V). Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Numa briga implacável as emissoras de televisão chegaram a se intrometer nas negociações. Se alguém tinha dúvidas do que era a guerra da audiência. § 2°. Disponível em: <www. foram mantidas reféns por mais de 100 horas. com certeza pode esclarecer com a transmissão deste caso. O caso Isabella Nardoni refere-se à morte da menina brasileira Isabella de Oliveira Nardoni. o então namorado. além do sofrimento dos amigos e familiares. o espetáculo da notícia o reality show. o qual abordaremos mais adiante. incisos III. Como exemplos atuais podemos citar: o caso dos Irmãos Cravinhos 84.org/wiki/caso_Isabella_Oliveira_Nardoni> Acessado em 16 nov. . O caso gerou grande repercussão nacional e. As vítimas foram surpreendidas enquanto dormiam e golpeadas com bastões. bem como de toda sociedade. O trágico resultado todos nós vimos e se hoje o Brasil inteiro chora pelo desfecho trágico. que por meio de sua equipe de jornalismo e do apresentador Brito Júnior também entraram em contato com o seqüestrador Lindemberg.com. atualmente são réus de ação penal e respondem por homicídio doloso triplamente qualificado (art. na noite do dia 29 de março de 2008. Recentemente o povo brasileiro pode acompanhar por todos os meios de comunicação o desfecho do caso Eloá. no Brooklin (zona sul de São Paulo). Talvez tudo tivesse terminado ali mesmo se a Rede TV! por meio de Sônia Abrão e do repórter Luiz Guerra. ainda na cama. Daniel. 08. o show da vida real. Será que a mídia agora além de pré-julgar e condenar. ou melhor. devemos creditar uma 84 85 O casal Manfred e Marísia von Richthofen foi assassinado em casa. em 31 de outubro de 2002.br> Acessado em 16 nov. ainda não ficou comprovado se o tiro partiu da arma do namorado Lindemberg que a mantinha refém. sem se importar com as duas meninas que estavam sob a mira da arma de um inconseqüente. 08. Cristian. com 19 anos. de cinco anos de idade. Apresentadores de programas conversavam com o seqüestrador ao vivo por telefone. em São Paulo. com o único objetivo de aumentar sua audiência.47 É o chamado sensacionalismo desregrado. Disponível em: <http://pt. Esta intromissão pode ter custado a vida de Eloá e a dor de Nayara. também irá querer negociar com os bandidos e depois comandar o inquérito policial? Com certeza o papel da imprensa neste caso não pode ser esquecido e deve ser amplamente debatido em todos os âmbitos.

Em meio a toda esta disputa. Kátia.gov. Será que a presunção de inocência não deveria ter prevalecido quando “suspeitaram” que a criança teria sido morta por 90 dosagem de cocaína? 86 87 Disponível em: <www.48 considerável parcela de culpa à Imprensa Marrom que pensa apenas na audiência 86 sem se importar com a vida das pessoas. 08. Comunicação e informática da Câmara dos Deputados. Ivan. Disponível em: <www.agencia.brasil. 08.gov. quebrou-se o código de ética e se extrapolou os limites em busca de audiência. Apesar de na maioria das vezes o Congresso parecer omisso o caso Eloá.gov.br> Acessado em 12 nov. Existe uma ambiência sócio-cultural da mídia de massa e o conteúdo da violência é cada vez 89 maior pela ausência do controle do conteúdo da programação. estão fazendo da mídia a ordália do século XXI. Consultor Jurídico.brasil. porém. Disponível em: <www. Venício Arthur de. o caso ficou conhecido como: “Espetacularização da Notícia”. devido o excesso de intromissão no desfecho do caso da menina de Santo André. Dois crimes hediondos contra uma mesma senhora: acusá-la injustamente e não por o estuprador numa cela. por ter supostamente dado drogas para a criança foi julgada e condenada pelo corpo hospitalar e policiais.gov. Disponível em: <www. 08.brasil. onde está o Ministério Público que não se posiciona. De acordo com a repórter Kátia Buzar da Agência do Brasil. 89 LIMA. 08. . E o estupro que essa menina teria sofrido no Hospital está sendo tratado como coisa de menor importância. A informação virou uma grande mercadoria que visa ao lucro. foi abertamente discutido em Brasília pelas comissões de Defesa do Consumidor e de Ciência e Tecnologia. pesquisador da Universidade de Brasília a difusão da violência é cada vez maior na busca desesperada pela audiência. Segundo o deputado Ivan Valente do P-SOL de São Paulo os vídeos comprovaram que os veículos de comunicação interferiram na ação da polícia. no sentido de limitar esses exageros? Na visão de Neli procurador do município de Taubaté – São Paulo. A menina que ficou presa 32 dias.br> Acessado em 16 nov.agencia.br> Acessado em 16 nov. Nós chamamos as emissoras porque tiveram claramente participação no desfecho trágico do caso Eloá. Na concepção de Venício Arthur de Lima.agencia. a apenada quando foi colocada em uma cela com outras prisioneiras sem uma contra-prova.br> Acessado em 16 nov.brasil. A espetacularização da notícia não contribui com o interesse público e com os direitos 88 da cidadania. BUZAR. os policiais e membros do Ministério Público. 08. como exemplo citando o caso da mãe que foi presa acusada de colocar cocaína na mamadeira do filho. A busca de audiência a qualquer custo não pode ser o único critério. 90 NELI.br> Acessado em 16 nov.conjur.agencia. 87 Os deputados assistiram durante a audiência vídeos do caso da adolescente. 88 VALENTE. Disponível em: <www.com.

