Tradução

Sobre HannaH arendt
Hannah Arendt

Tradução de Adriano Correia1

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Adriano Correia é professor adjunto na Universidade Federal de Goiás e pesquisador do Cnpq.

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Sobre Hannah Arendt

Hannah Arendt

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PenSar e agir2 Hannah Arendt: A própria razão, nossa aptidão para pensar, tem necessidade de se efetivar. Os filósofos e os metafísicos monopolizaram esta capacidade. Isto levou a coisas grandiosas e também levou a coisas um tanto desagradáveis, pois esquecemos que todo ser humano tem necessidade de pensar, não de pensar abstratamente, de responder às questões últimas sobre Deus, a imortalidade e a liberdade, mas apenas de pensar enquanto está vivo – e faz isso constantemente. Toda pessoa que conta uma estória do que aconteceu a ela meia hora atrás na rua tem de colocar esta estória em um formato, e esta colocação da estória em um formato é uma espécie de pensamento. Assim, no que concerne a isso, pode até ser bom que tenhamos
Em novembro de 1972 foi organizado no Canadá, pela Sociedade de Toronto para o Estudo do Pensamento Social e Político, um congresso sobre “A obra de Hannah Arendt”, patrocinado pela Universidade de York e pelo Canadá Council. Incialmente chamada a participar como convidada de honra, Arendt preferiu participar das discussões. O presente texto foi editado por Melvin A. Hill a partir do que foi recolhido da gravação da discussão. A edição priorizou os temas mais relevantes e mais extensamente discutidos, desconsiderando a eventual sequência do próprio congresso. Ademais, o editor optou por não intervir, “inglesando”, nas falas dos participantes, vários deles originalmente não falantes da língua inglesa. Independentemente de quão justificada possa ser essa opção, isso acaba por trazer alguma dificuldade para a leitura, assim como a decisão de conservar a transcrição bastante rente à linguagem oral. Vez ou outra optamos por substituir pontos por vírgulas, suprimir a repetição excessiva de palavras e elementos da fala coloquial, mas basicamente conservamos a estrutura da edição original. O texto foi publicado originalmente com o título “On Hannah Arendt”, em HILL, M. Hannah Arendt: the recovery of the public world. Nova Iorque: St. Martin’s Press, 1979, p. 303-339 – edição há muito esgotada. O texto trata de temas fundamentais à obra de Hannah Arendt, principalmente no que tange às dificuldades na relação entre teoria e prática, o social e o político, à sua insistência em estabelecer distinções, à definição de sua posição no debate político contemporâneo, por exemplo. Pela excelência dos interlocutores – como C. B. Macpherson, Hans Jonas, Mary McCarthy, Richard Bernstein, Albrecht Wellmer e Hans Morganthau, por exemplo – e pela dificuldade de suas objeções já teríamos como justificar a disponibilização em nosso idioma de um texto dessa natureza. Talvez o maior interesse do texto repouse, em todo caso, nas tentativas de resposta, por vezes frágeis, por vezes implacáveis, que tais oposições acabaram por desencadear em Hannah Arendt. O vigor de sua obra e sua capacidade de provocar para o pensamento saltam à vista, sem dúvida. (Nota do tradutor)
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perdido o monopólio do que Kant certa vez chamou muito ironicamente de pensadores profissionais. Podemos começar nos preocupando com o que o pensamento significa para a atividade da ação. De início, admitirei uma coisa: estou interessada antes de tudo em compreender, é claro. Isto é absolutamente verdadeiro. Admitiria ainda que há outras pessoas que estão antes de tudo interessadas em fazer algo, mas não é o meu caso. Posso viver muito bem sem fazer coisa alguma, mas não posso viver sem tentar ao menos compreender o que quer que aconteça. Este é de algum modo o mesmo sentido em que conhecemos isto desde Hegel, a saber: quando penso que o papel principal é o da reconciliação – reconciliação do homem como um ser pensante e razoável. Isto é o que realmente acontece no mundo. *** Não conheço qualquer outra reconciliação a não ser o pensamento. Esta necessidade é certamente muito mais forte em mim do que normalmente é nos teóricos da política, com sua necessidade de unir ação e pensamento. Porque, vocês sabem, eles querem agir, e eu penso que compreendo algo da ação precisamente porque a observei mais ou menos de fora. Agi em minha vida, umas poucas vezes, porque não pude evitar, mas este não é meu impulso principal. Admitiria quase sem discutir todas as lacunas que se poderia derivar dessa ênfase, porque penso ser muito provável que haja lacunas. *** C. B. Macpherson: A senhora está realmente dizendo que ser um teórico da política e ser engajado é incompatível? Seguramente não! Arendt: Não, mas se está correto ao afirmar que pensar e agir não são o mesmo e que na medida em que desejo pensar tenho de me retirar do mundo. Macpherson: Mas para um teórico da política, um professor e um
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Inquietude, Goiânia, vol. 1, n° 2, ago/dez - 2010.

Essas são duas posições “existenciais” – se se quer chamar assim – completamente diferentes. e partirei desse assunto de Catão. que quer. *** Acredito que o pensamento tem alguma influência sobre a ação. Mas no momento em que começamos a agir. não é! E dizer isto é um pouco desonesto. sobre as pessoas que vão aos Jogos Olímpicos. Mas não estou pronta para falar a vocês sobre isto. aqueles que observam atingirão enfim o fundamental de tudo isso. 1. de me comprometer. Isto é. porque é o mesmo ego que pensa e que age. constantemente caindo sobre nossos próprios pés. vol. temos de saber de onde elas vieram. apenas para observar”.126 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 127 escritor de teoria política. origem autêntica em alguma experiência. Inquietude. sobre algum substantivo que realmente não existe. ao mesmo tempo em que as estamos atirando pela janela como dogmas. tenho de em grande medida deixar de participar. algo examinado – penso que isto realmente não é assim e nunca será assim. no anfiteatro. no entanto. livre de quaisquer obstáculos físicos ou corporais. em outras palavras. e então carregamos nossos corpos – e. que é um conceito.org . n° 2. porque a experiência fundamental do ego pensante está nessas linhas de Catão. Mas não a teoria. Ah não. se não de outra coisa. Isto é: quais são as experiências deste ego que pensa. estamos a lidar com o mundo.inquietude. como Platão disse: “O corpo sempre quer ser cuidado e que se dane”! Tudo isto é dito a partir da experiência do pensamento. mas essas falácias – que são realmente falácias metafísicas – têm. que citei no fim do livro: “Quando não faço coisa alguma. No momento estou tentando escrever sobre isto. E este substantivo – seja o ente-espécie de Marx. Se realmente acreditamos – e penso que partilhamos esta crença – que a pluralidade rege a Terra. e quando estou apenas comigo mesmo. atribuído a Pitágoras. Há um antigo relato. que está ocupado com puras atividades mentais. porque é muito fácil falar sobre as falácias metafísicas. ensinar ou teorizar é agir. Arendt: Ensinar é algo diferente.2010. e escrever também. em sua pureza. então penso que temos de modificar esta noção da unidade entre teoria e prática em uma medida tal que ela se tornará irreconhecível para aqueles que tentaram fazer uso dela antes. Realmente acredito que se pode agir apenas em concerto e também que se pode pensar apenas por si próprio. Sobre aquele que age. Já pensaram alguma vez sobre quantas pessoas cuja consciência terá de ser aprimorada? Se não se pensa sobre isso nesses termos concretos. Acreditar que há alguma influência direta da teoria sobre a ação. estou mais ativo. ou o gênero humano. então se está a pensar no gênero humano – isto é. Ou seja. ou o espírito do mundo ou que seja – é constantemente construído à imagem de um único homem. Mas vocês sabem que isto é realmente uma www. Mas pensar. que julga. por assim dizer. temos de encarar os fatos: não é o mesmo! Pelo contrário. sem jamais dizer qualquer coisa genuína sobre a vita contemplativa. E Pitágoras diz: “Um vai lá por fama e outro pelo comércio. o Velho. (É muito interessante que Catão tenha dito isto!) Esta é uma experiência da pura atividade. é diferente – nisto Aristóteles estava correto… Sabemos que todos os filósofos modernos têm em algum lugar em sua obra uma sentença um tanto apologética que diz: “Pensar é também agir”. na medida em que a teoria é justamente uma coisa pensada. Quer dizer. isto é. ago/dez . estou menos só”. Penso agora que considerá-la a partir da vita contemplativa é já a primeira falácia. e esta distinção tem de ser mantida – em nome da honestidade. cada uma delas. mas os melhores sentam-se lá em Olímpia. Goiânia. A teoria poderia [influenciar a ação] apenas no aprimoramento da consciência [consciousness]. e de modo algum estou segura de que vou conseguir. *** O principal defeito e erro de A condição humana é o seguinte: eu ainda considerava o que é denominado nas tradições de vita activa do ponto de vista da vita contemplativa.

