IBP1291_12 RESGATE DE ORIGENS DE COMUNIDADES, QUILOMBOLAS NO NORDESTE BRASILEIRO, Mario Duarte Costa Filho1, Pitágoras José Bourscheid 2, Ivana

Ferreira Lermen3 , Valdinéia Sacramento de Jesus4, Orlando Almeida dos Santos5

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Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
Para o licenciamento da construção do gasoduto da Petrobras que liga Pilar em Alagoas a Ipojuca em Pernambuco, o órgão licenciador, IBAMA, colocou como condicionante a realização de um Programa de Comunicação Social e um Programa de Educação Ambiental que levassem em consideração os aspectos culturais da comunidade remanescente de quilombo, Engenho Siqueira. Quando veio à demanda das lideranças de Engenho Siqueira de realizarmos um resgate cultural que permitisse a eles conhecer a história do quilombo, a Petrobras contratou o trabalho que foi executado por dois historiadores doutores – Valdinéia Sacramento de Jesus e Orlando Santos – que fizeram pesquisa em livros, bibliotecas, registros público, jornais etc. A comunidade foi ouvida, contando suas memórias e crenças religiosas. Dessa forma a metodologia de pesquisa utilizada foi qualitativa, através de realização de grupo focal com moradores mais velhos da região, para coletar informações da história da comunidade contada pelos antepassados. Além de pesquisa quantitativa de dados secundários através de coleta de informações em arquivos públicos de Recife, Palmares e Rio Formoso, municípios de Pernambuco. Assim como coleta de dados iconográficos (fotos, certidões, cartas, receitas de remédios, mapas etc.) na comunidade para fortalecer a história cultural da localidade e compor a identidade visual do material elaborado. Alguns dos mais velhos habitantes tiveram bisavós que foram escravos. Levantados, também, dados físicos da região como rio, terras, etc. O trabalho, que consiste em um relatório de cem páginas, com o resultado das pesquisas, seria entregue na forma de caderno, mas, pela sua importância e qualidade, um documento histórico, tomou-se a decisão de apresentá-lo em forma de livro, titulado “Negras Memórias Da Comunidade Do Engenho Siqueira, Rio Formoso, Pernambuco”, contendo textos, fotos e mapas, para ser entregue aos diversos atores sociais envolvidos com a história e desenvolvimento da comunidade.

Abstract
As a condition for the license to the construction of a gas pipeline from Pilar/AL – Ipojuca/PE, the brazilian environmental authority – Ibama – imposed two programs: social communication and environmental education, following the cultural aspects of the quilombola community of Engenho Siqueira (sugar mill) of Rio Formoso, State of Pernambuco, northeast Brazil. The community asked for theirs “history” as afrobrazilian, descendent of a quilombo. Mocambo or quilombo is a brazilian name for the communities of scaped or freed slaves. Palenque, in Colombia, and Cuba, Cumbe, in Venezuela, Marron, in Hiaiti, Jamaica, Suriname, southern USA and french caribean islands, are names in America for our quilombo. This paper intends to describe he work developed to produce the results of the search in the quilombola community of Engenho Siqueira. The main “product” of the work was to give back to the people the proud of being quilombolas.

______________________________ 1 Civil Engineer and Safety Engineer, Sectorial Manager at LAQSMS – Petrobras, 2 Senior Maintenance Technician – Petrobras 3 Social Communicator Qualified in Public Relations, Specialized in Social Responsibility – Telsan Engenharia 4 Historian Dr. 5 Historian Dr.