ibidem. Marco Antônio Montemor.br> Acessado em 16 nov. Como diz aquela famosa frase da música Revanche: “E agora. a fazer vítimas. a todo o vapor. De acordo com o Juiz de Direito da Vara do Júri e da Infância e da Juventude de Taubaté – São Paulo. Revanche. Disponível e: Consultor Jurídico. . quem vai pagar por isso?” 92 A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Ministério Público (MP) são dois instrumentos que poderiam coibir esses exageros provocados pela mídia sensacionalista. 08. Eduardo Jorge. Esta mulher com certeza jamais conseguirá apagar da memória tudo o que passou. Mas. não tomar partido. fundamentalmente. afirmou que o juiz deixou-se levar pelo clamor público. como apurados inicialmente pela autoridade. 93 MONTENOR. Apesar dos casos clamorosos (Escola de Base. com certeza o dano hoje teria proporções bem menores. LOBÃO. quando casos como este em que se ficou provado a inocência da mãe.com. Essas duas instituições realmente. <www. pois. é tratado sem nenhum respeito ao que é previsto na Constituição. em nome e em respeito à presunção de inocência.49 O procurador bradou toda a sua indignação afirmando que “a presunção de inocência foi para as calendas”. ou melhor. O advogado Marcelo Galvão de São José dos Campos. Marco Antônio. notamos que na maioria dos casos tanto um quanto o outro se fazem omissos. Se o referido princípio tivesse sido respeitado como deveria. ela estava sendo presa. elaborado a partir dos vestígios materiais apreendidos para justificar a prisão) de que não se encontram vestígios de cocaína. julgamento justo. no referido caso de Taubaté. em ditas amostras. Depois do fato consumado muitas são as desculpas. Ali Mazloum e tantos outros). não podem e não devem tomar partido. Ela não pôde chorar a morte de seu filho ou sepultá-lo. a OAB ou mesmo o juiz que poderia ter concedido a liberdade provisória. a mãe foi presa em flagrante delito. Preferem não se pronunciar. a mídia e algumas “otoridades” ávidas por notoriedade ainda não se deram conta de suas condutas 91 92 Idem. pois o partido delas por Lei é obrigatoriamente a defesa dos direitos e garantias fundamentais do cidadão brasileiro. enquanto isto ocorria.91 Afinal como não se revoltar. A libertação da senhora deu-se após comprovação técnica especializada (laudo de exame químico toxicológico.conjur. A concessão da liberdade 93 deu-se. [1986?]. Ibsen Pinheiro. presunção de inocência. tivessem feito prevalecer o estado de inocência. O desrespeito ao princípio fundamental da presunção de inocência continua. contraditório. surrada e estuprada. No caso em questão se o MP. ampla defesa e tudo mais. esta senhora teria recebido de pronto a liberdade provisória. Com certeza neste caso o princípio do estado de inocência foi aclamado tardiamente.

. . O juiz na certa se guiou pelo barulho da mídia e o clamor público 94 (clamor igual aos das detentas). mandou soltar a moça que jamais deveria ter sido presa preventivamente.. nas penas indenizatórias? A sociedade deveria se preocupar com a quebra do Estado de Direito [.. verificar os fatos depois. de acordo com ele o júri já estará a par do caso pela mídia.. Ora. <www. A OAB deveria se atentar para isso. cabe ao acusado em frustrada tentativa. pois independentemente da “culpabilidade” do acusado. em especial aqueles que estão sujeitos ao tribunal do júri. E tudo continua como dantes da terra de Abrantes. aplicador das leis se deixar levar pelo clamor público.conjur... divulgada amplamente pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) em seu site e difundida aos quatro cantos por todos os veículos de comunicação. Nos últimos tempos inverter a ordem dos procedimentos tem sido atitude comum não só da mídia. Disponível em: Consultor Jurídico. de importantes órgãos que deveriam vigiar a correta aplicação da Lei. Parece-me que está sendo quebrado o “due processo of Law” repristinando-se à Idade Média como nas Ordálias e a ordália é a mídia [. Disponível em: Consultor Jurídico.. Marcelo.br> Acessado em 16 nov.conjur.] Depois.] lançar “a suspeita” ou “a culpabilidade” de alguém pela imprensa. 08. então com certeza não teremos mais a correta e justa aplicação do Direito. 95 Se o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil se omitem. pois. 95 NELI. resta-lhe ainda contar talvez com a graça divina. se a defesa é pública. <www.com. As posições estão a um ponto tão invertidas que hoje é o acusado que deve provar a sua inocência e não o contrário a justiça provar que o acusado é culpado. isto significa na visão da mídia. quanto à obrigatoriedade de se fazer respeitar o estado de inocência. 08..com. se o juiz. invocá-lo mediante seu advogado de defesa. Do ponto de vista dele: “Quando o acusado for a júri os jurados estarão “conhecendo” o processo num prejulgamento”. 94 GALVÃO.50 predatórias.br> Acessado em 16 nov. 96 Idem. Segundo Neli a OAB deveria coibir também o Ministério Público de oferecer denúncia contra acusado na mídia. mais que depressa. no Estado de Direito não pode ser quebrado com as denúncias ofertadas na mídia pelo Ministério Público sob o nome de entrevista coletiva ou quando ocorre um crime subliminarmente se lançam palavras contra o suspeito [. O exemplo mais recente e escabroso trata-se da “Lista Negra dos Políticos”. havendo desta forma um pré-julgamento pelo componente do júri mesmo antes do julgamento começar.] O laudo definitivo descartou a existência de cocaína. acha-se o verdadeiro culpado ou a denúncia é descabida: os contribuintes arcarão com os prejuízos. O juiz.] Urge-se 96 restabelecer o Estado de Direito no âmbito criminal. ibidem. [. Culpar e julgar primeiro. mas também.