Penso que esta é a maior vocação do teórico da política: tentar doutrinar. mas como o teórico da política pode fazer com que nos tornemos mais comprometidos e mais eficazes na luta por justiça – e. tive esta vantagem de observar algo pelo lado de fora. ago/dez . Gostaria de saber não apenas o que é a justiça em um mundo cuja injustiça todos nós abominamos. Penso que talvez sua obra mais séria seja seu livro Eichmann em Jerusalém: sua indicação. isto me despertou para a realidade. Talvez nossa habilidade para descentralizar e humanizar dependerá da medida em que encontrarmos modos de enfrentar. de tal modo que eu raramente conheci alguém que nunca tenha se comprometido – vocês podem ver que nunca senti necessidade de me comprometer. em um universo pluralista. Mesmo assim. mas com um prazer estético.128 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 129 amostra. caso em que continuará a ser permitido aos eventos seguirem seu próprio curso: o poder tende a ser distribuído sempre mais assimetricamente. então me parece que nossa primeira tarefa é superar o mar de liberalismo e de tolerância. Penso ser bonito seguir sua prosa e seu sentido de unidade na história. Goiânia. schliesslich schlug mir [einer mit einem] Hammer auf den Kopf und ich fiel mir auf: finalmente alguém bateu em minha cabeça [com um martelo] e. com os negócios políticos tenho certa vantagem. que. que há certa falta de seriedade acerca dos problemas modernos em grande parte de sua obra. Mas. à informação. Veja. É muito difícil considerar isto e certamente mais difícil para mim que para muitos outros. www. combater e superar o Eichmann que há em nós e tornarmo-nos cidadãos – em um sentido radicalmente diferente do emprego costumeiro deste termo. pela sobrevivência humana. Penso. Devo dizer que leio Hannah Arendt com prazer. Julgo que isso tem grandes implicações para a educação política. com tal força. independentemente de escrever e ensinar?”. penso que tudo estará perdido. Não posso dizer a vocês mais sobre esse assunto. 1. consoante ao modo como formulei o que todos vocês disseram aqui: “Por que diabos vocês estão fazendo tudo isso?” e “Para que serve o pensamento. é o antigo tema do vínculo com a política. A menos que nos interessemos apaixonadamente por certas opiniões. Se eu disser que nunca fui socialista ou comunista – algo absolutamente presumível para toda a minha geração. Não obstante. Aqui estou imediatamente nele. de meu ponto de vista. é claro. e em vista disso estou totalmente em dúvida sobre se conseguirei ou não. Fiquei incomodado quando Hannah Arendt disse que seu desejo é nunca doutrinar. pois não sou. Mas não aqui [com esse assunto do pensamento]. sinto que esta Condição humana precisa de um segundo volume e estou tentando escrevê-lo.inquietude. que é o problema número um. vol. mas de nosso acesso ao conhecimento. n° 2. Se levarmos a sério problemas como sobrevivência e justiça. *** Tenho uma vaga ideia de que há algo de pragmático nesta questão “Para que serve pensar?”. de qualquer modo. de como Eichmann está em cada um de nós.2010. um ator. se de fato se envolvem com isso. nesse sentido. Fico muito impaciente com demoradas discussões abstratas sobre como o poder difere da violência. Ela é uma filósofa dos filósofos. antes de tudo. e até a mim mesma a partir de fora. que os gregos disseram e que de algum modo são ainda pertinentes hoje. contudo. assim como ser lembrado de todas as grandes coisas Inquietude. enquanto as instituições liberais permitem que os senhores da economia continuem a se enriquecer à custa não apenas da pobreza dos demais. Até que finalmente. por natureza. podemos dizer. à compreensão. que equivale realmente a dizer que uma opinião tem tanta justificação quanto outra. *** Christian Bay: Tenho um conceito da vocação de um teórico da política muito diferente do de Hannah Arendt.org . percebo essa falta em muitas outras partes da obra de Hannah Arendt.

você gosta de meu livro Eichmann em Jerusalém e falou que eu disse haver um Eichmann em cada um de nós. o que podemos fazer como teóricos da política para examinar isso de modo que as questões existenciais – que têm às vezes respostas verdadeiras e falsas – sejam trazidas aos lares de muitos de nossos concidadãos.2010. mas para instigar ou despertar em meus alunos. Não creio que temos ou possamos ter muita influência. é talvez uma das razões pelas quais no conjunto esta disciplina nem sempre está em muito boas condições. Ah não! Não há um Eichmann em você nem em mim! Isto não quer dizer que não haja um grande número de Eichmanns. mas essas situações são extremas. não para doutrinar.org . Não posso dizer explicitamente a você – e detestaria fazer isto – quais as consequências na política real deste tipo de pensamento que eu experimento. O temperamento público pode. isto é. As pessoas aparentemente não acreditam no que estão fazendo. pensar que eu realizo talvez excessivamente. Há certas situações extremas em que se tem de agir. Ainda uma última questão sobre isto. no entanto.130 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 131 Quero que teóricos da política como eu sejam primeiramente homens e mulheres da política. em vez disto. Mas essas outras coisas – que você viu nos desdobramentos dos últimos anos – são mais ou menos coisas do temperamento público. Isto simplesmente não é verdade e seria tão falso quanto o oposto. Mas de uma coisa eu tenho esperança: de que certas coisas extremas que são a consequência efetiva do não-pensar. Posso imaginar muito bem que um torna-se republicano e outro um liberal ou Deus sabe o quê. de alguém que realmente decidiu que não quer [pensar]. de que eu penso – detesto usar a palavra por causa da Escola de Frankfurt –.inquietude. que Eichmann não está em pessoa alguma. que apenas o comprometimento e o engajamento valem a pena –. ser algo de que eu gosto. ou algo de que não gosto. ago/dez . Penso que o comprometimento pode facilmente nos levar a Inquietude. Antes de tudo. no sentido mencionado. Mas (a) não temos muito tempo e (b) não há um espaço de livre intercâmbio de ideias. Sempre detestei esta noção de “Um Eichmann em cada um de nós”. Diria ainda que qualquer sociedade que tenha perdido o respeito por isto não está em muito boas condições. vol. a questão é como eles agirão. Do modo como vejo as coisas. Ou seja. que não quer fazer isso de modo algum – de que essas consequências não tenham condições de vir a surgir. 1. n° 2. Então se mostrará quem é realmente confiável – para o comprometimento – e quem de fato está disposto a arriscar seu pescoço. quando as cartas estão sobre a mesa. [Entra em jogo] então essa noção de que examino meus pressupostos. chegaremos a todo tipo de teorias. Era possível dizer com Stuart Mill um século atrás que com o tempo a verdade prevalecerá em um espaço de livre intercâmbio de ideias. Goiânia. que eu penso “criticamente” e que não me permito evadir mediante a repetição de clichês do humor público. mas eles de fato parecem completamente diferentes. isto é muito mais abstrato do que as coisas mais abstratas que eu muitas vezes me permito – se entendermos por abstrato o seguinte: realmente não pensar por meio da experiência. Hannah Arendt. Qual o objeto de nosso pensamento? A experiência! Nada mais! E se perdermos a base da experiência. está também geralmente lidando com a abstração. www. comprometidos na tentativa de educar a nós próprios e um ao outro sobre como solucionar os problemas existenciais urgentes com que nos defrontamos. A relutância das pessoas que efetivamente estão pensando e são teóricos em reconhecer isto e acreditar que isto [pensar] vale a pena – e que acreditam. de qualquer modo. Quando o teórico político começa a construir seus sistemas. mas eu não consideraria minha tarefa particular inspirar este temperamento quando ele me agrada ou partir para as barricadas quando me desagrada. de modo que eles se tornem cidadãos no sentido antigo? Arendt: Temo que o desacordo seja enorme e eu apenas o aludirei. um ponto no qual não mais pensamos.

No momento em que ajo politicamente. ação política caso a Sra. de fato. não estou concernido comigo. para sua alma. tem origem parcialmente em Maquiavel: o de que a glória e não a bondade é o critério apropriado para os atos políticos. Arendt. mas antes um anarquista. expressou sua admiração pelo que penso ter sido nomeado por ela de sensibilidade para a injustiça de Luxemburg como sendo o trampolim para o ingresso dela no domínio político. não é o ponto decisivo. porque queremos a estabilidade e a boa ordenação deste mundo”. como você poderia me instruir? Ou não me instruiria de modo algum? Arendt: Não. de algum modo. como o compreendo. E por mais que façamos algo por nossa própria conta. mas posso formular isso de um modo diferente. e Maquiavel realmente estava defendendo que ela seja privada. eu não poderia instruir você e penso que isto seria presunçoso de minha parte. Sabemos que nas repúblicas modernas a religião tornou-se um assunto privado. Inquietude. Em alguma parte tem de haver uma relação que sustente essas distinções e que esclareça a situação.inquietude. Então. Arendt sustenta que a bondade pode até provar-se subversora do domínio político. ago/dez . mas sim que o mundo como tal é de maior interesse para mim que eu próprio. Por outro lado. não somos realmente um ator. Penso que temos de ser instruídos quando sentamos em torno de uma mesa junto a nossos pares e trocamos opiniões. teria permanecido em Zurique depois de sua tese e teria perseguido certos interesses intelectuais. Goiânia. mais que minha salvação eterna”. Assim sendo. parece-me que está implícito em tudo isto um tipo de desafio dramático às motivações dos ativistas políticos. Em A condição humana. “Não admitam essas pessoas na política! Elas não se importam suficientemente com o mundo! Pessoas que acreditam que o mundo é mortal e que elas mesmas são imortais são personalidades muito perigosas. Este é o modo como Maquiavel formulou isso quando disse: “Amo minha pátria. mas acerca de como o grupo deve agir. vol. Arendt: Essa questão da bondade não chegou até mim senão por Maquiavel. disto deve resultar uma instrução: não para você. é… Meu Deus! São adultos! Não estamos na creche! A ação política verdadeira aparece como um ato de grupo e nós ingressamos nesse grupo ou não. ou para si mesmo. em seu ensaio sobre Rosa Luxemburg. como alguém que é ou se percebe como um ator político.132 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 133 *** Michael Gerstein: Pergunto-me. tanto meu eu [self] corpóreo quanto meu eu anímico [soul self]. Se o critério é a glória – o brilho no espaço das aparências – ou a justiça. Arendt pudesse tentar esclarecer a relação entre seu austero sentido de glória – mais que de bondade – como o critério apropriado (uma posição extremamente rígida e fora de moda no mundo moderno). do teórico que diz a seus estudantes o que pensar e como agir. Diria que na intenção de querer ser bom. isto é. Isto não significa que ele não acreditava em uma vida após a morte. estou realmente me ocupando com meu próprio eu (self). Penso ainda que qualquer outro caminho. mas com o mundo. O decisivo é se sua própria motivação é clara – para o mundo. *** www. Se ela estivesse ocupada consigo própria. n° 2. Mas ela não podia suportar a injustiça no mundo. a Sra. Rosa Luxemburg estava muito concernida com o mundo e de modo algum consigo própria. e sua admiração por Luxemburg. Florença. Tem algo a ver com a distinção entre o público e o privado. *** George Baird: Uma das revelações para mim em A condição humana foi o argumento que.2010. a Sra.org A discussão vis-à-vis pode esclarecer todos estes apelos por guiar a . 1. e esta é a principal distinção. pessoalmente. tal como tipicamente os tenho compreendido no mundo.

