Produção de biodiesel em escala piloto: Parte 3 - Aspectos ambientais

de ALMEIDA NETO, José Adolfo1 (PQ), DUTRA, Alanna Costa2 (PG); PIRES, Mônica de Moura1 (PQ); da CRUZ, Rosenira Serpa1 (PQ); de OLIVEIRA, Ana Maria1 (PQ), ROBRA, Sabine1 (PG); BARRETO, Tiago1(IC) 1 Universidade Estadual de Santa Cruz, Grupo Bioenergia e Meio Ambiente, Rodovia Ilhéus-Itabuna, km 16, - lhéus, Bahia, 45650-000 jalmeida@uesc.br 2 Universidade de São Paulo, Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, Rua do Matão, 1226 - Cidade Universitária, Butantã - São Paulo - SP – 055-08900

1 Introdução
A exemplo da Alemanha e de outros países, foram retomadas no Brasil as pesquisas e estudos para a produção de biodiesel a partir de óleos e gorduras vegetais in natura e residuais como: o óleo de soja, o azeite de dendê e óleo usados proveniente de frituras (ANGGRAINI SUESS, 1999). Caso este óleo não fosse reaproveitado na produção do biodiesel, ele seria, em sua maior parte, descartado no ambiente sem maiores cuidados, com impactos negativos ao meio e à saúde humana. Um dos objetivos das pesquisas é, além do aproveitamento de resíduos, a produção de um combustível que apresente vantagens ambientais em relação ao seu concorrente fóssil, o diesel. Teoricamente, espera-se que a utilização do biodiesel proporcione uma diminuição relativa na emissão de gases relacionados ao efeito estufa, tendo em vista a origem fotossintética da biomassa para sua produção. Sabe-se, porém, que qualquer processo produtivo provoca emissões gasosas, geralmente associadas aos processos de extração, transporte e uso final do produto ou serviço. Pela relevância ambiental foram escolhidas, nesta análise, as categorias de impacto ambiental efeito estufa e chuva ácida, sendo as emissões de gases estufa (GEE) (CO2, N2O, CH4, CO, CFCs, CCl4, etc.) e de gases que provocam a chuva ácida (SO2, NO2, NH4, HCl) apresentados na forma de CO2 e SO2 equivalentes, seguindo metodologia proposta pelo IPCC (IPCC, 2000). O objetivo da avaliação do ciclo de vida é fornecer subsídios para uma análise ambiental do desenvolvimento e da implementação de uma tecnologia para o aproveitamento de óleos e gorduras residuais (OGR) como combustível, comparando inicialmente as emissões de CO2 e SO2 equivalentes ao longo das cadeias de produção do biodiesel e do diesel de petróleo, associando dados de entrada e saída de materiais (produtos, resíduos, emissões e poluentes) e de energia (calor e eletricidade). Nesta avaliação, faz-se a identificação e análise criteriosa dos efeitos ambientais provocados pelo sistema de produção do diesel convencional, comparativamente ao biodiesel produzido de OGR na unidade piloto da UESC.

2 Materiais e Métodos
Para analisar comparativamente os efeitos ambientais decorrentes da produção do biodiesel com o diesel utilizou-se do método de análise de ciclo de vida (ACV). Neste método, considera-se que o início de ciclo de vida de um produto ocorre quando os recursos para sua produção são extraídos de sua origem, a natureza – denominado de berço - e finaliza quando o material retorna para a terra - o túmulo. A ACV é, portanto, conhecida como análise ”do berço ao túmulo” (BURGUESS; BRENNAN, 2001; UNEP, 2005). Essa análise tem suas linhas gerais estabelecidas por um conjunto de normas da série ISO 14040. Nesse contexto, pode-se defini-la como um método capaz de ”.. avaliar um produto, atividade ou processo, identificando e quantificando a energia, os materiais utilizados e os resíduos liberados para o meio ambiente, com o objetivo de por em prática melhorias ambientais” (SETAC, 1991).
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O contato é feito. comparados e validados com base em dados da literatura e de processos equivalentes encontrados no banco de dados. • 281 • .. As principais fontes de energia utilizadas na planta de produção de metanol são elétrica e vapor (gerado a partir da queima de gás natural). Os dados encaminhados pelas empresas são analisados. são coletados através de contatos e parcerias com as empresas fabricantes das principais matérias-primas envolvidas no processo de produção. construir um inventário de entradas e saídas do sistema. pode-se começar a avaliar os fluxos de materiais. É em seguida comprimido por um compressor alternativo. 2002). permitindo assim. A realização da ACV de um produto está condicionada à definição de um sistema de controle. Sendo identificadas as fronteiras do sistema.Produção de biodiesel em escala piloto: Parte 3 . por telefone e. e chega à planta de produção de metanol através de um gasoduto. 1991).(GEMIS. ou e-mail. gás carbônico e vapor d’água.2005). As energias e materiais auxiliares considerados são hidróxido de potássio (KOH) e metanol (CH3OH). Figura 1 – Fluxograma simplificado das etapas da ACV.Aspectos ambientais A avaliação do ciclo de vida permite: uma contabilização ambiental. 3 Resultados e Discussão Assumiu-se que o início da cadeia de produção do biodiesel ocorre a partir da coleta de óleos e gorduras residuais. B-20 (20% de biodiesel) e B-100. ou mapeamento dos fluxos de produção e uso dos produtos analisados e a definição da “unidade funcional”. O gás natural é fornecido pela indústria de petróleo do Brasil. acionado por um motor elétrico (Figura 2).km). aplicado em um modelo de ônibus que atende ao padrão de emissões da Etapa IV do CONAMA (EURO II). De forma simplificada (Figura 1). 2001). Em seguida os dados são inseridos no banco de dados do programa computacional GEMIS e classificados conforme sua qualidade e confiabilidade. um monitoramento do resultado final. e– interpretar os resultados (BURGUESS. avaliar os impactos resultantes. combustível de origem fóssil e o ciclo de vida completo (produção. onde se consideram as retiradas de recursos naturais e energia da natureza e as ”devoluções” para o meio ambiente. Dois cenários comparativos são utilizados para estudar as duas categorias ambientais escolhidas: A produção de 1 TJ1 de biodiesel . produzido a partir de óleos e gorduras residuais versus a produção de 1 TJ de diesel. e a avaliação dos impactos ambientais potenciais relativos às entradas e saídas do sistema (MOURAD et al. BRENNAN. O metanol é produzido a partir de gás natural. inicialmente. distribuição e uso final) com aplicação das misturas biodiesel/diesel em diferentes proporções: B-5 (5% de biodiesel). energia e emissões no interior desta e definir processos de alocação de gastos energéticos e emissões (SETAC. com as emissões medidas em unidade de massa por pessoa-quilômetro (g/P. Os dados sobre o ciclo de vida de cada produto incluído neste estudo. as principais etapas empregadas na condução de uma ACV são: definir escopo e objetivos.

