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TERRA DE TOOOS /IoI6s

UNIVERSIDADE

ESTADUAL DO SUDOESTE Abel Rebouças São José Reitor Rui Macêdo Vice-reitor

DA BARIA

Paulo Sérgio Cavalcanti Costa Pró-Reitor de Extensão eAssuntos Comsnitários Rossana Karla Dias Freitas Gerente de Extensão eAssuntos Culturais Marisa Fernandes Leite Correia Diretora do Museu Regional de Vitória da Conquista Janaina de Jesus Santos Coordenadora Pedagógica Colaboradores Amara Costa Silva Ana Cláudia Tomagnini 19urrala Ana Vitória Fernandes A1meida , Celso Maciel Fábio Alexis daSilva Sousa João Renê Rodrigues de Oliveira Marinho Rosa e Silva (In memoriam) Norma Alves Souza Sued Sampaio Estagiários Bonieck Silva Campos Fabiana Mércia Souto Stefano

Confecção da Ficha Catalográfica: Elinei Carvalho Santana - CRB 5/1026 F~43 Memória Conquistense: Revista do Museu Regional de Vitória da Conquista, v. 8, n. 9. --Vitória da Conquista: Edições UESB, 2009. Dossiê temático: O Fio da Memória: Discurso e História no Sudoeste •• -, i,da.Bahia:. : " .',.. .. " ...•.r"f : " ;', ·,t
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1. Vitória da Conquista (BA) - História. 2. Discurso - Vitória da Conquista (BA) - Memória. I. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Museu Regional de Vitória da Conquista. I. T. CDD: 981.42

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fPlll)~U~B Estrada do Bem Querer, km 4 - 45083-900 - Vitória da Conquista - Bahia Fone: (77) 3424-8716. E-mail: editora@uesb.broueditorauesb@yahoo.com.br

AS RE-SIGNIFICAÇÕES DO ESPAÇO PÚBLICO DA PRAÇA
lugares de memória e sociabilidades The resignifications of square public space: places of memory and sociabilities Túlio Henrique PEREIRA!
RESUMO É a partir do instante em que as gerações antigas e as gerações das gerações de nossos
avós e pais vão se exauri i~O e junto deles os referênciais de sua época e vivências, que a história vê a necessidade lK problematizar as lembranças de um passado remoto. Desse modo, iniciamos um processo de seleção de fatos e referências para tecermos, em prol de nossos anseios, o processo histórico que transformou as referências de nossos pais e avós, deixando-nos submersos às re-significações dos lugares onde se constituíram memórias. Neste artigo tentamos entender um pouco sobre a constituição e erradiação do espaço público da praça pública na zona urbana e sua reestruturação e significados ao longo do tempo e do espaço de sujeitos baianos, particularmente, a Praça Tancredo Neves em Vitória da Conquista, Bahia.

PALAVRAS-CHAVE
Praça Tancredo Memória. Neves. Vitória da Conquista. História regional. Iconografia.

ABSTRACT
From the moment where old generations and the generations of our granparents and . parents generations start fading along with their life experience and period references, history sees the need of problematize the rememberings of remote pasto Then, we start a selection process of facts and references in order to compose, acording to our desires, the history process that transformed our grandparents and parents references, placing us under the resignifications of places where memories are built. In this artiele we search to comprehend about the constitution and erradication of the public space, particularly the Square Tancredo Neves in Vitória da Conquista, Bahia, concerning the public square in urban zone. Besides, we investigate the reestruturation and meaning through time and space towards subjects from Bahia.

KEYWORDS
Square Tancredo Memory. Neves. Vitória da Conquista. Regional History. Iconography.

1 Graduado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), membro do GRUDIOCORPO; CNPq (Grupo de Estudos Sobre o Discurso e o Corpo) e autor do livro O Observador do Mundo Finito. E-mai!: rulioh@pop.com.br Memória Conquistense Vitória da Conquista 2005

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Túlio Hennqae Pereira

As re-signiftcações do espaçopúblico da praça: lugares de memória e sociabilidades

