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TECNOLOGIA

Privacidade ou segurança pública?
Lei obriga ODQKRXVHV a cadastrar usuario e reacende discussão sobre fscalização de dados na internet
Quatro
6
Florianópolis, novembro de 2009
Diego Cardoso
Parceria entre
governo e redes
sociais ajuda
no combate à
SHGR¾OLDRQOLQH
Q
uem acredita que
a rede mundial
de computadores
é um território
compl et amen-
te livre está enganado. Caminhar
no ciberespaço deixa uma série
de pistas sobre a pessoa por trás
do computador. São informações
deixadas muitas vezes em locais
supostamente confdenciais. Que-
brar o sigilo virtual abre a brecha
para questionar o que é pessoal e
inacessível no mundo online. O
monitoramento da internet hoje
não se restringe apenas a ques-
tões jurídicas: esbarra na duali-
dade entre direito à privacidade e
à segurança pública.
Uma das principais justifcati-
vas para a fscalização da internet
brasileira é evitar a divulgação
de materiais com conteúdo rela-
cionado a pedoflia. No dia 22 de
outubro de 2009, uma lei visando
combater esse tipo de crime foi
sancionada pelo governador ca-
tarinense em exercício, Leonel
Pavan: a partir de agora, todas as
ODQKRXVHV e locais que comercia-
lizam acesso à internet no estado
deverão ter câmeras de vigilância.
Além disso, essas empresas deve-
rão cadastrar todos os usuários,
registrando endereço, telefone,
número do RG, horários do iní-
cio e do fnal da navegação e o
IP (uma sequência numérica que
identifca o equipamento na rede)
do computador utilizado, man-
tendo essas informações por dois
anos. Quem descumpre essa lei
recebe multa de R$2 mil e pode
ter seu estabelecimento fechado
em caso de reincidências.
A aprovação da lei na Assem-
bleia Legislativa do Estado foi im-
pulsionada por uma investigação
feita pela Diretoria Estadual de In-
vestigações Crimi-
nais (DEIC), onde
uma rede de pedo-
flia foi descoberta
em oito estados
brasileiros, inclu-
sive Santa Catari-
na. O delegado da
DEIC-SC, Renato
Hendges, diz que
o uso da internet
nesses casos é algo recente e que
as ODQ KRXVHV são muito utiliza-
das pelos pedoflos. °Eles dispo-
nibilizam esse material fora do
país. Quanto mais novas forem as
crianças, mais valem essas ima-
gens e elas valem muito¨, afrma
Hendges. É o anonimato de quem
divulga essas fotos e vídeos que
será derrubado através da lei.
Policiais da internet - Em Santa
Catarina, os casos de delitos onli-
ne são cobertos pelas polícias Ci-
vil ou Militar, já que o estado não
tem uma delegacia especifca. O
Brasil possui sete instituições de
segurança pública especializadas
em crimes cometidos virtualmen-
teNo Distrito Federal, a Divisão
de Repressão aos Crimes de Alta
Tecnologia (DICAT) é um órgão
de apoio às Delegacias de Polí-
cia Civil da região. O delegado
e diretor, Sílvio Cerqueira, conta
que os casos mais frequentes de
cibercrimes são injúria e difama-
ção via redes sociais, ameaças,
estelionato e pedoflia. °Sempre
há trabalho relacionado à porno-
grafa infantil. Em relação a pira-
taria, não é tão comum já que, para
agirmos, é necessária uma solici-
tação do titular do direito autoral
do material.”
Ao auxiliar em um caso, os
profssionais do DICAT buscam
rastros que o suspeito deixou na
internet. Em alguns casos, é ne-
cessário solicitar informações ao
provedor ou à empresa detentora
do serviço. No caso de e-mail e
redes sociais, são checados alguns
dados do investigado: nome de
usuário, endereço IP e horário de
acesso. Em alguns casos, os pro-
vedores exigem uma ordem judi-
cial para a liberação dos dados do
usuário, algo que pode atrasar as
investigações, já que cada solici-
tação pode levar até quatro meses
para chegar ao DICAT. “Alguns
colaboram bastante, já que envol-
ve risco à pessoa ou à criança, no
caso da pornografa infantil¨. O
delegado compara o acesso a essas
informações “a solicitar o registro
de uma portaria de prédio numa
investigação, para descobrir a
identidade e a localização de uma
pessoa”.
Entre a lei e o abuso - A ques-
tão do moni-
toramento dos
dados na in-
ternet esbarra
em mais uma
polêmica: a
ética. Para o
professor do
Departamento
de Direito da
Universidade
Federal de Santa Catarina (UFSC)
especializado em Direito e Infor-
mática, Aires José Rover, o registro
de informações em ODQKRXVHV, por
exemplo, não chega a ser abusivo,
pois se trata de dados administrati-
vos, desde que seja feito pelas vias
ofciais.
