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40 médicos portugueses apresentam 47 doenças raras

Doenças
de A a Z
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Este livro que a FEDRA (Federação de Doenças Raras de Portugal),
constituída o ano passado, decidiu organizar, com a colaboração
dos melhores especialistas nesta área, é apenas mais um passo no
caminho difícil que muitas almas de boa vontade têm percorrido,
com persistência, para aumentar o nosso conhecimento sobre pa-
tologias raras.
Doenças raras de A a Z. Talvez, de ajudar a entender até zelar pelo
seu tratamento.
As patologias raras devem também ser-nos preciosas porque exi-
gem muito de nós.
Eu própria fui atraída para a causa das doenças raras através de
uma pessoa, (com quem quis de imediato entrar em contacto), im-
pressionada pela dedicação que senti nesse envolvimento.
Com a Dra. Paula Costa, fundadora da Associação Raríssimas,
aprendi que a causa era uma doação, um acto de amor.
Prefácio
Tudo o que é raro atrai a nossa particular atenção. Raro é precioso.
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Porque dos fracos não reza a história e é importante dar a nossa
força aos que amamos e são mais fracos do que nós.
Ao longo destes tempos, em que, ajudada por muitas outras pessoas,
tenho tentado dar voz e visibilidade aos problemas e necessidades
das pessoas atingidas por patologias raras e suas famílias, o que mais
tenho aprendido é o valor inalienável da vida. Vida frágil, vida difí-
cil, mas vida que é sempre preciosa e rara, para quem a ama.
Tenho a certeza que este livro, que agora é posto à disposição de
todos os que se interessam pela causa das doenças raras e rarís-
simas, vai ser uma grande ajuda para desbravar estas patologias
ainda envoltas em enormes difculdades de diagnóstico, enormes
difculdades de tratamento.
Janeiro 2009
Maria Cavaco silva
Como todas as missões, não admitia desistências perante as dificuldades.
Que eram muitas. São sempre muitas. Mas não de molde a quebrar os ânimos.
Vida que acorda o que de melhor temos dentro de cada um de nós.
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A Acondroplasia é a forma mais frequente de baixa estatura desproporcionada de ori-
gem genética nas crianças e adultos, atingindo ~ 1 em 15.000 recém-nascidos vivos.
Há uma grande variabilidade no grau de gravidade e semelhança com outras condro-
displasias, tornando o diagnóstico diferencial por vezes difícil, sobretudo no recém-
-nascido e crianças, pelo que deve ser sempre consultado um perito. A inteligência
e longevidade são normais. As etapas das aquisições motoras (controle da cabeça,
sentar, gatinhar, andar…) podem ser mais atrasadas.
As características físicas mais frequentes são a baixa estatura desproporcionada, com en-
curtamento dos 4 membros a nível da raiz (rizomélico) provocando pregas da pele redun-
dantes; tronco de dimensões aproximadamente normais, com cifose (encurvamento da
coluna para fora) dorsal no lactente e hiperlordose (encurvamento da coluna para dentro)
lombar após aquisição da marcha; cabeça grande (macrocefalia) com fronte alta e proe-
minente (bossas frontais); face com hipoplasia da zona média e nariz de base achatada;
limitação na extensão dos cotovelos; mãos pequenas com confguração em tridente e de-
dos curtos (braquidactilia), tórax estreito sobretudo nos lactentes; pernas arqueadas (genu
varum) = varismo; hipotonia (diminuição da força muscular) no lactente.
A estatura fnal nos homens varia entre 120-145 cm e nas mulheres entre 115-137 cm
A observação cuidadosa do doente faz habitualmente suspeitar do diagnóstico logo
ao nascimento, confrmando-se, depois, através de radiografa do esqueleto que mos-
tra, entre outros sinais, os membros curtos rizomélicos com metáfses (extremidades)
alargadas, o perónio alongado em relação à tíbia, a bacia com ilíacos quadrados com
acetábulos planos e espinhas esquiáticas diminuídas, o característico estreitamento
ou manutenção da distância interpedicular na coluna lombar, as vértebras cubóides
com pedículos curtos, bem como as alterações nas mãos e no crânio. O diagnóstico
diferencial com Hipocondroplasia e outras displasias pode ser difícil.
Acondroplasia
Há uma grande variabilidade no grau de gravidade e semelhança
com outras condrodisplasias, tornando o diagnóstico diferencial
por vezes difícil, sobretudo no recém-nascido e crianças,
pelo que deve ser sempre consultado um perito.
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A
Existem actualmente normas de orientação clínica para estes doentes, que devem
ser vigiados em consultas multidisciplinares que podem envolver Pediatria, Ortope-
dia, ORL, Neuropediatria e Neurocirurgia, Fisiatria, Estomatologia, Genética, etc. O
apoio de equipas de estimulação precoce motora pode ser útil.
É essencial a vigilância de eventual compressão medular por estenose do canal cér-
vico-medular (Foramen Magnum), sobretudo nas crianças pequenas, que pode con-
dicionar, por exemplo, a hipotonia e outras alterações neurológicas, hidrocefalia e
apneias de sono. Deve haver cuidados especiais aquando das anestesias e evitar a pos-
sibilidade de riscos de impacto (desportos violentos, trampolim, certos exercícios de
ginástica, ski, hóquei, rugby, patinagem, etc.). Esta situação pode levar a risco de vida,
com necessidade de intervenção cirúrgica urgente de descompressão. Nos adultos, a
queixa mais frequente é a estenose espinal lombar L1-L4 sintomática.
Os doentes com Acondroplasia têm maior risco de desenvolver otites serosas. Há
também maior risco de complicações ortopédicas.
O crescimento deve ser vigiado em tabelas próprias de percentis e deve haver especial
atenção à evolução do perímetro craniano. A obesidade é um risco importante. O
tratamento com Hormona de Crescimento é controverso e os seus resultados limita-
O Especialista
Margarida Maria Fernandes Reis Lima
Licenciada em Medicina pela Universidade do Porto, em 1977
Estágio na Child Development Unit do Children’s Hospital de Boston, USA
Estágio no Serviço de Neuropediatria do Guy’s Hospital e no Child Development
Newcomen Centre, Londres
Especialista de Pediatria Médica
Especialista em Genética Médica
Chefe da Unidade de Consulta do Instituto de Genética Médica Jacinto Magalhães
Adjunta da Directora do Instituto de Genética Médica Jacinto Magalhães de 2002 a 2008
Coordenadora Nacional da ORPHANET (Base de Dados online sobre Doenças
Raras e Medicamentos Órfãos)
Coordenadora da Genética Médica no Hospital Privado da Boavista (Grupo HPP)
6
Para saber mais
www.orpha.net
www.genetests.org
www.rarediseases.org
www.emedicine.com/ped
dos, pelo que habitualmente não é aconselhado, devendo ser discutido caso a caso. A
cirurgia de alongamento ósseo já é actualmente acessível no nosso país.
A Acondroplasia é uma doença monogénica de transmissão autossómica dominan-
te (manifesta-se desde que haja um gene com mutação), com 100% de penetrância,
causada por mutações no gene FGFR3, situado no cromossoma 4p, e que codifca o
receptor 3 do factor de crescimento fbroblástico da cartilagem. Em 98% dos casos
trata-se da mutação G1138A e em 1% dos casos a mutação é a G1138C.
O estudo molecular permite a confrmação do diagnóstico nos casos de dúvida, per-
mite o aconselhamento correcto e o acesso a diagnóstico pré-natal específco.
A maioria dos doentes – mais de 80% – tem pais de estatura normal, pelo que a doença
é esporádica e resultou de uma mutação “de novo” que ocorreu pela primeira vez no
próprio. Há um risco evidente associado à idade paterna avançada (mais de 40 anos).
Os pais de estatura normal têm um risco muito baixo de ter outro flho afectado –
cerca de 0,02% – pois as mutações gonadais são raras.
Se um dos pais tem Acondroplasia (um gene com mutação), há um risco de 50% de
ter um flho afectado em qualquer gravidez futura.
Se os dois pais tiverem Acondroplasia, há um risco de 25% de ter um flho de estatura
normal , um risco de 50% de ter um flho Acondroplásico (1 gene com mutação) e um
risco de 25% de ter um flho com Acondroplasia Homozigótica ( 2 genes com muta-
ção). Esta situação é muito grave e provoca habitualmente morte no período neonatal
por problemas respiratórios.
É possível fazer diagnóstico pré-natal ecográfco, mas este é tardio (3º trimestre). É
possível efectuar diagnóstico pré-natal molecular, através de amniocentese ou biópsia
das vilosidades, estando habitualmente reservado para situações específcas.
Os riscos, as vantagens e desvantagens do diagnóstico pré-natal, devem ser sempre dis-
cutidos e planeados em consulta de aconselhamento genético, antes de nova gravidez.
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A
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A Acromegalia é uma doença rara, ocorrendo 3 a 4 novos casos por milhão, por
ano. A designação provem de “acro” – extremidades “megalo” grande, traduzindo
o crescimento dos tecidos moles do organismo que torna as características faciais
mais rudes e grosseiras e causa aumento do tamanho de mãos e pés. Resulta da se-
creção excessiva de somatotrofina (ST) ou hormona de crescimento. A causa mais
frequente é um tumor benigno (adenoma) das células da hipófise produtoras de
ST. Estas células da hipófise anterior, localizada na região do meio da cabeça abai-
xo do cérebro. Desenvolve-se muito gradualmente e pode ser diagnosticada após
a doença estar presente há vários anos (7-8 anos). A Acromegalia pode provocar
complicações graves e mesmo a morte, se não tratada. A maioria dos doentes
pode, no entanto, ser tratado com sucesso.
Como se manifesta a Acromegalia? O excesso de ST estimula a produção de ou-
tra hormona denominada IGF-1 ou somatomedina por mediar a acção da ST. O
IGF-1 estimula o crescimento da pele, tecido conjuntivo, cartilagem, osso, órgãos
e outros tecidos do organismo. A Acromegalia pode também apresentar-se por
manifestações resultantes da compressão das estruturas adjacentes. A diminuição
dos campos de visão terá sido a razão pela qual o pequeno David se conseguiu
aproximar do gigante Golias, sem ser visto e, com uma pedrada atingiu este por-
tador de um tumor produtor de ST.
O crescimento exagerado dos tecidos moles, cartilagem e ossos da face, mãos
e pés são as manifestações mais importantes: o nariz, os lábios, as orelhas e a
fronte são grosseiras, a língua aumenta, os espaços entre os dentes aumentam,
a mandíbula cresce causando uma dificuldade de articulação da mandíbula e o
queixo proeminente. As cefaleias podem estar presentes. O excesso de pelo pode
ser particularmente significativo na mulher. O crescimento dos tecidos moles da
Acromegalia
A esperança de vida destes doentes pode ser reduzida
em aproximadamente 10 anos. A boa notícia
é que a normalização dos níveis de ST associa-se a uma
esperança de vida idêntica à da população em geral.
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A
garganta pode causar voz rouca e apneia do sono (situação em que uma pessoa
pára temporariamente de respirar durante o sono, causando níveis inferiores de
oxigénio e perturbando o sono). As mãos e os pés aumentam, obrigando ao uso
de anéis, luvas e sapatos maiores. O aumento dos tecidos do punho pode causar
compressão dos nervos das mãos e causando adormecimento e formigueiros dos
dedos (síndrome de canal cárpico).
A sudação excessiva com cheiro característico é frequente. O crescimento das
extremidades ósseas, em particular das cartilagens, pode causar artrose. Os do-
entes podem ter outros tumores benignos como fibromas do útero ou pólipos do
cólon. As doenças do coração, como a hipertensão e o alargamento do coração
com disfunção (cardiomiopatia), e a insuficiência cardíaca são mais frequentes. A
diabetes é igualmente mais frequente e pode ser de difícil controlo. A esperança
de vida destes doentes pode ser reduzida em aproximadamente 10 anos. A boa
notícia é que a normalização dos níveis de ST associa-se a uma esperança de vida
idêntica à da população em geral.
Se se suspeitar de Acromegalia, de acordo com as modificações do aspecto, o
dia-gnóstico é confirmado pelo doseamento de IGF-1 e/ou de ST. O doseamento
O Especialista
Davide Carvalho
Endocrinologista
Professor Agregado da Faculdade de Medicina do Porto
Chefe de Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Hospital de S. João
Membro do Executive Board of the Mediterranean Group for the Study of Diabetes
Membro do Consensus Conference Panel on Acromegaly (4th, 5th, 6th, 7th)
Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade
10
Para saber mais
www.spedm.org
www.athip.org
de ST pode exigir um perfil de múltiplas colheitas ou colheita após a ingestão de
uma solução com glicose. Comprovado o excesso de ST, a Ressonância Magnética
permitirá identificar um adenoma em 99% dos casos.
Os objectivos do tratamento são normalizar os níveis de ST e IGF-1. O tratamento
com sucesso induz uma regressão dos tecidos moles ao longo de vários meses. Por
vezes, o tratamento inicial não é inteiramente eficaz e é necessário um tratamento
complementar. Há 3 formas de tratamento: cirurgia, medicamentos e radiotera-
pia. A cirurgia oferece a hipótese de curar se a remoção do adenoma for completa.
Tal é previsível quando o adenoma não ultrapassa os limites da hipófise. A cirur-
gia habitualmente é feita por via nasal.
Há 3 classes de medicamentos usados para tratar a Acromegalia: os análogos da
somatostatina (octreotido ou lanreotido); os agonistas dopaminérgicos, especial-
mente a cabergolina e o antagonista dos receptores da somatotrofina (pegviso-
mante). Os análogos da somatostatina inibem a secreção da ST pelas células do
adenoma. O octreotido (Sandostatina®) e o lanreotido (Somatulina® Autogel) têm
formulações de administração de 4 em 4 semanas, conseguindo a normalização
da ST em cerca de 50% dos indivíduos. O antagonista do receptor da somatoto-
trofina (Somavert®) bloqueia os efeitos da ST por ligação ao receptor e diminui a
produção de IGF-1 em cerca de 95% dos doentes. Os agonistas dopaminergicos
inibem a secreção de ST para valores normais em cerca de 1/3 dos doentes. A
radioterapia foi usada durante várias décadas e pode ser administrada por uma
de várias vias: acelerador linear, bomba de cobalto ou ciclotron (feixes de pro-
tões). A grande desvantagem é a lentidão da redução dos níveis de ST, podendo
alguns doentes exigir 10 a 15 anos para se observar a sua eficácia. A nota final é
de esperança: a terapêutica da Acromegalia é bastante eficaz na normalização dos
níveis de ST.
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A
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Angioedema hereditário é uma doença rara que se caracteriza por crises agudas
de edema localizado à pele e/ou mucosas. As manifestações desta doença são de
edema (angioedema) de qualquer parte do corpo e/ou edema das mucosas nomea-
damente das vias aéreas superiores (edema da glote) ou tubo digestivo (dor ab-
dominal e vómitos e, por vezes, diarreia). As queixas abdominais podem simular
uma situação clínica de abdómen agudo, podendo alguns doentes ser submetidos
a intervenções cirúrgicas (laparotomias brancas).
Na maioria dos doentes, é uma doença hereditária e deve-se a um défice C1-
inibidor esterase (enzima de controle de activação do complemento), que conduz
a aumento de um mediador, a bradiquinina que condiciona vasodilatação e exsu-
dação, o que explica o aparecimento do angioedema.
A doença pode manifestar-se na infância ou adolescência mas alguns doentes
iniciam as suas manifestações da doença apenas na vida adulta.
As crises agudas podem surgir de forma espontânea ou na sequência de stress emo-
cional, traumatismo, infecções, manipulações médico-cirúrgicas (dentárias, otorrino-
laringológicas e ginecológicas) ou induzidos por medicamentos (anticoncepcionais e
inibidores de enzima de conversão da angiotensina). Existem 3 tipos de doença:
– Tipo I ou défce quantitativo (C1-inibidor existe em pouca quantidade);
– Tipo II ou défice qualitativo (C1-inibidor existe mas não funciona);
– Tipo III também conhecido como estrogénio-dependente, afecta
apenas as mulheres e não cursa com alterações quantitativas ou quali-
tativas do C1-inibidor esterase.
O tratamento do Angioedema hereditário divide-se em dois aspectos importan-
tes, isto é, a prevenção das crises agudas e tratamento das crises agudas.
Angioedema Hereditário
As crises agudas podem surgir de forma espontânea
ou na sequência de stress emocional, traumatismo,
infecções, manipulações médico-cirúrgicas ou induzidos
por medicamentos.
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A
A prevenção das crises é feita com terapêutica androgénica como o danazol (Da-
natrol
TM
) ou estanazolol (Winstrol
TM
, na dose mínima necessária para controle da
sintomatologia. Nalguns doentes, o controle pode ser obtido com os inibidores da
fibrinólise como ácido aminocapróico (Epsicaprom
TM
).
No tratamento de crises agudas sem risco de vida, para além da vigilância clínica,
aumenta-se a dose de androgénio e, se necessário, faz-se a administração de ácido
amino-capróico ev. Alguns doentes respondem a doses elevadas de metilpred-
nisolona ev, mas a adrenalina e anti-histamínicos não se têm mostrado eficazes.
No tratamento das crises agudas com risco de vida, isto é, com envolvimento
das vias aéreas superiores ou envolvimento gastrointestinal está preconizada a
administração de concentrado de C1-inibidor (Berinert P
TM
). Este concentrado
também está indicado na profilaxia das crises nas manipulações cirúrgicas.
Recentemente foi introduzido na Europa um novo fármaco, antagonista dos re-
ceptores do tipo 2 da bradiquinina (icatibant), comercializado com o nome Fi-
razyir
TM
, indicado para o tratamento das crises agudas com risco de vida com a
vantagem de ser administrado por via sub-cutânea.
O seguimento dos doentes com Angioedema hereditário é efectuado pela Espe-
O Especialista
Amélia Spínola Santos
Especialista de Imunoalergologia
Desempenha funções de Assistente Hospitalar Graduada no Hospital Santa Maria
(HSM), onde coordena a Consulta Externa de Imunoalergologia
Responsável pelo seguimento dos doentes com diagnóstico de Angioedema He-
reditário no HSM e pela coordenação do centro de Imunoterapia Específica
Exerce funções de secretária do grupo de Interesse de Alergénios e Imunoterapia
específica da Sociedade Portuguesa de Alergologia Imunologia Clínica
14
Para saber mais
www.aedaf-es.com
www.hereditaryangioedema.com
cialidade de Imunoalergologia. Existem vários centros de referência nosso país
(Hospital Santa Maria e Hospital Dona Estefânia em Lisboa, Hospitais da Univer-
sidade de Coimbra em Coimbra e Hospital de São João no Porto).
Estes hospitais, para além do seguimento dos doentes, dispõem de tratamento
específico das crises agudas de Angioedema com ameaça de vida, como o edema
da glote, podendo evitar entubação ou traqueostomia para manutenção da per-
meabilidade das vias aéreas.
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A
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A Síndrome de Bernard-Soulier é uma doença hemorrágica hereditária rara devida a
uma diminuição da capacidade de adesão das plaquetas, o que compromete o início da
formação do coágulo. É caracterizada por uma redução moderada no número de pla-
quetas e pela presença de plaquetas gigantes. A anomalia da adesão plaquetar é devida
à diminuição ou ausência do complexo GPIb-V-IX na sua membrana. Nestes doentes
têm sido encontradas mutações nos genes GP1BA, GP1BB e GP9.
A transmissão é autossómica recessiva e os portadores são, em geral, assintomáticos.
Bernard-Soulier
Com frequência estes doentes são incorrectamente
diagnosticados de Púrpura Trombocitopénica Idiopática (PTI),
que também cursa com um número reduzido de plaquetas,
mas tem uma abordagem terapêutica diferente.
O Especialista
Maria Letícia de Sousa Ribeiro
Licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra
Graduação em Consultor de Hematologia Clínica
Especialista de Hematologia no CHC
Responsável pela Unidade de Hematologia Molecular – Anemias Congénitas, do
Centro Hospitalar de Coimbra (CHC)
“Research Fellow” no Department of Biochemistr y and Molecular Biology, Medical
College of Georgia (MCG)
Directora do Serviço de Hematologia do CHC, EPE
Directora do Depar tamento de Hematologia do CHC,EPE
Presidente da Sociedade Por tuguesa de Hematologia
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B
Um casal de portadores tem, em cada gravidez, 25% de probabilidade de ter um flho
com a Síndrome de Bernard-Soulier.
Os doentes com Bernard-Soulier têm maior tendência para hemorragias das mucosas.
O diagnóstico é feito habitualmente nos primeiros anos de vida na sequência do apareci-
mento de equimoses, epistaxis ou hemorragias gengivais ou, mais tarde, por hemorragias
abundantes após extrações dentárias, traumatismos, cirurgias ou por menorragias abun-
dantes ou na sequência de estudos familiares. O diagnóstico é feito com base na história
clínica e familiar, hemograma com esfregaço de sangue periférico, para observação da
morfologia plaquetar, estudo da coagulação, que é normal, e testes da função plaquetar.
O teste de PFA® é anormal e o diagnóstico é confrmado por ausência de agregação
induzida pela ristocetina. Por técnicas de Citometria de fuxo é possível demonstrar as
anomalias da membrana das plaquetas. Estes testes só estão disponíveis em Serviços de
Hematologia com experiência clínica e laboratorial em patologia da hemostase.
O diagnóstico diferencial é feito com outras disfunções plaquetares, nomeadamente, com a
Trombastenia de Glanzman que é mais frequente e tem um curso clínico e uma abordagem
terapêutica semelhantes. Com frequência estes doentes são incorrectamente diagnosticados
de Púrpura Trombocitopénica Idiopática (PTI), que também cursa com um número redu-
zido de plaquetas, mas tem uma abordagem terapêutica diferente. A simples observação do
volume e da morfologia das plaquetas permite suspeitar de Síndrome de Bernard-Soulier.
Não há um tratamento específco para a Síndrome de Bernard-Soulier. Devem ser evita-
dos medicamentos que interfram com a função plaquetar, como a aspirina, o ibuprofeno
e o naproxeno. As hemorragias das mucosas, ligeiras a moderadas, poderão ser controla-
das com antifbrinolíticos ou, em alguns doentes, com DDAVP. Nas hemorragias graves
ou num pré-operatório, é necessário administrar Factor VII activado. As transfusões de
plaquetas podem desencadear a formação de anticorpos antiplaquetares e só deverão ser
administradas em hemorragias catastrófcas ou se não houver FVII activado disponível.
Para evitar a anemia por falta de ferro, os doentes com hemorragias frequentes
devem fazer suplementação com ferro. O transplante de progenitores hemato-
poiéticos pode ser equacionado em doentes com um quadro clínico muito grave.
O exercício físico não deve ser violen-
to, à semelhança de outras patologias
hemorrágicas, sobretudo em doentes
moderados a severos. Em alguns do-
entes o quadro hemorrágico diminui a
severidade com a idade.
Para saber mais
www.bernardsoulier.org
www.chc-hematologia.org
18
A Doença de Behçet (leia-se “bedjet”) é uma vasculite sistémica de natureza des-
conhecida, caracterizada pela forma tão particular como afecta o organismo, com
especial relevo para as estruturas muco-cutâneas e oculares.
Em Portugal, o estudo mais alargado sobre a sua prevalência mostra a existência
de 2,4 casos/100.000 habitantes, com uma distribuição masculino/feminino de
1/1. Porém, levantamentos mais recentes dão conta de que a sua prevalência é
crescente e de que se está a tornar mais frequente no sexo feminino.
O seu diagnóstico é baseado em critérios exclusivamente clínicos que, de acor-
do com o International Study Group for Behçet’s Disease (ISGBD), são definidos
pela presença indispensável de aftose oral de repetição (AOR ≥ 3 aftas por ano)
associada a mais 2 de 4 critérios: aftose genital, lesões oculares (inflamação de
qualquer segmento do globo ocular ou dos vasos da retina), lesões cutâneas
(pseudo-foliculite, eritema nodoso, pápulo-pústulas) e teste de patergia positivo
(aparecimento de pápula ou pústula cerca de 48 h após picada asséptica da pele).
Com expressão variável, ainda que sem carácter diagnóstico, encontram-se,
também, manifestações articulares (mecânicas, inflamatórias ou mistas com as
localizações e formas de expressão mais diversas), vasculares (tromboflebites,
tromboses, aneurismas e outras), manifestações do sistema nervoso central, gas-
trointestinais, pulmonares e, até, de outros aparelhos e sistemas, para além de
sintomas e sinais gerais.
Não existe qualquer exame analítico que auxilie no diagnóstico desta Síndrome,
ainda que a presença do alelo HLA-B51 possa traduzir maior susceptibilidade
para o desenvolvimento de lesões oculares.
Na sua etiologia sabemos existir uma actividade imunitária aberrante (excessiva)
desencadeada pela estimulação das células da imunidade inata e desencadeada
Behçet
Em Portugal, o estudo mais alargado sobre a sua prevalência mostra a existência
de 2,4 casos/100.000 habitantes, com uma distribuição masculino/feminino
de 1/1. Porém, levantamentos mais recentes dão conta de que a sua prevalência
é crescente e de que se está a tornar mais frequente no sexo feminino.
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B
pela exposição a um agente infeccioso (habitualmente bacteriano), alimentar,
químico, hormonal ou até ao próprio stress, em indivíduos com predisposição
genética para o seu aparecimento.
Para que possamos considerar o seu diagnóstico terão de ser excluídas outras
afecções que se podem manifestar com sintomas semelhantes. É o caso da Doença
Inflamatória Intestinal e, muito em particular, da Doença de Crohn. Em Portugal,
sabemos que cerca de 6% dos doentes de Crohn e 4% dos que apresentam colite
ulcerosa, têm critérios que os permitem incluir nesta síndrome. Outras patolo-
gias como o lúpus eritematoso sistémico, o pênfigo, o herpes, a sífilis ou a SIDA,
entre outras, devem também ser excluídas. Por outro lado, a AOR isolada é uma
manifestação muito comum, afectando cerca de 20% da população. As pessoas
dela portadoras devem estar atentas ao aparecimento dos outros sintomas que
definem DB.
Quanto à terapêutica das aftas, na sua fase aguda, devem ser utilizados desinfec-
tantes locais e, quando as queixas o justificarem, corticóides de acção tópica. Por
vezes, quando as crises são exuberantes, torna-se necessário utilizar corticóides
sistémicos por curto espaço de tempo. Quando a AOR se repete com incómodo,
O Especialista
Carlos Jorge Vidal de Vilhena Magalhães Crespo
Licenciatura pela Faculdade de Medicina de Lisboa
Assistente Hospitalar Graduado do Serviço de Medicina III dos Hospitais da
Universidade de Coimbra
Orientador de estágios dos Internatos Geral, do Internato do Ano Comum e do
Internato Complementar de Medicina Interna
Membro do Núcleo de Estudos de Doenças Auto-Imunes (NEDAI) da Socieda-
de Por tuguesa de Medicina Interna
Coordenador Nacional do Grupo de Estudos Sobre Doença de Behçet
Sócio da International Society for Behçet’s Disease (ISBD)
Presidente da XII International Conference on Behçet’s Disease
Secretário-Geral da Sociedade Por tuguesa de Medicina Interna
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utilizamos fármacos como a colchicina, a dapsona ou a pentoxifilina. A talidomi-
da é uma alternativa de 2ª linha muito eficaz. No envolvimento ocular, os corticói-
des tópicos são suficientes para as uveítes anteriores. Quando existe compromisso
da câmara posterior, torna-se indispensável a utilização de corticóides sistémicos
a par de fármacos como a ciclosporina A, a azatioprina, o interferon α ou até
agentes biológicos como o infliximab.
De registar, por fim, o aparecimento da Behçet em Portugal – “Associação Portu-
guesa da Doença de Behçet”, cujos membros têm demonstrado enorme empenho
na divulgação e partilha de informações sobre esta doença.
Para saber mais
http://behcetemportugal.blogspot.com
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B
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A Síndrome de Cornelia de Lange (CdLS) é uma patologia associada a malformações
congénitas e atraso do desenvolvimento psicomotor com uma prevalência de cerca de
1:10.000. O CdLS apresenta um espectro de leve ou moderado a grave. As características
físicas típicas são o atraso de crescimento pré e pós natal, atraso do desenvolvimento psi-
comotor, microcefalia, baixa estatura e hipertricose. Os doentes têm dismorfa facial ca-
racterística, com sinófrio (sobrancelhas unidas ao centro), pestanas longas, lábio superior
fno, comissuras labiais inclinada para baixo, narinas antevertidas e fltro liso.
Anomalias dos membros superiores vão desde mãos pequenas até malformações graves
como ausência de dedos ou da mão; é frequente a sinostose rádio-cubital. São muito fre-
quentes as alterações esofagogástricas, particularmente o refuxo gastroesofágico (RGE),
estenose pilórica e hérnia do hiato, que aumentam a predisposição para pneumonias de
aspiração. Podem estar presentes anomalias oculares (ptose palpebral, miopia, nistagmo,
Cornelia de Lange
O seguimento deve ser feito por uma equipa multidisciplinar
que inclua Pediatria de Desenvolvimento, Genética, Neuropediatria,
Gastrenterologia Pediátrica, Ofalmologia, ORL e Estomatologia,
além de equipa de estimulação global, terapia da fala e fsioterapia.
O Especialista
Cristina Dias
Licenciada em Medicina pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Uni-
versidade do Por to
Realizou o Internato Geral no Hospital Geral de Santo António, Por to
Internato de Especialidade em Genética Médica no Centro de Genética Médica
Doutor Jacinto Magalhães, Por to.
Realiza investigação clínica na área da Síndrome de Cornélia de Lange
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23
C
estenose do ducto lacrimal), genitourinárias (criptorquidia, malformações do tracto uri-
nário), cardiopatia congénita estrutural e alterações do sistema nervoso central. Até 80%
tem surdez e muitos doentes têm alterações do comportamento.
O CdLS é uma doença hereditária autossómica dominante, na maioria dos casos espo-
rádica, com um risco de recorrência de 1,5%. Verifcam-se alguns casos com heredita-
riedade ligada ao X. Até 50% dos doentes com um diagnóstico clínico tem mutações no
gene NIPBL (localizado no cromossoma 5, em 5p13.1). Muito menos frequentes são as
mutações nos genes SMC1A (localizado no cromossoma X em Xp11.2) e SMC3 (10q25).
O diagnóstico de CdLS é clínico; a não identifcação de uma mutação não exclui o diag-
nóstico. Recomenda-se a referenciação a Consulta de Genética e Neuropediatria, assim
como observação por Ofalmologia e outras especialidades médicas de acordo com os
achados clínicos. Ao diagnóstico é efectuado ecocardiograma, ecografa renal, avaliação
auditiva, hemograma e RX dos membros superiores. Deve ser feita uma avaliação das
difculdades alimentares e sinais/sintomas de RGE, com referenciação a Gastrenterologia
e Nutrição. A criança deve ser prontamente referenciada para uma equipa de interven-
ção precoce para avaliação do desenvolvimento e início de programa de estimulação. O
seguimento dos doentes com CdLS deve ser feito por uma equipa multidisciplinar em
centro de referência que inclua Pediatria de Desenvolvimento, Genética, Neuropediatria,
Gastrenterologia Pediátrica, Ofalmologia, ORL e Estomatologia, assim como equipa de
estimulação global, terapia da fala e fsioterapia. Neste momento, vários grupos europeus
(incluindo um multicêntrico dos Serviços de Genética em Portugal) e internacionais estão
a estudar o CdLS em várias perspectivas. Procuram-se outros genes responsáveis por esta
síndrome e tenta-se compreender melhor como os genes envolvidos contribuem para o
fenótipo. Estudos clínicos decorrem no sentido de conhecer melhor a história natural e a
prevalência das diferentes complicações de forma a oferecer o melhor seguimento e cui-
dados antecipatórios a estes doentes.
Para saber mais
www.rarissimas.pt
www.cdlsworld.org
www.cdls.org.uk
www.cdlsusa.org
www.genetests.org
24
A Síndrome de Costello foi descrita, pela primeira vez, nos anos setenta por um mé-
dico neozelandês com esse nome. É uma situação polimalformativa rara caracterizada
por face típica, alterações cutâneas e musculo-esqueléticas, anomalias cardiovascula-
res, atraso mental e predisposição tumoral.
A face típica resulta da combinação de cabeça grande, nariz pequeno e bulboso, bo-
chechas cheias e uma grande boca com lábios grossos e língua grande. Os aspectos
cutâneos característicos consistem em cabelo esparso e encaracolado, pele escura e
redundante com pregas palmares e plantares profundas e papilomas.
As alterações musculo-esqueléticas incluem encurtamento de tendões, o de
Aquiles em particular, hipermobilidade das articulações das extremidades, e
(cifo) escoliose. As anomalias cardíacas compreendem malformações congé-
nitas, cardiomiopatia hipertrófica e alterações do ritmo cardíaco. A neoplasia
mais frequente nestes doentes é o rabdomiossarcoma, seguido do neuroblasto-
ma e do carcinoma de células de transição da bexiga. O atraso mental é variável,
mas quase sempre significativo.
Costello
A neoplasia mais frequente nestes doentes
é o rabdomiossarcoma, seguido do neuroblastoma e do carcinoma
de células de transição da bexiga. O atraso mental é variável,
mas quase sempre signifcativo.
O Especialista
Ana Berta Sousa
Doutorada em Genética
Especialista em Genética Médica
Assistente Hospitalar no Serviço de Genética Médica do Hospital de Santa Maria
24
25
C
A história natural é também muito típica e consiste em polihidrâmnios, peso elevado
ao nascer, história pós-natal de difculdades alimentares e atraso de crescimento gra-
ve. Os problemas gastrointestinais são tão importantes que muitas crianças precisam
de uma sonda nasogástrica, ou mesmo uma gastrostomia, para se alimentar durante
os primeiros anos de vida. Habitualmente, estes problemas resolvem-se até aos 6 anos
de idade. Além das difculdades alimentares, nos primeiros anos, é frequente haver
alterações do sono e um feitio difícil, mas estes problemas costumam desaparecer
com os alimentares. Depois disso, estes meninos são, regra geral, simpáticos, sociáveis
e cheios de sentido de humor.
No fnal de 2005, foram identifcadas mutações germinais no gene HRAS em doentes
com o diagnóstico clínico de Síndrome de Costello. Mutações somáticas nos genes
RAS são frequentes nos cancros humanos. Sabe-se hoje que mutações germinais em
genes da via de sinalização Ras são responsáveis por uma família de Síndromes que
inclui a Síndrome de Noonan, a Síndrome de LEOPARD, a Síndrome Cardio-Facio-
-Cutâneo e a Síndrome de Costello.
As proteínas Ras são pequenas GTPases que actuam como interruptores molecu-
lares, assumindo uma conformação activa (ligada ao GTP) ou inactiva (ligada ao
GDP). A vasta maioria dos doentes com Síndrome de Costello, estudados até à data,
apresenta uma mutação no codão 12 ou 13 de HRAS. Mutações nestas posições
bloqueiam a proteína na conformação activa e são responsáveis pela activação de
efectores a juzante em vias de transdução de sinal responsáveis pela regulação da
proliferação e diferenciação celulares. As mutações foram encontradas em hetero-
zigotia e ocorreram de novo em todos os casos em que os progenitores puderam
ser estudados, o que está de acordo com a ocorrência habitualmente esporádica e o
baixo risco de recorrência noutros flhos do casal.
Para saber mais
www.news.costellokids.com
26
As Distrofas Musculares são um grupo de mais de 60 doenças, todas elas raras, com
uma evolução diferente entre si mas que têm em comum a atrofa e a fraqueza muscu-
lar. Esta fraqueza é variável em intensidade e distribuição, entre os diferentes tipos de
distrofas e, em menor grau, dentro do mesmo tipo de distrofa.
Foi em 1868 que Duchenne, um neurologista francês, descreveu uma doença muscu-
lar que afectava apenas rapazinhos e era fatal antes dos vinte anos, introduzindo pela
primeira vez o conceito de distrofa muscular – a um quadro clínico de fraqueza mus-
cular progressiva ao longo de anos correspondia uma biópsia muscular com necrose,
infltração gorda e substituição fbrosa.
Ao longo do Século XX foi-se estabelecendo a defnição de três grandes grupos de
distrofas musculares – as Distrofas Musculares Congénitas, presentes à nascença, e
pouco ou mesmo não progressivas, e as Distrofas de Duchenne/Becker e das Cintu-
ras, progressivas, mas com hereditariedades e idades de início diferentes.
A identifcação do gene da distrofa de Duchenne, em 1987, e a posterior identifcação
da proteína que esse gene codifcava, a que os investigadores chamaram distrofna,
inaugurou uma nova era no conhecimento destas doenças. Veio a verifcar-se que
a distrofna é apenas uma peça de um vasto conjunto de proteínas que se articulam
entre si e constituem um esqueleto fundamental da célula muscular.
Algumas doenças musculares que, em tempos idos, pela semelhança do quadro
clínico, também receberam o nome de distrofia, como a Distrofia Miotónica, a
Distrofia Facioescapuloumeral e a Distrofia Oculofaríngea, não são verdadeiras
distrofias musculares, segundo esta definição clínico-patológica. Por isso não fa-
laremos delas.
São sempre doenças causadas por erros genéticos, ou seja, defeitos no material bioló-
gico que transporta a informação que passa dos pais para os flhos, os genes.
Distrofias Musculares
São sempre doenças causadas por erros
genéticos, ou seja, defeitos no material biológico
que transporta a informação que passa dos pais
para os flhos, os genes.
26
27
D
Há formas diferentes de transmissão destes problemas:
– distrofas autossómicas recessivas, em que o defeito vem dos dois proge-
nitores, que são portadores de um erro mas não são doentes; quando o
erro herdado dos dois se encontra em dose dupla (homozigotia) num flho
ou flha, este manifesta a doença;
– distrofas autossómicas dominantes, em que o erro é herdado só de um
dos progenitores (que também é doente) e provoca doença no flho ou flha;
– distrofas de hereditariedade ligada ao sexo em que a mãe é portadora
sem doença e transmite o defeito aos flhos rapazes (quase exclusivamen-
te), que manifestam a doença.
A alteração no gene leva à defciência ou mesmo à ausência de certas proteínas fun-
damentais para o correcto funcionamento das células musculares que vão progres-
sivamente sendo destruídas e substituídas por células de gordura e tecido fbroso
cicatricial. Em fases precoces da doença, os músculos podem parecer aumentados
de volume e com uma consistência de borracha muito característica (a chamada
pseudo hipertrofa) mas com o progredir da destruição muscular vai instalar-se
O Especialista
Manuela Santos
Neuropediatra
Coordenadora da Consulta de Doenças Neuromusculares, Hospital Maria Pia,
Centro Hospitalar do Por to
28
uma atrofa marcada, com substituição do músculo por cordões fbrosos que provo-
cam retracções e imobilizações articulares.
A sintomatologia das distrofas musculares é dominada pelas consequências da des-
truição dos músculos esqueléticos que varia muito consoante a idade em se instala,
os grupos musculares que atinge e a velocidade com que progride. Apesar de, em
regra, se falar da fraqueza dos membros (inferiores e superiores), todos os músculos
podem estar envolvidos, incluindo os músculos da face ou os músculos da deglutição,
os músculos que sustentam o pescoço ou toda a coluna. Nos casos mais graves pode
também haver envolvimento do músculo cardíaco e dos músculos respiratórios.
Destacamos os principais grupos de distrofas musculares de acordo com o grupo
etário em que aparecem os primeiros sintomas:
– Distrofas musculares congénitas
Neste tipo de doenças existem sinais ou sintomas, que surgem muito precocemente,
alguns até mesmo na vida intra-uterina, tais como poucos movimentos fetais durante
a gravidez ou um aumento do liquido amniótico. Contudo, habitualmente, é após o
nascimento que os pais ou o médico se preocupam. Quando nasce, o bebé é hipotóni-
co, isto é “molinho”, “mexe-se pouco”, apresenta artrogripose, isto é, limitação da mo-
bilização das articulações ou pode ter difculdades em respirar ou em mamar ou em
engolir os alimentos. Nalguns casos os sintomas só são notados ao longo do primeiro
ano de vida. A criança não tem o desenvolvimento motor esperado, como por exem-
plo, não sustenta a cabeça, não se senta, ou não se coloca de pé, na idade habitual.
Alguns doentes têm uma grave incapacidade e nunca chegam a conseguir andar, ou
mesmo a sustentar a cabeça Alguns têm, mesmo, compromisso ventilatório. Outros
têm um desenvolvimento mais lento mas vão sempre melhorando. Aliás, duma forma
geral, esta doença não é progressiva, ao contrário de outras distrofas musculares que
aparecem mais tarde.
Algumas destas distrofas congénitas associam-se a doença do sistema nervoso cen-
tral, havendo um défce cognitivo.
São, em regra, doenças autosómicas recessivas, e são vários os defeitos genéticos já
conhecidos que podem causar estas doenças.
– Distrofas de início na infância
Nestas formas de apresentação na infância, a criança desenvolve-se dentro dos parâ-
metros normais. Por vezes, os pais notem que a criança é “um pouco mais lenta” do
29
D
que os outros meninos, mas vai conseguindo progredir no seu desenvolvimento. Em
determinada idade, que varia conforme o tipo de distrofa, a criança deixa de fazer
progresso e começa a regredir do ponto de vista motor. Esta regressão é devida a uma
fraqueza muscular que surge, em regra, inicialmente, nos membros inferiores e que
depois vai progredindo, envolvendo de forma variável toda a musculatura. A distrofa
muscular com maior prevalência nesta faixa etária é a distrofa de Duchenne.
– Distrofa de Duchenne
A distrofa de Duchenne tem uma hereditariedade ligada ao X. Em cerca de metade
dos casos, a alteração do gene surge espontaneamente, sendo o primeiro caso da fa-
mília. Considera-se que esta doença ocorre num em cada 3500 nascimentos do sexo
masculino.
Nalgumas crianças é o facto da marcha surgir só aos 18-19 meses e ser uma marcha
com baloiço (a chamada marcha de “pato”) que alerta os pais para a existência de um
problema. Noutros casos a descoberta é acidental por serem detectadas aumentos
de transaminases, uma análise que está alterada nas doenças do fígado, mas que está
igualmente elevada nas doenças musculares. Na maioria dos casos, a criança tem um
desenvolvimento normal e pelos 2-3 anos começa a ser notada uma difculdade em
subir escadas, uma incapacidade em correr e quedas frequentes. Mais tarde a fraqueza
é notada também a nível dos membros superiores. Pelos 8 a 12 anos a criança deixa
de conseguir andar. O envolvimento da musculatura cardíaca e da musculatura respi-
ratória surgem ao longo da segunda década de vida. A escoliose é um dos problemas
que necessita de atenção no fnal da primeira e no início da segunda décadas de vida.
Ao longo de toda a evolução surgem frequentemente problemas nutricionais quer de
obesidade quer de emagrecimento. Alguns destes doentes têm associado um atraso
mental que se manifesta na primeira década com difculdade na aprendizagem.
– Distrofas de início na adolescência e idade adulta
Quando a distrofa muscular surge na adolescência ou idade adulta os sintomas são
dominados pela perda de força, primeiro nos membros inferiores e depois nos mem-
bros superiores. Na maior parte dos casos, os músculos mais atingidos são os mús-
culos proximais: os doentes queixam-se de difculdade de se levantar da posição de
sentados, sobretudo se estiverem em assentos baixos e de difculdade de subir escadas
e quando os braços começam a fraquejar, não conseguem pentear-se ou tirar objectos
de armários altos. Com o progredir da doença o doente deixa de poder andar e de me-
30
xer as mãos e músculos tão importante como os músculos respiratórios podem tam-
bém começar a falhar, obrigando à utilização de máquinas para apoio da respiração.
Nalgumas destas doenças o coração também é afectado, noutras não.
Neste grupo de doenças com início nestas faixas etárias inclui-se a distrofa de Becker,
uma distrofnopatia com hereditariedade ligada ao cromossoma X e erro genético
localizado no mesmo gene da distrofa de Duchenne mas com início mais tardio e
menor gravidade clínica e inúmeras doenças incluídas no grupo das Distrofas das
Cinturas, algumas, poucas, com hereditariedade autossómica dominante, e muitas
outras com hereditariedade autossómica recessiva, com defeito genético já conhecido,
outras com defeitos genético ainda por identifcar.
Quando a observação clínica levanta a hipótese de se tratar de uma distrofa muscular,
o exame de diagnóstico fundamental é a biopsia de músculo, porque para além de
confrmar o diagnóstico clínico é fundamental para orientar o diagnóstico genético.
O estudo genético efectua-se, em regra, no sangue. Por vezes, é necessário efectuar
este estudo no músculo.
Em casos particulares, como em distrofas com história familiar em que o erro genéti-
co está já bem caracterizado, o médico pode dispensar a biopsia e pedir directamente
um estudo genético numa amostra de sangue.
A análise da biopsia pode ou não mostrar qual a proteína que está defciente. Se mos-
trar podemos prosseguir para o estudo genético. Se nem a biopsia, nem a clínica de-
rem qualquer pista, não é possível prosseguir os estudos genéticos e o doente fcará
sem um diagnóstico preciso, pelo menos nesse momento. Por vezes são necessários
alguns anos até que seja descoberto qual o defeito genético que causou a doença.
Actualmente, já conseguimos chegar a um diagnóstico genético em mais de 75% dos
casos, permitindo pelo menos estabelecer um prognóstico e oferecer aconselhamento
genético à família.
São doenças sem tratamento curativo, o que não quer dizer que não seja importante
fazer muita coisa para melhorar as condições de vida dos doentes e prolongar a sua
sobrevida.
Evitar as retracções, melhorar a postura e a funcionalidade, adaptar as ajudas técnicas
às várias fases da doença, impedir a desnutrição ou o excesso de peso, corrigir cirurgi-
camente a escoliose, prevenir as infecções respiratórias, tratar a insufciência cardíaca
e respiratória são alguns dos aspectos importantes. O apoio psicológico e social, ao
doente e à família e a ligação à escola e à formação profssional são outros aspectos
31
D
Para saber mais
www.apn.pt
www.treat-nmd.eu/home.php
que não podem ser descuidados.
O seguimento dos doentes deve ser multidisciplinar, conjugando a intervenção de
várias valências clínicas e sociais. Uma equipa de Neurologia, Medicina Física, Car-
diologia, Pneumologia/Ventilação, Nutrição, Ortopedia, Psiquiatria e Serviço Social
constitui a equipa básica de seguimento e apoio destes doentes.
A corticoterapia tem sido usada em várias distrofas. Na Distrofa de Duchenne, a
corticoterapia é usada em quase todos os casos. Os esquemas são variáveis podendo
ser usados diariamente ou de forma descontinuada. Os objectivos são os de melho-
rar a capacidade física da criança e retardar a perda da marcha. Contudo, a resposta
ao tratamento é variável e pode ser necessário suspender a medicação devido aos
efeitos secundários.
A comunidade científca está a desenvolver estratégias novas de tratamento, alguns
deles já em fase de utilização em ensaio clínico no homem. Em muitos casos, procu-
ram-se terapêuticas que resultem em determinados tipos de defeitos genéticos.
Actualmente, a nível da Comunidade Europeia, foi criada uma rede TREAT NMD,
para doentes neuromusculares e profssionais clínicos ou investigadores, de forma a
desenvolver uma melhoria no diagnóstico, cuidados e no tratamento destes doentes
cujo sítio pode ser visitado em www.treat-nmd.eu/home.php.
Esta rede permitirá que, assim que exista uma terapêutica nova, o doente com um
determinado defeito genético específco, passível dum tratamento, seja imediata-
mente localizado nessa grande base de registos e seleccionado para rapidamente
iniciar o tratamento.
Para diagnóstico, mas também para seguimento, os doentes devem ser encaminhados
para os Serviços de Neuropediatria e Neurologia que dispõem de Consultas de Doen-
ças de Doenças Neuromusculares.
Com a colaboração da Drª Teresa Coelho, Neurologista e Coordenadora da Consulta de Doenças Neuro-
musculares do Hospital de Santo António, Centro Hospitalar do Porto
32
A Drepanocitose (anemia de células falciformes) é uma anemia hemolítica hereditá-
ria que cursa com vaso-oclusão dos capilares, provocando lesões isquémicas acom-
panhadas de dores muito violentas. As manifestações são predominantemente a nível
ósseo, pulmonar, renal, esplénico, sistema nervoso central e genital (priapismo) e tra-
duzem lesões multiorgânicas.
O diagnóstico é, em geral, no 1º ano de vida, num lactente que chora, está irritado,
tem edema dos pés e das mãos e uma anemia hemolítica com células falciformes
Drepanocitose
O diagnóstico é, em geral, no 1º ano de vida, num lactente
que chora, está irritado, tem edema dos pés e das mãos
e uma anemia hemolítica com células falciformes (drepanócitos)
no esfregaço de sangue periférico.
O Especialista
Maria Letícia de Sousa Ribeiro
Licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra
Graduação em Consultor de Hematologia Clínica
Especialista de Hematologia no CHC
Responsável pela Unidade de Hematologia Molecular – Anemias Congénitas, do
Centro Hospitalar de Coimbra (CHC)
“Research Fellow” no Department of Biochemistr y and Molecular Biology, Medical
College of Georgia (MCG)
Directora do Serviço de Hematologia do CHC, EPE
Directora do Depar tamento de Hematologia do CHC,EPE
Presidente da Sociedade Por tuguesa de Hematologia
32
33
D
(drepanócitos) no esfregaço de sangue periférico. A severidade clínica é heterogénea,
dependendo de factores genéticos e socio-económicos. A Hemoglobina (Hb) S é fre-
quente nos Africanos, mas também existe nos Portugueses caucasianos.
A Drepanocitose é devida à presença de uma Hb anormal – Hb S, que polimeriza,
quando há baixa tensão de O2, deforma os eritrócitos que fcam rígidos, lesam o en-
dotélio vascular e provocam obstrução dos capilares. O diagnóstico é feito por um
estudo de Hbs (HPLC), ou por electroforese Hbs, onde se detecta Hb S e Hb F e Hb
A2 em pequenas quantidades. O teste de solubilidade confrma o diagnóstico.
A maioria dos doentes com Drepanocitose tem homozigotia para a Hb S (SS), mas
também podem ser SC, SD, SO-Arab ou S/β-talassemia. Os portadores de Hb S (AS)
não têm a doença e têm parâmetros hematológicos normais. Um casal em que ambos
os elementos são AS, ou um é AS e o outro tem outra variante de Hb ou β-Tal, tem, em
cada gestação, 25% de probabilidade de ter um flho com Drepanocitose. A este casal
deve ser oferecido o aconselhamento genético e, se indicado, o diagnóstico pré-natal.
Quando é detectada uma HbS deve ser feita a identifcação de outros portadores na fa-
mília, em idade de ter flhos. O cônjuge deve fazer um hemograma e um estudo de Hbs.
Devido às múltiplas complicações, os doentes com Drepanocitose devem ser tratados
em Centros especializados, com equipas multidisciplinares.
O diagnóstico precoce é importante para iniciar a prevenção das infecções, que deve
ser feita até aos 5 anos de idade. O calendário vacinal deve incluir a vacina anti-hemó-
flos, anti-pneumococos, anti-meningococos e anti-hepatite A e B.
Os principais factores desencadeantes dos fenómenos de vaso-oclusão são as infec-
ções, a febre, a desidratação e as mudanças bruscas de temperatura. Os doentes devem
ser bem informados para evitar estas situações. Nos episódios dolorosos deve ser ins-
tituída, de imediato, uma analgesia efcaz e administrados líquidos em abundância.
As infecções devem ser prontamente tratadas, tendo em atenção que estes doentes de-
senvolvem hipoesplenismo por fbrose do baço. A transfusão de eritrócitos tem indi-
cações muito estritas e, na maioria delas,
devem ser feitas transfusões permuta.
Todos os doentes devem tomar ácido
fólico. O tratamento com Hidroxiureia
reduz o número e a gravidade dos fe-
nómenos vaso-oclusivos. Os casos mais
graves podem benefciar de transplante
de progenitores hematopoiéticos.
Para saber mais
www.scinfo.org
www.enerca.org
www.orphanet.pt
www.chc-hematologia.org
34
A Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) é o nome dado a um grupo de anomalias herda-
das através de mutações genéticas que interferem com a produção de colagénio, uma
proteína fbrosa que confere resistência e elasticidade ao tecido conjuntivo – pele,
tendões, ligamentos, cartilagem e paredes de órgãos e vasos sanguíneos.
É uma situação rara ocorrendo em 6 subtipos principais. Todos afectam as articula-
ções e, a maioria, a pele. Os sintomas mais frequentes refectem a fragilidade do tecido
conjuntivo, tais como hipermobilidade articular e fragilidade e laxidão cutânea. Ou-
Ehlers-Danlos
Além da história clínica e do exame físico, existem meios complementares
de diagnóstico tais como testes genéticos, biopsia de pele e ecocardiograma.
A maioria dos doentes tem uma vida relativamente normal, embora com
algumas restrições à actividade física. A inteligência não é afectada.
Licenciado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade
Nova de Lisboa
Especialista de Pediatria Médica, dedicado à área de Imuno-Hematologia
Assistente Hospitalar Graduado do Hospital Dona Estefânia, exercendo funções
de Chefe de Serviço
Assistente Convidado de Clínica Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas da
Universidade Nova de Lisboa
O Especialista
António Manuel Bessa de Almeida
34
35
E
tros são hérnias, luxações, fraqueza/hipotonia muscular, atraso do desenvolvimento
motor, escoriações frequentes e de difícil cicatrização, anomalias das válvulas cardía-
cas e ruptura espontânea de artérias, aneurismas ou órgãos ocos.
A forma de hipermobilidade (ex-tipo III) é a mais frequente (1 em 10000-15000 pes-
soas) com predomínio de manifestações articulares, tendo como consequência prin-
cipal a artrose precoce. A forma clássica (ex-tipos I e II) atinge 1 em 20000-40000
pessoas. Além das manifestações articulares, afecta também signifcativamente a pele
e é causadora de hérnias e envelhecimento precoce da pele.
A forma vascular (ex-tipo IV) é especialmente grave. Afecta 1 em 250000 pessoas.
A sua gravidade prende-se com a ruptura de vasos sanguíneos e órgãos ocos, sendo
causa frequente de doença grave ou morte (esperança média de vida 48 anos).
A transmissão é genética, sendo a forma mais frequente a autossómica dominante, ou
seja, um doente tem 50% de hipóteses de transmitir a doença à descendência.
Além da história clínica e do exame físico, existem meios complementares de dia-
gnóstico tais como testes genéticos, biopsia de pele e ecocardiograma.
A maioria dos doentes tem uma vida relativamente normal, embora com algumas
restrições à actividade física. A inteligência não é afectada.
A gravidez conduz a um risco de parto prematuro e, em casos graves, hemorragia e
ruptura. Em alguns casos é desaconselhada.
Não existe tratamento curativo para a doença. O tratamento assenta no alívio dos
sintomas e na prevenção de complicações. Em caso de cirurgia, esta condição deve ser
comunicada à equipa médica. A analgesia é basilar, assim como a protecção de modo
a evitar luxações ou feridas. A fsioterapia de fortalecimento dos músculos periarticu-
lares tem um papel importante.
Deve ser procurado aconselhamento genético no caso de se desejar ter flhos, para
esclarecimento dos padrões de trans-
missão e dos riscos inerentes.
Encarar a doença implica um auto-
-conhecimento da patologia, na par-
tilha de experiência e em redes de
suporte. As crianças com esta doen-
ça devem ser tratadas de forma tão
normal quanto possível e as rotinas
devem ser adequadas para reduzir os
riscos de lesão.
Para saber mais
http://sindromedeehlersdanlos.blogspot.com
http://apeslfb.wordpress.com/sindrome
-de-ehlers-danlos
www.mayoclinic.com/health/ehlers-danlos
-syndrome/DS00706
www.ehlers-danlos.org
36
Em 1880, Bourneville atribuiu pela primeira vez o nome de Esclerose Tuberosa a uma as-
sociação de características descritas mais tarde, em 1908, por Voigt. Face à variabilidade de
achados clínicos e à evidência de uma causa genética heterogénea, esta patologia é também
conhecida como o complexo da esclerose tuberosa. Corresponde a uma doença autossó-
mica dominante com uma incidência de 1 em 8000-23000 nados-vivos, podendo estar
envolvidos os genes nos cromossomas 9q34 e 16p13.3. Clinicamente, a esclerose tuberosa
pode manifestar-se por crises convulsivas, angiofbromas faciais, fbromas ungueais, mácu-
Esclerose Tuberosa
As complicações mais preocupantes são aquelas
que afectam o sistema nervoso central, nomeadamente
as crises convulsivas (88-93%), o atraso mental (60-80%)
e as calcifcações intracraneanas (56%).
O Especialista
Coordenação Técnica de Ana Campos
Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa
Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ci-
ências Médicas de Lisboa
Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde, pela Universi-
dade Católica Portuguesa (UCP)
Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas, sendo actualmente coorde-
nadora de projectos entre DGS-Raríssimas, no âmbito de serviços de informação
sobre doenças raras e medicamentos órfãos
Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed
Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA, ICORD (III and IV WG)
e a Pastoral da Saúde (Setúbal)
36
37
E
las hipopigmentadas e tumores do coração, dos rins e do sistema nervoso central (cérebro e
retina). Como em muitas outras situações estas características ocorrem, também, em outras
doenças, que devem ser diagnosticadas adequadamente. As complicações mais preocupan-
tes são aquelas que afectam o sistema nervoso central, nomeadamente as crises convulsivas
(88-93%), o atraso mental (60-80%) e as calcifcações intracraneanas (56%). As convulsões
iniciam-se precocemente, em 20% dos doentes antes dos 3 meses de vida, em 46% entre
os 3-7 meses e em apenas 4% depois dos 5 anos de idade. As crises mais frequentes são as
tónico-clonicas (41%) e os espasmos infantis (30%). As alterações do comportamento são
frequentes, particularmente a hiperactividade (28%), o relacionamento social pobre (43%),
os comportamentos repetitivos (25%), a agressividade (25%) e a auto-mutilação (29%). Os
tumores cerebrais ocorrem em 6-14% desta população de doentes, sendo os tumores car-
díacos mais frequentes (30-67%). Estes tumores afectam o músculo cardíaco e, em muitos
casos, regridem com o tempo, mas a mortalidade é alta quando sintomáticos. Os problemas
endócrinos são raros. A doença pulmonar quística predomina nas mulheres e causa sinto-
mas após a 3ª década de vida. Alguns doentes têm tumores da retina, mas é raro o défce
visual. Os ossos dos dedos e menos frequentemente os ossos longos podem ter alterações
quísticas assintomáticas. Apesar do conjunto de critérios da esclerose tuberosa estar bem
defnido, algumas das características descritas não se manifestam durante a infância e, como
tal, o diagnóstico nesta fase poderá ser apenas provável ou suspeito, implicando uma vi-
gilância periódica. As medidas preventivas visam a avaliação precoce dos vários sistemas
afectados por esta doença. Quando diagnosticada no período neo-natal, deve-se recorrer à
ecocardiografa e à imagiologia cerebral a fm de determinar a presença/ausência de tumo-
res. Sempre que se constatarem alterações do comportamento, um aumento de perímetro
cefálico e sintomatologia compatível com hipertensão intracraneana, é fundamental excluir
um tumor cerebral. A epilepsia requer o apoio da neuropediatria e, em casos refractários, de
tratamento cirúrgico. O atraso mental implica uma abordagem multidisciplinar, particular-
mente da terapia da fala, a fsioterapia e a terapia ocupacional. A avaliação ecográfca dos rins
deve ser realizada aquando do diagnóstico com reavaliações periódicas. A possível ocorrên-
cia de doença pulmonar quística nos adultos justifca a realização regular de radiografas do
tórax. Estes doentes têm 50% de risco de transmitir a doença aos seus flhos. Sendo uma
doença autossómica dominante, e como
alguns portadores são assintomáticos, é im-
portante investigar os pais destas crianças a
fm de se poder realizar o aconselhamento
genético adequado.
Para saber mais
www.tsalliance.org
38
A Doença de Fabry (DF), é uma patologia genética de transmissão recessiva, ligada ao
cromossoma X, envolvendo uma alteração genética que leva ao défce de uma enzima
lisossomal (alfa-galactosidase A) fundamental para o metabolismo dos glucoesfn-
golipídios. A DF pertence ao grupo das Doenças Lisossomais de Sobrecarga DLS. O
defeito enzimático conduz a uma acumulação do substrato (GL3) não degradado nos
tecidos e no plasma. Esta acumulação é muito semelhante ao processo de ateroscle-
rose que acontece em indivíduos sem DF numa idade mais avançada. Na sua forma
clássica, a doença afecta de modo mais grave o homem (o homem tem apenas um
cromossoma X e por isso a doença manifesta-se mais precocemente). Nestes, os sinais
clínicos da doença começam a despontar durante a infância, incluindo dores nas ex-
tremidades e sinais dermatológicos (angioqueratomas). Paralelamente, desenvolve-
-se uma doença de sobrecarga multi-visceral, que se manifesta com sintomas cardía-
cos apresentando hipertrofa ventricular esquerda, sintomas neurológicos que se ma-
nifestam por acidente vascular cerebral (AVC), sintomas de hipoacúsia (diminuição
da audição) e alterações renais que, inicialmente, podem restringir-se à proteinúria
mas evoluem posteriormente para insufciência renal. Têm também sido descritos
casos, entendidos como variantes da doença, em que o doente revela apenas uma das
características sintomáticas, só doença cardíaca ou renal. A mulher tem 2 cromosso-
mas X e, como a doença é recessiva, é portadora da DF e geralmente, apresenta uma
forma menos grave. Estima-se que a incidência desta doença seja de 1 caso em 40 mil
nados-vivos. A idade de início dos sintomas é muito variável e tanto podem surgir na
infância ou na adolescência como, mais tardiamente, na segunda ou terceira décadas
de vida. De toda a maneira, a acumulação de GL3 nos tecidos vai progredindo ao
longo da vida dos doentes e, por exemplo, um AVC num jovem, pode constituir a
apresentação inaugural da DF.
Fabry
Os sintomas iniciam-se na infância, por episódios febris
e manifestações neurológicas: acroparestesias nos membros,
anidrose, intolerância às variações térmicas,
exercício físico, e hipotensão.
38
39
F
Os sinais precoces de DF incluem crises de dor aguda intensa nas extremidades com
sensação de queimadura (acroparestesia) e/ou crises de dor mais generalizadas, dores
das articulações, musculares ou abdominais, por vezes acompanhadas de febre, crises
essas que duram alguns minutos até alguns dias e que se vão tornando mais espaçadas
à medida que o doente avança na idade adulta. São muitas vezes catalogadas como
“dores de crescimento”. As lesões cutâneas apresentam a forma de pequenas pápulas
de cor vermelha escura ou negra, com pele mais espessa, situando-se preferencial-
mente à volta do umbigo e nas nádegas. Pode também ocorrer uma diminuição da
transpiração (hipohidrose) ou, em casos mais excepcionais, o doente simplesmente
não transpira (anidrose). São também frequentes os problemas oculares, que ocorrem
sob a forma de opacidade da córnea e cataratas.
Na terceira e quarta década, a evolução da doença leva ao aparecimento de problemas
cardíacos decorrentes da insufciência do ventrículo esquerdo, alterações das válvulas
cardíacas e da circulação.
Surgem também problemas renais, que são a principal causa de morte em indivíduos
jovens. Inicialmente, o doente pode ter proteinúria (albumina na urina) e ser assin-
tomático mas, posteriormente, desenvolve insufciência renal crónica. Ao nível do
O Especialista
Luís Brito Avô
Licenciatura em Medicina
Assistente Hospitalar Graduado de Medicina Interna do Hospital de St Maria (HSM)
Especialista em Medicina Interna
Chefe de Unidade Assistencial e de Equipa de Serviço de Urgência do HSM
Tutor da Faculdade de Medicina de Lisboa
Membro da International Society of Internal Medicine
Membro da European Federation of Internal Medicine
Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
Coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Raras da Soc. Port. de Med. Interna
Membro do Conselho Científico da Associação Raríssimas
Membro do Conselho Científico da Associação de Doenças Lisosomais
40
sistema nervoso, a principal consequência é o AVC, com tromboses, tonturas, dores
de cabeça e alterações de comportamento. Esta situação decorre, ainda, pelo facto
destes doentes terem geralmente hipertensão, além de ureia e creatinina plasmáticas
elevadas. Existem variantes atípicas no homem, sendo as mais conhecidas as variantes
cardíacas, devido às quais, o sintoma inicial tardio da presença da DF se materializa
numa cardiomiopatia ou num enfarte do miocárdio. Estas variantes apresentam uma
actividade residual da alfa Galactosidase A, contrariamente ao observável nas pessoas
com DF típica. Na mulher, as variantes apresentam uma sintomatologia muito redu-
zida. 70% apresentam opacidades da córnea e 30% apresentam angioqueratomas: No
entanto os quadros clínicos mais graves, que apresentam problemas renais e cardía-
cos, são extremamente raros, fcando provavelmente a dever-se a uma inactivação
incompleta do cromossoma X que apresenta a mutação. O diagnóstico no homem
faz-se verifcando o défce de alfa Galactosidase A através de uma análise de sangue
enquanto o estudo da sobrecarga de GL3, na urina e no sangue é mais interessante
para o estudo das variantes da DF com actividade enzimática residual. Na mulher, a
avaliação da actividade da alfa Galactosidase A revela-se por vezes insufciente, pelo
que é importante fazer o estudo da mutação genética.
A questão do diagnóstico diferencial surge quando o quadro sintomático se apre-
senta incompleto e, como se trata de uma doença rara, não estará entre as primeiras
hipóteses diagnósticas colocadas. É difícil diagnosticar DF num estado febril re-
corrente associado a dores nas mãos e nos pés, dado que pode ser encarado como
reumatismo articular.
Até dentro do grupo das LSD pode existir difculdade em diagnosticar a DF porque
existem outras patologias que igualmente se associam a opacidade da córnea. Os an-
gioqueratomas também podem surgir noutras patologias.
Desde 2001, existe terapêutica específca para a DF que consiste na substituição da en-
zima defciente (terapêutica de Substituição Enzimática) com proteína recombinante.
Sem terapêutica, a doença é progressiva, envolve vários órgãos e sistemas e condicio-
na uma redução importante tanto da qualidade de vida como da esperança de vida
das pessoas afectadas.
O diagnóstico precoce é fundamental para permitir uma instituição precoce da tera-
pêutica e, assim, evitar a ocorrência de lesões irreversíveis
As medidas de suporte incluem terapêutica da Dor, cirurgia valvular cardíaca e di-
álise ou transplante renal. A terapia genética é uma outra opção para ser ponderada
no futuro.
41
F
Para saber mais
www.rarissimas.pt
www.aplisosoma.org
www.orpha.net
www.eurordis.org
www.ninds.nih.gov/disorders/fabrys
www.rarediseases.org
www.fabrycommunity.com
www.focusonfabry.com/patients.aspx
A entidade ofcial responsável pela confrmação do diagnóstico e pelo seguimento
das pessoas afectadas pela DF é o Centro Nacional Coordenador para o Diagnóstico
e o Tratamento das Doenças Lisossomais de Sobrecarga, que funciona no Centro de
Genética Médica Dr. Jacinto de Magalhães, um dos pólos do Instituto Nacional de
Saúde Dr. Ricardo Jorge.
Já foram identifcadas cerca de 200 mutações no gene GLA do cromossoma X (Xq22).
O estudo da família da pessoa com DF é da maior importância tanto para o diagnósti-
co de outros membros afectados como para o aconselhamento genético (nas famílias
já estudadas é possível fazer diagnóstico pré-natal).
42
A Fibrose Quística (FQ) é a doença genética e hereditária mais frequente na raça
caucasiana. Estudos populacionais alargados, realizados em diferentes países apon-
tam para incidências muito variáveis entre Países e raças. Dos estudos Europeus, a
incidência oscila entre 1:2000 a 1:15000 recém-nascidos, enquanto que nos EUA é
de 1:3500 nos caucasianos, 1:14000 na raça negra e 1:25500 na amarela. Estima-se
que a nível mundial existam 7 milhões de pessoas portadoras da anomalia genética
da fbrose quística e cerca de 65.000 com a doença. Em 1938, Dorothy Anderson des-
creveu, pela primeira vez, a doença como “cystic fbrosis of the pancreas”. Em 1946,
defniu-se o carácter genético da doença e, no início dos anos 80, foi estabelecido que
a principal anomalia subjacente à FQ, era um defciente transporte de cloreto e água,
a nível das células epiteliais. Em 1987/1989 foi localizado e isolado o gene responsável
pela doença. Normalmente, é diagnosticada nos primeiros anos de vida através da
prova de suor e estudo genético. Na década de 60, raramente os doentes atingiam
a idade adulta. Actualmente, para uma criança nascida nos anos 90, calcula-se uma
sobrevida média predictível de 40 anos. No Centro de Fibrose Quística do Hospital
de Santa Maria, actualmente com 102 doentes em seguimento regular, cerca de 45%
são adultos. A doença caracteriza-se pela disfunção das glândulas de secreção exter-
na dos orgãos onde o gene tem maior expressão: glândulas sudoríperas, brônquios,
intestinais, pâncreas, fígado, órgãos reprodutores etc. Estas glândulas, normalmente,
produzem secreções que fuem facilmente pelos canais das glândulas até ao exterior.
Na FQ estas secreções são francamente mais espessas, mais viscosas, por a anomalia
genética provocar alterações no funcionamento das trocas de água e de sal nas células
destas glândulas, resultando um muco com menos água do que o normal. Estas secre-
ções vão provocar fenómenos de obstrução a vários níveis do organismo produzindo
as diferentes manifestações da doença,a nível do pulmão, do pâncreas, das glândulas
Fibrose Quística
Estima-se que a nível mundial existam 7 milhões de pessoas
portadoras da anomalia genética da fbrose quística e cerca de 65.000
com a doença. Normalmente é diagnosticada nos primeiros anos
de vida através da prova de suor e estudo genético.
42
43
F
sudoríparas e do aparelho reprodutor. O pulmão que, ao nascer, parece normal vai ser
cronicamente infectado por patogénios particulares da FQ.
O doente apresenta sintomas mais ou menos persistentes ou graves como tosse persis-
tente, expectoração espessa, difculdade respiratória. Os períodos de agudização pulmo-
nar são caracterizados por agravamento destes sintomas e/ou aparecimento de outros.
As alterações pancreáticas, provocam défce dos enzimas pancreáticos em 80-95% dos
doentes. Os sintomas gastrointestinais de diarreia de fezes abundantes, gordurosas,
de cheiro fétido, são a manifestação clínica do défce enzimático. A má absorção, so-
bretudo, das gorduras é, sem dúvida, o factor major da má nutrição na FQ. Com a
idade há uma diminuição da produção de insulina pelo pâncreas e aparecimento de
diabetes relacionada com a FQ. A nível das glândulas sudoríparas produz-se suor com
concentração de sódio e cloreto elevada, pelo que o suor é mais salgado. Com base
nesta observação foi desenvolvida a principal prova diagnóstica – a prova de suor.
No sexo masculino, surge a chamada azoospermia obstrutiva, causa da esterilidade
masculina em 97-98% dos doentes. No sexo feminino a fertilidade está diminuída,
devido à presença de muco cervical espesso. As investigações no campo da genética
permitiram em 1985 localizar no cromossoma 7 o gene responsável pela FQ e, em
O Especialista
Maria Celeste Canha Coelho Barreto
Licenciada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Assistente Hospitalar de Pediatria Médica na Clínica Pediátrica Universitária do
Hospital Santa Maria (HSM)
Chefe de Serviço de Pediatria Médica
Pós-graduação em Gestão de Serviços de Saúde no Instituto Superior de Ciên-
cias do Trabalho e da Empresa
Responsável pela Consulta Especializada Pediátrica de FQ do HSM
Coordenadora do Centro Especializado de Fibrose Quística
Sócia fundadora da Associação Por tuguesa de Fibrose Quística (APFQ)
Consultora Científica e sócia fundadora da Associação Nacional de Fibrose
Quística (ANFQ)
44
1989, identifcá-lo. O gene codifca a síntese de uma proteína, designada por Cystic
Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator (CFTR), que funciona como canal de
cloreto na membrana apical das células epiteliais dos órgãos om expressão do gene.
No gene FQ podem ocorrer centenas de mutações diferentes, tendo sido identifcadas
mais de 1600 mutações, capazes de provocar a doença. No entanto, a mutação mais
frequente é a chamada F508del. A doença transmite-se de modo recessivo, isto é, para
que um indivíduo manifeste a doença é necessário herdar duas cópias do gene FQ,
um de cada progenitor. Os pais, que não têm qualquer sintoma, têm sempre um gene
FQ normal e outro anormal, sendo designados por portadores de FQ (heterozigotia).
Como cada progenitor transmite um dos seus dois genes ao flho, este pode herdar
uma das três combinações possíveis, com as seguintes probabilidades: 25% de herdar
2 genes normais; 50% de herdar 1 gene normal e 1 gene FQ; 25% de herdar 2 genes
FQ e, portanto, vir a desenvolver a doença.
As probabilidades de estado de homozigoto (com os dois genes anormais) em famílias
de risco, são de 1:4, 1:50 e 1:200 respectivamente para irmão, meio-irmão e primo
em primeiro grau. Este risco aumentado obriga a aconselhamento genético. Segue-se
normalmente a procura de mutações nos dois genes FQ do doente, através da análise
do respectivo DNA obtido a partir de sangue periférico. A avaliação clínica é contudo
fundamental para o diagnóstico da FQ. Hoje em dia, existe também já uma série de
metodologias laboratoriais resultantes da investigação nesta doença que dão contri-
butos importantes para um diagnóstico mais fundamentado da FQ. Não existindo
cura, a intervenção terapêutica tem uma tripla fnalidade: controlar as manifestações
pulmonares, promover uma nutrição adequada e permitir uma vida tão normal quan-
to possível. A cinesioterapia respiratória é realizada por regra duas vezes por dia, com
a fnalidade de mobilizar e drenar as secreções brônquicas. A terapêutica antibiótica
na FQ, tem sido fulcral para o prognóstico, contribuindo sem dúvida, para o aumento
da sobrevida. São necessários esquemas de terapêutica agressivos para controlo da
destruição pulmonar progressiva. Apesar de terapêutica médica optimizada, muitos
destes doentes progridem para insufciência respiratória global. O transplante pulmo-
nar constitui uma alternativa terapêutica válida para o estádio terminal desta doença.
Mercê dos avanços registados nas duas últimas décadas, os resultados têm vindo a
ser progressivamente melhores. Em Portugal, no ano de 2004, foi transplantada com
sucesso, a primeira doente com FQ. A correlação entre uma boa nutrição e um melhor
prognóstico, obriga terapêutica de substituição com as enzimas pancreáticas e dieta
hipercalórica. Apesar dos avanços terapêuticos registados nas últimas duas décadas, a
45
F
FQ continua a representar uma limitação da sobrevida, embora com esperanças mé-
dias de vida sucessivamente prolongadas, melhoria franca da qualidade de vida e de
novas potencialidades nestes doentes: educação universitária, emprego, constituição
de família e descendência. Actualmente, a investigação está dirigida para as terapêu-
ticas cujo alvo é o defeito na CFTR, nomeadamente com fármacos que possam subs-
tituir a função defcitária desta proteína e a terapêutica genica. A actual equipa de in-
vestigação, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge Universidade de Lisboa,
coordenada pela Prof.ª Margarida Amaral, da Faculdade de Ciências da Universidade
de Lisboa, tem realizado projectos científcos com abordagens multidisciplinares e in-
tegradas no sentido duma melhor compreensão dos mecanismos moleculares e celu-
lares da FQ. A Rede Temática Europeia sobre FQ no âmbito do 5º Programa-Quadro
(5PQ) da União Europeia (proposta e em parte liderada pela Prof.ª Margarida Ama-
ral) tem proporcionado enquadramento internacional para o trabalho desenvolvido,
facilitando a troca e o acesso à informação em áreas relacionadas com a FQ.
A promoção e a protecção da saúde dos doentes, que sofrem de doenças raras, como
é o caso da Fibrose Quística (FQ), é um dos maiores desafos actuais aos sistemas de
saúde. Está sobejamente demonstrado que o seguimento destes doentes, em Centros
de Fibrose Quística Pediátricos e de Adultos, por equipa multidisciplinar, tem sido a
grande determinante para a maior sobrevida e melhor qualidade de vida.
O Registo Europeu de Fibrose Quística, que está em curso, possibilitará conhecer
melhor os doentes com Fibrose Quística (FQ) em cada país da Europa, permitindo
planear e melhorar os cuidados a prestar a cada um dos doentes.
Para saber mais
www.anfq.pt
www.dqb.fc.ul.pt/docentes/mdbotelho/
Research.htm
www.ecfs.eu
www.cff.org
www.cfnetwork.be
46
A Doença de Gaucher (DG) é de origem genética e a mais comum de um grupo
de doenças raras designadas por Doenças Lisossomais de Sobrecarga (DLS). As
DLS caracterizam-se pela alteração de um gene (mutação) que leva à produção
deficiente de uma proteína (enzima) que deixa de processar um determinado
composto (substrato) normalmente produzido pela célula. O lisossoma é um
organelo da célula onde cada substrato é processado por acção da sua enzima
específica e, caso esta esteja ausente ou em quantidade insuficiente, o substrato
acumula-se, o lisossoma vai dilatando e toda a célula acaba por ficar preenchida
por estes organelos repletos de substrato e muito volumosos, o que acabará por
condicionar a normal actividade celular.
Na DG, a mutação dá-se no gene GBA do cromossoma 1 (1q21) levando a níveis
insuficientes da enzima β-glucocerebrosidase, cuja função é processar o subs-
trato glucocerebrosido (uma substância natural do organismo, constituída por
açúcar e gordura) que é produzido predominantemente no fígado, baço, osso e,
ocasionalmente, nos pulmões, rins e intestino. Observadas ao microscópio, as
células com os lisossomas completamente sobrecarregados de glucocerebrosido
têm um aspecto característico e são designadas células de Gaucher.
A DG é autossómica recessiva – para que uma pessoa seja afectada, é necessário
que ambos os progenitores tenham uma mutação do gene GBA (estão descritas
mais de 100 mutações); a incidência da DG é de 1 caso em cada 100 000 habitan-
tes mas é muito mais frequente (1 para 450) nos Judeus Ashkenazi (originários
da Europa Central e do Leste). Em todo o mundo poderão existir cerca de 10
000 pessoas afectadas.
Gaucher, o médico francês que, no século XIX ,descreveu pela primeira vez esta
doença, dá-lhe o nome.
Gaucher
A acumulação de glucocerebrosido no baço,
no fígado e no osso causa sintomas de gravidade
variável que podem surgir em qualquer altura,
desde a infância até à idade adulta.
46
47
G
As manifestações clínicas da DG são muito variáveis e é clássico descrever 3 ti-
pos principais. O tipo 1, é o único que não tem alterações neurológicas; o tipo 2
é uma forma neuropática aguda grave que surge na criança; o tipo 3, uma forma
neuropática crónica. Quando falamos de DG, geralmente referimo-nos ao tipo
1 que é o mais frequente (95% dos casos).
A acumulação de glucocerebrosido no baço, no fígado e no osso causa sintomas
de gravidade variável que podem surgir em qualquer altura, desde a infância até
à idade adulta.
A DG é uma doença inflamatória crónica e multisistémica. O aumento de volu-
me do fígado (hepatomegalia) e do baço (esplenomegalia) causam distensão e
dor abdominal, sensação de enfartamento e diarreia.
Dor nos ossos e nas articulações, crises ósseas com dor muito intensa, fracturas
frequentes e lesões/deformidade dos ossos são os mais debilitantes e incapaci-
tantes da DG: A doença óssea é causada por alterações da circulação na medula
óssea que está repleta de células de Gaucher.
Os sintomas de carácter geral são a palidez, falta de ar, fadiga, falta de forças,
palpitações, devido à diminuição do número de glóbulos vermelhos (anemia);
O Especialista
Isabel Firmino
Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Universidade Clássica
de Lisboa
Bacharelato em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian
de Lisboa
Mestrado em Medicina Escolar pela Faculdade de Medicina de Universidade
Clássica de Lisboa
Pós graduação em Infecção HIV/ SIDA pelo Instituto de Educação Médica da
Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa
Responsável pelo Depar tamento Médico da Genzyme Por tugal SA
48
tendência para sangrar facilmente, hemorragia pós-parto, período menstrual
abundante, nódoas negras frequentes – devido à diminuição do número das
plaquetas (trombocitopenia); aumento do risco de infecções, infecções respira-
tórias repetidas – devido à diminuição do número de glóbulos brancos (leuco-
penia); dificuldade em ganhar peso; a criança pode ter atraso de crescimento e
puberdade tardia. No tipo 1 não existe envolvimento do Sistema Nervoso.
A história pessoal e familiar determina o diagnóstico. O método mais fiável é
o teste da actividade da enzima β-glucocerebrosidase, que pode ser realizado
através de uma análise de sangue – as pessoas afectadas revelam uma actividade
enzimática até 30% da actividade normal.
As alterações dos constituintes do sangue detectam-se em análises de rotina e
pode existir suspeita após uma aspiração de medula óssea (mielograma) que mos-
tre células de Gaucher – este exame é por vezes efectuado em caso de anemia
crónica, trombocitopenia, e/ou aumento de volume do baço (esplenomegalia).
Na investigação da doença óssea, as radiografias dos membros podem revelar
alterações características.
O estudo Genético das pessoas com DG tem especial importância para o ras-
treio e aconselhamento genético das famílias.
Existe terapêutica específica para a Doença de Gaucher desde os anos 90 do
século passado e, para que o benefício seja máximo, é importante que seja indi-
vidualizada e instituída antes que surjam lesões nos órgãos. Existem marcadores
bioquímicos muito úteis no controlo da eficácia da terapêutica e as medidas de
suporte incluem transfusões, analgésicos e tratamentos ortopédicos.
Na DG como em todas as DLS é conveniente uma abordagem multidisciplinar.
Sem tratamento, a DG é progressiva.
A entidade oficial responsável pela
confirmação do diagnóstico e pelo
seguimento das pessoas afectadas pela
DG é o Centro Nacional Coordenador
para o Diagnóstico e o Tratamento das
Doenças Lisossomais de Sobrecarga
que funciona no Centro de Genética
Médica Dr. Jacinto de Magalhães, um
dos pólos do Instituto Nacional de
Saúde Dr. Ricardo Jorge.
Para saber mais
www.rarissimas.pt
www.aplisosoma.org
www.orpha.net
www.eurordis.org
www.gaucherdisease.org
www.rarediseases.org
www.gauchercare.com
49
G
50
O Gist, cujo nome vem da sua designação em Inglês, representa um tipo de cancro
raro e pouco conhecido do tubo digestivo. O Gist pertence a uma classe de doenças
chamadas “sarcomas”, com origem no tecido conjuntivo, que inclui gordura, múscu-
los, vasos sanguíneos, tecidos cutâneos profundos, nervos, ossos e cartilagens.
O Gist pode aparecer ao longo do tubo digestivo, cerca de 50% no estômago, 25% no
intestino delgado, 10% no cólon e 15% noutros locais do tubo digestivo.
Trata-se de um tipo de cancro que pode ocorrer em qualquer idade, entre os 40 e
Gist
O Especialista
Maria Margarida Cunha Damasceno
Licenciada em Medicina, pela FMUP
Especialista de Medicina Interna no H. S. António e pela OM
Especialista de Oncologia Médica pela OM
Directora do Serviço de Oncologia do H. S. João
Chefe de Serviço de Oncologia Médica
Coordenadora do Grupo de Patologia Oncológica do SNC do H. S. João
Membro efectivo da SPO, fazendo par te da direcção da SPS e do Grupo Por tu-
guês de Investigação Oncológica do Tubo Digestivo
Presidente do Grupo de Trabalho Nacional para elaboração das orientações
terapêuticas do carcinoma colo-rectal
Presidente da Associação Por tuguesa de Neuro-Oncologia
Trata-se de um tipo de cancro que pode ocorrer
em qualquer idade, entre os 40 e 80 anos, sem preferência
por sexo. Não existem factores de risco conhecidos
para o seu aparecimento.
50
51
G
80 anos, sem preferência por sexo. Não existem factores de risco conhecidos para
o seu aparecimento.
O Gist parece ser causado por uma alteração específca no ADN celular, com uma
mutação da enzima Kit (CD117) das células normais. Esta enzima é uma tirosino-
cinase, responsável pelo crescimento celular. A sua mutação permite o crescimento
descontrolado das células tumorais. Recentemente concluiu-se que todos os Gist, in-
dependentemente do seu tamanho ou localização, têm capacidade de invasão. Mesmo
após ter sido removido através de cirurgia, o Gist pode reaparecer no mesmo local ou
metastizar à distância.
O doente com Gist pode apresentar enfartamento pós-prandeal, hemorragia diges-
tiva, vaga dor ou desconforto abdominal. Raramente o doente manifesta obstrução
intestinal. Por vezes, o doente pode palpar um tumefação abdominal.
O Gist pode também apresentar-se com evidência de metastização (principalmente
no fígado). A sintomatologia deste tipo de cancro é pobre pelo que, não raramente, o
tumor já é grande na altura do diagnóstico.
O diagnóstico inclui análises e avaliação por TAC, mas o diagnóstico defnitivo faz-se por
biopsia. Quando o patologista identifca características de Gist, efectua estudos por imu-
nocitoquimica, com anticorpos específcos para a molécula CD117 (também conhecida
por c-kit). 95% dos Gist são c-kit positivos. O tipo de mutação do c-kit, pode permitir pre-
ver a resposta ao tratamento. As mutações mais frequentes são nos exons 11, 9 e raramente
13 e 17, podendo esta última ser responsável pela resistência ao tratamento.
A maioria dos Gist com menos de 5cm apresentam um índice mitótico baixo, são
pouco agressivos, pelo que a cirurgia é, normalmente, sufciente.
Os Gist com mais de 5cm, apresentam um índice mitótico alto, pelo que são mais agres-
sivos. Podem invadir os tecidos vizinhos ou metastizar à distância, principalmente, para
o fígado e peritoneu. Até há pouco tempo atrás, não havia tratamento específco para
estes doentes. O aparecimento de novas moléculas, nomeadamente, os inibidores da ti-
rosino-cinase, melhorou signifcativamente o prognóstico do Gist. O imatinib (Glivec),
é um tratamento oral que controla a doença em 80% dos casos. Nos casos de resistência
ao Glivec, os doentes podem benefciar de tratamento com Sunitinib (Sutent).
Para saber mais
www.ensemblecontrelegist.org
52
Esta doença caracterizada por um conjunto de anomalias (Síndrome) deve o seu nome
ao facto de os recém-nascidos afectados por ela terem um choro inconfundível que se as-
semelha ao miar de um gato. Trata-se duma doença rara descrita pela 1ª vez em 1963 por
Lejeune e colegas, cuja incidência mencionada na literatura varia entre 1/15.000 e 1/20.000,
mas estes números podem pecar por defeito. A Síndrome do miar do gato é uma doença
genética de hereditariedade (origem) cromossómica causada pela perda (delecção) de par-
te do material genético localizado no braço p (braço curto) do cromossoma 5. Na maioria
Grito de Gato
O Especialista
Maximina da Conceição dos Santos Rodrigues Pinto
Os indivíduos afectados por esta Síndrome apresentam,
para além do choro característico causado por um desenvolvimento
anormal da laringe e que tende a desaparecer antes do 1º ano de vida,
um peso baixo ao nascer e um atraso de crescimento.
Licenciada em Medicina pela Universidade de Lourenço Marques
Especialista em Genética Médica
Citogeneticista e Geneticista Clínica no South African Institute for Medical Research,
School of Pathology, University of Witwatersrand
Médica geneticista, com funções de Chefe da Unidade de Citogenética do Institu-
to de Genética Médica Jacinto Magalhães
52
53
G
dos casos (+/- 85%) esta perda de material genético é de natureza esporádica, tendo os pais
cromossomas (cariótipo) normais e não se sabe o que originou essa perda – nestes caso
trata-se duma situação de novo com um risco de recorrência em futura descendência que é
muito próximo do da população geral. Nos restantes casos (+/- 15%) existe uma alteração
cromossómica num dos progenitores com riscos acrescidos para a futura descendência e,
eventualmente, até para outros familiares. O tamanho da delecção, ou seja, a quantidade de
material genético perdido do 5p, é variável de doente para doente, podendo a mesma ser
facilmente visualizada num estudo cromossómico convencional (cariótipo) na maioria dos
casos, enquanto que noutros essa delecção é tão pequena que só pode ser detectada recor-
rendo a técnicas mais sofsticadas como, por exemplo, FISH, MLPA ou array CGH. Já estão
devidamente identifcadas e mapeadas as regiões críticas responsáveis pelas diferentes ca-
racterísticas físicas desta Síndrome (banda 5p15 e sub-bandas) e a ausência das mesmas é
compartilhada por todos os doentes afectados. A maioria dos estudos na literatura favore-
cerem a existência de uma correlação entre o tamanho da delecção e a gravidade da doen-
ça, nomeadamente, no que diz respeito ao atraso mental. Os indivíduos afectados por esta
Síndrome apresentam, para além do choro característico causado por um desenvolvimento
anormal da laringe e que tende a desaparecer antes do 1º ano de vida, um peso baixo ao
nascer e um atraso de crescimento. O atraso no desenvolvimento psicomotor e, mais tarde,
o atraso mental são uma constante mas o grau de gravidade é variável. Ao nascer, a grande
maioria apresenta hipotonia (falta de força muscular) que progride para um desenvolvi-
mento da massa muscular diminuída. As características físicas incluem uma microcefalia
(cabeça pequena), uma face redonda (em lua cheia) que tende a alongar-se à medida que os
anos passam, um hipertelorismo (olhos afastados), fendas palpebrais orientadas para baixo
e uma micrognatia (queixo pequeno) que tende a desaparecer com a idade. Cerca de 1/3
dos doentes tem anomalias cardíacas e, ocasionalmente, existem anomalias do foro ofal-
mológico, renal, esquelético, etc. Complicações respiratórias e difculdade de alimentação
são frequentes nas crianças mais pequenas. Infelizmente, os tratamentos que existem são
apenas sintomáticos. O desenvolvimento intelectual benefcia duma estimulação precoce
e apoio de educação especial com um suporte essencial no meio familiar. Não existe uma
prevenção primária desta doença, poden-
do aparecer no seio de qualquer família.
Existe uma prevenção secundária através
do aconselhamento genético e do diagnós-
tico pré-natal quando a história familiar ou
uma gravidez anormal assim o justifque.
Para saber mais
www.orpha.net
www.nord.org
54
A Hipertensão Pulmonar (HP) era, até há bem pouco tempo, uma entidade obs-
cura, frequentemente não identificada, porque omissa nos procedimentos co-
muns de diagnóstico e tratamento.
Por consenso, considera-se HP quando a pressão média na artéria pulmonar
(PMAP) é superior a 25 mmHg. A elevação da PMAP pode ocorrer como resulta-
do de aumento da resistência vascular pulmonar (RVP) no território pré-capilar e
é designada por Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP), ou por aumento da pres-
são venosa pulmonar, geralmente como consequência de doença cardíaca esquer-
da (valvulopatia mitral ou disfunção ventricular esquerda). No primeiro caso, a
pressão de encravamento capilar pulmonar (PECP) é normal (< 15 mmHg), no
segundo está elevada.
A doença cardíaca esquerda é a principal causa de HP e deve ser sempre despis-
tada. A doença pulmonar crónica com hipoxemia e a tromboembólica pulmonar
são as causas mais frequentes de HAP. Entre nós, as cardiopatias congénitas com
shunts intra-cardíacos são também causa frequente de HAP.
Quando, após um estudo etiológico sistematizado para as diversas situações clí-
nicas apontadas, não é encontrada nenhuma das doenças referidas, dizemos estar
perante uma HAP Idiopática (HAPI). Esta pode ter um carácter familiar e, nes-
te caso, estaremos perante uma HAP Hereditária (HAPF). Estas duas entidades
acompanham-se frequentemente de alterações genéticas, hoje bem identificadas.
A HAPF e HAPI são doenças raras, com uma incidência e prevalência de 2 a 5 e 20
a 30 casos/milhão de habitantes, respectivamente; são doenças crónicas, com mau
prognóstico e com sobrevidas médias curtas (2 a 3 anos), quando não tratadas.
Hipertensão Arterial
Pulmonar
Os sinais e sintomas da HP são inespecífcos, estão muitas vezes mascarados,
sendo frequentemente interpretados como pertencendo ao quadro clínico
da doença de base associada. O diagnóstico exige, por isso, um baixo limiar
de suspeita e uma abordagem sistematizada das manifestações clínicas.
54
55
H
Os sinais e sintomas da HP são inespecíficos, estão muitas vezes mascarados, sen-
do frequentemente interpretados como pertencendo ao quadro clínico da doença
de base associada. O diagnóstico exige, por isso, um baixo limiar de suspeita e
uma abordagem sistematizada das manifestações clínicas.
Na HP devida a doença cardíaca ou pulmonar a clínica é dominada pela patologia
de base. A suspeita é eminentemente clínica e baseia-se na conjugação de sinais e
sintomas (fadiga, dispneia, aperto torácico, síncope ou pré-síncope com o esforço),
sobretudo, quando em contexto de doença potencialmente associada a HAP e na
ausência de patologia cardíaca esquerda ou pulmonar que, por si mesmas, justi-
fquem a clínica. Na HPTEC a história pessoal ou familiar de tromboembolismo
venoso ou de factores de risco para o mesmo é fundamental para a suspeita clínica.
Dispneia de esforço e fadiga estão presentes na maioria dos doentes, decorrendo
da incapacidade para responder ao esforço com aumento do débito cardíaco. Dor
torácica relacionada com o esforço (angina) e síncope aparecem com o desenvol-
vimento de falência ventricular direita. A congestão hepática passiva, por insu-
ficiência ventricular direita, pode causar anorexia e dor no hipocôndrio direito.
O sinal mais precoce de HP é o aumento da intensidade do componente pulmonar
O Especialista
Abílio Óscar da Silva Reis
Licenciatura em Medicina
Especialista em Medicina Interna
Assistente Graduado de Medicina Interna
Consultor de Medicina Interna
Chefe de Serviço de Medicina Interna
Professor Associado Convidado do ICBAS
Fundador e responsável pelo Gabinete de Técnicas Pneumológicas e consulta-
doria em Doenças Respiratórias do ex-Serviço de Medicina 1
Responsável pela Unidade de Doentes Respiratórios do Depar tamento de Me-
dicina do CHP – Hospital de Santo António
Fundador e responsável pela Consulta de Hiper tensão Pulmonar do HSA-CHP
56
do segundo som (S2p). Pode aparecer um sopro de ejecção sistólico ou, na doença
avançada, um sopro diastólico de regurgitação pulmonar. O aparecimento de um
S4 ventricular direito e de lift para-esternal esquerdo ou sub-xifoideu, traduz o
desenvolvimento de hipertrofia ventricular direita. A falência ventricular direita
leva a hipertensão venosa sistémica que se manifesta por distensão venosa jugular
patológica, hepatomegalia, pulsatilidade hepática, edemas periféricos e ascite. A
cianose central só surge nas fases avançadas da doença, excepto na HAP associada
a shunts sistémico-pulmonares, onde pode aparecer precocemente.
A telerradiografia (Rx) do tórax e o electrocardiograma (ECG) são anormais em
80-90% dos casos e podem reforçar a suspeita clínica.
Os sinais radiológicos mais comuns de HP são, o alargamento das áreas corres-
pondentes às artérias pulmonares centrais e a atenuação da rede vascular perifé-
rica, resultando em campos pulmonares oligoémicos. O alargamento do bordo
direito da silhueta cardíaca traduz dilatação da aurícula direita. Nas incidências
de perfil, pode observar-se diminuição do espaço retrosternal por dilatação do
ventrículo direito. As alterações radiológicas descritas, embora específicas, são
pouco sensíveis. O Rx de tórax pode, no entanto, ajudar a determinar a etiologia,
quando mostra alterações sugestivas de doença pulmonar crónica (enfisema ou
fibrose pulmonar).
A sensibilidade (55%) e especificidade (70%) do ECG são insuficientes para o
recomendar como método de rastreio. As alterações mais frequentemente en-
contradas são sinais de sobrecarga e/ou hipertrofia ventricular direita e dilatação
auricular direita (desvio direito do eixo, R>S em V1, bloqueio completo ou in-
completo de ramo direito e aumento da amplitude da onda P em DII). A presença
destas alterações obriga a despistar HP. A estratégia terapêutica da HP depende
da classe clínica.
Com a colaboração dos Drs Rui Barros, Alfredo Martins e Nelson Rocha.
Para saber mais
www.who.int/ncd/cvd/pph.htm
57
H
Centros de referência para HAP em Portugal
Porto HSA – CHP Medicina Abílio Reis

