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IBP1112_12 IMPACTOS DOS DIFERENTES REGIMES REGULATÓRIOS NA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO Vinicius Farias Ribeiro1, Robson Prates Moreira2

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O processo de unitização ou individualização da produção é exigido na maioria dos modelos regulatórios do mundo quando se identifica que uma jazida se estende para fora da área contratada. Este procedimento visa garantir um maior aproveitamento dos recursos petrolíferos. No Brasil não é diferente, contudo ainda existem muitas indefinições nesse processo. A introdução de novos regimes fiscais no país ampliou as dúvidas, dado que agora uma jazida pode se estender entre áreas com diferentes regimes vigentes: Concessão, Partilha de Produção, Cessão Onerosa e áreas da União ainda não contratadas. O objetivo deste artigo é explorar as incertezas, que devem ser enfrentadas pelo setor de óleo e gás para garantir a segurança jurídico-regulatória e a redução dos riscos fiscais da indústria de petróleo. Os principais pontos analisados são as regras para alocação de produção, reserva e gastos, conflitos de atribuições entre a ANP e a PPSA, supressão de direito de alguma das partes, compatibilização de regras contratuais e incertezas econômicas, financeiras e fiscais. Este artigo não busca propor soluções para todas as lacunas apontadas.

Abstract
The unitization process is required in most regulatory models around the world when it identifies that a reservoir straddles to out of the contracted area. This procedure aims to ensure a greater exploitation of petroleum. In Brazil is no different; however there are still many ambiguities in this process. The introduction of new tax regimes in the country broadened the doubts, as we may have a reservoir straddling between concession, production sharing, assignment of rights areas and areas not yet contracted. The objective of the present paper is to explore the uncertainties that must be addressed by the oil & gas sector in order to ensure low legal, regulatory and fiscal risks in the oil industry. The main topics discussed are the rules for production allocation, reserves and expenditures, the ANP and PPSA roles’ conflicts, restriction of parties’ rights, adjustment of contractual rules and also mitigate or eliminate economic, financial and fiscal uncertainties. This article does not propose solutions to all lacks raised.

1. Introdução
1.1 Rodadas de Licitação, Blocos Exploratórios e Definição de Individualização da Produção Desde 1998, o país vem adotando as rodadas de licitação de blocos exploratórios como forma de conceder o direito de pesquisa e lavra às empresas interessadas em explorar hidrocarbonetos em território nacional. Este direito materializa-se através de contratos firmados entre Governo ou seus agentes com as companhias de petróleo. O Conselho Nacional de Política Energética, suportado pela ANP, tem a atribuição de propor ao Presidente da República os blocos exploratórios a serem objetos de Concessão ou Partilha de Produção. Estes blocos têm suas dimensões e localizações definidas antes de cada leilão. Como nas rodadas iniciais das licitações havia um fator de incerteza relativamente alto e se queria atrair investidores, optou-se por utilizar blocos de grandes dimensões. Podemos citar, por exemplo, que os blocos de água profunda da Bacia de Campos assinados na Rodada 1 (1999), possuíam 2.776 km² de área. Na medida em que se obteve maior conhecimento sobre as bacias sedimentares, as dimensões dos blocos

______________________________ 1 Mestre, Administrador – Petróleo Brasileiro S.A. 2 Engenheiro de Produção Mecânica – Petróleo Brasileiro S.A.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 foram sendo reduzidas. Até que se chegou aos 715km² de área na denominada Rodada 5 (2003). Dimensão que tem sido adotada até a Rodada 10 (2008). Em 2003, as bacias sedimentares foram divididas em setores, cada qual dividido em blocos de tamanho variável conforme o ambiente. Os blocos no interior de cada setor são compostos por múltiplos de um reticulado compatível com o corte cartográfico na escala 1:10.000, de acordo carta internacional do mundo ao milionésimo. Este reticulado obedece as dimensões de 2’30” (dois minutos e trinta segundos) de latitude e de 3’45” (três minutos e quarenta e cinco segundos) de longitude, que corresponde a aproximadamente 30 km2, valor variável em função da latitude – na bacia da Foz do Amazonas, ao norte, a unidade básica tem 31,9 km2; na bacia de Pelotas, ao sul, a unidade básica tem 26,8 km2. No caso das bacias sedimentares maduras (bacia do Recôncavo, Potiguar terra, Sergipe-Alagoas terra, Espírito SantoMucuri terra), o bloco tem o mesmo tamanho da unidade básica. Os blocos em águas rasas são compostos por 6 unidades básicas e os blocos de águas profundas são compostos por 24 unidades básicas. O tamanho aproximado padrão para os blocos, considerando a área de 30 km2 para a unidade básica, é como segue: • Bacias maduras em terra: 30 km2; • Bacias marítimas, em lâmina d´água inferior a 400 metros: 180 km2 • Bacias marítimas, em lâmina d´água superior a 400 metros: 720 km2 • Bacias terrestres em novas fronteiras exploratórias: 2.880 km2 (BRASIL, 2003). Somando-se a impossibilidade de se ter conhecimento preciso sobre a distribuição e tamanho dos reservatórios presentes em subsuperfície no momento da definição dos blocos, sua dimensão pré-definida e a adoção de um grid fixo pré-estabelecido, pode-se concluir que os limites das jazidas nem sempre estarão contidas nas áreas dos contratos, como exemplificado na Figura 1.

