Como compreender ou descompreender o conceito de educação

Ailton Benedito de Sousa

Educação – significados de mais versus significados de menos Esta palavra tem uso em duas bem distintas articulações contextuais. Na primeira, Educação é tarefa particular de grupos sociais que se singularizam diante dos demais – etnias dominantes, classes sociais, castas religiosas, famílias, dinastias, tendo em vista o domínio. Lembrado seja que no período clássico, nas cidades gregas – no mínimo, de 2/5 a 3/5 da população eram escravos, abrindo-se aos senhores em exclusividade (porque tinham lazer, lamento dizer, o estudo da natureza, a política, a caça, a guerra. Educação respondia pela transmissão, em compartimentos estanques, do conhecimento relativo a essas atividades. (http://en.wikipedia.org/wiki/Slavery#Classical_Antiquity). Que seria de um sistema de castas como o indiano, até mesmo em função de sua impermeabilidade, não fosse a “educação” que lhe é inerente – cada casta com a sua, os brâmanes até com língua exclusiva? Um dalit fugindo de uma aldeia e se apresentando na cidade vizinha como sudra, é possível? As aristocracias maia e inca cada qual se distinguia por formas educacionais específicas, intransferíveis, inclusive a partir de línguas próprias. Na baixa e na alta Idade Média a escola, católica, era certificadora da classe social do indivíduo. É de notar que jamais as referências a esse tema, educação, dê destaque a essas funções instrumentais ao “ordenamento” social. Meio inconfortável saber que a “mãe da democracia” ocidental vivia às custas de 60% da população, os escravos. A segunda articulação é a individual, em que Educação pode significar o Caminho, o Curso, a Luta íntima do indivíduo em processo de

conscientização, de autoconstrução, sua Grande Jihad, para usar conceitos da moda. Hoje é difícil imaginar a função da educação como uma competência individual justamente porque em nossos dias o indivíduo está morto, outro aspecto de nossa triste realidade de que ninguém fala. Nada obstante, essa dimensão insiste em fazer-se presente aqui e ali, até mesmo no testemunho de vida de um homem como o ministro Joaquim Barbosa de nosso STF, aqui citado por questão didática, pois muito próximo de nós, no tempo e no espaço. Advirta-se que reconhecida como a cidadela inexpugnável do indivíduo-universo, é a educação que de fato constrói o mundo. Mas essa compreensão fica para sempre ausente do discurso das pessoas em geral. Assim compreendida, ou seja, nessas duas articulações, a palavra educação não apresenta inovação substancial de significado nos últimos 5 mil anos ou mais. Milhares de anos após a época de esplendor das práticas referidas acima, na primeira articulação do termo – educação como instrumento de castas – , no mundo contemporâneo o dominado continua, ingenuamente, a pôr-se na posição do “outro”, tentando puxar um pouco mais de “educação doada” para si, mas nem sempre a pretensão dá certo. Custeado pelo patrimônio público, no Brasil principalmente a partir dos anos 50 do século XX, o Estado territorial expande a educação geral como tarefa legitimada, assumindo sozinho seus gastos astronômicos, sua macro e micro gestão; mas a velha tendência de fazê-la instrumento das classes hegemônicas persiste e atua para anular resultados que pudessem ser favoráveis às massas: não obstante os 5 mil anos, tem sequência, de um lado, a educação efetiva para os ricos, para fazê-los ricos e justificá-los como ricos... e o resto – a deseducação, para os pobres, para fazê-los pobres e justificá-los como pobres. Em si, as novas tecnologias não representam mudanças de monta para as massas, se estas não a tomarem, a educação, em suas mãos e tratarem de se educar, contra, em oposição à ação do Estado ou de qualquer outro poder opressor. No formato atual, educação pública, gratuita, do Estado, porque de costas para o povo, deve acabar. É tema onde se achar a eterna insatisfação do homem massificado. Proposições que deixo abertas, a serem criticadas hoje frente às novas tecnologias da informação e da comunicação e aos novos arranjos do Estado territorial mundializado.

