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IBP1280_12 DEZ ANOS DE UNITIZAÇÕES NO BRASIL Daniel Dellamora Bonolo1, Mateus Passeri de Almeida2

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O conceito de unitização, conforme utilizado na indústria do petróleo, foi instituído no Brasil através do Art. 27 da Lei nº 9.478/97, também conhecida como Lei do Petróleo, e o primeiro processo foi iniciado em 2002. Nestes 10 anos foram iniciados e finalizados – aprovados pela ANP – quatro processos de unitização. Esses processos foram desenvolvidos em um ambiente de regulamentação em fase de amadurecimento, que só foi aprimorada em 2010. Este artigo trata das peculiaridades dos referidos processos, contextualizando o arcabouço regulatório e as dúvidas existentes à época. Abordamos também o cenário regulatório após 2010, apontando as principais melhorias feitas nesse sentido. Conclui-se que, apesar de fundamental, uma regulação aprimorada não é o único fator importante para o sucesso de acordos de individualização da produção, sendo necessário também o consenso entre as partes, o que tem sido incentivado pela ANP.

Abstract
The unitization concept, as used by the oil industry, was established in Brazil through Art 27 of the Law 9.478/97, also known as the Petroleum Law, and the first process was initiated in 2002. Within these 10 years, four processes were started and finalized – approved by ANP. These processes were developed in a maturing regulatory environment, which was improved in 2010. This article deals with the peculiarities of these processes, putting in context the regulatory framework and doubts at the time. We also verse about the regulatory scene after 2010, pointing out the main enhancements made. It is concluded that, although essential, an elaborated regulation is not the only important factor for the success of a unitization agreement, but also the agreement between parties, which has been encouraged by ANP.

1. Introdução
Desde 1997, quando foi quebrado o monopólio da Petrobras para exploração e produção de petróleo e gás natural no Brasil, até o fim de 2010, quando da promulgação da Lei nº 12.351, não havia na regulação grande detalhamento nas regras para unitização no Brasil. Os Contratos de Concessão progressivamente delinearam alguns pontos relevantes, não o suficiente para reduzir algumas incertezas, mas tiveram o mérito de permitir certa flexibilidade de negociação das partes envolvidas. O objetivo deste trabalho é contextualizar a primeira década de unitizações no Brasil, identificando algumas características dos Acordos de Individualização da Produção (AIPs) aprovados pela ANP, bem como as dificuldades de negociação envolvidas. Cabe destacar que, apesar das discussões nos trabalhos de Bucheb (2008) e Pereira (2008), os termos “unitização” e “individualização da produção” serão utilizados aqui como sinônimos, de acordo com o observado na prática. Também vale ressaltar que o enfoque da discussão é a unitização entre Concessões, apenas mencionando os demais regimes existentes no Brasil – Cessão Onerosa e Partilha da Produção. Serão abordados os processos aprovados pela ANP até 2011, resumidos na Tabela 1, quais sejam: Lorena com Pardal, Albacora com Albacora Leste (reservatório Caratinga), Mangangá com Nautilus e Camarupim com Camarupim Norte.

______________________________ 1 Engenheiro de Petróleo – Petróleo Brasileiro S.A. 2 Engenheiro de Produção – Petróleo Brasileiro S.A.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Outros casos em andamento serão apenas citados para exemplificar como a experiência adquirida pela ANP e pela indústria vem sendo incorporada. Tabela 1 – Resumo dos processos de individualização aprovados pela ANP até dezembro de 2011 Caso Lorena x Pardal Albacora x Albacora Leste Mangangá x Nautilus Camarupim x Camarupim Norte Bacia Potiguar (terra) Empresas Petrobras 100% x Potióleo 50%, UTC 50% Petrobras 100% x Petrobras 90%, Repsol 10% Petrobras 100% x Shell 50%, ONGC 15%, Petrobras 35% Petrobras 100% x Petrobras 65%, El Paso 35% Início*-Conclusão** 2002-2009 Operador Petrobras

Campos

2006-2007

Petrobras

Campos

2006-2008

Shell

Espírito Santo

2006-2009

Petrobras

*Notificação à ANP sobre a possível extensão para além dos limites da Concessão **Aprovação do AIP pela ANP