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1. Introdução
Esta pesquisa tem como objetivo fazer uma análise sociohistórica sobre a comunidade remanescente de quilombo de Engenho Siqueira. Recorreu-se a uma análise de conteúdo a partir de narrativas extraídas através de entrevistas semiestruturadas e cruzamento de dados primários e bibliográficos. Esse procedimento teórico e metodológico permitiu que adentrássemos no imaginário social da comunidade trazendo à baila questões sobre sua origem, a memória sobre escravidão, trabalho e emergência política quilombola. A comunidade quilombola de Engenho Siqueira está situada na zona rural, em Rio Formoso, no Estado de Pernambuco. O município insere-se no território identitário da Microrregião da Mata Meridional. Encontra-se a 90 km de distância de Recife, sendo que as vias de acesso são a BR-101 e a PE-060. A população está estimada em 21.299 habitantes, dos quais 59,8% estão na zona rural, estabelecidos em propriedades resultantes de Reforma Agrária, a exemplo dos assentamentos e aquelas denominadas de engenho. A comunidade de Siqueira foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo, em 12 de julho de 2005, sob matrícula 2611903, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Essa certificação tem provocado no interior do grupo uma série de transformações em torno de sua imagem e projeção, tais como processo de autoidentificação, produção de limites e fronteiras, de novas redes de relações, a emergência de novos sujeitos políticos assim como da produção de uma memória. Memória aqui entendida como: [..] “um conjunto de elementos estruturados que aparecem como recordações, socialmente partilhados, de que dispunha uma comunidade, sobre sua própria trajetória no tempo, construídas de modo a incluir não só aspectos selecionados, reinterpretados e até inventados dessa trajetória como, também, uma apreciação moral ou juízo de valor sobre ela.” (CARDOSO, 2005, 17) A comunidade aqui pesquisada é formada por 320 pessoas distribuídas em 90 unidades familiares, dentre as quais predominam o tronco familiar dos Ferreira e de Paula. Estes se autoatribuem como quilombolas de “Demanda” e mantêm posse da terra por conta da reforma agrária feita nas propriedades do Complexo da Usina Cucaú. Como é característica de um quilombo, a comunidade de Siqueira, vive da agricultura e do extrativismo, estabelecendo com os recursos naturais uma relação perpassada pela ancestralidade, conforme pode ser verificado no relato de um residente, o senhor Josias Félix de Honorato: “Meus pais me ensinaram a lidar com a terra. A terra é tudo para mim. A terra é mina de ouro. E isso significa ser quilombola. É da terra que sai toda a riqueza”. Observamos a importância ecológica do local, com a presença de mata atlântica, manguezais e coqueirais e algumas nascentes de rios. Esses recursos naturais vêm sofrendo uma série de problemas envolvendo desmatamento, contaminação do solo e dos mangues pela utilização de agrotóxico, o que tem causado muitas limitações nas condições materiais de existência da comunidade. Sendo assim, autoatribuição enquanto quilombolas tem se tornado um marcador diacrítico¹1 para se reivindicar junto ao Governo Federal políticas públicas direcionadas a esse setor do município de Rio Formoso. Enquanto quilombolas e sujeitos de direitos, os Siqueira de Demanda vêm enfrentando e rompendo preconceitos, ganhando visibilidade local e recuperando através da memória, sua história, sua origem. É por esse viés que a presente pesquisa pretendeu transitar. Para efeito desta pesquisa, o livro “Negras Memórias da Comunidade do Engenho Siqueira” foi dividido em 5 partes. No primeiro capítulo intitulado “Dos Quilombos Históricos aos remanescentes de quilombos” apresentaremos as principais linhas de argumentos que nortearam os estudos sobre quilombos no período escravista. Nesse sentido, lançamos mão de uma bibliografia disponível sobre o tema. Também tratamos de abordar os aspectos teóricos, metodológicos e jurídicos que implicaram no processo de redefinição conceitual dos “remanescentes de quilombos” existentes de norte a sul do Brasil. Em seguida evidenciamos aspectos mais gerais relacionados às comunidades rurais negras do Estado de Pernambuco frente ao processo de reconhecimento enquanto quilombolas. Em “Rio Formoso: Aspectos históricos, econômicos, sociais e geográficos”, procurou-se contextualizar historicamente o município de Rio Formoso, de um modo geral, e o território de Engenho Siqueira no âmbito municipal. No capítulo intitulado “A caminho do Engenho Siqueira” ressaltamos os procedimentos teóricos e metodológicos que fizeram parte da construção do objeto de pesquisa. Em “Origens da comunidade e memórias da escravidão” fizemos uma incursão na memória coletiva da comunidade tendo como base os depoimentos dos entrevistados. Por último, “Experiência, Saberes e Práticas” analisa práticas cotidianas dos moradores de Siqueira ligadas à culinária, medicina natural e recreação. Na seqüência o livro é encerrado com as conclusões. O componente étnico conjugado à condição camponesa confere à comunidade quilombola de Engenho Siqueira especificidades sociais e históricas que a distingue dos demais grupos que formam o Município de Rio Formoso. 2
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2. Metodologia
Foi realizada pesquisa em Recife e Rio Formoso (Engenho Siqueira), em que é apresentado, analisado e interpretado dados etnográficos obtidos no decorrer do trabalho de campo. Começamos por descrever os procedimentos metodológicos adotados durante a elaboração da investigação, seguida de uma descrição do campo empírico onde foi desenvolvido o estudo. Posteriormente, apresentamos breves perfis biográficos e a discussão das temáticas colhidas mediante entrevistas. A experiência de trabalho de campo constituiu parte integrante da construção do objeto de investigação e, portanto, também parte do trabalho teórico e analítico sobre a realidade histórico-cultural e social por nós estudada. A pesquisa de campo foi realizada em agosto de 2010. Durante este período, realizamos numa primeira fase, um levantamento de fontes primárias nos arquivos do município, bibliotecas e instituições de pesquisa na Cidade do Recife. Esta pesquisa documental privilegiou os documentos públicos, dentre eles, jornais, revistas, periódicos portadores de informações atinentes ao histórico do Estado de Pernambuco, das cidades do Recife e Rio Formoso. Esta recolha foi efetuada junto ao Arquivo Público de Pernambuco e à Biblioteca da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE. Em uma segunda fase, nos deslocamos para a Cidade de Rio Formoso, onde junto à comunidade Remanescente Quilombola de Engenho Siqueira foram realizadas observações e realizadas 10 (dez) entrevistas com membros do grupo. Relativamente, a escolha da entrevista e observação, como técnicas de pesquisa, advêm do fato de as considerarmos capazes de nos garantir uma amplitude na descrição e compreensão do objeto de estudo. No caso da entrevista, partindo do pressuposto segundo o qual ela é tanto mais proveitosa quanto os discursos, são para os entrevistados, um meio privilegiado de dar um sentido às suas experiências, uma ocasião de formularem, graças às palavras, os modos pelos quais atribuem um significado respeitante ao que viveram (SCHNAPPER, 2000, p.89). Por outro, a sua qualidade de adaptabilidade, uma vez que, através dela, podemos explorar determinadas idéias, testar respostas, investigar motivos e documentos, contribuíram de igual modo na sua escolha como instrumento privilegiado do estudo. As entrevistas foram conduzidas com base numa grelha de temáticas pré-estabelecidas. A partir dessas, foram sendo formuladas as questões para as entrevistas, enquanto que as outras que foram surgindo ao longo da pesquisa serviram para repensar e readaptar as temáticas inseridas na grelha. O que resultou numa estrutura flexível de modo a garantir que todos os tópicos considerados cruciais fossem abordados, possibilitando, desse modo, uma margem considerável de movimentos aos entrevistados. Ao realizar as entrevistas buscamos garantir a participação voluntária dos entrevistados. As entrevistas foram na sua maior parte realizadas na residência dos nossos interlocutores (7), uma (1) na escola da comunidade e as (2) restantes em Rio Formoso. Para o primeiro caso, foi necessário apelar para o apoio de representantes da Associação, no sentido de estabelecer os primeiros contatos, o que resultou num clima de confiança que permitisse ter acesso às residências destas, ou retornar e localizá-las num dia posterior. No caso das entrevistas, estamos atentos ao fato delas não restituírem o “vivido”, mas antes permitir a recolha que faz do relato construído e reconstruído pelos entrevistados. Este relato propõe uma reconstrução intelectual de um momento do passado, inevitavelmente orientado pela presença do entrevistador, pelo trabalho de memória e pela significação que a evolução do presente dá ao passado [...], ou seja, em nenhum dos casos ela, qualquer que seja a sua qualidade, traz, por si mesma, a verdade sociológica que o pesquisador procura. Ademais, nenhum método permite, por definição, recuperar o próprio “vivido” (SCHNAPPER, 2000, p.89), portanto, não é a meta do presente estudo. Com o objetivo de garantir a captação das falas das entrevistadas, procedemos à gravação sonora das entrevistas. As transcrições foram efetuadas em consonância com a realização das entrevistas. Outro recurso de pesquisa utilizado foi a fotografia. A sua utilização teve por objetivo ilustrar o universo em estudo. A fotografia, como ferramenta de pesquisa, ajudou-nos a lembrar e verificar detalhes que poderiam ser descurados (sic) se uma imagem fotográfica não estivesse disponível para refleti-los (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p.189). Nesse sentido, a fotografia serviu também para ilustrar algumas cenas do cotidiano dos nossos interlocutores bem como da comunidade.

