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Redes que a razão desconhece: laboratórios, bibliotecas, coleções.
Bruno Latour (com a colaboração de Èmilie Hermant). in André Parente Editor Tramas da Rede Sulina, Porto Alegre Brazil, 39-63, 2004

Os que se interessam pelas bibliotecas falam freqüentemente dos textos, dos livros, dos escritos, bem como de sua acumulação, de sua conservação, de sua leitura e de sua exegese. Têm certamente razão, mas há um certo risco do escrito, um risco que Borges ilustrou bem com sua fábula de uma biblioteca total remetendo apenas a si própria. Nessa fábula muito literária, o império dos signos se apresenta como uma fortaleza de intertextualidade. Plena e sólida enquanto nos interessamos somente pelas glosas da exegese, ela parece vazia e frágil a partir do momento em que procuramos ligar os signos aos mundos que os cercam. Usuário muitas vezes frustrado das bibliotecas francesas, escolhi emoldurar esses lugares de memória com outros lugares menos freqüentados, como os laboratórios e as coleções, que a história e a sociologia das ciências nos ensinaram recentemente a conhecer melhor. Através desta breve meditação sobre as relações das inscrições e dos fenômenos, espero mostrar que a circulação desses intermediários muitas vezes desprezados fabrica não só o corpo mas também a alma do conhecimento.

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quem sabe. o primeiro. consideremos este auto-retrato do naturalista Pierre Sonnerat (fig. relatos e. excessivamente real. mas longe. uma relação muito particular que vai permitir ao centro acumular conhecimentos sobre um lugar que até aí ele não podia imaginar. mas que.1). para insistirem seu aspecto material. Aqui. que lhe serviria de moldura. Apesar de algumas imagens. mas talvez permita sair do universo dos signos no qual se quer às vezes – por desprezo como por respeito – confinar a cultura e seu instrumento privilegiado. espécimes naturalizados. pretendo seguir não o caminho que leva de um texto a outro no interior de uma biblioteca. A biblioteca não se ergue como o palácio dos ventos. que se torna um centro. e sim matéria tornando-se signos. e o segundo. a expedição que ele serve traça. Talvez o leitor compreenda por meio desse périplo o que os pesquisadores franceses perdem por não se terem beneficiado. muito espiritual.64-BIBAL Portugais 2 Neste capítulo. até agora. de uma verdadeira biblioteca. Ela curva o espaço e o tempo ao redor de si. não nos encontramos nem numa biblioteca nem numa coleção. Comecemos por subir a montante do signo e por perguntar a nós mesmos como definir a informação. e serve de receptáculo provisório. A informação não é um signo. de transformador e de agulha a fluxos bem concretos que ela movimenta continuamente. a viagem para a qual estou convidando o leitor não será tão exótica quanto a de Christian Jacob na Biblioteca de Alexandria. de dispatcher. sob a condição de que entre os dois circule um veículo que dominamos muitas vezes forma. pretendo pintá-la como o nó de uma vasta rede onde circulam não signos. herbários. e sim uma relação estabelecida entre dois lugares. O naturalista está em sua terra. na costa da Nova-Guiné. Tendo partido de um centro europeu para uma periferia tropical. e sim o caminho que leva do mundo à inscrição. isolado numa paisagem real. através do espaço-tempo. não matérias. Em vez de considerar a biblioteca como uma fortaleza isolada ou como um tigre de papel. Para tornar esta definição mais concreta. mas aquém delas. no entanto. eu chamo de inscrição. e o crime cometido contra o espírito por uma nação que se considera. a montante e a jusante do que chamarei um “centro de cálculo”. enviado pelo rei para levar na volta desenhos. que se torna uma periferia. indígenas. mudas. 2 .

