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APROVEITAMENTO DE ÁGUA PLUVIAL EM INSTALAÇÕES DA MALHA DE GASODUTOS NORDESTE MERIDIONAL
Jairo A. C. Maciel1, Francisco A. C. Lemos2, Artur W. R. de S. Lima3

RESUMO Diversos estudos indicam que a água potável do planeta está se esgotando. Ainda existe muita água no planeta, mas cerca de 97,5% dessa água é salgada e está nos oceanos. Do restante, que corresponde à água doce, 2% estão nas geleiras e apenas 0,5% está disponível nos corpos d’água terrestres, isto é em rios e lagos, porém a maior parte dessa pequena porção (cerca de 95%) está armazenada nos reservatórios subterrâneos. Para a conservação da água existem medidas convencionais e medidas não convencionais. O sistema de aproveitamento de água da chuva para consumo não-potável é uma medida não convencional. Este trabalho apresenta o estudo preliminar de viabilidade para a elaboração de um projeto de aproveitamento de água pluvial em instalações da Malha de Gasodutos Nordeste Meridional (Malha NEM), mantida e operada pela Petrobras Transporte S.A. – TRANSPETRO. O projeto resultante deste processo partiu de uma premissa básica de responsabilidade sócio-ambiental devidamente engajada na Política de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde do Sistema PETROBRAS e da TRANSPETRO. Dessa forma, apesar das instalações de transporte de gás natural da Malha NEM não utilizarem a água diretamente em suas atividades, surgiu a iniciativa de se investigar a viabilidade do aproveitamento da água pluvial para usos diversos. INTRODUÇÃO Segundo Kitamura (2004), toda a água do planeta está em constante movimentação, evaporando-se dos oceanos, rios e lagos, e no estado de vapor forma as nuvens na atmosfera. Quando o vapor condensa, a água volta para a terra em forma de chuva, granizo ou neve. Parte da água que cai sobre a terra se distribui pela superfície, formando lagos, rios e riachos que vão desaguar no mar. Outra parte que cai se infiltra no solo, vai ser absorvida pelas plantas ou vai alimentar os lençóis freáticos que alimentam nascentes e poços. No entanto, boa parte desta água é utilizada pelo homem, na suas explorações econômicas como irrigação ou mesmo em redes de água para o consumo. Relatórios da ONU alertam para o fato de que, nos países em desenvolvimento, como o Brasil, 90% da água utilizada é devolvida à natureza sem tratamento, contribuindo assim para a deterioração de rios, lagos e lençóis subterrâneos. Segundo pesquisas da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC (2010), cerca de 30% de toda a água utilizada em uma residência é destinada para o transporte dos dejetos sanitários. Neste sentido a utilização das águas das chuvas, passa a ter uma importância econômica, bem como técnica, na redução do consumo de água potável nas residências. Certamente no caso das indústrias e estabelecimentos comerciais muitas vezes essa afirmativa também se aplica. O Sistema PETROBRAS e a TRANSPETRO possuem diretrizes de Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde (QSMS) que servem de base para a implantação e acompanhamento de indicadores de desempenho ambiental, em que o tema racionalização do uso dos recursos hídricos assume grande importância. Premissas como ecoeficiência, sustentabilidade e responsabilidade sócio-ambiental dos processos e atividades estão no centro de várias iniciativas e projetos. Nesse contexto, o reuso de água e o aproveitamento da água de chuva surgem como instrumentos possíveis de aplicação em várias situações, com reflexos positivos no desempenho ambiental das empresas. Na estrutura da TRANSPETRO, a Malha de Gasodutos Nordeste Meridional (Malha NEM), sediada na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, é responsável pela manutenção e apoio à operação dos gasodutos, seus equipamentos, instrumentos e faixas de servidão, distribuídos nos estados da Bahia (a partir da ECOMP de Prado) e Sergipe, por meio de bases operacionais localizadas em Camaçari (BA), Catu (BA), Itabuna (BA) e Aracaju (SE). Sua extensão mede 1.483 km, com 26 pontos de entrega e uma estação de compressão. O gás natural é transportado até as companhias distribuidoras de locais, indústrias ou à própria PETROBRAS. O mapa apresentado na Figura 1 mostra os trechos de gasodutos e instalações de transporte de gás natural que compõem a Malha NEM, organizados por áreas de atuação de cada base operacional.

