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CAPÍTULO 4

Sensação e Percepção
1. Os sensores e o sentir A percepção é o tema favorito da especulação filosófica que, para o melhor ou para o pior, exerceu influência sobre a teorização em Psicologia. Especificamente, duas concepções filosóficas tradicionais ainda vivem na psicologia. Uma é o inatismo, ou a doutrina de que os inputs sensoriais somente podem evocar esquemas ou imagens mentais pré-existentes; a outra é o empirismo, ou a doutrina de que a mente é inicialmente uma lousa limpa (tábula rasa) sobre a qual os inputs externos são escritos. É certo que existem concepções sobre a percepção ainda mais estranhas, por exemplo, a alegação de que a análise linguística mostra que perceber não é absolutamente um estado ou processo (Ryle, 1954). Ignoraremos essa outras concepções e proporemos um tipo de síntese do inatismo e empirismo. O primeiro ponto a conhecer é que a percepção não é apenas sensação ou detecção. Uma pessoa pode se sentir com frio, com fome ou em sofrimento, mas não percebe o frio, a fome ou o sofrimento. Sentir ou captar é detectar de modo imediato: é o que fazem os sensores ou captadores. Perceber, por outro lado, é decifrar ou reconhecer a mensagem sensorial: é enxergar uma mancha marrom redonda como uma bola, escutar o gemido de uma sirene como um sinal de alarme, sentir o fio de uma navalha como um instrumento cortante. O sentir exige apenas detectores ou sensores; o perceber exige, além desses, órgãos capazes de interpretar aquilo que é sentido ou captado. Comecemos, então, com os sensores e sua função específica  sentir. Todas as coisas reagem a estímulos externos, mas algumas reagem mais seletivamente que outras. Quando uma
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coisa reage somente a alguns poucos estímulos, diz-se que ela os detecta. A detecção consiste algumas vezes em filtrar todos os inputs com exceção de alguns, outras vezes, em combinar-se com entidades de apenas alguns tipos. O conceito geral de reação específica, ou detecção, é elucidado pela DEFINIÇÃO 4.1. Um sistema detecta coisas ou eventos de um certo tipo (ou é um detector deles) se e somente se reagir apenas a eles. Os organismos multicelulares têm uma variedade de detectores agrupados em sistemas denominados sistemas seletivos (ou ainda, erroneamente, sistemas de reconhecimento). Por exemplo, o sistema imunológico pode detectar uma grande variedade de moléculas porque é composto de detectores (anticorpos) de muitos tipos. E o SNC consegue detectar uma enorme variedade de eventos internos e externos. Essa detecção é freqüentemente um processo químico disparado por um estímulo (por exemplo, uma molécula ou um fóton) em um quimiorreceptor ligado a algum sistema sensorial, tal como o sistema visual, ou gustativo, ou olfativo. Esses quimiorreceptores, ou componentes deles, admitem estímulos de determinados tipos e ignoram todos os demais: são seletivos. A detecção química, em particular, é do tipo chave-efechadura, isto é, somente são detectadas as moléculas que se combinam com algum componente do receptor (Figura 4.1). Não basta a um animal possuir receptores: ele deve ser capaz de fazer algo a respeito dos eventos que detecta  por exemplo, fugir deles, neutralizálos ou, ao contrário, procurar mais iguais a eles. Isto exige amplificação e transmis-

3.1. Notem também a ação do SNC sobre os receptores. Logo. Uma das razões é que não funcionam adequadamente quando isolados dos outros subsistemas do SNC. 65 OLFACTORY BULB LATERAL OLFACTORY NER VE PREPYRIFORM CORTEX INTERNAL CAPSULE SMELLING BEHAVIOR Figura 4. Quimiorreceptor de um organismo. É o que fazem os neurossensores ou neurorreceptores. R detecta (liga-se a) os sinais C1 e C2 mas não reage a (detecta) C3. DEFINIÇÃO 4. (O segundo termo da definição permite incluir sensores artificiais que poderiam compensar a perda ou dano dos sensores naturais. composto de neurossensores e de sistemas neurais a ele acoplados. Os receptores de odor do gato englobam cerca de 100 milhões de neurônios. Notem a distância entre a recepção do odor e o cheirar (percepção do odor).) Exemplo 1: O olho da rã tem detectores que respondem exclusivamente a insetos em movimento (Lettvin et al. 1962). Exemplo 2: Os córtices visuais do gato e do macaco (e provavelmente do homem também) contêm neurônios que se especializam em detectar linhas verticais e outros em linhas horizontais (Hubel e Wiesel. taxa de secreção. novidade. calor. Organização em larga escala do sistema olfatório dos mamíferos. pressão. contrações musculares. Isto sugere a necessidade da Figura 4.2. O conceito geral é este: DEFINIÇÃO 4. São denominados detectores de aspectos. O processo de detecção consiste da formação de um complexo receptor-quimioefetor capaz de ter algum efeito sobre outras partes do organismo. o sistema olfativo de um vertebrado superior contém mais do que receptores de odor: ele processa os sinais que os receptores emanam e os transforma em perceptos (Figura 4.2. Um detector é um neurossensor (ou neurorreceptor) se e somente se for um sistema neural ou se for diretamente acoplado a um sistema neural. Por exemplo. e a função ou atividade específica de tais sistemas é perceber. o olho imóvel é cego: a visão envolve . de modo que cada sinal possa ser "lido" pelo SNC sem ambigüidade. através de sinais hormonais ou nervosos intermediários.2). 1959. C3 não é detectado. Por exemplo. Um sistema sensorial de um animal é um subsistema do sistema nervoso do mesmo. Os sistemas sensoriais dos vertebrados superiores são muito complexos. 1959).SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO Nos animais superiores. ODOR RECEPTORS (IN NASAL MUCOUS EMBR ANE) PRIMARY OLFACTORY NERVE são de sinais de modo uniforme. tais como o sistema motor. Um mamífero tem miríades de neurossensores: sensores para movimento. alterações na acidez. etc. os neurossensores vêm em sistemas.