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1. Praça pública: centro irradiador das cidades Desde a Antiguidade Clássica, constitui-se a ágora, a partir da pólis, um espaço aberto que atrai atenção de mercadores interessados na exposição de seus artesanatos e alimentos. Esse espaço é inserido em um ponto de intersecção per se, concomitante aos limites da vida pública e privada, surgindo, então, a máxima expressão da esfera pública, quando os cidadãos gregos dividem espaço com o outro, em que se discute política e ocorrem as tribunas populares. De acordo com recente pesquisa desenvolvida por Caldeira (2007), a ágora grega seria o espaço urbano mais importante do período - tanto pelo exercício da democracia direta, dando voz igualitária aos cidadãos, quanto pela aplicabilidade da cidadania. Caldeira acredita que essa importância é estendida às praças das primeiras cidades coloniais brasileiras, nas quais encontramos, assim, como no modelo clássico da ágora, os edifícios administrativos do poder constituído, ou seja, como a própria autora diz: o centro irradiador da cidade. Ainda, segundo Caldeira, muitos estudos nos levam ao modelo de organização espacial indígena em oposição à organização das cidades jesuítas, que desmontam o modelo espacial indígena, marcando o centro deste espaço com o cruzeiro e a igreja, usufruindo desta centralidade já existente para imposição de certa ordem de dominação e representação do poder estabelecido.
Com a ampliação e consolidação da política colonial, diversas cidades criadas durante a vigência das Capitanias Hereditárias são redesenhadas por especialistas,casos de Salvador e Rio deJaneiro. No século XVII, muitas cidades surgem de projetos urbanos e seus autos de fundação instituem praças em que deverão ser instalados edifícios, igreja, pelourinho, estabelecendo regras de ocupação que refletem o momento social e político e atendem determinados valores simbólicos (CALDEIRA apud NEITO, 2007,p.ll).2

Tal prólogo se fez necessário para contextualização da gênese do espaço público contemporâneo e um breve levantamento de suas históricas funções sociais/civis por diferentes sociedades. Nessa perspectiva, o problema a ser discorrido ao longo desse artigo está relacionado às funções atuais da praça pública, aos exercícios desenvolvidos pela sociedade contemporânea que perpassa tal ambiente, dando a ele novas representações, principalmente, em momentos nos quais as cidades desenvolvem novos espaços, considerados públicos, embora fechados, em detrimento da praça pública. Pensar a re-significação e recolocação do espaço e do sentido da praça pública no cotidiano presente é, sem dúvida, um desafio que transcende os limites estabelecidos até mesmo pela história cultural, dentro da teorização possibilitada pela Nova História, que sob o olhar dos detalhes e migalhas factuais corresponde à diversidade dos objetos e alteridade cultural, entre sociedades e dentro de cada uma delas Cardoso (1997), de modo a elucidar a macro história, partindo do micro olhar do historiador que seleciona seu objeto com intuito de problematizar uma inquietação subjetiva, embora, também, selecione métodos afim de objetivar tal estudo. Partindo desse pressuposto teórico, esse trabalho busca, não apenas pensar a genealogia das re-significações do espaço público da . praça pública na contemporaneidade, mas, principalmente, entendê10 dentro de uma sociedade civilizada e desenvolvida por edificaçôes espraiadas com nuances de verticalização, constituindo o espaço público numa referência geograficamente urbana, na qual sujeitos socialmente ativos se vêem em oposição neste espaço - antes considerado lugar de sociabilidade e institucionalização, em detrimento das identidades e oposições centralizadoras de um sujeito. Entender a praça pública de uma cidade interiorana no século XXI, seja como um lugar de memória", de sociabilidade, lazer ou
Nora (1981, P: 13) em seu artigo "Memória e história: a problemática dos lugares" discorre sobre a existência dos lugares de memória partindo do pressuposto de que não há mais meios de memória numa crítica contundente a história positivista e seu criticismo. De acordo com ele "[...) os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas,
3

2 Junia Marques Caldeira desenvolveu pesquisa de doutorado em 2007 sobre a gênese da praça pública no Brasil abrangendo a instituição da Colônia até os modelos arquitetônicos mais modernos (NEITO, 2007, p. 11).

porque essas operações

não são naturais".

