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BANIDOS
Sophie Littlefield

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Prólogo
Junho de 1995
Acordar era doloroso. A cabeça latejava e havia alguma coisa em seus olhos, algo pegajoso e morno que prejudicava a visão. Ela piscou com firmeza e conseguiu enxergar melhor, o suficiente para perceber que estava em um carro. Não um carro qualquer, mas o do namorado. Era um Celica Branco, e ao mover a mão ela tocou as próprias pernas, sentindo o tecido sedoso e macio do vestido. O contato a fez lembrar: era noite de formatura, e eles estavam a caminho do Boone Lake levando a garrafa de champanhe que ele comprara uma garrafa em um balde com gelo. Antes de sair, ela havia passado pelo banheiro feminino para retocar o batom e o perfume, preparando-se para se despedir de todos os amigos reunidos no ginásio da escola. Lá, no espaço decorado com fitas e balões coloridos, os professores sorriam e acenavam para eles, porque eram bons alunos, tinham boas notas e não criavam problemas. Mas seu namorado havia bebido muito desde que chegaram na festa de formatura, e apesar de não estar exatamente bêbado, ele dirigia em alta velocidade pela State Road 9, os dois rindo muito enquanto ele fazia as curvas com uma das mãos no volante, a outra deslizando pelas dobras macias do tecido verde de sua saia. E ela não o detivera. Porque gostava de sentir a mão dele ali. E mal podia esperar para poder beijá-lo

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de novo. E estava gostando da velocidade e dos perigos das curvas da estrada, porque era como voar para o futuro, para o dia que deixariam Gypsum para nunca mais voltar. Mas alguma coisa havia acontecido. Agora não havia luzes no carro, nem mesmo o brilho do painel. Mas os faróis continuavam acesos, um deles iluminando o bosque à direita da árvore contra a qual haviam batido. O outro farol entortara e projetava sua luz num ângulo maluco. O raio iluminava o corpo dele caído no chão a uns três metros do carro, numa posição que não parecia nada natural. Ela começou a gritar, arrancando o cinto de segurança e empurrando a porta, mas não conseguia abri-la, estava emperrada ou presa, e ela rastejou para o banco do motorista, raspando o joelho em alguma coisa afiada, o pára-brisa, o pára-brisa que se quebrara, ou, ela percebeu horrorizada, havia sido estilhaçado pelo corpo de seu namorado. Ele nunca usava o cinto de segurança, por isso voara pelo pára-brisa e passara por cima do capô do Celica destruído, indo aterrissar no chão de terra, onde jazia ferido e sangrando. A porta do lado do motorista cedeu um pouco, e ela se espremeu pela fresta e saiu do carro, tropeçando na barra do vestido, o lindo vestido tomara-que-caia que , ninguém sabia, fora comprado na St. Benedicti’s, uma loja barata em Tipton, mas se ajustava em seu corpo como se houvesse sido feito sobre medida. Levantando a saia, ela correu na direção do namorado, tropeçando no salto antes de cair de joelhos ao lado dele. A mão, aberta e com a palma voltada para cima como se ele tentasse alcançar alguma coisa, sofreu um espasmo no mesmo instante em que os lábios se moveram. Os olhos dele era vidrados e sem foco, e ela se inclinou para tentar ouvir o que o namorado tentava dizer. - Dói... - ele conseguiu murmurar, passando a língua pelos lábios secos e cortados. - Não, por favor, não... - ela respondeu, abrindo o paletó do smoking com toda delicadeza de que era capaz. A imagem provocou um pavor que oprimiu sua garganta. Era demais. O ferimento era muito grave. A ferida aberta e escura brilhava à luz da lua, e o sangue que dela jorrava molhava a terra fria e seca.As mãos tocaram a área do ferimento, os dedos tentando determinar seu tamanho exato, as palavras dançando em seus lábios antes mesmo de ela perceber que havia tomado uma decisão. Mas o rapaz falou primeiro. - Eu... Eu amo...

. . que a reconhecia. Quando se inclinava para beijá-lo e abraçá-lo. um suspiro – ela parou no meio de uma palavra cujo som estava gravado na memória. quem quer que fosse sequer havia tentado.. . Cem vezes. sentindo o coração congelar. não me deixe. cem noites..5 A voz era tão fraca que foi quase impossível ouvi-la. não como sua avó sabia não como ela temia saber.. Mas ele não respondia. E não havia nada neles. e ela tocou seu rosto. em noites iluminadas por chamas tremulantes de velas e pelos olhos brilhantes e determinados de sua avó.Disse as palavras como a avó havia ensinado. mas essa noite era a primeira vez que ela rezava com fervor para que as palavras funcionassem. cada esperança. e quando ele piscou duas vezes. ela o viu piscar mais uma vez e abrir os olhos. as sílabas deslizando como fita de gaze por entre seus lábios. palavras que ela entoara centenas de vezes no passado.Vincent – ela murmurou. Era um olhar que a via. – O coração batia forte no peito. mas um brilho de compreensão iluminou seus belos olhos castanhos. e ele a olhou como fazia quando ia buscá-la na escola. piscou. dissera as palavras. .Não me deixe – a jovem sussurrou – Por favor. realmente reconhecia de um jeito que a mãe nunca a reconheceu. e o pai. revirando os olhos que se tornavam opacos novamente. mas ela o havia trazido de volta. E ele voltara. – Vincent.. Vincent. como fazia quando procurava seu rosto na multidão depois de cada partida de futebol.. porque ele não a abandonara. como a olhara na primeira vez que ela passara pela frente do armário dele no ano anterior. mantendo-os abertos. A floresta em torno deles era escura e silenciosa como uma pedra. Quase morrera. por favor. Seus olhos estavam vazios e os lábios estavam imóveis. mas cujo significado nunca soubera realmente. Era o olhar no qual ela depositava todos os sonhos.. Seu namorado se moveu novamente. por favor... Um movimento... ela disse as palavras. mesmo as mais tolas.

embora o Sr. Francheski tenha parado o ônibus. Ninguém precisava me dizer que. mas após anos sem nunca entregar a documentação exigida nem se apresentar para as obrigatórias reuniões com professores. Vovó acatou a determinação. desde que podia me lembrar. eu era suja. Mas isso não detinha as crianças no ônibus. os representantes do serviço social finalmente se cansaram e decidiram que eu tinha que ir para a escola normal. A primeira coisa que notei nas outras crianças foi que todas pareciam prontas para aparecer na tevê. comparada com aquelas crianças. As unhas eram curtas e não tinham aquela sujeira preta que eu sempre via sob as minhas. assistentes sociais finalmente obrigaram minha avó a me mandar para a escola. . Suas roupas eram novas e passadas a ferro. Eu as chamava de “Limpas”. ficado de pé e gritado: . A viagem de volta para casa não foi diferente. Os cabelos brilhavam e estavam sempre penteados. ela sabia quando havia perdido uma briga. eu havia sido chamada de vários nomes feios e havia sido acusada de ter piolhos e uma avó bruxa.Vocês todos foram criados em estábulos? Onde está a educação de vocês? Sejam gentis com essa nova menina.6 Capítulo 1 Agora Quando eu tinha oito anos. Até então. No final da minha primeira humilhante viagem à escola. ela havia dito as autoridades que me alfabetizava em casa.

crianças que passam despercebidas. mas há ali uma estrutura como em qualquer outro lugar. Foi lavado ontem á noite e secado com um secador que comprei com minhas economias. Vovó deu de ombros. se quiser. tão baixo de todo mundo que nem vale a pena o esforço de tentar classificar. trocados que ganhei trabalhando para minha avó. meus cadernos. Minhas roupas nunca são ideais. errado. Eu podia sentir a agitação do grupo. até ela se encolheu como se quisesse ficar longe de mim. como Claire. a única coisa que pode ser realmente prejudicial é se relacionar com alguém que está ainda mais abaixo. sem me dar ao trabalho de tentar falar com ela. meu cabelo está limpo. crianças populares. onde ela fumava e assistia Montel. Nem mesmo os Morries. e os fracassados. no Missouri. é de segunda mão. Claire sempre tinha um perfume suave de talco infantil e óleo de motor. Isso foi antes de Chub ir morar conosco. . E pessoas como eu. – E é capaz de passar uma escova no cabelo. – Você está usando sapatos de enfermeira? As meninas que a seguiam se aproximaram de mim e olharam para os meus pés. crianças mais ou menos. Hoje. E não havia ninguém abaixo de mim. Nem Claire. Nem Emily. Mas o resto. mas. Hailey – chamou Shawna Rosen. Comecei a vestir minhas roupas de ginástica. Eu uso rímel e batom que comprei com meu próprio dinheiro. Contei tudo que havia acontecido. como as crianças me haviam chamado de suja e de lixo.7 Naquele primeiro dia eu cheguei em casa chorando. errado – e todo mundo sabe disso. e seu cabelo era uma nuvem arrepiada que caía até um pouco abaixo dos ombros. quando abri meu armário. . algo que sempre me incomodou quando eu percorro os corredores de Gypsum High. meu corte de cabelo.Ei. Minha mochila nunca é ideal. Meus sapatos. que era manca e vesga. inclinando o pescoço para enxergar a tevê atrás de mim. Gypsum podia ser uma cidade de ruas no meio do nada. tudo o que eu tenho. oito anos mais tarde. deixei minha mochila com os livros no chão e corri até sua poltrona favorita na frente da televisão.Acho que você sabe onde fica o sabão. Naquele dia eu tinha aula de educação física no segundo período. – ela disse irritada. aparecendo do meu lado sem aviso prévio. errado. enquanto Claire fechava a porta de seu armário e se afastava apressada. Agora saia da minha frente. Quando você está perto do fundo da pirâmide social escolar. e embora eu soubesse que não deveria esperar nada da minha avó. De que adiantaria? . Ninguém. Meu armário ficava ao lado do de Claire Hewitt.

escolhendo sempre as mais afastadas da fila dos que se serviam da comida. quando Shawna e sua turma iam atrás de mim. Eles eram chamados de “Morries” por causa da rua Morrim. mas minhas razões para estar insatisfeita eram diferentes das de todos os outros. esse tempo pertencia a um passado muito distante. Ás vezes. Olhava com firmeza para aqueles olhos maquiados e transmitia desprezo. que era como todo mundo chamava o bairro pobre na periferia de Gypsum. principal via que cortava a Cidade do Lixo. eles não participavam de nenhuma atividade esportiva ou dos clubes extracurriculares. . no fundo da sala e nas mesas da cantina. Os garotos eram tão magros que a calça jeans suja e desfiada estava sempre caindo. desaparecendo antes que eu terminasse de falar. provavelmente. o que acontecia freqüentemente. menos de um quilometro além de nossa casa. Shawna e as amigas se cansaram de me atormentar e foram embora. mas se houve algum tempo em que os garotos da Cidade do Lixo se misturavam com os Limpos na escola. a trava e as barras paralelas do lugar onde ficavam guardados. Ninguém parecia muito feliz com a situação. Os meninos eram mais ousados. no fundo do ginásio. Se eram chamadas.Desculpe – murmurei. nem mesmo quando o assistente de diretoria os chamava para falar sobre seu desempenho acadêmico. O problema era que eu era boa – boa demais. e eu tive de me apressar para terminar de me arrumar. Eu recuei me afastando de Shawna e andando de costas pelo corredor largo entre as fileiras de armários. Como eu. Não sem importavam com notas. mas. tropeçando e quase caindo. Mas dessa vez não foi assim que eu agi. Era raro. Turnbull e o Sr. descobri que havia tropeçado em alguém do grupo dos Morries. CougWin nem perceberam. críticos e emburrados. quase impossível ver um dos Morries sozinho. desanimada. Não que eu fosse ruim naquela atividade. e já estava atrasada para a aula. . mantendo-se em grupos silenciosos de três ou quatro. Respondemos á chamada e formamos uma fila atrás do equipamento. Minha mão tateou o ar tentando encontrar algum apoio. porque estavam ocupados retirando os cavalos . eu as enfrentava. As meninas tinham cabelo comprido que escondia parcialmente o rosto. talvez um dos armários. Não sei quem começou a chamá-los por esse apelido. mas elas seguiram em frente.8 Elas nunca ficavam mais felizes do que quando podiam lembrar alguma garota pobre da distância que havia entre a sua existência patética e a vida no topo da pirâmide. A Sra. sumindo em outro corredor sem dizer uma única palavra. Eles nunca se manifestavam na sala de aula. azedos. Eles permaneciam juntos nos corredores. as meninas falavam tão baixo que logo os professores desistiam delas. batendo em alguém que estava atrás de mim.

minha avó escreveu com grandes letras de forma na parte em que deveria fornecer informações sobre meu histórico médico: "HAILEY NÃO TEM MINHA AUTORIZAÇÃO PARA PRATICAR NENHUM TIPO DE ESPORTE". Sabia que a dona da festa não queria realmente que eu fosse que a mãe a obrigara a convidar todos os alunos da sala. Minha avó jamais teria permitido. Era rápida e forte. Nunca havia imaginado que alguém me convidaria para participar de um time ou uma associação acadêmica. me dando aquela habilidade atlética natural. eu via sua expressão mais atenta e animada. essa habilidade só me trazia – sim. Uma vez. mas em vez de servir para me aproximar mais dos alunos. o que mais? – problemas. Minha avó leu o convite. ela nunca teria permitido que eu saísse de casa. por eu não ter amigos e ter uma terrível vida doméstica. exceto para fazer alguma coisa para ela. Fiquei tão surpresa. Mas é claro que não pude participar da equipe. Se os assistentes sociais não a tivessem obrigado. Ele me fez correr tiros rápidos seguidos por mais um quilometro e meio. por isso o meu aniversário passava todo ano sem bolo. Desde então. Corri para casa com o coração disparado de alegria e animação. sem presentes. mas não me importava com isso. marcando meu tempo com seu cronômetro. conseguia me equilibrar bem. ainda nos primeiros anos da escola. Se era isso. Cada vez que eu passava por ele. ele correu até onde eu estava me alongando – todos ali estavam sempre falando sobre a importância do alongamento depois da prática de exercícios – e me convidou para começar a treinar com a equipe de corrida do ensino médio. Minha avó não dava muita importância para esse tipo de comemoração. que não consegui pensar em uma resposta com a rapidez suficiente. Ela não queria que eu nem freqüentasse a escola. No sexto ano. eu adoraria fazer uma troca. Quando terminei o teste. oito vezes a pista completa. seus lábios se movendo sem realmente pronunciar as palavras. e depois ela franziu a testa e o rasgou em pedaços. recebi um convite para uma festa de aniversário. e lançava e pegava bolas com precisão incrível. meu professor de educação física percebeu que eu tinha o terceiro melhor tempo de corrida da escola. sem música – e eu queria ir desesperadamente à festa. Eu nunca havia ido a uma festa de aniversário. -Você não precisa se misturar com as outras crianças – disse.9 Eu sempre me perguntara se Deus me compensara por ter me criado tão esquisita. Quando meu professor de educação física insistiu em mandar o formulário de autorização para eu participar da equipe de corrida. tenho tomado cuidado para não deixar ninguém perceber que sou boa nas .

fingi não ter força para me sustentar nas barras paralelas. Eu estava na fila do cavalo para salto. E eu não sabia se havia outra maneira de não saltar por cima dele com perfeição. Milla rolou lentamente para o lado. como nos ensinaram desde a primeira aula. Olhei para o velho objeto coberto de couro e tentei pensar em um jeito de me fingir desajeitada. em vez de passar por cima do cavalo. escutei outro barulho e uma reverberação que pude sentir sob meus pés no chão duro do ginásio. mas não mais do que um arranhão e um hematoma. normalmente se levantando em seguida com grande vergonha. Mas hoje seria difícil. mas tive de recorrer a toda minha concentração.. em seguida. . um aluno saltava errado para o cavalo. Fiz um esforço para me desequilibrar e cair da trava de equilíbrio. e de costas. feliz por ter conseguido escapar mais uma vez. a cabeça caindo do trampolim para o chão. ela balançou sobre o trampolim e quase tropeçou quando saltou para o cavalo. Eu me encolhi quando ouvi o barulho dos ombros se chocando contra a madeira do piso.. Alguém gritou. Em vez de saltar uma única vez e com firmeza. As mãos escorregaram sobre o couro do revestimento. e ela caiu para trás. os braços inertes ao lado do corpo. Como eu poderia passar por uma pessoa desajeitada enquanto voava graciosamente por cima do aparelho. Eu estava no fim da fila. inseguros. Ela se aproximou do cavalo com passos curtos. Milla havia batido com a cabeça no trampolim. Eu mesma havia passado por isso uma ou duas vezes no meu esforço de parecer desajeitada. Mas. Seria complicado. Milla era uma Morrie. Eu a observava sem muito interesse quando ela pisou no velho trampolim de madeira.10 atividades esportivas. deixando o instinto me dominar? Consegui. uma garota magra com cabelo cor de mostarda grudada na tampa do pote. Aquilo devia doer muito. o impulso a jogou para cima com mais força do que o esperado. quando Milla Swanson se preparou para cumprir a rotina de exercícios. As duas meninas na ponta da fila saltaram para trás e gritaram e durante um segundo ninguém se moveu. se eu me jogasse por cima do cavalo. mas percebi que ela hesitava. senti uma onda de orgulho. Se ele soubesse. acabaria me machucando muito. mantendo a cabeça baixa como se esperasse que o chão se abrisse num buraco e a tragasse antes do salto. Às vezes isso acontecia. Mas quando Milla bateu com as mãos sobre o cavalo. Quando o senhor C olhou para mim com ar de desaprovação e balançou a cabeça. e escorregava ou caía do outro lado.

Mas quando segurei a mão fria e inerte de Milla. resultado do esforço que ele fazia para se afastar rastejando do corpo inerte da aluna. eu precisava ajudar pôr minhas mãos sobre Milla. levantando-se e correndo para a sala dos professores no fundo do ginásio. e sentir a senhora Turnbull me tirando da frente. mas tudo desapareceu e foi como se eu estivesse olhando para o tempo. Nem percebi que estava me movendo até me abaixar ao lado dela.Não toque nela! . como se ela estivesse em chamas. como se fosse beijá-la nos lábios. tentar segurar sua mão. e mesmo percebendo quanto meu impulso era bizarro. apesar de todos os anos que passara lecionando técnicas de primeiros socorros. vendo-o se mover para frente e para trás ao mesmo tempo. . Um segundo depois minha visão se apagou. não houve um único som no ginásio. tomando a pulsação de Milla e balançando a mão diante dos olhos dela.Vou pedir ajuda .Ela está respirando . tossiu. tive de fazer um grande esforço para contê-lo. um cântico sussurrado que não fazia sentido. Vi as pontas finas do cabelo que ele penteava sobre a cabeça meio calva e sardenta tremerem. Dentro da minha cabeça começava a soar um estranho coro. . um impulso que fazia meus dedos vibrarem com a necessidade de tocar Milla. . não ouvia nada no ginásio. Havia alguma coisa dentro de mim. Nos segundos que levei para deixar o círculo de alunos e correr novamente para perto de Milla. mas virou a face. Eu queria . deixei de ouvir o ambiente a minha volta.ela gritou.o senhor C acrescentou com um tom que atraía pânico. Eu me afastei. Voltei para o círculo formado pelos alunos. Ninguém tentou me deter. uma força em movimento. .11 A senhora Turnbull e o senhor C correram. nem disse meu nome. quase como fogo. uma urgência que fazia o sangue correr em minhas veias com uma persistência quente.não.todos nós a ouvimos dizer. A senhora Turnbull e o senhor C falavam em voz baixa. como se eu . Ninguém falou. a mão de unhas lascadas e palmas calejadas. mesmo sem querer. Quero dizer. mas eu fui a primeira a chegar perto de Milla. que estavam abertos e imóveis. apesar de o senhor C também ter se abaixado e estar segurando a mesma mão que eu pretendia pegar. Não creio que tenha fechado os olhos.Está inconsciente .a senhora Turnbull avisou. Compreendi que ele não sabia o que fazer. A senhora Turnbull aproximou o rosto do da menina.

e ela as respondeu. e depois tive aquela mesma sensação de sangue correndo mais quente. alguma coisa me empurrou com força e eu caí de lado no chão. soluçou duas vezes e olhou em volta como se fosse chorar. O olhar que ela lançava na minha direção era difícil de entender: medo e desprezo na mesma medida. se nesse momento Milla. A sensação se tornou mais intensa em minhas veias. que estava quente e úmida. até encontrarem a parte de trás de cabeça. porque a sra. Voltei para o círculo de alunos. não houvesse se virado para vomitar. E foi bom ela ter vomitado. mas a porta do ginásio se abriu com um estrondo antes que eu pudesse responder. Milla me observava. não conseguia parar de tocar o corpo ferido de Milla. A única emoção completamente ausente de seu rosto era surpresa. . que tentava se levantar enquanto a senhora Turnbull a segurava mantendo-a no chão. e dois deles vieram me perguntar o que havia acontecido. mas a senhora Turnball começou a gritar uma série de perguntas. porque tudo estava sob controle e ninguém precisava se preocupar. mas não consegui deixar de olhar para trás. com um pequeno traço de gratidão.sussurrei. Soltei uma das mãos dela e meus dedos se moveram por sua nuca e pelo rosto.gritou a senhora Turnbull. para Milla. deitada no chão aos pés dela. limpando a boca na manga da blusa. . falando tão baixo que nenhum de nós conseguia ouvi-la. entrou e começou a berrar para todos irem trocar de roupa para a próxima aula. O cabelo estava colado sobre um grande edema que crescia ainda mais sob meu toque. de onde se dissipava para o corpo de Milla. mas não conseguia soltá-Ia.12 houvesse saltado de um penhasco e pairasse no ar em algum lugar do espaço vazio e negro. seu rosto vermelho e a mão erguida como se ela pretendesse me agredir. como se toda a energia em meu corpo fosse direcionada para a ponta dos meus dedos.Que diabo acha que está fazendo? . Comecei a cair. . Eu acompanhei o grupo. vice-diretor. o que me deu certeza absoluta de que havia falado. e foi como se meu coração batesse mais devagar e falhasse. Turnbuli se esqueceu completamente de mim. e talvez ela tivesse mesmo me batido. Milla se sentou. O senhor Macklin. e senti meus lábios se moverem.Milla . Visão e audição retornaram imediatamente. Quando senti que tinha esgotado toda minha energia.

. Vovó ganhou o cachorro de presente de uma cliente depois de um vira-lata ter pulado o muro de sua casa e cruzado com sua cadela. a sensação da pele sob meus dedos.Chub exclamou. . Não conseguia parar de reprisar mentalmente tudo que acontecera. depois correu para dentro de casa e para Chub. o som da cabeça de Milla batendo no chão. brincando com as panelas cujas tampas rolavam pelo chão. Rascal atravessou o quintal correndo para me encontrar. A cliente ia se desfazer da ninhada inteira. uma basset round premiada. que estava sentado na frente da porta aberta de um armário da cozinha. mas vovó se encantou com Rascal. Ele me chamava de "Hayee". Eu sabia que havia algo errado com Chub. beagle. como "fufa" para flor e "bubu" para caminhão. batendo palmas antes de abraçar o cachorro. Na maior parte das vezes ele nem formava palavras.ela se cansou quando ele deixou de ser filhote. Quando cheguei em casa carregando as sacolas com as compras. mas encontrei tantas causas para atraso no desenvolvimento que nem sabia por onde começar. Estava confusa. sons que não tinham nenhuma relação com a palavra realmente utilizada.13 Capítulo 2 Naquela tarde fui a pé ao mercado em vez de pegar o ônibus. a vertigem que senti quando a toquei. Por algum tempo. e conseguia dizer "aua" para pedir água e "deia" para se referir a cadeira. os assistentes sociais exigiriam que ele fosse submetido a exames. pensar no que havia acontecido no ginásio. Para outras coisas ele tinha nomes especiais. e mais alguma coisa. Ele era mestiço de bluetick. Rascal farejou minha mão.Rastal! . pelo menos . Sabia que no final. Tentei descobrir o que era persquisando na internet. "Rastal" era um das melhores palavras de Chub. apenas balbuciava ruídos mais ou menos altos que só ele conseguia ouvir. Precisava caminhar.

a carne moída. se tentasse. ela me deu uma bofetada no rosto. minha avó desistiu. chiando ao falar. E quando ela não conseguiu concertar o que estava errado com Chub. Refoguei as cebolas e os pimentões congelados. Passou a beber muito durante o dia e quase nem prestava atenção a Chub. Eram bons tempos. desligava a televisão e não bebia tanto. Mas quando Chub tinha um dia ruim. Além de Rascal. vovó mudou. uma experiência. Guardei as compras e comecei a preparar sloppy joes. Dois meses depois ela estava novamente passando os dias na poltrona diante da tevê. mostrando brinquedos e cartas de baralho e tentando faze-lo falar. Minha avó fumava um maço e meio por dia. E eu não queria que Chub fosse embora. e enquanto me aproximava fui percebendo que ela o via como um projeto. ele era tudo que eu tinha para amar. porque temia que o pusessem em um abrigo para crianças como ele. Se Chub fazia algo novo. mas continuava recebendo os cheques que o estado mandava por ela cuidar da criança.como . E ela me pagava pelo serviço. por isso eu podia ficar fora do seu caminho. e até elogiava o jantar que eu havia preparado. mas também era fraca e doente na maior parte do tempo. que se tornou minha responsabilidade. ou se comia terra do quintal. vovó comemorava. Os cigarros custavam quase metade do que eu havia gastado comprando comida. mesmo que fosse só uma fração do salário mínimo. Quando Chub chegou para morar conosco. Ela passava algum tempo com ele todos os dias. mas eu nem me atrevia a sugerir que ela parasse. fumando. e foi tão rápida e tão violenta que fiquei sem ar. E ela me dava ordens o tempo todo como se eu fosse uma empregada.tinha um gosto especial por manter a casa limpa. Eu não me incomodava muito com o serviço doméstico . e muitas noites ela adormecia bêbada na poltrona. murmurando palavras suaves enquanto eu fazia as tarefas domésticas.Vovó perguntou de sua cadeira. Minha avó era cruel. Ela fazia a mesma pergunta toda vez que eu voltava do mercado. -Trouxe meus cigarros? . como havia acontecia com Rascal. e eu dei a ela os quatro maços de Marlboro com o recibo e algumas moedas de troco. vovó parecia afundar um pouco mais em sua poltrona. e teria cuidado de tudo mesmo que ela não mandasse.14 mas não estava ansiosa por esse dia. se engatinhava até minha avó ou tentava pegar os blocos brilhantes que ela mostrava. como se eu esquecesse. e fui acrescentando molho de tomate aos poucos . Nunca. Fui me apegando cada vez mais a Chub. quando ele não repetia os sons que ela fazia. De manhã ela acordava tossindo e cuspindo coisas nojentas na pia. A única vez que tentei.

Quero dizer. acrescentando o ketchup e a mistura para sopa de cebola ao refogado na frigideira.Milla Swanson se machucou na aula de educação física . soltou com grande estrondo os gases que sempre a incomodavam. foi muito grave. e assim que comecei a falar eu soube que estava cometendo um engano. Eu sei que não se deve ter esse tipo de sentimento pela própria avó. gemendo como se o empenho fosse doloroso.Ela perdeu sangue? Abriu a cabeça? Havia osso exposto? O que você fez? As perguntas tinham um tom aflito. e ela segurou minhas mãos e se levantou as costas estalando alto.O que foi que disse? A voz aguda e cortante de minha avó me assustou.eu disse.Hoje aconteceu algo estranho na escola . -Mmmm.. Mas precisava contar sobre Milla. vovó fazia um grande esforço para sair da poltrona. .Eu estava dizendo que Milla caiu e bateu a cabeça. sabe? Porque a senhora Turnbull queria chamar.. sem desviar os olhos da televisão.. . . Eles devem ouvir seus problemas e oferecer conselhos baseados em toda sua experiência de vida.Fui ajudar minha avó. . A verdade é que eu só queria ajudar..15 fizera milhares de vezes antes.. .. e eu pensei pela milésima vez como seria feliz quando Chub e eu saíssemos daquela casa definitivamente. onde eu sempre mantinha uma pilha de cobertores velhos para ele. Bateu a cabeça. e eu deixei a espátula na frigideira e olhei para ela. Para minha surpresa. . especialmente com Chub brincando perto dos meus pés e Rascal cochilando no canto da cozinha. . uma urgência que eu nunca ouvira na voz dela.. Hmm . Todos os avós são superprotetores e intocáveis. . Minha avó nunca me dera um único conselho digno de ser lembrado.vovó respondeu.Aham . Minha avó riu de alguma coisa que Tyra Banks havia dito em seu programa. . bem.. e mesmo assim espera-se que os netos os amem. Cozinhar era uma coisa que sempre me acalmava. acho que talvez eu tenha . e . Acho que ela ficou inconsciente por alguns minutos.Mas eu..

Não é uma pergunta difícil. . -Você já fez isso antes.Eu não. aproximando-se o suficiente para eu . e senti ainda mais medo quando ela cerrou as mãos magras como garras em torno dos meus braços. e alguma coisa como "não se preocupe".E você a tocou? . ou "vai ficar tudo bem". e depois no cabelo. Talvez tenha dito o nome dela. não sei. O que você disse enquanto a tocava? .. porque o sangue correndo em minhas veias parecia soar mais alto que tudo. Mais nada.Bem. Não sei mesmo. .. ruídos que eu quase não ouvia. talvez por um minuto..Foi só isso? Você não disse mais nada? . Mas enquanto respondia a pergunta de minha avó.Havia agitação e acusação em sua atitude. Hailey. primeiro nas mãos. . e os olhos brilhavam e adquiriam uma intensidade que eu nunca vira antes.Estava um pouco assustada com a intensidade da reação de vovó. sim. . Só um tombo. e uma unha comprida quase perfurou minha pele. . sim. . Eu escutara alguma coisa. alguma coisa surgiu no fundo da minha mente.Não foi nada realmente grave.Você disse que ela ficou inconsciente.. . sílabas sussurradas. Uma trilha sonora esquisita.O que você falou? . . quero dizer.ela perguntou. Hailey? . basicamente.Na cabeça? . .Não.16 imaginei se ela sabia alguma coisa que eu Ignorava.Bem.O que eu falei? .Eu.

esperando que ela houvesse esquecido a conversa confusa. meu rosto quente com o vapor que se desprendia da comida.Isso não muda nada . Ela comia sem nenhum cuidado. e eu tinha a sensação de que ela procurava algum sinal. porque eu não tinha como saber em que ela estava pensando. mas eu a observei enquanto jantava com Chub.Acho que você sabe . com o coração aos saltos dentro do peito.vovó resmungou. Vovó esperava clientes naquela noite.Você sabe o que fez. falando tão baixo que eu quase não ouvi. Arranjei um dos pratos e uma cerveja sobre a bandeja da vovó e a servi na frente da televisão. Sentia minha avó parada atrás de mim.e algo mais. Ela era muito assustadora quando pensava. um medo que alimentava minha confusão e intensificava ainda mais as fortes emoções do dia. Eu preferia que ela me batesse ou que gritasse comigo.Fiz o quê? Seus olhos intensos buscavam os meus. . derrubando carne na bandeja e no chão. me observando. Eu me soltei com um movimento brusco. e peguei a espátula para mexer a mistura na frigideira. e eu senti o medo crescendo dentro de mim. erguendo a voz de vez em quando como se conversasse com alguém. Tive de me esforçar para resistir ao impulso de me libertar puxando o braço. e assistia sonolenta a uma propaganda sobre cuidados com o gramado.17 poder sentir seu hálito. alguma coisa que eu não conseguia entender. Enquanto eu lavava os pratos ela falava sozinha.minha avó finalmente sibilou. mas não queria que me olhasse daquele jeito. uma combinação repugnante de cigarro e podridão. Ficamos ali paradas por um momento que pareceu bem longo. . Quando me atrevi a virar e olhar. Ela mal se deu ao trabalho de grunhir uma resposta. Durante todo esse tempo estive esperando por algo que não acontecia. e quando finalmente desisto você vai e faz o que era esperado. . Depois de um tempo vovó esfregou o guardanapo na boca e o jogou sobre o prato onde ainda havia comida. onde Rascal a encontraria mais tarde. . Servi a comida em três pratos e acomodei Chub sentado à mesa com um guardanapo de papel e um copo de leite com achocolatado. . e eu respirei aliviada.resmunguei. Eu passava pela poltrona .O jantar vai queimar . Mais do que em qualquer outro momento. alguma coisa que provasse que eu estava dizendo a verdade . ela havia voltado para a poltrona. apertando meu braço com uma força que me surpreendeu.

Hailey? . um som carregado que era sempre acompanhado por projéteis de saliva. e minha avó piscara. e era evidente que nunca teria curvas como as de Jill Kirsch e Stephanie Lee. Mas ouviIa dizer as palavras fez meu estômago revirar. Minha avó não teria ido a um dentista nem se pudesse pagar.E suas regras . não era nenhuma novidade.É você quem vai ficar com o legado. Anos atrás eu havia perguntado o que ela queria dizer.ela continuou.minha avó perguntou. Aquela reação me causara um arrepio. Eu ainda era magra demais na região do quadril.Sua mãe adorava tudo isso. e puxei meu braço com tanta força que a mão dela se chocou contra o braço da cadeira enquanto eu me afastava. . fingindo acanhamento. o jeito como ela me encarara com seus olhos brilhantes e leitosos. Ela já havia dito coisas parecidas antes. Mas era horrível pensar que vovó havia percebido. Eu não havia feito nenhum esforço para guardar segredo. Numa reação instintiva.Você agora tem seios. mas isso não a impedia de rebolar por aí como uma gata no cio quando cresceu. quando ela estendeu a mão crispada e de unhas amarelas para agarrar meu pulso. os lábios retorcidos num arremedo de sorriso que exibia os espaços vazios onde ela perdera dentes. mas vovó o segurava com força. por isso os dentes que restavam em sua boca tinham uma tonalidade acinzentada.. para mim.disse. chiando e tossindo na manga da blusa. cobri o peito com a mão. Hailey . Puxei o braço para me soltar. Ela riu. e guardava meus pacotes de absorventes no armário do banheiro. . . um olhar quase faminto.Você sabe que é o futuro. que ela estivera olhando para os meus.vovó chiou. eu soubera o que fazer por ter ouvido conversas entre as garotas na escola. alguns deles aterrissando em mim.Do que tem tanta vergonha.. . . Não consegui me afastar com rapidez suficiente. .18 para ir pôr Chub na cama. Não era muito certa da cabeça e não conseguia falar coisa com coisa. Quando menstruara pela primeira vez alguns anos antes. curvas que eram como Ímãs para os olhos dos meninos quando elas passavam pelo corredor. O que ela dizia era quase mentira. . não tem menina? . e respondera que eu saberia em breve.

Seu corpo era muito frágil. O que estava escondendo? Às vezes era como se nós não tivéssemos nenhum parentesco.Ah. e recolhida num silêncio obstinado. .vovó comentou. não é? . mas vovó me deteve.. Ela conseguira me atingir. em todas as perguntas que ela fizera sobre Milla. Mas ela também me conhecia. . apagando o cigarro no cinzeiro que eu já havia esvaziado duas vezes naquele dia. Era inútil continuar conversando com ela. mas teve de parar por causa de outro ataque de tosse.Gaguejei.ela começou.comecei.Sim. O que. . Porém.. . nenhuma vez em toda minha vida. . como se tivesse alguma informação secreta. .Por que a pressa. como se estivesse apenas esperando pela hora de morrer. até melhor do que eu mesma. em alguns aspectos. estranha. Não conseguia deixar de pensar na conversa que tivemos pouco antes. e eu nunca adoecera. .Pode ser qualquer um. exceto que ela estava madura como um pêssego e pronta para ser colhida. Eu a repetira muitas vezes antes. como comprimiu os lábios. e notei que seus lábios se distendiam num sorriso de satisfação presunçosa. .Temos visitantes.19 O comentário me fez parar. . . mas tive de parar para umedecer meus lábios secos.O que. Depois estendeu os braços. Eu havia aprendido algumas coisas sobre minha avó depois de ter vivido com ela por dezesseis anos. Venha me ajudar a levantar. Minha avó não me dizia nem como era o nome dela. o suficiente para saber que minha avó nunca a responderia. Minha avó estava mentindo para mim. por algum tipo estranho de luto que a tornara uma pessoa feia. odiando-me pela pergunta que estava por fazer.. sim. e ela ficou grávida. Tudo que eu sabia sobre ela era que morrera no parto e "não era certa da cabeça"... Tentei me afastar. Eu a odiava por isso. então agora você tem tempo para falar comigo . Mal os rapazes começaram a se aproximar. uma coisa era certa: nada convenceria minha avó a me contar alguma coisa que ela quisesse manter em segredo.Quem.disse. algum conhecimento misterioso sobre o que havia acontecido. e não havia fotos de minha mãe em nossa casa. Eu só não sabia por quê. mas as lágrimas que ela secou de seus olhos úmidos revelavam um humor cruel.perguntou.. Eu pensava que essa última parte podia ser o motivo pelo qual vovó nunca falava sobre ela.Quem é meu pai? A risada de minha avó se transformou em um ataque de tosse. respirando com dificuldade. mas ela me atingira. Hailey? . Percebi como ela estreitou os olhos. E isso era algo que eu odiava. -Essa . -Essa é a verdadeira questão. . Você não precisa saber nada sobre sua mãe. Vovó nunca falava sobre minha mãe.

massageei suas costas. e eu tinha certeza de que queria dizer "amo você. o que a fez cambalear ao ficar em pé. mas a voz de vovó soou em seguida: . embora não tivesse nenhum jeito de provar.. venha até aqui para que eu possa vê-Ia! Parei.Ponha logo esse menino na cama garota. Quando tive certeza de que ela não ia cair. cantei para ele.. sinal de que adormecera. Deixei que ela se apoiasse em mim enquanto estalava os dedos das mãos e o pescoço. mas as visitas de minha avó logo começariam a beber cerveja. . Depois o limpei com um pano e troquei sua fralda.Sempre. E se tivéssemos sorte. iríamos para tão longe dali que eles nunca mais conseguiriam encontrar Chub. Teria me formado no ensino médio e as pessoas do serviço social não voltariam mais para saber de mim. Quando eu estava limpando a pia. e em breve teriam de usar o reservado. Ajoelhei-me no chão e o abracei. fui preparar Chub para colocá-lo na cama. Isso não era bom. movendo a cabeça para um lado e para o outro. eu não . Acomodei Chub na cama. segurando suas mãos e puxando com mais força do que era necessário. Ouvi vozes do outro lado da porta. Hailey". temos companhia! Fiz como eles diziam. Escovei os dentes de Chub com uma escova de cerdas macias e o creme dental infantil sabor morango. tentando decidir se poderia fingir que não o ouvira falar comigo.Eu e você . . mas antes de alcançar a porta eu ouvi a voz rouca de uísque me chamar. Tentei ir para o meu quarto sem ser vista.20 Só então ouvi o som de um carro do lado de fora. era velho demais para ainda usar fraldas.sussurrei. Em dois anos eu teria dezoito. e assim que sua respiração se tornou mais profunda e lenta. Normalmente eu o teria levado para o banho. mas nada havia funcionado. e reconheci a mais alta: Dunston Acey.Hailey. sentindo seu doce cheirinho de bebê. Hayee.Xie. Ele tinha quatro anos. . e eu havia tentado tudo em que conseguira pensar para convencê-lo a usar o vaso sanitário. Ele já havia dito isso antes. dizia de vez em quando. ele abraçou minhas pernas e disse: . depressa. Fiz como ela pedia.

Você está linda hoje . e se ela cobrava caro pelas coisas mais pesadas. ninguém nunca reclamava. Nenhuma delas jamais quis registrar uma ocorrência ou processá-lo.Preciso ir ao porão . Todos conheciam as histórias sobre ele. Coisas terríveis. não bebia.minha avó anunciou cravando os olhos em mim. Quando vovó e seus clientes decidiam festejar. Três pares de olhos me observavam. Dun. e acordariam Chub. De todos os homens cruéis. constatei com desânimo que o terceiro visitante era Rattler Sikes. mas de vez em quando ele aparecia na companhia dos outros. Fui até a cozinha e disse um olá seco. às vezes seminuas. às vezes descalças. Ele só ia atrás das mulheres da Cidade do Lixo. Eu sabia o que . Era um dos únicos que não usavam drogas e. acendendo a luz. mas essas mulheres nunca mais voltavam a ser as mesmas. o povo de Gypsum não se importava muito com o que acontecia por lá. Vovó tinha uma política: tudo que um consumidor bebia ou fumava em sua casa era grátis .e depois eram encontradas vagando pela cidade de madrugada. porque era impossível prever o que ela diria nesse caso. nada os detinha. e ficava em um canto da sala observando tudo e falando pouco. e sempre sem conseguir ou sem querer falar sobre o que havia acontecido.disse Dun. Quando ele caminhou para a área iluminada.pelo preço de algumas cervejas e um pouco de erva ela os mantinha entretidos e felizes. e talvez esse fosse um dos motivos pelos quais o xerife não conseguia pegá-lo. Consegui dizer um olá sufocado. Ali estavam minha avó. coisas que as deixavam abaladas internamente e machucadas no exterior. . provavelmente porque o xerife tentava pegá-lo há anos. sem nenhum entusiasmo. Eles acabariam indo ao quarto.21 pude mais adiar. Rattler era uma das poucas pessoas na Cidade do Lixo sobre quem as outras pessoas de Gypsum falavam. Era mais fácil do que deixar minha avó zangada. . Rattler era o pior. Comentava-se que Rattler fazia coisas com as mulheres. Diziam que as mulheres saíam com Rattler . Desde que os problemas ficassem dentro das fronteiras da Cidade do Lixo. envolvido pelas sombras. até onde eu sabia.era difícil imaginar que iam espontaneamente . Mas ele nunca conseguia fazer suas acusações irem adiante. detestáveis e imprestáveis que haviam estado em nossa casa. erguendo uma garrafa na minha direção antes de sorver um grande gole da bebida. e um homem que permanecia em pé no canto mais afastado.

Eu me sentei na única cadeira vazia para esperar. Dun me perguntou sobre a escola.Bela camisa . Vovó queria que eu conversasse com os clientes. uma peça simples de um tom comum de verde e gola alta que eu comprara de segunda mão por cinquenta centavos. abrindo mais uma sempre que a garrafa em sua mão ficava vazia. É claro que tudo era só um blefe. minha avó voltou caminhando com dificuldade. Eu não fazia nada disso. Ele não parecia se importar com minhas respostas curtas e secas. examinou os rótulos.que eu descesse para ir buscar o que Dun queria comprar dessa vez.disse Dun. mas isso não me obrigava a promover uma conversa vibrante. . Parecia querer comê- . Rattler? Eu me senti corar. e os deixou sobre a mesa na frente de Dun. e voltar com o produto. e quando ela pedia. suspirando e bufando.Não é uma linda camisa. e só então minha avó poria o dinheiro dentro da bolsa que deixava sobre a bancada. sobre minhas notas. com essa acima de todas: ela devia saber quanto Chub era importante para mim. A atmosfera na cozinha mudou. Mas ela estava ficando velha e um pouco apertada no peito. e quis saber que programas de televisão eu costumava ver. Depois de um segundo ele introduziu a mão na embalagem e retirou dela os frascos plásticos. não lia os rótulos. Ela se levantou. Vi a pilha de dinheiro sobre a mesa. Não tocava nos frascos com comprimidos. Ela segurava dois sacos de papel pardo fechados. Todos os olhos estavam fixos nos sacos de papel. e Dun abriu um deles para espiar seu conteúdo. e caminhou arrastando os pés até a escada que descia para o porão. Mas essa era uma coisa que ela não podia me obrigar a fazer: eu me recusava a participar do que ela chamava de negócios. Depois de um tempo que parecia infinito. Vovó era estúpida com relação a algumas coisas. Eu jamais faria nada para envolver as autoridades nessa história. Vovó levaria algum tempo para descer agarrada ao corrimão. e ela estaria acabada. não havia nada de especial na minha camisa. o que quer que fosse.22 ela queria . porque isso me separaria de Chub. Ninguém mais olhava para mim. eu simplesmente repetia o aviso de sempre: um telefonema meu. não ajudava a separar e embalar a erva que ela comprava de um sujeito que vinha de Ozarks em seu carro uma vez por mês para fazer a entrega. . um degrau de cada vez. Sério. As notas ficariam ali até Dun examinar a mercadoria e guardá-Ia nos bolsos. De vez em quando pedia a opinião de Rattler. mas na maior parte do tempo parecia satisfeito por conduzir sozinho toda a conversa e beber sua cerveja. Era sempre assim.

. Dun .23 los sem remover a tampa.Bem.disse. como ser muito quente.perguntou com voz pastosa. Em seguida amassou os sacos de papel dados por minha avó e os arremessou na lata de lixo no canto.minha avó falou com tom sério.Ah. ah. Eu esperei mais alguns minutos. -Não é verdade? . piscando para Rattler. Minha avó ria alto com ele quando corri para o meu quarto e bati a porta.Ela não é mais uma menina . tentando soar animada.Dun riu da própria piada e nem tentou disfarçar o fato de estar olhando diretamente para o meu peito. -Já vai pra cama.Pois eu acho que ela não precisa aprender mais nada.Sabe. Quando passei perto da cadeira de Dun. . . ele os enfiou em um bolso enorme de sua camisa xadrez. ele estendeu a mão e agarrou a cintura da minha calça jeans. boa noite . Sobre. batendo em seu ombro de um jeito brincalhão. ela precisa ser ensinada .Precisa de companhia? . e então me levantei e empurrei a cadeira para perto da mesa.Dun protestou.minha avó interferiu. Violento. até ter certeza de que era seguro me despedir.Não incomode a menina. Quando terminou de examinar os frascos. . . . Eles bateram na borda da lata e caíram no chão. a voz expressando censura. . Eu me soltei com um movimento brusco. benzinho? . espalhando no ar o cheiro repugnante de seu hálito de tabaco.

haviam sido mais seis anos de empregos em laboratórios na cidade fazendo mais cursos sempre que podia para complementar o que aprendia trabalhando. e se vestia tão bem quanto qualquer uma delas. embora mantivesse um orçamento enxuto morando em um apartamento pequeno em uma área ruim da idade.os empregos em laboratórios não pagavam o suficiente para poder economizar. seis anos de um torpor resultante de muita cafeína e poucas horas de sono. Ouvira falar nela . Queria superar. a agonia arrefecera para uma dor contida que agora fazia parte dela. Por que não? Agora tinha muito dinheiro. Nem sempre havia sido assim. Mas a comunidade cientifica não se interessara pelo trabalho que ela queria fazer. não faziam? Vasculhavam o apartamento do amante para procurar caixas forradas de veludo contendo braceletes e brincos. Até o dia em que conhecera o amante.comentários sobre como ela trabalhava duro e obtinha resultados confiáveis. O coração não cicatrizara. tinha cicatrizes. Por isso ela examinava as coisas dele. até finalmente se formar. Outras mulheres faziam a mesma coisa. Se ao menos pudesse encontrar um jeito de usar seu dom para ajudar as pessoas. mais importante.24 Capítulo 3 Era aniversário deles. É claro. embora pensasse nisso o tempo todo. Fazia compras onde outras mulheres compravam. Sim. a lembrança do primeiro amor ainda ocupava sua memória o tempo todo. Um ano desde o primeiro encontro. Sua vida se tornara um esforço constante para reparar o engano do passado.. ele ouvira falar sobre a . Cortava o cabelo em um salão onde serviam champanhe para as clientes que esperavam sua vez. Mesmo que tivesse tempo para namorar. Depois disso.. Foram necessários seis anos para concluir a faculdade trabalhando em período integral e nos finais de semana também. mas. cintilantes presentes de amor. Outra faculdade estava fora de questão enquanto ainda estivesse saldando suas dívidas . Mas nunca esquecera. nos primeiros dois anos ele havia sido apenas seu chefe. tanto quanto respirar. Haviam sido anos de solidão. Era difícil saber o que era considerado normal.

25 pesquisa que ela conduzia sozinha depois do expediente. o trabalho no laboratório seria em vão.não se gabava do que tinha e fazia. E ele dizia que estudá-la era um privilégio.de algum jeito . Ela conteve um arrepio. Era o que dizia a si mesma todas as manhãs. E agora ela trabalhava no laboratório do amante e tinha expedientes mais longos do que em todos os outros empregos anteriores. A escrivaninha era a única área desarrumada na vida de seu amante. E havia dito que ela era a melhor. ela repetiu para si mesma enquanto mexia nos objetos sobre a escrivaninha. uma peça elegante no estúdio do lindo apartamento de cobertura com vista para o Lago Michigan. uma probabilidade de ele a pedir em casamento essa noite. e o que podia fazer. coisas que a ciência não conseguia explicar. Então. esse espaço privado na casa dele. Em razão do que havia acontecido com ela no passado. Especialmente agora. por que se sentia tão mal? .mais que uma chance.. o amante estava sempre lembrando. talvez fosse inevitável demorar tanto para voltar a amar. um sonho. porque tinha muito mais dificuldades com relacionamentos do que as outras mulheres. nenhuma placa do lado de fora para anunciar o equipamento caríssimo no interior. e ainda assim . além de serem unidos na paixão pelo trabalho. O restante .tudo era tão limpo e organizado que era como se não houvesse vida humana naquele lugar.ele descobrira. E oferecera um salário três vezes maior do que ela recebia em outro laboratório. e tinham uma idéia em comum. os profissionais que o amante contratara no mundo todo. a cozinha brilhante com os equipamentos de aço inoxidável.. Sem ela. Ela tentou banir da cabeça esse pensamento enquanto terminava de olhar o que havia nas gavetas da cômoda e considerava a escrivaninha de ébano. disciplinado . mas isso não importava certo? Porque estavam juntos. quando havia uma chance . e ela seria a mulher mais feliz do mundo. tomando cuidado para não mudar a ordem de papéis.. Não havia identificação.. E o amava. um lindo anel. E depois estariam unidos pelo casamento. mas insistia sempre no melhor. quando se preparava para passar pelas portas do edifício onde ficava o laboratório.ele havia insinuado muitas vezes. Iam mudar o mundo. canetas. Em algum lugar nesse apartamento podia estar o anel que ele poria em seu dedo. lembretes adesivos e clipes. Então. Ela não contara a quase ninguém sobre essa parte. Esse não era um pensamento que devia associar ao amante. as camisas bem passadas e os ternos pendurados no closet .o laboratório estéril. porque ele insistia em ter sempre o melhor de tudo. tudo para convencê-la a aceitar seu convite. Mas ele era assim. por que retribuir seu afeto e o contato físico se tornara tão difícil ultimamente? A culpa era dela. não? .

errado. amor maduro. tinha apenas um diploma de bacharelado. não se deixaria dominar por dúvidas. Hoje não. Apaixonara-se perdidamente pela primeira vez. Quando ele se ajoelhasse diante dela mais tarde. sentindo o coração bater mais depressa enquanto os olhos iam percorrendo as palavras na etiqueta de identificação. O nome que ninguém usava há anos. errado. Uma porta se abriu atrás dela. Era a caligrafia perfeita de seu amante.tudo isso podia ser explicado com facilidade. e se ainda se pegava pensando naquele outro amor era só porque tudo acabara de maneira terrível. De repente ela parou. Em seguida soou no apartamento o som característico do sapato italiano de seu amante no piso de madeira polida. uma intensa paixão. estaria preparada para reagir com a devida alegria e surpresa. Seu nome. e a escolhera. uma pasta cheia de papéis. Ela não se moveu. Afinal. Tinha de dominar esse medo.até as pessoas mais brilhantes. se queria ter uma vida normal. Nunca encontraria ninguém mais apropriado do que o amante. toda a equipe antipática e hostil que aparecia sem se apresentar e mergulhava no trabalho sem divulgar nenhuma informação pessoal sobre quem eram e o que faziam . Seus dedos tocaram as pastas guardadas na última gaveta. era isso. Casar-se. ter filhos. Seu amante havia sido paciente. ela tentava sufocar o medo persistente. inteligente. se confirmasse a suspeita. Sim. Sim. Esse era um dia especial. Todo mundo podia se distrair . poderoso. Não podia se mover. Só precisava ver o anel. poderia se preparar para ela. todos os outros profissionais no laboratório. Isso era amor de verdade. Portanto. calando a voz persistente em seu interior. os testes modelo e o controle de população que não pareciam em nada com o que haviam discutido até os arquivos que continham referências à patrocinadores sobre os quais ela nunca ouvira falar . Seu verdadeiro nome. Um dia com que toda mulher sonhava. recentemente o amante cometera alguns erros que não eram característicos de sua maneira de agir. produto de interesses em comum e de um cuidadoso crescimento da intimidade ao longo do tempo. Ele era rico. Amor de verdade era o que tinha agora. talvez. As incoerências nos relatórios de pesquisa que lera por engano no laboratório. mas o que chamava de amor devia ter sido apenas uma forte atração. e olhando para o nome que pensava ter . certo? Enquanto ia abrindo as gavetas da escrivaninha. escondê-lo onde ninguém jamais poderia vê-lo. e ele jamais saberia que dentro dela crescia um medo incontrolável.todos eram tão mais preparados academicamente que ela mal conseguia entender o que faziam aquelas pessoas. Estava segurando a pasta entre as mãos. Porque vê-lo serviria para confirmar o que ela já imaginava e. ela disse a si mesma. uma certeza de que algo estava errado. soubera esperar o relacionamento crescer e se transformar em algo mais sério e sólido.26 Nervoso.