sendo que cada processo é submetido ao mesmo balanço realizado para o biodiesel A Figura 3 apresenta um fluxo com as principais etapas e limites estabelecidos para o sistema de produção do diesel. pelo processo de transporte e processo de refino do óleo diesel.O ciclo de produção de diesel convencional brasileiro é baseado nos processos de extração de óleo cru offshore (marítima) e onshore (terra firme) importado ou não. No caso dos gases da chuva ácida. um nível médio de emissões de GEE maior do que o diesel de petróleo. ciclo de vida completo. na fase de produção. sendo que a maior influência nas emissões na cadeia do biodiesel provém da cadeia de produção do metanol. Os resultados apontam que o biodiesel de OGR apresenta. a emissão média do diesel foi maior e está relacionada aos teores médios de enxofre superiores do diesel nacional. menor do que o diesel de petróleo. No caso dos gases da chuva ácida o resultado manteve-se favorável ao biodiesel (Figura 3). o biodiesel de OGR apresenta um nível médio de emissões (kg/MJ) de GEE. No caso do cenário 2. • 282 • .

sendo aconselhável a inclusão de outras categorias ambientais na análise do ciclo de vida para uma avaliação mais completa. Os resultados apontam vantagens ambientais para o biodiesel de OGR em relação ao diesel. no ciclo de vida completo o biodiesel emitiu menos que o diesel de petróleo. a relação. não contemplam a totalidade dos impactos ambientais potenciais dos dois combustíveis. tendo em vista a forte redução dos níveis de enxofre previstos na legislação ambiental para o diesel a curto e médio prazos. No caso dos gases provocadores da chuva ácida. na fase de produção. nos cenários de produção e ciclo de vida completo.Aspectos ambientais Figura 3 – Comparação entre as emissões de diesel. hoje.Produção de biodiesel em escala piloto: Parte 3 . tende ao equilíbrio no futuro. Os dados obtidos na comparação do ciclo de vida do Biodiesel versus Diesel confirmam as tendências encontradas na literatura para o biodiesel obtido a partir da transesterificação metílica de outros óleos e gorduras. pois a emissão de CO2 do biodiesel na combustão não pôde ser qualitativamente classificada como gás estufa. bastante favorável ao biodiesel. porém. que é de origem fóssil. as categorias avaliadas. haja vista a origem fotossintética da matéria-prima residual. ao contrário da emissão de CO2 do diesel na combustão. apesar de importantes. de colza (Austrália) e OGR (Alemanha). • 283 • . biodiesel e misturas B-20 e B-5. como os óleos de soja (EUA). 4 Conclusão Apesar de a emissão de GEE do biodiesel ser maior que a do diesel.

MOURAD. E.. IPCC.eu. 2002. D. GARCIA.: Wiederverwertung von gebrauchten Speiseölen/-fetten im energetischen-technischen Bereich: Ein Verfahren und dessen Bewertung.Ber. 2000. J. Acesso em: 21 jan.unepie. Editora VDI. Campinas: CETEA/CEMPRE.org/pc/sustain/home.iges. Acesso em: 28 nov. E.. L. A.gemis. 2589-2604. GEMIS. Disponível em: www. BRENNAN. Tese de doutorado. 1999.int/.htm. Towards the Global Use of Life Cycle Assessment. United Nations Publication. A. Acesso em: 19 out.Referências bibliográficas ANGGRAINI SUESS. Duesseldorf. Sociedade de Toxicologia Ambiental e Química. UNEP.jp/public/gp/pdf/ Acesso em 10 jun. 2003. BURGUESS. www. Application of life cycle assessment to chemical process. A. Chemical Engineering Science 56 (2001) p. • 284 • .. 2005. www. Documentação on-line.ipcc-nggip.de. 1991. 2005.or. A. VILHENA. 2005. http://europa. Código de Procedimento.A. Educação ambiental e Pesquisa ambiental e desenvolvimento. SETAC. A. Avaliação do ciclo de vida: princípios e aplicações. Fortschr. Öko-Institut. C. 219. 92 p. IPCC Good Practice Guidance and Uncertainty Management in National Greenhouse Gas Inventories. VDI série 15 n.

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