Debate

RTP: privatizar ou não privatizar, eis as questões
Por João Pedro Figueiredo

Pode o Estado renunciar à prestação de um serviço público de media? Não. A Constituição incumbe o Estado de assegurar a existência e o funcionamento de um serviço público de rádio e de televisão (art.º 38.º, n.º 5). O serviço público de rádio e de televisão (SPRTV) pode ser "privatizado"? Em Portugal, o SPRTV não pode ser assumido, ainda que em regime de concessão, por entidades cujo capital seja maioritariamente privado. A lei fundamental prevê a existência de um sector público da comunicação social (art.º 38.º, n.º 6), garantia institucional da liberdade de comunicação, independente de interesses económicos, que desapareceria com a opção de exploração ou gestão do SPRTV pelo sector privado. A CRP é clara: "O sector público é constituído pelos meios de produção cujas propriedade e gestão pertencem ao Estado ou a outras entidades públicas" (art.º 82.º, n.º 2). Consciente do facto, o projeto de revisão constitucional 1/XI, apresentado pelo PSD em 2010, tinha precisamente como objetivo permitir a abolição do sector público da comunicação social, propondo que "a estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação social do sector público, quando exista, devem salvaguardar a sua independência perante o Governo, a Administração e os demais poderes públicos (...)". E pode o Estado alienar canais do SPRTV? Não. A Constituição estabelece que "as estações emissoras de radiodifusão e de radiotelevisão apenas podem funcionar mediante licença, a conferir por concurso público" (artigo 38.º, n.º 7). Assim, um operador privado não pode adquirir o direito de emitir através das frequências radioelétricas atualmente ocupadas por canais da RTP senão na decorrência de um ato legislativo de desafetação e da ulterior abertura de um concurso público. O Estado pode abdicar de um canal do SPRTV, suspendendo ou descontinuando a sua emissão? Um canal free-to-air é muito importante na economia da prestação do serviço público, visto que é o meio mais eficaz para chegar a praticamente toda a população. A Lei da Televisão prevê a existência de dois canais generalistas de âmbito nacional de acesso totalmente livre, complementares entre si. Uma vez que o SPRTV é uma garantia institucional que beneficia do especial regime dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, a suspensão de canais em aberto da RTP teria que revestir a forma de lei, estar circunstanciadamente justificada pela salvaguarda de outros interesses

constitucionais e nunca poderia significar a amputação de componentes essenciais da prestação do SPRTV, sob pena de se tornar inconstitucional. Quais são as componentes essenciais da prestação do SPRTV? Não obstante a definição do serviço público competir ao Estado, a sua conceção não pode deixar de assentar em vários princípios, sob pena de violação do seu núcleo essencial. Os princípios da universalidade - chegar a todos os públicos e através de todas as plataformas possíveis; do pluralismo - representar a expressão e permitir o confronto das diversas correntes de opinião; da diversidade - multiplicar os géneros, temas e interesses suscetíveis de tratamento pela comunicação social; da igualdade programar, de modo não discriminatório, para os diversos sectores da sociedade; da coesão e integração nacional - refletir na sua programação, através de referenciais comuns (valores e gostos), as necessidades e os interesses da população no seu todo e em particular das minorias sociais; da qualidade - pautar a sua programação por uma exigente ética de antena e pela promoção de atividades educativas, desportivas, culturais; da inovação - adaptar-se tecnologicamente e promover a experimentação ao nível dos conteúdos, são alguns dos princípios que necessariamente norteiam o SPRTV, suscitando largo consenso na doutrina nacional, nas instâncias internacionais e na legislação dos países europeus. O Estado não pode adotar uma definição "minimalista" de serviço público? A definição de SPRTV não pode envolver a sua própria negação. A Comunicação da Comissão n.º 2009/C 257/01 acolhe as conclusões da resolução do Conselho relativa ao SPRTV, de 25.01.1999, onde se estabelece que "um amplo acesso do público, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades, a várias categorias de canais e serviços constitui uma pré-condição necessária para o cumprimento das obrigações específicas do serviço público de radiodifusão". Assim, o serviço público não pode deixar de responder aos interesses dos diversos públicos, integrando várias categorias de canais e serviços de acesso livre que respondam às necessidades da sociedade no seu todo. Pode o serviço público de televisão ser prestado com um só canal livre de âmbito nacional? Cada vez menos, atenta a crescente diferenciação dos públicos e fragmentação das audiências. Um canal free-to-air que congregue informação, formação e entretenimento para o grande público não pode deixar de ser complementado por um ou mais canais de acesso livre que respondam às necessidades de públicos específicos e minorias. Tornarse-ia impossível oferecer num só canal, diariamente e em horários adequados: 9 horas de programação infantil diferenciada (pré-escolar, 1.º ciclo e 2.º ciclo), magazines culturais, religiosos e de promoção do conhecimento, divulgação das atividades de mais de uma centena de organizações da sociedade civil, documentários nacionais, séries e filmes de qualidade que não podem ser vistos noutros canais, hoje oferecidos pela RTP2; mais de 7 horas de informação, incluindo regional, debates, programas de valorização cultural e de entretenimento, com salvaguarda da dignidade das pessoas, hoje disponibilizados pela RTP1. A RTP cumpre o serviço público a que está obrigada?