(Estas são as fibras especializadas na condução dos impulsos dolorosos. está fadado ao insucesso. Isso explica porque não percebemos o mesmo estímulo duas vezes exatamente da mesma maneira. Liebeskind e Paul. no caso da dor surda e mal localizada. (O sistema de prazer é diferente do sistema de dor. tais como câmaras fotográficas.) Por conseguinte. tais como drogas analgésicas. exercida através das fibras eferentes gama (Figura 4. amor e ódio.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO movimentos exploratórios ativos do globo ocular. . ou pelo próprio cérebro. Este bloqueio pode ser realizado por meios externos. quimicamente (drogas e hormônios) e comportamentalmente (gestos.2). uma sensação de qualquer tipo é a atividade específica de um determinado sistema sensorial (isto é. um subconjunto do espaço de eventos desse sistema). a estimulação elétrica da região septal do cérebro pode transformar a depressão em hilaridade e o álcool pode trazer alegria ou tristeza conforme a dose e o estado inicial do cérebro. a dor está sempre no cérebro. Dessa maneira. cada um pode ser estimulado independentemente. dor é (o mesmo que) ativação de determinados sistemas neurais sejam no núcleo giganto-celular sejam na raiz dorsal da medula espinhal. Na verdade. Uma sensação (ou processo sensorial ou algo sentido) é uma atividade (processo) específica de um sistema sensorial. E mostra que qualquer modelo de percepção concebido na imitação de detectores puramente físicos ou químicos. 1977. receptores de calor e outros que detectam estímulos de ambos os tipos. 1977). a pituitária e o mesencéfalo secretam endorfinas que bloqueiam os sinais da dor. mesmo que esses eventos cerebrais nos "contem" onde ela se origina. Eis porque buscar a felicidade é não menos natural que fugir da dor. eles descobriram que o cérebro do mamífero contém regiões cuja estimulação elétrica é idêntica a sensações agradáveis e outras que são dolorosas. 1976). do ponto de vista monista. Os estímulos dolorosos agem sobre receptores especiais de três tipos: mecanorreceptores. Estão sob a ação contínua do SNC. é puro obscurantismo alegar que alegria e tristeza. Sentir frio ou calor. Portanto. hilaridade e depressão não são cientificamente analisáveis e não precisam ser compreendidos pois todos podem sentilos (Sacks. no caso da dor aguda e bem localizada.) Algumas dessas fibras penetram no núcleo giganto-celular (na formação reticular bulbar) enquanto outras chegam à raiz dorsal da medula espinhal (ver. etc). Agora estamos prontos para a DEFINIÇÃO 4. com fome ou satisfeito. As informações que recebem acerca dos estímulos que agem sobre eles são transportadas por fibras C. de tal forma que seu estado depende não só da estimulação externa mas também do estado (e da história) do SNC. como descoberto por Olds e Milner (1954) em um experimento clássico. e por fibras A δ . Igual a sentir dor. De fato. Pode ser que a acupuntura estimule a liberação desses analgésicos endógenos: ver Pomeranz et al.) O que vale para as sensações específicas também vale para o humor de um animal: isso também pode ser manipulado de várias maneiras  eletricamente. Mas a dor também pode resultar da excitação de fibras nervosas de outros tipos. Uma outra razão é que os neurossensores não são apenas detectores de inputs ambientais. isto é. cansado ou com vigor. por exemplo. Em suma. é ter sensações sem percepções. Por conseguinte.4. O prazer também está no cérebro. como a pilha termoelétrica e a célula fotoelétrica. 66 (Tanto é que em ambos os casos a dor pode ser interrompida bloqueando-se as fibras aferentes.

Somente a área cortical sensorial primária deve ser considerada um componente do sistema sensorial correspondente. De fato. a percepção é essa atividade mais a atividade por ela eliciada nos sistemas neurais plásticos diretamente ligados à mesma (Figura 4. no caso da rã.4 resume as seguintes características da percepção humana: (a) a percepção é realizada por um sistema neural localizado em uma projeção sensorial secundária do córtex cerebral. na qual o paciente vê "por" mas lê "pro" ou "orp". juntamente com Hebb (1968). esta área é plástica apenas durante os estádios iniciais do desenvolvimento. "pré-processados" nos mesmos e processados posteriormente no cérebro. A diferença entre as áreas primária e corticais sensoriais plásticas é a chave para a diferença entre sensação e percepção nos vertebrados superiores. A Figura 4. Os sinais emitidos pelos sensores são. pois sua função (atividade. "o olho fala com o cérebro em uma língua altamente organizada e interpretada. 1959). Ambos localizam-se no lobo occipital. Diagrama esquemático dos sistemas visuais primário e associativo no homem: o primeiro realiza a sensação (detecta). Presumivelmente. Portanto. O cérebro do primata exibe extensas "áreas" corticais sensoriais que podem ser subdivididas em três partes: "áreas" primárias. detecção). nós faremos a suposição. Percepção A percepção não é a mera detecção ou reação específica aos estímulos internos e externos (isto é. as áreas corticais sensoriais secundária e terciária parecem continuar mais ou menos plásticas durante toda a vida do animal. secundárias e terciárias. O grau de processamento sensorial ou "interpretação" depende não somente da complexidade da mensagem sensorial mas também da estrutura do cérebro  não só da organização inata mas também da adquirida durante o desenvolvimento do animal em seu ambiente. Lembrem-se que o olho da rã tem "detectores de besouros" que respondem exclusivamente a insetos em movimento. Por outro lado.3).3. No gato ela parece perder sua plasticidade por ocasião do terceiro mês de vida do animal (Hubel e Wiesel. ao invés de transmitir uma cópia mais ou menos precisa da distribuição de luz nos receptores" (Lettvin et al. 67 . (b) o funcionamento da unidade central de percepção é fortemente influenciado Figura 4. 1962). que enquanto a sensação é a atividade específica de um sistema sensorial incluindo a área cortical sensorial primária. o segundo percebe (interpreta) os estímulos visuais. Esse processamento pode apresentar defeitos temporários ou permanentes  como na dislexia. Denominá-las-emos sistemas neurais plásticos diretamente ligados ao sistema sensorial. portanto.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO 2. processo) específica é a sensação.