Em vez de falarem. registrando a transição entre o mundo das matérias locais e o dos signos móveis e transportáveis para qualquer lugar. a informação permite justamente limitar-se à forma. se entulhar com todos os traço que não teriam pertinência. era o que faziam os acadêmicos de Lagado que Gulliver visitou. de um desenhista. Grande economia de saliva. de um espécime empalhado e de um casal vivo. Em função do progresso das ciências. O que é então a informação? O que os membros de uma expedição devem levar. mas grande gasto de suor! Ora. Por que passar pela mediação de um veículo. A escrava de formas generosas exibe o papagaio e permite ao desenhista detectar mais rapidamente os traços característicos do mesmo. não levar simplesmente o lugar. o primeiro dos quais negocia o que deve retirar do segundo. o gabinete. empalhados ou em frascos de álcool. aliás. para que um centro possa fazer uma idéia de outro lugar. da freqüência das 3 .64-BIBAL Portugais 3 Nesta gravura muito estudada. Observemos também que o mundo indígena deve fazer-se ver a fim de ser colhido pelo movimento da informação. e que lhes bastava apontar. Observemos. sem ter o embaraço da matéria. para o centro? Afinal de contas. ao retornar. Verifica-se que a informação não é uma “forma” no sentido platônico do termo. no entanto. Os papagaios permanecerão na ilha com seu canto. por que reduzir à escrita. a fim de mantê-lo sob sua vista e agir à distância sobre ele. levar-se-á o desenho de sua plumagem. em sua integralidade. o jardim botânico e o viveiro se enriquecerão com isso se. o naturalista se desenhou a si próprio em plena atividade de transformação de um lugar em outro. e sim uma relação muito prática e muito material entre dois lugares. que ele se retrata num quase-laboratório. eles se faziam acompanhar por servidores carregando em carrinhos de mão o conjunto das coisas que deviam constituir o objeto de suas conversas. A biblioteca. acompanhado de um relato. um lugar protegido pela folha de bananeira que o abriga do sol e pelos frascos de espécimes conservados no álcool. que se tentará domesticar para o viveiro real. quanto aos espécimes. a coleção. O desenho produzido por esse quase-laboratório em breve circulará em todas as coleções reais. por que simplificar a ponto de levar apenas alguns frascos? Por que. irão enriquecer os gabinetes de curiosidades de toda a Europa. na volta.

a contradição entre a presença num lugar e a ausência desse lugar. de um maior número de matérias. pois. invertido. cujo vértice repousa. Um segundo movimento de amplificação sucede ao primeiro movimento de redução (Fig. que perda considerável. da transposição em imagem e das inscrições.2) Ilustremos o movimento deste segundo triângulo com outra fotografia. um relato de viagem devem. convém completar este primeiro triângulo isósceles por um segundo. em que cada ave voava invisível 4 . do tamanho das coleções. resolver de modo prático. um volume de pranchas ornitológicas. extração. redução. Entretanto. passar dos textos a situações e voltar aos livros por intermédio das expedições. em que cada ave vivia livremente em seu ecossistema. ilustrado por Pierre Béranger. tão material quanto a extração de urânio ou de antracito.3). na situação de partida. Um gabinete de curiosidades. e sem os veículos materiais que permitem o transporte e o carregamento. e sim a um trabalho de produção tão concreto. pois. da amplitude das taxionomias. mas no meio de todos os seus congêneres. por naturalistas dispersos no espaço e no tempo. Em comparação com a situação inicial. que Michel Butor consagrou à antiga galeria do Museu de História Natural (Fig. desta vez. e cuja base se expande nos centros de cálculo. da fidelidade dos desenhistas. do mundo inteiro. tirada do livro admirável. O signo não remete de início a outros signos. da riqueza dos colecionadores. e sim o “carregamento”. em inscrições cada vez mais móveis e cada vez mais fiéis. ser tomados como a ponta de um vasto triângulo que permite. por operações de seleção. por graus insensíveis. poder-se-á retirar mais ou menos matéria e carregar com mais ou menos informações veículos de maior ou menor confiabilidade.64-BIBAL Portugais 4 viagens. da potência dos instrumentos. que diminuição! Mas. A informação não é inicialmente um signo. Reencontramos os voláteis empalhados de há pouco. em comparação com a situação inicial. A produção de informações permite. Impossível compreendê-la sem se interessar pelas instituições que permitem o estabelecimento dessas relações de dominação. trazidos.