Especialista em Administração, Engenheiro Mecânico – Petróleo Brasileiro S.A. – PETROBRAS Transporte S.A. Especialista em Gerenciamento Ambiental e Educação Ambiental, Engenheiro Químico – Petróleo Brasileiro S.A. – PETROBRAS Transporte S.A. 3 M.Sc. em Gestão Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, Engenheiro Agrônomo – PETROBRAS Transporte S.A.
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Base de Aracaju Base de Catu Base de Camaçari Base de Itabuna

Figura 1 – Gasodutos da Malha NEM e trechos de atuação das bases operacionais. A precipitação é uma forma natural de ocorrência de água e serve para a recarga de cursos d’água e aqüíferos, além de ser fonte de irrigação e drenagem e ter papel de transportar material particulado da atmosfera, entre outras funcionalidades. Todos os anos a chuva é responsável pela transferência de água do mar em forma de água doce para a superfície terrestre, porém de forma desigual. Logo, através da legislação, técnicas, estudos e adequações físicas, químicas e biológicas é possível a inserção dessa alternativa na TRANSPETRO. APROVEITAMENTO DA ÁGUA DA CHUVA O aproveitamento da água de chuva caracteriza-se por ser um processo milenar, adotado por civilizações como Astecas, Maias e Incas. Um dos registros mais antigos do aproveitamento da água de chuva data de 850 a.C, Pedra Moabita, no Oriente Médio, onde o rei Mesha sugere a construção de reservatórios de água de chuva em cada residência. No palácio de Knossos, na Ilha de Creta, onde há aproximadamente 2000 a.C., a água da chuva era aproveitada na descarga das bacias sanitárias (MANCUSO e SANTOS, 2003). Atualmente o aproveitamento de água da chuva é praticado em países como Estados Unidos, Alemanha, Japão, entre outros. No Brasil, o sistema é utilizado em algumas cidades do Nordeste como fonte de suprimento de água. O aproveitamento da água da chuva figura como um método não convencional de conservação deste recurso, cujos benefícios principais estão ligados à economia de energia elétrica, à redução de esgotos sanitários e à proteção do meio ambiente nos reservatórios de água e nos mananciais subterrâneos (THOMAZ, 2001). De acordo com Silva (2011), a economia advinda desse método é sensível em todas as instâncias: residências unifamiliares, edifícios residenciais e comerciais, e principalmente indústrias, que geralmente possuem uma grande área de captação e diversos usos não potáveis para a água. Em paralelo, o benefício para o meio-ambiente, por sua vez, é incalculável, reduzindo a demanda por água dos mananciais já sobrecarregados, e preservando esse bem de valor inestimável. O aproveitamento de água da chuva é um sistema simples, consiste em quatro etapas: captação; filtração; armazenamento; distribuição. O Brasil ainda possui pouca legislação focada aproveitamento de água pluvial, mas para efeito de aplicação deste uso utilizam-se as legislações vigentes que instituem os fundamentos da gestão dos recursos hídricos e cria condições jurídicas e econômicas. Além dos fundamentos citados têm-se legislações de outros países e para critérios de qualidade de água para uso não-potável, a Organização Mundial de Saúde, referência mundial. Para elaboração desse projeto toma-se como base, primariamente, a Constituição Federal de 1988, lei que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH - Lei nº 9.433/1997).

