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IBP1101_12 A EVOLUÇÃO DO ESFORÇO EXPLORATÓRIO NO BRASIL EM RELAÇÃO À SUA DISTRIBUIÇÃO NAS BACIAS SEDIMENTARES E ÀS MUDANÇAS NA ESTRUTURA INSTITUCIONAL - 1922

A 2008 Felipe Accioly1, Julia Draghi 2

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo Este estudo baseia-se nos dados disponíveis no banco de dados georreferenciados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), relativos à posição geográfica, ano de perfuração e resultados de indícios de óleo e gás obtidos, nos poços perfurados no Brasil entre 1922 e 2010. A posição dos poços foi assinalada em relação à bacia sedimentar e agrupada em cinco períodos (1922-1953, 1954-1961, 1962-1970, 1971-1997 e após 1997). Para cada período algumas das mais significativas alterações nas técnicas ou na estrutura institucional foram compiladas e relatadas.Os mapas com estas informações permitiram uma discussão sobre a evolução dos métodos e critérios utilizados na definição dos prospectos em cada período e apresentam uma possibilidade de explicação para a baixa produtividade do esforço exploratório brasileiro até a década de 1980 assim como para os sucessos obtidos nos anos 90 e na primeira década do século XXI.

Abstract This study is based on the available data on the georeferred database of the Brazilian oil and gas government regulatory agency (ANP – Agência Nacional do Petróleo Gás e Biocombustíveis) regarding the position, year of drilling and results of the oil and gas wells drilled in Brazil. The position of the wells were plotted on their sedimentary basins and grouped into five periods (1922-1953, 1954-1961, 1962 - 1970, 1971-1997, after 1997). For each period some of the most significant changes in the technical or institutional background were compiled and reported. Those maps allowed an interesting discussion on the criteria and methodology used to establish the prospect locations at each period and presented a possible explanation for the very low productivity of drilling in Brazil up to the 80’s as much as the changes in the conceptual basis that lead to the successful performance of the 90’s and the first decade of the 21st century

______________________________ 1 Doutorando HCTE-UFRJ, Mestre, Especialista em Regulação ANP 2 Bacharel em Ciência Biológicas – EMPRESA B

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

As bacias sedimentares brasileiras
No mapa abaixo estão assinaladas as bacias sedimentares terrestres do Brasil em verde, para as bacias cretáceas da região costeira, e em laranja para as bacias paleozóicas do interior. As bacias marinhas estão mapeadas em azul.

Figura 1 - Principais bacias sedimentares terrestres brasileiras

1922-1953 – O período pré Petrobras
No mapa relativo a este período estão as explorações cujos registros estão disponíveis no banco de dados ANP/BDEP. Nesta fase a perfuração de poços exploratórios era motivada por afloramentos de óleo, geralmente como resultado da escavação de cacimbas e reservatórios de água. Dias e Quaglino (1993 p.13) fazem referência a um total de cinqüenta e um poços perfurados a partir de 1919, a maioria no estado de São Paulo (18), Paraná (7) e ainda alguns no estado do Pará (9), entretanto como não há indicação precisa da posição dos poços, ou mesmo da bacia sedimentar onde foram perfurados, assim optou-se por não contabilizá-los neste estudo.

Figura 2 - Distribuição geográfica dos poços entre 1922 e 1963

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 A escolha por 1922 como marco inicial resulta da metodologia adotada, onde os dados georeferenciados dos poços desempenham o papel de guia para a pesquisa. O primeiro poço registrado é poço estratigráfico perfurado na formação SERGI, distrito de Camamu , Bahia em 1922 e abandonado como poço seco com 438 metros de profundidade. Note-se que é referente a esse mesmo distrito o primeiro documento autorizando a exploração de petróleo no Brasil, emitido pelo Ministério de Negócios do Império, em 22 de Fevereiro de 1839. Esta autorização foi emitida como resposta à uma amostra de óleo obtida de um afloramento e enviada à análise do Museu Nacional que a caracterizou como turfa e petróleo através de análise físico-química. E essa região no entorno de Salvador, Bahia manteve-se como palco central da exploração de petróleo no Brasil, o que é compatível com os dados sumarizados na tabela 1 onde aparecem os totais de poços perfurados no período e agregados por bacia. Esta região está representada pelas bacias do Recôncavo e de Camamu. Tabela 1 - Poços perfurados no período 1922-1953 e com registros disponíveis no banco de dados da ANP/BDEP Bacia sedimentar Recôncavo Sergipe Alagoas Camamu Tucano Sul Poços perfurados Bacia sedimentar 296 16 7 4 3 Marajó Paraná Tucano Norte Tucano Central Parnaíba Total Poços perfurados 2 1 1 1 1 332