VN Gaia CHGaia Pneumologia Teresa Shiang

Coimbra HUC Cardiologia Graça Castro

Lisboa HSMarta Cardiologia Ana Agapito

Lisboa Santa Maria Cardiologia Nunes Diogo
Lisboa Pulido Valente Cardio/Pneumologia Nuno Lousada/Carvalheira Santos

Almada Garcia de Orta Cardiologia Carlos Cotrim
58
A Doença de Huntington, antes conhecida como Coreia de Huntington caracteriza-se
por perda neuronal selectiva e progressiva, associada a alterações motoras, cognitivas
e comportamentais. É uma doença genética, causada por uma mutação no gene que
codifca a proteína huntingtina, que resulta numa cadeia mais longa do aminoácido
glutamina numa das extremidades desta proteína. É uma doença hereditária, com
transmissão dominante; há uma probabilidade de 50% desta mutação ser transmitida
a cada flho ou flha.
Huntington
A sintomatologia varia de pessoa para pessoa e pode
incluir disartria e disfagia, rigidez, défce cognitivo
e perda progressiva de memória, depressão, agressividade
e perturbações do sono, entre outros.
O Especialista
Eliana Marisa Ramos
Licenciatura em Bioquímica pela Universidade do Por to
Membro da Rede Europeia da Doença de Huntington (EHDN)
Colaboração no Módulo de Epidemiologia Genética do Programa de Mestrado
em Saúde Pública
Realização de diversos trabalhos de investigação na área da Genética Molecular
58
59
H
Em Portugal, a prevalência da doença é de 5-10 doentes em cada 100 000 pessoas.
O principal sintoma é a coreia, que consiste em movimentos involuntários, bruscos e
irregulares. A sintomatologia varia de pessoa para pessoa e pode incluir disartria (dif-
culdades na fala) e disfagia (difculdades na deglutição), rigidez, défce cognitivo e perda
progressiva de memória, depressão, agressividade e perturbações do sono, entre outros.
Os primeiros sintomas podem surgir em qualquer idade. Contudo, é muito mais co-
mum o seu aparecimento entre os 30 e 50 anos. A idade de início está correlaciona-
da inversamente com o comprimento da cadeia de glutaminas. Cadeias mais longas
conduzem a sintomas mais precoces, podendo, por vezes, surgir antes dos 20 anos
(juvenil). A duração da doença varia também muito, sendo a esperança de vida, em
média, de 10 a 15 anos. A Doença de Huntington não é fatal mas, à medida que os
sintomas progridem, aumenta o número de complicações associadas, tais como lesões
provocadas por quedas, desidratação, desnutrição ou infecções.
Esta doença não tem, até ao momento, nenhum tratamento específco, sendo a medi-
cação escolhida em função dos sintomas observados, de forma a aliviá-los e a prevenir
algumas complicações. Podem ser usados anti-psicóticos (para alucinações, deliríos,
agressividade), anti-depressivos (depressão, comportamento obsessivo-compulsivo),
tranquilizantes (ansiedade, coreia), estabilizadores do humor (mania, bipolaridade),
entre outros. É também importante providenciar apoio e assistência social a estes do-
entes e aos seus familiares, para além de uma boa nutrição ser fundamental.
Existe um teste genético que permite confrmar o diagnóstico clínico e que pode
também ser usado como teste preditivo ou pré-natal, nos familiares em risco que o
pretenderem fazer.
Tratando-se de uma doença debilitante, ainda sem cura, as principais linhas de in-
vestigação têm-se centrado na compreensão do mecanismo que causa a patologia e
a sua instabilidade genética, assim como na procura de modifcadores associados à
neurodegeneração, que poderão permitir o desenvolvimento de novas terapias e levar,
eventualmente, à descoberta de uma cura.
Modelos animais e celulares têm sido utilizados para melhor se compreender a
doença e testar potenciais terapias, tais como o silenciamento do gene da hunting-
tina, transplantes de células estaminais
que, hipoteticamente, substituirão os
neurónios danificados, e a adminis-
tração de vários compostos em ensaios
clínicos.
Para saber mais
www.cgpp.eu
60
As Ictioses são doenças da queratinização, caracterizadas por pele dura, seca, com
escamas (Grego ichthys/ikhthus, peixe), sem envolvimento mucoso e com envol-
vimento sistémico variável. São divididas em formas genéticas (ictioses primá-
rias), um número de sindromas ictiosiformes raros e casos individuais que não
se encaixam em qualquer das categorias, para além de ictioses adquiridas, que
são uma complicação de doenças graves sistémicas ou malignas. São um grupo,
clínico e geneticamente heterogéneo, resultando em dificuldade considerável na
sua classificação. A Ictiose Lamelar (IL) é uma ictiose autossómica recessiva, em-
bora tenha sido descrito um padrão de hereditariedade dominante. A incidência
é cerca de 1 em 300 000 nados-vivos. Existe em todo o mundo. É facilmente re-
conhecível na sua forma mais grave, mas o diagnóstico é difícil no período neo-
-natal, quando se confunde com outras ictioses que se manifestam como o bebé
colódio. A diferenciação epidérmica terminal e a constituição lipídica do estrato
córneo estão alteradas, condicionando o compromisso da função barreira da pele.
Os estudos genéticos nas formas graves de IL revelaram linkage ao cromossoma
14q11 – gene da transglutaminase 1 (TGM-1), identificando-se várias mutações
que reduzem ou inibem a sua função. Há, contudo, marcada heterogeneidade
biológica (ligação a diferentes cromossomas, casos autossómicos dominantes). A
IL manifesta-se à nascença, habitualmente por um bebé colódio, recém-nascido
envolvido por uma membrana amarelada aderente. Há eversão labial (eclabium)
e palpebral (ectropion), com risco de lesão ocular. A membrana sofre fissuração
e começa a destacar-se nos primeiros dias de vida até às primeiras semanas. Pode
ser localizada nalguns bebés e pode refazer-se por um período de 12 semanas. Há
complicações potencialmente letais como hipotermia, sepsis, eritrodermia, insu-
ficiência renal e sequelas neurológicas da desidratação hiponatrémica. Têm risco
Há complicações potencialmente letais como hipotermia, sepsis,
eritrodermia, insufciência renal e sequelas neurológicas da desidratação
hiponatrémica. Existe risco aumentado de nascimento prematuro,
bem como da morbilidade e mortalidade perinatais.
Ictiose Lamelar Congénita
60
61
I
aumentado de nascimento prematuro, bem como da morbilidade e mortalidade
perinatais. Ao longo do tempo, formam-se escamas espessas, aderentes no cen-
tro, destacadas à periferia, fazendo lembrar armaduras. Nos membros a escama
é separada por fissuração superficial, conferindo à pele um aspecto de leito de
rio ressequido. Nos casos mais graves a escama espessa e rígida destaca-se inter-
mitentemente, provocando fissuras profundas e dolorosas, especialmente à volta
das pregas e dos dedos, palmas e plantas. Pode haver limitação da mobilidade.
Por vezes, há eritema variável mas não se verifica eritrodermia. Ocasionalmente,
ocorre queratodermia palmo-plantar, alopécia cicatricial, ectropion persistente e
hipoplasia das cartilagens nasais e auriculares. A sudorese está seriamente com-
prometida. Não há alterações mucosas nem das hastes capilares. O crescimento e
as capacidades intelectuais não são afectados. As formas graves tendem a persistir
ao longo da vida. Os problemas psicológicos relacionados com o aspecto cosméti-
co são importantes – perturbação da auto-estima, isolamento social e mau desem-
penho escolar. O objectivo do tratamento é a redução das escamas e a hidratação
e lubrificação da pele. Nas formas ligeiras, obtém-se através da aplicação regular
de emolientes e queratolíticos (ureia, ácido salicílico, entre outros) mas o seu uso
é limitado pela irritação e absorção sistémica. Recentemente, foi descrito o bene-
Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Univ. Nova de Lisboa
Especialista em Dermatologia e Venereologia
Assistente Hospitalar de Dermatologia
Assistente Hospitalar Graduado de Dermatologia
Clínico na Clínica CUF Alvalade
Membro da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia
Membro da International Society of Dermatopathology
Membro da European Society of Dermatology
Membro do Grupo Português de Dermatopatologia
Faz parte do Comité Científico da Raríssimas
O Especialista
Rui Jorge Ramalho Bajanca
62
fício com derivados da Vitamina D3 e com um novo retinóide de aplicação tópica,
o gel de Tazaroteno. Nas formas severas devem ser ponderados os retinóides orais
que conferem benefício significativo, reduzindo o eritema, as escamas e o pruri-
do, permitindo uma participação mais activa nas actividades diárias. Utiliza-se a
Acitretina numa dose inicial mais elevada reduzindo-se de acordo com a resposta,
até à menor dose que demonstre eficácia. Devido à possibilidade de toxicidade e à
cronicidade da doença, prefere-se a terapêutica intermitente. Os principais efeitos
secundários são a secura, a descamação palmo-plantar em grandes retalhos (difi-
culta a marcha e é dolorosa), a possibilidade de elevação dos lípidos séricos e das
enzimas hepáticas e a toxicidade óssea.
Os estudos na infância reforçaram a segurança da terapêutica. A teratogenicidade
é outro dos efeitos secundários graves, devendo ser efectuada uma contracepção
eficaz nas doentes em idade fértil.
Para saber mais
www.rarediseases.org
www.scalyskin.org
63
I
64
A Síndrome de Joubert (JS) é uma doença autossómica recessiva, caracterizada por
hipotonia, ataxia, atraso, apraxia oculomotora e alterações respiratórias neonatais.
O seu marcador neurorradiológico é uma malformação complexa da junção ponto-
-mesencefálica que tem o aspecto de um dente molar – sinal do dente molar, “molar
tooth sign” (MTS). Resulta da associação de uma hipoplasia do vermis cerebeloso,
de uns pedúnculos cerebelosos superiores grossos e horizontalizados e de uma fossa
interpeduncular grande e profunda. O MTS foi identifcado noutras síndromes, com
características clínicas adicionais.
Existe uma variabilidade de atingimento de outros órgãos (olho, rim e fígado) e uma
associação com outras malformações do sistema nervoso central (anomalias do corpo
caloso, polimicrogíria, hidrocefalia e encefalomeningocelo) que permitem identifcar
um largo espectro de síndromes, chamadas Joubert syndrome related disorders (JSRDs).
Seis loci associados a JSRDs foram identifcados:
Joubert
Existe uma variabilidade de atingimento de outros órgãos – olho,
rim e fígado – e uma associação com outras malformações do sistema
nervoso central – anomalias do corpo caloso, polimicrogíria,
hidrocefalia e encefalomeningocelo.
O Especialista
Clara Barbot
Serviço de Neurologia Pediátrica, Centro Hospitalar do Por to
Doutoramento em Ciências Médicas, ICBAS, Universidade do Por to
Licenciatura, Faculdade de Medicina, Universidade do Por to
Directora do Serviço de Neurologia Pediátrica , Centro Hospitalar do Por to
Investigadora, IBMC (UnIGENe)
64
65
J
– JBTS1 (9q) É uma forma de JS clássica, com atingimento cerebeloso e
ponto-mesencefálico; raramente da retina ou rim;