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Com o conhecimento científico e a tecnologia atual, o aproveitamento de água da chuva continua a ser um sistema simples e consiste em quatro etapas: captação, filtração, armazenamento e distribuição. Etapas de um sistema de aproveitamento de água pluvial Captação: coleta de água que cai sobre a cobertura e para tal eficiência deve-se observar o material da cobertura (telhas, laje, etc.), inclinação, porosidade e estado de conservação. Recomenda-se o descarte da água das primeiras chuvas, devido à concentração de poluentes tóxicos dispersos na atmosfera (ou melhor, da troposfera) de áreas urbanas como o dióxido de enxofre (SO2) e os óxidos de nitrogênio (NOx), além da poeira e da fuligem acumulada nas superfícies de coberturas e calhas. Tal descarte pode ser efetuado por dispositivos acoplados ao sistema de captação. Filtração: antes do armazenamento é preciso que a água passe por um filtro, o qual impede entrada de folhas, galhos de árvores, animais mortos (artrópodes, roedores, aracnídeos) insetos e outras interferências de granulometria considerável. Armazenamento: o reservatório deve ter dimensionamento compatível com a precipitação local, demanda (parcial ou total), aspectos sanitários e sustentabilidade hídrica da bacia hidrográfica. A água armazenada pode passar por desinfecção prévia antes do uso e a higienização dos tanques de armazenamento também deve ser prevista. Apesar de ser de grande utilidade pública e passar por certo tratamento, as águas pluviais não podem ser armazenadas por um longo período de tempo, pois pode oferecer riscos sanitários e prejuízos ao ciclo hidrológico natural. Os sistemas de água potável e não-potável precisam ser independentes para que não exista risco de contaminação. Fazse necessária a implantação de tanque reserva no caso de excesso de água pluvial ou instalação de um extravasor, o qual escoe o excedente para a rede coletora de esgoto ou para a bacia hidrográfica. Para sistemas de água potável é indispensável a conexão do abastecimento de água da rede pública ao reservatório de água pluvial, pois em caso de não atendimento à demanda tal reservatório deve ser alimentado por água potável. Distribuição: as redes de distribuição de água potável e água não-potável (pluvial) devem ser devidamente separadas. O sistema de água não-potável adequa-se às tubulações de descarga de vasos sanitários, irrigação de jardins e lavagem de pisos e automóveis; as demais tubulações seguem a padronização para água potável. Legislação e normas técnicas Vários países já possuem legislação para critérios de qualidade de água para uso não-potável, com base nas diretrizes da Organização Mundial de Saúde – OMS, referência mundial no assunto. No Brasil, a legislação que trata do aproveitamento de água pluvial ainda é incipiente, mas para efeito de aplicação deste uso utilizam-se as legislações vigentes que instituem os fundamentos da gestão dos recursos hídricos. Nessa direção, a Constituição Federal de 1988 foi a base para a lei que institui a Política Nacional de Recursos Hídricos – PNRH (Lei nº 9.433/1997). Em algumas cidades brasileiras, como São Paulo (Lei nº 13.276/2002), Rio de Janeiro (Decreto Lei nº 23.940/2004) e Curitiba (Lei 10.785/2003 e Decreto 293/2006 - Programa de Conservação e Uso Racional de Água nas Edificações – PURAE), o uso de água da chuva já está normatizado devido ao grande número de áreas impermeabilizadas que amplificam as cheias e enchentes. Vale ressaltar que para usos diretos da água sua outorga é exigida em diversos casos previstos em lei casos, porém no caso de uso de água da chuva o usuário é dispensado de outorga ou qualquer outro tipo de autorização, uma vez que a utilização da água pluvial não se enquadra em nenhuma hipótese legal desse tipo de concessão. Segundo Nogueira (2003), a água da chuva é considerada pela legislação brasileira como esgoto, pois usualmente é coletada em telhados e pisos de onde segue para os sistemas de drenagem via bocas-de-lobo, carregando impurezas dissolvidas. Nesse fluxo quase invariavelmente a água da chuva é arrastada para um rio que pode ser o local de captação de água para tratamento e posterior consumo. Mesmo antes da publicação da NBR 15.527, norma de regulariza os requisitos para aproveitamento de água de chuva em coberturas de áreas urbanas, algumas cidades brasileiras já possuíam legislação pertinente, sendo as mais importantes a Lei nº 10.785/2003 do município de Curitiba e a Lei nº 6.345/2003 do município de Maringá, ambos no estado do Paraná. Atualmente, a fundamentação técnica para este tipo de projeto encontra-se na NBR 15.527 da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT. Esta norma descreve os requisitos para o aproveitamento de águas pluviais em áreas urbanas para fins não-potáveis. Para instalações prediais de águas pluviais, deve ser observada a NBR 12.213 e a concepção do projeto do sistema de coleta de água de chuva deve atender às NBR 5.626 e NBR 10.844.