Obter uma informação pessoal
na rede pode não ser tão simples
como uma consulta a um porteiro.
Afnal, como se questiona Rover,
“Será que um investigador pega-
ria só isso? Não temos como sa-
ber que dados alguém realmente
conseguiu obter dessa forma”.
Ele ainda afrma que °a investiga-
ção faz parte de um direito mais
coletivo, mas não pode se dar de
forma abusiva”. Como alternati-
va para essa situação, o profes-
sor cita as parcerias entre o Mi-
nistério Público e algumas redes
sociais onde os próprios usuários
ajudam a relatar casos de crimes
como pedoflia online.
Os embates entre direito à pri-
vacidade e interesse público fazem
parte de um eterno cabo de guerra.
É o que diz Guilherme Coutinho
Silva, advogado e assessor jurídi-
co do Departamento de Inovação
Tecnológica da UFSC. Para ele,
questões polêmicas não podem
servir de pretexto para ações in-
trusivas. °O combate a pedoflia
na internet é importante, mas não
pode servir de cavalo de tróia vi-
sando uma legislação de controle
do usuario. Afnal, a pedoflia ja
existia antes da internet.”
As legislações atuais, tanto
nacionais quanto internacionais,
são extremamente restritivas. Elas
partem do pressuposto do controle
do usuário, e não das empresas,
causando o distanciamento do
consumidor. O próprio desco-
nhecimento tecnológico é um
problema. Coutinho exemplifca
com uma decisão do Tribunal de
Justiça do Estado do Paraná que
condenou uma empresa de tecno-
logia pelo desenvolvimento do
programa de P2P K-Lite Nitro
- tecnologia de transferência de
arquivos utilizada em programas
como eMule, Kazaa, Soulseek,
entre outros. A desenvolvedo-
ra do VRIWZDUH está proibida de
disponibilizá-lo até que sejam ins-
talados fltros que impeçam o usu-
ário de baixar conteúdo protegido
pela propriedade intelectual.
Uma das possíveis soluções
para esse impasse seria a inver-
são do que há atualmente: mediar
o controle do usuário e das pró-
prias empresas, não pensando so-
mente nos servidores. “O direito
regula condutas, e isso vale tam-
bém para a rede. Porém, está na
hora de pensarmos na liberdade
na rede com algumas restrições,
e não em restrições com algumas
poucas liberdades.”
Rapidez vigiada - A velocidade
da internet da UFSC é extrema-
mente sedutora para GRZQORDGV
legais ou não. O acesso é feito
através da rede do Ponto de Pre-
sença da Rede Nacional de Ensi-
no e Pesquisa em Santa Catarina
(PoP-SC), que provém uma cone-
xão de 2GB para mais 41 institui-
ções. Dessa banda, a Universidade
consome diariamente cerca de 200
PHJDELWV por segundo. Para se ter
uma ideia, com essa velocidade é
possivel baixar um flme (apro-
ximadamente 700 MB) em cerca
de 30 segundos. De acordo com
o técnico de rede da UFSC, Cláu-
dio de Marafgo, so o campus da
Trindade possui cerca de 25 mil
quilometros de fbras oticas para a
distribuição da conexão.
A UFSC e Rede Nacional de
Ensino e Pesquisa (RNP) não mo-
nitoram os conteúdos baixados
pelos usuários na sua rede. As
empresas detentoras dos direitos
autorais ou suas representantes
chegam a esses usuários de várias
maneiras. A principal delas é atra-
vés das próprias redes P2P. Essas
conexões permitem saber de onde
é o usuário e qual arquivo está bai-
xando. Ao detectar um endereço
de IP que faça parte do domínio da
UFSC, a RNP é contatada.
O coordenador técnico da PoP-
SC, Guilherme Eliseu Rhoden,
explica que são enviadas via email
de duas a três notifcaçoes de do-
ZQORDG ilegal todos os dias, da
central da RNP para a sucursal ca-
tarinense. A origem é determinada
através do meio em que foi baixa-
do o conteúdo: na rede com cabos,
é possivel apenas identifcar o
computador, ja na sem fo, pode-
se chegar ao nome do usuário.
Nos dois casos, o acesso à rede é
imediatamente cortado, sendo res-
tabelecido após um período, geral-
mente até o fnal do ano, ou com
solicitação do usuário por meio do
Núcleo de Processamento de Da-
dos (NPD). Alguns desses dados,
como o endereço IP e o motivo do
bloqueio, estão disponíveis no site
http://rede.npd.ufsc.br.
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Guilherme Rhoden recebe até 3 e-mails diários sobre downloads
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