. e ela começou a tremer. estilhaçada em milhões de cacos. sim. e embora aquela voz interior gritasse de horror e medo. . Sim. . eu acho. deixando-se guiar até o sofá de couro. sem pensar. De repente percebia que não conhecia realmente esse homem. . os joelhos se tocando. e a concha que ela havia construído cuidadosamente ao longo dos anos se desfez.Está vasculhando meus arquivos particulares. Algo excitante. alguém como qualquer mulher normal. Ele estendeu a mão e. virou-se lentamente para encarar o amante. não recuava.a voz profunda e controlada soou atrás dela. o momento é excelente.disse seu amante. As mãos dele eram quentes. Sem soltar a pasta. Ele parecia se divertir com o que via.De certa forma. Não fique tão surpresa. E então ele a chamou pelo nome verdadeiro. O fato é que fiz algumas descobertas sobre você recentemente. Quem pode me culpar por ter desejado descobrir tudo sobre a mulher que amo? E agora posso dividir todas essas descobertas com você. porque descobri algo que nem você mesma sabe a seu respeito. meu bem? O germe da dúvida que já existia dentro dela despertou. aquela parte de sua personalidade que treinara tão bem para ser outra pessoa. um novo dado que trará coisas muito valiosas para nós e nosso trabalho. querida! Sabe que sempre a achei fascinante. algo maravilhoso. . onde os dois se sentaram juntos. sobre você.Temos muito sobre o que conversar .27 enterrado para sempre. ela a aceitou.Ah .

O ônibus partiu. Talvez tenha sido por causa do cansaço. certo? . Antes de sair. preparei para ele uma torrada e o vesti com um macacão bonitinho. . Não que eu me sentisse mais corajosa. Uns dez metros abaixo. Seriam os tiras? Policiais disfarçados vigiando nossa casa por causa dos negócios de minha avó? Mas policiais não dirigiam um Lexus. mas o fato é que não vi o carro do outro lado da rua até o ônibus parar.28 Capítulo 4 Não dormi bem ontem à noite. A janela do motorista estava aberta. Alimentei Rascal e o pus para fora para passar o dia no quintal. Hoje. Era quase o contrário . Não queria Chub sentado na sujeira. Entrei no ônibus e me sentei ao lado de Coby Poindexter. Fazia frio para abril. havia um sedan cinza com janelas escuras. e qualquer pessoa que ia nos visitar simplesmente entrava no quintal. porque alguém havia derrubado cerveja no chão da cozinha. do outro lado da rua. apenas uma pequena brecha.como se eu desmoronasse.Coby me chamou. e eu apertava os olhos contra a luz do sol e soprava nuvens brancas no ar gelado quando ouvi o ônibus se aproximando. Nossa casa era a única naquele trecho da estrada entre Gypsum e Trashtown. por isso limpei o chão. mas não consegui enxergar o interior do automóvel. . Ninguém nunca estacionava na rua daquele jeito. por alguma razão. e eu me virei para trás tentando ver a parte traseira do carro. senti algo se rompendo dentro de mim. e levei mais tempo que de costume para me arrumar de manhã.Como vão as coisas na terra do lixo branco? Eu o ignorei e me virei.Ei . me debruçando sobre ele para poder ver o sedan. mas só consegui enxergar um emblema da Lexus. depois o deixei brincando com os blocos de montar.

Ela estava perto do bebedouro do segundo andar com duas outras garotas Morries que poderiam ser irmãs. . Desde a minha primeira semana na escola. todos mal vestidos e maltrapilhos. Coby . mas ele parecia surpreso. mas eu sentia que havia algo mais. Acho que o nome de uma delas era Jean . e ela explodiu numa daquelas gargalhadas fétidas. Ela era capaz de beliscar com uma força surpreendente. com os dedos manchados de nicotina. .Você não é uma Morrie . mais alto do que pretendia. sempre me senti atraída pelos Morries. bati a cabeça em seu ombro. e todas essas coisas não me deixavam energia suficiente para manter a máscara de indiferença que eu havia construído com tanto esforço. Sentia que era uma deles. o carro estranho perto da nossa casa. . . rústicos e hostis. Estendi a mão para pegar o livro no mesmo instante em que ela se abaixou. as páginas do livro se abriram. mas as outras garotas se aproximaram formando uma barreira diante dela. e ela se afastou de mim com tanta violência que deixei o livro no chão. eu desci antes que mais alguém pudesse falar comigo e fui procurar por Milla. mas eu .estivemos na mesma sala algumas vezes ao longo dos anos. e ela teria escapado pelo outro lado do corredor. provocando lágrimas quentes que inundaram meus olhos. isso podia ser apenas uma criança órfã sonhando com uma família .eu disse.Cale a boca. com os mesmos cabelos loiros e engordurados emoldurando desgrenhados o rosto de faces encovadas e queixo saliente. Não era uma reação fabulosa. a sujeira na cozinha essa manhã. Eu sentia . era demais. quando tentava me aproximar deles nos intervalos e na hora do almoço. como se houvessem ensaiado o movimento.É muito melhor do que qualquer garota Morrie.mas eu sentia que havia entre nós algum tipo de relação. porque ela estendeu a mão e.29 O jeito como Dun me tratara na noite anterior. Estava nervosa. Senti os olhos dele em mim durante o restante do trajeto até a escola. Não se esqueça disso.ela dissera. Queria conversar com Milla sobre o que acontecera. a saliva formando uma espuma nos cantos de sua boca.e. mas não prestei atenção. sim. Não foi difícil encontrá-Ia. Talvez por sermos igualmente patéticos.Com licença .resmunguei. Tentei conversar com minha avó sobre essa sensação há muito tempo. Com a queda. e quando paramos na entrada do colégio. se não tropeçasse na própria mochila e derrubasse o livro que estava carregando. Acho que não parecia muito convicta. beliscou a parte interna do meu braço.

vazia. era você.Você não foi à minha casa uma vez? . .Por que tem tanto medo de mim? . Eu aviso quando chegar a hora. .. e não preste muita atenção neles.Não disse que ao tocar suas mãos e testa eu tivera a impressão de que ela estava mais do que inconsciente. Limpos e Morries sem distinção. me aproximando ainda mais.. Era como se ela estivesse.mas isso é para mais tarde. mas o homem em que eu estava pensando tinha cruzes azuis em torno do pescoço. . . Eu não me afastei.. . me aproximei ainda mais. .Não fui eu . e eu vi todo mundo. é isso. dor. Percebi pelo olhar de Milla que eu havia tocado em um ponto sensível.Não sei do que está falando! . Você sabe.perguntei.. destruição. . se dirigindo às salas de aula.Ano passado. desaparecendo na raiz do rabo de cavalo acima da nuca. Eu vi. O sinal soou alto no corredor.. Eu sou. Olhei nos olhos de Milla e algo aconteceu no meu interior. Agora não havia garotos por perto. os olhos tão arregalados .minha avó acrescentara .O que aconteceu ontem? .perguntei com uma voz que era pouco mais que um sussurro. Não era uma grande dica.Sim. estava. Milla balançou a cabeça. . Perigo.Não. Aquele cheio de tatuagens. bem eles são uma história completamente diferente . pronunciando as palavras quase sem mover os lábios. Pelo contrário. .Você perdeu a consciência. quase me divertindo com o jeito como ela se encolhia tentando fugir de mim..ela resmungou.. já que muitos clientes da minha avó eram tatuados. .. com aquele cara. mas não me movi.30 não emiti nenhum som. Eu senti.perguntei.Já esses garotos Morrie.

eu a deixei ir. E agora ela estava pior que nunca. tentando tirar algum sentido das imagens. algo que a trouxera de volta bem e inteira.ou. me perguntando como havia sido o dia. Mas quando ela tentou escapar pelo outro lado. Sentia minha pele formigar onde eu imaginava o contato da minha mão contra aquela face pálida. o livro esquecido no chão. Ela tentou se desviar.Não tenho medo de você. e eu ainda tinha de fazer a maior parte do trabalho doméstico. pelo menos.31 que eu podia ver as veias rosadas na parte branca.Mas talvez devesse ter. e eu soube que ela estava prestes a se virar e correr. quando Chub chegou para morar conosco. . Ela havia mudado . Ela se afastou com passos curtos e rápidos. mas eu também não tinha certeza de que estava pronta para mudar. e minha mente dançava em torno das lembranças do dia anterior. . apoiando a mão aberta na parede. Pensei em minha avó e naquele breve momento em que ela se tornara quase humana. e isso era mais do que eu jamais havia visto antes ou do que vi depois. . Era isso que o futuro me reservava? Eu acabaria .Não tenho medo . . Eu não sabia muito bem se gostava dessa sensação.Não tenho medo .não ouvia minhas respostas. eu pensava que sim. Ela não era muito boa nisso . Ser eu não era exatamente o paraíso. Houve um segundo. Eu mal podia conter o impulso de bater nela.repetiu. eletrizada pelas batidas do meu coração e me transformando de dentro para fora. Não consegui me concentrar em nada durante o resto do dia. olhando pra mim com uma mistura de triunfo e tristeza. em que eu tivera a sensação de que alguma coisa mudava dentro de mim. mas estendi o braço e bloqueei o caminho. A raiva era como um feixe de raios percorrendo meus nervos. querendo saber o que eu aprendera na escola. Por um tempo ela fora quase como uma mãe de verdade. Como se uma parte secreta do meu ser se houvesse libertado e agora viajasse pela minha corrente sanguínea. Não sabia o que ou como.Milla repetiu mais uma vez. quando meus dedos pressionaram seus cabelos úmidos e pegajosos. mas quando eu a via lidar com Chub havia nos olhos dela um brilho luminoso. Eu havia feito alguma coisa com Milla. desaparecer dentro de alguma sala onde se sentaria no fundo com outros Morrie. passar por mim.

. eu disse a mim mesma . eu me virei e voltei.não havia planejado aquilo. Eles se moviam depressa e pareciam fortes e musculosos sob as roupas. todo mundo na cidade ia lá. Eram de estatura mediana. E em vez disso. eu jamais os vira antes. colírio pra minha avó. era possível que os tiras locais houvessem acionado alguma outra agência. muito mais sérias do que para quem apenas usava drogas. não eram da polícia de Gypsum. e usavam óculos de sol e jaquetas de couro.e agora eu queria mais que nunca estabelecer com ela uma ligação. tinham cabelo curto.. por que não providenciavam um mandado e simplesmente revistavam a casa? Talvez seja essa a intenção deles agora .tudo que eu havia comprado hoje era uma embalagem de sacos de lixo. Mas se alguém descobrira que minha avó está traficando drogas.devia ser coincidência o fato de eu tê-los visto duas vezes. não conseguiriam nada conversando com o sr. Depois de percorrer alguns quarteirões. Eu sabia que as penas por tráfico eram duras. do Tabaco.. Tentei lembrar o que havíamos aprendido na escola. e sabonetes. Em Gypsum. não entendia. Eles podiam ter parado na frente da nossa casa para examinar um mapa ou fazer xixi atrás de uma árvore. mas havia tentado . Não: a conexão já existia . Havia o Departamento do Álcool. . e não sorriam nem falavam. Por outro lado. Mas se eles já suspeitavam da vovó. pelo menos de vista. vi algo que fez meu coração pular dentro do peito: o carro que estivera estacionado diante da nossa casa na manhã anterior agora estava em uma vaga no estacionamento bem na frente da loja. e aqueles sujeitos não pareciam ser da cidade. e quanto a estarem na farmácia. amarga e cruel? Eu tentara ajudar Milla . ela deixara mais claro que nunca que não queria ter nada a ver comigo.tentar reunir evidências suficientes para justificar um mandado. Dois homens desceram do automóvel. eu conhecia praticamente todo mundo. Se eram policiais. Quando estava quase chegando na farmácia. e os Bombeiros. ou qualquer outra coisa. Como. se haviam sido presos por posse de alguma substância.. Bem. Poderiam ser qualquer pessoa. Eu ainda estava distraída com meus pensamentos quando entrei na farmácia depois da aula e saí de lá sem a única coisa de que realmente precisava: o xampu infantil de Chub. Hsiao .32 como ela.eu só queria que ela a reconhecesse. mas drogas se enquadravam em algum crime federal? E quem teria delatado minha avó? Um de seus clientes? Talvez houvessem fornecido a informação em troca de algum acordo conveniente.

Hsiao me ver. Não podemos dar detalhes nesse momento. Contei até duzentos antes de sair da farmácia. tomando cuidado para não deixar o Sr. comentar essa nossa conversa.Houve um incidente na escola . roubara alguma coisa de valor.Isso mesmo. Hsiao. Estudei os aparelhos e cremes de barba e me esforcei para ouvir o que os dois homens estavam dizendo ao Sr. depois caminhei rapidamente para o carro. E gostaríamos de pedir para não.. Hsiao não soara muito impressionado com as credenciais que eles apresentaram. talvez. Apreciamos sua cooperação. Esses garotos não seguem uma rotina.Bem. enganara alguém importante? . falar com ela você mesmo. descubra quem são eles. . Hsiao disse com uma nota de desconfiança: .. Não estava convencida de que os homens eram mesmo de algum departamento de estado. entre outras coisas. . depois o Sr. .respondeu o outro. -Vem regularmente? . espiei pelo pára-brisa: não havia nada lá dentro. Pode ir atrás da garota.E vocês são de onde. Seria algum tipo de concorrência? Traficantes da cidade vizinha. Voltei à farmácia. escolhendo o corredor mais afastado da caixa registradora. Hsiao. mesmo? .disse a primeira voz. o Sr. Além do mais. ou de Kansas City? Ou vovó se metera em coisa pior? Ela devia dinheiro.Aqui está minha identificação.Não. Sr..Departamento de estado .. Houve um momento de silêncio. anônimos. Um momento depois eles saíram da loja. Eles eram muito. como pode não vir.33 Precisava saber mais. Esperei até eles entrarem na loja. como eu disse. só uma xícara térmica de café no porta copo. Vi o topo da cabeça deles no corredor vizinho e me abaixei. já contei tudo que sei. telegrafei silenciosa.Era uma voz profunda com um tom levemente aborrecido. Tentando parecer casual. um homem de voz mais suave. ela tanto pode aparecer. . sabe? Pode me dizer o que significa tudo isso? .

. olhos estreitos e cabelos pretos e longos. mas não podia permitir que nada acontecesse a Chub. Eu nunca falara com ele.Sawyer . tinha ombros largos. Ela se recusava a me encarar.Tudo bem . e então eu vi algo que nunca vira antes: seu sorriso. será que você pode me acompanhar até em casa? Só depois de falar eu percebi como as palavras soavam. mas não era como os outros. . Eu precisava ir para lá.Sawyer respondeu. os olhos tomados pela dúvida.34 O carro não estava mais no estacionamento da farmácia. . e queria companhia.comecei a explicar. Não estava muito preocupada com o que poderia ocorrer com minha avó. ninguém para me ajudar ou notar. Ele era quieto. Milla me viu primeiro. mas havia trechos da estrada onde não existia nenhuma casa ou estabelecimento comercial. Estava amedrontada.Milla disparou. eu nem imaginava quem? .. Ele dizia alguma coisa enquanto jogava o cigarro na calçada e pisava sobre a ponta para apagá-la. Ele parou e olhou para mim. e quem não o conhecia se sentia facilmente intimidado por ele. . só isso. Sawyer era um Morrie.chamei. Parecia surpreso.. caso alguma coisa ruim acontecesse. .Sawyer. mas o que poderia dizer? Que pensava estar sendo seguida por agentes secretos do governo ou membros da máfia ou. O pânico me fazia mais ousada.Eu não disse. mas bem podia estar a caminho de nossa casa. mas já o havia notado me observando algumas vezes na hora do almoço ou durante reuniões escolares.Quero dizer. Sawyer era alto. depois atento... e se mantinha limpo. Eu ainda hesitava sem saber se devia ir correndo para casa ou continuar escondida para evitar ser vista pelos desconhecidos....Você ia comigo ao Burger King. quase na altura dos ombros. Mas eu nem imaginava o que esses homens podiam querer comigo. Era surpreendente como o rosto dele mudava como o sorriso o fazia parecer mais doce. e ela comprimiu os lábios compondo uma expressão dura enquanto tocava o braço de Sawyer. . eu não . quando Sawyer Wesson apareceu na esquina caminhando com Milla. Esqueceu? . caso acontecesse alguma coisa comigo. cauteloso. . .

e me surpreendi por saber que ele estava pensando em tentar cursar História na AP. falamos sobre aulas e professores. e Sawyer ouvia. .Ei . Ela não falou sério.Por que não vai com ela. Mudei de assunto.ele disse quando vimos minha casa. sobre como ele era um irmão mais novo para mim. não você. Ele me perguntou o que eu gostava de fazer depois da escola e eu falei sobre Chub. talvez.Só queria dizer que realmente sinto muito sobre Milla e. como se acreditasse ser parcialmente cachorro.. Eu não sabia como era a vida dele em casa.... Acho que. Estaria se referindo ao que havia acontecido no ginásio? Ao fato de eu ser uma excluída? O que quer que fosse Sawyer não sabia ou não se importava. e até riu quando eu contei como Chub gostava de seguir Rascal pelo quintal. assentia. então. e eu pensei em mim mesma nas aulas de educação física.Alguns.35 .Você já quis praticar algum esporte? .. já que é tão esquecido e provavelmente esqueceu quem ela é? Era um blefe. Ele não precisava terminar. no mesmo momento Sawyer também começou a falar.. considerando que Sawyer se aproximou de mim sem sequer olhar para trás. . E nós dois rimos e dissemos você primeiro.O que você. Eu não sabia o que Milla queria dizer com "quem ela é". . uma faculdade americana. Sawyer chutou uma pedra e ela voou para o outro lado da estrada. .Então como. Mas. Por um momento Sawyer não respondeu. . .. e nem era dos melhores. . e então. Ele seria o primeiro Morrie de quem eu jamais ouvira falar a entrar em uma turma de Colocação Avançada. sou muito bom arremessando. e experimentei uma presunçosa satisfação quando vi Milla voltar de onde viera evidentemente derrotada.perguntei.. você sabe aquilo que ela disse. mas podia presumir que tínhamos algumas coisas em comum nesse campo. acertando um tronco de árvore. Percorremos meio quarteirão antes de eu conseguir pensar em alguma coisa para dizer. Pensei em beisebol.

Depois de fechar a porta.. Talvez raiva.. Seus olhos indo e voltando entre mim e Rattler. Quaisquer que fossem os sentimentos de Milla por mim. O medo me invadiu quando Rattler se debruçou na janela e me encarou. . Estava tentando decidir como continuar quando um carro parou atrás de nós e acelerou..Entre no carro. . . mas uma velha picape Ford verde. mas havia nele uma ameaça. e eu não queria estragar tudo causando desconforto e constrangimento.disse Rattler.Não vou falar outra vez.comecei com cuidado.Eu não. pareciam ser bem intensos. vi que não era um carro qualquer.. e isso me fazia bem. como olhava para mim na escola quando achava que eu não estava prestando atenção . quase negros. Ela me pediu para. mas.ele disse.. apenas voltando o rosto em minha direção..Eu. Era Rattler Sikes. e eu notei que seus dentes eram surpreendentemente brancos e alinhados. mas duros e cintilantes com uma intensa emoção. quando falou. garoto . ele se dirigiu a Sawyer.Sawyer resmungou de cabeça baixa. . Nunca antes um menino se interessara por mim. . Ele caminhou até a porta do passageiro e entrou na picape.Sawyer começou. um pedido silencioso de desculpas. . O motorista abriu a janela e pôs um braço para fora. ficou olhando para frente sem se mover. A julgar por como ele aceitara prontamente me acompanhar.Não .Eu não fiz uma pergunta. sempre me perguntei por que Milla e eu nunca fomos amigas . Sawyer olhou para mim sem realmente me encarar. Quando me virei para olhar. . Talvez curiosidade. talvez. obrigando-nos a correr para o acostamento e buscar o abrigo das árvores. uma sombra de violência que me tocava e envolvia meu coração. menino . Tentei pensar em um jeito de perguntar sobre ela e os Morries de maneira geral sem ofendê-lo. .36 Eu duvidava disso. Seus olhos eram castanhos escuros.eu tinha certeza de que estava apaixonado por mim. expressando sua infelicidade e. Seu tom permanecia neutro.

feliz com minha chegada . . ele bateu na lateral do automóvel e girou o volante. praticamente um sussurro. ouviu menina Hailey? A caminhonete se afastou devagar. Havia alguma coisa em como ele olhava para mim. solto. Os olhos de Rattler permaneciam fixos em mim. A voz de Rattler soou ainda mais baixa. os pneus rangendo no cascalho e espalhando pedras soltas e folhas mortas. eu não desviei o olhar. algo que me impedia de fugir. Mas eu podia.37 Rattler continuava me observando. pensei novamente. que muitas pessoas nem conseguiriam ouvi-la.Tome cuidado.. voltando para o meio da pista. mas a voz de Rattler persistia na minha cabeça. . Percorri sozinha os últimos metros até nossa casa. e quando eu já pensava que a picape ia sair da estrada. Por mais desconfortável que fosse ser o centro de sua atenção. Tão baixa. as orelhas tremulando ao vento. e Rascal veio correndo pelo quintal para me receber.. Podia ouvi-lo perfeitamente. Rattler pisou no acelerador e eu inspirei a fumaça cuspida pelo escapamento corroído.

. mas no último segundo mudou de idéia e seguiu pela rampa que desviava o tráfego pelo Show-Me Trading Post antes de desembocar na Rodovia Estadual Nove. e finalmente escolheu um MP3 genérico com fones de ouvido. era mais difícil resistir. apenas um gesto para mostrar sua intenção de ajudar. havia poucos objetos nas prateleiras que poderiam interessar a uma menina de dezesseis anos. Quando ela pegava o aparelho do suporte em uma prateleira na parede dos fundos. Poderia comprar algo melhor para a menina mais tarde . as coisas que descobrira sobre o amante . um lugar totalmente impróprio para se comprar um presente. um galpão de concreto caindo aos pedaços com cartazes de mau gosto nas janelas sujas. A garota cuja existência ela desconhecia. Hoje começaria a consertar todas as coisas.quando estivessem juntas. se soubesse. O Snow-Me Trading Post era ainda mais dilapidado do que ela lembrava. a porta se abriu e dois homens entraram. Muita coisa teria sido diferente. Porém. uma coleção de pulseiras baratas feitas com contas. revistas de moda. Era inútil pensar no que poderia ter sido. seguindo diretamente para o caixa em seus trajes sombrios. mas no meio da noite. fosse arredia. quando tivesse provado que suas intenções eram boas. Ela estudou um display de papelão onde havia uma linha completa de brilho labial com sabor de frutas. horas passadas deitada no escuro revendo muitas vezes aquela cena horrível. pudesse facilitar as coisas para um primeiro encontro.e a surpresa que ele deixara para o final. quando o silêncio era mais profundo e a escuridão penetrava em sua alma. Mas temia que a garota. que também nunca ouvira falar nela. Talvez uma lembrancinha.38 Capítulo 5 Ela quase não parou na periferia da cidade. Partira para o sul logo cedo depois da noite mais longa de sua vida.

respondeu em voz suficientemente alta para ser ouvida no fundo da loja. tomada por um medo repentino. no laboratório. . exceto por ser uma descoberta favorável à pesquisa. por isso é provável que não a conheça. Não pareciam cientistas . Moro a trinta quilômetros de Casey. Mais sussurros. permanecendo em seu escritório até tarde da noite e observando os monitores mais altos que eram posicionados no escritório de forma que só ele pudesse vê-los. Então.Telefone para mim. acho que não .39 Ela ficou onde estava. mas eu não sou da cidade. Ela se encolheu ainda mais no canto entre a geladeira e a parede. Podia ter acreditado na história que ela contara na noite anterior. e enquanto o homem que falava gesticulava insistente. Havia visto aqueles homens antes.ele disse em voz alta. encolhida à sombra de uma geladeira que continha refrigerante e cerveja.Não. colocando um cartão sobre o dinheiro. Mas não podia simplesmente invadir a casa e exigir que a garota a acompanhasse . Um dos homens falou em voz baixa com a funcionária no caixa. falando pouco. A funcionária.e deixou uma nota sobre o balcão de vidro.não quando não havia como prever o que a velha havia dito a ela.ela disse com indiferença. o outro olhava em volta. . seu amante não havia esperado.porque só podia ser isso que ele mostrava uma foto da garota .Não. uma mulher de cabelos cor de cobre e óculos que ela mantinha pendurados em uma corrente presa ao pescoço. permanecendo imóvel para não ser vista pelas pessoas na frente da loja. As visitas eram breves. mostrando a ela algum objeto pequeno e plano. e depois delas seu amante normalmente ficava distante por um ou dois dias. Precisava detê-lo. .primeiro tinha de conquistar confiança. Não . Às vezes iam encontrar seu amante para conversas privadas. caso consiga lembrar mais alguma coisa . O homem guardou a fotografia . Era evidente que estava disposto a seguir em frente imediatamente.não com aquelas jaquetas escuras que não escondiam completamente o coldre que eles levavam preso ao corpo. nunca . e seu coração disparou quando ela viu os dois homens se dirigindo à saída. . mas isso não o impedira de mandar seus homens a Gypsum. Podia ter acreditado em suas mentiras. em sua tentativa apavorada de convencê-lo de que encontrar a garota não tinha nenhuma importância para ela.repetiu a funcionária no caixa -.

e saiu da loja. E também seria inútil exigir. Ela se serviu de uma xícara de café frio e notou que as mãos tremiam. um lugar que havia esperado nunca mais voltar a ver. Parada no estacionamento. ameaçar. Tinha pela frente uma tarefa quase impossível. Depois pagou no caixa pela bebida. Suborno não teria nenhuma utilidade. E a única arma de que dispunha era a verdade. Isso não ia ajudar em nada. . notando que a mulher mal olhava em sua direção enquanto contava as moedas.40 Ela olhou para o presente barato em sua mão e o devolveu à prateleira. ela terminou de beber o café amargo antes de entrar no carro e dirigir pelas ruas antes familiares que conduziam a casa onde ela crescera. pedir e suplicar.

Quando me viu. Era a melhor coisa do meu dia. não conseguia retribuir aquele abraço sem demonstrar quanto estava abalada pelo encontro com Rattler. A Juíza Judy berrava na televisão. Hoje. Enxuguei e vesti o menino com seu pijama. em Milla e Sawyer. e ela grunhiu uma resposta na minha direção. ele se levantou de um salto e correu na minha direção. voltar para casa e me certificar de que Chub estava seguro. porém. quando encontrei as palavras perto do chão. e como vovó costumava mantê-lo sempre abarrotado de tralha. mas ainda era muito cedo para colocá-lo na cama. esculpidas com cuidado na parede do closet do quarto que eu dividia com Chub. e saber que havia uma pessoa na minha vida que sempre ficava feliz por me ver. embora fosse quase impossível me concentrar. e eu preparei o jantar e dei banho em Chub. Continuava pensando nos homens no carro. rabiscando com um giz de cera grosso. Eu sabia que devia ler uma história para ele. Chub estava deitado de bruços com um livro de colorir. Dei um lanche para Chub e bebi um copo de leite. esperando meu coração voltar a bater no ritmo normal. Não era possível vê-las sem realmente entrar no closet. depois me sentei para fazer a lição de casa. mas ainda me sentia perturbada e distraída. abraçando minhas pernas como fazia todos os dias. entalhadas no velho revestimento de madeira. e só então entrei em casa. Disse oi para minha avó. e por isso fiz algo que me acalmaria: visitei as palavras. Eu as encontrara alguns anos atrás.41 Capítulo 6 Quando Rattler foi embora. e em Rattler. gritando "Hayee!" Normalmente. fiquei parada do lado de fora por mais um minuto. . eu adorava esse momento. eu só as encontrei quando cresci o suficiente para arrumar o closet sozinha. Eu havia tirado tudo de lá e estava lavando as paredes em uma manhã de sábado. A tarde progrediu para a noite.

pude ver que havia ali um pacote envolto em tecido e papéis enrolados e amarrados com uma fita. no mesmo instante em que imaginei a cena. onde a luminosidade era melhor. Eu me ajoelhei e direcionei o raio de luz para o pequeno espaço. alguém as desenhara com capricho. descobri que havia encontrado um esconderijo: o revestimento fora recortado na parte central. Chub havia subido na minha .42 Campo de Trevos Aquelas palavras acenderam alguma coisa dentro de mim. Mas não havia pregos soltos. Deixei meus dedos descerem escorregando pela parede. As extremidades eram bem lisas. quando puxei a parte mais alta do rodapé. A estranha sensação de familiaridade tornou-se mais forte. apenas mantido no lugar pela tensão entre as outras paredes. a parte mais baixa se soltou da parede. e lá encontrei alguma coisa. eu soube que ela não era a ideal. ela se soltou na minha mão. Senti que eu não era a primeira pessoa a acompanhar aquele contorno com o dedo. Quando a puxei. E quando tateei a área que ela recobria. Em vez disso. aquela tábua não era rejuntada como as outras. sob um sol brilhante. Introduzi a mão nesse buraco cautelosamente. Eu o separei ligeiramente da parede. Eu voltava para visitar aquelas palavras quase que semanalmente. acalmando minha ansiedade e meus medos. talvez usando um canivete ou uma chave de fenda afiada. Na verdade eu compreendi. criando um pequeno buraco de mais ou menos trinta centímetros de área e alguns centímetros de profundidade. Fiquei tentando entender o que elas significavam . Alguma coisa acontecia quando eu as tocava. Com o rosto colado ao chão. estava solto. como se uma pequena medida de paz me invadisse. O rodapé.imaginei um campo coberto de trevos balançando delicadamente ao vento. cavando o contorno de cada letra até todas estarem gravadas profundamente na madeira. pensando em ir buscar um martelo para prendê-lo. Tracei as palavras com um dedo. e percebi que ele não era pregado. Tentei empurrá-lo de volta ao lugar. Mas. Tirei tudo de lá com grande cuidado e coloquei no chão do quarto. Mas alguma coisa não estava certa ali. sentindo que cedia sob meus dedos. sem farpas ou irregularidades. quase como um reconhecimento. tateando em busca do prego que se soltara. que se estendia por apenas meio metro ao longo da parede do lado esquerdo do closet. até descansarem no rodapé.

Mas eu havia aprendido na escola que as famílias de imigrantes costumavam registrar nomes. folhas de papel amarelado e áspero ao toque. Vovó era arqueada. e tinha dificuldades para respirar e se levantar de uma cadeira.. talvez. 1961. Continuei lendo os nomes: Sarah Beatrice Tarbell. ou. e os olhos brilhavam como se ela houvesse acabado de ouvir algo engraçado. mas. cobertas por uma caligrafia floreada. sorridente e de cabelos negros. Rita Joan Tarbell. O penteado era antiquado. mas a pele era macia e livre de rugas. Talvez alguma coisa ligada a religião? Minha avó nunca ia à igreja. Peguei uma moldura de metal escurecido contendo a foto de uma mulher jovem. As letras desbotadas pareciam ter sido escritas com caneta tinteiro. Tentei pensar em possibilidades. Era verdade que ela nunca me dissera sua idade. Dentro dele. Olhei para o nome de minha avó até perceber o que estava errado: se aquelas eram as datas de nascimento. Mas isso era impossível. em uma Bíblia da .. um retângulo de renda branca havia sido caprichosamente enrolado em torno de um colar. mas eu sempre presumira que ela tinha pelo menos oitenta anos. sofria de artrite. o vermelho dos lábios. As páginas enroladas eram frágeis. Virei a moldura e encontrei uma inscrição atrás da fotografia: Mary 1968.. nunca mencionava Deus. ao mesmo tempo... coisas desse tipo. era de alguma forma. Era uma peça linda e parecia ser muito antiga. talvez mais.. isso significava que ela tinha. A data podia ter outro significado? Uma data de casamento. cantarolando e tocando os desenhos com os dedos. Helen Davis Tarbell.. e as cores eram intensas demais: o amarelo da saia. colocando-a no chão com cuidado.havia nomes de mulher e datas de um lado. e desdobrei um pedaço de tecido amarelado pelo tempo. ele era capaz de se entreter dessa maneira por muitas horas. A lista começava com Lucy Hester Tarbell e o ano de 1968. quarenta e nove anos.43 cama e virava as páginas de seu livro favorito. o último nome me fez perder o fôlego: Alice Eugenie Tarbell. familiar. datas de nascimento. e do outro algumas linhas escritas em um idioma desconhecido. Uma corrente prateada sustentava uma pedra vermelha lapidada em dúzias de facetas e cercada por um delicado arabesco de renda. Ela não parecia com ninguém que eu houvesse conhecido. encaracolado em torno do rosto. Deixei a moldura de lado.. Era uma dessas fotos antigas da época em que haviam sido feitas as primeiras fotos coloridas. morte e casamento. Não consegui ler todas as palavras . que fosse tão velha quanto eu podia imaginar. Estudei os nomes. Quando cheguei ao final da lista.

e me encantei com a beleza das palavras. e vovó de alguma maneira. Examinei a página pela segunda vez. Aquilo me deu uma sensação extremamente boa e parecia ser. certo. Descobri que queria . eu não podia ter certeza. e percebi que havia recitado o parágrafo inteiro ou poema. minha mente não havia estado completamente silenciosa. e a idéia era assustadora. ou talvez fosse minha própria voz. o gesto pudesse revelar o que eu devia fazer. e até Chub.recitá-las em voz alta. Então percebi que já havia escutado aquelas palavras uma vez antes.. em como eu conseguia produzir os sons estranhos..mas as palavras estavam ali dentro de mim. e ler as primeiras linhas foi o suficiente para trazer o restante delas à minha mente consciente. e Rattler Sikes. Eu podia ter parado . e que Milla fazia parte disso. Meus olhos perderam o foco.44 família. ou o que quer que fosse aquele texto escrito com tanto cuidado sobre as velhas páginas. linha após linha. as linhas incompreensíveis. e descobri que meus lábios se moviam com facilidade. . e quando as palavras chegaram ao fim eu pisquei uma.. Quando eu tocara Milla no ginásio. Tá mé mol seo draíocht Na anam an corp cara ár comhoibrí Mal havia terminado de ler as duas primeiras linhas. Eu havia encontrado páginas arrancadas da Bíblia da minha família? Voltei a elas e tentei ler o texto manuscrito. Deslizei a ponta dos dedos pelas palavras. Porque eu tinha certeza de que havia sido escolhida para alguma coisa. como se. Dun. e todos os Morries. mas envolvente. Como eu podia ter esquecido? No momento em que minha visão escurecera. de alguma forma. minha voz baixando para um sussurro. uma voz dizendo aquelas mesmas palavras. e eu continuei. mas continuei recitando. que eu pronunciava as palavras desconhecidas como se as houvesse recitado durante toda minha vida. permanecendo por um momento antes de desaparecer. Havia um sussurro. duas vezes. como se tocá-las pudesse trazer a resposta para minhas perguntas. a entonação que os acompanhava.não era como se estivesse possuída ou coisa parecida . quando os sons do ginásio haviam desaparecido e eu me vira completamente focada na sensação do sangue correndo em minhas veias e no corpo inerte de Milla sob meus dedos. só sabia que elas se desenrolavam como uma fita flutuando ao vento.precisava .. Tudo isso se encaixava de algum jeito que eu ainda não entendia.

Hoje eu cantarolava uma melodia triste que surgiu na minha cabeça. e quando a necessidade de repetir os versos muitas e muitas vezes finalmente desapareceu. e a melodia ganhou palavras. desde suas canções preferidas dos desenhos animados até as músicas que eu ouvia no rádio.45 Peguei o colar e o aproximei da luz.Biiito! . Lampejos intensos de vermelho se projetaram nos cantos do quarto. Adorava cantar para Chub. e depois me sentei ao lado de Chub na cama e o deixei olhar para a pedra. junto com a moldura e as folhas de papel. como se a pedra tivesse alguma energia que se fragmentava ao ser tocada pela luz. Chub segurava a ponta do cobertor junto do queixo. Se Chub as achava estranhas. ele havia adormecido em meus braços. Chub notou a pedra brilhante e abandonou o livro sobre a cama. Ele a tocou com delicadeza e murmurou alguma coisa. Escondi o pingente sob a roupa para que vovó não o visse. e sorria sonhando. .ele disse rindo. manuseando com cuidado o velho fecho de prata. Chub suspirou e se apoiou em mim. e cantava de tudo. subindo no meu colo. Eu o levei para o berço e o acomodei sob seu velho cobertor favorito. Eu cantava. não demonstrou nada. Quando saí do quarto. e nós balançávamos. Pus o colar no meu pescoço. Eu o segurei com força e embalei. . as palavras do verso. e enrolei o pedaço de renda cuidadosamente e guardei no fundo da minha gaveta de camisetas. batendo palmas. e era quase como se dissesse "bonito".

havia algo de errado com o nariz dele.um sanduíche e uma maçã que havia levado de casa . não na frente de Sawyer. .. Hailey? . Ao passar. fique longe de nós . Eu não podia deixá-lo falar essas coisas. Mas havia algo errado. estava inchado e torto para o lado direito. Além do hematoma no rosto. De perto a situação era pior. quando o vi.e passei pela mesa dele andando com toda casualidade de que era capaz.46 Capítulo 7 No dia seguinte. eu podia perceber de onde estava. -Eu.Vadia. eu . ainda vermelho. Joguei fora meu almoço ... e todos olharam para mim.disse outra menina.. . não consegui esconder meu espanto. . O olho dele estava inchado e uma horrível mancha roxa cobria um lado de seu rosto. Milla bateu com a mão na mesa.A culpa disso é sua. exceto Sawyer. cinco metros distante.Por que está olhando para ele desse jeito.. e sobre o outro. Ele tinha um olho preto. cutucando com um garfo de plástico a comida que levara dentro de um recipiente Tupperware. De repente perdi o apetite. Eu estava ficando cansada de como eles me tratavam especialmente depois do que . e a força do gesto furioso fez pular bandejas e talheres. na sobrancelha. Sawyer estava sentado com Milla e alguns outros Morries.Por que não pode simplesmente nos deixar em paz? . eu me sentava no lugar de sempre para almoçar em uma mesa vazia.. havia um corte bem feio. Você fez isso com ele. que baixou o queixo ainda mais mantendo os olhos fixos na mesa.perguntou Gomez Jones.

.Para meu horror. eu me virei e saí da cantina tão depressa quanto pude. Milla se levantou com os olhos cheios de lágrimas furiosas. Nunca . nenhum de nós precisa. é claro. . Sawyer empurrou a cadeira para trás e foi atrás dela. . embora eu nem imaginasse por quê.Não preciso de você.Eu acho. Acha que está acima de todos nós. apagando um resto de cigarro no cinzeiro e estendendo a outra mão para o maço. enquanto Gomez e os outros começavam a recolher suas coisas. . Não está. a menos que recebesse visitantes. Você e sua avó. era evidente..antes vira uma menina Morrie enfrentar alguém fora de seu grupo.47 havia feito por Milla. amassando-o ao constatar que estava vazio..eu mesma tinha medo de mim. Não sei. Tudo com que se importava era a televisão. Ela não fazia idéia..Não fosse por mim. Não me incomodei em perguntar a mim quem podia ter feito aquilo com ele . Fique longe. São aberrações. joguei o conteúdo na lata de lixo. Talvez devesse mostrar um pouco mais de gratidão. Eu me afastei da mesa lentamente. .O rosto de Milla estava distorcido pela raiva.. Não culpava os Morries por terem medo de mim . Eu não entendia.perguntei a minha avó. Porque você me salvou.Há quanto tempo ele dormiu? . . Quando cheguei em casa. Quando tropecei em uma cadeira.só podia ter sido Rattler.nunca . não é? . sem sequer olhar para mim. mas não está. Ou talvez tenha dormido há algum tempo.ela respondeu.Por isso devo lamber seu traseiro? . . vocês estão loucas. estendi a mão para o cinzeiro cheio.Eu não. Chub estava dormindo no sofá. .a menina perguntou.Ah. ouvindo as palavras dela ecoarem em meus ouvidos.Quantos de nós ainda quer prejudicar? Nada disso estaria acontecendo se você simplesmente ficasse longe.Feliz agora? . e ele pagara caro por isso. . Havia infringido alguma regra ao conversar com Sawyer no dia anterior. Automaticamente. Depois de um segundo de silêncio. e limpei o cinzeiro com um pano antes de colocá-lo de volta no braço . Muito medo. nunca disse .Não muito . você estaria morta. Continuei parada no mesmo lugar depois que todos eles foram embora. . nem uma vez em toda minha vida.

Rascal não precisava de uma .48 da cadeira. Rascal adorava correr atrás dele. e eu nunca havia visto tanto dinheiro em toda minha vida. onde? Antes que pudesse examinar a passagem com mais atenção. um maço de dinheiro. Não me importei com uma coleira. Meu coração disparou quando percebi que eram todas de cem . Volto logo. Alguma coisa caiu dele .devia haver milhares de dólares na minha mão..Rascal era um cachorro esperto. Mas eu não contara com a curva. Sacudi rapidamente as notas. e o encontrei no lugar de sempre. em cima da cômoda. Fomos andando pela estrada. escapar das garras da lei? O que havia feito? Estava tão compenetrada. e saiu correndo pelo cascalho do acostamento no mesmo instante em que o veículo surgiu do trecho . De volta à sala.. . e o vôo era de STL para DUB. Barulhento. e peguei o envelope branco. Curiosa. tão distraída com meus pensamentos. Fui ao quarto dela buscar um maço de cigarros ainda fechado. Devia ter alguma relação com os homens no carro. Eu não esperava que ela respondesse.Vou sair para caminhar. aquele veículo passava pela estrada toda terça e sexta-feira a caminho do Wal-Mart em Casey. Saint Louis para. com o maço de dinheiro. quase não registrei o ruído do caminhão. Nenhuma de nós jamais viajara de avião. e enfiei o bilhete de volta no envelope e o guardei no outro. Ajeitei um cobertor sobre Chub e beijei seu rosto. percebi que ele estivera até então sobre um envelope pardo simples. Normalmente ele não saía de perto de mim quando estávamos fora de casa. que ouvira o caminhão se aproximando antes de eu mesma registrar o som. rápido e ele adorava correr atrás de caminhões. notas presas por um elástico. pardo e maior.ele parava e se sentava sempre que eu parava. mas o que poderia ser? Ela estava planejando fugir. as orelhas tremulando. e eu tentava entender o sentido das coisas que encontrara no quarto da vovó. que quando fizemos uma curva a uns quatrocentos metros da nossa casa. para minha surpresa. a língua para fora. Larguei o dinheiro sobre a cômoda como se estivesse em chamas. Eu não me preocupei . mas havia alguma coisa no brilhante caminhão amarelo que o fazia sair correndo. Porém. Retirei dele um pedaço de papel e depois de estudá-lo por alguns minutos compreendi que era uma passagem de avião.um envelope branco comercial e. O motorista não podia ter visto o cachorro. eu o peguei. quando tirei o maço do lugar. Minha avó não respondeu. entreguei o maço de cigarros para minha avó e tentei dar a impressão de que nada de extraordinário havia acontecido. tudo nele revelando uma intensa alegria com a perseguição. O embarque estava marcado para duas semanas a partir desse dia. ouvi vovó tossir meu nome na sala. com um eterno problema de escapamento.

e fechei os olhos . Muito grave. Sei que o motorista parou. e acho que ele sabia que Rascal estava quase morto. Tirei minha jaqueta e a estendi no chão..49 anterior à curva. Já estava partindo. Mas eu sabia que essa chance não existia. não na frente do motorista do caminhão. senti o sangue frio já coagulando sob meus dedos. e com toda gentileza de que era capaz eu coloquei o corpo de Rascal sobre a jaqueta. quando ele foi jogado longe e caiu sobre a terra batida além do acostamento.. Aproximei o rosto do focinho do cachorro para sentir sua respiração. Com lágrimas inundando meus olhos e dificultando minha visão. o sangue corria mais depressa nas veias. quando ele conseguiu escapar por pouco de ser esmagado pelas rodas. dobrei o tecido sobre o corpo ferido de Rascal e o peguei nos braços. Não vou contar o que vi. e atrás de mim. Não me lembro do que eu disse ao motorista. Não se eu não fizesse o que tinha de ser feito por mim. Não se entrássemos no caminhão. fiquei coberta de sangue. para procurarmos um veterinário. Deixei Rascal na varanda. tudo como havia sido no ginásio. O formigamento já começava a dominar meu corpo. no chão. porque se corrêssemos talvez ainda houvesse uma chance. mas não havia nada. Sei que ele partiu depois de tocar meu ombro com aquela mão pesada e me dizer que sentia muito. Eu corri. Ele não protestou. Eu me aproximei de Rascal e vi que a situação era grave. e creio que não quis interferir nos meus últimos momentos com o cachorro. e ainda lembro que ele desceu da cabine e falou comigo. Não quero lembrar. Nem sei se disse alguma coisa. e o grito ficou preso na minha garganta. não vou descrever o estrago que pode ser feito em um único instante de inocente alegria. Mas eu não podia fazer o que tinha de ser feito ali. Naquele segundo que levei para me ajoelhar ao lado de Rascal e aproximar meu rosto da cabeça dele. mas tinha a sensação de que meus braços e pernas se moviam com apenas metade da velocidade habitual. mas não recordo o que ele disse. ainda embrulhado na minha jaqueta. Tenho visto aquele momento mil vezes nos meus pensamentos. mas eu já havia me virado para voltar para casa. O motorista do caminhão era um bom homem. Apoiei as mãos na carne dilacerada de Rascal. Quero esquecer o som que o corpo de Rascal produziu ao ser atingido pelo pára-choque dianteiro do caminhão. o motorista gritava para eu levar o cachorro para o caminhão.

meninas que me xingavam? Não sei. meninas que sabiam mais sobre mim do que eu mesma. mas Rascal não se moveu nem demonstrou nenhum sinal de dor. as palavras haviam ecoado na brisa fria de primavera. mas fui buscar a cesta de costura no armário dos fundos da casa. Esguichei o bactericida sobre os pontos. Eu o abracei. mas sentia seu coração bater fraco sob meus dedos . e depois o peguei do chão. para a rua. que invocava poderes que não podia dominar. deixando sem eu lugar escuridão e cegueira. senti que tudo estava conectado. onde meninas assustadas se escondiam atrás de janelas sujas. haviam sido levadas para além do nosso quintal mal-cuidado. levei Rascal para dentro e o deixei sobre os cobertores no chão da cozinha. usando o material para costurar as feridas abertas no corpo de Rascal. e a onda quebrou e fluiu de mim para Rascal. Pisquei para recuperar a nitidez da visão e notei que os lábios ainda estavam retraídos exibindo os dentes. mas um ato resultante da interferência de alguma fonte que ligava todos nós de alguma maneira. tentei ignorar a incômoda sensação de que não tinha controle sobre aquilo. caprichando para fazer o melhor possível naquelas circunstâncias. Mas nada disso importava. seus olhos permaneciam abertos.uma pulsação irregular e lenta . Sinto muito. onde era sempre mais quente. Ele não olhava para mim.e compreendi que ele não estava morto. tentando ser tão delicada quanto era capaz. porque o corpo de Rascal se moveu. só um movimento quase imperceptível das patas. passando por minha avó com passos leves para não despertá-la do cochilo da tarde. Um espasmo pequeno. para a Cidade do Lixo. mas quando as palavras se juntaram àquela necessidade urgente e implacável. Meus dedos tornaram-se elétricos com aquela coisa que se movia dentro de mim.50 para me deixar invadir por aquela onda que ganhava força rapidamente. Quando a onda arrefeceu e meus sentidos voltaram com uma intensidade repentina. sei que isso vai doer. e peguei uma agulha de tapete e um fio forte e encerado. não sei como tive coragem. e os sons da tarde desapareceram. Lavei as mãos e esguichei nelas um bactericida que ficava no banheiro. começando pelo local abaixo do peito onde começava o corte. mas sem foco. Pedi desculpas antes de dar o primeiro ponto. e eu fui formando a fileira de pontos firmes. Pensando em tudo isso agora. implacável. sussurrei. Tá mé mol seo draíocht Na anam an corp cara ár comhoibrí Eu havia falado alto? Meus lábios se moveram. que o que eu fazia não era uma ação realmente minha. . e quando terminei a sutura.

onde queimávamos o lixo. ficando grande demais para esse tipo de coisa. Lá dentro. Lentamente. apesar de sua respiração ser regular e forte. Empurrei tudo para o fundo do barril.51 Falei com ele por mais algum tempo. agarrando o cobertor que eu usara para cobri-lo. apenas ficava ali deitado. Ele não olhava para mim. e depois levei os panos e minha jaqueta para o barril que mantínhamos no fundo do quintal. Limpei o sangue da varanda com panos de chão velhos e um produto de limpeza. mas me aproximei dele e me deixei envolver no abraço apertado. Ele devia ter tido um pesadelo. e acho que nesse momento eu já sabia que havia algo de errado. para as cinzas que restavam da última incineração. e ele escondeu o rosto no meu pescoço onde suas lágrimas se misturaram ao sangue de Rascal. Ele estava crescendo. os soluços foram perdendo força. . porque piscou uma vez e começou a chorar. Chub começava a despertar do cochilo. transformando-se em gemidos.

Era quase como se não sentisse nada. Rascal se sentou onde eu mandei. Como era possível uma cicatrização tão rápida. . sem nenhuma dificuldade ou demonstração de dor. Peguei a tesoura de bordado de minha avó. depois voltou e se deitou outra vez sobre os cobertores. Fui até a porta da frente e chamei o cachorro pelo nome. Quando pressionei delicadamente seus ombros ele se deitou. Na manhã seguinte eu examinei os pontos. o pêlo já começava a crescer sobre o ferimento. Agora começava a imaginar se não teria sido isso mesmo.52 Capítulo 8 Rascal passou aquela noite deitado no piso de linóleo. Concluída a tarefa. que joguei no lixo. e mandei Rascal sair do quarto. eu havia chegado a pensar que sonhara com o acidente. e torcia para que ele estivesse se curando por dentro como cicatrizava por fora. Ele se levantou obediente. Mas os fios de linha preta eram a prova de que tudo havia realmente acontecido. perto da porta da frente. expondo a cicatriz. onde Chub começava a se mexer sob os cobertores. Eu me perguntava se o acidente havia danificado o sistema nervoso. nos momentos que antecederam o toque do meu relógio despertador. porque as pontas eram bem finas. mantendo aquela pose perfeita de cachorro de exposição. Mais espantoso ainda. Ele não reclamou quando cortei os fios e os removi com a pinça. embora não houvesse mais nenhum sinal externo de dano físico. mas havia os pedaços de linha que eu usara para suturá-lo. se o deixara sem sensibilidade. e saiu para ir fazer suas necessidades. peguei as ferramentas de minha avó e os restos de linha. bocejando e murmurando palavras incompreensíveis. como o pêlo podia crescer tão depressa? Mais cedo. muito ereto e imóvel. e uma pinça. A linha rosada da cicatriz era tão clara que quase não se podia vê-Ia. Chamei Rascal novamente e ele me seguiu até o quarto.

sílabas inteiras e claras como o repicar de um sino. tentando entender o que estava acontecendo comigo. durante toda minha vida. o dinheiro e a passagem aérea no quarto da vovó .Hayee.O que você disse Chub? . Mas Chub queria que eu cantasse.. desisti de almoçar para ir à biblioteca usar a Internet.uma que ele nunca dissera antes. . conosco. Sawyer. Pesquisar os sintomas de Rascal resultou em "catatonia". eu me recostei na minha cama. Fiquei ali reclinada por mais alguns momentos. as coisas que eu havia feito sem sequer entender o que estava fazendo. Chub havia dito uma palavra . Passarinho.ele repetiu.perguntei devagar. esquecendo Rascal completamente naquele momento de espanto.. Eu havia aprendido a fazer pesquisa on-line e me aperfeiçoava sempre. . as palavras das páginas dançaram na minha cabeça. Na escola. que se resumia em movimentos repetitivos e ignorar estímulos externos. . Rattler.Passarinho . Então. Milla. num volume baixo. graças ao esforço para descobrir o que estava errado com Chub.. Talvez ele nem houvesse falado "passarinho".53 Atrás de mim. Não que houvesse ajudado muito. havia muitas coisas que podiam estar erradas com ele. e eu sentia que. mas não me parecia que fosse esse o problema.. Chub tossiu e resmungou sonolento.. . . e cantei sua canção de ninar favorita até ele se fartar. menos sabia.. mas alguma outra palavra. Eu me virei. sentindo a boca seca. Não sabia exatamente o que procurar: "cicatrização rápida" me levava a sites de remédios naturais e alimentação saudável...Quer.. que eu cante? Quer que eu cante para você a música do passarinho? Ele esfregou os olhos e assentiu.. quanto mais lia. uma trilha sonora sussurrada que parecia estar tocando desde sempre. Mas coisas estranhas estavam acontecendo. Talvez fosse uma casualidade. até se soltar do meu abraço e sair correndo do quarto para ir atrás de Rascal. Não tive muita sorte quanto tentei pesquisar o que estava errado com Rascal. Quando tirei Chub do berço e o abracei bem forte. quase perder Rascal. mantendo-o em meus braços e apoiando o queixo sobre sua cabeça de cabelos macios.

pesquisei o código aeroportuário que havia encontrado na passagem aérea do quarto de minha avó.. Quando ela saiu da sala de cabeça baixa. e depois de estudálas em um dicionário bilíngüe e em um site de tradução automática. DUB era a sigla para Dublin. mas sentia uma estranha agitação crescendo dentro de mim. Esperei até que o dia na escola estivesse quase terminando. Logo ficou evidente que aquelas eram palavras do idioma irlandês. Não sabia a que tipo de "magia" o autor se referia.. Cura: podia ser realmente uma coincidência eu ter encontrado as palavras depois de tudo que havia acontecido com Milla no ginásio. mesmo que a única pessoa capaz de me ajudar me odiasse por razões que eu nem conhecia. Não podia ser uma coincidência. Irlanda. mas tinha a sensação de que nessas palavras estava a chave. podia? Mas como as palavras que encontrei escritas naquelas páginas no closet podiam estar relacionadas com o que acontecia agora. porque sabia que a última aula de Milla havia sido Ciências.. Tinha de haver uma maneira de fazê-la falar comigo.. e antes de Rascal ter sido atropelado pelo caminhão? Antes de sair do laboratório. no final de uma fila de alunos. Quando o último sinal soou.54 Desisti da pesquisa e peguei o pedaço de papel onde havia anotado algumas linhas das páginas que encontrara no closet. quem escondera as páginas no armário. saí apressada da sala e corri para o laboratório. com os planos que minha avó mantinha em sigilo? Eu não sabia quem escrevera aquelas palavras. Precisava descobrir mais. mas a . Abri a boca para perguntar se poderíamos ir a algum lugar e conversar. consegui ter uma boa idéia do significado das frases: Eu recomendo a essa magia As almas e os corpos de nossos pobres compatriotas Cure essa carne murcha Esses membros quebrados e amaldiçoados Esse sangue infectado Lamentei não ter copiado a página inteira. Não sabia o que significava CAMPO DE TREVOS. parei diante dela impedindo a passagem. Desdobrei a página e digitei as palavras no mecanismo de busca.