3. Conceito de Quilombo e Histórico da Região Pesquisada
3.1. Conceituação de Comunidades Remanescente de Quilombos O fenômeno da fuga de escravos que resultava na formação de comunidades tem constituído objeto de estudo de várias áreas do conhecimento. Há algum tempo, antropólogos, sociólogos e historiadores, cada qual com perspectivas e suportes teórico-metodológicos distintos, vêm promovendo discussões e reflexões sobre a presença de comunidades de fugitivos na América durante a vigência da escravidão. Com diferentes nomes – quilombos ou mocambos, no Brasil; palenques, na Colômbia e em Cuba; cumbes, na Venezuela; marrons, no Haiti, Jamaica, Suriname, sul dos Estados Unidos 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 e nas ilhas do Caribe francês; grupos ou comunidades de cimarrones, em diversas partes da América espanhola – esse tipo de resistência escrava marcou a sociedade escravista pelo seu grau de complexidade e extensão. O termo quilombo é bastante flexível e pode designar diferentes situações. Para se ter uma idéia, foi a partir da notável experiência de Palmares, a maior área quilombola das Américas dentre as experiências escravas de que se tem notícia, que o conceito passou a significar uma aglomeração de escravos fugitivos reunidos num determinado local ermo e com táticas de defesa²2. Em termos semânticos, segundo Kabengele Munanga (1995/1996, p. 53-63), o vocábulo quilombo/mocambo deriva da maioria das línguas de origem bantu da África Central e Centro-Ocidental e, além de significar acampamento, pode também indicar um ritual de iniciação dentre os guerreiros imbangalas, que atuavam em territórios da atual Angola. Em terras americanas, pode ainda ser definido como uma instituição transcultural que adquiriu contribuições de diferentes culturas africanas. Para João Reis (2005, p.6), abolida a escravidão, o termo quilombo ou mucambo passou a indicar lugares onde viviam negros, as palhoças e habitações populares, e se generalizou como sinônimo de favela nordestina. Esta afirmação é corroborada por Gilberto Freyre em sua obra Sobrados e Mucambos³,3 Foi a palhoça indígena influenciada depois pelo mucambo de origem africana. Pode-se mesmo associar principalmente ao africano, sobretudo ao mucambeiro, ao quilombola, ao negro de Palmares, ao escravo fugido para os matos, o uso da palha de coqueiro. Depois tão utilizada na construção da palhoça rural, de praia e mesmo de cidade, no Norte, quanto em larga zona da mesma região, as palmas de carnaúba (FREYRE, 2004, p. 298). 3.2. Município de Rio Formoso Rio Formoso foi elevado à categoria de vila, em 20 de maio de 1833, pelo ato do Conselho do Governo. Passou à condição de Freguesia depois que se desvencilhou das freguesias de Sirinhaém e Una, pela Lei Provincial nº 85, em 4 de maio de 1840 e, sua sede só foi elevada à condição de cidade, pela Lei Provincial 258, em 11 de junho de 1850. Ainda no século XIX, a Comarca de 2ª entrância compreendia os termos do Rio Formoso e Sirinhaém, freguesias do Rio Formoso, Una e Sirinhaém. Neste período, o território possuía 35 engenhos de açúcar funcionando a todo vapor. Conhecido pelo seu destemor, o município foi palco de várias lutas, dentre elas estão registrados os combates no período de ocupação holandesa, na Batalha do Reduto, no século XVII; Guerra dos Mascates, no século XVIII e a luta pela Abolição da Escravatura, no século XIX. Rio Formoso é o nome do rio que contorna a cidade. Os índios tupi costumavam denominá-lo de “lobugussu” que significa “grande rio verde”. E, desde então, o nome do município passou a ser chamado de Rio Formoso. Situado na microrregião da Mata Meridional pernambucana e na Mata Sul, o território de Rio Formoso possui características típicas das regiões que durante séculos se dedicaram exclusivamente ao cultivo de cana de açúcar. Essas marcas do passado colonial e escravista são perceptíveis em sua paisagem por conta da persistência do cultivo da cana e da alta concentração de propriedade, das relações baseadas no senhorio, uma vez que as usinas e os engenhos constituemse unidades produtivas, as quais possuem, de um lado, o comando de antigas oligarquias e de outro, a força de trabalho de pequenos agricultores (VIEGAS, 2006). O território municipal está situado a 30 metros de altitude, 8º39’3’’ de latitude sul e 35º 90’11’’ de longitude oeste na Zona da Mata. As bacias hidrográficas dos rios Formoso, Una e uma parte do Rio Sirinhaém são responsáveis pela drenagem do município e os seus afluentes Serra d’ Água, Vermelha, Goicana, Gatos, Jardins e Ariquindá acabam por conformar a região estuarina que, por sua vez, serve de sustento para mais de mil famílias. Os solos de aluviais existentes são utilizados para o cultivo da cana e outras culturas de subsistências (mamão, banana, mandioca, etc.), sendo a paisagem marcada pela presença da Mata Atlântica e mangue (não é à toa que é reconhecido como a cidade dos manguezais). Em 1740, as autoridades coloniais centradas numa política antiquilombo, passaram então a descrever como quilombo qualquer processo de aglomeração de negros fugidos “que passem de cinco, em parte desprovida, ainda que não tenham ranchos levantados nem achem pilões” (MOURA, 1981, p. 12) 3 Outra passagem nesta obra ressalta as relações entre mucambos, negros fugidos e palhoças: “As mucambarias ou aldeias de mucambos, palhoças ou casebres, fundadas nas cidades do Império e não apenas como Palmares nos ermos coloniais, representaram, evidentemente, da parte de negros livres ou fugidos de engenhos ou fazendas, o desejo de reviverem estilos africanos de habitação e convivência. Em algumas dessas aldeias a convivência parece ter tomado aspecto de organização de família africana, com “pais”, “tios” e “malungos”, sociologicamente africanos, espalhados por mucambos que formavam comunidades suprafamiliais ou “repúblicas”(FREYRE, 2004, p. 413)
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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 A estrutura política e administrativa do município inclui os distritos de Rio Formoso, Cucaú e os povoados de Parque Residencial Rio Formoso e a Vila do Cosoco. É na zona urbana onde se concentra 40,2% da população local que é absorvida nas atividades da indústria, comércio e serviço. A zona rural, onde se concentra a maior parte dos munícipes44, “é marcada pela sazonalidade na atividade principal” que é a lavoura canavieira de modo que, no período de entressafra, essa mão de obra livre no inverno é absorvida nas atividades da agricultura familiar presentes nos assentamentos (VIEGAS, 2006). A atividade sucroalcooleira é a mais importante da região e costuma absorver 3.500 trabalhadores rurais. A Usina Cucaú é um caso exemplar. O período escravista e a presença da população africana no Município de Rio Formoso e seu entorno necessita de uma pesquisa mais acurada. Aliás, grande parte dos estudos sobre a escravidão em Pernambuco tem se concentrado na capital, a Cidade de Recife. Um levantamento de fontes primárias no Arquivo Estadual de Pernambuco nos ajuda a deslindar aspectos da vida dos escravizados africanos e seus descendentes no período oitocentista e na Pós-Abolição. Trata-se de petições de senhores de escravos, solicitando dispensa de multas relacionadas a matrículas, falecimentos, compra e venda, mudanças de domínios por herança, emancipação de seus escravos, casamentos e batismos. Nos Livros de Óbitos, por exemplo, encontramos informações de escravos e escravas que se ocupavam nas atividades dos engenhos em Rio Formoso: Faustina, preta, com quarenta anos de idade, solteira, escrava de José Ferreira de Barros, morreu de repente foi sepultada na Capella de Amaraji em 30 de março de 1879. Pedro, preto, com vinte e cinco anos de idade, escravo de Dona Maria Manuela do Nascimento Braga, morreu em 22 de outubro de 1878. Maria, preta, solteira, com mais de quarenta e cinco anos de idade, matriculada com o nº 98 da matrícula geral da relação escrava de José de Monteiro, morreu em 3 de dezembro de 1878. Joana, preta, africana, setenta anos de idade, escrava de Joaquina Maria da Conceição, morreu em 19 de abril de 1879. José, pardo, oito anos de idade, filho legítimo de Vicente Ferreira de Paula e Hermenegilda Maria da Conceição, morreu em 13 de junho de 1879. Isabel, preta, africana, solteira, sessenta a setenta anos de idade, escrava de Joaquina Maria da Conceição, morreu em 6 de setembro de 1879. Os exemplos acima esboçados representam apenas uma pequena parcela da presença marcante dos africanos e descendentes que participaram ativamente da economia e da cultura locais. Nesse sentido, faz-se necessário preencher essa lacuna na história de Rio Formoso, condição indispensável para se compreender como africanos e crioulos, escravos e quilombolas, na condição de sujeitos de suas próprias histórias, estiveram envolvidos em conflitos, manifestaram solidariedades, sonhos e amores, que quotidianamente deram sentido às suas vidas. Na história de Rio Formoso dois fatos históricos ocorridos no contexto escravista acabaram por contribuir para o enquadramento da memória local. O primeiro se refere ao fenômeno de Palmares. Como se sabe, esse reduto de resistência negra setecentista era uma aglomeração de quilombos que se articulavam entre si, abarcando terras dos atuais estados de Alagoas e Pernambuco, conforme nos relata Nina Rodrigues, Ao noroeste estava o mocambo de Zâmbi, 16 léguas de Porto Calvo; ao norte deste, distância de cinco léguas, demorava o do Arutirene; a leste deste, ficavam dois mocambos chamados das Tabocas; destes ao noroeste e na distância de 14: léguas o do Dasambrubanga, e ao norte deste a 8 léguas, a cerca, chamada Subupira; desta a 6 léguas ainda para o norte a cerca real chamada de Macaco; 5 léguas a oeste desta, o mocambo do Ozenga; a 9 léguas de Sirinhaém para o noroeste a cerca do Amaro[....] (RODRIGUES, 1904, p. 18) Em fins do século XVII, após sucessivas investidas das expedições punitivas coloniais, o território de Palmares foi reduzido, como demonstra o trecho acima, à região de Una e Sirinhaém, em Pernambuco, e Porto Calvo e São Francisco, atual Penedo, em Alagoas. O quilombo de Palmares até hoje faz presente no imaginário do Município de Rio Formoso, sobretudo na comunidade quilombola de Engenho Siqueira. Outro fato que merece destaque na memória histórica do município refere-se ao desembarque de africanos no período de extinção do tráfico. [....] tendo-se me feito em 5 de julho 1855 uma revelação verbal e vaga de que havia que tratasse de algum desembarque de africanos, pelo lado de Rio Formoso (VEIGA, 1975, p. 95).
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Munícipe –1. Que ou aquele que mora em um município; 1.1. Adm. Político – que ou quem usufrui os direitos de um morador de município e possui deveres com relação a ele; Etimologicamente: cidadão livre, cidadão municipal. Vide Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro: 2001. 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 No dia 11 de outubro de 1855, ancorou, na Ilha de Santo Aleixo, um palhabote, içando bandeira de quarentena. E logo após, o palhabote entrava na baía de Sirinhaém fundeado [...]. O palhabote ficaria à espera das autoridades com sua carga de escravos (VEIGA, 1975, p. 87). Segundo Veiga, o tráfico clandestino que ocorreu no ano de 1855 envolveu a participação de autoridades de Rio Formoso e Sirinhaém, dentre eles se destacaram o Coronel Menezes Drumon e o próprio presidente da Província, o Conselheiro José Bento da Cunha Figueiredo. Após várias diligências e averiguações, foi constado que a carga de escravizados seria distribuída entre senhores de engenhos do setor açucareiro. Foi constatado também, que o palhabote foi construído em Angola e de lá veio a mão-de-obra escrava clandestina. Dos 210 africanos, apenas 162 foram resgatados, 48 já tinham sido distribuídos entre diversas propriedades da região. Houve fugas, inclusive dois foram encontrados em um mocambo dentro da mata do Engenho de Ubaca, no distrito de Sirinhaém. “O Desembarque de Sirinhaém” fato que ficou assim conhecido pela historiografia, só foi possível porque contou com a participação do pardo João José de Farias, nascido em Sirinhaém e com parentela em Escada. Esse traficante operava no sul de Pernambuco e se articulava em Angola. Não resta dúvida de que ao recorrer ao tráfico clandestino, os senhores de engenho da região estavam tentando solucionar o problema de dificuldades de acesso a mão-de-obra escrava africana. Recuperar esse passado colonial escravista da comunidade é interessante para se compreender algumas permanências que estão atreladas à produção de desigualdades duráveis, perceptíveis no tempo e no espaço e que se espelha no quotidiano, sobretudo, de afrodescendentes que ainda residem na zona rural, nos antigos engenhos de cana-deaçúcar. Nessa configuração se encontra a população do Engenho Siqueira que, ao reivindicar uma etnogênese quilombola, tem procurado criar estratégias de reconhecimento junto ao Governo Federal enquanto sujeitos de direitos. 3.3. Engenho Siqueira no contexto municipal O Engenho Siqueira se insere na dinâmica de construção do espaço de Rio Formoso, na zona rural. O relevo é formado de colinas e morros com uma vegetação marcada pela presença de mangue e uma diminuta parcela de Mata Atlântica, que durante séculos cedeu lugar a cultura de cana. Suas terras distam três quilômetros da zona urbana do município e o acesso se torna muito precário em época de chuva porque a estrada vicinal não é asfaltada. Terras férteis e propícias à prática da agricultura e da pecuária, águas doce e salgada onde abundam grandes variedades de peixes e mariscos, fazem com que a agropecuária se constitua, desde então, a principal atividade dos seus habitantes. Aliado a isto, a riqueza da sua flora propiciou as práticas terapêuticas da medicina natural entre seus habitantes, saberes que foram sendo transmitidos pela tradição oral. É do alto do morro que se tem uma visão mais ampla do lugar, com seus traçados preenchidos pela presença da Praia da Pedra, do mangue e dos coqueirais. De fato, um local aprazível que vem se tornando alvo de interesses empresariais por conta do fluxo turístico na região. Na verdade, a dinâmica de construção do espaço do Engenho Siqueira vem sofrendo alterações desde sua desapropriação. O Engenho Siqueira deixou de fazer parte do Complexo da Usina Cucaú no contexto de falência de inúmeras usinas de açúcar na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Como nos diz uma residente, a senhora Francisca de Paula Honorato: “Era um engenho, que vendido tá no nome de um só, mas pertence a vários, cada um membro mais velho ficou com uma parte, foram deixando família e foram morrendo” 55. A produção da cana-de-açúcar foi, desde o período colonial, a principal atividade econômica da região da zona da mata de Pernambuco. No início dos anos 90, uma série de mudanças é promovida pelo Governo Federal na política da agroindústria canavieira, notadamente a suspensão de subsídios, a privatização de exportações e a elevação das taxas de juros para empréstimos bancários. Diante deste contexto muitos engenhos produtores e usinas de transformação da cana-de-açúcar que já possuíam dívidas (Banco do Brasil, Governo do Estado, INSS) não conseguiram se reestruturar e entraram em processo de falência (VIEGAS, 2006, p. 85)
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Essa informação foi retirada do Questionário aplicado na comunidade do Engenho Siqueira, no primeiro semestre de 2010, por Jorge Arruda.