não importa como o definamos – e talvez ele escape à definição. a humanidade Ocidental www. um discernimento ou uma fé – deixo isso aberto – acerca de algo último. ao lidar com empreendimentos tecnológicos que estão tendo um impacto sobre o ordenamento total das coisas. Esta palavra (Deus) foi cristã. mas temos de apelar para além desta esfera! Arendt: Receio que tenha de responder. Isso.2010.134 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 135 Hans Jonas: Que há no âmago de todo nosso ser e de nossa ação o desejo de partilhar o mundo com outros homens é incontestável. que emergem nas situações concretas – e especialmente se é uma questão de decidir sobre como o mundo futuro deveria parecer – e que temos de emitir todo o tempo.org . Em outras palavras. Mas porque isto [Deus] desapareceu. E se é a tarefa da política tornar o mundo um lar adequado para o homem. declará-la falida e apelar então a juízos partilháveis – com o que. não queremos designar como juízos partilhados aqueles compartilhados por uma maioria ou por qualquer grupo definido. e admitiu um ceticismo muito grande. Se este é o caso. assim como os juízos derivados do gosto político. ago/dez . Isso pode ser decidido apenas se formamos alguma ideia do que o homem é ou deve ser. Nossa capacidade de fazer ou agir expande-se agora sobre tais assuntos na medida em que envolve um juízo. de que Kant simplesmente apele ao juízo. todavia. a metafísica – tem de ser convocado em algum lugar para nos dar uma diretiva última. Existe uma ideia tal como a do bem supremo. Hans Jonas: Mas não é político. Uma das principais questões aqui é uma certa posição a respeito da Revolução Francesa em Kant. Considerando que nosso futuro depende do que você disse agora – isto é. 1. Não estou tocando na questão da Crítica do juízo.inquietude. Ele também apela ao conceito do bem. de prosseguir de modo vacilante em direções que afetam toda a condição das coisas sobre a Terra e toda a condição futura do homem. Arendt: Não. Goiânia. pelo amor de Deus. naturalmente. O bem supremo não pode ser um conceito inteiramente vazio e está relacionado a nossa concepção do que o homem é. O livro todo concerne de fato à possível validade dessas proposições. como foi compreendida até o século XX. mas eu disse apenas da validade: se se pode transferilo para a esfera política é também uma das questões bastante interessantes. de Kant. vol. na Idade Média Cristã. aquilo que por um consenso unânime foi declarado morto e acabado – a saber. que nós alcançaremos algo último que decidirá por nós a partir de cima (de modo que a questão é. Não é verdade que a situação da comunidade política tem de ser decidida com base em padrões ou valores realmente últimos. então estamos perdidos. porque era Deus. a questão do bem e a questão da verdade não estão colocadas. Realmente. Mas quando se dá o caso – como sob as condições da moderna tecnologia – de termos Inquietude. É claro que fiz isso e o fiz simplesmente ao considerar os escritos tardios de Kant sobre a política. Nossa capacidade de decisão vai muito além da lida com as situações imediatas e com o futuro próximo. mas queremos partilhar um certo mundo com certos homens. Eu seria inteiramente pessimista. Pois na política ordinária. quem reconhecerá esse algo último e quais serão as regras para reconhecê-lo – você tem realmente um regresso infinito aqui. surge a questão: “O que é um lar adequado para o homem?”. Podemos partilhar juízos para nossa perdição com muitos. mas seja como for). em todo caso. mas não estou prosseguindo nisso porque nos levaria muito longe desta questão de algo último. então penso que não possamos simplesmente lavar nossas mãos. caso não possamos apelar a alguma verdade sobre o homem que possa validar juízos desse tipo. mas era mantida na instância última. dizer que a metafísica Ocidental conduziu-nos a um impasse. Porque isso de fato exigiria que um novo deus aparecesse. Não é o caso. poderíamos fazê-lo com penúltimos. n° 2. não pode ser determinado senão arbitrariamente. mas marginal neste momento.

mas não porque. que está antes de tudo relacionada à ação na esfera política. e nenhum ser humano sabe o que é o homem no singular. Nossas iniciativas têm uma tendência escatológica – um utopismo embutido.136 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 137 retrocedeu à situação na qual ela estava antes que fosse salva. e você sabe tanto quanto eu que não existiam tais coisas últimas às quais se poderia apelar de modo válido. Não era possível apelar a pessoa alguma. ao menos como uma força restritiva. 1. o ponto de vista assumido por mim pode ser de alguma relevância. como em alguns casos. Hans Jonas: Partilho com Hannah Arendt a posição de que não estamos de posse de quaisquer fundamentos últimos. Esta era a situação real. Barnard: Você concordaria então com Voltaire? Você levanta esta questão de Deus e. E também creio que não podemos ter isto como um espetáculo encomendado devido ao fato de que “precisamos disto tão pungentemente que por essa razão devemos tê-lo”. não importa qual. pela convicção ou pela fé. contanto que lhes fosse dado um. Isto é. Não creio que possamos estabilizar a situação na qual estivemos desde o século XVII por nenhuma via definitiva. perfeitamente segura de que toda essa catástrofe totalitária poderia não ter acontecido se as pessoas ainda acreditassem em Deus. ou seja o que for. Esta é apenas uma injunção prática muito importante que podemos extrair do discernimento de que apenas com alguma concepção de algo último estamos autorizados a nos envolver em certas coisas. Tenho receio disto. Se quiséssemos fazer uma generalização. A única coisa a que o sujeito está habituado é a ter um “corrimão” e um conjunto de valores. à ação futura e à ação de longo alcance. Se se passa por uma situação tal [como a do totalitarismo]. devemos ao menos abster-nos de permitir que situações escatológicas ocorram. pelas boas novas – visto que não se acreditava mais nisso.inquietude. ou antes no inferno – ou seja. estavam enamorados pelos versos gregos ou pelas canções gregas. ago/dez . a primeira coisa que se sabe é o seguinte: nunca se sabe como alguém agirá.org . Arendt: Concordo completamente. vol. os revolucionários do século XVIII] de volta arrastando-se para a Antiguidade. e esta constatação de nossa ignorância pode ser de grande importância prática no exercício da capacidade de julgar. por exemplo. www. Arendt: Com isto eu concordaria. A atitude socrática consiste em saber que não se sabe. porque penso que no momento em que se dá a alguém um novo conjunto de valores – ou este famoso “corrimão” – se pode imediatamente trocá-lo. mas que se pode considerar como extremamente útil socialmente. em inteira nudez. eles estavam. ou resgatada. de modo que o mundo possa ser adequado para ele. desde o início esta pluralidade coloca um enorme problema. Estou. de uma metafísica que se pode questionar qua metafísica. Goiânia. Não há tais coisas últimas. Não teríamos de nos preocupar com todo esse assunto se a metafísica e toda essa questão de valores não tivessem ruído. em certa medida. uma parte da sabedoria é o reconhecimento da ignorância. a saber. F. poderíamos então dizer que aqueles que ainda estavam muito firmemente convictos em relação aos chamados valores antigos foram os primeiros a estarem prontos a trocar seus valores antigos por um novo conjunto de valores. como pode ser o meu caso – mas essa não foi sua motivação. Inquietude. M. Conhecemos apenas “machos e fêmeas criados por eles” – isto é. seja pelo conhecimento. confrontados com o fato de que os homens existem no plural. De qualquer modo. se ainda houvesse algo último. um movimento em direção a situações últimas. e esta situação os mandou [isto é. Desprovidos de conhecimento dos valores últimos – ou do que é em última instância desejável – ou do que é o homem. Começamos a nos questionar por causa desses eventos.2010. Você tem a surpresa de sua vida! Isto perpassa todas as camadas da sociedade e as várias distinções entre os homens. Em vista disso. n° 2.

