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Título: Juntos outra vez Autor: Jasmine Cresswell Título original: I do, again Dados da Edição: Editora Nova Cultural

1998 Publicação original: 1996 Gênero: Romance contemporâneo Digitalização e correção: Nina Estado da Obra: Corrigida Casamentos * Glamour Família * Decepções Entre na Casa da Noivas Desde o início do século, a elegante e sofisticada loja Casa das Noivas tem ajudado mulheres de todo o mundo a realizar a fantasia do dia especial A loja: Casa das Noivas, Londres. O ambicioso primo de Grace DeWilde, Michael Forrest, representa tudo que Júlia Dutton deseja evitar em um homem. Júlia foi criada para ser a esposa perfeita, e Michael quer apenas glamour e sensualidade. O Enredo: Júlia seria corajosa o bastante para comprometer-se com um homem que oferecia apenas alguns breves momentos de êxtase? A Solução: As peças roubadas da famosa coleção DeWilde finalmente estão de volta ao seu devido lugar. Será que isto é sinal de que Júlia pode correr o risco de viver um romance com Michael? Poderia acreditar que, assim como a coleção de jóias, seu coração sairia inteiro desse romance? Juntos outra vez Jasmine Cresswell Anteriormente na Casa das Noivas Jeffrey DeWilde jamais teria imaginado que uma pacata vinícola californiana guardava as chaves para o mistério de sua família.  Marguerite Kauffman parecia saber mais que

qualquer pessoa sobre Derrick DeWilde. E desejava ardentemente contar tudo a Grace DeWilde, dentro todas as pessoas, justamente quando Nick Santos estava prestes a abrir caminho até sua porta!  No entanto, apaixonar-se por Kate DeWilde interferiu nos planos do detetive para a recuperação das jóias roubadas da família DeWilde.  Então, a dra. Kate é gravemente ferida num tiroteio que a leva a questionar suas opções profissionais... em caráter permanente. Nick é o único que pode influenciar seu ponto de vista e toda sua vida. Uma vez recuperadas, as jóias precisam ser levadas de volta ao lugar a que pertencem em Londres, e Grace DeWilde tem planos muito definidos sobre como deve ser realizada a entrega da preciosa carga. Grace e Jeffrey juntos. Finalmente. Casa das Noivas Londres Fax De: Gabe DeWilde Para: Lianne DeWilde Lianne, querida, Passei a tarde toda tentando localizá-la, mas só consegui falar com a secretária eletrônica. Só queria informá-la que Michael Forrest chegará ao Aeroporto de Londres amanhã cedo. Eu o convidei para passar algum tempo conosco no Chalé Briarwood, e ele aceitou. Tente reunir um grupo para o jantar de sábado, e certifiquese de incluir Júlia Dutton. Um dia desses, aqueles dois vão perceber que nasceram um para o outro! Telefonarei para você esta noite do apartamento. Com amor, Gabe P.S. Quando convidar Julia, dê a impressão de que estamos tentando aproximá-la de

Edward Hillyard. Ela recusará o convite se tiver a mais vaga idéia de que Michael é o homem que temos em mente para acompanhá-la.

CAPÍTULO I O famoso saguão da Casa das Noivas de Londres estava silencioso, as luzes obscurecidas, as cintilantes gavetas das jóias cobertas, o espaço vazio depois do fluxo diário de consumidores. Jeffrey DeWilde caminhava por entre os balcões desertos, notando as mudanças realizadas durante a semana anterior e imaginando se representavam melhorias. Admirou um elegante arranjo de bolsas espanholas e lenços de seda italianos, ergueu a sobrancelha para a decisão de apresentar escovas de prata para cabelos sobre um leito de roupas íntimas de cetim púrpura, e parou por um momento diante do balcão onde haviam sido

Sem mencionar os artigos nos . era novamente um homem solteiro. não tinha nada a oferecer quanto às decisões sobre a escolha da mercadoria e a maneira como era exibida. cerca de uma hora. quando ela se instalara em Nevada para cumprir o requisito de residência necessário ao processo. interessado num alívio para a dor que causavam um ao outro. está tudo bem. apesar de ter recebido cartas pomposas dos advogados informando que. Às vezes. Ah. mas Gabe parecia aprovar a alteração. experimentava todas as alegrias de ter finalmente se libertado de um casamento fracassado. odiando a idéia de submeter-se à curiosidade do segurança. Jeffrey apreciara o tempo necessário para completar a tarefa. ocorrida há pouco mais de um ano.instaladas as listas de presentes. Jeffrey virou-se. uma maneira de relaxarem depois da intensidade frenética de uma semana de trabalho. Jeffrey e a esposa sempre haviam cumprido juntos o ritual de percorrer a loja nas noites de sexta-feira. Jamais se acostumaria com o fato de que suas preocupações mais íntimas eram objeto dos comentários dos empregados. que incluía filiais em Paris. Cinco meses atrás. obrigado. era até capaz de contribuir com comentários úteis aliando o que Grace dizia à visão financeira do império Casa das Noivas. Estavam divorciados. aprendera a confiar nas decisões do filho relativas às técnicas de vendas. Mas sem Grace para ajudá-lo a traduzir essa imagem financeira em termos mais concretos e práticos de comércio. Tratava a vistoria como um prelúdio para o final de semana. a vistoria semanal se transformara em pouco mais que um gesto de desafio. Era considerado oficialmente livre desde abril. e já era quase agosto. Os números relativos às vendas. Com Grace a seu lado. no saguão? Jeffrey não tinha idéia. tudo ia muito bem. Sídnei. — Sim. um ato com o qual tentava provar a si mesmo que o mundo não havia desabado só porque Grace o deixara. Até a separação. depois de trinta e dois anos de casamento e um de separação. estivera ansioso pelo fim do casamento. juros de empréstimos e financiamentos e margens de lucro eram perfeitamente claros em seu cérebro. sim. explicando o significado prático de cada inovação. Esperava realmente que em mais um ano as palavras divórcio e solteiro não o fizessem sentir-se tão deprimido. e ao longo dos últimos meses. senhor? — Um dos guardas uniformizados saiu das sombras para o campo de visão de Jeffrey. — Tudo bem. Teria sido uma boa idéia mudar as listas de sua tradicional localização no quarto andar para a posição de destaque ao lado dos elevadores. Quinze semanas de gloriosa liberdade das cadeias do matrimônio. aos custos. Jeffrey deixou escapar uma gargalhada amarga. — Se não considerasse o constante desejo de esmurrar as paredes. Durante os últimos quinze meses. A palavra ainda soava sem sentido quando aplicada a ele e Grace. Nova York e Mônaco. Quisera divorciar-se de Grace.

Mas não se deixaria dominar pelo pesar. Eu acompanharei o visitante ao seu escritório. A tiara era uma peça genuína. Boa noite.jornais. por favor. O momento havia sido um exemplo perfeito de ironia. mas resistiu ao desejo de beber um segundo gole. Um preço caro demais para pagar por algumas jóias. e a tendência exótica carregava a estampa inconfundível de seu talento. Conseguira . lendo o crachá com seu nome: Bill Babb. — Sim. senhor. o que significa que vai recebê-lo nos próximos quinze minutos. O interior da redoma havia sido reformulado recentemente por Lianne Beecham. exibida sobre um pedaço de veludo vermelho arranjado com arte e bom gosto. A tiara autêntica. sua nora. senhor. Reconquistara uma valiosa herança de família no mesmo instante em que perdera a esposa. — Jeffrey olhou para o relógio. finalmente ressurgira e fora devolvida ao seu lugar de direito quinze dias depois de Grace ter deixado Londres a caminho de San Francisco. Jeffrey examinou os papéis espalhados sobre sua mesa. mesmo que históricas e únicas. Passarei o recado imediatamente. Estavam bem perto da redoma que continha a tiara da imperatriz Eugénie. Diga a Keith que estarei esperando no sexto andar. uma jóia de elevado valor histórico e monetário. e Jeffrey sentia uma intensa onda de emoção cada vez que passava pela redoma e era surpreendido pelo brilho envolvente dos diamantes perfeitos e das pérolas raras. um tributo do imperador Louis-Napoléon à sua adorada esposa. Caminhou até o bar escondido atrás da porta de madeira de um armário embutido e serviu uma dose de uísque em um copo de cristal. A cascata de pregas aparentemente casuais formava um contraste perfeito com a rigidez formal da tiara. uma sugestão que teria sido engraçada. — O mensageiro deve chegar antes das sete. Jeffrey deparou-se com a ofuscante coroa de diamantes e pérolas. O puro malte acariciou o interior de sua boca por alguns instantes antes de descer pela garganta. ou aonde preferir recebê-lo. — Em meu escritório. e ao afastar-se do guarda. — Foi informado de que espero um mensageiro com uma importante encomenda? — perguntou ao guarda. As revistas especializadas em fofocas pareciam determinadas a tratálo como um símbolo sexual para as leitoras mais maduras. tudo foi providenciado de acordo com suas instruções. Keith está na mesa de segurança. a cor intensa emprestando volúpia ao brilho gelado das pedras. — Conversei com seu supervisor ontem para que fosse providenciada uma equipe extraordinária de segurança. Segurou o copo entre as mãos. desaparecida quase meio século atrás. e foi orientado para avisá-lo assim que o mensageiro chegar. Bill fez um movimento afirmativo com a cabeça. — Sim. senhor. Havia trilhado esse mesmo caminho centenas de vezes e sabia que ele não levava a lugar algum. não fosse pelo constrangimento que causava. De volta ao escritório. mas desistiu de fingir que estava trabalhando.

Tivera o prazer de descobrir parentes desconhecidos na Austrália. senhor.. senhor. sr. Emoções soterradas sob o peso da consciência acabavam poise transformar numa massa de grande pressão que sempre lavava à explosão de alguma espécie. Bill vai acompanhar. por favor. Tenho certeza de que encontrará tudo de acordo com suas instruções. ofuscando emoções positivas e intensificando as negativas. Os escombros da gigantesca explosão ainda entulhavam sua paisagem pessoal. seu investigador particular. Bill e o mensageiro estão a caminho de seu escritório. Mas o fim do casamento com Grace o ensinara a ser mais atento às nuances sutis na voz das pessoas com quem conversava. — Sim. todos os mistérios foram solucionados e as jóias.dominar o hábito de ingerir grandes quantidades de álcool. arrancando-o da disposição sombria. Obrigado. — Mande-o subir imediatamente. as últimas peças da valiosa coleção DeWilde seriam devolvidas. Dirk DeWilde. senhor. Os documentos do mensageiro estão em ordem. o mensageiro até sua sala.. Ao longo dos meses que se seguiram à mudança de Grace para San Francisco. — Está bem. como a cobertura de um bolo perfeito. Não. Durante o último ano. percebeu que ainda . resolvera uma velha rixa com a família Villeneuve e descobrira os motivos do desaparecimento de Dirk. recuperadas. descobrira da maneira mais lenta e dolorosa que era melhor reconhecer os sentimentos. — O guarda fez um ruído estranho que tentou disfarçar forçando um rápido ataque de tosse. DeWilde. Antes de alcançá-la. uma rotina em que mergulhara imediatamente após a partida de Grace. concentrara-se com intensidade desesperada no mistério das jóias desaparecidas e no destino de um tio cujo paradeiro há muito era ignorado. A falta de entusiasmo pelo retomo das jóias da coleção da família era um exemplo perfeito do problema que enfrentava. Ele e as jóias haviam sumido ao mesmo tempo. se ao menos conseguisse lembrar porque o retorno das peças havia parecido tão importante.. Em seu caso... mas sabia que ainda dependia muito da bebida para superar a tensão e a amargura provocadas pela solidão. Assinados por Nick Santos. não. A pausa antes da complementação da frase foi tão rápida que Jeffrey não a teria notado e. O telefone tocou. o que explodira fora o casamento. Com a ajuda de Nick Santos. como disse que deveriam estar. — Keith. o mensageiro que estava esperando acaba de chegar — anunciou Keith Jones. está havendo algum problema? — Ora.. — Jeffrey deixou o copo de uísque sobre a mesa e atravessou a sala para abrir a porta. Uma ocasião para grandes celebrações. outras circunstâncias. Naquela noite. — Sim? — Sr. mesmo que fossem desagradáveis. — Destravei os controles do elevador.

. mas estava desarmado e não tinha mais energia para lutar com bandidos violentos. Precisava de ajuda profissional. No momento em que estava prestes a recuperar uma herança de família avaliada em milhões de dólares. cansado da expectativa. A porta do escritório estava entreaberta.. seu mensageiro chegou de San Francisco. Podia sentir o cheiro de encrenca no ar. ele se afastou da porta para dar passagem à pessoa que o acompanhava. O segurança dissera as palavras corretas. e a artrite que atacava seu joelho esquerdo o transformava em alvo fácil para quem quisesse atacá-lo. DeWilde. para decidir que curso de ação seguir. Temos uma ligação direta com uma excelente empresa de segurança que. E se Keith houvesse destravado o elevador com uma arma apontada para sua cabeça? A única maneira de certificar-se era descer e inspecionar o saguão pessoalmente. e por isso não ficariam surpresos se recebessem um chamado de emergência.. — A voz perdeu força no instante . Nick Santos devia ter ido fazer a importante entrega pessoalmente. Bill Babb raramente perdia uma chance de conversar.. e as duas pessoas a caminho de seu escritório guardava silêncio. Jeffrey ouviu a porta do elevador e preparou-se para enfrentar o problema. qualquer que seja seu plano. poderia ser tarde demais para ativar o alarme. Quando tivesse a comprovação do que o instinto tentava anunciar. A empresa de segurança fora informada sobre o iminente retorno das jóias DeWilde. Jeffrey protestara quando ele informara ter localizado um mensageiro para transportar as jóias de San Francisco a Londres. Jeffrey agarrou-se à beirada da mesa. e a premonição parecia prestes a se confirmar.. Jeffrey voltou à mesa e ativou o alarme silencioso conectado à empresa que contratara há anos. —Sim. mas o tom de voz insinuara um imprevisto.. O mensageiro trazia problemas. mas preferia não esperar pela chegada do mensageiro de Nick. senhor. mas Bill bateu antes de empurrá-la e colocar o rosto na fresta. O carpete espesso abafava o som dos passos que se aproximavam. Havia algo errado. Qualquer tentativa de bancar o herói poderia acabar em tragédia ou humilhação. Bill. — Não sei como espera safar-se. Podia estar exagerando. bem.estava perturbado com a hesitação que ouvira na voz do guarda. —Seu. Mau sinal. Jeffrey tinha a testa franzida. seguido por assaltantes armados. além das jóias. não podia correr riscos. — Com um suspiro aliviado. —Entre — disse com tom ríspido. aliviado com a certeza de que guardas armados seriam destacados imediatamente para verificar a ocorrência na loja. —Mande-o entrar. O guarda estava visivelmente perturbado. sr.

mas estava hipnotizado pelas mudanças em sua aparência. parecendo tão diferente. — Grace. —Cortou o cabelo. o tipo de urgência física envolvente e dominadora que não lembrava ter sentido depois dos vinte anos de idade. para os dedos que ajeitavam a mecha rebelde e brincavam com o brinco de safira e diamantes. mais simples e leve. Como devia responder? Jeffrey virou o rosto e cerrou os punhos. Sentia-se perturbado pelo evidente sinal de que ela havia passado para um novo estágio de vida. — E se Kate notou um problema. —Grace! — gemeu. — E bom saber que pensa assim.em que uma mulher entrou no escritório. foi porque meu penteado devia estar pelo menos dez anos atrasado. com exceção apenas de uma mecha que caía sobre a testa e descia pela face até a altura do queixo. o que está fazendo aqui? —Nick permitiu que eu fizesse o papel de mensageiro e trouxesse as jóias DeWilde. —Olá. lidar com perguntas hostis. se quiser inspecioná-las. deixando-o para trás. Exibia um novo penteado. Encontrara-a algumas semanas antes. inserir comentários espi-rituosos em um discurso aborrecido e aplacar os ânimos com uma boa medida de equilíbrio e algum senso de humor. Abafou o impulso de jogar a ex-esposa sobre o sofá e fazer amor com ela. Também havia sido em uma sexta-feira. Sabia que estava boquiaberto e obrigou-se a fechar a boca. — Não tinha a intenção de fazer um comentário tão irrelevante e pessoal. era incapaz de ser fluente em momentos de tensão ou constrangimento. Combina com você. Gostou da mudança? Ele olhou. — Ela mostrou uma valise de alumínio. Era estranho vê-la em um cenário tão familiar. mas naquela noite ela parecia uma pessoa diferente. Era a primeira vez que Grace ia ao seu escritório desde o dia em que o deixara. muito bom. Como era patético que depois de décadas de casamento e mais de um ano de separação sua presença ainda tivesse o poder de despertar aquele desejo poderoso. Mas com as pessoas com quem mantinha um envolvimento afetivo. Além de todas as outras considerações. fascinado. ela os cortara. — Ficou. Tenho as quatro peças aqui.. Jeffrey. cerca de um ano atrás. Uma sexta no início de maio. Era capaz de comandar uma audiência de centenas de pessoas numa palestra sobre negócios. — Grace sorria. temia que a artrite no joelho o impedisse de . que mantinha os fios louros e lisos escovados para trás. longe do rosto.. Jamais imaginara que fatos tão corriqueiros pudessem ter tamanho apelo erótico. Depois de toda uma vida usando os cabelos presos na altura da nuca. A voz dela soava mais rouca que nunca. — Kate decidiu que era hora de eu atualizar minha imagem.. no casamento da filha Kate em San Francisco.. É prático e moderno.

— Ela esticou o braço. Imaginou se ela havia encomendado a peça especialmente para aquela ocasião. entregou a chave a Jeffrey. A peça caiu sobre a mesa com um ruído que soou explosivamente alto no silêncio opressivo do escritório. — Nick não devia ter permitido que atravessasse o Atlântico transportando milhões de dólares em jóias. acho melhor abrir a valise e dar uma olhada nas jóias. — E uma missão para um profissional treinado — emendou. Nick afirmou que você já conhece os números da combinação que destrava a maleta. Grace passara a maior parte do último ano afirmando que precisava de espaço. Grace estendeu a mão e ele viu que a maleta estava presa ao seu pulso por uma corrente de aço inoxidável ligada a uma algema de metal e veludo negro. Depois de retirar a corrente pela cabeça. mas compreendi que seria impossível. Mas quis ter o prazer de ser a portadora das jóias DeWilde.. buscando dentro do decote do tailleur de linho azul. — Bem. Kate e Lianne conseguiram despertar nele consciência suficiente pelo menos para não expressar mais seus preconceitos. Queria vir na noite do casamento de Kate. conheço. estender a mão. quando Grace confessara ter se casado sem amá-lo. por favor? —E claro. Uma mulher. — Ela também abre a trava de segurança da valise. Jeffrey percebera que era perigoso fazer perguntas pessoais. nenhum. ou se fora procurá-la nas diversas lojas eróticas espalhadas por San Francisco.. só para ter certeza de que sobre viveram à viagem. menos perto do ex-marido. que ainda estava quente por ter sido aninhada entre seus seios..realizar a fantasia. .. Felizmente conteve-se a tempo. um objeto que o levou a pensar em certos brinquedos de adultos. — Não. Jeffrey buscou refúgio nos aspectos mais práticos da questão. era bom saber que a ex-esposa fora ao seu encontro. Mesmo assim. Megan. — Jeffrey pegou a chave.. Esse não é um trabalho para uma. Gostaria de saber por que isso era importante para ela. Ele cuidou de toda a papelada.marinho uma fina corrente de elos dourados. Como sempre acontecia quando não sabia o que fazer. quando tinha a opção de manter-se afastada. A idéia alimentou o fogo que parecia queimá-lo por dentro. —Sim. mas temia perguntar. — Aqui está a chave da algema — Grace anunciou. há cerca de um ano e meio. virou a palma da mão para cima e esperou que ele abrisse a algema. orientou-me por entre os corredores obscuros da burocracia alfandegária e trouxe-me até aqui esta noite. — Espero que não tenha enfrentado problemas com a Alfândega.. Desde aquele Ano Novo. a menos que se tivesse certeza absoluta da resposta. Jeffrey recuperou-se e sorriu. um eufemismo americano para indicar que preferia estar em qualquer lugar. Nick providenciou um mensageiro experiente para acompanhar-me. — Poderia.

O trabalho de incrustação é tão delicado. Jeffrey lembrou-se de respirar. fez um ótimo trabalho. diamantes e esmeraldas sobre um fundo de ônix negro. — Não foi um elogio.Jeffrey inseriu o dedo entre o colarinho e o pescoço. e conhecia aquele corpo como se fosse o dele. Jeffrey? Às vezes você é capaz dos mais surpreendentes elogios. — Acho que devemos testar sua teoria — ela disse.. e ele se virou para utilizar a combinação numérica que abriria a valise. manipulando os pequenos botões da jaqueta. —Graças a Deus — ela suspirou. Uma sinapse crucial entre o cérebro e os dedos devia ter sido afetada pelo intenso calor que sentia. um delicado círculo de diamantes. Devia tê-la segurado . mas não creio que linho azul-marinho faça justiça a um colar como este. — E verdade. rubis e esmeraldas que pertencera à nobre russa. —Esse tipo de peça sempre fica melhor quando é usada — disse. Ainda mais estupendo era o colar Águas Dançantes.. tentando afrouxar a gravata. Ela ia tirar a jaqueta. inclinando-se para examinar as jóias. esquecendo a presença de Grace por um ou dois segundos ao deparar-se com as peças acondicionadas nos com-partimentos especialmente desenhados para o transporte de bens delicados e valiosos.. no mínimo. A sala parecia ter adquirido sérios e repentinos problemas quanto à ventilação. Grace o encarou. Estava apenas dizendo a verdade e sendo eloqüente. Então ergueu a tampa devagar. Jeffrey segurou um par de brincos e colocou-os sob a luz. agindo num impulso. Quem quer que tenha projetado a maleta. — Elas não foram deslocadas pela movimentação constante. você optou por ombros nus.. Ela só precisa dos ombros nus de uma bela mulher como você. Jeffrey pegou o colar e girou-o devagar de forma que as pedras refletissem a luz. O broche era uma mistura de rubis. Grace massageava a parte interna do braço. Finalmente havia a tiara da imperatriz Catherine. montados com rubis valiosos e diamantes perfeitos. sua ex-esposa. Grace exclamou com um misto de espanto e fascínio e. Era sua esposa. — Nick e eu trabalhamos juntos nas especificações. Eram quase pesados demais para serem usados. que tive medo de que sofressem algum dano. Uma peça tão espetacular precisa de cetim e renda rara. Vejamos quem acertou. Sorrindo. porque teve de repetir a operação quatro vezes antes de ouvir o estalido da trava se soltando. — Eu disse cetim e renda. ela se inclinou para apreciar o efeito no pequeno espelho do bar. — As peças foram muito bem protegidas. ele ajustou a jóia em torno do pescoço da ex-esposa. — Sabe de uma coisa. uma cascata de diamantes intercalados com safiras que lembravam as profundezas azuis de um rio límpido correndo entre montanhas. — Não.

É como se toda uma vida houvesse se passado desde que estivemos juntos pela última vez. mas ainda acho que cetim escuro seria perfeito. permaneceu em silêncio enquanto ela desabotoava a jaqueta. aliviado por descobrir que não perdera o poder de falar. — Gracie. mas não estivemos juntos. Talvez tenha razão quanto à renda. Nós nos encontramos. Temendo falar e gaguejar. Não só podia visualizar o vestido. fresco e inebriante como o retorno da primavera depois de um inverno gelado e cinzento. na matriz da Casa das Noivas e em seus braços. demonstrando como estava satisfeito por têla novamente ali. deixando-o sobre a mesa com movimentos casuais. onde era seu lugar.. era esse o nome da peça delicada e transparente. Gracie. Ela riu e corou. Grace não respondeu. Grace girou devagar sob a luz. —Olhe atrás de você — murmurou. Jeffrey pensou aturdido. renovando o espírito e multiplicando a energia. Sob a jaqueta ela usava apenas uma confecção de seda cor de pêssego. Devagar. Um vestido de decote ousado e corte reto. Beijou-a com ardor. com uma saia longa e justa aberta até a metade da coxa em uma das laterais. O beijo foi confortável e familiar como sua poltrona favorita. quem estava certo? Com esforço. Sim. A constatação mundana não-foi suficiente para controlar a pulsação acelerada e a respiração arfante. O calor do corpo de Grace inundava suas veias. — E então. O desejo que sentia era tão intenso que chegava a doer. mas também não tentou afastar-se. — Jeffrey desistiu de tentar encontrar palavras para expressar o que sentia. — Cetim e renda ficariam completamente ofuscados por ombros tão perfeitos. mas era capaz de imaginar como Grace ficaria dentro dele. no casamento de Kate em San Francisco. Percorreu o espaço que os separava com passos aflitos e tomou-a nos braços. Ela sorria. — Exatamente. Grace afastou as lapelas e despiu o casaco.nua entre os braços milhares de vezes. Uma combinação. de forma que o colar refletisse os raios e brilhasse sobre a suavidade pálida de sua pele.. — Há dois . — Nós nos encontramos há poucas semanas. Por alguns momentos maravilhosos ela retribuiu o beijo com tal intensidade que Jeffrey ficou desorientado quando a viu afastar-se de um salto e agarrar a jaqueta que deixara sobre a mesa. Jeffrey conseguiu lembrar o que discutiam. Para o diabo com os problemas menores como o fato de estarem divorciados e ter de reconstruir a vida sem ela. — Obrigada. — Senti sua falta. — Eu — respondeu.

—Existem guardas e câmeras espalhados por toda a loja — disse aos invasores. — Está bem. Atrás dele. —Não somos ladrões. a empresa contratada para cuidar da segurança da Casa das Noivas. E então lembrou. Jeffrey agiu de acordo com as instruções e segurou a carteira aberta.. O guarda respirou fundo. No entanto. e um deles deu um passo à frente. Jeffrey olhou para os dois homens que diziam ser guardas de segurança. mas reconhecia o uniforme caqui da Securicorps.homens parados na porta da sala. Parece estar havendo algum mal-entendido aqui. exibindo um documento com foto. Como fora capaz de esquecer algo tão importante? —Sou Jeffrey DeWilde — disse. — Está dizendo que é o sr. compreendi que havia me enganado. O som o fez perceber o humor da situação. — Se querem ver algum documento de identificação. E estão armados. tentando não soar tão idiota quanto se sentia.. sou Jeffrey DeWilde. — Bem. fez um cálculo rápido para descobrir quantos anos haviam se passado desde a última vez em que fora surpreendido namorando. parou diante de Grace e pensou em como poderia protegê-la. No entanto. Alan Hicks. Estava esperando pela entrega de jóias valiosas e tive motivos para crer que havia um problema de segurança. da equipe de atendimento imediato da Securicorps. — Não vão conseguir sair daqui com as jóias nem têm chances de escapar da polícia. — Mas não desativou o alarme? Nem telefonou para a empresa? — Não. Usando o corpo para proteger a privacidade de Grace. para . injetando um tom frio e firme à voz. DeWilde? — Ron Bra-dley perguntou com ar confuso. Contendo o desejo de gargalhar. O alarme silencioso! A chegada inesperada de Grace o confundira de tal maneira que havia esquecido sobre o sinal enviado à sede da Securicorps. Os dois trocaram um olhar confuso. — Como pode ver. Sou Ron Bradley. pegue a carteira devagar e segure-a longe do corpo. encarou os dois guardas. Grace abotoava a jaqueta e tentava abafar o riso. Essa era uma situação em que a reputação de homem fechado e distante vinha a calhar. Não havia problema nenhum. — Não perderia tempo tentando justificar um comportamento tão irresponsável. vão ter de me deixar pegar a carteira no bolso interno do paletó. Identifique-se. momentos depois de ativar o sistema de alarme. por favor. parece que foi apenas um mal-entendido. Jamais os vira e não reconhecia seus nomes. Este é meu parceiro. Só não sabia como haviam ido parar. Armados? Jeffrey virou-se. a pistola apontada para o peito de Jeffrey.

senhor. odiando a tensão que deixava transparecer no tom de voz gelado. Fomos casados por tanto tempo. Tenho de mostrar todos os meus documemntos para provar que sou quem afirmo ser. Jeffrey digitou os seis números que formavam a combinação e o guarda examinou o sinal luminoso de um pequeno bip que levava preso à cintura. Minha esposa e eu sairemos dentro de vinte minutos. Grace explicou que havia acabado de chegar de San Francisco para uma breve estadia em Londres. O código está correto e o alarme foi desativado.confirmar que não houve nenhuma violação no nosso sistema de segurança. os ladrões teriam escapado levando todas as jóias. mas Grace só precisa sorrir para conquistar a confiança e a simpatia dos sujeitos. e um-dos rapazes começou a falar sobre a viagem que fizera aos Estados Unidos no ano anterior. por favor? Ninguém o conhece. — Nesse caso. e informe-os sobre nossa presença no prédio. interrompendo a conversa entre Grace e os rapazes. creio que o problema está resolvido. — Obrigado. — Tivemos problemas com o trânsito. Se houvesse mesmo um assalto em andamento. está planejando passar algum tempo em Londres. Jeffrey estava aborrecido por ter cometido o engano de chamá-la de esposa. exceto o sr. pode digitar o código que desativa o sinal de alarme. — Os guardas trocaram os sorrisos pela pose formal e séria. — Sua esposa? — Ele está falando de mim — Grace adiantou-se e sorriu para os dois seguranças. certo? — perguntou. — Discutiremos o assunto na segunda-feira. Ou melhor. que ainda nos esquecemos do divórcio. DeWilde. — Diga ao seu supervisor que fiquei desapontado com a demora da Securicorps. vendo o indicador luminoso passar do vermelho ao verde. satisfeitos com o tratamento amistoso. Os guardas pareciam mais seguros. Jeffrey irritou-se. — Pelo que disse aos seguranças. mais ou menos. a ex-esposa de Jeffrey. Grace teria rido. Explique tudo aos seus colegas na mesa de segurança no saguão da loja. — Sou Grace De-Wilde. • Sim. e ainda mais furioso pela facilidade com que ela superava o constrangimento causado pelo comentário descuidado. Típico. Mas no novo e . O guarda encarou-o com ar desconfiado. Esperou até estarem sozinhos para falar com ela novamente. senhor. Vocês levaram quinze minutos para responder ao sinal silencioso — disse. estava aborrecido com ele mesmo. Nos velhos tempos. — Espero que a empresa tome providências para melhorar os serviços que presta. — Não tinha o direito de ser indelicado com os guardas só porque estava aborrecido com Grace. senhor. suspirado e respondido como se ele não houvesse formulado a pergunta como um asno pomposo.

Não havia motivo algum para discutirem sobre os três filhos adultos. a única alternativa que restava era dizer a verdade. E muito. nenhuma razão para lacerar a alma sentado diante dela à mesa. — Tenho certeza que sim. Não quisera o divórcio justamente para que não houvesse mais nada a ser discutido. Para eles. Boa noite. vendo o amor que os unira desintegrar-se pouco a pouco? — Fomos marido e mulher por quase trinta anos — disse. E se todos os argumentos haviam falhado. Jeffrey? Não tinha a menor idéia. Os olhos fundos e cercados por olheiras escuras perdidos no rosto pálido a transformavam numa espécie de fugitiva do filme Gasparzinho. — Pretendo passar alguns dias na Inglaterra. Isto é/ acha que vai poder dispor de algumas horas para jantar comigo numa noite qualquer? Grace não estava disposta a tornar as coisas mais fáceis para o ex-marido. — Tivemos três filhos. Depois tirou o colar Águas Dançantes e entregou-o a Jeffrey.incerto relacionamento. Grace saiu da sala tão depressa que Jeffrey não teve tempo para dizer mais nada. nenhum assunto exigindo sua atenção. — Por que quer jantar comigo. Estava novamente sozinho em seu escritório. Mas por que deveríamos? Não somos mais casados e nossos filhos parecem estar muito bem. Não suportava a idéia de encontrar Gabe e Lianne com aquele ar desolado. viver em estado de permanente esgotamento não havia feito muito por sua aparência. Ela ficou em silêncio por um momento. dentre todas as pessoas. mas quero.. casados e felizes. — Não sei por que quero jantar com você. Grace. Não era uma visão muito agradável. telefone para mim. Olhando para o espelho do banheiro. Vitali- . Ela tinha razão. sem nada para consolá-lo além das jóias fabulosas avaliadas em muitos mi-lhões de dólares e a fragrância do perfume de Grace. o Fantasminha Camarada. Júlia Dutton descobrira que trabalhar até a exaustão era uma excelente maneira de disfarçar o coração partido. — Teria. e depois irei a Paris para ver Megan e Phillip. ela hesitou por um instante antes de anunciar com voz cuidadosamente controlada. torceu o nariz para o reflexo. teria de apresentar a ilusão da srta. É evidente que podemos encontrar alguma coisa sobre a qual conversar. o novo hotel em Knightsbridge. e todos eles se casaram no último ano. Infelizmente. CAPÍTULO II Ao longo do último ano. Estarei hospedada no Goreham. — Quando descobrir por que quer passar algum tempo em minha companhia..

estava horrível de todos os ângulos. Júlia constatou que não se sentia indisposta ou desanimada. Como fadas-madrinhas não existiam. Não suportava mais merecer seus olhares piedosos. Enquanto esperava. . criando alguns caracóis extras. sugeriam saúde e exibiam um brilho natural que lembrava o mogno polido. especialmente quando o homem em questão era o grande amor de sua vida. cheia de homens excitantes e atenciosos. e já havia passado da hora de Júlia controlar os sentimentos que não conseguia matar. mas magia era algo que desaparecera de sua vida há meses. e o equipamento parecia pesado e desajeitado em sua mão. apesar da semana difícil lecionando francês no curso intensivo de verão na escola e das longas noites que passara em casa. Pensar em Gabriel DeWilde era o suficiente para fazer seu rosto queimar sob a máscara de beleza. e conseguiu convencer a franja a manter-se longe da testa. Longos e espessos. sentia que havia algo de ridículo em uma mulher cuja vida amorosa era patética a ponto de não conseguir sufocar os sentimentos por um homem que a abandonara havia mais de um ano. Tomada por uma súbita explosão de otimismo. costurando uma colcha que havia copiado de uma fotografia da década de vinte para o terceiro aniversário da sobrinha. Ajustar a luz não adiantou muito. mesmo quando sentia-se devastada. em vez de cobri-la. e ela baniu da mente as lembranças que ainda eram tão nítidas e dolorosas. Pessoalmente. Examinou o resultado com um olhar inseguro. Naquela noite. Ser trocada por outra mulher não era uma experiência agradável. mas os cabelos sempre haviam sido seu grande orgulho. Desligando o ferro. e precisava dar a impressão de ser uma mulher com uma vida satisfatória. esperando não estar se iludindo com o efeito sofisticado do novo penteado. tentou entender por que os vitorianos consideravam o amor frustrado tão romântico. só uma fada-madrinha teria sido capaz de restaurar a luminosidade que um dia realçara seus traços delicados. fraca e sem nenhuma disposição. sofisticação era tudo que queria exibir ao mundo. Gabe e Lianne eram felizes juntos. Naquele momento. Para sua surpresa. Não era exatamente a mágica que procurava. Veria Gabe novamente depois de quatro meses. e ela espalhou o creme pelo rosto sem acreditar que dez minutos seriam suficientes para transformá-la numa nova mulher. Pelo menos não tinha problemas com os cabelos. Não conseguia lembrar a última vez em que sentira necessidade de preparar-se tanto para uma ocasião.dade. ligou o aparelho de modelar os cabelos e considerou diferentes opções de penteado. Todo o resto era motivo de desespero. O anúncio do fabricante prometia milagres. Haviam se casado e esperavam o primeiro filho para o próximo mês. ocupou-se com o ferro "de modelar. Júlia abriu o armário e encontrou uma embalagem de máscara de rejuvenescimento facial comprada um ano antes.

haviam falecido recentemente. E então. e conversavam por telefone pelo menos uma vez por semana. Quanto à cozinha. porque encontrara Lianne poucas vezes e não vira Gabe. na semana anterior. Encontravamse sempre que o trabalho permitia. já que ambas desejavam preservar a antiga amizade. Júlia havia ardido de desejo de ocupar-se com a decoração assim que conhecera o chalé. a depressão e a angústia. O banheiro existente possuía uma maravilhosa banheira. tinha um piso de carvalho de duzentos anos e um fogão que havia sido a última palavra em modernidade na época da comemoração do Ju-bileu de Diamante da rainha Vitória. Com o bebê previsto para o final de agosto. Durante a reforma do chalé. mas sabia que os pais tinham razão quando afirmavam tratar-se de um campo instável e competitivo demais para se tornar um meio de sobrevivência. apesar de Gabe. e o lugar provara ser farto em charme e carente em conforto e conveniências. Lianne telefonara para dizer que a renovação havia . onde ampliava seu conhecimento sobre mobília antiga e transformava-se numa especialista em tecidos e padrões usados na decoração das casas de campo inglesas nos últimos três séculos. já que ela e Gabe queriam alcançar um compromisso entre o conforto e o estilo original da construção. mas nenhuma água quente. Felizmente Lianne e ela haviam construído um relacionamento sólido o bastante para ainda permanecerem próximas.Ser trocada pela melhor amiga era uma experiência que não desejaria nem à pior inimiga. mesmo quando ainda era criança. Para superar o fato de Lianne ter se casado com o homem que Júlia amava. Era uma farsa necessária. Os dormitórios exibiam lindos batentes de madeira maciça em torno das janelas. tentando acelerar o trabalho dos operários que acrescentavam uma nova cozinha e um banheiro extra ao chalé do século dezoito que haviam comprado logo depois do casamento. Júlia não precisara fingir com freqüência. haviam desenvolvido um sistema através do qual fingiam não notar o desconforto provocado pela simples menção do nome de Gabriel. passara a preencher os finais de semana vazios com visitas às casas do Fundo Nacional. As viagens haviam começado como um truque para evitar o tédio. mas à certa altura Júlia percebera ter desenvolvido um verdadeiro fascínio pelas técnicas de restauração e preservação de tecidos antigos. Decoração de interiores sempre fora uma obsessão para ela. Lianne pedira conselhos à amiga sobre os padrões e os esquemas de cores. Desde o fracasso do romance com Gabe. Nas últimas semanas. Os proprietários anteriores. duas irmãs de mais de setenta anos. o casal passava todos os finais de semana no campo. mas o teto de gesso era escuro em função da umidade.

— Eles se foram. — Devem estar muito felizes com a conclusão da reforma. não. E os painéis de madeira na sala de jantar criaram um contraste perfeito com as cantoneiras de gesso. — A notícia não só é maravilhosa. Jules. Espero que tenha feito algo escandaloso — riu. Não imagina como a casa ficou linda. — Você é uma das mulheres mais belas que conheço. Não sei o que aconteceu com meu senso de cores recentemente. . — Sim. pernas fabulosas.. — Infelizmente. Pensei que poria uma placa em Trafalgar Square! Júlia mantivera a voz neutra. pode atrair todos os homens que desejar. E o silêncio? Havia me esquecido de como era passar o dia sem ouvir um bando de homens martelando e gritando como loucos para se fazerem ouvir acima de seus rádios. É irritante. mas o cansaço me impede de ter certeza. as cortinas já foram penduradas e ficaram lindas. especialmente em Paris. como surpreendente. E não queria nenhum outro. —Duvido! Quem teria coragem de demitir a ganhadora do prêmio Estilista do Ano da Brides Magazine? —Como soube disso? Gabe lhe contou? Francamente. A situação mais próxima de um escândalo ocorreu quando surpreendi duas das garotas bebendo no bar do hotel às duas da manhã. Estava certa quando sugeriu o algodão cor de rosa no lugar daquele horrível verde musgo que eu estava procurando. saíram daqui! — gritara. Almoçamos juntas quando estive em Paris no final do mês passado. — Esteve em Paris? Eu não sabia. Felizmente a maioria das noivas ainda usa branco.finalmente terminado. Jules. Menos Gabe. — Não tenho falado com Gabe. — Não sou o tipo de mulher que faz os homens pensarem em sexo e pecado. Estava acompanhando um grupo de alunos do segundo grau numa visita pelos pontos culturais da cidade. Tem um corpo perfeito. Foi Megan quem me contou sobre o prêmio. ele ficou impossível quando o editor da revista ligou para contar a novidade. Temos uma casa na qual todos os cômodos possuem quatro paredes sólidas e um teto seco! Júlia rira. Que droga! Pensei que houvesse conhecido um homem interessante e fugido com ele para Paris para um final de semana de sexo e pecado. Liberty terminou as cortinas para a sala? Estou louca para ver como ficaram.. — Isso não é escandaloso. Quantas dessas paredes sólidas já foram pintadas? — Todas. Deve ter sido dissolvido pelos hormônios da gravidez. ou a Casa das Noivas já teria me demitido há meses. — Acho que estou eufórica.