Educação universal, aberta a todos, até aqui tem-se revelado utopia, salvo momentos e fases de intensa e profunda mudança social em pontos localizados, URSS, China, Cuba. Não falamos nos Tigres Asiáticos porque bem conhecemos o tipo de tratamento que as etnias javanesas, malaias, chinesas, indianas dão aos povos autóctones – os povos negros da antiga Melanésia, Filipinas, Bornéus, enfim, das 23 mil ilhas que constituem o arquipélago. Educação popular só pode ter sentido quando resulta do esforço revolucionário ou transformador das massas oprimidas, fazendo jus, advirta-se, à repressão na medida em que apresente frutos indesejáveis ao poder. Fato comprovável na história, reafirmamos, educação é transitoriamente pilar de sustentação das revoluções, de seu novo ideário, especificamente naqueles períodos de intensa mudança do quadro de valores das sociedades em conflagração – a Europa durante a Reforma, por exemplo.(Harold J Grimm, The reformation era – 1500-1650, passim). Terminada essa fase, ela volta a ser ancila do hegemônico. Sua “doação” a todas as classes sociais, ou melhor, sua doação num formato estatal que possa ser usada e aproveitada por imensa população pelo menos nacional, implícita sua expansão permanente, extrapola as funções de qualquer Estado subalterno como o que ainda temos – desde que se respeite limitações da chamada economia de mercado, pois este organismo não pode ao mesmo tempo controlar a demanda através da supergestão econômica, e expandir uma educação que abra o leque de demandas, de consumo. A insistir-se, como querem os nossos slogans nas greves de professores, não se pode ter como resultado senão superposição de atividades com desperdício... e deseducação. A China articula sua experiência por entre arrecifes e escolhos da realidade, na medida em que sua política estratégica visa a posição hegemônica mundial, quando terá que se deparar com questões hoje ainda inimagináveis, tanto ecológicas quanto político-sociais. Deve ser observada como parâmetro para o Brasil, que todos querem potência. Enquanto o futuro é o hoje A deturpação do significado do termo, a partir das falsas expectativas que lhe são atribuídas, mais se põe de manifesto em países como o Brasil, onde jamais houve movimento abrupto de efeitos duradouros e bem sucedidos visando a qualquer mudança significativa do quadro de valores da sociedade como um todo. Jamais tivemos “revoluções”. Nem

revoluções nem surtos ou reavivamentos com reflexos na procura por novos valores e conhecimentos. Assim, a Abolição chegou, os valores escravocratas, porém, perduram. Note-se aqui que cento e tantos anos após a proibição do trabalho forçado, ainda se luta, sem sucesso, por fazer valer a Lei 10.639 que obriga o ensino da história da África em nosso nível médio... Ainda se luta por acabar com o trabalho escravo, pasmem! (É esse povo que, através de segmentos de classe média, propugna por mais educação?,. Qual? Como?, veiculada por louras apresentadoras de programas para criança?). A República, criada por latifundiários, segue sem republicanismo, igualmente sem, por óbvio, noção de coisa pública, de cidadão, cidadania, sem distribuição, por ato de lei legítima, do patrimônio territorial entre seus cidadãos. Recentemente aprovou-se determinada medida compensatória ao trabalho e patrimônio roubados de índios e negros, coisa desprezível em termos de paliativo – a lei das cotas, declaração dizendo apenas: não é crime criar cotas. Mas os eternos beneficiários do trabalho roubado foram e continuam contra, como é de se esperar. Rapazinhos e meninas “branquinhos” (alguns acintosamente pintados de preto) foram às ruas protestar. E o peso-pesado de sua argumentação sai da educação, ou seja, “dê qualidade ao ensino público para que todos possam concorrer em igualdade de condições”...(sic). Implícito fica que enquanto isso não ocorre, eles são os donos das universidades... do governo. A propósito, em anos sucessivos, desde que começou o Enem – Exame Nacional do Ensino Médio, embora Portaria Ministerial de 1998, reatualizada em 2009) tardia experiência e uma das únicas a poder receber o nome de instrumento da meritocracia, pois bem, todos os anos os exames são anulados, porque até funcionários de nível subalterno vendem os resultados das questões... (Fato que na Alemanha determinaria a renúncia do chefe de governo). Na mais recente anulação, entrevistados em contexto de galhofa, muitos jovens disseram “estou adorando, porque com a anulação continuada dos exames, vamos ter mais tempo de estudar” (sic, sic, assim mesmo duas vezes)...E passar num exame onde o rico já comprou as respostas para sempre, completamos nós. Pois é esse Enem que se quer elevar à condição de viga-mestra de nossa experiência em termos de meritocracia. Se os 100 milhões de necessitados dessas políticas afirmativas forem esperar mudança desse lado, terão comprado bilhete premiado de segunda mão. Se, por hipótese, a escola pública eleva seu

