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6 Internacional

Florianópolis, dezembro de 2010

No Chile, admiração e sombras da ditadura
Chilevisión, o debatedor e jornalista Matias Del Rio cita a principal Para os chilenos o Brasil é um diferença entre Rousseff e Lula: “Ela é modelo a ser seguido. E a mídia local uma pessoa de pouco carisma”. reitera constantemente essa visão. É o Um dia após o resultado das caso de uma reportagem do jornal El eleições o jornal La Tercera dedica Mercurio publicada em 4 de outubro uma página aos desafios que a futura - um dia depois do primeiro turno presidenta deverá enfrentar. Segundo eleitoral - com o título “Uma nova o repórter Fernando Fuentes, mesmo ‘classe média’, a chave das eleições”. sendo um “modelo” para os gestores O texto destacou a ascensão da classe chilenos, o Brasil e sua futura manC e o sucesso das políticas econômicas datária têm três grandes problemas e laborais brasileiras, que ajudaram o a resolver: a pobreza, o estilo político país a “atravessar sem grandes trau(“buscar neutralizar o radicalismo mas a crise financeira internacional”. do PT e o apetite do PMDB”) e a No meio da página, um presidente identidade de seu governo. Para os segurando a camisa 10 da Seleção jornais chilenos, Dilma é uma “dama Brasileira olhava para estatísticas e de ferro”, sem o carisma de Lula, gráficos do IBGE e da Fundação Getú- mas com experiência administrativa. lio Vargas - com o título “Os milagres Mesmo assim, o país dos 33 mineiros de Lula” - mostrando o crescimento mais famosos do mundo quer, seguneconômico brasileiro e a redução da do uma declaração do presidente da pobreza. Uma matéria positiva - quase comissão de Relações Internacionais ufanista - que deixa explícita a admi- do Senado chileno, Hernán Larraín, ração dos cidadãos das Cordilheiras “voltar a tentar formar uma aliança pelo país do “fuchibol”. estratégica com o Brasil”. Os “milagres” de Lula mais admirados pela população do Chile são Porões da ditadura econômicos. E não faltam estatísticas Mesmo com as várias homenagens na mídia para “provar” a bonança (ou o ufanismo) da imprensa, o Brasil brasileira. Segundo uma matéria do também tem alguns pontos negativos tablóide La Tercera, de 1º de novemdifundidos entre a população local. bro, o Real foi uma das moedas que Para a socióloga e escritora Mirian mais se valorizou no mundo, mesmo Gallardo, o problema brasileiro está com a Crise Financeira. O desemprego em um passado ignorado. “Os brasichegou ao menor índice registraleiros não puniram tantos torturadodo - 6,2% - e mais de 30 milhões de res da época do regime militar nem brasileiros ingressaram na chamada investigaram tantas mortes como “classe média”. Estes são resultaaqui.” De acordo com Mirian, alguns dos, segundo reportagem do Diario brasileiros ligados ao governo militar Financeiro, de 29 de novembro, do vieram a Santiago para ensinar méto“cumprimento de metas da inflação, dos de tortura após o golpe encabedo câmbio flutuante e da austeridade çado por Augusto Pinochet, em 1973. fiscal”. “O Brasil foi um modelo também na Mais do que um sucesso econôditadura, mas nem todo mundo sabe mico, o Brasil é considerado um disso”. representante latino-americano na Se o passado está se perdendo, as política internacional. Ao menos é o punições de torturadores brasileiros que indica a pesquisa anual da ONG também não são exemplo. “No Chile chilena Latinobarómetro, resultado as punições foram muito mais rígidas de entrevistas em 18 países latinoe efetivas”, afirma Gallardo. Um dos americanos publicada em 2 de dezem- exemplos da preocupação com a bro. Segundo este relatório, 19% dos ditadura está na Comisión Nacional entrevistados acreditam que o Brasil de la Verdad y de la Reconciliación: é um líder na região, na frente de Es- um órgão estatal criado em 1990 para tados Unidos e Venezuela (ambos com investigar o paradeiro de presos po9%). Logo na capa, o texto evidencia líticos e agressores durante o regime o status verde e amarelo: “O papel pinochetista. Em 1991 o estado chiledo Brasil como potência mundial dá no tinha 2260 “casos qualificados de a essa região um lugar distinto no denúncia”. Quando se tentou criar a concerto das nações”. mesma instituição no Brasil em 2010, através do Plano Nacional de Direitos Agora é a vez da “amiguinha” Humanos (PNDH), os dirigentes Se havia alguma dúvida sobre a das forças armadas pressionaram associação feita pelos chilenos entre o executivo e a idéia foi abortada. Lula e Dilma, o tablóide popular La Para a socióloga Miriam Gallardo, Cuarta, de 1º de novembro estampa o povo brasileiro deve olhar para o em uma de suas chamadas de capa: passado com a mesma preocupação “Amiguinha de Lula foi eleita presido presente. “O Brasil é de fato uma denta do Brasil”. Se Lula foi o “camisa potência econômica e política latino10” do governo brasileiro, sua sucesamericana, mas está se esquecendo da sora Dilma Rousseff deve seguir pelo sua história.” mesmo caminho. Ao menos é o que os jornais locais indicam. A edição do Diego Cardoso é estudante de Jornalismo El Mercurio publicada em 1º de novembro, chama a nova mandatária de da UFSC e participa atualmente do programa de “dama de ferro da política brasileira”. intercâmbio Escala Estudantil AUGM (Asociación de Já no programa de debates Tolerancia Universidades Grupo Montevideo) na Universidad de Santiago de Chile Cero, exibido pela rede de televisão
Por Diego Cardoso - Santiago, Chile

Brasil é referência em economia e política, mas incomoda chilenos por ignorar o passado