a biblioteca servem. convém lembrar que os textos agem sobre o mundo. tanto para a amplificação como para a redução. o gabinete. que as preserva e as conserva borrifando-as com inseticidas. que as classifica por um sistema retificável de prateleiras. que aumento! O ornitólogo pode então. se universaliza. que ganho fantástico. de encruzilhada. sob o olhar preciso do naturalista. Passando do segundo para o terceiro triângulo. tranqüilamente. de gavetas. não nos leva de volta à evidência primeira do realismo e da 5 . de conhecimento. não esqueçamos sua “conéctica”. Evidência segunda. aí também não descubro um mundo de signos cortado de tudo e remetendo somente a si próprio. Aí também. e cada página puxa atrás de si tantas tomadas e fichas quanto a parte posterior de u computador. que as apresenta ao olhar dos visitantes. de distribuidor.64-BIBAL Portugais 5 na confusão de uma noite tropical ou de um amanhecer polar. Após quarenta anos de trabalhos sobre a intertextualidade e o esplêndido isolamento do mundo dos signos. é claro. A comparação de todas as aves do mundo sinoticamente visíveis e sincronicamente reunidas lhes dá uma enorme vantagem sobre quem só pode ter acesso a alumas aves vivas. a fim de regular as relações múltiplas entre o trabalho de redução e o trabalho de amplificação. Impossível. Ao falar de livros e de signos. comparar os traços característicos de milhares de aves tornadas comparáveis pela imobilidade. de intermediário. Todos esses lugares estão repletos de ligações com o mundo. um trabalho tão material quanto o do embutidor ou do fresador. a informação exige uma competência. compreender este suplemento de precisão. mas ele vive. ao contrário. Talvez o naturalista não pense diferentemente do indígena que percorria sua ilha em busca de um papagaio. que a marca por um fino jogo de escrita e de etiquetas. o livro ilustrado. que. sem a intuição que abriga todas essas aves empalhadas. O que vivia disperso em estados singulares do mundo se unifica. de vitrines. de central telefônica. de dispatcher. com certeza. A redução de cada ave se paga com uma formidável amplificação de todas as aves do mundo. e circulam em redes práticas e instituições que nos ligam a situações. de intérprete. num outro ecossistema. pela pose. com certeza. pelo empalhamento. em local protegido. A coleção. o relato.

não é possível situar uma informação sobre o gene sem a rede das instituições. seria igualmente sensato isolar esta página do comjuto das tomadas referenciais que a ligam à ação de um gene em células vivas. de deslocamento. ao contrário. o gesto de um tácnico 6 . dos aparelhos e dos técnicos que asseguram o duplo jogo da redução e da amplificação. Questão clássica que a filosofia das ciências quis enquadrar por muito tempo. Eis. através do laboratório. Chegamos ao programador de genes – instrumento de laboratório-. assegura em parte a veracidade do comentário. O comentário “faz referência” a um documento que serve de prova e que fundamenta seus dizeres. uma página de revista Nature de alguns anos atrás. de traduções. Esse documento. na linguagem da seqüência. pela mudança de nível da citação. apresentando um seqüência de ADN bem como as bases podem codificar (Fig. mas que. que vai. O texto deste artigo comenta a seqüência de genes inscrita como um documento gráfico no interior da prosa. por exemplo. de mudanças de nível. do gene tal como ele é. transversalmente. a réplica. você conseguirá: um líquido num tubo de ensaio. O gene que acaba se inscrevendo em claro nas páginas da revista não pode ser desligado das redes de transformações. assim mesmo. na natureza das coisas. opondo os realistas de um lado e os construtivistas do outro. No entanto. depois de centenas operações de manipulação. Seria absurdo considerar esta página como a expressão transparente. Mas aonde nos leva o próprio documento. Conforme o lugar em que você se situar para retirar o sinal. Como no caso do papagaio de há pouco. se seguirmos a série de mudança de nível que. do texto à manipulação de laboratório. Embora se trate de dois códigos. desde sempre. aos biólogos moleculares manipulando com precaução placas fotográficas irradiadas com produtos radioativos e montando-as numa mesa luminosa como fariam fotógrafos.64-BIBAL Portugais 6 semelhança ingênua. de compreender a “construção da realidade” bem real dessa gente. nos afasta um pouco do império da semiótica. não nos encontramos aí na intertextualidade. lhe servem de provas? Chegamos ao gene? Não imediatamente.$). por sua vez. como se não se tratasse.

um texto em prosa sobre a localização possível de um gene. assim também todos os lugares do mundo.5). uma coerência que as tornavam todas comparáveis. ao mesmo tempo contínua – que liga centro de cálculos. em local abrigado e no plano. através do mapa. ganham. mas se encontra por toda parte a relação transversal. os mapas podem ser sobrepostos. Para compreender esta inversão. Inversão propriamente fantástica. a conéctica. dos colóquios. o cartógrafo desenha. e permitem. cada sistema de projeção favorece todos os outros. Como mostrou muito bem Christian Jacob. que permite experimentar vários sistemas de projeção. e pela dos gravadores em cobre e dos impressores. por mais diferentes que sejam. a cartografia pode servir de modelo para todo este trabalho de transformações que inverte a relação entre um lugar e todos os outros. 7 . Cada informação nova. a montante e a jusante. pela mediação das vias comerciais tratadas a fogo e sangue. não devemos esquecer. Por serem todos planos. que explicam esta formidável amplificação própria dos centros de cálculo. pelo empalhamento. da matemática pura. um boato que corre no bar da esquina. a paisagem que ele domina com o olhar. das academias. bem entendido. seqüências de ADN na linguagem de um computador. Nunca se encontra o famoso roteiro de uma linguagem cortada do mundo e de um mundo cortado da linguagem. faixas cinzentas ou pretas nem papel prateado. portanto. Nesta imagem (Fig. Prestemos atenção por um instante à inversão das relações de força entre aquele que viaja numa paisagem e aquele que percorre com o olhar o mapa recém-desenhado. um argumento na boca de um homem de branco.64-BIBAL Portugais 7 que maneja a pipeta. por intermédio das expedições. na paisagem desenhada ao fundo. das viagens. uma coerência ótica que os torna todos comensuráveis. pois aquele que seria dominado. torna-se o dominante assim que entra em seu gabinete de trabalho e desdobra os mapas para rasurá-los. que liga este lugar a todos os outros. Da mesma forma que as aves do Museu ganhavam. comparações laterais com outros mapas e outras fontes de informação. a outras situações.