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Critérios básicos para água de uso não-potável Saúde pública - a água é principal transporte de doenças, logo para uso humano este recurso tem de estar isento de agentes patógenos, mas também de substâncias que ofereçam riscos e/ou perigos, ou seja, todo e qualquer agente causador de danos a saúde pública. Quanto maior o contato humano com uma água dita recuperada (ex. água pluvial captada), maior deve ser a segurança sanitária. Aceitação da água pelo usuário - para a aceitabilidade do usuário é necessária uma qualidade estética. Na maioria das vezes, é exigido pelo usuário que a água não apresente cor e turbidez perceptíveis nem odor em caso de uso para descargas sanitárias. Preservação ambiental - para estar de acordo com o ambiente é preciso que o uso de água pluvial não comprometa a recarga de cursos d‘água nem muito menos de bacias hidrográficas e até mesmo cause depreciação ambiental em diversos aspectos. Uma vez perturbada a ciclagem natural dos recursos hídricos, o aproveitamento de água pluvial se torna inviável. Qualidade da fonte - a água pluvial é considerada limpa, salvo em casos especiais de contaminação. Adequação da qualidade ao uso pretendido - para consumo de água mesmo não potável é necessário tratamento para tal destinação. São exigidos valores de atendimento a parâmetros como coliformes totais, turbidez e cor. Procedimentos de adequação são indispensáveis para atendimentos aos requisitos de qualidade para uso não potável a fim de garantir segurança sanitária e ambiental. Parâmetros de qualidade da água não-potável Segundo GROUP RAINDROPS (1995), que para a utilização das águas pluviais, classificasse as mesmas por graus de pureza, de acordo com os locais de sua coleta, como está demonstrado no Quadro 1. Quadro 1 – Graus de pureza e utilização das águas pluviais no Japão Grau de Pureza Área de Coleta das Águas Pluviais A Telhados (locais não usados por pessoas e animais) B C D Coberturas, sacadas (locais usados por pessoas e animais) Estacionamentos, jardins artificiais Vias elevadas, ferrovias, rodovias

Utilização das Águas Pluviais Vaso sanitário, regar plantas, outros usos. Se purificadas por tratamento simples são potáveis ao consumo. Vaso sanitário, regar plantas, outros usos, mas impróprias para consumo. (tratamento necessário). Vaso sanitário, regar plantas, outros usos, mas impróprias para consumo. (tratamento necessário). Vaso sanitário, regar plantas, outros usos, mas impróprias para consumo. (tratamento necessário). Fonte: GROUP RAINDROPS (1995)

Dessa forma, as utilizações mais predominantes das águas pluviais são para vasos sanitários, rega de jardins e outros usos não-potáveis. Caso se opte pelo uso desta água para fins nobres como higiene pessoal e preparo de alimentos, se faz necessário o tratamento da mesma, conforme as exigências de seu grau de pureza. O estudo foi direcionado ao aproveitamento da água pluvial para usos de água não-potável, devido a sua menor exigência em termos de adaptação das instalações já existentes na Malha NEM. O Quadro 2 sintetiza os parâmetros nacionais e internacionais de qualidade de água para uso não-potável.

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Quadro 2 – Parâmetros nacionais e internacionais para uso de água não-potável Parâmetros NBR 15.527 EPA Coliformes totais (nmp/100 ml) Coliformes (nmp/100 ml) Turbidez (ntu) Cor (Hz) pH termotolerantes Ausência Ausência < 2,0 p/ usos menos restritivos < 5,0 < 15,0 Hz 6,0 a 8,0 p/ tubulação de aço carbono ou galvanizado Ausênci a Ausênci a ≤ 2,0 6,0 a 9,0

Austráli a < 150 6,5 a 8,5

Canadá < 200 50 6,5 8,5 a

Avaliação da viabilidade técnica e econômica Para que um projeto de aproveitamento de água pluvial seja considerado viável tecnicamente, é necessário calcular o potencial de captação e verificar o consumo médio local de água e que possa ser substituído (água potável por água não-potável). Em outras palavras, verifica-se o balanço das entradas e saídas do sistema. Considera-se o projeto tecnicamente viável quando a água captada for igual ou maior que o consumo. Logo em seguida, o projeto é avaliado sob o ponto de vista econômico, especialmente em termos de redução de custos. O volume de captação de água de chuva é calculado de modo bem simples, com quatro variáveis básicas para se calcular esse potencial: I) Precipitação (x) A quantidade de água que precipita da atmosfera é o primeiro fator determinante do potencial de captação. Assim, o índice anual de chuva (índice pluviométrico) do local onde se deseja instalar o sistema de aproveitamento é uma informação fundamental. Este índice mede quantos milímetros chove por ano em um metro quadrado de superfície. II) A área de captação (y) Entende-se por área de captação ou de contribuição, o telhado ou qualquer outra superfície impermeável em que a água será captada para ser armazenada. Mede-se esta área em metros quadrados, calculando-se sua superfície projetada (y) conforme ilustra a Figura 2:

(y) Figura 2 – Área de captação (y). Na Figura 2, a água poderá ser captada de um ou dos dois lados do telhado, dependo do sistema de calhas. III) Eficiência do telhado (w) A eficiência do telhado está diretamente relacionada a sua inclinação, material, porosidade e estado de conservação. Admitindo-se que não existe total eficiência da área de captação, considera-se uma perda de 15% de eficiência. Por exemplo, telhados lisos e metálicos são mais impermeáveis do que telhados de sapé, facilitando o escoamento da água para a calha. Para finalidade de captação devem ser evitadas as telhas de amianto. Segundo o Ministério da Saúde, o amianto está relacionado com diversas patologias, malignas e não-malignas. IV) Eficiência na filtragem (z) A filtragem é responsável pela segregação do material grosseiro. Cerca de 10% da água é perdida com as sujeiras e até mesmo pela ação do vento. Mesmo assim ainda é possível ter aproveitamento de grande quantidade de água. Um filtro de boa qualidade e em bom estado de conservação, normalmente, não deixa seguir com a sujeira mais do que 10% da água, ou seja, cerca de 90% de água "limpa" segue para o reservatório.
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O aproveitamento efetivo desse potencial depende da capacidade de armazenagem e de uma análise de custobenefício do projeto como um todo. O cálculo do Potencial de Captação é feito utilizando-se a seguinte fórmula: Potencial = X*Y*W*Z Onde: X = precipitação anual ou mensal (m) Y = área de captação (m²) W = eficiência do telhado (%), admite-se 85% Z = eficiência na filtragem (%), admite-se 90%. Para o aproveitamento desta água faz-se a análise comparativa dos períodos secos e chuvosos com o atendimento da demanda local de consumo (anual e mensal). Esta análise serve de base para justificar o uso da tecnologia em questão. A viabilidade do projeto depende a princípio de um comparativo entre o cálculo potencial de captação e a verificação de consumo médio local de água, o qual possa ser substituído (água potável por água não-potável). A viabilidade ocorre quando a água captada for igual ou maior que o consumo e se o projeto for economicamente favorável. Caso contrário, o uso dessa tecnologia poderá ser compensado em algum(ns) período(s) do ano.

METODOLOGIA Foram definidos os seguintes objetivos do projeto de aproveitamento de água pluvial, caso o estudo confirmasse sua viabilidade técnica-ambiental:     Reduzir o consumo total de água potável proveniente de rede de abastecimento ou de captação subterrânea; Reduzir o custo de implantação da área de armazenamento temporário de resíduos da Base Catu; Eliminar o consumo de água potável para usos menos nobres, tais como: irrigação de jardins, descargas sanitárias, lavagem de banheiros e pisos, lavagem de PIGs usados; Reduzir a deterioração das instalações administrativas causada pelo impacto da água que escorre dos telhados.

A partir desse ponto, teve início um estudo preliminar que investigou o potencial de captação existente nas estruturas físicas das instalações. Para tanto, foram selecionadas as bases operacionais da TRANSPETRO localizadas em Aracaju-SE, Catu-BA e Camaçari-BA (Figura 3). Elas concentram a maior parte das construções (prédios administrativos e galpões operacionais) com áreas de cobertura que recebem a precipitação pluviométrica que pode ser utilizada como fonte da captação. Em paralelo, verificou-se o patamar de consumo médio de água registrado nos levantamentos e medições realizados nos últimos anos e disponíveis nos sistemas informatizados da TRANSPETRO.