Escravos aos leões. sob a acusação de manipularem 97 FILHO. Na verdade. como podem aqueles que têm a missão de julgar emitir um juízo de valor antes desse pronunciamento e da própria defesa? E. Será que apesar de tantas violações aos princípios fundamentais do homem. comprovando que ainda existem aqueles que cobram que a Carta Magna seja respeitada não importando sua posição dentro da sociedade.2. por mais que o neguem. mas minimizar esta doença de negação e desrespeito a Carta Magna? 1. citou um bom exemplo deste remédio chamado retratação. . puramente informativo. 97 A atitude só não se tornou pior. no jornal eletrônico “Observatório da Imprensa”. o primeiro-ministro britânico. daí a enorme autoridade moral. autos-de-fé com gente ardendo na fogueira sempre foram. mas indiretamente deu as costas a Constituição Federal. Para o advogado este foi um presente para a mídia escandalosa. Ora. Disponível em: <http://blogdofavre. 08. Arnaldo Malheiros. não só violou o princípio do estado de inocência. Há algum tempo. se não para acabar de vez. contrariando os dispositivos constitucionais primordiais. existiria uma fórmula ou um antídoto. Luiz Leitão. Não é função da AMB dar informações ao eleitorado.juízo de valor. enforcamentos em praça pública. interpretou como negativa a atitude da AMB de divulgar a referida lista.br/2008/07/presuncao-deinocencia-atropelada> Acessado em 12 nov. que se traduz no adjetivo “suja” que acabou pespegado à tal lista. campeões de audiência. O presidente co Conselho Deliberativo do Instituto de Defesa do Direito de Defesa. portanto. tentar concertar aquilo que se fez ou disse. ao longo da história. burlando garantias fixadas como pedra em nossa Constituição. veio a público pedir desculpas a um grupo de irlandeses. 98 Idem. vítimas de um grosseiro erro judiciário-policial que os manteve presos por cerca de 17 anos. Seu gesto não foi. que sobrevive do infortúnio alheio. A percepção pública é que uma associação de magistrados é a reunião das pessoas que exercem o poder judiciário.51 A AMB. por não faltar pessoas que reprovassem tal posicionamento. emitem -sim!. ibidem.4 REMÉDIOS PARA OS ERROS FOMENTADOS PELA MÍDIA A retratação é um dos meios utilizados para de certa forma.ig.com. Nossa sociedade midiática só aprofunda o sucesso das execuções sem julgamento e sem 98 “formalidades” que protejam os direitos individuais. Tony Blair. o juízo de valor negado está embutido na mensagem de que os magistrados brasileiros reprovam as candidaturas de acusados que não foram julgados ou dos que nem sequer puderam se defender. confundível até mesmo com a instituição que os associados encarnam.

