A LINGUAGEM COMO ATO DE CIDADANIA

David Victor-Emmanuel Tauro1 1. Introdução Neste pequeno ensaio enfocarei a linguagem e o linguajar de um ponto de vista social-histórico. Vejo a linguagem como um produto de um ato de linguajar e o linguajar como atividade indispensável de nossa própria humanidade e sociabilidade. A linguagem é um problema quase insuperável para nós todos por muitas razões que levantarei no percurso deste texto e que me levou a interrogá-la. Nessa comunicação, não desejo tratar de questões formais, "sinaléticas" dos idiomas. Não tendo uma formação nem na linguística, nem na semiótica, julgo temerário de minha parte ditar sobre essas disciplinas. Em contrapartida, quero externar algumas reflexões sobre o "sentido", o "significado" da linguagem e seu destino entre os fazeres humanos na conjuntura atual. 2. A linguagem e a ciência Durante os séculos XIX e XX, a luta contra a influência excessiva da psicologia na filosofia, nas ciências e nas artes levou a uma revolta geral, sobretudo, na área da epistemologia. No caso da linguagem, Ferdinand de Saussure e seus seguidores esforçaram-se na tentativa de criar uma ciência da linguagem: a lingüística. Essa ciência era pautada numa separação radical entre “forma” e “conteúdo”, “signo” e “significado”, “sinal” e “sentido”, “representação” e “substância”. O conteúdo, a substância, o sentido e o significado foram descartados como irremediavelmente tingidos de subjetividade e, por conseqüência, imprestáveis para a produção da ciência positiva e “exata”. Os praticantes da lingüística produziram tratados sobre formas, sinais, signos e representações num esforço de tirar algum proveito lógico em nome dessa “ciência” objetiva, logo, verdadeira. O resultado prático foi que a linguagem se perpetuou como um mero “meio” ou “instrumento” para comunicação. Meu móvel não é o de interrogar a tentativa de criar a lingüística como ciência rigorosa da linguagem. É, ao contrário, tentar por meio de uma recuperação do fazer "linguajar", rever o entendimento do que é a linguagem e qual é seu modo de ser. Penso que, durante a maior parte do tempo, a humanidade considerou a linguagem em sua dimensão secundária: um fetiche ou um instrumento, meio instrumentalizado como
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Doutor em Sociologia pela École des Hautes Études em Sciences Sociales, Paris [França] e Professor Associado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul [UFMS], Campo Grande. Email: davidvetauro@gmail.com

como coisa (MARX. Enquanto sem social-histórico.ferramenta. p. sobretudo ao produto. econômicas. 1259). a linguagem. a linguagem é um ato instituindo a cidadania. e até há vezes que saem palavras melhores do que pensávamos falar. outras vezes as palavras usadas não são as queríamos expressar. de relacionamento com o outro? Em sua dimensão radical. há vezes em que erramos no uso das palavras.) obscurecendo a relação sendo feita entre os homens com o ato de linguajar e. seu antecessor Sófocles (1982. 4. inato. etc. pensar e agir. Tratar do linguajar e do pensar necessita o retorno polis. 1988. o ser humano é dotado de determinações culturais. Em geral representam atos. como produto de nossa faculdade de linguajar é. A linguagem e os dilemas do pensar A linguagem. às vezes falhos. também. 3. Gostaria de retomar a definição aristotélica da linguagem: uma qualidade do homem como ser vivo possuindo o logos (p. políticas. isto é. isto é uma prova de nosso caráter de zoon politikon [ser feito para viver em comunidade] (ARISTÓTELES. que todas as técnicas e métodos usados para corrigir "distúrbios" de linguagem e de aprendizagem geralmente ignoram [no sentido de desconhecer tanto quanto não querer ver] a fundação social-histórica do linguajar e do pensar e as dificuldades inerentes de cada um de nós quando lidamos com a vida em suas variadas dimensões. Ao . de acordo com a nossa dificuldade de realizar a nossa humanidade. p. um elemento imprescindível de nossas capacidades individuais de imaginar. a capacidade de articular seus pensamentos num ato de socialização. pensamento e ação não é algo simples. as disposições e as pulsões que da as leis às cidades ou que instituem as cidades. Mais radical. meio técnico. A linguagem e a cidadania Como é que a sociedade perde de vista a dimensão primária da linguagem. 1253). Este filósofo grego não estava sozinho no sentido proposto. não encontramos palavras para dizer coisas. Representa nossa imaginação. não são meros problemas de manuseio de um código.70 e ss. As dificuldades com o linguajar não são [apenas] técnicas. de humanização. as reflexões e as paixões. Muitas vezes. automático. Temos muitas dificuldades de converter os pensamentos em palavras que criam sentidos. p. 352-356) não hesitou em dizer que foi o homem mesmo que criou a língua. então. 1995. É evidente. Através do processo de humanização e socialização.