Não é o bastante responder à pergunta de Mary McCarthy afirmando que em épocas diferentes temos de examinar com precisão o que adentra a esfera pública. As grandes catedrais. por sua vez. no espaço público. O que esses assuntos são em cada momento histórico é provavelmente completamente diferente. Richard Bernstein: Admitamos o lado negativo de uma tese persistente em sua obra: a de que quando os homens confundem o social com o político. E lá talvez eles tivessem de conversar sobre uma questão que tampouco é desprovida de todo interesse: a questão de Deus. Sempre houve conflitos. Parece-me que uma vez que temos uma constituição. Consequentemente. Fiquei com a guerra e os discursos. vol. por que nós todos precisaríamos estar juntos? Considere uma assembleia municipal. Mas sempre me perguntei: “O que se espera que alguém faça na cena pública. É uma questão de se nos dias de hoje podemos dissociar ou separar consistentemente o social e o político. Atenas existia antes da Guerra do Peloponeso e o verdadeiro florescimento de Atenas deu-se entre as Guerras Pérsicas e a Guerra do Peloponeso. ocupação. o que resta?”.138 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 139 PenSar Sobre a Sociedade e a Política Mary McCarthy: Gostaria de fazer uma pergunta que mantive em minha mente durante bastante tempo. se ele mesmo não se preocupa com o social? Ou seja. o cenário para a ação política está lá. tivemos a fundação e uma estrutura legal. por exemplo. têm de ser discursos sobre algo. sobre onde colocar a ponte. devem ser excluídas da cena política. Em todas as épocas as pessoas que vivem juntas terão assuntos que pertencem ao âmbito do público – “são dignas de serem discutidas em público”. E a única coisa que resta a fazer para o homem político é o que os gregos fizerem: guerrear! Mas isto não pode estar certo! Por outro lado. Em primeiro lugar. há consequências devastadoras na teoria e na prática. e posso admitir que me faço essa questão. em que ela demonstra. 1. É sobre a distinção bastante acentuada feita por Hannah Arendt entre o político e o social.inquietude. É particularmente perceptível em seu livro Sobre a revolução. Isto pode ser decidido de cima ou ser resolvido pelo debate. o que se torna público em cada período determinado parece-me completamente diferente. ambos estão inextricavelmente conectados. As câmaras municipais vieram mais tarde. O que eles faziam então? A vida muda constantemente e as coisas estão constantemente lá como se quisessem ser discutidas. ou busca demonstrar. os gregos não faziam a guerra apenas. que pode ser mais bem decidida pelo debate que de cima para baixo. Arendt: Você está absolutamente correta. Média. então estou perplexa. ago/dez . se todas as questões de economia. agora – não se pode fazer de maneira consistente aquela distinção! Embora possamos apreciar a distinção. há realmente uma questão em aberto acerca de onde é melhor colocar a ponte. eram os espaços públicos da Idade Inquietude. que o fracasso das revoluções Russa e Francesa deveu-se ao fato de que essas revoluções estavam preocupadas com o sofrimento – em que o sentimento de compaixão desempenhou um grande papel. Há coisas em que a medida correta pode ser calculada. mas os discursos não podem ser apenas discursos. No caso. n° 2. se pudermos calcular com certeza.2010. Estas coisas podem de fato ser administradas e. desse modo. Arendt: Está bem! Richard Bernstein: Mas você sabe muito bem que – ao menos para nós. Contudo. Assisti certa vez uma assembleia municipal em New Hampshire e fiquei muito impressionada com o nível www. bem-estar humano. não é necessária a guerra. Há uma discussão.org . foi política e terminou na fundação de algo. não estão sujeitas ao debate público. por exemplo. Caso contrário. O debate público pode lidar apenas com coisas que – se quisermos formular negativamente – não podemos calcular com exatidão. Goiânia. qualquer coisa que afete a esfera social. Arendt: Acho que está certo. Seria muito interessante seguir isto por meio de um estudo histórico. e penso que alguém poderia fazer isso. A Revolução Americana.

140 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 141 de compreensão na cidade. Isto me parece muito nitidamente uma questão de interesse público comum.2010. Considere tudo: como educação. C. Arendt: Penso que este exemplo é útil para mostrar concretamente esta dupla face de que eu falei. Arendt: Consideremos o problema da moradia. dos dois lados do tribunal. na esfera do que Engels chamou de administração das coisas – estas são as coisas sociais em geral. a partir dos quais se poderia examinar a questão. vol. a lidar com situações concretas e problemas concretos. n° 2. Macpherson: Está nos dizendo que aquilo com que um júri ou uma assembleia municipal pode lidar é político e todo o resto é social? Arendt: Não. e uma destas faces não deve estar sujeita a discussão. Mencionei a assembleia municipal e o júri como exemplos dos muito poucos lugares onde um genuíno público ainda existe. surgem coisas que não são sociais e que realmente pertencem ao domínio público. Aqui. que são uma desculpa para não fazer coisa alguma – que nenhuma destas coisas seria capaz de resolver os problemas sociais bastante graves que as grandes cidades nos apresentam. Ouvir você aqui hoje me inquieta ainda mais. saúde. Não deveria haver qualquer debate sobre a questão acerca de se todos devem ter uma moradia decente. o governo britânico descreveu como inadequada uma enorme porcentagem dos conjuntos habitacionais da Grã-Bretanha. Goiânia. parece-me também muito claro que nenhuma quantidade de discursos. Esta é de fato uma questão plenamente discutível e um assunto público que deve ser decidido publicamente e não de cima. eu não disse isso. ago/dez . 1. na vida cotidiana. mais uma vez. mesmos que seja dado mais um banheiro a elas. Que elas devam estar sujeitas a debate parece-me um embuste e um aborrecimento. Contudo. Por outro lado. porque felizmente – ou infelizmente – somos forçados a agir no www. tudo que de fato pode ser calculado. as questões de classe. B. isto é realmente algo que podemos calcular. O júri foi extremamente responsável. Albrecht Wellmer: Pediria a você que desse um exemplo atual de um problema social que não seja ao mesmo tempo um problema político. A questão política é que estas pessoas adoram a região em que vivem e não querem se mudar. Estas me parecem revelar o caráter essencialmente despolitizado de seu pensamento. e mesmo o simples problema dos padrões de vida. mas também consciente de que há pontos de vista diferentes. todas essas questões são de alguma forma realmente discutíveis. Mencionei apenas exemplos de onde. O problema social é certamente uma moradia adequada. Mas se é uma questão de quantos metros quadrados cada ser humano precisa para ser capaz de respirar e levar uma vida decente.org . tornam-se um problema bastante concreto e não se pode mais lidar somente com abstrações tais como a burocracia ou a centralização. Temos nos júris o último vestígio de participação cidadã ativa na república. problemas urbanos. mas a questão sobre se esta moradia adequada significa integração ou não é certamente uma questão política. Por outro lado. Parece-me que mesmo os problemas sociais em nossa sociedade são inevitavelmente problemas políticos. se isto estiver correto. Tomemos outro exemplo. de propriedade. *** Michael Gerstein: Parece-me que se é forçado a agir politicamente. estaria correto afirmar que é impossível estabelecer uma distinção entre o social e o político em nossa sociedade. Na medida em que somos forçados a tomar esses tipos de decisões. então certamente também Inquietude. de um modo que não faz sentido para uma grande proporção dos habitantes que realmente vivem lá. Tomei parte em um júri – com grande satisfação e verdadeiro entusiasmo.inquietude. George Baird: De um ponto de vista administrativo. o qual achei muito inquietante quando li sua obra. Em cada uma destas questões há uma dupla face. discussões e debates – ou o que infelizmente tem tomado seu lugar: comitês de investigação. do futuro de uma sociedade.

