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IBP1193_12 A INDÚSTRIA DO ETANOL A PARTIR DA ANÁLISE DE ROADMAPS TECNOLÓGICOS 1 Antonio Calil Neto , Maria José O. C.

Guimarães 2, Estevão Freire3

IBP1193_12 A INDÚSTRIA DO ETANOL A PARTIR DA ANÁLISE DE ROADMAPS TECNOLÓGICOS
Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelos autores. Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação dos autores que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O comportamento da indústria do etanol nos próximos anos deverá ser balizado por diversos fatores, dentre os quais ganham relevo: matéria-prima, tecnologias de conversão e produtos. Objetiva o presente artigo, a partir da análise de roadmaps tecnológicos, seja tratando do Brasil em face do mercado global, seja abordando prioritariamente o contexto internacional, avaliar quais tecnologias tendem a predominar, com ênfase na indústria do etanol, expondo pontos convergentes e complementares entre os roteiros tecnológicos, principalmente no que tange a barreiras e desafios, custos e logística, além de outras questões mais amplas que regem a produção de matéria-prima sustentável, as tecnologias de conversão e a indústria de biocombustíveis, com ênfase ao etanol. Biocombustíveis convencionais hoje não são em geral competitivos com os combustíveis fósseis a preços de mercado, exceção para o etanol de cana que já tem um bom desempenho em termos econômicos. Por outro lado, as estratégias para o etanol de primeira geração diferem das relativas ao de segunda geração, que está em um estágio anterior do desenvolvimento da tecnologia e ainda sujeito a custos de produção comparativamente elevados. A barreira não econômica fundamental para o desenvolvimento dos biocombustíveis, em particular o etanol, é a incerteza quanto à sua sustentabilidade. O debate, por vezes, sobre a concorrência com a produção de alimentos e a destruição potencial de valiosos ecossistemas pôs os biocombustíveis no centro da discussão sobre sustentabilidade. Os desafios a serem enfrentados pela indústria do etanol vão desde a necessidade de sua implantação em larga escala, até a redução de custos ao longo da cadeia de produção, passando pela necessidade de as tecnologias de segunda geração atingirem o patamar de comercialização, sendo que o comportamento destes fatores e de outros dependerá de cada cenário traçado.

Abstract
The behavior of the ethanol industry in the coming years should be buoyed by several factors, among which gain prominence: feedstock, conversion technologies and products. This article aims, from the analysis of technological roadmaps, is dealing with Brazil in the face of the global market, is primarily addressing the international context, to assess which technologies tend to predominate, with emphasis on the ethanol industry, addressing convergent and complementary the technology roadmaps, especially regarding the barriers and challenges, costs and logistics, and other broader issues that govern the production of sustainable feedstock, conversion technologies and biofuels industry, with emphasis on ethanol. Conventional biofuels today are generally not competitive with fossil fuels at market prices, except for the cane ethanol already has a good performance in economic terms. Moreover, strategies for first generation ethanol differ from those for the second generation, which is at an earlier stage of technology development and still subject to comparatively high production costs. The non-economic fundamental barrier to the development of biofuels, particularly ethanol, is the uncertainty as to its sustainability. The debate sometimes on competition with food production and the potential destruction of valuable ecosystems put biofuels in the center of the discussion about sustainability. The challenges facing the ethanol industry range from the need to implement on a large scale to reduce costs along the production chain, through the need for second-generation technologies to reach the level of market, with the behavior of these factors and others will depend on each setting route.