nível de ensino, os ricos tomam-na de assalto “democraticamente”, ou seja, a partir de concursos feitos por eles para eles mesmos. E foi assim no passado, Escola Técnica Nacional, Colégio Pedro II, este criado para os pobres, só agora começa a vê-los, aos poucos... E que jamais se fale nos colégios militares das três forças armadas. Rico americano jamais põe filho em escola pública, o brasileiro não, lei do Gerson. Já se cogitou e se cogita de lei que obrigue a que políticos matriculem seus filhos na escola pública – para terem acesso às cotas?.. É em momentos específicos como o atual – greve de funcionários públicos com aderência maciça de professores universitários, que as palavras de ordem, slogans, e cartazes servem de desaguadouro ao imaginário coletivo: mais educação = maiores salários para os professores. Que educação? Que é educação? Para quê, para quem? Sem tirar uma vírgula das denúncias que fazemos no curso deste artigo, digo que os surtos modernizadores que a partir da Revolução de Trinta vem sacudindo o mofo dos nossos quinhentos anos de conservadorismo, só têm logrado êxito porque a articulação do conceito de educação como cidadela do indivíduo tem força no seio da população. Somos muitos ministros Joaquim Barbosa. A questão do método, como sempre O grande problema da linha de reflexões que muitos chamam de ciências sociais é esse: estreiteza, ou melhor, padronização, dos espaços onde procurar as trilhas e pegadas daquilo que a consciência do pesquisador torna objeto de estudo. Por exemplo, se se quer estudar história, documentos escritos adrede chamados de (e juramentados como) “históricos” são declarados “ fontes exclusivas”, o que é presunção e absurdo. No caso deste artigo, se quisermos estudar o tema educação, onde deveríamos procurar as trilhas e pegadas desse objeto? Por óbvio, desde que nada de interessante queiramos saber, nos registros das escolas, ministérios e secretarias, no depoimento dos nossos educadores-chapa branca. Também nas estatísticas e nos manuais oficiais específicos, elaborados e remanipulados pelo pensamento etnocêntrico, pilar da cultura greco-romana-judaico-cristã. Achamos que cumpre renovar, procurar essas trilhas alhures, onde fontes de origens diversas destaquem nuanças insólitas do tema, ilumine os esforços comunitários por suprir as deficiências do