Júlia falara com firmeza suficiente para esmagar as idéias malucas que sabia estarem povoando a mente de Lianne. Queria encontrar um homem decente e honrado com quem pudesse se casar. — Como sabe em que os homens à sua volta estão pensando? — Ninguém precisa de poderes paranormais para perceber quando há uma certa dose de interesse sexual. e por isso não consegue enxergar a verdade. relacionamentos arriscados e apimentados não fariam parte dê sua lista de pretensões. Júlia rira. — Quer despertar esse tipo de desejo nos homens? Sempre imaginei que estivesse interessada apenas nos mais calmos e acomodados. — Lianne mudara de assunto com velocidade incriminadora.. Era verdade. — Não preciso de nenhum estímulo extra. Está revisando sua relação dê amigos solteiros enquanto conversamos. Lianne. telefonei para convidá-la para vir ao chalé no próximo final de semana.. mas existem indícios relativamente óbvios. Você é uma amiga maravilhosa. mas a honestidade me obriga a reconhecer que nunca inspirei em um homem idéias apaixonadas sobre sexo pecaminoso e viagens clandestinas. tentando decidir qual deles é mais adequado para me raptar para um lugar exótico para uma noite de sexo e pecado.. —Somos amigas há muito tempo. Vamos reunir alguns amigos para comemorar o final da reforma. mas era isso que sempre planejara. ou alguém esqueceu de colocar os pavios. -— Jules. Se alguém puder . — Na verdade. Em minha opinião. de forma que eu possa me preparar para a chegada do bebê. você é um maço de dinamite esperando pelo sortudo que vai acendê-la. mesmo que não estivesse mais apaixonada por Gabe. Algumas pessoas consideravam esse tipo de sonho antiquado e aborrecido. a meteorologia prevê sol para o sábado e o domingo.mas deve saber que beleza e sensualidade são coisas bem diferentes. Mesmo que de repente descobrisse em si mesma um apelo forte o bastante para competir com Sharon Stone. e sei o que esperar quando sua voz assume esse tom pensativo. Se precisa de incentivo. e queremos exibir o chalé antes de estarmos enterrados até os joelhos em fraldas e mamadas noturnas. Teremos de voltar para a cidade na segunda-feira. uma mulher se torna sexy aos olhos de um homem quando se sente sensual e atraente. —Não.— Obrigada pelos elogios. — O maço deve estar molhado. ter filhos e construir uma vida estável e sólida. É claro que irei. e gostaríamos de poder contar com sua presença. — E estou. Jules. Sua família conseguiu convencê-la de que nasceu para ser uma esposa domesticada e dócil. está enganada. e o campo é lindo nesta época do ano. Talvez não saiba.

Ele pretende retornar a Londres no começo da tarde de domingo. você é surpreendente. Júlia lavou o rosto_ e removeu a máscara que. Júlia gostava de Edward. Às vezes. Jtília surpreendia-se imaginando por que o casamento de Edward durara menos de dois anos. capazes de fazer seu coração bater mais depressa! Com sorte e dedicação de sua parte. Quer que eu diga a ele para ir buscá-la às quatro da tarde do sábado? — Por mim está ótimo. é claro. Afinal. descobriu que só dispunha de quinze minutos antes de Edward passar para apanhá-la. Edward era o tipo de homem com quem qualquer mulher sensata desejaria se casar. e Júlia esperava que. Não fora fácil encontrar um vestido que tornasse pública a mensagem que gostaria de transmitir: Estou muito feliz por ter encontrado o amor ao lado de Lianne. temeu ter cometido um pequeno . ou melhor. também. além de Gabriel DeWilde. — Não precisa vir de trem. vestiu a roupa que havia comprado especialmente para o final de semana. Advogado. Obviamente. e se mostrara gentil e inteligente nas duas ocasiões em que saíra com ele. de maneira surpreendente. e está tão distraída que nem percebe seu interesse! Vou dizer a ele para telefonar e dizer como ficará feliz por poder levá-la até o chalé.ir me buscar na estação ferroviária de Winchester. Edward Hillyard pode lhe dar uma carona. Edward Hillyard poderia ser aquele que a ajudaria a esquecer o romance fracassado com Gabe. Olhando para o relógio sobre a bancada da pia do banheiro. maquiada e perfumada. progredia rapidamente nos círculos legais. de todos os ângulos. e Júlia sentira-se grata por tratar-se de um cidadão sólido e respeitável. Jules. mas veja só o que perdeu! Virando-se devagar para examinar a saia justa e curta. devia haver alguns homens no mundo. deixou sua pele brilhante e rosada de acordo com o anúncio. e essa era a terceira vez que Lianne o escalava como acompanhante de Jtília. Doze minutos mais tarde. e ele nunca se atrasava. um homem recentemente divorciado. Exceto sua ex-esposa. com algum esforço. Lianne continuara falando antes que Jtília pudesse dizer alguma coisa. Gabriel DeWilde. ele era o solitário escolhido. Também era atraente. Só gostaria de saber por que se sentia tão desanimada. Edward era um velho amigo de Gabe. muito justa e muito curta. pudesse convencer-se a considerá-lo razoavelmente sexy. E pensar que acabou de afirmar saber o que os homens à sua volta estão pensando! Edward vive procurando desculpas para se aproximar mais de você.. o que significa que pode aproveitar a carona de volta. — Edward já aceitou nosso convite para vir jantar no sábado. Pontualidade era uma de suas muitas qualidades dignas de admiração. e por isso agradecera quando ele havia ligado para repetir a oferta de Lian-ne. Mas não acha que devia consultá-lo antes de tomar todas as decisões? Como pode saber que ele quer me dar carona? — Francamente..

Júlia convidou-o a entrar com um gesto. — As pessoas estão sempre tropeçando nesse capacho — mentiu..exagero no esforço de transmitir seu recado. ele parecia atônito com a mudança em sua aparência. e todos o julgaram maravilhoso. O vestido que usava naquela noite podia ser chamado de muitas coisas. caminhou até a porta segurando a frente do vestido de encontro ao peito. — Normalmente contido e equilibrado. Determinada. abriu a porta e o cumprimentou com um sorriso simpático. Não teve problemas com o trânsito. tentando tirá-lo. que enroscou no meio do caminho. Só precisava entender por que a família e Lianne consideravam Edward tão perfeito. Depois de calçar os sapatos pretos de salto alto e examinar o efeito final do conjunto. Resmungando palavras que teriam horrorizado os pais e os irmãos. Vermelho. mas conservador não era uma delas. O final de semana não seria um fracasso só porque receberia Edward com o zíper meio aberto. Se Edward se atrasasse alguns minutos. adquirira o hábito de comprar roupas sóbrias e conservadoras para ocasiões especiais. decidiu trocá-lo por um conjunto de calça comprida e blusa em linho bege. Conforme esperava. Normalmente não acreditava em presságios. tentando convencer o coração a bater um pouco mais depressa. Edward. não é? — Olá. Júlia conteve o desejo de rir. Tanto que tropeçou no capacho e quase caiu. A mãe ficara tão encantada com suas maneiras tradicionais que nem piscara ao saber que ele divorciado. o decote não precisava ser tão generoso. — Vou ter de tirá-lo daí. furioso com o gesto desajeitado.. Depois de olhar pelo visor para confirmar que era realmente Edward. Apresentara Edward aos pais quando os encontrara por acaso no teatro. encaixou novamente os braços nas mangas e puxou o zíper. Edward chegara exatamente no horário combinado. Em pânico. A mãe conseguira pronunciar o nome dele pelo menos uma vez em todas os telefonemas que sucederam-se ao encontro. Estava com o vestido amarelo sobre a cabeça. teria tempo para fazer a substituição. Júlia tentou não perder a coragem. mas vulgar. por isso tropecei no tapete.. quando ouviu a campainha. E a cor? Amarelo ouro! Depois de ter trabalhado durante anos numa escola feminina e ter sido criada com dois irmãos mais velhos que sempre haviam verificado sua aparência antes de qualquer encontro. — Não se incomode. Mas ele se negava a colaborar. — Olá. — Falava . Júlia. e depois tudo seria mais fácil. Estava distraído. Dadas as dimensões reduzidas da saia. ajeitou as mangas da camisa e alisou os cabelos com as mãos.. Jiilia concluiu que o vestido não era sexy e intrigante. Pontual como sempre.

mas era um cavalheiro. Não experimentara nem a menor centelha de interesse sexual por qualquer outro homem desde a última vez em que Gabe a beijara. mas não podia dizer que ele estivesse tirando vantagem da situação. Júlia se deu conta de que jamais conseguiria desempenhar o papel da mulher fatal.. presumivelmente com modesta satisfação de sua parte. —Muito obrigada. — Edward esperou que ela se virasse. Bem. mas Júlia não sentira nada. mas os olhos viajavam por seu corpo e se detiveram por alguns instantes nas pernas expostas pela saia curta. Não quer levar um agasalho? Suspirando. e assustou-se ao vê-la pular como se houvesse sido atingida por uma corrente elétrica.. —Pronto i— ele anunciou depois de dois ou três minutos de esforço. Vamos levar pelo menos duas horas para chegar a Lower Ashington. — Desculpe. mas o zíper ficou en-roscado no tecido e não consigo movê-lo. Está pronta? — E engoliu em seco. Lembrou-se de que estava determinada a superar a estúpida fixação pelo . Odiava a intimidade forçada. ao ver que ela não protestava. segurou-a pela cintura e beijou-a. Comprara um vestido insinuante e atrevido. Então colocou as mãos sobre seus ombros para descobrir onde estava o problema. Os olhos cinzentos e um pouco protuberantes pareciam prestes a saltar das órbitas. um.. por favor? —Sim. As mãos pendiam junto do corpo e o estômago roncava como se não comesse há meses. — O trânsito está aumentando no sentido da auto-estrada.. e Edward só conseguia pensar na possibilidade de uma variação climática. mas era tarde demais para lamentar a escolha. — Conseguiu. —Tudo bem — mentiu.. Murmurou seu nome como se fizesse uma pergunta e. Minhas mãos estão geladas. —Deixei uma jaqueta separada no quarto. Sei que isso é bastante embaraçoso. Por um momento sentiu-se paralisada. Queria dar o tal passo para a frente e abraçálo. o fato de um simples conhecido saber que usava um sutiã amarelo para combinar com o vestido. ele não parece ser muito quente. Eleja a beijara antes.. Acha que pode soltá-lo e fechá-lo. Os olhos arregalados a levaram a sentir-se tola. o que não a surpreendia. e por isso forçou-se a continuar sorrindo. Foi Edward quem pôs fim ao dilema. mas os pés pareciam grudados no chão. mas preciso de sua ajuda antes de ir buscá-la. em vez de sexy e feminina.com aparente tranqüilidade. é claro. e logo conseguiu reunir forças para fitá-la. Longe disse. e acabaremos perdendo o final da tarde se não nos apressarmos.. — Esse vestido é bastante. Um passo para a frente e estaria em seus braços. Evitava tocá-la de qualquer maneira que pudesse ser considerada sugestiva.. — Júlia virou-se e descobriu que Edward permanecia no mesmo lugar.

já que o céu permanecia limpo e o sol começava a banhar os campos com a luminosidade avermelhada do entardecer. felizmente. Tentou visualizar Edward na pele de Richard Gere. Edward. decidiu que havia escolhido a fantasia errada. Passava das seis quando se aproximaram da saída para Winchester. Cortês como sempre.marido da melhor amiga. Imaginou que sucumbiam ao desejo depois de meses de paixão silenciosa. Edward soltou-a assim que ela começou a retroceder. Com alguma concentração. Tarde demais. Thomas e tomaram uma estrada secundária que levava . Distraída. Quando começou a preocupar-se com a impossibilidade de respirar. imaginou que ele era Hugh Grant e ela. nada em particular. Aprendera desde o primeiro encontro que ele falava por dois. Tentando demonstrar alguma excitação. Edward continuava sendo apenas Edward. estavam fazendo uma imitação mais próxima de Mi-ckey e Minnie do que de Richard Gere e Júlia Roberts. Precisava de um cenário mais contemporâneo. Parecia não ter notado nada de estranho na resposta tépida. Quando percebeu que a mente iniciava uma crítica intelectual do filme. tentava entender o que ele relatava sobre a semana de trabalho no fórum e no escritório e procurava não se irritar com a mão possessiva segurando seu cotovelo. Minutos mais tarde chegavam ao BMW que ele estacionara bem perto do edifício. não era um homem habituado a exigir das companheiras grandes parcelas de colaboração para a conversa. como esperava que acontecesse. e Júlia sentiu-se culpada por não ter conseguido envolver-se com uma experiência que o parceiro havia considerado excitante. Jane Austen era casta demais para inspirar uma reação ardente. tinha certeza de que poderia injetar um pouco mais de entusiasmo em sua resposta. decidiu que era hora de fazer um favor aos dois e interromper o beijo. mas não havia risco da luz desaparecer antes de chegarem a Lower Ashington. mas gostaria de poder esquecer a mecânica e deixar-se levar pela emoção. Qual era o problema com ela? Teria nascido com algum defeito genético que a incapacitava para sentir paixão por qualquer outro além de Gabriel DeWilde? Era difícil encontrar algo apropriado para dizer. então o relacionamento não estava destinado a escalar os picos da paixão. Contornaram a praça onde ficava a pequena igreja de St. Talvez Richard Gere e Júlia Roberts em Pretty Woman? Os beijos trocados entre os dois atores haviam sido tão quentes que poderiam ter derretido a película em que foram filmados. mas era impossível. compreendeu que se precisava fingir que Edward era um personagem do cinema para tolerar seus beijos. agradável e adocicado. O sabor do beijo era de creme dental de hortelã. Estava corado e ofegante. e o sangue se recusava a queimar em suas veias. Emma Thompson em Sense e Sensibility. No momento... O beijo era como.

Jules. Como conseguiu essa façanha? Manteve os operários amarrados às ferramentas? A casa ficou encantadora! — E você também. como sempre. É bastante arrojado. Achei que era hora de mudar. mas o sorriso desapareceu de seus lábios quando ela reconheceu o homem sentado na poltrona ao lado da janela. temendo dar risada. o vestido é lindo. quando se sentir revigorado pelo álcool. imaginou se ainda sentiria aquela mesma opressão quando ele fosse um homem velho. Minha cunhada vive dizendo que o parto causa amnésia instantânea. pretendo retribui-los com juros. e acho que estou começando a odiá-la. Gabe. Lianne estendeu a mão. — Você está ótima — Júlia respondeu sorrindo. vamos ter de contratar um serviço de guindaste para me tirar da cama todas as manhãs.ao chalé Briarwood. Desesperada. — Tenho certeza de que não vamos precisar mentir — Júlia intercedeu com diplomacia. — E obteve sucesso com a mudança. não diga nada. O coração de Júlia saltou no peito. Dois convidados já haviam chegado. Quero lembrar cada comentário cruel de meus supostos amigos. Virando-se para Edward. Estou anotando nomes e ofensas. minha cunhada parecia uma bola de praia com pernas. — Jules! — E envolveu a amiga num abraço caloroso. — Está tão magra e elegante que não posso suportar! Seu cabelo está maravilhoso. . Michael Forrest! O que ele estava fazendo ali? De todos os homens que poderia encontrar. Se continuar engordando. Lianne abriu a porta antes que tivessem tempo para tocar a campainha. — Obrigada. Edward. Se não gostar do que fizemos. — Gostei do novo penteado. Depois. desculpou-se e entrou. — Não conte com isso. Júlia conseguiu encará-lo e sorrir. — Sinto-me absolutamente segura contra esse tipo de vingança. A imagem era tão absurda que. Espere até o mês que vem para reclamar do peso. Entre. Como se não fosse o bastante ter de pensar em cada palavra que dizia para não trair os sentimentos por Gabe. A mulher parecia vagamente familiar. esperamos que percorra toda a casa fazendo comentários agradáveis e elogiando nosso bom gosto. — Gabe saiu e beijou-a no rosto. Um homem e uma mulher. — Ele devolveu um sorriso igualmente frio e impessoal. vagando de sala em sala a procura da dentadura. — É um prazer revê-lo. Gabe já está preparando seu drinque. por favor. aquele era o último que teria escolhido. — Você realizou um verdadeiro milagre. — Bela amiga você é! Espere só até ficar grávida. E mais. Um dia antes de dar à luz. — Cheia de disposição e saúde.

Michael fora o foco das atenções durante toda a noite. Comparecera a uma noite de gala organizada pelos DeWilde. exceto Júlia. ou com o fato de preferir relacionar-se com gente que havia se tornado famosa basicamente por levarem existências frenéticas e desregradas. nascera. Mas quando o bebê. as visitas foram se tornando escassas até deixarem de existir. o romance já havia acabado. Lianne e Gabriel costumavam prestar mais atenção aos sentimentos das pessoas. contando uma sucessão de histórias escandalosas sobre políticos e celebridades de Hollywood que mantiveram toda a mesa. e não tinha paciência com pais irresponsáveis. principalmente quando dispunham de formação e educação suficientes para saberem que estavam errados.teria também de ser gentil com um homem que despertava nela tendências assassinas. A noite fora arruinada pela consciência súbita de que Gabe não a amava. E Michael retribuíra seus sentimentos com generosidade. Sempre havia sido uma pessoa cordata e de fácil convivência. O que não podia perdoar era a falta de atenção que ele demonstrava para com o filho. um repórter mais sagaz conseguiu convencer Michael a confessar que aquela era a segunda vez que via o garoto num espaço de cinco meses. Mesmo que não houvesse surgido aquela inexplicável e imediata tensão. quando ainda namorava Gabriel. Na primeira festa de aniversário de Storm. na primavera. Não tinha o hábito de julgar o estilo de vida das pessoas. Michael teve a graça de reconhecer que o menino era seu filho. sabia que não teria apreciado a companhia de Michael Forrest. rindo sem parar. mas. vira muitas crianças negligenciadas por suas famílias. Durante algumas semanas o relacionamento alimentara colunistas sociais com notícias quentes e picantes. Depois Cherie havia anunciado que estava grávida e o romance com Michael chegara rapidamente ao ponto de ebulição. Como professora. . e passou alguns finais de semana com Cherie e a criança ao longo dos primeiros dois meses que se seguiram ao parto. nem se importava com o número de mulheres com que ele se envolvia. não pareciam notar que ela e Michael chegavam à beira da agressão física cada vez que eram obrigados a passar mais de cinco minutos no mesmo espaço.. e pela infelicidade de ser colocada ao lado de Michael à mesa. e notável o bastante para se tornar embaraçoso. De acordo com os numerosos relatos da mídia. Storm. Conhecera o sujeito há pouco mais de um ano. mas sentira arrepios de hostilidade desde o primeiro instante em que o vira.. O antagonismo mútuo havia sido instantâneo. Há três anos o romance entre ele e a estrela de cinema Cherie Lockwood havia sido assunto de todos os tablóides. Michael Forrest era um exemplo perfeito de irresponsabilidade paterna. por alguma razão.

contando uma sucessão de histórias escandalosas sobre políticos e celebridades de Hollywood que mantiveram toda a mesa. Em uma cidade famosa pela falta de integridade. Michael fora o foco das atenções durante toda a noite. Michael Forrest era um exemplo perfeito de irresponsabilidade paterna.. Mesmo que não houvesse surgido aquela inexplicável e imediata tensão. principalmente quando dispunham de formação e educação suficientes para saberem que estavam errados.. Semanas depois do casamento. rindo sem parar. Steins era a conhecida exceção à regra do mundo das estrelas. e notável o bastante para se tornar embaraçoso. Depois Cherie havia anunciado que estava grávida e o romance com Michael chegara rapidamente ao ponto de ebulição. E Michael retribuíra seus sentimentos com generosidade. Não tinha o hábito de julgar o estilo de vida das pessoas. Cherie se casara com Brad Steins. O que não podia perdoar era a falta de atenção que ele demonstrava para com o filho. Terri. Casaram-se pouco depois numa cerimônia privada cujo único fator digno de destaque fora a ausência do glamour das estrelas de Hollywood. e pela infelicidade de ser colocada ao lado de Michael à mesa. mas sentira arrepios de hostilidade desde o primeiro instante em que o vira. aparentemente sem nenhuma oposição de Michael. ou com o fato de preferir relacionar-se com gente que havia se tornado famosa basicamente por levarem existências frenéticas e desregradas. Há três anos o romance entre ele e a estrela de cinema Cherie Lockwood havia sido assunto de todos os tablóides. Sempre havia sido uma pessoa cordata e de fácil convivência. O antagonismo mútuo havia sido instantâneo. o mito hollywoodiano que dirigira seu primeiro filme. Durante algumas semanas o relacionamento alimentara colunistas sociais com notícias quentes e picantes.Felizmente. Como professora. A devoção à primeira esposa. a triste história de Storm tivera um desenvolvimento menos doloroso. e não tinha paciência com pais irresponsáveis. sabia que não teria apreciado a companhia de Michael Forrest. alcançara níveis lendários. nem se importava com o njámero de mulheres com que ele se envolvia. a revista People publicara uma fotografia de Storm alimentando um bezerro órfão com uma imensa mamadeira de leite no rancho de Stein no Texas. . e toda a indústria cinematográfica havia chorado quando Terri perdera a batalha para uma longa e terrível distrofia muscular. Brad dera início ao procedimento legal para adotar Storm. Há algumas semanas. A noite fora arruinada pela consciência súbita de que Gabe não a amava. exceto Júlia. Comparecera a uma noite de gala organizada pelos DeWilde. A imprensa anunciara que Cherie e Brad apaixonaram-se enquanto ela tentava consolá-lo pela morte da esposa. vira muitas crianças negligenciadas por suas famílias.

Mas quando o bebê. especialmente depois do rompimento com Gabe. não fora capaz de esquecê-lo depois daquele primeiro encontro. Apesar de desaprovar a maneira casual como abordava a paternidade. Storm. um repórter mais sagaz conseguiu convencer Michael a confessar que aquela era a segunda vez que via o garoto num espaço de cinco meses. Talvez fosse o velho complexo de culpa levando-a a buscar punição para erros que nem cometera. Na primeira festa de aniversário de Storm. as visitas foram se tornando escassas até deixarem de existir. Brad dera início ao procedimento legal para adotar Storm. Cherie se casara com Brad Steins. A imprensa anunciara que Cherie e Brad apaixonaram-se enquanto ela tentava consolá-lo pela morte da esposa. não costumava freqüentar festas da alta sociedade. Semanas depois do casamento. aparentemente sem nenhuma oposição de Michael. e toda a indústria cinematográfica havia chorado quando Terri perdera a batalha para uma longa e terrível distrofia muscular. um menino saudável e lindo. e passou alguns finais de semana com Cherie e a criança ao longo dos primeiros dois meses que se seguiram ao parto. Vivendo do modesto salário de professora. nascera. Felizmente. Em uma cidade famosa pela falta de integridade. estava sendo criado por outro homem. O rosto invadira sua mente com freqüência espantosa e irritante. De acordo com os numerosos relatos da mídia. e não era incomum surpreender-se folheando as revistas especializadas em comentar a vida de celebridades em busca de artigos sobre Forrest. ela e Michael haviam sofrido o infortúnio de participarem do mesmo grupo em pelo . alcançara níveis lendários. Michael teve a graça de reconhecer que o menino era seu filho. Casaram-se pouco depois numa cerimônia privada cujo único fator digno de destaque fora a ausência do glamour das estrelas de Hollywood. mas a verdade era que acabava sempre furiosa depois de encontrar um desses artigos. Terri. Há algumas semanas. Michael era americano. o mito hollywoodiano que dirigira seu primeiro filme. o romance já havia acabado. a triste história de Storm tivera um desenvolvimento menos doloroso. Júlia gostaria de saber como Michael suportava ver os retratos e saber que seu filho. No entanto. um primo de Grace De-Wilde que passara a maior parte da vida em Chicago e San Francisco. a revista People publicara uma fotografia de Storm alimentando um bezerro órfão com uma imensa mamadeira de leite no rancho de Stein no Texas. A devoção à primeira esposa. Steins era a conhecida exceção à regra do mundo das estrelas. ao longo dos últimos três meses. e por isso não tivera razão para esperar encontrá-lo novamente. inaugurações importantes ou exposições de arte onde Michael costumava circular.

— Pois vão ter de se contentar com algum membro da família real durante os próximos dias. decidiu demonstrar a mesma ironia casual com que estava sendo tratada. e embora soubesse que nem todos . Júlia percebeu que ele ainda segurava sua mão. — Isso foi na semana passada — disse. surpresa. Que surpresa encontrá-lo neste lado do Atlântico. — Não gostava da companhia dele. Michael inclinou a cabeça numa saudação debochada. Pensei que ainda estivesse nos Estados Unidos. Talvez queira me fazer companhia. Michael deslizou os dedos por seu rosto e. interrompeu o contato com um movimento brusco. mas tinha de admitir que os elogios de um homem conhecido por seus inúmeros envolvimentos com o sexo oposto. Eles contam com você para publicarem pelo menos uma foto por semana. Se fosse um cachorro. limitou-se a permanecer parada no meio da sala até recuperar parte da compostura. à essa altura estaria com o pêlo eriçado e os dentes à mostra. meu doce. Irritada. Michael levantou-se e sorriu. já que seu prazer em ver-me foi tão grande que a paralisou. — Olá. ele segurou sua mão e levou-a aos lábios para um beijo delicado. Por que tinha sempre de agir como se fosse o dono do mundo? Ele atravessou a sala.menos meia dúzia de jantares. eram dignos de um mínimo de gratidão e até de algum orgulho. — Os paparazzi não saberão o que fazer se você for discreto demais. — Obrigada. como ser humano civilizado e educado. A implicação de que era a companhia ideal para algo que ele esperava ser aborrecido não passou despercebida. Jules — Michael comentou relaxado. Estava pelo menos meio metro distante. mas Júlia tinha a sensação de ter sido encurralada num espaço reduzido e abafado. A pele arrepiou-se numa resposta ao ultraje. E de repente acontecia novamente. o nome de Michael havia sido ligado aos de meia dúzia de estrelas de Hollywood. — Você está ótima. — Esta semana pretendo levar uma vida de sobriedade aborrecida. as mãos nos bolsos da calça bem cortada. um especialista no assunto. Pronto! Já estava começando! Antes que pudesse pensar numa resposta educada. ocasiões que a deixaram furiosa por dias e dias a fio. Achei melhor vir ao seu encontro e fazer as honras. os olhos verdes "iluminados por um sorriso preguiçoso. Ele sorriu. Michael. ensinando a torcida uniformizada do Dallas Cowboy a saltar de pára-quedas. — Júlia. — O amarelo combina com você. Desde o episódio com Cherie Lockwood. e parou diante dela. mas. Então Forrest não percebia como era ridículo sair beijando as mãos das mulheres nos tempos atuais? Respirando fundo.

E aquelas jovens torcedoras que estava entretendo na semana passada eram apenas mais um negócio. Edward não parecia perceber nada de estranho no comportamento de Michael. A presença de Michael despertava uma espécie de sentido de alerta. —Bem. mas não o vira chegar e nem tinha idéia de quando isso acontecera. conhece Michael Forrest? Ele é primo de Gabe e presidente da cadeira de hotéis Carlisle Forrest. Edward riu. — Os jornais especializados em escândalos divulgam suas aventuras mesmo deste lado do Atlântico.. — Entendo. —Conquistei o título da maneira mais antiga. Invejo sua vida excitante. — Edward. Percebeu com um sobressalto que parte do desconforto provocado pela presença dele era gerado pela sensação de que ele estava sempre projetando uma imagem totalmente desligada do homem que havia sob a superfície. — E advogado. sabe? Michael mostrou os dentes. mas Júlia sabia que ele estava irritado. o que me deixa praticamente sem tempo para manter a vida social que a imprensa insiste em divulgar. Deve saber que nem tudo que os jornais publicam é verdadeiro. é? Um título impressionante para alguém tão jovem. Apesar do efeito inquietante da constatação. — Júlia. este é Edward Hillyárd. nascer na família certa não é pecado. é claro! Meu Deus. Michael. e ninguém parecia notar. algumas partes do meu trabalho se tornam aborrecidas de vez em quando.. — Edward estava parado a seu lado. querida. Edward. Michael. mas Júlia não fazia parte desse grupo. permaneceu atenta às reações . Trouxe uma taça de champanhe. —É um prazer conhecê-lo. Presidente do Carlisle Forrest. apresentou os dois homens. até setenta horas por semana. — Tenho a impressão de que já o conheço — Edward comentou com simpatia. —Tem razão. exceto ela. os rumores sobre ele eram tão freqüentes que devia haver algum fundo de verdade neles. como se tivesse de concentrar-se nele a ponto de esquecer todas as outras pessoas.os casais comentados pelos jornais existiam de fato. Os dois trocaram um aperto de mão. Feliz por poder romper o casulo de tensão que parecia ter se formado em torno deles. que trabalho odioso é o seu — ele riu. A verdade é que costumo trabalhar sessenta. Algumas pessoas podiam confundir o gesto com um sorriso. e é sempre a melhor maneira de alcançar o topo rapidamente. amigo de infância de Gabe e advogado. obrigada. Por herança. sem perceber que o sorriso de Michael se tornava mais tenso e gelado a cada instante. — O quê? Oh. — É o que todos vivem me dizendo.

Você transformou o papel de Rowena Slade em algo complexo e muito intrigante. É sempre bom receber elogios de um especialista. Tate riu. mais nada. — Bem a tempo. Eu me esforço. Quem sabe um dia? Gabe juntou-se ao grupo com uma garrafa de champanhe para encher as taças vazias e um uísque com soda para Edward. — Meu nome é Tate Herald — a mulher apresentou-se. — Obrigada. — Que este final de semana seja a primeira de muitas ocasiões felizes em seu novo lar. A mulher lançou um olhar cúmplice em sua direção e sorriu. admito. talvez tenha razão. — Não se preocupe. É um prazer conhecê-la. — Sou uma mulher fraca. —Obrigada. Vai ter de me perdoar se for efusiva demais. Tate querida — murmurou. — Não pode culpar os produtores — Michael protestou. Lianne está sempre falando a seu respeito. apesar de estar um pouco cansada dos roteiros que parecem estar sempre em busca de novas desculpas para me despir diante das câmeras. Só dei algumas sugestões para a renovação do chalé. segurando-a pelo braço e puxando-a para mais perto. o corpo esguio encaixando-se na curva do braço com a facilidade conferida pela intimidade. Depois apoiouse nele. —Uma série de tevê é um excelente começo — Edward opinou. mas sabia que ele estava se esforçando para não perder a calma. — E você deve ser Júlia. Tate. querido. Eram amantes. — A você e Lianne — disse. . mas sou fã de Grosvenor Square e admiro seu talento de atriz. — Desculpe se os fiz esperar — disse. sem dúvida nenhuma. Tate. Edward ergueu o corpo para um brinde. — Obrigada pelo elogio. — Você é simplesmente irresistível quando se mostra por inteiro. Houve uma pausa breve antes da atriz responder: —Sim. Logo alguém perceberá que tem um talento estupendo e a convidará para papéis mais sérios e densos. — Sorriu para Júlia. É maravilhoso conhecê-la finalmente. mas Lianne está exagerando.dos dois homens. estendendo a mão e sorrindo com simpatia contagiante. mas é muito bom ser rica depois de ter passado anos contando moedas para pagar o aluguel no fim do mês. De repente For-rest virou-se e estendeu a mão para a mulher que caminhava ao encontro deles. E o pagamento no final do mês compensa todos os roteiros idiotas que tenho de engolir. ela faz questão de dizer que a idéia foi sua. Michael parecia relaxado. — Lianne e eu estivemos no mercado há dois dias. Cada vez que me mostra um móvel ou uma combinação de cores em algum cômodo da casa. e compramos tantas bobagens que não conseguia encontrar a soda no refrigerador.

Infelizmente. É o prato preferido de minha mãe. onde está ela? — Tate perguntou. acho que podemos interpretar esse delicado trinado como um pedido de ajuda — Gabe riu. Cozinhar para a mãe representava uma demonstração de carinho. — Não preciso me deitar.. meu bem? Quer ir se deitar um pouco? — Pousou a mão sobre sua testa. — Ora! — Edward exclamou. não está sendo muito clara. —Não? — Lianne ofereceu um sorriso forçado e respirou fundo. Sei que Lianne já teria pedido ajuda se quisesse e.. — Falando em Lianne. o que seria inútil. cada vez . Achei melhor deixá-la sozinha até que ela consiga se entender com a pobre ave.Todos ergueram os copos. Júlia afastou-se. os olhos fechado. — Obrigado pela oferta — Gabriel respondeu —. O homem era uma verdadeira valise de qualidades. ou acha melhor colocar os dedos sob a água fria e. Gabe fez uma careta. Gabe aproximou-se apressado e passou um braço em torno da cintura da esposa. Estava muito ocupada.. — Há algo que eu possa fazer para ajudar? Gosto de cozinhar e tenho uma experiência razoável com patos. — Vou ver se Lianne precisa de alguma coisa. — O que foi? Queimou-se? Precisa de uma pomada. — Está com febre? Dor de cabeça? Você não parece bem. Mas a dor persistiu. Assustada. Sei que devia ter procurado um obstetra por aqui. Masham. segurou as mãos de Lianne.. —Lianne. — Um estrondo na cozinha o interrompeu. porque estamos em Lower Ashington. mas seria ótimo se pudéssemos chamar o dr. — Na última vez em que a vi ela estava amaldiçoando todos os ancestrais do pato que decidiu preparar para o jantar. —O que foi. Júlia pensou. O som foi seguido por um grito abafado. — Bem. querida. Por que está falando sobre o obstetra local? —Porque passei a tarde toda com dor nas costas. estaria em Londres. e por isso preferi acreditar que ela iria embora. Gabe falou com calma surpreendente. Encontrou a amiga encostada na parede da cozinha. e só uma mulher perversa como ela não conseguia apreciar seu caráter generoso. uma vasilha quebrada a seus pés e uma porção de feijão fumegante espalhada sobre o piso de carvalho polido recentemente.. Precisa me dizer o que está havendo. ele foi passar o final de semana fora. E mesmo que não houvesse viajado.. — Eu não me queimei — ela respondeu com tom aflito e excitado. mas pretendia marcar uma consulta para a próxima semana e. — Feliz por poder escapar de três homens que a afetavam profundamente por diferentes razões. mas conheço minha esposa.

e gesticulava sem parar enquanto ria desanimado. enroscou o braço no dele e levou-o na direção da porta dos fundos. ocupando as mãos inquietas com outro copo de uísque. — Atualmente. — Isso é tão inesperado! O que vamos fazer? — Nós dois vamos dar um passeio pelo jardim —Tate decidiu. não? Se me disserem onde está o número. — Abaixou-se e começou a recolher os cacos de cerâmica da tigela para que ninguém se ferisse. — Vou mantê-lo fora do caminho —disse a Júlia ao passar por ela. Fiquei tão assustada que derrubei a vasilha de feijão. — Podemos descobrir. Era a primeira vez o tocava voluntariamente desde o rompimento. — Gabe parecia tão desesperado que Júlia deu dois tapinhas em seu braço num gesto de conforto. acho que estou em trabalho de parto. teria se tornado naquele momento. e nem sei qual é o endereço correto de lá. Edward havia chegado à porta da cozinha a tempo de ouvir o anúncio de Lianne. — Gabe. E há alguns minutos tive uma forte contração. Vamos ter nosso bebê. — Oh. é melhor entrarem em contato com o hospital de Lower Ashington. — Creio que o grande momento chegou. céus — dizia. Se precisar de mim para alguma outra coisa. — Lianne foi sacudida por um calafrio. Júlia notou que Gabe e Lianne continuavam imóveis. — E olhou para o marido com uma mistura de pânico e entusiasmo. grite. Esperava que o futuro pai desse o passo mais lógico e telefonasse para o médico local.mais intensa.. mas ao perceber que ele não parecia inclinado a nenhum tipo de ação. na noite em que ele confessara não amá-la. meu amor. sem saber o que fazer. posso ligar para lá e conversar com alguém para saber o que devemos fazer. Masham não está disponível. Não se preocupe. — Tate saiu arrastando o relutante Edward atrás dela. Se já não fosse fã ardorosa de Tate. — Obrigada — disse com tom sincero. apesar do calor que imperava na cozinha. — Sem dúvida. — Fico lhe devendo essa. CAPÍTULO III Gabe ficou paralisado pelo choque. — Creio que é a maior ajuda que posso oferecer no momento.. mas a única coisa que sentia era um forte desejo de confortá-lo e impedir que ele perturbasse Lianne . a maternidade mais próxima fica em Winchester. Era surpreendente. —Uma contração? Você teve uma contração? —Exatamente. e pode estar certa de que cobrarei a dúvida em um momento bem inconveniente. — Têm o telefone de lá. a quarenta e cinco minutos daqui. Se é melhor voltar para Londres ou ter o bebê aqui mesmo. — O hospital local foi fechado há três anos — Lianne anunciou com tom fraco. Quando ele ameaçou protestar. disse: — Já que o dr.

a dor é forte demais! Quando a contração terminou e Lianne apoiou-se no balcão. — Amigos. está se preocupando demais. e eles trocaram um olhar que mesclava humor e irritação. no meio da cozinha. sempre tão práticos e ativos.com seu pânico. é ótimo que estejam felizes com sua nova casa. meu Deus! — Gabe passou um braço em torno de seus ombros. meu bem? — Sim. — Devia ter tomado todas as providências há semanas. — E uma pena que tenhamos de interromper o idílio. que os dedos perderam a cor. mas nunca imaginara que Gabe e Lianne. Lianne olhou para o marido com os olhos cheios de lágrimas. meu bem. forçando-se a raciocinar. — Mas eu também quis ficar. e o telefone está na porta da geladeira. mas acho melhor injetar uma nota de realidade nessa discussão — ele decidiu. Como onde Lianne vai dar à luz. mas Júlia e eu gostaríamos de introduzir assuntos mais importantes. Júlia lembrou o irmão e a cunhada dizendo que o comportamento irracional andava de mãos dadas com o trabalho de parto. — Pelo menos. Será que um de vocês pode voltar à terra e nos dar o número e o nome do médico da cidade? Gabe piscou. Desculpe-me. temos de nos concentrar em conseguir o melhor atendimento possível para Lianne. — Tem razão. — Gabe. pudessem ser acometidos por um surto de idiotice pré-natal. — A culpa é minha. em vez de presumir que estaríamos em Londres a tempo para o parto. não sua. Gabe. — Tem toda razão. foi onde deixei o cartão de visitas da doutora depois da partida dos operários. por exemplo. — Oh. precisamos entrar em contato com alguém que possa nos orientar. isso pode acontecer aqui mesmo. Se não tomarem uma decisão nos próximos minutos. Não creio que tenha sido irresponsável com relação a algo tão importante. Eu insisti em ficar até a conclusão da reforma do chalé. — Gabe. No momento. Michael Forrest estava parado na porta. ofegante e . Gabe. preso com um ímã — Lianne completou. A médica local se chama Emily Crane. Não é isso. E a casa dos meus sonhos! Os futuros pais pareciam perdidos num mundo próprio. seja em Londres ou em Winchester. É comum um bebê nascer antes da hora. Michael bateu no ombro de Gabe. e as pessoas que trabalham em maternidades sempre esperam pelo inesperado. — Está tendo outra contração? Ela se agarrou ao marido com tanta força. Veja se consegue o que eu não consegui. Você sabe que amo este lugar. castigada por uma nova onda de dor. Lianne mal havia concluído a frase quando agarrou o ventre e inclinou o corpo para a frente.

