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UNIVERSIDADE SALGADO DE OLIVEIRA

Universidade Salgado de Oliveira – UNIVERSO Diretoria Acadêmica Curso de Direito Disciplina: Direito Empresarial Professor: Cristiano Moreira
O SISTEMA FRANCÊS (TEORIA DOS ATOS DE COMÉRCIO) Seguindo a tradição do Direito Romano, ao qual se filia o direito brasileiro, podem ser divisados 2 (dois) sistemas de disciplina privada da economia: o francês (1808), em que as atividades econômicas agrupadas em dois grandes conjuntos, sujeitos a sub-regimes próprios, qualificam-se como civis ou comerciais; e o italiano (1942), em que se estabelece o regime geral para o exercício das atividades, do qual se exclui a exploração de algumas poucas que reclamam tratamento específico. O sistema francês antecede ao italiano. Seu surgimento ocorre com a entrada em vigor do Code de Commerce, em 1808, documento legislativo conhecido como Código Napoleônico, de forte influência na codificação oitocentista (da época). Já o sistema italiano surge depois de mais de um século, em 1942, quando é aprovado pelo Rei Vittorio Emanuele III, o Codice Civile, diploma este unificador da legislação peninsular de direito privado. A elaboração doutrinária fundamental do sistema francês é a teoria dos atos de comércio, vista como instrumento de objetivação do tratamento jurídico da atividade mercantil. Isto é, com ela, o direito comercial deixou de ser apenas o direito de uma certa categoria de profissionais, organizados em corporações próprias, para se tornar a disciplina de um conjunto e atos que, em princípio, poderiam ser praticados por qualquer cidadão. A partir da segunda metade do século XII, com os comerciantes e artesãos se reunindo em corporações de artes e ofícios, inicia-se o primeiro período histórico do direito comercial. Nele, as corporações de comerciantes constituem jurisdições próprias cujas decisões eram fundamentadas principalmente nos usos e costumes praticados por seus membros. Resultante da autonomia corporativa, o direito comercial de então se caracteriza pelo acento subjetivo e apenas se aplica aos comerciantes associados à corporação.

restringe-se à abolição do corporativismo. não penetrando somente na Alemanha e nos países da Common Law. como o seguro. No segundo período de sua história. comparada às sociedades de pessoas então existentes. da adoção da teoria dos atos de comércio como critério de identificação do âmbito de incidência deste ramo da disciplina jurídica. em razão de sua localização estratégica para as cruzadas e da importância das cidades italianas no comércio internacional. O sentido da passagem para a terceira etapa evolutiva do direito comercial. sem que entre elas se possa encontrar qualquer elemento interno de ligação. acabou se revelando muito mais adequada aos empreendimentos mercantis da expansão colonial. O mais importante instituto desse período é a sociedade anônima. o direito dos membros da corporação dos comerciantes. são esboçados e desenvolvidos. passam a gozar de alguns privilégios concedidos por uma disciplina jurídica específica. Contudo. na Europa Continental. os quais demandavam vultuosos aportes de capital e limitação de riscos. uma vez explorando o comércio. a sua transformação em disciplina jurídica aplicável a determinados atos e não a determinadas pessoas. muitos dos principais institutos do direito comercial.Mas já nesse primeiro período histórico. o que acarreta indefinições no tocante à natureza mercantil de algumas delas. Em outras palavras. o direito comercial ainda é. a atividade bancária. a teoria dos atos de comércio resume-se a uma relação de atividades econômicas. foi a partir do terceiro período histórico do direito comercial que qualquer cidadão poderia exercer atividade mercantil e não apenas os aceitos em determinada associação profissional (a corporação de ofício dos comerciantes). a letra de câmbio. ou seja. Em suma. isto é. A teoria dos atos de comércio ESPALHO-SE PELO OCIDENTE e alcançou o direito vigente em considerável parcela do mundo ocidental. compreendido entre os séculos XVI à XVIII. relaciona-se não apenas com o princípio da igualdade dos cidadãos. que. Na Inglaterra. o desenvolvimento do Common Law contribui para a superação dessa característica. mas também com o fortalecimento do estado nacional ante os organismos corporativos. O terceiro período da evolução histórica do direito comercial inicia-se com a codificação napoleônica. A objetivação do direito comercial. O SISTEMA ITALIANO (TEORIA DA EMPRESA) . E a península itálica (cenário de referêncialocalização estratégica) pode ser vista como o cenário de referência para essa etapa evolutiva do direito mercantil.