______________________________ 1 M. Sc. – Doutorando da Escola de Química da UFRJ 2 D. Sc. – Professora da Escola de Química da UFRJ 3 D. Sc. – Professor da Escola de Química da UFRJ

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

1. Introdução
Em se tratando de tecnologias e produtos, para onde caminha a indústria dos biocombustíveis, em particular do etanol? Verificam-se que há diferentes abordagens se compararmos o etanol de primeira geração – biocombustível convencional - e o de segunda geração - biocombustível avançado -, principalmente pelo fato de predominar no Brasil o primeiro, sendo a Petrobrás, a nível nacional, o principal player. Simultaneamente, empresas multinacionais têm investido com mais agressividade no etanol de segunda geração, aposta que tende a dar maiores resultados a partir da segunda metade da presente década. Em breve análise, verifica-se que, na atualidade, a indústria do etanol de primeira geração se encontra madura, mas em evolução; a indústria de novos biocombustíveis e bioprodutos se encontra na fase fluida; ao passo que a indústria integrada de biomassa, com realce para as biorrefinarias, se encontra em aberto, para ser moldada (Bomtempo, 2011). Em termos de Brasil, hoje a trajetória tecnológica da primeira geração de etanol é caracterizada como dominada pelos fornecedores – segundo taxonomia de Tidd et al. (2005) -, haja vista que a tecnologia vem dos mesmos. Assim, se o empresário possui a matéria–prima, encomenda o maquinário a uma empresa de engenharia e obtém a unidade industrial montada, estabelecendo-se como produtor de biocombustível, por exemplo. Dentre as forças competitivas que alavancam a indústria do etanol no Brasil destacam-se o domínio tecnológico da primeira geração; elevada produtividade agrícola e industrial - frise-se que o Brasil é líder mundial na produção de cana-de-açúcar; clima favorável e disponibilidade de recursos naturais (terra e água); e co-geração e aproveitamento de resíduos. No entanto, dentre os pontos em que a indústria brasileira se apresenta fragilizada se destacam: elevados custos logísticos; dependência forte dos preços de insumos agrícolas e co-produtos (açúcar); atraso em Pesquisa e Desenvolvimento na segunda geração; visão do setor focada no curto prazo (decisões sobre investimento, paradigma tecnológico, etc.); estrutura de mercado com pouca concentração, baixa escala e com pouca integração (Queiroz, 2011). Há também incertezas em relação a determinados fatores tais como: crescimento econômico do país, que influencia o tamanho da frota e a demanda de combustíveis; variações da taxa de câmbio e exportações do etanol brasileiro; volatilidade do preço do etanol x preço do petróleo; protecionismo e a liberação do comércio internacional; sustentabilidade socioambiental; competição por recursos como água, solo, insumos; e disseminação da tecnologia de segunda geração, dentre outros. Diversas variáveis devem ser consideradas no estabelecimento de cenários futuros para o etanol, dentre as quais ganham relevo: matéria-prima, tecnologias de conversão e produtos. Com o propósito de possibilitar melhor compreensão dos passos que se seguirão na indústria do etanol, será realizada neste trabalho uma análise de roadmaps tecnológicos. Estas ferramentas consistem em roteiros tecnológicos que visam explorar a dinâmica das tecnologias emergentes na indústria, em um horizonte de longo prazo e, especialmente, desenvolver, implementar e executar mapas estratégicos de modo a alinhar a estratégia da indústria às suas capacidades tecnológicas. Constitui-se em um processo de planejamento impulsionado pela necessidade de tecnologias, que auxilia a identificar, selecionar e desenvolver tecnologias alternativas para satisfazerem um determinado conjunto de necessidades ou de produtos já definidos. Assim sendo, objetiva o presente artigo, a partir da análise de dois roadmaps tecnológicos - um tratando do Brasil em face do mercado global e outro abordando prioritariamente o contexto internacional - avaliar quais tecnologias tendem a predominar, com ênfase na indústria do etanol, expondo pontos convergentes e complementares entre os roteiros tecnológicos, principalmente no que tange a barreiras e desafios, custos e logística, além de outras questões mais amplas que regem a produção de matéria-prima sustentável, as tecnologias de conversão e a indústria de biocombustíveis, com ênfase ao etanol.

2. Roadmap tecnológico em matérias-primas renováveis
Este roteiro proposto por Bomtempo e Coutinho (2011) buscou enfatizar o potencial do Brasil e os desafios envolvidos na mudança de base de matéria-prima na indústria química, além da construção de vantagens competitivas. Destacou-se a importância dos órgãos governamentais, com relevo para a importância que tiveram e continuam tendo as agências ligadas à energia nos EUA (DOE, NREL, entre outros) na definição de agendas de pesquisa, em muitos casos, estabelecendo metas de desempenho a serem alcançadas e alocação de recursos para os empreendimentos.