Robson Barbosa de Azevedo. além de todos os acusados. como se sabe. 99 A retração pode ser utilizada como um meio de se envergonhar e pedir desculpas publicamente pelo erro cometido. Além disso. até que ficou definitivamente provada a sua inocência. .conjur. foram feitos saques destinados a deputados acusados de envolvimento com a corrupção. no prazo de 60 dias. de.52 explosivos. a escola já havia sido depedrada. o seu nome com o chamado "escândalo do mensalão".00 (cem mil reais).conjur. <www. tendo sido encaminhada à Rede Globo pelo deputado Rodrigo Maia.01. os donos já estavam falidos.conjur. 100 LIMA. objeto de artigo neste OI sob o título "Jornal Nacional: Edição no limite da irresponsabilidade". Segundo as notícias o motorista da escola. Quando veio a confirmação de que tudo não passava de um erro.. 08. se mostraram falsas.100 [. A lista era resultado de um cruzamento feito pela liderança do então PFL entre nomes que surgiram na investigação conduzida pela CPMI dos Correios e relação de funcionários e exfuncionários da Câmara dos Deputados. 15 e 19 de julho de 2005.br> Acessado em 12 nov. Sem verificar a veracidade dos fatos e violando o princípio da presunção de inocência o delegado responsável pelo caso divulgou as informações à imprensa. indevidamente.000.. sofrerem constantes 99 O nome do assessor parlamentar apareceu em matérias veiculadas no Jornal Nacional da Rede Globo nos dias 14. condenou a TV Globo e o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ) a pagar 100 mil reais de indenização ao assessor parlamentar Luiz Carlos da Silva por associar. 08. condenou a TV Globo a pagar uma indenização no valor de R$100. entre elas os donos da escola. levava as crianças no horário das aulas para a casa do casal de pais. à época. 101 Disponível em: Consultor Jurídico.br> Acessado em 12 nov. localizado no bairro da Aclimação na capital São Paulo. que se tornaram também suspeitos. hoje presidente do DEM. Robson Barbosa de Azevedo. Em1994 seis pessoas. Tudo com base em provas "científicas" que. Outro artifício pode ser a chamada ação por danos morais e a imagem. No site Consultor Jurídico encontramos uma notícia em que o juiz da 4ª Vara Cível de Brasília. que transformou o caso em mais um espetáculo. Nessa agência. sob pena de multa de R$ 50 mil por dia de descumprimento da ordem judicial (Processo: 2005. Luiz Carlos da Silva foi incluído numa lista de pessoas que estiveram na agência do Banco Rural do Brasília Shopping a serviço de 9 (nove) deputados do PT. a TV Globo deverá "divulgar o inteiro teor da sentença nos mesmos programas nos quais foi publicada a lista que originou o dano moral. Venício A. foram acusados de estarem envolvidas no abuso sexual de crianças que ali estudavam. onde os abusos eram cometidos e filmados.] o juiz da 4ª Vara Cível de Brasília.com. Disponível em <www. Disponível em: Consultor Jurídico.com. A notícia absurdamente divulgada pela mídia não passou de um erro gravíssimo.br> Acessado em 12 nov. Essas matérias foram.101 Outro caso que também foi revertido em perdas e danos foi o da Escola Base. <www. mais tarde.107480-8). funcionários e um casal de pais.com. 08.1.

.com.terra. precisamos urgentemente nos preocupar com a retomada dos valores humanos. um destaque especial para a Rede Globo de Televisão que foi condenada a pagar mais de um milhão de reais em indenizações. Maria do Rosário.5 mil salários mínimos (R$ 450 mil). cada um. 104 Para P. Repercutir uma notícia não significa ter que espetacularizá-la. apud. 2003. Nora “a lei do espetáculo é a mais totalitária do mundo livre”. certo dia com muita pressa ao limpá-lo o deixamos cair. de maneira a frear. 105 102 103 www. Os antes pedaços agora voltam a ser o nosso vaso. ainda não houve decisões do Superior Tribunal de Justiça. O valioso vaso se quebra em vários pedaços.53 ameaças de morte. terá ele ainda o mesmo valor? Esta é uma reflexão importante. GREGOLIN. Maria Aparecida Shimada e Maurício Monteiro de Alvarenga devem receber. mas será este o mesmo dantes. Paulo. Paulo e a revista IstoÉ também já foram condenados. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. outros órgãos de imprensa também foram condenados. aos excessos provocados pela mídia. a uma incansável batalha judicial por indenizações. Icushiro Shimada.102 Entre os processos já julgados. direito de resposta. fazendo com que ele seja respeitado. para virar cenas de cinema. Façamos uma análise: nós temos um lindo vaso de cerâmica.org/biblio6. como remédio juntamos todas as partes e vamos colando uma a uma até montá-lo novamente. quando se pensa na violação da presunção de inocência. Folha de S. além disso. O TJ entendeu que a atuação da imprensa deve se pautar pelo cuidado na divulgação ou 103 veiculação de fatos ofensivos à dignidade e aos direitos de cidadania. com vários holofotes. De acordo com informações do site O Globo Online “Além da empresa „Folha da Manhã‟.133. mas devemos ir.br – Acessado em 12/11/08. Em todos os casos já julgados. Outros processos de indenização ainda devem se julgados”. http://noticia. 104 SARGENTINI. no restabelecimento do respeito mútuo entre as pessoas. a decisão contra a Globo foi tomada por unanimidade na manhã de quarta-feira pela 7ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP. além do Governo do Estado de São Paulo. p. na retomada da moral e dos bons costumes. impor limites. Vanice Maria Oliveira. câmeras e até mesmo helicópteros. danos morais e a imagem. Segundo o site Espaço Vital.igutemberg. Dava-se início então. Muitos autores falam em retratação. Muitas vezes um fato deixa de ser notícia.htm-7k – Acessado em 12/11/08. São Paulo: Claraluz. Os jornais O Estado de S. o equivalente a 1. talvez nem seja possível”. É preciso urgentemente invocar o princípio do estado de inocência. Vanice Sargentini costuma dizer: “Escapar do espetáculo não é fácil.