abandonou a tese da unificação e elaborou um projeto de Código Comercial específico. e a sua entrada em vigor inaugura a última etapa evolutiva do direito comercial nos países de tradição romanística. Ou seja. mais adequado à realidade do capitalismo superior. Sustentou então vários argumentos em favor da superação da divisão básica no direito privado. Diversamente do modelo francês. inclusive em função de inesperados desdobramentos na esfera penal. na Itália. sem sombra de dúvidas. inclusive ministrando suas aulas na Universidade de Bolonha. o sistema italiano de disciplina privada da atividade econômica. poderia ser surpreendida com a declaração de sua falência. em 1892. . Como cidadão. tais como as dos profissionais liberais ou dos pequenos comerciantes. ritos processuais e regras de competência. que deveria ser o objetivo supremo do legislador. o Códice Civile passa a disciplinar. PRIMEIRO: questionou a sujeição de não-comerciantes (os consumidores) a regras elaboradas a partir de práticas mercantis desenvolvidas pelos comerciantes e em seu próprio interesse. pensando exercer atividade civil. QUARTO: a duplicidade de disciplinas sobre assuntos idênticos iria ser uma fonte de dificuldades. tanto a matéria civil como a comercial. Em 1942. sintetizado pela teoria da empresa. o modelo italiano se reserva uma disciplina específica para algumas atividades de menor expressão econômica. Sendo uma atividade. Vivante não insistiu nessas críticas à autonomia do direito comercial. defendendo uma tese pelo fim da autonomia do direito comercial. SEGUNDO: lembrou que a autonomia do direito comercial importava desnecessária litigiosidade para a prévia discussão da natureza civil ou mercantil do foro. a bipartição da disciplina privada da economia começo a preocupar os doutrinadores. não se confundia mais com o empresário (sujeito) nem com o estabelecimento empresarial (coisa). um novo modelo de disciplina privada da economia. encontra a sua síntese na teoria da empresa. após ser nomeado presidente da comissão de reforma da legislação comercial na Itália.Na Itália. acabou superando o francês. Assim. O modelo italiano de regular o exercício da atividade econômica sob o prisma do direito privado. na definição de prazos. Em 1919. argumentou o fato de o Código Comercial perturbar a solidariedade social. a empresa não tem a natureza jurídica de sujeito de direito nem de coisa. citando rapidamente o exemplo de uma pessoa que. Porém. Passou-se a ter o conceito de empresa: é a atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços. A tória da empresa é. TERCEIRO: a questão da insegurança decorrente do caráter do sistema francês. em especial Cesare Vivante.