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Do ponto de vista das empresas, foram ressaltados dois pontos importantes: a presença de associações nas quais se busca valorizar a complementaridade das competências e a presença de novos players – a maioria com origem na biotecnologia e no agribusiness – que tomam iniciativas nos mercados de energia e de química. Estas duas situações revelam que, somente com o amadurecimento desta indústria, se poderá verificar se novos competidores efetivamente surgirão ou se a base tecnológica trazida pelas novas empresas será absorvida pelos players já estabelecidos, uma vez que já se encontram apoiados em seus ativos complementares. Os biocombustíveis hoje comercializados são o etanol e o biodiesel. Contrariamente à indústria brasileira do biodiesel, recente e ainda em estruturação, a indústria do etanol se encontra já consolidada e mundialmente considerada a referência do setor. Verificou-se que, no presente estágio de desenvolvimento das tecnologias, não é possível antecipar que inovações vão ser efetivamente adotadas no mercado de combustíveis e de bioprodutos. Isto é, os projetos em desenvolvimento buscam melhores produtos, processos e matérias-primas (de preços mais baixos e estáveis, e de fácil disponibilidade) para a produção de biocombustíveis, de modo a superar as limitações atuais da indústria, além de bioprodutos que se apresentem como alternativas aos produtos de base fóssil. Considerando que a tecnologia se encontra na fase fluida, não se encontram definidos os processos e produtos que ocuparão a maior fatia do mercado. Vale frisar, entretanto, que a viabilização de biorrefinarias integradas consiste em uma consequência da confirmação do mercado dos biocombustíveis, principalmente do etanol - em substituição à produção única de combustíveis - como conceito de exploração de biomassa. Assim sendo, o etanol, mediante rotas biológicas, pode ser produzido com base em qualquer biomassa que contenha quantidades significativas de amido (milho, trigo e outros cereais e grãos) ou açúcares (cana e beterraba). Ressalte-se, de acordo com Bonomi (2011), a importância da integração da produção do etanol de segunda geração na usina de primeira geração de cana-de-açúcar, no contexto brasileiro. Frise-se que, quanto à natureza das inovações, os requisitos das matérias-primas incluem disponibilidade, preço, qualidade em relação ao processo de conversão e sustentabilidade ambiental. Considerando a disponibilidade da cana-deaçúcar como uma vantagem comparativa para o Brasil, é enfatizado que, no estágio atual, cultivada nos níveis da produtividade brasileira, seria, entre as matérias-primas disponíveis, a mais próxima do ideal, razão pela qual o etanol de primeira geração tem e continuará tendo relevância nas estratégias industriais. A importância da matéria-prima na indústria foi bem traduzida por Spitz (1988), que ressaltou que a indústria química orgânica sempre foi orientada pela matéria-prima. No caso do etanol, as inovações na produtividade da cana-de-açúcar reforçam os processos convencionais de produção além de reforçar a própria posição da cana-de-açúcar como matéria-prima de eleição. Observou-se que, em que pese a cana-de-açúcar ter sido utilizada até agora apenas como fonte de etanol a partir da fermentação do caldo - além da produção de eletricidade a partir do bagaço - outras alternativas de combustíveis e bioprodutos a partir da cana como o projeto Veranium/BP de etanol celulósico ou o polietileno da Braskem têm reforçado o valor e potencial da cana-de-açúcar na indústria de biomassa. É também crescente a atenção dada à utilização do lixo como matéria-prima que se inclui na construção de uma economia alicerçada na gestão dos resíduos. No que se refere às tecnologias de conversão, destaca-se o desenvolvimento de diversas técnicas utilizando diferentes bases de conhecimento, o que concorre para que, na maioria dos casos, as empresas sejam compelidas a investirem em projetos que priorizem apenas uma das rotas alternativas, o que pode representar incerteza quanto ao futuro dessas empresas na hipótese de suas apostas perderem espaço na evolução da indústria. Outras empresas e investidores de maior porte e disponibilidade de