Figura 3 – Localização das bases operacionais da Malha NEM: Aracaju-SE, Camaçari-BA e Catu-BA (círculos amarelos).
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RESULTADOS Para permitir a entrada dos dados necessários à fórmula do cálculo de potencial de captação, inicialmente foram levantados: os dados oficiais dos índices pluviométricos das regiões em que as bases estão localizadas e as áreas de cobertura dos prédios existentes. Em seguida, realizou-se o levantamento da demanda por água. Levantamento da precipitação pluviométrica A pluviosidade média do estado da Bahia (BAHIA, 2011), demonstra que as regiões do Litoral Norte e Recôncavo Baiano, em que se localizam as bases operacionais de Catu e Camaçari respectivamente, apresentam uma pluviosidade com isoietas que variam entre 1.400 e 1.800 mm. No estado de Sergipe, a município de Aracaju, onde está localizada outra base operacional da Malha NEM, apresenta precipitação média anual de 1410 mm (FONTES, 2008). A partir de vários dados oficiais, foi elaborado o Quadro 3 que apresenta a precipitação pluviométrica nas regiões em que estão localizadas as instalações da Malha NEM que dispõem de área coberta em que um sistema de aproveitamento de água de chuva pode ser implantado. Os números são condizentes com os dados históricos encontrados nos mapas de isoietas citados anteriormente e confirmam as condições climáticas das regiões. Os volumes de precipitação indicam o potencial de coleta e acúmulo de água nas bacias de contenção que estão diretamente relacionados com a dinâmica de geração do resíduo enquadrado como “água oleosa”. Os dados pluviométricos confirmam a alta relevância da contribuição da água pluvial para o sistema de drenagem oleoso/contaminado: Quadro 3 – Níveis de precipitação registrados no ano de 2010 em regiões onde estão localizadas três bases operacionais da Malha NEM. Aracaju-SE Camaçari-BA Catu-BA Mês/Ano Precipitação (mm) Mês/Ano Precipitação (mm) Mês/Ano Precipitação (mm) Jan/2010 26,90 Jan/2010 80,20 Jan/2010 63,30 Fev/2010 74,70 Fev/2010 101,60 Fev/2010 98,10 Mar/2010 37,60 Mar/2010 176,30 Mar/2010 137,40 Abr/2010 444,80 Abr/2010 265,70 Abr/2010 181,30 Mai/2010 170,40 Mai/2010 286,30 Mai/2010 221,20 Jun/2010 322,00 Jun/2010 236,80 Jun/2010 171,80 Jul/2010 178,80 Jul/2010 194,10 Jul/2010 162,50 Ago/2010 124,80 Ago/2010 130,90 Ago/2010 110,50 Set/2010 101,00 Set/2010 99,40 Set/2010 78,20 Out/2010 11,50 Out/2010 99,20 Out/2010 86,60 Nov/2010 10,50 Nov/2010 165,80 Nov/2010 94,50 Dez/2010 11,30 Dez/2010 140,00 Dez/2010 70,20 Anual 1114,30 Anual 1979,00 Anual 1475,60 Levantamento da demanda Os dados disponíveis de consumo de água nas três bases operacionais citadas no levantamento do índice pluviométrico são mostrados no Quadro 4 e correspondem a uma média mensal registrada no período de 2011 a março/2012. Quadro 4 – Valores médios de consumo mensal de água em três bases operacionais da Malha NEM entre 2011 e março/2012. Aracaju-SE Camaçari-BA Catu-BA 30 m3 40 m3 70 m3 Cálculo do Potencial de Captação Os resultados permitiram identificar quais os meses mais favoráveis para o uso da água pluvial e calcular a redução mensal e anual prevista no consumo de água potável nas respectivas bases. De acordo com os dados dos projetos construtivos, em todas as bases estudadas as áreas de contribuição dos prédios administrativos e dos galpões operacionais somadas apresentam os seguintes de potenciais de captação anual: Base de Aracaju = 590 m3; Base de Camaçari = 940 m3; Base de Catu = 1.882 m3. A partir dos dados obtidos referentes às edificações e respectivas coberturas existentes nas bases de Aracaju-SE, Camaçari-BA e Catu-BA, foi possível calcular os potenciais mínimos e máximos de captação mensal das coberturas. Os números estão sintetizados no Quadro 5, onde o potencial mínimo corresponde ao mês de menor
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índice pluviométrico e o potencial máximo corresponde ao mês mais chuvoso, conforme a região. Ao mesmo tempo, foi possível confrontar esses números com os níveis de consumo de água e encontrar os maiores déficits e superávits no balanço projetado. Quadro 5 – Potenciais mínimos e máximos de captação mensal das coberturas de edificações existentes em três bases operacionais da Malha NEM e médias de consumo. Bases Potencial (m³) Consumo (m³) Balanço projetado (m3) Mínimo Máximo Média mensal Maior déficit Maior superávit Aracaju (SE) 5,59 236,65 30 -24,41 +206,65 Camaçari (BA) 38,28 136,68 40 -1,72 +96,68 Catu (BA) 101,75 355,57 60 0,00 +295,57 Em termos de satisfação tecnológica e econômica, os locais foram considerados superavitários, apesar dos períodos de menor precipitação nos meses de outubro a janeiro em Aracaju-SE; janeiro, setembro e outubro em CamaçariBA; e janeiro, setembro e dezembro em Catu-BA. Isto porque o potencial de captação nos meses mais chuvosos, mais numerosos ao longo do ano, supera com ampla vantagem esses déficits. Após a apresentação desses números para a análise crítica da Gerência da Malha NEM, o prosseguimento do projeto foi autorizado inicialmente para a Base de Catu, devido ao maior potencial ali existente. O passo seguinte foi manter contato com empresas especializadas para um maior aprofundamento no assunto e a realização de visitas técnicas aos locais para maior detalhamento, o que aconteceu nos meses seguintes. De antemão foi definido que o aproveitamento da água pluvial captada para o uso não-potável, visando a simplificar o projeto, pois será desnecessário um tratamento complexo. O tratamento simplificado mais barato consistirá apenas na retirada de