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 De fato, essa crise, uma vez instalada, serviu de mola propulsora para o surgimento de vários movimentos na zona rural, dentre eles estão o MST e o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, sob os quais se atribuem as iniciativas de ocupações de engenhos desativados assim como de reivindicações junto ao INCRA entorno das desapropriações das respectivas terras para fins de Reforma Agrária66. Sendo assim, os trabalhadores rurais que prestavam serviços e aqueles que residiam nas terras do complexo usineiro foram beneficiados com essa prática orientada pelo Governo Federal de fixar o homem à terra, tentando dirimir os problemas sociais existentes no campo. Através da trajetória histórica da comunidade rural negra existente no Engenho Siqueira, nem a Reforma Agrária e nem as tentativas de dinamizar o espaço rural através do turismo serviram para alterar as condições materiais de existência daqueles que vivem no campo. Muito pelo contrário, hoje, a busca por recursos junto ao Governo Federal se tornou palco de disputas entre trabalhadores e grandes proprietários de terra o que, de certa forma, denuncia uma cultura de desigualdade. Assim compreendemos que o espaço de Siqueira vem desde o período colonial passando por diversas ocupações e transformações orquestradas por diferentes conjunturas, seja ela política, socioeconômica ou histórica. A emergência do Quilombo de Siqueira é uma resposta frente às novas configurações políticas e sociais perceptíveis no âmbito municipal, estadual e federal. A comunidade remanescente de quilombo de Siqueira foi certificada pela Fundação Cultural Palmares sob a inscrição 2611903, em 12 de julho de 2005. Dados atuais apontam uma população majoritariamente negra, totalizando 320 pessoas, conforme pode ser observado na tabela abaixo. Desde seu reconhecimento, os Siqueira tem se projetado politicamente enquanto sujeitos de direitos e reivindicado junto às instâncias governamentais melhorias nas suas condições de existência. Figura 1. Dados demográficos sobre o Quilombo do Engenho Siqueira – Rio Formoso – Pernambuco7 ANOS 1977 19957 2010 OBS Residência 112 70 90 Pessoas Sem dados 309 320 Casas não 11 habitada Eleitores 180 FONTE: SUCAM – AGENTE COMUNITÁRIO Moacir Santana – em entrevista cedida em 25 de setembro de 2010