Estado, nas biografias em geral, nas práticas culturais expressivas do imaginário das massas deseducadas, na chamada subcultura ou resistência cultural, nas taxas do fluxo migratório, nas características de nossa população carcerária, nas práticas de resistência ativa e passiva ao conteúdo dos programas e planos de aula, na crença, culto e prática da utópica meritocracia, nas críticas a suas distorções, nas falhas e deformações das instituições ditas educacionais? Cabe ao pesquisador decidir. Cumpre inovar. Diante dos significados ideologizados em que o termo educação procura se esconder à compreensão pragmática ou crítica, os mais salientes e perniciosos, por isso moeda de largo curso, são os que insistem em entender educação como solução à fieira de problemas sócio-econômicos complexos, porque enraizados nas camadas profundas das estruturas sociais, por necessidade implicando soluções radicais, isto é, a partir da raiz, problemas para os quais, se solução houver, esta só pode derivar de revoluções. Dito de outro modo, problemas que a “educação” só pode enfrentar se legitimada por um “Basta”, por parte das massas, por uma revolução. Palavras de ordem como “Cotas e medidas compensatórias não, mais verbas para a educação!” – só têm sentido junto a quadrilheiros. Nada obstante, educação, nos termos acima, é proposta no programa de todos os candidatos a postos eletivos nestas eleições. Seria um ato falho? Nessa linha de constatações, devemos assumir os riscos inerentes à procura de novas trilhas que levem a diferentes quadros de compreensão desse objeto de conhecimento, como faz Foucault relativamente a temas como a loucura. A Torre de Babel como instrumento do poder Para o autor deste artigo, adverte-se de antemão, o trabalho de maior envergadura realizado pelo “poder” no afã de manter o status quo nas sociedades de classe é o de apagar, truncar ou realçar, ou seja, manipular o fato/dado histórico-político, pela simples razão de que ele, o poder, não existe sem um determinado logos legitimador. Permanentemente, o poder tem que justificar-se como certo, irreprochável em sua ação ou marcha, segundo mapa ou teoria obviamente legitimados como ortodoxos. Para essa permanente legitimação, pode-se recorrer a tudo, principalmente à guerra, à destruição do outro, na medida em que sua

existência questione as afirmações desse poder. Em tempo de paz, porém, o principal campo de batalha é o ideológico como bem ilustra a lenda da Torre de Babel. Embaralhe-se o significado dos termos com que os homens se comunicam, ou melhor, criem-se expectativas diferentes para os mesmos significados, por exemplo, proteste defender um povo de seu tirano destruindo, via satélite, sua infra-estrutura – água, energia elétrica, rodovias do país. A seguir, bombardeie as casa a partir de drones e, depois, deixe que indiscerníveis mercenários, patriotas, mulheres e crianças se destruam sem saber quem é amigo e quem é inimigo. Conclusão: “Foise o tempo em que tirano era um governante abominável.” É quando tirania vira virtude e democracia vício. No contexto comunicacional, pode-se recorrer à pletora de expressões ideologicamente neobatizadas, as representações sociais, frases feitas que poupam ao falante o trabalho de raciocinar: “As redes sociais são armas do povo para promover a democracia”, “tudo começa e termina pela educação”, “antes de mudar, cumpre educar” ,“mais prisões e mais polícia na rua para acabar com a violência de nossas gangs juvenis”, etc. Quanto ao educar antes de mudar, o contrário, reconheça-se, fez o invasor europeu a partir do século XVI: diante das civilizações ameríndias, seus monumentos, narrativas e demais marcas culturais – línguas, religiões, mitos etc., como preliminar às ações de conquista, imediatamente deles se apropria por roubo, butim, depois os redefine, apaga, destrói, por exemplo erigindo catedrais católicas sobre as fundações de edifícios de mesma função entre os maias e astecas. Aqui não há o “antes de mudar, cumpre educar”. Educação aqui se fez e se faz na fase do rescaldo, trabalho de terraplenagem ou de sapa, índice da efetividade das operações realizadas nas etapas anteriores. Nessa linha de ação, e no decorrer dos séculos, o mínimo que podiam fazer, para tripudiar sobre os vencidos, era apagar, na educação em particular, e na cultura em geral, quaisquer trilhas, traços, marcas que pudessem indicar ter havido (e a partir daí poder prosperar) qualquer experiência de civilização nas Américas. Quer-se insistir aqui, como o primeiro golpe à nossa indiferença quanto ao vocabulário que usamos, que educação para povos vencidos, colonizados ou em diáspora não pode ter os mesmos significados e ethos que educação para os colonizadores. Quer-se insistir aqui, também, que do mesmo modo