2. Regulamentação existente entre 1997 e 2010
Síntese da regulação acerca de individualização da produção existente antes da publicação da Lei nº 12.351, em dezembro de 2010. 2.1 Lei nº 9.478 Publicada em 6 de agosto de 1997, dispõe sobre a política energética nacional e as atividades relativas ao monopólio do petróleo. Explicitava em seu Art. 27 (vigente até dezembro de 2010) que, em caso de campos se estendendo por blocos vizinhos, com concessionários distintos, estes deveriam celebrar Acordo para a Individualização da Produção (AIP). O parágrafo único complementava que, não chegando as partes a acordo em prazo máximo fixado pela ANP, caberia a esta determinar, com base em laudo arbitral, como seriam apropriados os direitos e obrigações sobre os blocos. 2.2 Decreto nº 2.705/98 Define critérios para cálculo e cobrança das participações governamentais aplicáveis às atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural. Determina no Art. 13 que, no caso de individualização da produção, o AIP definirá a participação de cada concessionário com respeito ao pagamento dos royalties. Estipula no Art. 23 que nessas situações a apuração da participação especial (PE) tomará como base a receita líquida da produção (RLP) e o volume de produção fiscalizada integrais dos referidos campos, com o AIP definindo a participação de cada concessionário. 2.3 Portaria ANP nº 10 A Portaria ANP nº 10/99, de 13 de janeiro de 1999, que estabelece os procedimentos para a apuração da PE, reforça o entendimento trazido pelo Decreto 2.705/98, sem maiores detalhamentos. 2.4 Contratos de Concessão A Cláusula Décima Segunda dos primeiros Contratos de Concessão indica a suspensão das atividades de desenvolvimento e produção, até que haja acordo entre as partes para a assinatura de um AIP, ou se de outra forma forem explicitamente autorizadas pela ANP. Informa também que o conteúdo mínimo do AIP inclui: a) definição da área objeto do acordo, b) as participações de cada concessionário na jazida unificada; e c) o operador da jazida unificada. Em caso de área sem contrato, a ANP poderia agir como concessionário, podendo a qualquer momento licitá-la, ficando o novo concessionário obrigado a aderir a qualquer acordo já firmado. 2

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3. Primeiras dúvidas
Questões importantes surgiram durante as negociações das primeiras unitizações no Brasil, a partir de 2002. Alguns desses pontos foram esclarecidos com a Lei nº 12.351/2010, citada mais adiante. 3.1 Objeto do AIP Inicialmente não havia clareza quanto ao objeto da unitização: a jazida comum; um “novo bloco” coincidente em área com a jazida comum; ou um “novo bloco” que consistisse na incorporação das duas concessões. Os trabalhos de Pereira (2008) e Bucheb (2008) discorrem sobre o tema, concluindo que a única alternativa em acordo com a legislação seria considerar a jazida comum como o objeto do AIP. Esse entendimento foi confirmado pela Lei nº 12.351/2010, conforme item 5.3 abaixo. 3.2 Declaração de comercialidade Outro ponto que não fica claro na regulação é a questão da declaração de comercialidade. Porém, partindo do princípio de que um AIP é um contrato que regula as operações conjuntas entre duas ou mais Concessões, a interpretação em todos os casos aqui abordados foi de que seria necessário declarar individualmente a comercialidade de cada um dos campos (Figura 1). Esse entendimento, apesar de não formalizado, vem sendo acatado pela ANP. E reforça que seria mais apropriado se a redação do Art. 27 da Lei 9.478 contivesse o termo “jazidas” em vez de “campos”, mantendo assim a consonância com as definições no Art. 6º da mesma Lei (Bucheb, 2005). Caso contrário, não haveria unitizações, uma vez que os “campos” sempre estão contidos em uma área de Concessão, sem possibilidade de extensão.