material grosseiro e assepsia com dosagem de cloro. Os principais procedimentos realizados como requisitos à elaboração do projeto foram: - Compatibilização da área de contribuição/captação (telhado); - Medição de perímetro da área supracitada para instalação ou suplemento do sistema de calhas; - Dimensionamento do filtro (pré-assepsia) para acoplá-lo a extremidades do sistema de calhas; - Inserção de dispositivo para descarte de carga inicial de precipitação, este deve estar paralelo a tubulação receptora de água da chuva; - Canalização para tanque de armazenamento; - Bomba dosadora de cloro (desinfetante); - Dimensionamento do reservatório; - Locação do reservatório; - Conexão do reservatório a água potável ou conexão de água potável a sistemas direcionados a água não potável em caso de escassez de água pluvial; - Observância de área de sedimentação do tanque; - Descarte de material sedimentado; - Extravasor; - Estabelecimento de cronograma de limpeza e manutenção de calhas, filtros e reservatório; - Conexão à rede de esgotamento sanitário ou sistema de drenagem. Desenvolvimento dos projetos Para melhor compreender os requisitos de elaboração de projetos de sistema de aproveitamento de água de chuva, além de uma revisão de literatura sobre o tema, foram mantidos contatos com empresas especializadas disponíveis no mercado. Representantes dessas empresas apresentaram palestras e realizaram visitas técnicas à Base Operacional de Catu, no intuito de estabelecer as premissas dos projetos e auxiliar na análise preliminar de viabilidade. Os dois primeiros projetos foram desenvolvidos para a Base de Catu devido a três importantes fatores: a) apresentar o maior potencial de captação de água pluvial, considerando-se o conjunto das edificações; b) apresentar o maior nível de consumo de água; e c) ter a maior parte do abastecimento (70% do total) realizado por meio de manancial subterrâneo. Um dos projetos contemplou o prédio administrativo já existente e o outro se destina a uma área de armazenamento temporário de resíduos que ainda será construída. Os sistemas devem funcionarão utilizando o telhado como captador da água de chuva, que deve ser dirigida por meio da tubulação para um filtro específico auto-limpante que atenda à área de captação, e em seguida levada para o tanque (cisterna), de onde será distribuída aos pontos de consumo.
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Para atender ao prédio administrativo, o sistema foi dimensionado visando a suprir quatro pontos de irrigação dos jardins, as tarefas de limpeza das áreas externas e as descargas sanitárias dos banheiros, com uma cisterna com capacidade de 10.000 litros. Como se trata de uma edificação existente e que já possui instalação hidráulica convencional, será necessário realizar pequenas obras civis para a adaptação, principalmente no que se refere ao fornecimento de água de chuva às descargas sanitárias. Apesar do prédio administrativo possuir uma área de cobertura de 257,60 m2, a adaptação da instalação hidráulica para aproveitamento da água pluvial para uso nãopotável revelou-se viável técnica e economicamente. Isto porque seu potencial de captação anual na ordem de 290,66 m3 poderá reduzir em 40% o consumo da água potável que exige dispêndio de energia e insumos para sua captação e tratamento. O sistema concebido para o galpão que servirá ao armazenamento temporário de resíduos visa a abastecer um ponto de lavagem e outro de irrigação de jardim. Para este, a capacidade da cisterna será de 3.000 litros. Ao contrário da edificação anterior, este galpão ainda será construído e o sistema foi incluso no Memorial Descritivo da obra completa. A análise comparativa dos custos para a instalação hidráulica convencional, interligada à rede já disponível identificou uma oportunidade de racionalização dos custos, haja vista a distância entre o local do galpão e a rede hidráulica mais próxima. Além disso, pela mesma razão o sistema dispensou a instalação de uma rede elétrica de maior complexidade no galpão. A instalação do sistema de aproveitamento de água de chuva representa 2,9% do custo total de construção do galpão e em comparação com os custos evitados de instalação hidráulica e elétrica convencional, não elevou o custo total da obra. Neste galpão, a água da chuva também terá uso não-potável, pois se destina à lavagem simples de utensílios. Com uma cobertura de 127 m2, seu potencial de captação anual é estimado em 143,3 m3 para uma demanda calculada de cerca de 20 m3/ano, ou seja, com amplo superávit que poderá suprir outras demandas futuras e até mesmo emergenciais. Muitas vezes despercebido, um elemento que provoca aumento nos custos de conservação das instalações é a deterioração de calçadas causada pelo impacto da água que escorre dos telhados e cai diretamente sobre o piso. Periodicamente, conforme o regime pluviométrico do local, as calçadas e pavimentos situados nos beirais das edificações necessitam de pequenas obras civis. Um sistema de aproveitamento, ao interceptar os volumes de água da chuva, evita os efeitos danosos sobre o piso e assim reduz os custos relacionados a sua conservação. Um importante benefício trazido pelos dois projetos é a diminuição da demanda de água em relação às fontes de abastecimento da base operacional, um poço tubular e a rede de abastecimento proveniente de uma unidade da PETROBRAS. Dessa forma, será possível expandir a estrutura operacional sem aumentar a demanda pelo recurso hídrico e ainda manter a captação do manancial subterrânea dentro dos limites de vazão e volume autorizados pelo órgão regulador.