Se você pensa que a burocracia – que significa o governo pelo escritório e não o governo pelos homens ou o governo pela lei – não tem um caráter desvelador. o primeiro a herdá-la foi o próprio governo. em algumas dos Estados do leste – não estou falando sobre a União Soviética –. Parece-me que. o modo mais suave de expropriar – em vez de matar cada um. a esquerda teria dado todo o poder do Sr. Torne uma quantidade decente de propriedade acessível a todo ser humano – não para expropriar. Desse modo. então realmente acredito que você não viveu neste mundo o tempo suficiente. A propriedade é deveras muito importante. n° 2. que é também um modo de expropriação. *** Mary McCarthy: Agora temos efetivamente a tendência. Todas elas pertencem à mesma categoria de palavras. Mas quem então teria a posse deles em seu lugar? O governo. a imprensa da ala direitista. mas em um sentido diferente daquele em que você a concebe. então teremos algumas possibilidades para a liberdade mesmo sob as muito desumanas condições da produção moderna. Mas eu gostaria de saber por que você acredita que palavras como classe e propriedade são menos abstratas que burocracia e administração ou as palavras que eu uso. de fato. etc. A questão é somente se você é capaz de indicar algo verdadeiramente real com essas palavras. e sequer se dá ao trabalho de examinar criticamente se eles ainda são válidos ou se deveriam ser mudados ou algo assim. seja pelos impostos exorbitantes. www. por causa da competição – porque há outros jornais que contariam o que ele preferia não dizer –.142 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 143 mundo e temos então de saber com que o mundo se parece. você usa uma variedade de nomes abstratos que outrora foram reveladores. a esquerda exigiu a nacionalização da Springer Press. Asseguro que esta propriedade está muito mais em perigo. mas para disseminar a propriedade –. Por toda parte temos esses processos de expropriação. especialmente no século XIX. Em outras palavras. 1. Mas garanto a você que hoje a burocracia é uma realidade muito maior do que a classe. ocorre que eles podiam fazer greve – e o direito de greve é realmente um direito muito precioso – contra um único capitalista. O que devemos encorajar por toda parte é a propriedade – certamente não a propriedade dos meios de produção. a conceber a propriedade privada exatamente no mesmo sentido em que você a concebe: sem propriedade dos meios de produção. Arendt: Esses são os problemas da chamada “sociedade de massas”. Alguns anos atrás. E se a questão é a do operário. Digo chamada “sociedade de massas”. Elas são exatamente iguais. se você fala sobre a propriedade dos meios de produção. mas a propriedade estritamente privada. Ou elas têm a propriedade de revelar – ou desvelar – ou elas não têm. Inquietude.inquietude. entretanto. vol.org . Arendt: Eu disse que os meios de produção não devem estar nas mãos de um único homem. mas infelizmente é um fato. o socialismo representa a única força para a conservação e. até onde posso ver adiante. através de certos métodos. seja pela inflação. representa uma força conservadora no mundo moderno. Propriedade é outra questão. Não poderiam. de modo que os poucos direitos que o movimento operário realmente conquistou por meio de longa luta desde a metade do século XIX foram imediatamente retirados deles. que certamente teria um poder muito maior: uma imprensa dirigida pelo governo. que é apenas um modo diferente de expropriar um povo. Quero dizer que mesmo aquela liberdade que Springer tinha de admitir. Mas o próprio governo era certamente muito mais forte do que qualquer capitalista sozinho poderia ser. Mas ele não tem o poder acumulado e os meios de violência que um governo tem. Goiânia. ago/dez . mesmo este tipo de liberdade desapareceria. Assim.2010. na Alemanha. fazer greve contra o governo. Springer a seu governo. Springer é somente um homem e certamente tem certa quantidade de poder sobre a opinião pública.

B. Temos. Ação (uma singular definição de “ação”). era uma classe. o poder está nas mãos das pessoas que controlam o acesso aos meios de produção. no sentido de Marx). em geral. vol. E. aos meios de vida. Nós crescemos e herdamos certo vocabulário. com isso. E isto. vejamos. Macpherson: Realmente. mas lá há leis que forçam a descentralização desta expropriação. é aceito pelo povo. Você disse que Marx não compreendeu o poder. ou deveria desencadear. Arendt: Se a imprensa houvesse fosse expropriada. aos meios de trabalho. em qualquer sociedade. naturalmente. Bem. desculpe-me.inquietude. e a outra foi que o poder está agora na burocracia. O que ele compreendeu. chegar a conclusões surpreendentes e paradoxais. foi que. O sistema multipartidário na Holanda funciona como fator mitigante. porque desencadeia. Cada partido político tem seu próprio canal de TV ou parte de um canal. mas 100%. o qual agora tentam introduzir em alguns dos países orientais. Esta prática intelectual – uma prática muito vivificante. é experimentar. Em minha opinião uma palavra tem uma relação mais forte com o que ela denota ou com o que o modo como ambos a empregamos. B. ago/dez . o que nos daria como resultado certo número de usos. Ela define muitas palavras chave de um modo exclusivo a ela: vocês sabem. E parece-me que isto é parte do estilo do pensamento da Sra. C. Uma foi que Marx não compreendeu o poder. duas das afirmações de Hannah Arendt sobre o poder esta manhã parecem-me escandalosas.org Inquietude. poder versus violência. seguramente. todo tipo de controvérsia – é uma prática ainda mais curiosa: a de tomar uma palavra que talvez tenha mais de um significado na compreensão comum e conferir a ela um significado muito especial. é claro. Arendt: Sim. a televisão é propriedade pública – penso que provavelmente estas coisas funcionem apenas em pequenos países – e eles têm uma enorme variedade de partidos políticos. Desculpe-me. Macpherson: Poder e violência. Goiânia. eu considero a sua qualidade desveladora. e parece-me que temos nos Estados Unidos de agora o mesmo resultado que teríamos na Alemanha se expropriassem Springer. Parece-me que se pode sustentar que Marx não compreendeu o poder apenas se se define o poder de um modo bastante particular. que são em seguida legitimados. para então. deste processo de acumulação. teríamos não 90% para o governo.2010. O que você considera meu uso idiossincrático das palavras – penso que há algo mais do que isto. por exemplo. Ou seja. n° 2.144 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 145 Mary McCarthy: Considere a situação da imprensa nos Estados Unidos: antes da última eleição [1968] algum tipo de sondagem foi feita e penso que algo em torno de 90% da imprensa dos Estados Unidos apoiava Nixon. Arendt. força versus violência (um significado bastante especial para a palavra “força”)… Arendt: Não. O que teremos de fazer. Mary McCarthy: Viva! *** C. e não apenas descobrindo como uma palavra é normalmente utilizada. social versus político (um significado um tanto especial para a palavra “social”). Mary McCarthy: Não necessariamente. 1. Na Holanda. em sua terminologia. esta qualidade desveladora tem sempre um pano de fundo www. A senhora concordaria que a única razão para uma burocracia ter o poder que tem – e não concordo que a burocracia tenha todo o poder que a senhora atribui a ela – é porque e apenas na medida em que se converteu em uma classe (quem controla o acesso aos meios de produção. um amálgama de imprensa e governo – ao menos o atual governo dos Estados Unidos – nos moldes do Partido Republicano. Temos então de examinar este vocabulário. . e somente naqueles países nos quais isso se deu? Arendt: Não concordaria com isto. E isto funciona. a partir dela. você considera apenas o valor comunicativo da palavra.

mas qualquer benefício. são conceitos desveladores. Macpherson: Certamente é verdade que Marx estava interessado em tendências. Inquietude. mas o poder em vista da obtenção de um benefício. como empregadas por Marx. Arendt: Não diria o mesmo sobre classe. Macpherson: Mas seguramente Marx viu tão claramente como. Marx não compreendeu a questão do governo. mas sabemos que este poder de obter benefício por causa do lucro… C. Ele acreditava que isto se materializava. Goiânia. Deus nos proteja disto: este otimismo perpassa toda a história. Marx ainda acreditava que se os homens forem deixados em paz – a sociedade corrompe o homem – e for mudada a sociedade. são de fato motivações de tendências. Ele reaparecerá. Mas esta é www. C. Macpherson: Considero a propriedade desveladora também e esta é a razão de eu dizer que as palavras classe. Acho este exemplo de Lênin muito próprio do século XIX. na medida em que o homem é um enteespécie. Você sabe que Lênin disse certa vez que não compreendia por que o direito penal deveria existir.. B. digamos.146 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 147 histórico. vol. James Mill. não podemos nos sentar aqui e ler Marx! Mas isto me parece bastante óbvio e seguramente vem de Hegel. A tendência de uma parede branca é ficar suja com o tempo.inquietude. em que a dominação do homem pelo homem será substituída pela administração das coisas. o homem reaparecerá. Mas é claro que tendências são abstrações. Macpherson: Não necessariamente o lucro. não são senão espelhos das tendências na sociedade. Não há muitos homens cujo agir com e contra cada outro resulte por fim em história. Não é o poder pelo poder. Arendt: Sim. Arendt: Bem. que uma vez removida esta divisão de classes em uma sociedade sem classes. Marx sempre pensou que o que percebemos mais ou menos como motivações humanas. Acreditou. C. que os homens querem poder sobre os outros para obter mediante esse poder um benefício para eles mesmos. Veja que me refiro. C. que estava interessado nas leis do movimento da sociedade e assim por diante. e assim por diante. n° 2. a menos que alguém apareça e redecore o quarto. de certo modo. Isto é. Em cada um dos casos. Não acreditamos mais em tudo isto. Ele conectou organicamente o desejo de poder com a divisão de classes da sociedade. ademais. Isto eu creio ser realmente uma abstração. Ele não compreendeu o poder no sentido estrito de uma pessoa querer comandar outra e que precisamos de leis para impedir isto. naturalmente. porque esta tendência é completamente imaterial.org . pois ele não acreditava que alguém pudesse querer o poder pelo poder. Arendt: Mas não sabemos que porcentagem da população faria isto apenas por prazer e sem pensar em benefício. por assim dizer. Mas não reconheço Marx em sua descrição dele. à chamada superestrutura. E sendo as leis do governo a superestrutura. e duvido que elas existam por si próprias. a disputa pelo poder – o desejo de poder – desapareceria por si própria. Sabemos que. poder. O que Marx quer dizer com poder é de fato o poder de uma tendência ou de um desdobramento. e em grande medida isto pesa a seu favor. B.2010. B. ago/dez . com a mesma naturalidade com que todo homem se apressaria a ajudar uma mulher que estivesse em perigo. 1. pois desde que mudemos as circunstâncias cada um impediria cada outro de cometer um crime. a pluralidade dos homens é descartada ou desconsiderada.. B. Esta é a profecia do Manifesto Comunista. a transformar a tendência em algum tipo de força efetiva por si mesma. Hans Morganthau: Deixe-me dizer uma palavra sobre a incompreensão básica sobre o poder em Marx. na superestrutura que é o governo. Mas há um único substantivo gigantesco e este substantivo está no singular – desse modo se pode atribuir tudo a este substantivo. Isto não existe em Marx. O espírito do mundo de Hegel reaparece em Marx.