Figura 1 – exemplo de caso sujeito à individualização da produção Nos estágios iniciais da indústria do petróleo dos EUA prevalecia o conceito conhecido como regra da captura, segundo a qual, se alguém produz petróleo a partir de um poço situado em sua área, a propriedade desse petróleo, mesmo que o reservatório do qual se origine se estenda além dos limites dessa área será a ele conferida (RIBEIRO, 1997). Esta prática pode levar à produção predatória da jazida e prejudicar o fator de recuperação da mesma (LIBECAP & SMITH, 2002). Uma nova forma de conduzir uma operação no caso da jazida ultrapassar os limites da área do bloco foi desenvolvida: individualização compulsória da produção, onde as partes necessitam entrar em acordo sobre como desenvolver e produzir aquele reservatório. Atualmente no Brasil, a legislação prevê a individualização compulsória da produção em caso de jazidas que se estendam para além da área contratada, conforme Lei 12.351/2010 (BRASIL, 2010c). Após identificar que a acumulação pode ultrapassar os limites da área contratada, deve-se iniciar o processo de individualização da produção, procedendo da seguinte maneira: 1. Notificar a ANP sobre a possibilidade de extensão da jazida para além do bloco. 2. Caso exista um operador na área vizinha, a ANP o notifica desta possível extensão. 3. Após informações e discussões, as partes devem chegar a um Acordo de Individualização da Produção (AIP) que precisa ser submetido à aprovação da ANP. O desenvolvimento e a produção da jazida ficarão suspensos enquanto não aprovado o AIP, exceto nos casos autorizados e sob as condições definidas pela ANP. A Lei 12.351/2010 definiu que no AIP devem constar quais serão as participações das empresas de cada contrato na jazida individualizada, assim como as hipóteses e os critérios de sua revisão, o plano de desenvolvimento da área objeto de individualização da produção, mecanismo de solução de controvérsias e o operador da jazida (2010c). 2