O colar! Eu lhe dou o colar. já recuando. eu a deixava do lado de fora e visível. na escola. o que podia ser. vamos acabar com isso de uma vez. correr para longe dali.Não tenho nada para falar com você. .ela suspirou. . algum lugar privado. Mas eu não tinha idéia do que ela queria.55 expressão dela passou do cansaço ao reconhecimento.Não quero essa coisa perto de mim. Eu.. . se é isso que quer. mas. não é? .ela disparou. Só conseguia pensar em perguntar se ela iria comigo a algum lugar onde pudéssemos conversar.. Meus dedos tocaram a pedra vermelha do pingente. .Escute. mas posso conseguir mais . Eu não sabia o que era.O quê? . Eu não havia tirado o colar do pescoço desde que o encontrara no closet. nós poderíamos.Mas eu preciso falar com você. porque não queria que minha avó a visse. que aquilo exercia um efeito sobre ela.Tudo bem. Ela balançou a cabeça. . diante das janelas amplas e altas e o sol a atingiu e dançou no rosto de Milla em reflexos intensos de um vermelho sangue. Segurei a pedra entre o polegar e o indicador e a girei à luz do corredor..O colar. .Eu.Não vai desistir.. A expressão dela passou do medo à resignação. do que prenderia sua atenção.Sua avó lhe deu? Eu não sabia o que dizer. achei. Eu lhe dou dinheiro. . . seus olhos se estreitaram.. Mantinha a pedra sob a camiseta no tempo que passava em casa.Onde achou isso? .....ela sussurrou. Com alguém. . não tenho muito. .. . e seus lábios se entreabriram numa reação surpresa. Se conseguisse pensar em uma mentira que a mantivesse falando comigo.. não hesitaria em usá-la.Não tire isso do pescoço . mas era evidente que Milla estava perturbada. . você poderia.Sentia que a qualquer momento ela ia se virar e fugir de mim. . Eu não. ..

. Milla baixou os olhos e ficou quieta. que quase não consegui ouvi-Ia. Só havia uma cadeira. quando falou. Está tudo decidido. sua mãe tinha um desses colares.Qual é o problema com ele? Milla não respondeu de imediato.. São três colares.. . pode opinar ou interferir nisso tudo. Eu não revelei tudo. e todos são amaldiçoados. por isso nos sentamos no chão. . mas. o da sua tia e ninguém sabe o que aconteceu com ela.perguntei frustrada. Ela levantou a cabeça e me encarou furiosa. Como acha que sua avó ficou daquele jeito? Qualquer pessoa que use o colar também é amaldiçoada. Não falei sobre Rascal.O que é?. sobre o receio de as autoridades me separarem de Chub. a pedra era um talismã que impedia coisas ainda piores de acontecerem comigo. sobre os negócios que minha avó fazia e as coisas que ela guardava no porão. apontando um dedo para mim. um lugar úmido com paredes de material acústico.Não se trata do que você fez.Realmente? Bem. Quando falamos sobre Rattler. . apoios para partituras. Apenas um colar está desaparecido.Eu? Por quê? Nunca tive nada a ver com ele.Talvez goste de saber que ele não é o único. . Banidos. . e você sabe o que aconteceu com ela. Será que não entende? Nenhum de nós..O colar que exibe com tanto orgulho .Banidos? Eu não.não queria que ela pensasse que eu era maluca. e um piano velho e arranhado.Milla me interrompeu. . ouvindo o som distante de alguém que ensaiava alguns acordes em um violoncelo distante. . O colar que está no seu pescoço deve ter sido dela.56 Fomos juntas a uma das antigas salas de ensaio da banda do colégio. Toquei a pedra de maneira protetora. Sua avó negociou o dela. . sua voz era tão baixa e fraca. . e talvez por isso ainda esteja viva. Disse a ela sobre os homens que haviam estado em casa. .Acho que você devia saber.Não acredito em você . Contei a ela sobre os homens no carro. Não sabia dizer por que.sussurrei. mas tinha a impressão de que a verdade era exatamente o oposto do que ela dizia. .

. morreu. espere! Perguntar o quê? . .Você sabe que tem.Pare. mas eu realmente não tenho uma tia.Pare! ..Sua tia. Sua mãe enlouqueceu e se matou..Minha. os lábios comprimidos pela fúria. .. . pergunte a sua avó. Eu podia ter dito uma dúzia de coisas diferentes. nem nada desse tipo. e você sabe disso.. . ela vai fazer você acreditar nisso. Você acha que pode curar.Espere. mas foi essa a resposta que saiu de minha boca. como se me considerasse uma idiota. . Quando me teve.Minha mãe não se matou .... Não entende? Teria sido melhor para todos se você nunca tivesse nascido. não se faça de tonta. e agora ninguém pode sequer pronunciar seu nome.Eu não tenho uma tia. .. . . o quê? . me deixando ali sozinha com os sons tristes do violoncelo como única companhia. tocando o braço dela e tentando acalmá-la.Pergunte a sua avó .Não quero fazer você se sentir pior. Minha mãe morreu no parto e eu. E eu não tenho que ficar aqui sentada ouvindo você falar tudo que pensa. Hailey. Milla se levantou tão depressa. Ah.. como se pensasse que vou acreditar em tudo que diz.Se realmente não sabe. Foi tão grave que sua avó acabou contaminada pela situação.disse apressada. mas quem sabe o que fez comigo? Deve ter me amaldiçoado. e depois recuou se afastando de mim. .. por favor... que a cadeira vazia atrás dela balançou e quase caiu. Ela apontou para mim um dedo trêmulo. mas ela se esquivou do contato.Não posso..A voz dela ganhara um tom frio e cruel. Hayley. .murmurei. . eu sei que não é idiota . .começou...Ela se envolveu com os braços como se sentisse frio.57 .Eu.Milla repetiu antes de abrir a porta e sair correndo.Ela...

Minha avó nem se dera ao trabalho de oferecer chá ou café à assistente social. Na verdade. Não era o Lexus de janelas escuras nem o caminhão de Rattler Sikes. Na última vez em que alguém do serviço social estivera em nossa casa. dizendo "Hayee. Eu esperava enfrentar dificuldades por ainda . Hayee" com aquele tom feliz. Era pior do que eu temia: Minha avó não se incomodara em fazer nada com Chub. havia um carro estacionado na entrada. Era um velho Volvo marrom. mas apresentável. Quando me viu. não havia parado de fumar desde a chegada de nossa visitante. ele se levantou de um salto e correu na minha direção. mandava seus agentes para nos visitarem de tempos em tempos. Divisão de Apoio à Família.. com o rosto sujo dos restos de seu almoço. O Departamento de Serviços Sociais. embora antigo. ignorando Rascal. Ela mantinha os cigarros na sua frente e. e eu deduzi por experiências anteriores que teria de enfrentar mais uma série de más notícias. considerando as bitucas no cinzeiro. eu nunca sabia quando devia esperá-los . Teoricamente.por isso nunca conseguia me preparar para essas visitas. Só podia ser uma assistente social.. Um carro como aquele . Atravessei o jardim correndo.58 Capítulo 9 Quando cheguei em casa. sem camisa. sem graça. que estava deitado na varanda. abraçando minhas pernas com força e apertando o rosto contra minha coxa. Entrei pela porta da frente e fui para a cozinha com passos apressados.impecável. e ele estava sentado no chão com uma fralda que parecia prestes a explodir de tão cheia. eles deveriam nos visitar mensalmente. o tabagismo de minha avó havia sido um dos assuntos principais.

mas isso não era incomum. Era hora de pôr em prática um plano de controle de danos. maquiagem.59 não termos detectores de fumaça. por um momento.virou-se de costas para mim e bateu com a mão sobre a mesa. Minha tia. Ela tinha cabelos castanhos e brilhantes num comprimento médio. A boca era como a minha. Não que o rosto da desconhecida fosse idêntico ao meu. A mulher reagiu com aparente tensão ao ouvir minha voz. As sobrancelhas eram altas e arqueadas. amendoados.mais dourados que marrons. o que poderia causar um desabamento.Sou Hailey Tarbell. E os olhos eram como os meus . Elas nunca ficavam muito tempo no mesmo emprego. como as minhas. uma batida tão forte que o cinzeiro pulou. ameaçadora? . Essa mulher devia ser a tia que eu nunca soube que tinha! Depois de me encarar por alguns segundos. apertando os dedos com tanta força que a pele ficou branca. inclinando-se até o rosto estar a poucos centímetros do de minha avó. . . era o meu. . Uma pancada tão forte devia ter sido dolorosa. Mas ela era parecida comigo. Mas parou em seguida. ela fez algo que me surpreendeu ainda mais . Alice. com o lábio superior fino e o inferior mais cheio. O rosto que olhava para mim. e um bom corte de cabelo. mas ela cerrou o punho e. mas ela apenas continuou com a mão fechada. embora fosse evidente que ela pagava caro para fazê-las em um bom salão de beleza. As faces altas e a testa larga também eram como as minhas. Sua voz soou baixa. espalhando cinza e bitucas de cigarro. um pouco abaixo dos ombros.. olhou para mim e começou a falar. como o reflexo de um espelho. Não era uma das que eu vira antes. como eu seria se fosse mais velha e tivesse dinheiro para roupas bonitas. Percebi que eu havia parado de respirar no mesmo instante em que ela apoiou as duas mãos sobre a mesa.eu disse em voz alta. e nós apenas nos entreolhamos.Se voltar a mentir para mim.. esperava que nos questionassem por Chubby ainda não falar e não usar o banheiro. A visitante se levantou. removendo os braços de Chub das minhas pernas. e por ainda haver pregos soltos na escada da casa. tive a impressão de que ela ia agredir minha avó. eu mato você com minhas próprias mãos. e por minha avó se recusar a deixá-lo freqüentar a pré-escola.Olá .

. o jeito como as sentia sobre os dedos.Alice nunca disse qual era o nome de sua mãe? De repente eu senti uma forte pressão na cabeça e uma intensa tontura. . As palavras na parede. Qual era o nome dela? . Eu me perguntava se ela mesma havia entalhado as letras A tontura progrediu para algo mais. limpando as lágrimas dos olhos com o dorso das mãos.minha avó perguntou. era o nome da minha mãe.ela disse. quando a ouvi me seguindo. Sua irmã. .Qual era o nome de minha mãe? . .60 Depois ela se virou para mim novamente. A visitante me olhou e piscou uma vez. Cravos.perguntei num sussurro. . Nós duas olhamos para ela.. a voz tão suave que eu soube que falava comigo. .. e eu sou sua tia.Clover . . e toda raiva desapareceu de seu rosto. Finalmente.O quê? . Minha boca ficou seca. Depois respirou fundo.. ela concluiu as gargalhadas com um prolongado ataque de tosse.Tudo bem . como se estivesse tentando reunir coragem para saltar dos rochedos sobre o Lago Bobine. Saí pela porta de tela dos fundos. . Prairie. a atração invisível que exerciam sobre mim. como se todo meu ser houvesse perdido a âncora e vagasse à deriva.Meu nome é Elizabeth Blackwel1. .Não sou.minha tia respondeu. Cravo. não me surpreendi.Minha mãe. Campo. Vovó jogou a cabeça para trás e riu uma gargalhada horrível e rouca que mostrava seus dentes amarelos. Por alguma razão. deixando apenas uma mistura de tristeza e cansaço..Quem está mentindo agora? .Preciso de ar. quem eu disse. Meu nome é Prairie.

. meus pés balançando sobre a água. ela havia morrido.perguntei em vez disso.Sua avó não registrou o desaparecimento . Havia um breve caminho de ligação que levava ao emaranhado de trilhas por entre as árvores. Pretendia voltar para buscar sua mãe. .Eu.. tive razões para partir naquele momento. e Gypsum do outro. vias que conectavam as fazendas com a Cidade do Lixo de um lado. bem. Não era isso que eu queria dizer. Eu continuava pensando nos nomes entalhados juntos na parede. onde esteve durante todo esse tempo? . mas quando pude.Isso é algo com que tenho que conviver todos os dias da minha vida.61 Ela se mantinha alguns passos atrás de mim enquanto eu caminhava para o bosque.Você se incomoda se eu também me sentar? . . Se sentia alguma . E foi lá que me sentei.Ninguém veio procurar por você? .disparei.Esse é um país livre. E ela se matou.e havia uma rocha plana meio submersa na água rasa e lenta. usando-o para traçar desenhos no ar. . Pensei em dizer a ela que eu nunca deixaria Chub com minha avó. Hailey .era meio de abril e tivemos pouca chuva ou neve ao longo do inverno . Ela se sentou do meu lado e pegou um graveto longo e fino que havia sido levado pelo vento e ficado preso em uma fresta da rocha. Dúzias de perguntas passavam por minha cabeça. .Se você é minha tia. Por algum tempo nenhuma de nós disse nada. Eu havia ido me sentar naquela pedra centenas de vezes.. Nunca. e de repente lágrimas inundaram meus olhos e ameaçaram correr por meu rosto.Eu sei. . embora não soubesse ao certo se acreditava no que Milla dissera.. . .A voz de Prairie era ainda mais suave. Eu não sabia sobre você. onde ficava pensando e jogando pedrinhas no rio. Não me dei ao trabalho de banir da voz a nota de acusação. deixou minha mãe aqui sozinha com a vovó. Segui em linha reta.respondeu Prairie. ela. ..Mas você.Prairie respondeu com voz trêmula. e em poucos minutos cheguei no riacho. e eu o limpei com a manga da blusa.Oh. Estava quase seco . Eu nem sabia que ela estava grávida. ... Eu dei de ombros .Prairie perguntou. me afastando da estrada que Rascal e eu havíamos percorrido juntos no dia anterior.

pegando o lado direito do lábio inferior entre os dentes. Ela me entregou o pingente ainda quente de sua pele. Eu havia notado que a pedra no colar que eu usava absorvia meu calor e o retinha. . E a polícia tinha coisas mais importantes para fazer do que procurar por mim. .62 amargura. Alice disse que sua mãe. São muito antigos. Por que eu devia me importar? Minha mãe não era nada para mim. . O colar na minha mão era idêntico ao meu.resmunguei. . mas eu não contava com isso. Nenhuma de nós tirou. quase como se armazenasse energia.. odiei que Prairie também o tivesse escutado. Prairie assentiu mais para si mesma do que para mim..Mas. Do meu ponto de vista. . bem. ..O. jamais tivera mãe. Ela disse que nos protegeriam. . mas o silêncio era confortável.ela disse..Agora chub é minha família. .. até a argola pela qual passava a corrente.É igual ao seu . Hailey. sua mãe nunca o tirou. .Ela nunca me falou sobre você. por que você não voltou mais tarde? Depois que eu nasci?Ouvi o tremor na minha voz e o odiei. Teria sido ótimo acreditar que havia magia nos colares. desde o trabalho delicado que mantinha a pedra no lugar.. Estamos bem.disse. até onde eu podia determinar. Não conversamos.Prairie disse com tom gentil.Quando o vi em você..nossa avó . Quando ela fechou os dedos em torno do pingente eu soube o que ia ver. Quando voltamos para casa. e notei que mordia o lábio como eu fazia. não precisamos de mais ninguém.Não importa . o quê? Prairie levou as mãos à nuca e abriu o fecho de uma fina corrente de prata. .Ela hesitou.nos deu os colares. . Mary . Eu devolvi o colar..Vejo que encontrou o esconderijo de sua mãe .Nunca fui considerada oficialmente uma fugitiva. Eu não tinha lembranças dela. .Acho que devemos voltar . pensei. vovó . ela não demonstrava.Eu não sabia.

mas me sentia mal por deixar Chub sozinho esta noite. Não quero que saia e pegue um resfriado. .Vamos demorar um pouco. Eu queria descobrir o que Prairie fazia ali.ela disse finalmente.Prairie avisou. Eu não podia dizer quantos de seus clientes chegavam em nossa casa pensando poder enganá-la. vovó simplesmente sugeria que fossem fazer negócios em outro lugar.foi tudo que Prairie disse enquanto pegava as chaves na bolsa.Acho que ele não está muito bem. .Vejam só o que o gato trouxe para casa. o que raramente acontecia. Podia perceber que ele estava perturbado.63 ainda estava sentada na cadeira da cozinha. Aquela expressão era comum em seu rosto. . . e Prairie sustentou seu olhar. Pensei novamente no dinheiro e na passagem. O que ela me dizia era novidade. Chub. Vovó olhou para ela com os olhos apertados. .Tudo bem . pegando o atalho que passava por trás do Napa Auto Parts. mas também sabia que Chub ficaria bem por uma ou duas horas. Minha avó podia ter muitos defeitos. .eu disse. porque me abraçava com força. . com certeza. e ela os encarava com aquela mesma expressão e. e tentei deduzir o que ela estava tramando. Por um segundo fiquei embaraçada por Prairie poder ver que Chub não era como as outras crianças. e se eles não gostavam disso. Percebi que ela pensava. aproximou-se de mim e pressionou o rosto contra as minhas pernas. eles acabavam deixando mais dinheiro sobre a mesa do que haviam planejado. Nós não conversávamos. soprando fumaça na nossa direção. . e eu me surpreendi por ela ter escolhido o único restaurante elegante da cidade.Não espere acordada . cheios de desconfiança.Vou levar Hailey para jantar fora . que estivera brincando com suas letras plásticas magnéticas na porta do refrigerador. e ela nos recebeu com um sorriso frio. Eu me descobri torcendo por minha avó piscar primeiro. Segui Prairie até o carro dela. mas estupidez não estava entre eles. . Eu sabia que ela estava mentindo.Temos de levar Chub . Ela seguiu para o Nolan.Chub não vai a lugar nenhum .minha avó se manifestou.

e agora que eu havia superado a surpresa provocada pela semelhança entre nós. com pontas ligeiramente encurvadas logo abaixo dos ombros.Mas é que eu posso dizer que.Se não se importa. Mas Prairie deu aquele sorriso agradável e disse: . Havia bem poucas famílias ricas em Gypsum. Como se sob aquela aparência elegante e agradável ela estivesse apenas esperando para me dizer o que queria de verdade. . para descobrir se havia um limite na preocupação dela comigo. Prairie brincava com a faca. Uma parte minha queria pedir o prato mais caro só para ver o que Prairie faria. ver se eu conseguia atingi-la a ponto de ela perder o controle e me mostrar quem realmente era. Sua jaqueta. mas com quadris sinuosos e seios de verdade. Magra.. Eu era alta e magra. Ela olhava intrigada para Prairie. a maioria da população apenas lutava para sobreviver. Acho que a hostess pensava a mesma coisa. Eu ia pedir o sanduíche de galinha.. reta e de gola baixa na frente para mostrar um pouco da camisa de seda que ela usava por baixo. Quando a garçonete se afastou.. que alguma coisa aconteceu com ele. O pedido me pegou de surpresa. e seria algo ruim. balançando-a para frente e para trás.Precisamos de um pouco de privacidade. e simplesmente disse que sim. e os olhos ficaram tristes. Li todos os preços e fiz uma conta rápida para calcular quanto custaria o jantar. nenhuma de nós disse nada por um instante.ela pediu finalmente. não é. . Rascal não era algo que eu queria discutir. se puder nos acomodar em uma mesa que não fique no caminho. parecia ótimo. A hostess nos levou a uma mesa perto de uma parede. e os cabelos castanhos eram brilhantes e lisos.Onde o encontrou? . por favor. talvez..Não há nada para dizer.Ah. Hailey?" e eu olhei para o cardápio e vi que o prato custava vinte e três dólares. . vovó ganhou o filhote de um conhecido. mas não comia um filé há mais tempo do que podia lembrar. Prairie disse: "O filé mignon parece realmente bom. tinha um caimento perfeito que gritava dinheiro com D maiúsculo. mas Prairie era alta e elegante. porque eu vestia jeans. . podia perceber que Prairie chamava atenção. fora do caminho dos garçons e longe da porta da cozinha. Mas quando a garçonete se aproximou para anotar o pedido.Fale-me sobre seu cachorro .64 Cheguei a temer que não nos deixassem entrar. . . Seu rosto ganhou uma repentina suavidade.

.Engoli sem eco. Hailey. ha. Ela sabia. você sabe.Ele. talvez ele estivesse assustado. o mantive dentro de casa... . .. Era preciso afastar os pêlos para ver a linha fina e rosada.Alice o aceitou como pagamento por drogas.Aposto que deve ter cuidado muito bem dele. Eu pisquei. pelo menos. fiz o quê? ... só limpei o corte com anti-séptico e.Eu dei de ombros como se não fosse importante. O que fez? A voz dela era tão bondosa que tive de desviar o olhar. não queria ter de tentar explicar como ele se recuperara quase completamente em uma única noite. Mas não queria contar a ela o que havia feito. Então.Se eu. .Hailey. foi só um corte.65 .Foi muito grave? . Eu queria perguntar a Prairie como ela sabia. .Sim.Ele foi atropelado por um caminhão há alguns dias.. . Pequeno. .Falou com ele? . deixá-lo confortável. eu vi a cicatriz. Provavelmente. sabia que eu havia curado Rascal. mas não queria dar a impressão de que me importava tanto. . . Dar importância às coisas faz você ficar vulnerável. O que restou dela.. Prairie me observou com atenção. No estômago do animal..Enquanto estava limpando os ferimentos? Quero dizer. . lembrando como Rascal havia ficado.Eu. . Sei como são essas coisas. . exatamente como eu havia reanimado Milla no . você deve ter tentado acalmá-lo.Não. ela sabia sobre as drogas.. Engoli em seco e bebi um gole de água gelada.A expressão de Prairie não mudou. Naquela manhã a cicatriz havia quase desaparecido. De alguma maneira. que alguma coisa que eu fizera com ele depois do acidente o recuperara.

eu vou fazer trinta e um.Vejamos.. então.Certo. 1961. e era por isso que eu sempre varria. Bem. por onde começar? Vejamos. . . e só se levantava quando algum cliente ia visitá-la. e ela tinha dezenove quando eu nasci.. . E era fraca. Nós agradecemos. surgia em sua pele imediatamente uma mancha roxa e amarela. Pensei nas páginas antigas. Muito bem. e quando eu estava pegando o garfo. .Lamento ter de falar agora.enquanto estava cuidando dele. fico feliz por ele estar. bem.. quando acabamos de nos conhecer.. com toda franqueza. Senti meu rosto quente.Prairie comentou sorrindo. . lavava as janelas e tirava a neve do portão. Mas.66 ginásio. os dedos retorcidos como as pessoas velhas têm. o cabelo fino e grisalho.Acho que ela está completando cinqüenta esse ano . E ela era doente. A garçonete chegou com a nossa salada. ficava deitada por dias seguidos. então. Mas é só isso. Alice não é tão velha quanto você pensa. melhor. passava pano no chão. nos nomes e datas escritos ali. Pegava todas as gripes que apareciam.respondeu Prairie. .Não creio que tenha dito alguma coisa especial . .. Cada vez que ela acendia um cigarro. ela agora ia revelar o que realmente queria de mim. ..Vá em frente .Tenho algumas coisas para lhe dizer. ela ainda tem quarenta e nove. Hailey. ele manca um pouco. Prairie assentiu. é eu. Prairie respirou fundo. mas acho que é necessário. Se batia nos móveis. como deve ter notado. Más notícias. Ela podia ler minha mente? .eu disse.tinha o rosto enrugado.Sim. Uma bebida bem forte.perguntei. Alice Eugenie Tarbell. e suas unhas eram amareladas e quebradiças.Estou me arrependendo por não ter pedido uma bebida .O que você quer dizer? .. quanto minha vida podia piorar? . Mal conseguia se levantar da cadeira e descer a escada para o porão. Eu achava tufos do cabelo dela no chão do banheiro.ela anunciou. Não conseguia fazer as tarefas domésticas. Mas vovó era velha . Quero dizer.respondi cautelosa . lavava a roupa e fazia as compras. sim.

na mulher de lábios vermelhos e olhos brilhantes.Teria sido bom se você pudesse ter conhecido sua bisavó.67 minha avó tossia como se os pulmões fossem sair pela boca. ... então? . mas ela era linda. Durante toda a vida. Não é assim? . forte. .. a cada cinco ou seis gerações. bem. Como acha que sua avó ficou daquele jeito? ela perguntara. .. e os tecidos de seu corpo se degeneram. mais do que os outros jovens.Isso é impossível.Uma o quê? .. Pensei em Milla e no que ela dissera sobre os colares. está nos nossos genes. As mulheres Tarbell. Hailey. Não acredito que ela chegue a completar cinqüenta e cinco anos..Ela morreu quando eu tinha dez anos . surge uma aberração. Como a maioria das mulheres da nossa família.. não muito. mas se fosse verdade. eu .eu nem podia imaginar. como eu disse. Enquanto as outras mulheres Tarbell têm genes fenomenais.Prairie continuou-. É. muito inteligente. Prairie bebeu sua água .E é forte.eu disse finalmente. Como Alice. certo? Eu apenas dei de ombros. acho que podemos dizer.Nasce alguém que não se enquadra no padrão genético. Aposto que você raramente adoece. Está no nosso sangue. é nosso legado.. isso é parte do que preciso lhe contar. Minha avó Mary.Ah. sobre como eram amaldiçoados. . Alice sempre teve saúde deficiente.Bem. todas as suas ancestrais eram incrivelmente saudáveis e fortes.. Minha bisavó .Bem. Ela está envelhecendo muito depressa. Pensei na foto na moldura barata. divertida e inteligente. se minha avó havia sido amaldiçoada. .O que aconteceu com minha avó. Mas acontece que de vez em quando. Eu não havia dito isso. mãe de Alice. .. E mais coordenada.

E eu não sabia. e livre da minha avó .se ela algum dia fora jovem.perguntei. Vovó podia morrer no dia seguinte. vinte e nove anos . Eu não podia acreditar. receio que jamais fale. Quatorze. . e mais ainda de alguém da minha idade.. . Às vezes eu tentara imaginar. ela era muito tímida. Prairie comprimiu os lábios por um momento. se algum homem a amara. Não tinha muitos amigos na escola.Se ela sabe. Clover. . Fiz a conta rapidamente.meu coração ficou mais leve quando pensei nisso.Mas vovó pode saber de alguma coisa.Você e minha mãe são filhas do mesmo pai? Sabe quem ele é? Prairie balançou a cabeça. como se tentasse decidir o que diria em seguida. Eu teria vinte anos. ela tinha apenas quatorze anos.Sabe se minha mãe tinha um namorado. . .Ela teria.Sim. Quero dizer.. Uma idéia me ocorreu. ela era como eu... uma peça desaparecida do quebra-cabeça da minha vida. Vinte anos. uma resposta que Prairie poderia me dar. sua mãe. Parecia impossível.Por que não? .68 não lamentava por ela. Quando saí de Gypsum. e eu não me importaria.estavam sempre falando nisso na aula de Saúde. naquela época..eu disse. . .Clover era minha irmã mais nova. E já . Então. . . estava grávida. E ninguém que pudesse ser um namorado. Nunca soube.. . sabia que era possível.E quanto ao meu pai? . ou alguma coisa nesse sentido? Prairie olhou para mim com uma tristeza tão grande que eu quase desejei não ter perguntado.Alice nunca falou sobre essa parte da vida dela. Eu sabia como era não ter amigos. Jovem demais para ser mãe de uma criança pequena. olhando para minha avó com sua pele enrugada e o corpo alquebrado .

Ela não tem o poder que gostaria de ter. embora não revelasse. Esperei Prairie falar alguma coisa sobre o menino.Era se convencer de que as palavras de Alice não significavam nada. Clover era sensível. ainda lembro. mas não está se desenvolvendo no ritmo esperado. . durante aquele breve período quando vovó mantivera a casa limpa e preparara refeições de verdade. Está sob nossos cuidados.. uma avó. acho que ela também queria que ele fosse um . mais difícil ainda do que foi para mim. E você cuida muito bem dele. depois de candidatar-se à tutela do menino. . Não queria admitir que havia sido idiota o bastante para ter esperanças. acreditar que as coisas haviam realmente mudado. e o jeito como é. Quando ela se recusava a conversar... fazer alguma crítica desinteressada.. problemas. Tudo isso a deixou revoltada e amarga. Mas ela se limitou a mover a cabeça em sentido afirmativo. e às vezes acho que ela se incomodava mais quando Alice era cruel comigo do que quando a crueldade era com ela. . Ele tem. Eu entendia o que ela estava dizendo. Talvez até incapaz de amar alguém. e não fizera negócios com os produtos . é lento. .Prairie refletiu. acho..Chub é filho de quem? . Quero dizer. Acredito que tenha sido difícil para sua mãe. Deve ser difícil.Alice o acolheu para receber o dinheiro do estado .Prairie perguntou.69 . Minha mãe não havia conseguido.. e me sentia pronta para odiá-la se ela disse algo errado.. .Sim. mas.. Não é difícil. era lembrar que não tinha importância.Ele parece ser um menino doce. Chub é ótimo. projeto.A palavra soou mais ríspida do que eu pretendia. . Eu me sentia desleal dizendo essas coisas.Quero dizer. Era fechar aquela parte do coração que queria uma mãe.Ele chegou com um dos clientes da vovó.. se não cometesse o erro de se importar demais. Há muito tempo decidi que não a deixaria me magoar.. não me incomodo. os olhos tristes. é divertido. .Prairie comentou com tom delicado.Certo? Eu assenti surpresa por ela ter deduzido corretamente e tão depressa. e para isso era preciso lembrar todo dia que ela não podia magoá-la se você não deixasse. . . e na maior parte do tempo funcionou. Senti meu rosto quente.Eu. . Eu não disse a ela como vovó agira diferente por um tempo.Não. Eu endureci. Algo que ela pudesse consertar.Sei quanto é difícil viver com Alice ...

Eu havia pensado em mudar. Tenro.Tudo bem . vamos embora agora".a idéia era quase irresistível. e eu comi. Olhei para o meu prato.E o sobrenome? .70 do porão. Meu coração deu um salto dentro do peito. mas tive a impressão de que nem sentia o gosto. ela cortou um pedaço pequeno.ela respondeu. .Ela diz apenas que agora ele é um Tarbell. aquela que eu sabia significar que estava pensando e tentando entender o que acontecia. respondia a ele.Não pode continuar aqui com Alice.O que faz aqui? O que quer de mim? Prairie me olhou nos olhos . Havia sugerido Charlie. mas minha avó rira e dissera achar que o nome dele era suficientemente bom. e o colocou na boca. saboroso. quase amedrontada. Suspirando.Vovó sabe qual é.e respirou fundo..mesmo que não fosse como eu havia planejado. vamos lá. as longas caminhadas até o armazém. a melhor coisa que eu já provara. . com os estúpidos Limpos que sempre haviam debochado de mim. .Vou levar você comigo . Sentia-me tentada a gritar "É claro. A garçonete chegou com o nosso jantar. Eu queria dizer tudo bem. Prairie assentiu. suculento. Por mais que se esforçasse para parecer calma. .algo que ninguém jamais fizera comigo. mesmo que fosse com uma estranha . Era incrível como aquele filé era bom. Qualquer lugar seria melhor que aqui.Sabe qual é o nome dele? O nome verdadeiro? Prairie perguntou com tom gentil. até onde eu podia lembrar .. Prairie mal tocou no dela. Concluí que ele já tinha confusão demais em sua vida sem alguém acrescentar mais uma novidade. Mastigou e engoliu. Eu queria saber por quê. com o quintal de mato queimado. Deixei os talheres sobre o prato. Ele é só Chub. Ir embora . é claro. . Não queria confessar que quase acreditara que ela podia mudar por causa de Chub. era fácil perceber que estava perturbada. Seu rosto tinha aquela expressão novamente. E a questão era que Chub conhecia esse nome.Prairie respondeu. . . Para o diabo com nossa casa caindo aos pedaços. Para o diabo com a escola.Não. antes que ela mudasse de .eu disse. mas nunca me deixou ver os documentos ..

Mas é que. .. .Mas. Ela ergueu a mão para me interromper. Tudo bem? Escute. .. Ela disse essa última parte bem depressa.Não posso simplesmente. no que ela dizia poder fazer! . e talvez não confie em mim inteiramente. ou algo ainda mais sério que uma promessa.E depois? Para onde iremos? ..Você pode. . Falei que ia procurar uma casa na cidade. esperava partir hoje mesmo. Prairie não parecia surpresa. Tenho algum dinheiro. mas eu a afastei. . . E não podemos deixar Alice perceber que está se preparando para partir. Na verdade.Não posso deixar Chub. Mas era tão tentador acreditar em Prairie. só uma valise pequena. Podemos passar essa noite na casa. me mudando para poder ficar mais perto de você. Só vamos nos atrasar um pouco em relação ao que havia planejado. . Ela não sabe. Em vez disso. esta noite.. Isso complica um pouco a situação .Vovó nunca acreditaria nisso. Pelo menos por enquanto. Ela limpou os cantos da boca com o guardanapo e depôs o garfo.Tenho.. Quero que deixe todos os detalhes comigo. É sim. sei que não tem muita segurança com relação às minhas intenções. Como algo de que ela tivera de se convencer com muito esforço. . e isso.. não estou brincando. Eu entendo. Disse a ela que estava voltando para Gypsum. mas e .Uma caixa. ..confesso que não contava com Chub. e agora faria qualquer coisa para não perder essa certeza. e você vai ter tempo para pegar algumas coisas.Prairie tentou pegar minha mão sobre a mesa. Hailey... .Eu sabia que era loucura.começou . não muitas..71 idéia. se houvesse alternativa..Você disse a ela. isso é compreensível.. . antes que eu começasse a protestar.. recursos sobre os quais conversaremos melhor mais tarde.. . Podemos comprar tudo que for necessário para você e Chub.Escute . então. e o levaremos conosco.mas nós ainda vamos embora. Ela falava de um jeito que sugeria uma promessa.Não tenho uma valise. vai entender que eu nunca brinco com coisas sérias. Depois de me conhecer um pouco mais.Tente não se preocupar. o que falei foi: . Ninguém acreditaria que alguém voltaria a morar ali.

mas prometo que logo revelarei tudo que você quer saber. Nesse momento. Acha que consegue? Eu não disse sim.Não quero dizer. mas também não disse não. tenho que me concentrar em sair daqui com vocês dois.Sei que estou pedindo muito. . Ainda não . E você precisa me ajudar a fazer Alice acreditar no que eu disse a ela. ..72 .ela respondeu..

com um cigarro aceso em uma das mãos. como se essa fosse a última emoção que experimentava. . Eu a deixei ir. e estreitou os olhos quando a fumaça saiu preguiçosa por suas narinas. ele deixou o copo sobre a pia e foi se apoiar na bancada. . Ele sorvia com avidez a água de um copo. Na cozinha. Depois de me cumprimentar com um breve movimento de cabeça.De quem é o caminhão? .ela resmungou com ironia.73 Capítulo 10 Quando chegamos em casa. resultado de algum novo acidente que devia ter sido pior para o outro motorista. . O caminhão de Dun Acey estava estacionado na frente do gramado. Havia oito latas de cerveja sobre a mesa. deu uma tragada demorada. tão longe do caminhão quanto era possível.Conheci alguns Acey. .ela perguntou com a voz neutra. Rattler levou o cigarro à boca. Prairie parou o Volvo no quintal. . e eu soube sem ninguém me dizer que seis delas estavam vazias.Você o conhece? . Rattler Sikes estava em pé ao lado da pia. vi que vovó tinha os próprios planos. feliz por ter um escudo entre mim e o que me esperava lá dentro. . o pára-choque traseiro um pouco mais baixo que da última vez que eu o vira. reclinado na cadeira na frente da minha avó. Prairie foi andando na minha frente. e Dun e minha avó esvaziavam as outras duas.Que surpresa . mas eu pude ouvir a tensão por trás das palavras.Ela pronunciou o nome como se fosse um veneno.É de Dun Acey. Dun estava sentado à mesa.

As palavras de Dun eram pastosas.Maldição. Era um som repentino.Eu a reconheceria em qualquer lugar. garota. Dunston .vovó repetiu com tom debochado. e os dois olharam para mim. como costumava fazer comigo. talvez por não ter alguns dentes e por estar sempre com o cabelo oleoso caindo no rosto.Olá. . ele assobiou baixinho. Mas acho que simplesmente não conseguiu ficar definitivamente longe de nós. Rattler riu. Você está ainda melhor do que no dia em que partiu. se vai voltar para tentar se enfiar na minha calça outra vez. . se nos dão licença. Depois de a olhar daquele jeito insolente.Dun disse sorrindo. enfatizando as sílabas.Dun riu como se essa fosse a melhor piada que escutara em muito tempo. .Que sorte a dela . . . Hailey e eu estamos cansadas. Hailey. . Dun e Rattler deviam ter a idade de Prairie. .Rattler. E quem é essa com você? Atrás dele. provavelmente.Prair-ie Tar-bell. Dun olhou Prairie da cabeça aos pés. resultado do excesso de cerveja.Estou interessado em outra garota. . .Olá. agora que se acha superior a nós. Não esperava.Alice me disse que está voltando para a cidade. portanto. irônico.Prairie praticamente mastigou as palavras. É claro. e amanhã cedo vou encontrar um corretor para ir visitar uma casa. . deixando os pés dianteiros da cadeira voltarem ao chão com um baque surdo. acompanhado por um esboço de sorriso. você nos reconhece afinal. acendendo mais um cigarro e emendando a gargalhada com um ataque de tosse.Prairie disparou com tom gelado. Senti que Prairie ficava tensa ao meu lado. está um pouco atrasada.Bem.Hailey e eu estamos cansadas . . Que maravilha. demorando-se um pouco mais nos seios e nas pernas. Vovó riu com ele. rouco. Vovó riu novamente. . os rapazes da cidade. . Às vezes. . mas Dun sempre me parecera mais velho.Você parece ainda mais quente em agosto.ela disse com tom firme. .disse.74 .Eu me lembro de vocês. . vamos para a cama.

e eu senti que sua mão tremia. não sei. e algumas outras. socializava..Fale baixo.E quanto a Dun e Rattler? Tive a impressão de que eles a conhecem bem. como quando conversara com minha avó mais cedo. Toquei levemente sua nuca e senti a pulsação forte e regular. e ela praticamente me arrastou para o quarto que eu dividia com Chub. apenas me levou para a sala. Além do mais. . . O pulso fechado e gordinho pressionava um lado do rosto. Hailey .75 quando bebia. imitava o que eu dizia. por que nunca ninguém me disse nada? . Ou ela paga bem pelo silêncio das pessoas.Havia algumas famílias com as quais Alice. . Senti que ela ficava ainda mais tensa.Vai para cama.. Esperei que ela reagisse com uma resposta ríspida. mas não houve resposta.Da Cidade do Lixo. . porque não queria que nos aproximássemos das crianças daqui. . poucas pessoas devem lembrar. mas ela não disse nada. Segurando meu braço. ela fechou a porta e se apoiou nela. os Sikes. colocado o menino para dormir. Só então me virei para olhar para Prairie. ela fazia isso comigo.ela disse. Seus clientes.Muita gente tem medo de Alice. E nunca tivemos amigos por lá também. e provavelmente muito mais gente também sabia. . pelo menos.Se Dun e Rattler sabiam sobre você.Prairie pediu com tom suave. Ele estava encolhido no berço. Mas alguma coisa me dizia que era um erro fazer isso com Prairie. Os Acey. Eu fui ver se Chub estava dormindo bem acomodado. Assim que entramos. com exceção dos clientes dela. . Prairie? . . Alice nos mandava para a escola em Tipton. Ele sempre ficava quente quando dormia. e me senti aliviada por minha avó ter.Venha .a voz de Rattler soou atrás de nós. e suas faces se tingiam de uma tonalidade rosada.

mas o que eu fiz tornou impossível para mim. e não voltou. claramente abalada com as lembranças. Então. se .ela disse em voz baixa.. deixar o passado em paz. era o melhor a fazer.76 . . .. Eu quase não falei o que estava pensando... Prairie reagiu como se eu a houvesse esbofeteado. Como eu. ou algo parecido? O rosto de Prairie exibiu uma angústia intensa. . Você precisa acreditar em mim. minha voz soou amarga.. Prairie suspirou e alisou o tecido de sua jaqueta.eu disse.. Eu jamais teria ido embora se. Mas no espaço de algumas horas eu descobrira que havia perdido mais do que jamais soubera ter. me resgatar? Por que se sente culpada com relação ao que aconteceu com minha mãe? .Não . se eu ficasse. sim. Você precisa saber que eu amava sua mãe mais que tudo no mundo. e por um segundo me arrependi de ter perguntado.. Se o quê? . . quando falei novamente. .Mas você escapou . talvez eu não quisesse saber.Hailey! Eu. Agora voltou e está tentando o que. E eu ia voltar para buscar sua mãe.Nada disso.eu respondi.Nem sempre eram os clientes. Mordi o lábio inferior e pensei em ficar quieta. mas. Provavelmente. Alice sabia que eles apreciavam certas substâncias ilegais..E. Teria sido perigoso para nós duas.Você matou alguém. E encontrou um jeito de lucrar com isso. .. afinal. O que podia ter sido tão ruim a ponto de ela ter de sair da cidade? .O que aconteceu. Ela precisava ganhar dinheiro. Se ela fosse uma assassina.E deixou minha mãe aqui para lidar com Alice sozinha.Disse a ela que voltaria para buscá-la.É fácil fazer promessas . continuar na cidade. . Não foi assim. ..

Você sabe disso. . não que eu espere que esteja. podemos ir embora assim que Rattler e Dun saírem. Mas seria fácil ceder e aceitar o que Prairie prometia. . ter esperanças. eu dei as costas para ela. A pilha de latas de cerveja havia crescido. Não quero saber. mais aguda. Nenhuma palavra. passando por ela a caminho da porta. Prairie soava desesperada.Hailey. Usei meu saco de dormir como base e o cobri com algumas colchas velhas dobradas. Eu sabia que devia parar. porque não sabia o que dizer..Esqueça.Vou escovar os dentes. Parecia exausta. De repente me sentia cansada.. Fui até a sala e espiei pela fresta da porta para a cozinha.O que eu sei é que não quero mais falar sobre isso . Se eu tomasse a decisão errada. . Rattler estava sentado à mesa com um cinzeiro cheio de bitucas e bebia outro copo de água.Hailey.77 Senti meu coração oprimido e ouvia minha voz cada vez mais alta. Queria que ela me resgatasse. e dei a ela meu travesseiro. Quando voltei ao quarto.Se ainda estiver aqui amanhã. e também seria muito perigoso. improvisei uma cama extra da melhor maneira possível com o que tinha à mão. Para mim. . . Chub também sofreria.. e depois vê-la desaparecer como todas as outras coisas boas que eu sempre desejei.. Não terminei a frase. Quando Prairie voltou ao quarto. não seria eu a única prejudicada.Alice não vai acordar depois que apagar. . . ela olhou para a cama no chão e sorriu para mim.respondi. Antes que Prairie pudesse responder. improvisei um travesseiro com um moletom. A verdade é que queria desesperadamente acreditar nela. Havia mais uma coisa que eu precisava fazer antes de dormir . Vou para a cama. Enquanto ela estava no banheiro. Mas receava acreditar nela... e Dun estava desmoronando na cadeira. ela pegou na bolsa uma pequena valise de higiene pessoal e foi para o banheiro sem dizer nada. Muito cansada.eu tinha de ir ver o que minha avó estava tramando com Dun e Rattler antes de poder relaxar.

há. para mim. Acontece.. bebendo um pouco de cerveja e deixando escorrer uma parte do líquido pelo queixo. .. .Não.ele perguntou. . mesmo fraca como era. é só o carro dela. mas eu sabia de alguma forma. há. .Quem sabe que estou aqui? . Eu voltei para a sala . Aquela coisa estranha. .Não estou enferrujado.Tudo bem. que ele não olhava para mim .Sim.não podia acreditar que minha avó não tinha mais medo dele.78 Vovó falava com ele em voz baixa e séria.Homens.Alguma coisa não está certa. Sempre me espantou que. . Rattler balançou a cabeça. soltando a lata de um daqueles anéis da embalagem de seis unidades..Não. franzindo a testa. Um carro. você trancou aquela porta do fundo? . mas a expressão de Rattler era impassível..Ninguém . Seus olhos perderam o foco e ele se espremeu como se estivesse com dor.minha avó disparou. São homens dentro do automóvel.Está enferrujado . . que agora está vendo coisas. . Rattler balançou a cabeça com impaciência. E diante dos meus olhos. então está errado simplesmente. levantando uma das mãos como se quisesse fazer minha avó parar de falar. Minha avó pegou mais uma cerveja.era como se ele estivesse vendo alguma coisa na própria cabeça. .Minha avó bocejou sem se dar ao trabalho de cobrir a boca. Eu não tinha certeza de que Dun estava acordado. mulher maldita. algo estranho aconteceu: De repente Rattler levantou a cabeça e olhou para frente.. . ela pudesse beber tanto.Nada acontece por aqui há tanto tempo.minha avó respondeu.. Até esse esforço era demais para ela. . .

Mas o que ele dissera exatamente? Nada específico. Quando estava bêbada. Prairie estava sentada no chão. Eu não conseguia pensar em mais nada para fazer. no ritmo da respiração. . Eu me afastei sem fazer barulho.Acontece com os outros. . Prairie assentiu. com o cobertor escondendo suas pernas até a altura dos joelhos. ela achava tudo muito engraçado. e agora meu coração batia na garganta. um já caiu. . Rattler estava falando com a vovó. Alice não comigo.Eu também. . voltando pra suas casas descalças na madrugada gelada.Ele é tão sinistro . Mais cedo ou mais tarde. Ele disse.79 .Queria que ele fosse embora..Muito bem. Ela estava de costas. Ela não parecia surpresa. Deitei-me. e eu via seu peito subindo e descendo numa cadência constante. e Alice provavelmente não está longe. Deixe que eu me preocupe com isso. .Não quero que você se preocupe com ele. Mas deixe eu me preocupar com eles. mas eu estava pensando nos rumores. Rattler vai ficar entediado. Alice riu. De repente me senti feliz por ela estar ali.Acho que sim. . Acertei? Eu assenti. e Prairie apagou as luzes.sussurrei.Prairie.Eu sei .ela disse. No meu quarto. um som esganiçado que eu conhecia bem. . Você precisa descansar se puder. . Sou capaz de apostar que Dun já apagou na cadeira. mas havia luar suficiente penetrando pela janela para eu poder ver sua silhueta.. . nas mulheres cambaleando pela rua. sentindo meu coração disparado no peito.

Ela não estava mais deitada de costas. Estava deitada de lado. As palavras dela tiveram um efeito estranho sobre mim embora ela houvesse mergulhado minha vida num caos ainda maior do que aquele em que eu já vivia antes. . do tipo em que as pessoas se preocupam umas com as outras. Fechei os olhos outra vez. como eu via em outros lugares. Hailey .ela disse. . Eu não respondi de imediato. olhando para a maçaneta.80 . um grito interrompeu meu sonho. Um pouco mais tarde. Pouco depois. e uma parte de mim queria muito acreditar que ela viera para nos ajudar.Boa noite . apoiada sobre um cotovelo. . sua voz era reconfortante.murmurei finalmente. antes de adormecer.uma família de verdade. olhei para Prairie.Boa noite.Estou feliz por termos nos encontrado e estarmos juntas. Queria acreditar que eu tinha uma família além da vovó .

Não saia. com as costas apoiadas à parede. ela se inclinou e sussurrou: . e parei escondida atrás dela de forma a poder enxergar a cozinha e a sala. mas tinha de saber que tipo de problema Prairie trouxera com ela.Vá.. Prairie saltou sobre mim. sentindo sua pele quente e úmida. . . Eu precisava descobrir o que estava acontecendo. e o aninhei com a cabeça perto do meu pescoço. Beijei seu rosto infantil e saí do closet. porque ele havia crescido demais. Arranquei algumas roupas dos cabides e as joguei no chão. Chub tinha o sono pesado .. Eu o peguei do berço. Leve Chub para o closet. mas Prairie havia sumido. feche a porta e fique lá dentro. Caminhei pelo corredor na ponta dos pés. Olhei para trás. o que exigiu um certo esforço. Antes que eu pudesse protestar. não exatamente. Meu coração batia acelerado enquanto eu caminhava para o closet.quando dormia. cobrindo-o com um suéter que ajeitei como se fosse um cobertor. Quando atravessava meu quarto. e a voz era da minha avó. cobrindo minha boca com a mão. Por favor. depois deitei Chub sobre elas. fechando a porta quase completamente.Quieta. Não estava preocupada com minha avó. dizendo palavras que eu não conseguia entender. -Mas. Hailey.81 Capítulo 11 O grito soou do outro lado da porta do meu quarto. nada o acordava. ouvi um homem gritar: "Pare aí!" Depois ouvi dois estalos e a voz de Prairie falando bem baixo. a porta do quarto estava entreaberta.

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O que vi me fez parar de respirar. Havia um homem alguns passos além da porta, apontando uma arma para minha avó e para Prairie. Era um dos homens que eu vira sair daquele carro parado perto de casa - reconheci seu paletó cinza e o cabelo grisalho e curto. Vovó estava sentada em sua cadeira habitual perto da mesa, e compreendi pela trilha de baba que ainda molhava um lado de seu rosto que ela dormira sentada, como às vezes fazia. Ela piscava muito e ajeitava o cabelo num gesto nervoso. Prairie estava parada atrás dela, imóvel. Dun continuava no mesmo lugar em que eu o vira pela última vez, caído sobre a mesa, mas um pequeno detalhe mudara: agora uma poça de sangue se formava sob sua boca. Ele havia levado um tiro. Prairie parecia furiosa. Quis fazer algum sinal para ela, mas sabia que não conseguiria sem chamar a atenção do homem armado. - Você - ele disse com tom calmo, firme. - Velha. Deite-se no chão. Deite-se de bruços com as mãos estendidas para os lados. - Você não devia... - minha avó começou a protestar. De repente senti um forte cheiro de urina e soube que ela havia molhado a calça. Um movimento atraiu meu olhar para o canto da cozinha. Quando minha consciência interpretou o que eu vira, compreendi que Rattler se havia escondido atrás do refrigerador. Mas... por quê? Ele estava ajudando o homem armado? Antes que eu pudesse concluir a reflexão, outra arma apareceu na mão de Rattler e houve um lampejo, um brilho de metal, e a faca de cozinha da vovó apareceu enterrada logo abaixo do ombro do outro homem . Eu gritei. Tentei gritar, pelo menos, mas o som que emiti foi mais uma exclamação abafada. - Afaste-se daqui, Hailey - Prairie gritou no mesmo instante em que Rattler soltou o cabo da faca. Ele nem esperou o homem cair, jogando-o no chão da cozinha com um empurrão sem tentar tirar a faca cujo cabo podia ser visto em meio ao sangue que cobria seu peito. Em seguida, Rattler olhou para Prairie.