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Túlio Henrique Pereira

As re-significações do espaçopúblico da praça: lugares de memória e sociabilidades

43 temáticos com os

património sociológico paradigmas entendimento história

público,

exige não apenas

um olhar

antropológico

e

e seu contexto conteúdos

histórico

para compreensão

dos conteúdos

em cruzamento historiográficos

com a história, em bifurcação,

mas a utilização constituintes

de dois de um da -, e

Natural e Primário elou Factual e Expressivo, em consonância Secundário ou Convencional para alcançarmos
5

os significados

sobre o estudo da História Nova, que são: "ilurninismo" O primeiro, nos leva a enfatizar interpretativo humanos a diversidade - nesse caso iconológico

Intrínsecos do Conteúdo.
Partindo

e "pós-modernismo". considerando dos documentos que conforme estudos histórica

desses pressupostos,

,?resentarei,

aqui, inicialmente, Missa no do e e

a partir do método

uma obra do plástico catarinense Brasil", de 1860, para entendermos como desmontagem do modelo

Victor Meirelles, "Primeira

a idéia de razão e progresso e desconstrução

e, o segundo, revê e sua convicção

melhor o que Caldeira (2007), nos traz espacial indígena para demarcação não apenas as estruturas

a problematização

dos espaços, do fato em história absoluto de serniose e interpretação, a seleção de idéias pessoais, de contextualização

oficiais com seu relativismo se reduz a processos (1997), resultaria e resultados de historicismo, nacionalidade artigo, Cardoso

centro com o cruzeiro e a igreja. Investigando mentalidades dos sujeitos conquistenses

de que o conhecimento superficiais ou mesmo

modelos adotados como espaço público, mas também as readequações ao longo dessas reestruturações Vejamos: espaciais, a partir de ilustração fotográfica.

desprovidos embora

construis sem uma idéia com a a

geral sobre memória, questão identitária." Para tanto, primeira, entender

e região em consonância a questão

nesse

divido

em três etapas: no interior Neves próximo

o espaço público da praça pública e sua constituição na cidade de Vitória da Conquista apresentar e análise iconológica ao seu significado -, localizada o espaço da Praça Tancredo a morfologia

no Brasil, especificamente da Bahia. Em segundo, ao centro - por meio da iconografia em oposição ef o» junção

da cidade e, por último, pensar

deste espaço ou

atual, re-significado

não, nos dias atuais.

2. Constituição da praça pública e os estudos iconológicos e iconográficos É a partir da iconografia, ramo da História da Arte, que podemos
teorizar os significados das obras de arte, enquanto algo de diferente da sua apresentar a obra

forma (pANOFSKY,
4

1995, p. 19). Contudo, precisamos

Figura 1- Primeira Missa no Brasil (1860). Óleo sobre tela 268 x 356 em. Fonte: Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro).

Para Halbwacs (1990, P:67-68) a memória seria a possibilidade de recolocação das situações escondidas que habilitam na sociedade profunda, na sociabilidade, e em conrrapartida Sruart Hall (2000, p.14) enfatiza ser a sociedade moderna passível de constantes mudanças e permanências, o que nos leva a crer que todo esse processo interinstirucional leva os sujeitos e/ ou indivíduos a criarem e/ ou adequarem seus desejos/anseios/identidades às estruturas sociais que os cercam habilitando-lhes ou não autorizando determinadas práticas subjetivas no seio da sociedade pública.

; Os termos em itálico cor respondem aos conceitos básicos da teoria de Panofsky (2001, p. 64) quanto a interpretação de um objeto artístico, dividindo de um lado o objeto e de outro o ato de interpretação.

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As re-significações do espaçopúblico da praça: lugares de memória e sociabilidades

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Nessa tela, datada de 1860, o artista plástico brasileiro, Victor Meirelles, nascido em Santa Catarina, busca a representação do que seria

a realização da primeira missa no Brasil. Segundo Pereira (2008), a partir de sua leitura sobre o ensaio publicado pelo historiador de arte Jorge Coli, a intenção de Meirelles seria a construção pictórica de tal acontecimento, baseando-se na carta de Pero Vaz de Caminha. Pereira (2008, p. 2) destaca que: "O cerne do texto concentra-se na cerimônia mais significante: a

missa que congregou navegadores e índios". De tal modo, acreditava-se que a obra fosse a tradução verossímil do ato solene para os cristãos portugueses, instituindo-se, conforme sugere o autor, numa "verdade
à

visual do episódio narrado: na carta presentificava

primeira missa no
Figura 2 - Panorâmica do Jardim das Borboletas, anos 50, original. Fonte: Acervo fotográfico Museu Regional de Vitória da Conquista.

Brasil diante do expectador moderno. O documento e a arte asseguravam esta transposição Entretanto, intencionalidades do tempo" (PEREIRA, vale-nos, 2008, p. 2). as especulações e

aqui, não apenas

de Meirelles com o seu trabalho, mas a decodificação de Caldeira

primária traçada aos sentidos evocados pela problematização (2007), sobre o cruzeiro e a igreja.