que sua homóloga cultura, educação é instrumento de guerra, é aríete na destruição de restos da fortaleza dos vencidos. E, adverte-se, não é no Estado nacional em que o ex-colonizador é hegemônico com exclusividade que devemos procurar implantar uma educação que proponha mudanças. Nesse sentido, é conclusão deste autor, todo o arcabouço de conceitos que sustentam nossa compreensão do mundo, se não analisado e criticado, é falaz, nós jamais poderemos nos entender entre nós mesmos, já que nos comunicamos na língua do vencedor e através dos termos do vencedor. Critique e reconstrua a língua que lhe deram, leitor. Educação no Brasil, tal qual se define hoje, não pode prosperar, já que como está, responde pelo desfazimento de qualquer sonho de nação. Educar , educar-se para quê? A compreensão do parágrafo acima já ilumina certas ilações que gostaríamos de ressaltar: a atividade educar no sentido de interagir com o outro no processo de construção do indivíduo como ente social ativo, funcional, não cimentado (a funcionalidade respondendo pelo que também se possa entender por liberdade), implica compreendê-lo como: a) ser num passado social específico, b) ser num presente social específico e c) ser num futuro social imaginado, sonhado, projetado e co-participado, isso tudo num quadro de condicionantes tais que o educando legitime a ação própria (e/ou de outrem) que se faça sobre si, “queira ser educado e educar-se a si mesmo” – pois educar-se, para o indivíduo atomizado, só pode ter sentido como “preparar-se para uma guerra agressiva ou defensiva”, “a guerra da vida”, aceita como dada a explicação dos demais elementos essenciais, na visão do soldado, inerentes a uma guerra: sua vida no fio da navalha; pertencimento a um grupo dentro de outros grupos; as vitórias táticas lhe oferecendo isso ou aquilo e as estratégicas levando “àquilo”, portanto: “ eu aceito o sacrifício, a submissão às contingências da educação, pois é para o meu bem”. Na Idade Média europeia, onde estava o Estado territorial educador? Nos quadros do Estado-nacional territorial da atualidade, até quando e em que momentos a conscientização para essa guerra é função do Estado, da sociedade, de instituições como a família, igrejas etc. ou do próprio indivíduo? Se a classe burguesa europeia tivesse de ser recriada hoje, quem seriam os professores? Quem ensinou cidadania aos habitantes de

burgos europeus frente à tirania dos duques-bandidos a cavaleiro dos vales? Na Europa posterior ao século XIV, que Estado, instituição, ensinou a fulano ou a beltrano amealhar moeda como reserva de valor, e não glebas de terra? Quem elevou o nível de conhecimentos matemáticos dos grandes “sábios” europeus – principalmente os que de “elucubrações próprias” (é o que os hegemônicos nos deixam inferir) inventaram o cálculo... Quem foi o mestre de René Descartes, já que durante a maior parte da vida combatia como mercenário? Quem ensinou marinharia e navegação a Cristóvão Colombo? Não nos digam que foi Roma... Quem ensinou mecânica, tecnologia e inovação a Leonardo Da Vinci? O conhecimento é social, chega de tanto protagonismo por parte de meia dúzia de europeus. Newton e os demais são tornados ladrões pelo discurso etnocêntrico, que ao mesmo tempo destrói as provas incriminadoras. O eterno complexo de protagonismo absoluto. Até quando, a necessidade de haver no educando essa consciência por educar-se como o desafio número um da vida, é reconhecida e respeitada por aqueles que hoje pretendem educar? Pensamos que no conscientizar para educar, a conscientização brota no coletivo integrado – o conhecimento é social. Se nos quadros da sociedade medieval europeia a terra como reserva de valor estava reservada a nobres, cumpria perceber-se outras modalidades de reserva de valor, percepção que não brotaria na consciência de um ser que estivesse isolado, na condição de escravo ou servo. O indivíduo socialmente integrado, consciente, célula desse coletivo, “sabe” as tarefas que lhe cabem, da mesma forma que o outcast, o marginal, as suas. Ninguém ensina “cidadania” a ricos, por quê? Assim, jamais pode estar excluída a existência de uma democracia de massas de que exsude, transpire, educação em função de sua pulsão centrípeta. Educar para integrar, integrar para educar Então, o alvo número um de qualquer sistema educacional é a integração social, com que “levar e incentivar o educando a querer educar-se, a querer aprender”, pois é por aprender que ele vai participar e é por participar que vai aprender. A partir daí tudo caminha no sentido da transformação do homem e de sua ambiência, a favela vira bairro; a prisão, escola; os becos viram ruas com praças e jardins. Se naturalmente existe o mal, por que não pode do mesmo modo existir o bem? Mas notem o que temos: à urbanização, temos as Unidades de Polícia Pacificadora, cuja razão de