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 1.2. Novo Marco Legal e Individualização da Produção A partir da descoberta da nova província petrolífera do pré-sal, o Governo Brasileiro passou a avaliar a necessidade de mudanças no marco regulatório então vigente. Desde o início o governo sinalizou que não haveria quebra de contrato e que qualquer mudança respeitaria integralmente os termos dos Contratos de Concessão vigentes. No Projeto de Lei n.º 5.938, de 2009, proposto pelo Executivo, estava declarado como objetivo: (i) aumentar a participação da sociedade nos resultados da exploração de petróleo, gás e outros hidrocarbonetos fluidos nas áreas do pré-sal e outras áreas estratégicas, (ii) destinar os recursos advindos de tal atividade a setores estruturalmente fundamentais para o desenvolvimento social e econômico e (iii) fortalecer o complexo produtivo da indústria do petróleo e gás do país (BRASIL, 2009). Em 2010, o Congresso Brasileiro promulgou três Leis levando a mudanças no cenário econômico, fiscal e regulatório da indústria do petróleo no país, quais sejam: 1. A Lei nº 12.276/2010 autorizou a União a ceder onerosamente à Petrobras o direito de explorar e produzir até o limite de cinco bilhões de barris equivalentes de petróleo em áreas não concedidas do polígono do pré-sal. 2. A Lei nº 12.304/2010 autoriza a criação da Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural S.A. - Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) com o objetivo de que esta gerencie os contratos de Partilha de Produção e administre a comercialização de hidrocarbonetos da União (BRASIL, 2010b); 3. A Lei nº 12.351/2010 dispõe sobre a exploração e produção de hidrocarbonetos sob o regime de Partilha de Produção na área do pré-sal e outras áreas estratégicas. Também cria o Fundo Social, assim como sua estrutura e fontes de recursos (BRASIL, 2010c). Com isso, em adição ao já existente regime de Concessão, foram introduzidos no Brasil os regimes de Partilha de Produção e de Cessão Onerosa (BRASIL, 2010a). Como consequência deste novo marco regulatório (Lei 12.351), as regras para a individualização da produção foram detalhadas e o art. 27 da Lei 9.478/1999 que tratava do tema foi revogado. A ANP ficou responsável por regulamentar os procedimentos e diretrizes para a elaboração de um Acordo de Individualização da Produção (AIP), cabendo-lhe arbitrar a forma como serão apropriados os direitos e obrigações sobre a jazida nos casos em que não houver acordo entre as partes. Todo AIP deve ser submetido à aprovação da ANP. A jazida não poderá ser desenvolvida, tampouco produzida enquanto não aprovado o referido acordo, exceto nos casos autorizados e sob as condições definidas pela Agência. Na Lei nº 12.351/2010 está previsto que a ANP e a PPSA podem assumir papéis de contratados conforme a seguir: ○ Jazida que não se localize na área do pré-sal ou em áreas estratégicas e se estenda por áreas não concedidas, caberá à ANP celebrar com os interessados os respectivos acordos de individualização da produção, após as devidas avaliações; ○ Jazidas da área do pré-sal e das áreas estratégicas que se estendam para áreas não concedidas ou não contratadas sob o regime de Partilha de Produção, a União, representada pela nova empresa pública PPSA, e com base nas avaliações realizadas pela ANP, celebrará com os interessados o AIP, cujos termos e condições obrigarão o futuro contratado sob o regime de Partilha de Produção. Enquanto não for criada a PPSA, a ANP poderá ser a representante da União também nas áreas do pré-sal e estratégicas. O processo de individualização da produção já possuía questões controversas quando existia somente o regime de Concessão, conforme explorou Bucheb (2008). A coexistência de diferentes regimes contratuais no Brasil traz uma complexidade adicional a esse processo, pois a jazida pode estar contida simultaneamente em áreas de Concessão, Partilha de Produção, Cessão Onerosa e áreas da União não contratadas. O presente trabalho enumera alguns possíveis conflitos entre os diferentes regimes contratuais, que devem ser enfrentados em um processo de individualização da produção.

2. Regras de Alocação da Produção, Reservas, Custos e Investimentos
Pereira (2008) analisou a discussão acerca do objeto da individualização da produção, se seria o bloco, o campo ou a jazida. O seu entendimento foi ratificado pela Lei nº 12.352/2010, que definiu o objeto do AIP como a jazida, ou seja, o reservatório ou depósito já identificado e possível de ser posto em produção que se estenda além do bloco concedido ou contratado sob o regime de Partilha de Produção. Um ponto a ser analisado, que independe da existência de diversos regimes, mas impacta diretamente na discussão, é a forma de tratamento a ser dada à jazida individualizada quanto ao envio de Planos de Desenvolvimento (PD), Programas Anuais de Trabalho/Orçamento e de Produção (PAT/PAP) e regras de rateio de produção, investimentos e custos, conforme abaixo e indicado na Tabela 1: 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Tabela 1. Possíveis regras de tratamento da jazida individualizada Elaboração de Plano de Desenvolvimento PD exclusivo da jazida passível de individualização da produção Jazida passível de individualização da produção inserida no PD de somente um dos campos envolvidos Jazida passível de individualização da produção repetida/dividida no PD de cada campo envolvido 1. Regra de rateio de produção, reservas e gastos Rateio entre os campos Alocação exclusiva para o objeto jazida individualizada Rateio entre os campos Alocação de toda produção da jazida para um dos campos Rateio entre os campos