— O serviço de mensagens está tentando localizar a médica — Júlia avisou. — Júlia. — Júlia. — Acho que o bebê não estava prestando atenção à aula — Lianne tentou sorrir. — Sim. encolhendo-se ao notar que ela se movia na cadeira como se algo a incomodasse. — Pelo visto. eles sabem onde encontrá-la e pediram que eu aguardasse na linha. Sem dizer nada. Lianne terá outra . e pergunte qual é o procedimento de internação. —Ela pode não gostar de saber que mexi em seus objetos pessoais. pare de se preocupar com detalhes. o que está acontecendo aqui? — Gabe perguntou com expressão aflita. mas tinha quase certeza de que o trabalho de parto começava de maneira mais gradual e lenta. Gabe. apoiada no marido. Não conseguiria chegar tão longe. e por isso sabem que ela responderá nos próximos segundos. — Não. já peguei o cartão e estou ligando para lá neste minuto. — Estão tendo dificuldade para encontrar a doutora? — Michael perguntou preocupado. entregou-a a Lianne e sorriu quando ela o encarou com ar agradecido. Júlia deixou escapar o ar que mantivera preso nos pulmões. e aprendemos no curso pré-natal que o trabalho de parto começa com contrações separadas por pelo menos vinte minutos. levando o pano à testa.pálida. Estava tão preocupado. Dentro de um ou dois minutos terei todas as informações necessárias para que possa levar Lianne ao hospital sem problemas. Michael providenciou uma toalha de cozinha limpa e molhou-a na torneira de água fria. Não era nenhuma especialista no assunto. Ele provavelmente levaria uma calça jeans e um corpete. que se abaixou na frente da esposa e afagou suas mãos com carinho. atravessou a cozinha para ir sentar-se perto da mesa. Aos poucos Lianne conseguiu recuperar o controle e. — Eu? — Júlia estranhou. — Afinal. francamente. e esqueceria o roupão e a escova de dentes. — Relaxe. Gabe não reagiu à provocação. Os segundos passavam com lentidão inquietante. — As duas contrações tiveram um intervalo de quatro minutos. — Não acha que Gabe devia cuidar disso? — Gabe está imprestável. Gotas de suor brotavam em sua testa e o rosto estava pálido. — Deixe-me conversar com ela enquanto você preparar a valise de Lianne. Há algum sintoma especial que eu deva relatar? — Diga apenas que Gabe vai me levar para a maternidade em Winchester. exceto pelos dois círculos rosados que tingiam as faces. mas eles utilizam um código quando se trata de alguma emergência. É inútil pensar em voltar para Londres. ele será um DeWilde típico e fará tudo à sua maneira. quando e como julgar conveniente. encontrou o telefone da médica? — ela perguntou. A médica está no teatro.

esbarrou na mesa do hall e quase jogou no chão uma valiosa obra de arte. Não se mova! Vou buscar o carro! Correndo às cegas na direção da porta principal. Assim poderá ir no banco de trás segurando a mão de Lianne. — Tenho certeza de que tudo vai dar certo. até seis . — Relaxe. balançando o chaveiro diante do rosto do amigo. movendose de um lado para o outro sem nenhum propósito ou coordenação. Ele respondeu com um suspiro resignado. Boa sorte. minha amiga. — Vou arrumar a valise de Lianne. Mas não havia tempo para especular sobre a estranha reação. Lianne. — Tem razão! As chaves! — Gabe mergulhou na cozinha e Júlia lançou um olhar preocupado na direção de Michael. e Gabe parece prestes a desmaiar de medo. estou preocupada.. Mal posso esperar para saber se é um menino ou uma menina. Encontrou a suíte principal sem nenhuma dificuldade. Gabe. Gabe mal esperou que pelo final do espasmo para entrar em ação. e há sempre o risco de algo errado acontecer.contração dentro de poucos minutos. Júlia segurou o objeto precioso enquanto Michael agarrava o amigo pelo braço e o levava de volta à cozinha. — Chaves! — Michael repetiu. — Ele telefonará assim que tiver notícias. — Tem razão — Júlia reconheceu. Hoje em dia os médicos salvam bebês de sete. Se não assumirmos o comando. — E entregou o telefone a Michael. Ele a encarou com um sorriso tão radiante. O bebê vai nascer antes do tempo. — Três minutos desde a última! Temos de ir para o hospital imediatamente. espere aqui. — Não. Traga Lianne enquanto eu abro a porta. compreendendo a razão de sua preocupação. E peça a Gabe para nos telefonar assim que o bebê nascer. — É isso! — gritava.. Mas. — Não devo demorar mais do que cinco minutos. só para Tazê-la sentar-se novamente em seguida. sentindo mais uma contração. balançando a cabeça de maneira significativa. Lianne e Júlia trocaram um abraço caloroso. que ela sentiu o estômago dar uma pequena cambalhota. Na porta. Michael desligava o telefone. — Iremos no meu carro. Gabe encarou-o como se houvesse perdido a capacidade de entender o idioma em que fora alfabetizado. e quando voltou à cozinha com a maleta pronta. Trata-se de uma emergência! Pôs os braços em torno da cintura de Lianne e ajudou-a a ficar em pé. não conseguiremos tirá-los daqui na próxima meia hora. Jules. — Pensando bem. — Não vai conseguir sair sem as chaves do carro. acho melhor deixar-me dirigir até o hospital. porque Lianne estava agarrada à beirada da mesa.

querida. — É o que tenho feito. se não a conhecesse bem. E. e já era hora de todos superarem o episódio. Compreendia que estivesse perturbado por causa do divórcio dos pais. — Estou indo. — Sim. Oh. de todos os filhos. herdara todas as suas inibições quanto a expressar as emoções mais profundas. Júlia experimentou uma súbita onda de raiva contra Gabe. e como você mesma disse. ele é um DeWilde. — E ligarei para cá assim que tiver notícias sobre o bebê.. Sabia que Gabe e a mãe haviam se afastado nos últimos meses. ela parecia querer certificar-se de que a sogra seria avisada sobre o nascimento do primeiro neto. intensa. olhando para as luzes do automóvel se perdendo na distância. Não há o que estranhar. Será que pode localizá-la e avisar que estamos a caminho do hospital? Quero que ela conheça o bebê assim que for possível. segundo os relatos de Lianne. Sensível.meses de gestação. Mesmo assim. — Vou deixar tudo em suas mãos capazes — disse a Júlia.. — Sim — disse finalmente. deixando-a sozinha e confusa na porta do chalé. determinada e inteligente. —Vai esperar no hospital? Ele sorriu. Kate era a mais parecida com ele em termos de caráter. E partiu apressado. — Júlia. — Ligarei para ela assim que você e Gabe partirem para o hospital. — Prometo que vou encontrá-la — Júlia sorriu. CAPITULO IV Jeffrey sempre havia considerado que. mas Grace e Jeffrey estavam separados há mais de um ano. Agora entre no carro. Vai ficar desapontada por não poder estar presente na hora do parto. Quatro semanas de antecedência não representam um grande risco. seria capaz de acreditar que vai sentir minha falta. mas a relação parecia estar melhorando dia-a-dia. Se Megan e Kate eram capazes de manter uma ligação equilibrada e positiva com o pai e a mãe. O que jamais previra fora o miraculoso de- . ele tinha o dever de se esforçar para alcançar o mesmo fim. — Vá sonhando! Michael a envolveu num olhar intenso e prolongado. Assim que Lianne entrou no carro. Ela meneou a cabeça num gesto dramático. Grace está em Londres. O curso tempestuoso do romance com Nick Santos confirmara tudo o que havia previsto para a filha caçula. Seu bebê está apenas impaciente para conhecer o mundo. Michael acomodou-se diante do volante. mas não sei exatamente onde. girando a chave na ignição. por favor? Ela está com a passagem aérea comprada há seis semanas. acabei de me lembrar! Pode telefonar para minha mãe. e avise o pai dele também.

e tudo por causa desse maldito orgulho! — Está confundindo orgulho e dignidade. Com uma mistura de espanto e prazer. Está arruinando sua vida porque é orgulhoso demais para dizer à mulher que ama que se comportou como um pateta. o que provocou o rompimento é quase irrelevante. Existem fatores que você desconhece e que tornaram o divórcio inevitável. ela fizera questão de informá-lo com termos bastante claros de que seu comportamento no ano anterior havia sido idiota. Somos muito parecidos. Mas durante as mais recentes conversas telefônicas. ele perdera a esposa e o melhor amigo. a menos que você se humilhe. —Papai. pai.sabrochar de sua autoconfiança depois do casamento. Jeffrey descobria que a filha não hesitava mais em expressar seus pontos de vista sobre assuntos que antes havia preferido evitar. Será que não entende? O passado não pode ser alterado. Ele e lan foram amigos por toda uma vida. mas estava certa sobre o fundamental. Se houvesse traçado um plano detalhado para destruir a própria vida.. Kate podia estar enganada quanto aos detalhes da separação. sem nenhuma alegria entre os dois. Agora a quer de volta. Passou um ano e meio cometendo todo o tipo de estupidez só para tornar a vida de mamãe miserável. Não fui eu que entrei em um avião e fui morar do outro lado do oceano. Talvez nem aceite uma reconciliação. — A situação é mais complicada do que está sugerindo — Jeffrey protestara. beijando-a. mas em nenhum momento opinara sobre a situação vivida pelos pais. — Não há nada de complicado nisso. Resumindo. O rosto de lan Stanley passou por sua mente. que ela finalmente decidiu acreditar em sua falta de interesse. — Não estou confundindo nada. — Quer que mamãe volte para você — ela dissera da última vez. mas não voltaram a conversar desde o dia em que Grace entrara com o pedido de divórcio. e sei por experiência própria que o orgulho só garante dias vazios e noites solitárias. fazendo amor com ela. gastam uma fortuna em advogados para realizar um divórcio que nenhum dos dois quer. Em seu lugar.. começaria a cons- . estou tentando imaginar quanto tempo será necessário até que caia em si e comece o processo de humilhação. — E não é capaz de dizer a ela essa simples verdade. A verdade é que rejeitou os esforços de reconciliação de mamãe tantas vezes. Jeffrey recusou-se a pensar na última e dolorosa imagem. —Parece estar esquecendo que sua mãe me deixou. Kate havia telefonado para oferecer solidariedade e apoio. e ficou perturbado ao perceber que ela não estava esperando sentada pelo seu perdão. lan dançando com Grace. não teria obtido resultado melhor. No curto espaço de um ano. Quando Grace o deixara e fora morar em San Francisco. E como se não bastasse.

Pelo contrário. O que mais podia significar o gesto. O que o levava de volta ao ponto de partida. Como a alternativa era continuar vivendo num apartamento onde cada recanto lembrava Grace. ela . Se quisesse. Felizmente. Jeffrey suportara as três horas de tormento. Determinado a provar para si mesmo que ainda era um homem no auge da vitalidade. Mas o que diria quando Grace atendesse? Que estava disposto a humilhar-se? Conseguiria alguma coisa com isso? Queria acreditar que o fato de Grace ter ido entregar as jóias pessoalmente era um bom sinal. tinha uma agenda cheia. senão a intenção de diminuir a distância que os separava? Quando a beijara na noite anterior. Jeffrey franziu a testa ao recapitular a conversa que tivera com &. Para começar. Imaginou se poderia haver pior maneira de empregar uma ensolarada tarde de sábado do que examinando dezenas de amostras de tecidos em companhia de uma mulher que usava as unhas marrons como armas. referindo-se às amostras de papel de parede como "simplesmente fofinhas". e não só de compromissos profissionais. mas em sua própria ambivalência sobre o fato de Grace ter deixado sua casa e sua vida.truir o futuro. não por falta de alternativas. Kate havia cometido um erro em sua avaliação. Saber que a esposa estava na cidade e conhecer o endereço do hotel onde se hospedava era como ter um espinho sob a unha. Ficava em casa porque preferia a solidão. ao motivo de toda a atividade frenética com que ocupara seu sábado. caso recupere o bom senso e implore por seu perdão. não havia dúvida disso. Acho que ela vai precisar dos dois. e passou boa parte da tarde discutindo uma nova decoração para o apartamento de Londres com uma profissional indicada por sua secretária. Jeffrey estava prestes a cometer um assassinato. chegando ao extremo de reconhecer que o problema não estava na personalidade efusiva da decoradora. aquelas palavras pairavam em sua consciência com a persistência da verdade. mamãe tem um coração generoso e um grande senso de humor. quando a decoradora partiu. No entanto. filha. não um solitário rejeitado disposto a comportar-se como um idiota. Grace precisaria de senso de humor para aceitá-lo de volta? Uma coisa era considerar o fim do casamento como uma tragédia cósmica. outra era encarar o triste desenrolar dos fatos como uma piada de mau gosto. almoçou com o vice-presidente da agência de publicidade para discutir a campanha de marketing da Casa das Noivas para o ano seguinte. por mais que tentasse desprezar os comentários de Kate. o orgulho não o condenava a dias vazios e noites solitárias. Para interromper o latejar constante. Jeffrey planejou uma série de atividades para o sábado. tudo que precisava fazer era pegar o telefone e ligar para ela. Às cinco e meia. Tomou café com um fornecedor de Taiwan. visitou á nova loja de um concorrente. poderia acompanhar lindas mulheres a festas requintadas todas as noites.

Grace era uma mulher atraente e inteligente. Houve um tempo em que considerara o casamento com Grace uma verdadeira sociedade. muito menos oferecer solidez e integridade. algumas poucas horas depois da partida da Grace haviam sido suficientes para que percebesse que ele precisava mais de ajuda naquele sentido do que a exesposa.. pondo um ponto final no pesadelo que haviam vivido ao longo dos últimos meses. poderia refugiar-se na fantasia de que um dia estariam juntos novamente. ligando o equipamento novamente. Tinha todos os motivos para não pôr o próprio destino em cheque. Grace não poderia se recusar a atendê-lo. Jeffrey acompanhou a contagem dos segundos no relógio luminoso do microondas. Se não fizesse o pedido. Por outro lado. O envolvimento com Allison Ames o impedia de afirmar a tão defendida fidelidade sexual. enquanto esperava que o microondas aquecesse a sopa que seria seu jantar. Droga. e sua parte na barganha era providenciar solidez. Quanto mais tentava analisar tudo que acontecera em seu escritório na noite anterior. Estaria imaginando o ar sexy e provocante? Talvez ela só quisesse recuperar o relacionamento amistoso para garantir o bem-estar dos filhos. uma compensação para as preciosas contribuições de beleza. integridade e segurança financeira.havia correspondido com paixão. menos era capaz de lembrar com exatidão o comportamento de Grace. Grace era sentimental demais para permitir que a relação amargurada prejudicasse as futuras reuniões familiares. E enquanto não tivesse de ouvi-la dizendo claramente que não o queria mais como marido. Quanto ao equilíbrio emocional que um dia julgara-se capaz de oferecer. Mas talvez estivesse enganado. Afinal. Destruíra o delicado equilíbrio dessa relação de maneira irreparável. Jeffrey finalmente reconheceu por que nunca havia pedido para Grace jvoltar. cheia de dinamismo e energia vital. Não conseguia imaginar uma única razão pela qual ela pudesse desejar a reconciliação com um homem aborrecido e rígido como ele. O microondas encerrou a segunda etapa da operação e Jeffrey mexeu o . Não era o orgulho que o detinha. estava andando em círculos! Na solidão da cozinha. E com o sucesso da loja que abrira em San Francisco. não precisava têlo beijado com tanto entusiasmo só para manter uma ligação de amizade. mas o medo.. afinal? O microondas sinalizou o final da operação e ele testou a temperatura da sopa. calor e alegria que ela injetava em seus dias. O que tinha para oferecer. fora incapaz de interpretar corretamente os sinais enviados pela esposa nos últimos dois anos. Grace provara que não precisava dele para desfrutar de segurança financeira.

e tenho boas notícias.. Jeffrey não conseguia decidir se seria pior recusar ou aceitar a oferta. Deve se lembrar de mim. Nós nos encontramos algumas vezes. mas até aquele momento não fora capaz de calcular o tamanho dessa ansiedade. Estou no chalé Briarwood. mas havia uma nota estranha em sua voz. A verdade era que. se há algo de errado.. Que surpresa agradável! E amiga de Michael Forrest. sr. e Lianne dividia um apartamento comigo antes de se casar com Gabe. O mais provável era que Grace oferecesse um daqueles sorrisos doces e dissesse que já o perdoara pela traição. não? Houve uma pausa estranha antes de Júlia responder. O telefone tocou e ele foi atender apressado. Júlia sempre dera a impressão de ser uma mulher tranqüila e agradável. mas não tinha a menor intenção de voltar a viver em sua companhia. DeWilde. uma espécie de desconforto. Podia humilhar-se e rastejar a seus pés. talvez tivesse piedade e fizesse amor com ele mais uma vez pelos velhos tempos. — Devo chegar em Winchester dentro duas horas. — Irei o mais depressa possível — disse. desnudar a alma e implorar por seu perdão. no máximo. Sendo uma alma generosa. sabendo que ela nunca mais a repetiria. — Michael e eu nos conhecemos. DeWilde. no máximo amanhã cedo. DeWilde? A voz do outro lado pertencia a uma mulher. — Aqui fala Júlia Dutton. Podia ir procurá-la. Lianne entrou em trabalho de parto e Gabe a levou para o hospital em Winchester. apesar de toda a riqueza e poder no mundo dos negócios. — Sr. não há nenhum problema com Lianne e o bebê. é claro que me lembro de você. Jeffrey DeWilde. — Sim. como Kate sugerira. — Não. Eles me pediram para avisá-lo de que o bebê deve chegar esta madrugada.minestroné congelado mais uma vez antes de reiniciar o processo de aquecimento. mas não conseguia identificála. É . sr. — Tenho certeza de que Gabe e Lianne ficarão muito felizes com sua presença. O bebê de Gabe e Lianne estava nascendo! Jeffrey sentiu uma alegria tão grande que ficou surpreso com a intensidade do sentimento. sou eu. Esperava com ansiedade pelo nascimento do primeiro neto. não exercia poder algum sobre Grace. — Sim. — Está acontecendo alguma coisa que eu deva saber? — Jeffrey perguntou preocupado. se o tráfego colaborar. feliz por ter um motivo para interromper a sombria reflexão. — Algum problema com Lianne ou o bebê? Por favor. Podia reconhecer a culpa pelo adultério e jurar que acabaria enlouquecendo sem ela.

Sr. — Meu nome é Jeffrey DeWilde — apresentou-se.. — Lamento. Quer anotá-los? Pouco depois despediam-se e desligavam. DeWilde desde às oito e meia. mas Lianne sabe que a sogra está em Londres e me pediu para localizá-la. Grace. Michael deixou todos os dados escritos na agenda ao lado do telefone. Era hilário como algumas pessoas se comportavam em situações com potencial para o constrangimento. Na verdade.. A sra. pensei em vir até aqui e perguntar se ela não pediu reservas para algum espetáculo de teatro ou restaurante. Seria tolice alugar um carro quando vamos para o mesmo lugar e na mesma hora. e espero que me perdoe. quero dizer. Assobiando uma canção que havia sido tema do último filme de James Bond. Jeffrey atravessou o saguão de mármore do Goreham e dirigiu-se ao balcão de recepção. mas acho que não posso ajudá-lo. —Se tem certeza de que não se importa. — Será um prazer. Bem. Júlia — sugeriu. mas não a encontrei em nenhum deles. O funcionário uniformizado verificou uma pequena pasta de couro repleta de papéis e balançou a cabeça.. Vou tentar falar com Gabe no hospital para avisar que estão a caminho.. Lianne quer que a sogra saiba sobre a chegada do bebê e venha para cá o mais depressa possível — disparou. — Pode me dar o endereço da maternidade? — Sim. Ela quer que a sra. tentando disfarçar a reação provocada pelo constrangimento da jovem.. mas imaginei. por favor? —Não se preocupe com isso. sei exatamente onde encontrar Grace — Jeffrey respondeu. telefonou para o hotel Goreham. e agora seu primeiro neto estava prestes a nascer. que já estou traçando planos para levá-la comigo a Winchester. — Tem razão. —Oh. DeWilde. Como o assunto é urgente. o final de semana começava a se tornar bastante promissor. Bem. senhor. DeWilde não . sabe em que hotel ela está hospedada? Talvez esteja em casa de amigos. Apesar do início desastroso.... Jeffrey jogou o minestrone intocado na lata do lixo. Para completar... não sei se vai poder me ajudar. — Já telefonei para todos os hotéis que consegui lembrar. sei que a situação é delicada e até embaraçosa. — Estou tentando falar com a sra. mas ela nãò se encontra no quarto. passaria algumas horas com Grace! . — Por uma feliz coincidência. agarrando a oportunidade de entrar em contato com a ex-esposa. É claro que não há motivo algum para conhecer o paradeiro de sua ex-esposa. — Eu mesmo darei a notícia a Grace... Em seguida.que.. que maravilha! Pode me dar o telefone do lugar. mas. tenho tanta certeza de que ela vai querer correr para aí assim que souber sobre o bebê. DeWilde.. Na noite anterior as jóias DeWilde haviam retornado ao seu lugar de direito.

já que não havia nenhuma emergência. Jeffrey olhou em volta tentando localizá-la. o Salão de Carvalho era revestido na madeira de onde havia sido tirado seu nome. Atravessando um mar de colunas dóricas.fez nenhuma solicitação de reservas. senhor. senhor. — Pode me dizer onde fica a cafeteria. forrado por carpete verde escuro e mobiliado com pesadas cadeiras estofadas que davam ao lugar o ar de um clube masculino do século dezenove. sua esposa estava jantando com Ian Stanley! Jeffrey deteve-se. Não havia sequer consistência no projeto. Contrastando com o brilho frio do saguão. e a impaciência que sentia para pegar a estrada era provocada mais pela ansiedade do que pela necessidade. aproximou-se com passos firmes. DeWilde esteja jantando em nosso restaurante. acabei de pensar em algo. como sempre acontecia quando se deparava com situações . e as luzes acesas eram tão fracas que Jeffrey não conseguiu entender como os clientes podiam ler os cardápios.. e quase todas as mesas eram ocupadas por homens. descobriu ao encontrar o restaurante. Mas. Levaria menos de duas horas chegar a Winchester num período de trânsito tranqüilo. o mais sensato seria controlar a impaciência e esperar por ela no hotel. —Obrigado. pedirei a ela que o procure assim que retornar. Pior que o ciúme era a constatação de que não tinha o direito de questionar Grace quanto às suas escolhas. Nossa cafeteria localiza-se atrás do jardim interno. tentando cumprimentar a ex-esposa e ex-melhor amigo com a cortesia relaxada que sabia ser apropriada. Ouviu a risada familiar antes mesmo de vê-la. Vou dar uma olhada no restaurante antes de ir à cafeteria. As toalhas de damasco branco sobre as mesas eram excessivamente luminosas no ambiente escuro. O Salão de Carvalho é conhecido internacionalmente pelo cardápio rigorosamente britânico. Jeffrey olhou para o relógio. O maítre acomodava um grupo de empresários japoneses. É possível que a sra.. Maldição. Apesar de Grace não apreciar ambientes como aquele. à sua direita. consumido por uma onda de ciúmes tão poderosa quanto irracional. Mas. Quase nove horas. Mas se quiser deixar algum recado. e muitos de nossos hóspedes preferem fazer ali suas refeições em vez de irem a outros lugares. Como queria muito estar com Gra-ce quando conhecessem o primeiro neto. Respirando fundo. e adiantou-se alguns passos chamando-a no mesmo instante em que reconheceu o homem sentado a seu lado em uma das mesas mais afastadas. o que enfatizava a atmosfera opressiva do local. —Acho que vou comer um sanduíche enquanto espero — disse ao rapaz da recepção. ou a lanchonete? —É claro que sim. Jeffrey tentou entender o que levava um arquiteto a projetar um saguão de hotel de forma a transformá-lo num cruzamento entre um palácio romano e um cenário hollywoodiano.

e quase sempre são deixadas sem nenhuma educação. Planos dele? Então Ian esperava passar o verão sozinho. Ele não era responsável pelo fracasso de seu casamento. Ian trabalhou duro para vencer todas as objeções do governo e construir a escola. e já era hora de parar de culpar o mundo todo pelo fato de Grace tê-lo deixado. Ian? — perguntou em tom frio. porque em alguns distritos ainda persiste a crença sobre a inferioridade das mulheres. Ser convidado para tomar café com a mulher que amava e o homem que fora seu melhor amigo por toda uma vida parecia ser um teste de resistência equivalente a mergulhar os dedos em um tubo de ácido! Mas não cometeria o erro de ignorar a presença de Ian só porque sentia um ciúme insano. — Pediremos mais uma xícara ao garçom. Vou visitar a China. os bebês do sexo feminino são abandonados na China numa proporção dez vezes maior que a dos garotos. A raiva e o ciúme dissolveram-se numa imensa onda de tristeza. espero. — Grace falava com entusiasmo.. — Bem. — O funcionário da recepção sugeriu que poderia encontrá-la aqui. — E claro que não. mas testemunhar a intimidade muda da troca levou-o a perceber pela primeira vez a enormidade de tudo que havia perdido com o fim do casamento. Por um momento. Estou ficando com torcicolo de olhar para cima. Eles construíram um novo abrigo para as órfãs. Estava dizendo a Grace que tenho planos excitantes para este verão. sente-se e tome café conosco — Grace convidou. foi incapaz de encontrar as palavras que considerava apropriadas.emocionais complexas. bem. — Ian supervisionou uma campanha de levantamento de fundos para resgatar trezentas meninas órfãs cuja casa foi queimada no último inverno. Teria jurado que nada podia deixá-lo mais furioso. obrigado. ou este encontro é apenas uma coincidência? — Estava procurando por você — conseguiu responder. Trata-se de uma viagem de negócios? O banco pretende realizar algum investimento naquele país? —É mais excitante que isso — Grace interferiu. perguntas e respostas viajaram no olhar trocado entre os dois. —Que interessante. o silêncio reinou absoluto.. e agora Ian está tentando obter permissão para construir um ginásio para elas. — Como deve saber. — Como vai. —Vou indo. Passarei três semanas em uma pequena cidade a oeste de Beijing. e as autoridades da província o convidaram para o . Sente-se. Jeffrey. Estava procurando por mim. — Jeffrey. Ian e eu falávamos sobre os planos dele para o resto do verão. sem Grace? Jeffrey sentou-se diante dos dois. Espero não estar interrompendo nada importante. Gostaria de saber o que havia acontecido para empurrá-lo até aquele ponto. Depois Grace olhou para Ian. Grace e Ian trocaram mais um daqueles olhares enfurecedores.

— Às vezes a vida nos surpreende. e não é o tratamento dedicado às meninas chinesas. O que o transforma em meu examigo. Aprendi algumas lições valiosas ao longo do último ano. Sou eu. Vou a China para me certificar de que o orfanato esteja de acordo com as especificações e impedir que políticos corruptos desviem parte dos fundos que angariamos para benefício próprio. Foi você quem sempre fez questão de mostrar ao mundo que não se importa com nada. — É uma grande honra. pare com isso. — Não precisa me convencer de suas qualidades. e descobri que não quero olhar para trás e descobrir que minha maior contribuição à humanidade foi fornecer farto material para as fofocas maldosas de minhas ex-esposas. Tive a impressão de que nem nos falávamos mais. supervisionando o projeto de construção de uma escola para meninas. — Ian. Agora que o regime relaxou o código de vestuário. Pela primeira vez desde o início da conversa. porque o governo central não costuma permitir a permanência de estrangeiros fora das zonas específicas de comércio exterior.lançamento da pedra fundamental. Quero saber o que está acontecendo. — Estranho. — O que está acontecendo? Há algo de errado. — Ian falava com o costumeiro tom de deboche. — Não há nada errado. Jeffrey teria ficado igualmente chocado se Grace houvesse dito que Ian pretendia passar os próximos trinta dias aprendendo a pilotar uma nave espacial alienígena. Uma das habilidades adquiridas na ausência de Grace havia sido a de ouvir o que não era dito. inclinou-se para a frente e fitou Ian nos olhos. mas Jeffrey detectou a nota ressentida e triste por trás das palavras. — Pessoas frívolas como eu também sofrem crises ocasionais de nobreza. mas não encarou o velho amigo. pelo contrário. as jovens chinesas passaram a usar lindos vestidos de seda em vez daqueles horríveis ternos de Mao. — Vai passar três semanas num vilarejo chinês. O que é? Ian sorriu. seu velho amigo. Haverá tempo de sobra para que eu possa mergulhar em meus famosos vícios. mal posso esperar para conhecer algumas delas e fazê-las felizes.. só isso. meu velho. Estou surpreso por ter decidido destruir a imagem que trabalhou duro para construir. meu velho. — Os dois homens se olharam em silêncio e Grace continuou. — Podia pelo menos tentar esconder a surpresa. lembra-se? É inútil fingir. Jeffrey também aprendera muito no último ano.. — Você é meu velho amigo? — perguntou. não acha? . pelo menos sobre coisas importantes. Mas a viagem não será apenas de trabalho. Ian o encarou. Empurrando o arranjo de flores para um canto da mesa.

Isto não significa que não. que não goste de você. Jeffrey olhou para Grace.As palavras feriram Jeffrey mais do que ele jamais imaginara ser possível. está demorando muito para enfiar na cabeça um conceito tão simples. Jeffrey apertou a mão de lan e engoliu o nó que se formava em sua garganta. Se acabar se casando com Grace. — Já disse que Ian e eu não pretendemos nos casar.. — E pensar que meus médicos não pouparam elogios na última consulta! . mas sabia que seria inútil. É claro que ainda podemos conversar sobre coisas importantes. não o verei com a mesma freqüência do passado. Mas passei trinta e dois anos contando com você para martelar a mesma idéia até eníiá-la na minha cabeça. lan. — É verdade. você é a pessoa mais indicada para avaliar a importância do que acabei de dizer. Aliás. fitou novamente o amigo. E difícil desenvolver sistemas alternativos à esta altura da vida. O que está acontecendo? Esteve doente? Por um segundo. —Pareço tal mal assim? — E forçou um sorriso apagado.. — Serei honesto com você. — Admito que me senti tentado. creio que devo me conformar com o destino de ser seu eterno melhor amigo. Ian hesitou. pelo amor de Deus. — E levantou-se. a aparência cansada e a perda de peso evidente nos ossos salientes do rosto e do pescoço. Para um homem de sua inteligência. Suspirando. Jeffrey imitou-o e só então notou os ombros caídos. Grace finalmente abandonou os pacotes e suspirou impaciente. é bom que saiba que pretendo continuar perguntando até você começar a responder. mas ela parecia mais interessada nos pacotes de adoçante que empilhava em torno da xícara. dessa vez com afeto genuíno. não essa enxurrada de justificativas vazias. — Talvez. Depois encolheu os ombros. — Só alguém que o conhece desde os tempos da escola pode compreender como esse discurso é surpreendente. pare de mentir para mim. lan. meu velho. — Acreditar que seria capaz de negar nossa amizade foi um deles. Quero respostas verdadeiras. — E estendeu a mão para um cumprimento. acho que vou subir para o meu quarto e deixá-los discutir o assunto que o trouxe até aqui. Não sou generoso o bastante para deixar de lado o que sinto e apreciar sua felicidade. —Como o garçom parece ter decidido que não merecemos uma segunda xícara de café. O silêncio que caiu sobre a mesa foi rompido por Ian. — Devia ter me chamado à razão há meses. E como odeio a idéia de desperdiçar anos de esforço para suportá-lo. — Cometi muitos erros no último ano — disse. lan sorriu. —Ian? Ian. — Felizmente. Jeff. De vocês dois.

Emocionado. Como fui idiota! Pelo amor de Deus. tenho certeza de que só vai precisar de algumas horas para convencer-me a abrir a carteira. O projeto parece muito interessante. como se cada dia representasse uma vitória. . querida. Um deles espera ganhar um prêmio pelo trabalho que está redigindo sobre os efeitos benéficos das drogas com que tem me tratado. Jeffrey notou que o esforço do amigo era doloroso. — Vá se preparando para assinar um cheque bem generoso. a menos que esteja interessada em acabar a noite em sua cama. Jeffrey foi forçado a reconhecer que se comportara com um estúpido ao longo dos últimos meses. Quero saber tudo sobre a escola que vai construir. — Ele pegou a mão de Grace e levou-a aos lábios. mas depois que passara a prestar mais atenção. Jeffrey olhou para Grace e encontrou em seu rosto a confirmação do pior. afetando pessoas que amava e destruindo a própria vida de maneira irracional e cruel. e não estava com disposição para ser rejeitado por meu melhor amigo. levarei até os projetos arquitetônicos e as fotos da escola em Beijing. É como se cada minuto tivesse uma importância suprema. e no momento estamos vivendo um período de paz e sossego. como um de seus mais velhos amigos. — Pôs as mãos nos ombros de Jeffrey. Milton o prazer de exibir seus dotes culinários. — Os médicos estão confiantes. Talvez possa ir passar alguns dias em Kemberly e dar à sra. por que não me contou quando recebeu o diagnóstico? —Não sabia se atenderia ao telefone. E se houver alguma chance de arrancar uma doação de sua gorda conta bancária. Jeff. Ian. Seria ótimo poder me gabar de como aprendi a cuidar do jardim de roseiras de Grace. talvez — lan respondeu. —E desperdicei meses do tempo que nos resta juntos. lan. —Estarei esperando por seu telefonema. engolindo o nó que insistia em bloquear sua garganta. — Boa noite. passou um braço em torno dos ombros do amigo numa rara demonstração física de afeto. mas um ano parece ser o limite. sinto-me no dever de avisá-la que meu companheiro Jeffrey tem uma terrível reputação entre as mulheres. Quero passar algum tempo com você antes dessa sua viagem para a China. Conhecendo seu poder de persuasão. — Não fique tão devastado. — Leve as fotos.—Médicos? —Tenho uma coleção deles. —Mais um ano. A propósito. Ian sorriu. —Telefonarei na semana que vem para combinarmos um encontro. Aprendi a dar um novo valor à vida depois que soube sobre a doença. — Quanto tempo? — perguntou. Não deixe que ele a convença a acompanhá-lo a lugar nenhum. Eles adiaram minha sentença de morte em vários meses porque estou respondendo bem ao tratamento. Calado.

.. Boa noite e durma bem. Jeff. Ian. não? — Se namorou. creio que o bebê já terá nascido.— Vou manter seu conselho em mente. Mas pela primeira vez não estava pensando em mim ou em você quando falei sobre o casamento. — Oh. Será que pode esquecer esse assunto? —Desculpe. mas promissora. —Por favor. porque a vi sentada ao lado de Michael Forrest em diversos jantares nos últimos meses. Oh.. Jeffrey sentiu vontade de rir ao perceber que estavam mudando de assunto com enorme facilidade. —Ele é apaixonado por você há anos. — O prazer foi todo meu. Ele odiaria saber que o aceitou por pena. . — Levantou-se e pegou a bolsa. de quantas maneiras diferentes terei de dizer a mesma coisa? Não vou me casar com Ian. Afinal. —Seria um terrível engano se casar com ele por piedade ou. — Júlia me telefonou esta noite para dizer que Lianne entrou em trabalho de parto. Segurando a mão de Grace sobre a mesa. é uma combinação surpreendente. não deve ter sido nada sério.. —Não pretendo me casar com ele por pena nem por qualquer outro motivo. Lianne havia acabado de sair para a maternidade. Boa noite.. Jeffrey experimentou uma nova onda de entusiasmo. que grande notícia! E tão excitante! Meu primeiro neto! Pode imaginar? Parece um sonho.. o que veio fazer aqui? Disse que estava me procurando. ela namorou Gabe durante algum tempo. sorriu como se o mundo fosse perfeito. — Vamos tomar um táxi? Assim poderemos comemorar com champanhe sem nos preocuparmos com a volta. Sabe disso. — Ian atravessou o salão e parou na mesa do maitre para pagar a conta. e Gabe gostaria que fôssemos para o hospital imediatamente a fim de conhecermos nosso neto. — Lembra-se de Júlia Dutton? — Humm.. Estava preocupado com Ian. Jeffrey. Mas até chegarmos lá. apesar da tristeza que sentia pelo grande amigo. Jeffrey. — Oh. eu sei. e depois de como minha prima Maddy se comportou com Michael... Era típico das conversas que costumava ter com Grace. E obrigada pelo delicioso jantar. sim. — Michael e Júlia? Ei. — Há quanto tempo sabe que ele está morrendo? — Desde que estive em Nevada esperando para assinar o divórcio. O casamento dos pais de Michael foi tão terrível que ele jurou jamais se casar.. não? — Sim. Mas Ian tem consciência de que jamais teremos mais que uma bela amizade. Até eu notei a tensão sexual que existe entre eles. que maravilha! Nosso neto está chegando! Lianne está bem? O bebê é menino ou menina? — Quando Júlia telefonou.