existência é que o distribuidor da droga não mais pode ser o homem da localidade, o chamado bandido da área, ex-menino de rua, pois este não tem hábitos de consumo e de administração financeira suficientes para gerir o imenso montante das receitas do tráfico. À medida que ficavam milionários, começaram a soltar presos em presídio a partir de incursão por helicóptero, a comprar apartamentos, sítios e fazendas em áreas que jamais os aceitariam, já que outcasts, a andar em parada (os bondes) pelos subúrbios. E não sabiam aplicar em bolsa. Um rápido diagnóstico Com os critérios acima em mente, pincelemos algumas das mais contundentes falhas dos sistemas estatais de educação de países como o Brasil: a) formar o ente-social oriundo de várias etnias sabotando-lhes, aos pertencentes às etnias subjugadas, o seu passado cultural específico, compreendendo-os como parasitas, como filhos de chocadeira – caso generalizado em todas as formações pós-coloniais, haja vista os princípios e objetivos estruturantes da descoberta, conquista e colonização (observese que muitos educadores brasileiros, negros até, pasmem, bloqueiam qualquer tentativa de aplicação da Lei 10639, alegando que ela vai criar racismo...); b) formar o ente oriundo das mais pobres camadas sociais a partir de sua rendição/derrota como ser criativo, a partir da sua auto-assumpção como pobre, carente, parasita – de que se põe como exemplo saliente até mesmo a seriação (com hierarquização das disciplinas, dos profissionais e maior fatia no orçamento nacional): primário, secundário, superior/universitário, quando os equivalentes aos pré-primário, primário e secundário é que deveriam estar no topo da escala de valores da sociedade, até mesmo porque a maioria da população insere-se neles; indo-se ao incomum, ao modo de raciocinar desusado (segundo a visão preconceituosa atual), nada impede que um homem a partir do secundário se torne, como autodidata, cientista de renome, coisa comum nos quadros pós-revolucionários do século XX, principalmente – URSS, China, Cuba; enquanto o contrário é aqui encontradiço: pessoas com mestrado e doutorado, a partir de falta de emprego, pobreza, em processo de regressão;

c) defasagem da visão de mundo veiculada em seus meios didáticos – sala de aula, livros, material didático em geral: por um lado, o ensino de uma ciência e cultura geral exsudada de fontes históricas etnocêntricas velhas de 200 anos, inútil até para fazer palavras cruzadas hoje; por outro, uma orientação pedagógica displicente, para que do genérico e defasado, o educando pobre possa tirar “algo” específico com que arranjar um bico, um emprego, ao mesmo tempo que se lhe outorga, a esse educando, a responsabilidade absoluta pelo seu presente de pobreza, na medida que lhe são ensinados conceitos-chaves à sua própria inculpação: índice/taxa/coeficiente de empregabilidade, quando “é” levado a assumirse como perdedor numa sociedade onde todos são iguais(!), perdedor até pelo fato de não ter outra opção de “educação” a não ser nenhuma ou a pública, correcional, esta apenas para provar que a privada, que seleciona pela renda é, como a estrutura econômica recém-privatizada, o paradigma da eficiência, do sucesso, da modernidade; d) formar um ser que do ponto de vista ideal se quer, ao mesmo tempo, livre (para votar e consumir bens caça-níqueis, geradores de consumo: mp4, tablet etc.) e ativo (para “se virar”, ganhar a vida de qualquer maneira nas cadeias produtivas da rua, isto é, camelô); e) custo astronômico do sistema, extrapolação dos limites da sua sustentabilidade no sentido de taxas de eficiência hipernegativas. A propósito, o Estado do Rio de Janeiro, como sempre, no final dos anos 80 e principalmente após o segundo governo Brizola, inovou para pior e foi imitado por vários dos demais Estados, criando instituição paralela à Secretaria de Educação, ou seja, a Faetec – hoje um monstro sem pé nem cabeça, mas de grande valia: 1) para o Executivo (veja-se o imenso montante de receitas não vinculadas à sistemática de administração que essa entidade carreia às mãos do governador); 2) à população que independente da questão do custo, tem demanda por escola relativamente atendida, do mesmo modo que a tem atendida na questão da saúde – as Unidades de Pronto Atendimento. Em que grau é esse atendimento, que o povo avalie. Esta instituição, verdadeiro ministério estadual, tem órgãos e ação em todos os níveis educacionais, do pré-primário e educação especial – deficientes, artes etc., passando por todos os níveis até o universitário e pós-universitário (considerados os convênios). E isso tudo caracterizando duplicidade, em