Bacoccoli (2008, p.15) refere-se à dificuldade em identificar as chances de existência de petróleo na bacia do Recôncavo, mesmo na década de 1930/1940: O DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), repartição federal incumbida dessas tarefas, encaminhou seguidas vezes seus geólogos a Lobato e, dessas visitas, obtiveram-se regularmente pareceres desfavoráveis à existência de petróleo. Deve-se aqui recordar que a capital baiana é cortada por uma grande falha, denominada por essa razão, falha de Salvador, em sua presente expressão no terreno, que se dá a separação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, cada uma posicionada sobre um dos blocos de falha, entre os quais o conhecido elevador Lacerda serve de ligação. Na escarpa de falha e no bloco alto – a Cidade Alta – só ocorrem rochas do embasamento cristalino, sem a menor possibilidade de conter petróleo; no bloco baixo – a Cidade Baixa – ocorrem as rochas sedimentares da bacia do Recôncavo Baiano, extremamente prolíficas em petróleo. A localidade de Lobato situa-se no bloco baixo – dentro da bacia do Recôncavo – mas a poucas centenas de metros da escarpa da falha de Salvador, com rochas do embasamento cristalino. Ocorria então que geólogos do DNPM, após vistoriarem cacimbas e tocas de caranguejos, andavam até o afloramento mais próximo onde, na escarpa de falha, batiam seus martelos em rochas do embasamento, desqualificando a área para prospecção. A desproporção do número de poços perfurados na bacia do recôncavo, em relação às demais, resulta da primeira descoberta de um poço com óleo, em Lobato no ano de 1939. Ainda que o poço tenha-se revelado sub-comercial para os preços de óleo da época, essa descoberta definiu a região de prioridade para o trabalho de exploração dali em diante. O poço DNPM 163 em Lobato, foi resultado de um empreendimento patrocinado pelo presidente da bolsa de mercadorias da Bahia, Oscar Cordeiro, que em 1936 enviou amostras de óleo de um afloramento em Lobato para técnicos do DNPM, que como resultado viajaram por conta própria à Bahia onde desenvolveram alguma pesquisa de campo e retornaram ao Rio de Janeiro com um plano de exploração detalhado. Esse plano foi conduzido a partir de 1938 com recursos financeiros de companhias e investidores individuais (Moreira e Lamarão, 2005 p.74). Pode-se inserir aqui um comentário sobre o tratamento que as instituições brasileiras dispensaram ao direito de propriedade sobre as reservas de óleo e gás ao longo do tempo. Do período colonial até o estabelecimento da república em 1889, toda terra e seus produtos era de propriedade da coroa, e eram exploradas sob concessão. No caso específico dos minérios, à coroa era reservado o direto de extraí-los por sua conta ou através de delegação sob o pagamento de royalties, em conformidade com o código regalista (Moreira & Lamarão, 2005). Esse cenário mudou com a primeira constituição republicana, efetiva entre 1891 e 1930. Neste período, os direitos sobre a terra bem como sobre os recursos minerais nela contidos passaram a ser propriedade privada e apesar do número relativamente pequeno de poços perfurados, o interesse dos proprietários da terra sobre os seus eventuais recursos minerais, gerou um grande número de amostras de óleo e combustíveis fósseis a serem analisados, como foi mencionado por Figueirôa (1995 p.203) e várias companhias foram criadas para perseguir estas novas oportunidades (Dias & Quaglino, 1993 p.25). 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 O golpe de estado de 1930 mudou a orientação do estado brasileiro em direção a um totalitarismo nacionalista que se refletiu na constituição de 1934 onde o direito de propriedade dos recursos minerais foi transferido de volta para o estado. Essa posição foi reforçada pelo decreto número 366 de 11 de Abril de 1938, que desobrigava o governo a reconhecer os direitos de propriedade previamente estabelecidos sobre as reservas de óleo e gás. Baseado neste decreto de 1938, um outro publicado em 8 de Fevereiro de 1939 sob número 3.701 estabelecendo um raio de 60km em torno do poço de Lobato como sendo reserva nacional de peróleo, revogando todas as autorizações de exploração emitidas anteriormente e proibindo novas concessões para exploração e produção. A partir de então a exploração passaria a ser feita pelo governo, sob coordenação de CNP (Conselho Nacional de Petróleo), um órgão criado pelo decreto número 395 de 29 de Abril de 1938, que conforme Moreira & Lamarão(2005): “O fato é que Horta Barbosa foi levá-los [as cópias assinadas do decreto] pessoalmente ao Diário Oficial, a fim de garantir que a publicação se desse de modo seguro e secreto [grifo meu]”. O CNP foi responsável pela perfuração de 328 de um total de 322 poços, conforme os registros da ANP/BDEP, principalmente na bacia do Recôncavo, mas também e de maneira bem sucedida na bacia de Sergipe. A escolha de 1953 como marco do fim deste período é bem menos arbitrária uma vez que adota a data de publicação do decreto de criação da Petrobrás. A criação da companhia materializou a opção estratégica do país por uma estrutura institucional onde o estado não só era proprietário das reservas de óleo e gás, como dava um passo além, estabelecendo um monopólio estatal da exploração, produção, transporte e refino, em conformidade com a previsão da constituição de 1934 e deixando às empresas de petróleo apenas a distribuição e venda de derivados.