instituída e convencionalmente sancionada (CASTORIADIS. meio.mesmo tempo. a ser cujo manuseio deve ser aperfeiçoado e o linguajar. chegamos ao ponto de ter esquecido que devemos ter algo para dizer. p. O silêncio assinala a indiferença. Reduzi-la a um mero código ou instrumento técnico significa decepá-la deste caráter criativo e radical. De tanto trabalhar sobre o como dizer. 5. mas baixa categoria redundam na perda da consciência cívica em nossa sociedade. a cretinização cultural via novelas e programas vulgares da. 1982. a apatia coroa a abstinência de assumir as responsabilidades como membros de uma comunidade. Retomar o linguajar como expressão da cidadania: . A atomização das relações sociais. mas sofreram por suas investigações. e de sentidos e significados doutro. Isto é. afetos. sua capacidade de pensar. como seres sociais que precisam uns dos outros. passamos a tratar a linguagem como ferramenta. a linguagem existe apenas como uma criação radical e profunda da humanidade. ferramenta. Linguajar. como parte de um processo coletivo onde ele é criativo mais onde tem deveres públicos e políticos. a indiferença leva à apatia. A linguagem. sobretudo do relação aos fazeres como membro de uma comunidade. radicalmente separáveis. 390). composta de sinais e ou de signos de um lado. Longe de ser uma mera coisa. Visto que foram os formalistas dos regimes totalitários como a ex-URSS que. representações para nós e para os outros. Os tratados sobre os aspectos formais da linguagem passam do silêncio sobre as questões e problemas da polis. distinguir. isto é. A humanização e a socialização são processos de conversão desse neonato monstruoso1 em um ser vivo "feito para viver na polis". Isto é irônico. A instituição da linguagem faz parte das primeiras criações da humanidade como humanidade. contar. a política e a cidadania. então é o ato do ser humano de mostrar e viver sua posse de logos2. Uma parte importante destes processos transformadores é a aquisição do linguajar: a faculdade de expressar nossos pensamentos. também. com conseqüências óbvias para o homem. As conseqüências do fetichismo da linguagem é a despolitização. podemos conceber o ato de nascimento como ato que precede uma ruptura fundamental da mônada psíquica sem o qual o neonato é condenado à morte por anorexia ou condenado ao autismo. colocar. dizer ou criar o simbólico como uma maneira de se tornar gente. desejos. juntar. o ato de expressar nosso ser como conjunto de relações sociais é esquecido. Por serem proponentes de idéias "antisocialista". De um ato expressando nosso ser "gente".

que durante a democracia antiga de Atenas. de modo atomizado.essa é a tarefa que deve ser primordial na agenda da hora. responsável. móvel ou mira. cultural deste povo zeloso de suas conquistar. uma anomia perante o caos econômico. mas também. criativa e solidária. p. termo final. 295). As manifestações neste final do ano na argentina deveriam ser compreendidas como a chegada ao fim da paciência dos cidadãos vizinhos em relação não apenas ao empobrecimento e degradação da vida material.. Hoje.. em relação aos políticos e instituições políticas ineficazes e corrompidas3. esoterismos e charlatanismo de toda a espécie para cretinizar os cidadãos e evitar uma vida autônoma. em seus sentidos. sua atividade política reduzidas a eleições periódicas de seus representantes que não têm obrigação alguma de lhe representar de fato. e uma imposição do recurso a poderes heterônomos como os dos médiuns.a obrigação moral de falar com toda a franqueza [parrhèsia]" (CASTORIADIS. nossos filósofos deveriam se das o dever de discutir a vida política e a falta da moralidade no espaço político. uma despolitização da cidadania. seja como objetivo. assinado na sede da multinacional na Alemanha permitindo uma perda coletiva menor do que aquela contemplada pela direção brasileira da empresa que incindiria sobre os operários individualmente. De vez em quando. Uma manifestação recente desse linguajar criativo foi a maneira pela qual os trabalhadores da empresa Volkswagen do Brasil conseguiram. recuperar essa atividade de linguajar é uma tarefa urgente. É pelo comunicar que fortaleceremos nosso ser como "conjunto de relações sociais". onde em nome de uma farsa ou um desfile de moda onde se dissolvem rapidamente em nome de um pretendido "realismo político". através do sindicato um convênio coletivo. mas como parceiro cujos interesses e direitos são imprescindíveis para a sustentação de nossa humanidade. Esquecemos que podemos usar essa faculdade para os fins sociais. De todos os lados cada um de nós está sendo bombardeado com armas visando a impor uma atomização do espaço público. . consciente. 1982. A igualdade da palavra [isègoria] ia junto com ". a tomada da palavra era uma expressão da participação ativa no exercício da cidadania. o cidadão já se viu sua participação. não como concorrente cujos posses e direitos terminaram onde os nossos começaram. prestes a agir para o fortalecimento de nossas comunidades e a construção de sociedades mais livres. Essa retomada deveria visa o outro. justas de solidárias. em que a crise se alastrou por todas as instituições humanas e sociais. limite. política. Perante a situação atual. Ignoramos.