recursos, por sua vez, têm contornado essa incerteza multiplicando suas apostas em diversas plataformas, podendo, conforme o caso, desmobilizar eventualmente as menos competitivas. Enfatiza-se que a produção de etanol celulósico é um desafio tecnológico importante e que vem sendo perseguido por diversas empresas, com destaque para a via bioquímica, a qual pode utilizar duas etapas (hidrólise e fermentação) para converter a lignocelulose em etanol ou procurar fazê-lo numa única etapa. De igual modo, os processos químicos continuam em teste e alguns projetos de relevo têm proposto a utilização da hidrólise ácida para a produção de etanol a partir de lignocelulose (Bluefire) ou a conversão química de açúcares em combustíveis drop in (Virent). No que concerne às inovações de produtos, frisou-se que são raras em se tratando de combustíveis líquidos, haja vista que a lógica natural da indústria visa estabelecer especificações bem definidas de alguns produtos e buscar por meio de inovações de processos a redução de custo e a melhoria de características, razão pela qual o etanol tem se estabelecido como principal combustível em escala comercial, sendo o seu aperfeiçoamento objeto de pesquisa com foco em novos processos e tecnologias. No entanto, o estágio atual da indústria está a descortinar oportunidades de introdução de novos produtos, de fonte renovável, que mais se aproximem de combustíveis ideais e de outros bioprodutos aptos a competir com produtos químicos de base fóssil. Vale frisar que o crescimento relativo de biopolímeros dependerá ainda da definição de sustentabilidade que vier a ser estabelecida nas normas ambientais. Se a definição se der com base na carga de gases de efeito estufa gerados, o espaço de biopolímeros convencionais a partir de fontes renováveis sustentáveis (ex: 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 polietileno a partir de etanol de cana) pode crescer de forma significativa. Se, entretanto, prevalecer uma visão de contestação da utilização de plásticos em razão da poluição visual gerada, o segmento pode favorecer os ditos biodegradáveis, como o PLA. No entanto, deve-se pontuar que as questões da adaptação dos motores e da construção de infraestrutura de transporte e distribuição para o etanol e outros combustíveis de primeira geração tem se traduzido como uma oportunidade crescente para as inovações de produto com a produção de biocombustíveis drop in, o que valoriza os ativos complementares já existentes. No que se refere às empresas participantes deste mercado em evolução, algumas atuam em várias frentes, como é o caso da Shell, com projetos de inovações de processo de produção de etanol celulósico, assim como importante produtora de etanol de cana em associação com a Cosan, líder do setor no Brasil; outras, por seu turno, têm investido mais agressivamente em produção e projetos relacionados ao etanol, como é o caso da BP com destaque para: produção de etanol no Brasil (Tropical, uma joint venture BP, Santelisa e Maeda), produção de etanol a partir de trigo no Reino Unido (Vivergo, uma joint venture BP, DuPont e British Sugar), produção de etanol a partir de materiais lignocelulósicos (Vercipia, uma joint venture BP e Verenium).

3. Roadmap tecnológico: Biocombustíveis para transporte
O roteiro proposto pela International Energy Agency – IEA (2011) aborda biocombustíveis para transporte objetivando proporcionar a governos, indústrias e outras organizações a identificação e a implementação de medidas que visem acelerar o desenvolvimento e absorção de tecnologias-chaves com vistas a alcançar redução significativa na emissão de CO2. Faz referência, em suma, aos seguintes aspectos: a) tecnologias convencionais de biocombustíveis, as quais incluem processos bem estabelecidos que já estão produzindo biocombustíveis em escala comercial, comumente referidos como de primeira geração, incluindo o etanol à base de cana-de –açúcar e etanol à base de amido (milho e trigo); b) tecnologias avançadas de biocombustíveis, que são tecnologias de conversão, ainda em pesquisa e desenvolvimento (P & D), em plantas piloto ou de demonstração, comumente referidos como segunda ou terceira geração, incluindo biocombustíveis com base na biomassa lignocelulósica, como