que esta maldade em nosso coração possa ser controlada e transformada em coisas boas para nós e para aqueles que nos cercam. tudo de que se ouvia em todos os canais era “Eloá”. continua esperando do criminoso que ele confesse seu crime. que é má. Airton. como utilizar todo este 105 NORA. O poder legislativo acusa a mídia dos excessos na transmissão das notícias. Não se iluda.54 Na concepção de Airton Franco não importa se no final do processo o suspeito será culpado ou inocente.associacãonacionaldosdelegadosdepolíciafederal. GREGOLIN. déficit. almejando com isso satisfazer os desejos da sociedade. p. p. impulsionada pelo espetáculo de mídia. Observando o último espetáculo proporcionado pela mídia “o seqüestro de Eloá”. Rio de Janeiro: Francisco Alves. São Paulo: Claraluz. pois já se constitui de pureza irretocável. contudo. com finalidades eleitoreiras. P. Maria do Rosário. paramos para analisar e quantos outros assuntos importantes para a opinião nacional não foram mascarados pelas notícias de tragédias. Niterói: Impetus. A cada dia. Para ele independentemente do clamor público. fomentado pelos veículos de comunicação. o que tem que ser mantido é o direito de que ninguém será declarado culpado até sentença final irrecorrível. Olhando os fatos por este ângulo. O que importa como penso.br> 107 GRECO. como se não houvesse rigor suficiente. não pode ser mais valorada. 106 FRANCO. O problema está na natureza do homem. Por isso. porém mesmo sendo a natureza humana má.seus precisos direitos (previstos em lei). adquire contornos tão superiores . Rogério. . daí sua força de coação 106 inexpugnável.186. ou alguma lei importante para ser votada no senado.como entendo . é que se dê .133. Foi pensando neste aspecto que abrimos um último e importante quesito neste trabalho. A sociedade leiga. consoante o ensinamento de Hans Kelsen. criam novas infrações penais. que se deixa enganar pelo discurso repressor do Direito Penal. Diariamente assistimos aos telejornais.de modo que se perfaz alçada à divindade da norma natural que. Durante dias não se ouviu falar em crise. apud. tirando a atenção do telespectador. pois o Direito Penal não é a solução para qualquer problema.. somente Deus pode resolver todos os problemas da humanidade. cujos âncoras. economia. 2003.. por isso mesmo.] Uma norma fundamental. seja ele vítima ou autor de um crime [. para este acontecimento trágico. 1995. Curso de Direito Penal. 2008. visto que ambos são culpados e a própria natureza do homem é má. podemos avaliar o poder que tem a imprensa de transferir o foco de outros acontecimentos importantes. na defesa a mídia acusa o poder legislativo de falta de leis mais rigorosas para combater os altos índices de criminalidade. Rogério Greco diz que nesta briga nem um nem outro tem razão. nossos congressistas. Disponível em: <www.com.ao homem . e mantendo assim os interesses dos poderosos. O Retorno do Fato. não devemos perder a esperança. efusivamente. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. atribuem a chamada “onda de criminalidade” à falta de rigor das leis penais. 107 O penalista com certeza tem razão no que diz.

Avaliando a experiência japonesa. São Paulo: Summus Editorial. o indivíduo. como também às suas famílias. ele freqüentemente morre quando lhe é vedado o acesso à sociedade. provocou um aumento da criminalidade. amigos e outros elementos que mantivessem contato diário com os vagabundos de rua. o dramático crescimento da industrialização. Numa sociedade onde estes princípios não são valorizados o criminoso não possui este sentimento de arrependimento. ou para violar o princípio da presunção de inocência. pressionando os criminosos a mudar de vida. 1985. a campanha dirigia-se não somente aos criminosos. pode ser um grande e poderoso instrumento para melhorar a qualidade de vida de toda uma comunidade. O resultado é a prova de que nenhum 108 SCHWARTZ. Por outro lado. O segredo disso tudo é que a sociedade primeiramente critica o homem através do ridículo.55 poder da mídia para a criação de uma sociedade verdadeiramente livre e humana não somente no nome. O chefe de polícia de Osaka descreveu esse processo com “tentar 108 trocar a água onde nadam os criminosos. onde a pessoa. Se em uma nação. Isto gerou um problema junto às famílias e amigos. quando este acesso é impedido. Um bom exemplo deste potencial foi uma campanha realizada no Japão e que foi retratado por Tony Schwartz. Mídia O Segundo Deus. Objetivando atacar o problema. e obtém sua força a partir da estrutura social. valoriza a moral e os bons princípios. Nas sociedades orais. .5 A Utilização adequada da mídia na redução da criminalidade A mídia quando utilizada adequadamente. e depois relegálo à ignorância. é definido em nível coletivo. que se sentiram socialmente embaraçados. não para denegrir a imagem do suspeito. O antropólogo Edmond Carpenter descreveu certa ocasião ser possível condenar um homem á morte fazendo-o sentir-se envergonhado. mas em toda a sua essência. seu sentimento de vergonha com relação às demais pessoas será quase insuportável. nas sociedades primitivas há sujeitos cuja força de caráter é tão forte que conseguem suportar a condenação imposta pela sociedade. mas sim para criar hábitos morais e éticos. Mas estes indivíduos geralmente fogem. restabelecer os princípios tão esquecidos pela nossa sociedade. Ela tem por sua própria natureza potencial para criar e mudar comportamentos. a polícia utilizou-se do antigo método de sociedade centradas no grupo. Usaram o sentimento da vergonha como um meio de controlar os gangsters. Em Osaka. 1. em que seu povo. p. nos deparamos com um questionamento: Porque não usar a mídia para coibir o crime ao invés de fomentá-los? Utilizar dos meios de comunicação. Tony.83.2. um determinado cidadão vier a delinqüir.