quando . pode ser criada de novo a cada ato perceptivo. 68 Supomos  na linha de raciocínio de Bindra (1976)  que. enquanto um sistema sensorial tem uma composição neuronal aproximadamente constante.5). (Na literatura psicológica. ao contrário de sentir. (d) a percepção pode dirigir o movimento e também a ideação. a princesa. dois perceptos de um animal são equivalentes se e apenas se forem eliciados pela mesma (aproximadamente) sensação e envolvem o mesmo (aproximadamente) sistema neural plástico. Portanto. perceber é detectar e interpretar sinais que normalmente se originam em eventos externos ao SNC. que é a sensação de eventos corporais. Perceber é sempre perceber alguma coisa (ou melhor. alucinações. Dessa forma. (ii) Um sistema perceptivo é um sistema neural capaz de realizar processos perceptivos. o sistema perceptivo correspondente tem uma parte variável. enxergar uma coisa como sendo um pássaro e escutar o ruído que faz como sendo um canto são modos de perceber a coisa  que pode ou não ser um pássaro. eventos que ocorrem em uma coisa) de uma certa maneira.) No entanto. a experiência do membro fantasma. O esquema é sempre: o animal x no estado y percebe o objeto z como w. por sua vez modificado de Hebb (1949). por uma ou outra unidade motora – como mostrado pelo experimento de Held e Hein (1963)  bem como pelas unidades de ideação e por influxos sensoriais de diversas modalidades.5. Um animal anestesiado sente mas não percebe: os sinais sensoriais não chegam até as áreas sensoriais secundária e terciária porque o sistema ativador do tronco cerebral foi desativado. (i) Um percepto (ou processo perceptivo) é uma atividade específica (processo) de um sistema sensorial e de um(s) sistema(s) neural(is) diretamente acoplado(s) a ele. este problema é tratado sob o rótulo de equivalência de estímulos.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO Figura 4. (c) a unidade central de percepção pode ser ativada por diversas outras unidades acopladas a elas (por exemplo. Esquema de um sistema percepti vo: modificado de Bindra (1976).5. Isso explica porque um mesmo estímulo é capaz de ativar diferentes percepções (como no caso do pato-coelho das figuras cúbicas de Necker) e porque estímulos diferentes são capazes de dar origem à mesma percepção (como no caso da constância de tamanho) (Figura 4. imagens eidéticas). como conjecturado por Bindra (1976). Sentimo-nos justificados ao fazer a DEFINIÇÃO 4. Em outras palavras. isto é. Cuidado: a unidade central de percepção não precisa ser um sistema permanente (anatomicamente distinto) mas pode ser transitória. sonhos.

) De acordo com a Definição 4. Concorda. não apenas copiar (Neisser. (Especificamente. no entanto. as memórias e as expectativas. Isto é. o ambiente fortalece ou enfraquece e em geral controla a atividade do SNC em lugar de causá-la. O aparato apresentado no Capítulo 3 nos permite expressar essa idéia de um modo um tanto mais preciso.τ)∆ π s0(v. Isto é.1. o axioma anterior limita-se a situações nas quais existem coisas externas ao sistema perceptivo em questão (não necessariamente externas ao animal como um todo).5. Os tijolos dessas construções perceptivas são as sensações.τ) = {Fv (t)|t ∈ τ} ao processo (ou função) específico que v realiza durante o período de tempo τ quando em presença de uma coisa x externa a v. A teoria causal da percepção. (a) A mesma sensação elicia percepções diferentes. Interlúdio: Ding an sich versus Ding für uns O postulado 4. abrange tanto a percepção normal como a alucinação. de acordo com a qual as percepções são totalmente determinadas (causadas) pelos objetos percebidos.τ). Os estímulos externos e internos não põem o SNC em movimento mas modulam ou controlam sua incessante atividade.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO bêbada. como também ignora a contribuição essencial do componente plástico dos sistemas perceptivos. uma e a mesma pessoa perceberá o ambiente de modo diferente em diferentes estádios de seu desenvolvimento. Seja v um sistema perceptivo de um animal b e denominemos π s(v.5. e denominemos π s0(v. entre o objeto autônomo e nossa percepção (ou concepção) do 69 Figura 4. com a atual neurofisiologia da percepção. esse ponto de vista) afirma um importante aspecto da verdade. a hipótese de que a percepção de um objeto externo é a distorção que ele causa na atividade em curso de um sistema perceptivo.τ) = π s (v. especificamente. especificamente como o POSTULADO 4. essa teoria (ou melhor.1 salienta a diferença entre a coisa em si própria e a coisa para nós. 1967). Lembrem-se de como as coisas pareciam grandes na infância. 3. Entretanto. perceber é elaborar. a percepção de x por b durante τ é o processo p(x.) Nosso postulado discorda nitidamente da doutrina da apreensão direta dos empiristas e dos intuicionistas (principalmente os teóricos da Gestalt). Os estímulos externos são os referenciais e mais os gatilhos do que as causas. isto é. o fato de que em diferentes estados um e o mesmo sistema perceptivo perceberá de modo diferente um e o mesmo objeto. Em resumo. a percepção não requer a presença de uma coisa externa percebida: por conseguinte.τ) ao processo específico que acontece em v . (A diferença simétrica entre os conjuntos A e B é A ∆ B = A − B ∪ B − A. Por outro lado. percebe o príncipe como um sapo (ou vice-versa). durante o mesmo período de tempo em que x não age em v. Então b percebe x como a diferença simétrica entre os dois processos. Nosso postulado explica a natureza ativa e criativa da percepção e. de acordo com a composição neural plástica que está sendo ativada. (b) Diferentes sensações dão origem à mesma percepção ao a tivarem o mesmo sistema neural plástico. Sensação e percepção. ignora não só o fato de que nós (abençoadamente) não somos capazes de perceber a maioria das coisas que nos rodeiam. portanto.