– JBTS2 (11p) ou Síndrome cerebelo-oculo-renal (CORS2). O atingimento
é multi-orgânico e grave, incluindo o olho (colobomas, microfalmia e re-
tinopatia), o rim (quistos renais e nefronoptise), o fígado e ainda uma dis-
morfa facial e uma polidactilia;
– JBTS3 (6q) Há malformações extensas do sistema nervoso central e uma
epilepsia associada. A patologia da retina é frequente (retinite pigmentar/
amaurose de Leber). Mutações do gene AHI1 parecem ser uma causa fre-
quente de JSDRs com atingimento da retina e outras anomalias cerebrais.
Este gene codifca uma proteína, a jouberina, cujo papel no desenvolvi-
mento cortical e cerebeloso não é bem conhecido. O gene AHI1 pode tam-
bém estar associado a nefronoptise;
– JBTS4 (2q) Delecções do gene NPHP1, um gene habitualmente res-
ponsável pela nefronoptise juvenil isolada (rins polimicroquísticos com
insufciência renal progressiva), estão associadas a JSRDs com atingi-
mento renal e cerebral moderado.
– JBTS5 (12q) Estão identifcadas mutações no gene CEP290 / NPHP6 em
associação com uma Síndrome cerebelo-retiniano ou cerebelo-renal;
– JBTS6 (8q) O encefalocelo occipital e a polidactilia, características clíni-
cas do síndrome de Meckel-Gruber (MKS), foram descritos no JS associa-
dos ao gene MKS3/TMEM67.
Recentemente foram identifcadas mutações no gene ARL13B associadas à forma clássica
de JS e no gene RPGRIP1L associado ao fenótipo cerebelo-renal. Os JSRD estão incluídos
num grupo de doenças em permanente
expansão, as ciliopatias. A investigação visa
melhorar a correlação fenótipo-genótipo
do grande espectro dos JSDRs e aperfeiço-
ar a classifcação clínico-genética.
Para saber mais
www.jsfrcd.org
66
A Síndrome de Kabuki tem uma prevalência de 1/32.000 a 1 por 86.000. Foi des-
crita pela primeira vez em 1981 em 10 crianças japonesas e a sua designação tem
origem no teatro tradicional japonês. Até 2001 já tinham sido publicados mais de
três centenas de casos com múltiplas origens geográficas. A causa da Síndrome
de Kabuki é desconhecida. Em 2003 foi descrita a presença de uma duplicação no
braço curto do cromossoma 8 (8p22-8p23.1) em seis doentes mas esta alteração
não foi posteriormente confirmada em nenhum outro caso, continuando a existir
Kabuki
O Especialista
Jorge Manuel Saraiva
As manifestações predominantes são uma baixa estatura pós-natal,
defciência cognitiva habitualmente ligeira a moderada e as características
faciais, esqueléticas e dos dermatoglifos. As anomalias mais frequentes
são as renais, as cardiopatias congénitas e a fenda palatina.
Professor Catedrático Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de
Coimbra
Director do Serviço de Genética Médica do Centro Hospitalar de Coimbra EPE
66
67
K
investigação nesta área. A quase totalidade dos casos é esporádica (há apenas um
indivíduo afectado em cada família) sendo possível que se trate de uma situação
de hereditariedade autossómica dominante, em que a quase totalidade dos casos
ocorra por neo-mutação. Não existem critérios de diagnóstico universalmente
aceites nem um teste laboratorial que permita confirmar ou excluir a situação. As
manifestações predominantes são uma baixa estatura pós-natal (83%), deficiên-
cia cognitiva habitualmente ligeira a moderada (92%) e as características faciais,
esqueléticas e dos dermatoglifos. As anomalias mais frequentes são as renais (em
40 a 50%), as cardiopatias congénitas (em 30 a 58% dos casos) e a fenda palatina
(40%). Há ainda alterações dentárias com frequência (em mais de 60%, habitual-
mente hipodontia dos incisivos e prémolares).
O envolvimento oftalmológico ocorre em 30 a 50% dos doentes e manifesta-se em
regra por ptose ou estrabismo. 60% dos doentes têm uma maior susceptibilidade
para infecções, embora, em regra, não seja identificada nenhuma deficiência imu-
nitária específica. O padrão de crescimento habitual consiste numa velocidade
baixa com início no primeiro ano de vida que se acentua subsequentemente, com
obesidade na segunda década de vida e microcefalia. Pelo contrário, a hipotonia
e a hipermobilidade articular tendem a melhorar com a idade. A utilidade das
intervenções terapêuticas deve ser adequada a cada doente. As mais utilizadas são
a fisioterapia, a medicação anti-epiléptica (necessária em 10 a 40% dos caso) e in-
tervenções cirúrgicas por surdez (presente em mais de 50% e habitualmente neu-
rossensorial). A hormona de crescimento foi utilizada esporadicamente. Não está
a decorrer nenhum ensaio terapêutico nem há nenhum medicamento específico
disponível. Existem registos regionais e nacionais de doentes em alguns países
europeus bem assim como associações de doentes, à semelhança de Portugal.
Para saber mais
www.orpha.net
www.ncbi.nlm.nih.gov/entrez
www.chc.min-saude.pt/servicos/genetica
68
A Doença de Kawasaki é uma vasculite aguda, descrita em 1967 por Tomisaku Ka-
wasaki, no Japão. É, actualmente, a primeira causa de doença cardíaca adquirida nas
crianças dos países desenvolvidos. A etiologia é desconhecida mas, a sua ocorrência
por surtos aparentemente epidémicos, sazonais e regionais, a natureza autolimitada
e os sinais de infamação aguda, sugerem uma origem infecciosa. Cerca de 80% das
crianças afectadas têm menos de 5 anos de idade. Em Portugal, a incidência anual é
de 3-5 casos/ 100000 crianças com idade inferior a cinco anos.
Kawasaki
O Especialista
Anabela Paixão
Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa
Chefe de Serviço de Cardiologia Pediátrica do CHLC – Hospital de Santa Marta
Presidente da Comissão de Coordenação da Qualidade do CHLC – Hospital de
Santa Marta
Membro do Gabinete de Administração Clínica do Hospital de Santa Marta
Membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria
Membro da Associação Europeia de Cardiologia Pediátrica
Membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia
Membro da Sociedade Latina de Cardiologia Pediátrica;
Membro da Sociedade Europeia de Cardiologia
As lesões cardíacas atingem cerca de 25% dos doentes
e constituem a principal causa de mortalidade e morbilidade.
A gravidade é variável, desde um pequeno aneurisma único,
até aneurismas gigantes, múltiplos, afectando várias artérias coronárias.
68
69
K
A lesão dos vasos sanguíneos que caracteriza esta doença é atribuída a uma cascata de
fenómenos relacionados com a resposta imunitária a uma agressão de provável etiologia
infecciosa. As lesões cardíacas atingem cerca de 25% dos doentes e constituem a princi-
pal causa de mortalidade e morbilidade. A gravidade é variável, desde um pequeno aneu-
risma único, até aneurismas gigantes, múltiplos, afectando várias artérias coronárias.
O diagnóstico é baseado num conjunto de critérios clínicos, em que febre persistente
durante um período mínimo de cinco dias, é associada a quatro de cinco sinais clínicos:
– Alterações das extremidades com eritema e edema das mãos e dos pés,
na fase inicial, seguidos de descamação em placas;
– Exantema polimórfco do tronco e das extremidades;
– Conjuntivite bilateral não exsudativa;
– Alterações dos lábios e da cavidade oral, com lábios vermelhos e
fssurados, língua em framboesa e hiperémia da orofaringe;
– Adenomegalias cervicais, frequentemente unilaterais. Um nódulo
tem, obrigatoriamente, um diâmetro >1.5 cm.
Existem quadros incompletos ou atípicos, mais frequentes em lactentes com idade in-
ferior a seis meses, em que a febre, associada apenas a um ou dois dos critérios clínicos,
basta para estabelecer o diagnóstico, desde que se evidenciem aneurismas das artérias
coronárias por ecocardiografa. Em 50% dos doentes, os aneurismas pequenos regri-
dem nos primeiros 18 meses de evolução, ao contrário dos grandes aneurismas que
tendem a permanecer, condicionando um pior prognóstico. O diagnóstico diferencial
inclui outras doenças febris e exantemáticas, nomeadamente, escarlatina, reacções me-
dicamentosas, Síndrome de Stevens-Johnson, exantemas víricos, Síndrome de choque
tóxico, Síndrome da pele escaldada, riquetsiose, artrite sistémica juvenil e leptospirose.
O tratamento precoce com γ-globulina e ácido acetilsalicílico em dose anti-infa-
matória visa o controlo dos fenómenos infamatórios, para evitar o aparecimento de
aneurismas das coronárias e minimizar o risco de complicações. Nas crianças que ti-
veram aneurismas, recomenda-se a prescrição de ácido acetilsalicílico em dose antia-
gregante plaquetária, por tempo prolongado, para prevenir a ocorrência de trombose
coronária. Nos casos mais graves, está
indicada a cirurgia de revascularização
coronária ou a transplantação cardíaca.
O enfarte agudo do miocárdio é a princi-
pal causa de mortalidade tardia.
Para saber mais
www.spp.pt/conteudos/default.asp?ID=147
70
As Leucemias são cancros das células sanguíneas que habitualmente afectam os
glóbulos brancos. A causa da maioria dos tipos de leucemia ainda é desconhecida.
São doenças oncológicas do sangue, em que uma população de células malignas
infiltra e “asfixia“ a medula óssea, impedindo a produção normal de células do
sangue. A sua origem reside numa das células da medula que sofre uma altera-
ção e começa a multiplicar-se de forma descontrolada. Como consequência dá-
-se a acumulação de células anormais que constituem a leucemia. No caso das
Leucemias
A Leucemia Aguda é uma doença com alto potencial
de cura, com tratamentos intensivos de quimioterapia,
por vezes associada à radioterapia ou através
de transplante de medula óssea.
O Especialista
Herlander Marques
Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto
Especialista em Medicina Interna
Especialista em Oncologia Médica
Estágio no Institut Gustave Roussy, Viljuiff, França, em Hematologia Oncológica
Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
Assistente Hospitalar no H. São João, Porto, no Instituto Português de Oncologia,
Porto e, actualmente, no H. São Marcos, Braga
Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, da Sociedade Portuguesa
de Hematologia, da European Haematology Association
Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas
Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português
70
71
L
Leucemias Agudas as células leucémicas têm uma multiplicação muito superior
e rapidamente conquistam o espaço utilizado pelas células normais, levando à
diminuição do seu número. Esta proliferação anárquica das células anormais faz
com que se estendam inicialmente na medula óssea e posteriormente ao sangue e,
por vezes, a outros órgãos (gânglios, baço, fígado, amígdalas, timo, entre outros).
Presentemente, a Leucemia Aguda é uma doença com alto potencial de cura, com
tratamentos intensivos de quimioterapia, por vezes associada à radioterapia ou
através de transplante de medula óssea. A gravidade da doença varia de doente
para doente, dependendo quer das características particulares de cada Leucemia
quer das características próprias do doente.
As leucemias crónicas têm evolução indolente, na maior parte dos casos, per-
mitindo sobrevivências longas com qualidade de vida. Para algumas destas leu-
cemias surgiram avanços terapêuticos recentes impressionantes no contexto das
doenças oncológicas.
Para saber mais
www.apll.org
www.abrale.org.br
72
Linfomas são cancros ou tumores malignos dos gânglios e tecidos linfóides. Têm
origem nas células do sistema imunológico constituído por um tipo de glóbulos
brancos especializados, chamados linfócitos. Estas células circulam pelos vasos
sanguíneos e linfáticos estando presentes em todos os órgãos incluindo a medula
óssea. No entanto, localizam-se principalmente nos gânglios e em agrupamentos
linfóides de alguns órgãos como pulmões, ossos e sistema gastrointestinal.
Os sinais de alerta ou sintomas mais comuns dos Linfomas não são específicos
Linfomas
Para um diagnóstico exacto de linfoma e do sub-tipo de linfoma
é necessário realizar uma biopsia, isto é, a extracção de fragmentos
de tecidos ou órgãos que são examinados sob microscópio.
O Especialista
Herlander Marques
Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto
Especialista em Medicina Interna
Especialista em Oncologia Médica
Estágio no Institut Gustave Roussy, Viljuiff, França, em Hematologia Oncológica
Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
Assistente Hospitalar no H. São João, Porto, no Instituto Português de Oncologia,
Porto e, actualmente, no H. São Marcos, Braga
Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, da Sociedade Portuguesa
de Hematologia, da European Haematology Association
Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas
Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português
72
73
L
(podendo ocorrer em doenças simples como infecções). Embora o sinal mais fre-
quente da doença seja um aumento do tamanho dos gânglios, este sinal pode,
também, surgir noutras doenças, nomeadamente, de origem infecciosa e auto-
-imune. Os sintomas incluem os suores nocturnos, a perda de peso, fraqueza,
falta de apetite, cansaço e fadiga fora do comum, coceira persistente, entre outros.
Para um diagnóstico exacto de linfoma e do sub-tipo de linfoma é necessário rea-
lizar uma biopsia, isto é, a extracção de fragmentos de tecidos ou órgãos que são
examinados sob microscópio. Esta biopsia permite, em geral, a distinção de ou-
tras doenças com sintomas semelhantes, que podem também originar o aumento
do gânglio linfático (mononucleose infecciosa, toxoplasmose, citomegalovírus,
leucemia, sarcoidose, tuberculose, sida, entre outras).
É importante determinar a extensão da doença através de exames específicos.
Os Raio X, biópsia (exame histológisco), ecografia, tomografia computadorizada
(TAC), análise ao sangue e urina, recolha de amostra da medula óssea, entre ou-
tros, são alguns dos possíveis exames pedidos pelo médico.
Em geral, o tratamento é baseado na quimioterapia (medicamentos “citostáticos”),
normalmente usados em fase mais avançada da doença; a radioterapia (uso de Raios
X de alta energia) usada habitualmente em casos de diagnóstico precoce (fase inicial
da doença ou quando está localizada e não disseminada) ou mesmo em combinação
coordenada entre os dois tipos de tratamento. O transplante de medula óssea pode
ser uma alternativa para algumas pessoas com linfomas e, em situações particulares
específcas, mesmo para casos em fase avançada da doença.
Para saber mais
www.apll.org
www.abrale.org.br
74
A Doença de Machado-Joseph (DMJ) é uma doença neurodegenerativa do sis-
tema nervoso central, que se caracteriza clinicamente por ataxia cerebelosa pro-
gressiva, oftalmoparésia externa progressiva, nistagmus, sinais piramidais e extra-
piramidais, retracção palpebral, atrofias musculares, fasciculações da face e da
língua.
A elevada variabilidade clínica da doença justificou a classificação dos doentes
em três tipos clínicos:
Tipo 1 – Caracterizado por síndrome extra-piramidal e piramidal (hiper-
reflexia, espasticidade, Babinski +) muito marcado. A idade de início dos
sintomas é mais precoce e a gravidade dos mesmos é também maior.

Tipo 2 – Caracterizado apenas por sintomas do Sistema Nervoso
Central; modo de início em todos os doentes (sem/com evolução para
os tipos 1/3). A idade de início dos sintomas e a gravidade são “inter-
médias”.

Machado-Joseph
A manifestação da doença está dependente de uma mutação
dinâmica (expansão instável do tripleto CAG) no gene ATXN3.
A identifcação e clonagem do gene foi feita por Kawagushi
e colaboradores em 1994.
O Especialista
Teresa Taylor Kay
Geneticista Clínica
75
M
Tipo 3 – Caracterizado por sinais periféricos, sobretudo atrofias mus-
culares de predomínio distal. A idade de início dos sintomas é mais
tardia e a gravidade dos mesmos é mais ligeira.
Entre as ataxias espinocerebelosas, a DMJ é a mais prevalente (Prevalência das
ataxias espinocerebelosas – 3:100000). A manifestação da doença está dependente
de uma mutação dinâmica (expansão instável do tripleto CAG) no gene ATXN3,
localizado em 14q32.1. A identificação e clonagem do gene foi feita por Kawa-
gushi e colaboradores em 1994. Existe instabilidade na transmissão que, normal-
mente, se traduz num aumento dos números de repetições (CAG) entre as gera-
ções, o que está associado ao fenómeno de antecipação. A presença de um alelo
expandido (>61 repetições) implica que a proteína resultante ganhe uma função
neurotóxica, conduzindo à morte neuronal.
A descoberta da alteração genética abriu novas possibilidades para a realização de:
– teste pré-sintomático;
– diagnóstico pré-natal;
– diagnóstico pré-implantatório.
Em 1996 foi criado o Programa de Aconselhamento Genético e Teste Preditivo
na DMJ que incluiu a avaliação multidisciplinar das valências de Neurologia, Psi-
cologia e Genética Clínica, faseada em várias consultas, a todos os candidatos à
realização do referido teste.
Na Região Autónoma dos Açores, entre 1996 e 2008, o nível de adesão ao referido
Programa foi de 47%, sendo este valor um dos mais elevados verificados na apli-
cação de um protocolo de teste preditivo em todo o mundo.
Para saber mais
www.aaadmj.com
www.apahe-pt.com
76
A Síndrome de Marfan é uma doença do tecido conjuntivo de transmissão autossó-
mica dominante com uma incidência estimada de 1/5000-10000 nados-vivos. É uma
doença genética, com transmissão autossómica dominante, mas cerca de 27% dos
casos devem-se a mutações esporádicas. O gene envolvido na forma mais comum
é o FBN1, que se localiza no braço longo do cromossoma 15. Codifca a síntese da
proteína fbrilina 1, componente essencial do tecido conjuntivo. Estão identifcadas
mais de 500 mutações, o que torna difícil a confrmação genética. O diagnóstico deve
ser clínico, segundo os critérios de Ghent revistos em 1996.
Os principais sistemas atingidos são o cardiovascular, músculo-esquelético e ocular.
Os doentes apresentam geralmente estatura alta, com membros longos e aracnodacti-
lia (caracteristicamente diminuição da razão entre o segmento superior e inferior do
Marfan
A utilização de β-bloqueadores reduz a progressão
da dilatação da aorta e o risco de dissecção.
O risco de ruptura da aorta é particularmente elevado
durante a gravidez e trabalho de parto.
O Especialista
Luísa Farinha Pereira
Assistente Hospitalar Graduada de Pediatria
Trabalha na Unidade de Pneumologia Pediátrica do Hospital de Santa Maria, in-
tegrando as equipas de Pneumologia Pediátrica, Fibrose Quística, seguimento de
Crianças Dependentes de Tecnologia (ventilação e oxigenoterapia no domicílio)
e Tuberculose infantil (de que é responsável).
Como par te do seu trabalho em Pneumologia Pediátrica tem seguido crianças e
adolescentes com Síndrome de Marfan com complicações respiratórias.
77
M
tronco e entre a estatura e a envergadura).
As anomalias cardiovasculares são as principais responsáveis pela mortalidade. Con-
sistem mais frequentemente na dilatação da aorta ascendente, associada ou não a re-
gurgitação da válvula aortica ou dissecção da aorta ascendente, no prolapso da válvula
mitral que ocorre em cerca de 75% dos casos, com ou sem regurgitação, dilatação
da artéria pulmonar ou calcifcação do anel mitral. A dilatação da raiz da aorta é a
principal causa de morbilidade e mortalidade. A utilização de β-bloqueadores reduz a
progressão da dilatação da aorta e o risco de dissecção. O risco de ruptura da aorta é
particularmente elevado durante a gravidez e trabalho de parto.
As alterações do sistema músculo-esquelético são das mais características e incluem
tórax escavado ou em quilha, escoliose grave, extensão reduzida a nível do cotovelo
além de mobilidade anormal do pulso.
A nível ocular a subluxação do cristalino pode resultar em miopia grave e descolamento
da retina. Pode ocorrer pneumotórax espontaneo, por vezes recidivante, associado a
bolhas subpleurais apicais. No conjunto a apresentação clínica é muito variável.
Os doentes com Síndrome de Marfan devem evitar a prática de desportos e activida-
des que proporcionem embates, nomeadamente desportos de contacto, exercícios ex-
tenuantes e desportos de competição, pelo grande risco que comportam quer a nível
cardio-vascular quer ocular. No entanto, podem e devem praticar outros desportos
mais calmos, como a caminhada ou o golf, por exemplo.
Todos estes doentes devem ser seguidos por uma equipa experiente nesta doença,
incluindo cardiologista e oftalmologista para vigilância da evolução, e antecipa-
ção/prevenção dos problemas que poderão surgir. Os doentes e famílias deverão
reconhecer os sintomas das principais complicações como dissecção da aorta,
descolamento da retina e pneumotórax, e saber como procurar ajuda atempada-
mente. As famílias de doentes com Marfan deverão também ter apoio por uma
equipa de genética clínica para prever a probabilidade de repetição da situação em
gravidezes subsequentes; poderá ser possível um diagnóstico pré-natal.
Para saber mais
www.marfan.org
78
Um Mieloma é uma forma de tumor maligna de plasmócitos. Geralmente de-
senvolve-se na medula óssea. Por razões ainda desconhecidas, surgem alterações
genéticas nos plasmócitos que evoluem para uma doença maligna, o Mieloma
múltiplo. O grupo de células “anormais” (clone) multiplica-se excessivamente,
formando tumores na medula óssea e produzindo uma grande quantidade de an-
ticorpos anormais que se acumulam no sangue e na urina.
O número crescente de células plasmáticas anormais invade e lesa vários tecidos e
Mieloma
É comum em pessoas mais velhas (menos frequente antes
dos 40 anos), afecta habitualmente mais homens do que mulheres
e tem maior incidência na população de raça negra.
Ocupa o segundo lugar no ranking das leucemias.
O Especialista
Herlander Marques
Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto
Especialista em Medicina Interna
Especialista em Oncologia Médica
Estágio no Institut Gustave Roussy, Viljuiff, França, em Hematologia Oncológica
Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
Assistente Hospitalar no H. São João, Porto, no Instituto Português de Oncologia,
Porto e, actualmente, no H. São Marcos, Braga
Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, da Sociedade Portuguesa
de Hematologia, da European Haematology Association
Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas
Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português
79
M
órgãos. Como estas células e os anticorpos que produzem não são normais (imu-
noglobulinas anómalas), não protegem o corpo das infecções e, por consequência,
os doentes estão muito mais expostos a infecções. Não se pode identificar uma
causa concreta para a origem do Mieloma múltiplo. Entre as diversas possibili-
dades encontra-se a diminuição do sistema imunológico, factores genéticos, con-
tacto com determinadas substâncias químicas, exposição a radiações ou vírus. Na
grande maioria dos casos, os doentes de Mieloma múltiplo não exibem factores de
risco claros, podendo, por isso, ser um resultado de vários factores.
É comum em pessoas mais velhas (menos frequente antes dos 40 anos), afecta
habitualmente mais homens do que mulheres e tem maior incidência na popu-
lação de raça negra. Ocupa o segundo lugar no ranking das Leucemias. É uma
doença maligna rara, originária da proliferação de células plasmocitoides, onde
há tumores ósseos e tumores extra-ósseos. Provocam micro-fracturas nos ossos,
podendo, por vezes, desenvolver-se noutras áreas fora dos ossos, com perturba-
ções bioquímicas do sangue (hiperglobulinemia) e uma proteína anormal na uri-
na (albumosúria de Bence-Jones).
O doente pode apresentar dor localizada (dores ósseas – osteoporose), sobretudo
na coluna ou costelas, provocada pela presença de substâncias osteoclásticas (que
retiram o cálcio dos ossos), enfraquecendo-os, pelo que se fracturam facilmente.
Entre os sintomas, estão ainda a hipercalcemia (cálcio elevado no sangue), provo-
cada pela libertação de cálcio dos ossos danificados e que entra na circulação san-
guínea; as massas amiloides (principalmente na língua), um dos principais sinais
de diagnóstico da doença, em que a mandíbula é a mais afectada. Pode também
causar confusão mental provocada pelo afluxo inadequado de sangue no cérebro,
podendo originar sintomas neurológicos, problemas visuais e dores de cabeça.
Outro sintoma é a dificuldade da circulação do sangue (Síndrome de hipervico-
sidade), porque o sangue fica muito espesso (pela presença de grande quantidade
de macroglobulinas). Apresentam uma redução do fluxo sanguíneo na pele, nos
dedos das mãos, dos pés, no nariz. O sangue espesso também agrava o estado
cardíaco e causa um aumento da pressão no cérebro, podendo provocar vertigens
ou, mesmo, levar ao coma.
Para saber mais
www.myeloma-euronet.org
80
A Neurofibromatose tipo 1 (NF1, OMIM nº 162200 e 162210) é uma doença
neurocutânea e multisistémica, que se caracteriza pela presença de múltiplas
manchas “café-com-leite” (MCL), sardas nas regiões axilares e inguinais, nó-
dulos de Lisch (hamartomas da íris) e neurofibromas múltiplos, em várias lo-
calizações.Podem ocorrer complicações, de maior ou menor gravidade clínica,
como dificuldade de aprendizagem, escoliose e outras complicações ortopédi-
cas, glioma óptico e do sistema nervoso central e outros tumores. O diagnóstico
de Nf1 realiza-se com base em critérios clínicos, acordados numa Conferência
de Consenso que se realizou em 1987 (NIH Consensus Conference). Estes cri-
térios ainda permanecem válidos e são de grande utilidade para o diagnóstico
médico. Nesta conferência foram identificados 7 critérios, dos quais pelo menos
2 devem estar presentes:
1 – Seis ou mais manchas “café-com-leite”, com pelo menos 5mm de
diâmetro antes da puberdade, ou 15mm posteriormente;
2 – Duas ou mais neurofibromas de qualquer tipo ou um neurofibro-
ma plexiforme;
3 – Sardas nas regiões axilares ou inguinais;
4 – Glioma óptico;
5 – Dois ou mais nódulos de Lisch;
6 – Uma complicação óssea característica, como displasia do esfenói-
de ou estreitamento da cortical dos ossos longos, com ou sem pseu-
do-artrose;
7 – Um familiar em primeiro grau (progenitor, irmão ou filho) com
critérios clínicos de NF1.
Neurofibromatose tipo 1
A Neurofbromatose tipo 1 (NF1) é uma doença neurocutânea
e multisistémica, que se caracteriza pela presença de múltiplas manchas
“café-com-leite” (MCL), sardas nas regiões axilares e inguinais,
nódulos de Lisch (hamartomas da íris) e neurofbromas múltiplos.
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81
N
O diagnóstico pode ser difícil em crianças ao nascer ou nos primeiros anos,
quando não existe história familiar da doença e as manifestações clínicas são
escassas, por vezes apenas algumas MCL. Nestes casos, é necessário vigiar e
registar as manifestações que possam surgir ao longo dos anos para confirmar
ou excluir a NF1. As lesões cutâneas aumentam de número e dimensões com a
idade (95% dos doentes), os nódulos de Lisch estão presentes em 70% aos 10
anos e na adolescência surgem os neurofibromas (nódulos cutâneos ou sub-
-cutâneos). O estudo genético do gene NF1 (localizado em 17q11.2 e que co-
difica a proteína neurofibromina) permite o diagnóstico pela identificação de
uma mutação em heterozigotia. A realização do estudo genético é necessário
apenas raramente, para o que contribui o gene NF1 ser muito extenso e estarem
identificadas inúmeras mutações. A probabilidade de se identificar uma mu-
tação patológica num doente com critérios clínicos depende da metodologia
laboratorial que foi usada, e pode atingir 80% a 90%. A NF1 é uma doença com
transmissão autossómica dominante, pelo que 50% dos descendentes de um do-
ente irão manifestá-la (penetrância elevada e expressão clínica muito variável,
incluindo na mesma família). Em cerca de 50% dos doentes, a doença resulta
O Especialista
Luis Nunes
Responsável da Especialidade de Genética Médica do CHLC – Hospital Dona
Estefânia
Coordenador do Depar tamento de Genética do Instituto Nacional de Saúde
Dr. Ricardo Jorge
82
de uma mutação de novo no gene NF1, estando o risco de recorrência limitado
aos seus filhos. É sempre necessário avaliar os progenitores de um doente para
que o médico se assegure se está presente perante um caso familiar ou não. O
diagnóstico diferencial realiza-se com outras doenças como a neurofibromatose
tipo 2, e os síndromes de Noonan e Watson.
O aconselhamento genético pode ser obtido nos Serviços de Genética Médica
em Lisboa (Hospital Santa Maria e Hospital Dona Estefânia), em Coimbra (Hos-
pital Pediátrico) e no Porto (Centro de Genética Médica Jacinto de Magalhães).
O teste genético não se realiza ainda em Portugal, quando necessário o exame
pode realizar-se no estrangeiro.
De acordo com as complicações da doença, os doentes podem recorrer a con-
sultas especializadas hospitalares de Ortopedia, Neurologia e Neurocirurgia,
Cirurgia, Oftalmologia ou outras.
Para saber mais
www.orpha.net
83
N
83
84
Trata-se de uma doença relativamente rara que é transmitida geneticamente, na
maioria dos casos, de pais para flhos, ainda que a forma e a gravidade da apresen-
tação possa diferir da dos pais. Nalgumas crianças, nenhum dos progenitores tem
Osteogenesis Imperfecta, constituindo nestes casos uma mutação expontânea. A
ecografa fetal pode mostrar, nos casos graves, múltiplas fracturas que levantam a
suspeita de “osteogenesis imperfecta”. É, todavia, através dos testes genéticos que
podemos confrmar o diagnóstico. Na maioria dos casos é a história clínica de múl-
tiplas fracturas que ocorrem com pequenos ou mesmo sem traumatismo que le-
vantam a suspeita do diagnóstico. Nas pessoas com OI, um dos genes responsáveis
pela formação do osso e, em particular, de um tipo de proteína está defeituoso. Esta
proteína (Tipo I colagénio) é um dos componentes fundamentais do tecido conjun-
tivo do aparelho esquelético, sendo essencial na formação dos ligamentos, dentes
e na esclerótica dos olhos. Como resultado deste defeito genético a proteína não é
produzida em quantidade sufciente ou a sua qualidade não é a ideal. Em qualquer
dos casos os ossos tornam-se mais frágeis quebrando com facilidade mas cicatri-
zando a uma velocidade normal. Existem várias formas de apresentação podendo
estar associadas a outras características como a baixa estatura, uma face triangular,
problemas respiratórios e perda de audição. Existem 4 tipos de OI segundo a classi-
fcação de Sillence (a mais conhecida) que, ultimamente, foi reclassifcada em oito
tipos em função das alterações genéticas:

Tipo I – Tem Colagénio de qualidade normal mas produzido em quantidade insufciente:
– Fracturas frequentes;
– Escoliose moderada;
– Hipermobilidade articular;
Osteogenesis Imperfecta
A Osteogenesis Imperfecta (OI), também conhecida pela
“doença dos ossos de vidro”, quer dizer “imperfeição na formação
do osso” e caracteriza-se por uma maior fragilidade
dos ossos com risco de múltiplas fracturas.
84
85
O
– Tónus muscular reduzido;
– Escleróticas azuis. Este facto é devido às escleróticas serem mais fnas
mostrando o plexo venoso subjacente;
– Perda de audição – surdez;
– Pequena protusão dos olhos.
Pode ainda dividir-se em tipo A e B consoante têm associadas alterações da dentição
(dentinogenesis imperfecta – ausente no Tipo A e presente no Tipo B)
Tipo II – O colagénio não é de qualidade sufciente nem em quantidade adequada:
– A maioria das crianças morre antes do nascimento ou no primeiro ano
de vida devido a insufciência respiratória ou hemorragia intra-cerebral;
– Graves problemas respiratórios por atrofa pulmonar;
– Graves deformidades ósseas e baixa estatura.
O Tipo II pode ainda subdividir-se em A, B e C consoante as deformidades dos ossos
longos e costelas. O Tipo IIA mostra ossos longos largos e curtos e costelas largas. O
O Especialista
Manuel Cassiano Neves
Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa
Responsável pelo Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria (HSM)
Direcção da Unidade de Or topedia Infantil no HSM
Responsável pelo Serviço de Or topedia do CHLC – Hospital Dona Estefânia
Membro do Member of European Board of Orthopaedics and Trauma (EBOT)
Presidente da Sociedade Por tuguesa de Or topedia e Traumatologia
Membro da Sociedade Europeia de Or topedia Infantil
86
Tipo IIB mostra ossos longos largos e curtos e costelas fnas. O Tipo IIC mostra ossos
longos fnos e curtos associados a costelas fnas e em rosário. Tem prognóstico grave.
Tipo III – O colagénio tem quantidade sufciente mas não qualidade sufciente:
– Ossos fracturam-se facilmente, às vezes, mesmo antes do nascimento;
– Ossos deformados, por vezes, de forma grave;
– Possíveis problemas respiratórios;
– Pequena estatura associada a escoliose e deformidade torácica em forma
de barril;
– Hipermobilidade articular;
– Hipotonia muscular;
– Escleróticas azuis;
– Possível surdez.
Caracteriza-se como a “forma progressiva” com uma forma simples à nascença e que
se vai agravando progressivamente com o crescimento.

Tipo IV – O colagénio tem quantidade sufciente mas não tem uma qualidade extrema:
– Ossos fracturam com facilidade especialmente antes da puberdade;
– Pequena estatura associada a escoliose e deformidade torácica em forma
de barril;
– As deformidades ósseas variam de pequenas a moderadas;
– Possível surdez;
– Escleróticas normais.
Similar ao tipo I, pode ser subclassifcada em Tipo A (ausente) e B (presente) em
função da associação com a dentinogenesis imperfecta.
Tipo V – Possui as mesmas características clínicas do tipo IV. Distingue-se histologi-
camente por um osso tipo “rede”. Clinicamente associada à “Triade Tipo V” – banda
radio-opaca adjacente às cartilagens de crescimento, hipertrofa do calo ósseo e calcif-
cação da membrana inter-óssea radio-cubital. Nunca é devida a uma mutação genética.
Tipo VI – As mesmas características clínicas do tipo IV. Distingue-se histologicamen-
te por um osso tipo “escama de peixe”.
87
O

Tipo VII – Descrita em 2005, é uma forma recessiva e ligada a um determinado tipo de
população do Quebec. Uma mutação no gene CRTAP é a causa desta forma de doença.
Tipo VIII – OI causada pela mutação do gene LEPRE1.
Não existe cura para a OI, mas existem algumas terapêuticas que podem ajudar a me-
lhorar a qualidade de vida da criança e com um efeito positivo durante o crescimento. O
tratamento deve ser individualizado, de acordo com a gravidade da doença e em função
da idade, e deve ser ministrado por uma equipa vocacionada para esta patologia. Na maio-
ria dos casos, o tratamento é médico pela administração de bifosfonatos. Esta terapêutica
incide sobre a reabsorção do osso que é diminuída pela acção dos medicamentos. Nas
crianças com formas graves de OI, a terapêutica com bifosfonatos diminui o número de
fracturas bem como as dores ósseas. Esta terapêutica deve ser acompanhada por pessoal
especializado requerendo uma monitorização cuidada. Os resultados a longo prazo da
terapêutica com bifosfonatos não estão ainda comprovados pelo que antes de ser iniciada
qualquer terapêutica esta deve ser discutida com a equipa médica bem assim como a sua
duração. As fracturas são tratadas da mesma forma como as fracturas das crianças com
estrutura óssea normal através de talas ou gessos sendo de encorajar o mais cedo possível
a utilização do membro de forma a reduzir o risco de outras fracturas. Os pais não devem
ter medo de pegar nas crianças com OI mas devem ser alertados para a maneira correcta
de pegar nos bebés. Nunca se deve pegar uma criança por baixo dos braços ou pelos pés
quando se muda a fralda. A criança deve estar apoiada por uma mão entre as pernas e sob
a nádega e outra mão dando apoio à região dos ombros, pescoço e cabeça. Devido ao risco
de fracturas muitas famílias podem ser acusadas de “maus tratos”. O tratamento cirúrgico
está indicado no caso de fracturas de repetição, deformidades ou má consolidação das
fracturas. O tratamento mais indicado consiste na introdução de cavilhas metálicas no
canal medular dos ossos longos, dando-lhes assim maior resistência. Estas cavilhas devem
ser preferencialmente telescópicas de forma a acompanhar o crescimento ósseo, evitando
assim múltiplas cirurgias de substituição durante o período de crescimento. A escoliose
na OI pode pôr problemas complexos visto que o tratamento com coletes é inefcaz e a
cirurgia é a única terapêutica possível. Na
maioria das crianças o número de fractu-
ras vai decrescendo com a idade mas a OI
pode tornar-se novamente activa depois da
menopausa ou dos 60 anos nos homens.
Para saber mais
www.freewebs.com/aposteogeneseimperfeita
88
As Porfírias constituem um conjunto de entidades que têm em comum correspon-
derem a uma alteração de enzimas responsáveis pela biossíntese do heme. A altera-
ção enzimática pode ser adquirida ou de origem genética.
Deste grupo salientamos a Porfíria Aguda Intermitente que, apesar de rara, é, de
entre o grupo das Porfírias congénitas, a mais frequente e a que cursa com quadros
clínicos de maior gravidade.
A Porfíria Aguda Intermitente é uma doença de transmissão genética autossómica
dominante, também conhecida por Porfíria Sueca uma vez que a incidência mais
elevada de casos sintomáticos ocorre nos países nórdicos e no Reino Unido.
Na Europa calcula-se que a forma sintomática desta doença tenha uma prevalência
de um a dois casos por 100.000 habitantes.
A doença é mais frequente em doentes portadores de doença psiquiátrica grave.
Num estudo realizado na Finlândia em doentes hospitalizados em hospitais psiquiá-
tricos a prevalência aumentou para um caso em quinhentos doentes.
Os casos sintomáticos de Porfíria Aguda Intermitente são mais frequentes no sexo
feminino, iniciando-se os sintomas habitualmente após a puberdade.
Os sintomas mais frequentes, sobretudo na fase inicial da doença e, simultanea-
mente, os mais graves correspondem a quadros de dor abdominal generalizada ou
localizada, frequentemente associada a outros sintomas tais como náuseas, vómitos,
alteração do trânsito intestinal, quer sob a forma de diarreia quer sob a forma de
obstipação, ou mesmo simulando um íleus paralítico. A intensidade dos sintomas
coloca problemas difíceis a nível de diagnóstico diferencial com quadros de abdó-
men agudo que requerem terapêuticas cirúrgicas.
Para além dos sintomas gastrointestinais as doentes desenvolvem quadros de hiper-
tensão durante as crises que, com o evoluir da doença, tendem a tornar-se perma-
Porfíria Aguda Intermitente
As Porfírias são doenças raras, complexas, constituindo
um conjunto fascinante de doenças metabólicas,
quer do ponto de vista da investigação, quer na prática clínica
pelos desafos diagnósticos que colocam.
88
89
P
nentes, sendo também frequente apresentarem durante as crises taquicardia, suda-
ção, tremores, ansiedade e, por vezes, alterações neurológicas como diminuição da
força muscular.
Um sinal típico da doença, nem sempre presente, mas que quando se verifca as-
socia-se a situações de crises graves, é a alteração da cor da urina que se apresenta
vermelha.
Com o evoluir da doença as doentes podem desenvolver quadros psíquicos, tais
como depressão, psicose, agitação, delírio e alteração do estado de consciência.
Na mulher adulta as crises são frequentemente desencadeadas no período pré-
-menstrual, sendo conhecida a relação entre a administração de estrogéneos sinté-
ticos e de progesterona e o desencadear das crises.
As crises de Porfíria podem ter vários factores desencadeantes tais como fármacos.
Para além das hormonas acima referidas são vários os fármacos que podem causar
crises, nomeadamente, os indutores do citocromo P450. Dietas de baixo valor ca-
lórico, hábitos tabágicos e alcoólicos, stress emocional ou físico estão, entre outros,
factores responsáveis pelo desencadear das crises.
Nos portadores de Porfíria Aguda Intermitente deve ter-se em consideração o des-
O Especialista
Maria Perpétua Gomes Rocha
Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Chefe de Serviço de Medicina Interna do Quadro do Pessoal Civil do Exército/
Hospital Militar Principal
Especialista em Gastrenterologia
Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Médicos da Indústria Farma-
cêutica “AMPIF”
Presidente do Conselho de Administração da ONG “Fundação Portuguesa A Co-
munidade Contra a SIDA”
90
piste precoce do carcinoma hepato-celular, uma vez que esta entidade apresenta
prevalência elevada nestes doentes.
A terapêutica dos doentes com Porfíria Aguda Intermitente compreende várias me-
didas tendentes a evitar o desencadear das crises, tais como a eliminação de hábitos
tabágicos e alcoólicos, a não administração dos fármacos contra-indicados, o dia-
gnóstico precoce e terapêutica de qualquer situação de infecção, a adopção de uma
dieta equilibrada com adequado valor calórico.
A administração de cimetidina e de hematina para proflaxia das crises não é consen-
sual, no entanto, alguns AA recomendam a sua utilização. A hematina tem-se mos-
trado particularmente útil na proflaxia das crises de Porfíria Aguda Intermitente.
A hematina tem-se mostrado, também, efcaz para redução da intensidade e con-
trolo das crises. Nestas, é fundamental a administração de quantidades elevadas de
hidratos de carbono, sendo, por vezes, necessária a administração de alimentação
parentérica, o controlo das naúseas e vómitos, o controlo da dor bem como da hi-
pertensão arterial.
O apoio psiquiátrico é fundamental para diagnóstico precoce das patologias
associadas.
O apoio psicológico dos doentes e a terapia familiar são igualmente fundamentais
para permitir que as portadoras desta doença possam desenvolver a sua vida com o
máximo de normalidade.
Para saber mais
www.porfiria.org
www.porphyriafoundation.com
91
P
92
A Púrpura Trombocitopénica Imune (PTI) é uma doença em que existe diminui-
ção da contagem das plaquetas devido a um mecanismo imunológico. O curso
clínico da PTI é heterogéneo e imprevisível. O seu início pode ser insidioso, com
o diagnóstico a realizar-se no decurso da identificação de trombocitopenia numa
análise de rotina. Em contraste, alguns doentes têm como primeira manifestação
clínica a ocorrência de discrasia hemorrágica grave associada a trombocitopenia
significativa, que obrigam a hospitalização. Em contraste com as crianças, em que
a PTI é maioritariamente uma doença aguda e auto-limitada, a doença nos doen-
tes adultos têm um curso clínico crónico que evolui ao longo de muitos anos. No
adulto, a PTI é uma doença que ocorre maioritariamente em mulheres de idade
fértil. Satia et al estimam que a incidência média de PTI no Reino Unido, Alema-
nha e Holanda seja de 3, 2.7 e 1.9 por 100000 habitantes, respectivamente. Por
seu lado, o estudo dinamarquês encontrou uma incidência de 1.94 e de 4.62 por
100000 habitantes por ano em indivíduos com, respectivamente, menos e mais de
60 anos de idade. Na população adulta parece existir uma correlação com a idade,
tendo vários estudos documentado um aumento da incidência de PTI acima dos
60 anos.
A maioria dos estudos publicados descreve um aumento significativo da inci-
dência da PTI em indivíduos do sexo feminino em comparação com os do sexo
masculino. O ratio pode variar entre 1.2 e 2.6 mulheres para 1 homem afectado
pela doença.
Tradicionalmente, sempre se considerou que a PTI era uma doença originada
pela destruição de plaquetas no baço quando acopladas a um anticorpo especí-
Púrpura
Tombocitopénica Imune
Em contraste com as crianças, em que a PTI
é maioritariamente uma doença aguda e auto limitada,
a doença nos doentes adultos têm um curso clínico crónico
que evolui ao longo de muitos anos.
92
93
P
fico, presumindo-se que a síntese de novas plaquetas não estava diminuída. No
entanto, dados mais recentes sugerem também outros mecanismos de doença, tal
como uma trombopoiese ineficaz, o que pode justificar novas opções terapêuticas
até à data não disponíveis.
A contagem das plaquetas circulantes na PTI depende do balanço entre a ve-
locidade da destruição e a capacidade da medula óssea aumentar a sua síntese.
Estudos recentes sugerem que um número importante de doentes com PTI tem
megacariopoiese inadequada face ao ritmo de destruição de plaquetas. Os níveis
circulantes de trombopoietina e de factor de crescimento derivado dos megaca-
riocitos encontra-se normal ou ligeiramente elevado nos doentes com PTI, quan-
do comparados com o grande aumento dos níveis de trombopoietina encontrados
em doentes com falência da medula óssea. Estudos in vitro demonstraram tam-
bém que soro de doentes com PTI pode inibir a proliferação de magacariócitos
na medula óssea.
Em conjunto, estes dados sugerem que, em muitos doentes com PTI, a síntese de
novas plaquetas pela medula óssea é inadequada.
É bem conhecido que a fagocitose plaquetária por macrófagos desempenha um
O Especialista
Mcccc
OO EEspeciialliistta OO EEs Especiia ialliiista tta ta
Mcccc Mcccc
O Especialista
João Forjaz Lacerda
Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Realizou especialidade de Hematologia Clínica no Hospital de Santa Maria, em
Lisboa, e no Memorial Sloan-Kattering Cancer Center, em Nova Iorque
Assistente Graduado de Hematologia Clínica no Hospital de Santa Maria
Professor de Hematologia
Director da Clínica Universitária de Hematologia da Faculdade de Medicina da
Universidade de Lisboa
94
papel importante na PTI. É um fenómeno mediado pelo receptor FcγIIA macro-
fágico que capta plaquetas com anticorpos anti-GPIIb/IIIa na sua superfície, des-
poletando as vias de transdução de sinal intracelulares que culminam com a des-
truição da plaqueta. Pensa-se que este fenómeno ocorra primariamente no baço.
Os principais alvos antigénicos para os anticorpos anti-plaquetários são GPIIb/
IIIa e GPIb/IX. Uma vez que os testes de pesquisa de anticorpos anti-plaquetários
dão resultados negativos em doentes com o diagnóstico de PTI, os mesmos não
foram incluídos nas recomendações actuais. A detecção de anticorpos anti-pla-
quetários correlaciona-se com um curso clínico mais agressivo, com hemorragias
mais frequentes e necessidade de terapêutica mais intensiva.
O quadro clínico é muito variável e depende da gravidade da trombocitopenia. É
raro que contagens de plaquetas superiores a 30000/mcl se acompanham de he-
morragias espontâneas. Em regra, os doentes com contagens de plaquetas maiores
do que 30000 a 50000/mcl mantêm vigilância periódica sem necessidade de tera-
pêutica específica, a não ser que exista uma necessidade pontual de aumentar a
contagem de plaquetas (intervenção cirúrgica, traumatismo, parto, etc). Em con-
traste, os doentes com contagens plaquetárias inferiores têm necessidade de tera-
pêutica específica, que tem por objectivo fazer subir o número de plaquetas como
prevenção de hemorragias espontâneas ou após traumatismos minor. A principal
complicação hemorrágica é a discrasia cutâneo-mucosa, que se manifesta como
epistáxis, gengivorragias, menorragias, petéquias e equimoses. Os doentes idosos
têm um risco acrescido de complicações hemorrágicas.
A PTI Aguda é, primariamente, uma doença da criança. Embora muitos casos
sejam auto-limitados e evoluam favoravelmente sem terapêutica, a maioria dos
hematologistas inicia terapêutica com contagens plaquetárias inferiores a 10000-
-20000/mcl. As opções disponíveis nesta fase da doença são a corticoterapia, a
infusão intravenosa de imunoglobulina polivalente ou de imunoglobulina anti-D.
Os doentes adultos têm, como já foi mencionado, uma forma crónica de PTI. A maio-
ria dos doentes recebe inicialmente corticoterapia e imunoglobulina intravenosa. No
entanto, cerca de 30% dos doentes não conseguem manter contagens de plaquetas
acima de 30000/mcl após 6 a 12 meses de terapêutica standard, sendo considerados
refractários. Muitos agentes imunossupressores foram estudados de forma não con-
trolada neste contexto, incluindo azatioprina, ciclofosfamida, vincristina, ciclospori-
na, micofenolato de mofetil, com resultados variáveis. Nesta fase, também se consi-
dera a esplenectomia. O Rituximab também pode ser utilizado nesta fase da doença.
95
P
Recentemente, foram introduzidos no mercado novos agonistas dos receptores da
trombopoietina, que estimulam a produção de plaquetas. Nesta classe destacam-
-se o eltrombopag e o romiplostim. O eltrombopag é um pequeno péptido ago-
nista do receptor da trombopoietina administrado por via oral, tendo apresenta-
do resultados preliminares promissores. O romiplostim é o primeiro dos agen-
tes trombopiéticos de 2ª geração a entrar em ensaios clínicos. Trata-se de uma
proteína recombinante que se liga ao receptor da trombopoietina, estimulando a
megacariopoiese. O romiplostim é administrado por via subcutânea e apresenta
taxas de resposta superiores a 75% em doentes com PTI crónica refractários à
terapêutica convencional, incluindo a esplenectomia.
Para saber mais
www.itpsupport.org.uk
96
A Febre Q é uma doença provocada pela infecção pela Coxiella Burnetii (família das
Rickettsiaceae), através da inalação de partículas biológicas – lã, placenta e líquido
amniótico, urina, fezes – ou de ingestão de leite não pasteurizado proveniente de ani-
mais infectados (vacas, cabras, carneiros).
Os órgãos envolvidos incluem os pulmões, fígado, medula óssea e baço. Os factores de
risco são os contactos com animais infectados, especialmente em situações endémicas.
A Febre Q apresenta um quadro agudo e um quadro crónico, com manifestações
Q Febre
O período de incubação é, em média, de 20 (14-39) dias e os doentes
apresentam habitualmente sinais e sintomas de infecção aguda
(tipo gripe), com arrepios, febre e cefaleias, combinados
com sintomas de pneumonia e hepatite.
O Especialista
António Vaz Carneiro
Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência
Faculdade de Medicina de Lisboa
Membro do Grupo de trabalho para o Estudo da Agenda de Investigação em
Saúde
Membro do American College of Physicians.
Especializado em Nefrologia, fez par te da Comissão Nacional para as Terapêuti-
cas Não Convencionais e foi membro do Conselho Nacional para a Prevenção
das Doenças Cardiovasculares.
Diplomado em cuidados intensivos, foi director do Serviço de Urgência do Hos-
pital da Cruz Vermelha Por tuguesa
97
Q
discretas durante o surto epidémico.
A Febre Q é uma doença rara, com 60-70 casos reportados ao CDC americano duran-
te os anos de 2001-2003. Uma epidemia na Alemanha em 2003 detectou 299 casos,
com uma taxa de ataque clínico e 20% em adultos e 3% em crianças.
O período de incubação é em média de 20 (14-39) dias e os doentes apresentam ha-
bitualmente sinais e sintomas de infecção aguda (tipo gripe), com arrepios, febre e
cefaleias, combinados com sintomas de pneumonia e hepatite.
O exame objectivo pode detectar erupção cutânea com petéquias, icterícia, hepato-
-esplenomegalia e sinais de condensação pneumónica. Estas manifestações, que cons-
tituem a doença aguda, variam segundo a localização geográfca.
Os doentes com um quadro clínico de Febre Q com duração superior a 6 meses (1-5%
dos infectados) são classifcados como tendo doença crónica, que pode cursar com
endocardite, aneurismas vasculares, osteoartrites e osteomielite e, em casos raros, f-
brose intersticial pulmonar, pseudotumor pulmonar, pseudo-linfoma, amiloidose e
crioglobulinémia mista.
O prognóstico varia do quadro completamente assintomático a uma doença cróni-
ca debilitante. Especialmente importante é a infecção durante a gravidez, que pode
provocar um quadro de cronicidade com complicações obstétricas variadas: abortos
espontâneos, atrasos de crescimento uterino, morte in útero, prematuridade.
O diagnóstico da infecção por Coxiella burnetii baseia-se, para além de alterações
bioquímicas inespecífcas (VS aumentada, trombocitopénia em 25% dos casos, e
aumento dos enzimas hepáticos na grande maioria), na detecção da seroconversão
por imunofuorescência, 7-15 dias após o início dos sintomas (90% dos doentes têm
anticorpos detectáveis às 3 semanas), com pico às 4-8 semanas e desaparecimento
progressivo até aos 12 meses.
As técnicas de PCR e de cultura directa do organismo, embora efcazes, não são uti-
lizadas de rotina. O fármaco de escolha para a doença aguda é a doxiciclina (100
mg po 2 vezes/dia durante 2 semanas), podendo, em alternativa, utilizar-se também
o cloranfenicol e a fuoroquinolona. Para a endocardite da Febre Q utiliza-se uma
combinação de doxiciclina com hidroxicloroquina durante, pelo menos, 18 meses.
O sucesso terapêutico mede-se pelo do-
ente fcar apirético normalmente nos 7
dias seguintes e a hepato-esplenomega-
lia desaparecer nas 2-12 semanas após o
início do tratamento.
Para saber mais
www.cdc.gov/ncidod/dvrd/qfever
98
A Síndrome de Rett corresponde a uma desordem neurológica progressiva e severa
que afecta o desenvolvimento do sistema nervoso central. Está associado a uma muta-
ção espontânea no gene MeCP2, que codifca a proteína de ligação metil-CpG2 e que
está localizado no braço longo do cromossoma X, na região Xq28.
Afecta em maior proporção crianças do sexo feminino (1 caso em 15.000 meninas
nascidas vivas na União Europeia), sendo que as primeiras manifestações clínicas
ocorrem entre os 6 e os 30 meses de idade, sob a forma de defciência mental severa
Rett
Apesar de não existir tratamento disponível, é fundamental uma abordagem
multidisciplinar que inclua o tratamento sintomático através, por exemplo,
do uso de anticonvulsivos para controlo dos ataques epilépticos, melhorar
o estado de alerta e o controlo nutricional especialmente de aporte de cálcio.
O Especialista
Coordenação Técnica de Ana Campos
Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa
Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ci-
ências Médicas de Lisboa
Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde, pela Universi-
dade Católica Portuguesa (UCP)
Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas, sendo actualmente coorde-
nadora de projectos entre DGS-Raríssimas, no âmbito de serviços de informação
sobre doenças raras e medicamentos órfãos
Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed
Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA, ICORD (III and IV WG)
e a Pastoral da Saúde (Setúbal)
98
99
R
S
associada a um quadro clínico de hipotonia, microcefalia (perímetro craniano nor-
mal ao nascimento com desaceleração do crescimento da cabeça entre 6 meses e 4
anos de vida), movimentos das mãos estereotipados e repetitivos com perda do uso
funcional, regressão precoce das actividades comportamental, social e psicomotora
(perda das habilidades previamente adquiridas), manifestação de disfunção da comu-
nicação e de sinais de “demência”, irregularidades respiratórias, ataxia e convulsões.
São critérios de exclusão de Síndrome de Rett, o atraso no crescimento intra-uterino,
visceromegalia, retinopatia ou atrofa óptica, microcefalia no nascimento, existência
de desordens metabólicas ou outras de origem neurológica progressiva (resultado de
infecção ou trauma, por exemplo).
O padrão evolutivo desta doença permite diferenciar 4 estágios: estágio I ou “estágio
de desaceleração precoce” (entre os 6 e os 18 meses) – caracterizado por estagnação no
desenvolvimento, hipotonia, desaceleração do crescimento da cabeça, desinteresse por
jogos; estágio II ou “estágio rapidamente destrutivo” (entre 1 e 3 anos) – caracteriza-
do por rápida regressão e deterioração comportamental e linguística, perda de uso das
mãos e movimentos estereotipados, crises convulsivas, manifestações autistas, insónia;
estágio III ou “estágio pseudo-estacionário” (entre 2 e 10 anos) – em que se observa uma
regressão dos traços autistas, atraso mental severo, melhoria da interacção social, ataxia,
apraxia, disfunções respiratórias; estágio IV ou “Estágio de deteriorização motora tar-
dia” (após os 10 anos) – assiste-se a perda de funções motoras, ausência de linguagem,
atraso no crescimento, manifestação de sintomas piramidais e extrapiramidais, redução
das crises epilépticas, melhoria do contacto visual, rigidez, atrofa muscular, que duram
por vários anos.
Apesar de não existir tratamento farma-
cológico disponível, é fundamental uma
abordagem multidisciplinar que inclua
o tratamento sintomático através, por
exemplo, do uso de anticonvulsivos para
controlo dos ataques epilépticos, melho-
rar o estado de alerta e o controlo nutri-
cional especialmente de aporte de cálcio.
Estudos revelam que a fsioterapia, hi-
droterapia e reabilitação são fundamen-
tais para a melhoria das competências e
da qualidade de vida destas crianças.
Para saber mais
http://anpar.planetaclix.pt
www.syndrome-de-rett.org
www.rett.de
www.orpha.net/data/patho/Pro/en/Rett-FRenPro91.pdf>
www.unifesp.br/dneuro/neurociencias/vol12_2/rett_hi-
dro.htm>
www.ncbi.nlm.nih.gov/sites
www.enfermedades-raras.org
100
A Síndrome de Rubinstein-Taybi é uma síndrome de anomalias congénitas múl-
tiplas associadas a atraso mental, cujas principais alterações fenotípicas são uma
aparência facial específica, polegares e primeiros dedos dos pés grandes e lar-
gos, baixa estatura e atraso cognitivo que pode ser de moderado a grave. As ca-
racterísticas faciais típicas são fendas palpebrais orientadas para baixo, pestanas
longas, ponta do nariz (columela) proeminente em relação às narinas, palato
arqueado e uma expressão facial muito própria – quando sorriem, os doentes
Rubinstein-Taybi
As características faciais típicas são fendas palpebrais
orientadas para baixo, pestanas longas, ponta do nariz (columela)
proeminente em relação às narinas, palato arqueado
e uma expressão facial muito própria.
O Especialista
Maria Teresa Lourenço
Formada no Hospital de Egas Moniz, onde se especializou em Medicina Interna
Serviço de Genética Médica do Hospital de Egas Moniz , tendo obtido os graus
de Assistente de Genética Médica da Carreira Médica Hospitalar, de Especilista
em Genética Médica
Serviço de Genética Médica do CHLC – Hospital de Dona Estefânia, continuan-
do a assegurar a sua actividade assistencial na área da Genética Médica
100
101
R
S
com esta síndrome semicerram as pálpebras, dando a impressão que riem com
os olhos fechados. As curvas de crescimento pré-natal são geralmente normais;
contudo, verifica-se um atraso de crescimento de instalação pós-natal, logo nos
primeiros meses de vida. Mais tarde, em particular na adolescência, podem ficar
obesos. Outras alterações que podem estar presentes são anomalias oculares
(glaucoma, coloboma), anomalias congénitas cardíacas, renais e ou esqueléticas.
O diagnóstico de SRT baseia-se essencialmente na observação das característi-
cas clínicas e de fenótipo específicas desta síndrome. Até agora, os únicos ge-
nes identificados e referidos como sendo responsáveis pela doença são os genes
CREBB e EP300. O estudo citogenético molecular por FISH detecta microdele-
ções em cerca de 10% dos doentes com SRT. O estudo molecular de pesquisa de
mutações permite identificar mutações no gene CREBB em cerca de 30 a 50%
dos indivíduos afectados. As mutações no gene EP300 são detectadas em cerca
de 3% dos doentes.
O SRT não tem um tratamento específico. No entanto, estão recomendados pro-
gramas de intervenção precoce, adequados a cada caso. É fundamental que estas
crianças sejam acompanhadas por equipas médicas multidisciplinares, de modo a
poderem beneficiar da realização de testes de detecção precoce (surdez, anoma-
lias oculares, patologia articular, entre outros), que muitas vezes são detectados já
tardiamente. É, pois, importante conhecer a história natural da doença.
A SRT pode ser herdada de forma do-
minante. Em geral, ocorre como uma
mutação de novo. Na maioria dos ca-
sos, os pais de um indivíduo com SRT
não são afectados. Neste caso, o risco
de recorrência para os irmãos do in-
divíduo com a doença é muito baixo
(aproximadamente 0,1%). Embora seja
muitíssimo raro que estes indivíduos
tenham descendência, o risco teórico
para a descendência é de 50%.
Com a colaboração da Drª Márcia Rodrigues.
Para saber mais
www.ommbid.com
www.apart-pt.org
www.rts.freeservers.com/rts.html
www.artsbrasil.org.br
www.rtscanada.org
www.rubinstein-taybi.dk
www.rubinsteintaybi.org
www.rubinstein-taybi.org
www.afsrt.com
www.rtsyndroom.nl
www.rtsuk.org
102
Descrito em 1986 por Smith e Magenis, esta síndrome (SSM) apresenta fácies
característico, atraso cognitivo moderado e de desenvolvimento, com alterações
de comportamento. O diagnóstico é baseado nos achados clínicos e confirmado
pela existência de uma delecção intersticial no braço curto do cromossoma 17.
Esta síndrome tem uma prevalência de 1/25 000 nascimentos, com distribuição
idêntica em ambos os sexos e em todas as etnias. Os indivíduos com SSM apresen-
tam alterações faciais, que se tornam mais marcadas com a idade, e que incluem
Smith-Magenis
Os indivíduos com SSM apresentam alterações faciais
que se tornam mais marcadas com a idade, e que incluem braquicefalia,
hipoplasia da face média e prognatismo. Também é habitual a baixa
estatura, a perda de audição progressiva e anomalias oculares.
O Especialista
Maria Purificação Valenzuela Sampaio Tavares
Licenciada em Medicina e Cirurgia pela FMUP
Professora Catedrática de Genética Médica da FMDUP
Fundadora do CGC, 1º laboratório privado de Genética Médica
Responsável pelo 1º Programa de Rastreio Pré-Natal em Por tugal
Especialista em Genética Médica
Membro da Direcção do Colégio de Genética Médica da Ordem dos Médicos
102
103
S
braquicefalia, hipoplasia da face média e prognatismo. Também é habitual a baixa
estatura, a perda de audição progressiva e anomalias oculares. As alterações de
comportamento são evidentes desde cedo. Com intensidade variável, poderão ser
ainda observados perturbações do sono (dificuldade em adormecer e em dormir
por longos períodos seguidos), atenção reduzida com ou sem hiperactividade,
algumas estereotipias típicas desta síndrome, hiporeflexia, comportamentos vio-
lentos e auto-mutilatórios.
O diagnóstico da SSM é realizado com base no diagnóstico clínico e confirmado
com técnicas de citogenética (bandas GTG e FISH) para detectar a delecção do
fragmento 17p11.2, onde se situa o gene RAI1, gene responsável pela maioria das
características desta síndrome. A sequenciação deste gene é também possível. A
delecção 17p11.2 ocorre habitualmente de novo, <1% tem outras etiologias.
As manifestações clínicas desta síndrome durante a infância são subtis o que, por
vezes, dificulta o diagnóstico precoce. Uma vez diagnosticada esta patologia, os
indivíduos devem ser acompanhados por uma equipa médica multidisciplinar.
Também, precocemente, deve ser instituído um programa específico para avalia-
ção e terapia do desenvolvimento e do comportamento. Convém aqui salientar a
importância de grupos de apoio e de associações de doentes.
Para saber mais
www.orphanet.pt
www.genetests.org
www.rarissimas.pt
104
A Síndrome de Smith-Lemli-Opitz é uma doença genética rara, com uma incidên-
cia estimada em 1/15 000 nascimentos na população caucasiana. É caracterizada
por atraso de desenvolvimento psicomotor e anomalias congénitas. As principais
características clínicas são:
– Atraso de desenvolvimento global, alterações do comportamento como
hiperactividade, perturbação do espectro autista, auto-agressividade e
alterações do sono;
– Atraso de crescimento com microcefalia, que pode ter início pré-natal,
associado, frequentemente, a difculdades alimentares nos primeiros
meses de vida;
– Dismorfa craniofacial incluindo ptose palpebral, pavilhões auriculares
de implantação baixa e rodados posteriormente, nariz de ponte achatada e
narinas antevertidas, cantos da boca virados para baixo, fenda do palato/
úvula bífda e micrognatia;
– Anomalias dos membros, mais frequentemente sindactilia cutânea entre
o 2º e 3º dedos dos pés e polidactilia pós-axial. Pode também ocorrer hi-
poplasia do polegar, clinodactilia e camptodactilia
– Cardiopatia congénita, habitualmente comunicação interauricular ou
interventricular;
– Anomalias genitais no sexo masculino, como hipospádias e criptor-
quida; nos casos mais graves ocorre feminização dos genitais mascu-
linos;
– Malformações do sistema nervoso central, nomeadamente hipoplasia do
corpo caloso, hipoplasia do cerebelo e holoprosencefalia;
– Fotossensibilidade cutânea, nomeadamente à radiação UVA.
Smith-Lemli-Opitz
A variabilidade clínica é grande, desde casos muito
graves com malformações múltiplas e morte precoce,
incluindo in útero, a casos leves com anomalias minor
e atraso ligeiro do desenvolvimento.
104
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S
A variabilidade clínica é grande, desde casos muito graves com malformações
múltiplas e morte precoce, incluindo in útero, a casos leves com anomalias minor
e atraso ligeiro do desenvolvimento.
As alterações bioquímicas que ocorrem nesta síndrome são diminuição do coles-
terol total sérico, embora esta alteração não ocorra em todos os doentes, e níveis
de 7-dehidrocolestereol (7-DHC) sérico aumentado. O doseamento de 7-DHC
no sangue é o método bioquímico de rastreio e confirmação da doença em casos
clinicamente suspeitos.
Esta síndrome é causado por mutações no gene DHCR7, que codifica para a en-
zima 7-dehidrocolesterol redutase. Tem hereditariedade autossómica recessiva,
os progenitores de um indivíduo afectado são portadores obrigatórios e têm um
risco de 25% de recorrência da doença na sua descendência.
O diagnóstico pré-natal pode ser efectuado em situações de risco aumentado, que
podem incluir gestações de casais com uma criança anterior afectada ou gestações
em casais sem história familiar, na qual são detectadas anomalias fetais sugestivas
deste diagnóstico.
Esta doença não tem um tratamento curativo, existindo indicação para efectuar
tratamento com suplementos de colesterol. Este tratamento parece ser bem tole-
rado e ter efeitos benéficos na evolução do crescimento, melhoria da fotossensibi-
lidade e eventualmente melhoria das alterações do comportamento.
As difculdades de evolução ponderal e de alimentação poderão necessitar de apoio nu-
tricional ou medidas cirúrgicas, como colocação de gastrostomia nos casos mais graves.
O Especialista
Maria Gabriela Oliveira Reis Soares
Licenciada em Medicina pela Universidade do Por to – Instituto de Ciências
Biomédicas Abel Salazar
Especialidade em Genética Médica por frequência do Internato em Genética
Médica no Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães
Exerce funções como Assistente de Genética Médica na Unidade de Genética
Médica do Centro de Genética Médica Jacinto de Magalhães – Por to
106
Para saber mais
www.smithlemliopitz.org
www.orpha.net
A fotossensibilidade, quando signifcativa, justifca a utilização de protecção solar.
O atraso de desenvolvimento implica recurso a medidas de suporte como fisiote-
rapia, estimulação global e apoio educacional.
O acompanhamento médico deverá ser multidisciplinar, incluindo especialidades
cirúrgicas de acordo com as anomalias congénitas presentes, Pediatria do Desen-
volvimento e Doenças Metabólicas. Os doentes e seus familiares deverão também
ser vistos em consulta de Genética Médica para aconselhamento genético e pro-
gramação de eventual diagnóstico pré-natal em gestações subsequentes.
107
S
108
A Spina Bífda (SB) é o mais frequente defeito do tubo neural (DTN). Consiste no não
encerramento do arco posterior de algumas vértebras, com possibilidade de hernia-
ção da medula ou raízes nervosas.
Em cerca de 80% dos casos a SB acompanha-se de hidrocefalia por malformação ce-
rebral associada (malformação de Arnold Chiari II e/ou estenose do Aqueduto de
Sylvius).
Os doentes com SB têm compromisso motor e sensitivo, malformações ortopédicas,
ausência de controlo de esfíncteres, complicações renais secundárias à bexiga neu-
rogénia, além de complicações da hidrocefalia, traduzidas frequentemente por dif-
culdades de aprendizagem, atraso mental, perturbações do equilíbrio e da marcha e
problemas ofalmológicos.
A prevalência da SB tem vindo a descrescer nos países desenvolvidos, sendo actual-
mente cerca de 0,1 / 1000 nado-vivos. A etiologia é multifactorial com um componen-
te genético e outro ambiencial. O tubo neural desenvolve-se nas primeiras 4 semanas
da gravidez, quando a maioria das mulheres ainda desconhece que está grávida. Está
provado que suplementos orais de ácido fólico na dose de 4mg/dia, 3 a 4 meses antes
da concepção e ao longo do primeiro trimestre da gravidez, reduzem o risco de SB e
outros defeitos do tubo neural em 50-70%.
Quanto mais elevado for o nível da lesão maior a probabilidade de ocorrência de
hidrocefalia e maior o grau de incapacidade motora e de complicações secundárias. A
lesão medular e/ou das raízes nervosas é a responsável pela paraplegia mais ou menos
grave, pelo compromisso das sensibilidades com risco de úlceras de pressão e queima-
duras, pelas malformações e deformações ortopédicas, pela ausência de controlo dos
esfncteres vesical e anal e pelas complicações nefro-urológicas.
A medula ancorada é uma complicação frequente da SB. Traduz-se por deterioração
Spina Bífida
Há menos de três décadas, poucos bebés com SB sobreviviam ao seu 1º ano
de vida. Hoje, graças a um melhor tratamento, que passa não só por uma
sofsticação das técnicas disponíveis mas também por uma forte aposta
na prevenção das complicações secundárias, 90% atingem a idade adulta.
108
109
S
da marcha, agravamento da disfunção nefro-urológica com aumento da frequência
de infecções urinárias e maiores difculdades na continência espontânea ou social e
desenvolvimento de escoliose. O tratamento da SB já é possível iniciar-se durante a
gravidez, com a cirurgia fetal. O encerramento do mielomeningocelo (MM) in útero
vai diminuir a probabilidade de desenvolver hidrocefalia mas parece não melhorar
muito a funcionalidade dos membros inferiores.
Após a criança nascer, o encerramento do mielo ou do meningocelo deve realizar-se,
por neurocirurgião, nas primeiras 24 a 72 horas de vida, num bloco operatório isento
de látex.
A hidrocefalia pode estar presente logo ao nascimento (em cerca de 15% MM) e a
derivação ventrículo-peritoneal (DVP) pode colocar-se em simultâneo com o encer-
ramento do MM. Na maioria dos casos, a hidrocefalia torna-se aparente 2 a 3 semanas
depois de encerrar o DTN, necessitando grande parte delas serem derivadas, colocan-
do um tubo fexível no sistema ventricular cerebral (geralmente no ventrículo lateral
direito) para drenar o excesso de LCR para o peritoneu.
A maior parte das crianças com SB precisa de apoios para a sua mobilidade – talas,
canadianas e/ou cadeiras de rodas.
O Especialista
Eulália Calado
Chefe de Serviço de Neurologia Pediátrica Directora do Serviço de Neurologia Pedi-
átrica do CHLC – Hospital D. Estefânia
Coordenadora do Núcleo de Spina Bífida do CHLC – Hospital D. Estefânia
Membro do Conselho Científico do Instituto Científico de Formação e Investigação
da FAPPC (Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral)
Consultora de Neurologia Pediátrica do Centro de Paralisia Cerebral Calouste
Gulbenkian
Investigadora da SCPE (Surveillance of Cerebral Palsy in Europe)
Membro do Conselho Científico da Associação Raríssimas.
110
A ausência de sensibilidade favorece o aparecimento de escaras, feridas ou queimadu-
ras nas zonas afectadas, devido à inexistência de dor. A sua cicatrização é lenta e obri-
ga, muitas vezes, à imobilização prolongada e a longos internamentos hospitalares.
Outro dos factores condicionantes do prognóstico da SB e causa frequente de mortali-
dade são as complicações (obstrução, infecção) das DVP, colocadas para resolução da
hidrocefalia. Mesmo as hidrocefalias sem válvula necessitam de vigilância periódica,
pois existe sempre a possibilidade da sua descompensação, com repercussões a nível
cognitivo, visual e motor.
Grande parte da população com SB tem alterações vesicais e intestinais (bexiga e in-
testino neurogénios), que desde cedo deverão aprender a controlar e a tratar, de modo
a evitarem complicações renais e a obter, sempre que possível, uma continência social.
Há menos de três décadas, poucos bebés com SB sobreviviam ao seu 1º ano de vida.
Hoje, graças a um melhor tratamento, que passa não só por uma sofsticação das
técnicas actualmente disponíveis mas também por uma forte aposta na prevenção das
complicações secundárias, 90% atingem a idade adulta.
Para saber mais
www.asbihp.pt
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112
A espécie humana é cromossomicamente diplóide, com um complemento de 23
pares de cromossomas. Cada par resulta de um cromossoma herdado do pai e do
cromossoma homólogo herdado da mãe. Assim, um ser humano normal tem 46
cromossomas.
Por mecanismos diversos, podem ocorrer alterações do número de cromossomas,
surgindo as cromossomopatias, geralmente associadas a malformações congéni-
tas múltiplas e atraso mental. Em conjunto, as cromossomopatias causam metade
Trissomias
O Especialista
Fernando J. Regateiro
Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra, onde rege a disci-
plina de Genética
Presidente do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de
Coimbra
Presidente da Assembleia Municipal de Mira e da Assembleia da Comunidade
Intermunicipal do Baixo Mondego
A Trissomia 21 é a mais frequente, sendo a prevalência
de 1/660 RN atingida em gravidezes a termo a partir dos 31 anos,
e aumentando com o avanço da idade materna (o risco é de 1
em 28 RN aos 45 anos e de 1 em 6 RN aos 50 anos).
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dos abortos espontâneos, ocorrendo estes em cerca de 20% das gravidezes conhe-
cidas. Entre as alterações cromossómicas mais frequentes em abortos espontâneos
contam-se as Trissomias, em cerca de 50% dos casos. A prevalência das cromosso-
mopatias nos RN ronda os 0,6%.
As Trissomias resultam da existência de um cromossoma supranumerário. Divi-
dem-se em autossómicas quando envolvem um cromossoma dos pares 1 a 22 e
heterocromossómicas quando envolvem o cromossoma X ou Y.

