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Percepção e Realidade - Cognição

Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor.

Nossa percepção não identifica o mundo exterior como ele é na realidade, e sim como as transformações, efetuadas pelos nossos órgãos dos sentidos nos permitem reconhecê-lo. Assim é que transformamos fótons em imagens, vibrações em sons e ruídos e reações químicas em cheiros e gostos específicos. Na verdade, o universo é incolor, inodoro, insípido e silencioso, excluindo-se a possibilidade que temos de percebê-lo de outra forma. Para a moderna neurociência, o real conceito de percepção começou a brotar, quandoWeber e Fechner descobriram que o sistema sensorial extrai quatro atributos básicos de um estímulo: modalidade, intensidade, tempo e localização. O ser humano se espalha pela Terra em muitas localidades geográficas, em diversas culturas e sociedades. Acompanhando essa diversidade existem também variações nosmundos percebidos pelas pessoas, há diferenças na maneira pela qual os mesmos objetos são percebidos em diferentes sistemas culturais. Uma criança que vive em nossos centros urbanos, por exemplo, pode distinguir sem hesitação um grande número de diferentes marcas de carros ao presenciar o trânsito das ruas, enquanto uma criança que vive em regiões mais rurais e distantes desses grandes centros não veria senão maiores diferenças entre as marcas e modelos observando o movimento da mesma rua. Por outro lado, uma criança urbana ficaria maravilhada diante da facilidade com que seus colegas rurais reconhecem diferentes modelos de ninhos de aves e de sua capacidade para distinguir as menores variações nos tipos de árvores.

Sensopercepção
Hoje não mais se admite, como acontecia no passado, que o nosso universo perceptivo resulte do encontro entre um cérebro simples e as propriedades físicas de um estímulo. Na verdade, as percepções diferem, qualitativamente, das características físicas do estímulo, porque o cérebro extrai dele informações e as interpretam em função de experiências anteriores com as quais ela se associe. Nós experimentamos ondas eletromagnéticas, não como ondas, mas como cores e as identificamos pautados em experiências anteriores. Experimentamos vibrações mas como sons, substâncias químicas dissolvidas em ar ou água como cheiros e gostos específicos. Cores, tons, cheiros e gostos são construções da mente, à partir de experiências sensoriais. Eles não existem, como tais, fora do nosso cérebro. Assim, já se pode responder a uma das questões tradicionais dos filósofos: Há som, quando uma árvore desaba numa floresta, se não tiver alguém para ouvir ? Não, a queda da árvore gera vibrações e o som só ocorre se elas forem percebidas por um ser vivo capaz de identificar tais vibrações como estímulos sonoros. A peculiaridade da resposta de cada órgão sensorial é devida à área neurológica onde terminam as vias aferentes provindas do receptor periférico. O sistema sensorial começa a operar quando um estímulo, via de regra, ambiental, é detectado por um neurônio sensitivo, o primeiro receptor sensorial. Este converte a expressão física do estímulo (luz, som, calor, pressão, paladar, cheiro ) em potenciais de ação, que o transformam em sinais elétricos. Daí ele é conduzido a uma área de processamento primário, onde se elaboram as características iniciais da informação: cor, forma, distância, tonalidade, etc, de acordo com a natureza do estímulo original. Em seguida, a informação, já elaborada, é transmitida aos centros de processamento secundário do tálamo. Se a informação é originada por estímulos olfativos, ela vai ser processada no bulbo olfatório e depois segue para a parte média do lobo temporal. Nos centros

mais delicadas e mais variadas serão as suas sensações. esse grupo engloba três tipos de sensações: motoras. gustativas. através do qual os objetos são apreendidos. Seus receptores estão localizados na face interna desses órgãos. Unidade dos Sentidos Para maior eficiência dos sentidos. a sensação é um fenômeno psíquico elementar que resulta da ação de estímulos externos sobre os nossos órgãos dos sentidos. Os receptores dessas sensações se acham localizados nos músculos. com o mundo exterior e com as coisas que nos rodeiam. paladar. de origem límbica ou cortical. No processo do conhecimento e do auto-conhecimento objetivo as sensações ocupam o primeiro grau. relacionadas com experiências passadas similares. As sensações internas refletem os movimentos de partes isoladas do nosso corpo e o estado dos órgãos internos. Portanto. têm o nome de cenestesia. Portanto. os vários órgãos devem funcionar integradamente. de fato. Cada sistema é nomeado de acordo com o tipo da informação: visão. pulmões etc. sensações visuais. Sensação Em seu significado preciso. Para tal nos valemos dos órgãos dos sentidos. Para percebermos o mundo ao redor teremos de nos valer dos nossos sistemas sensoriais. que indicam a posição do corpo e de suas partes. As sensações podem ser classificadas em três grupos principais: externas. Outros sensores sutis são capazes de captar informações mais refinadas. As sensações orgânicas são. A resposta específica (sensação) de cada órgão dos sentidos aos estímulos que agem sobre eles é conseqüência da adaptação desse órgão a esse tipo determinado de estímulo. isto é. mal-estar. que recebem estímulos denominados cinestésicos. olfativas e táteis. sede. intestinos. portanto. são responsáveis pela monitorização dos movimentos. As sensações de equilíbrio provêm da parte interna do ouvido e indicam a posição do corpo e da cabeça. fadiga. A sensação especial se manifesta sob a forma de sensibilidade para a fome. a natureza e a importância do que foi detectado são determinados por um processo de identificação consciente a que denominamos percepção. As sensações externas são aquelas que refletem as propriedades e aspectos de tudo. tato. enquanto outros. excitação sexual e volume sanguíneo. A percepção do mundo