Figura 1 – Representação esquemática da projeção em área dos campos fictícios ELS, oriundo da Concessão A, e FBN, oriundo da Concessão B 3.3 Critérios para definição de participações Wiggins e Libecap (1985) afirmam que a divisão da receita líquida é a questão central na negociação de uma unitização, e que não há padrão para resolver as diferenças entre as companhias no que diz respeito à transformação de dados brutos em estimativa de valor. Nesse sentido, entende-se que o critério mais justo para a determinação de participações em uma jazida unificada seria o Valor Presente Líquido (VPL). Ou seja, as companhias determinariam quanto do valor monetário do projeto viria de cada concessão, utilizando esse percentual para calcular a divisão de gastos e receitas. Porém, esse critério pode se tornar de difícil negociação, pois seria necessário um acordo entre as companhias a respeito de indicadores econômicos, como taxa de atratividade e preço futuro dos produtos, além da necessidade de considerar com maior nível de detalhamento a existência de heterogeneidades na jazida unificada, ou mesmo variações faciológicas de reservatório e de qualidade de petróleo na mesma jazida. No outro extremo, temos o uso da área superficial para definir as participações, como em alguns estados dos EUA (Libecap e Wiggins, 1985), o que na maior parte dos casos não é adequado devido, por exemplo, às naturais variações de espessura de reservatório. O volume de hidrocarbonetos recuperável (VOR para óleo, VGR para gás ou VER para volume equivalente) parece ser um critério razoavelmente justo, e que pode ser calculado tecnicamente pelas empresas. O problema é que, para um processo mais célere, dificilmente haverá dados disponíveis suficientes, como permeabilidade, porosidade, fator de recuperação, saturação de hidrocarbonetos e net pay, para determiná-lo adequadamente. De fato, além das características de reservatório citadas, a própria malha de drenagem a ser utilizada influenciará o volume recuperável de cada segmento de uma jazida, demandando um estudo conjunto bastante demorado para o projeto de desenvolvimento, o que muitas vezes não atende ao interesse das partes envolvidas, incluindo aí os prazos contratuais. Além disso, qualquer alteração nos modelos considerados modificará as participações dos concessionários, levando a novas perspectivas de produção e 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 investimentos de cada um, o que poderá acarretar nova revisão do projeto. Portanto, é necessário estabelecer um limite para que essas revisões não ocorram indefinidamente. Outros critérios que podem ser utilizados, em ordem crescente de equidade, custos incorridos, informações necessárias e tempo estimado para acordo, são o volume total de rocha, o volume de rocha porosa e o volume original de hidrocarbonetos in place (VOIP ou VGIP). 3.4 Incidência de PE em campos com mais de uma jazida Uma vez mais, substituindo o termo “campos” por “jazidas” no Decreto nº 2.705/98, é válido concluir que, no caso de individualização da produção, a PE incidirá sobre a jazida como um todo e não sobre cada campo (Figura 2).

Figura 2 – Jazida unificada entre os campos de ELS e FBN Ainda assim, mantém-se a indefinição em relação à base de cálculo para apuração da PE em campos com mais de uma jazida, onde nem todas são passíveis de unitização. A Figura 3 destaca as jazidas para a discussão da questão:

Figura 3 – Destaques das acumulações em campos com mais de uma jazida produtora 4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Alternativa I: De acordo com a interpretação anotada acima, o cálculo para verificar a incidência da PE seria com base na jazida unificada J1, destacada na Figura 3a. Os demais reservatórios produtores seriam tratados separadamente, em cada campo, podendo pagar PE ou não de acordo com a Portaria ANP nº 10/99. Alternativa II: Por outro lado, uma leitura textual do Decreto nº 2.705 pode levar à conclusão de que a PE incidiria sobre a RLP e a soma dos volumes de produção do campo, incluindo a jazida unificada J1 e as respectivas jazidas não unificadas J2 e J3, destacadas na Figura 3b acima. Desse modo, o cálculo para a incidência da PE seria efetuado sobre cada Concessão em separado, e a jazida unificada deveria ser proporcionalmente alocada a cada um dos campos, conforme a Figura 3c. Ou seja, o volume total da Concessão A seria a soma de J1A com J2, e o volume total da Concessão B seria a soma de J1B com J3. Alternativa III: Outra possibilidade seria a incidência sobre o total das três jazidas (J1 + J2 + J3), mas consideramos que essa alternativa é bastante questionável técnica e juridicamente. O raciocínio desenvolvido neste item 3.4 continua válido no caso de as jazidas J2 e J3 serem mais rasas ou mais profundas do que a jazida unificada J1. 3.5 Plano de Desenvolvimento (PD) De acordo com a Cláusula Nona dos Contratos de Concessão, o concessionário deve apresentar um Plano de Desenvolvimento em até 180 dias após a declaração de comercialidade de um campo. A exceção fica exatamente por conta de jazidas que possam extrapolar os limites da concessão, mas não há qualquer menção a definição de prazo nessas situações. Ora, não seria razoável que cada concessionário apresentasse um PD para o seu campo, ignorando a necessidade de acordo para a unitização. Portanto, pode-se considerar que a submissão à ANP de um AIP assinado pelas partes representa que houve o consenso, iniciando assim o prazo de 180 dias para apresentação do PD referente à jazida unificada. Esse entendimento em relação ao prazo foi proposto em alguns casos, tendo sido aceito pela ANP. Porém, assim como no caso da PE, em situações de campos com jazidas unificadas e jazidas não unificadas, ainda não havia definição quanto à necessidade de um PD específico para o objeto da unitização, ou se um documento conjunto atenderia ao regulador. Os termos da Lei nº 12.351/2010 trouxeram solução a esta questão, conforme descrito no item 5.3 abaixo. 3.6 Unitização com a União Segundo os Contratos de Concessão, em caso de áreas sem contrato, a ANP poderia agir como concessionário. Mas o que significaria “agir como concessionário”? De acordo com a natureza e as atribuições da Agência, esta não deveria assumir riscos, fazer investimentos ou receber a parcela da União na produção. Esse tema é abordado na Lei nº 12.351/2010, mas carece de regulamentação. 3.7 Redeterminações A redeterminação das participações não aparecia na regulação. Porém, em se tratando de uma prática internacional, além de ser um mecanismo que permite agilizar as negociações para o acordo inicial (Pedroso e Abdounur, 2008), os mecanismos de redeterminação foram incorporados nos AIPs aprovados pela ANP. Tal incorporação é importante na medida em que as consequências de uma redeterminação podem incluir a modificação nas participações de cada parte na jazida unificada e eventualmente compensações relativas aos custos e produção já incorridos, o que implica em necessidade de aprovação do regulador.