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- Pegue Chub - Prairie gritou. - Agora! Fuja! Eu me virei e corri para o meu quarto. Peguei Chub do closet - ele nem se mexera desde que eu o deixara ali. Ouvi um estrondo na cozinha e o barulho de vidros se quebrando. Olhei para a janela, pensando em pular com Chub - eram só alguns metros até o chão, nós sairíamos vivos e inteiros - mas percebi que sem Prairie, e sem o carro dela, não iríamos muito longe. Jamais escaparíamos. O caminho pelo quintal para o bosque era longo, e não teríamos como nos esconder na fuga. E... eu não queria deixar Prairie. Enquanto eu ia para o corredor houve outro estrondo, e um homem gritou "Afaste-se", e eu parei pouco antes do final da parede e espiei novamente a cena, dessa vez segurando Chub em meus braços. Dun havia caído da cadeira para o chão, deixando uma mancha de sangue na mesa. O homem com a faca no peito estava sentado ao lado dele, fazendo barulhos horríveis enquanto tentava continuar respirando, as mãos cobertas de sangue segurando o cabo da faca. Um segundo homem estava parado na porta e apontava uma arma para Rattler - era o outro homem do carro, um pouco mais baixo que seu parceiro, com cabelos e olhos negros e um paletó preto. Eu o vi entrar na cozinha passando por cima de um amontoado de madeira quebrada e cacos de vidro, resultado da porta arrombada, e colocar-se exatamente entre Prairie e Rattler. Por um segundo tive a idéia absurda de que ele estava protegendo Prairie, de que eles haviam ido à nossa casa para nos salvar de Dun, Rattler e minha avó, mas então o homem falou com os olhos fixos em Rattler, que se ajoelhava lentamente e erguia as mãos no ar, aparentemente tão amedrontado quanto surpreso. - Deite-se de bruços, braços estendidos, ou serei obrigado a atirar - ele avisou, e Rattler obedeceu. Vi Prairie deslizando as mãos sobre o balcão atrás dela, encontrando um copo, um prato sujo, um pacote de salgadinho. Percebi que a torradeira estava fora de seu alcance, mas por muito pouco. Quis gritar para ela agarrá-la e jogá-la contra o invasor, acertá-lo na cabeça, mas não conseguia falar, e apertava Chub com tanta força que ele choramingava com o rosto escondido em meu pescoço. Não sabia se devia voltar ao quarto e arriscar o salto pela janela, afinal, ou se tentava ajudar Prairie. Antes que eu conseguisse decidir, vovó empurrou a cadeira para trás e tentou se levantar.

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- Parada, dona - disse o homem. - Para o chão como o seu amigo, braços abertos. Mas minha avó se atirou contra ele, o cabelo grisalho e despenteado colado no queixo molhado de baba, as mãos se movendo no ar como se fosse difícil manter o equilíbrio. - Mas sou eu quem... - Para o chão! - ele gritou, levantando um braço na direção dela. Pude ver o que ia acontecer uma fração de segundo antes do tiro ecoar na cozinha, porque minha avó continuava investindo contra o desconhecido, indo na direção dele. E não foi um só tiro - foram dois, um depois do outro, quase um eco, e enquanto minha avó ainda era jogada para trás pelo primeiro disparo, o segundo abriu um buraco sangrento em suas costas. Nesse momento Rattler se levantou do chão com grande agilidade, tendo se apoderado da arma do primeiro atacante. O atirador demorou mais que minha avó para cair. Rattler o atingira na lateral do corpo, mas não parecia ser um ferimento grave. Ele cambaleou, levando as mãos à ferida e tentando aspirar uma grande quantidade de ar. Rattler não teve mais paciência com ele do que havia demonstrado com seu parceiro, e o atingiu bem embaixo do queixo com o cabo da arma. O homem caiu ouvindo o som da própria mandíbula quebrando. Houve um segundo de silêncio absoluto. Eu analisava o cenário, minha avó deitada de costas com os olhos abertos e sem foco, Dun caído perto dos dois homens que Rattler havia ferido. E no centro de tudo, Rattler: Se eu havia sentido medo de seu olhar no passado, agora aqueles olhos eram dez vezes mais assustadores. Ele baixou a arma muito lentamente, e o revólver pendeu de seus dedos como se fosse cair a qualquer momento. - Senhoras - ele disse, como se testasse a própria voz. - Fui muito descuidado. Isso é o que mereço por ter duvidado de mim mesmo. Não vai se repetir. Prairie, acho que vamos usar seu carro. - Não vamos a lugar nenhum com você - Prairie respondeu. Rattler balançou a cabeça. - Prairie, não fique nervosa. Não vou fazer nada além de levá-la para algum lugar onde possa vigiá-la. Os olhos dela se estreitaram, e vi neles um medo renovado. Não podia acreditar que existia alguma coisa pior que aquilo - quatro pessoas caídas no chão em meio a um mar de sangue, Rattler nos ameaçando com uma arma - mas de repente Prairie parecia mais apavorada

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que antes. Foi o medo dela que me fez entrar em ação, finalmente. Lembrei que havia uma tesoura na cozinha, dentro de um pote onde ficavam também as espátulas e colheres de pau ao lado da pia, e corri naquela direção, pensando que, se Rattler atirasse contra mim, pelo menos ele não conseguiria atingir Chub. Esperei pelo impacto da bala quando agarrei a tesoura, batendo com a lateral do quadril na quina da bancada. Gemi de dor no mesmo instante em que ouvi o disparo, mas ... Eu estava ferida? Prairie estava ferida? Girei sobre os calcanhares e Rattler havia desaparecido. Eu estava intacta. Prairie também estava ilesa. - Agora, Hailey, agora! Ouvi o grito de Prairie e não precisei de mais nenhum incentivo. Chub chorava em meus braços, se debatendo apavorado. Deixei a tesoura ali mesmo e corri, segurado-o com força. Segui Prairie para a porta, pisando sobre os cacos de vidro, escorregando no sangue e correndo pelo quintal na direção do carro. Rascal estava parado no meio do quintal. Seus olhos brilhavam iluminados pela luz da lua. Era uma imagem sinistra, e não consegui entender como ele continuava tão calmo quando havia estranhos dentro de casa, invasores armados tentando nos matar. Por que ele não havia atacado os desconhecidos, por que não latira e tentara mordê-los, por que não reagira com a agitação que demonstrava quando perseguia um esquilo ou um coelho?

e ele parecia estar bem preso ao banco. notei que ele quase caiu. . Deixei Chub em seus braços. esperando pelo impacto de uma bala enquanto corria de volta para o automóvel. preciso pegar Rascal! .Eu gritei. como se quisesse colocar a eternidade entre nós e o desastre de minha antiga vida. Prairie já havia colocado o cinto de segurança em Chub.Prairie. e eu quase não tive tempo para pular no assento traseiro com Rascal e Chub antes de as rodas entrarem em movimento. Enrijeci todos os músculos das costas. Ela se sentou no banco do motorista e ligou o motor. Rascal era quente e macio em meus braços. porque já corria para ir pegar o cachorro. mas nada aconteceu.86 Fuga Mas eu não tinha tempo para pensar nisso agora. e quando o coloquei no chão entre o banco traseiro e o encosto do banco dianteiro. e ela o pegou abrindo a boca para protestar. mas não lhe dei tempo para dizer nada. Quase o derrubei quando abri a porta do carro. pelo menos por algum tempo. . superar a velocidade da luz. Ela acelerava como se pretendesse romper a barreira do som. e não protestava por ser carregado daquela maneira nada cerimoniosa.

E então ela cantou. Chub está ferido.. e o ouvi chorar e tossir ao mesmo tempo. Havíamos percorrido apenas alguns metros da estrada. Prairie levantou a perna da calça do menino . Cuidadosa. virando-se no banco para olhar para mim.disse com tom autoritário. . mas Prairie me ajudou puxando-o para frente. e finalmente ficou quieto. baixo e urgente. Ela então removeu a mão de sua perna. e quando o apertei ele gritou.87 Capítulo 12 Entramos na estrada escura ao som dos pneus rangendo no asfalto.. Prairie pisou no breque e foi para o acostamento. e o que ela fez em seguida me deixou sem fôlego.Dê-me o menino . Chub se aninhou e suspirou.e enquanto Prairie murmurava os versos com uma voz suave e cadenciada. Seus gritos se tornaram soluços e eu senti uma umidade crescente em sua perna. Eu estava aterrorizada e não sabia o que mais podia fazer. e Prairie moveu o volante duas ou três vezes de um lado para o outro. por isso levantei seu corpo pesado com os pés voltados para frente..Oh meu Deus. até interromper o movimento e abaixar a cabeça.. Meus músculos protestavam contra o esforço. Só precisei ouvir algumas palavras para saber que ela repetia os versos das páginas que eu encontrara no esconderijo de minha mãe. Não levou muito tempo . . para cima e para baixo. exibindo uma mancha de sangue que era negra à luz fraca do interior do veículo. Alguma coisa não estava certa com Chub. derrapando antes de recuperar o controle do automóvel. Ela esticou a perna de Chub com cuidado. Ela deslizou os dedos pela perna de Chub. mas ela parou o carro e acendeu a luz de emergência.apenas dez ou quinze segundos . Toquei o tecido quente e molhado de sua calça. Antes que eu pudesse concluir a frase.

e depois cobriu a perna roliça com a calça novamente. E de certa forma.. dirigindo em alta velocidade pela periferia da cidade.Prairie sugeriu. e estava apenas tentando controlar minha histeria. Ela se virou para me devolver a criança.. Eu ainda não havia dado um nome àquilo. ..Ele foi seu primeiro? . . As mãos pequeninas encontraram meu pescoço e ele se aninhou confortável.Ele vai ficar bem.Prairie perguntou depois de algum tempo. ligando o automóvel e voltando para a estrada. Está no nosso sangue.Prairie disse com tom gentil. Senti os longos cílios roçando meu rosto.Hm. a pele perfeitamente lisa. que haviam tentando transformar em restaurante durante um tempo. o sangue pegajoso que já começava a secar e endurecer e o buraco aberto no tecido . isso não é .O que acabou de acontecer? . e que agora era simplesmente nada. Tinha necessidade de que mais alguém entendesse.E você também é.88 e deslizou a ponta dos dedos por sua pele. Eu sabia que era verdade.O que foi que você fez? Mas eu já sabia qual era a resposta. .ela disse. . garagens abertas e casas em variados estados de conservação. ouvi quando ela inspirou profundamente e deixou o ar sair lentamente. Senti meu rosto ficar quente. Finalmente.Veja se consegue colocá-lo no cinto de segurança outra vez . Prairie ficou em silêncio por um momento. ganhando velocidade assim que os pneus deixaram o cascalho do acostamento e encontraram o asfalto.Eu sou. e quando ela falou sua voz soou calma como naquela primeira vez que a vi sentada à mesa da cozinha de casa. O que eu fizera com Rascal.Sou uma curadora .disse. .Agora ele está bem . . pela velha igreja batista Peace Angel. Íamos para o leste. . eu queria mesmo que ela soubesse. e eu acomodei Chub em meus braços. e eu ainda tentava prender o cinto em torno de Chub quando passamos pelo Bargain Barn. . . mas ainda assim as palavras dela me causavam espanto. . pelo KFC. Prairie já sabia. passando por uma seqüência borrada de caixas postais.Sei que você curou Rascal.. Pensei em negar tudo. Toquei a perna dele.e embaixo dele. mas não parecia haver muito sentido nisso. .eu finalmente perguntei quando consegui deixar Chub relativamente seguro. Era o que eu havia feito com Milla. .

deixamos para trás uma cozinha cujo piso estava coberto de sangue. em segredo.Prairie comentou quando terminei meu relato. os terríveis ferimentos no corpo do animal. ..Aqueles homens eram.Você tem um dom. . mas agora Prairie me fazia crer que isso era algo de que eu devia me orgulhar. sobre Milla. . E quase não contei a ela. Porém. Falei também. sobre o sangue. e como meus sentidos haviam retornado com um repentino formigamento. Pode fazer algo que outras pessoas não são capazes de fazer.. a urgência. Há poucos dias eu acreditara que havia algo de errado comigo.Digamos que eram. os celeiros e galpões escuros que se erguiam dos campos como sombras. Sua mãe e eu praticávamos com Mary durante horas seguidas.Nunca ouvi falar sobre alguém ser capaz de fazer tudo isso sem orientação de outra pessoa. Mas então comecei a falar..Mas Milla diz que fomos amaldiçoadas . Eles são .. Hailey. como havia sido a sensação de carregá-lo para casa. Turnbull me jogando no chão.Quem eram aqueles homens? Eles invadiram nossa casa porque sou uma Curadora? Era minha culpa? .E que somos malucas. a voz expressando certa admiração. contei sobre as palavras ecoando em minha cabeça.Não . . Acho que é esse o nome. . .O dom é forte em você .. . . a conversa não mudava os fatos: fugíamos de assassinos armados.89 Olhei pela janela para a paisagem que passava voando. a energia intensa que brotava dentro de mim e fluía por meus dedos para o corpo quase sem vida.Prairie me corrigiu com firmeza.e sobre como ela estivera bem desde então. Aquilo me fez sentir um pouco melhor. sobre como quase nem me lembrava de ter corrido para perto dela. Contei a ela sobre o acidente com Rascal. investigadores treinados. sentindo que uma onda quente invadia meu rosto. escondidas de Alice. sobre a Sra. mais uma diferença entre mim e os outros garotos da minha idade. e minha avó havia morrido.respondi.E o que isso significa? Quer dizer que eram pistoleiros? . profissionais. mas levamos meses até podermos usar nosso dom. de aproximar meu rosto do pêlo macio. Falei sobre ter visto Milla recobrar a consciência e vomitar ..

. Prairie suspirou. e lamentei não ter prestado mais atenção.Sim. Tivemos acesso a pesquisas recentes. Que fossem ainda um grande mistério.. . embora eu não soubesse disso até recentemente. Estamos muito adiantados. O passo seguinte teria sido descobrir como usar um processo especial para modificar o DNA de uma pessoa qualquer para torná-lo parecido com o meu. mas Bryce é muito bem fundamentado. Bryce tinha outros planos.Tenho certeza de que estavam atrás de você. mas. .Sim. vocês queriam transformar pessoas normais em Curadores? . . Hailey. Nós fazíamos pesquisa em um laboratório na periferia de Chicago. Eu trabalho para um homem.. não é um bom homem. . isso certamente é verdade em grande parte. -Tentei lembrar o que havia aprendido nas minhas aulas de ciências no início do ano. Prairie estava muito calma.Pensei que essas coisas ainda não estivessem bem entendidas.Mas como eles sabem disso? Se eu mesma acabei de descobrir..O que eles queriam? . Isso fazia meu pânico crescer ainda mais. .Como assim. para colocar a . . mas não acredito que seja esse seu principal objetivo.Mas isso tudo soa como uma coisa boa.90 assassinos quando é necessário... .Sempre pensei que essa conversa toda de DNA fosse. Outras idéias sobre o que fazer com os resultados da pesquisa quando conseguíssemos isolar o gene do Curador. O nome dele é Bryce Safian. uma equipe de cientistas. como replicá-los para que pudessem ser usados no combate a várias doenças. . . Não é motivo para matar alguém. Tínhamos um laboratório..Essa é uma longa história.De mim? Por que eles estariam atrás de mim? .. Fizemos uma análise completa do meu genoma e o comparamos a uma população controle para isolar o elemento que determina o dom.É mais ou menos isso. equipamento.Porque você é uma Curadora. Tentávamos descobrir como usar meus dons de cura..

por exemplo.Sim. e o arrepio que me percorria ganhou intensidade.. e Bryce estava desesperado para encontrar outro sujeito. desde que pagassem bem. As palavras dela penetraram minha mente. que tenho uma sobrinha. E não se importava com quem seria o comprador.perguntei. um sorriso pálido..Deve ser isso.Quer dizer que ele venderia o trabalho. bem.Prairie confirmou em voz baixa. para outros países? . . ... pela oferta mais alta.A questão é que ele estava disposto a vender a pesquisa.É.Ele. foi só uma questão de conversar com as pessoas certas. Bryce deve ter contratado alguém em Chicago para descobrir tudo sobre o meu passado.. .. E se .. . eles acabaram desvendando. de alguma forma..deduzi. .Ela sorriu para mim. E quando chegaram em Gypsum. Não se pode de codificar realmente o DNA sem uma população. . . . . quem eu realmente era.Prairie respondeu hesitante.Mas ainda não entendo por que ele precisa de mim. .91 situação em termos simples. e os vi mais tarde na cidade. mais ou menos isso .Não é tão simples. os resultados que obtivéssemos com ela. ..Como assim. Quem realmente sou. . . Em um ambiente de batalha. os homens que estavam na casa da vovó . e descobriu coisas que nem eu mesma sabia.O que quer dizer? . triste. Então ele me investigou. E quando descobriram que eu usava uma identidade falsa. alguém que podia ter o mesmo dom. sentindo um arrepio desconfortável.É possível . havia encontrado um jeito de usar o gene da Cura na indústria de guerra. Se já havia descoberto como conseguir o que queria usando toda a pesquisa que vocês fizeram.. todo mundo sabe tudo sobre todo mundo.Como.Para quem se dispusesse a pagar. para curar soldados feridos? Para fechar ferimentos e permitir que continuassem lutando? . Sabe como são as cidades pequenas. mais de uma pessoa. Eles estavam me seguindo. falando com as pessoas. acho que foi isso que aconteceu. Eu os vi fora de casa uma manhã.Então ele mandou aqueles homens para me espionar.

E embora ele tenha conseguido me enganar por muito tempo sobre quem realmente era. como você conseguiu escapar? Quero dizer.Então.Duvido que alguém tenha imaginado onde isso ia acabar. Além do mais.Ele tem mais do que você pode imaginar. alguém além de Alice...Bryce devia saber que o dom é hereditário.. ..eu concluí. .. Hailey.Seu chefe tem tanto dinheiro assim? . provavelmente não era necessário ter um grande poder de persuasão para fazê-los falar tudo que sabiam. Porque o que realmente queriam era você. Bem. . As pessoas em Gypsum normalmente desconfiavam de forasteiros. não acredito que alguém em Gypsum nos tenha apontado por um punhado de dólares. mas se havia dinheiro envolvido. Quero dizer.. porque eu contei a ele .. . aposto que foi uma quantia irresistível.Prairie respondeu com tom neutro. o dinheiro que Bryce deve ter oferecido. Hailey. acho que havia alguns aspectos nos quais ele também não .. genial em alguns aspectos. se ele é tão rico e poderoso. devem ter chegado aqui com uma história convincente..Todo mundo fala por dinheiro . e completamente estúpido em outros.. e ela não tem o dom da cura. uma mentira persuasiva que conquistou a confiança das pessoas.Prairie explicou com tom culpado. Aqueles homens são profissionais. ..Senti a amargura crescer dentro de mim.. arrependido. eu não sabia que tinha isso em mim. .Então. . nem eu mesma sabia antes de.Mas ninguém sabia sobre a Cura. Quero dizer. . . . Bryce era meu amante.92 ofereceram dinheiro.O que eu nunca imaginei é que ainda restasse alguém.Um homem pode ser.Por isso os homens que ele mandou não pensaram duas vezes antes de matá-la... quente e intensa. . se seu chefe sabia que vovó era fraca.Então eles vieram aqui e. Ela era inútil para eles. . como chegou aqui sem ser detida por ele? Prairie me olhou com uma expressão perturbada. . Mesmo tendo apenas a luz pálida do painel para iluminar seu rosto. Hailey. que ela não tinha o dom. pude ver nele as linhas de preocupação que se uniam aproximando as sobrancelhas.

Mas os homens que ele comanda devem ter me seguido até a casa. E assim que eles relataram o que viram aqui. esse amor morrera há muito tempo. Ela estava morta. rezando para encontrá-la antes de ele dar a ordem para que você fosse capturada. Bryce não ia querer esse tipo de problema. Bryce é tão. Eu o convenci de que achava uma grande idéia procurar você. Não conseguia acreditar que havíamos sobrevivido. . Por que eles esperaram até hoje à noite para tentar me pegar? . Mas quando compreendi o que ele pretendia fazer.Pensei nos dois homens arrombando a porta da nossa casa. antes de você chegar.. e horror por todo aquele sangue que vira jorrar e cobrir o chão da nossa cozinha.Eu achava que sim. Na aparência dos corpos mortos. Devem ter reconhecido meu carro . Ou os dois atacantes. Vasculhei minha mente para verificar se havia algum tipo de luto.93 me entendia realmente. se estava abalada com a morte de minha avó e ainda não percebera. . Mas só encontrei o vazio. E em vez disso. para o seu. seus dedos tentando agarrar o cabo e remover a arma que . o quarto que ele já havia preparado para acomodá-la no laboratório. Agora tudo que eu sentia era alívio.. naquela manhã dirigi como uma louca para chegar à casa de Alice. Bryce deve ter dado a autorização para irem atrás de nós.. . Se algum dia eu havia amado minha avó. E que estavam tentando encontrar um jeito de levá-la sem chamar muita atenção. Dun também podia estar morto. que não acho que tenha pensado que eu poderia contrariar sua vontade.perguntei horrorizada. horror por como os olhos abertos olhavam para o nada. Que escapamos de um ataque de assassinos profissionais e estávamos vivas.fui desleixada. Em como era ter uma arma apontada em sua direção.. vamos dizer que recuperei a lucidez rapidamente. um suspiro longo e triste que pareceu enfraquecê-la. envolvê-la no nosso trabalho. Tão depressa que consegui pensar em um plano para encontrar você antes de eles chegarem aqui. Disse a ele que precisava de um dia para comprar algumas coisas para você. bem..Meu palpite é que eles não podiam agir sem a autorização de Bryce. Fingi que não sabia nada sobre a parte sombria de seus planos. quarto . . .Mas eu vi aqueles homens há três dias. . sem envolver a polícia..Oh. Vovó não sobrevivera. .Não creio que ele tenha percebido. E pelo que eu havia visto na casa. confiante. Alívio.. como ele deduziu que você havia fugido? Prairie suspirou. pela faca no peito daquele homem. não imaginei que Bryce teria fornecido a eles esse tipo de detalhe. de preferência..Então.Estava apaixonada por ele? .

94 lhe roubava a vida. Ele dormia tranqüilo. mas. Era um grande carro preto. Fui jogada novamente. Para não ficar focada nessas imagens. mas agarrei o encosto do banco da frente com a mão direita. ajeitando-os sobre a testa morna. os faróis que surgiram repentinamente atrás de nós cortaram meu campo de visão. Meu rosto doía. De repente. Ela tentava se manter na estrada. Eles surgiram do nada . Prairie pisou fundo no acelerador e fomos lançadas para frente como um raio. e pisou no breque com tanta força que os pneus cantaram no asfalto. . e senti o cinto de segurança pressionar minha clavícula quando Prairie pisou mais uma vez no acelerador. no escuro. mas estava assustada demais para me preocupar com isso. certamente deixando no chão um rastro de borracha. mas não disse nada. Percebi que o havia batido contra o plástico duro do encosto de cabeça do banco da frente. e eu me segurei enquanto verificava se Chub estava bem. mas as luzes do outro carro iam ficando mais e mais brilhantes na medida em que ele se aproximava de nós. contra o plástico duro.Segure-se . . porque seus faróis me ofuscavam. eu me virei no assento para olhar para Chub. para a faixa de ultrapassagem.num minuto tudo era escuridão atrás do Volvo. a distância entre esse carro e o nosso reduzindo rapidamente. E como eu estava virada de lado.Agora! Eu me segurei. uma das mãos fechadas esfregando a boca . e estava seis ou oito metros atrás de nós. e que era . Não enxergava nada do veículo que nos seguia. e parecia surpreso com seus olhos muito abertos e brilhantes. Ele estava acordado. se aproximando rapidamente. Prairie girou o volante para a esquerda. O outro automóvel devia estar nos seguindo há algum tempo.Prairie ordenou. Ouvi o motor do Volvo gemendo. voltando na direção de onde viemos. e no instante seguinte dois raios paralelos de luz iluminavam a estrada. apertando-o com força para me apoiar. cedendo à exigência de mais potência. e eu afaguei seus cabelos macios. e acho que cheguei a abrir boca para pronunciá-la. Como? Essa era a única palavra que ecoava nos meus pensamentos. girando o volante freneticamente. e houve um forte solavanco quando o veículo que nos perseguia tocou de raspão o pára-choque traseiro. e ele não se machucara.Prairie avisou. dessa vez contra a porta. .mas o cinto de segurança o mantinha no lugar. e sabia que Prairie também não havia notado.Segure-se novamente . manobrando o carro e descrevendo um semicírculo no meio da estrada. . Agora eu conseguia ver mais do carro que nos perseguia. Fui jogada para frente e bati com a testa no encosto de cabeça do banco do passageiro. e eu sentia o sangue escorrendo morno do meu nariz. eu não percebi.

cortando um campo de canteiros baixos . Uma das rodas saiu da estrada para o acostamento.95 manobrado no meio da estrada para vir atrás de nós. em vez de acompanhar os ângulos que Prairie desenhava. Meus dentes se chocaram uns contra os outros quando Prairie girou o volante outra vez. atravessando a área plantada sem tirar o pé do acelerador.Confie em mim. Hailey. Prairie dirigia em alta velocidade. atrás de nós. O carro passava por cima dos arbustos e o barulho era ensurdecedor. O outro automóvel tentava nos seguir. mas o motorista não se importava em manter as rodas em contato com a terra. Tínhamos uma chance. Em alguns trechos a folhagem era muito alta. ou morangos. . deixando apenas a luz dos nossos faróis cortando o campo à nossa frente. Prairie aumentou a distância entre nós e o outro carro quando o motorista estava quase perdendo o controle. entre as fileiras de vegetação.consegui gemer aterrorizada. e o automóvel tinha de passar por baixo dela. e minhas palavras morreram nos lábios quando percebi que ela nos conduzia diretamente para uma estrutura alta recortada contra o céu escuro.Prairie . e nós saímos da estrada. tentar nos desviar da rota de colisão que nos mataria . Não sei o que era exatamente.não sei bem com que intenção. . talvez.alfafa. talvez. Estendi a mão para ela . . Eu me inclinei para frente para dizer alguma coisa.mas ela falou primeiro. virar o volante. um velho celeiro com teto arredondado. exatamente quando uma nuvem encobriu a lua e tudo ficou ainda mais escuro. Percebi que eles cometiam um erro: tentavam cortar caminho e seguir em linha reta. se chocando contra galhos baixos e encontrando saliências de terra que atingiam diretamente os eixos das rodas. girando em falso sobre o cascalho antes de impulsionar o veículo de volta à pista.

e quando Prairie continuou dirigindo para o outro lado do celeiro até se chocar novamente. O Volvo foi sacudido pelo forte impacto e. e Prairie pisou no freio mais duas vezes. e as grandes portas de madeira se romperam e foram jogadas para o interior.O que está.. as rodas da frente saindo do chão.Prairie. Fomos cercadas imediatamente pela escuridão e pelo silêncio. Fechei os olhos com força e agarrei a mão de Chub. os solavancos. Identifiquei baias vazias dos dois lados. mas ela se virou no assento e cobriu minha boca com a mão. enquanto eu tinha a impressão de estar percorrendo um túnel escuro no interior do celeiro. Senti as rodas passando por cima de pedras e raízes.Tentei falar. reduzindo a velocidade do Volvo antes de atingirmos o celeiro. apesar do solavanco me fazer sentir a pressão do cinto de segurança. e a parte de trás saiu do chão. o que você. olhando pelo vidro de trás. com madeira voando em todas as direções. o ar cheio de fagulhas de feno girando à luz dos faróis. Por um momento tive a impressão de que ele ia mesmo voar. o motor rangendo alto. barulhento e destruidor. Eu também olhei para trás ao ouvir o ronco do motor do carro que nos perseguia.. mas no segundo seguinte a parte da frente descreveu uma curva descendente. .. Se íamos morrer. soube imediatamente que o celeiro não havia parado o automóvel. Não me contive e gritei: . mas em velocidade superior à nossa. . Tudo durou dois ou três segundos.antes de ela girar o volante uma última vez para a esquerda. . um espaço cheio de ângulos malucos e vigas altas. E então batemos. Fui arremessada para frente mais uma vez quando Prairie pisou no breque. Ele passou pelo buraco aberto por Prairie na porta do celeiro. o impacto foi como o primeiro. mais ou menos.. . passou como um raio pelo nosso automóvel. Nós nos chocamos contra a estrutura a uma velocidade de cinqüenta quilômetros. eu queria estar com ele quando isso acontecesse.96 Capítulo 13 Acho que eu não confiava nela. até Prairie parar o carro e desligá-lo. e de repente decolou.

mas eu o segurei com força ainda maior.Eu preciso curá-lo . Ela se aproximou correndo e estendeu os braços para pegá-lo. e os gritos de Chub tornaram-se ainda mais agudos com a dor. tocando com delicadeza a pele quente de Chub.mas quando me virei para ele.97 Tudo parecia acontecer em câmera lenta. . . . uma energia que ligava nós três. levei Chub para fora do carro com todo cuidado possível.disse Prairie. Meus dedos já se fechavam em torno do ferimento.Mas você está só começando.. Por um momento Prairie nada disse.insisti.ela ordenou.Posso curá-lo . mas nosso olhar se cruzou e havia quase um brilho à nossa volta. . . Talvez eu tenha gritado. . a parte de trás passando por cima da frente do carro antes de desaparecer num abismo escuro.Tudo bem . Eu o segurei. ainda não está preparada.Ele está ferido. Meus dedos sentiram o osso pontiagudo fora da pele. .perguntei. esquecendo de falar baixo. Eu faço isso.Não. e a luz da lua me permitiu ver que ele havia fraturado o braço logo acima do cotovelo. . Mas Prairie já soltava seu cinto de segurança.gritei para Prairie. Ele emitia uns sons curtos e sufocados. ele está ferido ..ela concordou finalmente. uma bola de fogo na noite. um clarão assustador. como se tentasse chorar e não conseguisse. Chub começou a chorar.Saia do carro . tomando cuidado para evitar a saliência do osso fraturado. e uma série de ecos menos intensos. Meu coração ficou apertado.Agora! Pegue Chub. Apavorada. e quando toquei seu braço ele gritou. e estava no chão do automóvel com Rascal. . Não precisei de uma segunda ordem .Para onde ele foi? . Houve um estrondo horrível. vi que Chub havia sido jogado para fora da contenção do cinto de segurança. .

e logo senti a energia começando a fluir de mim para Chub. movendo os lábios para formar as palavras que soavam familiares como se eu as pronunciasse desde sempre. . e sob meus dedos eu senti a pulsação de Chub ficar mais lenta e estável. e depois seus gemidos enfraquecerem até ele ficar quieto. Olhei para trás. segurando meu braço e me puxando para longe do Volvo e do celeiro parcialmente destruído. criando abismos verticais que.” Prairie murmurou o início do verso. Em meio à confusão mental provocada pelo esforço para curar Chub. . esvaziei a mente. Não parecia assustado. Passei a ponta dos dedos pela pele macia e senti a cicatriz onde ela se reparara.disse Prairie. quero dizer. e senti os ossos se movendo e emendando. nem mesmo interessado na comoção. mas até esse sinal desapareceu em segundos.. tinham muitos metros de profundidade. Mas você.Sim. e ela era duas vezes mais eficiente do que eu jamais serei. A carne cortada se fechou sob meu toque. . Hailey. .Andei mais depressa para segui-la. Hailey..98 Fechei os olhos por um momento e reduzi a velocidade dos meus pensamentos.chamei..Temos de ir . garoto .Não deveríamos ir ver se. . e ele se levantou sem nenhuma hesitação para nos acompanhar. para longe dos destroços do carro preto.. você é algo ainda mais raro. "Tá mé mol seo . O terreno atrás do celeiro descia até o rio.Não.Chame Rascal...Eu o curei . Só então notei que ele estava sentado ao lado do carro. As margens haviam sido cavadas pela água corrente durante um ano de cheia. . . para o local do acidente. Até sua mãe teve de trabalhar e se esforçar muito. e me perguntei se os homens que estavam no automóvel haviam sobrevivido. é natural em você.Vamos. . Minha voz e a dela se misturaram até serem uma só. em alguns pontos. e eu me juntei a ela. . Havia uma espécie de espanto na voz de Prairie. olhando para trás para ver se nossos perseguidores saíam do automóvel.Eles estavam tentando nos tirar da estrada. ouvi o carro preto queimando e estalando no que eu agora sabia ser o leito seco de um rio. Quer mesmo dar a eles uma chance de nos pegar? .Você é uma curadora de verdade. que se abria de repente. e se eles precisam de ajuda? .disse fascinada.

Eu já ouvira esse nome. . . com Prairie na frente. Eu devia ter uns oito anos. O pai se apoiava nele e o apoiava ao mesmo tempo. era suficiente.O velho Burnett? . e as pessoas diziam que não era muito certo. .Você não pediu por favor . adorando sentir meu coração bater forte sob a camiseta. enquanto o pai comprava remédios. depois Chub e eu. lembrei que certa vez eu havia debochado de Claude. Ele já havia sido ferido e curado duas vezes naquela noite.. A trilha era tão estreita que andávamos em fila indiana. para o terreno diante de nós. não queria tropeçar em alguma coisa e derrubar Chub.A fumaça deve ser visível a quilômetros. Mostrei a ele o chocolate. Eu conhecia seu filho mais novo.Prairie comentou em voz baixa. cuja cintura usava alta demais.99 . ele não era tão velho quando o conheci. e era uma grande novidade ver alguém capaz de causar ainda mais desconforto nas pessoas do que eu causava. Eu me obriguei a olhar para o chão. ou alguma outra coisa.Alguém logo virá verificar o que aconteceu ..Bem. Claude Burnett. além de uma horta cercada por arame daquele usado para construir galinheiro. a fumaça que se erguia do local do acidente formava uma nuvem feia que subia e se espalhava pelo céu estrelado. aos sábados. ele chegava em Gypsum vestindo uma camisa limpa que punha para dentro da calça.Aquela é a casa de Burnett. e Rascal no fim da fila. .eu disse. . e quando ele estendeu a mão grossa para pegá-lo. . Claude. Ele esperava do lado de fora da farmácia. De vez em quando.Aonde vamos? Seguíamos por uma trilha escondida de vegetação baixa. . um caminho que corria paralelo ao leito do rio. na minha opinião.Prairie acrescentou. eu o escondi atrás das costas.Estamos quase em Tipton . Ela estava certa. no alto de uma encosta. Com certo arrependimento. havia uma casa quadrada e ampla. Ele era um homem de quase quarenta anos. Ofereci a ele metade do chocolate que estava comendo. Eu notei que à esquerda.

Quando nos aproximamos. Chub poderia ser.Agora vamos passar pela propriedade dos Ellis. uma trilha estreita e difícil que subia pela margem e se estendia na direção de um aglomerado de luzes longe dali. Clover conseguiu treiná-lo para falar frases inteiras. que também não falava. . O caminho seguia do outro lado. .Sorte . curado? Daquela maneira? Prairie me conduziu até a outra margem do rio. ou alguma coisa assim? . Mary costumava nos trazer.disse. e em Chub. uma sombra pouco nítida ao luar.... só algumas palavras.O que quer dizer? Prairie deu de ombros..Como bateu na parte certa do celeiro e.100 ..Prairie respondeu. Estava pensando em Claude. Eu também brincava aqui quando era pequena.Os filhos deles estudaram comigo e com sua mãe. mas aqui . .Acho que não. .. Hailey. e não bater em uma viga ou baia.. . .Ele era amigo de sua mãe.. uma trilha muito estreita ... acho que é por aqui.Não acha que merecemos um pouco de vez em quando? Além do mais. . portas de celeiro são só grandes chapas de madeira. Ela era sempre gentil com ele. acho que é isso . Ela nos guiou por outro caminho que descia até um ponto de onde eu podia ver uma série de pedras planas no leito no rio. . como soube que o carro ia se chocar contra ele e passar direito.Como soube que tinha de fazer tudo aquilo? . sim. Acho que foi um tipo diferente de cura. Você os conhece? . e pude quase ver o sorriso que ouvi em suas palavras. já que o leito do rio estava seco. mas pisei com cuidado para não torcer o tornozelo ao descer a margem lamacenta. Não precisávamos delas para atravessar.Prairie contou.. .Ele não falava muito.Ou havia. Foi sua mãe quem o ensinou a falar. . há um atalho. Aqui. pelo menos..Eu o conheço . vi que era outra casa com um celeiro e alguns galpões construídos em um terreno de algumas poucas centenas de metros.perguntei.

e o sorriso durou só uma fração de segundo à luz pálida da lua. em como ela e Claude gostavam de brincar de caubói por aqui. Se ela nos guiava para longe de um bando de homens armados e decididos a nos matar orientada apenas por uma sensação.. E você tinha de bater no local exato. e depois segurei o tecido com força e fechei os olhos. mas o pensamento quase me fazia sentir um pouco mis segura. . brilhando ao luar quando Prairie abriu a porta. na hora me pareceu ser uma boa idéia. .ela disse. Se ela notou alguma coisa. Não sei por que não me sentia mais amedrontada. O celeiro dos Ellis estava em melhor estado de conservação que o dos Burnett.ela disse com simplicidade. .Eu lembrei só isso . Era estranho. mas feno empilhado até o mezanino e dois tratores estacionados lado a lado.101 . dormia novamente com sua testa quente apoiada em meu rosto.. Ela nunca tropeçava. . Decidi experimentar. Pelo menos foi isso que eu pensei que causasse aquele arrepio nas minhas costas. não disse nada.. e por um louco momento eu me perguntei se ela estava ou não com os olhos fechados..Vou tentar não demorar. Chub pesava tanto em meus braços que eu estava entorpecida a partir do pulso. Estendi a mão e toquei a elegante jaqueta de Prairie. Ou estaríamos mortos. caminhando com passos confiantes. e foi assim que nos aproximamos dos galpões.Fique aqui . e talvez um pouco excitante... e fechei os olhos e tentei criar uma imagem mental. sentindo Rascal bem atrás de mim. Prairie caminhava mais devagar na minha frente.. . Pensar em Prairie dirigindo pelo campo de olhos fechados era assustador. mas pelo menos ele se acalmara. induzindo meus pés a seguiram o rastro dos dela. Ela sorriu para mim..Você fechou os olhos? Eu estava perplexa. nem eu. localizar as portas . .Mas como conseguiu ver as portas? Eu mal consegui enxergar o celeiro. Bem.Pensei em Clover. Prairie seguia em frente. ou.

doloridos do esforço de carregar Chub. e eu não conseguia acreditar que era parte dele. Mas o sangue em minhas roupas era a prova disso. ou simplesmente me acostumara a lidar com as dificuldades de viver com minha avó. se me deixasse começar a sentir coisas? A idéia era aterrorizante. .. Muitas pessoas foram feridas em nossa cozinha e no acidente de carro menos de um quilômetro distante dali. Fechei os olhos e tentei examinar as emoções que iam surgindo em mim.aquela vida que eu odiava tanto ..ela disse com tom urgente. Antes eu tinha medo dessas coisas. Senti que minhas defesas começavam a desmoronar. e para isso construíra defesas mais resistentes que as que uma pessoa normal teria em uma situação como essa. Não sei quanto tempo passei ali. quanto ficar sentada em um celeiro escuro. Talvez estivesse em estado de choque. Devia estar cochilando. Agora até me alegrava com a companhia. Lamento que tenhamos de usá-lo. Havia ali um carro com o motor ligado. Mas eu não sabia ao certo por quanto tempo poderia mantê-las. que dormia apoiado em meu peito. ratos e morcegos. isso não importava. de onde partia uma trilha de cascalho que se estendia até a estrada. Os últimos dias haviam sido como um filme de terror. que tudo aquilo havia acontecido.102 Eu nem perguntei aonde ela ia. ignorando os sons das criaturas abrigadas no celeiro.É o carro dos Ellis? .e desfrutei do prazer de poder relaxar os braços. Fiquei surpresa quando vi o carro esperando. Hailey. Vovó estava morta. Eu percebi que era tão aterrorizante. naquele momento. Não vamos danificá-lo. com medo de levar um tiro.Vamos . Eu não sabia exatamente como. Era difícil entender como eu conseguira ficar calma o bastante para sobreviver às últimas horas.na verdade era quase uma versão ampliada de um regador de grama .. mas. E a vida que eu levara antes .Sim. Sentei-me no assento do trator menor . eu me sobressaltei. Peguei Chub outra vez e nós a seguimos para a porta do celeiro. tremendo. Rascal deitou-se ao lado do trator.ficara no passado. é. mas quando Prairie voltou e disse meu nome em voz baixa. mas Prairie fazia coisas. Mas. unindo as sobrancelhas. o escapamento cuspindo uma fumaça branca que subia para o céu rosado com a aproximação da manhã. . O que aconteceria se eu voltasse a me deixar incomodar pelas coisas. Ela franziu a testa. e eles o terão de volta. . ..perguntei. pelo menos. Ela conseguia coisas de que precisava.

pelo menos. . e quando chegamos à estrada principal e ela pisou fundo no acelerador. Estava ficando boa nisso.ela disse. não era necessário. Ainda não. . que viu pessoas morrerem. ela balançou a cabeça e disse: .Seis e meia se eu me esforçar muito. Apenas dormir. e as mãos agarravam o volante com força. um sorriso que pareceu exigir grande esforço.Aonde vamos? Prairie ficou em silêncio por tanto tempo que eu pensei que ela não responderia.Para casa. Em afundei no banco do passageiro e observei a casa quando passamos por ela. Mesmo que eu não entendesse exatamente do que fugíamos.Acho que chegamos lá em sete horas . senti uma profunda gratidão. eu era a única pessoa que se preocupara com ele. Porque se ela pensasse em Chub. mas isso era o que eu mais queria. eu entendia essa necessidade. Sua expressão era fechada. mais que tudo. Ninguém imaginaria que uma pessoa que foi perseguida e atacada por atiradores. mas quando Prairie partiu pela trilha de cascalho na direção da estrada. Rascal pulou para o interior do veículo e se deitou no chão na parte traseira. ele estaria muito mais seguro. Mas Prairie se preocupava com ele. o que facilitara muito para Prairie a tarefa de tirar o carro de lá. Prairie não parecia tão bem. . e eu prendi Chub com o cinto de segurança. Até onde eu sabia. Os Ellis tinham uma garagem aberta.Temos de providenciar uma cadeira de segurança para esse menino. E se ela havia feito isso. seria capaz de deitar e dormir. mas ela acabou sorrindo para mim. Precisávamos do automóvel. Eu estava muito cansada. Ele era atrasado em muitos aspectos. e sabia que Chub não era uma criança fácil de amar. Quando abri a porta. eu não queria saber. . a menos que ela soubesse fazer ligação direta. pensativa. como destrancar a porta e ligar o motor. Tínhamos de sair dali. Queria pensar nela como alguém que se preocupava por Chub não ter uma cadeira de segurança. mas ainda restavam alguns obstáculos.103 Ela não concluiu a frase. .

Depois de uma noite como a que tivemos quem pensa em comida? Eu. tinha a sensação de que devia me sentir pior. em torno da boca. mais ou menos .Estamos em Illinois.. íamos para algum lugar novo. Como se talvez devesse estar em choque. e nas sombras escuras sob seus olhos. horrorizada com tudo que havia acontecido.. ou alguma coisa desse tipo. tudo bem. Meu estômago grunhiu novamente. em excursões da escola a Hannival e St. Sentia até certa antecipação. Só estivera fora de Gypsum algumas vezes.Eu também estava com fome. Joseph para visitar o local onde Mark Twain nascera e o Pony Express Museum. Por outro lado. O que me causava espanto. Mas nunca estivera em uma cidade grande. mas nada acontecia. Nunca havia deixado o Missouri em toda minha vida. Por algum motivo. era como se eu não devesse mencionar. . Apesar de tudo que havia acontecido. Continuava esperando a culpa me atacar.Prairie falou..Precisamos comprar algumas coisas. . mas decidi não falar nada. . pode esperar até lá? . Há um Wall-Mart trinta quilômetros adiante.Como é possível que não soubesse que minha mãe estava grávida? Prairie ficou tensa e não olhou para mim.Hm. Ela não havia dormido nada. e para encobrir o som eu perguntei a Prairie algo que me incomodava. .104 Capítulo 14 Quando acordei o sol penetrava pelas janelas do Buick. e o cansaço era evidente nas linhas em seu rosto. . e eu precisava ir ao banheiro. a caminho de Springfield..

.. todos somos descentes do mesmo vilarejo na Irlanda. . planos para mim. recomeçaram a vida do zero. pode opinar ou interferir nisso. Quero dizer. dizer que tivemos uma briga muito séria. mas o plano era permanecerem sempre juntos. Ela tentou ser Curadora por muito tempo. .Ninguém mais lembra. Os Morries. e são. coisas sobre fadas.ela falou finalmente. novas habilidades.Prairie sorriu. .Sim. Banidos. os Tarbell. novas casas. transformou toda sua infelicidade em culpa.Alice decidiu que o motivo de sua incapacidade era que os Tarbell haviam misturado seu sangue com o de outras famílias. Mary nos contava histórias na hora de dormir. Ela jamais superou o fracasso.Espere .Nossos ancestrais imigraram para cá todos juntos.. . havia todas aquelas histórias.Nós somos irlandesas? . mas o sorriso não iluminou seus olhos perturbados. antes de desistir. bênçãos . Novos nomes.Você precisa pensar em quem era Alice na juventude.Por que eles eram chamados assim? .Eu sabia que os problemas seriam inevitáveis se Alice descobrisse que Clover sabia onde eu estava por isso disse a ela para inventar uma história. . Eles se casaram e tiveram filhos fora das famílias. Quando sua mãe e eu éramos pequenas.eu a interrompi. e que ela havia jurado nunca mais falar comigo.Como assim. eu me mudei para Chicago.Quando deixei Gypsum. O que Milla havia dito? Nenhum de nós. famílias? Que famílias? . .Nossos ancestrais viveram no mesmo vilarejo por séculos.O que quer dizer? .. .Ela tinha. As palavras dela me encheram de medo. Como acho que ela fez planos para você. Quando chegaram aqui. Mary me contou que Alice ficou devastada quando teve de aceitar que não tinha o dom. . Todos eles são conhecidos como Banidos.Por que vovó se importaria se ela soubesse de você? . . na opinião dela. e isso havia corrompido a linhagem. e para lidar com ele. .Culpa? Mas quem ela culpava por isso? .105 . Escrevia para Clover quase todos os dias .

Há algumas gerações. todos os homens receberam o dom da visão.Os Morries têm visões? . fraca. Creio que ela sempre acreditou que se pudesse voltar à origem de seu dom. quando deixaram a Irlanda. zangadas. . prejudicada.Bem. por isso somos atraídos uns pelos outros. Mary disse que as Curadoras mais fortes eram Banidas puras. As bênçãos eram reais. mesmo que não se enquadrem muito bem no que a ciência nos diz. Podia ser real. Aquele dom.. Creio que deve ter sido conseqüência de casamentos com pessoas que não pertenciam aos Banidos. escolhendo as palavras com cuidado. menos Sawyer. os Tarbell.. . quando ela era pequena. fiquei aliviada por não ter imaginado tudo isso. Pelo menos essa é uma explicação para como me sentia quando estava perto dos Morries.O que mais? . . Por isso podemos sentir a presença uns dos outros. ela poderia de alguma forma curar a si mesma. Mary sempre me disse que nós. ou ver coisas que aconteciam em outros lugares. para curá-los quando precisassem de nós. mesmo que eu não consiga explicá-las.Não é que não acredite. . mesmo que soe meio maluca. até de coisas como tempestades que podiam danificar as colheitas. E Alice nunca se conformou com isso. em suas expressões sombrias. isso enfraqueceu o dom.Você não acredita nelas. coisas poderosas. . mesmo que fosse uma história tirada de uma fábula. o povo. Acho que ela ficou devastada quando uma de suas filhas nasceu.. existimos para servir aos outros Banidos. . todos unidos depois de terem deixado a Irlanda. Mas a história era mais que isso.. vazias. . . doente e cruel. Deveria servir para protegê-los dos inimigos. desastres.O que aconteceu com ele? Prairie suspirou. Em parte.Pensei nos meninos na escola. Todos. Os Banidos são unidos por algumas. Mary disse que se lembrava da primeira Curadora destituída do dom. Uma Tarbell que nasceu como Alice. . tudo começou a desmoronar. quase desapareceu. Mas ela não sobreviveu para ser adulta..106 e maldições..Prairie hesitou.Agora nem tanto.. .Eu. As outras mulheres tinham a responsabilidade de manter o vilarejo. obstinadas. aquele poder. Podiam ver o futuro..