objectual não depende exclusivamente do aparelho sensorial específico. as proprioceptivas. olfato e gravidade. e se originam nos órgãos internos: estômago. à informação se incorpora à outras. O conhecimento do mundo exterior resulta das sensações dele captadas e quanto mais desenvolvidos forem os órgãos dos sentidos e o sistema nervoso do animal. humanamente perceptível. A esse nível. O que percebemos? Na realidade. captam estímulos proprioceptivos. Esta última ligada à sensação de equilíbrio. Essas sensações internas vagas e indiferenciadas que nos dão a sensibilidade de bem-estar. segura e coordenadamente. São as sensações que nos relacionam com nosso próprio organismo. deve haver uma concordância entre as sensações e os estímulos que as produzem. esta informação é enviada ao seu centro cortical específico. Discretos receptores sensitivos. que se encontra no mundo exterior. vamos falar antes da Sensação e depois daPercepção. perguntas distintas podem ser feitas sobre essa questão: o que percebemos e o que sentimos. auxiliando-nos a realizar outras atividades cinéticas. de mal-estar ou bem-estar. audição. já bastante modificada. Entre o estado psicológico atual e o estímulo exterior há um fator causal e determinante ao qual designamos sensação. nos tendões e na superfície dos diferentes órgãos internos. não depende exclusivamente do sentido da .talâmicos.. tais como temperatura. Finalmente. As sensações motoras nos orientam sobre os movimentos dos membros e do nosso corpo. de equilíbrio e orgânicas. internas eespeciais. Ao conjunto dessas sensações se denomina sensibilidade geral. etc. auditivas.

Basicamente. antecipadamente. a percepção. etc. vermelho e com parte de seu corpo enegrecido. A percepção consiste na apreensão de uma totalidade e sua organização consciente não é uma simples adição de estímulos locais e temporais captados pelos órgãos dos sentidos. na realidade. As impressões dos vários sentidos são. não sabemos se elas relacionam à realidade do mundo externo exatamente da mesma maneira que a realidade percebida por nosso semelhante. O gosto de uma comida depende muito do funcionamento conjunto dos receptores do sabor e do aroma. como por exemplo a grandeza. talvez. por exemplo. pode ser a mesma para vários sentidos. apesar das discrepâncias na situação física real.visão. etc. somente será percebido como uma maçã podre se a pessoa souber. Dessa forma. em determinados estados emocionais. o som provenha dos alto-falantes colocados em lugares inteiramente diferentes. dentro deste conhecimento. Talvez nunca saberemos. o do tato. Uma determinada qualidade perceptual. elas representam os elementos necessários ao conhecimento sem os quais não existiriam percepções. É por isso que a comida parece insípida quando nosso nariz está entupido. até as sensações podem estar comprometidas. as vezes. combinadas ou organizadas para apresentar um quadro mais ou menos estável da realidade à nossa volta. através dos olhos. não seja exatamente igual à cor e cheiro que o outro percebe. embora. Quando vemos uma fita de cinema. souber ainda que maçãs apodrecem e. além disso. a título de simplificação e a grosso modo. Geralmente não é apenas um sentido que atua na percepção dos objetos. Nossa experiência (consciência) do mundo revela que não temos apenas sensações isoladas dele. ouvimos as vozes como vindo diretamente dos lábios em movimento dos autores. da apreensão de uma situação objetiva baseada em sensações. envolvem predominantemente elementos neurofisiológicos e as percepções. quando apodrecem. A maior parte de nossas percepções conscientes provém do meio externo. um objeto pode ser visto grande. em si mesmas. o que chega à consciência são configurações globais. talvez aquilo que um deles percebe como uma cor ou cheiro. nosso sistema sensorial "dá um jeito" para que a situação se acomode. A sensação visual de um objeto arredondado. acoplamos às qualidades objetivas dos sentidos outros elementos subjetivos e próprios de cada indivíduo. ou da audição. portanto. dos ouvidos e das mãos. os sentidos funcionam juntos e se completam. ao contrário da sensação. de certa maneira. com certeza. Desta forma o mais correto seria considerar que as sensações. soar grande. é através da ação cooperativa dos sentidos que conseguimos um quadro consistente. hipoestesias. objetos podem ser vistos. acompanhada de representações e freqüentemente de juízos. Percepção Ainda que dois seres humanos dividam a mesma arquitetura biológica e genética. acrescentamos aos estímulos elementos da memória. até cheirar grande. dar a impressão de grande ao tato e. não é uma fotografia dos objetos do mundo determinada exclusivamente pelas qualidades objetivas do estímulo. cooperação e concordância dos vários sentidos é tanta que. do juízo e do afeto. do raciocínio. A percepção. nos estados hístero-ansiosos com profundas alterações nas sensações corpóreas: anestesias. ao contrário. envolvem predominantemente elementos psicológicos. Ocorre que. Nós damos o mesmo nome a esta percepção mas. dinâmicas e perfeitamente integradas de sensações. enquanto as percepções seriam determinadas por fatores psicológicos. útil e realista do ambiente físico que nos cerca. Entretanto. ouvidos e sentidos em movimento simultaneamente. A tendência de integração. o que é uma maçã. por exemplo. Embora as sensações não nos ofereçam. o conhecimento do mundo. O termo percepção designa o ato pelo qual tomamos conhecimento de um objeto do meio exterior. adquirem certas características perfeitamente compatíveis com o estímulo sentido. nem isso podemos dizer. parestesias. Os estímulos devem ser localizados de maneira idêntica. Poderíamos. e. considerar que as sensações seriam determinadas por fatores exclusivamente neurofisiológicos. nas pessoas normais. pois as sensações dos órgãos internos não são conscientes na maioria das vezes e desempenham papel limitado na elaboração do conhecimento do mundo. Na percepção. . É o que acontece. Trata-se.