1954 – 1961 – Petrobrás: O período Walter Link
O mapa a seguir mostra os poços perfurados nos seis anos da gestão do Norte-americano Walter Link à frente do departamento de exploração da Petrobrás (DEPEX).

Figura 3 - Distribuição dos poços entre 1954 e 1961 Walter Link trabalhou por vários anos como executivo de exploração da Standard Oil of New Jersey e foi convidado para trabalhar na Petrobras no final do ano de 1953, iniciando suas atividades no Brasil no começo de 1954. A escolha de um ex-funcionário de uma das “filhas” da Standard Oil Co., que havia sido desmembrada pela justiça norteamericana no início do século devido às suas práticas de monopólio e conluio para manipulação de preços, provou ser tão efetiva em obter resultados quanto em gerar desconforto junto à classe política, à imprensa e à opinião pública. Ainda mais que Walter Link não veio sozinho, mas seguindo um planejamento estabelecido junto à diretoria da Petrobras, trouxe consigo toda uma equipe de geólogos de petróleo e de geofísicos, com o objetivo não apenas de realizar o trabalho de exploração, mas também de estabelecer um programa de treinamento e qualificação do pessoal brasileiro que iria trabalhar na área de exploração da Petrobras. É significativo o fato de que Dias & Quaglino (1993 p.113) afirma que essa estratégia foi adotada porque “não havia curso de geologia no país”, o que vai contra o que é afirmado por Figueirôa (p.234) para quem o ensino e estudo 4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 das ciências geológicas no Brasil podem ser traçado desde 1810 até 1940. Ao invés de aceitar a explicação proposta por Dias & Quaglino, é razoável inferir que, baseado nas experiências anteriores do DNPM e CNP, o conselho diretor da Petrobras identificou que os profissionais disponíveis no país tinham lacunas no seu conhecimento técnico que comprometiam os resultados ou a eficiência da exploração e deliberadamente escolheu investir na formação de uma nova equipe contando com professores cuja experiência na atividade de exploração de petróleo fosse comprovada. Então o número de técnicos estrangeiros a serviço da Petrobras mostra uma curva que atinge seu máximo em 1958 e então começa a diminuir, mas não necessariamente como resultado de uma estratégia traçada previamente, e mais como resultado da crescente pressão dos grupos nacionalistas, acelerando-se entre 1961 e 1964 em decorrência da instabilidade política no país. Ano Técnicos Ano Técnicos estrangeiros estrangeiros 1955 22 1961 54 1956 37 1962 36 1957 63 1963 26 1958 72 1964 11 1959 62 1965 8 1960 68 Tabela 2 - Número de técnicos estrangeiros a serviço da Petrobras entre 1955 e 1965 A pressão nacionalista em 1961 foi suficiente para que Walter Link optasse pelo encerramento do seu contrato com a Petrobras e retornasse aos EUA, sendo seguido nos próximos três anos pela maior parte da sua equipe. O trabalho conduzido por Walter Link como executivo chefe do DEPEX pode ser sumarizado em três orientações básicas: • Constituir uma equipe de técnicos, estrangeiros e brasileiros capaz de iniciar um programa continuado de formação interna de recursos para a Petrobras. • Desenvolver a produção nas reservas já conhecidas das bacias do Recôncavo e Sergipe. • Obter dados sobre as bacias sedimentares brasileiras que permitisse a sua classificação em termos de risco exploratório para priorizar o esforço de exploração. Isto incluía compilar as informações já disponíveis, mas na maioria dos casos significava realizar levantamentos de campo nas bacias, obtendo dados geográficos, aerofotogramétricos, eletro gravimétricos e sísmicos. Em relação à construção da equipe, o gráfico a seguir (Azevedo & Terra, 2008) mostra a composição numérica da equipe de geólogos e geofísicos da Petrobras, agrupados entre brasileiros e estrangeiros:
1600 1400 1200 1000 800 600 400 200 0 Brasileiros Estrangeiros