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Voltar à origem... para a Irlanda? Fiquei agitada e senti meu coração bater mais depressa quando pensei naquela passagem aérea para Dublin. - Há algo que não lhe contei - eu disse, e expliquei rapidamente sobre a pasta que havia encontrado no quarto de minha avó. Hailey franziu a testa. - Então, Alice pretendia mesmo ir. Ela costumava falar sobre isso às vezes... mas não consigo imaginar que diferença faria - não sei como ela poderia mudar alguma coisa simplesmente voltando ao vilarejo. - Se fosse possível, todos os Morries ... - ...poderiam ser reparados? - Hailey falou com tom suave.- Não é assim que funciona, Hailey. As mudanças nos Banidos são profundas, estão na base de quem somos. Eles têm medo uns dos outros. Daquilo em que se tornaram. Os homens... eles perderam o senso de moralidade, podemos dizer. Muitos deles têm vícios. Não querem trabalhar, não querem cuidar de suas famílias. - Mas nem todos são assim - eu disse, pensando em Sawyer. - Ah, definitivamente não. Ainda há homens Banidos que nascem com toda determinação e o idealismo daqueles que se instalaram aqui no início. Mas no geral... bem, acho que foi assim que o lugar passou a ser chamado de Cidade do Lixo. Certa vez vi uma foto que Mary guardava. Tinha quase um século, e não se percebia que aquela imagem era da Cidade do Lixo. Casinhas arrumadas, canteiros de flores, famílias felizes, todos bem vestidos e sorridentes. Pensei nos Morries na escola, em suas roupas sujas e remendadas, na aparência doente e mal nutrida que eles exibiam. Pensei em Milla, na combinação de fúria e medo que havia em seu rosto. - Não entendo por que eles me odeiam tanto agora. Os Morries. - É medo, Hailey. Depois que Alice nasceu... prejudicada ... eles acham que o dom se tornou uma maldição. Não acreditam que você tem realmente o poder de curar, da mesma forma que nunca acreditaram que eu e Clover o tínhamos. Eles temem que você tente curar alguém e acabe amaldiçoando essa pessoa. - Você nunca curou ninguém quando morava aqui? - Alice não permitia. Ela nos fez freqüentar a escola em Tipton, porque não queria que ficássemos perto dos Morries. Mary nos ensinou em segredo. Alice sempre disse que nos

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espancaria se nos pegasse curando. - Por quê? - Acho que é porque ela nunca superou o fato de ser prejudicada. Ela tentou curar quando era jovem... Mary me contou. E não suportava pensar que as filhas podiam fazer algo de que ela era Incapaz. - E então vocês... não curavam? - Tentei me imaginar resistindo ao impulso, agora que sabia o que fazer. - Eu... cuidava das pessoas às vezes, mas o mais comum era que eu não dissesse nada a elas. Sabe como é - uma amiga com uma marca de nascença. Outra com hematomas deixados por uma surra do pai. Seguimos em silêncio por um tempo, ambas perdidas em pensamentos. - Você conheceu seu pai? - Não, e Alice nunca me disse quem ele era. Eu nunca soube nem mesmo se Clover e eu tínhamos o mesmo pai. Eu não conseguia imaginar minha avó jovem. Não podia imaginar um homem se apaixonando por ela, tendo um filho com ela. - E seu avô? - Não. Ele morreu jovem, não muito tempo depois de Alice ter nascido, e Mary nunca falou sobre ele. Tudo que Alice jamais me contou foi que ele tinha sangue misturado. -Ele tinha? - Sim. Não havia muitos puro sangue, nem na geração passada, e o marido de Mary era parcialmente Cherokee, parcialmente alemão. - Como pode ter certeza disso? Prairie lançou um olhar rápido na minha direção, sorriu com tristeza, e voltou a olhar para a estrada. - Estudei genética quando finalmente consegui ir para a faculdade. E depois trabalhei em um laboratório. Quando Bryce me contratou, eu já havia traçado minhas origens. - Pode dizer tudo isso? Só pelo sangue? - Você se surpreenderia. Os testes são um pouco complexos, mas é possível traçar sua

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hereditariedade com precisão considerável. Pensei por um momento. - Você poderia... me testar? Quero dizer, consegue deduzir quem era meu pai? - Não como está pensando, Hailey. A menos que se esteja fazendo um teste de DNA procurando a identificação da paternidade, ou coisa parecida. Além do mais, se você está pensando na Cura, isso não tem importância. Alice estava enganada. Se o parceiro de uma Curadora for parcialmente Banido, ela vai transmitir à filha o dom da Cura em nove de cada dez casos. - E pode fazer essa afirmação a partir dos seus testes? - perguntei surpresa. - Não. Isso eu aprendi com Mary, Não é exatamente científico, mas não tenho motivos para duvidar da veracidade dessa afirmação. Mary me disse que algumas Curadoras são mais poderosas que outras, dependendo do sangue de seus pais. E de outros fatores também, dentre eles alguns que duvido que possamos um dia compreender. Como Alice... Não sei por que o dom foi corrompido nela. Eu... as vezes chego a sentir pena dela, por causa de como nasceu, com os poderes atrofiados como seu corpo, mas depois ... Ela não concluiu a frase, não era necessário. Acho que nós duas tínhamos nossas lembranças da crueldade da vovó. Sim, era possível sentir pena dela... até você lembrar quem ela era. - Então, vovó queria ter certeza de que você se casaria com um Banido - adivinhei. Para seus filhos não nascerem como ela. - É isso mesmo - disse Prairie. - Mas vai, além disso. Alice começou a sentir que era responsável por garantir a continuidade da linhagem Tarbell. Ela costumava dizer que quando eu me formasse no colégio, ela escolheria um puro sangue para mim. - E quando você foi embora... - Restou apenas Clover. E eu sempre me perguntei... Só precisei de um momento para adivinhar o que ela queria dizer. - Você acha que vovó... escolheu alguém para minha mãe. Quando percebeu que você não ia voltar. - Sim - Prairie disse com tom suave. - Acho que ela não quis esperar até Clover se

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formar. E eu acho que ela... Clover... não teve escolha, e ele ... quem quer que tenha sido ... deve ter... Enquanto Prairie se esforçava para encontrar as palavras mais adequadas, percebi porque sua dor aparecia sempre que ela falava sobre Clover. Sobre minha mãe. Vovó a sacrificou, a entregou a um dos Morries - os meninos de olhar cruel e jeito sombrio que eu conhecia dos corredores do Gypsum Hall - para garantir que ela engravidasse de um puro sangue. Para que a filha dela tivesse o legado Tarbell, para que ela fosse uma verdadeira Curadora. O horror me invadiu, fechando minha garganta e me impedindo de respirar. Eu era fruto da violação de uma menina ainda mais nova que eu. - Quando pensei em minha irmã sozinha, sem a única pessoa que se importava com ela, que podia protegê-la, meu coração se partiu. - Ela morreu no parto? - perguntei com a voz embargada. Eu precisava saber. - Oh... Hailey. - Prairie respirou fundo, preparando-se. - Não. Clover se matou. -Ela... Eu não conseguia falar. Sempre pensei em minha mãe como uma desconhecida, até conhecer Prairie. Minha avó dissera que ela era mentalmente perturbada e eu acreditara, e de alguma forma isso a tornara menos real para mim. Eu me sentia como se houvesse nascido do nada, de certa forma, como se um belo dia houvesse simplesmente aparecido na casa onde cresci. Mas agora eu sabia que havia sido diferente. - Você tinha algumas semanas de vida quando ela morreu - Prairie continuou em voz baixa. Os investigadores de Bryce encontraram os registros no gabinete do condado, e ele me contou há alguns dias. Fiquei... devastada. Pensei em como Clover deve ter se sentido amedrontada. - Como ela... você sabe. - Ela se enforcou, Hailey. No closet do quarto. Bryce encontrou os registros policiais. Meu closet. Não era de estranhar que eu me sentisse atraída por aquele espaço tão pequeno; não era de estranhar que houvesse encontrado o esconderijo secreto. Era a presença

. Mas quando cheguei em casa .Você nunca deve imaginar que sua mãe não a amava .Mas. o Banido puro sangue que garantiria que meu bebê fosse um Curador com o dom? Tive a sensação de que ia vomitar. À sua maneira. ... e era com isso que ela se importava. sair daquela casa. . Hailey. Quero saber tudo. fiquei preocupada. Eu mal podia absorver o horror do que Prairie estava dizendo.. .Mas e. E eu. Ela não se importava comigo? Não queria ter certeza de que seu bebê estava bem? ..eu engoli o nó que se formara em minha garganta. creio que ela estava me protegendo.. sair de . -Acho que ela se sentia sem alternativas.respondi.111 dela que eu sentia ali. Eu ia embora. como tentou tirar tudo que ela queria. . e peguei um ônibus de volta a Gypsum para encontrá-la. Deixei escapar um som estrangulado.. pensei. Uma última chance para ela reparar tudo.. Você é o futuro. Como descobriu que minha mãe estava morta? O que foi que você fez? . engolindo em seco. Estava envergonhada demais para me contar sobre a gravidez. Uma última chance para purificar a linhagem sanguínea. e Prairie me olhou alarmada. Havia economizado algum dinheiro. Alice a via como o futuro das Tarbell. conte-me tudo. você está bem? Já estamos quase chegando na rampa de saída .Acho que sim .Quando ela parou de responder minhas cartas. e Alice me contou que ela se suicidara. não conseguia pensar em outra coisa que não fosse sair daqui. o que me teria engravidado. mas ela sabia que Alice a teria tirado dela. sua tristeza. .. ela não estava lá. Sei que Clover a amava muito.Prairie declarou com firmeza.. .acha que pode agüentar? . .Hailey. E acho que ela sabia que eu teria voltado se tivesse me contado. Seria ele o homem que minha avó havia escolhido para mim.Por favor.E ela não teria permitido que nada interferisse nisso. por quê . em como ele me olhava com aquela expressão faminta. Pensei em todas as vezes que vi minha avó cochichando e rindo com Dun Acey.Tenho certeza de que ela teria posto Clover na rua para impedi-Ia de criar você.

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perto de Alice. Mas ela me impediu. Disse que podia convencer as pessoas de que eu era culpada. Ela disse que Clover estivera falando muito sobre a briga feia que tivemos... - A briga que você sugeriu que ela inventasse? Quando escreveu para ela? - Sim. E ela disse que era melhor eu nem deixar as autoridades perceberem que eu estava na cidade, ou seria levada para interrogatório ou coisa pior. Agora entendo que ela estava só tentando se certificar de que eu nunca mais voltaria. Porque se eu descobrisse sobre você, poderia ter lutado pela custódia. E ela não queria perder você. Essa era a última peça do quebra-cabeça. Agora eu conhecia toda a história sobre por que havia crescido sem mãe. Ela não me abandonara de propósito. E se Prairie houvesse ido me buscar no passado, eu não teria Chub. Olhei para ele no banco de trás do carro, para suas faces coradas e sua boca formando um "o" pequenino e doce. Até Chub, eu havia crescido sem amor. Mas ele me dera um motivo para seguir em frente. Para continuar tentando. Prairie me salvara na noite passada, eu pensei quando alcançamos a rampa de saída da estrada, Mas Chub me salvara primeiro. Saímos da pista quase imediatamente para um imenso estacionamento. Eu estava faminta, e sabia que Chub sentiria muita fome no minuto em que acordasse. - Vamos comer aqui? Prairie fez uma careta. - Receio que sim. Tem um McDonalds no Wal-Mart. Vou comprar o que for necessário enquanto você leva Chub para tomar café e aproveita para comer. -E você? Prairie sorriu um sorriso inesperado e genuíno. - Se puder pegar uma salsinha e biscoito de ovos para mim, serei muito grata. Eu não como um desses há séculos. Ah, e pão integral, talvez. E um suco de laranja. E um café gigante, está bem? Ela pôs o dinheiro na minha mão e eu fechei os dedos em torno da nota. - Como prefere seu café? - Puro. E, Hailey, você está com alguns hematomas. Talvez seja melhor se... - Ela estendeu a mão e empurrou meu cabelo para trás, para longe da testa, arranjando-o de forma que caísse sobre a lateral do meu rosto. Prairie havia tirado a jaqueta. Pelo menos não havia sangue em sua blusa de seda. Ela

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havia escovado os cabelos e passado batom, mas ainda tinha aquela aparência de quem passara a noite sem dormir. - Rascal precisa caminhar um pouco - eu disse, olhando para trás para verificar como ele estava. O cachorro estava deitado no chão atrás do banco, com a cabeça apoiada sobre as patas. - Tudo bem, vou preparar Chub. Depois de levar Rascal para uma volta rápida em um gramado próximo, notei que Prairie já havia tirado Chub do carro. Ele apontava para a enorme loja e fazia ruídos animados. Abri a porta do automóvel e Rascal saltou obediente para o banco de trás outra vez. Enquanto atravessávamos sem pressa o amplo estacionamento, tomei duas decisões: primeiro esse seria o dia em que eu começaria a tomar café. E segundo, eu também o beberia puro. Creme e açúcar... essas coisas podiam deixar uma pessoa mais lenta. A essa altura, os Ellies em Gypsum já teriam percebido que o carro da família havia sumido, não? Teriam ido lá fora para pegar o jornal, ou deixar o gato sair, e se olhassem para a garagem... Mas era sábado. Talvez dormissem até mais tarde. Um quilômetro distante da casa deles, se a polícia já não houvesse sido chamada ao local, o Velho Burnnett estaria acordando para encontrar o imenso buraco em seu celeiro e um carro destruído dentro do rio seco que cortava sua propriedade. Sem mencionar o carro de Prairie, o velho Volvo marrom, abandonado atrás do celeiro. E quanto tempo demoraria até alguém encontrar a carnificina em nossa casa? Vovó era bem conhecida por algumas pessoas em Gypsum e no entorno dela, mas não eram pessoas que podiam chamar as autoridades. Provavelmente seria outra pessoa - alguém vendendo utensílios de alumínio ou verificando o medidor de água - que acabaria fazendo a horrível descoberta. Dentro da loja, um homem idoso com um colete azul empurrou um carrinho de compras na nossa direção. - Bem-vindas ao Wal-Mart - ele disse. - Obrigada, eu... nós vamos só, é, tomar café - eu disse, certa de que ele perceberia meu nervosismo e saberia que havia algo de errado. Mas quando Prairie entrou na loja cheia de clientes, ele se afastou de mim e empurrou outro carrinho para outra pessoa que entrava na loja atrás de nós.

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Vi uma placa indicando os banheiros e levei Chub até lá. No interior do sanitário havia um desses trocadores basculantes preso à parede, e eu me perguntei se a plataforma suspensa suportaria o peso de Chub, que agora tinha vinte e um quilos, de acordo com a velha balança da casa de minha avó. - Aqui - eu disse, levando-o para o maior reservado. Havia duas mulheres paradas diante das pias, uma delas lavando a mão, a outra passando batom. Eu esperava que elas tivessem a impressão de que Chub ia usar o banheiro. Percebi que não tinha fraldas nem lenços umedecidos comigo, e me perguntei como ia limpá-lo. Ele ficaria ensopado. Peguei um punhado de toalhas de papel e as umedeci na pia antes de entrar no reservado. Chub disse alguma coisa que eu não entendi e puxou impaciente o elástico da cintura da calça. Eu o ajudei a tirar a fralda molhada e, surpresa, vi Chub se sentar no vaso sanitário. Eu o colocara no vaso pelo menos uma dúzia de vezes em casa, prometendo ler histórias para ele ou recompensá-lo com um biscoito, qualquer coisa que pudesse convencê-lo a usar o vaso sanitário - e ele sempre descia e saía correndo. Mas agora ele se sentara sozinho no vaso. Ele terminou suas necessidades, desceu, e puxou a calça. Eu o ajudei a lavar as mãos na pia - ele adorava o dispenser de sabonete - e quando estávamos secando as mãos, uma mulher baixinha com cabelos vermelhos e arrepiados olhou para mim e disse: "Ah, que gracinha, é seu irmão?" E antes de pensar realmente na resposta eu disse: - Sim, senhora. Ela sorriu para nós e saímos do banheiro. Eu ia pensando, bem, por que não? Não havia ninguém ali para me desmentir. Podíamos ser parentes, pensei, nós dois tínhamos pele pálida e sardas. E mais tarde, se ele ficasse totalmente diferente, bem, se tivéssemos o hábito de pensar um no outro dessa maneira - talvez não fizesse diferença. Talvez pudéssemos ser normais, afinal. No McDonalds, pedi para mim a mesma coisa que Prairie havia escolhido para ela, e para Chub pedi bolo e salsicha. Comemos depressa, e tentei não olhar em volta para os outros clientes. Imaginei que, talvez, se eu não olhasse para eles, eles não olhariam para mim. Quando Prairie chegou com o carrinho de compras cheio de sacolas, eu me sentia melhor. Voltamos para o carro, e ela me entregou uma caixa grande.

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- O assento de segurança para o carro - disse. - Veja se consegue entender como essa coisa funciona enquanto ponho o resto das compras no porta-malas. No final, tivemos de trabalhar juntas na cadeira de segurança, Prairie lendo o manual de instruções, e eu tentando prender os cintos da cadeira ao cinto do automóvel antes de colocarmos Chub em seu novo assento. Rascal não parecia interessado no processo, mal levantava os olhos enquanto nós trabalhávamos. Chub bateu nas laterais plásticas da cadeira com uma expressão pensativa. Eu voltei para o banco da frente e Prairie guardou o manual de instruções e os sacos plásticos dentro da caixa, deixando-a no banco traseiro. Em seguida ela tirou da bolsa uma sacola plástica. . - Pensei - ela começou, mas parou hesitante. Ela abriu a boca e tirou dela uma pequena girafa de pelúcia azul com lã brilhante formando uma crina ao longo de seu pescoço comprido. As pernas eram frouxas e moles, e a cara era fofa com cílios longos bordados em torno dos olhos de botão. Ela entregou o brinquedo a Chub, que o pegou imediatamente e o segurou perto do nariz, virando-o para um lado e para o outro. - Raff - ele disse. - Prairie. Raff... Girafa Estava falando, mesmo. Como isso estava acontecendo? Seria por minha causa? Eu podia estar curando Chub de alguma maneira, sem sequer tentar? Eu havia realizado três curas: Milla, Rascal e o braço quebrado de Chub, só nos últimos dias. Talvez isso agora fosse parte de mim, e eu não podia desligar o dom. Parecia impossível... Mas havia acontecido tanta coisa, que não era inacreditável. Entreguei a Prairie o saco de papel com o café da manhã. Arrumei o copo de café para que ela pudesse beber, dobrando para trás a pequena tampa plástica, exatamente como eu havia aprendido a fazer vinte minutos antes, ao tomar meu primeiro Prairie agradeceu e comeu enquanto dirigia lentamente pelo estacionamento, procurando a saída por onde ela voltaria à estrada interestadual. Ela consultou o telefone e eu percebi que Prairie seguia instruções de um mapa que baixara anteriormente. - Aonde vamos? - perguntei quando ela entrou em uma estrada de várias pistas com muitas lojas ao longo do acostamento. - Bem, isso é um pouco complicado - Prairie respondeu. - Fique olhando lá fora e ache um... ah, lá está.

Mas isso significa que ele sabe exatamente onde estamos!. fragmentos do futuro. que apertava com força. abre a mente e tem lampejos...Rattler Sikes? .Um arrepio começou na base da minha coluna.disse . poucos. Nessa época ele já tinha as visões. Lembra-se de quando eu disse que os homens Banidos costumam ter visões? E que podem ver o futuro? .Como se houvesse outro Rattler. ele costumava me seguir por todo lado. em . Imagens. Senti que ia ouvir mais notícias ruins. Alguns deles. e olhou para mim com uma expressão muito séria no rosto.. Lembrei daquele olhar sem foco quando Rattler estava na cozinha de nossa casa. Ou às vezes ele tem visões de coisas acontecendo ao mesmo tempo. ou escolher que partes vai ver.Isso vai soar um pouco estranho .Temos que dar essa impressão. e não tinha certeza de que estava preparada para escutar ainda mais.. tudo bem. . ela estacionou na frente de uma agência de Hertz. Quando éramos crianças.116 Ela entrou em um estacionamento na frente de uma fileira de prédios baixos e passou por uma lavanderia. Ele só.Não é bem assim que funciona. mas não vamos alugar realmente. . Dizer o nome dele era suficiente para aumentar a intensidade do arrepio e transformá-lo em um tremor de medo.. pelo menos. e elas só se fortaleceram com o passar do tempo.. Finalmente. um restaurante tailandês..Como eu posso. uma padaria. flashes.Rattler e eu temos uma. . . Prairie assentiu.Rattler pode.. .mas temos de fazer parecer que estamos alugando um carro.Ela mordeu o lábio e olhou para as próprias mãos. . história. uma locadora de automóveis.Sim.Os puro sangue ainda podem. . . Bem. . mas em um lugar diferente. entendeu? .disse Prairie. Ele não consegue ver o futuro por inteiro.Pensar nisso me fez querer saltar do carro e correr. . . Mas eu tinha escolha? .Sim.

Pare . mas mesclada a alguma coisa que não me agradava..Tudo retornou. A conexão. mas vamos superar tudo isso.. São homens dentro dele. A atração desapareceu para mim.. . e Rattler era só uma parte do meu passado.Os Banidos. Como assim.Ele tivera uma visão dos homens de Safian.disse com delicadeza.Mas o que vamos fazer? .O que eu posso fazer? .117 como ele havia ficado imóvel. mas firme. como se tentasse se concentrar em alguma coisa que ninguém mais podia ver.Não entendo.perguntei em pânico. Vamos deixar para trás o que aconteceu e a conexão se romperá.. . . Foi o que eu fiz quando fui para Chicago. Rattler só consegue me ver quando estamos conectados. Mas podemos combatê-la. e estamos ligados pelo que aconteceu com Alice. dar a impressão de que podemos estar a caminho do sul ou do oeste..Fique calma. como eu disse antes.Não perca a calma. Vamos criar alguns cenários. . Já lutei contra isso antes. essa energia desaparece lentamente. nós somos atraídos uns pelos outros. . .. algo sombrio e aterrorizante. Sua mente. a energia.Mas quando você voltou para Gypsum. . Vamos dar a impressão de que estamos alugando um carro. Mas se você se afasta. No momento estamos com medo. fora da influência dos outros Banidos. . A ligação se rompe. Homens. Prairie tocou meu braço. seu coração enfoca outras coisas e a atração desaparece. Já me afastei de Rattler no passado. É por isso que estamos aqui. Um carro. . vocês têm uma conexão? .. .Mas no final ele vai. E existe uma energia em torno dessa atração. e ele não podia mais me ver. Vou seguir alguns caminhos diferentes. Não para sempre. Mas não tínhamos alternativas.. Só precisamos confundi-lo para que ele não saiba para onde nos seguir. Era quase como se ela estivesse tentando me convencer. E vamos dirigir até a estação rodoviária. quando existe alguma energia entre nós. Hailey. mas você passa a funcionar sozinha. Havia uma forte convicção na voz dela. -Alguma coisa não está certa. e então ele não vai conseguir nos encontrar. despistá-lo.

e percebi que Chub devia ter caído sobre ele no Volvo quando se machucara.Acho que funcionou.Você e Chub vão levar Rascal para dar uma volta. Não devemos usar esse tipo de golpe nas aulas. Ele poderia delatar nosso paradeiro. ela parecia um pouco mais calma. Ele não havia balançado a cauda nem erguera as orelhas.. o que aconteceu com Rattler? Em casa? . Rattler não estava morto.Um a zero para nós . e ele caminhava ao meu lado. Eu limpei o cachorro com um pouco de água mineral e um punhado de lenços de papel da caixa que os Ellis mantinham no carro.Eu. se alguma coisa dentro dele se rompera. bem. Só preciso de cinco ou dez minutos. que consultava o monitor de seu computador. Eu queria . e me perguntei mais uma vez se ele estaria tendo alguma reação ao acidente. o único ferimento que sofrera havia sido causado pelo chute de Prairie. Na luz brilhante eu pude notar que Rascal tinha sangue no pescoço e nas costas.Prairie respondeu. enfim.Sim. eu sempre quis experimentar. . mas ele apenas olhou para a estrada.Próxima parada. pulando dentro dele. não era nenhum dano cerebral. Chub estava feliz fora do carro. . Ele não se incomodou. acho que sim. Mas quando eu o chamei. mas Rascal não parecia interessado. . Se havia alguma coisa com ele.Ah. Aquilo foi um chute circular.. quase me raptou. Ela estava conversando com o homem atrás do balcão. Fiz como ela dizia. foi como se nem notasse. . consultando o telefone mais uma vez antes de sair do estacionamento. e um esboço de sorriso distendeu seus lábios. Tem água mineral e uma vasilha de plástico no porta-malas. recolhendo pedras e gravetos que chamavam sua atenção.. Imaginei se ele estaria pensando em perseguir os carros. Rascal atendeu imediatamente e me seguiu de volta ao carro. para os carros que passavam por ela. .eu falei depois de alguns minutos de jornada -.Prairie . e até onde eu sabia. . Quando Prairie voltou. na verdade.. aquilo. estação rodoviária. olhando pela vitrine de vidro da loja enquanto cuidava de Rascal.disse. pratico kickboxing. . ah. Pus a mão diante do focinho dele para ser lambida.118 .

Prairie simplesmente me fazia sentir que eu era capaz de fazer coisas que nunca considerei fazer. Aquilo me surpreendeu. dirigindo por uma série de bairros que eram cada vez mais pobres e sujos.ela disse quando paramos no estacionamento. Agora eu estava com Prairie. .Dessa vez iremos todos juntos . às vezes quase sem nos movermos no tráfego. Também não era só pelo dinheiro e pela experiência que ela tinha. Vou alugar um quarto para nós . Depois foi a vez do aeroporto. Nunca acreditei realmente que teria uma chance. O que realmente aconteceu foi que Prairie fez um monte de perguntas sobre quando os ônibus partiam de vários lugares.Tudo bem . e quando Prairie saiu do centro da cidade a tarde já chegava ao fim. Ficamos fora do carro por aproximadamente meia hora. Eu nem prestava atenção enquanto Prairie ia percorrendo ruas menores e menos movimentadas. Não sabia ao certo se queria admitir para Prairie que nunca havia . passageiros com malas.ela disse. bolsas . Pensar nisso me fez arrepiar de medo e repulsa. um lugar comum em um bairro simples perto da interestadual. Li uma velha revista que alguém havia abandonado ali.119 que ele estivesse morto . Mesmo assim. mas agora parecia possível. O último lugar ao qual Prairie nos levou foi um motel. e essa experiência foi um pouco mais interessante. Havia ali edifícios altos em quantidade suficiente para fazer parecer uma cidade real. Passamos algum tempo sentadas em cadeiras desconfortáveis. Deixamos Rascal no carro com uma lata aberta de alimento para cachorro que Prairie havia comprado no Wal-Mart. .isso me fez sentir vontade de viajar de avião para algum lugar. mas quando Prairie murmurou que era hora de seguirmos viagem. fingindo entrar na estação para comprar passagens.e depois me perguntei se ele estava nos "vendo" agora. está bem? Eu não discuti. havia gente andando por ali. antes de entrar no estacionamento de uma estação ferroviária. Não demorou o suficiente para ser tedioso. Preciso descansar um pouco antes de seguirmos viagem.fique aqui. e Prairie comprou uma limonada de uma máquina para Chub. eu me senti aliviada. Prairie me levou ao centro de Springfield. Circulamos por um tempo. e no final ela pegou dois panfletos com os horários e os guardou na bolsa. embora o terminal aéreo de Springfield fosse pequeno e não se parecesse em nada com aqueles que eu via nos filmes. Imaginava que nunca poderia relaxar. Depois do aeroporto.

Vi Prairie passar pela porta de vidro e entrar no saguão. . Gypsum tinha dois . um disfarce? .Mas hoje de manhã eu esfreguei barro nas placas antes de sairmos. Ela virou as duas sacolas maiores.ela disse. Não falei com eles sobre Rascal. Depois ela tirou da sacola uma escova de plástico e uma tesoura. . Chub cochilava.Sim. Um homem fumava um cigarro sentado sobre um balde virado ao contrário.. onde a vi conversando com o homem que atendia atrás do balcão. A última sacola continha um punhado de pequenas embalagens de maquiagem.. imaginando como seria ter um quarto só para mim. Chub segurou minha mão e bocejou.Espero que esteja pronta para assumir um novo visual. mas um enorme par de óculos de sol com armação branca. havia os fundos de outro restaurante com mais latas de lixo e portas de serviço. Eu a ajudei a tirar as sacolas do porta-malas. e percebi que ela tentava soar animada. Esse tinha um cheiro estranho. e nós entramos no carro para percorrer o pátio e estacionar em uma vaga parcialmente escondida atrás de uma lata de lixo. os homens que Bryce contratou. Deixei a mochila sobre uma das camas e vi Prairie tirando as coisas de suas sacolas do Wal-Mart.perguntei. apesar da exaustão. e eu havia passado por eles centenas de vezes. . Temos de fazer o possível para nos tornamos invisíveis. Ninguém nos viu. .. . depois da cerca.Consegui um quarto para nós perto do fundo . e nós seguimos Prairie até a última porta no primeiro andar. e com lixo espalhado pela calçada. Eu sabia como eram os quartos de motel pelo que vira na tevê.Está com medo de a polícia estar procurando este carro. por isso é difícil identificar os números. mas químico e úmido. . e depois eu voltei e carreguei Rascal enrolado no meu moletom. Ela assentiu. Além disso. Vamos ter de levá-lo para dentro escondido. e várias peças de roupa caíram sobre a cama. . Do nosso quarto nós podíamos ver o final do estacionamento e um Denny's ao lado do motel. Ela voltou depois de pouco tempo. não exatamente ruim.. não é? E.disse. com tudo limpo e arrumado.Isso tudo é. Prairie colocou uma caixa de L'Oreal Coleur Experte sobre o criado-mudo entre as camas. por isso o deixei no carro e levei Rascal para dar uma volta ali por perto.120 estado em um motel antes.um Super 8 e um motel térreo chamado Shy View.

De magia antiga e maldições. Exceto por agora estar sozinha. logo pegaria no sono. .Tudo bem . Tudo bem? . tocando coisas e explorando. porque só suspirou e passou um braço em torno de Chub.respondi com um suspiro. E eu não queria ficar só. tudo fervia dentro de mim. que estava sentado imóvel ao lado da porta. Ele não tinha um cheiro muito bom. . Percebi. sinal de que ele dormia.Estou programando o despertador. Não valia a pena discutir com ela. coisas extraídas de um conto de fadas distorcido.Hora de cochilar .disse. olhando para ela. .Vem cá. que se aconchegou em seu peito. Hailey. Pensei nas aulas de ciência que nunca mais freqüentaria. de segredos sombrios.ele repetiu. precisamos dormir. . ela estava certa. garoto .Venha aqui . Eu o abracei e puxei para mais perto de mim. e ele pulou sobre a cama. para minha surpresa. eu estava feliz. Ainda teremos muito tempo para fazer o que é necessário. E depois encontrarmos um lugar onde possamos ficar seguras.Ela pegou o celular na bolsa e pressionou as teclas. e ele se levantou e trotou na minha direção. . Tentei não sentir ciúmes.Falando sério. afinal. mas. Seguras de coisas que até hoje eu nem sabia que existiam. E apesar de me sentir agitada agora. que sentia falta de algumas coisas de minha antiga vida. Olhei para Rascal. mesmo.chamei. e eu temia que elas me dominassem se eu ficasse sozinha com meus pensamentos. Os medos. Um cientista. um homem que queria me usar como sujeito de um experimento. pelo menos. vamos dormir por umas duas horas. . ele se deitou com Prairie. . Prairie sentou-se em uma das camas ao lado das compras e massageou as têmporas com a ponta dos dedos. E eu sabia que.121 E podermos voltar a Chicago. Na outra extremidade do espectro. era . Chub se movia pelo quarto. Menos de um minuto mais tarde ouvi a respiração profunda de Chub. a ansiedade.Hora de cochilar. Ela devia estar quase dormindo.Sobe . E de maneira geral. ficar feliz por Chub se sentir tão confortável com Prairie quanto eu me sentia. . em vez de se acomodar na outra cama. Ele encontrou o telefone e apertou todos os botões. provavelmente.eu disse para Chub.

Estava preocupada por ele ainda não ter voltado ao normal. mas esse não era o momento de ficar obcecada com isso. O telefone celular de Prairie brilhava sobre o criado-mudo. o quarto ficou tão escuro quanto se fosse meia-noite. e com as pesadas cortinas fechadas. Apaguei a luz. um ventilador fazendo circular o ar com aquele cheiro estranho.122 uma combinação de cachorro molhado e alguma outra coisa. Havia um som constante vindo do teto. . mas o próximo dado registrado por meus sentidos foi o despertador de Prairie. era melhor que nada. Eu tinha certeza de que não ia conseguir dormir com tantas coisas ocupando meus pensamentos. algo que eu não conhecia. ainda assim. Mas.

Ela reuniu suas compras.Ei. Quando saí debaixo das cobertas. se ele ainda não apareceu. castanho.. olá. mas acho melhor pintar seu cabelo primeiro.Sei que uma ducha seria ótima agora. está? Então. Na outra cama.Nada em especial. à luz da lâmpada que ela acendera.123 Capítulo 15 Rascal estava encolhido ao meu lado..ela disse animada. com luzes naturais. reto. . Pelo que sabemos. . Quero dizer. minha boca estava seca como o deserto. . esfregando os olhos e bocejando. bebi dois copos de água da torneira e lavei o rosto. além de acreditar que conseguimos despistar Rattler. Meu cabelo era a única coisa que eu tinha e sabia . notei que as sombras escuras haviam quase desaparecido de sob seus olhos. . O sono a reanimara. Passei a mão pelo meu cabelo. Você vai precisar enxaguar a tinta depois do tempo de pausa. e nem se incomodou com o apito repetitivo do celular.Acha que funcionou? Todas essas voltas com o carro.. Prairie havia se levantado e enfileirado as compras sobre sua cama.Por que está tão feliz? . Prairie se sentou e desligou o telefone. Eu sabia que algumas pessoas pagavam caro por uma cor como a do meu cabelo. . ele pode estar em um ônibus a caminho do Texas.eu concordei finalmente. Era liso.Ele não está aqui. Fui ao banheiro. acho que estamos indo bem.. .Tudo bem . raio de sol. então é melhor esperar para tomar banho. suponho que ele tenha sido despistado por uma de nossas outras paradas. Quando voltei.

Bem. no início. eu saberia superar. Eu sentia o calor de sua pele. . você estava. Enquanto ela misturava a tinta. Olhei para Chub. . Ela parou.. E depois. está bem? Eu me sentei na cadeira e senti as mãos dela no meu cabelo. O cheiro era horrível e meu couro cabeludo ardia. Prairie parou. . Bem. O primeiro corte deixou minha cabeça estranhamente leve.124 ser especial.perguntei. vou dar forma a ele..Do que você gostava nele? . . e eu fechei os olhos e tentei relaxar. começando pela raiz e puxando para as pontas. se não fosse importante. Mas é surpreendente como você consegue se convencer de coisas absurdas quando está em negação. .Que cor? . abrindo no chão o lençol que tirou de sua cama. no fundo. Eu não conseguia imaginar aquela tonalidade em mim. Mas se o que estava em jogo era nossa segurança. O cabelo dele era claro.. . .Pensei em tentarmos reproduzir o tom do cabelo de Chub. por isso perguntei a Prairie algo em que estava pensando. quase branco. eu achava que ele era gostoso. . Vamos criar a impressão de que você e ele são irmãos. para começar. com reflexos dourados. quando terminar a coloração. eu sabia que havia algo de errado. eu despi a camisa de flanela e fiquei apenas com o tom que usava por baixo dela.Dormindo com ele. pensei. que se virava e suspirava enrolado nas cobertas. você sabe.Vamos ter que cortar.Como não sabia que Bryce não era quem você pensava? Quero dizer. .Vamos tirar um pouco do comprimento.Quero dizer. Um pouco da tinta escorreu para a minha sobrancelha.Prairie acrescentou com tom de quem se desculpa. . mas não disse. Não queria pensar nos meus cabelos caindo no chão. também . vamos começar a coloração. espalhando pelo quarto um cheiro forte. Eu não pediria. Ela foi espalhando a tinta sobre meu cabelo.. as mãos bem perto do meu rosto. .Prairie avisou.Acho que. Ela fez um rabo de cavalo e torceu.Primeiro vamos cortar . Ela colocou a cadeira no centro do lençol.

não exatamente . Ele não era um geek. distribuindo a tinta de maneira uniforme por minha cabeça. . mas é naturalmente atlético no porte físico. e lá eu também não vivia cercada por gênios. acho que podemos dizer que ele era um pouco compulsivo com relação à ginástica. As mãos dela no meu cabelo eram confiantes e eficientes. Eu freqüentei uma faculdade pequena. mas ele não me parecia tão especial assim.Bem. Um castanho médio.mas sua mente tinha sempre alguma coisa a mais. não sei.Castanho. eu acho.Acho que parte da atração estava no fato de eu nunca ter conhecido ninguém como ele antes.. ou diz que tem. Ele gosta de roupas caras. Mesmo quando trabalhava nos laboratórios. Eu pensei nisso. E ele se veste bem muito bem. . fiz aulas no curso noturno. você sabe. para dizer a verdade... O sujeito mais inteligente no Gypsum High era Mac Blair. . Não como Bryce. . normalmente um fato aleatório que ele encontrara na internet..Ele era.bem. Ele tem estatura mediana. bonito.Como isso fez você gostar dele? Prairie não respondeu por um instante. A descrição soava interessante. qualquer coisa que fosse possível para conseguir os créditos necessários para me formar..O que mais? ..125 Limpei tinta da minha testa. ele é muito inteligente. E sempre se exercitou muito. mas eu jamais pensaria em dizer que ele era gostoso.. Ele tem um doutorado. definida. pelo menos.Mas também era.Em que sentido? . com uma aparência limpa. você sabe como são as coisas no colégio. . a maioria dos homens que conheci não estava contente por estar onde estava não se comprometia com o trabalho. Acho que essa era a característica mais importante. braços fortes.Cabelo claro ou escuro? . Na verdade. E olhos castanhos. A maioria dos caras que eu conhecia . . Ninguém tinha sequer curiosidade para saber como era o mundo fora de Gypsum.. eu queria muito fazer alguma coisa com meu dom. . embora agora eu não sabia mais se ele disse alguma verdade no meio de tantas mentiras. Ombros largos.

Eram pessoas de seu círculo mais próximo. Quero dizer. Mas era fácil demais depositar minha fé em Bryce. . elas não se perguntavam o que ele estava pesquisando? . talvez os tenha feito assinar todo tipo de documentos de desligamento. e quando não estavam reunidas com Bryce.. sim. ou tomava café.Não. E não acredito que ele confiasse realmente em Bryce. mais dinheiro.ela sorriu ao lembrar. Acho que foi um pouco de sede de poder..Sim. . Ele saiu de lá há poucas semanas. E Bryce me deu a impressão de que podia fazer isso acontecer.. . Seu nome era Paul.Ele era um hilário. Com essa história e todos os recursos de que dispunha.Bryce deu muito dinheiro a eles. quando penso nisso agora. Eu tinha um amigo. e ele era técnico no laboratório. Ele fez para mim um backup de alguns sistemas de segurança sem contar nada a Bryce. inclusive algumas de outras partes do mundo. ele me fez pensar que as coisas com que eu sonhava eram possíveis. sim. coisas desse tipo? .. Há cerca de seis meses. agora entendo que vi o que queria ver e acreditei no que queria acreditar.Não ficou zangada quando Bryce o demitiu? O sorriso de Prairie tremeu..Bem. Acho que Bryce teve dificuldades para encontrar alguém capaz de fazer o que Paul fazia. se estavam mais próximas dos dados. porque ele era um gênio na segurança de computadores. não exatamente. e participavam daquilo. . sabe? . por isso não mantive contato com os que foram demitidos. Acreditei que elas poderiam acontecer na minha vida. Quero dizer. aquele homem incrivelmente bem-sucedido . não sem ser pego. . se estivesse com Bryce. Ele não pode fazer tudo sozinho. ou qualquer coisa. Acho que elas sabiam exatamente o que estava acontecendo.E as pessoas que ele demitiu? Não ficaram zangadas? Não desconfiaram do que ele estava fazendo? .126 Queria ser importante. . Bryce começou a substituir vários empregados que trabalhavam no laboratório havia muito tempo.Mas e as outras pessoas? As pessoas com quem você trabalhava? Ninguém desconfiou dele? Quero dizer. um rapaz brilhante que me fazia rir muito. porque ele era a única pessoa além de Bryce que almoçava comigo. . não se relacionavam com os outros. Ele contratou pessoas de muitas regiões do país. ele poderia abrir portas para você? Conseguir um emprego melhor. elas se mantinham distantes..e me deixei cegar pelo fato de ele me desejar. acho que sim. E muitas pessoas sabiam desse meu relacionamento com Bryce e se mantinham distantes.Pensou que. eu fico muito zangada.

Acha que ele vai simplesmente deixar você entrar lá e. Ele sempre corava quando conversávamos. Quando terminou de espalhar a tinta sobre minha cabeça. eu me perguntava se algum dia teria um namorado e. . Assim que fizermos essa última coisinha.Nunca pensou em namorar Paul? .Nós vamos. . se tivesse se escolheria alguém bom. mas você sabe.Prairie me interrompeu com delicadeza. porque foi ele quem me fez guardar um crachá extra quando mudaram todas as senhas do laboratório.Eu tentava manter minha voz livre da histeria. Ele era mais baixo que eu. mas era bom sermos amigos.Precisamos só focar no momento.Talvez. mas Prairie cometera um engano quando se envolvera com ele. Prairie riu..Porque agora eu posso voltar ao laboratório..Não comece a se agitar . Eu gostava muito dele. A conhecida ansiedade se instalou no meu estômago. no. Prometo. Bryce não era Banido... Éramos atraídas por pessoas como nós. .. se ele pedisse.. .. iremos para bem . Sendo Banidas..Por que isso foi bom? Prairie não disse nada por um minuto.Por isso estamos a caminho de Chicago? Não podemos ir para outro lugar qualquer? Algum lugar onde ele não possa nos encontrar? . estudando atentamente a tinta sobre minha cabeça. talvez não tivéssemos o senso comum das outras pessoas. se você gosta disso. . talvez as coisas fossem diferentes.. o que ele está fazendo. a maioria dos homens eram desprezíveis. . então. meu gosto com relação aos homens.Ele nunca pediu. mas só conseguia pensar nos assassinos na nossa cozinha.Talvez ele fosse apaixonado por você. Acho que vou ter de trabalhar nisso.Como vai impedi-lo? . Não posso deixar Bryce prosseguir com. não que isso fosse importante. e tinha um rabo de cavalo. e até onde eu podia dizer. . Seus únicos hobbies eram paintball e jogos de computador. . Não vou desistir enquanto não destruir os dados. ele provavelmente teria sido um namorado melhor que Bryce. .. .127 disse que era para o caso de alguma coisa acontecer com ele. Não sei.

na verdade.Não sei até onde Bryce conseguiu ir. não sei. Eu me enxuguei e me enrolei na toalha. você e ele podem. e enquanto Prairie limpava tudo.e ele caía numa pesada linha reta terminando abaixo das minhas orelhas.minha aparência era o último dos meus problemas. Relaxe um pouco enquanto esperamos a tinta agir no seu cabelo. Era preta com mangas cinza. Depois limpei o espelho embaçado para conseguir enxergar meu reflexo. ou alguma coisa. Pior. Vá em frente. Despi-me no banheiro e entrei no banho. parada sob o chuveiro com a cabeça inclinada para trás. Passei muito tempo lavando o cabelo. nenhuma de nós estará segura enquanto Bryce continuar agindo.não sabia quanto você calça. E melhor. mas mantenha os sapatos . Fiquei assistindo ao Bob Esponja com Chub enquanto esperava a hora de remover a tinta. Nem no jeans. porque por fim acreditava que Prairie não me abandonaria.Mas não podemos esperar um pouco? Deixar as coisas se acalmarem? Você pode procurar seu amigo Paul e pedir ajuda..Receio que seja ainda mais perigoso esperar .disse Prairie. você precisa tentar não se preocupar com isso agora. e as pessoas não vão reparar nos seus pés. Mas eu desviei os olhos do espelho enquanto me vestia. e quando for seguro. e na frente havia uma estampa de um crânio prateado com um sorriso sinistro.128 longe e recomeçaremos nossa vida. me sentia ao mesmo tempo pior e melhor. mas tentei não pensar nisso. de verdade. Mas Hailey. e estávamos voltando para lá. um tom pálido de dourado. deixando a água tão quente quanto podia suportar. Meu cabelo estava muito claro. é só a blusa. . Quase toda cor havia desaparecido . Eu desdobrei a camisa. .Tem uma blusa nova ali. Eles estavam muito perto de algumas descobertas fundamentais. Fiquei chocada. removendo toda tinta. Mas Hailey.. Então. Meu cabelo formava pilhas brilhantes sobre o lençol que ela estendera no chão. . No quarto. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu engoli em seco. porque agora entendia qual era o principal motivo de Bryce. voltar ao laboratório. Era ridículo . Quando finalmente saí do banho. Prairie apontou para as sacolas do Wall-Mart. . . com chamas saindo pelas laterais.

Eu sei que você odiou . o que foi? Toquei meu cabelo curto.Gostei muito.Se serve de conforto. como sua mãe. Quando ele voltou a brincar com a girafa.. ajeitando o cabelo de um jeito e de outro. depois pus minha velha calça jeans e a blusa nova. Mais algumas repicadas. e eu vi meu cabelo caindo no chão enquanto ela trabalhava.Tudo bem. .. usando o secador por alguns minutos. virado logo abaixo do queixo. e o novo corte dava a ela uma forma mais leve. e um anel de prata com uma caveira. . Quero dizer. Encontrei roupas íntimas e meias em outra sacola e as vesti.. parecia ter me notado de repente. espero que você também goste.. Achei que podíamos criar um visual de roqueira para você. limpo e químico. . Ela empunhou a tesoura para repicar os fios.ela disse quando terminou. Hailey.Desculpe. pode deixar o cabelo crescer de novo. Chub. .. um .Chub. A voz dela falhou e eu me virei. em parte para dar a ela um pouco de privacidade. escolhi essa blusa porque achei que ela era exatamente o oposto do seu estilo... em parte porque tinha um pouco de vergonha de trocar de roupa na frente dela.. Finalmente.disse. Seco. você é linda. é só uma cor diferente. ..Oh. Acho que combina com você. calça de algodão e blusa de moletom. Prairie dedicou toda sua atenção a mim. . .Hay-ee? . . não é tão ruim .Gostaria de ter algum produto . Ela também tinha uma algema de couro com fechos e rebites.É. . .Cabelo. Fui ao banheiro e olhei para o espelho. e ela era tão justa que tive de puxar as mangas para fazê-las subir por meus braços.. bem. meu cabelo era de um loiro platinado brilhante.disse Prairie com um sorriso que parecia autêntico.. Prairie recuou para estudar o resultado. .ela procurou dentro da sacola e tirou dela um par de brincos que lembravam pedaços de uma corrente de bicicleta. Arranquei as etiquetas e as joguei no cesto de lixo. e ela foi buscar o secador de cabelo que o motel mantinha no banheiro. mas. De verdade.. que até então tentava enfiar a girafa dentro da fronha de um travesseiro.Tenho aqui esses. .disse Prairie.Muito bom .129 . Quero dizer. Chub gostou de suas roupas novas. Havia nela aquele cheiro de Wal-Mart.menti. . É legal.

Prairie pegou as sacolas plásticas e as enfiou na bolsa.Onde estão os homens maus. uma mochila rosa clara com as etiquetas ainda penduradas.Homens maus . Chub se levantou de um salto do chão onde estivera sentado. não demonstrava. Enfiei nossas coisas na mochila. Algumas mechas formavam uma franja leve sobre minha testa. Ela o abraçou e se levantou. Hailey pode pegar minha bolsa? Acho que a deixei no banheiro. Prairie se abaixou ao lado dele.ele murmurou. . nossas roupas sujas e as compras feitas no Wal-Mart. . brincando com sua girafa.Acho que vou me deitar um pouco. . Chub? . pegando a bolsa de cima da cama e retirando dela uma pequena lata preta. Era incrível. .Pegue isto . com camadas sobrepostas que eu podia sentir com a ponta dos dedos. . sem emitir nenhum som. .capturei o pensamento e o retive por um segundo .. . .parecia alguém que integrava uma banda. Por um segundo desejei poder voltar à escola só pelo tempo necessário para todos me verem.130 pouco mais curto na parte de trás.Pegue tudo e ponha ai dentro.ela sussurrou. .ela falou em voz alta. Eu parecia ..Qual é a. Se Prairie estava surpresa. Antes que eu pudesse responder. Melhor que qualquer coisa que eu poderia ter feito em Gypsum .eu soube disso imediatamente.Com essas previsões? .ela sussurrou. .Feliz com o novo visual? . apontando para a porta. até ontem.Prairie me perguntou sorrindo quando voltei ao banheiro. Nunca havia ido ao banheiro sozinho. bem.Lá fora. apontando para as últimas compras.ela me disse movendo os lábios. Depois pressionou o rosto contra minhas pernas e as abraçou. a precisão dele? .Estou muito cansada . alguém que todos gostariam de ser.Essas o quê? Quero dizer. . ele começou a falar agora. Estão perto daqui? Chub assentiu o lábio inferior formando um bico.

. sem desviar os olhos da porta. Ela acionou um interruptor e mergulhou o quarto numa semi-escuridão. ela pediu silêncio. Segurei a mão de Chub e o levei comigo.131 Ela balançava a cabeça enquanto falava. Com um dedo sobre os lábios. e depois agarrou o abajur sobre a mesa. segurando-o pela base. Eu senti meu coração disparar sob a blusa nova. apontando para a porta do lado oposto. eu a imitei. Prairie tateou a parede de um jeito frenético até encontrar o interruptor. Quando Prairie se abaixou na minha frente.

se abaixando. Um cheiro horrível nos seguiu. . mas Prairie me empurrou com força para o carro. eu pulei.Vai! . e havia . garoto! Ele trotou para fora do quarto. Pedaços de madeira voaram sobre mim e Chub. O sol fora do quarto era tão brilhante que me ofuscou por um momento. e depois mudou de faixa duas ou três vezes. Houve um baque e um homem saltou para dentro do quarto. Ela entrou no fluxo do tráfego. Os pneus cantaram quando ela virou o volante e partiu na direção da saída do estacionamento. Voltamos rapidamente para a rampa de acesso à estrada.Vem. Eu não esperei para ver se ele estava ferido. . e quando estávamos do lado de fora enchi os pulmões com ar fresco. Um casal que andava pelo estacionamento saiu do caminho correndo. o homem gritando e nos mostrando o dedo do meio. eu senti minha garganta fechando e comecei a tossir. com Prairie logo atrás de nós. aparentemente despreocupado.Prairie gritou. Peguei Chub e saí correndo pela porta. mas Prairie nem prestou atenção. Ela empurrou a mesa contra a cabeça do invasor. Prairie pegou as chaves e destravou as portas do carro no instante em que estendi a mão para a maçaneta.132 Capítulo 16 Quando a porta se abriu com um estrondo.Eu gritei. apenas o coloquei no banco traseiro com Rascal e pulei no assento do passageiro ao lado de Prairie. manobrando o Buick entre um carro compacto que seguia em alta velocidade e um caminhão muito lento cheio de regadores de grama. Não me incomodei em tentar acomodar Chub. fazendo um retorno em U em um farol amarelo. Ela já engatava a ré para sair da vaga. .Rascal! . Eu só havia inalado um pouco do spray de pimenta ou o que quer que fosse.

Não pode ter sido. . agora ele acrescentava palavras novas ao seu vocabulário mais depressa do que eu conseguia acompanhar. Chub. Além de tudo.Minha vez . um som constante de conversas baixas.Muito bem. Traga a mochila. essa é sua cadeira especial. indo para a direita e passando na frente de um carro que ia mais devagar. . tirando da bolsa uma sacola do WalMart.133 conseguido limpar a garganta e voltar a respirar normalmente..Não acredito que tenham posto um rastreador no carro .A menos que tenha sido enquanto estávamos no hotel. grupos de duas ou três pessoas nas mesas.eu sentia a urgência em minhas entranhas.Eles nos encontraram . Mas não. mas ninguém estava prestando atenção. E era grande demais para o corpo magro de Prairie. eles devem ter ido atrás de nós assim que nos descobriram.disse Prairie. deixando Rascal no carro. De repente ela mudou de faixa mais uma vez. Prairie foi direto para o banheiro e abriu a porta. . Eu agarrei Chub e a mochila. Era uma coisa feia.ela disse. . Bom menino. . Ela despiu a camiseta a vestiu um suéter que tirou da sacola.Continue em frente .Isso mesmo.Prairie repetiu.ele disse. Havia alguns clientes na fila.Os homens de Bryce nos encontraram . e a segui para o restaurante. olhei para trás. . Prairie saiu por uma rampa que terminava em um oásis de bombas de combustível e lojas de fast food. . um Wendy's. .eu disse.E não foi o carro. Então.ela disse. .É individual. sabia que devíamos colocar a maior distância possível entre nós e o homem que invadira nosso quarto de motel. Prairie trancou a porta. . e estacionou sem nenhum cuidado em uma vaga próxima da porta.O que está fazendo? ..Bom . Eu me senti estranha quando a segui. Cadeira . Entre. . Eu me debrucei no encosto e ajudei Chub a prender o cinto da cadeira de segurança. . Vamos.ela repetiu. Ela entrou no primeiro restaurante. marrom com bordado de folhas e abóboras.

Tudo bem. . afastando-os do rosto. me entregando a pequena nécessaire plástica de jóias e maquiagem que tirou da bolsa. .Hm. Fiz como ela dizia. Acho que era esse o objetivo. uma de cada vez. Ele não estava rindo.Aqui . Aquele rosto não era o meu.Ponha todas essas coisas. e depois me surpreendeu batendo com o punho fechado na minha perna. começando por esconder o hematoma roxo no meu rosto. Prairie havia passado blush e sombra nos olhos. várias camadas de máscara .respondi. . -Não aqui. Ela tirou da bolsa uma faixa larga e prendeu os cabelos. ela parecia uma dessas jovens mães levando os filhos para o futebol. eles estão aqui? No restaurante? No estacionamento? Chub balançou a cabeça. mas rir era bom. inclusive os brincos. mesmo. Depois passou batom. então? No motel? . Chub olhou para nós duas. esfregando a boca com a mão rechonchuda que mantinha fechada. .Chub. dando a impressão de que ia chorar.ela disse. e a observei pelo canto do olho enquanto trabalhava. Capriche no delineador. . Sombra roxa.Homens maus . Prairie ajoelhou-se diante dele. não é seu melhor visual. Prairie ergueu uma sobrancelha e nós duas rimos. fazendo o melhor possível para aplicá-la como havia praticado algumas vezes em casa por diversão. aliviava a tensão. .134 . Lá.recuei um passo e olhei para o espelho. exagerando a forma natural da boca. Prairie o . e faça a maquiagem. Com o suéter e a faixa nos cabelo.Uau você . querido. delineador escuro.disse Prairie. Muito.Uau . Estávamos muito encrencadas. Eu me concentrei na minha maquiagem.ele disse novamente.

Ela afagou suas costas e murmurou palavras doces até o menino se acalmar. O telefone celular e duas canetas. E alguns minutos mais tarde eu ouvia um carro se aproximando e parando na entrada de casa. . Podiam ver o futuro. que ela abriu movendo o zíper e de onde tirou um batom. Eu me sentia estranha olhando para os dois. e da noite para o dia. A pessoa que me amava por quem eu era. . Chub podia ver o futuro. Hailey. Uma carteira preta e quadrada. ela havia dito sobre os Banidos...eu tinha certeza de que não havia registros de outras crianças aprendendo a falar e usar o banheiro sozinhas.135 abraçou e ele se deixou envolver por seus braços. uma escova e um pó compacto. Tentei processar o que ela disse: é claro. e enquanto isso Prairie virou a bolsa sobre a bancada da pia. deixava de lado o livro ou brinquedo e vinha abraçar minhas pernas. segurando-as com força. Eu não tinha certeza de que queria dividi-lo. definitivamente . soube que Chub ainda era meu. além de tudo. Prairie me calou com essa declaração. Chub sempre tivera a mim . o grito de . Um estojo de couro preto e pequeno. Não era muito: um molho de chaves numa argola simples de metal. Mas Prairie queria que eu acreditasse que. Uma idéia começava a se formar na minha cabeça. Nos dias que os clientes de vovó iam nos visitar. Meu irmãozinho se era assim que seria.Ele é um Vidente.só a mim.Por quê? Por causa do que Chub falou? . Chub havia progredido muito nos últimos dias. Terminei de secar seu rosto. Ainda.. espalhando tudo que havia dentro dela. Fechei os olhos e tentei focá-la. Mas ele se virou para mim e abraçou minhas pernas com força.Eles estão nos rastreando de alguma maneira . para se proteger dos inimigos . Todos os homens tinham o dom da visão.. Alguma coisa importante estava acontecendo com ele. enterrando o rosto em seu ombro. o que ele sempre fazia quando estava com medo ou perturbado. muitas vezes Chub parava o que estava fazendo. Enquanto umedecia um pedaço de papel toalha para limpar seu rosto marcado pelas lágrimas.Prairie disse em voz baixa. o barulho das portas.Pelo menos eles não nos seguiram do hotel até aqui. .