o objeto sensível está sempre se relacionando com esse fundo perceptivo individual e existirá sempre uma apreciável diferença subjetiva entre o objeto em si e o fundo pessoal sobre o qual ele se faz representar. A percepção proporciona dados sobre o fisicamente sentido. . ou seja. anterior a toda e qualquer compreensão e anterior a toda e qualquer significação. por exemplo. e sempre no sentido que conduz da percepção à subjetividade. Ela é anterior a toda e qualquer interpretação. As formações psíquicas advindas do ato perceptivo compõem as configurações conscientes da realidade e essas configurações contém mais do que a simples soma do fundamental sentido. à partir do momento em que captamos uma sucessão e seqüência dessas notas ao longo de uma melodia. à partir dela. Dependendo da fadiga. A seleção das impressões sensoriais apreendidas depende de uma série de processos ativos que transforma a percepção numa função anímica por excelência. Entretanto. a percepção transcendente. dependendo da atitude pensada. Há na verdade três percepções: a percepção anterior à realidade consciente. A percepção anterior à realidade consciente é a percepção despojada de toda e qualquer subjetividade. enquanto a sensação oferece à pessoa o fundamental da realidade. da ansiedade ou do afeto. estaríamos captando fragmentos mas. Em toda percepção existe um componente afetivo que contribui para a imagem representada. por exemplo. estaríamos captando a forma musical. é a percepção do mundo exterior objetivo por excelência. Dessa forma. Algumas impressões podem ser captadas mais intensamente que outras. do estado de ânimo e da situação emocional de quem percebe. Digamos que. o sujeito passa a oferecer às suas sensações um determinado fundo pessoal sobre o qual se assentarão as demais futuras sensações. a percepção que se transforma na realidade consciente. na percepção esse fundamental se organiza de acordo com estruturas específicas. Ao ouvirmos notas musicais. É uma sensação vazia de subjetividade. Ela não se permite circunscrever apenas ao mundo exterior e passa a pertencer ao mundo interior do sujeito. A percepção anterior à realidade permite a experiência da própria percepção em estado puro. A percepção que se transforma na realidade consciente é a percepção que já remete à uma subjetividade ou à um significado consciente real. porém esses dados variam de acordo com as condições do fundo pessoal e a forma percebida passa a transcender o objeto simplesmente sentido. Como veremos adiante. tal como uma porta que introduz o mundo exterior para dentro da subjetividade. os estímulos externos podem ser captados como sensações agradáveis ou desagradáveis. A partir da percepção que se transforma na realidade consciente. esta percepção que se transforma na realidade consciente é somente uma porta de entrada. e é sempre ao mesmo tempo uma passagem do objeto ao sujeito. a percepção posterior à realidade consciente. constrói novos elementos subjetivos. Ela reforça a subjetividade pré-existente e. Trata-se da ponte que une o objeto ao sujeito (o mundo objectual ao sujeito). assim como também se alteram pela ação de determinadas substâncias químicas ou em determinadas doenças orgânicas. é tanto a porta quanto o trânsito através dela.A percepção se relaciona diretamente com a forma da realidade apreendida. dependendo da atenção (interesse afetivo). pode ser modificada em conseqüência de condições pessoais momentâneas. conferindo originalidade pessoal à realidade apreendida. a forma da realidade apreendida. enquanto a sensação se relacionaria à fragmentos esparsos dessa mesma realidade. A percepção posterior à realidade consciente é a percepção que não contém propriamente uma nova subjetividade mas toca nela à partir de estímulos atuais. Ela é radicalmente exterior ao sujeito. é a objetividade pura.