Quadro de geólogos e geofísicos

1954 1956

1958 1960 1962

1964 1966 1968

1970 1972 1974

1976 1978 1980 1982 1984

1986

1988 1990 1992

1994 1996 1998

Figura 4 - Tamanho e composição da equipe de geólogos e geofísicos da Petrobras entre 1954 e 2008 Após seis anos de trabalho Walter Link enviou à diretoria da empresa um memorando definindo um código de classificação para cada bacia sedimentar segundo a sua atratividade para a atividade de exploração. Essa classificação foi gerada como consenso da equipe do DEPEX que, segundo o memorando, tabulou todas as informações e a análise de cada membro da equipe. A descrição fornecida por Walter Link sugere que ele adotou a técnica conhecida como Método de Delfos, ou Painel de Especialistas, muito usada para obter a melhor estimativa possível em situações de incerteza elevada e baixa qualidade dos dados, que impedem a utilização de métodos quantitativos ou de avaliações objetivas. No memorando DEPEX 1032/60, datado de 22 de Agosto de 1960 ele explicita os critérios de classificação ao presidente da Petrobras: “...as condições [para existência de óleo] são as seguintes: 1) Grande espessura das rochas matrizes para a geração do óleo; 5

2000 2002 2004 2006 2008

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 2) Rochas porosas ou fraturadas capazes de servir de reservatório no qual o óleo formado se acumula e do qual pode ser retirado; 3) Estrutura ou outras condições geológicas como "traps" estratigráficos, blocos permeáveis, etc. independentes da estrutura em que o óleo pode se acumular em quantidade suficiente para formar uma concentração econômica que se torne produtiva quando penetrada pela perfuração. Para melhor simplificarmos, podemos classificar as bacias em A, B, C e D. 1) Uma área "A " satisfaz todas as condições básicas acima mencionada; 2) Uma área "B " é a que possue rochas matrizes mas pode aparentemente não apresentar os ítens 2 ou 3; 3) Uma área "C " apresentaria características de rochas matrizes fracas ou limitadas, mas mostraria indícios de que os ítens 2 ou 3 estão faltando ou não são bem desenvolvidos; 4) Uma área "D " mostraria claramente que não há rochas matrizes mesmo que apresentasse boas camadas reservatório e estrutura.” Bacoccoli (2009, p.12) sumarizou a classificação proposta por Walter Link a partir de seus memorandos em uma tabela na qual compara a classificação proposta com a situação das bacias em termos de produção no ano da publicação do livro (2009). Bacia Classificação Situação Tipo da bacia* Link (1960) (Bacoccoli, 2009) Baixo Amazonas D Não produtora Interior Paleozoica Médio Amazonas C Não produtora Interior Paleozoica Alto Amazonas (Solimões) D PRODUTORA Interior Paleozoica Acre D+ Não produtora Interior Paleozoica São Luis D+ Não produtora Costeira Cretácea Barreirinhas D Não produtora Costeira Cretácea Maranhão (Parnaíba) DNão produtora Interior Paleozoica Sergipe CPRODUTORA Costeira Cretácea Alagoas CPRODUTORA Costeira Cretácea Espírito Santo/Sul da Bahia D PRODUTORA Costeira Cretácea Paraná D Não produtora Interior Paleozoica Recôncavo A PRODUTORA Costeira Cretácea Tucano B PRODUTORA Costeira Cretácea Tabela 3 - Classificação das bacias sedimentares em função da sua atratividade para exploração