Ou em mim. acha que posso ser estilista de . Talvez Chub fosse um Vidente. mas.eu disse.Passei por cima do meu telefone celular. No estacionamento.Prairie disse . e jogou a bolsa na lata de lixo.. por tudo. Ainda não havia feito nada que não se pudesse aprender assistindo à televisão.primeiro com as crianças que me pregavam peças quando eu era pequena. Vamos embora .acho que temos de assumir que a coisa usada para nos rastrear.136 algum fracassado meio perdido. .De qualquer maneira. a carteira de motorista e o dinheiro. ela retirou duas chaves do anel de metal e as colocou em outro bolso.É. . Ela era esperta. obrigada. . Havia momentos em que sentia o pânico me dominando e tinha de sufocá-lo com toda minha força de vontade.. pelas roupas. está aqui comigo. ela se curvou na frente do automóvel enquanto eu acomodava Chub na cadeira de segurança no banco de trás e levava Rascal para dar uma volta. mas manteve os olhos fixos na estrada. Depois. com as mãos bobas e os olhares famintos dos clientes . agora em velocidade normal. Em seguida. Então Prairie pegou de volta o telefone celular e me deu um empurrão delicado. Eu estava sempre vigilante . pior de tudo. Imaginei se isso seria resultado de ter crescido em constante estado de alerta. Pelo corte de cabelo. Ela abriu a carteira e tirou de lá o cartão de crédito. Eu estava me segurando. guardando tudo nos bolsos da calça jeans. .perguntei quando saímos do estacionamento e voltamos para a estrada. . ou com minha avó me batendo quando eu passava por ela.O que acabou de fazer? .disse.eu tinha de estar sempre um passo à frente. seja ela qual for. Ela sorriu. . eu estava impressionada.Acha que tenho algum futuro nisso? Sabe como é. mesmo assim.Prairie . ela colocou o anel com as chaves e todas as outras coisas que estavam sobre a bancada da pia dentro da bolsa. . ou. continuar cuidando de Chub. Mas havia conseguido fazer o que tinha de ser feito: acompanhar Prairie. Quem estiver nos rastreando através dele vai encontrar só uma pilha de destroços no chão do estacionamento do Wendy's. Talvez fosse verdade. E me entregou seu telefone celular.

e seu nome era Anna.Por que não podia ser simplesmente você mesma? Vovó jamais teria ido procurá-la. . Ela era polonesa. . .. também.de nada disso.. Vi em que as pessoas ali haviam se transformado.respondi. compulsão para entrar. um dia. saí para caminhar e acabei indo parar numa área da cidade que eu não conhecia.Lembra-se de quando falei que tive uma identidade falsa? -Sim. com esse visual. Pensei que poderia levar comigo o dom da Cura e deixar .Sim. cheguei ao meu limite com Alice. Ela conhecia um homem. além disso. na frente de um salão. quando eu trabalhava como garçonete. Depois de ter descoberto sobre Clover. . Ela me contratou. Depois que me formei consegui um emprego na área de pesquisa. Eu sabia que a história ia. Nós nos demos bem desde o primeiro instante. alguém que ajudava muitos imigrantes. Trabalhei ali enquanto estudava.Então . . O que aconteceu foi que.137 estrelas.Mas nunca deixei de me preocupar.Hm.Como aprendeu a cortar cabelo? . perdemos contato. Você mesma disse.O que está deixando de me contar? Ela mordeu o lábio. . e nós. e eu esperei.Pensei ter ouvido você dizer que foi garçonete. então entrei e conheci a proprietária.Trabalhei em um salão de beleza.Você parece pronta para uma reunião de pais e professores. . não queria mais saber de Gypsum . e aprendi o ofício. . Senti uma. porque Prairie escolhia as palavras com muito cuidado. apontando para o suéter que ela vestia. Anna me ajudou a ser uma nova pessoa.eu disse depois de um tempo. . ou coisa parecida? . Fiz as duas coisas.. Prairie riu e nós seguimos em frente por algum tempo num silêncio confortável.Foi Anna quem me ajudou a conseguir o documento. . não. acho que não . Não consegui resistir..

Há outros do vilarejo na Irlanda.Prairie me interrompeu. .Ela tinha uma nota emocionada na voz.. . seria novamente tragada por aquela vida. se algum dia eu voltasse.Anna também era uma Banida.. Os homens. Talvez só nós e aquela que foi para a Polônia... mas está agindo como se não tivesse livre arbítrio. preencheu as lacunas para mim.. e havia muito crime e violência.. há pessoas como nós por aí.Anna.a maneira como se sente atraída por eles? Senti meu rosto vermelho: era como se ela pudesse enxergar dentro de mim. . -O quê? .Todas como os Morries? .Isso foi ordenado.. .. .Quero dizer. . Mas os Banidos que foram com eles. me tornei uma nova pessoa. Mas eu sabia que precisava me afastar de tudo aquilo.Prairie disse com aquela voz suave. Eu sabia um pouco dessa história por . muitos nem podiam mais ver o futuro. também odeio Gypsum.Não é só em Gypsum. Hailey. e mais uma vez me perguntei por que elas haviam perdido o contato. Nosso grupo foi para a Polônia. Vi como eles tratavam as mulheres e soube que. Então. mas havia mais dor que humor em sua risada. . .Os Banidos são ligados . . . não sei quantas.. Eles viveram lá por duzentos anos antes da fome chegar e ameaçar dizimá-los. ou mais algumas poucas. pessoas como eu no mundo todo? .. sim.E ela contou tudo isso? .. clientes da vovó. as visões deles se tomaram turvas. Mas.perguntei.Bem.Por quê? .. Eu a amava. Anna não é como eles. Anna é. e depois riu..Não exatamente.. Por um momento ela não disse nada.138 todo o resto para trás. exatamente. Havia apenas algumas poucas famílias de Curadores originais.Então há. depois que a mãe dela morreu.Não viu isso? Não sentiu? Os Morries . Quando completou dezoito anos. Anna veio para os Estados Unidos há anos.Não é sua culpa . .

me sentia desolada. acho que Anna fez o que tinha de fazer .Não. porque . Quando os Banidos deixaram a Irlanda. . começaram a vagar. As pessoas podem se convencer com grande facilidade sabe. . Alguém entrava no salão. é uma sensação.139 intermédio de minha avó. exatamente. eles se casaram com pessoas de fora do grupo.. mas Anna me mostrou.Ela encontrou você. alguém com sangue Banido.. Não com muita freqüência. pode haver certo déjà vu. e é quase sempre algo fraco nelas. Os que foram para a Polônia mantiveram a história mais viva. . . ou se os Curadores emigraram para algum outro lugar. ela soube. Uma estrela dourada para ela. Os homens perderam a visão. Anna é puro sangue. ou não ver. Hailey.Então. Era muito para absorver. Em um homem. acho que podemos dizer. Mas agora..Não é difícil. a vê-la.Ela deu de ombros. E como aconteceu com os que vieram para Gypsum. quando querem. Duas Banidas puro sangue em uma cidade do tamanho de Chicago.Mas como ela sabia? Como podia dizer? . Eu aprendi depressa.Você vai aprender. . Por alguma razão..Não. como se às vezes as coisas acontecessem e eles já as houvessem vivido antes.. se ela morreu ou não. Não duas. se preservaram melhor. É da natureza humana. . .Anna era uma curadora? . aprenderam a reconhecer uns aos outros. Mas eles se convencem de que é tudo bobagem.Prairie explicou. Três. Hailey .Anna tem um filho. Resta muito pouco na linhagem sanguínea. . . o que quer dizer? .eu disse finalmente.Com o tempo a história se perde. Ela diz que ninguém sabe o que aconteceu com a linhagem dos Curadores na Polônia.Três. Por um tempo nenhuma de nós disse nada. Se Prairie percebia meu tom.. Quando me viu naquele primeiro dia em que entrei no salão. Vai ver tudo isso nas pessoas algumas vezes. . ou tratam tudo como coincidência. Normalmente nem eles mesmos sabem. Sentiu que eu era Banida.. ela não fez nenhum comentário. e ela me ajudava a reconhecer a pessoa..

Eu me sentei na cama. desorientada pelo ambiente desconhecido. Executei toda a ação de retirar Chub. O quarto de motel era quase uma cópia daquele do dia anterior. desmoronei ao lado de Chub e só acordei na manhã seguinte. eu não conseguia manter os olhos abertos. Dentro do quarto. mais novo e mais anônimo que o primeiro.140 Chicago… Capítulo 17 Anoitecia quando chegamos nos limites de Chicago. profundamente adormecido da cadeira de segurança enquanto Prairie cuidava do Rascal. a parte dos fundos voltada para uma avenida larga onde havia uma loja de carros do outro lado da rua. Eu nem perguntei onde estávamos. uma cidade que tinha um horizonte recortado por cintilantes fileiras de torres distantes se estendendo até onde a vista podia alcançar nas duas direções. maior. Devia ter cochilado por algum tempo. ela havia estacionado o carro nos fundos de outro motel. mas ao . Saímos da estrada por um trevo muito movimentado e com tráfego intenso. quando o sol já penetrava pelas frestas da janela. porque quando Prairie sacudiu meu braço com delicadeza para me acordar. de alta velocidade Apesar do breve cochilo no motel.

Se ele pudesse nos rastrear. Para ele não conseguir nos encontrar.. Prairie assentiu pensativa e bebeu seu café. .eu disse. seguindo diretamente para um restaurante de beira de estrada onde almoçamos. Era quase uma da tarde quando levamos Rascal para dar uma volta e colocamos as coisas no carro. com a televisão na parede oposta. . mas esquecera. ou se havia passado todo o tempo ao lado da janela. como se aquela fase da minha vida houvesse terminado. preocupada. assistindo televisão com o som bem baixo. esperando o velho caminhão aparecer na frente do motel. como se tudo houvesse ficado no passado.. enquanto me lavava e recolhia minhas coisas. e os acontecimentos dos últimos dias haviam perdido o brilho em minha cabeça. Sentia-me descansada e forte. Ele já nos teria encontrado a essa altura.141 contrário. Ele já estava vestido e seu cabelo com um novo tom de loiro agora espetado. Senti uma tênue esperança... . Chub sentou-se na beirada da cama balançando as pernas.Então. não suportava nem pensar nele.Bom dia Hailey. você fez. – acho que funcionou não é? O que. Ela não concluiu o pensamento. Prairie estava perto da janela agarrando a cortina entre as mãos. Tentei adivinhar se Prairie havia dormido. . como um filme ao qual eu havia assistido. mas eu sabia em que estava pensando. Quando a chamei pelo nome ela pulou. olhando para o estacionamento e Rascal estava sentado ao lado dela olhando para o nada. deixando apenas uma sombra pálida do horror daquela noite. – ela disse – Sente-se melhor hoje? Para minha surpresa eu estava melhor. Nunca ia esquecer as imagens do desastre na cozinha. se as visões pudessem levá-lo até nós. . terminando de comer minhas batatas. Meu apetite retornara e eu pedi hambúrguer e fritas e um copo grande de leite. A imagem de Rattler cravando a faca no homem de paletó preto passou como um raio por minha mente e sumiu. e as linhas de preocupação em torno de seus olhos se suavizaram. Rattler. de minha avó no chão – mas eu sentia. Não disse o nome dele. esperando que ele arrombasse a porta como os homens de Bryce haviam feito no dia anterior. Até Prairie comeu quase toda sua salada com frango.

. .Ela sabe que você está voltando? .Não. . Quase me desculpei. o que tenho de fazer esta noite. com pessoas de confiança. Eu tinha tantas perguntas! Ela disse nós.. Bryce já mudou o código para me impedir de entrar. um cartão eletrônico com um código que tranca e destranca as portas. .Como vai conseguir? . Prairie assentiu. mas estaria se referindo a nós três? E eu não tinha a menor idéia do que significava “seguir adiante”. . Quanto mais rápido eu entrar e sair.Eu.perguntei. Ela não olhava pra mim. É um crachá. Mas tenho uma chave mestra na casa de uma amiga.. . Eu podia dizer que ela estava tentando decidir o quanto devia me contar. por isso posso entrar sem problemas. . mas para fora pela janela. e tenho certeza de que. como viveríamos. a essa altura.Não tem uma chave com você? Prairie empurrou a salada pelo prato sem me encarar. A primeira coisa a fazer é entrar no laboratório. É muito perigoso voltar á minha casa. . que pudesse alertar alguém.. melhor..142 Eu me sentia culpada porque havia desmoronado e dormido como uma pedra. como se escolhesse as palavras com cuidado.Essa é uma chave especial Hailey.eu disse esperançosa.. Com um pouco de sorte vou conseguir concluir. deixando para ela toda a obrigação de vigiar e toda a preocupação.O que você precisa concluir esta noite? . mas mantenho cópias extras nas casas vizinhas.Mmm. ou para onde iríamos em seguida. E para isso eu preciso da minha cópia da chave. tenho algumas idéias.Preciso destruir a pesquisa de Bryce.Então ele deve ter ficado em Gypsum .. Tenho a chave da casa dela.Achei que seria melhor se não telefonássemos ou fizéssemos alguma coisa. mas não consegui encontrar as palavras. . . então poderemos seguir adiante. – Prairie hesitou e mordeu o lábio. Finalmente ela olhou pra mim e fez uma pausa.

. por isso passamos a tarde em um parque onde Chub brincou nos balanços e escorregadores e cavou buracos e túneis em uma caixa de areia. ainda. Mas depois disso. Ela queria esperar anoitecer para ir a tal casa da vizinha. Não ia desistir. ou Rattler. ameaças que até alguns dias atrás nunca haviam existido pra mim.Por favor. . . discutiria se fosse necessário. . Ela agora dissera eu..ela concordou finalmente. Eu podia observar e dar o alerta se os homens de Bryce aparecessem. a luz do sol poente refletida nas janelas de todos os edifícios muito altos. usando uma pazinha de plástico que alguém deixara para trás. . Prairie nos levou de carro até o Norte da cidade. .... Mas ela não podia nos deixar agora.Pode vir comigo á casa de Penny.. . . quando chegarmos ao laboratório eu entro sozinha. . dando a impressão de que a cidade era feita de ouro e espelhos.143 Eu.. Eu não a deixaria.. Podemos esperar no carro. e eu deixei sair o ar que nem percebera estar retendo nos pulmões.. se. pânico de ser deixada sozinha.Vou com você. Não nós.Tudo bem.anunciei apressada.Acho que não. minha voz mais ríspida do que eu pretendia. ou quaisquer outras ameaças com as quais eu nunca imaginara ter que me preocupar. e eu era grata por isso. vai ser melhor assim. O pânico começou a se formar no meu peito. Tentei convencer Rascal a correr atrás de um graveto. mas que agora mudavam todo o curso da minha vida. podemos observar se. No final da tarde. Um passo de cada vez. de minha avó e de Rattler. Ela estacionou ao lado do lago e nós percorremos a pé uma trilha de terra onde podíamos ver Chicago ao sul. Vamos todos juntos. Não tinha escolha. mas ele apenas caminhava do meu lado e se sentava sempre que eu parava. o subúrbio onde ficavam seu apartamento e o laboratório. de ter que defender Chub contra qualquer ameaça que surgisse. Não terminei a frase.. mas imaginei que Prairie sabia o que eu queria dizer. para Evaston. Eu argumentaria com Prairie. Ela me salvara de Bryce. Eu não ia discutir essa decisão.

Não vai fugir. e eu esperava que ali estivéssemos escondidos de quem quer que olhe pelas janelas dos quartos.Essa é a casa de Penny?. Havia carros parados dos dois lados da rua.Sim eu sei.sussurrei. soluços curtos abafados pela minha calça jeans. Havíamos parado sob os galhos baixos de um salgueiro que começava a se encher de folhas para a primavera.144 Chub estava mais interessado em jogar pedras da margem rochosa do que em olhar para a cidade. . Eu tropecei em uma mangueira que havia sido deixada enrolada na entrada da garagem. com o rosto apertado contra minhas pernas. . Prairie tocou meu braço e apontou uma casa pequena no fundo de um terreno. . resmungando e esfregando os olhos. Quando chegarmos a casa de Penny ele pode entrar conosco.. Tivemos de silenciar Chub várias vezes. vamos ter que ir sem ela mesmo. . Finalmente era quase noite. .Prairie comentou. . Afaguei a mão de Chub e ele se apoiou em mim. mas aqui há leis que obrigam o uso de coleiras. Deixamos a rua comercial e entramos em uma zona residencial. mas um pequeno Acura vermelho saiu exatamente quando estávamos passando. Prairie andava depressa. ele estava cansado.Queria ter uma coleira para Rascal. mas eu não conseguia desviar os olhos do horizonte e do sol descendo lentamente para o azul do escuro lago. um espaço dominado por uma construção maior de frente para a rua. Ela adora cachorros. e ela atravessou uma rua larga para entrar em uma alameda que passava por trás de uma fileira de casas. bem . correndo em silêncio para atravessar um cruzamento mais movimentado.. Foram necessários vários minutos de manobras cuidadosas até Prairie conseguir enfiar o grande carro do Ellis na vaga apertada. mas ela parecia satisfeita quando por fim desligou o motor.Ele vai ficar perto de nós. Ele estava tão exausto que começou a chorar em silêncio. não dormira de tarde e cambaleava de um lado para o outro. Prairie dirigiu por um tempo antes de escolher uma vaga para estacionar o carro em uma tranqüila rua transversal perto de um beco. Descemos a rua por alguns quarteirões.

segurando seu corpo agitado com mais força. os pés estendidos pra frente num ângulo estranho. Só quando ouvi o clique abafado da porta se abrindo eu percebi que estivera prendendo o ar.. Houve um clique suave quando os dedos dela encontraram o interruptor de luz. . Por um segundo pensei que ela estivesse dormindo. Rascal me seguiu. a razão ficou evidente. um de seus chinelos de cetim virado ao contrário no piso de madeira. Seu crânio havia sido esmagado.nunca sabia o que encontraria ao voltar para casa. mas ela não vai se incomodar se eu entrar sem avisar. uma luminosidade pálida que entrava pela porta atrás de nós. esperando.145 . e quando dei um passo na direção dela. . Alguns passos na nossa frente. Todas as coisas com que eu me preocupava em Gypsum agora pareciam meio estúpidas – crianças debochando de mim. . Mas isso era diferente. Prairie não parecia tão confiante quanto sua voz podia sugerir. Então notei a mancha escura que começava em seu pescoço e descia pelo tecido do roupão. Ela pegou as chaves que guardara no bolso da calça jeans. uma mulher idosa vestindo roupão cor de rosa de tecido acolchoado estava sentada em uma poltrona estofada. molhamos as plantas uma da outra quando viajamos esse tipo de coisa. o que? Um tiro? Em Gypsum eu vivia sempre tensa .Acho que ela foi dormir cedo.Prairie estava dizendo enquanto dava um passo para o lado. me deixando entrar no hall escuro da casa. Eu peguei Chub quando ela girou a chave na fechadura. Ela deslizou a mão pela parede cujo contorno eu mal conseguia enxergar à luz da lua. quem eu encontraria desmoronando sobre a mesa da cozinha. ou o mau humor da minha avó ou Dun Acey tentando apalpar meu traseiro quando eu passava por ele.. e a sala foi invadida pela claridade suave de um abajur sobre a mesa baixa. Ele ficou tenso em meus braços e eu o acalmei. Não quero bater na porta porque ela vai acender a luz da varanda.Sim. Temos uma espécie de acordo.

Quando ele havia chorado momentos antes. deixando ver um homem sentado confortavelmente em um sofá de estampa floral. um braço sobre o encosto. Eu cambaleei para o lado.146 Capítulo 18 Prairie emitiu um som ao meu lado. Olhei para baixo tentando ver em que havia tropeçado: uma frigideira velha e preta com cabo de madeira. ele sabia que alguma coisa ruim havia acontecido dentro da casa. mas consegui me manter em pé. Todos os esforços para despistá-lo . um grito estrangulado e interrompido. além desse pequeno detalhe. sob a sombra da barba por fazer. ele parecia normal.Rattler . e outra lâmpada se acendeu. entre as mechas de cabelo ensangüentado. mas..Bem-vinda ao lar . .uma voz profunda e rouca falou. . Havia um hematoma roxo em seu queixo. Meu coração pulou no peito. Vi que fragmentos do crânio esfacelado podiam ser vistos muito brancos sob a pele rasgada e manchada de sangue. Meu pé encontrou um obstáculo no chão e eu tropecei.Prairie disse com um tom furioso. . .O que você fez? . quase derrubando Chub. a voz embargada. e recuei um passo. .nada havia funcionado. o outro empunhando uma arma. Era Rattler Sikes.Acreditou mesmo que poderia me confundir com todos aqueles truques bobos? Deve ter esquecido que eu não costumo desistir. o homem riu em silêncio.Aposto que está surpresa por me ver. Empurrei o rosto de Chub contra o meu ombro.. protegendo-o da visão do corpo de uma mulher morta. Ele havia visto todos os movimentos que fizemos? Como se lesse meus pensamentos.

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- Antes de começar a procurar alguma coisa para jogar em mim, Pray-ree, é melhor considerar que tenho uma arma, e você tem um menino pequeno em sua companhia, uma criança inocente que não fez nada de mal a ninguém. - O jeito como Rattler havia pronunciado o nome dela sugeria deboche, como se ele o usasse para zombar de Prairie. - E eu tenho um dedo muito rápido, por isso é melhor não me deixar nervoso, ou ele pode sofrer um espasmo, e sei que nenhum de nós quer isso, certo? - Antes vai ter de atirar em mim. - Eu me virei de forma a colocar meu corpo entre Rattler e Chub. - Ei, espere aí - disse Rattler. - Não estou atirando em ninguém, ainda não. Não quer saber como vim encontrar sua amiga aqui, Pray-ree? E devo dizer que ela não foi muito hospitaleira. - Como teve coragem... - Ela me viu batendo na porta da sua casa, e se aproximou empunhando aquela enorme tesoura de jardineiro, fazendo todo tipo de pergunta inconveniente. E o jeito como ela olhava para mim me fez pensar que seria capaz de me matar com aquela tesoura de poda. Então, tive a idéia de esperar por você aqui, na casa dela. A janela é ótima para quem quer observar a estrada, e eu queria ver você voltando para casa. E agora veja isso, deve ser meu dia de sorte, porque você veio diretamente para cá, para mim. - Ela nunca fez mal a ninguém...

- Ei, tudo que pedi a ela foi para me deixar entrar, e sugeri que ela ficasse sentada quieta naquela poltrona enquanto esperávamos juntos por você. Não pretendia matá-la, nada disso. Mas depois eu pedi a ela para preparar um chá, e ela voltou com uma frigideira, furiosa e pronta para bater na minha cabeça com ela, mas não foi rápida o bastante. Enfim, as coisas não terminaram muito bem para ela, não é? Pensei em como a mulher devia ter ficado amedrontada quando Rattler invadira a casa dela. Ele parecia segurar a arma sem muita força, quase sem atenção, mas eu sabia que essa era uma impressão enganosa. Ele era capaz de acertar uma lata em cima do muro dos fundos da casa atirando do portão da frente da casa vizinha. Eu o observara da janela do meu quarto numa tarde de verão, quando ele e outros clientes de minha avó se revezavam numa espécie de disputa de tiro ao alvo. Os outros competidores acertavam a área em

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torno da lata ou erravam completamente o alvo, mas Rattler não perdeu um tiro. E agora ele olhava para Prairie com uma intensidade que poderia acender uma fogueira. E ela sustentava aquele olhar penetrante. Havia algo entre eles, sim, alguma coisa carregada de tensão e perigo - algo quase vivo. - Você me fez perder tempo, menina - ele disse em voz baixa, o que me fez ter certeza de que falava apenas com ela. Era como se eu nem estivesse ali. - Mas não pode me deter. Não quando estou atrás de você. Meu medo cresceu e se tornou algo novo, uma constatação de que Rattler não queria nos matar - ele queria algo pior. Era como se ele quisesse possuir Prairie, ser dono dela, e de repente percebi que eu tinha mais medo de Rattler Sikes e dos outros homens Banidos do que de qualquer assassino profissional que estivesse nos perseguindo. Tinha mais medo de Rattler do que de todos aqueles homens juntos. - Não devia ter vindo aqui - disse Prairie, mas havia um tremor na voz dela, e um horror evidente na maneira como ela recuou, afastando-se dele. Era como se a energia distorcida que o cercava a diminuísse. De repente Rattler riu, e o encanto se quebrou. - Agora vamos voltar a um patamar mais amistoso - ele disse com voz pastosa. - Sente-se, menina, acho que vai ficar bem confortável naquela cadeira. Temos que ter uma conversa antes de voltarmos todos à estrada. - Não vamos a lugar nenhum com você - Prairie respondeu. Mas Rattler só deu de ombros. - Vou levar vocês para casa, onde é seu lugar. Podem ir por bem, ou podem ir por mal. Vocês decidem. Hailey pegue o garoto e coloque-o para dormir em um dos quartos. E leve o vira-lata com vocês. Eu não precisei ouvir a ordem pela segunda vez. Atravessei a sala, evitando olhar para a mulher morta, certa de que Rascal me seguia. Queria que ele fosse um cão de guarda melhor - ele nem parecia se importar com como Rattler nos ameaçava. Meu coração batia tão depressa que eu tinha a impressão de que todos podiam ouvi-lo. No corredor, notei uma porta aberta com uma cama arrumada e coberta por uma colcha e uma pilha de travesseiros em fronhas bordadas. Enquanto deitei Chub na cama e tirei a mochila dos ombros, deixando-a no chão, tentei não pensar na mulher na sala, em sua cabeça aberta deixando vazar metade do conteúdo.

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- Gosto de como parece confortável nessa cadeira - ouvi Rattler dizer na sala. Você está com uma aparência muito boa, Prairie. Eu precisava fazer alguma coisa para detê-lo. Abri o zíper da mochila e a esvaziei no chão. Entreguei a girafa de pelúcia a Chub e vasculhei os outros objetos com desespero. - Hora de dormir? - ele perguntou bocejando. - Quero minha cama. Apesar do medo, notei que ele falava bem e pronunciava as palavras com clareza. Evidentemente, ele havia esquecido o próprio medo, ou estava apenas cansado demais para se importar. - Pode cochilar aqui por enquanto - eu disse, afastando as cobertas dos travesseiros. Ouvi Prairie murmurando alguma coisa na sala. - Tudo bem. Boa noite. - Chub se ajoelhou na cama para me abraçar e beijar o topo da minha cabeça. Depois, ele se deitou e começou a se ajeitar sob as cobertas, mas de repente se sentou, e uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas. - Não quero ver. - O que, meu bem? O que você não quer ver? - O olho do homem mau. Não quero ver. Meus nervos estavam em frangalhos, e precisei fazer um grande esforço para alisar os cabelos de Chub, afastá-los de sua testa e beijá-la com delicadeza antes de deitá-lo novamente. - Você não precisa. Vá dormir. - Tudo bem. Ele fechou os olhos, e os cílios longos lançaram sombras sobre suas faces macias. Na sala, Prairie e Rattler falavam em voz baixa, intensa. Não havia nada que eu pudesse usar apenas minhas roupas e as compras de Prairie. Olhei em volta analisando o que havia no quarto, mas tudo que vi foram fotos emolduradas, um jogo de pente e escova de prata, estátuas de porcelana, uma cesta com flores

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secas. Havia uma cômoda encostada a uma parede, e eu deslizei a mão pela superfície de madeira. - Não pode me dizer que esqueceu quanto nós nos divertíamos- Rattler estava dizendo, sua voz soando mais alta. - Você adorava nadar nua comigo e com os outros. - Eu nunca gostei daquilo - Prairie disparou. - Eu odiava. - Não é verdade. Você sabe que nós dois deveríamos estar juntos. Todo mundo sabia disso. -Não. Não . Abri a primeira gaveta da cômoda. Camisolas e combinações, todas dobradas sobre folhas de papel de seda. Tentei a segunda gaveta. Echarpes. Uma pilha macia de echarpes e lenços, pedaços de seda de todas as cores - lindas, mas só isso. O desânimo me dominava. - O problema é que você não fez o que devia fazer - Rattler prosseguiu. - Eu esperei, segui as regras da sua mãe, mesmo que você não as tenha seguido. Acha que eu não sabia sobre você e aquele garoto de Tipton? -Ele era... - Achou que era muito esperta se envolvendo com ele às escondidas? Pensou que ninguém ia perceber, só porque escondia o namoro da sua mãe? Bem, eu sabia. Eu sabia. A amargura na voz de Rattler me surpreendeu. Ele estava... com ciúmes? Seria possível? Enfiei a mão na gaveta e fui afastando os lenços e as echarpes, empurrando-os para os lados. Meus dedos tocaram algo duro e afiado. Peguei o objeto. Ele era feito de osso ou marfim, e tinha duas pontas delicadas, longas e encurvadas em uma das extremidades, e uma decoração perolada e entalhada em forma de leque do outro lado. Devia ser algum tipo de ornamento para cabelo, eu pensei. Estudei o objeto colocando-o sobre minha mão direita, virando-o de forma que as pontas estivessem apoiadas sobre meu pulso, e saí do quarto para voltar à sala. - Enfim, não importa - Rattler estava dizendo. - Especialmente porque sua irmã a superou na corrida pelo grande prêmio. Ouvi Prairie inspirar intensamente, uma reação de medo e choque. - O que quer

mas era um sentimento tão forte que aparecia estampado em seu rosto quase como uma segunda pele. Quando você foi embora. mas no final consegui fazê-Ia ver as coisas do meu ponto de vista. . acreditar que havia mesmo entre eles uma ligação muito antiga. Um canto de sua boca se ergueu. e por uma fração de segundo seu rosto ficou exposto. praticamente uma adulta.Olhe só para você.Prairie tentava encontrar as palavras e parecia pronta para saltar da cadeira.. ...Pequena Hailey .. a expressão aberta e sem reservas.. até. Por causa de Prairie. .eu me recusava a acreditar que um homem como Rattler poderia amar . Divertido.Você nunca. a voz um pouco mais alta que um sussurro rouco. E acho que tive momentos maravilhosos com. e de repente foi fácil.Quer que eu soletre? Eu entrei na sala.Não diga o nome dela! . ela não teria. Mas Rattler levantou a arma sem sequer olhar na direção dela. para atacá-lo. Dor.Você . . mas de séculos. Não pode ser. Rattler olhou para mim.. algo ardiloso e penetrante. afinal. para mim. . Mas quando Rattler percebeu que eu o encarava. .151 dizer? Rattler riu com amargura.. .Devagar. apontando o cano em sua direção. . Não era amor . e vi algo ali que não poderia ter imaginado nem em um milhão de anos. a dor desapareceu e foi substituída por outra coisa. Prairie . Tive de fazer um grande esforço de persuasão.Eu digo o que quiser Pray-ree .É simples. sua mãe disse que achava que Clover já tinha idade para namorar. Depois ele me encarou.Rattler sussurrou. seus olhos brilhando como centelhas verdes à luz pálida do abajur. O que ligava Rattler a Prairie era um nó que se tornava mais forte com a resistência. disse que estava magoado com como ela estava sempre me rejeitando. formando um desenho que sugeria crueldade. . . não de gerações.ele a preveniu.ele disse.

Pega. eu percebi . sou eu.Para o chão . tirando-o da cama. mas eu me mantive em pé. vasculhando seu conteúdo com desespero. menina Hailey? . quando ele despertava assustado de um sono profundo. e ele apareceu na sala com aquela aparência desinteressada. um barulho que não era humano ou animal. e o som que ouvi quando aquelas duas pontas delicadas atingiram o alvo foi diferente de tudo que eu esperava quase como o de uma faca cortando um melão. outro tiro soou e Prairie caiu sobre mim. Rattler gritou de dor. e de repente. continuei onde estava enquanto ela corria para a cozinha e abria uma gaveta. em seguida para mim. ele saiu da apatia e saltou sobre Rattler latindo e rosnando. . agarrando o objeto pontiagudo com toda força que tinha. eu sabia. Mas o som que saiu de Rattler superou esse primeiro ruído. Chub estava apoiado sobre os cotovelos. Ele começou a gritar se debatendo em meus braços enquanto eu corria para fora do quarto a tempo de ver Rattler arrancar o objeto de seu olho . Chub . e minha mão agarrou com força o cabo do adorno para cabelo.Rattler disse com tom suave. mas quando ele abaixou a mão que empunhava a arma para acertar a cabeça do cachorro. mas algo entre os dois. Ele não estava completamente acordado. enquanto meu cérebro reverberava com esse novo conhecimento.Prairie! .eu disse. Corri para o quarto e puxei as cobertas da cama. garoto! A mudança em Rascal foi espantosa.Prairie gritou. .gritei. alguma coisa selvagem. Ela não disse nada.a mão que o pressionava coberta de sangue .152 sabe quem eu sou não é mesmo. Dentes que cravou com força na canela do homem. alguma coisa furiosa. emitindo um som gutural e feroz que brotava do fundo da garganta. Ele atirou contra mim.Sou eu. Mas errou. era como o pesadelo de um sonâmbulo. . Investi contra ele com a mão erguida. mostrando os dentes. . e ele levou as mãos ao objeto cravado em seu olho direito.Rascal... o rosto contorcido e pronto para um grito de horror. mas houve um estrondo na estante atrás de mim.eu gritei. Esperei pela dor que não veio.Eu sou seu papai.às vezes acontecia. uma hora para Prairie. enfiando tudo de volta na mochila e pendurando-a nos ombros.e levantar a arma para apontá-la. apenas fez . . Virei-me e a vi pulando da cadeira. me empurrando para longe dela com força. . Numa fração de segundo. sim.

Há luzes acesas em minha casa. . e elas estavam apagadas quando chegamos. ele me acertou.O tiro a atingiu? Senti a umidade quente do sangue sob meus dedos e. e eu a seguira. . minhas questões. Para verificar o que houve. Mas precisamos sair daqui. e nem sempre havia acreditado ou confiado nela. quando a conheci..eu disse com o coração disparado.Só me ajude a correr. . mas eu a amparei .Você não está bem . Prairie assumira o comando desde o primeiro momento. o momento era esse. segurando a perna ferida pela mordida violenta. E tive de deixar de lado minhas dúvidas. Prairie cambaleou e quase caiu. Eu me lembrei do celular de Prairie esmagado pelas rodas do Buick.. vamos tentar chegar ao telefone público que fica a dois quarteirões daqui.. Você não reparou? Os homens de Bryce estão lá. e todos nós corremos enquanto Rattler tentava se levantar pulando. meu medo. o ângulo estranho em que ela segurava o braço. Outra vez.. Mas agora ela precisava de mim. .Ahhh . vi o rasgo em seu suéter. Tirei minha .Tudo bem. mas eu a segui.Estou bem .Eles virão para cá. E depois virão atrás de nós.Prairie me interrompeu. Não é só por Rattler.. e devem ter ouvido o que aconteceu aqui. -Você.eu gritei. Nem sempre de boa vontade. Se havia um momento em que eu precisava ser forte. .Como.. respirando com dificuldade. . o que eu posso .Rascal. Quando chegamos na varanda.ela disse. vem! . sob a luz de um poste na rua.. . . um som como "unh”. -Mas. Hailey.. Hailey. segurando minha mão para me puxar para a porta.153 um ruído abafado.

Não. Segurei a mão de Chub e amparei Prairie com meu outro braço. ou hospital. Eu pulei na frente dele.E isso seria ruim? Por favor.gemeu Prairie. Prairie balançou a cabeça.. Um táxi passou lentamente pela rua. no departamento rodoviário .Mas.Só preciso . É perigoso demais..Não. . Prairie balançou a cabeça novamente. Qualquer sinal do cão violento que atacara um homem momentos antes havia desaparecido. Por um momento pensei que ele ia passar direto.154 camiseta velha da mochila e amarrei as mangas com força em torno do braço de Prairie. ou não? .. . . no último instante. mas não havia nada. . Polícia. tentando pará-lo. Se ele notar o sangue. .Podemos cobri-lo. Mais do que você pode imaginar. Tenho certeza de que ele tem gente cobrindo as ocorrências policiais. quase a arrastando.ele perguntou com um sotaque acentuado. não podemos levar Rascal. acima do ferimento da bala.. Bryce tem conexões. .Senhorita. Ela balançou a cabeça com veemência. você levou um tiro.. mas estendi a mão e levantei um braço para acenar. Eu tomei uma decisão rápida. Você não entende. Ela estava quieta e pálida. mas. mordendo o lábio sem emitir nenhum som. . vai insistir em nos levar a algum lugar. Chegamos em uma farmácia fechada e eu vi o telefone público em meio a um círculo de luz na entrada do estacionamento da loja. voltando à alameda por onde chegamos e por onde poderíamos ir à cidade. meu braço ..se formos procurar as autoridades. Jamais havia andado de táxi em toda minha vida. Ouvi os passos atrás de nós. Hesitei . Além do mais. Mortas. para estancar o sangramento. Precisamos de um médico.Não posso. o som dos pneus no cascalho. o motorista reduziu a velocidade. podemos nos dar por perdidas. O motorista do táxi abriu a janela. Rascal nos seguia novamente dócil. . vai entrar. Prairie.seríamos um alvo visível para quem quer que chegasse ali.

Olhei para o homem. Só por alguns minutos. Ele resmungou alguma coisa que eu não consegui entender e começou a subir o vidro. Não demorou muito.Não vai sair daqui . seus olhos muito abertos e preocupados. . Prometo. Chub assistia a tudo do meu colo. O motorista estreitou os olhos. com os braços cruzados.É isso mesmo. . devolvendo o aparelho ao motorista do táxi.Ela . visivelmente intrigado. e ela recuou alguns passos buscando abrigo nas sombras. esquecendo completamente que ela a havia abandonado no banheiro do restaurante. Ela tremia. mas ela enfiou a mão no bolso e me deu um rolo de notas.Obrigada .Prairie telefona. mas ele olhava para frente impassível. depois suspirou e levou a mão ao bolso do casaco. só precisamos mesmo usar seu celular.155 usar seu telefone celular. . tudo bem. Por favor. fechando a janela. .Não querem ir a nenhum lugar? . e eu dei a ele o dinheiro. Nós vamos pagar. apontando um dedo para mim.Sim. fiz um gesto pedindo a carteira de Prairie.Fone . Chub. Enquanto isso fiquei esperando ao lado do carro. . Ele me deu o telefone. esperando que sua expressão se suavizasse diante da doçura de Chub.eu disse. terá seu celular de volta em seguida.ele disse. mas partiu ainda fechando a janela. guardando o telefone no bolso. Ele não respondeu.Não. . O motorista hesitou. Prairie voltou com passos arrastados e me entregou o celular.Aqui. . senhor. Agora ela tremia intensamente. o corpo todo. .Prairie contou. Pedimos emprestado o telefone desse bom homem para Prairie poder fazer uma ligação. Entreguei o celular a Prairie. . . com Rascal sentado tranqüilo ao meu lado. .Desesperada. Tirei do maço três notas de vinte dólares.ele disse. .Falei com Anna . sinto muito.Não! Por favor! .

e a iluminação pública me permitiu ver que também era velho e amassado. Os minutos se arrastavam. Hailey. perda. Chub estava apoiado nos meus joelhos. Precisamos nos esconder. Rezei para os moradores terem sono pesado. por quê? . as árvores nos manteriam escondidas.mas alguma coisa se moveu dentro de mim. uma mistura de anseio. quase a carreguei.Mas. e ele parou com os punhos cerrados olhando em volta. Sua silhueta se recortou contra a luz da rua.. . Era pequeno. Um bangalô compacto era separado da rua por uma fileira de árvores e uma cerca sólida. um automóvel parou junto da calçada. Mas somos fortes. sua mão segurando a cintura da minha calça jeans. – Você sabe. curar? Prairie balançou a cabeça. Chub andando atrás de nós. O tremor se tornou menos intenso enquanto esperávamos. . Mais fortes que a maioria. Um muro baixo de pedras se estendia por toda a lateral do quintal. Antes que eu pudesse responder. Segurei seu braço bom e tentei mantê-la em pé. eu não podia saber se ela ainda perdia sangue. e a noite parecia ficar mais fria a cada momento que passava. ..ele murmurou. O homem que saiu pela porta do motorista era alto e tinha ombros largos. como ele tanto gostava. Ela apontou na direção de onde viemos.. mas a pedra era gelada debaixo de nós.ele tinha um capuz que mantinha sobre a cabeça . e eu deslizei os dedos por seus cabelos muitas vezes. . Não consegui ver seu rosto . Na escuridão. Disse a ela que estaríamos naquele primeiro quintal. e depois olhei novamente para o braço dela.Sono . Sempre foi assim. depois praticamente a arrastei. mas o torniquete improvisado estava encharcado. Fiz Prairie se sentar naquela mureta de pedra. Prairie começou a balançar.Tem alguma coisa que eu possa fazer? . Finalmente. Eu vou ficar bem. . com um ou outro carro passando pela rua a alguns metros dali. aquele sentimento intenso e profundo que às vezes eu experimentava quando me aproximava dos Morries. Não havia luzes na casa.perguntei.156 está a caminho.Curadores não podem se ajudar.Não sei. Com sorte..

Eu me preparei para correr.É Kaz. e eu ouvi seu murmúrio surpreso.ela sussurrou.Está tudo bem . . não com Prairie e Chub para carregar. .157 conexão e medo. O filho de Anna. O terror invadiu minhas veias quando percebi que ele nos vira. . Seria ele um Banido? Como ele conseguira chegar ali tão depressa? Prairie também o viu. Mas Prairie pôs a mão no meu braço para deter-me. embora soubesse que jamais poderia ser tão rápida.

.. .Não acredito que é você .ele finalmente se apresentou. enfim. passando o braço bom por cima de seus ombros. virando-se para mim e estendendo a mão.Minha mãe vai me matar se eu não levá-la para casa depressa. A pele de Kaz era fria pela exposição ao ar da noite. mas a sensação de apertar a mão dela era boa. Você está muito alto! Acho que devia ter só doze anos na última vez que o vi.Fui Elizabeth por muito tempo. mas era cheia de energia... É um prazer conhecê-lo.. .Ele parou e balançou a cabeça como se estivesse constrangido.. exceto Sawyer. Mamãe me disse.ele disse com urgência. tia Eliz. . sou Kaz . . não se preocupe com isso. Não consegui ver os traços dele no escuro.E esse é Chub. mas a luz clara da iluminação pública fez brilhar seus dentes quando ele sorriu. . E aquele é meu cachorro. Sinto muito. Quando apertei a mão. . quero dizer. Eu me sentia segura com ele.consegui responder.. . mas é que. senti aquela espécie de eletricidade que sempre aparecia quando eu me aproximava dos Morries. . Rascal.Vamos para o carro .158 Capítulo 19 Ele atravessou o jardim com alguns passos longos e quase nem olhou para mim antes de abraçar Prairie com cuidado. .. . e seus dedos eram ásperos e calejados. e a segurei por um segundo além do que pretendia. Não era tão forte quanto a corrente que senti quando toquei Milla.Sou Hailey . .Quero dizer.Tudo bem .Prairie respondeu.Sim. E de certa forma ele era diferente de todos os Morries que eu conhecia. Prairie.ela disse.

. Kaz seguiu por uma estrada que contornava o lago e. o cachorro também vem? .Mas o carro está num lugar muito bom. . .Pareço pior do que estou. Prairie.E. o vazio negro do lago à esquerda. . Eu não conseguia desviar o olhar daquela cena. Muito bem.Kaz murmurou. mas mamãe já preparou tudo. . .Considerando que eu costumava ler histórias do Elmo para você. .. Belos edifícios antigos se erguiam à nossa volta. Não falamos muito durante o trajeto..Não me incomodo. ganhando velocidade.Agüente aí.Se você não se incomodar . Fui atrás deles carregando Chub. lá estava. . percorrendo ruas movimentadas em direção ao centro da cidade.. como você está realmente? . Quando chegamos ao carro.Ele segurou sua mão e a ajudou a ficar em pé. .. que cochilava. enquanto eu acomodava Chub ao meu lado no banco traseiro.Podemos conversar mais em casa. ninguém vai notá-lo por dias. eles cederam lugar a bairros mais planos com construções mais simples. . Como chegou aqui? . e parece que você está precisando. na medida em que seguimos adiante. isso poderia exigir um tempo para nos adaptarmos . mas logo retornamos ao labirinto mais na área urbana da cidade.Ele não vai dar trabalho. de repente. .159 Ele assentiu.Estamos quase chegando . mas. Kaz acelerou e partiu. Kaz ajudou Prairie a se sentar no assento do passageiro e a prendeu no cinto de segurança. .Prairie respondeu rangendo os dentes.Dirigindo . toda Chicago brilhando como uma terra fantástica e cintilante à direita.ela disse com uma risada fraca.Se você diz. Rascal deitou-se no chão. Meu carro já viu coisas piores. mas. . como de costume.Eu me ofereceria para carregá-la. .respondi apressada..Não podia abandonar Rascal depois de ele ter nos acompanhado até ali. depois voltou a atenção para Prairie.

Hailey . Eu não conseguia acreditar que já era tão . Finalmente consegui. e Kaz punha diante dela uma xícara fumegante.disse Kaz. eu. Assim que desligou o motor. . Ela devia ter a minha estatura. além de ouvi-Ias.E leite para Chub. com curvas suavemente arredondadas e cabelos claros e encaracolados caindo sobre os ombros.Por favor. e ele tinha ombros largos e queixo forte. Quando sorria. A porta se abria diretamente para uma cozinha.Vamos tomar chá . Prairie já estava sentada à mesa redonda. . tudo bem.a mulher disse com tom suave. Respirei fundo e subi a escada. .Aqui vocês estão seguros . seus olhos azuis brilhavam intensamente. . Anna caminhou até a pia e esfregou as mãos com uma pequena escova plástica e uma generosa quantidade de sabão.É melhor levá-la para dentro . não pense que sou rude. acho que ele não vai acordar .Meu nome é Anna. Kaz desceu do carro e foi ajudar Prairie. e pude sentir suas palavras. Entre. Prairie. Os cabelos castanhos claros eram um pouco mais longos do que deveriam ser.. O cachorro também. Rascal me seguiu e percorreu toda a área com sua habitual eficiência. . Sim? Depois conversaremos. O ambiente era confortável e quente. . Mais uma novidade para enfrentar. tirando-a do automóvel com grande cuidado. Uma escada de três degraus conduzia à varanda dos fundos. e cheirava a pão e temperos.Ah. talvez? . Quero dizer. O relógio de parede marcava uma e meia.. . e percorri a passarela de concreto que se estendia até o quintal contornado por arbustos e por uma cerca alta que o separava dos vizinhos.disse como se pedisse desculpas. Chub havia adormecido novamente e eu tentava retirá-lo do cinto de segurança e do carro sem acordá-lo. Acho que agora preciso cuidar de Elizabeth.eu disse.160 Ele entrou em uma alameda estreita e logo parou o automóvel na entrada de uma casa pequenina e espremida entre duas outras. a voz baixa percorrendo minha pele e meus nervos como uma corrente elétrica. Ele removera o capuz do moletom.ele disse. Seja bem-vinda. e finalmente consegui ver seu rosto. e ali uma mulher nos esperava parada na porta.

Venha . eu sentia as lágrimas quentes que ameaçavam transbordar dos meus olhos. e tinha a impressão de que minha coluna nunca mais voltaria ao normal.Não posso ficar com seu quarto . Prairie estava quieta. Pobre criança. tesouras. Anna limpava o ferimento de Prairie com algodão. Estava exausta e sentia o cheiro desagradável do meu suor e do medo. Prairie pode dormir comigo. não precisa se preocupar.Quer que eu leve o menino? Antes que eu pudesse protestar ele pegou Chub dos meus braços e o colocou apoiado em seu ombro.. Oh. Eu o carregava há horas. Pior ainda. leve Hailey ao quarto dela. Esse lindo menino. Anna se virou de costas para a pia e sacudiu as mãos.Chub .Kaz me chamou. . O cabelo pendia em mechas de aparência engordurada. mas sua pele brilhava pálida e úmida de suor e ela tinha olheiras muito escuras. ukochana.Kaz. Então.161 tarde. ela segurou seu braço com grande delicadeza e começou a cortar a manga da camisa.Vamos colocá-lo na cama. e pairava no ar o cheiro de anti-séptico. Eu vou cuidar bem dela estou estudando para ser enfermeira. está bem? Você e Chub vão ficar no quarto de Kaz. A pele em torno da ferida estava escura por causa do sangue seco. minha cama é grande.O nome dele é Chub. . . De repente eu me sentia completamente exausta. mas a mesa estava coberta de material de primeiros socorros . . frascos plásticos . . . mas muita coisa já havia acontecido essa noite. .eu disse. e Chub pesava de maneira quase insuportável em meus braços.gaze. Kaz vai levar você agora.e eu temia ficar no caminho. mas o . e a boca formava uma linha austera. sentindo os músculos entorpecidos de carregá-lo. .Chub . com o rosto voltado para seu pescoço. Tirei a mochila dos ombros e a segurei com uma das mãos. .Anna repetiu. Queria muito me sentar. espalhando gotas de água em todas as direções.. que havia colado no ferimento. mas a falta de convicção em minha voz era evidente até para mim mesma.Oh. Anna comprimiu os lábios quando se sentou na cadeira ao lado de Prairie.protestei.

Você tem jeito com ele . E de repente senti vontade de contar a Kaz tudo sobre ele.disse Kaz. No final dele. e o quarto de Kaz não era desorganizado. . sabe? Sim. .ele disse. eu sabia.Não tive muito tempo para arrumar tudo antes de vocês chegarem. rolos de fita e cotoveleiras. Pôsteres com temas esportivos cobriam as paredes. . não havia nada fora do lugar. O quarto não estava desarrumado..Eles têm quatro filhos.Eu. . Era um lugar confortável. peço desculpas pela bagunça . ah. determinadas. Kaz abriu a porta do outro lado da sala. Nas estantes. sem a timidez gaguejante que normalmente tinha de enfrentar quando me relacionava com pessoas da minha idade. . sobre como tudo havia terminado. Syracuse.ele deu de ombros. ao lado de uma poltrona. Elas são. . e outras coisas que não sabia para que serviam. Talvez houvesse uma oportunidade mais tarde. ajudando-o a acomodar Chub. Gosto de crianças dessa idade. com livros abertos sobre a mesa e um IPod e uma lata de refrigerante no chão. os livros se enfileiravam ordenadamente na companhia de troféus e de um conjunto compacto de alto-falantes. .eu disse.Preciso ir ver como está Prairie.Cuido dos filhos de uma família do outro lado da rua .luvas duas vezes do tamanho da mão de um adulto. A cama dele estava arrumada. dividindo o espaço com mais livros e um laptop Mac. nesse momento. eu tinha outras coisas para focar. Tinha a sensação de que poderia conversar com ele por horas. eu posso deitar Chub na cama. Mas. e talvez ele não acorde . De um lado havia uma porta entreaberta por onde transbordava uma luminosidade dourada.. sobre nossa vida com a vovó. Um capacete azul e branco ocupava lugar de honra sobre a cômoda. e de outros integrantes de times variados. Caixotes no chão continham equipamento . e um banheiro. A colcha simples cobria um edredom macio e um travesseiro. Esperava que Anna soubesse o que estava fazendo. notei uma sala de estar pequena e arrumada. entre eles alguns de John Hopkins. A palavra descrevia Chub perfeitamente. mas sabia que essa era só uma forma de compensar a falta de controle reinante em todos os outros aspectos da minha vida. O corredor era estreito. Eu estremeci e me virei. Eu sempre havia sido obcecada por organização e limpeza. .Se puxar as cobertas.162 algodão ia se tingindo de um vermelho intenso. E tudo era limpo.