5º. Por que não se aplicaria ao jornalista o princípio da presunção de inocência. 1985. sobretudo. se atualmente vivemos em uma comunidade em que os filhos não respeitam os pais. O novo Código de Ética dos Jornalistas aprovado no Congresso Nacional Extraordinário dos Jornalistas. parece-nos até ridícula a idéia de se querer invocar a garantia constitucional do estado de inocência em meio a uma sociedade sem parâmetros para o certo e o errado. Tony. os vizinhos não observam o limite entre seu direito e o direito do próximo. nos trouxe novas esperanças. Venício A. a ridicularizarão e a banalização dos crimes. realizado em Vitória nos dias 3. 4 e 5 de agosto deste ano. denunciam. Infelizmente. os alunos não respeitam os professores. É o direito de acreditar que tudo pode ser mudado. apud. em sua cobertura jornalística. mas muitas vezes sequer o direito de resposta é concedido aos denunciados. O novo código reforça o preceito constitucional de que qualquer pessoa é inocente até prova em contrário. julgam e submetem pessoas à execração pública. Na interpretação de Venício Lima o código vem restabelecer os limites da imprensa na obrigação de respeitar o texto constitucional. É preciso acima de tudo respeitarmos a Constituição Federal. 08. que as coisas devem e serão no futuro melhores. Quando à esperança parece se esvair no final do túnel sempre aparece uma luz.com. principalmente quando ratificaram a presunção de inocência como um dos fundamentos da profissão.84. LIMA. 109 Eles morrem ou fogem. São Paulo: Summus Editorial. p. a exposição. inciso LVII: "Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". é preciso repensar nossos valores. Edmond.56 homem que já tenha desafiado a condenação pública consegue viver em sociedade. respeitando nossa Carta Magna é que conseguiremos garantir que nenhum de nosso princípios fundamentais sejam violados e que também nós não violemos os direitos de outrem. Não seria a obediência a este princípio dever elementar de qualquer cidadão e. dos jornalistas. que tem sua origem na Revolução Francesa e está consagrado na Constituição de 1988? O texto constitucional diz. SCHWARTZ. Disponível em: Consultor Jurídico. Este é um pensamento comum e quase que obrigatório a todos os seres humanos. no seu art. Mídia O Segundo Deus. . Isto é crime. Os espetáculos da mídia.br> Acessado em 12 nov. para tanto. Como falar em vergonha. <www. com o objetivo de "coibir a ação de meios de comunicação que. de. tornaram esse sentimento de vergonha praticamente inexistente. Sendo assim. pois só. independente das informações que obtiver e de sua convicção pessoal? 110 109 110 CARPENTEN.observatoriodaimprensa. podem ser inibidos. montados sobre a violação da garantia Constitucional e o Princípio reitor do Processo Penal o Estado de Inocência.

111 Os espetáculos da mídia.57 É simplesmente impressionante como na maioria das vezes os meios de comunicação agem. Na visão de Venício Lima. não por esta entidade tão magnânima. 111 Idem. É preciso acima de tudo respeitar a Constituição Federal. o papel da imprensa tem sido cada vez mais debatido. Para mudar a imprensa sensacionalista é preciso que a essa mudança comece por cada um de nós. como se a lei não se aplicassem a eles. . uma visão poderosa de que estes são princípios a serem obedecidos por cidadãos comuns. no clima de polarização irracional de posições que o debate sobre o papel da grande mídia acaba sendo realizado (a quem interessa essa polarização?) é preciso que não se confunda a liberdade de imprensa e a responsabilidade do jornalismo em oferecer a cobertura dos fatos com uma carta branca para se colocar acima dos direitos e garantias individuais. Sendo assim. quando nos mesmos. novas discussões têm levado a sociedade a repensar se e mídia tem exercido realmente sua função precípua a de veículo em prol da sociedade. respeitando nossa Carta Magna é que conseguiremos garantir que nenhum de nosso princípios fundamentais sejam violados e que também nós não violemos os direitos de outrem. Existe algum limite para a atuação dos jornalistas e do jornalismo? No campo da observação da mídia. fomentamos esses espetáculos proporcionados pelos veículos de comunicação. dando audiência a fatos que massacram nossas garantias constitucionais. Por outro lado. para tanto. pois só. é preciso repensar nossos valores. fica claro não ser possível obrigar a mídia a respeitar o princípio da não violação do estado de inocência. montados sobre a violação da garantia Constitucional e o Princípio reitor do Processo Penal o Estado de Inocência. podem ser inibido. ibidem. essa é a discussão que se coloca e precisa ser democraticamente enfrentada.