CONCLUSÃO Assim como em outras atividades, no transporte de gás natural o aproveitamento da água da chuva é um instrumento de racionalização do uso dos recursos hídricos de aplicação não somente possível, mas também viável técnica e economicamente. Este instrumento traz como benefício adicional a diminuição da pressão de demanda sobre recursos de relativa escassez e serviços de tratamento mais complexos, sobretudo quando a água se destina ao uso não-potável. Os dois projetos de aproveitamento da água de chuva descritos neste trabalho estão alinhados com os princípios de ecoeficiência, sustentabilidade e responsabilidade sócio-ambiental que caracterizam as abordagens mais modernas da gestão empresarial. Elaborados de acordo com as normas técnicas vigentes no Brasil e agregando os avanços tecnológicos disponíveis no mercado, os projetos foram exitosos ao buscarem o menor impacto possível nos custos de construção, reforma e conservação das instalações. Como as perspectivas de expansão da atividade de transporte de gás natural projetam um incremento nas demandas operacionais, projeta-se também o aumento na demanda por recursos naturais, especialmente a água. Ao diminuir a demanda por água captada nos mananciais que abastecem a Base Operacional de Catu, a instalação dos sistemas de aproveitamento de água de chuva no prédio administrativo e na área de armazenamento temporário de resíduos conseguirá amortecer esta pressão sobre o recurso. Em relação ao manancial subterrâneo, os sistemas contribuirão para a redução dos custos de manutenção do conjunto motobomba e do consumo de energia elétrica utilizada no seu acionamento. Vale ressaltar os benefícios intangíveis obtidos com a implantação dos projetos, relacionados à imagem da empresa e a satisfação dos empregados que desenvolverão suas tarefas em uma unidade com estruturas que favorecem a preservação dos recursos hídricos.
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