integrá-lo num relato. em relação com o que ela representa. e outros. uns. meteorológicos. de uma imagem em infravermelho tomada por satélite. vindas de domínios da realidade até então completamente estranhos. textos. podem unificar-se em uma só visão. religar. do desdobrável. do acumulável. ela se torna comensurável com todas as outras. o percurso da Grande Armée. por exemplo. cálculos ainda agora fisicamente separados. se paga ao cêntuplo com a mais-valia de informações que lhe proporciona esta compatibilidade com todas as outras inscrições. Nesta imagem do serviço da Météo-France. a medida das temperaturas. compreende-se a origem desta aposta dupla que faz o cientista ganhar cada vez que parece ter perdido o contato direto com o mundo. do plano. (Fig. combinar. pode-se ver como. o número de soldados sobreviventes em cada bivaque! Informações diferentes. Marey. Nesta imagem (Fig. do calculado. pôde superpor o mapa da Rússia. Sem a superposição das inscrições móveis e fiéis. provenientes de um cálculo numérico. de sua padronização com outras inscrições. o grande fisiologista (e inventor do inverso do cinema!). cada uma das quais se encontra sempre lateralmente ligada ao mundo através de uma rede. pode-se comentá-lo num texto. No mesmo desenho. A partir do momento em que uma inscrição aproveita as vantagens do inscrito.64-BIBAL Portugais 8 Compreende-se melhor. é possível sobrepor a ele mapas geológicos. O mesmo mapa pode incubrirse de cálculos. traduzir desenhos. mais tragicamente. graças à coerência ótica do mapa. seria impossível apreender as 8 . procedentes de instrumentos separados.6). porque suas inscrições possuem todas a mesma coerência ótica. Mas esta poder não vem de sua entrada no universo dos signos. de sua coerência ótica. oferecendo a cada inscrição o poder de todas as outras. do que se pode examinar com o olhar. fotografias. então. a expressão “centro de cálculo”. Hoje compreendemos melhor esta compatibilidade. e sim de sua compatibilidade. se superpõesm tipos de informações diferentes. A perda considerável de cada inscrição isolada. A digitalização prolonga esta longa história dos centros de cálculo. pois todos utilizamos computadores que se tornam capazes de remexer.7) que Tufte considera como um dos diagramas científicos mais “eficazes”. a data de seus deslocamentos e.

e nos dois sentidos. num tom de camponês do Danúbio: “Os fatos estão aí. o domínio erudito. Neste “lugar-comum”. vírus. economia. coleções. discutindo entre eles. O dedo apontado sempre permite aos realistas afirmar seu ponto de vista. senão medir a bola que segura sem esforço nos joelhos (Fig. expedições. os movimentos estratégicos e as vítimas do general Inverno. sempre se esquece um pequeno detalhe: o que chamamos “dominar com o olhar” permanece impossível enquanto não nos tornarmos Gulliver no país dos liliputianos. através de redes de transformações – laboratórios.8). paisagens – mais sim sobre as inscrições que lhe servem de veículo. as temperaturas. ele materializa a inversão das relações de força que a cartografia torna tão claramente visíveis – mas que se encontram. dos tamanhos respectivos. por um lado. a seu próprio mundo de fenômenos. a todos aqueles com os quais se torna compatível. e. para designar não mais o gigante que carrega o mundo em seus ombros. em todas as disciplinas que entram sucessivamente na “via direta de uma ciência”. os dedos destes cientistas. este frontispício em que Atlas não tem mais nada a fazer. O controle intelectual. fotografados antes de sua partida para a floresta amazônica. em graus diferentes. as datas. entre o geógrafo e paisagem. essa inversão das relações de força se realiza por uma inversão literal das proporções. Quando Mercator utiliza pela primeira vez a palavra Atlas. antes de dar um murro na mesa exclamando. não designa a 9 . Ora.64-BIBAL Portugais 9 relações entre os lugares. por outro lado. teimosos”. e que não acabe por expor os fenômenos pelas quais ela se interessa numa superfície plana de alguns metros quadrados. Quando se usa a metáfora astronômica da “revolução copernicana”. cada dado se liga. em volta da qual se reúnem pesquisadores que apontam com os dedos os traços pertinentes. e sim o volume que permite segurar a terá entre as mãos. antiga ou recente que não dependa desta transformação prévia. rígida ou flexível. instrumentos. não se exerce diretamente entre os fenômenos – galáxias. Não existe ciência. oferecido pela roteirização do gráfico. Ora. quente ou fria. sob a condição de circular continuamente. Resumo notável da história das ciências.