Certo? — Certo. Limpou a garganta. mas um parto prematuro é sempre inquietante. em Winchester. — De acordo com as notícias que recebi. — Duas. conforme planejava. E se for uma menina.. Parece que não havia tempo para a viagem de volta à cidade. —De acordo. Gracie? —Está falando de dinheiro? — É claro que não. tudo vai muito bem. não temos essa alternativa. — Ah. Espero que não tenha esquecido que sempre cobro minhas apostas. CAPÍTULO V . — Grace sorriu e fitou-o com ar insinuante.. Preciso ir vestir algo mais confortável para a viagem. Jeffrey decidiu repetir a aposta só para ter certeza de que ela havia compreendido bem. mas a voz ainda soou rouca. ou não chegaremos a tempo de conhecer o garoto em seu primeiro dia de vida. — Aconteceu algo de errado. duas. Que graça pode haver em apostar dinheiro? Estava pensando em nossa tradicional linha de apostas. Grace franziu a testa. —Quer apostar. —Irei encontrá-lo dentro de quinze minutos. Lianne e Gabriel estavam passando o final de semana em Briarwood. — Vamos apostar uma hora. e por isso ela não terá o bebê em Londres. durante duas horas você fará tudo que eu mandar. —Está bem. eu darei as ordens durante duas horas. e por isso ela foi levada para a maternidade mais próxima. mas acho que estarei pronta mais depressa sem sua ajuda. Jeffrey? Sei que Lianne soube se cuidar muito bem durante a gravidez. —Sim. —Estarei esperando no balcão de recepção. —E claro que não me esqueci. —Garoto? O bebê vai ser uma menina! Jeffrey sorriu. Jeffrey afrouxou o colarinho e lembrou que não usava gravata. Grace encarou com o rosto tingido por um leve rubor.— Infelizmente. Mas temos de nos apressar. Não podia acreditar que havia sido tão simples. e ponha alguns objetos de uso pessoal numa valise. — Se nosso neto for um menino. levarei uma pequena valise. — Está bem. Não devo demorar mais do que quinze minutos. —Quer ajuda para se arrumar? —Obrigada..

não diga que vai me desiludir! —Oh.o bebê foi empurrado para o canal de parto. depois bocejou e espreguiçou-se. Odeio quando sou tratada com esse ar . Se não pegaram trânsito na estrada. mas pelo que pude entender.. Creio que Gabe só voltará ao normal depois do nascimento do filho. ele parecia não lembrar sequer o próprio nome. não! Eu não ousaria discordar de um especialista. —Como? —Meu doce. — Foi o que o médico nos explicou. e se as coisas não progredirem como ele deseja.. e até agora não houve dilatação suficiente para que ele possa passar. Ouvi dizer que somos indispensáveis ao processo. — Como ele estava quando o deixou? Acha que vai se lembrar de nos telefonar quando o bebê nascer? — É melhor não contar com isso. O médico programou a cesariana por medida de segurança. segundo Gabe. Agora que já sabe todas as novidades. Tate pediu para visá-lo que vai telefonar na segunda-feira à noite. —Por que não? Por acaso é azeda? Havia um nó apertando seu estômago. — Não consigo acreditar em como ele perdeu o controle! Os homens são mesmos uns inúteis. mas também não sou sua. E Gabe parece estar confiante na competência da equipe do hospital. Às vezes é a opção mais segura.Júlia abandonou a vigília ao lado do telefone e correu ao encontro de Michael assim que ouviu o ruído do carro. já devem estar lá. meu doce. — O médico vai esperar mais três horas. — Não. quando tiver certeza de que tudo correu bem. Michael ficou tenso por um instante. Minha cunhada também teve de ser submetida a uma cesariana. — E então? Como está Lianne? O bebê nasceu? — Ainda não — ele respondeu depois de entrar. Júlia sentou-se ao lado dele no sofá. será que pode me contar o que está acontecendo com Lianne e o bebê? —Gabe não estava muito lúcido. — E sentou-se no sofá. Na última vez em que nos falamos. especialmente com relação ao nascimento de um bebê! — E mesmo. — Onde estão Tate e Edward? — Voltaram para Londres. de forma que o bebê não tenha de passar mais cinco ou seis horas batendo a cabeça contra o colo do útero de Lianne. —Uma decisão bastante sensata. — Cesariana? Mas por quê? Qual é o problema? — Nada sério. as contrações iniciais foram tão intensas que . Por favor. dependendo das condições da mãe e da criança. Lianne será submetida a uma cesariana. —Prefiro que não me trate dessa maneira.

ao dar o primeiro passo na direção de Michael. tomado por uma necessidade que sufocava toda e qualquer inibição. Movia-se inquieta contra o corpo musculoso. não era essa minha intenção. Mas. e tudo que havia sentido fora tédio. Michael? O que fiz para ofendê-lo? — Nada. mas não me lembro de ter dito nada sobre irmos para a cama. mas a raiva parecia ser a mais segura para chegar à superfície. — Não disse com palavras. Júlia ajeitou o vestido que ele havia empurrado por sobre seus ombros sem que ela percebesse. mas queria beijá-lo. Júlia.paternalista. Qual é o problema. Michael a beijara e . Estava tão frustrada com o fim do contato que tomou a iniciativa de recuperá-lo. absurdo que alguém que nem conhecesse fosse capaz de despertar respostas tão intensas. — Quero uma explicação. — Bateu a porta da geladeira e virou-se para encará-la. toman-do-a nos braços. Pelo que percebi. — Ou melhor. mas uma de minhas normas de vida é nunca ir para a cama com uma mulher que esteja apaixonada por outro homem. Edward a beijara algumas horas antes. Estava furiosa. As mãos quentes e firmes em seu corpo provocavam uma estranha reação. surpreendeu-se correspondendo ao beijo com ardor e experimentando um intenso e assustador prazer. não perde uma chance de me agredir desde que nos conhecemos. esfregou as mãos sobre os joelhos e apoiou-se na geladeira como se temesse cair. Júlia sentia o corpo queimar. — Corrija-me se estiver enganada. No instante em que os lábios de Michael tocaram os dela. Foi Michael quem tomou a iniciativa de afastar-se e abriu um espaço entre eles. mas não conseguia abafar as reações que o beijo provocara em seu corpo. e contra todas as expectativas. Aturdida com a rejeição. O que mais quer que eu faça? — E levantou-se para ir à cozinha. Júlia soube que estivera esperando pelo beijo desde a noite em que o conhecera. sentindo o sangue ferver nas veias e espalhar o delicioso calor por todas as células. respirando com dificuldade e fitando-a como se estivesse diante de um fantasma. —Desculpe. Você é tentadora. Quanto mais prolongavam o beijo. ele a segurou pelos pulsos e obrigou-a a manter distância. Era insano. —Devagar. Perturbado. mas seu corpo foi mais eloqüente que uma conversa franca e direta. sentiu-se invadida por uma dezena de emoções conflituosas. — E qual era sua intenção? Queria ser sarcástico? Condescendente? — Já pedi desculpas. O nó se tornou mais apertado. isto — disse. Júlia o seguiu.

ainda lutando com o zíper do vestido. — Não estou apaixonada por Gabe. Michael terminou de beber a cerveja e amassou a lata. Tentou soltá-lo de todas as maneiras. — E agora. mas decidiu repeti-las só para registrar a informação. e foi o bastante para que seu estômago se contraísse com a força do desejo. mas o primeiro movimento das mãos foi suficiente para que o aparato enroscasse mais uma vez no tecido. O zíper se recusava a ceder. — Ajuda para quê? — perguntou confusa. Mas acabou. Era como se estivesse sempre esperando que a cortesia desse lugar ao deboche. . Era surpreendente como aquela sensação envolvente e poderosa diferia do sentimento que Edward despertara quando a ajudara a fechar o vestido naquela tarde. Gabe é um homem interessante e bemsucedido que se casou com minha melhor amiga. por que não pensara em Gabe? A resposta cruzou sua mente como um relâmpago. — De onde tirou a idéia de que estou apaixonada por Edward Hillyard? — perguntou. —Estou feliz por ter corrigido meu engano. Estava tão chocada por tê-lo esquecido que nem sentiu-se humilhada com a menção do romance fracassado. Ele retribuiu o olhar com um misto de frieza e superioridade. Às vezes a vida podia ser irritante! Fitou Michael com ar ressentido. Michael abriu uma lata de cerveja que havia retirado da geladeira. — Não. à agressão e ao sarcasmo. invadida por um súbito calor ao pensar nas mãos tocando novamente sua pele. eu estava falando sobre Gabriel DeWilde. mas foi inútil. Era como se o corpo se reoüsasse a aceitar a rejeição.. — Apoiando-se no balcão. — Sim. tem certeza de que não precisa de ajuda? Aquele sorriso tinha o poder de tirá-la do sério. — E flexionou os dedos. Está enganado se pensa que sinto por ele qualquer coisa além de amizade. — Quer ajuda? — perguntou. obrigada — respondeu. A atitude cortês a irritava mais que tudo. Gabe. Sentindo um ar frio nas costas. — Não estou apaixonada por ele. — Para fechar o zíper..sentira-se como o Vesúvio entrando em erupção. — Nós mal nos conhecemos! — Edward? Mas. sorriu com ar relaxado. — Se estiver interessada. Era tão fácil admitir a verdade que estava surpresa. As mãos de Júlia congelaram e caíram ao longo do corpo. há muito tempo. percebeu que ele começara a abrir o zíper do vestido e tentou fechá-lo. Pensar em Edward a fez lembrar o comentário de Michael quando se afastara dela. Ele jogou a lata vazia no lixo. porque odiá-lo era muito mais satisfatório do que sentir raiva de si mesma. Quando ouvira Michael dizer que estava apaixonada por outro homem. — Ouviu a própria voz pronunciando as incríveis palavras. — Mas houve um tempo em que o amou de verdade.

Lembrando a indiferença por Edward. — Continue apertando os lábios e empinando o nariz. tivemos uma refeição suntuosa. Michael colocou duas fatias de pão em um prato e cortou o queijo. antes de Tate e Edward voltarem para Londres. — Ele parece ser um modelo de virtudes — Michael resmungou. e em poucos anos será capaz de fazer uma bela imitação da rainha Vitória. sendo que não nutria sentimentos especiais por nenhum deles. Tinha uma forte tendência a empinar o nariz por nenhuma razão especial. mas acabou rindo.tenho pelo menos dez certificados de especialista em zíperes emperrados. sim. — Já notou com as pessoas perfeitas são aborrecidas? Ela riu. Michael cumpriu a tarefa em poucos segundos. Júlia imaginou se haveria algum estudo científico que explicasse como uma mulher podia reagir de maneira tão diferente ao toque de dois homens. "Ria sempre. seu corpo respondeu com uma onda instantânea e intensa de desejo. Ele não estava exagerando quando disse que sabia cozinhar. Afastou-se assim que ele terminou. — Aposto que sim. Devia existir alguma obscura razão hormonal para sua resposta a Michael Forrest. deixando o pão sobre a mesa enquanto ia buscar um pedaço de queijo cheddar na geladeira. Sentia-se tão perturbada em sua presença que não suportou o silêncio prolongado. Quer que eu prepare um sanduíche. ou alguma outra coisa? — Um sanduíche seria ótimo. virou-se e segurou os cabelos para impedir que ficassem enrascados. Resgatou o pato de Lianne da incineração iminente. E ele também . Devia fazê-lo com mais freqüência. Michael estava certo. — Sim. Demonstrando uma total falta de bom senso. — Por nada. — Vou transformar seu conselho numa resolução de Ano Novo. querida. Devia estar ofendida. Graças a Edward. porque^ nada mais podia explicar o efeito que ele exercia sobre seu equilíbrio. os dedos tocando sua pele apenas uma vez quando ele deslizou o zíper sobre o fecho do sutiã. — Compreendendo que jamais conseguiria fechar o vestido sozinha. — Obrigada. — Um homem sem vícios. E você? Já comeu? — Oh. mas eu mesmo posso preparará-lo. e o fato de estarem na cozinha a fez pensar em comida. especialmente depois que conheci Edward. — Não costuma rir muito. — Aposto que ainda não jantou. manteve o arroz com legumes quente enquanto preparava uma salada fabulosa. mesmo que não esteja achando graça nenhuma". Precisava dizer alguma coisa. e até ajudou a lavar os pratos quando terminamos de comer.

— Depois de cortar o sanduíche recheado de queijo e pepino em quatro partes iguais. — . — Por que não adiciona um pouco de pepino.. Podia dar-se ao luxo de ser generosa. pois sabia que Michael jamais a convidaria para o café da manhã. ou alguma outra conserva? — Quer que eu misture queijo e pepino? Deve ser uma combinação desastrosa. Observou-o enquanto ele terminava de preparar o sanduíche. — Mesmo assim. e você aceita tomar café comigo e comer panquecas com melado e bacon. Isto está delicioso! O pepino dá crocância ao sanduíche. — Aqui está. — Se acha que pretendo fugir. todas graças a Michael. — Aceitou o acordo muito depressa. — Combinado — disse. — Eu coloco pepino no meu sanduíche de queijo. Prove e admita que estava errado.Devo estar mais faminto do que imaginava. Mmm! Júlia estremeceu. mastigou por um momento e assumiu um ar de espanto. — Uma deliciosa e dourada coxinha de frango frita em óleo vegetal e servida com mel e biscoitos. se vive em um país onde as pessoas cobrem as panquecas com melado e acrescentam bacon e salsichas no mesmo prato? Sem mencionar o frango frito com mel! Não devia criticar combinações que considera desastrosas. está enganado. — Sabe muito pouco sobre sua terra natal. — Por que não fazemos um trato? — Michael sugeriu.tinha razão sobre a necessidade de rir mais. duvido que exista um único lugar em Londres onde se possa comer um desjejum americano. — Isso parece terrivelmente seco — comentou. Uma entre tantas outras naquela noite. prefiro correr o risco. — Eu não disse nada! Eu disse alguma coisa? — Nem era preciso. teria se recuperado da paixão por Gabriel DeWilde há meses. Perdera boa parte do último ano transformando um pequeno contratempo numa enorme tragédia. Se não houvesse se dedicado ao papel da heroína trágica. . — Não está em condições de criticar a culinária inglesa. Como se atreve a criticar o paladar de outros povos. e sentou-se diante dele à mesa tomada por uma nova onda de inquietação. — Os britânicos não pensam assim. Júlia sorriu satisfeita.. Era uma constatação inquietan-te. entregou-lhe o prato com um sorriso. Michael deu uma mordida hesitante. A certeza não a deixava tão feliz quanto devia. O silêncio de Michael foi tão eloqüente que ela não pôde conter o riso. tirando um pepino do refrigerador e procurando uma faca afiada para cortá-lo. Por outro lado.

Isso não é nada. Leciono francês em uma escola feminina em Kensington. — Para duas pessoas que estão prestes a se tornarem parentes. Quantos anos têm suas sobrinhas? Passa muito tempo com a família? — As meninas têm três e cinco anos. pelo menos de acordo com a antiga doutrina da igreja. Mas depois do século. —Sim. Acha que isso nos torna parentes? — Na era medieval.. Ele segurou a mão de Júlia sobre a mesa. mas a espera é difícil. Agora é sua vez. especialmente para o primeiro filho. eu sei. — Muito bem — ela disse. — Desculpe. não é? Por que não vamos nos sentar na sala e falamos um pouco sobre nossas vidas enquanto esperamos pelas notícias do hospital? — Boa idéia. — Uma sentença não pode ser considerada um pequeno discurso. Os dois são engenheiros. e eu respondo citando uma passagem histórica ou um fato político da história mundial. — Quem começa? — Damas primeiro. e conversar seria uma excelente maneira de controlar a ansiedade enquanto esperavam pelo telefonema de Gabriel. Tenho dois irmãos mais velhos. — Como quiser. Vejamos. mas Lianne entrou em trabalho de parto há menos de seis horas. mas não vou demorar muito. erguendo as mãos num gesto contrito. Deve ser o reflexo de professora. mas estou agitada demais para dormir. Esse será meu primeiro afilhado. Michael engoliu o último pedaço -do sanduíche. não nos conhecemos muito bem. — Espere um instante. . ambos casados. — Meu também. Odeiam quando fazem um comentário qualquer.. quem disse que o hábito é desagradável? — Meus irmãos. — O problema é deles. Além do mais.. Acho que podemos expandir um pouco sua biografia. Tenho esse hábito desagradável de responder com pequenos discursos aos comentários casuais de outras pessoas. Tenho trinta anos e pretendo comemorar a mesma idade nos próximos quatro aniversários. — Michael levantou-se e levou o prato para a pia. Já passa da meia-noite! — Parece muito para nós porque estamos apenas esperando. — Quer ir para a cama? Prometo acordá-la assim que tiver alguma notícia. e duas sobrinhas adoráveis. Sentaram-se na sala de estar. — Sabia que Michael era uma companhia divertida. Nasci em Londres e passei quase toda minha vida naquela cidade. e nos vemos com bastante freqüência. e por isso explicam-se muito melhor com diagramas e gráficos do que com as palavras. não seu. — E parou de repente. Júlia no sofá e Michael na poltrona que ficava mais próxima do telefone. a igreja costumava afirmar que sim. — Obrigada.— Gabe devia ter telefonado..

Afinal. salva vidas todos os dias. Ele me fez ver que estava farta de brigar pela atenção dele com minha futura sogra. ele também tem duas netas e duas noras. — Disse que seus irmãos são mais velhos? — Sim. — Entendo. Não suporta nenhuma das duas. —Ler francês significa que o principal assunto que estudei na universidade foi o idioma francês. — Apaixonei-me perdidamente por um francês chamado Jean-Paul Ros-sier e quase me casei com ele. trinta e sete. Depois tirei um ano para viajar pela França e trabalhar nos empregos mais diversificados. O que significa isso? — King's é uma das escolas da Universidade de Londres. — Gosta de suas cunhadas? — Oh. — Concluí o curso superior quando tinha vinte anos. —Nunca ouvi essa expressão antes. — Uma de minhas cunhadas tem flores de plástico no jardim à frente da casa. —Não precisou escrever e falar. Ele é cirurgião. Nós britânicos sempre ficamos meio malucos quando somos expostos ao sol forte. não que só tenha tido de ler para obter o diploma. Tenho um cunhado que me deixa maluco. Depois de fugir de Jean-Paul e ma-dame Rossier no último . Como se tornou professora? Sempre sonhou com o magistério? — De certa forma sim. mas deve ter tido o senso de humor extirpado quando ingressou na faculdade de medicina. — Uau! Foi sorte ter conseguido escapar. um tem trinta e seis e o outro. e para me formar tive de ler francês. Mas continue.. — Ei. mas minha mãe jura ter ficado encantada com a chegada de uma menina depois de ter passado os primeiros dez anos do casamento cercada por homens.. — Não vamos perder mais tempo discutindo cunhados aborrecidos. — O que a impediu de se casar? — Meu anjo da guarda. Fui aceita em King's para ler francês. — Eu não disse isso! — E claro que disse. — Júlia viu a expressão de Michael e os dois gargalharam. vá devagar! Hora da tradução. Hoje em dia. tinha certeza de que queria ser professora. é meu pai quem diz estar cercado.já que moramos na mesma região.. Sou o que os especialistas chamam de "temporão". ei. além de ler? Júlia riu. elas são muito interessantes. além da esposa e da filha. porque as naturais fazem muita sujeira. Ele parecia confuso. — As lembranças provocaram um sorriso nostálgico. Quando era criança.. Conheço o sentimento. — É verdade.

filhos para criar e outros bebês a caminho. — Parou. Aquela altura da vida estava cheia de idéias sobre formar mentes jovens e transformar o mundo através dos milagres da educação. — Depois de tudo que disse. Um deles ensinava química. mas sou boa. —Está oferecendo desculpas para não mudar. —Tem idéia da taxa de desemprego neste país? Posso não ser uma professora soberba. Júlia. Vi os milagres que um mestre talentoso e dedicado pode fazer. a pergunta óbvia é por que ainda está lecionando? Não só seus alunos que merecem algo melhor. No final do terceiro ano. — Talvez não. nem mesmo a Lianne. semana após semana. Você também merece. mesmo com crianças que todos rejeitaram e rotularam como imprestáveis. muito menos numa língua estrangeira. o outro história. e ele e mamãe têm o suficiente para sobreviverem. Com tempo e paciência poderia aprender a ser competente. pensando em por que estava dizendo a Michael coisas que jamais revelara a ninguém. mas também não era boa o bastante para compensar a ausência de' pais negligentes e relapsos e um sistema escolar que dava ao aluno uma bagagem de péssimos hábitos de estudo antes mesmo de terminarem o primeiro grau. o entusiasmo que transforma um trabalho bem-feito em uma obra de arte. Mas dois professores daquela escola conseguiam estimular os alunos aula após aula. Mas não foi fácil lecionar francês quando metade dos meus alunos era incapaz de distinguir um verbo e um pronome no idioma em que haviam sido alfabetizados. mas não tinha a fibra. ano após ano. e o con- . Meus irmãos têm famílias. Tem muita inteligência e energia para perder seu tempo fazendo alguma coisa que não exige cem por cento de envolvimento. candidatei-me a lecionar francês na escola de nível médio. — Foi difícil aceitar que era uma espécie jde ponta de estoque em minha categoria profissional. — Não pode se culpar pelo fracasso de todo um sistema. Meu pai foi forçado a aposentar-se prematuramente. —São boas desculpas — Júlia insistiu com impaciência. Aceitei um emprego numa escola pública de um dos bairros mais pobres de Londres. — Preciso me sustentar.minuto. Foi assim que compreendi que jamais seria brilhante. Um ano mais tarde. e gosto das pessoas com quem trabalho em Kensington. Foi uma experiência devastadora. Nos primeiros dois anos concluí que era um completo fracasso como professora. percebi que não era tão terrível. onde trabalha atualmente? — Não. — Em Kensington. — Demitiu-se? — Só depois de um ano. quando obtive o diploma. Meu apartamento está hipotecado. mas nenhuma delas é uma razão de verdade. voltei para casa e matriculei-me num curso de treinamento para professores.

— Não quis criticar a fé que ela teve no próprio talento. Ela mesma me disse que teria passado muitos dias sem comer. como invejei a determinação de abrir mão de tudo em troca de uma pequena chance de fazer sucesso como estilista. E veja onde ela está agora! — Lianne também contou com a ajuda dos amigos. se você não estivesse subsidiando seu vasto talento com o dinheiro que ganha trabalhando duro na escola. É você quem vive me lembrando que os jornais publicam fatos da minha íntima quase que diariamente. — Especialmente para mim. mas a perspectiva me assusta. O que mais quero é operar mudanças em minha vida. Júlia ficou vermelha. se algum dia descobrir que tenho um talento secreto. Júlia sentiu que havia algo em sua linguagem corporal que não combinava com o tom casual da voz. enfrentando obstáculos e superando dificuldades. e por isso persistiu. — Lianne me pagou em dobro desde o dia em que começou a trabalhar para a Casa das Noivas. teria pesado todas as probabilidades. Lianne simplesmente acreditou nela mesma e no próprio talento. Examinou-o com atenção. Como sempre. Agora que já ouviu a maravilhosa história de minha vida. ponderando a idéia inviável de Michael ter sido ferido por seus comentários sarcásticos a respeito do estilo de vida que havia escolhido.domínio não vai se interessar se disser que deixarei de pagar minhas contas por alguns meses para ir bater tambores em alguma ilha tropical enquanto medito sobre meu destino profissional. Júlia respirou fundo. Sabia que era uma estilista criativa e inovadora. Não só admirei sua coragem. — Não devia ter reagido tão intensamente. — Se estivesse no lugar dela. é sua vez de falar. ou o fato de ter contado com você nos momentos de maior dificuldade. mas a verdade é que tocou um dos meus pontos fracos. das nove às cinco. começarei a olhar em volta em busca de alguém que me estenda a mão. —. até conseguir uma chance de mostrar ao mercado como era competente. Pode sair da defensiva. — Toda mudança é assustadora.E verdade. Fui criada para acreditar que correr riscos é irresponsabilidade. trazendo nada além de talento e disposição. que pessoas sensatas encontram uma carreira sólida e seguem nela até o fim de suas vidas. quando ela chegou dos Estados Unidos. — Já sabe tudo que há para saber a meu respeito. Bem. —Entendi. — Deve haver alguma coisa entre as lições de pára-quedas com as meninas . feito uma cuidadosa análise do mercado de trabalho e chegado à conclusão lógica de que não tinha chance de obter sucesso. Só estou apontando que até as pessoas mais brilhantes precisam de ajuda para chegar ao topo. — Olhou-o e sorriu. semana após semana. Mas vi Lianne.

Tínhamos engraxates e uma camareira em cada andar pronta para servir o chá às quatro em ponto. — O que faz quando os paparazzi não estão no seu encalço? Vai pescar? Pratica caça submarina? Ouve jazz? Lê Platão? Shakespeare? — Ler Platão e Shakespeare? Está brincando! — Pelo contrário. Em duas ou três noites da semana. — Onze ou doze horas por dia.de uma torcida organizada e as taças de champanhe com estrelas do cinema — insistiu. — No último ano. Antes disso. E são essas ocasiões que acabam sempre chegando aos jornais e revistas. —Por que trabalha tanto? — perguntou. Buscávamos uma clientela que não existia mais. ou o Claridges para Londres. Ele encolheu os ombros. Parte de uma tradição que nunca perde seu brilho original. — E o que faz no domingo? — Durmo. Michael Forrest levava uma vida bastante solitária. oferecíamos todos os serviços e comodidades que se podia esperar de um estabelecimento anterior a Segunda Guerra. mas ninguém precisa ouvir além de mim. toda a cadeia teria falido. — O quê? Pensei que o Carlisle Forrest fosse para a América como o Ritz para Paris. Sou péssimo. e a maioria dos prédios contava apenas com uma máquina de fax para atender às necessidades dos hóspedes e do trabalho interno. e se não houvéssemos conseguido mudar nossa imagem e atrair a indústria das convenções. como suspeitava que fizesse com a maioria das pessoas que tentavam aproximar-se. creio que estava apenas seguindo um velho hábito. Não vai acreditar. O Carlisle operava no . porque esses eram serviços que meu bisavô instituiu quando fundou o hotel original em Chicago. O domingo é meu dia de folga. tenho de comparecer a eventos sociais que geram grande publicidade para a cadeia de hotéis. — Eu trabalho — ele disse com tom ríspido. Às vezes tento passar algumas horas com um amigo de verdade. Para um homem constantemente cercado por homens poderosos e lindas mulheres. seis dias por semana. — Basicamente Bach e Mo-zart. como se revelasse um segredo pecaminoso. Estou falando absolutamente sério. mas quando assumi o controle dos nossos hotéis. alguém que não tenha valor algum para a equipe de relações públicas dos hotéis. — E o que mais? — Também toco piano — disse. mas não possuíamos um sistema informatizado de registro dos clientes. — Não posso falar pelo Ritz ou pelo Claridges. trabalhei como um louco porque a famosa e elegante cadeia de hotéis Carlisle Forrest estava falindo. deixando-o decidir se queria falar honestamente ou mantê-la afastada de sua vida.

eu sabia. — Segurando suas mãos. deixando a . Morreu um ano mais tarde. não é? Não sabia e nunca imaginara ouvir algo tão absurdo. — E não aprova. — Minha mãe é a única pessoa que conheço que desaprova a vida que levo de maneira ainda mais veemente que você. meu Deus! Deve ter sido terrível! — Pior. — Você me faz acreditar. surpresa por constatar que acreditava realmente nele.. — Esses são os mesmos jornalistas que insistem em publicar que o monstro do lago Ness está devorando os leiteiros do lugar. Michael hesitou por um momento. — Sim. Não devia ter acreditado tanto nos jornais — desculpou-se. não tinha idéia de qual era seu estilo de vida. — Não tenho o direito nem o hábito de julgar o relacionamento entre duas pessoas adultas. — Obrigado pelo voto de confiança. — Sim.vermelho havia mais de cinco anos quando cheguei ao comando da rede. —Com todo aquele salmão no lago? Duvido! Michael levantou-se e parou diante dela. a administração anterior era meu pai. E para piorar a situação. — Mas sabia sobre meu relacionamento com Cherie Lockwood. Júlia. Lamento ter me precipitado ao julgar seu relacionamento com Cherie e Storm. — O sorriso de Michael não iluminava seu rosto. Sei que o que as revistas publicam a seu respeito não passa de uma visão superficial da realidade. — Você é uma mulher linda. — Aposto que teve de lutar contra a antiga administração para implantar as mudanças necessárias. E sobre Storm. mas Michael era convincente o bastante para persuadi-la. — Eu o veria mais freqüentemente. — respondeu com voz rouca. e minha mãe não voltou a falar comigo depois disso. — Até agora. — Acredite. pois é a mais pura verdade. — Não sou nenhuma idiota.. — Oh. Michael deslizou as mãos por seus cabelos e Júlia fechou os olhos. — Mas não deixa de receber o cheque relativo à parte dela nos lucros — Júlia comentou irritada. mas creio que homens e mulheres só devem ter filhos quando realmente desejam ser pais e mães. — É verdade. Sabe disso. Papai teve um ataque cardíaco uma semana depois de eu ter assumido o comando. se Brad Stein não se opusesse. fez com que se levantasse e fitou-a com um brilho intenso nos olhos. tive de lutar muito. — Cherie não quer que eu me aproxime de Storm —revelou finalmente. —E está? Júlia sorriu.

Compreendeu por que sempre estivera tensa e irritada perto dele. e foi preciso algum tempo para que ela percebesse o barulho do lado de fora da casa. Michael a beijou com uma paixão que a deixou trêmula. e menos ela se importava com o inevitável ajuste de contas ao amanhecer. Felizmente. O inconsciente percebera o perigo. mas o tom de voz provocou uma reação tão poderosa que ela sentiu o rosto queimar. Saber que ele estava certo não diminuía o desejo que sentia. e depois apertou-a entre os braços para conter o tremor.. descobrir mais sobre si mesma e sobre o lendário playboy das colunas sociais. — Obrigada. aquela inquietação deliciosa e aflitiva. —Michael. — O que o impede? — Um resto de consciência. Michael. Abriu os olhos. O que viu levou-a a pensar se o prazer de fazer amor com ele naquela noite não seria maior que a infelicidade de dizer adeus na manhã seguinte. conversar. As palavras eram casuais. O beijo continuou.. Michael havia deixado de tocá-la. — Bem. —Está bem — ela sussurrou. mais as inibições de Júlia iam desaparecendo. Queria encontrá-lo novamente.. e dessa vez Michael não se afastou. Temos companhia. Quanto mais se beijavam. sei que é muito inconveniente. — Olhou em volta e encarou-a novamente. era o que havia faltado em seu relacionamento com Gabriel DeWilde. Ali. os olhos verdes cravados em seu rosto transmitindo centenas de mensagens silenciosas. A cabeça latejava com a força da pulsação acelerada. Júlia levantou a cabeça para olhar nos olhos de Michael. fechando os olhos e oferecendo os lábios para um beijo. Gostaria que pudessem fazer amor. há um carro lá fora. Antes que pudesse considerar o significado do gesto. A certeza de que acabaríamos nos fazendo infelizes. embora o resto dela houvesse sido mais lento em constatar a realidade. Gabe percebera a ausência antes que fosse tarde demais. estendeu a mão e tocou-o no rosto. Gostaria que aquela noite fosse eterna. De repente percebia que aquela urgência sexual. —Não olhe para mim desse jeito. Na verdade. — Michael. Engoliu em seco para poder falar. mas estava bem perto.magia do contato penetrar em suas veias. Naquele momento. —Não podemos mandá-los embora? .. — Sou eu quem devo agradecer. — Gostei muito do tempo que passamos juntos esta noite — disse. Foi um prazer. mesmo que ela não houvesse se dado conta de nada. mas gostaria de levá-la para a cama.. — Obrigou-se a voltar à realidade que os cercava..

antes da enfermeira nos expulsar e sugerir que voltássemos amanhã — Grace contou. —Já viram o bebê? — É claro que sim.. e é absolutamente linda. Havia cortado os cabelos. A esta altura. Em vez disso. . já devem ter visto as luzes acesas. Gostei da mistura de simplicidade e requinte — Jeffrey opinou. e no nosso caso o espetáculo deve ter sido picante. — Entre. sra. — Grace e Jeffrey já devem ter visto duas pessoas se beijando antes. — Lianne deve estar muito feliz — Júlia comentou. —Vou buscar champanhe para o brinde. Grace entrou na sala antes que Júlia pudesse dizer mais alguma coisa. obrigada. —Sim. isso é maravilhoso! — Michael exclamou. minha querida. não espere que eu seja educado. Ou seria a felicidade estampada em seu rosto que a tornava tão radiante? Jeffrey entrou atrás da ex-esposa. — Michael. fui eu. — Sei que ela e Gabe queriam uma menina. e acho que é muito parecida com Gabe. e o estilo fazia com que parecesse mais jovem e suave. — Acalme-se — ele sussurrou. — Ei. — Pequena como um rato. Mas só por alguns instantes. — É uma combinação adorável — Júlia concordou. Lianne teve uma menina. uma voz rouca e feminina chamou do hall. — Sim. Mas a campainha não soou. Vire-se — suspirou. — Existem beijos e beijos. — Sim. acho que tem razão. Jeffrey me disse que foi você quem transmitiu a feliz notícia. — Michael ergueu o tom de voz.—Duvido. — Deixe-me fechar esse zíper novamente antes de irmos abrir a porta. que prazer vê-lo por aqui! E Júlia. Estamos aqui na sala. Júlia buscou refúgio nos braços de Michael e sentiu-se aliviada quando ele a segurou pela cintura. —Alô! Há alguém aí? Sou eu. — Acabamos de chegar do hospital. — Ela pesa dois quilos e setecentos gramas. exibindo um sorriso tão amplo quanto o dela. —Ela já entrou e nos viu — concluiu. — Jeffrey pegou a mão dela e colocou-a sobre o braço. Já escolheram um nome? — Elizabeth Gabrielle. DeWilde? — Estamos muito bem. mas a experiência com nossos três filhos nos ensinou que a condição não é permanente.. Como o chão não se abriu para tragá-la. Grace DeWilde! Júlia olhou para Michael com expressão espantada. —Se for seu amigo Edward. Como vai. Só havia uma razão para a mãe de Gabe estar fazendo tanto barulho. Jeffrey riu. Grace. — Ela tem a pele clara.

certamente. Pessoalmente. Jeffrey a seguiu com uma maleta em cada mão. e o médico espera liberá-la em três ou quatro dias. — Por que não sobem e vão dormir? Trancaremos as portas e apagaremos as luzes da casa. Foi uma noite exaustiva. Grace dirigiu-se à escada sem olhar para trás. Os quatro levantaram as taças e beberam. Que ela tenha uma vida longa e cheia de amor. — Vamos brindar a todos nós — Grace decidiu. Horrorizada com a gafe de Michael. — É muita gentileza sua — Grace respondeu com voz fraca. — Não podemos esquecer os avós — Júlia acrescentou. — Como está Lianne? — perguntou enquanto servia a bebida. mas a caminho da sanidade — Jeffrey respondeu. — Vou buscar as valises no hall. Júlia virou-se para Michael com ar acusador. boa noite — Jeffrey despediu-se. — E que os pais orgulhosos sejam sempre felizes ao lado da princesinha — Michael complementou. — Lianne estava dormindo. — Um brinde a Elizabeth Gabrielle. — Eles estão divorciados há meses! O que deu em você? Ou melhor.. Ela foi submetida a uma cesariana e estava sonolenta quando a vimos. —Bem. o que está acontecendo aqui? Ele sorriu. — Uma reconciliação? — De acordo com Gabe e Lianne. acho que ela tem algo de Winston Churchill. e quero voltar ao hospital amanhã cedo. Gabe conseguiu recuperar o equilíbrio. Jeffrey e Grace trocaram um olhar constrangido..— Só uma avó de primeira viagem poderia ver tal semelhança.. mas não houve nenhuma complicação. ou ainda está em surto? — Nós o deixamos incoerente. O som dos passos no corredor do segundo andar foi seguido pelo ruído de uma porta se fechando. Não é maravilhoso pensar que temosf uma nova pessoa na família? — Certamente — Jeffrey concordou erguendo a taça. — Então. — Exausta. Michael voltou com a champanhe e as taças. acho que vou me deitar.. Michael não a deixou concluir a frase. onde é mais silencioso. —É claro que não precisam ficar no mesmo. e Grace suspirou satisfeita ao deixar o copo sobre uma mesa. —Por que não se instalam no quarto de Gabe e Lianne? — Michael sugeriu. os dois passaram o último ano transformando a vida do outro em um inferno! . — Tem banheiro privativo e fica nos fundos da casa. Júlia decidiu interferir.

eu. Arruinara todas as chances anteriores de reconciliação com seu comportamento estúpido. — Muito confortável — respondeu tenso. Jeffrey recuperou o senso de humor. deixou as valises sobre uma cadeira perto da janela e procurou um lugar adequado para pendurar as roupas. O amor era capaz de transformar homens práticos e sensatos em idiotas sentimentais. a única coisa em que conseguia pensar era que Grace concordara publicamente em dormir com ele na mesma cama. Bocejando. o amor! Não é maravilhoso? CAPÍTULO VI Jeffrey supunha que já houvesse enfrentado situação mais embaraçosa do que ir para o quarto com a ex-esposa sob os olhares atentos de um homem e uma mulher jovens o bastante para serem seus filhos.. Parece uma miniatura de Kemberly. Agiam como dois estranhos civilizados. Jeffrey? — Oh.. — Briarwood é adorável. Grace não seria capaz de passar horas deitada a seu lado simplesmente dormindo. O silêncio começava a se tornar sufocante. . mas não conseguia recordar nenhuma delas. E se estragasse mais essa? Não tinha um plano para reconquistá-la. Sim. esperando que Grace considerava os novos fios brancos charmosos. Este quarto é muito confortável. Grace tirou os sapatos e jogou a jaqueta de linho em uma cadeira. Na verdade. — Quer usar o banheiro primeiro? — Pode ir na frente. — Tentando não olhar para a cama de casal. mas deve ser confortável. e por isso decidiu falar alguma coisa.— Ah. Não. Quando percebeu que estava parado diante do espelho flexionando os bíceps. Depois penteou os cabelos. — Gabe e Lianne fizeram um excelente trabalho com a reforma do chalé. pensou enquanto escovava os dentes. que Jeffrey se deu conta de que ela podia pretender passar a noite toda dormindo. Agia com tanta tranqüilidade. por favor. Ou seria? Por isso bocejava tanto? Para dar a entender que estava cansada? — Quer que eu pendure suas roupas também. A cama não é muito grande. A idéia lhe provocava um misto de desejo e pânico. e temia que não fosse o suficiente. — Grace abafou mais um bocejo. — Vou pendurar minhas roupas. Dizer que a amava e implorar por seu perdão era o melhor que podia fazer. e agradeceu aos céus por não ter desistido das partidas de tênis que o mantinham em forma.

— Sim.. e ele detestava. lendo.Quando voltou ao quarto. — Estava aqui pensando se lembra a aposta que fizemos há algumas horas — ela disse. Assim. — São duas horas — ela sorriu. as finanças eram tão entrelaçadas que parecera tolice apostar um dinheiro que pertencia a ambos. acho que este é um bom momento para reclamar meu pagamento. você vai ficar à minha disposição até às quatro. lendo uma revista. Antes do divórcio. acho que sim. —Lianne teve uma menina.. sorriu e tirou os óculos. — De acordo com os termos acertados. — Obrigada. eu lembro. Mas Jeffrey não ousava esperar que Grace cobrasse a aposta exigindo favores sexuais. Mais tarde? Mas eram quase duas horas da manhã! Jeffrey pensou no que devia fazer. — Perfeito. Jeffrey — disse. conseguiu controlar a ansiedade e caminhar até ela sem tropeçar nos próprios pés. abrindo os braços para recebê-la. Seria como recompensá-lo por todos os erros que cometera no último ano. De todas as coisas que fizeram parte do casamento. Gracie. algo que ela adorava. O sorriso deu lugar a uma expressão preocupada. levantando-se da cama. — O banheiro é todo seu. As vezes Grace tinha de fazer companhia ao marido enquanto ele assistia a um daqueles horríveis filmes antigos. Eu venci. Mas o mais comum era que a aposta se transformasse em um jogo sexual no qual o perdedor tinha de submeter-se aos caprichos e fantasias do vencedor. e agora você me deve duas horas de. ou Jeffrey era arrastado para uma exposição de arte de vanguarda. — Exatamente. Deitar-se usando o robe? Tirá-lo casualmente e deixá-lo sobre uma cadeira? A etiqueta de dividir o quarto com uma ex-esposa era algo que desconhecia. — Gracie — murmurou. deixando-os sobre a mesa-decabeceira. . Grace estava sentada de pernas cruzadas no meio da cama. — Sim. Grace o encarou com ar pensativo. — Jeffrey? Algum problema? — Não. Venha até aqui. —Já que estamos aqui juntos.. aquela de que mais sentira falta fora vê-la sentada na cama. passaram a estipular um determinado número de horas de serviço que o perdedor devia prestar ao vencedor deaima aposta. serviço. Ao perceber sua presença. e nem um minuto a mais. Acho que vou tomar banho mais tarde. Até às quatro. Com esforço. nenhum — respondeu com voz rouca. ela o encarou. — Oh..