Um estudo recente do Obercom (de 09.2011), demonstrando que "há, entre os portugueses, uma forte associação e identificação positivas face à ideia de um serviço público de televisão em Portugal", conclui não só que "a percepção dos inquiridos sobre o papel do serviço público quanto à qualidade da informação veiculada é francamente positiva", como também que em matérias como o pluralismo político e a diversidade da programação, a promoção da cidadania, a contribuição para a identidade nacional, o serviço público revela uma clara mais-valia face aos operadores privados. Além disso, o serviço público é, por força do sistema de fiscalização instituído, anualmente escrutinado por auditorias externas independentes e pela ERC, que o têm invariavelmente considerado cumprido, tanto nos aspetos de programação como financeiros. Nota-se, no entanto, que as questões do cumprimento e do ganho social gerado pelo SPRTV nunca foram sequer ponderadas pelas instâncias decisórias, permanecendo ocultas as razões que presidem ao desejo de "privatizar" o serviço público e de fechar um canal. O SPRTV em Portugal é caro? O SPRTV português representa hoje cerca de 230 milhões de euros (M€) de custos operacionais por ano. Em 2010, esses custos eram de 266 M€, cerca de 25 € por habitante/ano (2 €/mês, 7 cêntimos/dia), já então o custo mais baixo dos serviços públicos europeus. O valor dos fundos públicos aplicados no SPRTV correspondia a 0,13% do PIB, o que representa um desvio negativo de 23% em relação à média europeia. Por outro lado, o serviço tem sistematicamente apresentado, nos últimos anos, resultados operacionais positivos. Os números e os argumentos de sustentabilidade que têm sido apresentados por responsáveis governamentais como fundamento da eliminação de um canal carecem, deste modo, de autenticidade e até de racionalidade económica, tanto mais quanto se pretende simultaneamente eliminar a fonte de receitas que não depende do esforço público (30 M€ previstos em publicidade). Quanto é que o Estado poderia ganhar com a atribuição, em concurso público, de uma licença de rádio ou de televisão? As verbas resultantes da atribuição de licenças para o exercício da atividade de rádio ou de televisão constituem receita da ERC e não do Estado central. A lei que o estabelece é uma lei de valor reforçado, apenas podendo ser alterada por 2/3 dos deputados à AR. A emissão de uma licença para o exercício da atividade de televisão de âmbito nacional custa €286.518. Seria esse o "encaixe" direto com a "operação"... Por outro lado, os putativos ganhos de reestruturação com a também anunciada autonomização do centro de produção e de transmissão da RTP e a sua venda a entidades privadas têm de ser confrontados com o princípio da independência perante o poder económico inscrito na Constituição, visto que essa medida tornaria dependente de terceiros a operação do SPRTV. E o que ganha o Estado com a redução do âmbito da prestação do SPRTV? De acordo com a lógica do próprio Governo, os gastos com o funcionamento de um canal não são significativos, visto que grosso modo equivalem às receitas publicitárias da RTP1 de que - já o anunciou - estaria disposto a abdicar... As perdas, pelo contrário, são previsíveis e de grande impacto social. Perde-se serviço, que nunca será

compensado por qualquer operador privado que entretanto surja, cujo escopo será sempre o lucro e a maximização de audiências. Perde-se vitalidade no sector da produção independente, que deixa de ter um cliente preferencial. E perde-se empregabilidade e qualidade no sector dos media, se à medida suceder a entrada de um novo canal generalista privado a disputar o mercado publicitário da comunicação social nacional. A eliminação de segmentos importantes do serviço público é socialmente legítima? A diminuição do âmbito da prestação do serviço público não é um mero ato de gestão governativa, é uma questão nacional. A medida é condenada pelos partidos da oposição parlamentar e por elementos dos próprios partidos que formam o Governo. Mais do que isso, suscita o forte repúdio de amplos sectores da sociedade civil. Deve por fim recordar-se que ao vetar duas vezes, em 2008, a proposta de lei do pluralismo e da não concentração dos meios de comunicação social, o Presidente da República veementemente proclamou que as propostas de alteração no domínio do direito à informação não podem deixar de recolher o consenso interpartidário, mesmo que o governo proponente tenha maioria absoluta, "em virtude da importância desta matéria para a salvaguarda do Estado de direito democrático". O argumento reaparece em destaque na fundamentação do segundo veto, quando lembrou "a importância que atribu[i] a uma prática política e legislativa que procure amplos consensos parlamentares nas matérias que dizem respeito à liberdade de informação". Nota: As posições manifestadas neste artigo são estritamente pessoais

Público, 25-8-2012

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