etanol celulósico. No tocante à importância dos governos nacionais, foi ressaltado que os mesmos devem assumir a liderança na criação de um clima favorável aos investimentos da indústria, formando um quadro político estável a longo prazo para os biocombustíveis, aumentando a confiança dos investidores e permitindo a expansão sustentável da produção de biocombustíveis. Verificou-se que processos de produção de biocombustíveis convencionais - como o etanol de cana ou de milho embora já comercialmente disponíveis, continuam a ser objeto de pesquisas visando buscar melhoria nas tecnologias de conversão. Por outro lado, rotas de conversão de biocombustíveis avançados - como o etanol celulósico - estão se movendo para a fase de demonstração ou já estão lá. Especificamente em relação ao etanol de primeira geração, os custos de produção de açúcar e amido são muito sensíveis aos preços das matérias-primas, as quais - em particular nos últimos anos – têm apresentado volatilidade. A eficiência pode ser melhorada e os custos reduzidos através do uso de enzimas amilases mais eficazes, diminuindo os custos de concentração do etanol e reforçando a utilização de co-produtos. O bioetanol pode também ser produzido a partir de matérias-primas lignocelulósicas através da conversão bioquímica dos componentes celulose e hemicelulose em açúcares fermentáveis (IEA, 2008). Os açúcares são então fermentados a etanol, seguindo os mesmos passos de conversão dos biocombustíveis convencionais. O etanol celulósico tem potencial para um melhor desempenho em termos de balanço energético, emissões de GEE e de requisitos de uso da terra do que biocombustíveis à base de amido (IEA, 2008). As primeiras grandes instalações utilizando esta tecnologia se encontram em operação. Resultados de Análise de Ciclo de Vida que compararam as emissões de GEE associadas com diferentes biocombustíveis, em relação às relativas ao combustível fóssil, revelaram que a produção de etanol da cana de açúcar (por exemplo, no Brasil ou na Tailândia) mostra um significativo potencial de redução de GEE, se não houver mudança no uso da terra. Os níveis de redução associados a outros biocombustíveis convencionais, entretanto, se apresentaram mais modestos. Algumas tecnologias emergentes e inovadoras para a produção de etanol ou diesel a partir de matérias-primas lignocelulósicas parecem mais promissoras. Em alguns casos, elas podem reduzir as emissões em quase 100% - como é o 4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 caso do etanol celulósico - quando co-produtos são usados para produzir calor e energia, substituindo combustíveis fósseis por exemplo. Contudo, as estimativas para estes processos são teóricas ou com base em instalações piloto e as incertezas são significativas, uma vez que tais plantas ainda não funcionam em escala comercial. No que se refere ao etanol celulósico – há previsão de instalação das primeiras plantas em escala comercial a partir de 2015, seguido por um rápido crescimento da produção a partir de 2020. Estas novas tecnologias, uma vez comprovadas comercialmente, devem ajudar a atender a demanda de biocombustíveis entre 2020-30. Vale frisar que algumas plantas de etanol celulósico tanto piloto como de demonstração já estão operando e um número considerável já foi previsto para os próximos cinco anos. A maioria destas plantas – as quais têm operado abaixo de sua capacidade nominal instalada - se encontra na América do Norte e na União Europeia, mas um número crescente está em operação ou construção fora da área da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Depois de 2015, no entanto, a produção de etanol celulósico tende a se elevar muito rapidamente. Para tal, as plantas anunciadas e construídas precisam operar em plena capacidade (normalmente 70% da capacidade nominal). Além disso, novas usinas devem iniciar a produção depois de 2015. O comércio de biocombustíveis e biomassa vem crescendo constantemente, impulsionado pelo aumento e volatilidade dos preços do petróleo, e por políticas que promovam o uso de biomassa e biocombustível para geração de energia. A crescente demanda por biocombustíveis nos Estados Unidos, União Europeia e Japão levou a fluxos consideráveis de etanol brasileiro para