nos estados de excitação maníaca. Observa-se anestesia. uma base psíquica compreendida pelos elementos emocionais envolvidos na consciência da realidade. 1.Alterações na Intensidade das Sensações As alterações na intensidade das sensações das sensações referem-se ao aumento e à diminuição do número e da intensidade dos estímulos procedentes dos diversos campos da sensibilidade. geralmente.Anestesia A Anestesia diz respeito à abolição de todas as formas de sensibilidade. as alterações da sensibilidade. Alterações da Sensopercepção A capacidade da pessoa perceber a realidade à sua volta e que se faz através dos cinco sentido. por exemplo. no hipertiroidismo. Há autores que preferem considerar verdadeiros distúrbios da sensopercepção somente aqueles possuidores de uma base orgânica. A hiperestesia sensorial é freqüente nos pacientes afetivos.2 . 2. surdez ou cegueira podem resultar da lesão de um órgão sensorial . Nesses casos há diminuição dos reflexos tendinosos. . como o estupor. para a integridade da sensação há necessidade de três elementos: 1. como no caso citado acima das depressões.No ato perceptivo se distinguem dois componentes fundamentais: a captação sensorial e a integração significativa. referente à integridade do sistema sensorial e cujas vias pertencem à neurofisiologia e.Hipoestesia Hipoestesia sensorial é a diminuição da sensibilidade.integridade dos centros corticais no sistema nervoso central que recebem estes estímulos procedentes do exterior e processa-os em linguagem cognitiva. nos acessos de enxaqueca e.AGNOSIAS A síntese das sensações de forma a constituir percepções conscientes dá-se nas zonas corticais do SNC. ocasionalmente. 1.1 . de exaltação dos reflexos tendinosos.integridade dos nervos periféricos aferentes que conduzem estes estímulos periféricos ao SNC e. Nos estados degrande ansiedade. 1. a qual nos permite o conhecimento consciente do objeto captado. a audição e o tato podem estar aumentados.3 . nos estados infecciosos e pósinfecciosas e em períodos pós-trauma. nos neuróticos. 2. no tétano. embora a propriocepção possa estar aumentada. uma base estritamente orgânica. Pode haver diminuição da sensibilidade sensorial em função de fatores emocionais. na raiva (hidrofobia). Portanto. Na psiquiatria observamos anestesias regionais em pacientes conversivos. em geral. A anestesia. tomando por base sua topografia e qualidade das alterações não obedecem os dermátomos neurofisiológicos nem as vias normais da sensibilidade. . em alguns casos de epilepsia. as percepções serão subjetivas por existirem em nossa consciência.receptores periféricos suficientemente íntegros para receber os estímulos provenientes do ambiente. A hiperestesia se acompanha. de fadiga ou esgotamento. em afecções neurológicas focais e em seccionamentos de nervos periféricos aferentes. De fato. também em situações neurológicas. nas síndromes que se acompanham de obnubilação da consciência. 3.Alterações na síntese perceptiva . pode sofrer alterações sob duas bases distintas.Hiperestesia Hiperestesia sensorial é o aumento da intensidade das sensações. 1. Na maioria dos estados de depressão pode ser observada diminuição da sensibilidade aos estímulos sensoriais. onde a capacidade adaptativa está comprometida. Nesses casos. maior excitabilidade da sensibilidade fisiológica e aceleração do ritmo dos processos psíquicos. elevação da sensibilidade fisiológica e lentidão dos processos psíquicos. e objetivas pelo conteúdo que estimula a sensação.

nas chamadas áreas para-sensoriais. Nos casos onde estão conservadas a integridade das vias nervosas aferentes e existem lesões corticais na vizinhança da área de projeção. contíguas à área 17 onde terminam as projeções visuais (áreas para-sensoriais). não os compreende. de formas.Agnosia Tátil Agnosia Tátil se refere à incapacidade para reconhecer objetos mediante o sentido do tato. também podem desempenhar um papel significativo na maneira pela qual os objetos são percebidos. Os habitantes das ilhas Trobriand (Nova Guiné). Em alguns casos. também podem existir notáveis diferenças a respeito desses aspectos entre . do que na individualização do objeto em si. Com freqüência não se destacam bem entre si. Como existe considerável amplitude quanto aos aspectos de um objeto que a pessoa pode focalizar e acentuar. entre esses transtornos. 2. 2. Fatores Culturais Os valores culturais atribuídos aos objetos. às relações e aos acontecimentos. porém não consegue identificá-los. a melhor conhecida em sua origem. há alteração do ato perceptivo. mantém-se a integridade das sensações elementares.1 . A sensação óptica nesses casos se constitui muito mais em contornos. 2. Mesmo quando. assim como em diferenças na capacidade para identificar tais objetos. Além disso.2 . O enfermo perde a possibilidade de discriminar as diferenças de intensidade e extensão das sensações táteis. Nesses casos as lesões neurológicas responsáveis quase sempre são bilaterais e afetam asáreas occipitais 18 e 19.3 . por exemplo.Agnosia Auditiva Agnosia Auditiva é quando o paciente ouve sons e ruídos. porém. de cor e de espaço. Nos dois primeiros casos. em outros há integridade e extensão. O transtorno recai sobre as qualidades dos objetos. mas uma alteração intermediária entre as sensações e a percepção. em virtude de se encontrar alterada a integração das sensações elementares. fala-se de AGNOSIA. mas perda da capacidade de reconhecimento dos objetos. para um estranho. apesar da sensibilidade se encontrar conservada no fundamental. havia uma notável semelhança física entre dois irmãos. observa-se a perda da intensidade e da extensão das sensações. havia uma tendência inversa para exagerar o menor grau de semelhança facial entre o pai e os filhos. Circunstâncias e Personalidade Essas comparações antropológicas do funcionamento perceptual entre diferentes culturas nos fazem supor que as diferenças na percepção nas propriedades dos objetos físicos fundamentamse nos diferentes de nível de aprendizagem e diferentes experiências passadas com esses objetos. Agnosia não é uma alteração exclusiva das sensações nem exclusiva da capacidade central de perceber objetos externos. luzes e sombras. Ambiente. permanecendo inalteradas as sensações elementares. Lesões do lobo occipital na região da cissura calcariana também podem produzir defeitos sensoriais fisiológicos.periférico. o paciente se mostra incapacitado para identificar o objeto ou a forma deste.Agnosia Visual As agnosias visuais podem ser de objetos. Nesses casos. do nervo aferente ou da zona cortical do SNC onde se projetam essas sensações determinando o desaparecimento delas. segundo a qual uma criança não poderia jamais ser fisicamente semelhante à sua mãe ou a seus irmãos e irmãs mas apenas ao seu pai. Assim sendo. superfícies e cores. embora essas diferenças não se fundamentem em diferenças mais profundas no processo geral de funcionamento da percepção. carecem de definição clara e patente e de relação nítida com o que se acha próximo a eles no espaço óptico. os nativos eram incapazes (ou não queriam ser capazes) de descobrir qualquer semelhança. apegavam-se a uma crença básica. A agnosia visual é.