Como exemplo podemos citar o artigo 393. Independentemente da terminologia este princípio veio para estabelecer um novo marco nos procedimentos penais. aqueles que têm por essência a proteção da pessoa humana. devido sua fundamental importância foram gravadas como pedra.58 CONSIDERAÇÕES FINAIS Em análise geral dos quatro capítulos apresentados neste trabalho. Foram quase duas décadas para que este princípio tão importante do processo penal viesse fazer parte também dos direitos e garantias fundamentais do cidadão brasileiro. para jamais serem removidas. trouxe ao mundo o diploma dos direitos e garantias fundamentais do homem. para outros ele é o princípio do estado de Inocência. que respeita os valores éticos. mas somente vindo a ser receptado pelo ordenamento jurídico brasileiro na Constituição de 1988. A mudança da base constitucional trouxe para o direito processual penal no Brasil significativas alterações. A nomenclatura presunção de inocência. Igualdade e Fraternidade. vários encalços. declarando que todo homem é considerado inocente. O estado de inocência. visto que uma pessoa só pode ser tratada como culpada quando transcorrido sentença penal condenatória irrecorrível. o “Estado de Inocência”. até que seja reconhecida sua culpa. que portando a bandeira da Liberdade. sempre foi fortemente atacada por muitos autores. mas principalmente os valores pessoais. Da França para o mundo. dever de tratamento. Ele advém do próprio direito natural. este. encontrou no Código de Processo Penal de 1941. Nas mãos de grandes processualistas o termo ganhou diversas definições. pois as garantias fundamentais do homem vinham estabelecidas como cláusulas pétreas na Constituição. morais. Estabelecido na Constituição francesa foi ratificado em 1789 no art. é uma garantia constitucional e princípio reitor do processo penal. que conflita . podemos concluir que. e sim declara que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória definitiva. pressuposto constitucional. pressuposto fundamental da Constituição de 1988. Para alguns ele é o princípio da presunção de inocência. fundamentado nas bases de uma sociedade livre. A partir daí o princípio tomava forma e força. 9º na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. democrática. ou seja. segundo eles a própria constituição não presume que ninguém seja inocente. ato de fé no valor ético da pessoa. II do CPP. entre outros. Este princípio teve como marco a Revolução Francesa. até hoje não resolvidos. quarenta anos mais velho.

Nesta nova espécie de sociedade. para dentro de nossas vidas. lança o nome do réu no rol dos culpados. estes bem maiores e poderosos. mas em sua maioria completamente desnecessários. consumidores compulsivos. cheia de receios e inseguranças que ela própria criou. Mas além desses percalços o princípio do estado de inocência tem outros entraves. que em muito nos tem ajudado. Este é o perfil da sociedade moderna. de consumo. quando estão consumindo.59 diretamente com a presunção de inocência. Afoitos em seus desejos de consumir é o dito “Se tenho. muitas pessoas só estão felizes e satisfeitos. para só depois ser condenado ou não. uma vez que. como ela influência e comanda a grande massa da sociedade de inseguranças. Ao longo dos anos a mídia (2º poder). quando o suspeito ainda ia a júri popular. nele as proporções de nossos desejos são tão grandes quando o risco direto que trazemos para dentro de nossas casas. pela satisfação externa do ter e possuir. Criamos novos hábitos. ou melhor. 393. quando compram algo. invertemos a satisfação interna do ser. sem importância. na violação desta garantia constitucional tão importante. que não se conflitam a ele. tem estabelecido padrões morais e sociais. pois criamos uma sociedade efêmera onde tudo é passageiro. tudo posso”. Este é o perfil da nova sociedade. Trocamos. hoje. mas ao mesmo tempo. Aqui em especial falamos da mídia. alguns necessários. antes de sentença irrecorrível. controlada diretamente pelo poder econômico (1º poder). abrimos as portas para uma sociedade de riscos. Estamos tão fragilizados que atualmente acusamos e incriminamos as pessoas antes mesmo de conhecermos a verdade. § 1º que expedia ordens para a captura. mas que o denigrem o violam diariamente. A recente reforma ocorrida este ano revogou o dispositivo. e por outro. . É neste exato momento que damos vazão a este novo perfil de sociedade. antes mesmo de o devido processo legal ser estabelecido e a questão julgada por seu juízo competente. Nosso sentimento hoje é de medo e desconfiança. tratava-se do 408. e por outro. Mas logo aquele desejo é substituído por outro. novos desejos. apegamo-nos a tecnologia. em nosso posicionamento perdeu o legislador não entendemos o porquê a oportunidade de também revogar o art. Outro artigo do Código de Processo Penal que também era contraditório. todos são culpados até que se prove ao contrário. Ela também tem criado através de suas propagandas silenciosas. em desuso. da vida de nossas famílias. Emanados por estes desejos banais. Como nesta sociedade tudo é muito volante logo aquilo que foi adquirido é deixado de lado. Nesta fase em que vivemos o princípio constitucional da presunção de inocência foi posto de lado.

