Alucinógenos e Espiritualidade por Rafael Roldan, 12/05/2010 - 13:43 Preferi inovar ao invés de escrever os clássicos relatos de experiências com substâncias

alucinógenas, em que não se sai daquela mesmice: de um lado, o encantamento e perplexidade de alguns, aliados à insuficiência de palavras e a tendência a supervalorizar a experiência; de outro, o puro preconceito daqueles que acham que tais chaves químicas são fontes de perdição, um perigo à sociedade, devendo ser banidas a qualquer custo. Não sou a favor de extremos, pois eles geralmente são irreais, meros referenciais ideológicos, quase sempre distantes da realidade. A primeira vez que tive alguma noção do que seria um alucinógeno foi lendo uma reportagem sobre a beat generation na extinta revista “Chiclete com Banana”, na qual os cartunistas Glauco, Angeli e Laerte, mais conhecidos como “Los 3 Amigos”, se consagraram. Eu tinha 8 anos de idade. Naquele dia, então, determinei um pensamento que nortearia bons anos de minha vida: “Um dia ainda fumarei maconha e beberei ayahuasca!”. Com 9 anos, também adorava estudar astrologia, Tarot, I Ching, Geomancia e outras parafernálias místicas.Nessa idade não tinha acesso a “substâncias estranhas”, então passei a pesquisar tudo que podia. Minha irmã mais velha cursava medicina, o que ajudou muito no acesso a livros de farmacologia e toxicologia, que eu devorava sem pestanejar. Passei pela fase clássica de rebeldia “aborrescente” de botequim, com uma perigosa boemia a me rondar. Com 14 anos, estudava várias correntes de magia, fumando diamba e tabaco e tomando cerveja. Depois de muitas idas e vindas, com 17 anos tive minha

O tempo passou e as ideias amadureceram. Não pararia pelos doze anos seguintes.Mais ainda quando o propósito se justifica por uma busca pretensamente espiritual. é preciso estar livre de dogmas e crenças. há que se ter em mente quais os objetivos ao se ingerir um alucinógeno. uma tentativa de raciocínio. Antes de mais nada. por mais que me destacasse nas mesmas. Vale lembrar que este texto é um ensaio. fica o alerta aos cientistas e céticos de plantão: alucinação pode ser algo irreal em termos objetivos e até entendido assim também em termos subjetivos. voltado a provocar reflexão e debate. seja lícito ou ilegal. Em 2009 fiz minhas últimas sessões. pois aceito clinicamente. com LSD e Salvia divinorum (não simultaneamente). Sou contra o uso do termo “enteógeno”. eis que ilusório. A mera corrida por prazer não merece muita avaliação. religiosa ou mística. É um termo que já a priori define o que poderia ser encontrado. Assim como os conteúdos oníricos. o desfile alucinatório tem muito a oferecer em termos de autoconhecimento. onde se supõe que algo tão supremo como a divindade possa se manifestar pelo simples consumo deste ou daquele fármaco. Contudo.primeira experiência com ayahuasca. químico ou meramente ideológico. plantas e fungos. Mesmo o mais puro hedonismo e a mais tacanha fuga passam pela questão da transcendência. além de demonstrar uma arrogância infantil. Não se trata de apologia a nada. Como sempre fui mais libertário do que gregário. Uso o termo alucinógeno. estreitando por demais as possibilidades de uma investigação imparcial. Minha paixão por encontrar meu “amrita pessoal” me levou também a estudar e experimentar diversas outras drogas.Até porque para se chegar à verdade. era difícil realmente me filiar a alguma ordem ou doutrina espiritual. a não .