esses mercados (Junginger et al., 2010). Em que pese o processo de globalização experimentado na última década pelo mercado de biomassa e biocombustíveis, estes ainda se encontram imaturos, de modo que barreiras tais como tributos precisam ser reduzidos para criar condições estáveis de mercado. Dado que o etanol é produzido de forma sustentável, um sistema tributário diferenciado para sua utilização é justificável, seja por razões ambientais, seja como parte de outros objetivos sociais, tais como o desenvolvimento econômico rural, reduzindo as lacunas em termos de competitividade com combustíveis fósseis. No curto prazo, o comércio deverá incluir matérias-primas e biocombustíveis convencionais; mas depois de 2020, é provável o crescimento rápido do comércio de matéria-prima lignocelulósica e o surgimento de grandes usinas de biocombustíveis avançados em áreas costeiras. Certas rotas comerciais de biomassa e biocombustíveis só deverão existir por um período limitado de tempo, até que o abastecimento doméstico na região importadora esteja suficientemente desenvolvido ou aumentada a demanda na região exportadora. No longo prazo, por exemplo, a demanda de biocombustíveis em países não membros da OCDE deverá aumentar rapidamente. Europa Oriental pode fornecer biomassa e biocombustíveis para a Europa Central; América Latina para os EUA, UE e Japão; Sudeste Asiático e Austrália podem se tornar fornecedores da China e outros países asiáticos em desenvolvimento; e os países africanos podem desempenhar um papel crescente, no longo prazo, na exportação de matérias-primas e/ou biocombustíveis para Ásia, Europa e mercados norte-americanos. Custos estimados de produção de biocombustíveis apresentam diferenças significativas, dependendo de fatores como a escala da planta, complexidade tecnológica, e custos de matérias-primas. Não há muitos detalhes disponíveis sobre os custos de produção dos biocombustíveis avançados, em especial o etanol de segunda geração, pois tais informações geralmente são confidenciais e não há ainda experiência de grandes plantas em escala comercial de produção. Para o etanol de primeira geração, hoje, o fator principal de custo é a matéria-prima, que responde por 45% a 70% dos custos totais de produção, enquanto que, para o etanol celulósico, o principal fator de custo é o capital (35% a 50%), seguido por matérias-primas (25% a 40%) (IEA, 2009). A longo prazo, a redução da volatilidade de custos de matéria-prima será uma vantagem vital para o etanol celulósico. Fazendo uso de co-produtos tais como bagaço, lignina ou de resíduos pode-se reduzir os custos de produção de biocombustíveis em até 20%, dependendo do tipo de combustível e da utilização do co-produto. São assim traçados dois cenários para comparação da performance futura dos custos de produção dos biocombustíveis em face dos custos inerentes ao petróleo, entre 2010 e 2050. Tanto em um cenário de baixo custo como de alto custo para produção de bicombustíveis, o destaque é para o etanol de cana que apresenta a projeção de menor custo dentre os biocombustíveis no período de 2010 a 2050, ficando abaixo do custo de produção do petróleo já em torno de 2015. No tocante ao etanol celulósico, o comportamento de seu custo de produção varia de um cenário para o outro. Em um cenário de baixo custo de produção para biocombustíveis, o custo de produção do etanol celulósico tende a apresentar, já na atual década uma queda vertiginosa, caminhando para ficar abaixo do custo de produção do petróleo em cerca de 2030. Por outro lado, em um cenário de alto custo de produção de biocombustíveis, o custo de produção do etanol celulósico se mantém superior ao custo de produção do petróleo em todo o período até 2050. 5