4. Os processos
Detalhamento das quatro unitizações aprovadas até dezembro de 2011, todas com a participação da Petrobras, e que contaram com o envolvimento de mais seis companhias. As quatro utilizaram, como critério para determinação de participações, o volume original in place. É importante frisar que nestes processos a ANP agiu de maneira construtiva e cooperativa com os concessionários envolvidos, no sentido de buscar soluções para algumas questões não previstas na regulação. 4.1 Lorena com Pardal Em 2002, a ANP determinou a suspensão da produção do poço 3-LOR-41-RN, do Campo de Lorena (Rodada Zero, produzindo desde 1985), após a identificação de que aquela jazida extrapolava os limites da área de Concessão. A área vizinha, livre àquele momento, foi ofertada na 4ª Rodada sob a identificação BT-POT-10, tendo sido adquirida pela companhia Dover Investments Ltda./Potióleo. Foi o início do primeiro caso de unitização no Brasil. As negociações se estenderam, por diversos motivos, ao longo de sete anos. Dentro desse período a Potióleo declarou a comercialidade do Campo de Pardal. Em maio de 2009, os concessionários submeteram o AIP à ANP, que o 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 aprovou em dezembro de 2009. Posteriormente, em maio de 2010, a Potióleo cedeu 50% de participação em Pardal para a UTC Engenharia. As participações acordadas ficaram: 73,9% em Lorena, 26,1% em Pardal. Operação pela Petrobras. Surgiu então outra questão sem definição clara na regulação: como tratar situações em que os campos possuem diferentes compromissos mínimos de Conteúdo Local (CL). Lorena não tem compromisso mínimo de CL; Pardal tem compromisso mínimo de 70% de CL na fase de desenvolvimento da produção. A solução encontrada pelas partes interessadas – empresas e ANP – foi uma ponderação pelos volumes percentuais, resultando em um compromisso mínimo de CL igual a 18,27% (26,1% x 70%) para o desenvolvimento da jazida em questão, com utilização do regramento do contrato da 4ª rodada. Em 2012, a Petrobras adquiriu a totalidade do Campo de Pardal junto à Potióleo e à UTC, cessão que foi aprovada pela Diretoria da ANP em 26 de abril. Portanto, quando da finalização deste trabalho, estava se iniciando o primeiro distrato de um AIP no Brasil. 4.2 Albacora com Albacora Leste O Campo de Albacora Leste (Rodada Zero, produzindo desde 1998) tem como concessionário o consórcio Petrobras 90% (operadora) e Repsol-Sinopec 10%. Após a perfuração, em 2006, de um poço de desenvolvimento, identificou-se que um reservatório – Arenito Caratinga – se estendia para a Concessão vizinha, Albacora, ocorrendo a notificação à ANP. A submissão do AIP ocorreu em maio de 2007 e a sua aprovação em dezembro do mesmo ano. Portanto, todo o processo teve duração de pouco mais de um ano. Esta discrepância entre os tempos de duração dos dois primeiros processos acima se explica principalmente porque, no primeiro, havia grande desconhecimento do processo por todas as partes envolvidas, aliado às lacunas regulatórias existentes. Além disso, algumas das dificuldades apontadas por Pedroso e Abdounur (2008), notadamente as diferenças de porte, estratégia e informação das companhias envolvidas, foram observadas. De maneira oposta, no segundo caso, ambas as concessões tinham o mesmo operador, com a experiência adquirida em unitização e com uma visão regional bastante completa, o que contribuiu para a agilidade do acordo. O AIP referente ao Arenito Caratinga indicava operação da Petrobras e as seguintes participações: 87% em Albacora Leste, 13% em Albacora. O documento previa o início de uma redeterminação um ano após a aprovação da individualização pela ANP. Assim, após certo período de análises técnicas e cálculo das novas participações, protocolouse um aditivo ao AIP, em primeira versão, no fim de 2009. A nova distribuição da jazida foi aprovada pela ANP em abril de 2012: 80% em Albacora Leste, 20% em Albacora, marcando o primeiro processo de redeterminação efetuado em um AIP vigente no país. Importante frisar que o Arenito Caratinga é apenas uma das jazidas produtoras dos referidos campos e sua produção corresponde a aproximadamente 8% da produção total de Albacora e Albacora Leste (de acordo com o Boletim de Produção ANP – março de 2012). 4.3 Mangangá com Nautilus O terceiro caso abordado é Nautilus (Shell operadora com 50%, Petrobras 35%, ONGC 15%) com Mangangá (Petrobras 100%). Pela primeira vez, houve um processo envolvendo duas áreas declaradas comerciais operadas por companhias distintas. Uma vez identificada a extensão de acumulações entre as duas Concessões, em 2006, as empresas notificaram a ANP e passaram a elaborar em conjunto um Plano de Desenvolvimento, de acordo com as melhores práticas da indústria do petróleo. Dado o conceito de desenvolvimento da jazida unificada para infraestrutura existente no chamado “Parque das Conchas”, a Shell foi escolhida como operadora da área. Esse resultado mostra que nem sempre a companhia detentora de maior participação na jazida unificada será a operadora, pois essa seleção pode ser influenciada por outros fatores – no caso, a disponibilidade de infraestrutura. O AIP submetido em junho de 2008 foi aprovado pela ANP em outubro do mesmo ano, cobrindo três jazidas distintas e com as participações: 50% em Mangangá, 50% em Nautilus. 4.4 Camarupim com Camarupim Norte Na individualização de Camarupim (Petrobras 100%) com Camarupim Norte (Petrobras operadora com 65%, El Paso 35%), assim como em Albacora com Albacora Leste, o processo foi facilitado pela presença de um mesmo operador em ambas as concessões. O estudo conjunto para elaboração do PD levou à declaração de comercialidade de Camarupim Norte no fim de 2008. Camarupim já havia sido declarado comercial em 2006, ano em que também ocorreu a notificação à ANP sobre a possibilidade de extensão do reservatório. O consenso levou às participações de 30,5% em Camarupim e 69,5% em Camarupim Norte. O protocolo do AIP deu-se em março de 2009 e a aprovação pela ANP em junho. Assim como em Lorena com Pardal, havia diferença no 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 compromisso mínimo de CL, sendo zero de Camarupim e 30% de Camarupim Norte. Uma vez mais ficou acordado um valor ponderado, resultando em 20,85% (69,5% x 30%). A área unitizada Camarupim-Camarupim Norte encontra-se em produção desde 2009.