em razão da presença marcante das potências européias em nosso comércio. as legislações de direito privado sobre matéria econômica. o português e o espanhol passaram a constituir as normas disciplinadoras da exploração da atividade econômica do novo Estado. o Brasil reclamava sua independência que veio ocorrer no ano seguinte.ou seja. enquanto que os que vinham de Portugal eram taxados em 16%. Para se ter uma idéia da ingerência britânica na economia do Brasil-colônia. mas também. como todos vocês tem conhecimento. um código comercial próprio. O Brasil então passou a viver uma fase de crescimento econômico. em 1822. para atender à essa vitalidade econômica. determinou a aplicação no Brasil das leis portuguesas vigentes na época do retorno à Portugal de D. o de atender às pressões do imperialismo inglês. Com a volta de D. em . e principalmente. João VI. FILIAÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO AO SISTEMA FRANCÊS EM 1850 A partir da chegada de Napoleão (marco do direito comercial brasileiro). para suprir a carência de legislação própria. chegando a ser mais atraente que certos lugares da Europa. . E. Agricultura. entre 1810 e 1816.o Alvará de 23 de agosto: instituindo o Tribunal da Real Junta do Commercio. . que foi justamente por conta da famosa abertura dos portos às nações amigas. os produtos ingleses importados pelo Brasil eram taxados em alíquota de 15%. Reclamava-se. eleita no ano seguinte. não tem mais dividido os empreendimentos em 2 categorias (civis e comerciais). aportando em Salvador. em 24 de julho de 1808 que tem início a história do direito comercial brasileiro. a partir de meados do século XX. do ponto de vista econômico da dependência colonial com a metrópole portuguesa. para submete-los a regimes distintos. às margens do Ipiranga. Foi a partir de então que o Código Comercial Napoleônico.o Alvará de 1° de abril: permitindo o livre estabelecimento de fábricas e manufaturas. Naquele ano.o Alvará de 12 de outubro: criando o Banco do Brasil A edição dessas normas não teve apenas o sentido de propiciar as condições de vida reclamadas pela presença da real corte portuguesa em solo colonial. Fabricas e Navegação. ainda outros importantes atos de disciplina do comércio foram editados: . João VI à Portugal. em 1821 e o rompimento. a Assembléia Constituinte e Legislativa. decretada com a Carta Régia de 1808.

a lista do velho regulamento imperial vê diminuída sua importância. isto é. mesmo após a sua revogação. para os vender por grosso ou a retalho. fretamentos. surgiu importantíssimo ato normativo. A lei. Para termos uma idéia. de comissões. o próprio Código não menciona a expressão “atos de comércio” e tampouco os enumera. a partir do projeto iniciado dezessete anos antes. de expedição. o Regulamento 737. consignação e transporte de mercadorias. riscos e quaisquer contratos relativos ao comércio marítimo. A lista de atividades estabelecida pelo regulamento 737 continuou servindo de referência doutrinária para a definição do campo de incidência do direito comercial brasileiro. reservando-se o direito à renovação compulsória do contrato de locação apenas aos exercentes de atividades comerciais e industriais. o civil e o comercial. de depósito. contemplando 2 diferentes regimes basilares. §2° As operações de câmbio. §3° As empresas de fábrica.substituição à disciplina lacunosa e contraditória. banco e corretagem. só veio a ser aprovada pelo imperador Pedro II em 1850. decorrente da remissão à legislações estrangeiras. §4° Os seguros. diretamente no Code de Commerce e. APROXIMAÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO AO SISTEMA ITALIANO . 19 assim proclamava: “Art. no entanto. 19. Considera-se mercancia: §1° A compra e venda ou troca de efeitos móveis ou semoventes. §5° A armação e expedição de navios. quando o direito brasileiro inicia o processo de aproximação ao sistema italiano de disciplina privada da atividade econômica.” Mesmo com a extinção dos Tribunais de Comércio em 1875. que em seu art. assim trazendo para o direito nacional o sistema francês de disciplina privada da atividade econômica. ou para alugar o seu uso. Somente a partir dos anos 60. O Código Comercial brasileiro inspirou-se assim. tutelando-se o fundo de comércio. de espetáculos públicos. na mesma espécie ou manufaturados. continuou o direito brasileiro a disciplinar a atividade econômica a partir do critério fundamental da teoria dos atos de comércio. Também em 1850.

2. em seu art. o direito privado brasileiro concluiu seu demorado processo de transição entre os sistemas francês e italiano.038). define empresário como o profissional exercente de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços. sujeitando-o às disposições de lei referentes à matéria mercantil (art. que tramitou no Congresso entre 1975 e 2002.Com a aprovação do projeto de Código Civil de Miguel Reale. 966. incorpora o modelo italiano de disciplina privada da atividade econômica. adotando expressamente a teoria da empresa. . O Código Civil de 2002 inspira-se no Codice Civile e. O CC de 2002.