E EV é Vênus como é visto ao pôr do sol. embora atraente. mostra apenas sua casca. de modo que parece bastante científica. Separar o Figura 4. Essa ação elimina a experiência subjetiva e. Tomem o caso favorito. quando o mundo tem um aspecto jovem. Alguns filósofos argumentaram que. E como ver é mais um processo neural do que um processo puramente físico. E a moral dessa moral para a Psicologia é igualmente óbvia: Embora perceber não envolva elaboração (ao invés da recordação passiva).SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO mesmo. O que provavelmente é verdade é que perceber é criativo e influenciado pela hipotetização e viceversa  como é de se esperar da natureza sistêmica do cérebro. Como os impulsos diferem nos dois casos e o sistema perceptivo não está no mesmo estado. 1974). nós mesmos. Separar o objeto (a coisa em si) do sujeito (o sujeito que percebe) exige um tipo diferente de processo cerebral. o fenômeno. em particular. dos filósofos a respeito do planeta Vênus e de nossa visão do mesmo na madrugada (estrela matutina ou EM) e no crepúsculo (estrela vespertina EV). Quando se vê o planeta de madrugada. não é o mesmo que conjeturar. desde que só existe uma coisa para ser vista. através de uma atmosfera clara e com olhos frescos. não é de admirar que EM ≠ EV. Vênus. deve ser falsa. o qual mudou muito pouco entre uma e outra observação. Um e o mesmo Ding an sich. A moral da história acima para a epistemologia deve ser clara: embora a percepção forneça alguma informação sobre a realidade. A visão de Vênus é idêntica ao disparo simultâneo de determinados neurônios da área visual do córtex em conseqüência da chegada de impulsos originados na retina e transmitidos pelo nervo óptico (Milner. isto é. Vênus.6). 1970). mostra apenas sua casca. tal que existem dois objetos fenomenológicos distintos (Figura 4. EM = EV. especificamente a hipotetização e a teorização das coisas propriamente ditas. isto é. A tese realista (não fenomenalista) de que a aparência é apenas uma parte da realidade pode ser resumida no A moral da história acima para a epistemologia deve ser clara: embora a percepção forneça alguma informação sobre a realidade. EM é Vênus como é visto de manhã. 70 . O objeto físico (a) e suas duas apreensões fenomenológicas (b) e (c). a aparência  ou a realidade-como-percebida. isto é. ainda que mal entendido. através de uma atmosfera suja e com olhos cansados  nenhuma das duas visões é idêntica a Vênus. quando o mundo tem uma aparência velha. isto é. a perspectiva de que perceber é a hipotetização ou inferência tácitas (Gregory. a aparência  ou a realidade-como-percebida. Mas a ciência será apenas parcial se não puder explicar a subjetividade. Por conseguinte. é percebido de maneira diferente.6. especificamente. ele não é o mesmo do que quando se o vê no final do dia. nem EM nem EV são iguais a Vênus.

2. e não é qualquer evento mas eventos que se originam em um neurossensor ou que agem sobre ele e que. explicar tudo que parece a um sujeito tanto em termos do estado de seu SNC como de suas adjacências imediatas. O próprio observador deve ser cambiável porque a percepção é um processo em um animal equipado com sistemas perceptivos. embora atraente. a buzina do automóvel que gera ondas sonoras que atingem nossos tímpanos. Alfred North Whitehead (1919). especificamente a hipotetização e a teorização das coisas propriamente ditas. Seja Φ a totalidade dos fatos possíveis que ocorrem em um animal b e em seu ambiente durante sua vida. Todas as ciências devem investigar fatos possivelmente reais e devem explicar fenômenos (aparências) em termos desses fatos e não o inverso. a perspectiva de que perceber é a hipotetização ou inferência tácitas (Gregory. Um observador seria incapaz de perceber qualquer coisa nele porque não existiria nada para ser diferenciado de nada e porque nada estaria acontecendo.2. O que provavelmente é verdade é que perceber é criativo e influenciado pela hipotetização e viceversa  como é de se esperar da natureza sistêmica do cérebro. não é o mesmo que conjeturar. Mapas perceptivos O que percebemos e como o fazemos? A resposta realista ingênua é: Percebemos as coisas como elas são. Assim. 4. No entanto. Ontologia e epistemologia cientificamente orientadas devem concentrar-se na realidade. deve ser falsa. Então Ψ está adequadamente incluído em Φ . Rudolf Carnap (1927) e Nelson Goodman (1951) violam ambas as regras e conseqüentemente estão em desacordo com a abordagem científica. um cachorro lambendo nossa mão e assim por diante. e ele não teria sensações tácteis porque tocar é perturbar  e ser perturbado. 1970). não percebemos as coisas mas eventos. Ele seria incapaz de ver porque somente as coisas que rebatem os fótons de volta podem ser vistas. Bertrand Russel (1914). E a moral dessa moral para a Psicologia é igualmente óbvia: Embora perceber não envolva elaboração (ao invés da recordação passiva). pertençam ao nosso espaço de eventos . não na aparência. Tudo que percebemos é um evento ou uma seqüência de eventos. ele nada ouviria porque somente coisas em movimento podem gerar ondas sonoras. A tese realista (não fenomenalista) de que a aparência é apenas uma parte da realidade pode ser resumida no POSTULADO 4. Esta suposição sugere duas regras: REGRA 4. E os 71 filósofos que. e nem todos os eventos mas apenas alguns dos que nos afetam: o reflexo da luz incidindo nesta página e atingindo nossas retinas. REGRA 4. Ernst Mach (1886). Por conseguinte. e Ψ a totalidade de perceptos possíveis de b (ou o mundo fenomenológico de b) durante o mesmo período.1. em qualquer caso. consideremos o universo homogêneo e desprovido de eventos de Parmênides. negam a possibilidade de oferecer uma explicação neurofisiológica das características fenomenológicas da experiência humana e nada fazem para auxiliar nas tentativas dos psicólogos fisiologistas em fazer exatamente isso  especificamente.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO objeto (a coisa em si) do sujeito (o sujeito que percebe) exige um tipo diferente de processo cerebral. As filosofias fenomenalistas de Richard Avenarius (1888-90). como Thomas Nagel (1974) e a maioria dos psicólogos filosóficos britânicos.