ganha tanto espaço e repercussão. em especial o princípio da presunção de inocência. acusado é presumidamente culpado até que se prove ao contrário. em que. infringindo e desestabilizando princípios fundamentais do homem adquiridos mediante muita luta e sofrimento. sobre aquilo que para ela é a notícia real. não sendo respeitado aqui o princípio norteador do direito penal e garantia constitucional.60 O grande conflito começa então. mesmo os mais graves ou hediondos. o de estar em estado de inocência até sentença condenatória irrecorrível. paira no ar até então a incerteza da culpa. Não existe uma preocupação em respeitar princípios constitucionais. assim como também influencia a grande massa abertamente. nem mesmo a notícia da chegada de um astro de cinema ou do discurso do presidente. ocorrendo na maioria das vezes em detrimento da preservação da imagem e violação do estado de inocência. Para limitar esses . ou melhor. pois na maioria das vezes os meios de comunicação acham que estão acima de tudo. Analisando todo o estudo realizado a cerca do tema. todos somos presumidamente inocentes até que a mídia nos impute determinado crime. Quando a imprensa atribui determinado delito a alguém. A imprensa ao imputar certo delito a alguém. Diante de tudo ora exposto. quando esta sociedade que agora passamos a chamar de “sociedade da insegurança”. transforma um fato ocorrido em um espetáculo. Ela pré. podemos afirmar que não pode a mídia atuar como árbitro ou juiz nos crimes. Diante da suspeita de um crime. Porém a partir do momento que ela faz um pré-julgamento. Devemos lembrar. o sujeito passa a ser culpado. viola automaticamente nossa garantia constitucional de estar inocente até que a culpa seja provada. que a estgmatização precoce do acusado é uma violação de proporções irreparáveis a pessoa e a moral do réu. é a chamada teatralização ou espetacularização da notícia.julga e condena na medida do que declara como certo. percebemos que a mídia tem um papel muito forte na criação deste grupo social de consumo. passado ao longo de todo o processo de democratização de nosso país. do estudo que realizamos a cerca do princípio da presunção de inocência. rompe os limites da lei. sem este ter sido condenado. o show da vida real. observamos a necessidade de proteger o suspeito da publicidade abusiva. como um segundo Deus. Se partirmos. Como abordamos no Capítulo IV a mídia monta em cima de cada fato que lhe possa render audiência um espetáculo de julgamento de horrores é o reality show.

61 excessos cada vez mais comuns é que invocamos a não violação do princípio mais importante do processo penal o da Presunção de Inocência. sabedores que o Estado de Inocência será um princípio respeitado. dos meios de comunicação. falam uma coisa e praticam outra. A mídia como instrumento social. Veículo de força do poder econômico e político. ou seja. mas estaremos respeitando também a dignidade da pessoa humana. Tudo deve ser feito na sua proporcionalidade. É justamente neste contexto servindo única e exclusivamente ao interesse individual. visto que. na maioria das vezes não passam de falácias. teve a intenção de denegrir a imagem da mídia. Concluindo gostaríamos de frisar. que este trabalho em nenhum momento. porém. Todos nós somos conhecedores de que a imprensa sempre foi parceira da sociedade e travou inúmeras lutas durante a ditadura para que todos os cidadãos pudessem ter seus direitos garantidos. Quando a mídia praticar o que prega. . que encontramos o perigo de ter nossos direitos suprimidos e banalizados. ou mesmo minimizar sua importância. afinal não façamos aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem. Palavras ao vento. São esses excessos de poderes centralizadores que podemos e devemos combater. Em mãos erradas ela foge da essência para qual foi criada. A sociedade deve ser abastecida por notícias de realidade natural e não de uma realidade construída. Ao respeitarmos este princípio não respeitaremos somente a Constituição. não podemos nos esquecer que ela em mãos erradas pode se transformar numa arma perigosa. poderemos descansar desta vigilância exaustiva a nossos preceitos e garantias fundamentais. pode mudar a vida de toda uma nação. como ocorre com o Princípio da Presunção de Inocência retratado neste trabalho. A credibilidade e a imparcialidade aclamada por muitos veículos de comunicação. é assim que caminharemos para um futuro melhor. transformando-se em instrumento de interesse individual e não coletivo. nem mais nem menos.

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