Em uma primeira abordagem, essa jazida poderia ser tratada como um objeto à parte dos contratos existentes, sendo elaborado um PD para essa jazida de forma independente às eventuais jazidas que não façam parte do AIP. Ao se adotar essa regra para a “jazida individualizada”, restaria, ainda, a definição da forma de alocação de investimentos, custos operacionais, produção e reservas, podendo estes ser: a. Alocados para esse objeto criado, ou; b. Rateados entre as áreas envolvidas, de acordo com regras pré-estabelecidas, por exemplo, com base em dados do reservatório como volume original de óleo equivalente in place ou volume de óleo equivalente recuperável. 2. Uma segunda alternativa seria considerar a jazida individualizada inserida totalmente em uma das áreas envolvidas. Todo o desenvolvimento desta jazida estaria contido no PD de um dos contratos envolvidos, junto com as eventuais outras jazidas que não extrapolam a área deste contrato. Para fins de rateio é possível que: a. Seja feita entre os campos envolvidos, ou; b. Alocar toda produção ao campo ao qual pertence o PD. 3. Uma terceira regra possível seria reportar o desenvolvimento da jazida individualizada de forma redundante nos PDs dos campos envolvidos, informando em cada um qual o percentual da jazida rateada àquele PD encontrado seguindo-se as regras de rateio negociadas, baseadas em dados do reservatório. As participações governamentais, especialmente quando houver incidência de Participação Especial, serão diretamente afetadas pela regra de rateio da produção a ser utilizada. Tanto o rateio da produção entre as áreas envolvidas quanto à alocação de toda a produção para um novo objeto jazida individualizada pode aumentar ou diminuir o pagamento de Participações Governamentais, a depender do tamanho e distribuição da jazida individualizada e de outras eventuais jazidas que não ultrapassem as áreas dos contratos envolvidos. Independentemente da regra a ser adotada, é de suma importância que os órgãos governamentais definam claramente qual será essa regra. A ANP já iniciou a análise destas regras através da Resolução de Diretoria 227/2011 de 24/03/2011, que determinou a realização de uma Audiência Pública para discussão de proposta de alocação da produção dos campos titularizados por um único concessionário e com reservatórios compartilhados. Todavia, as definições necessárias são mais amplas que as determinadas até então pela Diretoria da ANP. Até o momento da finalização deste artigo, a Audiência Pública mencionada ainda não havia sido marcada pela Agência e a primeira minuta do contrato de Partilha de Produção tampouco havia sido disponibilizada.