Podemos ver no plano central da tela a imagem dos sacerdotes católicos em suas vestimentas, bem como o enorme aleatoriamente crucifixo, o centro

sobrepondo-se

ao plano superior, ocupando objetivamente

numa perspectiva

clássica. A cena remonta a um ritual um espaço ermo, no qual apenas
Figura 3 - Igreja Matriz Nossa Senhora das Vitórias e Praça da República (15 de novembro), anos 40. Fonte: Acervo fotográfico Museu Regional de Vitória da Conquista.

de adoração ao cruzeiro, demarcando

os pares religiosos ocupam, sendo ladeados pelos nativos (índios) do local, cujas peles se confundem inferior da imagem. Antes de uma análise profunda sobre tal representação imagética, a penumbra, o tronco e o plano sólido

Entre 1940-1950 as casas em Vitória da Conquista são térreas e, a maior parte, cobertas por telhas francesas: a praça é quadrilonga e de ladeira, ficando no centro a Matriz. A cadeia é perfeitamente péssima, tendo por maior segurança o tronco; allojando-se na mesma casa, o mais incommodante possível [sic],o pequeno destacamento de polícia."
6

recorramos ao que muitos caracterizariam como anacronismo histórico, mas, que neste contexto, trata-se apenas de comparação, quando

apresento a fotografia da Praça Tancredo Neves, denominada

nos idos de

1950 como Jardim das Borboletas de Vitória da Conquista, Bahia.

Conteúdo extraído do ensaio jornalístico "A cidade em fins do século passado" (O FIFÓ, Vitória da Conquista, 11 out. 1977, p. 7).

46 Inicialmente, constituindo-se

T úlio Hennque Pereira

As re·significações do espaçopúblico da praça: lugares de memória e sociabilidades

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em sua projeção urbana a praça ocupava o espaço

Pela fotografia retangular, podemos constituído no projeto de colonização

observar com mais solidez de 1960. Esse espaço, da vitória branca da

onde está localizada a igreja matriz, seguindo até um Templo Batista, em um dos marcos da antiga Vila Imperial da Vitória e simbologia para a da sociedade a se (como era conhecida a cidade), por sua imponência levava inúmeros contemplarem sujeitos anônimos período, e membros conforme

como era o Jardim das Borbo/etas até meados

e demarcação

sobre os nativos, obteve caráter funcional e cívico para contemplação para implantação de um símbolo em homenagem

época. A praça, ladeada por becos e ruas que surgiam gradativamente, com o horizonte, ornando as margens do lago que ali pontua Ruy Medeiros específico fenômeno

mesma elite ou de seus sucessores genealógicos, utilizando-o mais tarde aos índios Imborés e

Mongóis, sacrificados em emboscada neste mesmo espaço. De acordo com os arquivos orais e cartográficos disponibilizados pelo Museu Regional de Vitória da Conquista, o espaço do Jardim das Borboletas concentra sítios arqueológicos, naquilo que seria um antigo o sítio arqueológico e cemitério indígena. A mudança arquitetônica e paisagística mais significativa na praça ocorreu cerrando-o a partir de 1993, enterrando

existia. Em determinado dos anos 1940.

(1998), :vpraça toma o nome de Rua Grande,

Contudo, é ao final deste período que o espaço sofre intervenção interinstitucional, sendo remodelado e dividido em duas praças: Tancredo

Neves e Barão do Rio Branco, criando, assim, vias para inserção das ruas
Maximiliano Fernandes e Zeferino Correia. De acordo com a proposta governamental, era o momento de tornar aquele largo territorial em um espaço de lazer e descontração. Visando esses ideais, implanta-se e distinto. Temos a partir

sob o concreto do cimento e da urbanização.