4. Resultado da Pesquisa
A incursão feita em torno da memória e imaginário social da comunidade Engenho Siqueira permitiu descortinar como esta tem se mobilizado enquanto grupo étnico, delineando e firmando suas fronteiras na relação com outros grupos, com os quais se diferenciam pelo seu grau de pertença identitária africana e afro-brasileira, pelo uso comum da terra, pelas relações de parentesco e ascendência histórica ligada à escravidão, sobretudo à diáspora da comunidade de Palmares. As narrativas apresentadas, reflexos da trajetória histórica de Siqueira e das histórias de vida dos seus habitantes, obtidos mediante relatos orais, acabam por representar também excelentes fontes de pesquisa da sua história. A presença de traços culturais de matriz africana - práticas alimentares, interação com o meio ambiente, manifestações artísticas e culturais - entre os habitantes de Siqueira vem reforçar a hipótese de uma histórica presença africana bantu nesta região do Estado de Pernambuco. A esse respeito, vale referenciar que fica cada vez mais nítido, em função dessas evidenciais, que a cultura pernambucana sofreu uma considerável “africanização” durante séculos, embora os portugueses e outros europeus tenham exercido a sua influência na estrutura de classes. A sua estrutura socioeconômica foi acima de tudo influenciada pelos negros, uma vez que os espaços reservados ao trabalho, proporcionavam ao escravo um contato mais ou menos intenso com os usos e costumes adquiridos nas terras africanas (Bender, 2004; Silva, 1987; Rodrigues, 1965). A existência de palavras provenientes das línguas bantu faladas em Angola, presentes nos falares dos habitantes de Siqueira - No caso em questão, fúnji – constitui evidência da presença africana nessa localidade. Fúnji Em 1997 das 48 usinas de açúcar do Estado de Pernambuco deixaram de funcionar, as propriedades foram desapropriadas e oferecidas em troca de dívidas de cunho fiscal e trabalhista. Isto proporcionou uma ampliação dos assentamentos de Reforma Agrária, mas também provocou uma série de problemas sociais na Zona da Mata Pernambucana, quais sejam, declínio populacional, inchaço das pequenas cidades e crescimento de sua periferia, desemprego, violência e habitação precária (VIEGAS, 2006). 7 Os dados foram coletados entre os anos de 1995-2010 pelo agente comunitário de saúde Moacir Santana. Para o ano de 1977, os dados foram coletados pela SUCAN. 7
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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 representa, dentre outras, mais uma das inúmeras palavras angolanas presentes no português brasileiro, cujo uso, ao contrário de outras como Quitanda, Quilombo, Kalunga, Massangano, Nzambi, até então pouco referenciadas. O espaço de Siqueira vem passando, ao longo dos tempos, por diversas ocupações e transformações orquestradas por diferentes conjunturas, sejam elas, política, socioeconômica ou histórica. Nesse âmbito, a emergência da Comunidade Quilombola de Siqueira é uma resposta frente às novas configurações políticas e sociais perceptíveis no âmbito municipal, estadual e federal. É essa a intervenção do Estado quem vai trazer à tona a concepção de “remanescente quilombola” palavra quase que desconhecida antes do surgimento de políticas públicas voltadas para essa população - este aspecto ficou bastante patente no decorrer das entrevistas, onde grande parte dos mais velhos afirmou desconhecer o real sentido do termo e com o qual, muitos deles, têm ainda alguma resistência ou pouca familiaridade. “ É assim, eles já sabiam. Eles tinham a visão de que negros são pessoas que foram escravizadas, então, já tinham essa noção de que foram escravizados. Só que a questão que confundiu foi a palavra quilombola, não sabia de onde vinha essa palavra quilombo, não sabia que os escravizados que fugiam formavam essas terras isoladas e livres. Não tinham noção disso, mas, sabiam que povos negros são os que foram escravizados. Mas agora com esse incentivo. Falando sempre eles agora na sua maioria se reconhece. Há aqueles que, infelizmente ainda existe, que ou não entenderam ou não querem mesmo ser negros. Eu não sei se isso é uma descriminação, se é um preconceito. Mas tem aqueles que não se identificam ainda. Se identificam a partir dos benefícios que chegam, ai todo mundo se identifica mas, essa é uma pequena percentagem da minoria. Mas, a maioria agora ela se autoidentifica, ela participa mais, ela já tá vendo o desenvolvimento que nós podemos ter, tendo um posto de saúde na comunidade , de sermos acompanhados por uma equipe da secretaria municipal e estadual também. E de que nós temos que ter na comunidade, uma escola quilombola porque nossa escola não é quilombola, ela é uma escola que veio antes das políticas públicas. Agora nós ficamos sabendo que nós temos que ter uma escola quilombola, uma construção de outra escola e não adaptar a que já está. Onde vai ter um ensino diferenciado, onde vai se trabalhar a própria tradição cultural da comunidade, resgatar essas tradições que estão esquecidas. Saber que terão direitos ou algumas vantagens quando forem fazer alguns concursos. Quando forem fazer carteira de motorista, sabem que tem algumas vantagens referentes a isso. E sabem que vão ter algumas prioridades dentro das políticas públicas”. Entretanto, se, por um lado, as políticas públicas voltadas para inclusão assumem cada vez um papel dinamizador no seio da comunidade, de outro, a comunidade vai correndo contra o tempo, no sentido de caminhar ao mesmo passo das políticas públicas e dos parceiros que vão surgindo. Nesse sentido, a apropriação das beneficies destas por parte da comunidade ainda se encontra num processo embrionário. Trata-se de um novo cenário social no qual os habitantes de Siqueira procuram se enquadrar. Um dos grandes desafios, nesse sentido, é fazer convergir os interesses individuais aos interesses coletivos, mobilizar os agentes sociais, até então excluídos do processo de participação social e do exercício da cidadania. “A gente quer aprender nossos caminhos, a buscar nossos direitos. Fazer parte, por exemplo, do Conselho Estadual de Igualdade Racial, a gente não tem uma cadeira lá, isso é uma direito nosso. Aqui no nosso município a gente tá ocupando todo canto... Cristiane é vicecoordenadora do Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável Rural de Rio Formoso, eu sou o secretário do Conselho de desenvolvimento também faço parte do Conselho Municipal de Saúde, então todo canto a gente tá entrando e tá conseguindo aquele respeito estamos aprendendo nossos direitos” “Os desafios são muitos (...) tento explicar pra ela que ela tem que se valorizar ( ...)quem tem que fazer a força, né? Uma pensar no outro. E não em si próprio (...) e brigo, brigo mesmo pra defender minha comunidade” Travar o êxodo rural que assola cada vez mais a camada mais jovem da comunidade é também um dos grandes desafios que a associação de moradores pretende enfrentar: “(....) por ano média de vinte a trinta, por que a maioria tá em Tamandaré, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife... Só lá de casa tem quatro em Recife, tem um no Rio de Janeiro.. os jovens tem pouco...quando no meu tempo que estudava aqui tinha quarenta e sete, até cinqüenta alunos. Hoje é vinte e oito alunos” “O que tá na terra é o melhor produto, antigamente saia da nossa comunidade limão, caju, cacau, coco, manga, abacate, cana caiana, cana pra indústria de açúcar cultivam em grande quantidade eles plantavam muita batata doce, cultivam o cajá, cultivavam de tudo e vendiam 8