Depois foi a vez do botão da calça. Tirou o complemento dos passantes da calça com uma habilidade tão sensual que teria sido capaz de causar inveja em uma stripper profissional. —Quatro minutos. afastando os lábios de maneira a poder introduzir um dedo na cavidade quente e úmida. escapando do abraço. Jeffrey gostaria de saber o que aconteceria se desrespeitasse as regras. Quando estava prestes a gemer de aflição. Para o diabo com a cautela e o controle! Aquela era a mulher que amava. Desejava-a tanto que estava surpreso por ter resistido quatro minutos sem jogá-la na cama e possuí-la com selvageria. Grace foi para o outro lado do quarto. Grace mudou a forma de tortura. Jeffrey não pôde mais conter-se e abraçou-a. brincando com o cinto por alguns minutos antes de jogálo na direção do guarda-roupa. levando-o a esquecer as perguntas. Devagar. — Há alguma coisa que gostaria que eu fizesse neste momento. não havia a menor esperança de sobreviver a mais dois minutos de aposta. Fingindo não notar que ele a observava com um misto de paixão e desespero. — E a segunda é que só pode se mover com a minha permissão. —Hummm. deslizou os dedos pela face até alcançar sua boca. para uma mulher que havia feito tanta questão de assinar o divórcio. Ele se manteve estático. Grace se mostrava bastante satisfeita com a chance de seduzi-lo. Segundo. mas depois empurrou-o. Jeffrey respirou fundo e percebeu duas coisas ao mesmo tempo. apesar da vontade de gritar que era um homem. mas Grace estendeu a mão e acariciou seu rosto de maneira íntima e familiar. os olhos fixos na parede. Vejo que está se esforçando para cumprir as regras. e não se deixaria deter por preconceitos tolos e um orgulho que não o levava . — A primeira regra é que não deve falar em hipótese alguma. mas afastou as lapelas e apoiou a cabeça em seu peito. Ele assentiu. — Não desamarrou o robe. deslizando as mãos por seu peito até alcançar a faixa que mantinha o robe amarrado em torno da cintura. Jeffrey se esforçava para cumprir as ordens que recebera e não reagir à provocação sensual. não um bloco de gelo. pousando uma das mãos em seu quadril e a outra nos cabelos. devia ter vergonha! Não sabe honrar suas dívidas? Ele se manteve em silêncio. — Muito bom. começou a abrir o cinto de couro em torno de sua cintura. Por cerca de vinte segundos ela se deixou abraçar. Sorrindo.como tenho sentido sua falta! Ela retrocedeu um passo. Grace abriu o zíper lentamente e despiu a peça fazendo movimentos sinuosos com os quadris. Primeiro. Jeffrey? Ele fechou os olhos e cerrou os punhos. Jeffrey.

Mas essa possibilidade não existe. o corpo esguio de Grace sobre o dele. Grace afastou-se e ele se sentou. Gracie! Como esperava que eu ficasse quieto? Estava me provocando! — Espero que este quarto tenha paredes bem grossas. — Excêntrica e ridícula!. se é isso que quer. — Pelo amor de Deus. beijando-a com ardor. Se houvesse algum jeito de voltar no tempo até antes de toda essa confusão começar. porque me feri na mesma medida. Acho que continua sendo o que sempre foi. — Só porque eu a obriguei a ir embora. — Isto é insano. — Francamente. Jeffrey tentou mudar de posição. a menos que queira. não precisa me acorrentar. — Não. Está bem. olhando para o próprio pulso com um misto de horror e incredulidade. . Grace retribuiu com todo o entusiasmo que ele havia sonhado despertar. mas algo o impedia de mover o braço direito. afagando-o enquanto o puxava para a cama. Em que acha que me transformei? — Em nada. Gracie. Depende. Sabe que sempre as levo a sério. e orgulho não precisa ser um defeito. atravessou o quarto tomou-a nos braços. — Não esperava ser acorrentado à cama! — Está sendo punido por ter desrespeitado as regras da nossa aposta. Jeffrey! Você prometeu não falar. olhando para o aparato de veludo e metal que havia visto na noite em que ela levara as jóias à Casa das Noivas em Londres. Jeffrey? E capaz de imaginar como me magoou? — Sim. e tudo que posso fazer agora é dizer que sinto muito e pedir perdão por ter destruído nosso casamento. e agora está gritando. Por favor. — Não sei se quero. faria tudo diferente. Se não quer fazer amor comigo. Ficaria desapontado. — Ela pendurou a chave no dedo indicador e balançou-a devagar. mas jamais usaria de força para obrigá-la a fazer algo que não quer. ou Michael e Júlia pensarão que temos uma relação excêntrica. Ela continuou balançando a chave. — Você me algemou à cama! — constatou. Pouco depois caíam sobre o colchão. tentando controlar-se.— E respirou fundo. solte-me! — Se soltá-lo. Um homem teimoso e orgulhoso. — Depende do quê? — De você. Fui eu que parti para San Francisco. — Eu o deixei. Determinado. — Não sou teimoso. solte-me. vou implorar. Tem idéia do sofrimento que me causou nos últimos dezoito meses. vai tentar fazer amor comigo? — Não. — Por favor.parte alguma. é claro.

— Ajoelhou-se e descobriu que só precisava estender a mão livre para tocá-la no rosto. não faça isso! Não queria aborrecê-la. há seis meses. — Por quê? Vai ter de dizer por que quer se casar comigo novamente. — A voz tremia. minha companheira. Preciso ouvir as palavras. exibir a própria vulnerabilidade e correr o risco de ser rejeitado pela pessoa que considerava mais importante no mundo. Perder Grace o ensinara muitas coisas. . sem dizer como sentira sua falta e como lamentava os erros do passado..— Há dezoito meses. Não suporto a idéia de magoála outra vez. Passaremos o resto de nossas vidas juntos ou separados? — Quero estar com você — respondeu. — Você não me magoou. Não mereço seu perdão. Jeffrey? Eu sempre choro quando estou feliz.. Ela segurou a mão de encontro ao seu rosto. — Quero ser seu marido outra vez porque a amo. não precisa me aceitar. Para seu horror. Encarou-a. — Está dizendo que quer se casar comigo outra vez? Jeffrey fechou os olhos. Grace começou a chorar. Desejava tê-la de volta com tanta intensidade que mal podia falar. Grace o conhecia bem demais. Você é minha alegria. agarrando-se à frágil esperança de que ela apontasse um caminho. Sabia como era difícil expressar seus sentimentos. Mas havia mudado muito durante os meses de separação. Tentou conter a torrente de lágrimas. — Por favor. mesmo que ela o rejeitasse. expor-se. — Creio que chegamos ao grande momento. — Gracie. Já esqueceu.. sinal de que não estava tão controlada quanto queria demonstrar. e a principal lição havia sido que o amor oferecido de maneira generosa e incondicional nunca era desperdiçado. — Não pode imaginar como quero estar com você. não fique triste. por favor. a melhor parte do que sou.. e que seria uma pessoa melhor revelando o que sentia. — Não é o bastante. Jeffrey. — Sim. Mas agora um pedido de desculpas já não é o bastante. as palavras fluindo com facilidade por brotarem do coração. uma maneira de redimir-se e reparar todo o dano que causara. e depois retomar a rotina do casamento como se nada houvesse acontecido. Vou fazer esta pergunta pela última vez. para quê? — Para reconstruirmos um futuro em comum. Ela estava feliz! O alívio o deixou entorpecido. Se não quer se casar comigo. ao ponto em que teremos de tomar uma decisão definitiva. minha amiga e amante. Jeffrey. Sabia como seria muito mais fácil para ele amá-la. teria dado meu braço direito para ouvilo dizer essas palavras. mas se me aceitar de volta. serei o homem mais feliz do mundo.

números e gráficos. Ela se contorceu. Jeffrey sorriu. caindo deitado sobre a cama com ela sobre seu corpo. Michael estava sentado na cozinha estudando os gráficos que abrira sobre a mesa. — Sim. E trabalhando. querida. CAPÍTULO VII Júlia dormiu até às nove na manhã seguinte. prendendo-a sob seu peso. Uma mulher jamais ficaria confusa. Grace investiu contra ele. Deve ser a diferença de fuso horário. reconhecia os sintomas de um dilema que desafiava toda e qualquer tentativa de resolução... também. — Gracie. o que está fazendo? — Abrindo esta maldita algema — respondeu enquanto se libertava. fingindo lutar pela liberdade embora não fizesse nenhum movimento para escapar de seus braços. Depois de passar um ano lamentando a perda de Gabriel DeWilde. algemar-me à cama também não foi o comportamento de uma dama. Jeffrey. Como um homem pode identificar a diferença? — Não sei. Depois exibiu a chave que havia roubado como se fosse um troféu. — Vai tirar proveito da situação para possuir-me? — ela perguntou. — Jeffrey DeWilde. O Sunday Times permanecia fechado perto dos papéis. mas os homens são criaturas inadequadas que. — É terrível quando perdemos o sono no meio da noite — comentou. — Pelo menos não precisa trabalhar hoje. e acordou com os sinos da igreja do vilarejo. Sabe que eles vão estar no mesmo lugar no dia . e Júlia seria capaz de apostar um bom dinheiro como a causa da insônia ia além da diferença de fusos. Essa é a maior vantagem em lidar com papéis.— Mas também chora quando está triste. — A insônia é inevitável para quem vive viajando pelo mundo. Parecia exausto. — Parece estar acordado há algum tempo. — Graças a Deus! — E abraçou-o. — Aproximou-se da cafeteira. — Acordei às cinco e não consegui mais dormir. apesar de estar em Tóquio ou em Londres. Jeffrey agarrou-a e girou o corpo. — Já era tempo. — Acho que sim. — Ele passou a mão pela barba por fazer. roubar essa chave enquanto fingia me consolar não foi o comportamento de um cavalheiro! Jeffrey jogou o corpo para trás e puxou-a. e o cheiro de café pairava no ar. — Bom dia. Eventualmente o corpo se rebela e decide seguir o horário de San Francisco. balançando-a fora de seu alcance. Quando desceu.

Como soube que queriam dormir juntos? —Não foi difícil. Mas estão divorciados! —Se não contar a ninguém. duvido que se levantem da cama antes do meio-dia. prometo guardar segredo. E agora está me dizendo que eles chegaram aqui ontem à noite dispostos a dormirem juntos. Só precisei olhar para os dois para saber. conseguiram assinar o divórcio.. Se quer saber minha opinião. era melhor nem tentar explicar-se. Como podia pensar em fazer amor com um homem que abandonara o próprio filho.. Não espero que jovens descobrindo a paixão se comportem de maneira racional. Gostara da atmosfera de intimidade e camaradagem e. Apesar de tudo que sentira em seus braços.. Os DeWilde foram casados por mais de três décadas. Pior. Júlia acordara confusa com relação ao que havia acontecido na noite anterior entre ela e Michael. Isso não faz sentido. dos beijos ardentes que haviam trocado. E evidente que eles.. há menos de quatro meses.. e depois passaram um ano atirando granadas emocionais um no outro. Aposto que tiveram uma noite longa e cheia de atividade. —Eles ainda nem saíram do quarto.Mas.. — Está bem. —. não tinha a menor intenção de mergulhar em um relacionamento com Michael For-rest depois de ter passado um ano tentando superar o que sentira por Gabriel. Mas Grace e Jeffrey foram casados por mais de trinta anos. e era de . admito que não entendo o que está acontecendo. reconheço que estou sendo ridícula. levando a xícara de café para a mesa. O mais sensato seria desistir de tentar fortalecer um laço que só existia em sua imaginação. Finalmente. —Por que acha que um relacionamento sexual tem de fazer sentido? Depois de como reagira aos beijos de Michael na noite anterior. e a atitude dele não colaborava em nada para esclarecê-la. se sempre considerara a paternidade como uma prova de caráter? Além do mais. eles mal trocaram meia dúzia de palavras! —Essa foi a primeira indicação. suspeitava de que os beijos que a afetaram tão profundamente não haviam causado nenhuma resposta significativa nele. Não é possível! — Percebeu que Michael ria de sua reação e fez uma careta divertida. —Se estivéssemos falando sobre meus alunos. —Tudo bem. —Grace e Jeffrey já foram para o hospital? — perguntou. —Uma noite ativa? Está insinuando que. desejando algumas horas de intimidade.seguinte. Ainda estava tentando assimilar o desejo intenso que experimentara. principalmente. —Fiquei horrorizada quando sugeriu que eles dormissem no mesmo quarto. Michael resmungou alguma coisa e guardou os documentos na pasta que havia deixado no chão. a surpresa não seria tão grande.

Júlia enfrentou um momento de espanto por ter demorado tanto a perceber algo tão óbvio. Júlia? Tome cuidado com homens que escondem os sentimentos sob uma fachada de indiferença Frieza e sofisticação excessivas geralmente indicam que existem emoções poderosas fervilhando sob a máscara. naquele final de semana Michael permitira que ela vislumbrasse o verdadeiro homem por trás da imagem pública. —Está tentando me dizer que é um homem perigoso? Ele hesitou por um instante antes de reajustar a máscara. —É difícil imaginar Grace e Jeffrey vivendo um relacionamento tão. —Às vezes as pessoas são envolvidas por uma situação e precisam de algum distanciamento antes de compreenderem que galoparam a toda velocidade na direção errada. Acho que estava com a razão. Especialmente Jeffrey. E tão calmo e sofisticado. E já que estamos falando sobre Grace e Jeffrey.se esperar que tivessem certeza de seu amor antes de pedirem o divórcio. Quer um conselho. —É verdade. — Um homem perigoso. creio que devemos fazer planos para o resto do dia. —Estávamos falando sobre Jeffrey. O que me faz pensar num ditado que meu avô vivia repetindo. muito menos na direção errada. — Então. Não devo esperar que os DeWilde se comportem de maneira sensata só porque viveram juntos durante três décadas. tão tórrido. mais provocante e menos sutil. Lianne e o bebê? — Boa idéia. Ele dizia que envelhecemos muito depressa e demoramos muito para ficarmos espertos. porque era muito parecido com Jeffrey DeWilde. —Entendo o que quer dizer. Eles podem querer um pouco mais de intimidade. Michael era menos urbano e mais cínico que Jeffrey. como se tivessem cada detalhe de suas vidas sob controle. projetando uma imagem falsa que a mídia aceitava sem questionar. mas jogava o mesmo jogo. — Júlia sorriu. percebendo que antecipava o dia com uma alegria que há muito não sentia. Eles sempre pareceram equilibrados. Aprendera a proteger sua privacidade colocando-se em evidência. Michael levantou-se. Acha que estará pronta dentro de trinta minutos? — Certamente. Não consigo imaginá-lo galopando para lugar algum. Devia saber o que dizia. Podemos deixar um bilhete para os DeWilde prevenindo-os sobre nossas intenções. — Vou arrumar tudo lá em cima enquanto você cuida da louça. Por alguma razão. Michael levantou-se para servir mais café nas duas xícaras. não acha? Que tal limparmos a cozinha e irmos a Winchester visitar Gabe... estarei esperando por você no hall.. que jamais pensei que alguma coisa pudesse surpreendê-lo.. . A vida está sempre nos ensinando novas lições. e Júlia descobria que queria saber mais.

— Elizabeth é muito parecida com Gabe. Melhor levar a conversa para território neutro o mais depressa possível. Mas tinha consciência de uma estranha ternura ganhando espaço entre os outros sentimentos. Não levava a vida sexual ativa e intensa que os jornais sugeriam. Queria trancá-la em um quarto com uma enorme cama de casal e amá-la até sentir-se saciado. e ele girou a chave na ignição a fim de evitar retribuir o sorriso que parecia iluminar todo o interior do automóvel. pondo o carro em movimento. Viu as mãos dela? Tão pequenas e perfeitas! Adoro olhar para as mãos de um bebê! Queria beijá-la.O casamento dos pais não despertara em Michael nenhuma simpatia pela instituição. indesejada o bastante para aborrecê-lo. e a visita à maternidade naquela manhã fora no mínimo inquietante. — Concordo com Grace — ela continuou sorrindo. — Lianne estava ótima — disse. rápidos. Michael abriu o carro. Fitá-la era suficientç para sentir o corpo doer. Sentia-se confuso desde a chegada de Júlia na noite anterior. e o fato de Júlia nem perceber o efeito que exercia sobre ele tornava a atração ainda mais poderosa. O nascimento de Storm confirmara todas as suposições anteriores. Era a favor dos relacionamentos superficiais. e indolores. os olhos brilhavam e os cabelos refletiam a luz do sol. — Elizabeth Gabrielle é linda! — Júlia comentou enquanto ajustava o cinto de segurança. mas nunca saíra com uma mulher que pudesse esperar mais do que estava disposto a oferecer. Franzindo a testa. enroscando-se no que começara como um simples caso de desejo sexual. A sensação era estranha a ponto de deixá-lo irritado. não homens que não tinham a menor intenção de adicionar novas criaturas ao planeta super povoado.. coisas que preferia ter esquecido para sempre. a experiência com Cherie Lockwood o convencera de que os seres humanos seriam muito mais felizes se aprendessem uma lição com as amebas e desenvolvessem a capacidade de se reproduzirem sem a ajuda de um parceiro. O rosto estava corado. O breve encontro com o bebê despertara recordações do dia em que Storm nascera. nem respeito pela idéia de que manter um casamento fracassado era uma escolha mais responsável do que desfazê-lo de uma vez por todas. decidiu. Droga! Eram as mulheres que ficavam emocionadas diante de um recém-nascido indefeso. Quanto ao amor e à paixão. Sua inocência o excitava de maneira quase incontrolável. e não podia correr o risco de relacionar-se com alguém ingênua a ponto de não perceber com que tipo de pessoa estava lidando.. . e por isso passara os três anos seguintes evitando envolvimento afetivos. Júlia Dutton o tentava a quebrar todas as regras.

— A um lugar chamado Ashby Hall. Michael. — Oh. não sei se Grace voltou para buscar a planta. A casa também tem uma história interessante. Creio que o nome é Damasco de Outono. adorável! Como o conheceu? — Grace me levou até lá há alguns anos. — Normal? Ele passou dez minutos discutindo se Elizabeth devia ir para Oxford ou Harvard! — Está esquecendo como nossa afilhada é especial? De acordo com Lianne. — Porque só comeu um sanduíche ontem à noite. Acho que a fome está me deixando mal-humorado. — E Gabe jura que ela é capaz de reconhecer o som de sua voz. Está com pressa para voltar a Londres? Ela balançou a cabeça. e minha primeira aula amanhã começará às dez. Tinha trabalho para ocupar boa parte do dia e algumas horas da noite. ela até retribuiu os sorrisos dos pais.— É verdade. e ela queria ver uma variedade rara que não podia ser encontrada em nenhum outro lugar. — Há um lugar onde gostaria de levá-la para almoçar. mas fora da nossa rota. Depois da separação e do divórcio. — E um restaurante? — Um hotel instalado numa propriedade rural do século dezoito. Michael hesitou por um instante. — E conseguiu? — O jardineiro decidiu que ela era digna de ser incluída na lista de espera. Um lugar especial. E Gabe voltou ao normal. Os jardins de Ashby são famosos entre os apreciadores de rosas. e seguiu pela estrada para Weyhill. Que tal irmos almoçar? Há um restaurante perto da estrada bem razoável. Devia ter mais fé na humanidade. — Talvez seja. — Não tenho planos para esta noite. enfrentou o tráfego intenso de um entroncamento com a experiência de um britânico. sem mencionar a reunião com Clive Browne no final da tarde para discutir questões relativas ao hotel. — Aonde vamos? — Júlia perguntou. mas decidiu que tinha coisas melhores para fazer do que fingir estar debatendo algo que já havia sido resolvido. — É incomum um jardim cultivar rosas raras e antigas? — Eles não cultivam apenas rosas. Michael retornou. Espere só até ver o lugar. cerca de trinta quilômetros distante daqui. e hoje não comemos nada. Os jardins são surpreendentes. Foi construída . — Tem razão. Ela esperava convencer os proprietários a cederem uma muda para o jardim de Kemberly. — Ela bateu em seu joelho com ar brincalhão. felizmente. A verdade era que desde a noite anterior planejara levar Júlia a Ashby Hall.

o que era considerado uma extravagância para a época. o novo proprietário começou a usar seus dotes artísticos para realizar o que considerava ser melhorias. China. — O banheiro foi um toque prático e interessante. Naquela época. que nome interessante! Parece ter sido tirado de um conto de Dickens. — Ou descobriram o milagre do planejamento familiar. Blodget contratou um artista italiano para pintar querubins em todos os tetos disponíveis e paisagens chinesas nas portas. ou sua esposa o trancou fora do quarto. Nos dois lugares as pessoas comem macarrão. Aristocratas demoliam velhos edifícios e gastavam milhões de libras para construir casas que hoje em dia nem suportamos olhar. e posteriormente herdada por um primo. ou algo parecido. quando foi posta no mercado. Ela riu. o que significa que o sr. não! Ele acrescentou torres falsas em todas as chaminés! — Certamente. que também não teve filhos.. Blodget não conseguiu vencer a maldição. Sem mencionar uma torre gótica central enriquecida por um relógio horrendo. até que a propriedade adquiriu a reputação de ter sido amaldiçoada. que havia construído uma fortuna criando latas decorativas. não diga que todos os filhos morreram. e deve ter decidido que um súbito ataque de esterilidade seria uma bênção.pelo lorde local. Como toque final. O que aconteceu depois? A família mudou-se e foi feliz para sempre? Por favor. ele desentupiu os ralos e modernizou o encanamento. ninguém quis comprá-la até que um homem chamado Blodget. — Não vamos ser duros com o pobre sr. Em 1860. Blodget. os nobres e ricos seguiam a atitude vitoriana de considerar todos os países estrangeiros interligados. e os fatos se repetiram por mais duas gerações. é claro. — O que alguns dejes fizeram pode ser considerado vandalismo. tetos com abóbadas falsas na sala íntima e vitrais suficientes para decorar uma catedral. mas não é estranho como gerações inteiras podem perder subitamente o gosto? É horrível estudar o que aconteceu no final do século passado. mas os pais não tiveram mais filhos. — Blodget. — Meu Deus! — Ainda não ouviu o melhor. Afinal.. um homem sem filhos. — Ele contratou um italiano para pintar cenas chinesas? — É o que dizem. Blodget ficou sem dinheiro antes de poder . — Oh. Instalou até um banheiro no sótão para os criados. felizmente para a posteridade. — Em 1860? Duvido. o sr. os dez pequenos Blodget tiveram vidas longas e felizes. não é? Michael riu e percebeu que havia rido mais com Júlia nas últimas vinte e quatro horas do que com qualquer outra pessoa nos seis meses anteriores. assim que comprou Ashby Hall. De qualquer maneira. Ele já tinha dez filhos. Itália. Mas. que diferença faz? — Nenhuma. aproveitou a barganha. — Pelo que sei.

mas Michael percebeu que ela estava certa. — Entendo. Chegara ao ponto em que teria de se afastar dos negócios durante um mês para instalar-se na Inglaterra e tirar o projeto do papel. — Não. deixando pouco tempo para os planos de renovação de Ashby Hall. e seus descendentes levaram uma vida dura demais para realizarem danos maiores. —E assustado. quando foram vencidos pelos impostos e venderam a propriedade para vários empreendedores que a transformaram em hotel. era administrado pela mesma família que fundou a sociedade para comprá-lo depois da guerra. Eram jardineiros fanáticos. mas não antecipara a expressão de anseio que se estampou em seu rosto. No ano passado. os três sócios originais morreram num espaço relativamente curto. Michael esperava que ela se interessasse por seus planos para Ashby Hall. — Se seu projeto de renovação for bem-sucedido. — Um fato que jamais admitira nem para si mesmo.destruir totalmente Ashby Hall. — Estou entusiasmado — disse finalmente. — É uma história interessante. também. Sentia-se entusiasmado. O lucro nunca foi muito grande. O hotel ainda pertence a diversas pessoas. e o projeto em questão parece algo pequeno em comparação ao que fez até hoje. No entanto. dispor desse mês parecia tão provável quanto encontrar um homem honrado entre os diversos amantes de sua mãe. em vez de discutir detalhes durante os poucos dias que passava naquele país entre uma viagem e outra. — Você? Assustado? Mas sempre obteve sucesso com sua cadeira de hotéis. Se tudo correr bem. Trata-se de uma pretensão muito maior e com margem de risco muito mais ampla do que aquela com que operamos na cadeia . mas eles não pareciam se importar. Entusiasmado? Não teria escolhido a palavra para descrever seus sentimentos. Desde então. A transação não foi realizada pela corporação. nada mudou. será um jeito maravilhoso de dar nova vida a uma casa que faz parte da história local. dentro de cinco anos espero não dever um único centavo ao banco além do milhão de dólares que eles me emprestaram. decidi comprá-lo. e o restante da família decidiu que seria impossível continuar administrando o local. Suas obrigações como presidente do Carlisle Forrest consumiam um mínimo de cinqüenta horas semanais. e por isso contentavam-se em transformar os jardins em verdadeiras obras artes enquanto lutavam para viver do rendimento do hotel. apesar da frustração que temperava a emoção. Que projeto esplêndido! Deve estar entusiasmado. Quando soube que Ashby estava à venda. mas por mim. — Está enganada. Continuaram na casa até o final da Segunda Guerra. ou foi comprado por uma dessas grandes corporações? — Até cinco meses atrás. — Invejo você — Júlia disse com tom distante. Agora ele faz parte da cadeia Carlisle Forrest.

Por ter tido a coragem de perseguir um sonho. Experiente o bastante para estar preocupado. seguindo apenas especificações próprias. E ao responder as perguntas que ela fizera. apesar dos riscos e da enorme possibilidade de fracasso. aproveitarão a oportunidade para questionar minha posição de presidente de uma cadeia de dez hotéis gigantescos. e nada pode arrastá-lo ao fundo mais depressa do que um fracasso.. os acionistas que estiverem procurando problemas encontrarão motivos legítimos para reclamarem. O empreendimento é realmente de alto risco para você. Em pouco tempo. Agora. mas também terão grande impacto em minha posição de presidente do Carlisle. os diretores que ainda restam da época de meu pai e. teimosia e coragem. talvez. em pouco tempo todos saberão. Os rumores não me afetarão apenas pessoalmente. que sempre foram hostis à minha administração. — Não teriam do que reclamar. sou muito mais experiente. Além do mais. Agora o invejo ainda mais. — Por quê? — Pela mesma razão que admiro Lianne. Pode repetir a façanha. e totalmente desprovida de senso de realidade. Mas toda decisão incorreta deixa o autor exposto e vulnerável a quem quiser causar problemas. — Não sei se chamaria isso de coragem.. Nada é melhor para o sucesso do que o próprio sucesso. e os riscos são enormes. levando em conta que fui incapaz de operar com sucesso uma pequena pousada na área rural inglesa. — Acho que estou entendendo. Todos sabem que seu trabalho é brilhante.Carlisle. — Já desenvolveu estratégias vitoriosas antes. os acionistas estariam invadindo a reunião anual para questionar minha competência. o que significa que nem todos concordam com meu brilhantismo profissional. — Tudo bem. . — Ninguém administra uma grande corporação sem fazer inimigos. e ignorante demais para ter consciência dos riscos que estava correndo. Não posso fracassar. — Se Ashby Hall falir. — E um risco que se corre em qualquer profissão — Jülia contemporizou. infelizmente. porque todos os presidentes de todas as empresas do mundo cometem erros ocasionais. — Era muito mais jovem quando assumi o comando do Carlisle Forrest. Acho melhor tomar cem decisões por semana com noventa por cento de acerto do a tomar cinqüenta decisões acertadas e deixar outras cinqüenta pendências caírem no esquecimento por medo de errar. Se fracassar com os planos para o Ashby Hall. A confiança de Júlia era tocante. Até ouvir os comentários de Jülia. lembrara todas as razões que o levaram a enfrentar o desafio de desenvolver um hotel partindo do nada. Michael não havia percebido que começara a questionar a lógica do negócio envolvendo Ashby Hall. A indústria de hotéis é uma espécie de comunidade incestuosa. Teimosia.

O trabalho pesado e especializado é feito por uma empresa que presta serviços ocasionais.— Voltando ao que importa. Eles se dedicam apenas aos canteiros decorativos e às flores. — Por outro lado. E os canteiros! As cores são fascinantes. vai gostar de saber que estamos entrando na propriedade. Devem ter pelo menos cem anos! — Mais que isso. Duvido que tenha visto uma paisagem mais perfeita que esta em qualquer outro lugar.. — Não está pensando em destruí-los. criando a ilusão de que acres de jardim se estendem até o horizonte. Quantos jardineiros vai ter de contratar para manter o lugar neste padrão em que está? — Menos do que imagina. caminhando na direção da entrada. — Espere só para ver o lago dos lírios nos fundos do hotel. — Como vai manter os jardins sem levar o hotel à falência? — Boa pergunta.. . — As árvores que acompanham o caminho da entrada até aqui são espetaculares. grandioso. apesar de representarem uma grande despesa. A área ajardinada parece maior do que é. e assim os empregados do hotel não perdem tempo cortando a grama. Temos conseguido um bom resultado mantendo apenas dois jardineiros contratados. virou-se de costas para o prédio e olhou para a estrada que haviam percorrido. Júlia abriu a porta do carro e saltou. — Disse que os jardins são famosos entre os apreciadores das rosas. Ashby Hall surgiu imponente diante deles e Júlia prendeu o fôlego. aparando galhos ou aplicando inseticida. está falando "sobre custos com os quais a maioria dos hotéis não precisa se preocupar. Os carvalhos em torno do perímetro do terreno também são seculares. mas não imaginei nada assim. é claro. se está tão faminta quanto eu. Sem esperar pelo gesto de cavalheirismo. — Mesmo assim. Sob o toldo que protegia a porta. Júlia encarou-o com expressão alarmada. mas as faias são mais recentes. Blodget teve coragem de mudar a área externa de Ashby Hall. Começo a entender porque desenvolver este lugar é um desafio. algumas nos anos setenta. E espero usá-los como estratégia de marketing para divulgar o hotel e justificar os custos elevados. — É simplesmente lindo! — sussurrou. Devem ter sido plantadas na década de sessenta. ou o caramanchão do outro lado do riacho do salgueiro. os jardins tão são um forte atrativo em caso de venda. não é? Seria criminoso deixar uma área tão especial desaparecer por negligência ou desinteresse. Nem o sr. olhou em volta com expressão espantada enquanto ele estacionava o carro no espaço construído recentemente para esse fim. Sem mencionar as famosas roseiras. porque o hotel se localiza sobre uma pequena colina. Em silêncio.

caso queira almoçar antes de começarmos a trabalhar. — Reservei uma mesa no Salão Terraço. Estou com tanta fome. Viu quando ela se abaixou para cheirar as rosas de um arranjo sobre um console perto da janela. Como estão as coisas por aqui? — Bem. é um prazer vê-lo. O sol sempre anima os motoristas de fim-de-semana. Jdlia e eu passamos a noite em Winchester. mas não se importava com isso. — Não viemos de Londres. mas e daí? Se pudesse transformar seu hotel num sucesso. Clive tinha pouco mais de cinqüenta anos. — Obrigado. Nesse caso. Forrest. mas Michael já havia descoberto que o homem era mais eficiente que todos os outros profissionais que conhecera na área.— Como assim? — Prometo explicar tudo durante o almoço. — Vou localizar o sr. — Ela pegou o telefone. . corpulento. Júlia ergueu o corpo. Depois virou-se para admirar a beleza do jardim num silêncio satisfeito. mas Michael nunca levara um acompanhante a Ashby Hall. Baixo. Clive não tinha formação universitária e nunca administrara um hotel de grande porte. — Como foi a viagem de Londres até aqui? O trânsito deve estar terrível. com cabelos escassos e bochechas rosadas. Transformando o olhar num cumprimento discreto. Browne e avisá-lo da sua chegada. Clive apontou para o restaurante. Ainda tinha uma pasta cheia de papéis importantes e urgentes. a sorte surtira melhor efeito que um planejamento brilhante. Michael experimentou uma súbita e intensa onda de prazer por tê-la a seu lado e poder ver Ashby Hall através de seus olhos. — Sabia exatamente que impressão criaria. E ficou aborrecido quando notou que Clive lançava um olhar curioso e intrigado para Júlia. sorrindo ao perceber que ele a observava. — Clive apertou sua mão com simpatia. e Michael o mantivera no cargo por falta de tempo para procurar por um substituto. Os comentários de Júlia sobre a decoração e a disposição do saguão principal provaram que Lianne não havia exagerado ao dizer que ela sabia mais sobre decoração do que muitos profissionais. sr. A recepcionista o cumprimentou com um sorriso profissional. — Michael. que vou acabar comendo os crisântemos e as dálias se não entrarmos imediatamente. mais algumas oitenta e quatro horas de trabalho semanais não seriam tão ruins. homem ou mulher. A tensão desapareceu. Clive Browne não os fez esperar mais que alguns poucos minutos. felizmente. fora contratado como gerente provisório algumas semanas antes dos antigos proprietários decidirem vender o negócio. O gerente era sensato demais para permitir que a curiosidade se tornasse evidente. Jean. — Seja bem-vindo.

e toalhas de . porque não sabia como identificá-la. O carpete espesso abafava o inevitável som de talheres e copos. levando em conta que ele acabara de decidir que não queria Clive especulando sobre o relacionamento deles. talvez não. Ainda me lembro de muitas coisas.. porque quando passei alguns anos na França trabalhando. mas com quem não ousava dormir? Clive estendeu a mão. Na última vez em que Michael visitara o hotel em junho. Os anjos de mármore haviam sido removidos do console da lareira. O assunto pode proporcionar duas horas de um discurso que não vai querer ouvir. que saem daqui elogiando a comida e o serviço e acabam voltando trazendo os amigos. O gesto possessivo causava uma sensação agradável até demais. revelando as linhas simples e clássicas da estrutura original e o belíssimo trabalho de artesanato da madeira entalhada diretamente acima do console. apontando o caminho para o Salão Terraço. Uma conhecida? Amiga? A mulher que desejava. aprendi mais que o suficiente para sobreviver. — E professora? — Clive perguntou. Michael. srta. Fui um aluno negligente e desinteressado. — Por outro lado. Clive.. o Salão Terraço ainda exibia mesas cobertas por toalhas manchadas de gordura. — Vou levá-los à mesa que reservei. esta é Júlia Dutton. este é Clive Browne. —Ficou satisfeito com o trabalho? —Mais que satisfeito.— Sim. Dutton. — Sim. ou vou ter a sensação de ter voltado à escola com meus alunos. E o restaurante já está chamando atenção nos círculos locais. leciono francês na Academia Kensington. Boa parte da publicidade tem sido feita pelos próprios clientes. gerente de Ashby Hall. acho que teria prestado mais atenção. Espero que goste da nova decoração. gostaríamos de comer imediatamente. — Não acrescentou um rótulo ou uma explicação ao nome. Ela aceitou o cumprimento e torceu o nariz numa careta de desgosto. Venham por aqui — disse. — Francês foi uma das diversas matérias em que fracassei na escola. — Já devia ter feito as apresentações. — É um prazer tê-la conosco. me chame de Júlia. — Clive honrou-a com um de seus raros sorrisos. Júlia. —Não me faça começar a falar sobre como os idiomas estrangeiros são ensinados em nossas escolas. Os restos do papel de parede colocado na década de cinqüenta haviam sido substituídos por um elegante padrão sintético em ouro e branco. Estamos famintos! — Michael passou um braço em torno da cintura de Júlia e puxou-a para a frente. —Se alguém atraente como você houvesse me ensinado francês. — Por favor. É engraçado.

um rosa apagado davam um toque de frivolidade ao ambiente que, caso contrário, poderia parecer muito formal. Michael odiara as cortinas de veludo que encontrara sobre as portas de correr, mas elas também foram substituídas por outras mais leves de algodão branco estampado em amarelo. Aquela hora as cortinas eram deixadas abertas para que os clientes pudessem apreciar a paisagem ensolarada do gramado, mas à noite, ou no inverno, eram mantidas fechadas para bloquear o cenário úmido e escuro. As mudanças haviam sido um sucesso, mas o melhor de tudo era o número de clientes que enchia o restaurante. Pelo menos trinta pessoas, homens e mulheres de idades variadas, em casais ou em grupos maiores, todos saboreando suas refeições e demonstrando satisfação. Aliviado, Michael deixou escapar um suspiro. A primeira aposta, contratar um cozinheiro jovem e talentoso cheio de entusiasmo e idéias inovadoras, parecia ter sido vencida. —Que maravilha, Clive. Você havia dito que a reforma do restaurante dera bons resultados, mas as fotos não fazem justiça à nova decoração. —É bom saber que aprovou. —E o trabalho do cozinheiro? Os clientes têm aprovado? E você, o que está achando? —Ele deve ser a pessoa mais retraída que já conheci, mas tem um talento extraordinário, e é excelente no aspecto administrativo da cozinha. Deixa a desejar quando tem de explicar o que espera de seus ajudantes, mas o resultado geral tem sido mais que satisfatório. Foi uma excelente contratação, Michael. Clive os levou para uma mesa perto das portas de correr e providenciou os menus. —Vou mandar um garçom anotar o pedido. Peça para alguém me localizar quando estiver pronto para começar a trabalhar, Michael. Estarei esperando. CAPÍTULO VIII Clive afastou a cadeira do computador. — Meu Deus, Michael, olhe as horas! Júlia vai ficar furiosa por tê-lo retido até agora. —O quê? — Michael desviou os olhos da tela iluminada e emergiu das profundezas onde estivera mergulhado tentando encontrar uma solução para o problema da expansão da base de clientes de Ashby Hall. Olhou para o relógio na parede do escritório de Clive. Sete e meia. Quase hora do jantar. —Sete e meia! — Levantou-se de um salto. — Por que não me avisou antes? Estamos trabalhando há cinco horas e meia sem descanso! —Não disse nada porque também não percebi. Desculpe, Michael, mas somos muito parecidos quando nos envolvemos com o trabalho.