de modo que isto não está em questão. afinal de contas. eu li. se não acredito nesta ou naquela teoria. não me compreendam mal. Do mesmo modo como tenho um grande respeito por Marx. Albrecht Wellmer: Minha pergunta se perdeu. Então. Tenho a sensação de que esta é exatamente a razão pela qual você nunca pode fornecer um tratamento adequado seja dessas tradições. Você sabe que tenho um grande respeito por Hegel. socialista ou anarquista. Espanto-me com o caráter desses construtos.148 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 149 uma equivocada concepção rousseauísta da natureza do homem. Arendt: Com certeza! Albrecht Wellmer: Quero fornecer uma tentativa de interpretação do modo como você formula distinções como entre obra e trabalho. e se a violência fosse abandonada em nome do poder. Isto traduz minha falta de comunicação. não estou ciente disto e nenhuma psicanálise vinda da Frankfurter Schule ajudaria. novamente em sua compreensão. tipos ideais ou conceitos que designam casos-limite. O que quero dizer é que pode estar faltando um elemento algo hegeliano em seu pensamento. 1. por exemplo. em sua compreensão.2010. eu me pergunto se o fato de você não estar completamente consciente do elemento utópico em seu pensamento explica a razão de você se relacionar de um modo tão estranho com as tradições de pensamento crítico.org . Mas se não estou ciente disso… Pelo amor de Deus. não em primeiro lugar –. Eles acreditavam na mesma coisa. Não digo “sim”: digo apenas que é bem possível. Sendo assim. n° 2. Tive sempre a sensação de que essas distinções designam casos-limite aos quais efetivamente nada corresponde na realidade. ou daquilo que Mary McCarthy denominou “o elemento medieval” em seu pensamento.inquietude. ago/dez . o político e o social e poder e violência. O que acho particularmente interessante é que nessa concepção equivocada do poder. vol. por si mesmo. Claro que também sou influenciada por todas essas pessoas que. Está suficientemente claro que muitas destas distinções se mostraram extremamente frutíferas no que se refere à crítica de fixações ideológicas: especialmente essas fixações que representam a prevalência de tradições do século XIX – na teoria de Marx. Por outro lado. estou intrigado com um certo tipo de abstração dessas distinções. Não seria o caso de essas alternativas designarem não possibilidades permanentes do gênero humano – ao menos. o ser humano como um animal e a utopia. Arendt: Posso não estar ciente do elemento utópico. Posso reformulá-la? O que você diria de uma interpretação de suas distinções na qual uma alternativa designaria o caso-limite da animalidade e a outra designaria o caso limite da completa realização da humanidade? Arendt: Diria que mediante esses métodos fantasiosos você eliminou a distinção e já teria operado esse truque hegeliano em que um conceito. Goiânia. começa a desdobrar-se em seu próprio negativo. Pelo menos considere a única coisa que julgo questionável: isto é. se o social se tornasse um assunto público ou político. por exemplo. não é assim! E o bem não se desdobra em mal e o mal não se desdobra em bem. A esse respeito eu seria inflexível. Esta é uma das coisas que me parecem bem possíveis. *** Albrecht Wellmer: Tenho outra questão acerca da importância de certas distinções em sua obra. Realmente não estou em condições de responder a você imediatamente – tenho de pensar melhor sobre esse assunto. De modo que. então isto aparentemente seria a realização de uma utopia. mas os limites extremos entre os quais a história humana se espraia: a saber. Inquietude. Mas www. Não. se todo trabalho se transformasse em obra. seja de algo como a teoria crítica ou a relação de sua teoria com essas tradições. porque não escrevo uma refutação dela? Eu faria isto apenas coagida. o marxismo e o liberalismo do século XIX são irmãos de sangue. Não creio que tenha algo a ver com abstração. da natureza da sociedade e da natureza do poder.

se o poder for dividido como o foi na noção original dos Pais Fundadores e antes naquela noção de Montesquieu – não tão clara. 1. Ed Weissman: Correto. Quando fala da Constituição Americana. em grande medida compartilho disso que é designado como descentralização. termina-se novamente na situação monárquica britânica. o que ele viu na Constituição Britânica não foi de modo algum uma separação efetiva dos poderes. não entre os homens. Diria. a vulnerabilidade é imensa. De modo que não é por acaso que terminamos na atual administração americana [1972].150 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 151 esta seria precisamente a armadilha – em minha concepção – em que me recuso a cair. Isto é. de modo que se possa de fato dizer potestas in populo. Isso soa a mim como o tipo mais inabalável de um compromisso que é fundamental a tanto daquilo que você diz que nem mesmo precisa trazê-lo à tona explicitamente. que há realmente por todo o mundo quase uma rebelião contra o gigantismo. essa centralização é um perigo horrível. Nixon. Também penso que este país [EUA] pode permanecer ou tornar-se um país poderoso somente se houver muitas fontes de poder. que nunca foi experimentado – isto é algo que se constrói a partir das bases. www. que o poder vem de baixo e não de cima – se tudo isto está dito. e as burocracias são de fato o governo de ninguém – e esse ninguém não é benevolente. você faz o que me parece ser algumas suposições. Por outro lado. Penso ser esta uma reação saudável e eu mesma a compartilho. *** Hans Morganthau: Foi levantada a questão sobre a centralização. vol. Todavia. Mas se tudo isto está dito – e minhas simpatias estão aí – e você sabe que tenho esta simpatia romântica pelo sistema de conselhos. especialmente porque tais gigantismo e centralização requerem essas burocracias. Basicamente. entre uma velha e uma nova sociedade. Parece-me que em alguns aspectos você interpreta mal a Constituição Americana do mesmo modo como Montesquieu compreendeu mal a Constituição Britânica. porque estas estruturas são bastante vulneráveis.inquietude. Por esta razão. Estávamos precisamente dizendo que há uma incompatibilidade básica entre o ativista e o teórico… Arendt: Não. Goiânia. uma vez que se abole o equilíbrio entre a velha e a nova sociedade. isto é.2010. Agora você toma esta noção da separação dos poderes e a transfere para a república americana. Como se pode preservá-las sem Inquietude. Isto significa que a “administração das coisas”. É realmente assustador. E isto pode ser feito apenas de uma maneira mais ou menos central. mas simplesmente um equilíbrio temporário. centralização? Mas se temos isto. que Engels pensou ser uma ideia tão maravilhosa e que efetivamente é uma ideia horrível. e com Kissinger. que teve um reflexo institucional. n° 2. Não podemos considerar alguém responsável pelo que acontece porque de fato não há autor de feitos e eventos. se é levada longe o bastante. em um primeiro plano. *** a conStituição americana como um tiPo ideal Ed Weissman: Estávamos a pouco dizendo que existe esta distinção a ser traçada entre o teórico e o ativista em um aspecto importante. E está implícito em tudo o que você disse um compromisso intelectual básico com algum tipo de imagem idealizada da Constituição Americana e da experiência americana. entre as atividades. o mundo em que vivemos tem de ser preservado. Arendt: Acho esta questão muito complicada. Não podemos permitir que caia em pedaços. sobre as quais eu gostaria de indagá-la. Era inevitável que terminássemos com um rei eleito.org . temos então o seguinte: apesar de tudo. mas mesmo assim. na qual as instituições representam meros interesses. ago/dez . é ainda uma necessidade. que se opõe diretamente à democracia. Trata-se também do mesmo tipo de transferência intelectual.