11). arruinando assim a precisão de seus alinhamentos. np túmulo. para a surpresa das mulheres. o cálculo ou. o relato.64-BIBAL Portugais 10 floresta e sim a sobreposição dos mapas e das fotos satélites que lhes permitirão determinar onde estão (Fig. não devemos esquecer a imagem tirada do mais belo romance verdadeiro da história das ciências (Fig. o túmulo vazio (“ele não está mais aqui”). mais recentemente. enquanto sua mão esquerda designa a aparição do ressucitado. mas entre os vivos”. por triangulações sucessivas. mas que o monge em oração pode contemplar com devoção. Para compreender um centro de cálculo. a final de contas. as ciências não são mais imediatas do que as imagens piedosas nem menos transcedentes que elas. Paradoxo do realismo científico. sob condição de compreender bem o duplo gesto do anjo: “Não é uma parição.10). Para que o mundo termine no gabinete do geógrafo. os infelizes geógrafos da expedição La Condamine esforçam-se por avistar as balizas que com grande dificuldade levantam. pela digitalização. Em outras palavras. ou que os tremores da terra ou as erupções vulcânicas deslocam ligeiramente. Se quisermos compreender a imagem do geógrafo trabalhando em seu gabinete. que as mulheres também não vêem. Que tenham sido necessários vinte anos de 10 . como São Tomé. aqui na pintura. que só pode designar com o dedo a ponta extrema de uma longa série de transformações no interior da qual circulam os fenômenos. mas está presente porque ressuscitado. é preciso pois apreender o conjunto da rede de transformações que liga cada inscrição ao mundo. não é menor que o do anjo pintado por Fra Angélico (Fig. Haveria impiedade em crer que se pode ver diretamente a Floresta Amazônica ou pôr diretamente. o meridiano de Quito e visar em seguida as mesmas estrelas fixas nas duas extremidades. Numa bruma dos contrafortes andinos. Sua mão direita designa. Mas este paradoxo. Tanto Deus quanto a natureza circulam através de redes de transformações. não o procurem entre os mortos. Jesus. uma ausência. os dedos nas chagas do Salvador. não está aqui.9). o desenho. Paradoxo deste dêitico que designa também. é preciso que expedições tenham podido quadricular os Andes com balizas bastantes para obter. como o das ciências. e que liga em seguida cada inscrição a todas a que se tornaram comensuráveis a ela pela gravura. mas que os índios de noite derrubam.

começamos a atravessar a distinção usual entre palavras e coisas. a verdade entre o representado e o representante. redistribuindo o espaço-tempo. têm alguma dificuldade. e aproveitam o suplemento de informações oferecido por toda e qualquer inscrição a todas as outras.13). mas por motivos opostos. a confiabilidade. que parece sempre tão incompreensível quanto a do dinheiro (Fig. que permite a circulação de todas as inscrições capazes de trocar entre si algumas de suas propriedades. mas também nas diferentes matérias da expressão. para distingui-las bem dos signos. os estudiosos de literatura. num sistema astrônomo que lhe serviria de referência. em reconhecer o papel das inscrições. Com efeito. um número cada vez maior de inscrições. viajamos não apenas no mundo. O conjunto desta galáxia descabelada – redes e centro – funciona como um verdadeiro laboratório. Redes de transformações fazem chegar aos centros de cálculos.64-BIBAL Portugais 11 duros trabalhos e de inverossímeis aventuras para obter este meridiano (Fig. e que dissimula tanto o labor dos construtores de redes como o dos centro de cálculos. Eu já disse o suficiente para que se possa agora considerar a topologia particular dessas redes e centros. deslocando as propriedades dos fenômenos. uma vez que eles estão ao mesmo tempo afastados dos lugares. Mito científico oposto ao mito literário. sob pena de crer que o signo representa o mundo sem esforço e sem transformação. único meio de assegurar a fidelidade. A coerência ótica dos fenômenos relatados autoriza de fato essa capitalização. como os de ciência – sem falar nos teólogos -. ligados aos fenômenos por uma série reversível de transformações. quando as seguimos. eu as chamo de “móveis imutáveis”.12). ou que ele existe à parte. Essas inscrições circulam nos dois sentidos. Como elas devem ao mesmo tempo permitir a mobilidade das relações e a imutabilidade do que elas transportam. proporcionando ao “capitalizadores” uma vantagem considerável. Uma vez nos centros. por uma série de deslocamentos – redução e amplificação -.em se interessar pelo corpo da prática instrumental. eis o que não se deve esquecer. outro movimento se acrescenta ao primeiro. Com efeito. Uma biblioteca considerada como um laboratório 11 .