Michael fechou o programa do computador e desligou a máquina, tentando imaginar uma forma de explicar a Júlia que começara a traçar uma estratégia de divulgação para o hotel e esquecera completamente a hora. Ela ficaria furiosa, e com todo o direito. Uma coisa era passar uma hora resolvendo problemas urgentes, enquanto ela caminhava pelos jardins com um dos funcionários. Outra coisa era ignorá-la por quase seis horas. —Voltaremos a isso amanhã cedo — decidiu. — O restaurante é um ponto forte, mas a taxa de ocupação dos quartos ainda é muito baixa. Precisamos pensar num conceito de marketing que garanta as reservas durante o ano todo, e isso não vai ser fácil. Ashby Hall não tem campo de golfe, nem quadras de tênis, e não contamos com espaço suficiente para organizar convenções, o que significa que não poderemos recorrer a eventos comerciais para atrair novos hóspedes. — No momento sinto-me incapaz de pensar. Trataremos do assunto na segunda-feira. Talvez uma boa noite de sono nos traga alguma inspiração. Você e Júlia pretendem passar a noite aqui? Se quiserem ficar, podem escolher os quartos. Infelizmente, temos pelo menos quinze deles vagos. — Júlia e eu voltaremos à cidade. Estarei de volta amanhã às sete para retomarmos o trabalho. — Perfeito. — Clive não questionou os planos de Michael. — Se não precisa mais de mim, vou para casa tentar acalmar minha esposa. Acabei de lembrar que devíamos estar jogando bridge com os vizinhos. —Boa sorte. Explicar como esqueceu um compromisso com a mulher pode ser uma tarefa difícil. Diga-me uma coisa, Clive, como consegue conciliar as longas horas de trabalho e o casamento? —Não sei. Christine é minha quarta esposa.. —Oh. —Não preciso dizer mais nada, não é? A única coisa que me consola é que não tive filhos. As palavras de Clive descreviam uma situação que Michael conhecia bem. Quando um homem trabalha sessenta horas por semana e passa quase todo o tempo de vigília obcecado com o trabalho que deixou de fazer, algum aspecto da vida acaba sendo prejudicado. E normalmente é o casamento que sofre os primeiros e mais graves efeitos de uma carga excessiva de responsabilidades. Vira o padrão com os avós, que nunca se divorciaram, mas levaram vidas separadas dentro da mesma casa. Ainda sentia arrepios quando lembrava da sala de estar dos avós. Não conseguia recordar uma única ocasião em que presenciara uma demonstração de afeto entre eles, e quando se tocavam era por acidente. E o padrão de isolamento sem divórcio fora repetido de maneira muito mais destrutiva pelos pais. Enquanto o sr. Forrest oscilara entre o trabalho obsessivo e a culpa, a mãe preenchera as horas vazias com casos amorosos,

intercalados por reconciliações histéricas com o marido. Na adolescência, Michael considerara as tentativas culpadas do pai de recuperar o casamento e se relacionar com a esposa e os filhos quase tão insuportáveis quanto os prolongados períodos de negligência. Afastara-se ainda mais da mãe, cujos romances clandestinos nunca haviam sido clandestinos o bastante para permanecerem ocultos, mas a deixaram tão ocupada cuidando dos disfarces e desculpas que nunca tinha tempo para ele e a irmã. Durante algum tempo, Michael tivera esperança de romper o padrão familiar em seus próprios relacionamentos, mas desde o romance com Cherie Lockwood, decidira que os Forrest não haviam sido forjados para o casamento, e passara a considerar a solidão um preço baixo a pagar pela certeza de não criar sua variação patológica sobre o tema. Como o pai e o avô, Michael tinha uma forte tendência a escolher a mulher errada para se relacionar. Passou pelo bar e pela biblioteca, mas não encontrou Júlia em parte alguma. Talvez houvesse ficado zangada a ponto de chamar um táxi até a estação e voltar para Londres de trem. Diante do balcão da recepção, respirou fundo para acalmar-se. — Estou procurando a srta. Júlia Dutton, uma amiga que chegou ao hotel comigo. Sabe onde ela está? — Sim, senhor — a jovem funcionária respondeu com um sorriso cortês. — Ela esteve aqui às quatro e quinze e me pediu para avisá-lo de que estaria esperando na suíte Salisbury, pronta para retomar a Londres assim que o senhor quisesse. Quatro e quinze. Três horas e meia. Se ao menos alguém a houvesse levado à biblioteca e sugerido que escolhesse um livro... Mas não tinha podia culpar ninguém além de si mesmo se um dos funcionários a deixara na suíte olhando para as paredes. Sentindo-se constrangido, Michael pegou a chave reserva que a recepcionista ofereceu e subiu. A suíte Salisbury havia sido decorada pelo casal Blodget e era a maior do hotel. Pelo menos ninguém a instalara num dos quartos menores do terceiro andar, onde ainda não haviam alterado nada. Ignorando o elevador, subiu a escada pulando os degraus e abriu a porta chamando pelo nome de Júlia. Preparado para pedir desculpas e oferecer explicações, entrou na suíte com aparência contrita. Ela estava sentada em uma cadeira de costas para a janela, com um bloco de desenhos sobre os joelhos e dezenas de folhas amassadas no chão à sua volta. Tinha um lápis na boca, outro na mão e um terceiro atrás da orelha. O que quer que estivesse fazendo, estava tão compenetrada que nem registrou sua presença. — Desculpe tê-la feito esperar, Júlia querida.

— A casa tem sorte. não conseguia lembrar. E claro que o aspecto sexual do relacionamento pode representar um desafio. Clive e eu começamos a trabalhar e perdemos a noção da hora. Mais alguns segundos se passaram antes que Júlía se desse conta de que havia mais alguém no quarto. —Michael! — repetiu. E bom saber que conseguiu ocupar seu tempo. — As casas respondem muito bem a uma pequena dose de amor e atenção. Se fiquei. Michael a teria considerado cômica. — A voz parecia tensa e estranha aos seus ouvidos.. —Não se desculpe — disse. —Mas você explicou que tinha trabalho a fazer. — Não tinha razão para ter feito um comentário tão sugestivo. Michael. — Pensei que estivesse impaciente. — Mas suportável. uma vez que superamos as dificuldades iniciais — ela riu. — Desculpe. tirando o lápis da boca e sorrindo. Júlia estava pedindo desculpas. todas as piadas com que costumava defender-se desapareceram de sua mente. e a casa. — Você voltou! —Sim. Sinto muito. Ele a encarou com expressão divertida. — Levantou-se e começou a recolher as bolas de papel que deixara no chão.. Se sua reação não fosse tão inesperada.. — Suspeito de que casos de amor com imóveis têm mais chances de dar certo do que com seres humanos. inclusive a cozinha. Ashby Hall é maravilhoso. Esperava ser recebido com cortesia gelada. Vi tudo. Se alguma vez ouvira uma resposta mais espiri-tuosa que aquela. teria me despedido de você na hora do almoço e chamado um táxi para chegar à estação ferroviária em Winchester. —Como conseguiu ocupar a tarde toda? Brenda levou-a para conhecer os jardins? —Sim. Devia haver uma lição de humildade em algum ponto da história. não sabia que já era tão tarde. Estou perdidamente apaixonada. também. mas fiquei tão envolvida que. jogando-as num cesto de lixo. Mas quando encarou-a. e eu já havia dito que não tenho pressa para voltar a Londres. foi porque não me importava por esperar. — Sou eu quem devo dar explicações. não queria tê-lo feito esperar. voltei. ou com acusações diretas. Jamais havia considerado a hipótese de sua ausência nem ter sido notada. Michael — ela respondeu distraída. Tocou uma mecha de . mas não devia tê-la deixado sozinha por toda a tarde e parte da noite. Se não estivesse disposta a esperar. —Céus.. Por que as palavras estavam sempre dois passos à frente do cérebro sempre que Júlia se encontrava por perto? — Eu também — ela respondeu com um sorriso. São quase oito horas. — Deve estar certa. — Pela casa — Júlia explicou.— Olá.

Podia pensar em pelo menos trinta motivos que o levariam a lamentar o fato de ter feito amor com Júlia Dutton. ainda mais ameaçadoras e arriscadas. Os dedos acompanharam o contorno dos lábios carnudos. sem contar as razões que ela certamente poderia relacionar. — Júlia virou-se. experimentava uma euforia que oprimia o peito. podia convidá-la para jantar no Salão Terraço. e era tão bom tê-la nos braços que estava apavorado. invadia o corpo e esmagava toda e qualquer possibilidade de raciocínio.. — É. Faminto. enfatizando a ambivalência do que acabaram de dizer. fazê-la compreender como eram diferentes e inadequados um ao outro. —Também estou com fome. onde desfrutariam da segurança de um lugar público e iluminado. Em seguida. — Pronto. Como cancelar a viagem de volta à cidade e passar a noite toda fazendo amor com ela sob o olhar austero do retrato da sra. — Obrigada. acho que sim — disse. Considerando todos os fatores. Melhor ainda. seria uma grande tolice. Sim. apenas a expulsara da mente.cabelos que caía sobre a testa de Júlia e deslizou um dedo por seu rosto. — Limpou a mancha com a ponta do indicador. O que viu em seus olhos o atingiu como um soco no estômago. Estranho como algo tão corriqueiro quanto o calor do háhto de uma mulher podia se tornar tão excitante. —Está com fome? —Sim — ela respondeu com voz rouca. beijou-a. Mostrava-se apaixonada e dócil. — O rosto corou e a respiração se tornou ofegante. — Não consigo desenhar sem sujar todo o rosto e as mãos. —Podemos pedir alguma coisa no quarto. Era a terceira vez que a beijava em dois dias. Mas o truque não funcionara. Queria exibir seus maus hábitos. Blodget. o melhor a fazer era sair da suite que pertencera ao casal Blodget o mais depressa possível. Júlia não reagira conforme esperara. Tocou o queixo delicado para fazê-la encará-lo. mas . Por alguma razão inexplicável. deixá-la zangada. Ela acabara de mostrar a saída para a situação constrangedora. Trabalhara até tarde porque desejara ofendê-la. De repente se deu conta de que não esquecera Júlia naquela tarde.. O beijo não era doce e terno. Permanecer com Júlia em um quarto equipado com uma enorme cama de casal era uma idéia perigosa que levava a outras. Mas não estava. Os circuitos lógicos do cérebro enviaram um último aviso e entraram em colapso total. Cada vez que se beijavam. — Está com o rosto sujo de grafite. Podia perguntar o que estivera desenhando e romper a tensão que se instalara no ambiente. e devia estar preparado para a enxurrada de sensações.

Vamos fazer amor. mas não conseguiu identificar sequer uma delas. Lembrou que possuía trinta e sete razões para não fazer sexo com a mulher que gemia em seus braços. mas era como seja houvesse partido. Podia quase vê-los deitados no centro do colchão. temendo perder a razão ao tocar os seios fartos e firmes.de satisfazer os impulsos. e a visão alimentou o fogo que o consumia. Depois. deitado a seu lado. com paixão. Quando ela conseguiu encontrar o caminho para a intimidade que buscava. Ela estremeceu e fechou os olhos. A cama era como uma sentinela silenciosa aguardando o momento de entrar em cena. Incapaz de adiar o momento. O pedido aflito destruiu os últimos resquícios de controle que ainda conseguia preservar. provocando visões de sexo ardente e violento que desfilavam por sua mente numa parada provocante.selvagem e erótico. Os beijos despertavam nele reações que iam muito além da paixão. Michael gemeu. quando não era capaz de descobrir o que ela mesma estava sentindo. e tudo que sabia que mais tarde lamentaria. nus e excitados. quando conseguiram respirar novamente com alguma normalidade. — Também quero você. O suor brotava em sua testa. perto deles. Michael teve certeza de que jamais havia sido tão feliz. quente e excitada. Ela estava bem ali. algo mais complexo que simples desejo. Michael fechou os olhos e prendeu o fôlego. esperando que ele a possuísse. e a ameaça do inferno se ela deixasse de tocá-lo. o joelho invadindo o espaço entre suas pernas. Quando chegaram juntos ao clímax. Não conseguia deixar de pensar na cama. O que estava acontecendo entre eles não ia parar em alguns beijos sensuais. coberta por almofadas macias e convidativas. entregando-se completamente e misturando medidas iguais de selvageria e ternura. A promessa do céu ainda por cumprir. Há quanto tempo desejava fazer amor com ele? Há meses. — Eu quero você — sussurrou com voz rouca.. mas queria aumentar a proximidade e estar dentro dele. Michael ainda estava ali. levou-a para a cama e amou-a como jamais amara outra mulher. Era estranho poder identificar os sentimentos de um homem que mal conhecia. levando em conta a maneira que o corpo reagira quando ele começara a tocá-la.. Dominado pelo desejo. Michael desistiu de mentir para si mesmo. temendo precipitar o desfecho do encontro. . Júlia começou a sentir os primeiros sinais de distanciamento. Aquilo devia ser como o purgatório. ser parte dela. as mãos lutando contra o zíper de sua calça. Júlia era tudo aquilo que queria. Estavam próximos. arrancou a camisa e despiu-a com movimentos rápidos e bruscos. Empurrou a cabeça de Júlia para trás e beijou o pescoço pálido. demonstrando cem por cento de prazer e nenhuma tentativa de resistência. Júlia emitia sons incoerentes e abafados. Michael. provavelmente. Imaginou-a deitada.

. mas sexo ardente não podia servir de base para a construção de um futuro. foi porque nós dois quisemos. O silêncio se tornou denso. massageando a parte interna dos pulsos. e eu escolho você. Mas podia imaginálo discutindo a questão com Cherie e decidindo que Storm viveria melhor com o padrasto. — Não sei o que quer ouvir. e não mereço confiança quando me envolvo em relacionamentos com o sexo oposto. seria obrigada a encarar a realidade: sexo era bom. muito bom? Que nunca havia vivido nada parecido antes? Ele segurou suas mãos e virou as palmas para cima. sem visitas esporádicas do pai biológico que só serviriam para confundi-lo. Júlia queria dizer que o que experimentaram havia sido especial demais para ser rotulado de erro. No momento.Sentando-se na cama. — Não sou o homem certo para você.. Era uma professora. o que significava que a experiência vivida naquela noite se desdobraria em outras. — Então nós dois cometemos um erro. Agora que conhecia Michael um pouco melhor. Storm era apenas um pequeno exemplo da distância que os separava. Precisamos de um voluntário. — Por que está agindo como se o que aconteceu entre nós dependesse apenas de sua decisão? Não sou uma boneca inflável! Se fizemos amor. compulsivo. Quando o efeito passasse. Eu sou egocêntrico. Não devia ter deixado as coisas chegarem a este ponto. abraçou os joelhos. É uma mulher quente. havia sido um engano. — Um de nós vai ter de dizer alguma coisa — comentou com coragem. mas espero que me desculpe. da maneira como queria conduzir sua vida e do estilo que Michael . Júlia. obstinado e egoísta. Não havia futuro para eles. — Tem razão. Como poderia enquadrar-se no estilo de vida frenético e glamouroso de Michael? O encontro sexual fora espetacular. generosa e fácil de conviver. — Para um erro. Era doloroso ouvi-lo pedir desculpas por algo que havia sido tão maravilhoso. foi muito bom. —É sempre assim — ele sorriu relutante. ainda flutuava na nuvem de felicidade criada pela satisfação física. — Tem razão sobre ser egocêntrico — disparou. Estava tão perturbada pela intensidade do que acabara de viver que sabia que seria impossível inventar desculpas e mentiras. mas parte dela reconhecia a sabedoria do que Michael dissera. mas não podia tomar o lugar de valores compartilhados e laços verdadeiros entre duas pessoas com sonhos e objetivos em comum. além de tudo que havia imaginado. Michael? O que devo dizer? Que foi tudo. Resumindo. expulsando o ar de seus pulmões. não acreditava que ele houvesse abandonado o filho como os jornais noticiaram. morava no subúrbio de Londres e sonhava com marido e filhos. A raiva sufocou parte da tristeza que as palavras deveriam ter causado.

pare de pedir desculpas. eu sinto muito. Como pudera ser arrogante a ponto de imaginar que alguns minutos de sexo seriam suficientes para convencê-lo a mudar de vida? Devia se limitar à paixão pelas casas. é bom que saiba que no momento não me sinto fácil de conviver. examinando os desenhos que ela fizera durante a tarde. Quando saiu do banheiro. — Vou tomar uma ducha. O que havia feito naquela noite fora usar o sexo como uma tentativa de diminuir essa distância. — Foi assim que conheci Lianne. — Sentou-se ao lado dele para examinar os desenhos. Suponho que não esteja com disposição para levar-me.escolhera para a dele. o que significa que é melhor calar a boca. . — Não estava com disposição para ouvi-lo dizer que seus desenhos eram impraticáveis e dispendiosos. Enquanto isso. nem doce ou afável. Caso tenha esquecido. A idéia a deixou gelada. Trêmula. apreciei a experiência. São muito interessantes. levantou-se e começou a recolher as roupas espalhadas pelo chão. mas cometera a mesma falta. — Júlia. dirigiu-se ao banheiro. Onde aprendeu a desenhar? — Fiz alguns cursos. não exigi nenhuma promessa de compromisso. temendo chorar. Fizemos sexo. embora tenhamos escolhido assuntos diferentes. Não estava apaixonada por Michael! Recusava-se a condenar-se a mais um ano de lágrimas pelo inatingível. Ela deu um passo à frente. — Segurando as roupas. Pessoalmente. — Jogue isto fora. temendo ainda mais recuar a atirar-se em seus braços. — Pelo amor de Deus. Michael também se levantara. Acusara Michael de ser egocêntrico. apesar da completa falta de inibição que demonstrara pouco antes. Estava apenas me divertindo com algumas idéias. e estava tão perto que podia sentir a respiração dele em sua nuca. Estava sentado na cama. tentando descobrir o que havia de errado com o traçado de uma janela. mas é só um hobby. Sentia-se constrangida por estar nua diante dele. meio despido. E antes que diga mais alguma coisa. — Estava pensando em mudar de profissão? Conseguiu concluir o curso? Júlia estava atenta à conversa. Você parece estar arrependido. deixe-me vê-los. — Qual foi sua escolha? — Decoração de interiores. um movimento tolo cujo único resultado seria o arrependimento. espero que pense num jeito de me mandar de volta à cidade ainda esta noite. — Por favor. Michael. Júlia descobriu que Michael não seguira sua sugestão. Freqüentamos juntas a Escola de Desenhos de Londres. mas também estudava os projetos que fizera com igual interesse. Júlia pensou.

está bem.. — Apoiou os desenhos contra a cabeceira da cama. Você tem painéis retangulares de gesso nas paredes. — Então. Sim. Quase todas as peças são reproduções bem razoáveis de móveis do século dezoito.. Mas os elementos básicos deste quarto seguem o estilo do período da Regência. — Qual é o problema com a decoração deste quarto? Antes que tente me enganar. A simplicidade da Regência é perfeita para as proporções deste ambiente. era isso! Nenhum ambiente do período da Regência era com pleto sem toques de cores mais vibrantes para quebrar a elegância estática. — Isso explica a diferença. Quando começo a trabalhar na decoração de um ambiente. Tenho a impressão de que a decoradora se arrependeu na metade do trabalho e decidiu misturar dois estilos radicalmente diferentes num esforço de tornar o ambiente mais aconchegante. admito que me esqueci de você. — Você fez uma escolha acertada. o que houve de errado? — Não é a mobília. Foi exatamente o que encomendei. Infelizmente. O decorador que cuidou do Salão Terraço teve a coragem de seguir suas convicções. Ele é o artista que inventou todo o conceito aplicado às artes e ao . Mas depois a decoradora acrescentou um carpete floral num desenho de William Morris. quero que saiba que também fiquei insatisfeito com o resultado final. eu sei. — Ah.— Sim.. Esta suíte é só uma mistura incoerente de objetos. e o resultado é algo de beleza fascinante e equilibrada. O homem que cuidou do Salão Terraço morreu num acidente de lancha antes de nos entregar os desenhos preliminares para os quartos. Trata-se da mesma pessoa que decorou o restaurante? — Não. não sei onde está o problema. não exatamente. A tentativa foi bloqueada pela aparição súbita do peito de Michael. — O conceito do projeto tem erros fundamentais.. Queríamos devolver à casa a forma original do século dezoito. acabo me tornando obsessiva. teto arredondado e madeira entalhada nos detalhes. Mas percebi que havia cometido um erro no conceito criado para esta suíte. e Clive também se diz incapaz de identificá-lo. — Júlia. Estendeu a mão para pegar o lápis que deixara ao lado do telefone. — E daí? Qual é o problema com William Morris? —Nenhum. alguns meses antes de Gabe e Lianne se casarem. não é? — Bem. — A mistura de estilos importa tanto assim? — Nem sempre. E então compreendeu. uma colcha vitoriana que é pesada demais e cortinas no mesmo padrão do carpete. e queria corrigi-lo. tentando identificar o que não lhe agradava no conjunto. tanto que demiti a decoradora antes que ela pudesse mexer nas outras suítes. obtive o diploma há pouco mais de um ano. — Esqueceu que eu estava aqui. — Sim.

não sobre os objetos expostos em um museu. desde que se saiba produzir a combinação.. — Contrataremos um automóvel para levá-la diretamente à escola. se haviam acabado de fazer amor? — Júlia. o problema não é a idade dos conceitos. mas também não é um tubo de margarina recortado e pintado. mas a verdade é que o retrato devia ser um ponto enfatizado pelo conjunto. O problema é que os carpetes e as cortinas não combinam com o resto da suíte. A sra. buscou forças para resistir à tentação. Quando Michael a beijou. Não deixaria acontecer novamente. O que está errado neste quarto é a exuberância de William Morris contrastando com a elegância clássica e simples da Regência. Em vez disso.. Podia atribuir um erro à inexperiência. — Então acha que o problema é a diferença entre os períodos? Duvido que nossos hóspedes saibam identificar esse tipo de coisa. as mãos fizeram exatamente o contrário do que o cérebro ordenava e agarraram-se a ele..Passe a noite comigo. — Não. Não.artesanato da última parte do século dezenove. — Bem. — Rindo. Blodget. é possível misturar estilos antigos e contemporâneos. segurando-a pelos ombros para fitá-la. — ele repetiu. Michael encarou-a e sentiu o riso morrer na garganta ao encontrar seus olhos. Tenho uma turma de alunas amanhã às dez. apesar de serem magníficos. e os dois sabiam . Inclusive o retrato da sra. — Não posso. —Júlia. O verdadeiro problema não era o trabalho de professora. — Um destino humilhante para uma mulher que já foi um dos pilares do império britânico. Sabe como é. — O que é? —. O segundo não seria tão fácil de justificar. — Pensei que ela estivesse com aquela cara aborrecida por causa do que presenciou em seu quarto. mas a verdade é que passamos o tempo todo olhando para os peixes e imaginando o que o dentista pretende fazer de tão terrível que precisa recorrer aos pobres animais para ajudá-lo. Está me dizendo que há algo mais? Júlia riu. Júlia pensou desesperada. Como podia desejá-lo com tanta intensidade.. Sabemos que ele tem o propósito de acalmar e distrair o paciente do que está para acontecer. Há uma distância de quase cem anos entre eles e o resto da suíte. o que aconteceu aqui pode ser parte do problema. parece deslocado? Como um aquário num consultório odontológico. diminuído. Além do mais. O resultado final é que tudo parece ter sido. De olhos fechados. Estamos falando sobre a decoração de um hotel... a idéia de que é possível ter algo que não seja um grande objeto de arte como a Pietà de Michelangelo. Blodget parece ter sido posta na parede para distrair a atenção do observador das cortinas.

Batidas na porta interromperam sua reflexão.. Gabe. é verdade. Na verdade. Michael beijou-a novamente com paixão e um toque de ternura. Prometi a Lianne que estaria em Winchester antes do final da tarde. Ele e Grace logo estariam juntos outra vez. fiquei surpreso quando Mônica comentou que você estava no escritório. Jeffrey olhou pela janela. — Passarei esta noite com você. amaldiçoando a própria fraqueza.. — Sim. era como um jovem prestes a mergulhar numa viagem excitante por terreno novo e desconhecido. Muitas coisas haviam acontecido desde aquela terrível segunda-feira quando tivera de anunciar ao mundo que Grace o deixara. — O médico espera liberá-las amanhã. — Sentese. Por que não tirou o resto da semana de folga? Este é um momento em que deve ficar ao lado de Lianne e do bebê. Gabe entrou na sala carregando um maço de relatórios. — O que aconteceu? — Gabe deixou os relatórios no chão e sentou-se. Só vim até aqui porque precisava verificar alguns pequenos projetos antes de Lianne e Elizabeth saírem do hospital. — Sim — disse. O assunto que vamos discutir merece um pouco de calma e muita atenção. no máximo quinta-feira. — Espero que não seja nada muito demorado. Michael. se é o que está pensando. — Jeffrey sorriu e apontou para uma cadeira. lembrando outra manhã chuvosa quando seu espírito estivera mais cinzento que o céu. — Mônica disse que queria me ver com urgência. CAPITULO IX Depois de quatro dias de tempo glorioso.disso. não se preocupando com o orçamento para a publicidade no ano que vem. e é o que pretendo fazer. e sei que Lianne . Percebendo sua hesitação. — Quando elas irão para casa? Deve estar ansioso para instalar o novo membro da família. e embora soubesse que lamentaria eternamente a maneira como destruíra seu casamento. mas duvidava de que algum dia pudessem retomar a rotina confortável dos trinta e dois anos de vida em comum. E foi essa ternura que derrubou a barreira de defesas que ela construíra em tomo de si mesma. Feliz e entusiasmado. Mal posso esperar para ver Elizabeth dormindo em seu próprio berço. — Eu sei. naquela manhã experimentava uma alegria que só era possível sentir depois de ter enfrentado meses de verdadeiro sofrimento. — Não se trata de uma crise interna. nuvens pesadas cobriam o céu.

o ciclo da vida recomeçava. Às vezes me surpreendo pensando se vou saber segurá-la. cheguei a temer que nos expulsassem do hospital antes da hora só para se verem livre dela. Cansamos de ouvir essa frase quando você e Megan eram bebês. — Será muito melhor que competente. . — Não estou interessado em perfeição. e isso é mais importante que tudo.. E partiram uma semana depois de Kate ter ingressado na faculdade. Depois os anjinhos se tornam adolescentes. E não se preocupe tanto a ponto de esquecer a diversão. — Passei pela mesma experiência com sua mãe. mas vinte por cento fora uma tentativa de superarem a tristeza deixada pela partida dos filhos. olhamos em volta e descobrimos que éramos só nós dois. Quando você e Megan nasceram. a conversa está muito interessante. pai. Jeffrey riu. — Ter sua sinceridade questionada é o destino inevitável de todos os pais — Jeffrey concluiu com solenidade debochada. como todos os pais. Mantenha em mente que as crianças crescem depressa demais. — E uma história emocionante. Mas a paternidade aumenta a insegurança comum a todos os adultos. Por isso as pessoas diziam que ser avô era a mais doce das recompensas. Mas havia um fundo de verdade no que dizia. — Imagino toda a preocupação que tiveram com dois bebês. — É claro. se estamos preparados para cuidar de uma criança. Oitenta por cento da viagem de férias fora celebração. meu filho. — Estávamos tentando afogar nossas mágoas. Acho que nos distraímos por alguns instantes. Com o nascimento de Elizabeth. mas nunca acreditamos nela. a saudade de um período de suas vidas que passara depressa demais. os pais passam muitas noites acordados pensando se estão agindo corretamente. e Jeffrey descobria que a experiência era muito melhor do que imaginara. mas sua filha crescerá forte e feliz. —Quer dizer que vou sentir essa incerteza para sempre? —Melhora um pouco com o passar do tempo.. Competência já me deixaria satisfeito. Então. — Papai. Vai cometer erros. Tanto que tem transformado a vida das enfermeiras num inferno. Mas seria mais convincente se eu não soubesse que você e mamãe comemoraram esse novo período de liberdade com uma viagem de férias para as Bahamas. e então voltamos a passar as noites em claro. —Oh. Gabe. Você ama sua filha. corroídos pela preocupação. vocês cresceram e partiram. Só os adolescentes têm certeza absoluta de tudo que fazem.também está ansiosa para voltar para casa. em uma certa manhã sua mãe e eu acordamos.

espero. o processo de amadurecimento havia levado mais de cinqüenta anos. sobre sua mãe e eu. disse que queria tratar de algo importante. Jeffrey teria agradecido e dado o assunto por encerrado. mas estivera devastado demais para tentar ajudá-lo. Nos velhos tempos. Havia chegado o momento de ajudar Gabe a entender que a mãe havia se afastado da angústia de um casamento que se tornara intolerável. tinha de falar. — Não parece muito entusiasmado. Ou melhor. — Há quinze meses você invadiu este mesmo escritório gritando que Grace não tinha o direito de abandonar-me. Jeffrey aprendera que essa criança podia levar muito tempo para crescer. Grace e eu nos amamos. mas estava certo sobre nós. — Muitas coisas aconteceram desde então. acarretando a destruição de seu casamento antes de se completar.. que havíamos sido felizes juntos por mais de três décadas. Lianne sempre disse que isso acabaria acontecendo — ele sorriu. antes da separação. Qual é o problema? — Nenhum. Por mais difícil que fosse verbalizar os sentimentos. enquanto Jeffrey temera sucumbir sob o peso da dor. inteligente e belo. — Está falando sério? Ora. Em seu caso. Espero que você e mamãe sejam muito felizes. E estamos muito felizes com essa reconciliação. — Casou-se com uma mulher perspicaz. — Não tente ganhar a vida como ator. não por considerar o filho indigno de atenção. o deixara para lutar numa guerra terrível. vamos nos casar novamente. — Parabéns. Gabe era forte.mas. Estou muito feliz por vocês. e esse . agora.. especialmente depois de ter passado um ano reclamando sobre nossa separação. Gabriel. — Sim. Em breve.. Nós. mas ainda guardava no íntimo os remanescentes de um garoto inseguro e vulnerável. papai. A chuva trazia de volta à lembrança aquela manhã de segunda-feira em que fora forçado a anunciar a partida de Grace. Sabia que tinha o dever de ir além da simples comunicação dos fatos. ignorando a frieza na voz do filho. — Isso foi há muito tempo — Gabe resmungou. — E sobre sua mãe. Disse que sabia que nos amávamos. Compreendera que a explosão emocional do filho fora causada pela surpresa. Charles DeWilde. e não disponho de muito tempo. não dos filhos. Gabe. porque acabaria morrendo de fome. Mas a solidão ensinara lições valiosas.. pai. Gabe havia ficado furioso. pelo sofrimento e por uma considerável dose de ressentimento. e que era loucura pensarmos em separação. Mas finalmente havia compreendido que o pai. Jeffrey respirou fundo.

Isso significa que . Colegas de trabalho. — Tem sorte por eu estar de excelente humor. como faziam antigamente. Ela me ajudou a compreender que não se separou por ter acordado uma bela manhã e decidido que estava farta de ser uma mulher casada. — E você. — Não vamos excluílo da discussão. e graças a Deus resolvemos os nossos problemas e podemos reconstruir nossas vidas. e que mamãe não foi a única culpada só porque tomou a decisão de partir. — Não é um discurso. Pergunte a Sloan DeWilde se ele está disposto a dar explicações sobre sua forma de administrar a filial de Nova York. Entendo que o rompimento de seu casamento teve causas complexas. porque é exatamente disso que estamos tratando. presidente e vice-presidente de uma companhia conhecida em todo o mundo por suas rígidas diretrizes e normas de administração. nada justifica a maneira como ela abandonou o trabalho. — Entende mesmo? Ou está apenas recitando um discurso ensaiado? Gabriel respirou fundo. Não sei por que está tão preocupado. Se acham que ela pode voltar e retomar de onde parou. estão enganados. Pergunte a Megan e Ryder se eles vão gostar de submeter suas decisões à apreciação de mamãe. — E como esperam realizar essa reconstrução? Caso tenha esquecido. — Por que não? — Pai. Jeffrey fazia um enorme esforço para manter a calma. — Sua mãe e eu temos certeza de que podemos encontrar todas as respostas. mas afastou-se das lojas há mais de um ano. mamãe trabalhava para a Casa das Noivas. Mas seu casamento e o relacionamento de minha mãe com a corporação são duas coisas diferentes. Foram sócios. minha mãe saiu de casa para ir morar do outro lado do Atlântico. Foi loucura assinarmos um divórcio. Por piores que tenham sido os problemas conjugais. Pessoas foram promovidas para cuidar dos projetos que ela abandonou. esperando estar certo. agora que conseguiu finalmente tirar a loja do vermelho e obter algum lucro. Quer recuar de sua posição de vice-presidente e voltar a submeter suas decisões a Grace? — E claro que não. Não podem resolver o aspecto profissional da questão entre vocês dois. — Esse é um problema logístico — disse. — E mesmo? — Gabe perguntou com sarcasmo. — Não sabe? Você e mamãe não foram apenas marido e mulher. Gabe? — Jeffrey inclinou-se sobre a mesa. Temos uma nova estrutura hierárquica.amor é eterno. Mamãe e eu tivemos uma longa conversa telefônica quando ela estava em Nevada cumprindo o requisito de residência para o divórcio. Gabriel. Mamãe deu as costas para a empresa e não merece ser aceita de volta.

sua mãe não deu as costas para a empresa. Às vezes tinha a sensação de que a vergonha o acompanharia ao túmulo. mas creio que chegou o momento de saber toda a verdade.. que estava tendo um caso com uma mulher jovem o bastante para ser minha filha. Fiz comentários sem propósito algum. Contrariado. ignorando os sentimentos dos colegas e subordinados. é óbvio que não conhece bem sua mãe. — Como pôde fazer algo tão. — É verdade.. — Gabe. preferia não falar sobre esse assunto com você.temos cinqüenta por cento de chance de encerrarmos esta discussão antes de eu dar um soco no seu nariz. ou não estaria falando como se ela quisesse retomar seu trabalho na Casa das Noivas. Em segundo lugar. Jeffrey estudou a expressão carran-cuda do filho e compreendeu que. que eu. pai. Até aquele dia. Meu comportamento obrigou-a a deixar a companhia e nossa casa. apesar dos protestos. Depois de alguns minutos. depois de meses de comportamento imperdoável de minha parte. Em primeiro lugar. Sua mãe me deixou porque. Passara boa parte do ano anterior imaginando se devia contar ao filho a verdade sobre o que precipitara a decisão de Grace de mudar-se para San Francisco. Gabriel não perdoara a mãe... antes que perdesse a coragem. — Não há nada que eu possa dizer para tornar meu . respirou fundo como se precisasse recuperar o fôlego depois de um longo mergulho e perguntou: — Eu conheço a mulher? — Não. — Desculpe. acho que me excedi.. Era como se discutir o adultério com os filhos fosse um desrespeito a Grace. De repente se dava conta de que contar a verdade a Gabe era só mais um preço que teria de pagar para curar as feridas que infligira à família. Entendera que ela não abandonara os filhos e os negócios para satisfazer um capricho egoísta. tão absurdo? Depois de três décadas de casamento! — Não tem idéia de como me arrependo do que fiz — confessou envergonhado. mas ainda não fora capaz de conciliar a compreensão intelectual com as emoções. Grace seria a primeira pessoa a reconhecer que não pode voltar à Casa das Noivas como se nunca houvesse se afastado. Mesmo que eu fosse estúpido o bastante para propor tal coisa. — Sobre o quê? — Sobre o motivo que desencadeou a partida de sua mãe para San Francisco.. — Tudo bem. ela descobriu que. — Gabe levantou-se e começou a andar pela sala. Tinha de falar de uma vez. Grace é inteligente o suficiente para não aceitá-la. Gabe permaneceu em silêncio. sempre chegara à conclusão de que seria melhor omitir os fatos sórdidos.

isso prova que ninguém pode saber o que se passa dentro de um casamento. — O que quer dizer? — Gabe. mas ainda é o homem que mais admiro no mundo. acho que não tenho o direito de condená-lo. papai. — Passei quinze meses condenando a pessoa errada pelo fim de seu casamento. — Sua opinião é muito . — Sim. chegou a hora de entender que seus pais são humanos.comportamento menos desonroso. quando me lembro de todas as acusações que fiz. A acusação velada foi mais dolorosa que um soco. Gabe falava e agia quase como antes. dos gritos e das grosserias que impus à. eu sei. Mas espero que essa sorte seja ainda maior. — Grace o ama e é uma mulher muito generosa. — Decidi falar porque não consegui pensar em outra maneira de fazê-lo entender como foi injusto com sua mãe. Gabe. — De qualquer maneira. não divindades perfeitas que pode colocar sobre um pedestal para reverenciar e adorar. A única justificativa que tenho para oferecer é que o casamento é uma relação complicada que não se torna mais simples com o passar do tempo. Prefiro que me veja como realmente sou. Meu Deus. Jeffrey experimentou uma forte onda de alívio. Gabe refletiu por alguns instantes e respirou fundo mais uma vez antes de falar. a não ser as duas pessoas envolvidas.. — Por que mudou de idéia? Não sei se queria saber esse tipo de detalhe sobre a vida de meu próprio pai.. Bem. Seria preciso algum tempo para que todas as dificuldades no relacionamento entre Gabriel e Grace fossem superadas. minha mãe! Não sei como ela tolerou. Permaneci em silêncio porque acreditei que a confissão magoaria mais aqueles que a ouvissem de que a mim. — É claro que não vai me perder. — Sim. — Tem sorte por ela o estar aceitando de volta. Mas não guardei segredo para atribuir a culpa a sua mãe. pai. Seu halo pode ter saído um pouco do lugar. eu sei. — Obrigado por tentar entender — disse. romance se não estivesse tão determinado a me reaproximar de mamãe. mas talvez seja melhor assim. — Talvez — Jeffrey concordou em voz baixa. com qualidades e defeitos. — Também errei no julgamento que fiz a seu respeito. No mínimo porque sei que não teria me contado sobre seu. — Se minha mãe foi capaz de perdoá-lo depois de tudo que aconteceu. Não sei se algum dia conseguirei reconquistar o lugar tão elevado onde me mantinha. mas pelo menos sabia que estavam no caminho certo. não quero perdê-lo nesse processo de reconquista do casamento e da mulher que amo.

o negócio pertence a ela e seus patrocinadores. — Como ela vai conseguir administrar uma loja em San Francisco morando em Londres? Não seria mais sensato vender a Grace? Fizera a mesma pergunta.importante para mim. Felizmente. — É uma solução interessante. Se mamãe não vai voltar a fazer parte do quadro da corporação. e ela vai continuar à frente dos negócios depois que nos casarmos. enquanto Grace agiria como consultora. É claro que ela teria de passar dez ou quinze dias em San Francisco a cada dois meses. Financeiramente. organizando bailes de caridade ou presidindo comitês de voluntárias. o acordo é muito bom para a Casa das Noivas. trinta anos depois da revolução feminista. como ela pretende ocupar-se? Não consigo imaginá-la aposentada. — Ela acha que a Grace pode se transformar na sexta filial da Casa das Noivas. Grace é dona de uma loja. Parece ter esquecido que sua mãe fez um enorme investimento emocional e financeiro durante o tempo que passou afastada de nós. — Você tem todo meu respeito e meu apoio. Decidimos manter o nome Grace. ainda acreditavam que as mulheres só precisavam de uma carreira para preencher o tempo enquanto esperavam por um marido. Como chamariam a loja? Casa das Noivas San Francisco? — Não. — Mas como ela poderá continuar no comando depois que se casarem? Você precisa permanecer em Londres. mas Grace o corrigira com meia dúzia de palavras antes de embarcar num discurso exaustivo sobre a arrogância dos homens que. Bem. e estou disposto a recomendar a operação na próxima reunião de diretoria. a única mudança imediata que faremos será acrescentar a linha de produtos assinada pela corporação às mercadorias comercializadas por sua mãe. se assumirmos as dívidas da loja em San Francisco. Assim que completarmos a aquisição. — Digamos que essa é uma área de intensas negociações pré-nupciais. o que significa que podemos realizar a operação de compra sem passarmos por uma complicada concorrência pública pelas ações. Está disposta a abrir mão de suas ações na corporação. seja esgotou sua cota diária de revelações surpreendentes. podemos voltar ao assunto que provocou toda essa conversa? — Refere-se ao papel de sua mãe na Casa das Noivas? — Sim. — Sua mãe fez uma proposta bastante interessante. É cedo demais para corrermos o risco de confundir os consumidores com uma mudança de nome. Não consigo imaginar uma solução prática para o problema. A minha é que nomeemos um diretor executivo para lidar com a rotina diária. A sugestão de sua mãe é que passemos boa parte do nosso tempo em um avião entre os dois continentes. mas . — Uma proposta? — Gabe repetiu intrigado. e ela teria de viver em San Francisco.

mas ainda não fechamos as negociações. e Mônica terá minha agenda à mão. Pelo menos podiam retomar a relação de honestidade e afeto que sempre reinara entre a família. — Pode apostar nisso. e também temos de decidir o que fazer com o apartamento de sua mãe. — Na verdade. o lugar passara a ser o apartamento de Jef-frey. não dos DeWilde. — Sabe de uma coisa. Algo que me diz que você e mamãe ainda vão ficar famosos nas companhias aéreas pelo acúmulo nos programas de milhagem. que suspirou aliviado. — No hotel? Por quê? Qual é o problema com seu apartamento? O problema era que. Quero dizer como estou feliz por terem se reconciliado. com Megan e Phillip. ao longo dos últimos quinze meses. Gabe? Descobri que reconstruir um casamento é muito mais complicado do que se casar pela primeira vez. Ela estará de volta amanhã à noite. — Temos algumas pendências a solucionar antes de nos mudarmos para a mesma casa — Jeffrey explicou. caso precise me localizar. Ela prefere hospedar-se no Goreham. mas tinha confiança de que havia tomado a decisão correta. Grace não vai ficar no apartamento comigo. Grace ligara para confirmar que chegaria de Paris no dia seguinte e estaria esperando por ele no Goreham. onde está mamãe? — Em Paris.não seria muito diferente da rotina que vivíamos antes de nos separarmos. quando chegou em casa. papai. De qualquer maneira. Gabe sorriu. telefonarei para você antes de viajar. Tomaria todas as providências para que o jantar fosse servido em sua suíte às . — Bem. mas creio que estaremos em San Francisco. Sabia que causara uma boa dose de ressentimento revelando seu envolvimento com Allison Ames. Isto é. —Já discutiu essa possibilidade com mamãe? —Sim. Mais tarde. antes que Lianne saia do hospital para vir atrás de mim. Até segunda. — Falando nisso. — Tenho a impressão de que vê-los juntos outra vez vai proporcionar momentos inesquecíveis de entretenimento familiar. San Francisco sempre foi uma das minhas favoritas entre as cidades americanas. émelhor ir embora logo. Preciso examinar a loja antes de recomendar a compra. Jeffrey tirou o paletó e foi ouvir os recados deixados na secretária eletrônica. — Seria um prazer. Gabriel passou um braço sobre os ombros de Jeffrey. Gabe riu. — Ligarei para ela no apartamento. — Creio que sei como isso vai terminar. — Bem. a menos que você e mamãe queiram jantar conosco no final de semana.