mostrados esparramando-se no córtex sensóriomotor (vejam Penfield e Rasmussen. 1977a ou b) E uma resposta curta à pergunta satélite "Como o animal b percebe eventos em E(b)?" é esta: "O animal b mapeia eventos de E(b) para algum subsistema de seu próprio sistema perceptivo (por exemplo.) Pode parecer à primeira vista que experiências com membros fantasma refutam o postulado. Na verdade. Se antes da amputação os eventos que . os polegares) projetam-se em grandes áreas corticais. Ainda assim é um mapa. de outro. (Ver Bunge. isto é. E as nossas percepções são. para a conjetura de que os mapas espaciais estão localizados no hipocampo. ou família de todos os subconjuntos.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO (ou conjunto de eventos que ocorrem dentro de nós). ou mapa. o ponto é que cada conjunto de pontos (não cada ponto) do corpo tem uma única imagem no córtex sensório-motor. que é muito mais geral do que o conceito de função preservadora de proximidade. isto é. uma representação de determinados conjuntos (eventos) em um outro conjunto (de eventos). ou talvez 72 em algum outro lugar do cérebro. que o mapa somatossensorial é uma transformação topológica contínua. os eventos externos que conseguem ativar os neurossensores são mapeados no córtex sensorial. e E(c) ⊂ S(c) × S(c) seu espaço de eventos perceptivos. Na verdade. 1970. nossa resposta à pergunta "O que o animal b percebe?" é "O animal b percebe eventos no espaço de eventos E(b)". por sua vez. usada na geografia. supõe. Esta suposição não especifica os esquemas corporais. onde 2S é o conjunto de potências. seja E(b) ⊂ S(b) × S(b) o espaço de eventos do animal. nem mesmo diz quantos existem. Cada um desses mapas. distorcido e cambiante. essa suposição pode ser esclarecida pelo POSTULADO 4. e muito menos preservadores de distância. Além disso. determinadas áreas pequenas (por exemplo. denominados esquemas corporais. de S. De modo análogo. Seja b um animal equipado com um sistema perceptivo c e chamemos de S(b) o estado de espaços de b e de S(c) o estado de espaços de c.3. (Werner. Os primeiros representam no córtex os eventos que acontecem nos membros. a forma geral de cada mapa corpóreo é m:S(b) × 2E(b) → 2E(c). E(b) está incluído em S(b) x S(b). Estejam certos de que esses mapas não são simples: pontos que são próximos no corpo podem ter imagens corticais distantes e vice-versa." Por certo esse mapa não é a projeção simples imaginada por Kepler e Descartes: é parcial. de um lado. o córtex sensorial) c. depende tanto do tipo de evento corporal quanto do estado no qual está o animal. (Ver O'Keefe e Nadel. Então existe um conjunto de injeções (uma a uma e em funções) do conjunto de eventos corporais para o conjunto de eventos perceptivos. Apenas salientamos que os mapas corporais não são preservadores de proximidade. Entretanto. isto é. o conjunto de pares ordenados de estados possíveis de b. E(c). Isto é. Em outras palavras. eventos na parte plástica de nosso próprio córtex sensorial. 1950). Deixamos essa tarefa para a Psicobiologia. por outro lado. e os mapas do mundo externo.) A suposição sobre a representação ou projeção de eventos corporais no córtex pode ser elucidada com auxílio do conceito matemático geral de função. na pele e em outras partes do corpo: são os famosos homúnculos (homenzinhos) sensorial e motor. 1978. Não é o caso porque os esquemas corporais são aprendidos. e enquanto grandes áreas do corpo são parcamente representadas no córtex. existem nos mamíferos dois conjuntos de mapas perceptivos: os mapas somatossensoriais e motores (ou esquemas corporais).

ou ε. aprendidos. DEFINIÇÃO 4. Somente neste caso são os eventos corporais causados por eventos externos. seja E(b) ⊂ S(b) × S(b) o espaço de eventos do animal e E(c) ⊂ S(c) × S(c) seu espaço de 73 eventos perceptivos. Reparem que um animal pode carecer de sensores adequados ou pode tê-los mas não adequadamente conectados ao córtex sensorial. quando no estado s ∈ S(b). conjunto de eventos corporais de b >. b é insensível a x. p(s. se] k(x) = < s. os eventos em x são imperceptíveis a b quando no estado s [isto é. e os mapas são muito mais numerosos do que os esquemas corporais. com y ∈ 2E(b) e. Então. Além disso. Os mapas do mundo externo são semelhantes aos esquemas corporais. senão totalmente. Seja E(e) um conjunto de eventos do ambiente a de um animal b equipado com um sistema perceptivo c.   Vejam o diagrama comutativo: É provável que os mapas do mundo externo sejam amplamente. Reparem que.6. Nossa suposição é o POSTULADO 4. Por exemplo. por sua vez. Por exemplo. espaço de eventos corporais E(b) e espaço de eventos perceptivos E(c). Então quando está no estado s ∈ S(b). os dois conjuntos de mapas são igualmente numerosos. Então existe um conjunto k de mapas parciais dos conjuntos de eventos externos de E(e) para pares ordenados < estado de b. parece que existem aproximadamente uma dúzia de mapas visuais. uma vez aprendida. cada um representando uma característica  forma. tal que m(s.y >. chamemos de S(b) o espaço de estados de b e de E(e) o espaço de estados de e. em particular a locomoção. E os seres humanos com lesões da área cortical visual são incapazes de enxergar determinadas coisas em suas áreas visuais ou podem mesmo ser totalmente cegos.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO ocorrem no membro são projetados em determinados eventos corticais. Seja b um animal com espaço de estados S(b). os mapas do .x) ∈ 2E(c) (isto é. E é certo que. por sua vez. Seja b um animal com um sistema perceptivo c em um ambiente e. ε :2 E(e) k → S(a) × 2E(b) p→ 2E(c).y) ∈ 2E(c). se aqueles eventos projetarem-se para o córtex c de b).4.7. Caso contrário. Mais na Seção 4. cor. b percebe eventos externos em x ∈ 2E(e) se e somente se [os mesmos causarem eventos corporais que. da mesma forma que os esquemas corporais. Além do mais. e cada mapa k combina-se com um mapa p para formar um mapa do mundo externo de b em e. eventos imperceptíveis ou não causam quaisquer eventos corporais ou causam-nos mas não se projetam para o sistema perceptivo]. uma vez aprendidos. exceto no caso de lesões cerebrais. isto é. DEFINIÇÃO 4. b sente os eventos da coleção x ∈ 2E(b) se e somente se tiver um esquema corporal m. e um outro conjunto p de mapas parciais do último conjunto para conjuntos de eventos perceptivos. é notavelmente constante. etc. Caso contrário. movimento. os seres humanos não podem detectar campos magnéticos ou o plano de polarização de luz polarizada. Isto é. Além disso. então após a operação os eventos no coto são representados pelos mesmos eventos corticais: a imagem corporal. sejam projetados no córtex sensorial c. ajudam a guiar o comportamento.