As Trissomias do X ou do Y são menos severas do que as autossómicas, devido à
inactivação que normalmente ocorre na maior parte de um dos cromossomas X, ou
de dois no caso das Trissomias, o que compensa o efeito de dosagem génica. Não
havendo inactivação de um cromossoma autossómico a mais, a severidade é maior.
A Trissomia 21 é a mais frequente, sendo a prevalência de 1/660 RN atingida em
gravidezes a termo a partir dos 31 anos, e aumentando com o avanço da idade
materna (o risco é de 1 em 28 RN aos 45 anos e de 1 em 6 RN aos 50 anos).
Na Trissomia 21, como nas restantes, algumas das anomalias físicas não estão
presentes em 100% dos doentes, podendo ocorrer noutras patologias, ou mesmo
em indivíduos normais.
A probabilidade de uma mulher voltar a ter um filho com Trissomia 21, em nova
gravidez dentro do casal, é habitualmente muito baixa, ressalvados casos familia-
Trissomias
Autossomopatias Frequência Heterocromossomopatias Frequência

Trissomia 21 1/660 Trissomia XXY 1/600 RN
(S. de Down) Recém-nascidos (S. de Klinefelter) sexo masculino

Trissomia 18 1/8.000 Trissomia XXX 1/1.000 RN
(S. de Edwards) Recém-nascidos sexo feminino

Trissomia 13 1/10.000 Trissomia XYY 1/1.000 RN
(S. de Patau) Recém-nascidos sexo masculino
114
Para saber mais
www.trisomy.org/index.php
www.appt21.org.pt
res identificáveis por cariótipo. Quando existe risco acrescido para Trissomia, são
feitos diversos exames que podem culminar na amniocentese, pelas 15 semanas
de gestação, e estudo do cariótipo fetal.
No quadro seguinte sintetizam-se as manifestações mais signifcativas das Trissomias.
Síndrome Manifestações
Trissomia 21 Face redonda de perfil achatado, braquicefalia, fendas palpebrais oblíquas
(S. de Down) para cima e para fora, nariz pequeno e achatado, boca aberta e protusão
da língua, prega palmar única, baixa estatura, atraso mental, malformações
internas.
Trissomia 18 Dolicocefalia, micrognatia, esterno curto, cavalgamento do 2º dedo sobre o
(S. de Edwards) 3º e do 5º sobre o 4º, atraso mental grave, atraso de crescimento,
malformações internas graves, sobrevivência rara para além dos 6 meses.
Trissomia 13 Holoprosencefalia, microcefalia, microftalmia, fenda labial e/ou palatina
(S. de Patau) bilateral, polidactilia, malformações orgânicas graves, crescimento
deficiente, sobrevivência rara para além dos 6 meses.
S. de Klinefelter Hipogonadismo, microorquidia, esterilidade, ginecomastia, aparência
eunucóide. Ligeira dificuldade de aprendizagem e da fala.
Trissomia XYY Sem anomalias físicas relevantes, estatura acima da média, dificuldades de
aprendizagem a nível da linguagem.
Trissomia XXX Sem anomalias físicas relevantes, problemas de aprendizagem frequentes.
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A Síndrome de Turner, ou de Ullrich-Turner, foi descrita pela primeira vez em 1938
mas a sua origem cromossómica apenas se descobriu em 1959. Corresponde a uma
anomalia cromossómica associada à delecção parcial ou completa do cromossoma
X, sendo estimada uma incidência de 1 caso em cada 5.000 nados-vivos, em que 1
caso em 2.500 ocorre em crianças do sexo feminino. A frequência do cariotipo 45, X
é cerca de 13% no momento da concepção sendo que 99% dos casos sofre um aborto
espontâneo, que representa entre 5-10% do total de abortos.
Turner
Durante a gestação, malformações típicas podem
ser diagnosticadas por ultrasom, mas formas mais ligeiras
são descobertas acidentalmente após amniocentese realizada
por outros motivos.
O Especialista
Coordenação Técnica de Ana Campos
Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa
Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ci-
ências Médicas de Lisboa
Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde, pela Universi-
dade Católica Portuguesa (UCP)
Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas, sendo actualmente coorde-
nadora de projectos entre DGS-Raríssimas, no âmbito de serviços de informação
sobre doenças raras e medicamentos órfãos
Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed
Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA, ICORD (III and IV WG)
e a Pastoral da Saúde (Setúbal)
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É provável que os genes implicados no fenotipo de Turner sejam genes associados ao
cromossoma X que escapam à inactivação. Menos de 50% dos casos correspondem
a um cariotipo 45, X, e os restantes correspondem a casos de moisacismo 45, X e/ou
anomalias no cromossoma X ou Y; menos frequentes são os casos 45,X/46,Xj(X) ou
fragmentos 45,X/46fra.
Durante a gestação, malformações típicas podem ser diagnosticadas por ultrasom,
mas formas mais ligeiras são descobertas acidentalmente após amniocentese realiza-
da por outros motivos.
Embora exista uma grande heterogeneidade de manifestações clínicas, as anomalias
físicas características podem ser graves ou, por outro lado, ausentes. É característico
destas crianças uma baixa estatura, infantilismo sexual e outras manifestações visce-
rais (anomalias ósseas, linfoedema, surdez, comprometimento gastrointestinal, car-
diovascular e da tiróide) que são menos comuns, mas que devem ser pesquisadas e
que permanecem durante a adolescência e a idade adulta.
A qualidade de vida e a integração social são mais positivas quando a puberdade não
é induzida tardiamente e quando não existe doença cardíaca ou surdez associada que,
por sua vez, pode conduzir a difculdades de aprendizagem. Nestes casos, também a
esterilidade pode ter um efeito negativo na qualidade de vida.
O aconselhamento pré-natal é fundamental após o diagnóstico. As medidas de
intervenção incluem terapia com hormona de crescimento, que conduz a um cres-
cimento significativo, bem como um seguimento contínuo, pois o prognóstico
depende da presença de doença cardíaca, obesidade, hipertensão arterial ou os-
teoporose associada.
Para saber mais
www.turnersyndrome.org
www.orpha.net/data/patho/Pro/fr/
Turner-FRfrPro44.pdf
www.enfermedades-raras.org
118
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A Síndrome de Usher engloba características genéticas que implicam a perda auditi-
va e alterações visuais provocadas pela presença de retinose pigmentar. O distúrbio
pigmentar caracteriza-se por um arranjo de pigmento negro em forma de osteócitos,
iniciando na periferia em direcção ao centro e seguindo frequentemente um padrão
perivascular. É transmitida hereditariamente através de um carácter autossómico re-
cessivo que afecta tanto o sexo masculino como o feminino e tem uma taxa de pre-
valência de 1/30,000.
Usher
O defeito ciliar é comum a qualquer dos tipos de Usher
e está presente em vários tecidos de diferentes órgãos tais como:
receptores auditivos, células vestibulares, epitélio respiratório
e cauda dos espermatozóides.
O Especialista
Coordenação Técnica de Ana Campos
Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa
Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ci-
ências Médicas de Lisboa
Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde, pela Universi-
dade Católica Portuguesa (UCP)
Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas, sendo actualmente coorde-
nadora de projectos entre DGS-Raríssimas, no âmbito de serviços de informação
sobre doenças raras e medicamentos órfãos
Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed
Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA, ICORD (III and IV WG)
e a Pastoral da Saúde (Setúbal)
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Existem quatro tipos da Síndrome de Usher:
Tipo I – caracterizado por surdez profunda desde o nascimento e retinose
pigmentar e cegueira nocturna com perda de equilíbrio;

Tipo II – surdez ligeira a moderada, não progressiva, com retinose pig-
mentar com início da puberdade, cegueira nocturna e com perda de equi-
líbrio, na maioria dos casos na fase adulta;

Tipo III – surdez neurosensorial congénita progressiva. Apresentam re-
tinose pigmentar e cegueira nocturna que se manifesta na infância, com
perda de equilíbrio;

Tipo IV – é o tipo mais raro, afectando apenas 10% da população com
Síndrome de Usher.
O defeito ciliar é comum a qualquer dos tipos de Usher e está presente em vários teci-
dos de diferentes órgãos tais como: receptores auditivos, células vestibulares, epitélio
respiratório e cauda dos espermatozóides. Apesar da perda da acuidade visual abaixo
de 0,5 ocorrer mais cedo na vida nos pacientes com o tipo I em relação ao tipo II,
ambos os subgrupos detêm uma apreciável oportunidade de manutenção da acuidade
central até a quinta ou sexta décadas de vida. Os portadores do tipo I têm uma maior
probabilidade de desenvolvimento de lesões foveais atrófcas ou císticas do que os
pacientes portadores do tipo II.
O diagnóstico precoce assume extrema importância já que a doença compromete os
dois sentidos considerados primordiais, acabando por levar o indivíduo à cegueira
total, na maioria dos casos, na fase adulta (a cegueira nocturna só aparece com maior
intensidade na infância e/ou na adolescência).
Otorrinolaringologia, ofalmologia e genética são as especialidades presentes para
um correcto diagnóstico da Síndrome de Usher. Através de um diagnóstico precoce
e acompanhamento multidisciplinar os
pacientes têm a possibilidade de pronto
benefício dos recursos diagnóstico-tera-
pêuticos em constante avanço, obtendo
consequentemente uma melhoria na sua
qualidade de vida.
Para saber mais
www.retinacv.onored.com
www.retinaportugal.org.pt
120
A Doença de Vogt-Koyanagi-Harada é uma patologia infamatória multissistémica
rara. Conhecida há mais de 1000 anos, o seu nome provém dos três médicos que,
independentemente, estudaram e descreveram as diferentes fases da doença, poste-
riormente integradas na mesma patologia.
Em termos epidemiológicos sabe-se que afecta mais frequentemente indivíduos de
origem asiática e hispânica, entre os 20 e 50 anos, sendo mais prevalente no sexo
feminino.
Vogt-Koyanagi-Harada
O Especialista
Eliana Rute Balbino Neto
Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Internato Complementar de Oftalmologia
A instituição precoce do tratamento conduz à resolução
do quadro neurológico e ocular apesar das alterações
dermatológicas serem persistentes. Reduz ainda a probabilidade
de doença crónica ou recorrente.
121
V
Apesar da intensa investigação realizada, a fsiopatologia da doença ainda não está
totalmente esclarecida. Pensa-se que resulte de uma resposta imunológica anómala
mediada por linfócitos T e dirigida às células que contêm melanina, existentes no
olho, ouvido interno, meninges e pele. Clinicamente inicia-se por febre e alterações
neurológicas tais como cefaleias intensas e rigidez da nuca, acompanhadas de zum-
bidos, surdez e vertigem. Algumas semanas depois, a perda da visão bilateral habitu-
almente é rápida e profunda, surgindo associada a dor ocular e fotofobia. Na fase de
convalescença, semanas a meses depois dos sintomas oculares, são evidentes áreas de
despigmentação cutânea na cabeça, pálpebras e tronco (vitiligo) e despigmentação do
cabelo, sobrancelhas e pestanas (poliose), além de queda do cabelo (alopécia).
O diagnóstico é clínico, sendo baseado na constelação de sinais e sintomas oculares
e extra-oculares. Dado o largo espectro da doença, o Comité Internacional de No-
menclatura defniu 3 categorias clínicas (VKH completo, incompleto ou provável)
mediante a presença de todos ou parte dos critérios de diagnóstico (manifestações
oculares, neurológicas, auditivas e cutâneas). O envolvimento ocular bilateral é
obrigatório e secundário a infamação uveítica anterior e/ou posterior. Em todas as
formas de apresentação há que excluir história de traumatismo ou cirurgia ocular
prévios, além de evidência clínica ou laboratorial que sugira outro diagnóstico.
Apesar de não existirem exames laboratoriais específcos, a realização de punção
lombar com análise do líquido cefalorraquidiano e a avaliação ofalmológica por
angiografa fuoresceínica, ultrassonografa e tomografa de coerência óptica, são
uma ferramenta de apoio ao diagnóstico e/ou seguimento clínico destes doentes.
O tratamento é dirigido à modulação da resposta auto-imune, baseando-se na cor-
ticoterapia sistémica em altas doses e por longos períodos. Em casos de corticorre-
sistência ou efeitos secundários intoleráveis dos corticóides, os imunossupressores
(ciclosporina, azatioprina) são uma forma de terapêutica adjuvante ou alternativa.
A instituição precoce do tratamento conduz à resolução do quadro neurológico
e ocular apesar das alterações dermatológicas serem persistentes. Reduz ainda a
probabilidade de doença crónica ou recorrente.
Sendo um facto que o prognóstico destes doentes tem vindo a melhorar nas últimas
décadas, investigações actuais decorrem
no sentido de identifcar o alvo preciso
do ataque imunológico e assim deter-
minar o protocolo terapêutico mais
adequado.
Para saber mais
www.uveitissociety.org/pages/index.html
122
A Doença de Wilson deve seu nome a Samuel Wilson que, pela primeira vez, a
descreveu, em 1912, como “degenerescência lenticular progressiva”: uma doença
neurológica familiar e letal, acompanhada de doença hepática crónica que conduz
à cirrose. É, também, denominada como degenerescência hepatolenticular.
Trata-se de uma doença rara, afectando 1 em 30.000 a 100.000 indivíduos, heredi-
tária, de transmissão autossómica recessiva, associada a perturbação do metabo-
lismo do cobre, que resulta do defeito na excreção deste metal pela bile, levando
à sua acumulação, inicialmente, no hepatócito e, posteriormente, em diversos
órgãos e tecidos, particularmente, cérebro, córnea e rins.
O gene envolvido, localizado no cromossoma 13, foi identificado em 1993 e desig-
nado como ATP7B. Estão descritas mais de 200 mutações neste gene e é reconhe-
cido que a maioria dos doentes apresenta estado de heterozigotia composta, com
uma mutação diferente em cada alelo, tornando muito complexo o diagnóstico
baseado na genética.
O gene ATP7B codifica uma proteína transportadora de cobre, que se expressa
sobretudo a nível dos hepatócitos e funciona como bomba de cobre. A absorção
do cobre proveniente da dieta excede as quantidades diárias necessárias. A sua
excreção pelos hepatócitos na bile é essencial para a manutenção da homeostasia
deste metal. A função diminuída do ATP7B reduz a excreção hepática de cobre e
causa a acumulação deste metal. A deficiente excreção está associada a insuficien-
te incorporação daquele metal na ceruloplasmina, de que resulta maior degrada-
ção desta glicoproteína e consequente diminuição da concentração plasmática, o
que tem servido como marcador diagnóstico.
Quando a capacidade de acumulação de cobre no fígado é excedida ou quando
há lesão hepatocelular, há libertação deste metal na circulação e o seu nível sérico
Wilson
As lesões hepáticas precedem, em cerca de 10 anos,
a doença neurológica, ocorrendo em geral o seu
diagnóstico na infância ou adolescência.
122
123
W
não ligado à ceruloplasmina torna-se elevado. O cobre circulante deposita-se em
tecidos extra-hepáticos.
As manifestações clínicas da Doença de Wilson, relacionadas sobretudo com o
fígado e sistema nervoso central, são extremamente variáveis. As lesões hepáticas
precedem, em cerca de 10 anos, a doença neurológica, ocorrendo em geral o seu
diagnóstico na infância ou adolescência. O seu espectro vai desde simples eleva-
ção das transaminases (assintomática) até cirrose e falência hepática fulminante.
As manifestações clínicas neurológicas podem, em alguns casos, ser a forma de
apresentação da doença, mais frequentemente na 3ª década de vida.
Os sinais e sintomas mais comuns são anormalidades motoras, representadas por
distúrbios do movimento tais como distonia, tremor (postural ou repouso), rigi-
dez, bradicinesia, coréia, ataxia e instabilidade postural. A fala e a marcha estão
frequentemente afectadas. Invariavelmente, os doentes com quadro neurológico
têm doença hepática avançada.
Em até 20% dos casos, os pacientes podem ter sintomas exclusivamente psiquiá-
tricos, designadamente, depressão, fobias, comportamento compulsivo, agressi-
vo ou anti-social. A Doença de Wilson pode causar lesão renal (nefrocalcinose,
O Especialista
Filipe Calinas
Assistente Hospitalar Graduado de Gastrenterologia do Centro Hospitalar de Lis-
boa Central
Coordenador do Hospital-de-Dia Polivalente do CHLC – Hospital de Stº António
dos Capuchos
Responsável da Consulta de Hepatologia do CHLC – Hospital de Stº António dos
Capuchos
124
hematúria, aminoacidúria), hemólise, hipoparatiroidismo, artrite, osteoartrose,
cardiomiopatia e arritmias. Entre as manifestações oftalmológicas, é mais comum
a deposição de cobre na membrana de Deçemet da córnea, conhecido por anel
de Kayser-Fleischer. Este pode estar ausente em até cerca de 50% dos casos com
manifestações exclusivamente hepáticas, instaladas na infância ou adolescência.
Quase sempre o anel está presente nas formas neurológicas.
A Doença de Wilson deve ser especialmente considerada em doentes jovens com sin-
tomas extrapiramidais, em doentes com doença psiquiátrica atípica e naqueles com
hemólise inexplicada ou manifestações de doença hepática sem outra causa aparente.
O diagnóstico é feito pelo cruzamento dos achados clínicos e laboratoriais.
São indicadores da doença, além dos sintomas referidos, a presença de anel de
Kayser-Fleisher, ceruloplasmina sérica baixa e excreção urinária de cobre elevada.
Na suspeição da doença, em particular quando atingimento hepático, deve ser
realizada biopsia do fígado e, nesta, avaliada a concentração de cobre. A ressonân-
cia magnética, indicada nos casos com manifestações neurológicas, pode mostrar
alterações localizadas com predilecção para os gânglios da base. O diagnóstico ge-
nético é complexo, como antes referido, pela possibilidade de múltiplas mutações
envolvidas. O estudo genético tem interesse, apenas, no rastreio dos familiares
de primeiro grau, procurando nestes mutações do gene ATP7B semelhantes às
verificadas naquele que se sabe ter Doença de Wilson.
A Doença de Wilson, se não tratada, acarreta grande morbilidade e morte, inexo-
rável e precoce. Se diagnosticada e tratada precocemente, é possível prevenir ou
reverter algumas das manifestações da doença. As estratégias disponíveis para o
tratamento consistem na redução da absorção do cobre, a promoção da sua elimi-
nação e, em casos extremos, a transplantação hepática.
A dieta com restrição de alimentos ricos em cobre não é suficiente para causar o
balanço negativo daquele metal no organismo. Mesmo assim, devem ser evitados,
entre outros, marisco, fígado, chocolate, cogumelos, nozes, avelãs e castanhas.
O tratamento farmacológico é baseado em quelantes e sais de zinco. Os quelantes
são a penicilamina e a trientina, que agem removendo e detoxificando o cobre
intra e extracelular, ao ligarem-se e formarem complexos estáveis que são excreta-
dos predominantemente na urina. Os quelantes estão particularmente indicados
nos doentes com sintomatologia aguda e em que se mostra crucial uma rápida
detoxicação inicial. A penicilamina, usada desde 1956, é aquela que reúne maior
experiência. Diversas reacções adversas podem obrigar a reduzir as doses ou a
125
W
suspender este quelante. A trientina está reservada para os casos de intolerância
à penicilamina.
Com ambas, pode ocorrer agravamento da síndrome neurológica na fase inicial
do tratamento. O acetato (ou sulfato) de zinco age bloqueando a absorção intes-
tinal de cobre. A vantagem, face aos quelantes, é a ausência de efeitos colaterais.
O zinco induz a síntese de metalotioneína, uma proteína com elevada afinidade
para o cobre e que se liga a ele no interior dos enterócitos. Com a descamação da
mucosa intestinal, o cobre acaba sendo eliminado nas fezes.
Os sais de zinco podem ser usados, mas sem grande vantagem, em associação aos
quelantes. A utilização em monoterapia está indicada no tratamento de manuten-
ção, após expoliação eficaz do cobre no tratamento inicial com quelantes e nos
casos de interrupção destes por reacção adversa. O uso pode ser considerado nas
fases iniciais da doença assintomática.
A Doença de Wilson pode ter um excelente prognóstico se diagnosticada preco-
cemente, se tratada apropriadamente e se houver aderência do doente à terapêu-
tica ao longo da sua vida.
Para saber mais
www.enfermedaddewilson.org
126
Em 1961, Hirschhorn e Cooper descreveram o aparecimento de defeitos de fusão
da linha média em associação com uma delecção de um cromossoma do gru-
po B. Em 1965, Wolf et al documentaram um caso idêntico, que publicaram em
conjunto com o original de Hirschhorn, criando assim uma entidade clínica que
designaram por Síndrome de Wolf-Hirschhorn (SWH), associada a uma delecção
do braço curto do cromossoma 4.
Esta síndrome tem uma prevalência estimada de 1/50 000 nascimentos, com in-
Wolf-Hirschhorn
O Especialista
Maria Purificação Valenzuela Sampaio Tavares
Licenciada em Medicina e Cirurgia pela FMUP
Professora Catedrática de Genética Médica da FMDUP
Fundadora do CGC, 1º laboratório privado de Genética Médica
Responsável pelo 1º Programa de Rastreio Pré-Natal em Por tugal
Especialista em Genética Médica
Membro da Direcção do Colégio de Genética Médica da Ordem dos Médicos
O diagnóstico pré-natal é possível através do estudo
dos cromossomas fetais, recorrendo a biópsia das vilosidades
coriónicas (10 a 12 semanas de gestação) ou a amniocentese
(14 a 18 semana de gestação).
126
127
W
cidência no sexo feminino duas vezes maior do que no sexo masculino. Com
elevada mortalidade pós-natal, 1/3 dos recém-nascidos não resiste aos primeiros
12 meses devido a complicações cardíacas e/ou a infecções.
Os indivíduos com SWH têm marcado atraso de crescimento intra-uterino. As al-
terações crânio-faciais são características e incluem microcefalia, fronte alta com
glabela proeminente, hipertelorismo, epicanto e sobrancelhas arqueadas. Estas
alterações tornam-se menos evidentes com a idade. Habitualmente, o desenvolvi-
mento é lento, com atraso cognitivo moderado a grave, hipotonia e convulsões. As
crianças com esta patologia podem ainda apresentar malformações esqueléticas
(60 a 70%), patologia cardíaca congénita (50%), defeitos estruturais a nível cere-
bral (33%) e perda de audição (30%).
O diagnóstico é sugerido pelas características fenotípicas e confirmado pela de-
lecção da região crítica da Síndrome de Wolf-Hirschhorn (4p16.3), através de
bandas GTG e FISH (taxas de detecção de 60-70% e >95% respectivamente). A
maioria dos indivíduos (75%) apresenta uma delecção de novo, i.e., constitui o
primeiro caso na família. Outros mostram anomalias citogenéticas diversas como
o cromossoma 4 em anel (12%) ou translocações não equilibradas resultantes de
um progenitor equilibrado (13%).
Num casal em que um dos progenitores seja portador de uma anomalia cromos-
sómica complexa que possa resultar numa delecção da região 4p16.3 num des-
cendente, as gestações são consideradas de risco para a SWH. O diagnóstico pré-
-natal é possível através do estudo dos cromossomas fetais, recorrendo a biópsia
das vilosidades coriónicas (10 a 12 semanas de gestação) ou a amniocentese (14 a
18 semana de gestação). O aconselhamento genético é importante na informação
às famílias quanto ao risco, consequências e implicações desta anomalia genética,
e orientações futuras.
O estabelecimento de um programa de acompanhamento e/ou reabilitação, de
forma a melhorar as capacidades motoras, cognitivas e sociais destas crianças,
deve ter início o mais precocemente
possível.
Convém ainda salientar a importância
dos grupos de apoio, bem como de as-
sociações de doentes e seus familiares,
na informação e suporte a portadores
desta patologia.
Para saber mais
www.orphanet.pt
www.genetests.org
www.rarissimas.pt
128
A Síndrome X-frágil é uma das causas mais frequentes de deficiência mental. A
deficiência mental que afecta cerca de 2 a 3% da população é constituída por uma
multiplicidade de situações genéticas e não genéticas. A Síndrome X-frágil repre-
senta apenas cerca de 2% dos indivíduos com atraso mental.
Esta doença resulta de uma mutação genética no gene FMR1 (as iniciais de Fragile
X Mental Retardation) que se situa no cromossoma X. Este gene codifica uma
proteína (a proteína FMR1) que desempenha importantes funções ainda incom-
pletamente conhecidas na comunicação entre as células do Sistema Nervoso. A
mutação X-frágil caracteriza-se por um aumento do tamanho de uma parte deste
gene, o que interfere com o seu normal funcionamento.
Além da mutação completa, ou seja a situação em que o gene tem uma dimen-
são anormalmente maior, existe uma situação intermédia chamada premutação.
A transmissão à descendência por uma mãe afectada por uma premutação leva
probabilisticamente a que 50% dos descendentes do sexo masculino irão herdar
esta anomalia. No processo de transmissão deste gene de mãe para filho ocorre
uma “expansão” adicional do gene, uma mutação.
A Síndrome X-frágil manifesta-se, assim, tipicamente em rapazes. As mães porta-
doras de uma premutação são habitualmente normais, embora um pequeno nú-
mero possa ter ligeiras dificuldades intelectuais.
Algumas características físicas, habitualmente presentes, sugerem esta doença. As
dimensões da cabeça são grandes, geralmente acima da média. A face é alongada,
o queixo é um pouco procidente e as orelhas são grandes e têm uma posição de
rotação anterior. As mãos e os pés manifestam uma flexibilidade excessiva (“laxi-
dão ligamentar”). Estas características físicas não são óbvias nos primeiros anos
de vida e tornam-se mais aparentes na infância tardia e adolescência.
X-Frágil
As crianças são habitualmente escolarizáveis mas com aprendizagens
escolares limitadas. Inicialmente, pelo menos, integram
o contexto escolar normal com apoios individualizados
e um curriculum adaptado às suas necessidades educativas.
128
129
X
A aquisição da linguagem é tardia, mais na capacidade para falar, do que na com-
preensão da linguagem. O próprio processo de aquisição da linguagem é atípico e
não raramente há tendência, no processo de aquisição da linguagem, para repetir
frases que são aprendidas de cor (“ecolália”). Estas crianças mostram uma tendên-
cia para evitar o contacto visual e têm, frequentemente, maneirismos e estereoti-
pias motoras como abanar as mãos no contexto de excitação e uma dificuldade ou
aversão por circunstâncias sociais inabituais, o que sugere, associado à ausência
de linguagem, o diagnóstico de autismo. São frequentemente também impulsi-
vas e hiperactivas. Num pequeno número (menos de 10%) de rapazes a quem é
diagnosticado, nos primeiros anos de vida, autismo verifica-se subsequentemente
terem a mutação X-frágil.
A evolução intelectual é habitualmente a de uma deficiência mental moderada
(QI médio de 50) embora para alguns a deficiência seja menos grave.
São habitualmente escolarizáveis mas com aprendizagens escolares limitadas. Ini-
cialmente, pelo menos, integram o contexto escolar normal com apoios individu-
alizados e um curriculum adaptado às suas necessidades educativas.
Um pequeno número (cerca de 10%) dos portadores da mutação X-frágil terá
O Especialista
José Pedro Vieira
Especialista de Pediatria e de Neurologia Pediátrica pela Ordem dos Médicos
Consultor de Neurologia Pediátrica do CHLC – Hospital D. Estefânia e de várias
Instituições Hospitalares que prestam cuidados de Saúde em Pediatria
Autor ou co-autor de diversas Comunicações em Reuniões Médicas e de trabalhos
publicados na área de Neurologia Pediátrica
Revisor ad hoc para Neurologia da Acta Pediátrica Portuguesa.e do “Journal of Pe-
diatric Neurology”
Membro do Scientific Advisory Council para a área de Neurologia da CDLS Foundation
(Fundação Internacional Síndrome de Cornélia de Lange)
Membro do Comité Cientifico da Raríssimas (Associação Portuguesa de Doenças
Raras)
130
convulsões mais frequentemente na idade escolar ou na adolescência, que não são
habitualmente difíceis de tratar.
É importante reconhecer este diagnóstico porque a família é aconselhada quanto
aos riscos de repetição (nomeadamente a probabilidade de ocorrer um novo caso
numa gravidez de uma mãe portadora de premutação).
É importante também para o caso identificado porque serão necessárias diversas
intervenções:
1 – Terapia da Fala;
2 – Medidas educativas especiais destinadas a compensar as dificulda-
des da criança;
3– Intervenção Psiquiátrica para os problemas de comportamento e de
adaptação;
4 – Tratamento de epilepsia, excepcionalmente.
Para saber mais
www.xfragil.org.br
www.familyvillage.wisc.edu/lib_frgx.htm
www.orpha.net/consor/cgi-bin/OC_Exp.
php?Lng=GB&Expert=908
www.fraxa.org
131
X
132
A Síndrome de Klinefelter (XYY) descreve um grupo de desordens cromossómi-
cas nas quais há acréscimo de, pelo menos, um cromossoma X ao cariótipo nor-
mal (46,XY). Os cariótipos variantes, com mais de uma cópia extra do cromos-
soma X ou cópias extras de ambos os cromossomas X e Y (48,XXYY; 48,XXXY;
49,XXXXY), têm incidências inferiores às da síndrome clássica (47, XXY).
Os indivíduos afectados têm características fenotípicas variáveis e, na infância,
está apenas descrito um pequeno aumento da incidência de criptorquidia. O peso,
a altura e o perímetro cefálico têm uma evolução normal. É na puberdade tardia
que a decrescente concentração do testosterona tem tradução clínica. A dimi-
nuição da produção do androgéneo implica uma involução testicular e o desen-
volvimento de um hipogonadismo hipergonadotrópico. As características sexuais
secundárias não completam o seu desenvolvimento e a aparência eununcóide tem
maior probabilidade de ocorrer. A ginecomastia transitória surge, também, com
maior frequência mas raramente permanece até a idade adulta.
Foi documentado em vários indivíduos uma diminuição do QI em 10 a 15 pontos
e aproximadamente dois terços apresenta dificuldades de leitura e discurso. A sua
XYY
O Especialista
Teresa Taylor Kay
Geneticista Clínica
Foi documentado em vários indivíduos uma diminuição do QI em 10
a 15 pontos e aproximadamente dois terços apresenta difculdades de
leitura e discurso. A sua personalidade é variada mas, com frequência,
existe imaturidade e comportamento introvertido.
132
133
X
personalidade é variada mas, com frequência, existe imaturidade e comportamen-
to introvertido.
Na vida adulta tendem a ser mais altos (186 cm vs 177 cm) e têm risco ligeiramen-
te aumentado de desenvolverem diabetes mellitus, osteoporose, patologia cardio-
vascular, respiratória e do aparelho digestivo. O cancro da mama é mais comum
em homens 47,XXY em relação aos homens 46,XY (risco relativo de 20), mas o
risco total (3%) permanece inferior ao do sexo feminino.
A fertilidade da grande maioria dos indivíduos é nula. A reprodução medica-
mente assistida através da Injecção Intracitoplasmática com Fertilização in vitro
(ICSI) conferiu paternidade biológica a raros indivíduos.
O cromossoma extra deste cariótipo resulta de um defeito esporádico da meiose
na gametogénese ou da mitose no desenvolvimento do zigoto. Existe um efeito
significativo relacionado com idade materna avançada, mas o risco de recorrência
global é baixo (<1%).
A confirmação diagnóstica poderá surgir no decurso de:
– Estudo pré-natal;
– Estudo pós-natal, para esclarecimento do atraso no desenvolvimento
da linguagem;
– Investigação da infertilidade masculina na idade adulta.
Na descendência pode haver maior risco de aneuploidia, quer para os cromos-
somas sexuais, quer para a Trissomia 21. Assim, o diagnóstico pré-natal deve ser
oferecido nas futuras gestações.
O conhecimento diagnóstico permite um acompanhamento especializado com a
monitorização do crescimento e do nível hormonal do adolescente. A terapêutica
atempada com testosterona poderá trazer benefícios na auto-estima, aumento da
libido e prevenção da osteoporose.
Com a colaboração da Drª Tânia Serrão,
Interna do Internato Médico de Genética Médica
Para saber mais
www.unitask.it/portale
134
A forma entérica causa uma enterite ulcerosa com linfadenite necrosante local,
cujos principais sintomas são muitas vezes associados a artrites e/ou a um eritema
nodoso. Muitas vezes, aparece em crianças e os sintomas mimetizam os da apen-
dicite mas a evolução pode ser breve ou prolongar-se durante meses.
Os agentes deste tipo de Yersiniose transmitidos através dos alimentos são a Yersi-
nia enterocolitica e a Y. pseudotuberculosis, que provocam gastroenterites, sendo
a Y. enterocolitica o agente mais frequente desta infecção. Estas bactérias podem
encontrar-se na natureza, na carne (sobretudo de suíno), no leite e na água. Os suí-
nos são considerados os reservatórios primários dos serotipos patogénicos para
os humanos. A Yersinia cresce entre 25ºC e 37ºC, mas também consegue crescer
a temperaturas de refrigeração.
As infecções por Y. enterocolitica, geralmente, não necessitam de tratamento pois
são autolimitadas mas quando surgem complicações recorre-se a antibióticos.
Em 2005 foram reportados 630 casos humanos por 21 Estados Membros da União
Europeia. A taxa de incidência foi de 2,6 casos por 100 mil habitantes, sendo,
sobretudo, importante nos países mais frios. Em Portugal o número de casos re-
portados é muito baixo, apenas cerca de 10 a 20 casos/ano.
A forma respiratória (mais grave) é uma doença conhecida desde a antiguidade
sendo também conhecida como peste bubônica ou peste negra.
Os principais sintomas da doença são inflamação nos gânglios linfáticos, peté-
quias e septicemia.
Esta doença é causada pela bactéria Yersínia pestis e a transmissão é feita de roe-
dor para roedor ou de roedor para o homem, através da picada da pulga Xenop-
sylla cheopis. Evitar o contacto com roedores e erradicá-los das áreas de habitação
é a única protecção eficaz.
Yersimiose
Conhecem-se duas formas clínicas diferentes de doenças causadas pelo género
bacteriano Yersinia sp (yersinioses): uma que causa infecções entéricas, muitas
vezes, com complicações para além desta localização e uma que causa infecções
respiratórias graves (conhecida por peste bubónica).
135
Y
O diagnóstico é feito por recolha de amostras de líquido dos bubões, pús ou san-
gue e cultura em meios de nutrientes para observação ao microscópio e análise
bioquímica. A peste é fatal nos roedores. As pulgas abandonam os animais mor-
tos, parasitam outros roedores e, até, mesmo, o homem. Neste caso podem causar
os grandes surtos epidémicos.
O tratamento destes casos efectua-se recorrendo a antibióticos. Estes revolucio-
naram o tratamento da peste, tornando-a de agente da morte quase certa em do-
ença facilmente controlável. Normalmente, utiliza-se a estreptomicina, tetracicli-
nas, cloranfenicol gentamicina e a doxiciclina.
A peste é de comunicação obrigatória às autoridades. Contactos de indivíduos
afectados ainda hoje são postos em quarentena durante seis dias.
A peste negra já vitimou milhões de pessoas em várias partes do mundo, princi-
palmente na Ásia, Europa e África, não existindo casos reportados em Portugal.
Para saber mais
http://kidshealth.org/parent/infections/bacterial_viral/
yersinia.html
136
A Síndrome de Zellweger e as suas variantes menos graves, como a adrenoleucodistrofa
neo-natal e a doença infantil de Refsun, constituem um continuum clínico de doenças do
Espectro de Zellweger. Pertencem ao grupo das doenças da biogénese do peroxisoma (DBP)
doenças muito graves, autossómicas recessivas, clínica e geneticamente heterogéneas.
São causadas por mutações em, pelo menos, 11 genes diferentes (PEX), que codifcam
proteínas, as peroxinas, necessárias para a biogénese normal do peroxisoma. Caracteristi-
camente afectam a síntese do plasmalogeneo e a beta oxidação dos ácidos gordos de cadeia
muito longa (VLCFA) levando à sua acumulação nas membranas das células neuronais e
contribuindo para a lesão neurológica. A existência de várias mutações e polimorfsmos
contribuem para a heterogeneidade fenotípica observada nestes doentes. A sindrome cé-
rebro-hepato-renal de Zellweger, representa o fenótipo mais grave deste espectro e pode ser
Zellweger
A adrenoleucodistrofa neo-natal e a doença infantil
de Refsum são formas mais leves no Espectro Zellweger,
havendo uma sobreposição clínica bioquímica e genética
entre estes três fenótipos.
O Especialista
Maria Teresa Cardoso
Médica especialista em Medicina Interna, graduada em Chefe de Serviço
Coordenadora da Unidade M1 do Serviço de Medicina Interna do H. S. João
Responsável pela Consulta de Doenças Hereditárias do Metabolismo do Adulto
do Hospital de S. João no Por to
Coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Socieda-
de Por tuguesa de Medicina Interna
Faz par te do Grupo de Estudo da Doença Vascular Cerebral do H. S. João
136
137
Z
considerada o arquétipo das DBP. Ocorre em 1/25000-1/50000 nados-vivos. Os indivíduos
afectados apresentam, ao nascer, dismorfas craniofaciais (macrocefalia, testa alta, fontanela
anterior alargada, prega de epicanto, lobos auriculares deformados com implantação auri-
cular baixa), hipotonia grave, convulsões neonatais, atraso psicomotor, hepatomegalia com
disfunção hepática, icterícia prolongada, quistos renais, calcifcação das epifses e defeitos
de migração neuronal. Referida retinopatia pigmentar e cataratas com alterações da visão e
surdez neurosensorial. A adrenoleucodistrofa neo-natal e a doença infantil de Refsum são
formas mais leves no Espectro Zellweger, havendo uma sobreposição clínica bioquímica e
genética entre estes três fenótipos. A primeira, de apresentação neonatal, tem uma sobrevida
até aos 3 a 5 anos, a segunda, de apresentação mais tardia entre o 1º e o 6º mês, apresenta
sobrevidas até à adolescência. Nesta, as alterações dismórfcas são ligeiras ou ausentes, a de-
terioração neurológica é mais lenta e os doentes podem andar, embora com ataxia. Algumas
formas mais leves podem ter sobrevidas até à fase adulta com um quadro clínico de atraso do
desenvolvimento e psicomotor moderado a grave, com retinopatia e surdez neurosensorial.
Bioquimicamente caracterizam-se por aumento dos VLCFA, dos ácidos pristánico, ftánico
e pipecolico no plasma e fbroblastos e por níveis de plasmalogéneo baixo nos eritrócitos.
O diagnóstico do defeito genético primário (análise de DNA) é crucial para o aconselha-
mento genético, para a detecção de portadores e para o diagnóstico pré-natal.
O diagnóstico pré-natal pode ser conseguido através da avaliação da concentração dos
metabolitos do peroxisoma, através da actividade das enzimas peroxisomais ou por téc-
nicas de rastreio molecular. A análise de VLCFA em cultura de amniócitos ou de células
das vilosidades coriónicas é o método mais frequentemente usado. Conhecido o defeito
molecular, o diagnóstico deve ser confrmado por análise da mutação.
A detecção por RMN do padrão característico com polimicrogiria, alteração da mieliniza-
ção e pseudocistos cerebrais periventriculares facilita o diagnóstico pré-natal. O aumento
da translucência da nuca por ultrasonografa e a diminuição dos movimentos fetais podem
sugerir o diagnóstico. Neste momento o tratamento é, essencialmente, de suporte com ad-
ministração oral de ácidos biliares e dieta pobre em ácido ftánico e pristánico. Intervenções
terapêuticas visando os defeitos bioquímicos e suas repercussões clínicas ainda não estão
demonstradas. Está em investigação o tra-
tamento com o ácido docosahexaenoico etil
ester (DHA) com efeitos benéfcos na fun-
ção hépatica, na visão e no tonus muscular,
mais notórios quando o tratamento se inicia
antes dos 6 meses de vida.
Para saber mais
www.eimaep.org/spdm/index.htm
ROSNAOLXSIVFJSOMZPEPUEJLAROTBCG
OIENDPLAMWOLJBHUWRTYSFGHCVAU
NAOCBRKVMSLXSIVFJSOMZPEQOIEND
MZÍNDICEWOLJBHUWRTYSFGHCVAUN
02
22
24
38
42
60
70
72
84
98
100
118
128
132
Cornelia de lange
Costello
Fabry
Fibrose Quística
Ictiose Lamelar Congénita
Leucemias
Linfomas
Osteogenesis Imperfecta
Rett
Rubinstein-Taybi
Usher
X-Frágil
XYY
Prefácio
Porfíria Aguda Intermitente
Púrpura Tombocitopénica Imune
Distrofas Musculares
Drepanocitose
Gaucher
Gist
Grito de Gato
Joubert
Machado-Joseph
Marfan
Mieloma
Smith-Magenis
Smith-Lemli-Opitz
Spina Bífda
Vogt-Koyanagi-Harada
Yersimiose
Acondroplasia
Acromegalia
Angiodema Hereditário
04
08
12
26
32
46
50
52
64
74
76
78
88
92
102
104
108
120
134
Bernard-Soulier
Bheçet
Ehlers-Danlos
Esclerose Tuberosa
Hipertensão Arterial Pulmonar
Huntington
Kabuki
Kawasaki
Neurofbramatose tipo 1
Q Febre
Trissomias
Turner
Wilson
Wolf-Hirschhorn
Zellweger
16
18
34
36
54
58
66
68
80
96
112
116
122
126
136
SNAOLXSIVFJSOMZPEPUEJLAROTBCGGQ
Título
Doenças Raras de A a Z
Projecto
Companhia de Ideias
Coordenação
Paula Brito e Costa
Apoio à Edição
Ana Cruz
Marina Caldas
Arte e Design da Capa
Ana Figueiredo
Hugo Amaral
Susana Garrucho
Revisão
Maria Miranda
Produção
Joyce Alberti
Edição Digital
Espiral Conhecimento, Lda
Coordenação Editorial
Paula Simões
Impressão
Depósito legal
1ª Edição
Lisboa, Março de 2009
Para
Fedra – Federação das Doenças Raras de Portugal
Publicação
Companhia de Ideias
Av. Ant.º Augusto Aguiar, 150 F, 2º Esq 1050-021 Lisboa
reservados todos os direitos

Prefácio

Este livro que a FEDRA (Federação de Doenças Raras de Portugal), constituída o ano passado, decidiu organizar, com a colaboração dos melhores especialistas nesta área, é apenas mais um passo no caminho difícil que muitas almas de boa vontade têm percorrido, com persistência, para aumentar o nosso conhecimento sobre patologias raras. Doenças raras de A a Z. Talvez, de ajudar a entender até zelar pelo seu tratamento.