(*) Tipo da bacia conforme proposto por Bacoccoli (2009) Segundo o memorando a classificação era uma opinião de consenso da equipe técnica do DEPEX com base em toda a informação disponível à época, mas era explicito em afirmar que havia um grau alto de incerteza devido à falta de dados, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto qualitativo. Walter Link também afirmou que, dadas as estruturas geológicas das bacias sedimentares brasileiras, a tecnologia de exploração disponível na época era insuficiente para identificar reservas com risco aceitável, recomendando que se concentrasse o esforço exploratório nas bacias cretáceas da costa que já tinham potencial identificado, ao mesmo tempo em que se buscassem concessões de exploração fora do Brasil para que a Petrobrás montasse um portfólio de exploração, nos mesmos moldes das demais companhias do setor. O conjunto dos memorandos ficou conhecido na imprensa brasileira como “Relatório Link” e foi tomado pelos nacionalistas como uma evidência de que existia uma conspiração internacional, liderada pelas empresas multinacionais do setor de óleo e gás, contra a Petrobras em especial e contra o Brasil de modo geral. Uma leitura cuidadosa do documento pode indicar que não tratava-se disso, pois contratado sob a orientação de trazer as práticas correntes da indústria do petróleo para o Brasil, e sob pressão da opinião pública, Walter Link redigiu seu relatório para apresentar de maneira objetiva os resultados do trabalho realizado sob sua gestão, já que não havia descobertas de reservas significativas, e assim deixar a cargo dos seus contratantes (no caso a Petrobras) a decisão sobre qual estratégia deveria ser adotada dali em diante (LINK, 1960). Bacoccoli (2008,2009) afirma que o trabalho desenvolvido por Walter Link era tecnicamente correto e compatível com a tecnologia de exploração da época, em especial em relação à capacidade de processamento dos dados de sísmica de reflexão, tanto 2D quanto 3D. Além disso ele pondera que em 1961 o preço do petróleo no mercado internacional atingiu o valor médio de US$2,84/barril, o que comprometia a viabilidade econômica da exploração de petróleo em qualquer região que não tivesse risco exploratório muito pequeno, uma situação que só se reverteria definitivamente após o primeiro choque do petróleo em 1973. Finalmente, datam do período Link as primeiras perfurações no mar, todas como parte do programa de desenvolvimento da bacia do Recôncavo e em águas rasas (nas linhas batimétricas de 5 e 10 metros), como pode ser visto na figura a seguir. 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Figura 5 - Poços perfurados na porção marinha da bacia do Recôncavo entre 1953 e 1961 . Além disso, em seus comentários sobre as bacias de Sergipe, Alagoas, Sul da Bahia e Espírito Santo ele afirmou explicitamente que as avaliações já realizadas para a parte terrestre não poderiam ser extrapoladas para a porção oceânica dessas bacias na plataforma continental, e reiterou pelo menos duas vezes no documento que a exploração off-shore poderia trazer resultados melhores.

1962 – 1970 – Petrobras: Fase terrestre

Figura 6 - Distribuição dos poços perfurados entre 1962 e 1970. LINK (1959) já relatava a utilização de geologia de superfície, sismografia gravimetria e aerofotogrametria nos levantamentos realizados por sua equipe, então pode-se inferir que no período após a sua saída a equipe de geólogos e geofísicos da Petrobras já tinha familiaridade com estas técnicas, podendo servir-se delas, bem como dos dados de campo levantados durante os anos anteriores na exploração das bacias terrestres. A estratégia de priorizar as bacias cretáceas da costa foi mantida e começou a dar resultados em 1963 com a descoberta do campo de Carmópolis na bacia de Sergipe, mas apesar disso é possível identificar uma diminuição do esforço exploratório que resultou tanto da estratégia da Petrobras de se concentrar na atividade de refino,( a qual dado o baixo preço do petróleo no mercado internacional, assim como o alto risco da exploração no Brasil era uma opção economicamente mais atraente) quanto do aumento da dificuldade em obter resultados sobre as áreas já conhecidas, o que requeria um maior domínio das técnicas de pesquisa geofísica do que o disponível na equipe da Petrobras, desfalcada dos instrutores estrangeiros (Dias & Quaglino,1993 p.124). 7