As mudanças na percepção são aspectos essenciais no processo da aprendizagem. é notado mais rapidamente pelo faminto do que pelo saciado e. etc. uma das maneiras pelas quais se tentam descrever e classificar as pessoas. capacidades para descobrir os estímulos e distingui-los uns dos outros..). não pode haver dúvida de que esses estados estão também associados a variações marcantes na percepção. pode ser aperfeiçoada com a prática. na ênfase perceptual. na idade e na experiência. As experiências perceptuais que se tem ao olhar um borrão de tinta. seus valores e seus traços constituem sua personalidade. seus motivos. a pessoa amedrontada tem uma consciência mais nítida de cada pequeno ruído. A singular constituição da pessoa. bem diferente. por exemplo. parece também mais apetitoso ao faminto. encontradas. por nosso estado emocional e por outras condições fisiológicas. tais como as de ver ratos sanguessugas no quarto. A experimentação científica concorda haver influências impressionantes na percepção. Há diferenças significativas na percepção do mundo. em estados excepcionais associados à doença. à gravidez.. Estes estados influenciam tanto a sensibilidade a objetos. É de observação corrente. por exemplo. associadas a diferenças de personalidade. que nossa percepção das coisas pode ser alterada pelo nosso conhecimento. por exemplo. as imagens percebidas podem ter representações diferentes (um cálice ou duas pessoas frente a frente. A maconha. no contexto geográfico e cultural. pode fazer com que as cores sejam vistas com um brilho incrível. Na realidade. O alimento. . como as propriedades percebidas neles. são descritas de maneiras bem diferentes.. re refletindo. Dependendo da motivação afetiva. pela nossa motivação. Circunstâncias A experiência com um objeto também leva a mudanças significativas na maneira pela qual este é percebido: seu reconhecimento se torna mais fácil. Ainda seja obscura a classificação desses fenômenos. na capacidade sensorial e cerebral.. O alcoolismo agudo e crônico pode ser acompanhado por períodos em que ocorrem experiências perceptuais apavorantes. além disso. Essas diferenças. produzidas por drogas e pelo álcool. podem ser interpretadas como reflexos dos valores culturais desses povos. depois do mesmo ato. suas habilidades específicas. Na realidade. A compreensão científica dos processos de motivação e emoção abrange o estudo da maneira pela qual os estados de motivação influem na percepção. por exemplo. é através do estudo de sua maneira de perceber o mundo. Há também influências fisiológicas nas percepções. na casa solitária. à menstruação. Personalidade e o Mundo Percebido Ao falarmos de diferenças de personalidade estamos falando das variações de fenótipo (a pessoa aqui e agora) e englobam variações na constituição biológica. uma mulher pode ser percebida pelo homem de uma determinada maneira antes do ato sexual e de outra. por pessoas de diferentes sociedades. por exemplo. preparando-se para um beijo. o objeto é organizado perceptivamente de maneira diferente. Na mulher grávida.várias culturas. dependendo da motivação as percepções podem ser modificadas. enfim. por exemplo. se encarando. Há um conjunto cada vez maior de pesquisas sobre relações entre as características da personalidade e a maneira de perceber o estímulo físico. por exemplo.. sob o ponto de vista personal. O sentido do tempo fica deformado. ou sentir vermes que perfuram a pele. a capacidade para perceber os aromas é diferente. aparecem novas propriedades atreladas à ele.. nossas capacidades sensoriais.

Algumas são extremamente rápidas e outras mais duradouras. Algumas predisposições dominam inteiramente a consciência do percebedor. As predisposições diferem também quanto à sua duração. especificidade. do que por pessoas alimentadas. a palavra "sagrado" era mais rapidamente reconhecida por pessoas que apresentavam elevado valor religioso do que por pessoas com outros valores predominantes. re___. Quanto mais forte a necessidade de uma pessoa. Um teste que consta da projeção rápida de uma lista de palavras mostra maior facilidade para percepção de algumas palavras atreladas à valores da pessoa que as reconhecem. está predisposta durante 24 horas por dia. NECESSIDADES. carne. por esses fatores centrais. relação com outras predisposições. tem uma saliente predisposição para ver a chave entre as coisas esparsas da gaveta. vontade ou necessidade da pessoa que variam quanto a saliência. mais fortemente estará perceptualmente predisposta para determinados aspectos significativos à essa necessidade no campo perceptual. EMOÇÕES.. etc.Fatores pessoais e percepção A organização perceptual muitas vezes reflete os fatores pessoais do percebedor. refeição e não carro ou reflexo) por pessoas com fome. Além disso. existia tendência para percepção distorcida de palavras estimuladoras dos valores da pessoa. Muitos estudos experimentais foram feitos a respeito desse fato aparentemente óbvio. Portanto. As predisposições variam quanto ao seu grau de especificidade ou generalidade. duração. A pessoa pode estar a procura de uma chave específica para sua garage. e não existia predisposição para outros objetos. os julgamentos feitos depois do filme mostraram maior proporção de características de maldade em algumas fisionomias de fotos do que quando as viram antes do filme.. por exemplo. Também sujeitos com mais fome. a predisposição para a caneta a menos saliente. Ao procurar a chave. Há tendências nítidas para o reconhecimento mais rápido nas palavras relacionadas com os valores do indivíduo. para ouvir o choro de seu nenê. das predisposições adequadas. pelo fato das palavras mais valorizadas serem também aquelas que. morais. por exemplo. provavelmente. Nesse caso. Palavras incompletas (por ex. . há certas predisposições perceptuais determinadas pelo desejo. O estado emocional da pessoa pode provocar uma predisposição que influi nos processos de percepção e de pensamento. a pessoa pode encontrar imediatamente uma caneta que procurava há muitos dias. Outras predisposições são menos salientes. Se alguém está insistentemente em busca de chave perdida numa gaveta em desordem. Valores e Atitudes Uma pessoa tem tendência para estar predisposta a perceber de acordo com seus valores éticos. é complexo e difícil afastar as variáveis de tais experimentos. culturais e suas atitudes. ou pode estar em busca de qualquer tipo de chave que possa ser usada como peso de papel. havia maiores tendências em reconhecer palavra "scared" (atemorizado) pelas pessoas religiosas como se fosse a palavra "sacred" (sagrado). Por exemplo. tendem a ver mais objetos de alimentação do que os sujeitos com menos fome. Por exemplo. e pode ouvi-lo mesmo quando em meio a outros ruídos ou quando outras pessoas não conseguem ouvi-lo. tais como suas necessidades. as crianças de um acampamento de verão julgaram as características de fisionomias em retratos de várias pessoas antes e depois de assistirem um filme assustador de assassinatos. A extensão em que isso ocorre depende do despertar. Todavia. a predisposição para a chave era a mais saliente. emoções. A mãe. atitudes e valores. ao olhar para imagens pouco estruturadas projetadas numa tela. também são as que mais freqüentemente aparecem na experiência da pessoa. embora possa não observar outros objetos.) são mais comumente completadas como palavras referentes a alimento (por ex. por exemplo. car__.