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 direto.. eles tinham doze casa de farinha todas produzindo de manhã a noite depois foi caindo a produção por que a terra começou a perder os nutrientes hoje eles sobrevivem da pesca ...essa dificuldade vai existir e vai continuar existindo enquanto não houver uma política melhor, muitas pessoas foram embora pro Rio de Janeiro”. A concretização desse objetivo vai, entretanto, resultar da combinação de esforços conjuntos que deverá englobar uma mobilização interna, a boa vontade das parceiras e o apoio da prefeitura municipal na implementação de projetos sociais que possam trazer de volta a comunidade a sua diáspora espalhada pelo estado e outras regiões do país. “Eu acredito que voltam, as de lá em casa mesmo disse se aparecer um emprego, com certeza voltam. Por que se for viver da pesca não tem quase nada. Agricultura muito menos, por a terra já tá cansada. Muitos vivem às custas dos pais, com salário mínimo...eu mesmo já peguei por dia, eu já peguei cinco quilo de ostras, na canoa.. hoje pra eu pegar cinco quilos tem que ir dez dias”. À associação de moradores recomendou-se que continue desenvolvendo o seu plano estratégico como forma de redefinir a sua missão, valores e objetivos que orientem a Associação para a condução de atividades proativas e sustentáveis com impacto cada vez mais forte no desenvolvimento da comunidade. À prefeitura municipal recomendou-se que há necessidade urgente de se preencher uma lacuna na história de Rio Formoso, condição indispensável para se compreender as origens do município como um todo, na qual africanos e crioulos, escravos e quilombolas, na condição de sujeitos de suas próprias histórias, estiveram envolvidos em conflitos, manifestaram solidariedades, sonhos e amores, que quotidianamente deram sentido às suas vidas. Desse modo, torna-se imperiosa a sua intervenção, no sentido de assessorar a associação de moradores na implementação dos projetos socioculturais voltados para a preservação da identidade cultural local, bem como na capacitação de membros da comunidade que poderão servir de interlocutores desta com seus diversos parceiros.