3. Conflitos entre os Regimes
Como os limites das jazidas não guardam relação com os limites impostos pela legislação, é inevitável a discussão dos processos de individualização da produção inter-regimes. No polígono do pré-sal, por exemplo, coexistem três regimes vigentes: Concessão, Cessão Onerosa e Partilha de Produção. Esses diferentes regimes possuem alguns conflitos que são analisados a seguir. 3.1 Partes Envolvidas nos Contratos Particulares Historicamente a União não assume riscos nas atividades petrolíferas, sejam eles riscos exploratórios, ambientais, trabalhistas ou operacionais. As empresas contratadas sós ou consorciadas assumem todos estes riscos para 4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 pesquisa e lavra da área. Especificamente no art. 5 da Lei nº 12.351/2010 está definido que: “A União não assumirá os riscos das atividades de exploração, avaliação, desenvolvimento e produção decorrentes dos contratos de Partilha de Produção”. Apesar do § 1° do art. 2 da Lei nº 12.304/2010 esclarecer que: “A PPSA não será responsável pela execução, direta ou indireta, das atividades de exploração, desenvolvimento, produção e comercialização de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos.”, os artigos 19 e 20 da Lei nº 12.351/2010 determinam que a PPSA fará parte do Contrato de Consórcio juntamente com as outras companhias e que “Os direitos e as obrigações patrimoniais da Petrobras e demais contratados serão proporcionais à sua participação no consórcio”. Segundo o art. 27 da Lei nº 11.795/2008: “O consorciado obriga-se a pagar prestação cujo valor corresponde à soma das importâncias referentes à parcela destinada ao fundo comum do grupo[...]”. Os custos que os consorciados devem pagar para o fundo comum do grupo também seriam pagos pela PPSA? Dado que é consorciada; existe a dúvida sobre qual seria a participação da PPSA neste Contrato de Consórcio. Os custos ou a responsabilidade solidária sobre um eventual dano cometido por um dos consorciados poderiam ser repassados à PPSA ou estendida à ANP em caso de uma individualização da produção quando eles atuam como contratados? Ao se individualizar uma jazida que se estenda para áreas da União não contratadas, qual a posição a ser defendida pelo representante da União, ao participar das decisões que envolvam riscos? 3.2 Conflitos de Atribuições da ANP e PPSA As atribuições da PPSA, definidas pela Lei 12.304/10, podem suscitar incertezas até que sejam definidas através de regras específicas. É possível que ocorra um conflito entre suas funções como fiscalizador e seu papel de agente econômico representante da União nos contratos de Partilha de Produção. Conforme Siqueira (2011), dúvidas podem surgir quanto aos limites e possibilidades de atuação da PPSA na gestão, se esta se assemelha à ideia de regulação/fiscalização ou se possui viés essencialmente empresarial. Desempenhar um papel comercial não é compatível com um papel de regulação, sendo mais coerente que esta atribuição permaneça com a Agência Reguladora. Ao se regulamentar e operacionalizar esta empresa pública, tal conflito pode ser equacionado estruturando-se a PPSA para atuar de forma equivalente às empresas privadas parceiras nos blocos atuais, aprovando projetos, orçamentos e gastos. Deve-se buscar também que o papel fiscalizador da PPSA não seja redundante ao da ANP, dado que a Agência já fiscaliza boa parte da atuação das empresas. A incompatibilidade entre as atribuições de agente regulador e agente econômico será novamente enfrentada quando for realizada a individualização da produção de uma jazida que se estenda para áreas da União. A Lei 12.351/10 definiu que a ANP será a representante da União quando a jazida se estender para essas áreas não concedidas, fora das áreas abrangidas pelo regime de Partilha de Produção e, enquanto a PPSA não for constituída, também para áreas sujeitas a este regime. Com isso, ANP ou PPSA poderão ser representantes da União na exploração, desenvolvimento e produção da jazida, até que esta área seja licitada pelo governo. Os possíveis conflitos de atribuições da PPSA seriam os mesmos discutidos anteriormente, entre eventuais características regulatórias e uma atuação exclusivamente empresarial, e podem ser solucionados com uma definição clara de suas atribuições e das regras referentes à individualização da produção. Mas enquanto a PPSA não for constituída, e também nas áreas que não estão sob sua responsabilidade, a ANP assumirá a participação como ente econômico representante da União, causando um claro conflito de atribuições entre as incumbências de regulação e fiscalização da Agência e a sua atribuição empresarial. Outro desafio com a legislação atual seria a definição de uma forma de repasses financeiros entre as partes, para ressarcimento de investimentos e auferimento de receitas considerando-se a ANP como representante da União. Pedroso e Abdounur (2008) discorreram sobre as dificuldades negociais de equalização dos custos passados e riscos exploratórios em um AIP entre concessionários, dado que os concessionários “não descobridores” tentam reduzir ao máximo o pagamento compensatório aos concessionários “descobridores”. As regras de compensação devem ser claras ao se licitar uma área contendo uma jazida individualizada com a União, incluindo-se a discussão sobre a compensação do risco exploratório incorrido e de um overhead para compensação de custos indiretos. É conveniente que essas regras sejam previamente definidas para evitar discussões ou questionamentos futuros e para que as atividades na jazida não sejam suspensas à espera de uma nova licitação da área não concedida, sob o risco de postergar o desenvolvimento de valiosos recursos petrolíferos por diversos anos. 3.3 Possível Perda de Direitos das Partes Uma jazida que se estenda por áreas de Concessão e de Partilha de Produção terá regras distintas em cada uma delas. Como exemplo, a PPSA possuirá direito de veto e voto de qualidade em algumas das decisões na área de Partilha de Produção, que se imposto à área de Concessão, pode implicar em quebra contratual. Além disso, a lei definiu a Petrobras como a operadora exclusiva na área da Partilha de Produção, o que poderia, a depender da interpretação, ser impedimento à operação de outro concessionário caso seja descoberto que a jazida se estende para fora da concessão 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 atual no polígono do pré-sal. No entanto, o § 2° do art. 36 da Lei 12.351/2010 ao estabelecer que: “O regime de exploração e produção a ser adotado nas áreas de que trata o caput independe do regime vigente nas áreas adjacentes” pode conceder, dependendo da forma como é interpretada, flexibilidade para a criação de um regime independente do vigente nas áreas já contratadas, onde se encontra a jazida. Esta previsão poderia ser uma alternativa a fim de solucionar um possível impasse que seria criado nesta situação. É possível traçar um paralelo entre a individualização da produção em diferentes regimes e a cross-border unitization. Esta é definida