refletimos sobre certo conjunto de fatos históricos. incluindo o poder da Igreja. uma vez apresentados os pressupostos adicionais. *** C. discursos e o que quer que tenhamos. seu modelo do homem como um indivíduo calculador buscando maximizar seu próprio Inquietude. e o modelo de sociedade que se segue. adveio uma crise realmente grande. Deus sabe. n° 2. ambas as tradições têm esse modelo de homem e de sociedade em comum. Arendt: Bem. Concordo que o modelo de homem que você descreveu é o do burguês e que este burguês. certamente fiz algo parecido com o que Montesquieu fez com a Constituição Inglesa. Montaigne e assim por diante. poderia de fato remontar a Maquiavel. educado na escola da necessidade e das tendências. Todos nós de algum modo construímos o que Max Weber chamou de “tipo ideal”. Eles reviraram os arquivos da Antiguidade precisamente para encontrar um tipo diferente de homem. com o que nos fornecem tudo de que precisamos. 1. é uma realidade. Ora. Não acredito em suas conclusões: essa inevitabilidade que nos levaria da Revolução Americana ao Sr. Retornei também. Mas. mas nunca gostei da Antiguidade romana. Kissinger. Penso que mesmo você. Isto é. Seguramente. interesse. O homem burguês é o modelo. B. Tentei apoiá-lo um pouco melhor em fatos históricos do que Montesquieu o fez. quero falar agora sobre o modelo de homem nesta outra tradição. se Arendt rejeita uma tradição e aceita a outra. porque se tornou o principal modo de falar e pensar sobre essas coisas durante a Revolução Francesa. é aquele em que o interesse de cada homem naturalmente entra em conflito com o de todos os outros. Diria que depois que a monarquia absoluta tornou-se tão absoluta que pôde se emancipar de todos os outros poderes feudais. não desfruto desta sagrada preguiça que é uma das principais características dos escritos de Montesquieu. Esta distinção entre le citoyen e le bourgeois perdurou.inquietude. pela simples razão de que eu não pertenço à aristocracia e. E elas leram todos esses livros – como diriam – para encontrar um modelo para este novo domínio político que eles queriam www. a pergunta é: o que ela faz com o que elas têm em comum? Ela aceita ou rejeita o modelo do homem burguês? Arendt: Não creio que o modelo de homem seja o mesmo para as duas tradições. por conseguinte. durante todo o século XVIII e conservou-se até 1848. Presumo que a ideia é que ela rejeitou a tradição de Hobbes e Rousseau e aceitou a tradição de Montesquieu e dos federalistas. se me for possível.2010. uma vez que construí a partir [da Constituição Americana] certo tipo ideal. Penso que poderia expressar isto de um modo um pouco diferente. A tradição de Montesquieu. deveria compreender que isto é um pouco abstruso. como na Antiguidade – assim compreendo as revoluções. Posso compreender. Goiânia. O que ocorreu foi a reemergência da genuína política. porque eles eram trabalhadores extraordinariamente empenhados. que você mencionou. Vejam que retornei à Antiguidade grega e romana apenas em parte porque gosto bastante dela – gosto da Antiguidade grega. e este tipo de homem não é o burguês. Isto é especialmente difícil com Montesquieu por causa de sua preguiça e é muito mais fácil com os Pais Fundadores. Agora se isto é lícito é outra questão. porque me parece haver uma coisa muito importante que a tradição de Hobbes e a dos Federalistas têm em comum. até que se torne algum tipo de regra consistente. mas isto provoca certo embaraço. ago/dez . naturalmente. no antigo sentido do termo. que nos levaria longe demais. Macpherson: Estava interessado na posição de Hannah Arendt em relação às tradições. porque sabia que simplesmente queria ler todos esses livros que essas pessoas tinham lido. e da inevitabilidade das leis históricas.152 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 153 que claramente tornou-se um típico ministro da Coroa.org . Realmente todos fazemos isso. de qualquer modo. vol. Isto é. mas o cidadão.

Barnard: Realmente gostaria de saber que evidência há para dizer que há esta distinção entre interesses e opiniões na visão de democracia dos Pais Fundadores. e opiniões. não apenas no âmbito da Antiguidade. auctoritas in senatu. Isto subjaz ao pensamento dos Pais Fundadores. Por outro lado. Eles eram chamados maiores. Desse modo. pelo contrário. *** F. mediante um grupo de pessoas que está um ou dois passos afastado desta influência direta. Uma grande parte de suas ditas obras reunidas constitui-se apenas de excertos. por sua proximidade imediata. mas sinto a mesma falta da Antiguidade que os grandes revolucionários do século XVIII sentiam. é “todos contra um”. Esta distinção está claramente lá. É o caso do sujeito com a metralhadora que mantém a todos em um estado de perfeita obediência. O que Adams fez? Ele colecionou constituições do mesmo modo como outras pessoas colecionariam selos. Arendt: No momento não posso citar coisa alguma. quando tenho de tomar uma decisão. Goiânia. o modelo era a res publica. Esta é também uma das razões pelas quais estavam extremamente interessados em ter um Senado – muito mais interessados do que qualquer pensador europeu jamais esteve. Em Roma. Não há dúvida de que a violência sempre pode destruir o poder: se tiverem um mínimo de pessoas que estejam dispostas a executar suas www. religando-a ou conectando-a com o passado de Roma. o Senado. que conheciam isto muito bem. Resulta do romano potestas in populo. que estão sempre lá. mas também sobre la grandeur e la misère de Roma.org . n° 2. O modelo de homem desta república era.2010. por assim dizer. até certo ponto. Isso é o que de fato temos em mente. o cidadão da polis ateniense. mas esta opinião tinha uma espécie de autoridade. Esta distinção entre as duas instituições é certamente muito antiga. estavam representando a constituição de Roma.154 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 155 criar e que chamaram de república. o símile que emprego. os interesses dos habitantes. Afinal ainda temos as palavras daquela época e elas ecoam através dos séculos. O extremo da violência é o oposto: um contra todos. entre a noção de interesses de grupo. Assim. 1. Nesse sentido. até certo ponto de pouco interesse. Ele disse que para esta época moderna precisamos de uma nova ciência. dos romanos. em primeiro lugar. Sabemos que Montesquieu não escreveu apenas L’Esprit des lois. a coisa pública. Eles ensinaram a si próprios uma nova ciência e chamaram-na uma nova ciência. A distinção é. nenhuma violência é necessária para dominar alguém. mas pretendo antes pensar sobre estas coisas. Queria dizer uma nova ciência da política e não a nuova scienza dos séculos anteriores. de Vico.inquietude. ago/dez . o Senado tinha na República Romana uma função completamente diferente daquela da plebe. vol. *** Deixe-me falar agora por um momento sobre a relação entre violência e poder. O senador romano estava lá apenas para dar sua opinião. o Senado era destituído de poder. o extremo do poder é todos contra um. Tocqueville foi o último a ainda falar sobre isso. M. Temos isso na própria constituição: supunha-se que o legislativo [a Casa dos Representantes] representava mais ou menos Inquietude. presumivelmente filtrava esses interesses e chegava a algum tipo de opiniões imparciais que se relacionariam com o bem-comum. Quando falo sobre o poder. Todos eles estavam absolutamente fascinados. Ou seja. A influência dos romanos sobre as mentes desses homens era mais forte. Não creio que resulte algo muito tangível de tudo que pessoas como eu estamos fazendo. Sentiam que precisavam filtrar as opiniões imediatamente provenientes das partes interessadas. na medida em que não era inspirada pela potestas da plebe. de tal modo que não são mais necessárias opinião e persuasão alguma.

Isto é. Venho de um contexto socialista. *** Nunca fui uma liberal. Meus pais eram socialistas. do ponto de vista subjetivo de ser forçado. esqueci [de mencionar isso]. que é poder: o contrapoder.inquietude. Devo dizer que não me importo. Não se pode dizer: “Desculpe-me. Quando disse o que não fui. Você sabe que o único grupo a que certa vez pertenci foi o dos sionistas. Com efeito. que eles inglesaram para a Partisan Review. Descobriram então esse poder que pode ser inspecionado apenas por meio de uma coisa. Goiânia. Assim. Ele não pode mais manter sua posição. como sabemos. A única possibilidade de defender-se enquanto um judeu e não enquanto um ser humano – o que eu penso ter sido um grande erro. Não pertenço a grupo algum. é claro que obedeço imediatamente. ago/dez . dentre todas as coisas. não há mais qualquer possibilidade de surgir uma nova estrutura de poder que sirva como uma base suficiente para a tirania continuar – a menos. Se considerarmos o poder sem qualquer violência. Mas no que concerne ao meu poder. Quando cheguei a este país. Nunca fui uma comunista. pois se você é atacado enquanto um judeu. uma dissidente ou Deus sabe o quê. Isto é o que Montesquieu queria dizer quando falou que a tirania é a única forma de governo que traz consigo o germe da sua própria destruição. todavia. Os Pais Fundadores. Depois disto me desvinculei. Suponho que nunca tive uma posição como essa. Quando consegui falar com eles sobre o “inglesamento”. tem de se defender enquanto um judeu. Não havia outra possibilidade. sou um ser humano”. Não penso que as verdadeiras questões deste século recebam qualquer tipo de iluminação por esse tipo de coisa. e eu estava rodeada por esse tipo de tolice. Realmente não sei e nunca soube. por meio da tirania. ela é tão opressora que você de fato pode atingir o indivíduo. Isto se deu apenas por causa de Hitler. uma vez que a violência tenha destruído a estrutura de poder. vol. mas eu mesma nunca fui. www. é claro. por isto ingressei na política judaica – não exatamente na política: ingressei na assistência social e estive de algum modo também ligada à política. senão te mato”. Nunca foi uma socialista. então a situação de todos contra um é provavelmente psicologicamente mais forte que a outra situação de um contra todos. Após todos serem privados de poder. Então um dos editores se dirigiu ao outro na sala contígua e deixou-me lá. porque enquanto obedeço. Você sabe que a esquerda pensa que sou conservadora e os conservadores algumas vezes pensam que sou de esquerda. ainda que não se deixe subjugar pela violência. na situação em que alguém coloca uma faca em minha garganta e diz “O dinheiro. temiam o governo da maioria – e de modo algum eram defensores da democracia pura. Nunca acreditei no liberalismo. Nunca quis algo desse tipo. a situação de todos contra um. este seria o governo ilimitado da maioria. li este artigo e lá. Ouvi por acaso ele dizer. escrevi em meu inglês muito vacilante um artigo sobre Kafka. Temos visto isso muitas vezes. e foi de 1933 a 1943. 1. a menos que seja limitado por leis. aparecia a palavra “progresso”! Eu disse: “O que você quer dizer com isto? Nunca usei essa palavra”. n° 2. O que a violência nunca pode fazer é gerar poder. Arendt: Não sei.org . Isto é tolo. O equilíbrio do poder inspecionando o poder é uma intuição de Montesquieu que os redatores da Constituição tinham bastante em mente. que a forma de governo seja mudada por inteiro. de fato em um tom de desespero: “Ela não acredita nem mesmo no progresso!”. a violência sempre pode reduzir o poder à total impotência. é claro.156 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 157 ordens. de modo que não posso responder a questão. Se tivermos.2010. eu não concordo. etc. permaneço como estava antes. não sou um judeu. PenSamento Político Sem um corrimão Hans Morganthau: O que é você? É uma conservadora? Uma liberal? Qual sua posição dentro das possibilidades contemporâneas? Inquietude. nenhuma nova estrutura de poder surge.