validá-los. de modo maníaco. dessas transformações. da estatística. como um grande instrumento de física. de banco. tanto os epistemólogos como os leitores de Borges. localizar. obtendo em seu interior condições extremas. por uma série de simples transformações. na extremidade das redes que os representam fielmente”. Tanto os realistas como os construtivistas. dessas inversões de relações de força. da física. trata-se sempre. dessas mais-valias de informação. recriar todos os outros. pela inversão de instrumentos cada vez mais sutis. amplificar. não 12 . “Fora. Com efeito. dessas acumulações.64-BIBAL Portugais 12 não pode. “Dentro. assegurá-los. no entanto. permanecer isolada. Seria como querer separar a eletricidade doméstica das redes atendidas pela Electricité de France (EDF) ou as viagens de avião das linhas da Air France. representando para o universo das redes e dos centros o papel de Wall Street ou da City para o capitalismo. da matemática. e é unicamente sua circulação que permite verificá-los. os fenômenos circulam através do conjunto. e concentrar-se seja com o mundo seja com o signos. de simples deduções. dirão outros. é evidente. Ela serve antes de estação de triagem. e que detectores gigantes expressamente construídos para isso sabem colher. dirão uns. de conservar o máximo de formas e forças através do máximo de transformações. exatidão e precisão perdem seu sentido fora destas redes. perguntar-se-á. todos gostariam de dispensar o conjunto traçado pelas redes e pelos centros. provas. Infelizmente. como se ela acumulasse. Ah. pela noção de constante. nesta descrição. Compreende-se então a obsessão da geometria. ficção regulada pela estrutura própria do universo dos signos”. ela se apresenta. deter-se num ponto e . da meteorologia. à vontade! Os melhores espíritos se entusiasmaram com essas invenções que. deformações. milhões de signos. Não esqueçamos que as belas palavras de conhecimento. que redistribuem as propriedades dos fenômenos submetidos a provas que não existem em nenhum outro lugar. Onde se encontram o s fenômenos?. Para dar outro exemplo. erudito e culto. como os aceleradores do Centro Européeu de Recherche Nucléare (CERN).

Num desenho em perspectiva única. por uma série de correções. torná-los todos compatíveis.64-BIBAL Portugais 13 os afastavam. bem estudado por Ivins e por Booker. É justamente porque os observadores delegados ao longe perdem seu privilégio – o relativismo – que o observador central pode observar seu panóptico – a relatividade – e encontrar-se presente ao mesmo tempo em todos os lugares onde. mas em três dimensões – a totalidade das posições. é preciso interessar-se pelo traço mais curioso dessas redes de transformação. A partir do momento que um 13 . de “leis universais”. sem isso vazia. de conversões. Com o desenho industrial a maneira de Monge. por sua relatividade. Nos desenhos feitos sem perspectivas. O documento gráfico permite recalcular – como num mapa. Para compreender esta esquisitice. no entanto. e pode também. bem como a totalidade dos pontos de vista do espectador. a relatividade dá um passo gigante. como na relatividade de Einstein. Como diz Edgerton: “Não se gira por trás de uma Virgem de Cimabue”. não reside. às cores e aos símbolos -. É essa negociação prática entre os observadores da periferia e os do centro que dá carne e sentido à expressão. de reescritas. que obedeça às regras da geometria projetiva – e às convenções relativas às sombras. é possível imaginar outras posições do objeto no espaço. aquele que. mas o sujeito. quanto a ele. à moda italiana. tanto que se pode transportar o desenho técnico através do espaço sem modificar em nada as relações entre as partes que o compõem. de transformações. Todas as posições do sujeito e todas as posições do objeto são equivalentes. das observações. De fato. isto é. Tomemos o exemplo simples da perspectiva. Num desenho técnico. dos mapas. o leitor não pode deduzir o conjunto das posições do objeto no espaço (Fig. deve ocupar a posição privilegiada que o pintor lhe reservou. dos levantamentos. enviados por todos os observadores despojados de qualquer privilégio. é possível ao leitor (competente) reconstituir a peça em todas as suas posições através do espaço. Não há mais nem observador nem perspectiva privilegiados. pode capitalizar o conjunto dos desenhos.14). da busca pelo poder e da criação de coletivos cada vez mais vastos e cada vez mais bem “dominados”. existe sim um observador privilegiado. dos dados. muito pelo contrário. no centro de cálculo.