Pérez et al. Em outras palavras. Metzler. de natureza programática. ver Hubel e Wiesel. Chamem de X um ponto (ou região) no córtex visual do . enquanto a dualista não. ou pelo influxo sensorial para um único receptor. 1977. Por exemplo. salientamos que existem todo um atlas de mapas perceptivos. Uma implementação mais profunda. Uma delas é supor que o mapa é uma representação conformacional (Schwartz. 1977)  que pressupõe que a área visual é uma folha em duas dimensões. designem a cada evento (ou conjunto de eventos) uma coordenada. Esses vários mapas do mundo externo. Uma tal integração. (Lembrem-se das observações sobre a percepção visual de pessoas que nasceram cegas e recuperaram a visão depois de educar seus sistemas hápticos. (Para os experimentos pioneiros. portanto. 74 fica ao sabor da experiência a tal ponto que um animal impedido de ter experiências sensoriais de um certo tipo durante o começo de sua vida nunca será capaz de sentir ou perceber nessa mesma modalidade. Esta proposta tem duas características atraentes. Na verdade. são interrelacionados. ver Wilson e Cowan. 1965. a percepção total ou do tipo cruzada de uma mão familiar pode ser conseguida somente por sua percepção háptica porque os receptores tácteis ativam outros. ouvir. 1975. embora este fato também possa ser explicado pela ação do sistema táctil sobre o sistema visual. de um ponto de vista neurobiológico.4 não define com precisão o mapa do mundo externo de um animal e é. De fato. uma invariância exigida para o reconhecimento de formas. um conjunto para cada modalidade. Adaptação visual e reconhecimento de padrões O Postulado 4. etc  provavelmente cada um com sua própria topologia distintiva. 1962. Existem diversas maneiras de implementar esse programa. Para modelos matemáticos. pode-se supor que consiste da ativação simultânea de dois ou mais sistemas perceptivos. 1973. e por conseguinte mais arriscada do programa é o trabalho de Cowan e Wilson (1976) sobre adaptação visual. Este processo evolutivo. da qual participa centralmente o giro angular.) O organismo não só aprende a integrar as atividades de seus vários sistemas perceptivos  isto é. auditivo. o jovem vertebrado aprende a tocar. a concepção psicobiológica pode nos ensinar algo. Neste caso. aprender a perceber é um processo de organização das junções sinápticas no córtex sensorial. Uma delas é que as representações conformacionais preservam os ângulos. Além do mais. é aprendida. suas diversas modalidades de percepção. entretanto. longe de ser determinado geneticamente em detalhe. Malsburg. Wiesel e Hubel. Tal integração das várias modalidades perceptivas é facilmente explicada.) 5. Considerem um sujeito olhando para uma figura e suponham que tanto o espaço de eventos corticais quanto o espaço de eventos do campo perceptivo (isto é.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO mundo externo não são correspondências ponto a ponto mas conjunto a conjunto. Isso pode ser realizado pelo influxo sensorial para receptores de dois ou mais tipos. háptico. Em outras palavras. aprende também a perceber em cada modalidade. cheirar e enxergar. Uma outra característica interessante desta hipótese é que a mesma explica o intrigante fenômeno da constância de tamanho. e a ativação de outros sistemas perceptivos por intermédio de sistemas neurais associados. pelo menos em princípio. Nass e Cooper. mais uma vez. 1975. dentro da estrutura psicobiológica. 1973. a coleção de eventos que o sujeito pode enxergar) sejam mapeados em espaços métricos. Especificamente. existem diversos espaços perceptivos: visual.

SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO sujeito e de X' um ponto em seu campo visual. onde k e (excitação) e k i (inibição) são funções com valores reais e X − X' é a distância entre o evento estímulo e o evento resposta (perceber). (Isto é. Os resultados experimentais aparentemente favorecem o Modelo 2. a contribuição da inibição é tanto maior quanto maior for a própria resposta. a inibição lateral parece ser peculiar ao tecido nervoso. uma parte da estrutura da realidade. Assim. a inibição é modificada pela própria resposta. Especificamente. o estímulo S(k) fica à escolha do experimentador e a resposta R(k) (em espículas por segundo) é mensurável por meio de microeletrodos. Dois modelos relativamente simples são sugeridos. a resposta é proporcional ao excesso de excitação em relação à inibição.Ki(k)R(k). Então a resposta do córtex a um padrão luminoso externo dependerá da excitação e inibição. com intensidade s(X') no ponto X'. isto é. Com mais razão.) Além disso. Além disso. bem como do próprio estímulo. Incidentalmente. são Modelo 1 e R(k) = [Ke(k) . a percepção nos diz algo sobre a estrutura espaçotemporal da aparência. a resposta r(X) no ponto X a um estímulo luminoso no ponto X' é r(X) = k e(X − X') − k i (X − X'). os resultados experimentais são expressados em termos diferentes  que no entanto são apenas transformações de Fourier das funções anteriores. é obtida pela soma algébrica da excitação e da inibição: r(X) = ∫X's(X')k e (X – X') – ∫X's(X')k i (X – X') à excitação e à inibição. um mapa cerebral de uma porção razoável da realidade representa não somente alguns dos eventos que ocorrem nas adjacências mas também suas relações mútuas. de forma que ficamos com a equação integral r(X) = ∫X's(X')k e (X – X') – ∫X'r(X')k i (X – X') Modelo 2 Basta dessas duas hipóteses que ligam a resposta fisiológica ao estímulo. é claro.Ki(k)]S(k) R(k) = Ke(k)S(k) . notando-se que a inibição age somente ao redor do ponto que se excita. em símbolos óbvios. Obtenhamos então as transformações de Fourier das equações precedentes com o auxílio do teorema da convolução. as aparências enganam: a percepção pode nem mesmo preservar a ordem temporal dos eventos. No primeiro. Por outro lado. Sendo ou não verdadeiros os modelos acima. . (Esta é a hipótese da inibição lateral. A resposta a um estímulo luminoso arbitrário espraiado por todo o campo visual do sujeito. os pontos importantes são que esses mapas existem e que podem ser investigados matemática e experimentalmente. k é a freqüência espacial (em ciclos por grau de ângulo visual). Ambas são expressadas em termos neurofisiológicos. como sabemos a partir de casos como o do raio e do trovão. a segunda ocorrência do estímulo na equação anterior deve ser substituída pela resposta. o primeiro é um modelo de feedforward enquanto o segundo é um modelo de feedback. Por conseguinte.) No primeiro caso. o córtex sensorial é um tipo de tela afinal de contas. de onde o R(k) = Modelo 2 Ke (k ) S (k ) 1+ K i (k ) Nessas fórmulas. a percepção de intervalos de tempo em geral diferirão dos lapsos de tempo físico: os relógios biológicos são menos confiáveis do que os relógios 75 Modelo 1 O segundo modelo é obtido como uma correção do anterior. Mas. Os resultados. de farta confirmação. no segundo.