Tudo o que é raro atrai a nossa particular atenção. Raro é precioso.

As patologias raras devem também ser-nos preciosas porque exigem muito de nós. Eu própria fui atraída para a causa das doenças raras através de uma pessoa, (com quem quis de imediato entrar em contacto), impressionada pela dedicação que senti nesse envolvimento. Com a Dra. Paula Costa, fundadora da Associação Raríssimas, aprendi que a causa era uma doação, um acto de amor.
2

Como todas as missões, não admitia desistências perante as dificuldades. Que eram muitas. São sempre muitas. Mas não de molde a quebrar os ânimos.

Porque dos fracos não reza a história e é importante dar a nossa força aos que amamos e são mais fracos do que nós. Ao longo destes tempos, em que, ajudada por muitas outras pessoas, tenho tentado dar voz e visibilidade aos problemas e necessidades das pessoas atingidas por patologias raras e suas famílias, o que mais tenho aprendido é o valor inalienável da vida. Vida frágil, vida difícil, mas vida que é sempre preciosa e rara, para quem a ama.

Vida que acorda o que de melhor temos dentro de cada um de nós.

Tenho a certeza que este livro, que agora é posto à disposição de todos os que se interessam pela causa das doenças raras e raríssimas, vai ser uma grande ajuda para desbravar estas patologias ainda envoltas em enormes dificuldades de diagnóstico, enormes dificuldades de tratamento.

Janeiro 2009 Maria Cavaco silva

3

com encurtamento dos 4 membros a nível da raiz (rizomélico) provocando pregas da pele redundantes. limitação na extensão dos cotovelos. tronco de dimensões aproximadamente normais. o característico estreitamento ou manutenção da distância interpedicular na coluna lombar. tórax estreito sobretudo nos lactentes. mãos pequenas com configuração em tridente e dedos curtos (braquidactilia). pernas arqueadas (genu varum) = varismo. O diagnóstico diferencial com Hipocondroplasia e outras displasias pode ser difícil. o perónio alongado em relação à tíbia. entre outros sinais. face com hipoplasia da zona média e nariz de base achatada. sentar. 4 . sobretudo no recém-nascido e crianças. pelo que deve ser sempre consultado um perito. A Acondroplasia é a forma mais frequente de baixa estatura desproporcionada de origem genética nas crianças e adultos. através de radiografia do esqueleto que mostra. hipotonia (diminuição da força muscular) no lactente. os membros curtos rizomélicos com metáfises (extremidades) alargadas. bem como as alterações nas mãos e no crânio.000 recém-nascidos vivos. tornando o diagnóstico diferencial por vezes difícil. Há uma grande variabilidade no grau de gravidade e semelhança com outras condrodisplasias. andar…) podem ser mais atrasadas.Acondroplasia Há uma grande variabilidade no grau de gravidade e semelhança com outras condrodisplasias. gatinhar. depois. pelo que deve ser sempre consultado um perito. com cifose (encurvamento da coluna para fora) dorsal no lactente e hiperlordose (encurvamento da coluna para dentro) lombar após aquisição da marcha. tornando o diagnóstico diferencial por vezes difícil. a bacia com ilíacos quadrados com acetábulos planos e espinhas esquiáticas diminuídas. As características físicas mais frequentes são a baixa estatura desproporcionada. A estatura final nos homens varia entre 120-145 cm e nas mulheres entre 115-137 cm A observação cuidadosa do doente faz habitualmente suspeitar do diagnóstico logo ao nascimento. as vértebras cubóides com pedículos curtos. As etapas das aquisições motoras (controle da cabeça. cabeça grande (macrocefalia) com fronte alta e proeminente (bossas frontais). confirmando-se. atingindo ~ 1 em 15. sobretudo no recém-nascido e crianças. A inteligência e longevidade são normais.

Londres Especialista de Pediatria Médica Especialista em Genética Médica Chefe da Unidade de Consulta do Instituto de Genética Médica Jacinto Magalhães Adjunta da Directora do Instituto de Genética Médica Jacinto Magalhães de 2002 a 2008 Coordenadora Nacional da ORPHANET (Base de Dados online sobre Doenças Raras e Medicamentos Órfãos) Coordenadora da Genética Médica no Hospital Privado da Boavista (Grupo HPP) 5 . ORL. certos exercícios de ginástica. que devem ser vigiados em consultas multidisciplinares que podem envolver Pediatria. a hipotonia e outras alterações neurológicas. sobretudo nas crianças pequenas. O apoio de equipas de estimulação precoce motora pode ser útil. Ortopedia. com necessidade de intervenção cirúrgica urgente de descompressão. Estomatologia. Os doentes com Acondroplasia têm maior risco de desenvolver otites serosas. Deve haver cuidados especiais aquando das anestesias e evitar a possibilidade de riscos de impacto (desportos violentos. A obesidade é um risco importante. USA Estágio no Serviço de Neuropediatria do Guy’s Hospital e no Child Development Newcomen Centre. O crescimento deve ser vigiado em tabelas próprias de percentis e deve haver especial atenção à evolução do perímetro craniano. Esta situação pode levar a risco de vida. O tratamento com Hormona de Crescimento é controverso e os seus resultados limita- O Especialista Margarida Maria Fernandes Reis Lima Licenciada em Medicina pela Universidade do Porto. que pode condicionar.A Existem actualmente normas de orientação clínica para estes doentes. ski. Nos adultos. por exemplo. em 1977 Estágio na Child Development Unit do Children’s Hospital de Boston. etc. Genética. trampolim. hidrocefalia e apneias de sono. Neuropediatria e Neurocirurgia. patinagem. a queixa mais frequente é a estenose espinal lombar L1-L4 sintomática.). É essencial a vigilância de eventual compressão medular por estenose do canal cérvico-medular (Foramen Magnum). hóquei. Fisiatria. Há também maior risco de complicações ortopédicas. rugby. etc.

Os pais de estatura normal têm um risco muito baixo de ter outro filho afectado – cerca de 0. há um risco de 25% de ter um filho de estatura normal . estando habitualmente reservado para situações específicas. e que codifica o receptor 3 do factor de crescimento fibroblástico da cartilagem.org www. É possível efectuar diagnóstico pré-natal molecular. O estudo molecular permite a confirmação do diagnóstico nos casos de dúvida.orpha. Os riscos. Esta situação é muito grave e provoca habitualmente morte no período neonatal por problemas respiratórios.rarediseases. há um risco de 50% de ter um filho afectado em qualquer gravidez futura. pelo que habitualmente não é aconselhado.dos. A Acondroplasia é uma doença monogénica de transmissão autossómica dominante (manifesta-se desde que haja um gene com mutação). antes de nova gravidez.emedicine. Para saber mais www. devem ser sempre discutidos e planeados em consulta de aconselhamento genético. as vantagens e desvantagens do diagnóstico pré-natal.net www. um risco de 50% de ter um filho Acondroplásico (1 gene com mutação) e um risco de 25% de ter um filho com Acondroplasia Homozigótica ( 2 genes com mutação).02% – pois as mutações gonadais são raras. A maioria dos doentes – mais de 80% – tem pais de estatura normal. É possível fazer diagnóstico pré-natal ecográfico. A cirurgia de alongamento ósseo já é actualmente acessível no nosso país. através de amniocentese ou biópsia das vilosidades. Se um dos pais tem Acondroplasia (um gene com mutação).com/ped 6 .org www. com 100% de penetrância. situado no cromossoma 4p. mas este é tardio (3º trimestre). Se os dois pais tiverem Acondroplasia. Em 98% dos casos trata-se da mutação G1138A e em 1% dos casos a mutação é a G1138C.genetests. pelo que a doença é esporádica e resultou de uma mutação “de novo” que ocorreu pela primeira vez no próprio. Há um risco evidente associado à idade paterna avançada (mais de 40 anos). causada por mutações no gene FGFR3. devendo ser discutido caso a caso. permite o aconselhamento correcto e o acesso a diagnóstico pré-natal específico.

A 7 .

A Acromegalia é uma doença rara. Resulta da secreção excessiva de somatotrofina (ST) ou hormona de crescimento. A designação provem de “acro” – extremidades “megalo” grande. A diminuição dos campos de visão terá sido a razão pela qual o pequeno David se conseguiu aproximar do gigante Golias. traduzindo o crescimento dos tecidos moles do organismo que torna as características faciais mais rudes e grosseiras e causa aumento do tamanho de mãos e pés. os espaços entre os dentes aumentam. a mandíbula cresce causando uma dificuldade de articulação da mandíbula e o queixo proeminente. as orelhas e a fronte são grosseiras. os lábios. localizada na região do meio da cabeça abaixo do cérebro.Acromegalia A esperança de vida destes doentes pode ser reduzida em aproximadamente 10 anos. cartilagem. tecido conjuntivo. com uma pedrada atingiu este portador de um tumor produtor de ST. A boa notícia é que a normalização dos níveis de ST associa-se a uma esperança de vida idêntica à da população em geral. A causa mais frequente é um tumor benigno (adenoma) das células da hipófise produtoras de ST. A Acromegalia pode provocar complicações graves e mesmo a morte. O crescimento dos tecidos moles da 8 . A Acromegalia pode também apresentar-se por manifestações resultantes da compressão das estruturas adjacentes. Como se manifesta a Acromegalia? O excesso de ST estimula a produção de outra hormona denominada IGF-1 ou somatomedina por mediar a acção da ST. O IGF-1 estimula o crescimento da pele. Estas células da hipófise anterior. ocorrendo 3 a 4 novos casos por milhão. órgãos e outros tecidos do organismo. Desenvolve-se muito gradualmente e pode ser diagnosticada após a doença estar presente há vários anos (7-8 anos). ser tratado com sucesso. por ano. O crescimento exagerado dos tecidos moles. A maioria dos doentes pode. As cefaleias podem estar presentes. cartilagem e ossos da face. O excesso de pelo pode ser particularmente significativo na mulher. mãos e pés são as manifestações mais importantes: o nariz. osso. a língua aumenta. sem ser visto e. no entanto. se não tratada.

Diabetes e Metabolismo do Hospital de S. 6th. A esperança de vida destes doentes pode ser reduzida em aproximadamente 10 anos. luvas e sapatos maiores. João Membro do Executive Board of the Mediterranean Group for the Study of Diabetes Membro do Consensus Conference Panel on Acromegaly (4th. A diabetes é igualmente mais frequente e pode ser de difícil controlo. A sudação excessiva com cheiro característico é frequente. e a insuficiência cardíaca são mais frequentes. A boa notícia é que a normalização dos níveis de ST associa-se a uma esperança de vida idêntica à da população em geral.A garganta pode causar voz rouca e apneia do sono (situação em que uma pessoa pára temporariamente de respirar durante o sono. Os doentes podem ter outros tumores benignos como fibromas do útero ou pólipos do cólon. de acordo com as modificações do aspecto. 7th) Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade 9 . O doseamento O Especialista Davide Carvalho Endocrinologista Professor Agregado da Faculdade de Medicina do Porto Chefe de Serviço de Endocrinologia. As doenças do coração. Se se suspeitar de Acromegalia. O crescimento das extremidades ósseas. 5th. o dia-gnóstico é confirmado pelo doseamento de IGF-1 e/ou de ST. obrigando ao uso de anéis. pode causar artrose. em particular das cartilagens. causando níveis inferiores de oxigénio e perturbando o sono). As mãos e os pés aumentam. como a hipertensão e o alargamento do coração com disfunção (cardiomiopatia). O aumento dos tecidos do punho pode causar compressão dos nervos das mãos e causando adormecimento e formigueiros dos dedos (síndrome de canal cárpico).

a Ressonância Magnética permitirá identificar um adenoma em 99% dos casos.spedm. Há 3 formas de tratamento: cirurgia. conseguindo a normalização da ST em cerca de 50% dos indivíduos. Os objectivos do tratamento são normalizar os níveis de ST e IGF-1.athip. especialmente a cabergolina e o antagonista dos receptores da somatotrofina (pegvisomante). Há 3 classes de medicamentos usados para tratar a Acromegalia: os análogos da somatostatina (octreotido ou lanreotido). A grande desvantagem é a lentidão da redução dos níveis de ST. A radioterapia foi usada durante várias décadas e pode ser administrada por uma de várias vias: acelerador linear. os agonistas dopaminérgicos. Os agonistas dopaminergicos inibem a secreção de ST para valores normais em cerca de 1/3 dos doentes. A cirurgia habitualmente é feita por via nasal. podendo alguns doentes exigir 10 a 15 anos para se observar a sua eficácia. Tal é previsível quando o adenoma não ultrapassa os limites da hipófise. medicamentos e radioterapia. Os análogos da somatostatina inibem a secreção da ST pelas células do adenoma. Por vezes.org www. bomba de cobalto ou ciclotron (feixes de protões).org 10 .de ST pode exigir um perfil de múltiplas colheitas ou colheita após a ingestão de uma solução com glicose. A cirurgia oferece a hipótese de curar se a remoção do adenoma for completa. Para saber mais www. O antagonista do receptor da somatototrofina (Somavert®) bloqueia os efeitos da ST por ligação ao receptor e diminui a produção de IGF-1 em cerca de 95% dos doentes. o tratamento inicial não é inteiramente eficaz e é necessário um tratamento complementar. O tratamento com sucesso induz uma regressão dos tecidos moles ao longo de vários meses. A nota final é de esperança: a terapêutica da Acromegalia é bastante eficaz na normalização dos níveis de ST. O octreotido (Sandostatina®) e o lanreotido (Somatulina® Autogel) têm formulações de administração de 4 em 4 semanas. Comprovado o excesso de ST.

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Existem 3 tipos de doença: – Tipo I ou défice quantitativo (C1-inibidor existe em pouca quantidade). podendo alguns doentes ser submetidos a intervenções cirúrgicas (laparotomias brancas). a prevenção das crises agudas e tratamento das crises agudas. traumatismo. manipulações médico-cirúrgicas ou induzidos por medicamentos. que conduz a aumento de um mediador. – Tipo II ou défice qualitativo (C1-inibidor existe mas não funciona). infecções. As manifestações desta doença são de edema (angioedema) de qualquer parte do corpo e/ou edema das mucosas nomeadamente das vias aéreas superiores (edema da glote) ou tubo digestivo (dor abdominal e vómitos e. As crises agudas podem surgir de forma espontânea ou na sequência de stress emocional. Angioedema hereditário é uma doença rara que se caracteriza por crises agudas de edema localizado à pele e/ou mucosas. manipulações médico-cirúrgicas (dentárias. – Tipo III também conhecido como estrogénio-dependente. isto é.Angioedema Hereditário As crises agudas podem surgir de forma espontânea ou na sequência de stress emocional. por vezes. A doença pode manifestar-se na infância ou adolescência mas alguns doentes iniciam as suas manifestações da doença apenas na vida adulta. 12 . o que explica o aparecimento do angioedema. O tratamento do Angioedema hereditário divide-se em dois aspectos importantes. traumatismo. é uma doença hereditária e deve-se a um défice C1inibidor esterase (enzima de controle de activação do complemento). infecções. diarreia). As queixas abdominais podem simular uma situação clínica de abdómen agudo. a bradiquinina que condiciona vasodilatação e exsudação. otorrinolaringológicas e ginecológicas) ou induzidos por medicamentos (anticoncepcionais e inibidores de enzima de conversão da angiotensina). afecta apenas as mulheres e não cursa com alterações quantitativas ou qualitativas do C1-inibidor esterase. Na maioria dos doentes.

indicado para o tratamento das crises agudas com risco de vida com a vantagem de ser administrado por via sub-cutânea. Nalguns doentes. Recentemente foi introduzido na Europa um novo fármaco. No tratamento das crises agudas com risco de vida. isto é. com envolvimento das vias aéreas superiores ou envolvimento gastrointestinal está preconizada a administração de concentrado de C1-inibidor (Berinert PTM). onde coordena a Consulta Externa de Imunoalergologia Responsável pelo seguimento dos doentes com diagnóstico de Angioedema Hereditário no HSM e pela coordenação do centro de Imunoterapia Específica Exerce funções de secretária do grupo de Interesse de Alergénios e Imunoterapia específica da Sociedade Portuguesa de Alergologia Imunologia Clínica 13 . o controle pode ser obtido com os inibidores da fibrinólise como ácido aminocapróico (EpsicapromTM). Alguns doentes respondem a doses elevadas de metilprednisolona ev. aumenta-se a dose de androgénio e. O seguimento dos doentes com Angioedema hereditário é efectuado pela Espe- O Especialista Amélia Spínola Santos Especialista de Imunoalergologia Desempenha funções de Assistente Hospitalar Graduada no Hospital Santa Maria (HSM). No tratamento de crises agudas sem risco de vida. mas a adrenalina e anti-histamínicos não se têm mostrado eficazes. Este concentrado também está indicado na profilaxia das crises nas manipulações cirúrgicas. para além da vigilância clínica. faz-se a administração de ácido amino-capróico ev.A A prevenção das crises é feita com terapêutica androgénica como o danazol (DanatrolTM) ou estanazolol (WinstrolTM. comercializado com o nome FirazyirTM. se necessário. antagonista dos receptores do tipo 2 da bradiquinina (icatibant). na dose mínima necessária para controle da sintomatologia.

cialidade de Imunoalergologia. dispõem de tratamento específico das crises agudas de Angioedema com ameaça de vida. podendo evitar entubação ou traqueostomia para manutenção da permeabilidade das vias aéreas. Existem vários centros de referência nosso país (Hospital Santa Maria e Hospital Dona Estefânia em Lisboa. Estes hospitais.com 14 .aedaf-es.com www. para além do seguimento dos doentes. Hospitais da Universidade de Coimbra em Coimbra e Hospital de São João no Porto). como o edema da glote. Para saber mais www.hereditaryangioedema.

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EPE Presidente da Sociedade Por tuguesa de Hematologia 16 .Bernard-Soulier Com frequência estes doentes são incorrectamente diagnosticados de Púrpura Trombocitopénica Idiopática (PTI). O Especialista Maria Letícia de Sousa Ribeiro Licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra Graduação em Consultor de Hematologia Clínica Especialista de Hematologia no CHC Responsável pela Unidade de Hematologia Molecular – Anemias Congénitas. A anomalia da adesão plaquetar é devida à diminuição ou ausência do complexo GPIb-V-IX na sua membrana. A transmissão é autossómica recessiva e os portadores são. que também cursa com um número reduzido de plaquetas. mas tem uma abordagem terapêutica diferente. o que compromete o início da formação do coágulo. assintomáticos. EPE Directora do Depar tamento de Hematologia do CHC. Nestes doentes têm sido encontradas mutações nos genes GP1BA. Medical College of Georgia (MCG) Directora do Serviço de Hematologia do CHC. É caracterizada por uma redução moderada no número de plaquetas e pela presença de plaquetas gigantes. A Síndrome de Bernard-Soulier é uma doença hemorrágica hereditária rara devida a uma diminuição da capacidade de adesão das plaquetas. GP1BB e GP9. do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) “Research Fellow” no Department of Biochemistry and Molecular Biology. em geral.

O exercício físico não deve ser violento. mas tem uma abordagem terapêutica diferente.B Um casal de portadores tem. traumatismos. como a aspirina. O diagnóstico diferencial é feito com outras disfunções plaquetares. com a Trombastenia de Glanzman que é mais frequente e tem um curso clínico e uma abordagem terapêutica semelhantes. os doentes com hemorragias frequentes devem fazer suplementação com ferro. Devem ser evitados medicamentos que interfiram com a função plaquetar.org . As transfusões de plaquetas podem desencadear a formação de anticorpos antiplaquetares e só deverão ser administradas em hemorragias catastróficas ou se não houver FVII activado disponível. 25% de probabilidade de ter um filho com a Síndrome de Bernard-Soulier. que é normal. ligeiras a moderadas. sobretudo em doentes moderados a severos. é necessário administrar Factor VII activado. Por técnicas de Citometria de fluxo é possível demonstrar as anomalias da membrana das plaquetas. e testes da função plaquetar. à semelhança de outras patologias hemorrágicas. O transplante de progenitores hematopoiéticos pode ser equacionado em doentes com um quadro clínico muito grave. Os doentes com Bernard-Soulier têm maior tendência para hemorragias das mucosas.bernardsoulier. Estes testes só estão disponíveis em Serviços de Hematologia com experiência clínica e laboratorial em patologia da hemostase. em cada gravidez. Nas hemorragias graves ou num pré-operatório. para observação da morfologia plaquetar. A simples observação do volume e da morfologia das plaquetas permite suspeitar de Síndrome de Bernard-Soulier. com DDAVP. cirurgias ou por menorragias abundantes ou na sequência de estudos familiares. que também cursa com um número reduzido de plaquetas. Não há um tratamento específico para a Síndrome de Bernard-Soulier. epistaxis ou hemorragias gengivais ou. O diagnóstico é feito habitualmente nos primeiros anos de vida na sequência do aparecimento de equimoses. nomeadamente. As hemorragias das mucosas. Em alguns doentes o quadro hemorrágico diminui a severidade com a idade. hemograma com esfregaço de sangue periférico. O diagnóstico é feito com base na história clínica e familiar. por hemorragias abundantes após extrações dentárias. Com frequência estes doentes são incorrectamente diagnosticados de Púrpura Trombocitopénica Idiopática (PTI). em alguns doentes.chc-hematologia. o ibuprofeno e o naproxeno. 17 Para saber mais www. poderão ser controladas com antifibrinolíticos ou. Para evitar a anemia por falta de ferro. estudo da coagulação. O teste de PFA® é anormal e o diagnóstico é confirmado por ausência de agregação induzida pela ristocetina. mais tarde.org www.

pulmonares e. lesões oculares (inflamação de qualquer segmento do globo ocular ou dos vasos da retina). vasculares (tromboflebites. Porém. também. o estudo mais alargado sobre a sua prevalência mostra a existência de 2. são definidos pela presença indispensável de aftose oral de repetição (AOR ≥ 3 aftas por ano) associada a mais 2 de 4 critérios: aftose genital.4 casos/100. encontram-se. levantamentos mais recentes dão conta de que a sua prevalência é crescente e de que se está a tornar mais frequente no sexo feminino. Com expressão variável. gastrointestinais. A Doença de Behçet (leia-se “bedjet”) é uma vasculite sistémica de natureza desconhecida. lesões cutâneas (pseudo-foliculite. manifestações articulares (mecânicas. com uma distribuição masculino/feminino de 1/1.000 habitantes. Em Portugal.000 habitantes. Na sua etiologia sabemos existir uma actividade imunitária aberrante (excessiva) desencadeada pela estimulação das células da imunidade inata e desencadeada 18 . com especial relevo para as estruturas muco-cutâneas e oculares. inflamatórias ou mistas com as localizações e formas de expressão mais diversas). ainda que sem carácter diagnóstico.Behçet Em Portugal. até. O seu diagnóstico é baseado em critérios exclusivamente clínicos que. aneurismas e outras). Não existe qualquer exame analítico que auxilie no diagnóstico desta Síndrome. caracterizada pela forma tão particular como afecta o organismo. o estudo mais alargado sobre a sua prevalência mostra a existência de 2. ainda que a presença do alelo HLA-B51 possa traduzir maior susceptibilidade para o desenvolvimento de lesões oculares.4 casos/100. pápulo-pústulas) e teste de patergia positivo (aparecimento de pápula ou pústula cerca de 48 h após picada asséptica da pele). manifestações do sistema nervoso central. eritema nodoso. levantamentos mais recentes dão conta de que a sua prevalência é crescente e de que se está a tornar mais frequente no sexo feminino. de outros aparelhos e sistemas. com uma distribuição masculino/feminino de 1/1. de acordo com o International Study Group for Behçet’s Disease (ISGBD). Porém. para além de sintomas e sinais gerais. tromboses.

o pênfigo. Em Portugal. Quanto à terapêutica das aftas. corticóides de acção tópica. sabemos que cerca de 6% dos doentes de Crohn e 4% dos que apresentam colite ulcerosa. a sífilis ou a SIDA. químico. a AOR isolada é uma manifestação muito comum. em indivíduos com predisposição genética para o seu aparecimento. hormonal ou até ao próprio stress. torna-se necessário utilizar corticóides sistémicos por curto espaço de tempo. do Internato do Ano Comum e do Internato Complementar de Medicina Interna Membro do Núcleo de Estudos de Doenças Auto-Imunes (NEDAI) da Sociedade Por tuguesa de Medicina Interna Coordenador Nacional do Grupo de Estudos Sobre Doença de Behçet Sócio da International Society for Behçet’s Disease (ISBD) Presidente da XII International Conference on Behçet’s Disease Secretário-Geral da Sociedade Por tuguesa de Medicina Interna 19 . Quando a AOR se repete com incómodo. quando as crises são exuberantes. entre outras. da Doença de Crohn. Para que possamos considerar o seu diagnóstico terão de ser excluídas outras afecções que se podem manifestar com sintomas semelhantes. Outras patologias como o lúpus eritematoso sistémico. quando as queixas o justificarem. o herpes. muito em particular. na sua fase aguda. devem ser utilizados desinfectantes locais e. O Especialista Carlos Jorge Vidal de Vilhena Magalhães Crespo Licenciatura pela Faculdade de Medicina de Lisboa Assistente Hospitalar Graduado do Serviço de Medicina III dos Hospitais da Universidade de Coimbra Orientador de estágios dos Internatos Geral.B pela exposição a um agente infeccioso (habitualmente bacteriano). É o caso da Doença Inflamatória Intestinal e. alimentar. devem também ser excluídas. afectando cerca de 20% da população. Por outro lado. As pessoas dela portadoras devem estar atentas ao aparecimento dos outros sintomas que definem DB. Por vezes. têm critérios que os permitem incluir nesta síndrome.

A talidomida é uma alternativa de 2ª linha muito eficaz. os corticóides tópicos são suficientes para as uveítes anteriores. a dapsona ou a pentoxifilina. a azatioprina.com 20 . De registar. o aparecimento da Behçet em Portugal – “Associação Portuguesa da Doença de Behçet”. torna-se indispensável a utilização de corticóides sistémicos a par de fármacos como a ciclosporina A. Quando existe compromisso da câmara posterior. cujos membros têm demonstrado enorme empenho na divulgação e partilha de informações sobre esta doença. Para saber mais http://behcetemportugal.utilizamos fármacos como a colchicina.blogspot. por fim. o interferon α ou até agentes biológicos como o infliximab. No envolvimento ocular.

B 21 .

ORL e Estomatologia. pestanas longas. baixa estatura e hipertricose.000. Podem estar presentes anomalias oculares (ptose palpebral. As características físicas típicas são o atraso de crescimento pré e pós natal. que aumentam a predisposição para pneumonias de aspiração. Gastrenterologia Pediátrica. é frequente a sinostose rádio-cubital. com sinófrio (sobrancelhas unidas ao centro). além de equipa de estimulação global. comissuras labiais inclinada para baixo. O CdLS apresenta um espectro de leve ou moderado a grave. terapia da fala e fisioterapia. narinas antevertidas e filtro liso. Oftalmologia. Os doentes têm dismorfia facial característica. lábio superior fino. atraso do desenvolvimento psicomotor. Realiza investigação clínica na área da Síndrome de Cornélia de Lange 22 . Genética. Porto Internato de Especialidade em Genética Médica no Centro de Genética Médica Doutor Jacinto Magalhães. microcefalia. nistagmo. Porto.Cornelia de Lange O seguimento deve ser feito por uma equipa multidisciplinar que inclua Pediatria de Desenvolvimento. Anomalias dos membros superiores vão desde mãos pequenas até malformações graves como ausência de dedos ou da mão. Neuropediatria. Universidade do Porto Realizou o Internato Geral no Hospital Geral de Santo António. O Especialista Cristina Dias Licenciada em Medicina pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. estenose pilórica e hérnia do hiato. miopia. particularmente o refluxo gastroesofágico (RGE). São muito frequentes as alterações esofagogástricas. A Síndrome de Cornelia de Lange (CdLS) é uma patologia associada a malformações congénitas e atraso do desenvolvimento psicomotor com uma prevalência de cerca de 1:10.

Ao diagnóstico é efectuado ecocardiograma.genetests. Até 50% dos doentes com um diagnóstico clínico tem mutações no gene NIPBL (localizado no cromossoma 5. malformações do tracto urinário). assim como observação por Oftalmologia e outras especialidades médicas de acordo com os achados clínicos. Neste momento.pt www. Até 80% tem surdez e muitos doentes têm alterações do comportamento. O seguimento dos doentes com CdLS deve ser feito por uma equipa multidisciplinar em centro de referência que inclua Pediatria de Desenvolvimento.cdlsworld. Muito menos frequentes são as mutações nos genes SMC1A (localizado no cromossoma X em Xp11. ORL e Estomatologia.2) e SMC3 (10q25).1). Procuram-se outros genes responsáveis por esta síndrome e tenta-se compreender melhor como os genes envolvidos contribuem para o fenótipo. com referenciação a Gastrenterologia e Nutrição. Recomenda-se a referenciação a Consulta de Genética e Neuropediatria. Genética.cdlsusa. Para saber mais www.org www. Verificam-se alguns casos com hereditariedade ligada ao X. Estudos clínicos decorrem no sentido de conhecer melhor a história natural e a prevalência das diferentes complicações de forma a oferecer o melhor seguimento e cuidados antecipatórios a estes doentes. hemograma e RX dos membros superiores. genitourinárias (criptorquidia.uk www.5%. assim como equipa de estimulação global. na maioria dos casos esporádica. em 5p13. a não identificação de uma mutação não exclui o diagnóstico. cardiopatia congénita estrutural e alterações do sistema nervoso central. com um risco de recorrência de 1.rarissimas. vários grupos europeus (incluindo um multicêntrico dos Serviços de Genética em Portugal) e internacionais estão a estudar o CdLS em várias perspectivas. terapia da fala e fisioterapia.org 23 .org.org www.cdls. ecografia renal. Oftalmologia. avaliação auditiva. Neuropediatria. O CdLS é uma doença hereditária autossómica dominante.C estenose do ducto lacrimal). A criança deve ser prontamente referenciada para uma equipa de intervenção precoce para avaliação do desenvolvimento e início de programa de estimulação. Gastrenterologia Pediátrica. Deve ser feita uma avaliação das dificuldades alimentares e sinais/sintomas de RGE. O diagnóstico de CdLS é clínico.

hipermobilidade das articulações das extremidades. nariz pequeno e bulboso. pela primeira vez. cardiomiopatia hipertrófica e alterações do ritmo cardíaco. seguido do neuroblastoma e do carcinoma de células de transição da bexiga. seguido do neuroblastoma e do carcinoma de células de transição da bexiga. As anomalias cardíacas compreendem malformações congénitas. mas quase sempre significativo. Os aspectos cutâneos característicos consistem em cabelo esparso e encaracolado. nos anos setenta por um médico neozelandês com esse nome. A face típica resulta da combinação de cabeça grande. O Especialista Ana Berta Sousa Doutorada em Genética Especialista em Genética Médica Assistente Hospitalar no Serviço de Genética Médica do Hospital de Santa Maria 24 . mas quase sempre significativo. O atraso mental é variável. o de Aquiles em particular. e (cifo) escoliose. pele escura e redundante com pregas palmares e plantares profundas e papilomas. bochechas cheias e uma grande boca com lábios grossos e língua grande. É uma situação polimalformativa rara caracterizada por face típica.Costello A neoplasia mais frequente nestes doentes é o rabdomiossarcoma. A neoplasia mais frequente nestes doentes é o rabdomiossarcoma. atraso mental e predisposição tumoral. O atraso mental é variável. alterações cutâneas e musculo-esqueléticas. As alterações musculo-esqueléticas incluem encurtamento de tendões. anomalias cardiovasculares. A Síndrome de Costello foi descrita.

estes meninos são. apresenta uma mutação no codão 12 ou 13 de HRAS. Os problemas gastrointestinais são tão importantes que muitas crianças precisam de uma sonda nasogástrica. sociáveis e cheios de sentido de humor. é frequente haver alterações do sono e um feitio difícil. Mutações nestas posições bloqueiam a proteína na conformação activa e são responsáveis pela activação de efectores a juzante em vias de transdução de sinal responsáveis pela regulação da proliferação e diferenciação celulares. estes problemas resolvem-se até aos 6 anos de idade. foram identificadas mutações germinais no gene HRAS em doentes com o diagnóstico clínico de Síndrome de Costello. nos primeiros anos. No final de 2005. Para saber mais www. para se alimentar durante os primeiros anos de vida.C A história natural é também muito típica e consiste em polihidrâmnios. assumindo uma conformação activa (ligada ao GTP) ou inactiva (ligada ao GDP). estudados até à data. ou mesmo uma gastrostomia. As mutações foram encontradas em heterozigotia e ocorreram de novo em todos os casos em que os progenitores puderam ser estudados. Habitualmente.costellokids. Sabe-se hoje que mutações germinais em genes da via de sinalização Ras são responsáveis por uma família de Síndromes que inclui a Síndrome de Noonan. A vasta maioria dos doentes com Síndrome de Costello. a Síndrome Cardio-Facio-Cutâneo e a Síndrome de Costello. Mutações somáticas nos genes RAS são frequentes nos cancros humanos. Depois disso. regra geral. mas estes problemas costumam desaparecer com os alimentares. o que está de acordo com a ocorrência habitualmente esporádica e o baixo risco de recorrência noutros filhos do casal.news. peso elevado ao nascer. As proteínas Ras são pequenas GTPases que actuam como interruptores moleculares. Além das dificuldades alimentares.com 25 . a Síndrome de LEOPARD. simpáticos. história pós-natal de dificuldades alimentares e atraso de crescimento grave.

A identificação do gene da distrofia de Duchenne. um neurologista francês. progressivas. Esta fraqueza é variável em intensidade e distribuição. inaugurou uma nova era no conhecimento destas doenças. em tempos idos. com uma evolução diferente entre si mas que têm em comum a atrofia e a fraqueza muscular. presentes à nascença. como a Distrofia Miotónica. infiltração gorda e substituição fibrosa. pela semelhança do quadro clínico. Foi em 1868 que Duchenne. os genes. entre os diferentes tipos de distrofias e. defeitos no material biológico que transporta a informação que passa dos pais para os filhos. todas elas raras. São sempre doenças causadas por erros genéticos. Por isso não falaremos delas. segundo esta definição clínico-patológica. Algumas doenças musculares que. 26 . a que os investigadores chamaram distrofina. introduzindo pela primeira vez o conceito de distrofia muscular – a um quadro clínico de fraqueza muscular progressiva ao longo de anos correspondia uma biópsia muscular com necrose. descreveu uma doença muscular que afectava apenas rapazinhos e era fatal antes dos vinte anos. também receberam o nome de distrofia. a Distrofia Facioescapuloumeral e a Distrofia Oculofaríngea. Ao longo do Século XX foi-se estabelecendo a definição de três grandes grupos de distrofias musculares – as Distrofias Musculares Congénitas. ou seja. e a posterior identificação da proteína que esse gene codificava. não são verdadeiras distrofias musculares. defeitos no material biológico que transporta a informação que passa dos pais para os filhos. e as Distrofias de Duchenne/Becker e das Cinturas. dentro do mesmo tipo de distrofia. mas com hereditariedades e idades de início diferentes. e pouco ou mesmo não progressivas.Distrofias Musculares São sempre doenças causadas por erros genéticos. em menor grau. os genes. em 1987. Veio a verificar-se que a distrofina é apenas uma peça de um vasto conjunto de proteínas que se articulam entre si e constituem um esqueleto fundamental da célula muscular. ou seja. As Distrofias Musculares são um grupo de mais de 60 doenças.

em que o defeito vem dos dois progenitores. Hospital Maria Pia. A alteração no gene leva à deficiência ou mesmo à ausência de certas proteínas fundamentais para o correcto funcionamento das células musculares que vão progressivamente sendo destruídas e substituídas por células de gordura e tecido fibroso cicatricial. – distrofias de hereditariedade ligada ao sexo em que a mãe é portadora sem doença e transmite o defeito aos filhos rapazes (quase exclusivamente). que manifestam a doença. este manifesta a doença. em que o erro é herdado só de um dos progenitores (que também é doente) e provoca doença no filho ou filha. Centro Hospitalar do Por to 27 . Em fases precoces da doença. quando o erro herdado dos dois se encontra em dose dupla (homozigotia) num filho ou filha. os músculos podem parecer aumentados de volume e com uma consistência de borracha muito característica (a chamada pseudo hipertrofia) mas com o progredir da destruição muscular vai instalar-se O Especialista Manuela Santos Neuropediatra Coordenadora da Consulta de Doenças Neuromusculares. – distrofias autossómicas dominantes.D Há formas diferentes de transmissão destes problemas: – distrofias autossómicas recessivas. que são portadores de um erro mas não são doentes.

Outros têm um desenvolvimento mais lento mas vão sempre melhorando. os músculos que sustentam o pescoço ou toda a coluna. ao contrário de outras distrofias musculares que aparecem mais tarde. como por exemplo. A criança não tem o desenvolvimento motor esperado. Destacamos os principais grupos de distrofias musculares de acordo com o grupo etário em que aparecem os primeiros sintomas: – Distrofias musculares congénitas Neste tipo de doenças existem sinais ou sintomas. tais como poucos movimentos fetais durante a gravidez ou um aumento do liquido amniótico. os pais notem que a criança é “um pouco mais lenta” do 28 . Alguns doentes têm uma grave incapacidade e nunca chegam a conseguir andar. habitualmente. na idade habitual. não sustenta a cabeça. ou não se coloca de pé. Algumas destas distrofias congénitas associam-se a doença do sistema nervoso central. os grupos musculares que atinge e a velocidade com que progride. limitação da mobilização das articulações ou pode ter dificuldades em respirar ou em mamar ou em engolir os alimentos. Quando nasce. a criança desenvolve-se dentro dos parâmetros normais. Aliás. em regra. Apesar de. doenças autosómicas recessivas. se falar da fraqueza dos membros (inferiores e superiores). e são vários os defeitos genéticos já conhecidos que podem causar estas doenças. isto é. esta doença não é progressiva. com substituição do músculo por cordões fibrosos que provocam retracções e imobilizações articulares. alguns até mesmo na vida intra-uterina. o bebé é hipotónico. – Distrofias de início na infância Nestas formas de apresentação na infância. ou mesmo a sustentar a cabeça Alguns têm. Nos casos mais graves pode também haver envolvimento do músculo cardíaco e dos músculos respiratórios. incluindo os músculos da face ou os músculos da deglutição. compromisso ventilatório. duma forma geral. Contudo.uma atrofia marcada. não se senta. Por vezes. é após o nascimento que os pais ou o médico se preocupam. A sintomatologia das distrofias musculares é dominada pelas consequências da destruição dos músculos esqueléticos que varia muito consoante a idade em se instala. havendo um défice cognitivo. isto é “molinho”. mesmo. “mexe-se pouco”. que surgem muito precocemente. apresenta artrogripose. todos os músculos podem estar envolvidos. Nalguns casos os sintomas só são notados ao longo do primeiro ano de vida. São. em regra.

a alteração do gene surge espontaneamente. mas vai conseguindo progredir no seu desenvolvimento. sobretudo se estiverem em assentos baixos e de dificuldade de subir escadas e quando os braços começam a fraquejar. – Distrofias de início na adolescência e idade adulta Quando a distrofia muscular surge na adolescência ou idade adulta os sintomas são dominados pela perda de força. não conseguem pentear-se ou tirar objectos de armários altos. uma análise que está alterada nas doenças do fígado. Alguns destes doentes têm associado um atraso mental que se manifesta na primeira década com dificuldade na aprendizagem. Pelos 8 a 12 anos a criança deixa de conseguir andar. Em determinada idade. O envolvimento da musculatura cardíaca e da musculatura respiratória surgem ao longo da segunda década de vida. A escoliose é um dos problemas que necessita de atenção no final da primeira e no início da segunda décadas de vida. a criança tem um desenvolvimento normal e pelos 2-3 anos começa a ser notada uma dificuldade em subir escadas. os músculos mais atingidos são os músculos proximais: os doentes queixam-se de dificuldade de se levantar da posição de sentados. em regra. primeiro nos membros inferiores e depois nos membros superiores. Em cerca de metade dos casos. envolvendo de forma variável toda a musculatura. A distrofia muscular com maior prevalência nesta faixa etária é a distrofia de Duchenne. Considera-se que esta doença ocorre num em cada 3500 nascimentos do sexo masculino. – Distrofia de Duchenne A distrofia de Duchenne tem uma hereditariedade ligada ao X. Com o progredir da doença o doente deixa de poder andar e de me29 . Mais tarde a fraqueza é notada também a nível dos membros superiores. Esta regressão é devida a uma fraqueza muscular que surge. Nalgumas crianças é o facto da marcha surgir só aos 18-19 meses e ser uma marcha com baloiço (a chamada marcha de “pato”) que alerta os pais para a existência de um problema. mas que está igualmente elevada nas doenças musculares. Na maioria dos casos. uma incapacidade em correr e quedas frequentes. Ao longo de toda a evolução surgem frequentemente problemas nutricionais quer de obesidade quer de emagrecimento. sendo o primeiro caso da família. Noutros casos a descoberta é acidental por serem detectadas aumentos de transaminases. Na maior parte dos casos. a criança deixa de fazer progresso e começa a regredir do ponto de vista motor. que varia conforme o tipo de distrofia. inicialmente. nos membros inferiores e que depois vai progredindo.D que os outros meninos.

Se mostrar podemos prosseguir para o estudo genético. Nalgumas destas doenças o coração também é afectado. pelo menos nesse momento. outras com defeitos genético ainda por identificar. o exame de diagnóstico fundamental é a biopsia de músculo. em regra. ao doente e à família e a ligação à escola e à formação profissional são outros aspectos 30 . já conseguimos chegar a um diagnóstico genético em mais de 75% dos casos. é necessário efectuar este estudo no músculo. Em casos particulares. no sangue. o médico pode dispensar a biopsia e pedir directamente um estudo genético numa amostra de sangue. Actualmente. melhorar a postura e a funcionalidade. nem a clínica derem qualquer pista. adaptar as ajudas técnicas às várias fases da doença. porque para além de confirmar o diagnóstico clínico é fundamental para orientar o diagnóstico genético.xer as mãos e músculos tão importante como os músculos respiratórios podem também começar a falhar. tratar a insuficiência cardíaca e respiratória são alguns dos aspectos importantes. noutras não. permitindo pelo menos estabelecer um prognóstico e oferecer aconselhamento genético à família. não é possível prosseguir os estudos genéticos e o doente ficará sem um diagnóstico preciso. A análise da biopsia pode ou não mostrar qual a proteína que está deficiente. São doenças sem tratamento curativo. Evitar as retracções. o que não quer dizer que não seja importante fazer muita coisa para melhorar as condições de vida dos doentes e prolongar a sua sobrevida. impedir a desnutrição ou o excesso de peso. uma distrofinopatia com hereditariedade ligada ao cromossoma X e erro genético localizado no mesmo gene da distrofia de Duchenne mas com início mais tardio e menor gravidade clínica e inúmeras doenças incluídas no grupo das Distrofias das Cinturas. O apoio psicológico e social. algumas. com defeito genético já conhecido. Se nem a biopsia. Neste grupo de doenças com início nestas faixas etárias inclui-se a distrofia de Becker. como em distrofias com história familiar em que o erro genético está já bem caracterizado. poucas. obrigando à utilização de máquinas para apoio da respiração. O estudo genético efectua-se. Quando a observação clínica levanta a hipótese de se tratar de uma distrofia muscular. e muitas outras com hereditariedade autossómica recessiva. com hereditariedade autossómica dominante. Por vezes. Por vezes são necessários alguns anos até que seja descoberto qual o defeito genético que causou a doença. prevenir as infecções respiratórias. corrigir cirurgicamente a escoliose.

Actualmente.eu/home.eu/home. Neurologista e Coordenadora da Consulta de Doenças Neuromusculares do Hospital de Santo António. conjugando a intervenção de várias valências clínicas e sociais. O seguimento dos doentes deve ser multidisciplinar. Ortopedia. de forma a desenvolver uma melhoria no diagnóstico. Com a colaboração da Drª Teresa Coelho. Esta rede permitirá que. Centro Hospitalar do Porto Para saber mais www. a resposta ao tratamento é variável e pode ser necessário suspender a medicação devido aos efeitos secundários. Uma equipa de Neurologia.php 31 .php. os doentes devem ser encaminhados para os Serviços de Neuropediatria e Neurologia que dispõem de Consultas de Doenças de Doenças Neuromusculares. para doentes neuromusculares e profissionais clínicos ou investigadores. assim que exista uma terapêutica nova. foi criada uma rede TREAT NMD. Cardiologia. Pneumologia/Ventilação.pt www.apn. seja imediatamente localizado nessa grande base de registos e seleccionado para rapidamente iniciar o tratamento. A corticoterapia tem sido usada em várias distrofias. Nutrição. Os esquemas são variáveis podendo ser usados diariamente ou de forma descontinuada. Medicina Física.treat-nmd. a nível da Comunidade Europeia. Em muitos casos.D que não podem ser descuidados. o doente com um determinado defeito genético específico. Na Distrofia de Duchenne. Psiquiatria e Serviço Social constitui a equipa básica de seguimento e apoio destes doentes. alguns deles já em fase de utilização em ensaio clínico no homem. a corticoterapia é usada em quase todos os casos. Os objectivos são os de melhorar a capacidade física da criança e retardar a perda da marcha.treat-nmd. cuidados e no tratamento destes doentes cujo sítio pode ser visitado em www. passível dum tratamento. procuram-se terapêuticas que resultem em determinados tipos de defeitos genéticos. mas também para seguimento. Contudo. Para diagnóstico. A comunidade científica está a desenvolver estratégias novas de tratamento.

EPE Presidente da Sociedade Por tuguesa de Hematologia 32 . EPE Directora do Depar tamento de Hematologia do CHC. em geral. Medical College of Georgia (MCG) Directora do Serviço de Hematologia do CHC. tem edema dos pés e das mãos e uma anemia hemolítica com células falciformes (drepanócitos) no esfregaço de sangue periférico. do Centro Hospitalar de Coimbra (CHC) “Research Fellow” no Department of Biochemistry and Molecular Biology. em geral. A Drepanocitose (anemia de células falciformes) é uma anemia hemolítica hereditária que cursa com vaso-oclusão dos capilares. sistema nervoso central e genital (priapismo) e traduzem lesões multiorgânicas.Drepanocitose O diagnóstico é. num lactente que chora. renal. tem edema dos pés e das mãos e uma anemia hemolítica com células falciformes O Especialista Maria Letícia de Sousa Ribeiro Licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra Graduação em Consultor de Hematologia Clínica Especialista de Hematologia no CHC Responsável pela Unidade de Hematologia Molecular – Anemias Congénitas. provocando lesões isquémicas acompanhadas de dores muito violentas. As manifestações são predominantemente a nível ósseo. está irritado. no 1º ano de vida. está irritado. esplénico. pulmonar. num lactente que chora. no 1º ano de vida. O diagnóstico é.

SD. ou por electroforese Hbs. anti-pneumococos. devem ser feitas transfusões permuta. o diagnóstico pré-natal. se indicado. O tratamento com Hidroxiureia reduz o número e a gravidade dos fenómenos vaso-oclusivos.pt www. onde se detecta Hb S e Hb F e Hb A2 em pequenas quantidades.enerca. Os casos mais graves podem beneficiar de transplante de progenitores hematopoiéticos. O cônjuge deve fazer um hemograma e um estudo de Hbs. A Hemoglobina (Hb) S é frequente nos Africanos. A severidade clínica é heterogénea. Devido às múltiplas complicações.chc-hematologia. a febre. na maioria delas.D (drepanócitos) no esfregaço de sangue periférico.org . lesam o endotélio vascular e provocam obstrução dos capilares. de imediato. Nos episódios dolorosos deve ser instituída. em cada gestação. O calendário vacinal deve incluir a vacina anti-hemófilos. dependendo de factores genéticos e socio-económicos. A este casal deve ser oferecido o aconselhamento genético e. a desidratação e as mudanças bruscas de temperatura.scinfo. que deve ser feita até aos 5 anos de idade. que polimeriza. Quando é detectada uma HbS deve ser feita a identificação de outros portadores na família. A Drepanocitose é devida à presença de uma Hb anormal – Hb S. Os principais factores desencadeantes dos fenómenos de vaso-oclusão são as infecções. mas também existe nos Portugueses caucasianos. 33 Para saber mais www. 25% de probabilidade de ter um filho com Drepanocitose. Um casal em que ambos os elementos são AS. ou um é AS e o outro tem outra variante de Hb ou β-Tal. A maioria dos doentes com Drepanocitose tem homozigotia para a Hb S (SS). O diagnóstico precoce é importante para iniciar a prevenção das infecções. uma analgesia eficaz e administrados líquidos em abundância. O diagnóstico é feito por um estudo de Hbs (HPLC). mas também podem ser SC. os doentes com Drepanocitose devem ser tratados em Centros especializados. em idade de ter filhos. O teste de solubilidade confirma o diagnóstico. anti-meningococos e anti-hepatite A e B. Os portadores de Hb S (AS) não têm a doença e têm parâmetros hematológicos normais. SO-Arab ou S/β-talassemia.org www. A transfusão de eritrócitos tem indicações muito estritas e. Os doentes devem ser bem informados para evitar estas situações. tendo em atenção que estes doentes desenvolvem hipoesplenismo por fibrose do baço. Todos os doentes devem tomar ácido fólico. tem. quando há baixa tensão de O2.org www.orphanet. com equipas multidisciplinares. As infecções devem ser prontamente tratadas. deforma os eritrócitos que ficam rígidos.

A Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) é o nome dado a um grupo de anomalias herdadas através de mutações genéticas que interferem com a produção de colagénio. existem meios complementares de diagnóstico tais como testes genéticos. uma proteína fibrosa que confere resistência e elasticidade ao tecido conjuntivo – pele. tais como hipermobilidade articular e fragilidade e laxidão cutânea. tendões. exercendo funções de Chefe de Serviço Assistente Convidado de Clínica Pediátrica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa 34 .Ehlers-Danlos Além da história clínica e do exame físico. A maioria dos doentes tem uma vida relativamente normal. a pele. dedicado à área de Imuno-Hematologia Assistente Hospitalar Graduado do Hospital Dona Estefânia. Ou- O Especialista António Manuel Bessa de Almeida Licenciado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa Especialista de Pediatria Médica. a maioria. cartilagem e paredes de órgãos e vasos sanguíneos. ligamentos. biopsia de pele e ecocardiograma. É uma situação rara ocorrendo em 6 subtipos principais. Todos afectam as articulações e. Os sintomas mais frequentes reflectem a fragilidade do tecido conjuntivo. A inteligência não é afectada. embora com algumas restrições à actividade física.

atraso do desenvolvimento motor. tendo como consequência principal a artrose precoce. esta condição deve ser comunicada à equipa médica.blogspot. Afecta 1 em 250000 pessoas. Além da história clínica e do exame físico. Deve ser procurado aconselhamento genético no caso de se desejar ter filhos.org . para esclarecimento dos padrões de transmissão e dos riscos inerentes. A forma vascular (ex-tipo IV) é especialmente grave.mayoclinic. em casos graves. 35 Para saber mais http://sindromedeehlersdanlos. embora com algumas restrições à actividade física. O tratamento assenta no alívio dos sintomas e na prevenção de complicações. A analgesia é basilar. existem meios complementares de diagnóstico tais como testes genéticos. Encarar a doença implica um auto-conhecimento da patologia.com http://apeslfb. A forma clássica (ex-tipos I e II) atinge 1 em 20000-40000 pessoas. anomalias das válvulas cardíacas e ruptura espontânea de artérias. A inteligência não é afectada.E tros são hérnias. A maioria dos doentes tem uma vida relativamente normal.wordpress. As crianças com esta doença devem ser tratadas de forma tão normal quanto possível e as rotinas devem ser adequadas para reduzir os riscos de lesão. ou seja. A forma de hipermobilidade (ex-tipo III) é a mais frequente (1 em 10000-15000 pessoas) com predomínio de manifestações articulares. Não existe tratamento curativo para a doença. afecta também significativamente a pele e é causadora de hérnias e envelhecimento precoce da pele. fraqueza/hipotonia muscular. A gravidez conduz a um risco de parto prematuro e. escoriações frequentes e de difícil cicatrização.com/health/ehlers-danlos -syndrome/DS00706 www. sendo a forma mais frequente a autossómica dominante. sendo causa frequente de doença grave ou morte (esperança média de vida 48 anos). Além das manifestações articulares. A sua gravidade prende-se com a ruptura de vasos sanguíneos e órgãos ocos.com/sindrome -de-ehlers-danlos www. aneurismas ou órgãos ocos. biopsia de pele e ecocardiograma. na partilha de experiência e em redes de suporte. Em alguns casos é desaconselhada. A transmissão é genética.ehlers-danlos. um doente tem 50% de hipóteses de transmitir a doença à descendência. A fisioterapia de fortalecimento dos músculos periarticulares tem um papel importante. assim como a protecção de modo a evitar luxações ou feridas. luxações. hemorragia e ruptura. Em caso de cirurgia.

ICORD (III and IV WG) e a Pastoral da Saúde (Setúbal) 36 . Corresponde a uma doença autossómica dominante com uma incidência de 1 em 8000-23000 nados-vivos. Clinicamente. mácu- O Especialista Coordenação Técnica de Ana Campos Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde.3. esta patologia é também conhecida como o complexo da esclerose tuberosa. por Voigt. Face à variabilidade de achados clínicos e à evidência de uma causa genética heterogénea. fibromas ungueais. em 1908. a esclerose tuberosa pode manifestar-se por crises convulsivas. Em 1880. podendo estar envolvidos os genes nos cromossomas 9q34 e 16p13.Esclerose Tuberosa As complicações mais preocupantes são aquelas que afectam o sistema nervoso central. angiofibromas faciais. sendo actualmente coordenadora de projectos entre DGS-Raríssimas. pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas. no âmbito de serviços de informação sobre doenças raras e medicamentos órfãos Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA. Bourneville atribuiu pela primeira vez o nome de Esclerose Tuberosa a uma associação de características descritas mais tarde. nomeadamente as crises convulsivas (88-93%). o atraso mental (60-80%) e as calcificações intracraneanas (56%).

E las hipopigmentadas e tumores do coração. implicando uma vigilância periódica. em casos refractários. um aumento de perímetro cefálico e sintomatologia compatível com hipertensão intracraneana. regridem com o tempo. que devem ser diagnosticadas adequadamente. é importante investigar os pais destas crianças a fim de se poder realizar o aconselhamento genético adequado. 37 Para saber mais www. A epilepsia requer o apoio da neuropediatria e. As complicações mais preocupantes são aquelas que afectam o sistema nervoso central. A possível ocorrência de doença pulmonar quística nos adultos justifica a realização regular de radiografias do tórax.tsalliance. em outras doenças. Estes doentes têm 50% de risco de transmitir a doença aos seus filhos. Alguns doentes têm tumores da retina. e como alguns portadores são assintomáticos. também. o atraso mental (60-80%) e as calcificações intracraneanas (56%). Como em muitas outras situações estas características ocorrem. Os tumores cerebrais ocorrem em 6-14% desta população de doentes.org . mas a mortalidade é alta quando sintomáticos. algumas das características descritas não se manifestam durante a infância e. Os ossos dos dedos e menos frequentemente os ossos longos podem ter alterações quísticas assintomáticas. dos rins e do sistema nervoso central (cérebro e retina). Quando diagnosticada no período neo-natal. particularmente da terapia da fala. particularmente a hiperactividade (28%). em 20% dos doentes antes dos 3 meses de vida. é fundamental excluir um tumor cerebral. de tratamento cirúrgico. A doença pulmonar quística predomina nas mulheres e causa sintomas após a 3ª década de vida. A avaliação ecográfica dos rins deve ser realizada aquando do diagnóstico com reavaliações periódicas. As medidas preventivas visam a avaliação precoce dos vários sistemas afectados por esta doença. Sempre que se constatarem alterações do comportamento. deve-se recorrer à ecocardiografia e à imagiologia cerebral a fim de determinar a presença/ausência de tumores. Estes tumores afectam o músculo cardíaco e. O atraso mental implica uma abordagem multidisciplinar. a agressividade (25%) e a auto-mutilação (29%). Sendo uma doença autossómica dominante. Apesar do conjunto de critérios da esclerose tuberosa estar bem definido. As crises mais frequentes são as tónico-clonicas (41%) e os espasmos infantis (30%). o diagnóstico nesta fase poderá ser apenas provável ou suspeito. os comportamentos repetitivos (25%). em muitos casos. sendo os tumores cardíacos mais frequentes (30-67%). a fisioterapia e a terapia ocupacional. Os problemas endócrinos são raros. o relacionamento social pobre (43%). nomeadamente as crises convulsivas (88-93%). As alterações do comportamento são frequentes. mas é raro o défice visual. As convulsões iniciam-se precocemente. como tal. em 46% entre os 3-7 meses e em apenas 4% depois dos 5 anos de idade.

inicialmente. Esta acumulação é muito semelhante ao processo de aterosclerose que acontece em indivíduos sem DF numa idade mais avançada. que se manifesta com sintomas cardíacos apresentando hipertrofia ventricular esquerda. a acumulação de GL3 nos tecidos vai progredindo ao longo da vida dos doentes e. O defeito enzimático conduz a uma acumulação do substrato (GL3) não degradado nos tecidos e no plasma. entendidos como variantes da doença. Têm também sido descritos casos. Estima-se que a incidência desta doença seja de 1 caso em 40 mil nados-vivos. ligada ao cromossoma X. incluindo dores nas extremidades e sinais dermatológicos (angioqueratomas). intolerância às variações térmicas. a doença afecta de modo mais grave o homem (o homem tem apenas um cromossoma X e por isso a doença manifesta-se mais precocemente). A DF pertence ao grupo das Doenças Lisossomais de Sobrecarga DLS.Fabry Os sintomas iniciam-se na infância. exercício físico. anidrose. mais tardiamente. Paralelamente. desenvolve-se uma doença de sobrecarga multi-visceral. um AVC num jovem. A idade de início dos sintomas é muito variável e tanto podem surgir na infância ou na adolescência como. Na sua forma clássica. Nestes. sintomas de hipoacúsia (diminuição da audição) e alterações renais que. por episódios febris e manifestações neurológicas: acroparestesias nos membros. é uma patologia genética de transmissão recessiva. pode constituir a apresentação inaugural da DF. envolvendo uma alteração genética que leva ao défice de uma enzima lisossomal (alfa-galactosidase A) fundamental para o metabolismo dos glucoesfingolipídios. os sinais clínicos da doença começam a despontar durante a infância. é portadora da DF e geralmente. como a doença é recessiva. A mulher tem 2 cromossomas X e. e hipotensão. só doença cardíaca ou renal. apresenta uma forma menos grave. A Doença de Fabry (DF). por exemplo. podem restringir-se à proteinúria mas evoluem posteriormente para insuficiência renal. na segunda ou terceira décadas de vida. sintomas neurológicos que se manifestam por acidente vascular cerebral (AVC). De toda a maneira. 38 . em que o doente revela apenas uma das características sintomáticas.

alterações das válvulas cardíacas e da circulação. situando-se preferencialmente à volta do umbigo e nas nádegas. Port. Na terceira e quarta década.F Os sinais precoces de DF incluem crises de dor aguda intensa nas extremidades com sensação de queimadura (acroparestesia) e/ou crises de dor mais generalizadas. Surgem também problemas renais. de Med. Pode também ocorrer uma diminuição da transpiração (hipohidrose) ou. posteriormente. Inicialmente. desenvolve insuficiência renal crónica. que ocorrem sob a forma de opacidade da córnea e cataratas. que são a principal causa de morte em indivíduos jovens. São muitas vezes catalogadas como “dores de crescimento”. As lesões cutâneas apresentam a forma de pequenas pápulas de cor vermelha escura ou negra. a evolução da doença leva ao aparecimento de problemas cardíacos decorrentes da insuficiência do ventrículo esquerdo. crises essas que duram alguns minutos até alguns dias e que se vão tornando mais espaçadas à medida que o doente avança na idade adulta. musculares ou abdominais. o doente pode ter proteinúria (albumina na urina) e ser assintomático mas. Ao nível do O Especialista Luís Brito Avô Licenciatura em Medicina Assistente Hospitalar Graduado de Medicina Interna do Hospital de St Maria (HSM) Especialista em Medicina Interna Chefe de Unidade Assistencial e de Equipa de Serviço de Urgência do HSM Tutor da Faculdade de Medicina de Lisboa Membro da International Society of Internal Medicine Membro da European Federation of Internal Medicine Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna Coordenador do Núcleo de Estudos de Doenças Raras da Soc. Interna Membro do Conselho Científico da Associação Raríssimas Membro do Conselho Científico da Associação de Doenças Lisosomais 39 . dores das articulações. por vezes acompanhadas de febre. em casos mais excepcionais. com pele mais espessa. São também frequentes os problemas oculares. o doente simplesmente não transpira (anidrose).

envolve vários órgãos e sistemas e condiciona uma redução importante tanto da qualidade de vida como da esperança de vida das pessoas afectadas. cirurgia valvular cardíaca e diálise ou transplante renal. ficando provavelmente a dever-se a uma inactivação incompleta do cromossoma X que apresenta a mutação. Na mulher. Esta situação decorre. além de ureia e creatinina plasmáticas elevadas. são extremamente raros. não estará entre as primeiras hipóteses diagnósticas colocadas. o sintoma inicial tardio da presença da DF se materializa numa cardiomiopatia ou num enfarte do miocárdio. Estas variantes apresentam uma actividade residual da alfa Galactosidase A. evitar a ocorrência de lesões irreversíveis As medidas de suporte incluem terapêutica da Dor. as variantes apresentam uma sintomatologia muito reduzida. Até dentro do grupo das LSD pode existir dificuldade em diagnosticar a DF porque existem outras patologias que igualmente se associam a opacidade da córnea. É difícil diagnosticar DF num estado febril recorrente associado a dores nas mãos e nos pés. a doença é progressiva. 40 . dado que pode ser encarado como reumatismo articular. contrariamente ao observável nas pessoas com DF típica. 70% apresentam opacidades da córnea e 30% apresentam angioqueratomas: No entanto os quadros clínicos mais graves. a principal consequência é o AVC. devido às quais. como se trata de uma doença rara. O diagnóstico no homem faz-se verificando o défice de alfa Galactosidase A através de uma análise de sangue enquanto o estudo da sobrecarga de GL3. a avaliação da actividade da alfa Galactosidase A revela-se por vezes insuficiente. tonturas. Desde 2001. A questão do diagnóstico diferencial surge quando o quadro sintomático se apresenta incompleto e. O diagnóstico precoce é fundamental para permitir uma instituição precoce da terapêutica e. assim. Na mulher. ainda. dores de cabeça e alterações de comportamento. com tromboses. pelo facto destes doentes terem geralmente hipertensão.sistema nervoso. pelo que é importante fazer o estudo da mutação genética. na urina e no sangue é mais interessante para o estudo das variantes da DF com actividade enzimática residual. sendo as mais conhecidas as variantes cardíacas. Os angioqueratomas também podem surgir noutras patologias. Sem terapêutica. A terapia genética é uma outra opção para ser ponderada no futuro. que apresentam problemas renais e cardíacos. Existem variantes atípicas no homem. existe terapêutica específica para a DF que consiste na substituição da enzima deficiente (terapêutica de Substituição Enzimática) com proteína recombinante.

net www.gov/disorders/fabrys www.rarediseases. Para saber mais www. que funciona no Centro de Genética Médica Dr.ninds.nih.org www.aplisosoma.focusonfabry.rarissimas.fabrycommunity.F A entidade oficial responsável pela confirmação do diagnóstico e pelo seguimento das pessoas afectadas pela DF é o Centro Nacional Coordenador para o Diagnóstico e o Tratamento das Doenças Lisossomais de Sobrecarga.pt www.org www. Ricardo Jorge.com www.aspx 41 .com/patients. Jacinto de Magalhães. um dos pólos do Instituto Nacional de Saúde Dr.orpha.org www. Já foram identificadas cerca de 200 mutações no gene GLA do cromossoma X (Xq22).eurordis. O estudo da família da pessoa com DF é da maior importância tanto para o diagnóstico de outros membros afectados como para o aconselhamento genético (nas famílias já estudadas é possível fazer diagnóstico pré-natal).

por a anomalia genética provocar alterações no funcionamento das trocas de água e de sal nas células destas glândulas. resultando um muco com menos água do que o normal. actualmente com 102 doentes em seguimento regular. era um deficiente transporte de cloreto e água. para uma criança nascida nos anos 90. no início dos anos 80. A Fibrose Quística (FQ) é a doença genética e hereditária mais frequente na raça caucasiana.a nível do pulmão. raramente os doentes atingiam a idade adulta. 1:14000 na raça negra e 1:25500 na amarela. Dos estudos Europeus. fígado.000 com a doença. pâncreas. Em 1946. No Centro de Fibrose Quística do Hospital de Santa Maria. normalmente. realizados em diferentes países apontam para incidências muito variáveis entre Países e raças. brônquios. Estudos populacionais alargados. Actualmente. Em 1987/1989 foi localizado e isolado o gene responsável pela doença.000 com a doença. cerca de 45% são adultos. a nível das células epiteliais. enquanto que nos EUA é de 1:3500 nos caucasianos. das glândulas 42 . Estas secreções vão provocar fenómenos de obstrução a vários níveis do organismo produzindo as diferentes manifestações da doença. produzem secreções que fluem facilmente pelos canais das glândulas até ao exterior. a doença como “cystic fibrosis of the pancreas”. foi estabelecido que a principal anomalia subjacente à FQ. Normalmente é diagnosticada nos primeiros anos de vida através da prova de suor e estudo genético. mais viscosas. Estima-se que a nível mundial existam 7 milhões de pessoas portadoras da anomalia genética da fibrose quística e cerca de 65. a incidência oscila entre 1:2000 a 1:15000 recém-nascidos. intestinais. Na FQ estas secreções são francamente mais espessas. calcula-se uma sobrevida média predictível de 40 anos. Dorothy Anderson descreveu. A doença caracteriza-se pela disfunção das glândulas de secreção externa dos orgãos onde o gene tem maior expressão: glândulas sudoríperas. do pâncreas. Normalmente. Na década de 60. Estas glândulas. é diagnosticada nos primeiros anos de vida através da prova de suor e estudo genético.Fibrose Quística Estima-se que a nível mundial existam 7 milhões de pessoas portadoras da anomalia genética da fibrose quística e cerca de 65. pela primeira vez. definiu-se o carácter genético da doença e. Em 1938. órgãos reprodutores etc.

dificuldade respiratória. provocam défice dos enzimas pancreáticos em 80-95% dos doentes. gordurosas. O pulmão que. são a manifestação clínica do défice enzimático. parece normal vai ser cronicamente infectado por patogénios particulares da FQ. Com base nesta observação foi desenvolvida a principal prova diagnóstica – a prova de suor. surge a chamada azoospermia obstrutiva. Com a idade há uma diminuição da produção de insulina pelo pâncreas e aparecimento de diabetes relacionada com a FQ. das gorduras é. de cheiro fétido. devido à presença de muco cervical espesso. As investigações no campo da genética permitiram em 1985 localizar no cromossoma 7 o gene responsável pela FQ e. sobretudo. causa da esterilidade masculina em 97-98% dos doentes. Os sintomas gastrointestinais de diarreia de fezes abundantes. expectoração espessa. No sexo feminino a fertilidade está diminuída. pelo que o suor é mais salgado. O doente apresenta sintomas mais ou menos persistentes ou graves como tosse persistente. sem dúvida. em O Especialista Maria Celeste Canha Coelho Barreto Licenciada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Assistente Hospitalar de Pediatria Médica na Clínica Pediátrica Universitária do Hospital Santa Maria (HSM) Chefe de Serviço de Pediatria Médica Pós-graduação em Gestão de Serviços de Saúde no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Responsável pela Consulta Especializada Pediátrica de FQ do HSM Coordenadora do Centro Especializado de Fibrose Quística Sócia fundadora da Associação Por tuguesa de Fibrose Quística (APFQ) Consultora Científica e sócia fundadora da Associação Nacional de Fibrose Quística (ANFQ) 43 . A má absorção. ao nascer. A nível das glândulas sudoríparas produz-se suor com concentração de sódio e cloreto elevada.F sudoríparas e do aparelho reprodutor. No sexo masculino. Os períodos de agudização pulmonar são caracterizados por agravamento destes sintomas e/ou aparecimento de outros. o factor major da má nutrição na FQ. As alterações pancreáticas.

Não existindo cura. para o aumento da sobrevida. No gene FQ podem ocorrer centenas de mutações diferentes. tem sido fulcral para o prognóstico. Como cada progenitor transmite um dos seus dois genes ao filho. A doença transmite-se de modo recessivo. a primeira doente com FQ. os resultados têm vindo a ser progressivamente melhores. tendo sido identificadas mais de 1600 mutações. A avaliação clínica é contudo fundamental para o diagnóstico da FQ. 1:50 e 1:200 respectivamente para irmão. muitos destes doentes progridem para insuficiência respiratória global. No entanto. Os pais. a 44 . sendo designados por portadores de FQ (heterozigotia). O transplante pulmonar constitui uma alternativa terapêutica válida para o estádio terminal desta doença. Segue-se normalmente a procura de mutações nos dois genes FQ do doente. Em Portugal.1989. são de 1:4. 25% de herdar 2 genes FQ e. a intervenção terapêutica tem uma tripla finalidade: controlar as manifestações pulmonares. 50% de herdar 1 gene normal e 1 gene FQ. que funciona como canal de cloreto na membrana apical das células epiteliais dos órgãos om expressão do gene. capazes de provocar a doença. com a finalidade de mobilizar e drenar as secreções brônquicas. existe também já uma série de metodologias laboratoriais resultantes da investigação nesta doença que dão contributos importantes para um diagnóstico mais fundamentado da FQ. Apesar de terapêutica médica optimizada. Este risco aumentado obriga a aconselhamento genético. As probabilidades de estado de homozigoto (com os dois genes anormais) em famílias de risco. este pode herdar uma das três combinações possíveis. designada por Cystic Fibrosis Transmembrane Conductance Regulator (CFTR). Apesar dos avanços terapêuticos registados nas últimas duas décadas. para que um indivíduo manifeste a doença é necessário herdar duas cópias do gene FQ. O gene codifica a síntese de uma proteína. através da análise do respectivo DNA obtido a partir de sangue periférico. um de cada progenitor. vir a desenvolver a doença. A terapêutica antibiótica na FQ. a mutação mais frequente é a chamada F508del. isto é. foi transplantada com sucesso. obriga terapêutica de substituição com as enzimas pancreáticas e dieta hipercalórica. que não têm qualquer sintoma. São necessários esquemas de terapêutica agressivos para controlo da destruição pulmonar progressiva. com as seguintes probabilidades: 25% de herdar 2 genes normais. Mercê dos avanços registados nas duas últimas décadas. identificá-lo. portanto. Hoje em dia. promover uma nutrição adequada e permitir uma vida tão normal quanto possível. contribuindo sem dúvida. no ano de 2004. meio-irmão e primo em primeiro grau. A cinesioterapia respiratória é realizada por regra duas vezes por dia. A correlação entre uma boa nutrição e um melhor prognóstico. têm sempre um gene FQ normal e outro anormal.

F FQ continua a representar uma limitação da sobrevida.ª Margarida Amaral) tem proporcionado enquadramento internacional para o trabalho desenvolvido.eu www. do Instituto Nacional de Saúde Dr.fc. tem realizado projectos científicos com abordagens multidisciplinares e integradas no sentido duma melhor compreensão dos mecanismos moleculares e celulares da FQ. tem sido a grande determinante para a maior sobrevida e melhor qualidade de vida. Para saber mais www. que sofrem de doenças raras. em Centros de Fibrose Quística Pediátricos e de Adultos.anfq.be 45 . que está em curso.dqb.pt/docentes/mdbotelho/ Research. permitindo planear e melhorar os cuidados a prestar a cada um dos doentes.ul. embora com esperanças médias de vida sucessivamente prolongadas.pt www. por equipa multidisciplinar. como é o caso da Fibrose Quística (FQ).org www. é um dos maiores desafios actuais aos sistemas de saúde. constituição de família e descendência. a investigação está dirigida para as terapêuticas cujo alvo é o defeito na CFTR. coordenada pela Prof. O Registo Europeu de Fibrose Quística. da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.htm www. melhoria franca da qualidade de vida e de novas potencialidades nestes doentes: educação universitária. Ricardo Jorge Universidade de Lisboa. emprego. A actual equipa de investigação. facilitando a troca e o acesso à informação em áreas relacionadas com a FQ. Está sobejamente demonstrado que o seguimento destes doentes.ecfs.cff.cfnetwork. A promoção e a protecção da saúde dos doentes.ª Margarida Amaral. possibilitará conhecer melhor os doentes com Fibrose Quística (FQ) em cada país da Europa. A Rede Temática Europeia sobre FQ no âmbito do 5º Programa-Quadro (5PQ) da União Europeia (proposta e em parte liderada pela Prof. nomeadamente com fármacos que possam substituir a função deficitária desta proteína e a terapêutica genica. Actualmente.

Observadas ao microscópio. no fígado e no osso causa sintomas de gravidade variável que podem surgir em qualquer altura.descreveu pela primeira vez esta doença.Gaucher A acumulação de glucocerebrosido no baço. A DG é autossómica recessiva – para que uma pessoa seja afectada. a incidência da DG é de 1 caso em cada 100 000 habitantes mas é muito mais frequente (1 para 450) nos Judeus Ashkenazi (originários da Europa Central e do Leste). o que acabará por condicionar a normal actividade celular. o médico francês que. as células com os lisossomas completamente sobrecarregados de glucocerebrosido têm um aspecto característico e são designadas células de Gaucher. cuja função é processar o substrato glucocerebrosido (uma substância natural do organismo. Na DG. O lisossoma é um organelo da célula onde cada substrato é processado por acção da sua enzima específica e. constituída por açúcar e gordura) que é produzido predominantemente no fígado. baço. A Doença de Gaucher (DG) é de origem genética e a mais comum de um grupo de doenças raras designadas por Doenças Lisossomais de Sobrecarga (DLS). no século XIX . a mutação dá-se no gene GBA do cromossoma 1 (1q21) levando a níveis insuficientes da enzima β-glucocerebrosidase. osso e. o substrato acumula-se. caso esta esteja ausente ou em quantidade insuficiente. desde a infância até à idade adulta. o lisossoma vai dilatando e toda a célula acaba por ficar preenchida por estes organelos repletos de substrato e muito volumosos. Gaucher. As DLS caracterizam-se pela alteração de um gene (mutação) que leva à produção deficiente de uma proteína (enzima) que deixa de processar um determinado composto (substrato) normalmente produzido pela célula. 46 . ocasionalmente. Em todo o mundo poderão existir cerca de 10 000 pessoas afectadas. nos pulmões. dá-lhe o nome. rins e intestino. é necessário que ambos os progenitores tenham uma mutação do gene GBA (estão descritas mais de 100 mutações).

A DG é uma doença inflamatória crónica e multisistémica. falta de ar. desde a infância até à idade adulta. o tipo 2 é uma forma neuropática aguda grave que surge na criança. devido à diminuição do número de glóbulos vermelhos (anemia). palpitações. geralmente referimo-nos ao tipo 1 que é o mais frequente (95% dos casos). no fígado e no osso causa sintomas de gravidade variável que podem surgir em qualquer altura. O tipo 1. O aumento de volume do fígado (hepatomegalia) e do baço (esplenomegalia) causam distensão e dor abdominal. é o único que não tem alterações neurológicas. A acumulação de glucocerebrosido no baço. crises ósseas com dor muito intensa. falta de forças. sensação de enfartamento e diarreia. Quando falamos de DG. Os sintomas de carácter geral são a palidez. uma forma neuropática crónica. fadiga. fracturas frequentes e lesões/deformidade dos ossos são os mais debilitantes e incapacitantes da DG: A doença óssea é causada por alterações da circulação na medula óssea que está repleta de células de Gaucher. o tipo 3. O Especialista Isabel Firmino Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Universidade Clássica de Lisboa Bacharelato em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Calouste Gulbenkian de Lisboa Mestrado em Medicina Escolar pela Faculdade de Medicina de Universidade Clássica de Lisboa Pós graduação em Infecção HIV/ SIDA pelo Instituto de Educação Médica da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa Responsável pelo Depar tamento Médico da Genzyme Portugal SA 47 . Dor nos ossos e nas articulações.As manifestações clínicas da DG são muito variáveis e é clássico descrever 3 ti- G pos principais.

Existe terapêutica específica para a Doença de Gaucher desde os anos 90 do século passado e.org www.rarediseases. Ricardo Jorge. 48 .aplisosoma. A história pessoal e familiar determina o diagnóstico.com confirmação do diagnóstico e pelo seguimento das pessoas afectadas pela DG é o Centro Nacional Coordenador para o Diagnóstico e o Tratamento das Doenças Lisossomais de Sobrecarga que funciona no Centro de Genética Médica Dr. aumento do risco de infecções.org www.net www.tendência para sangrar facilmente. e/ou aumento de volume do baço (esplenomegalia). O estudo Genético das pessoas com DG tem especial importância para o rastreio e aconselhamento genético das famílias. que pode ser realizado através de uma análise de sangue – as pessoas afectadas revelam uma actividade enzimática até 30% da actividade normal. Existem marcadores bioquímicos muito úteis no controlo da eficácia da terapêutica e as medidas de suporte incluem transfusões. um dos pólos do Instituto Nacional de Saúde Dr.gauchercare. período menstrual abundante. para que o benefício seja máximo. Na DG como em todas as DLS é conveniente uma abordagem multidisciplinar.org www. A entidade oficial responsável pela Para saber mais www. O método mais fiável é o teste da actividade da enzima β-glucocerebrosidase.rarissimas. analgésicos e tratamentos ortopédicos.orpha. dificuldade em ganhar peso.org www. Sem tratamento. nódoas negras frequentes – devido à diminuição do número das plaquetas (trombocitopenia). as radiografias dos membros podem revelar alterações características.gaucherdisease.pt www. No tipo 1 não existe envolvimento do Sistema Nervoso. a DG é progressiva. hemorragia pós-parto. trombocitopenia. infecções respiratórias repetidas – devido à diminuição do número de glóbulos brancos (leucopenia). Na investigação da doença óssea. é importante que seja individualizada e instituída antes que surjam lesões nos órgãos. Jacinto de Magalhães.eurordis. a criança pode ter atraso de crescimento e puberdade tardia. As alterações dos constituintes do sangue detectam-se em análises de rotina e pode existir suspeita após uma aspiração de medula óssea (mielograma) que mostre células de Gaucher – este exame é por vezes efectuado em caso de anemia crónica.

G 49 .

com origem no tecido conjuntivo. Não existem factores de risco conhecidos para o seu aparecimento. entre os 40 e 80 anos. músculos. vasos sanguíneos. S. António e pela OM Especialista de Oncologia Médica pela OM Directora do Serviço de Oncologia do H. O Gist pode aparecer ao longo do tubo digestivo. S. sem preferência por sexo. tecidos cutâneos profundos. 10% no cólon e 15% noutros locais do tubo digestivo. representa um tipo de cancro raro e pouco conhecido do tubo digestivo. cujo nome vem da sua designação em Inglês. João Membro efectivo da SPO. fazendo par te da direcção da SPS e do Grupo Por tuguês de Investigação Oncológica do Tubo Digestivo Presidente do Grupo de Trabalho Nacional para elaboração das orientações terapêuticas do carcinoma colo-rectal Presidente da Associação Por tuguesa de Neuro-Oncologia 50 . pela FMUP Especialista de Medicina Interna no H. O Gist pertence a uma classe de doenças chamadas “sarcomas”.Gist Trata-se de um tipo de cancro que pode ocorrer em qualquer idade. S. 25% no intestino delgado. O Gist. nervos. João Chefe de Serviço de Oncologia Médica Coordenadora do Grupo de Patologia Oncológica do SNC do H. ossos e cartilagens. Trata-se de um tipo de cancro que pode ocorrer em qualquer idade. entre os 40 e O Especialista Maria Margarida Cunha Damasceno Licenciada em Medicina. que inclui gordura. cerca de 50% no estômago.

95% dos Gist são c-kit positivos. pelo que são mais agressivos. O Gist parece ser causado por uma alteração específica no ADN celular. o Gist pode reaparecer no mesmo local ou metastizar à distância. o doente pode palpar um tumefação abdominal. pode permitir prever a resposta ao tratamento. mas o diagnóstico definitivo faz-se por biopsia. têm capacidade de invasão. Podem invadir os tecidos vizinhos ou metastizar à distância. O doente com Gist pode apresentar enfartamento pós-prandeal. nomeadamente. O aparecimento de novas moléculas. os inibidores da tirosino-cinase. sem preferência por sexo. O Gist pode também apresentar-se com evidência de metastização (principalmente no fígado). suficiente. pelo que a cirurgia é. normalmente. responsável pelo crescimento celular. para o fígado e peritoneu. Mesmo após ter sido removido através de cirurgia. vaga dor ou desconforto abdominal. Para saber mais www. não havia tratamento específico para estes doentes. Quando o patologista identifica características de Gist. A sua mutação permite o crescimento descontrolado das células tumorais. com anticorpos específicos para a molécula CD117 (também conhecida por c-kit). são pouco agressivos. não raramente. com uma mutação da enzima Kit (CD117) das células normais. Nos casos de resistência ao Glivec. Raramente o doente manifesta obstrução intestinal. é um tratamento oral que controla a doença em 80% dos casos. hemorragia digestiva. melhorou significativamente o prognóstico do Gist. 9 e raramente 13 e 17.80 anos. Esta enzima é uma tirosinocinase. A sintomatologia deste tipo de cancro é pobre pelo que. principalmente. independentemente do seu tamanho ou localização. A maioria dos Gist com menos de 5cm apresentam um índice mitótico baixo. podendo esta última ser responsável pela resistência ao tratamento. Por vezes. os doentes podem beneficiar de tratamento com Sunitinib (Sutent).ensemblecontrelegist. O tipo de mutação do c-kit. apresentam um índice mitótico alto. Os Gist com mais de 5cm. Não existem factores de risco conhecidos para G o seu aparecimento. efectua estudos por imunocitoquimica. Até há pouco tempo atrás. As mutações mais frequentes são nos exons 11. O diagnóstico inclui análises e avaliação por TAC. O imatinib (Glivec).org 51 . o tumor já é grande na altura do diagnóstico. Recentemente concluiu-se que todos os Gist.

cuja incidência mencionada na literatura varia entre 1/15.000 e 1/20. mas estes números podem pecar por defeito.Grito de Gato Os indivíduos afectados por esta Síndrome apresentam.000. para além do choro característico causado por um desenvolvimento anormal da laringe e que tende a desaparecer antes do 1º ano de vida. Esta doença caracterizada por um conjunto de anomalias (Síndrome) deve o seu nome ao facto de os recém-nascidos afectados por ela terem um choro inconfundível que se assemelha ao miar de um gato. um peso baixo ao nascer e um atraso de crescimento. Trata-se duma doença rara descrita pela 1ª vez em 1963 por Lejeune e colegas. School of Pathology. Na maioria O Especialista Maximina da Conceição dos Santos Rodrigues Pinto Licenciada em Medicina pela Universidade de Lourenço Marques Especialista em Genética Médica Citogeneticista e Geneticista Clínica no South African Institute for Medical Research. University of Witwatersrand Médica geneticista. com funções de Chefe da Unidade de Citogenética do Instituto de Genética Médica Jacinto Magalhães 52 . A Síndrome do miar do gato é uma doença genética de hereditariedade (origem) cromossómica causada pela perda (delecção) de parte do material genético localizado no braço p (braço curto) do cromossoma 5.

existem anomalias do foro oftalmológico. ocasionalmente. eventualmente. O tamanho da delecção. Nos restantes casos (+/. nomeadamente. fendas palpebrais orientadas para baixo e uma micrognatia (queixo pequeno) que tende a desaparecer com a idade.org . podendo a mesma ser facilmente visualizada num estudo cromossómico convencional (cariótipo) na maioria dos casos.nord. Complicações respiratórias e dificuldade de alimentação são frequentes nas crianças mais pequenas. A maioria dos estudos na literatura favorecerem a existência de uma correlação entre o tamanho da delecção e a gravidade da doença. MLPA ou array CGH. no que diz respeito ao atraso mental. os tratamentos que existem são apenas sintomáticos.dos casos (+/. Os indivíduos afectados por esta Síndrome apresentam. Existe uma prevenção secundária através do aconselhamento genético e do diagnóstico pré-natal quando a história familiar ou uma gravidez anormal assim o justifique. tendo os pais G cromossomas (cariótipo) normais e não se sabe o que originou essa perda – nestes caso trata-se duma situação de novo com um risco de recorrência em futura descendência que é muito próximo do da população geral. um peso baixo ao nascer e um atraso de crescimento. podendo aparecer no seio de qualquer família.net www. para além do choro característico causado por um desenvolvimento anormal da laringe e que tende a desaparecer antes do 1º ano de vida. a quantidade de material genético perdido do 5p.orpha. renal. até para outros familiares. uma face redonda (em lua cheia) que tende a alongar-se à medida que os anos passam. o atraso mental são uma constante mas o grau de gravidade é variável. enquanto que noutros essa delecção é tão pequena que só pode ser detectada recorrendo a técnicas mais sofisticadas como. FISH. Infelizmente. a grande maioria apresenta hipotonia (falta de força muscular) que progride para um desenvolvimento da massa muscular diminuída. etc. Ao nascer. As características físicas incluem uma microcefalia (cabeça pequena). ou seja.85%) esta perda de material genético é de natureza esporádica. um hipertelorismo (olhos afastados). mais tarde. Cerca de 1/3 dos doentes tem anomalias cardíacas e. Já estão devidamente identificadas e mapeadas as regiões críticas responsáveis pelas diferentes características físicas desta Síndrome (banda 5p15 e sub-bandas) e a ausência das mesmas é compartilhada por todos os doentes afectados. 53 Para saber mais www. é variável de doente para doente. O atraso no desenvolvimento psicomotor e. Não existe uma prevenção primária desta doença. O desenvolvimento intelectual beneficia duma estimulação precoce e apoio de educação especial com um suporte essencial no meio familiar. por exemplo.15%) existe uma alteração cromossómica num dos progenitores com riscos acrescidos para a futura descendência e. esquelético.

após um estudo etiológico sistematizado para as diversas situações clínicas apontadas. até há bem pouco tempo. considera-se HP quando a pressão média na artéria pulmonar (PMAP) é superior a 25 mmHg. as cardiopatias congénitas com shunts intra-cardíacos são também causa frequente de HAP. estaremos perante uma HAP Hereditária (HAPF).Hipertensão Arterial Pulmonar Os sinais e sintomas da HP são inespecíficos. A HAPF e HAPI são doenças raras. geralmente como consequência de doença cardíaca esquerda (valvulopatia mitral ou disfunção ventricular esquerda). O diagnóstico exige. estão muitas vezes mascarados. um baixo limiar de suspeita e uma abordagem sistematizada das manifestações clínicas. neste caso. hoje bem identificadas. são doenças crónicas. dizemos estar perante uma HAP Idiopática (HAPI). uma entidade obscura. a pressão de encravamento capilar pulmonar (PECP) é normal (< 15 mmHg). A Hipertensão Pulmonar (HP) era. Entre nós. A doença cardíaca esquerda é a principal causa de HP e deve ser sempre despistada. Quando. A elevação da PMAP pode ocorrer como resultado de aumento da resistência vascular pulmonar (RVP) no território pré-capilar e é designada por Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP). frequentemente não identificada. Esta pode ter um carácter familiar e. A doença pulmonar crónica com hipoxemia e a tromboembólica pulmonar são as causas mais frequentes de HAP. no segundo está elevada. por isso. com uma incidência e prevalência de 2 a 5 e 20 a 30 casos/milhão de habitantes. Por consenso. 54 . quando não tratadas. sendo frequentemente interpretados como pertencendo ao quadro clínico da doença de base associada. não é encontrada nenhuma das doenças referidas. porque omissa nos procedimentos comuns de diagnóstico e tratamento. respectivamente. ou por aumento da pressão venosa pulmonar. No primeiro caso. Estas duas entidades acompanham-se frequentemente de alterações genéticas. com mau prognóstico e com sobrevidas médias curtas (2 a 3 anos).

justifiquem a clínica.Os sinais e sintomas da HP são inespecíficos. estão muitas vezes mascarados. um baixo limiar de suspeita e uma abordagem sistematizada das manifestações clínicas. A congestão hepática passiva. por insuficiência ventricular direita. O sinal mais precoce de HP é o aumento da intensidade do componente pulmonar H O Especialista Abílio Óscar da Silva Reis Licenciatura em Medicina Especialista em Medicina Interna Assistente Graduado de Medicina Interna Consultor de Medicina Interna Chefe de Serviço de Medicina Interna Professor Associado Convidado do ICBAS Fundador e responsável pelo Gabinete de Técnicas Pneumológicas e consultadoria em Doenças Respiratórias do ex-Serviço de Medicina 1 Responsável pela Unidade de Doentes Respiratórios do Depar tamento de Medicina do CHP – Hospital de Santo António Fundador e responsável pela Consulta de Hiper tensão Pulmonar do HSA-CHP 55 . por isso. Na HP devida a doença cardíaca ou pulmonar a clínica é dominada pela patologia de base. sendo frequentemente interpretados como pertencendo ao quadro clínico da doença de base associada. dispneia. pode causar anorexia e dor no hipocôndrio direito. síncope ou pré-síncope com o esforço). aperto torácico. Dor torácica relacionada com o esforço (angina) e síncope aparecem com o desenvolvimento de falência ventricular direita. decorrendo da incapacidade para responder ao esforço com aumento do débito cardíaco. A suspeita é eminentemente clínica e baseia-se na conjugação de sinais e sintomas (fadiga. O diagnóstico exige. por si mesmas. Na HPTEC a história pessoal ou familiar de tromboembolismo venoso ou de factores de risco para o mesmo é fundamental para a suspeita clínica. Dispneia de esforço e fadiga estão presentes na maioria dos doentes. quando em contexto de doença potencialmente associada a HAP e na ausência de patologia cardíaca esquerda ou pulmonar que. sobretudo.

As alterações radiológicas descritas. são pouco sensíveis. o alargamento das áreas correspondentes às artérias pulmonares centrais e a atenuação da rede vascular periférica. bloqueio completo ou incompleto de ramo direito e aumento da amplitude da onda P em DII).htm 56 . embora específicas. pode observar-se diminuição do espaço retrosternal por dilatação do ventrículo direito. onde pode aparecer precocemente. hepatomegalia. A falência ventricular direita leva a hipertensão venosa sistémica que se manifesta por distensão venosa jugular patológica. edemas periféricos e ascite. excepto na HAP associada a shunts sistémico-pulmonares. A estratégia terapêutica da HP depende da classe clínica. O alargamento do bordo direito da silhueta cardíaca traduz dilatação da aurícula direita. Os sinais radiológicos mais comuns de HP são. Para saber mais www. As alterações mais frequentemente encontradas são sinais de sobrecarga e/ou hipertrofia ventricular direita e dilatação auricular direita (desvio direito do eixo. Alfredo Martins e Nelson Rocha. Nas incidências de perfil.do segundo som (S2p).int/ncd/cvd/pph. A cianose central só surge nas fases avançadas da doença. O aparecimento de um S4 ventricular direito e de lift para-esternal esquerdo ou sub-xifoideu. A sensibilidade (55%) e especificidade (70%) do ECG são insuficientes para o recomendar como método de rastreio. A telerradiografia (Rx) do tórax e o electrocardiograma (ECG) são anormais em 80-90% dos casos e podem reforçar a suspeita clínica. Pode aparecer um sopro de ejecção sistólico ou. um sopro diastólico de regurgitação pulmonar. na doença avançada. resultando em campos pulmonares oligoémicos. quando mostra alterações sugestivas de doença pulmonar crónica (enfisema ou fibrose pulmonar). traduz o desenvolvimento de hipertrofia ventricular direita. O Rx de tórax pode. no entanto. R>S em V1. pulsatilidade hepática.who. A presença destas alterações obriga a despistar HP. ajudar a determinar a etiologia. Com a colaboração dos Drs Rui Barros.

Centros de referência para HAP em Portugal Porto VN Gaia Coimbra Lisboa Lisboa Lisboa Almada HSA – CHP CHGaia HUC HSMarta Santa Maria Pulido Valente Garcia de Orta Medicina Pneumologia Cardiologia Cardiologia Cardiologia Cardio/Pneumologia Cardiologia Abílio Reis Teresa Shiang Graça Castro Ana Agapito Nunes Diogo Nuno Lousada/Carvalheira Santos Carlos Cotrim H 57 .

É uma doença hereditária. que resulta numa cadeia mais longa do aminoácido glutamina numa das extremidades desta proteína. rigidez. agressividade e perturbações do sono.Huntington A sintomatologia varia de pessoa para pessoa e pode incluir disartria e disfagia. causada por uma mutação no gene que codifica a proteína huntingtina. entre outros. É uma doença genética. antes conhecida como Coreia de Huntington caracteriza-se por perda neuronal selectiva e progressiva. há uma probabilidade de 50% desta mutação ser transmitida a cada filho ou filha. cognitivas e comportamentais. A Doença de Huntington. depressão. com transmissão dominante. O Especialista Eliana Marisa Ramos Licenciatura em Bioquímica pela Universidade do Por to Membro da Rede Europeia da Doença de Huntington (EHDN) Colaboração no Módulo de Epidemiologia Genética do Programa de Mestrado em Saúde Pública Realização de diversos trabalhos de investigação na área da Genética Molecular 58 . associada a alterações motoras. défice cognitivo e perda progressiva de memória.

ainda sem cura. que poderão permitir o desenvolvimento de novas terapias e levar. A sintomatologia varia de pessoa para pessoa e pode incluir disartria (dificuldades na fala) e disfagia (dificuldades na deglutição).cgpp. eventualmente. Contudo. e a administração de vários compostos em ensaios clínicos. bipolaridade). Cadeias mais longas conduzem a sintomas mais precoces. desidratação. entre outros. até ao momento. de 10 a 15 anos. a prevalência da doença é de 5-10 doentes em cada 100 000 pessoas. podendo. assim como na procura de modificadores associados à neurodegeneração. bruscos e irregulares. deliríos. coreia). Podem ser usados anti-psicóticos (para alucinações. É também importante providenciar apoio e assistência social a estes doentes e aos seus familiares. para além de uma boa nutrição ser fundamental. transplantes de células estaminais que. nenhum tratamento específico. A idade de início está correlacionada inversamente com o comprimento da cadeia de glutaminas. Esta doença não tem. Tratando-se de uma doença debilitante. estabilizadores do humor (mania. em média. à medida que os sintomas progridem. sendo a medicação escolhida em função dos sintomas observados. nos familiares em risco que o pretenderem fazer. A duração da doença varia também muito. rigidez. Modelos animais e celulares têm sido utilizados para melhor se compreender a doença e testar potenciais terapias. tais como lesões provocadas por quedas. sendo a esperança de vida. 59 H Para saber mais www. Existe um teste genético que permite confirmar o diagnóstico clínico e que pode também ser usado como teste preditivo ou pré-natal. as principais linhas de investigação têm-se centrado na compreensão do mecanismo que causa a patologia e a sua instabilidade genética. agressividade). que consiste em movimentos involuntários. hipoteticamente. O principal sintoma é a coreia. A Doença de Huntington não é fatal mas. anti-depressivos (depressão. entre outros.Em Portugal.eu . surgir antes dos 20 anos (juvenil). é muito mais comum o seu aparecimento entre os 30 e 50 anos. agressividade e perturbações do sono. défice cognitivo e perda progressiva de memória. substituirão os neurónios danificados. tais como o silenciamento do gene da huntingtina. desnutrição ou infecções. por vezes. comportamento obsessivo-compulsivo). aumenta o número de complicações associadas. à descoberta de uma cura. de forma a aliviá-los e a prevenir algumas complicações. Os primeiros sintomas podem surgir em qualquer idade. depressão. tranquilizantes (ansiedade.

As Ictioses são doenças da queratinização. Têm risco 60 . com escamas (Grego ichthys/ikhthus. clínico e geneticamente heterogéneo. contudo. recém-nascido envolvido por uma membrana amarelada aderente. insuficiência renal e sequelas neurológicas da desidratação hiponatrémica. bem como da morbilidade e mortalidade perinatais. marcada heterogeneidade biológica (ligação a diferentes cromossomas. A Ictiose Lamelar (IL) é uma ictiose autossómica recessiva. com risco de lesão ocular. eritrodermia. sem envolvimento mucoso e com envolvimento sistémico variável. habitualmente por um bebé colódio. casos autossómicos dominantes). sepsis. embora tenha sido descrito um padrão de hereditariedade dominante. seca.Ictiose Lamelar Congénita Há complicações potencialmente letais como hipotermia. Os estudos genéticos nas formas graves de IL revelaram linkage ao cromossoma 14q11 – gene da transglutaminase 1 (TGM-1). Há complicações potencialmente letais como hipotermia. insuficiência renal e sequelas neurológicas da desidratação hiponatrémica. A diferenciação epidérmica terminal e a constituição lipídica do estrato córneo estão alteradas. eritrodermia. que são uma complicação de doenças graves sistémicas ou malignas. para além de ictioses adquiridas. A IL manifesta-se à nascença. sepsis. São um grupo. resultando em dificuldade considerável na sua classificação. São divididas em formas genéticas (ictioses primárias). Há. peixe). A membrana sofre fissuração e começa a destacar-se nos primeiros dias de vida até às primeiras semanas. mas o diagnóstico é difícil no período neo-natal. condicionando o compromisso da função barreira da pele. É facilmente reconhecível na sua forma mais grave. Há eversão labial (eclabium) e palpebral (ectropion). Existe risco aumentado de nascimento prematuro. Existe em todo o mundo. quando se confunde com outras ictioses que se manifestam como o bebé colódio. Pode ser localizada nalguns bebés e pode refazer-se por um período de 12 semanas. identificando-se várias mutações que reduzem ou inibem a sua função. A incidência é cerca de 1 em 300 000 nados-vivos. caracterizadas por pele dura. um número de sindromas ictiosiformes raros e casos individuais que não se encaixam em qualquer das categorias.

O crescimento e as capacidades intelectuais não são afectados. bem como da morbilidade e mortalidade perinatais. Nas formas ligeiras. formam-se escamas espessas. A sudorese está seriamente comprometida.aumentado de nascimento prematuro. aderentes no centro. fazendo lembrar armaduras. provocando fissuras profundas e dolorosas. Nos membros a escama é separada por fissuração superficial. alopécia cicatricial. entre outros) mas o seu uso é limitado pela irritação e absorção sistémica. Nos casos mais graves a escama espessa e rígida destaca-se inter- I mitentemente. Ocasionalmente. palmas e plantas. destacadas à periferia. Nova de Lisboa Especialista em Dermatologia e Venereologia Assistente Hospitalar de Dermatologia Assistente Hospitalar Graduado de Dermatologia Clínico na Clínica CUF Alvalade Membro da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia Membro da International Society of Dermatopathology Membro da European Society of Dermatology Membro do Grupo Português de Dermatopatologia Faz parte do Comité Científico da Raríssimas 61 . conferindo à pele um aspecto de leito de rio ressequido. foi descrito o bene- O Especialista Rui Jorge Ramalho Bajanca Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Univ. Pode haver limitação da mobilidade. As formas graves tendem a persistir ao longo da vida. Os problemas psicológicos relacionados com o aspecto cosmético são importantes – perturbação da auto-estima. ocorre queratodermia palmo-plantar. Não há alterações mucosas nem das hastes capilares. Recentemente. ácido salicílico. há eritema variável mas não se verifica eritrodermia. O objectivo do tratamento é a redução das escamas e a hidratação e lubrificação da pele. especialmente à volta das pregas e dos dedos. Por vezes. isolamento social e mau desempenho escolar. ectropion persistente e hipoplasia das cartilagens nasais e auriculares. Ao longo do tempo. obtém-se através da aplicação regular de emolientes e queratolíticos (ureia.

Os principais efeitos secundários são a secura. Para saber mais ZZZUDUHGLVHDVHVRUJ ZZZVFDO\VNLQRUJ 62 . reduzindo o eritema. permitindo uma participação mais activa nas actividades diárias. Utiliza-se a Acitretina numa dose inicial mais elevada reduzindo-se de acordo com a resposta. Nas formas severas devem ser ponderados os retinóides orais que conferem benefício significativo. Devido à possibilidade de toxicidade e à cronicidade da doença. o gel de Tazaroteno.fício com derivados da Vitamina D3 e com um novo retinóide de aplicação tópica. a possibilidade de elevação dos lípidos séricos e das enzimas hepáticas e a toxicidade óssea. as escamas e o prurido. devendo ser efectuada uma contracepção eficaz nas doentes em idade fértil. prefere-se a terapêutica intermitente. a descamação palmo-plantar em grandes retalhos (dificulta a marcha e é dolorosa). Os estudos na infância reforçaram a segurança da terapêutica. A teratogenicidade é outro dos efeitos secundários graves. até à menor dose que demonstre eficácia.

I 63 .

Centro Hospitalar do Porto Investigadora. com características clínicas adicionais. Universidade do Por to Directora do Serviço de Neurologia Pediátrica . Existe uma variabilidade de atingimento de outros órgãos (olho. Resulta da associação de uma hipoplasia do vermis cerebeloso. ICBAS. chamadas Joubert syndrome related disorders (JSRDs). Centro Hospitalar do Por to Doutoramento em Ciências Médicas. caracterizada por hipotonia. de uns pedúnculos cerebelosos superiores grossos e horizontalizados e de uma fossa interpeduncular grande e profunda. polimicrogíria. hidrocefalia e encefalomeningocelo. rim e fígado – e uma associação com outras malformações do sistema nervoso central – anomalias do corpo caloso. Seis loci associados a JSRDs foram identificados: O Especialista Clara Barbot Serviço de Neurologia Pediátrica. ataxia. “molar tooth sign” (MTS). Faculdade de Medicina. O seu marcador neurorradiológico é uma malformação complexa da junção ponto-mesencefálica que tem o aspecto de um dente molar – sinal do dente molar.Joubert Existe uma variabilidade de atingimento de outros órgãos – olho. atraso. Universidade do Por to Licenciatura. polimicrogíria. apraxia oculomotora e alterações respiratórias neonatais. rim e fígado) e uma associação com outras malformações do sistema nervoso central (anomalias do corpo caloso. A Síndrome de Joubert (JS) é uma doença autossómica recessiva. O MTS foi identificado noutras síndromes. hidrocefalia e encefalomeningocelo) que permitem identificar um largo espectro de síndromes. IBMC (UnIGENe) 64 .

um gene habitualmente responsável pela nefronoptise juvenil isolada (rins polimicroquísticos com insuficiência renal progressiva). incluindo o olho (colobomas. as ciliopatias. com atingimento cerebeloso e ponto-mesencefálico. 65 J Para saber mais www. foram descritos no JS associados ao gene MKS3/TMEM67. – JBTS6 (8q) O encefalocelo occipital e a polidactilia. – JBTS3 (6q) Há malformações extensas do sistema nervoso central e uma epilepsia associada.org . Mutações do gene AHI1 parecem ser uma causa frequente de JSDRs com atingimento da retina e outras anomalias cerebrais. – JBTS4 (2q) Delecções do gene NPHP1. raramente da retina ou rim. – JBTS2 (11p) ou Síndrome cerebelo-oculo-renal (CORS2). estão associadas a JSRDs com atingimento renal e cerebral moderado. o fígado e ainda uma dismorfia facial e uma polidactilia. características clínicas do síndrome de Meckel-Gruber (MKS). Este gene codifica uma proteína. a jouberina. microftalmia e retinopatia). Os JSRD estão incluídos num grupo de doenças em permanente expansão. cujo papel no desenvolvimento cortical e cerebeloso não é bem conhecido. A investigação visa melhorar a correlação fenótipo-genótipo do grande espectro dos JSDRs e aperfeiçoar a classificação clínico-genética.– JBTS1 (9q) É uma forma de JS clássica. Recentemente foram identificadas mutações no gene ARL13B associadas à forma clássica de JS e no gene RPGRIP1L associado ao fenótipo cerebelo-renal. A patologia da retina é frequente (retinite pigmentar/ amaurose de Leber). – JBTS5 (12q) Estão identificadas mutações no gene CEP290 / NPHP6 em associação com uma Síndrome cerebelo-retiniano ou cerebelo-renal. O gene AHI1 pode também estar associado a nefronoptise.jsfrcd. o rim (quistos renais e nefronoptise). O atingimento é multi-orgânico e grave.