Ele não compreendeu esta coisa estritamente política. se representa o infortúnio terrível de outras pessoas. então é claro que a reação é a de que você é simplesmente ignorado – e este tem sido muito frequentemente o meu caso. mas habitualmente é ignorado. 1. Os conservadores foram os primeiros a apresentar essas várias críticas. vol. sou compreendida muito bem. Não me importo com isso. n° 2. Você pode dizer que isto é realmente um defeito meu. a saber. Ele é o único que realmente se atreveu a considerar este novo processo de produção do início ao fim – processo este que se arrastou na Europa no século XVII e prosseguiu nos séculos XVIII e XIX. Todo o moderno processo de produção é efetivamente um processo de expropriação gradual. por conseguinte. especialmente da chamada direita. por assim dizer. Você disse muito amavelmente que quero compartilhar. de fato. De modo que eu sempre me recusaria a fazer uma distinção entre os dois. é verdade. enquanto o socialismo conduz a expropriação a seu fim lógico e está. Além disso. porque mesmo as polêmicas proveitosas não podem ser travadas em meus termos. eu não me encaixo. por alguma razão. Para mim é. De fato não estou na atual corrente dominante do pensamento político atual ou em qualquer outra. pensou que isto era uma grande coisa. Mas se você aparece com uma coisa como esta e retira das pessoas seus corrimões – suas seguras linhas de orientação (então falam sobre a ruptura da tradição. Bem. Goiânia. Mas viu uma coisa. Marx estava inteiramente correto – só que o resultado final do processo é o inferno e não o paraíso. e nesse sentido Karl Marx estava inteiramente correto. uma tendência a destruir todas as leis que estiverem no caminho de seu progresso cruel.2010. O que hoje é chamado de socialismo humano significa apenas que esta tendência cruel que começou com o capitalismo e seguiu adiante com o socialismo encontra-se de algum modo temperada pela lei. Sim. que mais tarde foram assumidas pela esquerda e. O que Marx não compreendeu foi o que realmente é o poder.158 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 159 *** Mary McCarthy: Onde você se situa frente ao capitalismo? Arendt: Não compartilho do grande entusiasmo de Marx com relação ao capitalismo. que poderia ser usado www. eu não acredito no poder do negativo. não quero doutrinar. A razão é muito simples: o capitalismo começou com a expropriação e esta é a lei que desde então determinou [o seu desenvolvimento]. por exemplo. da negação. Entretanto. tem Inquietude.org . por outro lado. Não quero dizer que sou incompreendida. Isto é realmente verdade. Então você me pergunta onde estou: não estou em parte alguma. mas mesmo assim ninguém compreende o que estou falando. XVIII e XIX foi certamente esmagadora. Pelo contrário. perceberá que é o maior louvor ao capitalismo que você jamais viu. não porque queira ser tão original – acontece que. em uma via sem quaisquer influências moderadoras.inquietude. ago/dez . Algumas vezes você é atacado. É claro que ele era também um hegeliano e acreditava no poder do negativo. Assim. é claro. penso eu. Ele estava rodeado pelas mais horríveis consequências deste sistema e. Em um sentido Marx estava inteiramente correto: o desenvolvimento lógico do capitalismo é o socialismo. deixado a seus próprios mecanismos. Não quero que alguém aceite tudo quanto eu venha [a pensar]. Este negócio entre capitalismo e socialismo. Isto temos de ter em mente quando lemos o grande louvor de Marx ao capitalismo. a crueldade do capitalismo nos séculos XVII. quero compartilhar. parece-me a coisa mais óbvia no mundo. o mesmo movimento. também por Marx. Mas. todavia. acho que essa espécie de desconsideração pela literatura principal em minha própria área é algo. que o capitalismo. mas não percebem o que isso significa! O que isso significa é que realmente estamos em uma fria!). e isto na época em que o capitalismo já estava sob o mais agudo ataque. Se você ler as primeiras páginas do Manifesto Comunista.

Mas para retornar às próprias distinções – diria que cada uma. n° 2. Isto cortaria muito mais profundamente se alguém dissesse: “Por que você não lê os livros de seus colegas?”. ou em sua pequena casa. Acontece que perdemos este corrimão. rigorosamente separado do social. dentro deste espaço livre –. Em todo caso. de modo que todo este espaço criado por ela está efetivamente mobiliado. Esta é a situação desde a metade do século XIX e. fama de reputação”. Arendt: É completamente correto o que você diz sobre distinções. Cada uma de suas obras é um desdobramento de definições que certamente tratam do assunto e o iluminam cada vez mais.2010. Digamos que a fama vive em sua pequena casa. que também fez o mesmo. em que há uma espécie de obscuridade verbal rondando a maior parte dos discursos. Ou seja. e. *** www. Em alemão. Mas acho que é mesmo uma falha e não apenas uma lacuna. mas conservei para mim mesma. Sempre começo qualquer coisa – não gosto de saber muito bem o que estou fazendo – sempre começo qualquer coisa dizendo: “A e B não são iguais”. e que a reputação vive em outra. nunca se conhece a si próprio. em grande medida. Inquietude. com sua arquitetura. Sempre pensei que se tem de começar a pensar como se ninguém o tivesse feito antes e a partir de então começar a aprender com os demais. Além disso. *** Mary McCarthy: Hannah Arendt cria em sua obra um espaço no qual se pode entrar com a magnífica sensação de passar por um arco rumo a uma área liberada que é. maravilhoso desdobramento de definições. enquanto você sobe e desce as escadas. Você disse “pensamento sem fundamento”. Isto provém precisamente de Aristóteles. em sua casa. etc. uma das razões é que a possibilidade de fazer distinções não é acessível ao leitor comum. *** Este assunto de que a tradição está rompida e que o fio de Ariadne se perdeu. e o político é. para você. a obra em outra. ou “Porque faz isso tão raramente?”. ago/dez . Distingo trabalho de obra. Goiânia. de Tomás de Aquino. isto não é tão novo quanto eu fiz parecer ser. dentro desta área liberada. de modo que isso é completamente inútil. A distinguo está muito próxima das raízes do pensamento de Hannah Arendt: “Distingo isto daquilo. vista da perspectiva de Tocqueville. vol.org .160 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 161 contra mim em algum momento. é completamente verdade. Este é efetivamente um hábito medieval de pensamento. o trabalho vive na sua.inquietude. você sabe que não reflito muito sobre o que estou fazendo. Arendt: É aristotélico! Mary McCarthy: Este hábito de estabelecer distinções não é popular no mundo moderno. na qual a fama vive em sua mansão. Afinal. cada distinção era como uma pequena casa. Bem. Arendt: Sem qualquer subsídio federal! Mary McCarthy: Penso que a possibilidade de revigoramento e oxigenação combina-se com certo sentido de estabilidade e segurança. ocupada por definições. E isso se dá através da elaboração – do. poderíamos dizer. na medida em que uma distinção é desdobrada (após a outra). Eu o denomino pensamento sem corrimão. *** Há esta outra coisa que Draenos apresentou. Se Hannah Arendt provoca hostilidade. Tenho uma metáfora que não é tão cruel e que nunca publiquei. 1. Denken ohne Geländer. foi Tocqueville quem disse que “o passado cessou de lançar sua luz sobre o futuro e a mente do homem vagueia nas trevas”. e isto é o que de fato tento fazer. Este é o modo como digo isto a mim mesma. Hans Morganthau: Parece um projeto habitacional de baixa renda. Acho uma perda de tempo. Mas há também esta estabilidade. sempre se apoia no corrimão para que não caia no chão.

de modo extravagante. Penso que todo pensamento. tem a característica de ser experimental. Esta única linha foi suficiente para nós por duas semanas. Mas o pensamento mesmo sobre tal coisa ficou imensamente mais rico por meio dessa troca “sem reservas”. Um dos que eu me lembro foi ein gute Vers ist ein gute Vers. eu não deveria ter dito isso. www. querendo dizer com isso que tinha uma força própria de convencimento. A confiança na amizade é tão grande que você sabe que nada pode magoar. ago/dez .162 Sobre Hannah Arendt Hannah Arendt 163 Gostaria de dizer que tudo que fiz e tudo que escrevi é experimental. 1. algo em que ele não acreditava inteiramente. talvez um pouco além da conta. O que era tão grandioso nessas conversas com Jaspers é que se podia manter por semanas tal esforço – que era apenas experimental. que eu anunciei. Goiânia. A discordância nunca foi totalmente solucionada. Uma boa linha de poesia é uma boa linha de poesia. pois irá magoá-lo”. no modo como tenho me permitido me envolver com ele. que não almejava quaisquer resultados.org . em duas sessões por dia.2010. Retornamos a esse assunto repetidas vezes. Podia nos acontecer que eu chegasse – permaneceria lá por poucas semanas – e no primeiro dia topássemos com algum assunto. como ele designou – quer dizer.inquietude. A questão para mim era convencê-lo de que Brecht era um grande poeta. vol. Inquietude. n° 2. em que nada fica escondido. Você não pensa: “Ah.

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