6. com auxílio da função de duração t f apresentada alhures (Bunge. para cada evento x ∈ E(a) e uma unidade fixa de tempo u ∈ Ut.R > é um um padrão espacial. E = < E. Ao compararmos o tempo físico com o tempo psicológico. ou as letras em um livro. h[Ri (x. possivelmente da mesma natureza que f. se for capaz de mapear o padrão em seu próprio córtex sensorial. Um outro assunto que se t rna mais o claro sob a perspectiva monista é o reconhecimento de padrões.u) − t a (x. quando em algum estado. é aquele bastante especial de padrão espacial ou arranjo regular de coisas perceptíveis ou eventos no espaço. aumenta a discrepância entre a duração percebida e a duração do relógio. Então. esta quantidade deve depender de certas variáveis neurofisiológicas. tais como as ondas em um lago. se Ri está em R.u|/t f (x. A discrepância relativa entre tempo físico e tempo psicológico. e de que o tempo percebido de espera é proporcional ao quadrado da duração de relógio.15). Seja f um relógio e x uma coisa. Definição 6. O conjunto E(x) de eventos é o dos eventos públicos. Então. então existe uma relação S i em S tal que.4. entre tempo físico e psicológico. usando as noções que constam do Postulado 4. bem como determinadas drogas. O conceito de padrão que aparece nos estudos de reconhecimento de padrões. Percepção anormal . Também esclarece os experimentos sobre percepção de tempo. para quaisquer conjuntos x e y de eventos externos. Seja E um conjunto não vazio de eventos e R um conjunto de relações espaciais definidas em E. principalmente sobre a descoberta de que a privação sensorial.u). Portanto. onde f denota um relógio físico e a um animal.h(y)]. inclui o conjunto E(a) de eventos privados que ocorrem no cérebro do animal. Isso tira todo o mistério da distinção feita por Bergson. e Ut é o conjunto de unidades de tempo. tanto nos 76 estudos psicológicos como nos de inteligência artificial. com espaço de eventos E(x). Mais precisamente. Em troca. alguns dos quais o animal pode perceber.8. b mapeia E homomorficamente em um padrão neural N = < 2E(c) . isto é. Os dois podem ser comparados como se segue. 1977a. empregamos duas especializações daquela função: t f:E(x) × Ut → R e t a:E(a) × Ut → R. onde h é o homomorfismo que representa os padrões externos como padrões neurais.t a ) = | t f (x.y)] = Si[h(x). Podemos elucidar o conceito de padrão espacial como se segue. S >. a duração métrica é um mapa t f de eventos nos números reais satisfazendo determinadas condições. Então b é capaz de reconhecer E se e somente se. onde S é uma coleção de relações (não necessariamente espaciais) entre os eventos corticais em b.é definida como sendo δ (t f . podemos elaborar a DEFINIÇÃO 4. os ladrilhos em um piso. Seja E = < 2E(e). E diremos que um animal é capaz de reconhecer um padrão espacial quando ele conseguir perceber os eventos nesse padrão em suas relações adequadas.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO físicos. R > um padrão espacial de eventos no ambiente de um organismo b e seja E(c) o espaço de eventos perceptivos de b. sugestiva porém obscura.

(c) Ilusão: quando a visão muda de (b) para (c). as linhas verticais parecem inclinadas na direção oposta. Mas por certo as alucinações podem ocorrer sem essas alterações metabólicas. Alguns desses processos podem ser induzidos artificialmente por drogas neuroativas. Uma das explicações atribui esta ilusão à habituação ou fadiga dos Figura 4. Assim.) 77 . E todos os índios mexicanos Huichol parecem perceber aproximadamente os mesmos padrões geométricos quando sob a ação do peiote  especificamente. J. Ilusão presumivelmente produzida pela fadiga dos neurônios expostos ao objeto estímulo (b) por aproximadamente um minuto .7. as alucinações induzidas por drogas são notavelmente constantes em indivíduos que pertencem à mesma cultura.7. para o psicobiólogo são processos cerebrais  raros talvez porém obedecendo leis. não resta dúvida de que existam drogas psicotrópicas que. esquematizado na Figura 4. (De Blakemore. 1973. ao alterarem o metabolismo cerebral e a ação dos neurotransmissores. Gibson (1933). Considerem o clássico experimento de J. a maioria das formas vistas algumas horas depois da administração de uma droga são como túneis de grades. como a torazina. (a) Percepção normal das grades verticais. (b) Habituação ("adaptação") às grades inclinadas. As mais comuns são os pós-efeitos. 1975). aqueles encontrados em seus bordados (Siegel e West. Além do mais. A ilusão de Gibson. tais como as pós-imagens e as ilusões de peso.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO Enquanto para a mente não científica as alucinações são travessuras de uma mente autônoma. como o LSD e o álcool  e podem ser eliminados por mais drogas. distorcem ordenadamente os processos da percepção. Por exemplo.