A causa da Síndrome de Kabuki é desconhecida. Até 2001 já tinham sido publicados mais de três centenas de casos com múltiplas origens geográficas. esqueléticas e dos dermatoglifos.000. Em 2003 foi descrita a presença de uma duplicação no braço curto do cromossoma 8 (8p22-8p23. Foi descrita pela primeira vez em 1981 em 10 crianças japonesas e a sua designação tem origem no teatro tradicional japonês.000 a 1 por 86. As anomalias mais frequentes são as renais.Kabuki As manifestações predominantes são uma baixa estatura pós-natal. as cardiopatias congénitas e a fenda palatina.1) em seis doentes mas esta alteração não foi posteriormente confirmada em nenhum outro caso. A Síndrome de Kabuki tem uma prevalência de 1/32. deficiência cognitiva habitualmente ligeira a moderada e as características faciais. continuando a existir O Especialista Jorge Manuel Saraiva Professor Catedrático Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra Director do Serviço de Genética Médica do Centro Hospitalar de Coimbra EPE 66 .

Há ainda alterações dentárias com frequência (em mais de 60%. Não está a decorrer nenhum ensaio terapêutico nem há nenhum medicamento específico disponível. em que a quase totalidade dos casos ocorra por neo-mutação.orpha. Não existem critérios de diagnóstico universalmente aceites nem um teste laboratorial que permita confirmar ou excluir a situação. Pelo contrário.pt/servicos/genetica 67 .nih. A quase totalidade dos casos é esporádica (há apenas um indivíduo afectado em cada família) sendo possível que se trate de uma situação de hereditariedade autossómica dominante. 60% dos doentes têm uma maior susceptibilidade para infecções. à semelhança de Portugal. O padrão de crescimento habitual consiste numa velocidade baixa com início no primeiro ano de vida que se acentua subsequentemente.investigação nesta área. com obesidade na segunda década de vida e microcefalia.nlm.chc. a hipotonia e a hipermobilidade articular tendem a melhorar com a idade.ncbi. K Para saber mais www. As manifestações predominantes são uma baixa estatura pós-natal (83%). As mais utilizadas são a fisioterapia. O envolvimento oftalmológico ocorre em 30 a 50% dos doentes e manifesta-se em regra por ptose ou estrabismo.min-saude. em regra.net www. A hormona de crescimento foi utilizada esporadicamente. esqueléticas e dos dermatoglifos. as cardiopatias congénitas (em 30 a 58% dos casos) e a fenda palatina (40%). As anomalias mais frequentes são as renais (em 40 a 50%).gov/entrez www. deficiência cognitiva habitualmente ligeira a moderada (92%) e as características faciais. habitualmente hipodontia dos incisivos e prémolares). não seja identificada nenhuma deficiência imunitária específica. a medicação anti-epiléptica (necessária em 10 a 40% dos caso) e intervenções cirúrgicas por surdez (presente em mais de 50% e habitualmente neurossensorial). Existem registos regionais e nacionais de doentes em alguns países europeus bem assim como associações de doentes. embora. A utilidade das intervenções terapêuticas deve ser adequada a cada doente.

descrita em 1967 por Tomisaku Kawasaki. desde um pequeno aneurisma único. múltiplos. até aneurismas gigantes. Cerca de 80% das crianças afectadas têm menos de 5 anos de idade. O Especialista Anabela Paixão Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa Chefe de Serviço de Cardiologia Pediátrica do CHLC – Hospital de Santa Marta Presidente da Comissão de Coordenação da Qualidade do CHLC – Hospital de Santa Marta Membro do Gabinete de Administração Clínica do Hospital de Santa Marta Membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria Membro da Associação Europeia de Cardiologia Pediátrica Membro da Sociedade Portuguesa de Cardiologia Membro da Sociedade Latina de Cardiologia Pediátrica.Kawasaki As lesões cardíacas atingem cerca de 25% dos doentes e constituem a principal causa de mortalidade e morbilidade. a incidência anual é de 3-5 casos/ 100000 crianças com idade inferior a cinco anos. no Japão. A gravidade é variável. a sua ocorrência por surtos aparentemente epidémicos. a primeira causa de doença cardíaca adquirida nas crianças dos países desenvolvidos. a natureza autolimitada e os sinais de inflamação aguda. A Doença de Kawasaki é uma vasculite aguda. A etiologia é desconhecida mas. Membro da Sociedade Europeia de Cardiologia 68 . sazonais e regionais. É. sugerem uma origem infecciosa. Em Portugal. actualmente. afectando várias artérias coronárias.

desde um pequeno aneurisma único. 69 K Para saber mais www.5 cm. para prevenir a ocorrência de trombose coronária. A gravidade é variável. Síndrome da pele escaldada. língua em framboesa e hiperémia da orofaringe. Um nódulo tem. mais frequentes em lactentes com idade inferior a seis meses. reacções medicamentosas. um diâmetro >1. com lábios vermelhos e fissurados. Síndrome de Stevens-Johnson. em que febre persistente durante um período mínimo de cinco dias. artrite sistémica juvenil e leptospirose. é associada a quatro de cinco sinais clínicos: – Alterações das extremidades com eritema e edema das mãos e dos pés. em que a febre.pt/conteudos/default. nomeadamente. Síndrome de choque tóxico. por tempo prolongado. condicionando um pior prognóstico. – Alterações dos lábios e da cavidade oral. exantemas víricos.A lesão dos vasos sanguíneos que caracteriza esta doença é atribuída a uma cascata de fenómenos relacionados com a resposta imunitária a uma agressão de provável etiologia infecciosa. basta para estabelecer o diagnóstico. os aneurismas pequenos regridem nos primeiros 18 meses de evolução. riquetsiose. O tratamento precoce com γ-globulina e ácido acetilsalicílico em dose anti-inflamatória visa o controlo dos fenómenos inflamatórios. frequentemente unilaterais. escarlatina. na fase inicial. As lesões cardíacas atingem cerca de 25% dos doentes e constituem a principal causa de mortalidade e morbilidade. Em 50% dos doentes.spp. desde que se evidenciem aneurismas das artérias coronárias por ecocardiografia. até aneurismas gigantes. múltiplos. O diagnóstico é baseado num conjunto de critérios clínicos. – Conjuntivite bilateral não exsudativa. está indicada a cirurgia de revascularização coronária ou a transplantação cardíaca. recomenda-se a prescrição de ácido acetilsalicílico em dose antiagregante plaquetária. associada apenas a um ou dois dos critérios clínicos. – Exantema polimórfico do tronco e das extremidades. seguidos de descamação em placas. Existem quadros incompletos ou atípicos. Nas crianças que tiveram aneurismas. ao contrário dos grandes aneurismas que tendem a permanecer.asp?ID=147 . O diagnóstico diferencial inclui outras doenças febris e exantemáticas. Nos casos mais graves. obrigatoriamente. para evitar o aparecimento de aneurismas das coronárias e minimizar o risco de complicações. – Adenomegalias cervicais. O enfarte agudo do miocárdio é a principal causa de mortalidade tardia. afectando várias artérias coronárias.

A causa da maioria dos tipos de leucemia ainda é desconhecida. actualmente.Leucemias A Leucemia Aguda é uma doença com alto potencial de cura. no Instituto Português de Oncologia. A sua origem reside numa das células da medula que sofre uma alteração e começa a multiplicar-se de forma descontrolada. Como consequência dá-se a acumulação de células anormais que constituem a leucemia. por vezes associada à radioterapia ou através de transplante de medula óssea. da Sociedade Portuguesa de Hematologia. Braga Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. da European Haematology Association Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português 70 . As Leucemias são cancros das células sanguíneas que habitualmente afectam os glóbulos brancos. no H. impedindo a produção normal de células do sangue. São Marcos. São João. em que uma população de células malignas infiltra e “asfixia“ a medula óssea. Porto e. No caso das O Especialista Herlander Marques Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto Especialista em Medicina Interna Especialista em Oncologia Médica Estágio no Institut Gustave Roussy. Viljuiff. São doenças oncológicas do sangue. em Hematologia Oncológica Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Assistente Hospitalar no H. França. com tratamentos intensivos de quimioterapia. Porto.

dependendo quer das características particulares de cada Leucemia quer das características próprias do doente.org www. Presentemente. baço. Para algumas destas leucemias surgiram avanços terapêuticos recentes impressionantes no contexto das doenças oncológicas. A gravidade da doença varia de doente para doente. timo.abrale. por vezes associada à radioterapia ou através de transplante de medula óssea. As leucemias crónicas têm evolução indolente. permitindo sobrevivências longas com qualidade de vida. a outros órgãos (gânglios. a Leucemia Aguda é uma doença com alto potencial de cura.apll.Leucemias Agudas as células leucémicas têm uma multiplicação muito superior e rapidamente conquistam o espaço utilizado pelas células normais. amígdalas. entre outros). L Para saber mais www. na maior parte dos casos. por vezes.br 71 . com tratamentos intensivos de quimioterapia.org. levando à diminuição do seu número. fígado. Esta proliferação anárquica das células anormais faz com que se estendam inicialmente na medula óssea e posteriormente ao sangue e.

Viljuiff. No entanto. chamados linfócitos. São João. a extracção de fragmentos de tecidos ou órgãos que são examinados sob microscópio. Braga Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. no Instituto Português de Oncologia. actualmente. ossos e sistema gastrointestinal. localizam-se principalmente nos gânglios e em agrupamentos linfóides de alguns órgãos como pulmões. da European Haematology Association Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português 72 . Estas células circulam pelos vasos sanguíneos e linfáticos estando presentes em todos os órgãos incluindo a medula óssea. Têm origem nas células do sistema imunológico constituído por um tipo de glóbulos brancos especializados. em Hematologia Oncológica Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Assistente Hospitalar no H. França.Linfomas Para um diagnóstico exacto de linfoma e do sub-tipo de linfoma é necessário realizar uma biopsia. São Marcos. Porto. isto é. Linfomas são cancros ou tumores malignos dos gânglios e tecidos linfóides. Os sinais de alerta ou sintomas mais comuns dos Linfomas não são específicos O Especialista Herlander Marques Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto Especialista em Medicina Interna Especialista em Oncologia Médica Estágio no Institut Gustave Roussy. da Sociedade Portuguesa de Hematologia. Porto e. no H.

a perda de peso. surgir noutras doenças. É importante determinar a extensão da doença através de exames específicos. toxoplasmose.org. Embora o sinal mais frequente da doença seja um aumento do tamanho dos gânglios. Para um diagnóstico exacto de linfoma e do sub-tipo de linfoma é necessário realizar uma biopsia.(podendo ocorrer em doenças simples como infecções). em situações particulares específicas. que podem também originar o aumento do gânglio linfático (mononucleose infecciosa. sida. leucemia. mesmo para casos em fase avançada da doença. são alguns dos possíveis exames pedidos pelo médico. tomografia computadorizada (TAC). o tratamento é baseado na quimioterapia (medicamentos “citostáticos”).br 73 . Os sintomas incluem os suores nocturnos. entre outras). recolha de amostra da medula óssea.org www. Os Raio X. normalmente usados em fase mais avançada da doença. nomeadamente. de origem infecciosa e auto-imune. isto é. cansaço e fadiga fora do comum. análise ao sangue e urina. também. L Para saber mais www. Em geral. citomegalovírus. biópsia (exame histológisco). a extracção de fragmentos de tecidos ou órgãos que são examinados sob microscópio. fraqueza. tuberculose. falta de apetite.apll. em geral. ecografia. a radioterapia (uso de Raios X de alta energia) usada habitualmente em casos de diagnóstico precoce (fase inicial da doença ou quando está localizada e não disseminada) ou mesmo em combinação coordenada entre os dois tipos de tratamento. O transplante de medula óssea pode ser uma alternativa para algumas pessoas com linfomas e. Esta biopsia permite. este sinal pode. a distinção de outras doenças com sintomas semelhantes. sarcoidose.abrale. coceira persistente. entre outros. entre outros.

O Especialista Teresa Taylor Kay Geneticista Clínica 74 . A elevada variabilidade clínica da doença justificou a classificação dos doentes em três tipos clínicos: Tipo 1 – Caracterizado por síndrome extra-piramidal e piramidal (hiperreflexia. espasticidade. A idade de início dos sintomas é mais precoce e a gravidade dos mesmos é também maior. Tipo 2 – Caracterizado apenas por sintomas do Sistema Nervoso Central. A identificação e clonagem do gene foi feita por Kawagushi e colaboradores em 1994. atrofias musculares. fasciculações da face e da língua. que se caracteriza clinicamente por ataxia cerebelosa progressiva. modo de início em todos os doentes (sem/com evolução para os tipos 1/3). sinais piramidais e extrapiramidais. retracção palpebral.Machado-Joseph A manifestação da doença está dependente de uma mutação dinâmica (expansão instável do tripleto CAG) no gene ATXN3. Babinski +) muito marcado. nistagmus. oftalmoparésia externa progressiva. A Doença de Machado-Joseph (DMJ) é uma doença neurodegenerativa do sistema nervoso central. A idade de início dos sintomas e a gravidade são “intermédias”.

entre 1996 e 2008. o que está associado ao fenómeno de antecipação.apahe-pt. A descoberta da alteração genética abriu novas possibilidades para a realização de: – teste pré-sintomático. Psicologia e Genética Clínica. A idade de início dos sintomas é mais tardia e a gravidade dos mesmos é mais ligeira.aaadmj. normalmente. – diagnóstico pré-implantatório. Entre as ataxias espinocerebelosas.com www. a DMJ é a mais prevalente (Prevalência das ataxias espinocerebelosas – 3:100000). faseada em várias consultas. A identificação e clonagem do gene foi feita por Kawagushi e colaboradores em 1994. sobretudo atrofias musculares de predomínio distal.com 75 . A manifestação da doença está dependente de uma mutação dinâmica (expansão instável do tripleto CAG) no gene ATXN3. sendo este valor um dos mais elevados verificados na aplicação de um protocolo de teste preditivo em todo o mundo. Para saber mais www. A presença de um alelo expandido (>61 repetições) implica que a proteína resultante ganhe uma função M neurotóxica. Em 1996 foi criado o Programa de Aconselhamento Genético e Teste Preditivo na DMJ que incluiu a avaliação multidisciplinar das valências de Neurologia. o nível de adesão ao referido Programa foi de 47%.1. Existe instabilidade na transmissão que. se traduz num aumento dos números de repetições (CAG) entre as gerações. localizado em 14q32.Tipo 3 – Caracterizado por sinais periféricos. a todos os candidatos à realização do referido teste. Na Região Autónoma dos Açores. – diagnóstico pré-natal. conduzindo à morte neuronal.

que se localiza no braço longo do cromossoma 15. Estão identificadas mais de 500 mutações. integrando as equipas de Pneumologia Pediátrica. segundo os critérios de Ghent revistos em 1996. Como par te do seu trabalho em Pneumologia Pediátrica tem seguido crianças e adolescentes com Síndrome de Marfan com complicações respiratórias. Codifica a síntese da proteína fibrilina 1. com membros longos e aracnodactilia (caracteristicamente diminuição da razão entre o segmento superior e inferior do O Especialista Luísa Farinha Pereira Assistente Hospitalar Graduada de Pediatria Trabalha na Unidade de Pneumologia Pediátrica do Hospital de Santa Maria. É uma doença genética. componente essencial do tecido conjuntivo. seguimento de Crianças Dependentes de Tecnologia (ventilação e oxigenoterapia no domicílio) e Tuberculose infantil (de que é responsável). O diagnóstico deve ser clínico. Fibrose Quística. Os principais sistemas atingidos são o cardiovascular. o que torna difícil a confirmação genética. com transmissão autossómica dominante. Os doentes apresentam geralmente estatura alta. A Síndrome de Marfan é uma doença do tecido conjuntivo de transmissão autossómica dominante com uma incidência estimada de 1/5000-10000 nados-vivos. mas cerca de 27% dos casos devem-se a mutações esporádicas. 76 . O gene envolvido na forma mais comum é o FBN1.Marfan A utilização de β-bloqueadores reduz a progressão da dilatação da aorta e o risco de dissecção. O risco de ruptura da aorta é particularmente elevado durante a gravidez e trabalho de parto. músculo-esquelético e ocular.

descolamento da retina e pneumotórax.tronco e entre a estatura e a envergadura). Para saber mais www. e antecipação/prevenção dos problemas que poderão surgir. com ou sem regurgitação.marfan. podem e devem praticar outros desportos mais calmos. por vezes recidivante. A dilatação da raiz da aorta é a principal causa de morbilidade e mortalidade. No entanto. pelo grande risco que comportam quer a nível cardio-vascular quer ocular. Os doentes com Síndrome de Marfan devem evitar a prática de desportos e actividades que proporcionem embates. As anomalias cardiovasculares são as principais responsáveis pela mortalidade. como a caminhada ou o golf. Pode ocorrer pneumotórax espontaneo. As alterações do sistema músculo-esquelético são das mais características e incluem tórax escavado ou em quilha. escoliose grave. exercícios extenuantes e desportos de competição. associado a bolhas subpleurais apicais. Os doentes e famílias deverão reconhecer os sintomas das principais complicações como dissecção da aorta. Todos estes doentes devem ser seguidos por uma equipa experiente nesta doença. extensão reduzida a nível do cotovelo além de mobilidade anormal do pulso. poderá ser possível um diagnóstico pré-natal. Consistem mais frequentemente na dilatação da aorta ascendente. A utilização de β-bloqueadores reduz a progressão da dilatação da aorta e o risco de dissecção. associada ou não a regurgitação da válvula aortica ou dissecção da aorta ascendente. e saber como procurar ajuda atempadamente. O risco de ruptura da aorta é particularmente elevado durante a gravidez e trabalho de parto. no prolapso da válvula mitral que ocorre em cerca de 75% dos casos. por exemplo. incluindo cardiologista e oftalmologista para vigilância da evolução. No conjunto a apresentação clínica é muito variável. M A nível ocular a subluxação do cristalino pode resultar em miopia grave e descolamento da retina. nomeadamente desportos de contacto. dilatação da artéria pulmonar ou calcificação do anel mitral.org 77 . As famílias de doentes com Marfan deverão também ter apoio por uma equipa de genética clínica para prever a probabilidade de repetição da situação em gravidezes subsequentes.

o Mieloma múltiplo. O número crescente de células plasmáticas anormais invade e lesa vários tecidos e O Especialista Herlander Marques Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina do Porto Especialista em Medicina Interna Especialista em Oncologia Médica Estágio no Institut Gustave Roussy. França. afecta habitualmente mais homens do que mulheres e tem maior incidência na população de raça negra. Um Mieloma é uma forma de tumor maligna de plasmócitos. Ocupa o segundo lugar no ranking das leucemias. Porto e. no H. formando tumores na medula óssea e produzindo uma grande quantidade de anticorpos anormais que se acumulam no sangue e na urina. Por razões ainda desconhecidas. no Instituto Português de Oncologia. actualmente. da Sociedade Portuguesa de Hematologia.Mieloma É comum em pessoas mais velhas (menos frequente antes dos 40 anos). Geralmente desenvolve-se na medula óssea. da European Haematology Association Pertence à Direcção da Associação Portuguesa de Leucemias e Linfomas Faz parte do Conselho Consultivo do GHOP – Grupo Hemato-Oncológico Português 78 . São João. Viljuiff. surgem alterações genéticas nos plasmócitos que evoluem para uma doença maligna. Porto. Braga Membro da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. O grupo de células “anormais” (clone) multiplica-se excessivamente. em Hematologia Oncológica Mestre em Oncologia pela Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Assistente Hospitalar no H. São Marcos.

enfraquecendo-os. ser um resultado de vários factores. não protegem o corpo das infecções e. afecta habitualmente mais homens do que mulheres e tem maior incidência na população de raça negra. problemas visuais e dores de cabeça. no nariz. dos pés. podendo. Outro sintoma é a dificuldade da circulação do sangue (Síndrome de hipervicosidade).org 79 . Entre os sintomas. porque o sangue fica muito espesso (pela presença de grande quantidade de macroglobulinas). mesmo. Para saber mais www. originária da proliferação de células plasmocitoides. por vezes. Pode também causar confusão mental provocada pelo afluxo inadequado de sangue no cérebro. sobretudo na coluna ou costelas.órgãos. com perturbações bioquímicas do sangue (hiperglobulinemia) e uma proteína anormal na urina (albumosúria de Bence-Jones). provocada pela libertação de cálcio dos ossos danificados e que entra na circulação sanguínea. exposição a radiações ou vírus. desenvolver-se noutras áreas fora dos ossos. onde M há tumores ósseos e tumores extra-ósseos. contacto com determinadas substâncias químicas. Provocam micro-fracturas nos ossos. É comum em pessoas mais velhas (menos frequente antes dos 40 anos). O doente pode apresentar dor localizada (dores ósseas – osteoporose). É uma doença maligna rara. em que a mandíbula é a mais afectada. as massas amiloides (principalmente na língua). Não se pode identificar uma causa concreta para a origem do Mieloma múltiplo. os doentes de Mieloma múltiplo não exibem factores de risco claros. provocada pela presença de substâncias osteoclásticas (que retiram o cálcio dos ossos). por consequência. um dos principais sinais de diagnóstico da doença. levar ao coma. factores genéticos. podendo. pelo que se fracturam facilmente. Na grande maioria dos casos. os doentes estão muito mais expostos a infecções. O sangue espesso também agrava o estado cardíaco e causa um aumento da pressão no cérebro. nos dedos das mãos. Apresentam uma redução do fluxo sanguíneo na pele. por isso. Entre as diversas possibilidades encontra-se a diminuição do sistema imunológico. podendo originar sintomas neurológicos.myeloma-euronet. Como estas células e os anticorpos que produzem não são normais (imunoglobulinas anómalas). podendo provocar vertigens ou. estão ainda a hipercalcemia (cálcio elevado no sangue). Ocupa o segundo lugar no ranking das Leucemias.

de maior ou menor gravidade clínica. acordados numa Conferência de Consenso que se realizou em 1987 (NIH Consensus Conference). 80 . 5 – Dois ou mais nódulos de Lisch. irmão ou filho) com critérios clínicos de NF1. como displasia do esfenóide ou estreitamento da cortical dos ossos longos. dos quais pelo menos 2 devem estar presentes: 1 – Seis ou mais manchas “café-com-leite”. em várias localizações. 6 – Uma complicação óssea característica. como dificuldade de aprendizagem. glioma óptico e do sistema nervoso central e outros tumores. A Neurofibromatose tipo 1 (NF1. 2 – Duas ou mais neurofibromas de qualquer tipo ou um neurofibroma plexiforme. Nesta conferência foram identificados 7 critérios. O diagnóstico de Nf1 realiza-se com base em critérios clínicos. ou 15mm posteriormente. 4 – Glioma óptico. 7 – Um familiar em primeiro grau (progenitor. Estes critérios ainda permanecem válidos e são de grande utilidade para o diagnóstico médico. 3 – Sardas nas regiões axilares ou inguinais.Podem ocorrer complicações. nódulos de Lisch (hamartomas da íris) e neurofibromas múltiplos.Neurofibromatose tipo 1 A Neurofibromatose tipo 1 (NF1) é uma doença neurocutânea e multisistémica. nódulos de Lisch (hamartomas da íris) e neurofibromas múltiplos. que se caracteriza pela presença de múltiplas manchas “café-com-leite” (MCL). com pelo menos 5mm de diâmetro antes da puberdade. OMIM nº 162200 e 162210) é uma doença neurocutânea e multisistémica. com ou sem pseudo-artrose. que se caracteriza pela presença de múltiplas manchas “café-com-leite” (MCL). escoliose e outras complicações ortopédicas. sardas nas regiões axilares e inguinais. sardas nas regiões axilares e inguinais.

A realização do estudo genético é necessário apenas raramente. para o que contribui o gene NF1 ser muito extenso e estarem identificadas inúmeras mutações. os nódulos de Lisch estão presentes em 70% aos 10 anos e na adolescência surgem os neurofibromas (nódulos cutâneos ou sub-cutâneos). As lesões cutâneas aumentam de número e dimensões com a idade (95% dos doentes).O diagnóstico pode ser difícil em crianças ao nascer ou nos primeiros anos. Ricardo Jorge 81 . e pode atingir 80% a 90%. incluindo na mesma família).2 e que codifica a proteína neurofibromina) permite o diagnóstico pela identificação de uma mutação em heterozigotia. O estudo genético do gene NF1 (localizado em 17q11. pelo que 50% dos descendentes de um doente irão manifestá-la (penetrância elevada e expressão clínica muito variável. é necessário vigiar e registar as manifestações que possam surgir ao longo dos anos para confirmar ou excluir a NF1. por vezes apenas algumas MCL. quando não existe história familiar da doença e as manifestações clínicas são escassas. A NF1 é uma doença com N transmissão autossómica dominante. Nestes casos. a doença resulta O Especialista Luis Nunes Responsável da Especialidade de Genética Médica do CHLC – Hospital Dona Estefânia Coordenador do Depar tamento de Genética do Instituto Nacional de Saúde Dr. Em cerca de 50% dos doentes. A probabilidade de se identificar uma mutação patológica num doente com critérios clínicos depende da metodologia laboratorial que foi usada.

e os síndromes de Noonan e Watson. O aconselhamento genético pode ser obtido nos Serviços de Genética Médica em Lisboa (Hospital Santa Maria e Hospital Dona Estefânia).de uma mutação de novo no gene NF1.orpha. Neurologia e Neurocirurgia. Para saber mais www. em Coimbra (Hospital Pediátrico) e no Porto (Centro de Genética Médica Jacinto de Magalhães). os doentes podem recorrer a consultas especializadas hospitalares de Ortopedia. quando necessário o exame pode realizar-se no estrangeiro.net 82 . Oftalmologia ou outras. É sempre necessário avaliar os progenitores de um doente para que o médico se assegure se está presente perante um caso familiar ou não. O teste genético não se realiza ainda em Portugal. De acordo com as complicações da doença. estando o risco de recorrência limitado aos seus filhos. Cirurgia. O diagnóstico diferencial realiza-se com outras doenças como a neurofibromatose tipo 2.

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quer dizer “imperfeição na formação do osso” e caracteriza-se por uma maior fragilidade dos ossos com risco de múltiplas fracturas. sendo essencial na formação dos ligamentos. ainda que a forma e a gravidade da apresentação possa diferir da dos pais. dentes e na esclerótica dos olhos. na maioria dos casos. múltiplas fracturas que levantam a suspeita de “osteogenesis imperfecta”. Na maioria dos casos é a história clínica de múltiplas fracturas que ocorrem com pequenos ou mesmo sem traumatismo que levantam a suspeita do diagnóstico. 84 . através dos testes genéticos que podemos confirmar o diagnóstico. de um tipo de proteína está defeituoso. É. Nas pessoas com OI. nos casos graves. de pais para filhos. nenhum dos progenitores tem Osteogenesis Imperfecta. uma face triangular. em particular. – Escoliose moderada. Como resultado deste defeito genético a proteína não é produzida em quantidade suficiente ou a sua qualidade não é a ideal. Em qualquer dos casos os ossos tornam-se mais frágeis quebrando com facilidade mas cicatrizando a uma velocidade normal. também conhecida pela “doença dos ossos de vidro”. todavia. constituindo nestes casos uma mutação expontânea. problemas respiratórios e perda de audição. Nalgumas crianças. Esta proteína (Tipo I colagénio) é um dos componentes fundamentais do tecido conjuntivo do aparelho esquelético. foi reclassificada em oito tipos em função das alterações genéticas: Tipo I – Tem Colagénio de qualidade normal mas produzido em quantidade insuficiente: – Fracturas frequentes. Trata-se de uma doença relativamente rara que é transmitida geneticamente. Existem várias formas de apresentação podendo estar associadas a outras características como a baixa estatura. – Hipermobilidade articular. ultimamente. A ecografia fetal pode mostrar.Osteogenesis Imperfecta A Osteogenesis Imperfecta (OI). um dos genes responsáveis pela formação do osso e. Existem 4 tipos de OI segundo a classificação de Sillence (a mais conhecida) que.

– Graves problemas respiratórios por atrofia pulmonar. – Escleróticas azuis. O O Especialista Manuel Cassiano Neves Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa Responsável pelo Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria (HSM) Direcção da Unidade de Or topedia Infantil no HSM Responsável pelo Serviço de Or topedia do CHLC – Hospital Dona Estefânia Membro do Member of European Board of Orthopaedics and Trauma (EBOT) Presidente da Sociedade Por tuguesa de Or topedia e Traumatologia Membro da Sociedade Europeia de Or topedia Infantil 85 . B e C consoante as deformidades dos ossos O longos e costelas. – Graves deformidades ósseas e baixa estatura. O Tipo II pode ainda subdividir-se em A. Este facto é devido às escleróticas serem mais finas mostrando o plexo venoso subjacente. – Perda de audição – surdez. – Pequena protusão dos olhos.– Tónus muscular reduzido. Pode ainda dividir-se em tipo A e B consoante têm associadas alterações da dentição (dentinogenesis imperfecta – ausente no Tipo A e presente no Tipo B) Tipo II – O colagénio não é de qualidade suficiente nem em quantidade adequada: – A maioria das crianças morre antes do nascimento ou no primeiro ano de vida devido a insuficiência respiratória ou hemorragia intra-cerebral. O Tipo IIA mostra ossos longos largos e curtos e costelas largas.

O Tipo IIC mostra ossos longos finos e curtos associados a costelas finas e em rosário. pode ser subclassificada em Tipo A (ausente) e B (presente) em função da associação com a dentinogenesis imperfecta. – Pequena estatura associada a escoliose e deformidade torácica em forma de barril. Distingue-se histologicamente por um osso tipo “rede”. Tipo VI – As mesmas características clínicas do tipo IV. – Possível surdez. 86 . por vezes. – Hipotonia muscular. – Possíveis problemas respiratórios. – Escleróticas azuis. Nunca é devida a uma mutação genética. Similar ao tipo I. Caracteriza-se como a “forma progressiva” com uma forma simples à nascença e que se vai agravando progressivamente com o crescimento. – Hipermobilidade articular. – Pequena estatura associada a escoliose e deformidade torácica em forma de barril. Tipo V – Possui as mesmas características clínicas do tipo IV. hipertrofia do calo ósseo e calcificação da membrana inter-óssea radio-cubital. – As deformidades ósseas variam de pequenas a moderadas. Distingue-se histologicamente por um osso tipo “escama de peixe”. – Ossos deformados. às vezes. – Possível surdez.Tipo IIB mostra ossos longos largos e curtos e costelas finas. Tipo IV – O colagénio tem quantidade suficiente mas não tem uma qualidade extrema: – Ossos fracturam com facilidade especialmente antes da puberdade. – Escleróticas normais. Tipo III – O colagénio tem quantidade suficiente mas não qualidade suficiente: – Ossos fracturam-se facilmente. Tem prognóstico grave. mesmo antes do nascimento. Clinicamente associada à “Triade Tipo V” – banda radio-opaca adjacente às cartilagens de crescimento. de forma grave.

Não existe cura para a OI. Os pais não devem ter medo de pegar nas crianças com OI mas devem ser alertados para a maneira correcta de pegar nos bebés. Nas crianças com formas graves de OI.Tipo VII – Descrita em 2005.freewebs. evitando assim múltiplas cirurgias de substituição durante o período de crescimento. Uma mutação no gene CRTAP é a causa desta forma de doença. é uma forma recessiva e ligada a um determinado tipo de população do Quebec. mas existem algumas terapêuticas que podem ajudar a melhorar a qualidade de vida da criança e com um efeito positivo durante o crescimento. deformidades ou má consolidação das fracturas. Esta terapêutica deve ser acompanhada por pessoal especializado requerendo uma monitorização cuidada. dando-lhes assim maior resistência. Na maioria dos casos. As fracturas são tratadas da mesma forma como as fracturas das crianças com estrutura óssea normal através de talas ou gessos sendo de encorajar o mais cedo possível a utilização do membro de forma a reduzir o risco de outras fracturas. Os resultados a longo prazo da terapêutica com bifosfonatos não estão ainda comprovados pelo que antes de ser iniciada qualquer terapêutica esta deve ser discutida com a equipa médica bem assim como a sua O duração. o tratamento é médico pela administração de bifosfonatos. Nunca se deve pegar uma criança por baixo dos braços ou pelos pés quando se muda a fralda. O tratamento deve ser individualizado. O tratamento cirúrgico está indicado no caso de fracturas de repetição. Devido ao risco de fracturas muitas famílias podem ser acusadas de “maus tratos”. Tipo VIII – OI causada pela mutação do gene LEPRE1. A criança deve estar apoiada por uma mão entre as pernas e sob a nádega e outra mão dando apoio à região dos ombros. e deve ser ministrado por uma equipa vocacionada para esta patologia. A escoliose na OI pode pôr problemas complexos visto que o tratamento com coletes é ineficaz e a cirurgia é a única terapêutica possível.com/aposteogeneseimperfeita . pescoço e cabeça. Estas cavilhas devem ser preferencialmente telescópicas de forma a acompanhar o crescimento ósseo. a terapêutica com bifosfonatos diminui o número de fracturas bem como as dores ósseas. de acordo com a gravidade da doença e em função da idade. O tratamento mais indicado consiste na introdução de cavilhas metálicas no canal medular dos ossos longos. 87 Para saber mais www. Na maioria das crianças o número de fracturas vai decrescendo com a idade mas a OI pode tornar-se novamente activa depois da menopausa ou dos 60 anos nos homens. Esta terapêutica incide sobre a reabsorção do osso que é diminuída pela acção dos medicamentos.

apesar de rara. Deste grupo salientamos a Porfíria Aguda Intermitente que. A intensidade dos sintomas coloca problemas difíceis a nível de diagnóstico diferencial com quadros de abdómen agudo que requerem terapêuticas cirúrgicas. quer do ponto de vista da investigação. A alteração enzimática pode ser adquirida ou de origem genética. quer sob a forma de diarreia quer sob a forma de obstipação. sobretudo na fase inicial da doença e.Porfíria Aguda Intermitente As Porfírias são doenças raras. A Porfíria Aguda Intermitente é uma doença de transmissão genética autossómica dominante. a mais frequente e a que cursa com quadros clínicos de maior gravidade. constituindo um conjunto fascinante de doenças metabólicas. de entre o grupo das Porfírias congénitas. complexas. alteração do trânsito intestinal. simultaneamente. frequentemente associada a outros sintomas tais como náuseas. vómitos. iniciando-se os sintomas habitualmente após a puberdade. é. ou mesmo simulando um íleus paralítico. Na Europa calcula-se que a forma sintomática desta doença tenha uma prevalência de um a dois casos por 100. também conhecida por Porfíria Sueca uma vez que a incidência mais elevada de casos sintomáticos ocorre nos países nórdicos e no Reino Unido.000 habitantes. Os sintomas mais frequentes. quer na prática clínica pelos desafios diagnósticos que colocam. As Porfírias constituem um conjunto de entidades que têm em comum corresponderem a uma alteração de enzimas responsáveis pela biossíntese do heme. Os casos sintomáticos de Porfíria Aguda Intermitente são mais frequentes no sexo feminino. A doença é mais frequente em doentes portadores de doença psiquiátrica grave. Para além dos sintomas gastrointestinais as doentes desenvolvem quadros de hipertensão durante as crises que. os mais graves correspondem a quadros de dor abdominal generalizada ou localizada. com o evoluir da doença. tendem a tornar-se perma88 . Num estudo realizado na Finlândia em doentes hospitalizados em hospitais psiquiátricos a prevalência aumentou para um caso em quinhentos doentes.

psicose. é a alteração da cor da urina que se apresenta vermelha. nem sempre presente. nomeadamente. factores responsáveis pelo desencadear das crises. tais como depressão. Nos portadores de Porfíria Aguda Intermitente deve ter-se em consideração o des- P O Especialista Maria Perpétua Gomes Rocha Licenciada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Chefe de Serviço de Medicina Interna do Quadro do Pessoal Civil do Exército/ Hospital Militar Principal Especialista em Gastrenterologia Presidente da Assembleia Geral da Associação dos Médicos da Indústria Farmacêutica “AMPIF” Presidente do Conselho de Administração da ONG “Fundação Portuguesa A Comunidade Contra a SIDA” 89 . Um sinal típico da doença. As crises de Porfíria podem ter vários factores desencadeantes tais como fármacos. Na mulher adulta as crises são frequentemente desencadeadas no período pré-menstrual. Com o evoluir da doença as doentes podem desenvolver quadros psíquicos. hábitos tabágicos e alcoólicos. mas que quando se verifica associa-se a situações de crises graves. stress emocional ou físico estão. ansiedade e. por vezes. Para além das hormonas acima referidas são vários os fármacos que podem causar crises. os indutores do citocromo P450. tremores. Dietas de baixo valor calórico. sudação. sendo também frequente apresentarem durante as crises taquicardia.nentes. agitação. entre outros. alterações neurológicas como diminuição da força muscular. delírio e alteração do estado de consciência. sendo conhecida a relação entre a administração de estrogéneos sintéticos e de progesterona e o desencadear das crises.

a não administração dos fármacos contra-indicados. o diagnóstico precoce e terapêutica de qualquer situação de infecção.com 90 . por vezes. A terapêutica dos doentes com Porfíria Aguda Intermitente compreende várias medidas tendentes a evitar o desencadear das crises. Nestas. é fundamental a administração de quantidades elevadas de hidratos de carbono. O apoio psicológico dos doentes e a terapia familiar são igualmente fundamentais para permitir que as portadoras desta doença possam desenvolver a sua vida com o máximo de normalidade. sendo. no entanto. o controlo das naúseas e vómitos. Para saber mais www. a adopção de uma dieta equilibrada com adequado valor calórico. eficaz para redução da intensidade e controlo das crises.porphyriafoundation.piste precoce do carcinoma hepato-celular. tais como a eliminação de hábitos tabágicos e alcoólicos. A hematina tem-se mostrado. o controlo da dor bem como da hipertensão arterial. alguns AA recomendam a sua utilização.porfiria. A hematina tem-se mostrado particularmente útil na profilaxia das crises de Porfíria Aguda Intermitente. necessária a administração de alimentação parentérica. também. A administração de cimetidina e de hematina para profilaxia das crises não é consensual. uma vez que esta entidade apresenta prevalência elevada nestes doentes. O apoio psiquiátrico é fundamental para diagnóstico precoce das patologias associadas.org www.

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alguns doentes têm como primeira manifestação clínica a ocorrência de discrasia hemorrágica grave associada a trombocitopenia significativa. 2. com o diagnóstico a realizar-se no decurso da identificação de trombocitopenia numa análise de rotina. sempre se considerou que a PTI era uma doença originada pela destruição de plaquetas no baço quando acopladas a um anticorpo especí92 . a PTI é uma doença que ocorre maioritariamente em mulheres de idade fértil. que obrigam a hospitalização. respectivamente.9 por 100000 habitantes.2 e 2. respectivamente. Tradicionalmente. A Púrpura Trombocitopénica Imune (PTI) é uma doença em que existe diminuição da contagem das plaquetas devido a um mecanismo imunológico. Alemanha e Holanda seja de 3.Púrpura Tombocitopénica Imune Em contraste com as crianças. Na população adulta parece existir uma correlação com a idade. Em contraste com as crianças. O curso clínico da PTI é heterogéneo e imprevisível. menos e mais de 60 anos de idade.7 e 1. A maioria dos estudos publicados descreve um aumento significativo da incidência da PTI em indivíduos do sexo feminino em comparação com os do sexo masculino. Satia et al estimam que a incidência média de PTI no Reino Unido. O ratio pode variar entre 1. Em contraste. o estudo dinamarquês encontrou uma incidência de 1. No adulto. em que a PTI é maioritariamente uma doença aguda e auto-limitada. a doença nos doentes adultos têm um curso clínico crónico que evolui ao longo de muitos anos.6 mulheres para 1 homem afectado pela doença.62 por 100000 habitantes por ano em indivíduos com. a doença nos doentes adultos têm um curso clínico crónico que evolui ao longo de muitos anos. O seu início pode ser insidioso.94 e de 4. Por seu lado. tendo vários estudos documentado um aumento da incidência de PTI acima dos 60 anos. em que a PTI é maioritariamente uma doença aguda e auto limitada.

em Lisboa. Em conjunto. Os níveis circulantes de trombopoietina e de factor de crescimento derivado dos megacariocitos encontra-se normal ou ligeiramente elevado nos doentes com PTI. tal como uma trombopoiese ineficaz. o que pode justificar novas opções terapêuticas até à data não disponíveis. estes dados sugerem que. Estudos in vitro demonstraram também que soro de doentes com PTI pode inibir a proliferação de magacariócitos na medula óssea. presumindo-se que a síntese de novas plaquetas não estava diminuída.fico. dados mais recentes sugerem também outros mecanismos de doença. em Nova Iorque Assistente Graduado de Hematologia Clínica no Hospital de Santa Maria Professor de Hematologia Director da Clínica Universitária de Hematologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa 93 . Estudos recentes sugerem que um número importante de doentes com PTI tem megacariopoiese inadequada face ao ritmo de destruição de plaquetas. e no Memorial Sloan-Kattering Cancer Center. A contagem das plaquetas circulantes na PTI depende do balanço entre a velocidade da destruição e a capacidade da medula óssea aumentar a sua síntese. É bem conhecido que a fagocitose plaquetária por macrófagos desempenha um P Especial sta Especialista s ial ta i t O Especialista Mcccc João Forjaz Lacerda Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Realizou especialidade de Hematologia Clínica no Hospital de Santa Maria. quando comparados com o grande aumento dos níveis de trombopoietina encontrados em doentes com falência da medula óssea. em muitos doentes com PTI. a síntese de novas plaquetas pela medula óssea é inadequada. No entanto.

gengivorragias. a infusão intravenosa de imunoglobulina polivalente ou de imunoglobulina anti-D. parto. menorragias. A detecção de anticorpos anti-plaquetários correlaciona-se com um curso clínico mais agressivo. os mesmos não foram incluídos nas recomendações actuais. os doentes com contagens de plaquetas maiores do que 30000 a 50000/mcl mantêm vigilância periódica sem necessidade de terapêutica específica. primariamente. É um fenómeno mediado pelo receptor FcγIIA macrofágico que capta plaquetas com anticorpos anti-GPIIb/IIIa na sua superfície. despoletando as vias de transdução de sinal intracelulares que culminam com a destruição da plaqueta. Pensa-se que este fenómeno ocorra primariamente no baço. micofenolato de mofetil. Muitos agentes imunossupressores foram estudados de forma não controlada neste contexto. a não ser que exista uma necessidade pontual de aumentar a contagem de plaquetas (intervenção cirúrgica. 94 . O quadro clínico é muito variável e depende da gravidade da trombocitopenia. É raro que contagens de plaquetas superiores a 30000/mcl se acompanham de hemorragias espontâneas. ciclofosfamida. uma forma crónica de PTI. com hemorragias mais frequentes e necessidade de terapêutica mais intensiva. com resultados variáveis. Em contraste. Os doentes idosos têm um risco acrescido de complicações hemorrágicas. Embora muitos casos sejam auto-limitados e evoluam favoravelmente sem terapêutica. A principal complicação hemorrágica é a discrasia cutâneo-mucosa. A PTI Aguda é. Em regra. também se considera a esplenectomia. O Rituximab também pode ser utilizado nesta fase da doença. Os principais alvos antigénicos para os anticorpos anti-plaquetários são GPIIb/ IIIa e GPIb/IX. petéquias e equimoses. ciclosporina. No entanto. uma doença da criança. Uma vez que os testes de pesquisa de anticorpos anti-plaquetários dão resultados negativos em doentes com o diagnóstico de PTI. etc). a maioria dos hematologistas inicia terapêutica com contagens plaquetárias inferiores a 10000-20000/mcl. traumatismo. como já foi mencionado. os doentes com contagens plaquetárias inferiores têm necessidade de terapêutica específica. cerca de 30% dos doentes não conseguem manter contagens de plaquetas acima de 30000/mcl após 6 a 12 meses de terapêutica standard. A maioria dos doentes recebe inicialmente corticoterapia e imunoglobulina intravenosa. Nesta fase. As opções disponíveis nesta fase da doença são a corticoterapia. que tem por objectivo fazer subir o número de plaquetas como prevenção de hemorragias espontâneas ou após traumatismos minor. sendo considerados refractários. Os doentes adultos têm. vincristina. que se manifesta como epistáxis.papel importante na PTI. incluindo azatioprina.

tendo apresentado resultados preliminares promissores. foram introduzidos no mercado novos agonistas dos receptores da trombopoietina. P Para saber mais www. que estimulam a produção de plaquetas. estimulando a megacariopoiese. Trata-se de uma proteína recombinante que se liga ao receptor da trombopoietina. O romiplostim é o primeiro dos agentes trombopiéticos de 2ª geração a entrar em ensaios clínicos. O eltrombopag é um pequeno péptido agonista do receptor da trombopoietina administrado por via oral.itpsupport. Nesta classe destacam-se o eltrombopag e o romiplostim.org. incluindo a esplenectomia.Recentemente. O romiplostim é administrado por via subcutânea e apresenta taxas de resposta superiores a 75% em doentes com PTI crónica refractários à terapêutica convencional.uk 95 .

com arrepios. fezes – ou de ingestão de leite não pasteurizado proveniente de animais infectados (vacas. Os órgãos envolvidos incluem os pulmões. febre e cefaleias. com manifestações O Especialista António Vaz Carneiro Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência Faculdade de Medicina de Lisboa Membro do Grupo de trabalho para o Estudo da Agenda de Investigação em Saúde Membro do American College of Physicians. A Febre Q é uma doença provocada pela infecção pela Coxiella Burnetii (família das Rickettsiaceae). combinados com sintomas de pneumonia e hepatite.Q Febre O período de incubação é. placenta e líquido amniótico. A Febre Q apresenta um quadro agudo e um quadro crónico. em média. medula óssea e baço. foi director do Serviço de Urgência do Hospital da Cruz Vermelha Por tuguesa 96 . através da inalação de partículas biológicas – lã. fígado. especialmente em situações endémicas. urina. Diplomado em cuidados intensivos. cabras. fez par te da Comissão Nacional para as Terapêuticas Não Convencionais e foi membro do Conselho Nacional para a Prevenção das Doenças Cardiovasculares. de 20 (14-39) dias e os doentes apresentam habitualmente sinais e sintomas de infecção aguda (tipo gripe). Os factores de risco são os contactos com animais infectados. carneiros). Especializado em Nefrologia.

que constituem a doença aguda. com 60-70 casos reportados ao CDC americano durante os anos de 2001-2003. que pode provocar um quadro de cronicidade com complicações obstétricas variadas: abortos espontâneos. 7-15 dias após o início dos sintomas (90% dos doentes têm anticorpos detectáveis às 3 semanas). na detecção da seroconversão por imunofluorescência. em alternativa. em casos raros. O sucesso terapêutico mede-se pelo doente ficar apirético normalmente nos 7 dias seguintes e a hepato-esplenomegalia desaparecer nas 2-12 semanas após o início do tratamento. embora eficazes. Os doentes com um quadro clínico de Febre Q com duração superior a 6 meses (1-5% dos infectados) são classificados como tendo doença crónica. com pico às 4-8 semanas e desaparecimento progressivo até aos 12 meses. O exame objectivo pode detectar erupção cutânea com petéquias.gov/ncidod/dvrd/qfever . para além de alterações Q bioquímicas inespecíficas (VS aumentada. amiloidose e crioglobulinémia mista. Para a endocardite da Febre Q utiliza-se uma combinação de doxiciclina com hidroxicloroquina durante. combinados com sintomas de pneumonia e hepatite. febre e cefaleias. fibrose intersticial pulmonar. com arrepios. A Febre Q é uma doença rara. 97 Para saber mais www. pseudo-linfoma. que pode cursar com endocardite. hepato-esplenomegalia e sinais de condensação pneumónica. não são utilizadas de rotina. O período de incubação é em média de 20 (14-39) dias e os doentes apresentam habitualmente sinais e sintomas de infecção aguda (tipo gripe). O fármaco de escolha para a doença aguda é a doxiciclina (100 mg po 2 vezes/dia durante 2 semanas). prematuridade. As técnicas de PCR e de cultura directa do organismo. 18 meses. trombocitopénia em 25% dos casos. icterícia. O diagnóstico da infecção por Coxiella burnetii baseia-se. aneurismas vasculares. com uma taxa de ataque clínico e 20% em adultos e 3% em crianças. Uma epidemia na Alemanha em 2003 detectou 299 casos. e aumento dos enzimas hepáticos na grande maioria). pelo menos. utilizar-se também o cloranfenicol e a fluoroquinolona. Estas manifestações. O prognóstico varia do quadro completamente assintomático a uma doença crónica debilitante. variam segundo a localização geográfica. morte in útero. pseudotumor pulmonar. podendo. atrasos de crescimento uterino. Especialmente importante é a infecção durante a gravidez.cdc.discretas durante o surto epidémico. osteoartrites e osteomielite e.

sob a forma de deficiência mental severa O Especialista Coordenação Técnica de Ana Campos Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde. do uso de anticonvulsivos para controlo dos ataques epilépticos.000 meninas nascidas vivas na União Europeia). que codifica a proteína de ligação metil-CpG2 e que está localizado no braço longo do cromossoma X. por exemplo. A Síndrome de Rett corresponde a uma desordem neurológica progressiva e severa que afecta o desenvolvimento do sistema nervoso central. pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas. no âmbito de serviços de informação sobre doenças raras e medicamentos órfãos Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA. ICORD (III and IV WG) e a Pastoral da Saúde (Setúbal) 98 . melhorar o estado de alerta e o controlo nutricional especialmente de aporte de cálcio. é fundamental uma abordagem multidisciplinar que inclua o tratamento sintomático através. sendo actualmente coordenadora de projectos entre DGS-Raríssimas. Afecta em maior proporção crianças do sexo feminino (1 caso em 15. na região Xq28. Está associado a uma mutação espontânea no gene MeCP2. sendo que as primeiras manifestações clínicas ocorrem entre os 6 e os 30 meses de idade.Rett Apesar de não existir tratamento disponível.

org www. melhoria da interacção social. existência de desordens metabólicas ou outras de origem neurológica progressiva (resultado de infecção ou trauma. por exemplo). melhoria do contacto visual. atraso no crescimento. irregularidades respiratórias. movimentos das mãos estereotipados e repetitivos com perda do uso funcional. apraxia. perda de uso das mãos e movimentos estereotipados. Estudos revelam que a fisioterapia. atraso mental severo. do uso de anticonvulsivos para controlo dos ataques epilépticos.de www. regressão precoce das actividades comportamental. manifestação de sintomas piramidais e extrapiramidais. manifestação de disfunção da comunicação e de sinais de “demência”. 99 Para saber mais http://anpar. estágio II ou “estágio rapidamente destrutivo” (entre 1 e 3 anos) – caracterizado por rápida regressão e deterioração comportamental e linguística. estágio III ou “estágio pseudo-estacionário” (entre 2 e 10 anos) – em que se observa uma regressão dos traços autistas. retinopatia ou atrofia óptica. melhorar o estado de alerta e o controlo nutricional especialmente de aporte de cálcio.gov/sites www. ataxia.unifesp.htm> www. por exemplo.ncbi. São critérios de exclusão de Síndrome de Rett.orpha. visceromegalia. ausência de linguagem. microcefalia (perímetro craniano normal ao nascimento com desaceleração do crescimento da cabeça entre 6 meses e 4 anos de vida). microcefalia no nascimento. o atraso no crescimento intra-uterino. atrofia muscular. Apesar de não existir tratamento farmacológico disponível.enfermedades-raras. ataxia e convulsões. hipotonia.nlm.associada a um quadro clínico de hipotonia. insónia. estágio IV ou “Estágio de deteriorização motora tardia” (após os 10 anos) – assiste-se a perda de funções motoras.syndrome-de-rett.rett. rigidez.net/data/patho/Pro/en/Rett-FRenPro91.pt www. disfunções respiratórias. social e psicomotora (perda das habilidades previamente adquiridas). desaceleração do crescimento da cabeça. desinteresse por jogos. hidroterapia e reabilitação são fundamentais para a melhoria das competências e da qualidade de vida destas crianças. manifestações autistas.planetaclix.br/dneuro/neurociencias/vol12_2/rett_hidro. que duram R S por vários anos. é fundamental uma abordagem multidisciplinar que inclua o tratamento sintomático através. redução das crises epilépticas.org .pdf> www. crises convulsivas. O padrão evolutivo desta doença permite diferenciar 4 estágios: estágio I ou “estágio de desaceleração precoce” (entre os 6 e os 18 meses) – caracterizado por estagnação no desenvolvimento.nih.

palato arqueado e uma expressão facial muito própria – quando sorriem. pestanas longas. polegares e primeiros dedos dos pés grandes e largos. ponta do nariz (columela) proeminente em relação às narinas. de Especilista em Genética Médica Serviço de Genética Médica do CHLC – Hospital de Dona Estefânia. ponta do nariz (columela) proeminente em relação às narinas. pestanas longas. palato arqueado e uma expressão facial muito própria. As características faciais típicas são fendas palpebrais orientadas para baixo. os doentes O Especialista Maria Teresa Lourenço Formada no Hospital de Egas Moniz.Rubinstein-Taybi As características faciais típicas são fendas palpebrais orientadas para baixo. baixa estatura e atraso cognitivo que pode ser de moderado a grave. tendo obtido os graus de Assistente de Genética Médica da Carreira Médica Hospitalar. cujas principais alterações fenotípicas são uma aparência facial específica. A Síndrome de Rubinstein-Taybi é uma síndrome de anomalias congénitas múltiplas associadas a atraso mental. continuando a assegurar a sua actividade assistencial na área da Genética Médica 100 . onde se especializou em Medicina Interna Serviço de Genética Médica do Hospital de Egas Moniz .

www. dando a impressão que riem com os olhos fechados.apart-pt. estão recomendados programas de intervenção precoce. os pais de um indivíduo com SRT não são afectados. que muitas vezes são detectados já tardiamente.org www.rubinsteintaybi.rubinstein-taybi. As curvas de crescimento pré-natal são geralmente normais.rubinstein-taybi. adequados a cada caso. Neste caso. entre outros).nl www.org.org 101 . os únicos genes identificados e referidos como sendo responsáveis pela doença são os genes CREBB e EP300.rtsyndroom. logo nos primeiros meses de vida.rts. As mutações no gene EP300 são detectadas em cerca de 3% dos doentes. ocorre como uma R S mutação de novo.dk www.ommbid.org www. em particular na adolescência. Mais tarde.org www. Outras alterações que podem estar presentes são anomalias oculares (glaucoma. O SRT não tem um tratamento específico.com www. É. renais e ou esqueléticas. Até agora. anomalias congénitas cardíacas. contudo.1%). o risco de recorrência para os irmãos do indivíduo com a doença é muito baixo (aproximadamente 0. de modo a poderem beneficiar da realização de testes de detecção precoce (surdez. Para saber mais www.html www.freeservers. Embora seja muitíssimo raro que estes indivíduos tenham descendência. Em geral.com esta síndrome semicerram as pálpebras.artsbrasil.rtscanada.afsrt. patologia articular. Na maioria dos casos.br www. A SRT pode ser herdada de forma dominante. verifica-se um atraso de crescimento de instalação pós-natal. No entanto. O estudo citogenético molecular por FISH detecta microdeleções em cerca de 10% dos doentes com SRT. coloboma).com Com a colaboração da Drª Márcia Rodrigues. O estudo molecular de pesquisa de mutações permite identificar mutações no gene CREBB em cerca de 30 a 50% dos indivíduos afectados. o risco teórico para a descendência é de 50%.com/rts. anomalias oculares.org www. importante conhecer a história natural da doença. O diagnóstico de SRT baseia-se essencialmente na observação das características clínicas e de fenótipo específicas desta síndrome. É fundamental que estas crianças sejam acompanhadas por equipas médicas multidisciplinares. pois.rtsuk. podem ficar obesos.