demônios. das manchas num papel serem percebidas como símbolos religiosos. Sem dúvida. O fenômeno alucinatório tem conotação muito mais mórbida que a Ilusão. Podem estar presentes na Psicose Maníaco Depressiva. um objeto alucinado muitas vezes é percebido mais nitidamente que os objetos reais de fato. podem adquirir a configuração de monstros. a impressão que elaboramos do mundo à nossa volta é sempre decorrente da integridade do aparelho psíquico. entretanto. Por si só a ilusão não constitui um estado mórbido. será real para a pessoa que está alucinando. Organicamente a desfiguração de objetos pode surgir como um incômodo sintoma de certas epilepsias de lobo temporal. de um barulho indefinido soar-nos como alguém nos chamando e assim por diante. Dizemos que a percepção é real. É o caso. As Ilusões podem acontecer em qualquer doença mental. tendo em vista a convicção inabalável que a pessoa manifesta em relação ao objeto alucinado. mais do que uma simples conseqüência da normalidade fisiológica. Por razões didáticas aceitamos ambas como transtornos da sensopercepção. de fato. alguns autores preferem vê-las como Distúrbios da Representação. existe. Os enganos da ilusão podem afetar os cincos sentidos. ou seja. em determinadas neuroses ou ainda.) ou deixam-se superar por alguma emoção. parecer-nos passos misteriosos. É uma percepção enganosa de um objeto real. quanto às Alucinações. em ocorrências fortuitas do cotidiano emocional de quem atravessa momentos de forte tensão. Tudo que pode ser percebido pode também ser alucinado e isso ocorre. Naalucinação. sendo as mais freqüentes as auditivas e visuais. ou um caracol que cavalga um ouriço. Na Alucinação o envolvimento psíquico é muito mais contundente que nos estados necessários à Ilusão. as ilusões são percepções reais falsificadas e estudadas sob o título engano dos sentidos. as alucinações podem surgir quando fracassam os mecanismos de integração das estruturas psíquicas com os sistemas perceptivos e sensitivo. portanto. combinado umas com as outras. Tudo isso deve sugerir que o contacto com a realidade. na realidade. As alucinações podem manifestar-se também através de qualquer um dos cinco sentidos. por exemplo.ALUCINAÇÕES Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente. caveiras. Trata-se. Segundo o modelo organodinâmico. com maior liberdade de associações de formas e objetos. de um ruído qualquer.). desde pequenas oscilações do normal até situações patológicas. acuidade sensorial. .ILUSÕES Segundo Bleuler. 2 . da interpretação distorcida de um objeto real. mas pode denotar um estado emocional mais ou menos intenso. uma falsificação da percepção de um objeto que.Alterações na Representação Os dois principais Distúrbios da Sensopercepção tratados aqui serão as Ilusões e asAlucinações Em relação às Ilusões parece haver um consenso acerca de seu estudo pertencer ao campo da sensopercepção. um leão pode aparecer de asas. entretanto. etc. por exemplo. emancipada de todas variáveis que podem acompanhar os estímulos ambientais (iluminação. Nestes casos as pessoas. mentalmente. elas são mais freqüentes nas alterações da tonalidade afetiva. Nesta caricatura do processo de percepção nossos sentidos são simplesmente enganados por alguma variável circunstancial (iluminação. imaginativamente. pela saudade ou por qualquer outro tipo de emoção. são percepções sem um estímulo externo. sendo normalmente associado à estados psicóticos que ultrapassam a simplicidade de um engano dos sentidos. etc. etc. O indivíduo que alucina pode ter percebido isoladamente cada umas das formas e. 1 . por exemplo. pela necessidade religiosa. distância. efeitos ópticos. tais acontecimentos estão impregnados pelo medo. Sendo a percepção da alucinação de origem interna.