5. Regulamentação a partir de 2010
A crescente demanda à Agência e a necessidade de melhor regular os casos de unitização levaram a Diretoria da ANP a criar, em março de 2008 (RD 211/2008), um grupo de trabalho multidisciplinar objetivando a definição de parâmetros para orientação da elaboração do AIP. Apesar dos resultados deste GT não terem sido divulgados oficialmente, certamente contribuíram para os esclarecimentos que vieram com o regramento publicado em 2010. 5.1 Lei 12.276 - Cessão Onerosa Publicada em 30 de junho, autoriza a União a ceder onerosamente à Petrobras o exercício das atividades de pesquisa e lavra de petróleo, de gás natural e de outros hidrocarbonetos fluidos em seis blocos, mais um contingente, até a produção acumulada total equivalente de 5 bilhões de barris de óleo. Determina, no Art. 7º, que caberá à ANP regular e fiscalizar as atividades a serem realizadas pela Petrobras com base nesta Lei, e os termos dos acordos de individualização da produção a serem assinados entre a Petrobras e os concessionários de blocos localizados na área do pré-sal. 5.2 Lei nº 12.304 - Criação da PPSA Publicada em 2 de agosto, autoriza o Poder Executivo a criar a empresa pública denominada Empresa Brasileira de Administração de Petróleo e Gás Natural S.A. - Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA). No Art. 4º, informa que compete à PPSA representar a União nos procedimentos de individualização da produção e nos acordos decorrentes, nos casos em que as jazidas da área do pré-sal e das áreas estratégicas se estendam por áreas não concedidas ou não contratadas sob o regime de partilha da produção. 5.3 Lei nº 12.351 Publicada em 22 de dezembro, estabeleceu o regime de Partilha da Produção. Também discorre sobre outros temas, inclusive sobre unitização, independente do regime, preenchendo diversas lacunas: Objeto dos acordos de unitização: jazida. Conteúdo mínimo do AIP: 1) participação de cada uma das partes na jazida unificada, bem como as hipóteses e os critérios de sua revisão; 2) operador da respectiva jazida; 3) Plano de Desenvolvimento da área objeto de individualização da produção; e 4) mecanismos de solução de controvérsias. Individualização com áreas não contratadas: a União será representada pela PPSA onde for vigente o regime de Partilha da Produção e pela ANP nas demais áreas; enquanto a PPSA não for criada, a ANP será a representante da União também para as áreas onde for vigente o regime de Partilha. Prazo para celebração do AIP: a ANP determinará o prazo para que os interessados celebrem o AIP; transcorrido o prazo e não havendo acordo, caberá à ANP determinar, em até 120 (cento e vinte) dias e com base em laudo técnico, a forma como serão apropriados os direitos e as obrigações sobre a jazida; a recusa de uma das partes em firmar o AIP implicará em resolução de contrato.