N essas imagens temos a representação 'real' da utilidade desse espaço, ora utilizado para passeios, lazer, morada, comércio, poucas vezes visto como espaço para exercício do civismo popular. Para Medeiros (1998), [...] o espaço que compreende a antiga rua Grande sempre foi dinâmico e polivalente: local de moradia (e sempre foi "chique" morar na praça), de comércio, de lazer, ou de "demonstrações cívicas" [sicJ. Entretanto, retomando a imagem representativa da primeira missa no Brasil, percebemos o que chamaríamos de imposição da ordem neste demarcam o território, seus símbolos no imagética na
-,
'.

a feira livre, a Casa da Câmara, e a sociedade elitizada começa a morar em volta da praça, por considerar glamoroso entendemos proximidade pinheiros, desse fato, a sensação de posse do espaço público como privado, pois que essa pequena elite, detentora dos direitos de moradia na da praça pública, toma essas transformações coreto, pista de patinação paisagísticas, etc., como a

que agora envolve uma fonte luminosa, chafarizes, arbustos, coqueiros, bancos alinhados, r vtensâo de sua varanda. O projeto em prol da "funcionalidade" da Praça Tancredo Neves o espaço continuou ao longo de várias gestões, cada uma transformando

local, quando os "invasores" e/ou coloniza+ores fazem a assepsia removendo mesmo espaço da "vitória". Para entendermos

os nativos e projetam

ao seu gosto e função. Em meados dos anos 1950, quando a implantação do Jardim das Borboletas parecia não mais atrair tanta atenção dos sujeitos que a tomavam, implantou-se na praça um zoológico e um parque temático para distração das crianças que moravam no local. Enquanto isso a cidade continuou crescendo espraiadamente e perifericamente, formando uma massa de pessoas, cujo padrão de vida, as excluía do ambiente sofisticado e ocioso representado pelo jardim. A população se dividia gradativamente, criando seus próprios valores e determinando suas distinções.

um pouco sobre a representação

em prol do resgate da memória coletiva de sujeitos, nos pautamos teorização de Paiva (2002, p. 27), que considera:

[...] nesse complexo processo de recepção, divulgação,apropriação e resignação das imagens no tempo e no espaço é preciso sublinhar, ainda, alguns aspectos fundamentais. O primeiro é, talvez, reiterar, de maneira CQCplícita,fato de as representações o integrarem a dimensão "qêJ,. real, do cotidiano, da história

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vivenciada. O imaginário não é, como se poderia pensar, um mundo' à parte da realidade histórica, uma espécie de nuvens carregadas de imagens e de representações que pairam sobre nossas cabeças, mas que não fazem parte de nosso mundo e de nossas vidas.

o jootini nacionais;

assim como em grande parte da história das praças públicas também foi tomada comunidade como espaço de lazer e socialização ao que conquistense. de uma parcela não popular, mas, pertencida

especificamente

muitos consideravam

Neste período, entre 1940-1950, a realidade das cidades brasileiras Nesse sentido, é possível compreender período, especificamente a praça pública nesse não aspirava outros modelos de espaço público. Assim, a praça pública é vista por muitos como um território modernidade, privilegiando reconhecida de convivência social, que, na sempre delimitará outros espaços, tais como as galerias; os shopping ~onstruções uma parcela da sociedade na cidade. é possível encontrar uma resposta da função desse condutores: cultura e da de que a praça pública vista "pertencida" a comunidade, a analisada como um espaço que constitui começando pelos frequentadores desse

sociabilidades espaço.

e exclusões,

Na imagem retangular, retratando

os anos 1940, observamos

centers; bares e clubes aquáticos ou campestres,
seja por seus prestígios, influência ou participação Outrossim,

que o espaço do parque é cercado por um muro de telas, o que nos possibilita diversas interpretações, sendo uma delas a apropriação do

política e econômica

espaço público como espaço privado, ou eletivo de uma determinada classe; noutro sentido, evidenciaríamos o cuidado com a proteção de seus frequentadores, considerando as crianças se divertindo nos brinquedos e

espaço, correlacionando

seus principais pontos

a mulher recostada sobre a proteção de telas do lado externo ao parque. Atentemo-nos mais a esse sujeito: sua vestimenta social a partir do alinhamento nos dá um sinal de

política, o que nos levará a uma concepção

como um espaço coletivo advém dos processos urbanos decorrentes de ocupação e apropriação independente da geografia.

seu pertencimento

do vestido, embora os

civilização ocidental, em particular, do capitalismo, refletindo uma forma do espaço inerente à sociedade capitalista,

outros sujeitos dispostos nas grades também nos ofereçam indícios para outras interpretações. A praça pública, nesse estudo, acaba sendo vista como um micro espaço visualizada por uma simbologia macro de representação, ou seja, o sujeito, ali constituído, é o reflexo de uma influência externa e a transpõe naquele lugar afim de disseminar um modo, o que nos dá a compreensão distinta das observações sociológicas sobre a constituição das identidades, quando múltiplas afirmam a existência de múltiplas identidades. para constituírem, Porém, essas uma única