como uma individualização da produção em que a jazida ultrapassa a fronteira de um país para outro (ASMUS et al, 2005). Nestas negociações, existe uma complexidade adicional trazida pela questão da soberania nacional. Para se chegar a acordos de individualização da produção nestes casos alguns direitos das empresas contratadas em cada país podem ser suprimidos a fim de se chegar a um consenso com o outro país. Caso contrário corre-se o risco de que o desenvolvimento da jazida individualizada não seja viabilizado. Em caso de sucesso negocial geralmente tem-se um acordo bilateral ou multilateral (se for entre mais de dois países) regulando a operação na área, onde se definem questões legais, técnicas e fiscais. No caso das individualizações entre diferentes regimes em um mesmo país inexiste a complexidade da soberania. No entanto, faz-se mister mencionar que o mesmo ente que assinou contrato com as empresas, a União ou seu representante, também pode ser o responsável pela supressão de direitos dos contratados. O mesmo agente que outorgou os direitos e deveres, os alteraria unilateralmente? Isto poderia ser considerado um revés na estabilidade políticoregulatória do país. Alternativamente é possível deixar que as partes discutam entre si um acordo onde elas abririam mão voluntariamente de alguns de seus direitos a fim de desenvolver e produzir as jazidas passíveis de individualização da produção. Esta alternativa pode ser preferível à possibilidade de um impasse entre as companhias, o que levaria no extremo, a Agência a impor uma solução; e em caso de não aceitação pelos contratados, o Governo poderia rescindir os contratos. 3.4 Exigências Contratuais Nossa legislação prevê a divisibilidade de obrigações, conforme art. 257 do Código Civil: “Havendo mais de um devedor ou mais de um credor em obrigação divisível, esta se presume dividida em tantas obrigações, iguais e distintas, quantos os credores ou devedores”. Isto torna possível que se buque para as obrigações divisíveis a compatibilização de algumas exigências legais e contratuais de cada modelo. Como exemplo de obrigações que podem ser alvo de divisão, podemos citar as Participações Governamentais, cuja obrigação pode ser rateada entre as partes e o cumprimento comprovado pelo próprio devedor. No entanto, alguns itens não podem ser divididos, tais como políticas e práticas de SMS, plano de emergência, programas de trabalho. E há ainda uma zona de interseção entre o que pode ser dividido e o que não pode como: o prazo contratual e a exigência de Conteúdo Local e as regras de comprovação do mesmo. Para compatibilizar as regras dos contratos, poderia ser adotada uma regra única de Conteúdo Local para a jazida individualizada. A adoção do menor ou do maior percentual de Conteúdo Local exigido nas áreas poderia ser contestado por ser uma alteração das regras definidas na licitação. Uma alternativa seria a adoção de uma média ponderada entre esses percentuais mínimos, tomando-se como fator de ponderação os mesmos utilizados para a alocação da produção. Deve-se lembrar que o percentual de Conteúdo Local é um fator de licitação no regime de Concessões, o que pode trazer complicações a essa definição. Além disso, os diferentes contratos possuem diferentes regras de comprovação do Conteúdo Local atingido, tendo sido introduzido a partir da 7ª Rodada de Licitações um processo mais complexo de certificação de Conteúdo Local, regra essa que também deve ser sopesada. O prazo contratual é outra cláusula passível dessa uniformização. Um bloco sob o regime de Partilha de Produção pode ter o prazo de até 35 anos na fase de produção, sendo que existe a possibilidade de se descobrir nele uma jazida que se estende até uma Concessão da Rodada Zero, cujo contrato se encerra em 2025. Esse prazo contratual para a produção da jazida individualizada pode ser unificado, como comentado para o Conteúdo Local, ou cada área pode manter seu prazo vigente e quando um dos contratos alcançar o prazo final, o contrato seria prorrogado ou a área licitada novamente, sujeitando o novo contratado às regras predefinidas no AIP. A compatibilização dessas regras é possível pelo Contrato de Concessão atual, mas não há critério definido pela ANP. 3.5 Impactos Econômicos, Financeiros e Fiscais A depender do regime regulatório, as empresas ou consórcios podem dar tratamento contábil diferente aos seus ativos. Quando há propriedade de ativos pelas empresas contratadas, é contabilizada a depreciação, que pode ocorrer ao longo de anos, a depender do ativo e regras para sua depreciação. Mas os ativos também podem ser propriedade da União, conforme ocorre em outros países que utilizam o regime de Partilha de Produção(BARBOSA, 2011). 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Há também a possibilidade de que os ativos de operação possam ser contratados. Neste caso, as despesas de afretamento poderiam ser deduzidas no mesmo exercício em que incorreram e o arcabouço tributário incentivaria as empresas a deduzir as despesas em seus resultados o mais breve possível, pois isto implicaria em um menor lucro no período, resultando em um menor Imposto de Renda (IR) e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL); ou seja, uma tributação menor para as companhias. A forma de contratação também pode trazer impacto sobre a possibilidade de ganho de escala nas contratações. Quando as companhias contratam um volume maior de produtos ou serviços, geralmente obtêm-se condições melhores do que quando é contratado cada item separadamente. Se para cada área contratada for necessária que se façam contratos específicos com fornecedores, isto pode reduzir o retorno econômico-financeiro do projeto. A forma de rateio e apropriação da produção para cada contrato, também influencia nos resultados. Critérios fiscais e contábeis de tratamento da jazida individualizada devem ser bem definidos, dado que cada regime contratual possui regras contábeis e de participações governamentais específicas. A indefinição dessas regras pode trazer incertezas financeiras às operações, como por exemplo, na quantificação do Óleo Custo, participações governamentais como a parte do governo no Óleo Lucro, Participação Especial, Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Outro ponto sensível é a utilização do REPETRO. Caso as empresas contratadas sobre o regime de Partilha de Produção, ou cuja jazida se estenda para uma área sujeita à Partilha de Produção, sejam obrigadas a ser proprietárias diretas do ativo ou a propriedade seja do Governo, pode haver impacto ou até impossibilidade na aplicação do REPETRO, afetando significativamente a rentabilidade dos projetos (REPETRO, 2011). Hoje, este regime permite às companhias isenções temporárias nos impostos de importação de bens destinados à exploração e à produção de petróleo e gás natural. Em suma, é preciso que as regras sejam claras para que as companhias possam fazer suas avaliações econômico-financeiras a fim de participarem dos leilões, assim como operarem seus contratos sem incertezas fiscais e tributárias.