Por causa disso há necessidade de construção de uma nova realidade. é um acontecimento extremamente mórbido. Isso nos leva a afirmação metafórica de que a loucura pode ser entendida como um sonhar acordado. é bom termos sempre em mente outras considerações fisiopatológicas. a do sonhar acordado para a loucura. a qual. ou seja. nunca ter existido uma cultura nãoesquizofrenizante. sempre existiu em todas as épocas e em todos os lugares na civilização humana. A possibilidade de se suprimir uma alucinação através da argumentação sensata é decididamente nula e. As alucinações não podem ser consideradas patognomônicas desta ou daquela psicopatia. autores mais ousados acreditam que. Nessa situação rompem-se as barreiras de contenção e as alucinações apresentam claramente à consciência uma parte do conteúdo inconsciente. uma tentativa de criação de um mundo próprio de sons e imagens que enriqueceriam a personalidade. para Jung. inconscientes. alienante e causador de grandes sofrimento tanto para quem alucina quanto para aqueles que com ele convivem. O fenômeno alucinatório. Em se tratando de um tipo de Mecanismo de Defesa da personalidade extremamente patológico. sem nenhuma sombra de dúvida. daí o fato de ser considerada REAL para a pessoa que alucina. fato que deveria sugerir. defensivamente. notadamente à Esquizofrenia. que o sonho é uma espécie de loucura dos lúcidos.1 . não são exclusivas de nenhum transtorno mental específico. não necessariamente psicótico. porém. A alucinação verdadeira é irremovível pela lógica. então. num esforço racional para demover do paciente este distúrbio. por outro lado. de um modo geral. estão estatisticamente mais associadas às ocorrências psicóticas. as alucinações (como também os delírios) não surgiriam de processos conscientes. aquelas originadas de um dinamismo psíquico desestruturado. têm sido consideradas por alguns como uma espécie de Mecanismo de Defesa do Ego extremamente patológico. A psicopatologia. A loucura. mas sim. não pode descartar esta possibilidade junguiana. se constitui de alucinações várias com o propósito de atender um psiquismo exigente. tem sido incontrolável a tendência em argumentar com o paciente que alucina. podem aparecer sob forma de Alucinações Auditivas . Segundo a visão de Jung. dissociados.Trata-se de uma desestruturação do campo da consciência e do próprio ser consciente. na doença mental o inconsciente começa a sobrepor-se à consciência. Assim sendo. como é o caso das alterações neuromoleculares. somente uma ocorrência francamente patológica seria capaz de produzir tamanha revolução do inconsciente. honestamente. faria acionar um mecanismo previamente existente e que funciona normalmente nos sonhos. mas de um engano sensorial. ou. aliás muito interessante. As alucinações com estas características. ou seja. de um modo geral. atualmente relacionadas solidamente à ocorrência dos sintomas alucinatórios. cujas necessidades subjetivas superam a realidade objetiva. A Doença Mental. porém. Entretanto. Tal ocorrência jamais poder ser entendida como algo benéfico e produtor do crescimento da personalidade. caso isso aconteça. poderíamos suspeitar do enorme grau de desestruturação psíquica do ser que alucina. não estaremos diante de uma alucinação genuína. Apesar destas reflexões psicodinâmicas atenderem satisfatoriamente nossa compreensão do fenômeno. com suas alucinações. as alucinações seriam uma espécie de defesa do ser social ante uma cultura esquizofrenizante. doentio. por se tratar de algo "extremamente patológico".Alucinações Auditivas Como as mais freqüentes. cujos fragmentos brotariam na consciência tal qual no sonho. tal como uma espécie de ebulição e erupção do material inconsciente traduzindo-se em alucinações na consciência. A partir da idéia de Alucinações como um Mecanismo de Defesa extremamente patológico. através de elementos da lógica. 2. Esse malabarismo ideológico tem se mostrado apenas um alinhavo retórico ficcioso de conteúdo pouco científico e muito duvidoso. ao ponto de perder-se o contacto com a realidade e não saber mais onde termina o sonho e começa o real. Para o iniciante na lide com a Doença Mental. patológico.

Nas situações onde o paciente se vê fora de seu próprio corpo falamos em Alucinações Autoscópicas e. o qual as obedece mesmo contra sua vontade. assobios. do além. as Alucinações Visuais tem uma temática predominantemente de bichos e animais peçonhentos (cobras. anjos. como se transcorresse num sonhar acordado. infame e caluniador. de obediência compulsório às ordens ditadas por vozes alucinadas. bruxas. promovedoras de grande ansiedade e apreensão. enquanto um cidadão menos diferenciado. cujos distúrbios veremos adiante. quando a percepção diz respeito a sons inespecíficos. O fenômeno de perceber uma voz que não existe (percepção de objeto inexistente) é aAlucinação propriamente dita e. portanto são reais para a pessoa que os percebe. de objetos que não existem. Algumas vezes as vozes alucinadas podem determinar ordens ao paciente. quando o objeto alucinado não tem uma forma específica: clarões. quando ele consegue ver cenas e objetos fora de seu campo sensorial. etc. as ordens proferidas são eticamente condenáveis ou socialmente desaconselháveis. dos demônios ou de Deus. na idéia do doente. Serão Complexas quando as formas se definem em figuras nítidas: pessoas. na maioria das vezes. Ouvir vozes faz parte da sensopercepção e atribuir a elas algum significado faz parte do pensamento. de Deus. do sobrenatural. ver uma carruagem passando pela paciente e dela descer um príncipe. por outro lado. como se ele pensasse em voz alta ou como se alguma voz estivesse permanentemente comentando todos seus atos: " lá vai ele lavar as mãos". Essas vozes podem ter as mais variadas características: diálogos entre mais de um interlocutor. comunicar informações fantásticas. etc. chamamos de Automatismo Mental. percevejos. zumbidos. podem ainda. proferir injúrias e difamações. sonorizar o pensamento do próprio paciente ou de terceiros. Esta situação oferece alguma periculosidade. quase sempre. uma situação como. onde se percebem vozes bem definidas. ambos porém. raios. 