pois isso seria apenas uma extrapolação do condicionamento básico de nossa existência. com pessoas que cometem atrocidades em nome apenas de sua felicidade pessoal. disfarçado sob o manto de uma virtude calculada e restrita. a espiritualidade legítima tem dois campos de ação. Tal problema alcança até mesmo as tradições ditas espirituais. mas sim desfrutar da opção de ter vontade de algo fora de nosso ser condicionado. Um é o resgate e a preservação de valores verdadeiramente humanos e positivos. cheia de compaixão. A transcendência também não pode simplesmente ser entendida como uma fuga de um padrão em direção a outro. não temos liberdade genuína. Isso porque o prazer pode trazer sofrimento quando buscado em excesso.ser que. o que não significa ausência dos mesmos. embora ele deva ser parte da vida. Liberdade não é fazer o que se tem vontade. pois reagimos sempre a partir desse condicionamento. mas domínio sobre eles ao invés de ser por eles dominado.Eis a segunda área de atuação da espiritualidade. em geral inconsciente. positiva. Pois bem. ela pode muito bem ser a completa liberdade em relação a todos os padrões. que é proporcionar uma genuína transcendência ao sofrimento e às armadilhas de nossa confusão inata.Entretanto. poderíamos encarar o uso de alucinógenos como . Exemplos abundam na vida diária. Desse modo. escravizando o indivíduo.Se faltar a sabedoria transcendental. no qual há apenas uma continuidade do egoísmo trivial. Somos condicionados pelo nosso corpo e pela nossa história. não basta tornar-se uma pessoa boa. o mesmo não pode dominar a vontade. faltará o essencial. pois a compulsão e o fanatismo podem descambar para o chamado materialismo espiritual.Assim. Considerando que seja possível qualquer transcendência.

fica fácil perceber que a repetição de um padrão não levará à transcendência. Tudo que possa ser obtido será inevitavelmente perdido. cuja falha se funda no fato de que não é a repetição de tradições. na qual tudo que tenha começo terá obviamente um fim. sistema e padrões que nos fará alcançar a transcendência. Por tal motivo é que o significado último da realidade está além das experiências. o que demonstra que todas as práticas ditas espirituais. Não é preciso ser muito inteligente para perceber que não é este o caso. eis que poderá reforçar o egocentrismo da pessoa. que logo se esvairia pelo ralo da entropia. Essa é a inexorável lei da impermanência do universo. talvez por uma culpa inconsciente das etnias dominantes. seria mais uma aquisição ordinária. bastaria então que forçássemos tal substância no organismo de toda a humanidade para que obtivéssemos um mundo melhor. seja através de alucinógenos (via úmida) ou de exercícios voluntários (via seca). Não há como o Incausado advir de causas. se referem à realidade relativa. Muitos buscam justificar o uso religioso de alucinógenos através da existência de povos que realizam ou realizavam tal prática durante milênios. Se tal atitude for regular. o que se busca acessar através da espiritualidade é algo que sempre esteve ali e sempre estará. Quando é única ou esporádica. Assim. Eis a motivação antropológica e histórica. Do contrário.Temos a mania de romantizar nações arcaicas. O raciocínio é simples: se fosse questão de somente se ingerir alguma substância para que o ser humano realmente obtivesse algum desenvolvimento positivo em sua vida. a questão se sutiliza. A única vantagem na descoberta de que determinado povo . mas ainda assim se baseia num padrão que pode ser nocivo.um padrão de hábito. Tal visão se aplica também a qualquer disciplina tida por esotérica.

a consciência só pode ser alterada pela própria consciência. com a percepção alterada. não garante a transcendência. nada mais é do que uma sistematização das experiências de outrem. devemos estar muito bem preparados ou amparados. pois se não temos pleno domínio sobre o que somos em nosso estado comum. Claro. Equivale ao trabalho com sonhos e o mundo onírico. São efeitos que podem ser muito bem aproveitados numa caminhada espiritual. ideológico ou químico. o uso de alucinógenos e outras drogas. como a ingestão da ayahuasca. fórmulas rituais e exercícios padronizados. Assim como métodos de meditação. Se usamos um método potente de alterar-se a percepção. Ora. já falavam sobre o uso de plantas com finalidade de . Existe um entusiasmo pueril a respeito de “técnicas para alteração de consciência”. vegetais ou não. Geralmente alucinógenos expõem com maior clareza o conteúdo subconsciente da mente e sensibilizam o usuário.utiliza ou utilizava determinada planta ou fungo há muito tempo é a razoável segurança e conhecimento no emprego da substância. ainda que tenha algum benefício. antigos e importantes textos hindus. seja a batida de um tambor ou a ingestão de mescalina. Cada ser tem suas necessidades e deve obter ferramentas afins. o que pode ocorrer é a alteração da percepção e das ondas cerebrais. que dirá então num estado alterado. muito explorado até mesmo na psicoterapia moderna. por maior profundidade que haja e ainda que ele aplique alucinógenos e outras drogas – vias supostamente de acesso mais direto às camadas mentais mais sutis – como sacramento. No entanto. pode se vislumbrar nuances da realidade que antes se era incapaz de perceber. A realidade objetiva não pode ser apreendida a partir de um processo estanque como a adesão a um sistema.A repetição de métodos. O Yoga Sutra de Patanjali e o Rig Veda.