Perante o medo que se instalou. p. essas manifestações do Buenos Aires mostram que a criatividade coletiva atual rejeita qualquer tentativa de ser encurralada através das bandeiras e dos slogans ou hinos. Na história praça de Maio. incidiram sobre inocentes e culpados indiscriminadamente numa linguagem de terror e fanatismo. até governos como destituídos ou desprovidos de sentido pela experiência dos últimos anos. buzinas e fogos foi a resposta dos portenhos à designação de Eduardo Duhalde como novo presidente da Argentina até 2003. em sua maioria. Os saques aos mercados e estabelecimentos comerciais soam como resposta aos saques impostos aos cidadãos argentinos que. 31/12/2001 e o editorial OS DONOS DO CURRAL. assim como a coluna de Eliana CANTANHÊDE. Os atentados do dia 11 de setembro e as atividades bélicas. e agora. 2”No começo era o verbo” – João. 2. cada lado reclamando que Deus está com ele. Folha de São Paulo. p. Folha de São Paulo. em frente a sede do governo. 30/12/2001. 4 Reproduzo ipsis litteris uma coluna da Folha Online do dia 02/01/2002: "Argentinos recebem novo presidente Duhalde com panelaço" 08h56 . pela desapropriação sancionada em nome de Deus ou dele junto com a democracia e o liberalismo. arbitrariamente agindo no mundo como se tivessem mandados divinos de dirigir os destinos dos que moram no planeta. 2. em seguida. Folha de São Paulo. responsáveis. Caderno Brasil. Mais difícil é juntar-se em fóruns diversos para a reabilitação das práticas participativas do busca de soluções coletivas. p. em nome de uma política econômica desastrosa e com a perspectiva da ruína coletiva ou uma nova onda de autoritarismo4. 01/01/2002.02/01/2002 BUENOS AIRES (Reuters) .Um barulho ensurdecedor de panelas. sofrem uma queda vertiginosa de seu nível de vida. EVANGELHO 3 Cf. O editorial CANAIS CORTADAS e a coluna Clóvis ROSSI. segundo a definição celebrada pelo fundador as psicanálise. A perda de controle da situação deixou perplexos e temidos setores influentes que exerciam o poder. Caderno Brasil. sobretudo porque reduz e o exime a necessidade de agir na vida cívica. solidárias e justas. cerca de mil manifestantes desafiaram uma . Mais do que nunca livrar a linguagem de seu caráter de fetiche tornou-se inadiável perante o horizonte do abismo5. o recurso à formas heterônomas do busca de salvação individual e tentadora. Notas 1 “polimorfo perverso”. O descrédito nas instituições políticas tradicionais levou à emergência de movimentos de massa espontâneas protestando com panelaços. 2. Entendo que é outra maneira de destituir os cidadãos de seus direitos e deveres cívicos. o editorial DE VOLTA ÀS RUAS.Numa maneira diferente. Sigmund FREUD. COISA DE DOIDO. Com sabor de sangue. Caderno Brasil.

Almagro. Once. disse à Reuters uma moradora do bairro de Belgrano. como Flores. famílias inteiras". apenas uma bandeira argentina. vá embora". Palermo. "Não há bandeiras políticas. bebês. . "Aqui cerca de 150 pessoas cantam: Duhalde você é a ditadura. As pessoas batiam as panelas e gritavam o refrão "O povo unido jamais será vencido". pedindo eleições presidenciais diretas. Jornalistas da Reuters presenciaram a manifestação. acrescentou. Os acontecimentos na Argentina desde então apenas reforçam as reflexões deste trabalho. 5 Fechei esse ensaio no começo de janeiro de 2002. Há crianças. Dispensa-se comentários. Algumas avenidas foram fechadas e fogueiras foram acesas nas esquinas.operação policial nunca antes vista. Caballito. Testemunhas afirmaram que os protestos se repetiram nos bairros de classe média da capital. Núñez e Belgrano.

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