Desse modo, temos, aqui, dois vértices: os sujeitos, aqui, criam seus modos a partir da estrutura que lhes é oferecida institucionalmente, impossibilitando a criação e/ ou desenvolvimento daquilo que evidenciaria de uma outra autorizados, suas aspirações. Outro ponto relevante está relacionado à desocupação do espaço público por uma camada social e ocupação que Vitória da Conquista, por meio de seus representantes camada, até então alheia à suas funcionalidades. A partir do momento em percebe a necessidade de modernização do espaço público, a cidade ganha edificações verticalizadas, maiores investimentos para expansão da infraestrutura urbana e com isso passa a abrigar, em seu centro, trabalhadores e técnicos especializados ou não de diversas regiões do país.

identidades

vão sempre em busca de uma ressignificação mesmo subjetivamente,

histórico-social

unidade, seja essa material, cultural, política ou religiosa entre outras. A Praça Tancredo Neves, assim como a ágora grega, foi palco de muitos eventos sociais e ocupada em diferentes épocas por diferentes sujeitos e suas intencionalidades, de reivindicações ora utilizada como púlpito em prol

políticas e melhorias sociais, manif<?stações grevistas;

passeios domingueiros da elite social da cidade que também testemunhou

- A tradução do termo inglês footing, é caminhando, que em nosso contexto trata-se do passeio rotineiro nos finais de semana. Os moços, em sua maioria, sozinhos admiravam as moças sempre em companhia umas das outras ou de familiares. O que chamavam de paquera, já que O contato entre os gêneros não era bem visto (pEREIRA, 2008, p. 102).

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T úlio Hennque Pereira

As re-significações do espaçopúblico da praça: IlIgares de memória e sociabilidades

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A elite, que antes se apossava e considerava "chique" morar na praça, sente-se agora ameaçada pelos "invasores", que em justificativa de seus baixos salários são obrigados a se amontoarem em pequenas acomodações no centro da cidade. Ao mesmo tempo em que acompanham o progresso da modernidade, a elite se aglomera em outros espaços mais reservados e distintos, tais como os parques residenciais ou os edifícios verticais, deixando a praça livre para utilização dos novos moradores que, mais tarde, ocuparão o espaço público para manifestações grevistas, reivindicando melhores salários, melhores condições de moradia e direitos. Essencialmente, o ócio deixa de se manifestar publicamente, sendo acomodado nos apartamentos, clubes, cafés, academias, bares e xalés. O ocioso do mundo moderno é sujo, anda descalço e faz do banco da praça o lugar para se beneficiar do transeunte apressado para chegar ao trabalho ou pagar a sua conta no banco. 3. Concluindo Entender o espaço público de uma cidade em desenvolvimento e sua reestruturação urbana, nos permite versejar sobre as inúmeras possibilidadesde adaptações e/ ou readequações dos sujeitos constituintes desse espaço. Porém, aqui, não é possível enxergarmos o sujeito responsável pelas transformações de seus espaços públicos a partir de uma organização coesa e coletiva, mas sim, observamos uma estrutura que liga o privado ao público de forma contundente e insteristitucional. Espaço esse em que o governante e uma determinada classe estabelece seus códigos, partindo de interesses parciais, revelando laços e disparidades em oposição àquilo que conhecemos, e se estabeleceu como democracia e devir. A praça pública, espaço destinado as socializações, é tomada pelos sujeitos, todos eles, contudo, cada um ao seu tempo, em espaços e horários, externos ao "ser" público.

4. Referências A CIDADE em fins do século passado. O Fifó, Vitória da Conquista, 11 out. 1977, p. 7. CALDEIRA, Junia Marques. A praça brasileira: trajetória de um espaço urbano - origem e modernidade. 2007. Tese (Doutorado em História) - UNICAMP, Campinas, 2007. CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (Org.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. HALBWACS,Maurice.A memória coletiva. São Paulo: Vértice/Editora Revista dos Tribunais, 1990. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução:

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Túlio Henrique Pereira

PAIVA, Eduardo França. História Autêntica, 2002.

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PEREIRA, Walter Luiz Carneiro. Pintura histórica no Brasil - Imagem e palavra na historiografia da arte. Primeiros escritos, UFF /LABHOI.
Recebido 09/0 1/2009 em Aprovado em 22/01/2009