paralelo à função das Secretaria de Educação, de Cultura etc. Já é um monstro rebelde a qualquer tipo de controle por parte dos Tribunais de Conta e dos Ministérios Públicos. É feudo inexpugnável de alguns dos partidos da eterna coligação no poder. A ineficiência desse sistema em duplicidade de funções seria manifesta se houvesse parâmetro, termo de comparação. Não havendo, tudo que ele produz é considerado lucro, sucesso. O mesmo ocorre no caso da saúde com as Unidades de Pronto Atendimento. O paciente dessas experiências é o incerto futuro amanhã O ser que é submetido a essas experiências educacionais, repudiadas até por adestradores de animais – por exemplo, essa de não respeitar as características típicas do animal em adestramento, é do ponto de vista genético, portentosa criação da história e da biologia, a não ser que se creia que exista ser humano “sangue puro”, algo como um povo se reproduzindo entre si mesmo nesses dois ou três mil anos. Assim, reabilitada a norma, a mestiçagem, esse povo brasileiro nasce no delta de imensos desaguadouros genéticos, cada qual vindo de uma das grandes nascentes da humanidade: as da África, as da Europa, as das Américas. Nesta sua atual fase e aqui no território brasileiro, o ser que essa escola quer educar, diferencia-se por um passado de quinhentos anos de exploração e degradação de seu valor social, cultural e genético – é o negro, o mestiço, também chamado selvagem, indígena, indigente. No que tange a sua educação, com ele faz-se o contrário do recomendado, ou seja, compreendê-lo como ser num passado social específico, ser num presente social específico e ser num futuro social imaginado, sonhado, projetado e co-participado. É o ser de chocadeira de nossos políticos educadores. Interessante na observação do quadro caótico de nossa sala de aula na escola pública é ver as orientadoras educacionais – essa atividade de fofoqueiras, coisa sem pé nem cabeça, já que não são professores, agitadíssimas para acabar com o booling ou bulingue, ou qualquer diabo que seja com que mais cimentar seu poder sobre os professores. Que diabo é isso? As crianças são entre si rixentas, perversas e até covardes às vezes, comportamentos ora sim, ora não presentes entre os seres humanos... A escola é também pra isso, dar espaço à afirmação do eu, qualquer que ele seja. Daí a tomar o termo dos norte-americanos e festejar o halloween em sala é demais. Ridículo.