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Os marcos mais importantes para as tecnologias de conversão do etanol celulósico são a demonstração de processos confiáveis e robustos nos próximos cinco anos, e alcançar produção em escala comercial nos próximos 10 anos. As questões-chaves, em termos de pesquisa e desenvolvimento para o etanol celulósico, são: melhoramentos de microorganismos e enzimas; uso de açúcares C5, tanto para fermentação como para melhoramento de co-produtos de valor e utilização da lignina como provedor de energia ou matéria-prima, agregando valor. No que concerne ao etanol de primeira geração, as tecnologias são relativamente maduras, mas poderiam ser ainda melhoradas, reduzindo impactos econômicos, ambientais e sociais. Melhorias na eficiência de conversão não só vão levar à maior economia, mas também aumentar a eficiência do uso da terra e do desempenho ambiental. Quanto às tecnologias de conversão, vale frisar que, Jong et al. (2010) enfatizaram a necessidade de ótima eficiência na conversão de biomassa, e o World Economic Forum – WEF (2010), por seu turno, ressaltou a necessidade de pesquisa e desenvolvimento em técnicas de conversão e processamento de matérias-primas de modo a alcançar a diversificação de seu fornecimento e uma maior eficiência de conversão, aumentando a escala e valor dos produtos, especialmente no caso das biorrefinarias. No tocante ao papel da indústria, frisou-se que, para o curto prazo, a mesma deve estabelecer plantas de etanol celulósico em escala comercial na atual década, assim como desenvolver conceitos para eficiente integração de processos dentro da abordagem de biorrefinaria, além de melhorar a flexibilidade dos processos para permitir o uso de uma ampla gama de matérias-primas, reduzindo a concorrência entre elas. No que tange ao requisito disponibilidade de matéria-prima, foi enfatizado que o Brasil planeja ampliar a área de cultivo da cana-de-açúcar em cerca de 50% do que é atualmente usado para a produção de biocombustíveis, principalmente, fazendo uso de áreas atualmente utilizadas em pastagem extensiva. Quanto a outras matérias-primas, as algas prometem uma produtividade potencial elevada por hectare, podendo ser cultivadas em terras não-aráveis, assim como utilizar uma grande variedade de fontes de água (Darzins et al., 2010). No entanto, o cultivo de algas e a extração do óleo ainda são atualmente caras. Para o etanol de primeira geração, os principais melhoramentos incluem novas enzimas mais eficientes, e melhor eficiência energética e de conversão, reduzindo os custos de produção. Melhorias de custo poderiam ser alcançadas através da maximização do valor agregado de soluções de co-produtos. Produção de biocombustíveis convencionais e/ou avançados em biorrefinarias poderiam promover o uso mais eficiente da biomassa e trazer benefícios ambientais e de custos associados. O etanol de segunda geração - atualmente em fase crítica do desenvolvimento de tecnologia -, precisa atingir escala comercial e ser amplamente implantado. Tal como acontece com os biocombustíveis convencionais, são necessárias melhorias na eficiência de conversão, assim como estratégias para reduzir as necessidades de capital, as quais devem incluir a integração das diferentes fases do processo ao longo da cadeia de abastecimento (ou seja, de matériasprimas de biomassa a biocombustíveis) para demonstrar o efetivo desempenho e confiabilidade do processo. Necessidades específicas de P&D terão de ser abordadas para provar a confiabilidade industrial, bem como o desempenho técnico e operacionalidade das rotas de conversão, a fim de alcançar processos de produção economicamente viáveis. Apoio científico detalhado, modelagem e monitoramento dos pontos acima mencionados são necessários para maximizar progresso e aprendizagem nas atuais atividades piloto e de demonstração.

4. Considerações Finais
Biocombustíveis convencionais, hoje, não são em geral competitivos em relação aos combustíveis fósseis a preços de mercado, apesar de a competitividade variar de acordo com os custos de matérias-primas e dos preços do petróleo, exceção particular para o etanol de cana que já tem um bom desempenho em termos econômicos. Por outro lado, as estratégias para o etanol de primeira geração diferem das relativas ao de segunda geração, que está em um estágio anterior do desenvolvimento da tecnologia e ainda sujeito a custos de produção comparativamente elevados. Para estimular os grandes investimentos necessários para as unidades de produção em escala comercial, medidas específicas de apoio são necessárias, que levem em conta os riscos financeiros associados com intensificação de processos inovadores e a insegurança dos mercados de produtos para os biocombustíveis avançados.