5. Análise Crítica
A realização do trabalho foi um desafio para a Petrobras na medida em que uma condicionante ambiental atendeu a uma demanda real da comunidade. É comum ao trabalhar com comunidades remanescentes de quilombos que dúvidas sobre seus aspectos culturais, políticas públicas e sobre sua própria história sejam levantadas. Se envolver com a demanda e definir como tratá-la de forma a atender a empresa e a comunidade foram desafios a serem superados. Em relação às dificuldades e aprendizado, podemos registrar: Com a comunidade não tivemos entraves, pois a mesma foi extremamente receptiva em virtude do tema do trabalho ter sido escolhido por ela. O IBAMA, órgão licenciador , tinha por objetivo obter do empreendedor uma ação benéfica e duradoura para a comunidade, no que foi plenamente atendido, logo, não opondo-se ou questionando as ações desenvolvidas. Mais uma vez, identificar a demanda da comunidade mostrou-se essencial para todos os intervenientes no processo - comunidade, órgão licenciador e empreendedor - indicando um bom caminho e servindo de exemplo para outras iniciativas. O empreendedor - Petrobras - alcançou seu objetivo de atender o órgão licenciador, deixando um legado positivo no relacionamento comunitário, consolidando a imagem de empresa. O empreendedor tem neste trabalho, um bom exemplo de ação comunitária que pode ser replicada em outras ações de relacionamento com a comunidade que tenham demandas semelhantes. Encontrar parceiros como os historiadores, que realizaram as entrevistas, a consulta aos arquivos públicos, conduziram os grupos focais e construíram o livro foi motivador e essa parceria foi estabelecida visando sempre o atendimento da demanda comunitária. Ao final, a entrega do livro foi bastante gratificante para todos os envolvidos, em que os diversos atores sociais estavam presentes. O evento de entrega ocorreu no dia 15 de fevereiro de 2012, cópias impressas e eletrônicas foram entregues para as lideranças comunitárias junto com participação do Prefeito de Rio Formoso. Os pesquisadores explanaram a experiência no processo de construção do produto assim como esclareceram as dúvidas existentes. Logo abaixo segue depoimento da comunidade sobre o significado dessa ação para eles: A partir do momento que nós passamos a ser reconhecidos como quilombolas, eu sempre tive em mente isso. Ter um documento que nós possamos mostrar à sociedade a nossa própria história, de como ela surgiu, de como ela veio e de como ela acontece. Com a vinda da Petrobras lá na comunidade, Ivana, ela fez o diagnóstico para saber do que a comunidade precisava. Então uma das coisas que eu tinha em mente conhecer a nossa história, eu pedia a 9