pode consistir na ativação da área do mapa somatotópico cortical que costumava registrar os sinais provenientes do membro antes da amputação. E se assim for. Existem diversas explicações neurofisiológicas possíveis 78 para este fenômeno. Essas ilusões são algumas vezes atribuídas mais a estratégias (ou softwares) erradas do que à ativação do sistema neural errado (Gregory. O sujeito passa de uma percepção para outra assim que os neurônios envolvidos em uma delas ficam habituados (fatigados). "Dor no dedão direito"  não obstante o tipo de estimulação. igual quando sentimos os eventos ocorrendo na ponta da caneta como acontecendo lá e não nas pontas de nossos dedos (Pribram. Uma quarta: o fenômeno é do tipo projetivo. oscilar entre duas hipóteses igualmente prováveis (Gregory. no caso dos animais. A experiência exossomática não é diferente de qualquer outra retrospecção. de tal forma que a distinção disfunção-estratégia não é mais dicotomia do que a distinção hardwaresoftware. Essa explicação parece mais plausível do que aquela segundo a qual o fenômeno é racional. nos dirá o que acontece no SNC do paciente que vivencia o membro fantasma. passeando em uma praia. relatadas pelos sujeitos que fizeram "viagens" de LSD ou que estiveram à beira da morte? Será que elas provam que a mente pode se destacar do corpo e realmente vê-lo de fora? As experiências exossomáticas são reais mas sua explicação animista está incorreta porque não há como enxergar sem o sistema visual. o desenho do vaso-perfil e os esboços confusos de Escher. algumas das quais são mutuamente compatíveis. não o que "está em sua mente". Qualquer das explicações que acabe se mostrando correta. E o que dizer das experiências de deixar o próprio corpo. para decidir entre as duas. Uma delas é que a experiência do membro fantasma é aprendida. ainda assim é um processo perfeitamente ordenado embora resulte em um mapa errado das coisas. pode ser explicada de modo semelhante. podem transmitir somente mensagens de um determinado tipo  por exemplo. não sendo receptores primários mas apenas transmissores. 1969). Chamem isso de disfunção do sistema perceptivo se quiserem. Uma terceira: As terminações nervosas do coto. 1971). 1973). Uma ilusão que tem cativado os filósofos da mente é a experiência do membro fantasma. a mesma excitação pode aparecer em pontos mais avançados das vias através do disparo espontâneo de neurônios (Hebb. Entretanto. devemos ser capazes de produzir essas mudanças gestálticas em primatas sub-humanos e monitorizar a atividade de seus neurônios corticais visuais. tais como o cubo de Necker. 1968). mais especificamente. Porém hoje em dia isso não é tecnicamente exeqüível. Em ambos os casos. em que nos "enxergamos" como outrem  por exemplo. Se uma pessoa pudesse passar sem ele não deveria prezá-lo tanto e ao invés do usar óculos para corrigir algumas de suas disfunções ela deveria mandar consertar a mente. já que não ocorre antes de 4 anos de idade. A percepção de figuras ambíguas. suplementamos nossas . Algumas ilusões provavelmente envolvem os sistemas ideacionais que produzem uma expectativa  baseada na experiência  que distorce a percepção. mesmo expectativas erradas e inferências enganadas podem em última análise ser explicadas como processos neurais. Uma outra explicação possível é esta: Embora depois da amputação não exista input sensorial chegando dos sítios periféricos de costume. tais como a de tamanho-peso (onde o objeto maior é percebido como sendo o mais pesado embora seja na realidade mais leve) podem requerer explicações diferentes. 1973). Outras ilusões. No entanto.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO neurossensores que detectam linhas inclinadas (Blackmore e Campbell.

atividades cerebrais . ou nossas memórias delas. o qual "faz o máximo para consertar as coisas e produzir imagens oníricas com um mínimo de coerência. por outro lado. 1977. De modo análogo. de acordo com o diagrama de blocos da Figura 4. como qualquer outro pós-efeito. Em ambos os casos falta o controle do influxo sensorial.) Uma teoria psicofisiológica recente implica o tronco cerebral pontino e o prosencéfalo na geração dos estados oníricos. (Os computadores. Longe de serem entidades imateriais. Essa inércia consiste no fato de que uma atividade eliciada por eventos passados continua por algum tempo mais depois de cessada sua causa e se sobrepõe à nova atividade disparada pelo novo evento. e ambos ilustram a atividade autônoma e inexorável do cérebro. Os sonhos podem muito bem ser alucinações fazendo par com aquelas produzidas pela privação sensorial durante a vigília. os sonhos são atividades cerebrais em circuito fechado.8 (Hobson e McCarley. com invenções  principalmente agora. suplementamos todo o tempo até nossas sensações normais. 1347). percepções reais. são sem objetivo nem esmero. O tronco cerebral estimula o prosencéfalo. a percepção anormal e os sonhos são. Afinal de contas. Uma pósimagem visual ou auditiva. cinema e televisão. na era dos espelhos. a partir de sinais relativamente embaralhados a ele enviados pelo tronco cerebral" (Hobson e McCarley. nem o mito psicanalítico do Inconsciente tirando vantagem do cochilo do censor. De qualquer forma. 1977).8. de direito. 79 . Este fenômeno refuta a teoria causal da percepção mas não a hipótese da identidade psiconeural. Teoria de Hobson-McCarley sobre a geração do estado onírico. De modo breve.SENSAÇÃO E PERCEPÇÃO Figura 4. uma palavra sobre as pós-imagens e os sonhos. e longe de terem um propósito. é um caso de inércia e por conseguinte explicável em termos neurofisiológicos. as pós-imagens perderam o status de esteio do dualismo psiconeural desde que se descobriu (Scott e Powell. Finalmente. não alucinam nem sonham quando desligados: simplesmente "apagam". 1963) que até mesmo os macacos são capazes de tê-las. os sonhos não sustentam o mito pré-histórico da existência de espíritos desincorporados que penetram em nossos corpos durante o sono. p.