Esta síndrome tem uma prevalência de 1/25 000 nascimentos. hipoplasia da face média e prognatismo. com alterações de comportamento.Smith-Magenis Os indivíduos com SSM apresentam alterações faciais que se tornam mais marcadas com a idade. esta síndrome (SSM) apresenta fácies característico. Descrito em 1986 por Smith e Magenis. a perda de audição progressiva e anomalias oculares. O diagnóstico é baseado nos achados clínicos e confirmado pela existência de uma delecção intersticial no braço curto do cromossoma 17. 1º laboratório privado de Genética Médica Responsável pelo 1º Programa de Rastreio Pré-Natal em Por tugal Especialista em Genética Médica Membro da Direcção do Colégio de Genética Médica da Ordem dos Médicos 102 . que se tornam mais marcadas com a idade. Também é habitual a baixa estatura. com distribuição idêntica em ambos os sexos e em todas as etnias. Os indivíduos com SSM apresentam alterações faciais. e que incluem braquicefalia. atraso cognitivo moderado e de desenvolvimento. e que incluem O Especialista Maria Purificação Valenzuela Sampaio Tavares Licenciada em Medicina e Cirurgia pela FMUP Professora Catedrática de Genética Médica da FMDUP Fundadora do CGC.

precocemente.2 ocorre habitualmente de novo. Também é habitual a baixa estatura.2. hiporeflexia. comportamentos violentos e auto-mutilatórios. Uma vez diagnosticada esta patologia. A delecção 17p11. <1% tem outras etiologias. O diagnóstico da SSM é realizado com base no diagnóstico clínico e confirmado com técnicas de citogenética (bandas GTG e FISH) para detectar a delecção do fragmento 17p11.org www. poderão ser ainda observados perturbações do sono (dificuldade em adormecer e em dormir por longos períodos seguidos). algumas estereotipias típicas desta síndrome. atenção reduzida com ou sem hiperactividade. hipoplasia da face média e prognatismo. dificulta o diagnóstico precoce.braquicefalia.genetests. por vezes. deve ser instituído um programa específico para avaliação e terapia do desenvolvimento e do comportamento. Com intensidade variável.rarissimas. a perda de audição progressiva e anomalias oculares. onde se situa o gene RAI1. gene responsável pela maioria das características desta síndrome. As alterações de comportamento são evidentes desde cedo. Convém aqui salientar a importância de grupos de apoio e de associações de doentes. A sequenciação deste gene é também possível. S Para saber mais www.pt 103 .orphanet. As manifestações clínicas desta síndrome durante a infância são subtis o que. os indivíduos devem ser acompanhados por uma equipa médica multidisciplinar. Também.pt www.

mais frequentemente sindactilia cutânea entre o 2º e 3º dedos dos pés e polidactilia pós-axial. com uma incidência estimada em 1/15 000 nascimentos na população caucasiana. É caracterizada por atraso de desenvolvimento psicomotor e anomalias congénitas. nariz de ponte achatada e narinas antevertidas. 104 . – Anomalias dos membros. A Síndrome de Smith-Lemli-Opitz é uma doença genética rara. nos casos mais graves ocorre feminização dos genitais masculinos. auto-agressividade e alterações do sono. incluindo in útero. clinodactilia e camptodactilia – Cardiopatia congénita. – Atraso de crescimento com microcefalia. como hipospádias e criptorquida. frequentemente. hipoplasia do cerebelo e holoprosencefalia. – Fotossensibilidade cutânea. nomeadamente à radiação UVA. desde casos muito graves com malformações múltiplas e morte precoce. As principais características clínicas são: – Atraso de desenvolvimento global. cantos da boca virados para baixo. a casos leves com anomalias minor e atraso ligeiro do desenvolvimento. alterações do comportamento como hiperactividade. perturbação do espectro autista. Pode também ocorrer hipoplasia do polegar. – Anomalias genitais no sexo masculino. que pode ter início pré-natal. associado. pavilhões auriculares de implantação baixa e rodados posteriormente. – Dismorfia craniofacial incluindo ptose palpebral. habitualmente comunicação interauricular ou interventricular. a dificuldades alimentares nos primeiros meses de vida. – Malformações do sistema nervoso central. fenda do palato/ úvula bífida e micrognatia. nomeadamente hipoplasia do corpo caloso.Smith-Lemli-Opitz A variabilidade clínica é grande.

a casos leves com anomalias minor e atraso ligeiro do desenvolvimento. desde casos muito graves com malformações múltiplas e morte precoce.A variabilidade clínica é grande. Esta síndrome é causado por mutações no gene DHCR7. Este tratamento parece ser bem tolerado e ter efeitos benéficos na evolução do crescimento. melhoria da fotossensibilidade e eventualmente melhoria das alterações do comportamento. O doseamento de 7-DHC no sangue é o método bioquímico de rastreio e confirmação da doença em casos clinicamente suspeitos. Esta doença não tem um tratamento curativo. As dificuldades de evolução ponderal e de alimentação poderão necessitar de apoio nutricional ou medidas cirúrgicas. como colocação de gastrostomia nos casos mais graves. na qual são detectadas anomalias fetais sugestivas deste diagnóstico. As alterações bioquímicas que ocorrem nesta síndrome são diminuição do colesterol total sérico. incluindo in útero. S O Especialista Maria Gabriela Oliveira Reis Soares Licenciada em Medicina pela Universidade do Por to – Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar Especialidade em Genética Médica por frequência do Internato em Genética Médica no Instituto de Genética Médica Jacinto de Magalhães Exerce funções como Assistente de Genética Médica na Unidade de Genética Médica do Centro de Genética Médica Jacinto de Magalhães – Por to 105 . os progenitores de um indivíduo afectado são portadores obrigatórios e têm um risco de 25% de recorrência da doença na sua descendência. que codifica para a enzima 7-dehidrocolesterol redutase. que podem incluir gestações de casais com uma criança anterior afectada ou gestações em casais sem história familiar. Tem hereditariedade autossómica recessiva. embora esta alteração não ocorra em todos os doentes. existindo indicação para efectuar tratamento com suplementos de colesterol. O diagnóstico pré-natal pode ser efectuado em situações de risco aumentado. e níveis de 7-dehidrocolestereol (7-DHC) sérico aumentado.

A fotossensibilidade. Para saber mais www. O acompanhamento médico deverá ser multidisciplinar. justifica a utilização de protecção solar. Os doentes e seus familiares deverão também ser vistos em consulta de Genética Médica para aconselhamento genético e programação de eventual diagnóstico pré-natal em gestações subsequentes. Pediatria do Desenvolvimento e Doenças Metabólicas. quando significativa.smithlemliopitz. estimulação global e apoio educacional. O atraso de desenvolvimento implica recurso a medidas de suporte como fisioterapia.org www. incluindo especialidades cirúrgicas de acordo com as anomalias congénitas presentes.orpha.net 106 .

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Spina Bífida
Há menos de três décadas, poucos bebés com SB sobreviviam ao seu 1º ano de vida. Hoje, graças a um melhor tratamento, que passa não só por uma sofisticação das técnicas disponíveis mas também por uma forte aposta na prevenção das complicações secundárias, 90% atingem a idade adulta.

A Spina Bífida (SB) é o mais frequente defeito do tubo neural (DTN). Consiste no não encerramento do arco posterior de algumas vértebras, com possibilidade de herniação da medula ou raízes nervosas. Em cerca de 80% dos casos a SB acompanha-se de hidrocefalia por malformação cerebral associada (malformação de Arnold Chiari II e/ou estenose do Aqueduto de Sylvius). Os doentes com SB têm compromisso motor e sensitivo, malformações ortopédicas, ausência de controlo de esfíncteres, complicações renais secundárias à bexiga neurogénia, além de complicações da hidrocefalia, traduzidas frequentemente por dificuldades de aprendizagem, atraso mental, perturbações do equilíbrio e da marcha e problemas oftalmológicos. A prevalência da SB tem vindo a descrescer nos países desenvolvidos, sendo actualmente cerca de 0,1 / 1000 nado-vivos. A etiologia é multifactorial com um componente genético e outro ambiencial. O tubo neural desenvolve-se nas primeiras 4 semanas da gravidez, quando a maioria das mulheres ainda desconhece que está grávida. Está provado que suplementos orais de ácido fólico na dose de 4mg/dia, 3 a 4 meses antes da concepção e ao longo do primeiro trimestre da gravidez, reduzem o risco de SB e outros defeitos do tubo neural em 50-70%. Quanto mais elevado for o nível da lesão maior a probabilidade de ocorrência de hidrocefalia e maior o grau de incapacidade motora e de complicações secundárias. A lesão medular e/ou das raízes nervosas é a responsável pela paraplegia mais ou menos grave, pelo compromisso das sensibilidades com risco de úlceras de pressão e queimaduras, pelas malformações e deformações ortopédicas, pela ausência de controlo dos esfincteres vesical e anal e pelas complicações nefro-urológicas. A medula ancorada é uma complicação frequente da SB. Traduz-se por deterioração 108

da marcha, agravamento da disfunção nefro-urológica com aumento da frequência de infecções urinárias e maiores dificuldades na continência espontânea ou social e desenvolvimento de escoliose. O tratamento da SB já é possível iniciar-se durante a gravidez, com a cirurgia fetal. O encerramento do mielomeningocelo (MM) in útero vai diminuir a probabilidade de desenvolver hidrocefalia mas parece não melhorar muito a funcionalidade dos membros inferiores. Após a criança nascer, o encerramento do mielo ou do meningocelo deve realizar-se, por neurocirurgião, nas primeiras 24 a 72 horas de vida, num bloco operatório isento de látex. A hidrocefalia pode estar presente logo ao nascimento (em cerca de 15% MM) e a derivação ventrículo-peritoneal (DVP) pode colocar-se em simultâneo com o encerramento do MM. Na maioria dos casos, a hidrocefalia torna-se aparente 2 a 3 semanas depois de encerrar o DTN, necessitando grande parte delas serem derivadas, colocando um tubo flexível no sistema ventricular cerebral (geralmente no ventrículo lateral direito) para drenar o excesso de LCR para o peritoneu. A maior parte das crianças com SB precisa de apoios para a sua mobilidade – talas, canadianas e/ou cadeiras de rodas.

O Especialista
Eulália Calado

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Chefe de Serviço de Neurologia Pediátrica Directora do Serviço de Neurologia Pediátrica do CHLC – Hospital D. Estefânia Coordenadora do Núcleo de Spina Bífida do CHLC – Hospital D. Estefânia Membro do Conselho Científico do Instituto Científico de Formação e Investigação da FAPPC (Federação das Associações Portuguesas de Paralisia Cerebral) Consultora de Neurologia Pediátrica do Centro de Paralisia Cerebral Calouste Gulbenkian Investigadora da SCPE (Surveillance of Cerebral Palsy in Europe) Membro do Conselho Científico da Associação Raríssimas.

109

Hoje. Outro dos factores condicionantes do prognóstico da SB e causa frequente de mortalidade são as complicações (obstrução. visual e motor. pois existe sempre a possibilidade da sua descompensação. Mesmo as hidrocefalias sem válvula necessitam de vigilância periódica. de modo a evitarem complicações renais e a obter. que passa não só por uma sofisticação das técnicas actualmente disponíveis mas também por uma forte aposta na prevenção das complicações secundárias. graças a um melhor tratamento.A ausência de sensibilidade favorece o aparecimento de escaras. com repercussões a nível cognitivo. que desde cedo deverão aprender a controlar e a tratar. muitas vezes. sempre que possível. Grande parte da população com SB tem alterações vesicais e intestinais (bexiga e intestino neurogénios). 90% atingem a idade adulta. A sua cicatrização é lenta e obriga. poucos bebés com SB sobreviviam ao seu 1º ano de vida. infecção) das DVP. Há menos de três décadas. devido à inexistência de dor. uma continência social. colocadas para resolução da hidrocefalia. à imobilização prolongada e a longos internamentos hospitalares. feridas ou queimaduras nas zonas afectadas. Para saber mais www.asbihp.pt 110 .

S 111 .

as cromossomopatias causam metade O Especialista Fernando J. Cada par resulta de um cromossoma herdado do pai e do cromossoma homólogo herdado da mãe. Regateiro Professor Catedrático da Faculdade de Medicina de Coimbra. Em conjunto.Trissomias A Trissomia 21 é a mais frequente. um ser humano normal tem 46 cromossomas. Assim. Por mecanismos diversos. A espécie humana é cromossomicamente diplóide. sendo a prevalência de 1/660 RN atingida em gravidezes a termo a partir dos 31 anos. podem ocorrer alterações do número de cromossomas. e aumentando com o avanço da idade materna (o risco é de 1 em 28 RN aos 45 anos e de 1 em 6 RN aos 50 anos). geralmente associadas a malformações congénitas múltiplas e atraso mental. com um complemento de 23 pares de cromossomas. onde rege a disciplina de Genética Presidente do Conselho de Administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra Presidente da Assembleia Municipal de Mira e da Assembleia da Comunidade Intermunicipal do Baixo Mondego 112 . surgindo as cromossomopatias.

e aumentando com o avanço da idade materna (o risco é de 1 em 28 RN aos 45 anos e de 1 em 6 RN aos 50 anos). de Down) Trissomia 18 (S.000 Recém-nascidos Trissomia XYY Heterocromossomopatias Trissomia XXY (S. de Klinefelter) Trissomia XXX Frequência 1/600 RN sexo masculino 1/1. é habitualmente muito baixa.000 RN sexo masculino As Trissomias do X ou do Y são menos severas do que as autossómicas. As Trissomias resultam da existência de um cromossoma supranumerário. podendo ocorrer noutras patologias. como nas restantes. A Trissomia 21 é a mais frequente. A prevalência das cromossomopatias nos RN ronda os 0. a severidade é maior. Dividem-se em autossómicas quando envolvem um cromossoma dos pares 1 a 22 e heterocromossómicas quando envolvem o cromossoma X ou Y. A probabilidade de uma mulher voltar a ter um filho com Trissomia 21. Entre as alterações cromossómicas mais frequentes em abortos espontâneos contam-se as Trissomias. ocorrendo estes em cerca de 20% das gravidezes conhecidas. ou de dois no caso das Trissomias. ressalvados casos familia113 T U V W X Y Z . Não havendo inactivação de um cromossoma autossómico a mais. algumas das anomalias físicas não estão presentes em 100% dos doentes. em nova gravidez dentro do casal.000 RN sexo feminino 1/1. de Edwards) Trissomia 13 (S.dos abortos espontâneos. ou mesmo em indivíduos normais. de Patau) Frequência 1/660 Recém-nascidos 1/8. o que compensa o efeito de dosagem génica.6%. Na Trissomia 21. em cerca de 50% dos casos.000 Recém-nascidos 1/10. devido à inactivação que normalmente ocorre na maior parte de um dos cromossomas X. sendo a prevalência de 1/660 RN atingida em gravidezes a termo a partir dos 31 anos. Trissomias Autossomopatias Trissomia 21 (S.

org/index. fendas palpebrais oblíquas para cima e para fora. Ligeira dificuldade de aprendizagem e da fala. são feitos diversos exames que podem culminar na amniocentese. boca aberta e protusão da língua. aparência eunucóide. Para saber mais www. baixa estatura. braquicefalia. esterno curto. atraso mental. fenda labial e/ou palatina bilateral. Trissomia XXX Sem anomalias físicas relevantes. estatura acima da média. de Down) Manifestações Face redonda de perfil achatado. microftalmia. microcefalia. malformações internas graves. ginecomastia. de Edwards) Dolicocefalia. e estudo do cariótipo fetal. malformações orgânicas graves. atraso mental grave. Trissomia 13 (S. micrognatia. microorquidia.org. No quadro seguinte sintetizam-se as manifestações mais significativas das Trissomias. sobrevivência rara para além dos 6 meses. nariz pequeno e achatado. crescimento deficiente. polidactilia.res identificáveis por cariótipo. Síndrome Trissomia 21 (S. de Klinefelter Hipogonadismo. malformações internas. prega palmar única. atraso de crescimento. S. Quando existe risco acrescido para Trissomia. esterilidade.trisomy. Trissomia 18 (S. sobrevivência rara para além dos 6 meses. de Patau) Holoprosencefalia. dificuldades de aprendizagem a nível da linguagem.pt 114 . Trissomia XYY Sem anomalias físicas relevantes. pelas 15 semanas de gestação. cavalgamento do 2º dedo sobre o 3º e do 5º sobre o 4º. problemas de aprendizagem frequentes.appt21.php www.

T U V W X Y Z 115 .

malformações típicas podem ser diagnosticadas por ultrasom.Turner Durante a gestação. A frequência do cariotipo 45. mas formas mais ligeiras são descobertas acidentalmente após amniocentese realizada por outros motivos. pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas. foi descrita pela primeira vez em 1938 mas a sua origem cromossómica apenas se descobriu em 1959. ICORD (III and IV WG) e a Pastoral da Saúde (Setúbal) 116 . no âmbito de serviços de informação sobre doenças raras e medicamentos órfãos Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA. O Especialista Coordenação Técnica de Ana Campos Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde. ou de Ullrich-Turner. sendo actualmente coordenadora de projectos entre DGS-Raríssimas. em que 1 caso em 2.000 nados-vivos.500 ocorre em crianças do sexo feminino. que representa entre 5-10% do total de abortos. X é cerca de 13% no momento da concepção sendo que 99% dos casos sofre um aborto espontâneo. sendo estimada uma incidência de 1 caso em cada 5. Corresponde a uma anomalia cromossómica associada à delecção parcial ou completa do cromossoma X. A Síndrome de Turner.

turnersyndrome. A qualidade de vida e a integração social são mais positivas quando a puberdade não é induzida tardiamente e quando não existe doença cardíaca ou surdez associada que. surdez. cardiovascular e da tiróide) que são menos comuns. bem como um seguimento contínuo. É característico destas crianças uma baixa estatura. mas formas mais ligeiras são descobertas acidentalmente após amniocentese realizada por outros motivos. e os restantes correspondem a casos de moisacismo 45. X.É provável que os genes implicados no fenotipo de Turner sejam genes associados ao cromossoma X que escapam à inactivação. pois o prognóstico depende da presença de doença cardíaca. T U V W X Y Z Para saber mais www.enfermedades-raras.X/46. infantilismo sexual e outras manifestações viscerais (anomalias ósseas. X e/ou anomalias no cromossoma X ou Y.org www. Menos de 50% dos casos correspondem a um cariotipo 45. O aconselhamento pré-natal é fundamental após o diagnóstico. mas que devem ser pesquisadas e que permanecem durante a adolescência e a idade adulta. hipertensão arterial ou osteoporose associada.Xj(X) ou fragmentos 45. pode conduzir a dificuldades de aprendizagem. malformações típicas podem ser diagnosticadas por ultrasom. obesidade. comprometimento gastrointestinal.orpha. Embora exista uma grande heterogeneidade de manifestações clínicas.org 117 . que conduz a um crescimento significativo. ausentes.pdf www. Durante a gestação. As medidas de intervenção incluem terapia com hormona de crescimento. por outro lado.X/46fra. linfoedema. Nestes casos. as anomalias físicas características podem ser graves ou.net/data/patho/Pro/fr/ Turner-FRfrPro44. por sua vez. menos frequentes são os casos 45. também a esterilidade pode ter um efeito negativo na qualidade de vida.

epitélio respiratório e cauda dos espermatozóides. no âmbito de serviços de informação sobre doenças raras e medicamentos órfãos Colaboração em projectos com o Laboratório de Farmacologia da FMUL e Infarmed Colaboração com os grupos ENCePP (3rd WG) EMEA.000. A Síndrome de Usher engloba características genéticas que implicam a perda auditiva e alterações visuais provocadas pela presença de retinose pigmentar. É transmitida hereditariamente através de um carácter autossómico recessivo que afecta tanto o sexo masculino como o feminino e tem uma taxa de prevalência de 1/30. O Especialista Coordenação Técnica de Ana Campos Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Lisboa Posgraduação em Toxicologia Genética e Toxicogenómica pela Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa Especialização em Bioética em Biotecnologia e Psicologia da Saúde. iniciando na periferia em direcção ao centro e seguindo frequentemente um padrão perivascular. ICORD (III and IV WG) e a Pastoral da Saúde (Setúbal) U 118 . sendo actualmente coordenadora de projectos entre DGS-Raríssimas. O distúrbio pigmentar caracteriza-se por um arranjo de pigmento negro em forma de osteócitos. células vestibulares.Usher O defeito ciliar é comum a qualquer dos tipos de Usher e está presente em vários tecidos de diferentes órgãos tais como: receptores auditivos. pela Universidade Católica Portuguesa (UCP) Desenvolve desde 2005 projectos com a Raríssimas.

119 U Para saber mais www. obtendo consequentemente uma melhoria na sua qualidade de vida. O defeito ciliar é comum a qualquer dos tipos de Usher e está presente em vários tecidos de diferentes órgãos tais como: receptores auditivos. Apresentam retinose pigmentar e cegueira nocturna que se manifesta na infância. acabando por levar o indivíduo à cegueira total. células vestibulares. na fase adulta (a cegueira nocturna só aparece com maior intensidade na infância e/ou na adolescência). Otorrinolaringologia.retinaportugal. com perda de equilíbrio. afectando apenas 10% da população com Síndrome de Usher. Apesar da perda da acuidade visual abaixo de 0.com www. O diagnóstico precoce assume extrema importância já que a doença compromete os dois sentidos considerados primordiais. ambos os subgrupos detêm uma apreciável oportunidade de manutenção da acuidade central até a quinta ou sexta décadas de vida.onored. cegueira nocturna e com perda de equilíbrio. Os portadores do tipo I têm uma maior probabilidade de desenvolvimento de lesões foveais atróficas ou císticas do que os pacientes portadores do tipo II. Tipo II – surdez ligeira a moderada. Tipo III – surdez neurosensorial congénita progressiva. com retinose pigmentar com início da puberdade. na maioria dos casos.pt . epitélio respiratório e cauda dos espermatozóides. não progressiva. na maioria dos casos na fase adulta.org. oftalmologia e genética são as especialidades presentes para um correcto diagnóstico da Síndrome de Usher. Através de um diagnóstico precoce e acompanhamento multidisciplinar os pacientes têm a possibilidade de pronto benefício dos recursos diagnóstico-terapêuticos em constante avanço.retinacv.Existem quatro tipos da Síndrome de Usher: Tipo I – caracterizado por surdez profunda desde o nascimento e retinose pigmentar e cegueira nocturna com perda de equilíbrio.5 ocorrer mais cedo na vida nos pacientes com o tipo I em relação ao tipo II. Tipo IV – é o tipo mais raro.

Reduz ainda a probabilidade de doença crónica ou recorrente. independentemente. sendo mais prevalente no sexo feminino. posteriormente integradas na mesma patologia. Conhecida há mais de 1000 anos.Vogt-Koyanagi-Harada A instituição precoce do tratamento conduz à resolução do quadro neurológico e ocular apesar das alterações dermatológicas serem persistentes. o seu nome provém dos três médicos que. O Especialista Eliana Rute Balbino Neto Licenciatura em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Internato Complementar de Oftalmologia 120 . A Doença de Vogt-Koyanagi-Harada é uma patologia inflamatória multissistémica rara. entre os 20 e 50 anos. estudaram e descreveram as diferentes fases da doença. Em termos epidemiológicos sabe-se que afecta mais frequentemente indivíduos de origem asiática e hispânica.

são uma ferramenta de apoio ao diagnóstico e/ou seguimento clínico destes doentes.Apesar da intensa investigação realizada. A instituição precoce do tratamento conduz à resolução do quadro neurológico e ocular apesar das alterações dermatológicas serem persistentes. O tratamento é dirigido à modulação da resposta auto-imune. Dado o largo espectro da doença. azatioprina) são uma forma de terapêutica adjuvante ou alternativa.uveitissociety. sendo baseado na constelação de sinais e sintomas oculares e extra-oculares. baseando-se na corticoterapia sistémica em altas doses e por longos períodos. 121 V Para saber mais www. incompleto ou provável) mediante a presença de todos ou parte dos critérios de diagnóstico (manifestações oculares. investigações actuais decorrem no sentido de identificar o alvo preciso do ataque imunológico e assim determinar o protocolo terapêutico mais adequado. acompanhadas de zumbidos. Sendo um facto que o prognóstico destes doentes tem vindo a melhorar nas últimas décadas. surdez e vertigem. semanas a meses depois dos sintomas oculares. meninges e pele. Em casos de corticorresistência ou efeitos secundários intoleráveis dos corticóides. além de queda do cabelo (alopécia). são evidentes áreas de despigmentação cutânea na cabeça. além de evidência clínica ou laboratorial que sugira outro diagnóstico. a perda da visão bilateral habitualmente é rápida e profunda. auditivas e cutâneas). pálpebras e tronco (vitiligo) e despigmentação do cabelo. existentes no olho. ouvido interno. a fisiopatologia da doença ainda não está totalmente esclarecida.org/pages/index. Na fase de convalescença. Algumas semanas depois. Apesar de não existirem exames laboratoriais específicos. O envolvimento ocular bilateral é obrigatório e secundário a inflamação uveítica anterior e/ou posterior. neurológicas. sobrancelhas e pestanas (poliose). a realização de punção lombar com análise do líquido cefalorraquidiano e a avaliação oftalmológica por angiografia fluoresceínica. surgindo associada a dor ocular e fotofobia. Em todas as formas de apresentação há que excluir história de traumatismo ou cirurgia ocular prévios. os imunossupressores (ciclosporina.html . Reduz ainda a probabilidade de doença crónica ou recorrente. o Comité Internacional de Nomenclatura definiu 3 categorias clínicas (VKH completo. Clinicamente inicia-se por febre e alterações neurológicas tais como cefaleias intensas e rigidez da nuca. ultrassonografia e tomografia de coerência óptica. Pensa-se que resulte de uma resposta imunológica anómala mediada por linfócitos T e dirigida às células que contêm melanina. O diagnóstico é clínico.

de transmissão autossómica recessiva. o que tem servido como marcador diagnóstico. A absorção do cobre proveniente da dieta excede as quantidades diárias necessárias. hereditária. acompanhada de doença hepática crónica que conduz à cirrose. Estão descritas mais de 200 mutações neste gene e é reconhecido que a maioria dos doentes apresenta estado de heterozigotia composta. também. O gene ATP7B codifica uma proteína transportadora de cobre. associada a perturbação do metabolismo do cobre. no hepatócito e. em 1912.000 a 100. há libertação deste metal na circulação e o seu nível sérico 122 .000 indivíduos. afectando 1 em 30. particularmente. O gene envolvido. É. posteriormente. que se expressa sobretudo a nível dos hepatócitos e funciona como bomba de cobre. como “degenerescência lenticular progressiva”: uma doença neurológica familiar e letal. pela primeira vez.Wilson As lesões hepáticas precedem. a doença neurológica. tornando muito complexo o diagnóstico baseado na genética. A deficiente excreção está associada a insuficiente incorporação daquele metal na ceruloplasmina. córnea e rins. ocorrendo em geral o seu diagnóstico na infância ou adolescência. A Doença de Wilson deve seu nome a Samuel Wilson que. em cerca de 10 anos. Trata-se de uma doença rara. inicialmente. com uma mutação diferente em cada alelo. foi identificado em 1993 e designado como ATP7B. denominada como degenerescência hepatolenticular. em diversos órgãos e tecidos. que resulta do defeito na excreção deste metal pela bile. cérebro. a descreveu. A função diminuída do ATP7B reduz a excreção hepática de cobre e causa a acumulação deste metal. Quando a capacidade de acumulação de cobre no fígado é excedida ou quando há lesão hepatocelular. A sua excreção pelos hepatócitos na bile é essencial para a manutenção da homeostasia deste metal. levando à sua acumulação. de que resulta maior degradação desta glicoproteína e consequente diminuição da concentração plasmática. localizado no cromossoma 13.

agressivo ou anti-social. Invariavelmente. a doença neurológica. tremor (postural ou repouso). designadamente. rigidez. fobias. bradicinesia. comportamento compulsivo. os pacientes podem ter sintomas exclusivamente psiquiátricos. O seu espectro vai desde simples elevação das transaminases (assintomática) até cirrose e falência hepática fulminante. em cerca de 10 anos. em alguns casos. Em até 20% dos casos. ocorrendo em geral o seu diagnóstico na infância ou adolescência. A Doença de Wilson pode causar lesão renal (nefrocalcinose. A fala e a marcha estão frequentemente afectadas. As manifestações clínicas neurológicas podem. coréia. depressão. Os sinais e sintomas mais comuns são anormalidades motoras. ser a forma de apresentação da doença. mais frequentemente na 3ª década de vida.não ligado à ceruloplasmina torna-se elevado. As lesões hepáticas precedem. representadas por distúrbios do movimento tais como distonia. As manifestações clínicas da Doença de Wilson. são extremamente variáveis. O cobre circulante deposita-se em tecidos extra-hepáticos. relacionadas sobretudo com o fígado e sistema nervoso central. O Especialista Filipe Calinas Assistente Hospitalar Graduado de Gastrenterologia do Centro Hospitalar de Lisboa Central Coordenador do Hospital-de-Dia Polivalente do CHLC – Hospital de Stº António dos Capuchos Responsável da Consulta de Hepatologia do CHLC – Hospital de Stº António dos Capuchos W 123 . os doentes com quadro neurológico têm doença hepática avançada. ataxia e instabilidade postural.

deve ser realizada biopsia do fígado e. no rastreio dos familiares de primeiro grau. é possível prevenir ou reverter algumas das manifestações da doença. apenas. entre outros. avaliada a concentração de cobre. hipoparatiroidismo. a transplantação hepática. avelãs e castanhas. Os quelantes são a penicilamina e a trientina. a promoção da sua eliminação e. cogumelos. instaladas na infância ou adolescência. cardiomiopatia e arritmias. Os quelantes estão particularmente indicados nos doentes com sintomatologia aguda e em que se mostra crucial uma rápida detoxicação inicial. As estratégias disponíveis para o tratamento consistem na redução da absorção do cobre. Diversas reacções adversas podem obrigar a reduzir as doses ou a 124 . acarreta grande morbilidade e morte. nesta. como antes referido. Este pode estar ausente em até cerca de 50% dos casos com manifestações exclusivamente hepáticas. Entre as manifestações oftalmológicas. São indicadores da doença. Na suspeição da doença. inexorável e precoce. Quase sempre o anel está presente nas formas neurológicas. em doentes com doença psiquiátrica atípica e naqueles com hemólise inexplicada ou manifestações de doença hepática sem outra causa aparente. ceruloplasmina sérica baixa e excreção urinária de cobre elevada.hematúria. marisco. a presença de anel de Kayser-Fleisher. A Doença de Wilson deve ser especialmente considerada em doentes jovens com sintomas extrapiramidais. O diagnóstico genético é complexo. ao ligarem-se e formarem complexos estáveis que são excretados predominantemente na urina. aminoacidúria). O diagnóstico é feito pelo cruzamento dos achados clínicos e laboratoriais. além dos sintomas referidos. A dieta com restrição de alimentos ricos em cobre não é suficiente para causar o balanço negativo daquele metal no organismo. é mais comum a deposição de cobre na membrana de Deçemet da córnea. usada desde 1956. que agem removendo e detoxificando o cobre intra e extracelular. O tratamento farmacológico é baseado em quelantes e sais de zinco. se não tratada. Mesmo assim. hemólise. A ressonância magnética. em particular quando atingimento hepático. fígado. pela possibilidade de múltiplas mutações envolvidas. artrite. osteoartrose. é aquela que reúne maior experiência. conhecido por anel de Kayser-Fleischer. indicada nos casos com manifestações neurológicas. Se diagnosticada e tratada precocemente. nozes. pode mostrar alterações localizadas com predilecção para os gânglios da base. devem ser evitados. O estudo genético tem interesse. A penicilamina. procurando nestes mutações do gene ATP7B semelhantes às verificadas naquele que se sabe ter Doença de Wilson. chocolate. em casos extremos. A Doença de Wilson.

uma proteína com elevada afinidade para o cobre e que se liga a ele no interior dos enterócitos. W Para saber mais www. A utilização em monoterapia está indicada no tratamento de manutenção. A Doença de Wilson pode ter um excelente prognóstico se diagnosticada precocemente. face aos quelantes. mas sem grande vantagem.enfermedaddewilson. O acetato (ou sulfato) de zinco age bloqueando a absorção intestinal de cobre. A trientina está reservada para os casos de intolerância à penicilamina. pode ocorrer agravamento da síndrome neurológica na fase inicial do tratamento. O zinco induz a síntese de metalotioneína.suspender este quelante. após expoliação eficaz do cobre no tratamento inicial com quelantes e nos casos de interrupção destes por reacção adversa. o cobre acaba sendo eliminado nas fezes.org 125 . em associação aos quelantes. se tratada apropriadamente e se houver aderência do doente à terapêutica ao longo da sua vida. A vantagem. é a ausência de efeitos colaterais. O uso pode ser considerado nas fases iniciais da doença assintomática. Com ambas. Com a descamação da mucosa intestinal. Os sais de zinco podem ser usados.

Wolf-Hirschhorn
O diagnóstico pré-natal é possível através do estudo dos cromossomas fetais, recorrendo a biópsia das vilosidades coriónicas (10 a 12 semanas de gestação) ou a amniocentese (14 a 18 semana de gestação).

Em 1961, Hirschhorn e Cooper descreveram o aparecimento de defeitos de fusão da linha média em associação com uma delecção de um cromossoma do grupo B. Em 1965, Wolf et al documentaram um caso idêntico, que publicaram em conjunto com o original de Hirschhorn, criando assim uma entidade clínica que designaram por Síndrome de Wolf-Hirschhorn (SWH), associada a uma delecção do braço curto do cromossoma 4. Esta síndrome tem uma prevalência estimada de 1/50 000 nascimentos, com in-

O Especialista
Maria Purificação Valenzuela Sampaio Tavares

Licenciada em Medicina e Cirurgia pela FMUP Professora Catedrática de Genética Médica da FMDUP Fundadora do CGC, 1º laboratório privado de Genética Médica Responsável pelo 1º Programa de Rastreio Pré-Natal em Por tugal Especialista em Genética Médica Membro da Direcção do Colégio de Genética Médica da Ordem dos Médicos

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cidência no sexo feminino duas vezes maior do que no sexo masculino. Com elevada mortalidade pós-natal, 1/3 dos recém-nascidos não resiste aos primeiros 12 meses devido a complicações cardíacas e/ou a infecções. Os indivíduos com SWH têm marcado atraso de crescimento intra-uterino. As alterações crânio-faciais são características e incluem microcefalia, fronte alta com glabela proeminente, hipertelorismo, epicanto e sobrancelhas arqueadas. Estas alterações tornam-se menos evidentes com a idade. Habitualmente, o desenvolvimento é lento, com atraso cognitivo moderado a grave, hipotonia e convulsões. As crianças com esta patologia podem ainda apresentar malformações esqueléticas (60 a 70%), patologia cardíaca congénita (50%), defeitos estruturais a nível cerebral (33%) e perda de audição (30%). O diagnóstico é sugerido pelas características fenotípicas e confirmado pela delecção da região crítica da Síndrome de Wolf-Hirschhorn (4p16.3), através de bandas GTG e FISH (taxas de detecção de 60-70% e >95% respectivamente). A maioria dos indivíduos (75%) apresenta uma delecção de novo, i.e., constitui o primeiro caso na família. Outros mostram anomalias citogenéticas diversas como o cromossoma 4 em anel (12%) ou translocações não equilibradas resultantes de um progenitor equilibrado (13%). Num casal em que um dos progenitores seja portador de uma anomalia cromossómica complexa que possa resultar numa delecção da região 4p16.3 num descendente, as gestações são consideradas de risco para a SWH. O diagnóstico pré-natal é possível através do estudo dos cromossomas fetais, recorrendo a biópsia das vilosidades coriónicas (10 a 12 semanas de gestação) ou a amniocentese (14 a 18 semana de gestação). O aconselhamento genético é importante na informação às famílias quanto ao risco, consequências e implicações desta anomalia genética, e orientações futuras. O estabelecimento de um programa de acompanhamento e/ou reabilitação, de forma a melhorar as capacidades motoras, cognitivas e sociais destas crianças, deve ter início o mais precocemente possível. Convém ainda salientar a importância dos grupos de apoio, bem como de associações de doentes e seus familiares, na informação e suporte a portadores desta patologia. 127

Para saber mais

W

www.orphanet.pt www.genetests.org www.rarissimas.pt

X-Frágil
As crianças são habitualmente escolarizáveis mas com aprendizagens escolares limitadas. Inicialmente, pelo menos, integram o contexto escolar normal com apoios individualizados e um curriculum adaptado às suas necessidades educativas.

A Síndrome X-frágil é uma das causas mais frequentes de deficiência mental. A deficiência mental que afecta cerca de 2 a 3% da população é constituída por uma multiplicidade de situações genéticas e não genéticas. A Síndrome X-frágil representa apenas cerca de 2% dos indivíduos com atraso mental. Esta doença resulta de uma mutação genética no gene FMR1 (as iniciais de Fragile X Mental Retardation) que se situa no cromossoma X. Este gene codifica uma proteína (a proteína FMR1) que desempenha importantes funções ainda incompletamente conhecidas na comunicação entre as células do Sistema Nervoso. A mutação X-frágil caracteriza-se por um aumento do tamanho de uma parte deste gene, o que interfere com o seu normal funcionamento. Além da mutação completa, ou seja a situação em que o gene tem uma dimensão anormalmente maior, existe uma situação intermédia chamada premutação. A transmissão à descendência por uma mãe afectada por uma premutação leva probabilisticamente a que 50% dos descendentes do sexo masculino irão herdar esta anomalia. No processo de transmissão deste gene de mãe para filho ocorre uma “expansão” adicional do gene, uma mutação. A Síndrome X-frágil manifesta-se, assim, tipicamente em rapazes. As mães portadoras de uma premutação são habitualmente normais, embora um pequeno número possa ter ligeiras dificuldades intelectuais. Algumas características físicas, habitualmente presentes, sugerem esta doença. As dimensões da cabeça são grandes, geralmente acima da média. A face é alongada, o queixo é um pouco procidente e as orelhas são grandes e têm uma posição de rotação anterior. As mãos e os pés manifestam uma flexibilidade excessiva (“laxidão ligamentar”). Estas características físicas não são óbvias nos primeiros anos de vida e tornam-se mais aparentes na infância tardia e adolescência. 128

A evolução intelectual é habitualmente a de uma deficiência mental moderada (QI médio de 50) embora para alguns a deficiência seja menos grave. do que na compreensão da linguagem. nos primeiros anos de vida. O próprio processo de aquisição da linguagem é atípico e não raramente há tendência. Num pequeno número (menos de 10%) de rapazes a quem é diagnosticado. o que sugere. mais na capacidade para falar. pelo menos. Estas crianças mostram uma tendência para evitar o contacto visual e têm. no processo de aquisição da linguagem. o diagnóstico de autismo. Estefânia e de várias Instituições Hospitalares que prestam cuidados de Saúde em Pediatria Autor ou co-autor de diversas Comunicações em Reuniões Médicas e de trabalhos publicados na área de Neurologia Pediátrica Revisor ad hoc para Neurologia da Acta Pediátrica Portuguesa. frequentemente. integram o contexto escolar normal com apoios individualizados e um curriculum adaptado às suas necessidades educativas. Inicialmente. Um pequeno número (cerca de 10%) dos portadores da mutação X-frágil terá O Especialista José Pedro Vieira Especialista de Pediatria e de Neurologia Pediátrica pela Ordem dos Médicos Consultor de Neurologia Pediátrica do CHLC – Hospital D.A aquisição da linguagem é tardia. autismo verifica-se subsequentemente terem a mutação X-frágil. maneirismos e estereotipias motoras como abanar as mãos no contexto de excitação e uma dificuldade ou aversão por circunstâncias sociais inabituais.e do “Journal of Pediatric Neurology” Membro do Scientific Advisory Council para a área de Neurologia da CDLS Foundation (Fundação Internacional Síndrome de Cornélia de Lange) Membro do Comité Cientifico da Raríssimas (Associação Portuguesa de Doenças Raras) X 129 . São habitualmente escolarizáveis mas com aprendizagens escolares limitadas. para repetir frases que são aprendidas de cor (“ecolália”). associado à ausência de linguagem. São frequentemente também impulsivas e hiperactivas.

org. excepcionalmente.orpha. É importante reconhecer este diagnóstico porque a família é aconselhada quanto aos riscos de repetição (nomeadamente a probabilidade de ocorrer um novo caso numa gravidez de uma mãe portadora de premutação).net/consor/cgi-bin/OC_Exp. 3– Intervenção Psiquiátrica para os problemas de comportamento e de adaptação. 4 – Tratamento de epilepsia. 2 – Medidas educativas especiais destinadas a compensar as dificuldades da criança.xfragil.org 130 .br www.convulsões mais frequentemente na idade escolar ou na adolescência. php?Lng=GB&Expert=908 www. que não são habitualmente difíceis de tratar.wisc.fraxa. Para saber mais www.htm www. É importante também para o caso identificado porque serão necessárias diversas intervenções: 1 – Terapia da Fala.edu/lib_frgx.familyvillage.

X 131 .

A sua personalidade é variada mas. Os indivíduos afectados têm características fenotípicas variáveis e. também. pelo menos. Foi documentado em vários indivíduos uma diminuição do QI em 10 a 15 pontos e aproximadamente dois terços apresenta dificuldades de leitura e discurso. com frequência. A diminuição da produção do androgéneo implica uma involução testicular e o desenvolvimento de um hipogonadismo hipergonadotrópico. têm incidências inferiores às da síndrome clássica (47. está apenas descrito um pequeno aumento da incidência de criptorquidia. É na puberdade tardia que a decrescente concentração do testosterona tem tradução clínica. a altura e o perímetro cefálico têm uma evolução normal. com mais de uma cópia extra do cromossoma X ou cópias extras de ambos os cromossomas X e Y (48. 48. A sua O Especialista Teresa Taylor Kay Geneticista Clínica 132 .XXXXY).XXYY. na infância. XXY). A ginecomastia transitória surge.XXXY.XYY Foi documentado em vários indivíduos uma diminuição do QI em 10 a 15 pontos e aproximadamente dois terços apresenta dificuldades de leitura e discurso. existe imaturidade e comportamento introvertido.XY). com maior frequência mas raramente permanece até a idade adulta. 49. Os cariótipos variantes. A Síndrome de Klinefelter (XYY) descreve um grupo de desordens cromossómicas nas quais há acréscimo de. O peso. As características sexuais secundárias não completam o seu desenvolvimento e a aparência eununcóide tem maior probabilidade de ocorrer. um cromossoma X ao cariótipo normal (46.

Interna do Internato Médico de Genética Médica Para saber mais www. Assim. Na vida adulta tendem a ser mais altos (186 cm vs 177 cm) e têm risco ligeiramente aumentado de desenvolverem diabetes mellitus. quer para a Trissomia 21. aumento da libido e prevenção da osteoporose. A confirmação diagnóstica poderá surgir no decurso de: – Estudo pré-natal. osteoporose. O conhecimento diagnóstico permite um acompanhamento especializado com a monitorização do crescimento e do nível hormonal do adolescente.XXY em relação aos homens 46.unitask. Existe um efeito significativo relacionado com idade materna avançada. O cancro da mama é mais comum em homens 47. mas o risco total (3%) permanece inferior ao do sexo feminino. A reprodução medicamente assistida através da Injecção Intracitoplasmática com Fertilização in vitro (ICSI) conferiu paternidade biológica a raros indivíduos.personalidade é variada mas. mas o risco de recorrência global é baixo (<1%). respiratória e do aparelho digestivo. existe imaturidade e comportamento introvertido. o diagnóstico pré-natal deve ser oferecido nas futuras gestações. quer para os cromossomas sexuais. Na descendência pode haver maior risco de aneuploidia. Com a colaboração da Drª Tânia Serrão. A fertilidade da grande maioria dos indivíduos é nula. patologia cardiovascular. A terapêutica atempada com testosterona poderá trazer benefícios na auto-estima. O cromossoma extra deste cariótipo resulta de um defeito esporádico da meiose na gametogénese ou da mitose no desenvolvimento do zigoto. – Estudo pós-natal.it/portale X 133 .XY (risco relativo de 20). para esclarecimento do atraso no desenvolvimento da linguagem. – Investigação da infertilidade masculina na idade adulta. com frequência.

que provocam gastroenterites. A taxa de incidência foi de 2. Em Portugal o número de casos reportados é muito baixo. através da picada da pulga Xenopsylla cheopis. na carne (sobretudo de suíno). muitas vezes. A forma respiratória (mais grave) é uma doença conhecida desde a antiguidade sendo também conhecida como peste bubônica ou peste negra. não necessitam de tratamento pois são autolimitadas mas quando surgem complicações recorre-se a antibióticos. no leite e na água.Yersimiose Conhecem-se duas formas clínicas diferentes de doenças causadas pelo género bacteriano Yersinia sp (yersinioses): uma que causa infecções entéricas. As infecções por Y. enterocolitica o agente mais frequente desta infecção. petéquias e septicemia. pseudotuberculosis. Os principais sintomas da doença são inflamação nos gânglios linfáticos. sobretudo. mas também consegue crescer a temperaturas de refrigeração. geralmente. 134 . enterocolitica. Os suínos são considerados os reservatórios primários dos serotipos patogénicos para os humanos. com complicações para além desta localização e uma que causa infecções respiratórias graves (conhecida por peste bubónica). A forma entérica causa uma enterite ulcerosa com linfadenite necrosante local. aparece em crianças e os sintomas mimetizam os da apendicite mas a evolução pode ser breve ou prolongar-se durante meses. Em 2005 foram reportados 630 casos humanos por 21 Estados Membros da União Europeia. importante nos países mais frios. sendo a Y. Estas bactérias podem encontrar-se na natureza.6 casos por 100 mil habitantes. Muitas vezes. cujos principais sintomas são muitas vezes associados a artrites e/ou a um eritema nodoso. Os agentes deste tipo de Yersiniose transmitidos através dos alimentos são a Yersinia enterocolitica e a Y. Evitar o contacto com roedores e erradicá-los das áreas de habitação é a única protecção eficaz. sendo. Esta doença é causada pela bactéria Yersínia pestis e a transmissão é feita de roedor para roedor ou de roedor para o homem. A Yersinia cresce entre 25ºC e 37ºC. apenas cerca de 10 a 20 casos/ano.

O diagnóstico é feito por recolha de amostras de líquido dos bubões, pús ou sangue e cultura em meios de nutrientes para observação ao microscópio e análise bioquímica. A peste é fatal nos roedores. As pulgas abandonam os animais mortos, parasitam outros roedores e, até, mesmo, o homem. Neste caso podem causar os grandes surtos epidémicos. O tratamento destes casos efectua-se recorrendo a antibióticos. Estes revolucionaram o tratamento da peste, tornando-a de agente da morte quase certa em doença facilmente controlável. Normalmente, utiliza-se a estreptomicina, tetraciclinas, cloranfenicol gentamicina e a doxiciclina. A peste é de comunicação obrigatória às autoridades. Contactos de indivíduos afectados ainda hoje são postos em quarentena durante seis dias. A peste negra já vitimou milhões de pessoas em várias partes do mundo, principalmente na Ásia, Europa e África, não existindo casos reportados em Portugal.

Para saber mais
http://kidshealth.org/parent/infections/bacterial_viral/ yersinia.html

Y

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Zellweger
A adrenoleucodistrofia neo-natal e a doença infantil de Refsum são formas mais leves no Espectro Zellweger, havendo uma sobreposição clínica bioquímica e genética entre estes três fenótipos.

A Síndrome de Zellweger e as suas variantes menos graves, como a adrenoleucodistrofia neo-natal e a doença infantil de Refsun, constituem um continuum clínico de doenças do Espectro de Zellweger. Pertencem ao grupo das doenças da biogénese do peroxisoma (DBP) doenças muito graves, autossómicas recessivas, clínica e geneticamente heterogéneas. São causadas por mutações em, pelo menos, 11 genes diferentes (PEX), que codificam proteínas, as peroxinas, necessárias para a biogénese normal do peroxisoma. Caracteristicamente afectam a síntese do plasmalogeneo e a beta oxidação dos ácidos gordos de cadeia muito longa (VLCFA) levando à sua acumulação nas membranas das células neuronais e contribuindo para a lesão neurológica. A existência de várias mutações e polimorfismos contribuem para a heterogeneidade fenotípica observada nestes doentes. A sindrome cérebro-hepato-renal de Zellweger, representa o fenótipo mais grave deste espectro e pode ser

O Especialista
Maria Teresa Cardoso
Médica especialista em Medicina Interna, graduada em Chefe de Serviço Coordenadora da Unidade M1 do Serviço de Medicina Interna do H. S. João Responsável pela Consulta de Doenças Hereditárias do Metabolismo do Adulto do Hospital de S. João no Por to Coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da Sociedade Por tuguesa de Medicina Interna Faz par te do Grupo de Estudo da Doença Vascular Cerebral do H. S. João

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considerada o arquétipo das DBP. Ocorre em 1/25000-1/50000 nados-vivos. Os indivíduos afectados apresentam, ao nascer, dismorfias craniofaciais (macrocefalia, testa alta, fontanela anterior alargada, prega de epicanto, lobos auriculares deformados com implantação auricular baixa), hipotonia grave, convulsões neonatais, atraso psicomotor, hepatomegalia com disfunção hepática, icterícia prolongada, quistos renais, calcificação das epifises e defeitos de migração neuronal. Referida retinopatia pigmentar e cataratas com alterações da visão e surdez neurosensorial. A adrenoleucodistrofia neo-natal e a doença infantil de Refsum são formas mais leves no Espectro Zellweger, havendo uma sobreposição clínica bioquímica e genética entre estes três fenótipos. A primeira, de apresentação neonatal, tem uma sobrevida até aos 3 a 5 anos, a segunda, de apresentação mais tardia entre o 1º e o 6º mês, apresenta sobrevidas até à adolescência. Nesta, as alterações dismórficas são ligeiras ou ausentes, a deterioração neurológica é mais lenta e os doentes podem andar, embora com ataxia. Algumas formas mais leves podem ter sobrevidas até à fase adulta com um quadro clínico de atraso do desenvolvimento e psicomotor moderado a grave, com retinopatia e surdez neurosensorial. Bioquimicamente caracterizam-se por aumento dos VLCFA, dos ácidos pristánico, fitánico e pipecolico no plasma e fibroblastos e por níveis de plasmalogéneo baixo nos eritrócitos. O diagnóstico do defeito genético primário (análise de DNA) é crucial para o aconselhamento genético, para a detecção de portadores e para o diagnóstico pré-natal. O diagnóstico pré-natal pode ser conseguido através da avaliação da concentração dos metabolitos do peroxisoma, através da actividade das enzimas peroxisomais ou por técnicas de rastreio molecular. A análise de VLCFA em cultura de amniócitos ou de células das vilosidades coriónicas é o método mais frequentemente usado. Conhecido o defeito molecular, o diagnóstico deve ser confirmado por análise da mutação. A detecção por RMN do padrão característico com polimicrogiria, alteração da mielinização e pseudocistos cerebrais periventriculares facilita o diagnóstico pré-natal. O aumento da translucência da nuca por ultrasonografia e a diminuição dos movimentos fetais podem sugerir o diagnóstico. Neste momento o tratamento é, essencialmente, de suporte com administração oral de ácidos biliares e dieta pobre em ácido fitánico e pristánico. Intervenções terapêuticas visando os defeitos bioquímicos e suas repercussões clínicas ainda não estão demonstradas. Está em investigação o tratamento com o ácido docosahexaenoico etil ester (DHA) com efeitos benéficos na função hépatica, na visão e no tonus muscular, mais notórios quando o tratamento se inicia antes dos 6 meses de vida. 137

Para saber mais
www.eimaep.org/spdm/index.htm

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MZÍNDICEWOLJBHUWRTYSFGHCVAUN 04 08 02 22 24 Prefácio Cornelia de lange Costello 12 26 32 46 38 42 Fabry Fibrose Quística 50 52 Acondroplasia Acromegalia Angiodema Hereditário Distrofias Musculares Drepanocitose Gaucher Gist Grito de Gato 54 58 66 60 Ictiose Lamelar Congénita 64 74 70 72 Leucemias Linfomas 76 78 88 84 Osteogenesis Imperfecta 92 102 98 100 Rett Rubinstein-Taybi 104 108 Joubert Machado-Joseph Marfan Mieloma Porfíria Aguda Intermitente Púrpura Tombocitopénica Imune Smith-Magenis Smith-Lemli-Opitz Spina Bífida 112 116 122 118 128 132 Usher X-Frágil XYY 134 Yersimiose 136 Zellweger 120 Vogt-Koyanagi-Harada 126 Trissomias Turner Wilson Wolf-Hirschhorn 96 Q Febre 80 Neurofibramatose tipo 1 68 Hipertensão Arterial Pulmonar Huntington Kabuki Kawasaki 16 18 34 36 Bernard-Soulier Bheçet Ehlers-Danlos Esclerose Tuberosa .

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