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Ivana se eles podiam fazer uma pesquisa para resgatar a história, porque a comunidade não sabe por que quilombola, veio de quê? Porque a gente não tem nem uma pesquisa, nem um documento que comprove isso. Aí eu pedi a Ivana, ela disse que a Petrobras iria ver como fazer essa pesquisa para ficar documentada, eu transmiti à comunidade com muita ênfase. Quando eu vi a certidão de reconhecimento, eu não consegui ler, fiquei emocionado. Era o início para a comunidade se desenvolver, então esse trabalho que a Petrobras está realizando vai ser um documento muito útil para a comunidade. O trabalho vai fortalecer muito a comunidade. Vai trazer mais conhecimento para a sociedade a qual ela vai aprender a respeitar, porque quando se tem um documento. Então, eu estou ansioso por esse documento. (Trecho da entrevista de Claudio Pageú, liderança comunitária do Engenho Siqueira).

6. Registros

Figura 2. Capa do Livro “Negras Memórias da Comunidade do Engenho Siqueira, Rio Formoso, Pernambuco

7. Agradecimentos
A todos que contribuíram direta e indiretamente para esse projeto, em especial a comunidade quilombola de Engenho Siqueira que abriu suas portas para a Petrobras e os historiadores.

8. Referências
BENDER, GERALD J. Angola sob o domínio Português. Mito e realidade. Luanda: Editorial Nzila, 2004 BOGDAN, ROBERT E BIKLEN, SARI. Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora, 1994. CARDOSO, CIRO FLAMARION. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Bauru, SP: Edusc, 2005. FREYRE, GILBERTO. Sobrados e Mucambos, 2004. RODRIGUES, NINA. A Tróia Negra – erros e lacunas da história de Palmares. Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano. Recife, 11: 645 – 672, set. 1904. SCHNAPPER, DOMINIQUE. A compreensão Sociológica. Lisboa: Gravida, 2000. SILVA, MARCOS RODRIGUES DA. O negro no Brasil. História e Desafios, São Paulo, Editora FTDSA, 1987. VEIGA, GLAUCIO. O Desembarque de Sirinhaém. Revista do Instuto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Recide: 47: 217-328, 1975. VIEGAS, LUCIANA PINHEIRO. Possibilidade e Limites de Inserção do Assentamento de Amaraji na Atividade Turística do Municipio de Rio Formoso – PE (Dissertação de Mestrado) Programa Pós- Graduação em Geografia – CFCH/UFPE, 2006, 127 pags.

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