Mary atendeu o telefone no segundo toque. ela estava em Boston passando algum tempo com amigos. mas acho que estou ficando velha e sentimental. principalmente em locais onde possa ver vacas. se jantasse com a mãe. Para onde fora depois disso era algo que ninguém sabia dizer.. foi esplêndido. Sei que vai me considerar melancólica. Além do mais. — Estou morrendo de saudade. é bom saber que está novamente na Inglaterra! — Também é muito bom saber que ainda está vivo. Jeffrey. onde esteve? — No Alasca. — Amo você — ela dissera antes de desligar. lembrei que odeio caminhar. Então tomei duas aspirinas. Estava prestes a anunciar a novidade. embora seja sua pobre e frágil mãe de setenta e nove anos de idade e. você tem oitenta e um e é forte como um cavalo. Cheguei à conclusão de que todos os passageiros desse tipo de viagem são senis ou pré-adolescentes. agradecer o empenho e explicar que desistira do projeto. mamãe. Mary ainda não sabia sobre o nascimento de Elizabeth Gabrielle. O recado era típico de Mary. Por isso estou aqui. mas acho que vou passar o resto do verão em Londres. sim.oito e meia. A última mensagem era de sua mãe anunciando que presumia que ele estivesse morto e o Times não anunciara seu nome no obituário. Jeffrey. Na última vez em que conversaram.. Jeffrey estaria se sentindo culpado se não houvesse passado boa parte das duas semanas anteriores tentando localizá-la. quando decidiu que o momento era especial demais para ser comemorado pelo telefone. Certa manhã acordei no navio e descobri que estava louca por uma boa caminhada pelos campos britânicos. — Se ainda não tem planos . mas a saudade não passou. — Alô? — Mamãe? Ora. Não conseguia pensar em nenhum outro motivo para ter passado três semanas sem receber notícias do filho. — Mamãe. — Oh. E ambos são extremamente aborrecidos para alguém que não se enquadre em nenhuma das categorias. Jeffrey fez uma anotação para não esquecer de retornar a ligação. Ainda não tinha certeza sobre seu paradeiro. — Espero que o cenário tenha compensado a companhia. Embarquei num cruzeiro que foi um completo fracasso. mas como Mary mencionara o Times decidiu começar a busca pelo apartamento que ela mantinha em Londres. Não que esperasse receber notícias suas com alguma regularidade. Como tem passado? Ou melhor. O recado seguinte era da decoradora querendo saber se tomara alguma decisão sobre as amostras de tecido para cortina que ela havia deixado. seria mais fácil encontrar o melhor momento para falar sobre sua reconciliação com Grace. — E o destino de todos nós. — Se havia passado algum tempo num cruzeiro marítimo.

que não sei se estou à altura de ostentá-lo. Meu Deus. Mas quero poder conversar com você sem encontrar uma dúzia de conhecidos nem ser interrompido por garçons atenciosos demais. Jeffrey levou as embalagens para a mesa e abriu a garrafa de champanhe que comprara em uma loja de conveniências enquanto a mãe servia a comida. Aquele era um homem que sabia viver a vida com estilo. — Anime-se. — Notícias que vamos comemorar comendo objetos indefiníveis envoltos em massa e tirados de embalagens de papel. Mary sorriu. — Boa idéia! Há um excelente restaurante francês em Knightsbridge. E como nenhum de nós sabe cozinhar. adorando o rubor excitado que tingia as faces enrugadas. eu. por exemplo. Jeffrey? Às vezes você me faz sentir falta de seu pai. pensei em levar comida chinesa. O que acha? — Estava tão ocupada fazendo planos que nem percebeu . Escolha. Rindo. — Proponho um brinde à mais nova integrante do clã DeWilde. Jeffrey. — Também sinto falta dele. — Serviu a bebida em duas taças. sou bisavó! O título parece tão digno. Jeffrey puxou uma cadeira para a mãe e foi sentar-se do outro lado da mesa. mas está se recuperando rapidamente. e sei que vai ficar feliz quando ouvi-las. Elizabeth Gabrielle nasceu no último domingo com menos de três quilos e um encantador chumaço de cabelos vermelhos. Sabe de uma coisa. Tenho notícias importantes a dar. mamãe! Não vai conseguir passar a toda noite carrancuda depois de ouvir o que tenho a dizer. — Mal posso esperar para conhecer o bebê. Como pegar comida chinesa e levar ao seu apartamento. mesmo que seja para comer comida de mentira. Até já. — Duvido. — Chinesa — ela decidiu. mamãe. Lianne foi submetida a uma cesariana. estava pensando em algo mais íntimo e tranqüilo. As alternativas são filé com fritas ou sanduíches de uma famosa rede de lanchonetes. chego a me arrepender por não ter aprendido a cozinhar. — Lianne teve bebê? Oh. Depois irei a Harrods e comprarei uma dúzia daqueles vestidinhos cheios de fitas e rendas.. — Bem. — Tenho certeza de que saberá corresponder às exigências da ocasião com a elegância de sempre. — Em momentos como este. Jeffrey que maravilha! Correu tudo bem? — Muito bem. — Achei melhor usarmos pratos de verdade. —Lianne já foi para casa? Quero enviar uma cesta de guloseimas da Fortnum e Mason para que eles possam se divertir por alguns dias. — Arrumei a mesa na sala de jantar — Mary avisou ao receber o filho na porta.. podemos jantar juntos. mãe.para esta noite.

Uma hora mais tarde. — Mas aconteceu. ou terei de descobrir sozinha? Jeffrey também empurrou o prato vazio. Fale de uma vez! —Grace e eu vamos nos casar outra vez. — Tive tanto medo de que não recuperasse o juízo a tempo de reconquistá-la! —Mãe. Jeffrey? Não consigo lembrar um único encontro nos últimos dez anos em que não tenha me submetido a um de seus estafantes discursos sobre os prejuízos causados pelo cigarro. Mary empurrou o prato vazio e acendeu um cigarro que encaixou na piteira incrustada de pedras preciosas. minha vida estancou enquanto eu tentava compreender o caos que havia criado. É claro que. há uma parte dela que ainda mantém raízes na cidade onde nasceu e cresceu. De certa forma. depois de falarem sobre todos os netos e seus respectivos cônjuges. Mas onde está Grace? Por que não veio com você? — Ela está em Paris com Megan e Phillip. ela jamais teria percebido a saudade que sentia da terra natal. — E quando pretendem se casar? Logo. —Graças a Deus — suspirou. — Não tem idéia de como isto se tornou saboroso. — Não imagina como a notícia me deixou feliz. Mary manteve-se calada por cerca de cinco se gundos. agora que só fumo cinco por dia. — A explicação seria perfeita se eu não o conhecesse. mamãe. Trata-se de uma notícia maravilhosa.que comia sem reclamar. Grace descobriu que gosta de viver em San Francisco. está chorando? — É claro que não. Jeffrey. decidi guardar meus conselhos para ouvidos mais receptivos. —Está me deixando nervosa. forjou um novo papel pessoal e profissional. mas quando começamos a discutilos descobrimos que são mais profundos e escondem complexos aspectos . —Tem razão. Temos de resolver assuntos que parecem práticos. há algo que preciso lhe dizer. espero. Muitas coisas aconteceram nos últimos dezoito meses. — Ainda não decidimos. Vai me contar o que está havendo. — E compreensível.. Por exemplo. E agora temos de aceitar que apesar do desejo de retomarmos o casamento. e estou muito feliz. — Como dez anos de discursos não surtiram resultados. se o divórcio não houvesse acontecido.. — Posso imaginar. Depois sorriu. não somos mais as mesmas pessoas de antes. Apesar de ter aprendido a amar a Inglaterra. Ela assumiu novos compromissos. mas chegará a Londres amanhã à noite. enquanto a vida de Grace seguia em frente. — Algum problema. — Ela limpou os cantos dos olhos com o guardanapo de linho.

e ele simboliza tudo de bom que vivemos juntos. levantando-se para ao quarto. Por exemplo. Grace começará a fazer planos para o casamento. —Espere aqui um instante — Mary pediu. Jeffrey abriu a caixa e viu o broche em forma de coração. Grace e eu queremos resolver todas as questões emocionais" antes de passarmos às práticas. esse tipo de coisa. — Estou me aperfeiçoando. mas não imagino o que posso fazer para superarmos esses tais impasses emocionais. — Eu o herdei. Perguntei se fez o pedido.emocionais. é melhor formulá-lo com todo o romantismo de que for capaz. Assim que ouvir o que acabou de me contar. — Não estava falando sobre isso.. E claro que um pedido formal não seria exagerado. — Não pensou no que está sugerindo. com diamantes nas pontas e dois querubins nas laterais. Apesar do desenho delicado e do excelente trabalho de artesanato. Acabei de dizer que vamos nos casar novamente. E nas atuais circunstâncias. sei que Grace é a pessoa mais importante do mundo para mim e que não posso viver sem ela. mamãe — ele riu. e essa tem um valor único. Não queremos um novo anel. — Acha mesmo? — Jeffrey sentiu uma onda de esperança. quase todas as jóias que foram dela se perderam ou acabaram destruídas durante a Segunda Guerra. só precisa dizer isso a ela. ficar de joelhos. Um homem sempre oferece um anel de noivado quando faz o pedido de casamento. nada mais poderá. Se as roseiras de lá não puderem derreter seu coração. talvez eu consiga convencê-la a visitar Kemberly comigo. . — Se já sabe que ela é importante a ponto de fazê-lo mudar e prestar atenção aos seus sentimentos. Como deve saber. uma peça em estilo vitoriano aberta no centro. — Não acha que isso pode ser um pouco exagerado? — Vejo que a transformação em homem sensível ainda não se completou. — Mas ainda estou muito longe da perfeição. é claro. Depois de um momento ela retornou com uma caixa de veludo desbotado pelo tempo. Sabe como é. Ele pertenceu a Anne Marie DeWilde. — O broche pertence à sua coleção pessoal? — Jeffrey perguntou intrigado. e duvido que Grace a conheça. — E provável que nunca tenha visto esta jóia antes. — Não acredito no que estou ouvindo. Pode ser o presente perfeito para oferecer a ela quando fizer o pedido de casamento. não era uma jóia valiosa. — Já fez o pedido de casamento? — Sim. dizer palavras doces e jurar amor eterno. — Vamos a San Francisco nesse final de semana para que eu possa examinar a loja antes de levar a proposta de compra à diretoria. Antes de partirmos.. Grace ainda tem o anel que ofereci quando fiz o pedido pela primeira vez. sua bisavó. Jeffrey DeWilde discutindo aspectos emocionais de um relacionamento? Agora sei que serão ainda mais felizes nessa segunda tentativa.

pode ler a tradução que guardo comigo. — Mãe.Jeffrey olhou para a peça com mais interesse. embora apenas brevemente. quando ainda viviam um amor perfeito. — Uma decisão sensata. mamãe. Felizmente insisti num jantar íntimo e simples no aconchego do lar. já que sua bisavó fora morta em um bombardeio nos primeiros anos da guerra. Vou confiar em seu julgamento e dar o broche a Grace quando fizer o pedido de casamento. mas foram separados por circunstâncias complexas. e agora estamos tratando de assuntos mais importantes. que foi o presente que Maximilien deu a ela no primeiro aniversário de casamento. essa que relata uma completa incompatibilidade entre Anne Marie e Maximilien não é verdadeira. Este broche seria um presente perfeito para o batizado de Elizabeth Gabrielle. Pelo que está dizendo. Anne Marie e Maxi-milien não foram exatamente felizes no casamento. Bem. não tivemos uma noite esplêndida? — E deu o braço ao filho. Ainda não tivemos tempo para conversar sobre amenidades. Meu Deus. Mas o que isso tem a ver com o broche e o pedido de casamento? — Além de todas as informações esclarecedoras sobre os DeWilde. Jeffrey havia esquecido que Mary conhecera Anne Marie.. acabei de ter uma idéia maravilhosa. — Se você diz. tenho certeza de que Grace ficará muito emocionada. — Obrigado pela oferta. mamãe. ela ainda não lhe contou que leu os diários de Anne Marie enquanto estava em Nevada esperando pelo divórcio. Sei que Grace ficou muito perturbada com as semelhanças entre sua vida e a de Anne Marie. Naquela época.. Venha me ajudar a escolher a peça ideal para celebrar a chegada de minha primeira bisneta. Se disser a ela que esse broche pertenceu à sua bisavó. — Não. se preferir. mas se me lembro bem da história familiar. — Como acontece na maioria das lendas passadas de geração em geração. E a idéia de dar uma jóia da família a Elizabeth Gabrielle em seu batizado é excelente. Eles se amavam muito. CAPITULO X . — Não teríamos nos divertido tanto se houvéssemos ido a um restaurante. Vou cuidar disso imediatamente. obrigado. — Nesse caso. Jeffrey fechou a caixa e guardou-a no bolso. — Creio que Grace o apreciaria mais. ela não disse nada. os diários também contêm uma história tocante sobre o duradouro amor entre Anne Marie e Maximilien. Vai descobrir informações surpreendentes sobre nossa família. vou deixar que ela mesma fale sobre o que leu nos diários. mal conseguíamos nos falar sem brigar. Ou. — Entendo.

O corpo parecia fraco. A luz vermelha indicava que faltavam dez minutos para as seis da manhã. tomou-a nos braços e beijou-a com ardor surpreendente. deitou-se novamente e fechou os olhos. Assustada. camiseta ensopada de suor e uma expressão taciturna no rosto. Ele usava short de corrida. — E virou-se de lado para fitá-la. mas por dentro sentia-se forte. se era a última semana de aulas e sua primeira turma só começava à tarde. Olhar para Michael fora o suficiente para despertá-la. olhou através do visor. Michael. Michael Forrest estava parado no corredor.. beijando-a enquanto a carregava.O alarme tocava. sentiu o coração disparar e teve a impressão de que o mundo girava mais depressa. —Não quis telefonar. — Tive medo de que . Ele não respondeu. A experiência comprovava que telefonemas e visitas em horários inusitados sempre significavam problemas. mas encarou-a por alguns instantes como se estivesse hipnotizado. e ele a pegou nos braços. Entre e respire fundo. O silêncio havia se prolongado por muito tempo quando Michael falou olhando para o teto. mas ela não queria acordar. as mãos apoiadas nos batentes e a cabeça baixa. Sorrindo. tentou lembrar por que precisava levantar-se àquela hora. Ele estava ensopado de chuva e suor. Finalmente ele falou. Ao abrir a porta. Como não tinha a menor intenção de mandá-lo embora. disse: —Bom dia. Júlia nem tentou disfarçar a alegria provocada pela visita inesperada. e finalmente Júlia percebeu que não era o despertador. Minutos antes. Ele entrou no apartamento e fechou a porta. Sentada na cama. mergulhando em um mundo onde só existiam os dois. Antes de soltar a corrente de segurança. O alarme ecoou novamente. Minutos depois faziam amor com a mesma paixão da primeira vez. despertando-o para o amor. Como era fascinante o contraste entre as sensações que experimentava. e mesmo assim conseguia ser mais sensual do que todos os homens que conhecera. vibrante. o melhor a fazer era desistir de fingir-se aborrecida por ter sido tirada da cama e convidá-lo a entrar. inundada pelo poder de excitá-lo. Júlia correspondeu sem reservas. —Tem um jeito estranho de fazer convites. —Onde fica seu quarto? Júlia apontou para a primeira porta além da sala. Ainda em silêncio.. mas a campainha da porta. As mãos exploravam seu corpo. vestiu o robe e correu a atender. Júlia estivera tonta de sono. Atordoada. mas o frio do contato teve o estranho efeito de deixá-la fervendo. —Vim convidá-la para tomar café comigo.

um ano.. Michael. Livrando-se das mãos dele. Queria tanto a oportunidade que ele oferecia que temia esmorecer. Uma semana. como gostaria de dizer que sim! Mas sabia que devia dizer não. compromisso e liberdade suficiente para abrir as asas e voar. mas não posso aceitá-lo. — Pensei que tivesse de voltar aos Estados Unidos hoje. Senti sua falta nos últimos dois dias. desde que a proposta fosse atraente o . —Por favor. Que importância tinha se Michael não propunha uma relação de amor e compromisso? Ao refletir sobre o que acabara de passar por sua cabeça. — Por causa do trabalho? —Por sua causa. posso lhe oferecer todas as oportunidades profissionais com que já sonhou. Quero amor. — Adiei a viagem por mais um dia. você é a mulher menos exigente que já conheci.. Ele riu. Ela se sentou e abraçou os joelhos. Desejo e ansiedade a invadiram numa mistura irritante. e por isso sabia como tentála.. Quero saber que tenho de deixar o trabalho em um horário razoável para jantar com você. Preciso tê-la comigo. Sou exigente demais para ser uma boa amante. Oh.. Por algum tempo. por algum tempo. — Venha comigo para Chicago. —Ainda corre esse risco.. — Também senti saudade. agarrou o lençol e impôs uma nota de firmeza à voz. Qualquer estava vulnerável. Quero que conheça meus hotéis e aprecie a beleza do lago Michigan da janela da minha sala de estar. fidelidade. Até que se cansasse dela. O final de semana foi. sabendo que o homem de minha vida sentirá orgulho do meu sucesso e me apoiará em caso de fracasso. Na verdade. Júlia compreendeu pela primeira vez porque pessoas honestas acabavam se deixando envolver por suborno.. — Júlia.. Júlia. Vamos passar o dia juntos. Ele respirou fundo e segurou as mãos dela. Já nos despedimos na segunda-feira de manhã. Mas não nas mais importantes. aceite o convite. Em alguns sentidos ele a conhecia bem demais. — O que define como coisas importantes? — Tudo que não está disposto a oferecer. — Obrigada pelo convite. Quero dormir e acordar com você a meu lado. um mês. — Posso lhe dar liberdade de criação. Especialmente se pretende levar adiante as ameaças de me obrigar a comer melado com salsichas.recusasse. talvez. —Por quê? — Encarou-o com expressão grave. — Nas pequenas coisas. muito bom. Nossos hotéis são o melhor lugar do mundo para começar sua carreira de de-coradora de interiores..

vamos deixar sua carreira de lado. Os sentimentos dele podiam ser de amizade. Michael passara toda a vida adulta numa sucessão de relacionamentos breves e escandalosos com mulheres belíssimas. mas os dela já haviam se tornado muito mais sérios. — Talvez seja melhor. e ela teria de lidar com a devastação emocional de um sonho destruído. só isso.. a menos que estejam usando de técnicas pouco honradas para chegar ao topo. — Se formos honestos. Era justamente isso que tornava o convite tão arriscado. Não estou pedindo que se comprometa com nada sério ou duradouro. Não vai correr risco algum. Um rubor tingiu o rosto de Michael. Quero que me acompanhe como. Júlia. e prometo que não vai se arrepender de aceitar meu convite. Michael se cansaria dela. Seguiria em frente em busca de amantes mais excitantes. Tinha de lidar com a realidade. por exemplo. Prefiro preservar os princípios que sempre nortearam meu comportamento. — Qual é seu padrão de compensação para amantes dispensadas? Uma semana de estadia em um dos hotéis Carlisle Forrest e uma passagem aérea de volta para casa? — Vou fingir que não ouvi o que acabou de dizer.. — Estou fazendo uma proposta simples. se mulheres muito mais poderosas e envolventes haviam falhado. — Talvez. Seria loucura acreditar que ele poderia entender que compartilhavam de algo especial? Júlia ignorou a tentação. Depois de algumas semanas.. vai aceitar minha proposta? — Não. estaria jogando fora a oportunidade de descobrir que tipo de desenvolvimento poderia ter a relação. — Você é uma excelente decoradora. amiga.. De qualquer maneira. em vez de dar asas à fantasia. Existem outras maneii-as de tornar sua estadia memorável. Mas não tenho experiência suficiente para justificar sua decisão de contratar-me. Mulheres como Tate Herald e Cherie Lockwood. Podia dizer a Michael que não era tola a . — Está bem. ricas e famosas. Vamos. — Obrigada. mas minha resposta é não.bastante. — O que vai acontecer quando se cansar da minha companhia? — perguntou com tom cáustico. nos divertir muito. Se vou vender meu corpo em troca de um emprego. Devia estar louca por imaginar que seria capaz de convencê-lo a mudar os hábitos de toda uma vida. não posso ir com você para Chicago. quero ser pelo menos honesta quanto ao que estou fazendo. tão cheio de perigos em potencial. alguns meses. Se não fosse com ele. Como dormir com o proprietário. Ninguém começa uma carreira em hotéis famosos como os seus. Júlia. no máximo. Michael. Chicago é uma cidade fabulosa.

apesar de tê-lo mantido enterrado durante anos através da submissão às opiniões conservadoras dos pais. nunca ouviu nada além de conselhos sobre a importância de manter um emprego sólido e encontrar um marido ao lado de quem possa acomodar-se.. por outro lado. Não posso jogar fora uma carreira sólida para segui-lo numa aventura. sabia que não era um casamento com um homem bondoso e esforçado seguido pelo nascimento de meia dúzia de filhos. responsável por minhas decisões. Se tivesse ambições válidas. O que quer que esperasse da vida. Começou a levantar-se. —Sim. mantendo a conversa superficial e menos danosa ao ego. Se não quisesse nada da vida além de ser esposa e mãe. Não acha que já é hora de parar de viver a vida que seus pais escolheram para você e fazer aquilo que realmente quer? Algum dia teve a coragem de perguntar a si mesma quais são seus objetivos? Ela hesitou. —Então comece a tomá-las. Lianne e eu temos a mesma idade. Edward era simplesmente o último de uma longa fila de homens honrados e confiáveis que procurara manter distantes. — Júlia. com uma visão estritamente prática da vida. Estranho ele ter conseguido chegar ao âmago de seu ser inquieto. sou uma professora criada por uma família tradicional. você é inteligente. . se tem mais talento que todos os decoradores que já conheci? Por que sai com um homem como Edward Hillyard. parte da atração que sentira por Gabe devia ter sido causada . mas contou com toda a ajuda e o apoio dos pais. —Mesmo que meus pais tenham exercido uma forte influência no passado. A sua maneira. — Por que não? Sei que não está presa a obrigações aqui. Ou podia escapar valendo-se de uma meiaverdade. — Michael.ponto de expor-se ao sofrimento. Venha comigo para Chicago amanhã. Você. — Não podia revelar que os motivos de sua recusa tinham mais a ver com o medo de estar se apaixonando do que com a opinião de sua família. Pensando bem. e veja o que ela conseguiu.. beijando seu corpo com um misto de desejo e frustração. mas ele a agarrou pelo pulso e empurrou-a sobre os travesseiros. Pensou em protestar. — Michael. em vez de deixar sua família escolher por você. mas percebeu que Michael estava certo. Por que está lecionando francês.. agora sou uma mulher adulta. acho que já teria tentando realizá-las. espirituosa e atraente. ela conseguiu muito. se não tem nada em comum com ele? Não consigo pensar em outra razão que não seja a pressão exercida por sua família. esta conversa não vai nos levar a lugar algum. Optou pela meia-verdade. já teria realizado essas ambições há anos. estivera fugindo do futuro que a família queria lhe impor. recusando-se a permitir um envolvimento mais íntimo e verdadeiro..

Júlia. uma vez pronunciadas as palavras. cercando-se de barreiras invisíveis. — Prometo dar um nó bem forte. — E Storm também participou da assinatura desse acordo? — Não. Júlia. É o destino de todas as crianças. Ele segurou seu rosto entre as mãos. Mas. O reconhecimento do que sentia por Michael não provocou o choque que devia ter causado. Pode contar comigo. Michael afastou-se. —Posso? Como Cherie Lockwood e Storm? Citara o nome de Cherie mais para lembrar-se dos riscos de amá-lo do que por qualquer outro motivo. E me mantenho longe de Storm porque Brad Stein prefere que seja assim. Alguém que expandisse seus horizontes. Lamento. É como mergulhar da ponte Golden Gate esperando que alguém tenha se lembrado de amarrar uma corda em minha cintura. Pelo contrário. Queria se casar com alguém que a amasse com toda a paixão de que fosse capaz. O alívio iluminou os olhos dele. Ele foi envolvido pelas conveniências dos adultos que o cercam. Não estou preparada para me instalar em uma casa no subúrbio com um homem digno e trabalhador e esperar pela gravidez. oferecesse sempre novas possibilidades. se algum dia isso acontecesse. — Michael. não pretendia se casar com ela. que despertasse nela um amor mais forte que todos os temores. não seria porque o homem em questão era um homem digno e um pai confiável. e viva um pouco mais. Mas os sentimentos que acabara de descobrir não se enquadravam na vida regrada e cheia de normas com que acostumara-se. desafiasse sua criatividade. e portanto não oferecia perigo. Queria se casar com Michael Forrest. era como se estivesse reconhecendo uma verdade que o inconsciente conhecia há meses. não podia simplesmente retirá-las. — O que foi? Por que esse ar triste? — Não é tristeza — mentiu. e fizesse amor com um fogo intenso o bastante para queimar todas as inibições e lançá-la num mundo de liberdade e prazer. Quando se casasse. . Os dois nomes pairaram no ar entre eles. Agora que tiramos esse problema do caminho. impossíveis de ignorar. mas não há nada que eu possa fazer para mudar os fatos. — É bom saber que chegou a essa conclusão. vai comigo para Chicago? Corra o risco. — Já disse que Cherie e eu nos separamos de comum acordo. acompanhá-lo aos Estados Unidos não é só um risco.pela certeza de que ele não a amava. — Estava apenas pensando que você tem razão. Agarrar-se ao amor frustrado por Gabriel fora uma maneira eficiente de distrair-se da atração que sempre experimentara por Michael. e por isso temia admitir o que sentia.

— Desculpe, Michael. Não tenho o direito de questionar assuntos que só dizem respeito a você e Cherie. Michael vestiu o short e a camiseta e sentou-se na cama para amarrar os tênis. — Meu relacionamento com Cherie terminou há três anos e não tem nada a ver com o que está acontecendo entre nós. Eu a convidei para vir comigo para Chicago e ainda não recebi uma resposta. Ela fechou os olhos, incapaz de encará-lo. — A resposta é não. — Estranho como algo que sabia ser certo parecia tão errado. Michael terminou de amarrar os tênis. Depois levantou-se e caminhou para a porta, a reação anterior mascarada sob uma fachada de indiferença. — Nesse caso, creio que só me resta dizer adeus. Pelo menos sabia que o fato do rosto permanecer inexpressivo não significava uma completa ausência de sentimentos. Júlia engoliu o nó que se formara em sua garganta, vestindo o robe para acompanhá-lo até a saída. — É, acho que sim. — Cuide-se bem, Jules. — E deslizou um dedo por seu rosto. — Procure-me se algum dia for a Chicago. — Sim, é claro. — Era fácil de prometer, já que a probabilidade de ir aos Estados Unidos era quase nula. — Desista desse emprego, Jules. Acredite no seu talento. Por que ser uma professora de segunda linha, se pode ser a melhor de todos os decoradores? — E beijou-a rapidamente nos lábios. — Tranque a porta quando eu sair. —E claro. Adeus, Michael... Mas ele já havia partido. CAPÍTULO XI Grace abriu a porta da suíte de hotel e sorriu. — Olá, Michael. Entre. — Obrigado por ter concordado em me receber. Estava almoçando? — Oh, não — ela riu, apontando para o prato vazio sobre a mesa. — Já terminei. Vou jantar com Jeffrey esta noite, e por isso optei por uma refeição leve para economizar calorias. — Então funcionou? Você e Jeffrey estão se reconciliando? — Se quer saber se o plano de nos trancar no quarto de Gabe e Lianne surtiu algum efeito, a resposta é sim. Vamos nos casar novamente. — Que maravilha! E bom saber que vai acabar com o sofrimento de viver longe do homem que ama. — Sim, eu o amo, mas em alguns momentos desses últimos dezoito meses, odiei-o tão intensamente que não suportava a idéia de vê-lo. Às vezes me surpreendo com a dificuldade que temos de descobrir o que queremos da vida.

Michael sempre tivera certeza daquilo que desejava. Desde a adolescência, sonhara com o sucesso profissional e financeiro. Sabia que o ressentimento provocado pela negligência paterna alimentava a ambição, mas o reconhecimento não tornava menos intensa a obstinação em alcançar o topo. Igualmente, compreendia que o fracasso do casamento dos pais e o constante adultério da mãe o levaram a repelir a idéia de se casar. Mas compreender a causa de seus sentimentos não os mudava. O relacionamento com Cherie Lockwood só reforçava os impulsos cínicos que adotara com medida de proteção ainda na adolescência. Tudo aquilo tornava difícil explicar o estado em que se encontrava. Júlia não se encaixava em nenhum de seus planos, e por isso devia estar satisfeito por ter interrompido o caso antes de ambos terminarem magoados ou ressentidos. Mas, em vez de satisfação, experimentava apenas desespero. Era um sentimento irracional, inexplicável... e desconcertante. Grace convidou-o a sentar-se em uma das cadeiras próximas da lareira e acomodou-se na outra. — Quer que eu peça uma bebida? Um suco, um café? — Não, obrigado. — Tinha de parar de pensar em Júlia. Havia sido para isso que combinara o encontro com Grace. Para ocupar-se até a manhã seguinte, quando partiria para Chicago, e não ter tempo de entregar-se às doces lembranças dos momentos de paixão. — Estou realmente feliz por você e Jeffrey terem se reconciliado. Afinal, vocês foram feitos um para o outro. — Acho que sempre soubemos disso. Mas as emoções humanas são complexas e confusas, e cheguei à conclusão de que o medo de ser ferido por alguém que amamos é o maior de todos. Do ponto de vista de um observador externo, meu comportamento no último ano pode ter parecido maluco, mas havia uma lógica em cada atitude que tomava. — É mesmo? Estou surpreso! — Não ria, Michael. Se atacava Jeffrey constantemente, era porque não suportava mais ser magoada por ele. Então, cada vez que ele fazia um gesto no sentido de promover uma reconciliação, eu sabotava o esforço. — Queria magoá-lo antes que ele a machucasse. — Exatamente. Quando me dei conta de que ele estava fazendo a mesma coisa, foi fácil encontrar o caminho de volta. — Acha que vão conseguir recuperar tudo que perderam, Grace? Vocês mudaram muito depois da separação e... — E parou. — Desculpe. Esqueça que eu perguntei. — Oh, não! Essa é uma pergunta que preciso responder a mim mesma. Aprendi uma coisa com tudo que vivi nos últimos meses, Michael: se um relacionamento merece ser salvo, é preciso confrontar o medo da rejeição e seguir em frente. Depois da assinatura do divórcio, percebi que a vida sem Jeffrey era tão miserável que o risco de expor-me ao sofrimento não era pior

do que seguir sem ele. Parece simples, mas é complicado chegar ao ponto em que aceitamos que não temos mais nada a perder além do orgulho. Jeffrey e eu temos certeza do nosso amor, e queremos passar o resto de nossas vidas juntos. Sei que poderemos construir qualquer tipo de associação sobre uma base tão sólida. Nada do que ela dissera devia parecer ameaçador, mas Michael sentia-se perturbado. A verdade era que em trinta e seis anos de vida, nunca confrontara o próprio medo da rejeição. Construíra todo um estilo de vida para diminuir as chances de ser ferido, escolhendo sempre as mulheres cujo desinteresse por um envolvimento sério era evidente para depois, com cinismo e hipocrisia impressionantes, afirmar que o amor verdadeiro não passava de um mito. Mas, se não estava preparado para assumir riscos emocionais, como esperava alcançar as recompensas? Não podia permitir que os pais destruíssem sua vida. Admitia que Cherie Lockwood o derrubara, mas isso não queria dizer que todas as mulheres fariam a mesma coisa. Além do mais, era bem provável que Cherie o houvesse escolhido justamente por causa de sua reputação, por imaginar que ele não sairia ferido. — Você e Jeffrey sempre tiveram um ótimo relacionamento, Grace. Se não conseguiram fazer durar um casamento tão perfeito, que esperança pode haver para o resto da humanidade? — Jeffrey e eu cometemos um grande engano. Tentamos remendar um buraco no nosso relacionamento sem antes reconhecer que a fenda existia. Eventualmente a brecha se tornou maior, esgarçando o remendo. Jeffrey e eu nos descobrimos olhando para aquele enorme buraco no tecido do nosso casamento, sem saber como repará-lo. Jamais teríamos encontrado o caminho de volta um para o outro se não houvéssemos nos afastado por um tempo e refletido sobre o que realmente queríamos da nossa união. Depois de trinta e dois anos de casamento, não sabia mais pensar em mim como um indivíduo. Quando superei a depressão e olhei em volta para os escombros da minha vida, descobri que não poderia seguir em frente enquanto não soubesse quem era, além de ser a sra. Jeffrey DeWilde. E só me senti pronta para voltar para Jeffrey quando tive certeza de que era capaz de sobreviver sozinha. Entende o que quero dizer? —É claro que sim. — Michael levantou-se e abraçou-a. — Espero que sejam muito felizes. Adoraria fazer parte da foto que os jornais vão publicar daqui a meio século, quando anunciarem que vocês dois são as pessoas que mais tempo passaram casadas na Inglaterra. — Oh, Michael! Acho que vamos descobrir se meu novo rimei é realmente à prova de água. — Não, não. Vim aqui para discutir uma proposta comercial. Chega de sentimentalismo.

Suas idéias são sempre interessantes. vai continuar no comando da Grace? — É claro que sim! Meu Deus. — Estou surpresa com o que acabou de dizer. De maneira geral. é claro. preciso saber se. agora que você e Jeffrey estão juntos novamente. — A localização do hotel não é muito favorável. ele morreu antes de chegar aos quartos.— Uma proposta comercial? Do que está falando? — Tive uma idéia brilhante sobre um esquema promocional que pode beneficiar meus hotéis e sua loja. — Mais do que pode imaginar. Sei que o hotel tem grande potencial. desde que haja um bom acordo monetário. e perdemos rios de dinheiro enquanto esperamos que nos descubram. e acabei propondo que a Grace se torne parte da cadeia Casa das Noivas. Reformulamos a cozinha e os escritórios. seria capaz de expor uma idéia em um funeral.. — Sim. Infelizmente. por que todos os homens têm de ter essa visão machista e antiquada das carreiras das mulheres? O fato de casar-me novamente com Jeffrey não vai me impedir de continuar cuidando da minha realização profissional e financeira. já cuidei de tudo isso. creio que escolherei alguém para cuidar da rotina diária e seguir as diretrizes que estabelecerei como consultora. Mas o hotel de Chicago foi . se fosse sua única oportunidade. esse também foi um projeto interessante. e encontramos um decorador que fez um trabalho excelente no saguão e no restaurante. — Tem certeza de que quer ouvir minha proposta? — Qual é o problema? Pelo que conheço de sua disposição profissional. Mas estou disposta a ouvi-lo. Suponho que tenha feito uma campanha de divulgação e executado uma boa reforma para tornar o interior menos sombrio. De maneira nenhuma! — Ei. é claro. acho que acabei de tocar num ponto fraco. Mas. Mas ainda estamos acertando os detalhes. Bem. Debatemos esse assunto exaustivamente. — Desculpe. — Sim. mas estou procurando alguém que possa substitui-lo e terminar o que ele começou com tanto sucesso. Não tem muitas chances de atrair pessoas que estejam passando pela região. — É um projeto excitante. Dar vida ao novo Ashby Hall tem sido mais divertido que tudo que fiz no passado. Por que está tão nervosa? Grace suspirou. — E sobre Ashby Hall. antes de começar a revelar os detalhes. Tem razão. Sei como trabalhou duro para restaurar as finanças do Carlisle Forrest. — Não sou tão obsessivo! — Talvez não. mas estamos tentando identificar a clientela mais apropriada para as acomodações de que dispomos. tocou no meu ponto fraco..

gente que está comemorando décadas de vida em comum? Pode anunciar diamantes e jóias próprias para a ocasião. depois de visitarmos Lianne no hospital — confirmou. e uma suíte para os noivos antes da viagem de lua-de-mel. — Júlia Dutton? Você a levou a Ashby Hall? — Sim. — E do banco. — É um conceito viável. e convidar todos os seus clientes a participar de um concurso. mas não tem nada de excitante ou original. o que significa que eu não estava exatamente começando do zero. Não é o mesmo que trabalhar para construir a reputação de um novo hotel de quem nunca ouviu falar. acomodações para os convidados que não quiserem dirigir depois de beber demais. — Não precisa me explicar a agonia e o êxtase de obter um financiamento de grande porte.construído em 1892. não tinha a resposta. uma recepção no Salão Terraço ou no gramado ao sul da propriedade. — Viável. — Só não entendo qual é a participação da Grace nessa sua idéia. O clima da Inglaterra proporciona a possibilidade de se manter um jardim florido durante o ano inteiro. e pensei que o conceito do aniversário de casamento poderia ser ligado a uma promoção na sua loja. Júlia deu uma sugestão interessante. Júlia e eu conversávamos durante o almoço e ela sugeriu que eu expandisse o pacote para casais que estivessem comemorando um aniversário de casamento. e devia estar se perguntando por que Júlia havia sido uma exceção. é claro. os jardins representam uma atração especial. e a cadeia tem prestígio internacional por pelo menos três quartos de século. especialmente porque o dinheiro que está em jogo é meu. — Ashby é perfeito para recepções de casamento. Tinha de prestar contas aos acionistas. quero divulgar o Ashby Hall nos Estados Unidos. — Voltando à promoção. Sei que comercializa roupas e jóias para todos os gostos e idades. Que tal desenvolver uma campanha publicitária voltada para casais mais velhos. podemos oferecer um pacote de Natal com pratos típicos e clima familiar para as comemorações. Infelizmente. — Ele riu. e no caso de Ashby Hall. — E em dezembro. estivemos lá no domingo. e por isso pensei em anunciar um pacote nupcial em alguns jornais de comércio. sem oferecer explicações. No entanto. aos diretores e aos membros mais antigos do corpo administrativo. quando não temos flores. Espera que eu possa ajudar nessa promoção envolvendo a Grace e o Ashby? Michael assentiu. — Bem. — Interessante. . Grace sabia que ele nunca levava suas namoradas ao hotel. Os vencedores ganhariam duas passagens de ida e volta entre San Francisco e Londres e quatro noites no Ashby Hall com todas as despesas incluídas.