4. Conclusões
Sem a pretensão de propor um modelo que sane todas as lacunas, este artigo buscou enumerar as diversas incertezas ainda existentes na regulação quando o reservatório extrapola os limites do contrato. Tais incertezas devem ser enfrentadas através de legislação e regulação específicas o quanto antes, para minimizar impactos nos investimentos e na produção de campos de petróleo e gás sujeitos a individualização da produção e garantir a segurança jurídica exigida por uma indústria que movimenta valores tão vultosos. Com os complicadores criados pelos conflitos entre os regimes distintos, a indústria petrolífera terá que lidar com incertezas jurídicas adicionais, que podem diminuir o interesse das companhias. Ao se definir regras mais detalhadas, deve-se ter o cuidado de permitir certo grau de flexibilidade para a negociação entre as partes. A padronização das questões polêmicas e incertezas jurídicas contribuirão para a redução do tempo de negociação do Acordo para a Individualização da Produção, o que trará benefícios para todo o setor de petróleo e gás brasileiro.

5. Agradecimentos
Agradecemos à Petrobras pela autorização para publicação deste artigo e aos colegas Armando Hashimoto, Sergio Porto, Jorge Bastos, Daniel Pedroso, Ana Saboia, Geony Valentini e Daniel Bonolo pelos comentários, sugestões e revisões.

6. Referências
BARBOSA, Décio Hamilton. Tributação do petróleo no Brasil e em outras jurisdições. Editora Livre Expressão – IBP. Rio de Janeiro, 2011; BRASIL, Lei n° 6.404, de 15 de dezembro de 1976. Lei que dispões sobre as Sociedades por Ações. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6404consol.htm> Acesso em 6 de maio de 2012; BRASIL, Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm> Acesso em 6 de maio de 2012; BRASIL, Processo de Habilitação e Apresentação de Ofertas. Disponível em <http://www.anp.gov.br/brasilrounds/round5/round5/apresentacoes/Habilitacacao> Acesso em 14 de abril de 2012; 7

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