Compreende-se então que as instituições como as bibliotecas. como no caso da 14 . menos grandiosos. A perspectiva. muito particular. a conservação no azoto líquido ou a perfuração para a extração de amostras. os laboratórios. Como se vê. não se manifesta apenas entre as inscrições. ele interrompe o deslocamento dos móveis imutáveis. enfraquece o centro de cálculo. dos centros e dos móveis imutáveis que aí circulam. Todos estes meios juntos permitem reter os fenômenos. sob pretexto de que os fenômenos falariam por si mesmos à simples luz da razão. mas procede antes da manutenção contínua das redes. como o empalhamento. No entanto. apesar do transporte e da diversidade dos observadores. pela manutenção das relações estáveis através de transformações mais extremas. els compõem os fenômenos que só têm existência por esta exposição através das séries de transformações. Deve-se ouvi-la antes como o ronronar de uma rede que gira e que se estende. a teoria da relatividade. pois essa série de transformações tem justamente como particularidade atravessar continuamente e reversivelmente o ou os limites dos signos e das coisas. de conhecer.64-BIBAL Portugais 14 observador. conforme o modelo comum da adequatio rei et intellectus. seja sua imutabilidade. A obsessão pela constante. tal visão. acrescenta ruído a linha. A veracidade não vem da superposição de um enunciado e de um estado do mundo. A palavra verdade não ressoa quando uma frase se prende a uma coisa como um vagão a outro vagão. um investigador se torna muito específico. a geometria são alguns dos veículos que asseguram às inscrições seja sua mobilidade. não nos leva de volta ao simples jogo dos signos. isto é. os fenômenos não se situam nem no exterior nem no interior das redes. muito idiossincrático. as coleções não são simples meios que se poderiam dispensar facilmente. Eles residem numa certa maneira de se deslocar que otimiza a manutenção das relações constantes. um instrumento. a imprensa. procurando de cada vez o que se mantém constante através dessas transformações. impede o observador privilegiado de capitalizar. Existem muitos outros. que parece muito afastada do realismo à moda antiga. com a condição de transformá-los. o modelo reduzido. Adicionados uns aos outros.

15 e 16). Ela se manifesta ainda mais claramente quando é preciso manter um fenômeno através das transformações que o fazem passar da matéria. o nome que se encontra em sua planta de Paris e nas placas de rua. o que suporia outras instituições. aos La Condamine. outros instrumentos. menos. que dominamos pelo olhar. e põe em correspondência. de um lugar onde moramos e que nos cerca por todos os lados. mas numa relação que nos afasta da intertextualidade. uma vez que. As inscrições não remetem ao vazio a outros signos. a segunda na placa – serão ambas signos? Certamente. a cada mudança de nível. outros meios. da forma à matéria. através de outra mudança de nível. com um rápido movimento de cabeça. elas se carregam de matéria e servem de validação uma à outra. E. Esse viajante apressado mostra com o dedo o mapa do metrô. Voltemos ao exemplo simples da cartografia. por usa vez. Essas duas espécies de signos. nos permitem passar do mapa ao território. no entanto. a marcação das ruas se basea. ou em satélites a vários milhares de quilômetros de distância. do mapa. mapas e placas. ou recém-pintados. Naturalmente. à forma. As duas inscrições – a primeira no mapa. alinhados uns aos outros e mantidos ambos por grandes instituições ( o Instituto Geográfico Nacional. inversamente. ou. nos marcos geodésicos que se encontram cravados nas calçadas. Essa moça aponta com o dedo o nome da rua. e pode ler em letras grandes o nome da estação que corresponde àquele. não 15 . Como verificar a adequação do mapa ao território? Impossível aplicá-lo diretamente ao mundo – a menos que se refaça o tranalho colossal que permitiu aos Cassini. pois os triângulos da rede nacional nos afastam logo do lugar balizado para nos alinhar em outras balizas a vários quilômetros de distância. aos Vidal de La Blache inverter a proporção entre dominantes e dominados. a série não pára aí. negociando com cautela a enorme mudança de nível que separa um pedaço de papel.64-BIBAL Portugais 15 perspectiva ou do desenho técnico. geridos por outras instituições. A posição da placa depende de um regulamento do ministro do interior. Na prática. aplicamos o texto do mapa a uma baliza. Reencontramos os dedos apontados de há pouco e o mesmo jogo sutil da ausência e da presença. o Ministério do Interior). inscrita na paisagem (Fig. o “Ponts et Chaussées”. Podemos enfim passar para o solo argiloso? Ainda não.