.Chub continuou dormindo. por favor. mesmo com medo de olhar. senti a mão dela no meu cabelo. bondoso.disse Anna com seu tom calmo. Deixei sua mochila no quarto. fazendo um grande esforço para soar animada. se todas aquelas coisas ruins não houvessem acontecido.Por favor. mas temia sacudi-la enquanto Anna dava um ponto.Hailey. Anna havia acabado de limpar o ferimento e contivera a hemorragia. depois lavei o rosto com água fria na pia da cozinha. Kaz havia entrado na cozinha sem que eu notasse. Queria fazer mais alguma coisa .163 Na cozinha. .a palavra dizia tudo. Pode usar as coisas da minha mãe. desenhando uma linha de "x' pequeninos e pretos. Fui pegar os lenços. usar o banheiro.Obrigada. Você pode. limpando o nariz na manga da camisa e engolindo as lágrimas com dificuldade. como estava agora. meu nariz estava escorrendo. Bala . Provara que era digna da minha confiança.mas não sabia o quê. ia molhar sua calça. Em seguida.Hailey.Sim. . Não era grande coisa. ou ir para a cama. eu me sentei e observei como Anna ia fechando o ferimento com pontos pequeninos e cuidadosos. . e isso me fez chorar ainda mais. Anna riu e enfiou a linha em uma agulha curva.Anna retirou a bala. ela não me deixaria vê-la fraca ou amedrontada.ela disse. ela me salvara muitas e muitas vezes. há lenços de papel sobre a bancada . mas eu tive de desviar os olhos . Mas o que eu podia fazer? Prairie e eu nos havíamos salvado bem. e lavei também as mãos antes de secá-las na graciosa toalha amarela.Logo eu vou estar bem . sinta-se em casa. . é claro . segurei sua mão livre e a afaguei. . Apoiei o rosto sobre os joelhos de Prairie e senti meus ombros tremerem. . e apesar de ela já estar imunda depois dos últimos dois dias. Além disso. . ou fazer o que quiser quando quiser. por isso me levantei trêmula e meio cambaleante. Kaz. Há toalhas no armário do corredor. na nuca. . fique à vontade. O cheiro de anti-séptico dominava o ambiente.a imagem da carne rasgada no braço de Prairie era mais do que eu podia suportar. Assuei o nariz. eu ainda não suportava a idéia de sujá-la um pouco mais. e ouvi sua voz suave dizendo que tudo ia ficar bem.Anna concordou. Ajoelhei-me diante dela. Sabia que. bem. única lembrança de que ela havia sido alvejada por um tiro horas antes.

e eu sabia que era verdade ..Mas era improvável que um dia eu voltasse a pisar no Gypsum High outra vez.Eu? Eu. não. .Ah.Ah.. Olhei para os pontos no braço de Prairie. Primeiro ano. ...164 . Queria poder simplesmente tocá-la e curá-la como fiz com Milla e Chub. Você é boa aluna? . Nós o chamamos de Kaz. mas a urgência não estava em mim. Mas agora vou dar a Prairie alguma coisa bem forte para beber. a cabeça apoiada no encosto da cadeira.Anna perguntou. . Sua voz era suave e ela mantinha os olhos fechados. Eu segurava a mão dela. Acho que ela só está muito cansada. inadequadas comparadas ao nosso dom. Kaz.não podia ajudá-la. agulha e anti-séptico. cheio de bons professores. Tive de mexer no local para limpar. devia estar cheirando mal. Hailey. .disse Prairie. vai sentir muito sono. e elas pareciam muito. usava linha.Ela vai ficar bem? . ..Então.Está tudo bem. Banida como nós.Hailey é inteligente como a mãe dela .Kazimierz estuda no Saint Michael 's. como podia ter se sentido envolvida pelo esquema maluco de Bryce. E eu entendia como Prairie podia se sentir tentada a usar seus dons para curar tantas pessoas quanto pudesse. Mas não queria sair de perto de Prairie. ferramentas tradicionais. Anna. . sim. O ferimento é superficial. . e ela vai relaxar. e me sentia envergonhada por Anna e Kaz me verem naquele estado. A bala não atingiu o osso. está no segundo ano do colégio? .. . Vi Anna concluir a sutura e enfaixar cuidadosamente o braço de Prairie. verificar se não havia nenhum fragmento de osso ou corpo estranho.Eu sabia que estava imunda. e sentia sua pulsação lenta e estável. O nome é polonês. e isso foi desconfortável para ela... Fiquei parada atrás da cadeira. sim. erguendo os olhos do curativo para sorrir para mim. vendo Anna concluir o trabalho.perguntei preocupada.Obrigada. E o Saint Michael's é um colégio excelente. se acreditara que daquela maneira poderia encontrar uma forma de compartilhar seus poderes. não há nada para se preocupar. Pensei que ela tivesse . e eu só limpei bem a área para evitar infecção. sim. .

Todos esses anos pensei ter perdido você. E Kaz. Devia ser esse o motivo do afastamento. . com nossa Eliza . Lamento que tenha tido de viver com ela. Normalmente doentes.Anna.Devo muito a você... Pensei que. Ela era muitas coisas.. . . .somos família. ou essa mulher não é suficientemente forte para utilizá-lo corretamente. ele agora é um homem. O dom é demais para ela.Sim.nossa Prairie. não sei nem corno começar a te agradecer.Minha avó era... Estava certa. exceto que sinto muito. . Você me disse para deixar aquele emprego. mas depois de um momento ergueu os ombros e encarou Prairie.Prairie explicou. . . todas ruins. . depois que eles saíram da Irlanda. Prairie ergueu o corpo na cadeira e piscou algumas vezes. qualquer que fosse o motivo da separação. . e as famílias precisam trancá-las. Não sei o que mais dizer.Não precisa . as pessoas que vêm do velho país. .Não precisamos mais falar sobre isso. às vezes nasce uma mulher Curadora que não é normal. elas acabam morrendo jovens. e tinha razão.Sua tia me contou sobre sua avó Alice. agora que está com sua tia. havia história sobre os Blogoslawiony.Eu não conseguia pensar em nada para dizer.De qualquer maneira. Prairie suspirou e estendeu a mão para tocar a de Anna. se Anna ainda considerava Prairie como alguém da família. não podia ser tão grave..Mas. Na Polônia. Kaz olhava de uma para a outra. Enfim.. Anna balançou a cabeça. baixou os olhos. . Anna olhou para mim e deu um tapinha no meu joelho.É como chamam os Banidos na Polônia . mas quando Anna começou a guardar seu material de primeiros socorros na caixa.. . tudo vai ficar muito melhor. Elas se tornam cruéis.165 adormecido.

Eu percebia como eles iam ficando cada vez mais nervosos uns com os outros. . disse que eu devia contar às pessoas que estávamos trabalhando em uma vacina para gado.Foi necessário .Foi por isso que discutiram? Por causa do emprego de Prairie? .E também sei quando Kaz mente. os homens perderam as visões.Anna respondeu. .Eu sei quando você está mentindo . Isso não é bom. e eu menti. Eu me senti muito mal com tudo isso.Você não se casou com um vendedor de sapatos . .disse Prairie. . . mas Bryce me fez assinar um contrato de sigilo. como teve coragem de mandar Prairie embora daquele jeito? . Disse que seríamos patrocinados pela Universidade. . mãe.E eu? E o papai? Ou Prairie. Teria preferido que não houvéssemos nascido? .Bem. Só descobri que o dinheiro vinha do governo há alguns dias.É claro que não. Você sabe disso. . então quer que façamos algo de proveitoso com nossa vida? Algo importante? Ou quer que eu seja um contador. Sua mãe me perguntou o que fazíamos no laboratório.Ela tentava usar o dom da Cura em um projeto científico. E ele me disse o que falar. .Ele olhou para mim ao dizer meu nome. As mulheres são fracas.Seja um vendedor de sapatos . Ou Hailey? . Vocês não são bons nisso.Anna respondeu. Talvez os Banidos devessem morrer. eu não me importo. Ele foi um herói no Iraque.166 .Seu pai era um guerreiro. ou alguma coisa assim? . Desde que o povo deixou a Irlanda. esqueceram a história. .Não se zangue com sua mãe . e czarownik amaldiçoou os que partiram.Anna revelou com tom triste.se for um bom vendedor.Mas. . Poderes Bajeczny são restritos ao povo do vilarejo...Não há nada de errado com um trabalho honesto . um vendedor de sapatos.É minha culpa.Agora Kaz estava muito bravo. . .Kaz murmurou furioso. há violência e crimes.

. . Pode ter havido alguma lesão cerebral. .Anna acrescentou apressada. Esperava que ele estivesse caído no chão até agora. . .Prairie interferiu.sussurrei. o salão vai ficar fechado. Mesmo que ele tente apenas descansar e esperar até estar suficientemente bem pra viajar. Ele deve ter perdido muito sangue. eu não conseguia deixar de pensar em Rattler. .Ela disse que foi profundo. não irá a lugar nenhum esta noite..Obrigada. Agora é hora de irmos todos descansar.. .O ferimento. .temia que eu desmoronasse ao pensar na possibilidade de ter matado ou incapacitado Rattler. Percebi que estavam perturbadas . Mas isso não ia acontecer. Não vai conseguir fazer nada enquanto não tiver ajuda. por ter me recusado a ver o que sua mãe tentava me dizer. Por mais acolhida e segura que me sentisse na casa de Anna.Não tentem esconder coisas de mim... eu preciso saber. Uma inovadora .. que ele não estava morrendo..Ela não tem culpa se o chefe era um maluco. e eu me encolhi ao lembrar da presilha de cabelo perfurando o olho de Rattler. o que você fez. e todos poderão dormir. eu não me surpreenderia se Rattler perdesse aquele olho. ela descreveu.disse Anna. .disse Katz.Por favor . Amanhã é domingo. É possível que ele tenha piorado muito depois que vocês o deixaram. . Agora tenho que consertar tudo isso.e que não diziam o que estavam pensando. . . Kaz.. Sentia que qualquer dano que . lembrar dele segurando o próprio rosto com a mão ensangüentada.Anna fez um gesto com a mão imitando o ataque. É uma menina muito corajosa .Mas cometi erros e preciso repará-los. que estamos seguras por enquanto . perdendo sangue até ficar fraco demais até para dizer o próprio nome.Vamos deixar essa conversa para amanhã .Mas e. A reação era incontrolável. Coisas terríveis estão acontecendo por eu ter sido teimosa.167 . .E se Rattler vier atrás de nós? Houve um breve silêncio enquanto Prairie e Anna se entreolhavam. . Eu sabia com que ela estava preocupada .. por maior que fosse o alívio de saber que Prairie ia ficar bem. E também sentia uma sensação profunda cujas raízes estavam cravadas naquele ponto em que o instinto supera a razão. ..Prairie falou cautelosa.E Prairie é uma líder. . Não lamentaria por ele.Acho.Sua tia. porque eu não suportava a lembrança.eu perguntei.

Eles não demoraram muito.Tenho uma camisola e um robe.Vou ajudar Prairie a se lavar . Fechei os olhos e lembrei como ele costumava ser. . O choque se misturou ao desgosto quando limpei minha mão no tapete. . Anna abriu a porta do quarto dela. afastando-me dele. Era como se nem fosse mais tão importante o fato de ele ter perdido a personalidade. Ansiosa. Afastei o pêlo de Rascal e olhei de perto o que percebi ser um pequeno pedaço de metal preto brotando do inchaço onde a pele já começava a recobrir o corpo estranho. queimando a pele. e que viria atrás de nós outra vez. não . Era bom poder abraçá-lo. Vocês dois. Era pequeno. Uma bala. deitei na cama de Kaz e bati no colchão ao meu lado. e acompanhei o contorno com os dedos. isso teria de ser suficiente. . Até meus dedos tocarem alguma coisa que não devia estar li. sentir sua pulsação forte e regular sob o pêlo macio. vão dormir também. depois de curado. e Kaz olhou de um jeito estranho para Rascal ao dizer boa noite. Kaz a amparou do outro lado e. Nodoso. com Anna seguindo na frente. ele seria tão forte quanto antes. Fechei a porta do quarto. Afastei a mão e respirei fundo. Minhas pernas estavam enroscadas no lençol.ela disse. Sabia que. elas se transformaram em um gemido desesperado. onde um lindo edredom já havia sido afastado sobre a cama de casal. satisfeita com a solidão e toda tensão do dia finalmente invadiu meu coração como uma onda. nós a ajudamos a percorrer o corredor. Apalpei a região com cuidado. e quando fechei a boca tentando calar as palavras. não.168 conseguisse causar a ele não seria suficiente. .Vem. o que me fez sentir melhor. Kaz se ofereceu para levar Rascal lá fora enquanto eu escovava os dentes e lavava o rosto. tentando identificar o objeto pequeno e duro sob sua pele. tão determinado. e eu meio caí meio me arrastei para fora da cama de Kaz. Por ora. . e afaguei o pêlo fofo em torno de seu pescoço. Em vez disso. Rascal chamei. juntos. apoiei-me sobre um cotovelo e acendi o abajur sobre o criado-mudo.me ouvi sussurrar.Não. de nem brincar mais. e eu senti que ia desmoronar. de um jeito ou de outro. Mas eu havia conseguido ganhar tempo para nós. Prairie me permitiu ajudá-la a se levantar. e ele pulou na cama.

Rangi os dentes com força e estendi a mão trêmula para tocá-lo. só uma lesão sem grande importância.devia ter sido atingido quando eles chegaram. bem em cima do coração. Eu me lembrei dele esperando no quintal da casa da vovó. Eu me levantei e comecei a recuar me aproximando da porta caminhando de costas. a carne e até seu coração. tentando não fitar seus olhos inexpressivos. A náusea ameaçava me dominar quando me aproximei da cama de joelhos. Dos mortos. Mas me obriguei a deslizar os dedos pelo pescoço de Rascal. Eu o trouxera de volta. Rascal não se movera. O vazio quando eu o trouxera de volta. Talvez fosse um ferimento superficial. e todo meu corpo resistiu meu coração batendo num ritmo alucinado. No fundo. e ficou ali parado e imóvel. Fechei os olhos com força e senti lágrimas correndo quentes por meu rosto. Eu me agarrei com desespero a essa idéia. imagens congeladas que se sucediam com rapidez: o sangue. Um cachorro zumbi. com sangue no pescoço . sempre soubera disso. olhando para o ponto onde a bala penetrara. olhando para o nada. Porque eu o transformara em um zumbi. Porque ele já estava morto. e me obriguei a olhar para ele. Seu corpo caiu no chão com um baque. Eu gritei e o empurrei da cama com toda força que tinha. Uma delas eu consegui sentir alojada profundamente no músculo. como soluços abafados de desespero e horror. Não era uma curadora . e haviam rasgado a pele. ainda no mesmo lugar onde eu o deixara sobre a cama. estava deitado e quieto. Eu precisava saber. E agora ele não podia morrer. um cachorro robô. tive a sensação de estar tocando o próprio mal. mesmo sabendo que era improvável. Eu era amaldiçoada. os órgãos escapando de seu corpo. mas não consegui sufocar os pequenos sons que escapavam de meu peito. O acidente voltou à minha mente como um filme em velocidade acelerada. e ele se levantou lentamente sobre as patas. mas a outra penetrara em seu corpo até onde eu não podia tocá-la através da pele. Fora atingido por tiros. a maneira como ele havia revirado os olhos uma última vez. as balas estavam em seu corpo como prova.169 Rascal havia sido alvejado. e . indiferente.era uma criadora de zumbis. Rascal havia levado três tiros. Balas não podiam matá-lo. mas ele continuava em pé. e encontrei a irregularidade na pele em torno da perfuração por onde as balas haviam penetrado. algo que Rascal curava com as próprias defesas. Os homens de Bryce provavelmente tentaram matá-lo para fazê-lo ficar quieto. Mas não estava. Devia estar morto. Quase não consegui. e quando ele não reagiu.

livrando-me dos braços de Kaz e correndo para Prairie.170 quando meus ouvidos registraram o significado daquele som estranho e persistente. e eu lutei e gritei. Queria me jogar nos braços dela. praticamente me tirando do chão. mas não tentou se defender.Eu transformei Rascal em um zumbi.Ele não foi curado . fui ficando sem energia e parei de me debater. .O que aconteceu? . Ouvi uma porta se abrir atrás de mim.ele ordenou. tentando me afastar de Kaz enquanto ele me arrastava para o corredor. . compreendi que ainda gritava. tremendo muito. para a sala de estar.Pare com isso Hailey . . mas sabia quanto estava frágil e simplesmente me abracei.eu gritei. A porta se abriu e braços fortes me envolveram por trás. e os gritos se transformaram em soluços enquanto ele me segurava contra o corpo com firmeza e cuidado. .Hailey está bem? . depois a voz de Prairie e a de Anna. Lentamente.

Estávamos sentadas juntas no sofá da sala de estar. . Diga que nunca farei isso com Chub. . Chub não acordou com a comoção. . Ela olhou para Anna..Como posso ter certeza? . você nunca tentar curar alguém que já morreu. Diga que Milla não vai acabar assim.Eu me esforçava para controlar a respiração..nos fez prometer. a mim e a sua mãe. e senti o grito se formando dentro de mim. Ele ferveu água para o chá.Toda a verdade.Não vai mais acontecer . . Voltou dos mortos. - .171 Capítulo 20 .Nós nunca. ..Prairie começou hesitante.eu disse quando Anna ajeitou a manta sobre mim e Prairie. Mary nos ensinou desde o início.. até mesmo um lagarto.É só.explodi.Prairie afirmou com cuidado. Essa é a única regra. . .Ele não pode ser morto.Mas é isso que Rascal é! . Quero saber o que eu fiz.Por favor.Você precisa me dizer a verdade . Kaz levara Rascal para o quintal depois de eu dizer que não poderia passar nem mais um segundo com ele dentro de casa. então apertei novamente as mãos até os dedos ficarem brancos. . Ela não nos deixava curar nem um esquilo ou rato morto . me diga como isso aconteceu. Felizmente. que havia falado pouco desde que eu acordei. antes de termos curado qualquer coisa. Ambas pareciam tão preocupadas que minha ansiedade ameaçou explodir novamente. e nós quatro nos reunimos na sala de estar. não sei se zumbi é a palavra certa . e minhas mãos tremiam tanto que as uni e apertei com força.

.jamais curar alguém que já morreu. Havia . todas as vezes que ela havia olhado para rnirn daquele jeito estranho. sim. nada. Só aquela regra única .E por que não me disse? Sabia o que eu havia feito com ele. embora ouçam e processem instruções e cumpram todas as ordens que recebem. mas sua alma já terá partido..Eu sinto muito mesmo. mas você não estava preparada para saber. . ou ficar. . Você é o futuro. Não podem tomar decisões por conta própria. Respondem a estímulos básicos.. . relaxei e a deixei entrelaçar os dedos nos meus...Hailey. comem e até dormem. pelo menos por algum tempo.Eu. mas não sonham. Eu resisti.Prairie me interrompeu. e me deixou levá-lo no carro conosco. e eu percebi que era verdade. nenhuma emoção.Sem me perturbar? Estou muito perturbada. ávido . mas somos fortes. mas não sabia como dizer tudo isso sem perturbá-la. Hailey. não acredito. . me deixou tocá-lo. Hailey. explicar tudo. eu sinto muito. . .Então me explique tudo agora. O corpo dessa pessoa vai voltar. Se digo a ele para vir.Eu precisava manter você calma .tudo voltou à minha lembrança. dor. . tive certeza desde o momento em que o vi. As palavras de minha avó. Ela me havia dito isso..Não há muito para dizer. Eu era forte. . percebi algo .172 Prairie tentou segurar minhas mãos e as apertou com ternura até que. tentando ocupar espaço e alimentar o terror. Agarrei-me a esse pensamento e me mantive firme. . concentrando-me na sensação da mão morna de Prairie na minha...Ficamos em silêncio por um momento. ou.Lamento que não tenha tido ninguém para ensinar. e a ferida que Anna havia suturado parecia melhor. Curadores não podem curar uns aos outros. Depois de um momento. como um pedaço de gelo derretendo. . Eles não sentem amor.Rascal faz o que eu mando. Por isso procurei cicatrizes em seu corpo. não é? .o curativo havia sido removido de seu braço... você sabia.

..Oh.. .O que aconteceu com ele? Prairie mordeu o lábio. decapitação funcionaria. você entendeu a idéia. . e eu poderia ter desmoronado..Prairie respondeu. . área do cérebro. Esmagar essa. Mais uma coisa.É.Anna declarou. Quando ela era menina. com a intenção de nos assustar.. Histórias de horror acho. ..... Rascal começaria a se decompor? Seu corpo já estava apodrecendo? .. meu Deus . Não acrescentei que. Seus olhos encontraram os meus e havia tristeza neles.Era uma pessoa boa. de alguma forma. bem. Kaz aproximou-se e deixou as xícaras sobre uma mesa.jamais descobriram quem . uma das outras curadoras não se conteve e trouxe de volta um gato. Mary disse que foi uma bênção. e foi como o que aconteceu com Rascal. O corpo de um morto curado não consegue sustentar a vida indefinidamente. Eu fiz aquilo. Havia uma xícara em cada mão dele.173 estado muito perto de perder o controle nos últimos dias.ele disse em voz baixa. um rompimento definitivo entre as vértebras seria suficiente. imóvel.. bem. . Todas as crianças ficaram com muito medo de como ele ficava sentado na varanda. .Um dia alguém . . . .. seu corpo começou a se decompor..Mary disse que ele começou a. .Mas não é sua culpa.Mas pensei que eles não podiam ser mortos.Mary costumava nos contar histórias . apenas olhando para o nada..Lamento sobre Rascal . Ninguém mais.quebrou o pescoço do gato.. Notei Kaz parado na porta e percebi que ele estivera ouvindo a conversa. As pessoas não passavam pela casa. Uma. sentindo o horror invadir minhas veias novamente.Existem meios.. se. o tronco cerebral deve ser rompido.Há quanto tempo você sabe sobre. o que acontece? Se você cura depois de. para não nos sentirmos tentadas. compassiva .gritei.. eu sabia que . um animal que ela amava.

A decomposição leva mais tempo do que levaria em uma morte normal. . tentando resistir às lágrimas.perguntei a ela. Eu sentia ânsia de vômito. Mas.sussurrei.Prairie explicou com aquele tom cauteloso. Fizera o imperdoável. E outras condições afetam esse tempo. Pensei em Prairie quando o rosto dela ficara sombrio por minha desgraça.Por que deixou Gypsum? . Antes mesmo de saber que era uma Curadora .Não suporto olhar para ele . todas as coisas que aprendemos nas aulas de ciência. Eu queria acreditar nele. e umidade. umas tocando meus ombros. Eu precisava saber se era algo conectado com as coisas que haviam acontecido com o que eu fizera. Ela também guardava um segredo. Eu me sentia mais próxima de Anna e Kaz do que de pessoas que eu conhecia desde sempre.Não me façam olhar para ele. Quanto a Prairie . aquilo que Prairie e minha mãe sempre souberam que não deviam fazer. . . mesmo quando senti a urgência fluindo de mim para o corpo sem vida de Rascal. . .perguntei quando ninguém mais respondeu. conosco. Está tudo bem. . tempo? . Havia feito o que nunca devia ser feito.ou animal. Calor pensei.Ele está lá fora . . eu sabia que ainda era sozinha de um jeito muito importante. exceto um cheiro ruim. e me perguntei se um dia eu seria como ela. Pode levar duas ou três vezes mais que o normal para os tecidos se decompor. marcada com um tipo de sofrimento que outros seres humanos não poderiam entender. e Rascal era um cachorro jovem e saudável.Depende da saúde da pessoa . no fundo. Ele se ajoelhou na minha frente. e ficamos ali todos juntos.não conseguia mais imaginar a vida sem ela.. Reconheci a dor solitária em sua essência.174 estava fazendo algo errado. . Ainda não havia notado nada.. outras afagando meus dedos. insetos. Anna se aproximou. e tudo isso ajudou a me acalmar. E não conseguia deixar de pensar que poderiam sofrer as conseqüências por isso de muitas maneiras.O que você fez? .Quanto.Você está aqui. mas em quanto tempo seu pêlo começaria a cair e seu corpo se encheria de gases que romperiam a pele? Soltei as mãos de Prairie e cobri o rosto.Kaz lembrou. As mãos deles me confortavam.

Quis discutir com ela.ela disse a voz rouca traindo exaustão. . mas a fadiga me vencia. . Ela passou o resto da noite comigo em meu quarto. um reflexo no verde profundo. . apesar de ter um pesadelo vivo para me preocupar.Você me deve a verdade. O sol vai nascer em poucas horas e não poderemos fazer o que deve ser feito. .Hoje já tivemos de enfrentar coisas demais. . . foi quase resignação. insistir na verdade imediatamente.175 O rosto dela empalideceu. e vi refletido sem eu rosto uma sombra de mim mesma. eu estava desesperada para fechar os olhos e deixar o sono apagar todos os pensamentos. Insisti para ela ficar com a cama de Kaz. mas não foi surpresa que vi estampada em seu rosto. Vamos dormir.Conversaremos amanhã. Prometo. . Mesmo que fosse só por algumas horas. a menos que todos tenham um pouco de descanso. . e quando Prairie protestou. Apesar do choque provocado pela descoberta sobre Rascal.Pare de tentar me enrolar .Não hoje .Prometa .Ela me olhou diretamente nos olhos quando falou.implorei num sussurro. Pelo contrário.Prometo. . eu me acomodei no ninho de cobertores que Kaz havia feito para Chub e adormeci antes de ela dizer para eu não me preocupar. Depois de todos termos uma chance de descansar.reclamei.

Eu não estava com fome. Anna entrou na cozinha nesse momento. . Prairie me deu um copo descartável com café.ela nos incentivou. odiando como minha voz soava aguda e estridente.eu disse. Ele já havia sido cortado e recheado com cream cheese e damascos secos. . . Anna pôs um guardanapo de papel em minhas mãos.. . mas ela sorriu para mim como se para isso não precisasse fazer nenhum esforço. tentando dominar o pânico. Anna vai cuidar de Chub enquanto estivermos fora. Caminhava com desespero. . seu rosto pálido e cansado. e o lugar parecia ainda menor sem a presença dele.Vão. descansando. simplesmente não posso. .Ele já foi. Está.Estou preparando gulasz.Está tudo bem . mas sabia que se eu tivesse de passar pela criatura em que havia transformado Rascal eu perderia o controle. afagando rapidamente meu braço. .176 Capítulo 21 De manhã ela havia desaparecido. Antes que pudesse exigir que ela cumprisse sua promessa e me contasse a história.Prairie disse com gentileza. . vocês duas . Encontrei Prairie na cozinha depois de levar Chub ao banheiro. Chub também estava acordado.ela disse.. mas o horror da noite anterior retomava ameaçando me dominar. deixando para trás uma cama arrumada e raios de sol entrando pela janela do quarto de Kaz. Pegue um pãozinho para ir comendo no caminho.Não quero sair .Há alguém que quero que conheça .Não posso olhar para ele. teremos um almoço especial quando voltarem. onde escovei os dentes e lavei o rosto. Não havia nenhum sinal de Kaz na casa. mas peguei um pãozinho do prato que Anna deixara sobre a mesa.

Uma casa de convalescença . e nós percorremos os bairros em torno do lago.Anna vai me emprestar o carro .O que fez com ele? . Kaz está enterrando o corpo no parque. .Foi humano. tudo já terá terminado. Ela deu um passo adiante e tocou meu ombro.Sra.cumprimentou animada a mulher que estava na recepção. com alguns dos melhores médicos do país em seu quadro de profissionais. Prairie pisava no acelerador.Anna respondeu. . Sou enfermeira. Segurei a mão de Anna. . . Blackwell.disse Prairie. Havia venezianas brancas nas janelas e tulipas nos canteiros na frente. como se fosse morrer sempre que ela reduzia a velocidade. As longas rampas sinuosas eram a única indicação de que tipo de lugar era aquele.Perguntei quando subimos nos aproximando da porta da frente. Mais tarde. . . sei como fazer essas coisas. tranqüilidade. Hailey.perguntei.Vamos. . Mas não falamos muito. voltando ao trevo e para a estrada.Tudo bem . que se abriu deslizando quando pisamos no tapete.Um hospital? . mas também com firmeza.Prairie falou. olhando para mim com ternura. . Alguns minutos mais tarde ela saiu da estrada para uma região de bangalôs de tijolos e outra igreja ou tapema.Muito boa. Não havia nenhuma placa identificando o prédio diante do qual ela parou. um lugar onde há árvores.Eu fiz .perguntei finalmente quando notei que seguíamos para o norte.Aonde vamos? .Como assim? . mas temendo que minha voz me traísse. . cobrindo-a. revivendo o motor. Comecei a tremer. O carro de Anna era só um pouco mais novo que o de Kaz.177 . e o motor falhava em cada cruzamento. Ele vai ficar muito feliz com sua visita. podemos conversar no caminho. e lágrimas brotaram do canto dos meus olhos.Vincent hoje está num bom dia. floresta. . quando você voltar. .consegui dizer. . tentando encontrar um jeito de agradecer. .Não estamos longe.

178 Prairie trocou algumas palavras com a recepcionista ao se registrar como visitante.Essa é Hailey. Passamos por uma porta automática e caminhamos por outro corredor com piso encerado e brilhante e quartos dos dois lados. . nada que desse a eles alguma profundidade. para o nada. Nos quartos havia camas de hospital com pacientes nelas. então. E uso uma identidade falsa.perguntei quando Prairie agradeceu à recepcionista e me levou por um corredor. .E quem trouxe hoje? A mulher sorriu para mim com franca curiosidade. E há anos venho visitar Vincent regularmente. Especialmente aqueles que não têm família. Eram as coisas mais vazias que eu jamais vira. . Eles olhavam diretamente para frente. . E nossos pacientes também.O que significa tudo isso? . Ninguém olhava para nós. eles piscaram e se viraram em nossa direção sem nenhum traço de emoção ou curiosidade. O cabelo era escuro.Quem é Vincent? Ela caminhava mais devagar. Eu respirei fundo. Eles não fazem muitas perguntas quando alguém da igreja vem visitar. Mas o pior eram seus olhos. coberto com um cobertor fino.Ah. Ela também está interessada em prestar serviço voluntário. Ela fez um gesto indicando que eu devia entrar no último quarto à direita. e pendia um corte em torno do rosto.Venho visitá-los toda semana. as mãos unidas sobre a coberta. como você percebeu. Não havia emoção. . Sua pele era inchada e havia sobre ela uma camada brilhante de suor. . eles já se acostumaram comigo.ela disse ao me seguir para dentro do quarto. e tive de . . A família dela acabou de se mudar para cá e juntar-se à congregação da igreja. e nós nos aproximamos do final do corredor. Quando entramos no quarto. planos ou decepções. As visitas sempre os beneficiam muito.Vincent era meu namorado . Olhando por cima de seu ombro eu li "Susan Blackwell" numa caligrafia perfeita. Alguns estavam sentados. nenhuma evidência de sonhos ou esperanças. Havia um homem sentado na cama. outros pareciam dormir. piscando lentamente em intervalos regulares de poucos segundos. fino. e uma fina rede de cicatrizes recobria seu rosto e o que eu podia ver dos braços abaixo da manga da camisa. Havia algo errado com ele. isso é maravilhoso! Hailey amamos nossos voluntários.

. e nós estávamos apaixonados.Não contei por que saí de Gypsum . . se não dessem sua bênção. Eles . Essa parte era verdade. E ele nem parecia notar. A verdade é que curei. No dia seguinte chegamos aqui. Hailey. E menti para você antes. me afastar dele o máximo possível.Prairie contou. Sabiam que ele me amava. Mas é claro que não aconteceu.. Creio que havia uma parte de mim que acreditava que. . eu o trouxe de volta.Como pode.Chegamos em Chicago de ônibus na noite do acidente.179 lutar contra o impulso de sair correndo dali.. ele iria embora comigo da mesma maneira assim que concluíssemos o colégio.Mas e os pais dele? Não ficaram aflitos quando ele não voltou para casa? . onde Alice não pudesse nos encontrar. A única coisa que não disse foi que levei Vincent comigo. mas. finalmente. E eu quis. ajustando a gola da camisa de Vincent antes de se afastar da cama. . Alice nunca soube. mas não tinha coragem para fazer acontecer. Estávamos esperando apenas termos dinheiro suficiente para ir para um lugar bem longe. se quisesse de verdade. caso eu tentasse trazer alguém de volta. . Por isso.Como o trouxe para cá? . se confiasse que só daquela vez poderia dar certo. Pensei que ia morrer sem ele.. .. e ele havia dito aos pais que.Ele foi jogado para fora do carro e morreu. Hailey.Nunca contei a ninguém além de Anna.. se eu rezasse muito. eles sabiam sobre mim e Vincent. E quando percebi o que havia feito.. Íamos fugir juntos. eu fui embora.Prairie disse em voz baixa. Quando disse que nunca curei ninguém que já havia morrido. Eu tinha dezesseis anos. Eu tinha algum dinheiro. diferente de Alice. . E a noite toda tudo que ele fez foi olhar pra frente sentado naquele banco de ônibus. . realmente.Tenho certeza de que ficaram nervosos. em vez de segui-lo na morte.. E diferente de você.Sofremos um acidente na noite de formatura . Eu não conseguia imaginar como ela suportava tocá-lo.Eu o amava. o suficiente para comprar roupas limpas e as passagens de ônibus. e planejávamos levar Clover conosco. .perguntei preocupada. Uma vida real. fugir. Eu curei Vincent. Havia sido prevenida sobre o que aconteceria. eu sabia que não devia fazer o que fiz. desejei estar morta também.. Deus teria piedade de mim e o deixaria vivo. Ela se aproximou de Vincent e tocou seu rosto. não isso.

De qualquer maneira.. E tenho certeza de que procuraram por nós durante algum tempo. todos o chamavam de Vincent. Para mim. Não havia mais ninguém ali..Espere.Não.Eles podem examiná-lo assim? Fazer experiências? . como você mesmo vai aprender um dia. porque eu estava tentando encontrar trabalho e um lugar para morar. não havia nada que eles pudessem fazer. Acho que os pais dele. aprendi a ser criativa.. o que não foi difícil. O médico sobre quem lhe falei . Depois de tanto tempo. tinha cortes e hematomas que não haviam sido curados. já que eu também estivera envolvida no acidente e. não que passasse o tempo todo comigo. Disse ao pessoal da recepção que meus pais não tinham documentos e eles me trataram como indigente. .. Gastei quase todo o dinheiro que me restava em um táxi e o levei ao pronto-socorro. a equipe da clínica ainda acha que Vincent tem uma séria desordem imunológica. imaginando como os pais do rapaz haviam se preocupado. ma eu consegui segui-lo sempre. . mas ele não ouvia os conselhos. Ele é um desconhecido. Ele nem olhou para mim. E convincente.. e eu só fiquei por ali o tempo suficiente para ouvir conversas e descobrir o que fariam com Vincent. E me certifiquei de que era o melhor. . Eu. depois desse tempo. na verdade. conforto.aquele que estuda o sistema imunológico . o que não foi fácil. Isso era o que pensavam dele. Pela infelicidade no olhar de Prairie eu soube que ela também havia pensado nisso.. Nem uma vez. e o submetem a testes freqüentemente... eles não souberam que vocês estavam juntos? .Eles devem ter ficado devastados . queriam que ele fosse para a faculdade.ele tinha muitos recursos. mas como usava uma pulseira com seu nome gravado. isso era um. . então o sentei em uma cadeira. Mas Vincent era maior de idade..Tecnicamente não já que ninguém jamais assinou uma autorização e eles nem tentaram encontrar a família. eu me mantive informada sobre seu paradeiro. e providências foram tomadas.180 protestaram.. Fingi estar procurando atendimento para mim mesma. eles continuavam sem saber o que acontecera com o filho.Eu o levei para um hospital.Para onde foram quando chegaram em Chicago? . diferente de Vincent. Legalmente. todos que sabiam sobre nós. simplesmente deduziram que havíamos fugido juntos. . Ela deu de ombros. se ainda estavam vivos. Um dos médicos no plantão do pronto-socorro era um jovem residente que estudava desordens do sistema imunológico. e ele não podia informá-los..Descobriram como manter a pele intacta e os órgãos funcionando durante .. quando há dinheiro envolvido muitas coisas se tornam possíveis. patrocínio. o melhor da cidade. Depois disso.eu disse.

Ela parou na frente da cama. na linha de visão de Vincent. . não sei se isso é pior. Sem nenhuma mudança de expressão. não deliberadamente.perguntei com a boca seca.A voz de Prairie era pesada. .Não pode ficar se culpando. . . Uma.. bata palmas três vezes. mas tudo que via era uma embalagem vazia. se é que ele enxergava alguma coisa.O que ele. Eu não suportava vê-Ia tão aborrecida. . . ele não os induziria. Preciso ter certeza de que isso não vai acontecer novamente. seja como for. Mas ela não parecia grata. mas eu não queria que Prairie soubesse quanto eu estava horrorizada. . Mesmo que Bryce consiga criar mais Curadores. ninguém. e é por esse motivo que tenho de deter Bryce. É irônico.. Eles trabalhavam em propósitos cruzados. . . Se as pessoas sabem o que acontece quando curam uma pessoa que já morreu.. .Eles estão pesquisando regeneração celular .Eu sabia. Depois ele deixou as mãos caírem sobre as cobertas. como separar contas e montar quebra-cabeça.. Veja isso. cheio de vida.O que os médicos daqui fazem com ele? .. Como devia ser para ela ver alguém amado ali. Você não podia saber. o que poderiam realizar. o homem na cama levantou as mãos e bateu uma contra a outra lentamente. Acho que devo gratidão a esses médicos. mantido vivo artificialmente? Tentei imaginá-Lo com a idade de Kaz. .Ele é muito bom com tarefas simples. . cheia de pesar e emoção.181 todo esse tempo.. Mas não se expressa verbalmente.Eu. rindo. . Os médicos ainda têm esperanças.. Mas nunca pude falar sobre um com o outro.perguntei.Mas como. elas jamais farão tal coisa. Eu não a culpava por isso. Sempre me perguntei o que aconteceria se os médicos se reunissem com Bryce. faz? . podemos dizer. três vezes. Prairie balançou a cabeça com imensa infelicidade. . ..Prairie respondeu. Vê-lo me causou um arrepio.Não se preocupe. E fiz o que fiz mesmo assim.Vincent..Milagres da ciência moderna.O organismo de Vincent reagiu bem. Seus olhos nunca focavam nada. duas..

Ela segurou meu pulso e me puxou para o lado. o zumbi que habitava as ruínas de seu corpo. . não se machuque! . não vão pensar duas vezes. se afastando dele com os olhos brilhantes pelas lágrimas que ela continha. e o lábio começava a inchar.E sem precisar de uma nova ordem. depois o outro.É possível carregá-los com explosivos e dar a ordem para se explodirem. as mãos abertas e firmes. e eles não vão hesitar. Isso é exatamente o que Bryce quer fazer. . e os dedos de Vincent se cerraram.Prairie me interrompeu com firmeza. mandá-los entrar em centros comerciais ou escolas. Hailey . aquela coisa chamada Vincent. Os Curadores serão só uma ferramenta. repousou as mãos sobre as cobertas. . como uma linha de montagem. coisas como essa. Prairie olhou para mim para ter certeza de que eu via aquilo e a dor nos olhos dela me atingiu como uma faca.ela disse com a voz embargada.Você não entende. Eu não entendia.. .ela sussurrou. . Prairie recusou. .gritei.Não . .Porque é possível mandá-los para a batalha. muito menos de que se incomodasse... Olhei para Vincent.ela cochichou.. não. Mas não havia nenhum sinal de que ele percebesse.Vincent..Sim.Mais força ... e Vincent começou imediatamente a estapear um lado do rosto. os sons dos tapas ecoando no quarto.Por quê? .Hailey . . até eu estar a poucos centímetros de Vincent. Uma dúzia deles.. pare. Vincent. e cada soco fazia sua cabeça balançar e virar. para seu olhar vazio. .Ninguém seria capaz.O que alguém pode querer com. colocados nos lugares apropriados.182 . Ele quer vendê-los pelo preço mais alto. bata em você mesmo . . . O rosto de Prairie ficou sombrio. mas ele ainda se batia. . poderiam pôr de joelhos as grandes cidades do mundo.Por favor.Pare! . Seu rosto exibia hematomas recentes e alguns cortes..cochichei horrorizada. para a baba que escorria num fio fino pelo canto de sua boca.

e muitas delas.. pensando nisso tudo agora. Estava sobre a mesa de Bryce. Nunca prestei muita atenção. para os inimigos dos Estados Unidos? . Ele não vai escolher os compradores. Hailey. . desde que paguem bem. havia pelo menos meia dúzia deles. Mas há corrupção em todos os níveis. é claro que não. pacientes psiquiátricos. E isso não é nem o começo..183 Mas Bryce não poderia. Eles tinham aquele ar militar.corpos mandados de volta para os familiares podem ser forjados.Os governos na lista travam batalhas no próprio território. ele não ousaria .. Matériaprima? Bryce teria de encontrar pessoas mortas há pouco tempo.. se queria fabricar zumbis em número suficiente para vender. Governos instáveis no exterior. não oficialmente. Soldados mortos em outros países . e eu tenho fortes razões para acreditar que sim.. . Havia alguém que chamavam de "o General”. Mas.. São extremistas.. eles.Eu vi. e costumávamos brincar com isso quando estávamos só nós ..Não. .Ele é inteligente.. Zumbis. Hailey.. sem teto. Prairie riu com amargura. Bryce costumava receber visitas de homens que pareciam ser oficiais. . Já cheguei a pensar que isso podia fazer parte do plano. vai ter acesso ao hospital dos veteranos... Vai encontrar pessoas de quem ninguém sentirá falta. . São tantas nessas condições que você nem pode imaginar. porque imaginei que eles tivessem alguma coisa a ver com nosso financiamento. é muito fácil perceber que eles já haviam integrado o exército. Hailey. enquanto os verdadeiros são desviados.. pessoas abandonadas pela família. .eu parei incapaz de encontrar a palavra certa.ou com o próprio povo. Eu vi a lista. Se ele conseguir ajuda do nosso governo.Mas por que eles o deixariam vender os.mas agora eu acho que esse homem era o principal contato de Bryce.Acha mesmo que nosso governo se envolveria em alguma coisa tão horrível? . estão em guerra uns contra os outros . .Mas onde ele conseguiria.. terroristas. algum patife do exército podia querer que eles se exterminassem.

Era demais. Mas agora eu sabia que me enganara. financiando esse estudo de horror. sem nem mesmo eles saberem. eu era uma das chaves para o sucesso desse plano.184 Terroristas. Um dia antes eu nunca teria acreditado que podia haver algo pior do que ser perseguida por assassinos. e essa coisa estava em mim. Havia algo muito pior. Especialmente quando se pensava que. . Agentes secretos atuando fora do controle do próprio governo.

Fui diretamente para o quarto de Kaz e fechei a porta..Chub gritou jogando a bola. Zumbis caminhando para a batalha.Quero dizer. .185 Capítulo 22 Quando chegamos em casa.O quarto é seu .. Locais públicos cheios de gente. Kaz estava no quintal com Chub. mas não consegui falar com ela.Hayee. olhando para o nada sem enxergar realmente.Você se importa se. Não sei quanto tempo fiquei ali tentando não pensar antes de ouvir as batidas delicadas na porta. a fala melhorando a cada dia. Vincent em uma cama de hospital.Posso entrar? Eu não podia impedir Kaz de entrar no próprio quarto. Anna estivera cozinhando. . Rascal depois de eu ter encontrado a bala e o empurrado para o chão. . dominados por uma confusão de fogo e explosões. Removi o travesseiro de cima do rosto. como havia prometido. olha. .respondi corando. ignorando as imagens e os sons da guerra. Kaz acenou rindo. . Ele abriu a porta hesitante e apontou para a cadeira em forma de saco no meio do quarto. mas não respondi. e me deitei na cama cobrindo o rosto com o travesseiro. jogando bola com ele. por isso me sentei e passei as mãos pelos cabelos. esperando não ter uma aparência tão ruim. e a casa tinha um cheiro maravilhoso. sua voz clara e distinta.Entre. Mas eu passei correndo por eles sem muito mais que um olá resmungado. . inerte e indiferente. impassíveis. eu deveria estar perguntando se . tentando bloquear as imagens da minha mente. olha! .

e eu me senti um pouco melhor. Mas eu nunca soube sobre. e olhou para mim.Fiz uma careta.Mas o resto? . Quer dizer. e fiquei meio surpreso. isso meio que define um zumbi. . .Bem. de um jeito com o qual eu não estava acostumada. . Quero dizer. há muito tempo. . percebi que havia algo de errado com ele.Mas. E quando a conheci pude perceber que você também é uma Curadora. Então pensei que era estranho que não pudesse curar seu cachorro.. Sabia que Prairie era capaz de curar animais.Ei. Não consigo entender como alguém pode fazer isso de propósito. Eu dei de ombros. ..186 você se incomoda... eu estava me acostumando com essa parte. Pelo menos a cura. Ah.O resto. bem. por mim tudo bem. Uau é muita coisa para. Seu dom... eu sabia que ele me obrigaria a acatar seu plano.A coisa dos zumbis. . Não consigo. Sinto muito. com exceção desse pequeno detalhe. ele realmente olhou para mim.. porque ela curou a pata do nosso gato uma vez quando ele caiu da janela. o que Prairie disse.Além do mais. essa coisa de mortos reanimados. porque se Bryce conseguisse me encontrar.. se você o visse. ... . você sabe.Mortos reanimados? .Sim.. Acho que ela não consegue dizer zumbi. . acho que é legal o que você consegue fazer. . . descobrir.. foi. Ele se sentou. até Prairie me contar agora há pouco....Não. Quero dizer.Você sabia? Sobre Rascal? .Prairie me falou sobre Vincent e tudo mais.. Ele sorriu para mim.Sim.. Kaz. . apoiou os braços fortes sobre os joelhos.Tentei pensar em um jeito de descrever o que eu sentia quase culpada por alguma coisa.. pode chamá-los pelo nome que quiser. acho que é. . carne em decomposição andando por aí...

me ajudando a levantar da cama.Como se um maluco furioso e assassino estava atrás de você. É algo que simplesmente acontece de vez em quando. e percebi que ele havia conseguido algo quase impossível. . não foi nada. . .E você? perguntei. Kaz balançou a cabeça.Às vezes. só quando algo realmente ruim vai acontecer. . e é como se houvesse uma segunda camada no meu campo de visão. mas então lembrei que ele havia crescido sabendo que era um Banido.. morta. mas decidi que esse tipo de capacidade deveria ser reservada para quando fosse de fato necessária.Também tem. e Chub havia conseguido encurralar o gato de Anna. então a visão acontece. . . . você não vai querer ter uma visão enquanto está dirigindo. Normalmente. por mais incrível que pareça. tudo que sinto é náusea.Mas eu não disse isso. imagens nebulosas que vão e voltam... uma experiência que o deixou com alguns arranhões nos braços e lágrimas nos olhos. não é assim que funciona. Eu vi alguns dias antes. Depois de tudo.Então. Prairie e Anna estavam envolvidas numa conversa muito séria quando eu saí do quarto. por exemplo. e ela encontrou uns trapos usados para limpar tinta da pintura das paredes.. do sepultamento de Rascal. Caso contrário. porque só assim se tornaria forte e auto-suficiente. quase como um quadro típico de enjôo provocado por movimento. Seria horrível. Chub ainda precisava conhecer os machucados e as dificuldades da infância.Por ter cuidado de.. Se eu fechar os olhos. Coisas assim. .187 Aquilo me surpreendeu.. Kaz esquentou meu prato no microondas. . Pensei em curar os ferimentos. . e fiz minha mãe ir lá ver o que estava acontecendo.Você perdeu o almoço. Como quando eu era criança e tive aquela visão da nossa garagem em chamas.. . Guardei um pouco de comida. Não se pode invocar a visão. Eles haviam pegado fogo em um canto da garagem.Pode ter deliberadamente uma visão de alguma coisa que quer ver? . e depois que terminei de comer.ele me animara. por exemplo.Sim. vi a mulher caída no chão de seu apartamento.Ah. . Sempre soubera. ânsia de vômito. Ou quando nossa vizinha teve um infarto.Obrigada . nós todos ..Kaz sorriu para mim. e tentava pegar o animal para abraçar. fico meio tonto. a tarde foi boa. você sabe.Por um minuto pensei que ele ia dizer mais alguma coisa sobre o assunto.. Tudo bem..falei. tem visões? . . mas ele se levantou e estendeu a mão na minha direção.Não.

Em vez disso. dizendo a mim mesma que teria muito tempo para me preocupar com ele mais tarde. acho melhor eu ir sozinha. acorde. bastões e uma sacola. mas que ela não queria revelar os detalhes para não me preocupar.. Prairie se aproximou de mim. .Kaz. mas quando chegamos em casa e eu dei banho em Chub e o pus na cama. Ele tentou me ensinar a jogar lacrosse. Só há um guarda de plantão aos sábados. como se nem houvesse dormido. . Estou pensando em esperar até ele ir ao banheiro. mas havia sido muito bom não pensar nesse assunto por algumas horas. ou alguma coisa parecida. e quando a noite já começava a cair. ela parecia completamente alerta.Você já enfrentou muitos problemas recentemente .disse ao me ver. eu havia conseguido esquecer tudo por algum tempo. tentei banir o assunto para o fundo da mente. e nós perdemos algumas bolas no meio dos arbustos do parque. seu rosto envolto pelas sombras e difícil de ver à luz da lua. Lavei o rosto antes de ir para a cozinha. Encontre-nos na cozinha. Quando nos dirigíamos a uma pizzaria sobre a qual Anna e Kaz falaram muito bem. com Chub aninhado na cama feita com cobertores ao meu lado.Quer que eu vá com você? . . devia tê-la deixado dormir. . Eu não discuti. Quando Kaz e Prairie entraram um minuto depois. havia sido a intenção de Prairie e Anna. Ela não parecia muito confiante. suspeitava. e demos migalhas de pão para os patos. . Acordei com alguém sacudindo meu braço. ..Era Kaz cochichando. o que. me senti repentinamente exausta.Temos um problema. e eu não queria abrir mão desse momento de paz. Empurramos Chub nos balanços. . . Talvez devesse argumentar. Imaginei que o plano era mais complexo. e de repente o cansaço me dominava. e mergulhei num sono profundo e sem sonhos.188 fomos para o parque levando uma bola.Ela tem o direito de ouvir o que vou dizer. e entrar com meu crachá eletrônico. Eu me levantei com cuidado para não acordar Chub. Deitei-me na cama de Kaz. Vou chamar Prairie.Vou ao laboratório amanhã cedo.Não. Não dormira muito nos últimos dias.Hailey. .

Não se trata do que ele estava fazendo.. .189 . . fazendo anotações ou escrevendo alguma coisa em seu laptop. Prairie.Elas precisam saber. Notei que Anna ficou tensa e lembrei que Kaz havia dito que suas visões sempre prenunciavam algo ruim..perguntei. gente ferida.O que ele estava fazendo? .. ..Sim. . .. Ferimentos graves. já ficando grisalhos aqui? .ela sussurrou. .. .Tive uma visão..O que é? .Eu o vi em um quarto. .Kaz apontou para as próprias têmporas. . o rosto subitamente pálido.O que é então? . . Ele tem estatura mediana? Cabelos castanhos.. Ou um alojamento? Havia pessoas nas camas.Prairie perguntou com voz aguda e tensa.O que estão todos fazendo. Parecia ser um quarto de motel. um instante antes de uma porta se abrir no corredor e Anna aparecer na cozinha.O que é? .. mãe . ele estava apenas sentado ali.Kaz anunciou...Bryce. Ele tem outra Curadora.. as pessoas estavam inconscientes. Prairie. .Sinto muito.O que você viu? .

Quem pode ser? . porque a visão aconteceu em saltos. de onde. . . daqueles para respiração. ah.. essa mulher. cantarolando ou falando.Anna perguntou depois de um momento.. é difícil dizer. eles se moviam. . eles acordavam .Acordavam? . .Sim. em primeiro lugar. e um deles tinha a cabeça raspada e o que parecia ser uma cicatriz recente. mas percebi que ela estava refletindo. ..Militares ..Deviam ser.Prairie respondeu.Kaz hesitou. Homens jovens. Não consegui ouvir. . outra curadora? . Ela os tocava.. . Isso foi tudo que eu vi.Como assim... passando de uma cena para outra. Ela tinha cabelo comprido. .. . abriam os olhos. A única questão é. Prairie ficou em silêncio. e gesso no corpo. Eram rapazes.Não consegui vê-la com muita nitidez.Quero dizer.. estavam inconscientes.E depois. nunca ouço nada quando tenho essas visões.Prairie repetiu angustiada. morrendo. Kaz demonstrou segurando o próprio rosto com as duas mãos..E a Curadora.Bem. mas depois.. e estava inclinada sobre os enfermos...E por que acha que ela os estava curando? . .190 Capítulo 23 .Não havia mais . .. punha as mãos sobre o rosto dos feridos. era óbvio que todos ali estavam. se sentavam. E outro tinha um tubo na boca.

então .insisti.. Você precisa destruir a pesquisa.E por que está falando em nós? .Não é isso.. .Não temos muito tempo .Ninguém .. .O que não é necessário.Não há nenhum nós. .. .. mãe? . .Clover está morta. Talvez um ou dois dias.Anna perguntou incisiva. não é muito grande.Isso não é necessário. . Não há mais ninguém. é? Kaz olhou de mim para Prairie.Anna reagiu.É possível que ainda tenhamos tempo . . . Não podemos permitir que ele a encontre. .. Até eu mesma me assustei ao ouvir essa declaração. Mamãe fica para cuidar de Chub.191 ninguém no seu vilarejo? Tem certeza? . . mãe? Dar ao chefe de Prairie todos os nomes que ele merece? Ela tem razão. Kaz? O intervalo de tempo entre as visões e os fatos previstos. Talvez.Prairie respondeu com veemência. . .Kaz .Vai cuidar dele. afinal.Kaz decidiu.Temos de ir agora. não podemos deixá-la criar zumbis.Não sei.Vamos nós três.Eu vou com ela . . não é. .As Curadoras devem ter saído da Polônia.Ela não pode fazer tudo isso sozinha.. Prairie precisamos detê-lo.Mas nós não. ele precisa ser detido. . ..Anna deduziu. Não consigo imaginar onde ele encontrou outra.Uma das nossas. Alice está arruinada. ... . empurrando a cadeira para longe da mesa para se levantar.Tudo que for necessário para deter aquele miserável. Hailey está aqui. menos. .Kaz repetiu. Mary está morta.insisti. .O que pretendem fazer? . Temos que destruir tudo.Eu vou ajudar .