6. Dúvidas para o futuro
Enumeramos alguns assuntos que poderão suscitar novas discussões no futuro, sem, no entanto, discorrer sobre os temas. 6.1 Cessão Onerosa Nos casos de unitização envolvendo a Cessão Onerosa, cujo contrato é limitado em cada bloco a um volume produzido acumulado, o critério de VOIP (ou VGIP) não parece ser o mais adequado. Para esses processos, é razoável que seja adotado o critério de volume recuperável (VOR ou VGR). 6.2 Partilha da Produção e fiscalização da PPSA Ainda não estão definidos os mecanismos que serão utilizados pela PPSA para fiscalizar a apuração do óleo custo em contratos de partilha da produção. É plausível que sejam aproveitadas algumas das ferramentas empregadas para o cálculo da PE, como a RLP, por exemplo. Nesse sentido, é importante uma rápida definição de como serão tratados os campos com mais de uma jazida, tendo parte delas passível de unitização. 7

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7. Considerações finais
Libecap e Wiggins (1985) afirmam que, se o consenso não puder ser atingido de forma privada, não há garantia de que nova regulação facilitará o acordo, pois haverá oposição às políticas regulatórias que enfraqueçam o poder da negociação. Observa-se ainda que a Diretoria da ANP tem aprovado a continuidade de atividades e operações de desenvolvimento e produção em campos passíveis de unitização, como nos casos de Lula (Resolução de Diretoria 277/2011) e Pinaúna (Resolução de Diretoria 660/2011).

8. Conclusões
A experiência mostra que o Brasil está atingindo a maturidade no que diz respeito a processos de individualização da produção, uma vez que a ANP tem preferido estimular o acordo entre as companhias envolvidas em processos de unitização, ao invés de impor unilateralmente critérios, participações e prazos. Isso permite que a indústria e a Agência venham atuando juntos no sentido de eliminar as indefinições, sem cercear os entendimentos particulares. Adicionalmente, ao permitir a continuidade de certas operações durante as negociações de unitização, a ANP assume uma postura que traz outros benefícios, como a possibilidade de um estudo mais refinado do reservatório pelas companhias, resultando na otimização da produção do mesmo. Isso se caracteriza como uma boa prática de negócio, incentivando a indústria.

9. Agradecimentos
Os autores agradecem à Petrobras pela permissão para publicação deste trabalho. As sugestões e conclusões apresentadas neste trabalho são resultado da experiência pessoal dos autores na condução de negociações de unitização e não refletem necessariamente a posição da Petrobras sobre o assunto.

10. Referências
BUCHEB, J. A. A Regulamentação das Atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural no Brasil. Tese de Doutorado, UERJ, Rio de Janeiro, 2005. BUCHEB, J. A. Unitização no Brasil - Questões Controversas. Rio Oil & Gas Expo and Conference, Rio de Janeiro, Brasil: IBP, set., 2008. LIBECAP, G. D., WIGGINS, S. N. The Influence of Private Contractual Failure on Regulation: The Case of Oil Field Unitization. The Journal of Political Economy, Vol. 93, n. 4, p. 690-714, 1985. PEDROSO, D. C., ABDOUNUR, E. R. Aspectos da Negociação de Acordos de Individualização da Produção no Brasil. Rio Oil & Gas Expo and Conference, Rio de Janeiro, Brasil: IBP, set., 2008. PEREIRA, T. Z. O Objeto do Acordo de Unitização no Sistema Jurídico Brasileiro. Rio Oil & Gás Expo and Conference, Rio de Janeiro, Brasil: IBP, set., 2008. WIGGINS, S. N., LIBECAP, G. D. Oil Field Unitization: Contractual Failure in the Presence of Imperfect Information. The American Economic Review, Vol. 75, n. 3, p. 368-385, 1985. VAZQUEZ, F. A., SILVA, M. E., BONE, R.B. A regulação no Processo de Unitização na Exploração de Petróleo e Gás Natural no Brasil. Rio Oil & Gas Expo and Conference, Rio de Janeiro, Brasil: IBP, set., 2008. ARAÚJO, G. C., A Regulação da Unitização no Mundo e os Primeiros Acordos no Brasil. Rio Oil & Gas Expo and Conference, Rio de Janeiro, Brasil: IBP, set., 2010 ARAÚJO, G. C. Coordenação, Contratos e Reguação: um Estudo Teórico e Empírico Acerca dos Acordos de Unitização. Tese de Mestrado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2009. SIMONI, J. CoordenaçãoUnificação de Operações em Campos de Petróleo e Gás Natural (Unitização) no Brasil e Direitos Correlatos. Tese de Mestrado, UNIFACS, Salvador, 2006

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