onde leitores escrevem e pensam. ao contrário.64-BIBAL Portugais 16 se pode percorrer sua cadeia sem encontrar. reconheço (Fig. para acabar. a verdade vestida. Esse mito não é criticável apenas por seu sexismo. e que eu lembrei muito rapidamente. atrás da matéria anterior. Eis um dos War Rooms em que Winston Churchill conduzia a última guerra. instrumentada. dispendiosos. e os pesquisadores fazendo uma coisa bem diferente de contemplar o mundo num derrisório peep-show. abrigado das bombas num bunker cavado por baixo de Westminster. laboratórios. apesar da mudança de nível. com o mapa que eu seguro na mão. e as redes ampliadas e violentas. Neste lugar abrigado. coleções. de soldados mortos. onde se elabora o conhecimento. outras marcas. formas. mas também pela nudez terrificante na qual deixa sobreviver a Natureza.17). como nessa estátua de Ernest Bramar. só se vêem nas paredes inscrições. não parecem poder reconhecer ao mesmo tempo o papeldos lugares fechados. gorda. devemos substituir a antiga distinção entre a linguagem e o mundo por essa mistura de instituições. rica. abrigados. um último exemplo.18). outras instituições que já “prepararam o terreno”. porém. nos mostra. equipada. cujas dimensões e propriedades transformam. de fornecimentos 16 . afim de terem acesso direto às coisas. confortáveis. Tudo o que aprendemos recentemente das ciências. compilações estatísticas e demográficas sobre o número de comboios afundados. os estudiosos de ciências gostariam de dispensar o miserável intermédio das palavras. Os estudiosos de letras consideram a linguagem autônoma e livre de fazer referência a qualquer coisa. Os estudiosos de letras como os de ciências. esses lugares silenciosos. que se encontra no Conservatório das Artes do Ofício (Fig. É acreditar na “natureza se desvelando aos olhos da ciência”. sem com isso perder nem o saber nem a razão. exposta. como a Verdade saindo gelada de seu poço. extremo. pretende-se dispensar bibliotecas. por razões opostas. custosa. através das quias circulam os fenômenos. a dizer a verdade. Tomemos. Se desejamos entender como chegamos. às vezes. Às vezes. matérias e inscrições. se ligam por mil fios ao vasto mundo. a fim de que sua leitura se torne compatível. que foi aberto ao público depois do restaurado. Ora.

a colher informações sobre a batalha que se desencadeia lá fora. de modelo reduzido. fichas. listas. como saber se o Eixo ganha ou não dos Aliados? Ninguém pode sabê-lo com segurança sem construir um “dinamômetro” que meça a relação das forças por meio de uma série de instrumentos estatísticos e de contagens. relatórios. sem eles. Entretanto. a mede. que os mitos perversos de uma verdade desvelada pela ciência ou que a bibliotaca interminável de Borges. se nos interessarmos pela razão. Segundo Christian Jacob. estoques -. curvado sob a auréola amarela da lâmpada. mas cujo sentido global ficaria perdido sem este panóptico. avaliações. ela a resume. através de mil intermediários – dossiês. É poruqe os laboratórios. eu afirmo que esta situação se parece mais com laço que liga o leitor. Com efeito. serve-lhe. permanece incompreensível. esta sala baixa e protegida das bombas se aplica. as bibliotecas e as coleções estão ligados em num mundo que. este lugar não está isolado da grande batalha planetária. parece que a Biblioteca de Alexandria teria servido de centro de cálculo para uma vasta rede da qual era a fonte abastecedora. que convém mantê-los. Não é à toa que os Ptolomeus eram gregos. ao mundo que o cerca. O império de Alexandre sabia muito bem as forças que podem ser derrubadas com o império dos signos. fotografias. sem esta compilação notarial. Bruno Latour Tradução de Marcela Mortara 17 . Apesar de seu caráter marcial. Como o gabinete de nosso cartógrafo. literalmente.64-BIBAL Portugais 17 militares em produção. Ao contrário. contagens.

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