Percebi que seu braço se movia com facilidade. Especialmente se estiver lá.Não posso pedir tanto .192 . . .ela respondeu.Kaz lembrou. . Ele contratou pessoas para seqüestrar Hailey. .Kaz a interrompeu com voz firme. Kaz. você me diz isso todos os dias desde que posso me lembrar. mas percebi que estava apenas tentando parecer forte. Não posso perder você.Não se eu tiver uma estratégia.É minha culpa se tudo isso aconteceu e. . . se estiver perto. . .reagiu o rapaz.Anna o censurou.Seu pai não está mais conosco. Eles matam quem os atrapalha.Prairie falou em voz baixa.Não diga bobagens .Anna . você não me educou para ser covarde.Você precisa de ajuda.Não se eu tiver um plano . .Não é bobagem . mas você não tentou impedi-lo de ir.Não pode ir sozinha.Esse homem é perigoso.Não pode ir! . . E eu o entendia: ninguém jamais me diria novamente o que fazer.eu anunciei.protestei. Eu posso ver coisas que vão acontecer... . mesmo com o curativo. Ele olhou para Anna. Precisamos destruir a pesquisa e deter esse homem.Eu entendo. Ela ergueu os ombros e os deixou cair. e tive a sensação de que ninguém seria capaz de dizer a ele o que fazer.. . Não vou deixá-Ia sozinha . . Não pode negar. Compreendi que ele não ia desistir.. . Kazimierz.Estratégia não basta . . . não posso.Meu pai foi para a guerra . .Prairie está certa. . Posso fazer a diferença.Mãe. tremendo de medo e raiva.Kaz acrescentou.Lá também havia morte.Vamos com você . ou com uma combinação dessas duas emoções. Meu pai era corajoso. Vou sozinha. Bryce a matará! .Prairie protestou.

. Bryce não se importava com os inocentes que tinha de tirar do caminho. . Depois ela olhou para Prairie novamente. e calçara um velho par de tênis que Anna lhe havia emprestado. Não se incomodava com todas as pessoas que tinham de morrer para que ele continuasse com sua pesquisa.Vou protegê-la como se fosse meu . Prairie também parecia hesitar. Kaz foi dirigindo. ao lado dele. Anna assentiu. ] . Kaz caminhou até a janela e olhou para a rua escura. aprender como usar nosso dom para transformar pessoas em zumbis. Depois de um longo momento.Prairie respondeu.O que você acha? .E Hailey também. recebernos em sua casa. Ele não ia parar. os braços cruzados sobre o peito. enquanto outras pessoas morriam. Tudo que esse homem tocava parecia resultar em morte. Kaz e eu havíamos vencido essa batalha.Prairie prometeu num sussurro. os olhos apertados numa expressão de alerta. . O que já fez por nós.Farei tudo que estiver ao meu alcance para voltarmos ilesos dessa missão. Vestida dessa maneira ela mais parecia uma colegial que aquela mulher elegante que eu vira pela primeira na cozinha da casa de minha avó.Podemos curá-lo .193 O rosto de Anna refletia uma agonia típica de mãe aflita. rezando para ela me entender. Anna me olhou com atenção. Hailey e eu. eu também estarei lá . A cozinha mergulhou no silêncio. Mas eu sabia. . Prairie ia no banco do passageiro. Ele queria me usar como um instrumento para matar. blusa de moletom. e não falava muito.ele vai estar seguro conosco. Kaz seguia sem dificuldades para a estrada que contornava o lago.disse a Prairie com urgência. a postura sugerindo que estava tenso e preparado.Não posso pedir mais nada a você . Anna assentiu devagar. . isso já é perigoso. Iríamos com Prairie. uma ferramenta para torná-lo mais forte. Sabia que Kaz não se deixaria dissuadir. Ela tinha razão.perguntou em voz baixa. mais rico e mais poderoso. Compreendi que a decisão havia sido tomada. Para esses zumbis matarem outras pessoas. E nós partimos. Ela prendera os cabelos num rabo de cavalo e vestira jeans. voltando pelo . . se Kaz for ferido. para poder estudar Prairie e me estudar.Se acontecer alguma coisa.

seu reflexo tremulando na superfície escura do lago. desejei repentinamente que o trajeto fosse mais longo.É possível. caso eu apareça. Eles não estão esperando um homem. .E eu? . de incerteza. clientes do restaurante tailandês e da lavanderia automática do outro lado da rua. mas o mais provável é que ele tenha colocado segurança extra no local. Éramos protegidos por uma fileira de árvores. E Bryce pode ter instruído o guarda .Kaz pediu. fechar todas as portas e atrair toda a equipe de segurança para o local. A menos que tenham contratado alguém novo.Deve ter um. Havia muitos carros no estacionamento. Quando voltou a abri-los. Pela força. A lua quase cheia pairava sobre a água bem perto do horizonte. é um homem idoso que gosta de cochilar no horário de serviço.Sozinho.perguntei. e o Civic estava parado sob galhos baixos que o escondiam. O crachá vai permitir nossa entrada na área principal do laboratório. Prairie fechou os olhos por um momento. Eu tenho que ir com você. . Mesmo assim. . havia neles uma sombra de dúvida. .Um guarda noturno. Atravessamos a ferrovia e eu vi o centro de Evanston diante de nós. . Prairie balançou a cabeça.perguntei.. Ela nos levou por uma região de casas antigas e simples que iam se tornando menores na medida em que nos afastávamos do lago. ele é perigoso.O dado está nos computadores no laboratório.Prairie apontou. .Vou dizer o que estou pensando . guarda no saguão . . . na área de segurança. Pode acionar o alarme. . . duvido que haja alguém lá dentro no meio da noite. .Deixe-me ir .194 mesmo caminho que havíamos percorrido na noite anterior. construções baixas e modernas. Porém.anunciou Prairie.. Quando chegamos em Evanston.Acha que Bryce pode estar lá dentro? .. e que tenha instruído os guardas para me deterem. se for necessário. Kaz fez como ela dizia e desligou o motor.. Prairie murmurou as instruções.Não.Estacione perto das lixeiras. No quarteirão seguinte havia vários prédios de escritórios. até serem praticamente chalés. .ela disse.Ali . Não me sentia preparada.

Telefone se vir alguém entrando no prédio depois de nós. enfim. Ou se tiver algum problema.. mas aposto que não mudou a senha de administrador de rede. É nossa única esperança. você sai. . talvez .disse. .195 para entrar em contato com ele antes de fazer qualquer outra coisa. Pensei que talvez pudesse fingir uma emergência qualquer.. .Eu vi.Como assim? . . Prairie parecia desconfortável... . Só preciso entrar e executar o programa de formatação do disco..O que vai fazer com os computadores? . qualquer pessoa. não sei ao certo.Bem.Quer que eu o distraia? . O número de Kaz está na agenda do aparelho .. não tem importância . Precisamos acreditar que Bryce nunca vai descobrir. . Assim que nós entrarmos. Tenho certeza de que ele mudou as fechaduras. diga ao guarda que se enganou. . Nós duas olhamos para ele.Não consigo pensar em nenhuma outra coisa.É de Anna.Kaz perguntou.Vai haver fogo. Paul me deu a senha junto com as chaves do prédio. . . Tive uma visão. . Pense em uma desculpa qualquer..perguntei. Saia de lá e espere por nós em algum lugar de onde possa ver o carro. Pressione e segure a tecla "3" e ele vai discar diretamente.Tenho acesso de administrador de rede a todos os servidores.Qual é a quantidade de dados armazenados? . alguma coisa como. não sei. Ela enfiou a mão no bolso e me deu um telefone celular.Porque vai levar horas para formatar um disco muito grande. esta noite vai acabar em fogo. . mas não via alternativa.Eu. faça o que for necessário.Kaz decidiu sua voz baixa traindo forte tensão... Não gostava da idéia de ficar para trás. se estivesse ferida..

.Mas isso é algo muito difícil de fazer . mas os dois praticamente completavam as frases um do outro.. E alguns eram simplesmente muito mais do que se podia esperar. Mas Prairie me interrompeu.Kaz deduziu. eu devia ter pensado nisso. Bryce nos fez trabalhar com sujeitos específicos.Para o alistamento militar . voluntários que diziam ter o poder de prever o futuro.Fogo? Oh.Trouxe uma coisa que peguei na garagem de casa . .Eu estava perdida. mas isso vai ajudar a propagar o fogo e.... .Você teve uma visão? .O que é? . E Bryce estava pesquisando maneiras de bloquear suas visões. Não quis dizer nada na frente da mamãe. Vão queimar.Como se o outro lado tivesse Videntes? Seria necessário bloquear as visões.Kaz revelou.Não. . . em todos os escritórios internos.Como é que é? .A única coisa que . .Para usar como acelerador. .As paredes. meu Deus. .196 Capítulo 24 . . o que estou querendo dizer é que as paredes são inflamáveis.Prairie concluiu. entende? Eu tinha certeza disso. porque ela teria enlouquecido se soubesse.. Videntes.perguntei. certo? Ou eles poderiam antecipar seu próximo movimento.. .

Ela me deixaria de castigo pelo resto da vida.Eu. sim. mas não para sairmos dele com vida. . E fósforos. . Fechei os olhos por um segundo e tentei esvaziar a mente de tudo que não fosse o que tinha de ser feito. eu pensei. Mas não conte nada a minha mãe.197 encontramos e parecia prejudicar um pouco esses sujeitos e suas visões foi ferro. Quando chegaram no prédio. quase invisíveis na escuridão. então ele encontrou um homem que conseguia inserir partículas de ferro em espuma de poliuretano. Havia chegado a hora.Perfeito para destruir o prédio. Saímos todos do carro. como se fossem atravessar a rua para o centro da cidade.Prairie suspirou.Prairie quis saber.Algumas latas de fluído para isqueiro e um pouco de solvente para tinta. a pedra vermelha era morna sob meus dedos. À esquerda havia uma fileira de elevadores. sabe? Aquele material que expande? O problema é que as paredes se tornaram cem vezes mais inflamáveis que madeira. batendo as mãos contra ela e empurrando com força. então ele contratou uma equipe para vir aplicar o material em um final de semana no outono passado. ótimo. . um senhor idoso vestindo uniforme marrom e lendo um jornal. e me viu correndo para o balcão.Que tipo de acelerador você trouxe? . A porta se abriu e eu entrei no saguão do edifício. Então.. Respirei fundo e toquei meu colar com a ponta dos dedos.Kaz a interrompeu. Eu fiquei para trás.Muito bem. .. seus olhos cheios de surpresa. não é? . atravessei o estacionamento correndo e me joguei contra a porta de vidro. Não tive tempo de olhar para Prairie e Kaz escondidos nas sombras. e Kaz ia levando sua mochila cheia de suprimentos. Eu me apoiei nele ofegante. eles continuaram em frente mantendo-se bem próximos da parede da frente. . .Isso é perfeito .. apoiada no automóvel enquanto eles caminhavam na direção do edifício. e à direita eu vi um balcão encurvado e um homem sentado atrás dele. Mas Bryce não podia colocar paredes de ferro no laboratório. Daquele tipo usado em sprays.. .Já havia pensado em tudo isso. Os dois andavam pela extremidade do estacionamento. . Ele levantou a cabeça.

Eles vão seguir a rotina normal . Porque quando minha mão passou por cima do balcão e tocou a lateral de seu pescoço delicadamente. . ao mesmo tempo.Preciso telefonar. até.. pode vir comigo? .gritei.. assim que eu.. soubera exatamente como fazer o que fiz. na violenta união de meus pais. Como um sono realmente profundo. estaria tudo perdido. recebera o dom diretamente da fonte que nos embebia de poder desde as primeiras Famílias. . se impusera ao seu circuito cerebral e o tirara de circulação temporariamente. por favor. visceral.Preciso. Acho que tem gente muito ferida.198 . . .Não há tempo! . de alguma forma. Desde que fora concebida. ele arregalou os olhos por um segundo e todo seu corpo ficou rígido. Eu não sabia que ia fazer o que fiz. Eu compreendia tudo isso de uma forma primitiva.. Depois. O que eu havia feito fora transmitir uma onda de energia relaxante que. atropelou alguém . . estava passando. de onde ela havia existido sempre.. Eu sabia que o guarda não estava morto ou mesmo ferido. como se ele houvesse encostado em um fio de alta tensão. Poderosa: a palavra soou em minha mente enquanto eu me afastava do balcão.era mais poderoso do que eu me permitira perceber..o homem disse com má vontade. Subiu na calçada perto do estacionamento.Sim.Agora eu estava gritando. E. O homem baixou o jornal mais devagar do que eu achava que a situação merecia.Preciso de ajuda! .Por favor! . . a polícia chegaria em pouco tempo.Um carro.. Se ele usasse o telefone para pedir ajuda.Sim. Maynard. dominada por um medo que me fazia abandonar a cautela. . e Prairie e Kaz não conseguiriam entrar no laboratório. O dom do qual eu havia duvidado... Como dormir. ele caiu sobre o balcão.Está dizendo que aconteceu um acidente lá fora? .. desde que eu nascera. tomava consciência da compreensão que fluía de algum lugar dentro de mim. ao qual eu resistira à habilidade que eu finalmente usara e reconhecera como minha . Mas isso foi tudo que ele conseguiu dizer. Li o nome dele no retângulo dourado preso à sua camisa...

pegou o guarda. Corri para alcançá-los antes que entrassem. . jogou-o sobre um ombro e se virou como se ele não pesasse nada. Falaremos sobre isso mais tarde. . Vou executar o programa de formatação do disco rígido. comecem a molhar os cantos da sala. Lá ele estará escondido. com estações de trabalho e monitores de última geração.Sua parte está feita por enquanto. Espere por nós. Segui em frente.Vamos deixá-lo na porta dos fundos. . Mas nós estaríamos sempre em. . . Eu não queria que nada acontecesse com ela.Prairie cochichou. Prairie acendeu as luzes e vi que estávamos em um amplo laboratório. Kaz hesitou só por um segundo antes de segurar a porta para mim. Hailey. perto das paredes. . ao ouvir o estalo metálico. Bryce continuaria nos perseguindo enquanto nos considerasse útil para o seu trabalho. a cabeça do guarda balançando contra as costas de Kaz. Depois de algumas curvas no corredor havia uma porta reforçada sem nenhuma identificação.Ela tem o direito de estar aqui . não se vai haver um incêndio. . .Tudo bem. a menos que terminássemos esse assunto..199 Ouvi a porta se abrir atrás de mim Kaz e Prairie entraram. Prairie havia acabado de entrar na minha vida.. Eu os vi seguir pelo corredor. não! . Tudo bem. .Eu vi . Depois lembrei.. empurrou a porta.Hailey.Kaz opinou quando eu já passava por ele. Vocês dois. além de aparelhos que eu nem conseguia identificar. Prairie passou pela fechadura seu crachá eletrônico e. Kaz correu para trás do balcão. Vá lá para fora. Segurei a mão de Prairie e a apertei com força. Ela me olhou nos olhos por um momento.Não podemos deixá-lo aqui.. Depois ela se virou para mim. e seguro. porque isso requer uma leitura de retina e tenho certeza de que minha identificação foi bloqueada. Prairie hesitou apenas por um instante antes de apontar para o corredor. e eu não queria perdê-la.Não vou voltar.disse Prairie. depois assentiu. Apenas assenti. perigo. Duvido que consiga entrar no servidor. Quando me viu. mas posso formatar a máquina da minha estação de trabalho.

Prairie apareceu no corredor seguida por outra pessoa. Começamos a trabalhar desviando de todo aquele equipamento. Bryce Safian . nem desenhos de crianças presos às paredes dos espaços delimitados por divisórias. Era como se as pessoas que ali trabalhavam nunca levassem nada de pessoal para o laboratório. Kaz recuou devagar. pesos para papel ou esculturas. jogando-a no chão.ele correu e se colocou entre Bryce e Prairie. e agora Bryce apontava a arma diretamente para seu peito. e no segundo seguinte ele segurou a própria mão. No início eu fui cuidadosa. além de um ou outro suéter esquecido nas cadeiras.um baque.ele disse. Kaz também ouviu o barulho. e diversas fileiras de caixas iluminadas com cabos de ligação dos mais variados calibres. ardia em meus olhos e me fazia tossir. Prairie desapareceu no final de um corredor do outro lado da sala. que me entregou. Quando Kaz agarrou a arma na mão de Bryce. notas adesivas e copos descartáveis de café. . Em seguida. Pensei ter ouvido alguma coisa . Kaz reagiu antes que eu pudesse interpretar a cena . O sangue escorria por entre seus dedos. . olhando um para o outro e tentando escutar alguma coisa além do zumbido constante e baixo dos equipamentos. A única coisa ausente ali era a presença humana . e Kaz abriu a mochila para retirar a lata de fluído. Mais cabos atravessavam o piso. Um homem de impressionante porte físico com cabelos castanhos e curtos e camisa social engomada. um grito sufocado.visível apenas nas pilhas de papel.200 Havia máquinas que pareciam robôs em vários estágios de montagem sobre plataformas. afastando mesas para me aproximar das paredes. nós dois corremos para a origem dos ruídos. e nós dois ficamos quietos. e a adrenalina invadia minhas veias. enquanto Prairie se levantava. O cheiro forte de substâncias químicas pairava no ar.Não vamos precisar de muito . ela disparou. Não havia fotos. nem plantas. Ele segurava uma arma contra as costas de Prairie. . E o som vinha do corredor por onde Prairie havia desaparecido.só podia ser. Ele havia sido ferido na mão. mas depois segui o exemplo de Kaz e comecei a empurrar as coisas que estavam no caminho. Mal havíamos entrado no corredor quando ouvimos um estrondo de metal e madeira e uma porta batendo contra a parede alguns metros à frente.Concentre-se na parede seca.

querida.. a energia vibrante que assinalava a necessidade de curar. . Kaz ergueu as mãos ensangüentadas como se pretendesse atacar Bryce.e eu já deveria saber. me estudou por um instante.eu disse.Vocês todos perdem sangue normalmente . E eu sei que não pode curar seu amigo sem tocá-lo. batendo com a mão na testa e fingindo se preocupar.. vindo de você. é isso mesmo.Não tem vergonha. Isto é. um som profundo e reverberante. realmente. Sabia .Isso é muito engraçado. eu poderia ser seu Tio Bryce.. como mataria qualquer ser humano normal.ele me disse.que sua tia tem anormalidades cromossômicas tão severas que. Hailey. A mão que empunhava o revólver era firme. . .Eu não devia ter dito isso.Não se preocupe com ele .ele continuou. depois para Kaz novamente. . Olhei para Prairie. humano. Jamais a vira tão zangada. é você quem merece essa descrição.Foi bom eu ter decidido vir dar uma olhada em tudo no laboratório quando soube que meus empregados haviam deixado você escapar outra vez. ela não poderia estar viva em nenhuma condição conhecida pela ciência? . Deficiências. E presumo que perder sangue em quantidade suficiente pode matá-los.. .ele acrescentou. Estava pensando em pedir sua tia em casamento.Não tenha nenhuma ideia brilhante .. -Você não tem caráter. exibindo uma expressão cruel e calculista que não era muito diferente de como minha avó costumava me olhar quando pensava que Dun ou outro de seus clientes havia dito alguma coisa engraçada. Ele sorriu. tecnicamente. Incrível. Bryce seguiu a direção do meu olhar.Você deve ser Hailey. olhando mais uma vez para mim . Sabe. se as coisas fossem diferentes. . mas ele brandiu a arma apontando para Prairie. Bryce riu. também . podemos dizer. Eu já sentia o formigamento.têm as mesmas. Pode me chamar de Bryce. Sua ingenuidade é impressionante.Ele não é digno do seu tempo. considerando que você . . . vendo o sangue de Kaz pingar no chão.. Eu sou Bryce Safian.201 O homem olhou para mim. Não é . ameaçando-os. . Sim.Oh.Sua mão. até ela deixar claro que havia entre nós profundas diferenças de caráter. . Na minha opinião. . céus . considerando todos os testes que realizamos aqui.O sorriso dele tornou-se mais largo. . .Prairie disparou.Bryce falou com desdém.e seu jovem amigo aqui. depois relaxou.

realmente.202 Não conseguia desviar os olhos da mão ferida de Kaz. Não é isso.Bryce continuou. Bryce planejava me manter viva. a visão de Kaz havia sido real. Não foi essa a ordem recebida. encostar as mãos neles para sentir minha energia fluindo de meus dedos para o corpo de cada um. . Meus dedos pulsavam com a compulsão de tocar a mão dele. na verdade . surpreendendo-me com sua fúria.. Ela não é tão bonita. .É meio divertido. divertida. Eu o protegerei como se fosse meu.muito cooperativa.Prairie anunciou. quanto idealismo! . e não vai poder lutar contra isso. se quiser. e duvido que seja tão. Vá em frente. Bryce encontrara outra curadora. e um soluço sufocado morreu em sua garganta.Se você conseguisse chegar perto do garotão aqui.Você não sabe o que está fazendo . eu não poderia curá-lo. encontrar o ferimento e deixar minha energia fluir por ele. . . Prairie. os dois são tudo de que necessito para concluir o trabalho. raio de sol? . Mas eu não podia alcançá-lo. Meu coração ficou pesado quando percebi que todo aquele trabalho podia ter sido em vão. Encontrei alguém.Pode atirar em mim.. considerando que se tornou uma. por isso só precisaria continuar fazendo muitos buracos nele. mas eu sei! Quem está fazendo testes há meses? Hmrnm? Ouso dizer que tenho conhecimento íntimo sobre como funcionam esses poderes especiais. mas ele não tinha a intenção de manter Prairie ou Kaz por perto.. Então. Rascal.Oh. digamos. acredito que poderia ferir seu jovem amigo aqui com gravidade suficiente para obrigá-la a fazer uma escolha muito difícil. Sua nova namorada nunca vai criar zumbis para você.. Prairie? Ela parecia devastada. sem demonstrar nenhum medo. É uma pena. que você não possa ficar para dividir a glória. eu o desafio. sabe? De fato. Chub.Ah.Não tem importância .Bryce continuou com um sorriso preguiçoso. e a trancara ali como pretendia me manter cativa. Ela deu um passo na direção de Bryce. Bryce riu os olhos iluminados por um humor genuíno.Não preciso mais de você..Não vai viver tanto tempo . Senti que o desespero superava a determinação que me havia impelido na noite anterior. hóspede permanente neste laboratório. . Bryce jamais permitiria. . E agora que tenho Hailey. E sem tocá-lo. provavelmente o curaria.Prairie resmungou. Lembrei da promessa que ela fizera a Anna. Mas é cooperativa . Milla. . mas eu tenho muitas balas.. . Eu tivera de tocá-los. Tem alguma dúvida sobre quem venceria o jogo.

. quando conseguiram rastrear a verdadeira identidade de Prairie.. chegando mais perto de Prairie. bem. tentando derrubá-lo. Alguém se dispunha a criar a oportunidade perfeita para meus homens irem pegá-la. . Um murmúrio começou nos meus ouvidos e progrediu rapidamente para um rugido.Soubesse o quê? .. . Seus homens mortos.Os homens que contratou . que não só não sentiria sua falta. Se você soubesse. . uma cena à qual assisti quase em câmera lenta. De repente Kaz deu um salto para frente. Balancei a cabeça e sussurrei um "não" desesperado. mas. Hailey .Bryce anunciou incapaz de disfarçar a satisfação em sua voz. . Ah.Sua avó. exatamente. e eu vi a incerteza brilhando nos olhos dela. descrever um arco no ar e bater contra a parede provocando um spray de sangue.203 É renovador. eles encontraram um aliado inesperado.Onde acha que encontrei sua sobrinha? Prairie hesitou. e depois ouvi o tiro e vi a mão ferida de Kaz se mover. Ela a vendeu por cinco mil dólares e uma passagem para a Irlanda. Bryce gargalhou. Sempre amei essa sua característica. .. e ele cometeu um erro de cálculo. sem querer ser indelicado. nós providenciaríamos alguém da sua espécie.Alice Tarbell.. mas de repente sabia de quem. por um preço.. Alguém que se dispunha a nos dizer tudo que sempre quisemos saber sobre você. ele estava falando. e pela promessa de que . . Mas o ferimento havia enfraquecido Kaz. como também tomaria providências para que ninguém mais sentisse.arrisquei.Seus homens. pequena Hailey. . Bryce deu um passo para o lado e apertou o gatilho.. prometi que quando chegasse a hora de você procriar..Isso é tão divertido para mim! Porque. atirando-se contra o tronco de Bryce.

Um arranjo interessante. Mas Bryce me surpreendeu. sem emitir nenhum som. Fique onde está. Dei um passo na direção dela.Eu disse que poderíamos fazer tudo isso por bem. seguida por intensa vergonha.. não acha? Vai ser fascinante estudar essa resistência natural dos Curadores ao dom de seus semelhantes. o rosto muito pálido enquanto ele tentava apertar com a mão ilesa o braço ferido. apoiada contra a parede. Uma forte onda de náusea brotou do meu estômago. Quero dizer. Estou ansioso por essa pesquisa. percebi que ela enrijecia os músculos com a evidente intenção de atacá-lo. . Prairie. Eu agora podia ver que o ferimento na mão era grave. os dedos ensangüentados se dobravam formando ângulos estranhos. Prairie estava a centímetros de Bryce. mas Bryce ergueu o braço e apontou a arma para mim. o indicador pendia por uma fina tira de pele. mas também sabia que ela não se importava com isso. mas Bryce bateu com a coronha do revólver sob seu queixo e a jogou contra a parede enquanto Kaz caía no chão.como podia ser tão fraca? Prairie estendeu a mão para Kaz.. procurando estancar o sangue com os dedos acima do ferimento. e esperou ouvir o som do tiro enquanto um grito silencioso se formava em meu peito. . Vi quando ela atacou. Hailey. Eu devia ser uma Curadora . antes de o sangue começar a verter por ele. Eliz.204 Capitulo 25 O buraco no braço de Kaz permaneceu limpo e redondo por um segundo. Balancei a cabeça e tentei formar a palavra não com os lábios. Talvez deva lembrar que sua tia não vai poder fazer nada se você se machucar. porque sabia que Bryce a mataria. e no segundo em que ele se virou. ou por mal. Bryce suspirou.

à sua maneira. Era uma mistura de anseio e desafio. A diferença é que agora a vida dele dependia disso. No segundo em que os olhos encontraram os meus eu senti novamente. que eu sentia como se meu coração pudesse se partir em mil pedaços. tão perigoso quanto irresistível. mas naquele segundo percebi que Bryce também a amara. uma ligação que nos tornava muito mais fortes do que poderíamos ser sozinhos. A bala devia ter atingido alguma estrutura muito importante. e pela primeira vez vi a incerteza em seus olhos. Não percebi que ia acontecer até cair no chão aos pés de Prairie. e a quantidade de sangue que brotava de seu braço era chocante. aquela conexão que havia notado quando ele tocou minha mão pela primeira vez. pulsando em todos os nervos e se estendendo para a ponta dos dedos. Bryce gritou alguma . Minha respiração foi perdendo intensidade até quase desaparecer. mas se ajoelhou ao lado de Prairie para sentir sua pulsação. mas era tudo tão lindo. Se ao menos houvesse uma maneira de usar essa fraqueza contra ele! Olhei para Kaz.e ele atendeu ao meu comando mental. E percebi que o amor era. o rosto contorcido pela dor. Eu caí. O velho laço de sangue não existia ali. Tinha alguma coisa parecida com o jeito como Rattler havia olhado para ela. A vida de todos nós. exceto do dom que era parte de minha herança de sangue. como se tudo desaparecesse contraposto à força daquele elo entre nós. Quando ele olhou para mim e para Kaz. Mas ele não a matou. Ele tinha os olhos fechados. e senti meus batimentos cardíacos mais lentos. Privada de oxigênio comecei a perder a visão e senti meus pulmões clamando por ar. tão delicado e intenso. seus ferimentos. Pude perceber que ele começava a perder o equilíbrio. Alguma coisa aconteceu também com minha visão. atingindo-a acima da têmpora.Não pense que não vou gostar de matá-la lentamente . Eu o induzi a abrir os olhos e me encarar . substituídos por um halo tremulante e incerto. mas agora nós dois sabíamos que ele tinha uma fraqueza. e não havia nada além de mim e Kaz. no mínimo. havia algo em sua expressão que eu reconheci. e meu desejo de tocar Kaz.Bryce manifestou-se. . seus lábios se entreabriram. era irresistível. Ele mantinha o revólver apontado para mim. os limites desapareceram. O suficiente para não ter atirado nela. Fitei seus olhos com toda profundidade de que era capaz e tentei me desligar de tudo. A necessidade de curá-lo se ergueu dentro de mim como uma onda quente e envolvente.205 Ele bateu com a coronha do revólver contra a cabeça dela. e Prairie caiu como um fantoche com as cordas cortadas. Os olhos de Kaz tremularam.

Precisamos tomar medidas de precaução. segurando-a com o braço dobrado enquanto removia a tampa.Vá.206 coisa e desviou o revólver que mantinha apontado para Prairie. vendo o brilho das chamas se tornarem cada vez mais intensas. O cheiro me atingiu como um soco quando ele sacudiu a lata sobre Bryce. cujo braço ferido já começava a melhorar. mas foi repentinamente puxado para cima. Kaz mexia na mochila que ficara aberta no chão.. ensopando suas roupas e lavando seu rosto com o líquido claro.Não espere por mim . Bryce levou as mãos aos olhos e começou a gritar um urro de raiva que se transformou em terror quando Kaz riscou um fósforo.Você não tem muito tempo .ou se me mataria. . leve-a com você. Eu havia finalmente recuperado a voz. O suficiente. Eu cuido de Prairie até você voltar. Deus. Havia sido Kaz.. Levei um segundo para compreender que Kaz o havia empurrado que conseguira reunir a energia necessária. Bryce se chocou contra mim com muita força. . mas manter-me viva em seu laboratório . . arrastando Prairie comigo. e estava caído em cima de mim. me perguntando onde ele me acertaria.ele disse com urgência. Verifique o servidor. Eu tentei. tentando adivinhar se preferiria me aleijar apenas. Mas sabia que não podia fazer nada por ela agora. não podia despertá-la. arrancado de sobre mim e jogado contra a parede. retirando dela a última lata de fluido para isqueiro. mas Bryce era pesado demais. caso nem tudo seja destruído pelo fogo. mas o suficiente. já correndo para aporta. Kaz. Kaz.Kaz gritou. porque eu o curara. porque era difícil curar sem tocar alguém. cujo braço ileso ainda era muito forte. tentando alcançar Prairie. . lançar mão de uma última reserva de força. virando-o na minha direção. não com perfeição. Muitos gritos. Não podia curá-la. Afastei-me da bola de fogo em que Bryce se transformara.Afaste-se. expulsando o ar que ainda havia em meus pulmões. Eu o empurrei com toda força que tinha e consegui rolar para o lado. onde estaria a arma? Ele ainda tinha o revólver. e ela se juntava a de Bryce. Então. Kaz chutou Bryce e a arma voou da mão dele para o corredor. para atacar de onde estava apoiado à parede. certifiquese de que ela conseguiu começar a formatação. . Eu me preparei para sentir o impacto da bala. afaste-se dele . Kaz segurou meu braço e me pôs em pé.eu disse. e ele rolou para a porta por onde havia entrado. quase me matando com seus joelhos e cotovelos e. Os gritos de Bryce se tornaram um horrível uivo de dor.

se pudesse. Esvaziei a lata de fluído para isqueiro em torno do equipamento e me virei para sair. a empurrei. menor que as outras. Devia ser o suficiente. Corri para fora da sala. e eu soube que ele não partiria. e números brilhantes rolavam pela tela do único monitor sobre a mesa numa velocidade vertiginosa. com um visor instalado na parede ao lado dela. Não tinha uma rama. escapar do incêndio. O medo invadiu meu corpo. Mais dados? Equipamento específico? De repente eu lembrei o que ele havia falado: ela se tornou hóspede permanente neste laboratório.207 Mas nosso olhos se encontraram e uma energia sombria foi transmitida nesse olhar demorado. A última coisa que vi foi Kaz se abaixando ao lado de Prairie. A fumaça me seguia na forma de nuvens escuras. como aquela do laboratório principal. correr de volta para Prairie e Kaz. Era uma porta pesada. salvá-la da morte. e ainda corria quando percebi uma porta na outra parede da sala do servidor. sem pensar. Eu também não teria ido.estava aprisionada em algum lugar perto dali.os dados eram apagados do disco rígido. Sua nova Curadora . Mas a porta estava trancada. Ali ainda era frio e escuro. puxando a camisa sobre a boca. reforçada. Eu hesitei. e eu soube que o fogo devia estar se alastrando na sala principal. Já era hora de termos uma boa notícia. e rezei para que houvesse ar suficiente para eles. Eu precisava encontrá-la e tirá-la do prédio em chamas. O fogo ardia. A porta se abriu e eu entrei na sala do servidor. Um grito começou a se formar em minha garganta e explodiu com o desespero de . e aquele era o único local que não havíamos examinado. não tinha mais nem uma gota de fluído para isqueiro. desapareciam como se nunca houvessem existido. pesadas e gordurosas. mas tirei do bolso o crachá eletrônico e o aproximei do visor com o painel eletrônico. Prairie havia conseguido . porque o fogo não chegara àquele local. Havia além dela alguma coisa suficientemente importante para Bryce tê-la trancado em local isolado. Ouvi o clique da porta se abrindo e. e os dados eram apagados. O que vi do outro lado me causou um horror tão profundo que eu quase corri de volta para o fogo. para me reunir a eles e tentar fugir do prédio.

e a náusea subiu do estômago até minha garganta. Lá dentro. como se as almas daqueles homens houvessem sido sugadas pelas órbitas. liberando fluidos corporais. por isso era possível ver a carne inchada e se separando dos ossos em seus pés. tomada de assalto por uma segunda onda de náusea. O que estava mais perto de mim tinha a camiseta manchada e. O pior de tudo eram os olhos. Eles eram zumbis. todos com os braços estendidos. eles se levantaram e começaram a andar na minha direção. Tentei correr. eu vi uma dúzia de homens imóveis vestindo calça cáqui e camiseta comum. Todos viraram a cabeça lentamente na minha direção. Eles estavam em decomposição.meu cérebro aterrorizado não conseguia controlar meus movimentos. ameaçando afogar minha consciência. E vinham atrás de mim. . Entendi que aqueles não eram homens comuns.208 um animal enjaulado. Pisquei para reduzir o ardor da fumaça em meus olhos e engoli o ar tóxico. Alguns daqueles homens não usavam sapatos. O tom de pele variava do branco gesso ao cinza. pior do que todos que eu já sentira. Em seguida registrei o cheiro. Um a um. percebi que seu peito vazava. mas havia também os que estavam roxos. enchendo meus pulmões com ele. apesar do pânico eletrizante estimular todas as minhas terminações nervosas e a adrenalina inundar meu organismo. e em alguns casos a pele já se desprendia dos ossos. mas minhas pernas não funcionavam . sentados em cadeiras dobráveis. Vazios.

O cheiro era tão forte que quase sufoquei tentando não vomitar. Respirei o cheiro de podre e meus gritos se transformaram em expressões de fúria. os dedos tentando encontrar meus olhos. . mas eram muitos. Eu gritei e empurrei aquelas mãos mortas. e pisei com força nos pés mais próximos dos meus. puxando meu cabelo. a boca aberta e o queixo caído. Eles estavam cobertos de sujeira e fuligem. Virei e corri para a porta. já rouca. me deixando sem ar. e ouvi um som repugnante quando o dedo se desprendeu da mão. Meus dedos se fecharam em torno de um dedo e eu investi toda minha força na luta. cuspi e continuei gritando. Uma das mãos cobriu meu rosto. as gengivas haviam recuado e se desprendido dos dentes. mais alto. escorregadia e flácida. mas não antes de ver que as órbitas de seus olhos transbordavam carne podre e solta. quando minhas mãos tocaram a carne úmida. e a pele que cobria suas mãos havia começado a se soltar dos ossos. Mordi forte. Mordi a mão que me sufocava. Gritei e recuei. Fui puxada para trás e percebi que o zumbi não havia sido enfraquecido pelo processo de decomposição. todos com as mãos estendidas. e percebi que todos convergiam na minha direção. Mas o zumbi mais próximo surgiu na minha frente. e seus dedos roçaram meu braço. mas eram muitos. e mais uma. Outra mão macabra agarrou meu pescoço e me virou. Outra mão substituiu à primeira. mas ele conseguiu me agarrar pela camisa. enquanto eu lutava para me livrar de todos os corpos que se aglomeravam à minha volta. apertou meu nariz e a boca. e os cabelos cobriam a cabeça em tufos irregulares.209 Capítulo 26 Por um momento não consegui me mover. as pernas ainda paralisadas pelo choque. Gritei novamente.

e Kaz agarrou minha mão e nós voltamos correndo pelo corredor enfumaçado. . Usei toda minha energia para chutar e arranhar. mais como uma prece do que como uma afirmação. Consegui libertar meus braços quando chutei as pernas do último zumbi.destruir todos menos Bryce deduzi. Brandindo-a na frente do corpo. Eu.eu disse. impressionante. empurraram. Ele hesitou só por um segundo. Há quanto tempo ele construía aquele exército em decomposição? A julgar pelo estado dos corpos. e só quando os últimos tecidos apodrecessem. e nós dois caímos contra a porta quando eu a puxei com força e fechei. eles estariam realmente mortos. e depois pegou uma das cadeiras dobráveis. . Talvez mais.Estão trancados lá dentro . . mas a fúria me mantinha lutando. Agora as chamas lambiam o chão. e eu soube que o fogo atingiria a sala do servidor em . com precisão fatal e a força de todos os músculos desenvolvidos e condicionados. Meus dedos encontraram carne. Os que haviam sido empurrados para longe agora se levantavam do chão e caminhavam para Kaz. Semanas. torceriam e quebrariam meus membros e me jogariam no chão para pisotear a vida para fora do meu corpo. . Seus corpos patéticos seguiriam se movendo até toda carne se desfazer e eles não serem mais que esqueletos. e Kaz os atacou com a cadeira. se Bryce estivera trabalhando em métodos para retardá-la. por alguma razão desprovidos do instinto para me cercarem e atacarem pelas costas. e tropeçavam uns nos outros e hesitavam. há dias.Kaz surgiu na porta atrás de mim. Ele arremessou a cadeira contra os zumbis que avançavam.gritei. derrubando-o. até. eles apertariam meu pescoço e me deixariam sem ar. observando a cena. a expressão do rosto inalterada. agarrando o braço de Kaz e puxando-o para a porta. e eu compreendi que tinha apenas alguns segundos até eles se adaptarem à nova ameaça. Eles eram lentos para se ajustar às mudanças de circunstâncias. considerando o que Prairie me dissera sobre a decomposição ocorrer mais lentamente. Eu ia morrer. e eu insisti na difícil resistência mesmo quando eles encontraram tecidos podres. Os zumbis haviam recebido a ordem para me matar . derrubando vários deles.Hailey! . Kaz afastou os zumbis. perseguindo os que ainda restavam em pé e repetindo os golpes com força redobrada.210 Eu ia morrer. Eu sabia que não podia matá-los. lutaram.Agora. Uma a uma. Eles se aglomeraram na minha frente. as mãos foram se afastando de mim. as mãos agarrando o ar. Ele batia com a cadeira como eu o vira bater com o taco de lacrasse. por outro lado. morreria como morrem os humanos.

e eu vi Prairie caída e inconsciente ao lado do balcão onde o guarda estivera lendo seu jornal. para o prédio. repentinamente. a cabeça virada para o lado sobre o braço estendido.Ela vai ficar bem? . e eu soube que não voltaríamos a falar sobre a curadora. tentando expulsar a fumaça dos pulmões.Precisamos correr .211 poucos segundos. Prairie gemeu baixinho e se moveu nos braços de Kaz. estaríamos perdidos.Prairie.Kaz me orientou.gemi.. e depois estendemos as mãos para as paredes e nos orientamos assim. cercada pelas horríveis criaturas que ela fora forçada a criar. que eu soube que não havia esperança. Enchi os pulmões de ar pela última vez e o retive. onde as chamas agora saíam por todas as janelas. se nossas roupas pegassem fogo.Kaz conseguiu dizer.ele disse.. A curadora morreria sozinha e em agonia.perguntei com voz rouca e arfante. Kaz agarrou meu braço e me puxou para longe do prédio.Precisamos nos apressar .ele repetiu. . .Tente não respirar até sairmos daqui. e nós corremos juntos até não podermos enxergar através da fumaça. e quando o segui para além da porta principal e para o ar frio da noite. . Kaz também as ouviu. Ela parecia morta. . .Eu vou tirá-la daqui . . e meu coração parou de bater por um instante. para a sombra das árvores enfileiradas na rua. . minha voz sufocada pela fumaça. Senti as chamas me lambendo e soube que. Eu tossi. irrompemos no saguão onde a fumaça era mais fina. Antes que pudesse recuperar o fôlego. em algum lugar! Foi quando ouvi as sirenes se aproximando. seguindo por corredores até atravessarmos o fogo.Ela continua presa lá dentro. e então. . Quando acomodamos Prairie no banco de trás. respirei com avidez o ar fresco e puro. viaturas da polícia e dos . .E a curadora? .Levei-a para o saguão . jogando-a sobre um ombro como havia feito com o guarda anteriormente. Ele olhou para trás. Depois olhou para mim com tamanho sofrimento nos olhos.

212 bombeiros percorriam as ruas em alta velocidade se aproximando do laboratório. Eu dei as costas para o edifício em chamas e olhei pelo para-brisa para a noite fria. . Kaz já pisava no acelerador para nos tirar dali.

Os ferimentos de Kaz agora pareciam apenas arranhões superficiais. Equipes de emergência se reuniram no local.São os sapatos dele. Mas ela escutara tudo que os âncoras dos telejornais haviam divulgado. mas como eu já havia testemunhado como ela se curara do tiro. Anna ouviu uma versão muito resumida. Por um acordo tácito. e sabia que jamais seria capaz de esquecer a sensação dos meus dedos penetrando na carne decomposta das criaturas. Ela tinha um hematoma na cabeça. não me preocupei.É ele . porque as lembranças dos eventos daquela noite terminavam no sanduíche que comera no intervalo do jantar. que se transformara em um inferno que destruiria completamente todo o prédio. Ainda sentia as mãos moles e frias em mim. O outro sobrevivente fora retirado do prédio em uma maca. e descreveu como conseguíramos escapar. Ele não conseguiu dar detalhes sobre o começo do incêndio. Eu ainda não conseguia falar sobre o assunto. quando viu pela televisão os médicos carregando a maca para uma ambulância parada perto dali. . e nesse momento os trabalhadores tentavam salvar os prédios vizinhos.213 Capítulo 27 Prairie despertou pouco antes de chegarmos em casa. . Havia dois sobreviventes: o guarda de segurança fora encontrado vagando pelo fundo do edifício. E não mencionamos os zumbis. . e o buraco em seu braço se fechara. e chorou aliviada ao constatar que havíamos escapado do incêndio. Kaz a informou sobre tudo que havíamos descoberto no quarto atrás do laboratório.Prairie disse na primeira vez. tonto e desorientado. E nenhum de nos conseguia desviar os olhos da tela. mas sem nenhum outro ferimento. por isso não contamos a ela sobre a verdadeira extensão dos ferimentos. ficara decidido que a pouparíamos dos piores detalhes. suas mãos funcionavam normalmente. Vimos a mesma cena várias cenas pela televisão.

especialmente porque os "detalhes inusitados" sobre o laboratório sugeriam que ali era realizada importante pesquisa científica com recursos fornecidos pela universidade. mas permanecera no pé de Bryce. Esquecemos seu .Conforme previsto parece que o edifício está completamente. Um momento depois. . a voz do âncora interrompeu a transmissão. rezando para que estivesse certa. mas nós duas sabíamos que era uma pergunta.o repórter anunciou com tom sigiloso. era evidente. ela ficou tensa. queridos telespectadores .sussurrei.. Anna preparou um prato de sanduíches e os colocou sobre a mesa enquanto os primeiros raios rosados tingiam o céu lá fora. e era evidente que a calça fora destruída pelo fogo.ele disse. A carne enegrecida da perna de Bryce ficou visível assim que a câmera o focalizou. Ela assentiu.disse. anunciando a chegada de um novo dia.. ajeitando o cobertor que nos cobria. .. . mas ninguém tocou neles. incapaz de esconder a animação. para que os zumbis queimassem como todas as outras criaturas.214 Mas só havia um pé. E tentando não pensar na Curadora presa lá dentro. Quando eu começava a cochilar com a cabeça apoiada em Prairie. vejam aquilo! Todos nos inclinamos para frente quando o prédio desmoronou em câmera lenta. Talvez alguns fragmentos de ossos. Bebemos café forte enquanto assistíamos ao jornal.Queimaduras em mais de oitenta por cento do corpo . se o amanhecer não se tornaria uma imagem comum para mim. Eu me perguntava se conseguiria voltar a dormir algum dia. A história geraria material para os jornais por alguns dias. Um mocassim de couro que havia descascado e formado bolhas no calor do incêndio.Eles devem estar mortos . meu Deus.Esquecemos .. nada mais será encontrado quando o fogo for debelado. Eu assenti e me aproximei um pouco mais dela. Oh. embora ninguém ainda houvesse confirmado essa informação. . sem esconder a excitação. porém. Segurei a mão de Prairie.Foi anunciado que a temperatura ultrapassou os quinhentos graus. os pisos superiores se desmanchando como um modelo de papel machê. . E agora isso. O outro pé estava descalço. .Lá está.

Kaz já estava se levantando. aço e vidro.215 apartamento. e havia também o laptop de Bryce. onde destruiríamos o laptop também. o segurança assentiu e sorriu para Prairie.Está exausto. Ele levara a mochila. e mal falamos durante todo o tempo. mas imagino que tenhamos de nos garantir. Mas não havia mais em nós a energia de antes. exceto quando Prairie dava uma ou outra orientação com relação ao trajeto. . Temos que ir lá para destruir todos os documentos e backups. provavelmente vai morrer.Amo você. A discussão foi encerrada quando Kaz abraçou Anna com força.E vamos voltar inteiros. . Planejávamos rasgar os documentos assim que voltássemos para a casa de Anna. Prairie se aproximou de mim. . o bastante para eu poder ver as linhas finas em torno de seus olhos. Anna tentou puxá-lo de volta. embora não houvesse lá mais nada que pudesse nos atingir. mas havia listas manuscritas. mas dessa vez a usaríamos para tirar coisas do apartamento e levá-las conosco. Não sei realmente o que há nesses papéis. Quando nos aproximamos dos elevadores. o final de uma jornada que fora marcada por ganhos e perdas. afinal? .O que há nos documentos.Kaz perguntou quando saímos do carro.Agora não . Encontramos uma vaga em uma rua movimentada. Prairie havia dito que tudo que precisávamos pegar estava em uma gaveta de arquivo.Até onde sei. Ele a reconhecia de suas visitas anteriores era óbvio. Bryce está no hospital. Mas ela não vira os zumbis. O prédio de apartamentos tinha poucos anos. . Eu ergui o corpo. O trajeto e volta a Evanston foi ainda mais difícil do que na primeira vez. Aquela era uma viagem triste. . . e Kaz manobrou o automóvel para encaixá-lo no espaço reduzido. como aquela de que lhe falei sobre os contatos em exércitos estrangeiros. Ela parecia muito cansada. as olheiras profundas sob eles. Bryce não devia ter informado ao guarda sobre a mudança nas circunstâncias do relacionamento.ele disse cada sílaba uma promessa. Tudo lá foi destruído. e era uma torre reluzente de tijolos. Talvez as tenha transferido para arquivos eletrônicos posteriormente. Tudo havia sido destruído pelo incêndio. interrompendo seu discurso. mãe . Nós os havíamos visto. são basicamente anotações que ele fazia para uso próprio. No hall reluzente.ela disse. .

O elevador subiu lentamente até a cobertura. . O pulsar do sangue. onde começou a reunir alguns papéis. Kaz estendeu o braço para me amparar. os sentidos aguçados. voltando à mesa na sala íntima ao lado da sala de estar. porque podia senti-Ia mesmo através da porta fechada. e eu me perguntei se seria possível dormir em pé. Bryce não tivera tempo para mudar as fechaduras.disse Prairie. as coberturas. os pisos de madeira.216 . Meus olhos se fecharam. . até.ela sussurrou.Sr. Havia apenas dois apartamentos. deixando que ele me apoiasse.eu disse. Meus ombros praticamente se encurvaram com o alívio. mas mais próxima de suas raízes polonesas. Eu fiquei paralisada ao sentir a tensão de Kaz ao meu lado.Sr. Convidativo. . Foi quando ouvi a voz. O sol do meio-dia iluminava a superfície de mesas. agora choramingando. . Tudo parecia normal. e eu me apoiei nele. Percorremos um corredor acarpetado e suavemente iluminado. A voz soou atrás de uma porta fechada no final do corredor. Prairie derrubou os papéis. uma voz parecida com a de Anna. e tentei decidir se ela tentava se acalmar tanto quanto queria me tranqüilizar. Finalmente. Os móveis elegantes foram arranjados em torno de um tapete estampado.Fiquei sozinha a noite toda. mas eu havia aprendido a não tomar nada por certo. . . . Safian? . A porta se abriu revelando um belo apartamento discretamente mobiliado. Dei um passo naquela direção. um vaso de tulipas.Quarto de hóspedes . respirando o cheiro confortante de roupa limpa e sabonete.Ela é Banida .Prairie me disse em voz baixa.Está quase acabando . .Vamos levar só um minuto . porque eu me sentia capaz de dormir para sempre. mesmo de longe. Safian? Era uma voz feminina com forte sotaque estrangeiro.Sr. Olhei para Prairie expressando minha confusão. tudo estava ali. Prairie introduziu a chave na fechadura e o último obstáculo foi removido.a voz repetiu. mas ela me deteve tocando meu braço. eu sentia que havíamos chegado ao final da jornada.

Só pode ser...Aquela que vi pela visão.217 Safian! .Não voltou. não fique zangado. . estou com muito medo. A mão de Prairie apertou meu braço. por favor. prometeu voltar. Traga minhas irmãs de volta para mim? Fim . . Sr. A voz se transformou em soluços. Faremos o seu trabalho não vamos mais lutar.Não podemos ter certeza. . não vamos mais resistir.disse Kaz. progredindo rapidamente para o terror. não voltou. Safian. Faremos o que nos mandar fazer.Por favor. e um medo renovado brotou em meu peito.Não sabemos . .disse Prairie. Agora traga minhas irmãs.É ela . .

recém-abatidos entrariam no Valhala. que precisava de muitos guerreiros corajosos para a batalha vindoura do Ragnarok. Elas também serviam a Odin como mensageiras e quando cavalgavam como tais. Devido a um acordo de Odin com a deusa Freya. servas de Odin. O termo deriva do nórdico antigo valkyria (em tradução literal significa "as que escolhem os que vão morrer”.) As valquírias eram belas jovens mulheres que montadas em cavalos alados e armadas com elmos e lanças. suas armaduras faiscavam causando o estranho fenômeno atmosférico chamado de Aurora Boreal. Lá. quando ajudariam a defender Asgard na batalha final. os mais bravos. as valquírias eram deidades menores. sobrevoavam os campos de batalha escolhendo quais guerreiros. As valquírias cavalgavam nos céus com armaduras brilhantes e ajudavam a determinar o vitorioso das batalhas e o curso das guerras. para Valhala. que chefiava as valquírias. . os escolhidos lutariam todos os dias e festejariam todas as noites em preparação ao Ragnarok. o salão de Odin. Elas o faziam por ordem e benefício de Odin. metade desses guerreiros e todas as mulheres mortas em batalha eram levadas para o palácio da deusa. As valquírias escoltavam esses heróis. que eram conhecidos como Einherjar.218 Na mitologia nórdica. em que os deuses morreriam.

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