— O que é? — Bem. Se ela não estava disposta a acompanhá-lo a Chicago.táxi e ir ao apartamento de Júlia contar as novidades. mesmo que façamos uma campanha maciça. —Vai dar certo. diga a ele que o invejo por sua sorte. Ian é o homem mais solitário que já ... — Eu direi. Se concordar com o princípio geral. Algumas pessoas são felizes vivendo com outras. mas posso esperar. —Está desencadeando uma verdadeira tempestade de idéias em minha mente. Dividiremos os custos referentes à promoção e divulgação. — Combinado. —Pode dar certo. Sei que não gosta de tocar no assunto. — Quando pretende lançar essa campanha? Posso adiantar que nosso orçamento está fechado pelos próximos seis meses. — Tem razão. Michael.. — Sabe de uma coisa? Sempre tive a impressão de que havia algo em comum entre você e Ian Stanley. atraente.— Michael. mas o casamento não é o tor-mento que imagina. Lembra-se dele? — É claro que sim. Grace. trabalhador e bemsucedido. eu estava pensando. Se quiser oferecer alguns brindes. é claro. — Já pensei nisso. Já me conformei com a condição de solteiro. — Quanto mais cedo. — Grace. se não havia nenhuma possibilidade de continuidade para o relacionamento. contendo um impulso ridículo de pegar um . contamos com pessoas competentes para tratar de cada ponto específico.. — Michael levantou-se. Apesar de toda a popularidade. sou um caso perdido. — O hotel cobriria todos os custos do prêmio. E não devemos nos preocupar com os detalhes. inteligente. minha querida. — Até logo. A única condição seria que o casal a se hospedar em Ashby Hall estivesse realmente comemorando o aniversário de casamento. Se lidarmos com o que temos da maneira acertada. Michael. Grace. conseguiremos atrair um bom interesse por parte da mídia. O tipo de convidado que anima qualquer festa e está sempre acompanhando a mulher mais bela em qualquer evento. será por sua conta. melhor. — Não. a maior parte da clientela da Grace é formada por jovens planejando um casamento. Será muito bom se conseguirmos ampliar nossa clientela e divulgar seu hotel. — Ian é um homem charmoso. por exemplo... Quando encontrar Jeffrey. — Um felizardo. Podemos tornar o prêmio transferível entre membros da mesma família. como broches ou brincos. o melhor a fazer era esquecê-la. Mande-me uma proposta formal e eu a enviarei ao pessoal da equipe de marketing com fortes recomendações.

Mas quando o vi ao lado de Júlia Dutton. E tenha uma boa viagem. Considero mais fácil comprometer-me com o trabalho do que com uma relação afetiva. Michael pensou ao entrar no táxi e dar o nome do hotel onde estava hospedado. — Está tentando me dizer alguma coisa. mas não teve tempo para recitar todos os cumprimentos que julgava adequados. Duvido que tenha outra oportunidade de celebrar o amor este ano. — Oh. Disse que sou parecido com Ian. Espero que não tenha de acordar um dia e descobrir que também é solitário como ele. —Não cometa o engano de comparar-se ao pai. A governanta os recebeu na porta da mansão.conheci. Não havia maneira melhor de evitar o confronto com sentimentos inquietantes. meu amor. é tão bom voltar para casa! — E maravilhoso tê-la aqui de volta. Não acha que ele teria sido menos solitário se houvesse permanecido solteiro? — Talvez. Michael não tinha a intenção de prolongar a conversa sobre relacionamentos e casais inadequados — Mande-me um convite para o casamento — disse. —Está enganada. porque seus pais formaram o casal menos adequado que tive a oportunidade de conhecer. — Nunca se sabe o que a vida nos reserva. estou. puxando Grace pela mão. atraente e popular. mergulhado em papéis. — Nem todos têm a sorte que você e Jeffrey encontraram no amor. CAPÍTULO XII Pensei que pudesse lembrar com nitidez a exuberância dos campos de Kemberly. mas vejo que me enganei — Grace comentou olhando pela janela do carro. Jeffrey. Se me lembro bem. seu amigo Ian casou três vezes. Felizmente tinha muito trabalho. tive a impressão de que há algo especial entre vocês. — Prometo dançar a noite inteira. O único risco que corria naquele momento era o de prolongar sua estadia em Londres a fim de rever Júlia. O desejo de ir procurá-la era tão grande que o manteve trancado no quarto do hotel. Júlia é atraente. Michael. E não julgue todos os casamentos pelo que viu em sua casa ao longo da infância e da adolescência. porque não há nada em comum entre vocês dois. Cuide-se bem. inteligente. Bem-vinda ao lar. Grace. mas a verdade é que sou como meu pai. até que chegou o momento de seguir para o aeroporto. como Ian. Não havia perigo algum em voar sobre o Atlântico. e não vou perder tempo com sutilezas. Você é charmoso. . Grace? — Sim. porque Jeffrey passou por ela apressado a caminho do quarto. mas posso encontrar meia dúzia de mulheres como ela em menos de uma semana.

No entanto. Grace sugeriu que esquecessem o café e fossem caminhar pelo jardim. mas nenhuma das versões envolvia uma mulher sonolenta depois de um jantar farto e delicioso. sem mencionar os poderosos hormônios da juventude. Havia sido no meio da tarde de um domingo ensolarado. deitados no centro da ampla e confortável cama de casal da suíte principal. Grace — disse com voz rouca. Não precisaram usar de generosidade para elogiar a refeição. foi com facilidade e naturalidade que ajoelhou-se diante dela. preenchendo trinta e dois anos de sua vida com mais lembranças felizes do que era capaz de contar. O distanciamento que os levara a passar dezoito meses separados e até assinar um divórcio começara quando Grace havia confessado que. —Amo você. Quer se casar comigo? Ela o encarou em silêncio por alguns instantes. Desde a conversa que tivera com a mãe. — Ela saberá entender. mas como o início de um casamento que o unira à mulher que amava e proporcionara três filhos maravilhosos. a cor e o calor de meus dias. Aposto que ela preparou um jantar delicioso para nos receber. Andavam de mãos dadas. não como um momento de mentira e romantismo tolo. Segurando a mão dela. porque a mousse de salmão e a torta de legumes estavam deliciosas. abraçados e suados. minha querida. depois do serviço religioso na igreja local. Milton puser na mesa. e ela ficará mais que satisfeita. apreciando a beleza das flores e sentindo a brisa morna que passeava por entre as folhas das árvores. Dominado por uma forte onda de emoção. aceitara o pedido de casamento sem amá-lo. naquele dia. O fato de Grace não amá-lo quando se casaram tornava-se irrelevante à luz de tudo que acontecera depois. e fomos tão indelicados que nem a cumprimentamos adequadamente.Meia hora mais tarde. Depois do jantar. guiou-a pelo jardim de rosas para o mesmo banco onde a pedira em casamento pela primeira vez. planejara o momento em que faria a proposta formal centenas de vezes. Milton ficou chocada quando o viu me arrastando para o quarto. e ele se ajoelhara para colocar o anel de safira da coleção De-Wilde em seu dedo. porque é minha alma e meu coração. Grace estivera sentada no banco de madeira do caramanchão. Só precisamos elogiar todos os pratos que a sra. seguro de si e certo do amor que os unia. os olhos cheios de . Era jovem. De repente era capaz de ver a cena no jardim por um outro ângulo. — Mil vezes mais do que naquele dia em que a pedi em casamento. a pobre sra. segurando suas mãos com ternura. querido. Quero compartilhar o resto de minha vida com você. sem falar. — Jeffrey. Grace e Jeffrey ainda refletiam sobre o ímpeto poderoso que os levava a agir como adolescentes descobrindo a paixão pela primeira vez. JefFrey lembrava a primeira vez em que pedira Grace em casamento. fizera o pedido em grande estilo.

apesar de todos os seus defeitos. —E claro que sim. Por causa do orgulho. a anos e anos de sofrimento desnecessário. Ao ler aquelas páginas. compreendi que o orgulho e a rigidez de idéias não compensa a ausência da capacidade de perdão e amor verdadeiro e generoso. Grace. — Ela errou. Amo você. — Eu sei. — Anne Marie cometeu adultério. e esperou uma vida inteira para que ele compreendesse que. mas para mim não tem importância. Grace abriu a caixa e. e deve ter passado meses economizando para poder pagar pelo broche. E quando eu me mostrar orgulhoso e inflexível como Maximilien. Grace. A conversa com a mãe despertara sua curiosidade. Os diários de Anne Marie tiveram um terrível impacto sobre mim. Ele não era muito rico naquela época. Aceite o broche. Somos quem somos. ao ver o broche em forma de coração. honrado e amoroso. ele os condenara. — Foi de Anne Marie DeWilde. lembre-me de que não quero passar o resto da vida como ele. e aproveitara os dias anteriores para ler os diários da tia-avó e informar-se sobre a verdadeira história da família DeWilde. . O que mais me impressionou foi o comportamento tolo e arrogante de Maximilien. em 1871. — Ele a amava muito quando se casaram — comentou.. Jeffrey tirou uma pequena caixa de veludo desbotado do bolso do paletó. e porque Mary havia dito que o broche seria o presente perfeito para aquela ocasião. Ali estava o broche que Maximilien dera à esposa Anne Marie no primeiro aniversário de casamento. E claro que a revelação dessa história ainda poderia provocar um escândalo de grandes proporções. Foi um presente de amor. É muito mais generoso. como eu errei em trair nossos votos. Depois inclinou-se para a frente e. não pôde conter uma lágrima. Grace. e é uma das poucas peças de sua coleção pessoal que sobreviveu a Segunda Guerra. — Você não é como Maximilien.lágrimas emocionadas. entregando-lhe a caixa. todos a teriam considerado culpada. recusando-se a perdoá-la. Jeffrey. — Para você — disse. mesmo com todas as justificativas que tinha. Jeffrey. ele jogou fora a chance de ser feliz. — Oh! — Agora sei que os DeWilde não são realmente DeWilde. Ficara chocado com as revelações. e aos filhos. e eu ofereço esta jóia com todo o amor de Maximilien e o meu também. Anne Marie amava Maximilien. Li os diários. como seu verdadeiro ancestral. Duas vezes. Em sua época. mas compreendera porque Grace sentira tão grande afinidade com Anne Marie. Maximilien comprou-a para a esposa no primeiro aniversário de casamento.beijou-o nos lábios.. e não há nada que eu queira mais do que ser sua esposa novamente.

—Obrigado. — Ele se levantou e limpou a poeira da calça. — Temos de decidir quando e onde vamos nos casar, Jeffrey. Tem alguma idéia de como pretende realizar a cerimônia? — Por mim, nós nos casaremos amanhã com uma licença especial. — Adoraria, querido, mas temos de pensar na família, especialmente em nossos filhos. Não podemos excluí-los de um momento tão importante. — Oh, meu Deus! Estou começando a entender por que Gabe e Lianne fugiram para se casar. Nossa família é enorme, Grace! Onde estabeleceremos o limite? Convidaremos apenas os filhos, a nora, os genros e minha mãe? Ryder é tão próximo quanto um filho. E se convidarmos Ryder e Natasha, como poderemos excluir Dev e Maxine? Agora que encontramos novos descendentes da família, seria uma pena não incluí-los numa grande reunião. E não podemos esquecer seu irmão, Leland, e sua sobrinha e afilhada, Mallory. E o marido dela, é claro. Até lá o bebê já terá nascido e... — Pare! Tudo bem, já entendi. Ou fugimos e nos casamos em segredo, ou organizamos uma recepção para duzentos convidados. — Já sei! — Jeffrey estalou os dedos. — Vamos nos casar o mais depressa possível numa cerimônia íntima e privada na capela de Kemberly. Depois, por volta de setembro, faremos uma grande festa e convidaremos todos ps parentes e amigos. O que acha, Grace? — E uma idéia perfeita. Já sei até onde podemos fazer essa recepção. — E mesmo? Onde? — Em Ashby Hall. — Sim, Ashby seria o lugar perfeito. Vou conversar com o vigário e verificar se ele pode nos casar na próxima semana. Como seremos só nós dois, ele não levará mais do que dez minutos para realizar o ofício, o que significa que não poderá se recusar por falta de tempo. — Jeffrey... Mesmo sendo uma cerimônia íntima, não seremos só nós. Vamos precisar de duas testemunhas, lembra-se? — E verdade... Bem, eu escolho uma, e você, a outra. Minha escolha é fácil. Ian Stanley foi padrinho quando nos casamos pela primeira vez e é o meu melhor amigo. Não imagino ninguém melhor para estar conosco na renovação dos votos. — E eu escolho Mary. Talvez, se sua mãe ficar bem perto de nós no altar, possamos absorver um pouco de sua enorme sabedoria. — Ou seus vícios — ele riu. — Acho que acertamos tudo. Na próxima semana iremos a San Francisco, mas voltaremos para casa a tempo de nos casarmos no final de semana. Sabe se Iah vai estar na cidade? — Ele só partirá para a China no final do mês. Tenho certeza de que encontrará algum tempo para testemunhar nosso casamento... e compartilhar de nossa felicidade.

CAPITULO XIII Júlia sentira pena de si mesma quando Gabe havia dito que não a amava. Mas o que sentia depois da partida de Michael era ódio! Por Michael, que havia sido idiota a ponto de acreditar que ela abandonaria tudo para se tornar sua amante, e por ela, por ter sido covarde e incapaz de aceitar uma proposta que teria sido uma aposta no amor. Fora criada para acreditar que correr riscos era imprudência, mas nos últimos tempos passara a perguntar-se se evitá-los não seria covardia, em vez de bom senso. Os últimos dois dias de aula a mantiveram ocupada, mas quando o sábado chegou ao meio e ela concluiu todas as tarefas domésticas, as horas começaram a passar com lentidão cada vez maior. Incapaz de sufocar um impulso que vinha crescendo há dias, Júlia sentou-se diante da velha máquina de escrever e datilografou sua carta de demissão. Em setembro, quando as aulas recomeçassem, ela não estaria lá. Temendo perder a coragem, pôs a carta em um envelope selado e atravessou a rua para jogá-lo na caixa de coleta do correio que ficava na esquina de sua casa. Podia imaginar os discursos que teria de ouvir dos irmãos, os olhares penalizados das cunhadas e a maneira como elas discutiriam a última evidência de que jamais seria capaz de levar a vida a sério. Era surpreendente, mas nada disso tinha importância. Michael errara ao supor que abriria mão de tudo de repente para segui-lo até Chicago, mas acertara ao afirmar que precisava de outro emprego. Estava disposta a se esforçar muito, e não tinha dependentes. Se não podia correr o risco, quem poderia? A hipoteca do apartamento não era motivo para hipotecar a alma, coisa que estivera fazendo nos últimos anos. Já era hora de impor-se e começar a construir a vida que desejava, não a que a família traçara para ela. Se não conseguisse um emprego de decoradora, começaria como vendedora em uma loja de artigos para decoração e subiria devagar. Por mais limitadas que fossem as oportunidades para empregar sua criatividade, estaria melhor do que lecionando francês numa escola feminina. Quanto a pagar a hipoteca com o salário de vendedora... tinha algumas economias. Se vivesse de maneira econômica, seria capaz de manter-se por cerca de um ano antes de começar a preocupar-se. O telefone tocou e ela se sentiu tentada a ignorá-lo. Aquela era a hora em que a mãe costumava ligar todos os sábados, e não estava com disposição para falar sobre Edward Hillyard ou sobre o emprego que acabara de abandonar. A secretária eletrônica já estava atendendo a ligação quando Júlia decidiu que tinha de enfrentar os problemas de frente, em vez de continuar fugindo deles. — Alô? — Júlia? Aqui fala Tate Herald. Está ocupada?

— Oh, não — respondeu animada. — Estava pensando em dar uma olhada nos classificados e procurar um novo emprego, mas isso pode esperar. — Procurar emprego é terrível, mas uma professora com suas qualificações deve ter dezenas de oportunidades batendo à porta. — Não estou procurando por um emprego de professora. O ano letivo chegou o fim, e decidi aproveitar a oportunidade para começar uma nova carreira como decoradora de interiores. — Que interessante. Michael mencionou que tem idéias bastante criativas e inovadoras. Ele disse que criou um conceito esplêndido para uma das suítes de Ashby Hall. — Tem conversado com ele? — perguntou, segurando o telefone com mais força. — Sim, somos velhos amigos. Ele me telefonou há alguns dias, e seu nome foi mencionado mais de uma vez. Queria perguntar sobre o que falaram, mas não conseguiu encontrar as palavras para formular a pergunta sem parecer interessada demais. — Tem planos para esta noite? — Tate perguntou. — Estou procurando companhia para jantar. Se não se importar em ir a um lugar tranqüilo e desconhecido... — Oh, não, eu não me importo. Será um prazer jantar com você, Tate. E acho que tenho uma idéia ainda melhor. Por que não jantamos aqui em minha casa? Posso preparar algo simples. Um soufflé de queijo, talvez? —Simples, um soufflé? Júlia, você é surpreendente! Posso chegar às sete em ponto. —Estarei esperando. Tate chegou na hora marcada. —Que lugar adorável! — exclamou ao entrar na sala. — As cores são tão relaxantes! E os móveis parecem ter sido feitos sob encomenda. Júlia sorriu orgulhosa. — Obrigada pelas palavras estimulantes. Ainda estou tentando me convencer de que não foi loucura jogar fora um emprego sólido para perseguir um sonho que talvez nunca se realize. — Isso não é loucura. É coragem, e eu admiro pessoas corajosas. Você tem talento, Júlia. Já tive de abrir mão de tudo para perseguir um sonho, e afirmo que vale a pena, apesar de todas as dificuldades que vai enfrentar. Em alguns momentos, quando estava servindo mesas em restaurantes baratos para garantir o sustento enquanto fazia dezenas de testes por semana, cheguei a pensar em desistir. Mas felizmente segui em frente, e hoje sei que não teria sido feliz de outra maneira. — Espero chegar à mesma conclusão. E alcançar pelo menos uma parte do seu sucesso. — Tenho certeza de que vai conseguir.

— Fomos apresentados por meu consultor de relações públicas. Quer vir comigo até a cozinha? Podemos conversar enquanto termino de preparar o jantar. Finalmente. E mesmo que não estivesse interessado em publicidade. e não só por causa da comida. A refeição foi um sucesso.. Depois do nascimento de Storm. — Foi um encontro arranjado — Tate revelou sorrindo. Em troca. Precisava de alguma publicidade para o lançamento de Grosvenor Square numa rede de tevê americana. e eles decidiram que inventar um relacionamento amoroso entre nós seria a maneira mais fácil de levar meu nome aos jornais. Michael compreendeu que a imprensa é capaz de inventar as histórias mais sórdidas sobre alguém que é interessante o bastante para vender jornais. a mídia não o deixou mais em paz. Michael e eu usávamos a mesma firma de consultoria. — Não entendo por que Michael aceitou esse acordo. — Como conseguiu persuadir Michael a colaborar? Pensei que ele tivesse romances suficientes sem o auxílio de uma consultoria em relações públicas. engoliu o orgulho e abandonou a idéia de ser sutil. Ele se tornou objeto de interesse dos jornais quando assumiu o controle da cadeia de hotéis. e o pai decidiu fazer um dramático apelo público pedindo o apoio dos acionistas.— O soufflé deve estar quase pronto. Ainda tinha pouco mais de vinte anos. . Michael me acompanharia a diversos eventos sociais para atrair o interesse da mídia em torno de um suposto romance. porque ela divulgava o relacionamento de todas a formas possíveis. No meu caso. ficou acertado que o elenco da série se hospedaria nos hotéis Carlisle Forrest e todas as festas do lançamento de Grosuenor Square na América seriam realizadas no hotel de Londres. Se ao menos Júlia conseguisse encontrar uma maneira de mencionar o nome de Michael sem parecer interessada demais. a mãe já era conhecida pela impressionante sucessão de amantes que mantinha. Quando Michael venceu a disputa e foi nomeado presidente.. mas o envolvimento amoroso jamais existiu de verdade. quando serviu o café depois do jantar. Tate provou ser uma companhia agradável e interessante. Nós nos tornamos bons amigos. — Ficaria surpresa se soubesse quantos dos casos envolvendo o nome de Michael são simples arranjos comerciais. — Como conheceu Michael Forrest? — perguntou. Michael não conseguiria evitar o assédio da imprensa. Então ele decidiu gerar as notícias que as pessoas queriam ler. Seu romance com Cherie Lockwood selou o destino de personalidade. O que ele tinha a ganhar com a atenção da mídia? — Michael descobriu que o negócio das convenções pode ser influenciado por um toque de glamour em torno da reputação do hotel. favorecendo o estabelecimento de uma relação rápida e confortável.

Minutos mais tarde o motorista parou o carro diante de um edifício imponente no centro da cidade e. não? E a umidade. — É mesmo? Estive em Londres com minha esposa há alguns anos. Primeiro me apaixono. e Michael reconheceu que é o pai do garoto. observando a fachada construída por arquitetos do século passado. senhorita? — De Londres. Storm existe. Júlia pagou pela corrida e desceu.. A lógica de Tate era irrefutável. — É tão difícil assim admitir que está apaixonada? — Sempre acreditei que as pessoas devem ser amigas antes de se tornarem amantes. — O homem começou a relatar a viagem de férias e todos os locais interessantes que visitara. Não havia motivo algum para permanecer em Londres. Sou inglesa. — Michael foi enganado por Cherie da pior forma possível. acredito que suas chances seriam maiores se se mantivesse perto dele. Sei que pode fazê-lo feliz. e agora estou tentando conhecê-lo. se quiser. Infelizmente. O que é uma pena. Decidida. mas posso dizer que lamento o fato de meu amigo ter aceito o papel de bandido nessa história. contendo o nervosismo. refletindo sobre como eles haviam sido capazes de erguer um prédio tão alto com toda a segurança. pegou o telefone e ligou para a British Airways. às vezes tenho a sensação de que vou derreter! De onde vem. então não é a mulher certa para ele. infeliz e frustrada. Se ainda não percebeu que Michael é a imagem da honra. pareço estar sempre na contra mão.. — É difícil conhecer um homem que está do outro lado do Atlântico. em Chicago. quando a tecnologia ainda não havia descoberto todas as técnicas empregadas na época atual. — O calor está insuportável. Ficou alguns instantes parada na calçada. Com Michael. por favor — Júlia disse ao entrar no táxi na porta do Aeroporto O'Hare. — Conheci Michael há um ano — começou. De repente era tão fácil compreender a realidade que Júlia espantava-se por não-tê-la visto antes. quando podia estar com Michael em qualquer outra parte do mundo. Pessoalmente. O vôo de nove horas a deixara tão exausta que ela se sentiu feliz por não ter de colaborar com a conversa. Júlia respirou fundo e decidiu discutir o assunto com sinceridade e coragem. não tenho o direito de revelar segredos que não me pertencem. — Carlisle Forrest. — Desde então.— Mas o romance de Michael com Cherie Lock-wood não foi uma invenção da mídia. porque tive a impressão de que existe algo muito especial entre vocês dois. e esta é a primeira vez que venho à América. Deus. Era realmente impressionante. . O motorista ligou o taxímetro. usei o relacionamento dele com Cherie e Storm como uma desculpa para não reconhecer o que sinto por ele.

— Você me convidou para vir quando eu estivesse passando por aqui — disse. Júlia aproximou-se do balcão ignorando os pensamentos negativos. E estou feliz por ter vindo. senhor.. Se Michael a rejeitasse. senhor. Forrest. Sabia o que estava fazendo. —Obrigada. Seu nome é Júlia Dutton e. mas para dar uma chance à felicidade. srta. amiga.. ou esperava saber. —Gostaria de falar com o sr. —Vou telefonar para o escritório. Júlia não se conteve e correu ao encontro do homem que descobrira amar. O beijo foi tão inesperado quanto ardente. se uma voz masculina e polida não os interrompesse. o que poderia acontecer de tão desastroso? Se não arriscasse. Felizmente não estava ali para procurar emprego. —Sr. preveniu-a sobre a possibilidade de estar prestes a enfrentar a maior humilhação de sua vida. entrou no hotel e admirou a beleza do saguão em estilo art deco. Sim. mergulhando num abraço caloroso e apaixonado que a encheu de coragem. —O sr. Jules. A dor de viver longe de Michael tornava todo o resto irrelevante. Talvez queira levar sua.. — Sim. — Michael. Forrest está descendo.. para o meu escritório. Forrest está muito ocupado. — O jovem desligou e encarou-a com um misto de espanto e curiosidade. Júlia esperou enquanto o rapaz discava uma seqüência de três números. A idéia de sugerir mudanças na decoração teria sido engraçada. legado da educação restritiva e rígida que recebera dos pais. há alguns minutos havia um fotógrafo da National Investigator andando pelo saguão.. Sim. Meu nome é Júlia Dutton. Com supremo esforço de vontade.. eu sei. mas não sei se ele poderá atendê-la. ela está aqui no hotel. Ela diz ser sua amiga. Está bem. por favor — disse ao funcionário uniformizado que a atendeu. Se Eliza-beth Gabrielle não houvesse decidido vir ao mundo um mês antes da hora. Forrest a espera. Foi uma semana terrível. teria o resto da vida para arrepender-se de não ter tentado. Michael Forrest. não tem idéia de como senti sua falta. Uma voz interna. Minutos depois ele surgia sob uma das arcadas do saguão. — O sr. . Ao vê-lo parado com os braços abertos. se não fosse absurda. Dutton? —Não. o sr. Um homem como Michael Forrest não podia ter sentimentos duradouros e sólidos por uma mulher como ela! Os dois haviam se encontrado por força das circunstâncias. nem teriam descoberto quantos interesses tinham em comum.Respirando fundo. E teria se estendido por mais tempo. eu direi a ela para esperá-lo. Apesar de ser domingo. há uma moça aqui na recepção procurando pelo senhor. — Sou amiga dele e acabo de chegar de Londres.

Diga ao motorista que o chamarei quando precisar. — O rapaz olhou em volta. — Não devia ter cancelado a viagem por minha causa — Júlia suspirou. estranhando o comportamento dos colegas e a atitude do patrão. —Está vendo? Desta vez nem teve de ranger os dentes. — Meu Deus. — Foi exatamente por isso que vim a Chicago. — Michael parou e respirou fundo. — Amo você. — Obrigado. — Venha comigo à minha suíte.. ele perguntou: — Por que decidiu vir a Chicago. abraçados e felizes. — Por quê? — Porque o amo e porque todo o resto perdeu a importância diante deste amor. Estavam deitados na cama de Michael. Ele sorriu. O crachá pendurado na lapela do homem o identificava como Thomás Burdine. Assim poderemos conversar com maior privacidade. mas a única coisa que conseguia sentir era uma imensa e gloriosa felicidade. Quando teve certeza de que seria capaz de falar sem arfar.. mas não vou mais viajar. Michael sorriu. — Michael deixou escapar um suspiro aliviado e apertou-a entre os braços.Lá terão completa privacidade. — Sorriu. e poderia ter esperado por sua volta. . assistente de gerência. garanto que em breve não doerá mais do que um tratamento de canal sem anestesia — ela riu. Devia estar envergonhada por ter promovido um espetáculo no saguão do hotel.. Ron. — Problemas em Ashby Hall? — Não. — Eu ia a Londres. — Se continuar praticando. detectando a tensão na voz dele. senhor. — Tem razão. Existem alguns problemas que não podem ser discutidos em público — ela riu. mas não conseguiu esconder a tensão. — Sei que é um homem ocupado. Decidi que era hora de cuidar dos meus problemas pessoais. —Sim. mas encolheu os ombros e saiu para transmitir o recado.. — Júlia. Júlia notou que todos os empregados observavam a cena com o mesmo ar fascinado. — Também a amo. demonstrando que era difícil manter as emoções sob controle. — Que coincidência. Estava começando a sentir-se constrangida quando um dos porteiros entrou e anunciou que o carro de Michael estava pronto para levá-lo ao aeroporto. Olhando em volta. Por sorte não nos encontramos sobre o Atlântico. Júlia? — Porque queria estar com você.

casamento e laços eternos. e isso acabou despertando meu instinto de conquista. — Mas nunca foi casado com Cherie. é muito difícil falar sobre compromisso. — Está falando de Cherie Lockwood? — Exatamente. a gravidez ainda estava no início. — Eu sei. . No entanto. ou você jamais vai entender porque considero tão difícil assumir compromissos que outros homens encaram com tranqüilidade. Ela só se aproximou de mim porque descobriu que estava grávida e precisava de um pai para a criança. — Não precisa falar sobre ela. foi? — Não. mesmo que ele tenha acabado? — Não foi um caso de amor. Jules. o casamento está mais associado a traições e amarguras do que a algo positivo.— Temos muito o que conversar. Cherie nunca me amou. Júlia. Para proteger o amante. Como pode perceber. Preciso explicar sobre Cherie. O de meus pais foi um desastre. Nós dois sabemos que o relacionamento não será fácil. mas ainda era ingênuo a ponto de acreditar em aparências.. Por que ela não podia nomear o verdadeiro pai do bebê? — Porque o pai de Storm é um homem muito conhecido. e porque tinha mais ou menos a mesma cor de cabelos e olhos que o verdadeiro pai. mas sei que o casamento não é uma relação benéfica. — Meu Deus. — Idiota? O que há de errado em viver um caso de amor. ela decidiu mostrar ao mundo que estava envolvida comigo. mas quero ter certeza de que há uma chance para nós. e o fato de morarmos em continentes diferentes é o menor dos nossos problemas. O que não consigo perdoar é o fato de Cherie ter dito que o filho era meu. — Os melhores relacionamentos nunca são fáceis.. — Não estou entendendo. F. Cherie parecia ser doce. e só depois de alguns meses a barriga começou a se tornar evidente. — Não é tão simples. Quando a conheci. ela escolheu o idiota perfeito. e a única vez em que me apaixonei antes de conhecê-la foi um desastre.ui escolhido por causa da minha reputação de solteiro convicto que vivia a vida de maneira arrojada.. Meus pais tiveram o tipo de envolvimento que faz do divórcio uma bênção.. e minha ligação com Cherie conformou o que eu já sabia sobre relacionamentos duradouros. Eles sempre acabam em sofrimento e ressentimento. e me deixei envolver por toda aquela ternura com que ela me tratava. Para mim. alguém que não podia dar-se ao luxo de ser surpreendido num envolvimento extra conjugai. Não tinha motivos para desconfiar dela. amorosa e suave. Eu tinha trinta e três anos quando nos conhecemos. O passado não importa. se não quiser. já que estávamos sempre juntos. Além do mais. ela se mostrava muito evasiva.

ela mandou trocar todas as fechaduras da casa e passou a não atender meus telefonemas. quando penso como o acusei por ter abandonado seu filho! Não sabe como me sinto culpada. se ela houvesse dito a verdade desde o início. por que se deixaria usar dessa maneira? A quem estava tentando proteger? Ele respirou fundo. Cherie cometeu um engano ao concluir que eu a abandonaria quando ela anunciasse a gravidez. Cherie ficou desesperada e começou a gritar que já estava grávida quando me conheceu. Não precisava saber que o marido cometera adultério e tivera com outra mulher o filho que ela não pudera gerar. porque ameacei procurar os jornais e contar que Storm não era meu filho. um certo dia. —Como suporta saber que um homem imoral como Stein é respeitado como . — Ela disse quem era o pai? — Sim. — O fato de ter se equivocado quanto à sua personalidade não desculpa o comportamento irresponsável e mentiroso. O homem que se tornou famoso nos círculos cinematográficos por ter se dedicado à primeira esposa. e acabei concordando. — Storm é filho de Brad Stein! —Exatamente. Jules. Oh. Acreditou naquilo que todos pensavam ser verdade. quando ameacei entrar com um processo pedindo a guarda do bebê. céus! — Júlia finalmente entendeu. O mesmo que agora é admirado por ter se casado com Cherie Lockwood e adotado o filho que eu supostamente abandonei. como ela pode ser tão cruel? E por quê? — Não creio que ela tenha tido a intenção de ser cruel. e que faria todos os exames para provar que eu não era o pai de seu filho. e cheguei algumas horas depois do bebê ter nascido. — Michael. O mais irônico é que teria concordado em ajudá-la. Baseada em minha reputação. Então ela implorou para que eu guardasse segredo. — Terri estava morrendo de distrofia muscular. Os advogados de Cherie ameaçaram me processar por assédio. — Michael. Deixei Nova York imediatamente para ir ao hospital. mas foi inútil. Terri. — Não há motivo para culpa. Então. Só soube que Storm havia nascido por uma enfermeira do hospital de Los Angeles me telefonou para avisar que ela estava em trabalho de parto. — Quanto tempo Cherie levou para revelar toda a verdade? E por que não revelou os fatos ao mundo assim que tomou conhecimento deles? — Ela me contou tudo na noite em que Storm nasceu. Cherie não esperava que eu insistisse em participar da vida de Storm. Ele a beijou nos lábios. Michael. pensou que eu não assumiria uma amante grávida e apostou todas as fichas nisso.— Passei dois meses tentando convencê-la a aceitar meus pedidos de casamento. —Oh.

— E beijou-o com todo o amor que havia em seu coração. —Olá. enquanto você. Não posso viver sem você. soltando a mão da esposa para que ela pudesse ir conversar com os convidados. e finalmente o grande jantar de gala celebrando o casamento de Grace e Jeffrey estava prestes a começar. Muito mais. como sempre. — Tive três anos para aprimorar meus sentimentos de caridade.. para perceber que não havia nenhuma atração entre nós. mais elegante que todas as outras mulheres. Grace também estava radiante e. CAPITULO XIV Nos últimos dias. — Foi mais generoso do que eu teria sido. e sim pela imagem que eu projetava em uma mulher que não conhecia de fato. — Agora sei que estou no caminho certo. estrondosos e entusiasmados. bem. Finalmente ele sorriu. bem-sucedido. Ele é atraente. Estava ocupada demais prestando atenção à reputação do homem. Estava de partida para Londres porque. acabei me dando conta de que devia estar grato por Cherie não ser a mãe de meu primeiro filho. Ian Stanley. ao respeito que ele cativava. — Ela sorriu. e então consegui me convencer de que o amava. — Está contando minha história com Gabe. A verdade é que nunca tentei conhecer o verdadeiro Gabriel DeWilde. — Por outro lado.. mãe — Jeffrey cumprimentou-a com um beijo no rosto.. o que existe entre nós é mais que uma atração. Além do mais. A idéia de casamento ainda me apavora... —Teria destruído o mito de Brad sem hesitar.. Mary jamais havia esperado ver o filho tão feliz quanto naquela noite. porque ia pedi-la em casamento. que retornara recentemente de sua viagem a China. meu amor. e não quis ser responsável por seu sofrimento. Mary sentiu uma grande tristeza ao constatar que o velho amigo perdera peso e estava ainda mais pálido que antes. apesar das lágrimas que brotavam de seus olhos. parentes. mas quando Storm nasceu. mas nessa última semana compreendi que é loucura jogar fora a chance de ser feliz a seu lado só porque meus pais foram infelizes e Cherie Lock-wood me enganou. Jules. Terri estava no estágio terminal da doença. acho que nunca estive apaixonado por ela. Eu não a conhecia. — Graças a Deus. inteligente. Na verdade.um exemplo de integridade e honra. afastou-se de Sloan DeWilde para beijar a mão de Grace. Os aplausos quando ele e Grace desceram a escada juntos prolongaram-se por minutos. amigos e conhecidos chegavam a Ashby Hall de todas as partes. É um fogo que jamais se extinguira. Ao longo do último ano. conseqüências da terrível doença .

evitando os conhecidos. creio que nos tornaremos marido e mulher no Natal. Eles decidiram chamar a menina de Catherine em homenagem à nossa mãe. Grace! Não é maravilhoso? — Sim. Mary aproveitou para dirigir-se a Michael. O casal no canto mais afastado com Ryder Blake devia ser DeWilde Cutter e sua esposa Ma-xine. mas o bebê ainda é muito pequeno para viajar. Liam vai se sentir livre para amá-la sem sentir-se desleal à memória do filho que perdeu. Mary atravessou o salão movimentado. — E olhou em volta com ar preocupado. se os pais dela não fizessem questão de uma cerimônia tradicional. já teria me casado. fique à vontade. — Encontrou uma moça muito talentosa. onde Júlia conversava entusiasmada com Gabriel e Lianne. sra. Natasha. cuja postura orgulhosa era bastante parecida com a Cutter. — Como vão indo os pais orgulhosos? — Muito bem. também. Nick Santos. De todos os netos. Pretendo me casar o mais depressa possível. antes que ela escape. — Não se preocupe. é verdade. —Grace! Jeffrey! — Leland Powell atravessou o salão para beijar o rosto da irmã e apertar a mão do cunhado. Devia se casar depressa. provavelmente em Londres. é uma homenagem emocionante. E o nome é lindo. Dirk DeWilde havia deixado um legado muito maior do que as jóias que roubara. E à esquerda deles podia ver a esposa de Ryder. Megan sempre fora insegura . Mary considerava que Megan havia sido a que sofrerá a transformação mais intensa no último ano. e Grace afastou-se do grupo. DeWilde. Assim. Estou vendo o gerente do hotel gesticulando do outro lado da sala. DeWilde. Por alguma razão. Na verdade. — Ela olhou para o outro lado da sala. Fiquei satisfeito por eles terem tido uma menina. — Com ücença. Megan e Phillip Villeneuve conversavam com Kate e seu marido. — Sim. Michael sorriu. — Gostaria que Liam e Mallory estivessem aqui para comemorar conosco. —Casamentos no Natal são sempre românticos. já que toda a família dela mora lá. De qualquer maneira. Mais tarde iria apresentar-se. — Jeffrey me disse que sua noiva é responsável pela reforma dos quartos. sra. Liam está feliz como jamais o vi. — Agora também sou avô.que em breve o levaria do convívio de todos. — Bem-vindo ao clube — Grace riu. apesar de todas as realizações e do lugar que ocupava no mundo. —É claro. — E bonita. contente por poder observar a distância. Onde será a cerimônia? —Aqui mesmo na Inglaterra. Michael Forrest aproximou-se para tirar uma dúvida sobre o vinho que seria servido com a entrada. Creio que sou requisitado para resolver algum problema de última hora.

e pusemos um ponto final numa velha rixa que havia começado antes da maioria das pessoas nesta sala terem nascido. sr. E agora. É maravilhoso tê-la de volta.. Mary sentou-se sob aplausos estrondoso e recebeu os abraços dos netos. E. Todos se dirigiam ao restaurante. FIM . recebemos Elizabeth Gabrielle. Esperava que a nova geração de recém-casados encontrava tanta alegria em suas vidas quanto ela conhecera com Charles. mas mudara radicalmente depois que conhecera Phillip. creio que tenho o direito de importuná-los com algumas palavras breves. Meus três netos se casaram. Sendo assim.. — Bem-vinda ao lar. — Reclamo o privilégio duvidoso de ser a pessoa mais velha neste ambiente. outra vez. Grace. — Grace sorriu. Grace. a primeira de uma nova geração. Jeffrey. descobrimos parentes até então desconhecidos na Austrália e na Nova Zelândia. seguindo as indicações de Michael Forrest e Júlia Dutton. peço que todos juntem-se a mim num brinde ao meu filho e sua esposa. Jeffrey.e tímida. e sra. Jeffrey e Grace encontraram o caminho de volta para o amor que sempre os uniu. antes que me deixe dominar pelo sentimentalismo constrangedor. Aquele havia sido o ano dos casamentos. onde Jeffrey. Jeffrey DeWilde. Mary pensou. °s netos e seus cônjuges já estavam acomodados. — Estamos juntos. que os próximos trinta e dois anos de casamento sejam ainda mais felizes que as primeiras três décadas. Este foi um ano surpreendente para a família DeWilde. o melhor de tudo. — É maravilhoso estar em casa novamente. seguindo para a mesa principal. Mary teria esquecido a desavença entre sua família e a dele por esse simples motivo. A nós. Jeffrey levantou o copo e tocou o da esposa. Grace. Mary esperou que todos os convidados estivessem sentados para levantar-se e erguer o copo.