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Dadas as inúmeras e novas rotas de conversão que estão surgindo, juntamente com o conceito de biorrefinaria, tanto a América do Norte como a União Europeia têm prestado apoio financeiro às plantas de produção de biocombustíveis avançados. As subvenções e garantias de empréstimos reduzem os riscos de investimento e têm levado a um número considerável de usinas piloto e de demonstração operando ou sendo construídas atualmente. Evidencia-se assim que o apoio dos governos – através de parcerias público-privadas – se faz necessário para trazer essas tecnologias para operação plena. O estabelecimento de normas para mistura de biocombustíveis com combustíveis fósseis e as respectivas metas nelas definidas são uma medida adequada para conduzir à produção e ao uso de biocombustível. No entanto, precisam ser suficientemente ambiciosas para impulsionar a implantação de biocombustíveis, sem induzir à indesejada competição com alimentos. No que tange ao etanol de segunda geração, estas normas ainda não possuem força para a efetiva implementação das metas, principalmente em razão de seus custos elevados de produção. A harmonização dos sistemas de certificação internacional tende a ser cada vez mais importante, evitando a criação de incerteza entre produtores e consumidores, assim como evitando a criação de barreiras comerciais. A certificação tende a proporcionar um impulso para os biocombustíveis, mormente os avançados, como o etanol celulósico, pois deverá permitir a seu produtor o acesso a mercados mais amplos. A barreira não econômica fundamental para o desenvolvimento dos biocombustíveis, em particular o etanol, é a incerteza quanto à sua sustentabilidade. O debate, por vezes, sobre a concorrência com a produção de alimentos e a destruição potencial de valiosos ecossistemas pôs os biocombustíveis no centro da discussão sobre sustentabilidade. Desenvolvimento insuficiente de infraestrutura de biocombustíveis - incluindo o fornecimento de matérias-primas - pode formar uma barreira não econômica para a produção crescente de biocombustíveis. Nos países emergentes, em particular, a infraestrutura rural pobre podem formar uma barreira para a oferta de matéria-prima e transporte de combustíveis. Requisitos finais de infraestrutura precisam ser dirigidos para reduzir ou impedir os gargalos causados em razão da incompatibilidade com os biocombustíveis implantados. A limitação de etanol na gasolina de 10% a 15% por causa de restrições de compatibilidade de veículos - é um exemplo de gargalos potenciais que precisam ser abordados. Introdução de veículos flex-fuel (FFV) e as misturas com maior proporção de etanol são medidas adequadas para evitar problemas de incompatibilidade de infraestrutura para o etanol, como já foi demonstrado com sucesso no Brasil e na Suécia. Medidas políticas talvez se façam necessárias, tais como obrigações para que os varejistas forneçam misturas com nível mais elevado de biocombustíveis, assim como os incentivos fiscais para veículos FFV. No que se refere à Pesquisa e Desenvolvimento, nas últimas décadas muito se caminhou em relação ao etanol de primeira geração, atingindo-se a produção comercial e realização de melhorias tecnológicas. No tocante ao etanol de segunda geração, melhorias significativas também têm sido feitas no tocante às rotas de conversão, tais como a utilização de enzimas mais eficientes. Nos próximos 20 anos, os investimentos, em termos de biocombustíveis avançados, deverão se dividir entre P&D e plantas de demonstração, para que se assegure que cheguem à completa maturidade tecnológica. Vale ressaltar a necessidade de P&D ao longo de toda a cadeia de produção, focando o rendimento das matérias-primas, o manuseio e transporte da biomassa, tecnologias de conversão, bem como a utilização final. Ambos os roadmaps realçam a importância do conceito de biorrefinarias, integrando uma visão multiproduto, explorando diversas correntes e processos, onde os produtos energéticos figuram ao lado de produtos químicos (Bomtempo e Coutinho, 2011). Estes complexos podem, potencialmente, fazer uso de uma ampla gama de fontes de biomassa e possibilitar uma utilização mais eficiente dos recursos do que as atuais unidades de produção de biocombustíveis, reduzindo a concorrência entre os diferentes usos da biomassa, assim como os conflitos e competição por terra e matéria-prima (IEA, 2011). Vale frisar que o WEF (2010) mencionou que a indústria de biorrefinarias ainda encontra alguns desafios de ordem técnica, comercial e outros alusivos à sustentabilidade, ressaltando que, para vencê-los, são necessários: evolução tecnológica, desenvolvimento de cadeia de fornecimento de biomassa, direção de regulamentação e sustentabilidade ambiental. Assim sendo, a partir da análise de ambos os roteiros, verifica-se a convergência de pontos importantes como a necessidade de apoio dos governos à indústria do etanol, assim como foi observada a complementaridade entre outros aspectos enfocados. Ambos roadmaps tratam de barreiras e desafios para a implantação em larga escala, bem como da necessidade de redução de custos ao longo da cadeia de produção e da necessidade de as tecnologias de segunda geração atingirem o patamar de comercialização, sendo que o comportamento destes fatores e de outros dependerá, em suma, de cada cenário traçado. 7

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

5. Referências
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