Como resposta, este ser socialmente traumatizado, mas de si mesmo jamais lerdo, passivo, num ou noutro surto de consciência ou de intenso grau de sanidade mental, rebela-se e repudia a algaravia ensinada: cantilena insossa que confirma tudo que ele vê de abominável em sua ambiência: o racismo, a irracionalidade ou falta de “ acomodação ao pensamento”, das pautas de valores dados. Pelo que lhe vem aos olhos, a partir dos 12 ou 13 anos forma-se em sua cabeça a convicção de que “neste mundo dos adultos”, uma pessoa como ele se constrói como ente de respeito mais a partir do que consome, do que daquilo que estuda. Afinal de contas, ele viu isso através da televisão, a mãe ia trabalhar e o deixava trancado vendo programas da Xuxa. Mas para bem consumir e ser objeto do respeito alheio, ele precisa de moeda. Para tê-la... “O berço?, o trabalho, a educação?” “Uma habilidade mente-corpo privilegiada? – o futebol, a música?” “A sorte, a loteria, uma parada, um ganho, um roubo?” Por aqui se vê que “a autoridade” que cria o consumidor e o consumismo, de propósito, para uns não cria as oportunidades para a obtenção da moeda (a outra face do primeiro), não cria os postos de trabalho. Por lei, o jovem até maioridade é proibido de trabalhar (não de votar) –já que lugar de jovem é na escola (mas que escola e pra quê?) e, pasmem, é criminalmente responsável... (aqui o visado é o pobre negro das periferias). Para esse jovem, de imediato, principalmente nos fins de semana, bate a questão: “que vale mais, a condição de sobriedade natural em estado de permanente depressão, exclusão, falta crônica de moeda, portanto falta de alegria, ou a condição de alucinação por drogas?” “Estudar pra quê, se não é pelo saber que as coisas se resolvem?”. Ronaldinhos, Neymar, Pelés (esse, o bom moço) estão à sua frente. Na sua área de moradia, as hienas sociais – policiais deformados, milicianos, bandidos, traficantes, a infelicidade social generalizada, a velhice, através dos pais, degradada, a corrupção da atividade política, o prêmio ao” jogo de cintura”, à lei do Gerson, ao conjunto futebol-patrocínio-mídia, a empulhação dos sorrisos e asneiras nas redes sociais, a degradação moral antes de qualquer consciência moral (?), a degradação física a partir dos arremedos de esporte e do fisiculturismo, ambos manipuláveis pelo uso de drogas energéticas e transmetabólicas, ressalve-se o termo, vendidas em qualquer supermercado. Mas a seus olhos, aos olhos do nosso jovem, o mundo não se apresenta congelado na vertente íngreme da dicotomia vício-virtude, até mesmo porque lhe sonegaram a posse de qualquer consciência crítica,

principalmente de uma consciência moral. Assim, ao mesmo tempo em que se vê num quadro de carências e negatividades, ele vê com seus próprios olhos que ‘através dos meios de comunicação’, como num filme, o mundo “lá fora” funciona maravilhosamente bem, “as pessoas, a maioria brancas, de tanta felicidade agora só mostram os dentes, a dentadura, “há dentaduras lindas nas páginas dos Faces-Orkuts”..., “a grande merda é a realidade aqui, em casa”. Os espasmos vibráteis provocados pelo mundo das tecnologias da informação e das comunicações via mídia para as massas, tirando da cartola o tênis e o mp3 mais novos hoje, dos mais novos ontem, ecoam no âmago de sua libido, e ele, já dependente de qualquer droga, vê-se dependente também desta – a moda dos penduricalhos tecnológicos, a moda da feira de Orlando. “Afinal de contas, onde é mais fácil encontrar água, nas proximidades dos rios ou no deserto?” E parte para fazer “seus ganhos onde estiver rolando grana”. “Como será o novo iPhone semana que vem?” Em momentos de crise no nível de seu superego, ele vê a Educação, a Escola, a igreja evangélica mais o pastor, com seu carrão, como símbolos da eterna salvação, a eterna saída e inclusão, mas vê essa Santíssima Trindade tão afastada de si que não vale a pena correr quaisquer riscos por ela. É quando muitos jovens fazem o que os porcos em engorda deveriam fazer: greve de fome. Ou seja, à medida que se conscientizam de que deles se espera uma resposta que legitime e justifique os gastos astronômicos do sistema educacional, a vacuidade cavalar e ignorância crassa dos professores e orientadoras escolar, quando insensíveis, racistas, uma resposta que leve todos ao paraíso com salário decuplicado, esses jovens reagem de modo explícito sem fingimento, isto é com deboche, com desdém, sem entusiasmo: vomitam ou regurgitam a merda de conhecimento que lhes dão, muitos aderindo ao crime e às drogas mesmo enquanto na escola. Em certos lugares chegam até a se armarem, então dando origem ao que, segundo Jean-Jacques Rousseau, não podia existir: a guerra individual. Como era de esperar, são destruídos, dando-nos, ao Brasil, mais esse troféu – campeões de morte, de assassinato de jovens à bala. Itaparica, setembro de 2012