2. com um espírito do morto a rondar sua casa. o conteúdo de tais vozes é desabonador. aparecem como Alucinações Auditivas Complexas. como enxergar do lado de fora da parede. interpretá-la como sendo a voz do demônio. Há determinadas ocasiões onde o transtorno visual alucinatório adquire a consistência de uma cena. dos espíritos mortos ou uma audição telepática já faz parte do delírio. freqüentemente. guarda sempre uma íntima relação com a bagagem cultural do paciente que alucina. a Alucinação Auditiva é recebida pelo paciente com muita ansiedade e contrariedade pois. animais. tais vultos são muito fielmente percebidos. acompanha o fenômeno alucinatório. neste caso. comentários sobre atos do paciente. Neste caso falamos em Alucinações Oniróides. tais como chiados. vultos.Alucinações Visuais São percepções visuais. sombras. lagartos) e. porém. Tais vozes ouvidas podem ser provenientes. teremos as Alucinações Extracampinas. chamas. . ruídos de sinos. No Delirium Tremens do alcoolista. roncos. Normalmente. Diante desta situação. Um físico nuclear pode alucinar com um certo brilho atômico a revestir seus inimigos. santos. damos o sugestivo nome de Zoopsias. jacarés. tão claras e intensas que dificilmente são removíveis pela argumentação lógica. monstros. demônios. aranhas.2 . Quando elas ditam antecipadamente as atitudes do paciente falamos em Sonorização do Pensamento. Este. aqui também elas podem ser consideradas Elementares. "lá vai ele ligar a televisão" e assim por diante. Mesmo o paciente referindo ter visto apenas vultos. por exemplo. já que. Não é possível alucinar com alguma coisa que não faça parte do mundo psíquico do paciente. Tal qual nas Alucinações Auditivas. acusatório. por exemplo. como vimos. críticas sobre a pessoa que alucina. O conteúdo das alucinações é extremamente variável.Elementares. independentemente do nível sócio-cultural têm a mesma probabilidade de alucinar. A sofisticação e exuberância do material alucinado dependerá da bagagem cultural de quem alucina mas não interfere na valorização semiológica do fenômeno. Em se tratando de patologia mais séria.

Não são raros os casos de alucinação tátil que se caracteriza pela sensação de ter-se as pernas puxadas à noite ou estrangulamento. estranhos carrapatos que penetraram em algum orifício fisiológico. escorriam-lhe pelo nariz. Em geral os gostos alucinados aparentam ser de sangue. primeiramente à sensação e. No entretanto. principalmente no Delirium Tremens ou na dependência de cocaína. Algumas auras epilépticas determinam o aparecimento de Alucinações Gustativas e/ou Olfativas. mostrava os insetos que conseguia apanhar para o médico (o qual. como veremos adiante. . Quando esta percepção falseada diz respeito aos órgãos internos ou ao esquema corporal falamos em Alucinações Cenestésicas. esporadicamente. etc.3 . e assim por diante. terra. esvaziado seu pulmão. insetos esquisitos. Nestes casos. AsAlucinações Cenestésicas devem ser diferenciadas das Alucinações Cinestésicas que não dizem respeito à sensação tátil. sem que exista o objeto correspondente ao gosto e ao cheiro. envolve mecanismos subjetivos muito além da objetividade neurofisiológica da sensação. tossia seguidamente e vivia submetendo-se a freqüentes exames de raios X. Era um portador de Delirium Tremens. como vimos. Neste caso. evidentemente. Nas cinestesias os pacientes percebem as paredes movendo-se ou eles próprios movendo-se no espaço. seus intestinos arrancados.Alucinações Táteis A percepção de estímulos táteis sem que exista o objeto correspondente é observada principalmente nas psicoses tóxicas e nas psicoses delirantes crônicas. as Alucinações Olfativas e Gustativas estão associadas e são raras. Portanto. sufocação ou opressão antes de conciliar o sono. Trata-se de Alucinações Táteis puras. essa função totalizadora e integradora das sensações que formam e constroem a percepção individual da realidade. inclusive. queimaduras. alfinetadas. deve ser evidente o envolvimento das estruturas neurológicas necessárias. não os via). e. o paciente sente-se picado por pequenos animais. Um paciente delirante crônico sentia que seu cérebro estava infestado de germes. como é típico de todas alucinações. o gosto e os odores podem ser muito desagradáveis e são percebidos. Outro queixava-se de inúmeros percevejos que furavam-lhe a pele o tempo todo. Neste último caso. catarro ou qualquer outra coisa desagradável. trata-se de umaAlucinação Tátil Cenestésica. pancadas. que sabia ter seus pulmões corroídos por vermes provenientes de carne suína.Alucinações Gustativas e Olfativas Normalmente. uma Alucinação Cenestésica pura. 2.2.d . mas sim aos movimentos (cine-movimento). vermes que caminham sobre a pele. Outro. o cérebro apodrecido. à integração e organização destas impressões apreendidas da realidade objetiva. em seguida. os quais. Nestes casos os doentes sentem como se tivessem seu fígado revirado. o coração rasgado. já idoso. os odores podem ser desde perfumes exóticos até de fezes. Isso tudo se faz no sentido de favorecer a construção do conhecimento do mundo e do próprio indivíduo. em termos de percepção da realidade. Estados delirantes cujo tema diz respeito à putrefação.