a maioria se . por outro não há que se jogá-los na lata do lixo como um obstáculo. idolatrando-os. a relevância da experiência na vida da pessoa geralmente era baixa. afastando a chance de gerar bilhões de dólares e milhares de empregos para os países que nisso investirem. Em geral se perdem em fantasias de progresso ou ficam embotadas pela vida cotidiana. Com isso. Se por um lado não é salutar supervalorizar o potencial dos alucinógenos. Depois destes anos todos. equilibramos a questão. Pouquíssimas pessoas têm realmente uma aspiração espiritual correta. com o mesmo contexto e preparos pessoais idênticos. Outras culturas reconheceram o mesmo. notei na prática que há um componente pessoal forte a moldar a experiência psicodélica. fosse imaginação. Após várias sessões nas quais eram administradas a mesma dose da mesma substância. toda a busca é pela felicidade. No fundo. especialmente. pude perceber que mesmo quando a pessoa alcançava algum grau interessante de efeitos da substância. Isso porque a pessoa tinha excesso ou falta de algum elemento mental. Não iremos aqui explorar as possibilidades farmacêuticas contidas nestas substâncias e cujas pesquisas ficaram infelizmente paradas devido ao preconceito e à irracionalidade. A partir dessa experimentação. Isso a ponto de determinar a própria existência de uma experiência. as pessoas demonstravam reações totalmente diferentes. informação.provocar progresso espiritual ímpar. deixando de gerar toda uma nova classe de medicamentos. liberdade de raciocínio e. Porém. motivação. eis que eles possuem funções relativas. bem como a qualidade da mesma. sem jamais buscarem a essência dos fenômenos ou mesmo se inclinarem ao benefício dos demais seres.

Esta singela reflexão vem servir ao propósito de questionar. a despeito da idolatria de alguns pelo tema. mesmo que estes se afastem destas substâncias. só o fato de visões incomuns e o alívio que advém após a passagem da tormenta já trazem uma fuga da rotina que contentam muitos. renúncia e uma série de outras qualidades que não são obtidas por mera filiação a algum caminho. por exemplo. cujo apreço por experiências sofridas como as bad trips os continuam atraindo para este tipo de prática. . Em suma. é inegável o poder de encantamento dos alucinógenos. Isso para não mencionar aqueles. é preocupante o crescente número de seitas que se predispõem a servir chás e outros preparados. mesmo em “viagens ruins” (as famosas “bad trips”). não oferecendo nada mais do que isso e um punhado de “conhecimentos secretos” (quando chegam a tanto) que não passam de reprodução dos já vagos e ineficazes conceitos tidos como teosóficos e derivados. não pode jamais significar que toda a humanidade deverá fazer uso do mesmo. de um antidepressivo. Diante disto. hoje conhecido por pouquíssimos. os resultados obtidos são geralmente insípidos em termos de progresso real. o fato de alguém precisar.Claro.contenta com fáceis felicidades. há um papel importante destas substâncias em relação à espiritualidade.É fácil aceitar e aderir ao que quer que seja. pelo contrário. Embora seja assim. mas que deve vir cercada de um preparo pessoal muito preciso. obtidas provisoriamente. já exige esforço. Se há bad trip. Cada um tem uma necessidade e para isso há a pluralidade de opções a suprir tais carências. que são muitos. Não se busca aqui atacar a religião de ninguém ou iniciar um movimento contra tudo isto.Quando há êxtase. Avaliar com imparcialidade as situações de vida. Importante ressaltar: não há caminho para aquilo que é Onipresente. Os alucinógenos podem proporcionar isso.