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1971-1997 Petrobras: Fase de exploração marítima (off-shore)

Figura 7 - Distribuição dos poços exploratórios entre 1971 e 1997 O gráfico a seguir foi elaborado sobre o conceito de Índice Exploratório (Bacoccoli,2008) onde o índice é calculado pela razão entre a superfície da bacia em quilômetros quadrados, e o número de poços exploratórios perfurados. A leitura do gráfico pode ser simplificada com uma regra “regra do polegar”: quanto menor melhor (o gráfico é apresentado em escala logarítmica para permitir uma visão mais detalhada que ficaria pouco visível em uma escala linear.
10.000.000 6.186.524 1.000.000 Período Link 100.000
Km2 / poço

Petrobras fase terrestre

Desenvolvimento da bacia de campos 5.814

10.000 1.000 100 10 1
1922 1938 1941 1944 1947 1950 1953 1956 1959 1962 1965 1968 1971 1974 1977 1980 1983 1986 1989 1992 1995 1998 2001 2004 2007 2010

Figura 8 - Gráfico em escala logarítmica do índice exploratório (IE) Dias & Quaglino (1993 p.123) fazem referência a 1967 como ano de início do projeto “Perfuração Submarina” na Petrobras, com o objetivo de mapear a plataforma continental através de métodos sísmicos e gravimétricos, da costa do Pará até Alagoas, mencionando que esse objetivo foi atingido com o mapeamento do toda a costa até a cota batimétrica de 100m. A informação obtida então em conjunto com as habilidades já amadurecidas dos geofísicos da Petrobras resultou na descoberta do campo de Garoupa na bacia de Campos (RJ) em 1974. As estimativas das reservas do campo de Garoupa impulsionaram o esforço exploratório até o ano de 1986, a partir de quando sofre uma redução que também pode ser identificada no gráfico a seguir, onde são mostradas as áreas anuais de levantamento de sísmica terrestre e marítima:

8

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200

Milhares de Km/ano

Off-shore On-shore

100

1954 1956 1958 1960 1962 1964

1966 1968 1970 1972 1974 1976

1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990

1992 1994 1996 1998 2000 2002

Figura 9 - Quantidade e distribuição de poços perfurados -Fonte: Azevedo & Terra (2008) Neste estudo não foram obtidos dados suficientes para estabelecer alguma explicação para a redução do esforço exploratório durante o período 1987-1997, mas é possível aventar como uma hipótese razoável que a crise econômica no período exerceu alguma influência sobre a capacidade de investimento da Petrobras, como decorrência das altas taxas de inflação (como pode ser visto no gráfico a seguir onde está representada a variação mensal do IPCA) e da redução do crédito decorrente do não pagamento da dívida externa em 1987. Após a estabilização econômica em 1994 o índice exploratório (IE) ainda se mantém estável até a definição do novo arranjo institucional estabelecido pela “Lei do Petróleo” em 1997.

1997 – 2008 ANP: Fase pós-sal

Figura 10 - Distribuição dos poços exploratórios entre 1997 e 2008 Esta fase abrange o período entre a publicação da lei nº 9.478 de 6 de Agosto de 1997 (Lei do Petróleo) e a declaração de descoberta de óleo na camada pré-sal na bacia do Espírito Santo que figurou na declaração de reservas provadas publicada em 15 de Janeiro de 2008. A Lei do Petróleo estabeleceu que o direito de propriedade das reservas de óleo e gás não era da Petrobrás, mas do estado brasileiro, e que o estado detinha a prerrogativa de autorizar, conceder ou 9

2004 2006 2008

0

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 contratar os serviços de exploração e produção a empresas constituídas sob as leis brasileiras, com sede e administração no país. A “Lei do Petróleo” de 1997 não apenas permitiu a outras companhias a exploração e produção de petróleo no Brasil, um monopólio da Petrobras desde a sua criação em 1953, mas também transferiu a propriedade de toda a base de dados geofísicos e do banco de amostras, para a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). A partir de então os dados geofísicos, Tanto aqueles obtidos pela Petrobras, como por outras operadoras, ficam sob a guarda da ANP que apesar de ser a proprietária da informação, tem a responsabilidade de assegurar o sigilo dos dados por um período de dez anos à empresa que fez o investimento na sua aquisição. No período entre 1997 e 2008 houve um aumento da atividade de levantamento de dados de sísmica, bem como uma tendência de aumento no esforço exploratório, medido pelo IE que sofre uma aceleração até 200 km2/poço, seguindo de pequena desaceleração até 2004 e voltando a acelerar até 2007 quando o anúncio das reservas de pré-sal e a decisão de rever o regime contratual para as próximas rodadas de licitação com o objetivo de assegurar uma maior participação governamental na produção dessas áreas, consideradas de baixo risco exploratório reverteu essa situação. O que está evidente no mapa deste período é uma concentração da exploração nas bacias marítimas, contra um relativo abandono das bacias interiores, em especial da bacia Amazonas-Solimões, e da bacia do Paraná. Isso poderia ser explicado especulativamente por uma combinação de dois fatores: Primeiro a experiência acumulada anteriormente pela Petrobras mostra que a tecnologia de exploração disponível no momento não permite solucionar os problemas de baixa resolução da sísmica para as camadas sob o embasamento cristalino das bacias paleozóicas do interior do Brasil. Segundo que dado o modelo de concessão vigente, a necessidade de redução dos custos e riscos de exploração desmotivou os agentes econômicos a buscarem reservas nessas regiões, sendo necessário priorizar as regiões capazes de fornecer uma maior taxa de retorno do investimento e payback mais curto. Também é possível avaliar o impacto, tanto positivo quanto negativo das mudanças institucionais, que sempre alteram o comportamento dos agentes de mercado.

Conclusões
Pode-se então desdobrar algumas conclusões, em relação às indagações postas ao longo deste trabalho: A respeito do processo que levou a Petrobrás à exploração off-shore, está claro que o reconhecimento das limitações técnicas para uma exploração produtiva das bacias paleozoicas terrestres, por um lado, enquanto por outro houve a disponibilidade de técnicas de levantamento sísmico da plataforma continental com alta produtividade/baixo custo, definiram a abordagem estratégica da Petrobrás. Em especial a partir da década de 70, quando a elevação do preço do barril do petróleo gerou uma pressão contrária à estratégia de se concentrar na atividade de refino. Outra questão, que aparece em vários documentos da época e em alguns textos sobre a história do petróleo no Brasil, é a da existência de uma ação coordenada por parte de empresas estrangeiras de petróleo, com o intuito de impedir a exploração ou descoberta de petróleo no pais. Quanto a isso, nenhum documento ou referência examinada na elaboração deste artigo foi capaz de fornecer dados e fatos que suportassem a existência de alguma ação com essas características. Outra versão das “teorias da conspiração”, na qual as empresas de petróleo estrangeiras haveriam, de algum modo, conseguido coligir um conhecimento da geologia do país, antes e de forma mais abrangente e do que foi obtido pela Petrobras, não encontra nenhum respaldo na pesquisa documental. Por fim, quanto a discussão do processo de mapeamento das bacias sedimentares brasileiras, foi possível identificar pelo menos quatro marcos notáveis, mas como a metodologia de pesquisa adotada neste trabalho não foi exaustiva é possível que tenham havido outros esforços e que não foram incluídos aqui. O primeiro a ser mencionado foi conduzido por Orville Derby à frente da Comissão Geológica e Geográfica (CGG), o segundo foi conduzido por Walter Link durante seu período à frente do DEPEX, que produziu não apenas o mapeamento, mas também uma abordagem metodológica para priorização das bacias de interesse exploratório. A partir da década de 1970 temos o esforço da Petrobrás no mapeamento das bacias sedimentares submarinas da costa brasileira, e finalmente, a partir da lei do petróleo de 1997 o mapeamento ganha um impulso adicional com a mudança do marco institucional que permitiu que outras empresas também desenvolvessem programas de levantamento de dados geológicos.

Referências
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