IBP 1560_12 DOS CRIMES AMBIENTAIS: LIQUIDAÇÃO FORÇADA À LUZ DA CONSTITUIÇÃO Nathália F. Siqueira¹, Renato M. Guerra², Yanko M. de A.

Xavier³

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O presente artigo objetiva fazer uma análise do artigo 24 da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº. 9.605/98), no que tange à possibilidade de uma pessoa jurídica ter decretada a sua liquidação forçada – em sendo a mesma constituída – ou até mesmo, estar sendo utilizada, para permitir, facilitar ou ocultar a prática de crimes ambientais definidos na lei retro mencionada. Cumpre ressaltar que o assunto em tela possui, indiscutivelmente, uma grande relevância na conjuntura atual da sociedade mundial, uma vez que o meio ambiente é considerado um dos maiores patrimônios da humanidade. No mesmo sentido caminha a Constituição da República Federativa do Brasil, definindo como princípio a defesa do meio ambiente e prevendo em seu texto que todos os cidadãos, sem distinção alguma, possuem o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, devendo, inclusive, zelar por esse meio para as presentes e futuras gerações. Sendo assim, é de fundamental importância salientar que, diante de um cenário de desrespeito ao meio ambiente, a liquidação forçada aparece como uma forma eficaz de provocar uma mudança em tal cenário; entretanto, lembre-se que tal método constitui uma via alternativa de combate a destruição da natureza, visto que a regra é a dissolução total da pessoa jurídica responsável por permitir, facilitar ou ocultar crimes ambientais. Por fim, mesmo sendo considerada como uma via alternativa, deve-se enaltecer o papel fundamental assumido pela liquidação forçada nas perspectivas sentidas em toda a sociedade.

Abstract
The present article aims to analyze the Article 24 of the Environmental Crimes Law (Law no. 9.605/98), regarding the possibility of a legal entity, be ordered their forced liquidation in the same being made, or even being used to enable, facilitate or conceal the commission of environmental crimes defined in the retro-mentioned law. It should be noted that the issue at hand, unquestionably, has a major relevance in the current global society, since the environment is considered one of the biggest world heritage sites. In the same direction goes the Constitution of the Federative Republic of Brazil, defining principle to protect the environment and providing in its text that all citizens, without distinction, have the right to have an ecologically balanced environment, and should even watch in this way for present and future generations. Therefore, it is very important to point out that, considering a scenario of disrespect for the environment, the forced liquidation appears as an effective way to bring about a change in this scenario, however, remember that this method provides an alternative way of fighting destruction of nature, since the rule is the total dissolution of the legal entity responsible for permitting, facilitate or conceal environmental crimes. Finally, even being considered as an alternative route, it should exalt the role assumed by the forced liquidation prospects felt throughout society.

1. Introdução ______________________________
¹ Discente do 7º período do Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e aluna bolsista do Programa de Recursos Humanos em Direito do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (PRH-ANP/MCT Nº 36) 2 Discente do 6º período do Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e aluno bolsista do Programa de Recursos Humanos em Direito do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (PRH-ANP/MCT Nº 36) 3 Professor Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Coordenador do Programa de Recursos Humanos em Direito do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (PRH-ANP/MCT Nº 36)

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 O meio ambiente nem sempre foi percebido dentro da perspectiva que hoje está inserido; durante muito tempo, a grande parte da sociedade o tratou com desleixo, sobrepondo os interesses econômicos e financeiros, e isto sempre em detrimento de um ambiente saudável. Portanto, não é difícil entender a enorme preocupação da comunidade internacional em torno da preservação do meio ambiente: a degradação chegou a tal ponto que agora a consciência do homem médio exige medidas de prevenção e reparação dos danos já causados. Sendo assim, nada mais urgente do que um ramo do Direito dedicado aos desdobramentos jurídicos desse meio ambiente, seja naquilo que toca a preservação, seja nas ações de reparação em prol da coletividade. O Direito Ambiental surgiu como uma alternativa mais concreta de positivar aquela exigência da consciência manifestamente de todos. No Brasil, a legislação ambiental é apenas mais um instrumento, que, em comunhão de vontades com as demais organizações governamentais ou não, buscam proteger um dos maiores patrimônios da humanidade, qual seja, o meio ambiente brasileiro, notadamente a fauna, a flora e os recursos naturais da Floresta Amazônica. Não é por menos que a nação brasileira acolherá mais um evento de porte internacional voltado a debater a conciliação do desenvolvimento sustentável e a garantia de um meio ambiente limpo, a “Rio + 20” – saliente-se que tal conferência é apenas uma das dezenas que são e foram realizadas sobre o mesmo assunto nos séculos XX e XXI. É imperioso lançar como pedra de toque o posicionamento firmado pelo Supremo Tribunal Federal em sede de Mandado de Segurança (nº 22.164, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 17/11/95), quando afirmou com veemência a real importância do meio ambiente, tanto para a vida em sociedade como para os reflexos na dinâmica jurídica: “O direito a integridade do meio ambiente — típico direito de terceira geração — constitui prerrogativa jurídica de titularidade coletiva, refletindo, dentro do processo de afirmação dos direitos humanos, a expressão significativa de um poder atribuído, não ao indivíduo identificado em sua singularidade, mas, num sentido verdadeiramente mais abrangente, a própria coletividade social. (...) os direitos de terceira geração, que materializam poderes de titularidade coletiva atribuídos genericamente a todas as formações sociais, consagram o princípio da solidariedade e constituem um momento importante no processo de desenvolvimento, expansão e reconhecimento dos direitos humanos, caracterizados, enquanto valores fundamentais indisponíveis, pela nota de uma essencial inexauribilidade”. Reitera-se, pois, o desenvolvimento sustentável como um objetivo a ser atingido, um desejo pleiteado por todos, mormente a sua possibilidade de conciliar intimamente, como nenhuma outra solução o faz, a atividade empresarial em crescimento com a proteção do meio ambiente, preservando-se, por conseguinte, a natureza (CAVALCANTE, MEDEIROS, FREITAS, 2005).

2. A proteção dada pela Constituição
Ora, sendo a preservação ambiental uma preocupação evidente também do Poder Público, fez-se necessário a sua exaltação no ordenamento jurídico brasileiro; tal destaque é nitidamente descoberto principalmente após a Constituição da República de 1988: além dos avanços incomensuráveis na dimensão dos direitos humanos fundamentais e nas garantias individuais, a Carta Magna inovou ao elevar os Direitos Difusos a um patamar constitucional, e é dentro desta seara que a proteção do meio ambiente se apresenta. A Constituição conferiu uma força, até então desconhecida, à preservação que aqui é tratada, porquanto a consagrou, sem maiores delongas, em seu texto propriamente dito. Senão, observe-se o tema “Dos Princípios Gerais da Atividade Econômica” do referido diploma, especialmente o seu artigo 170, quando estatui que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: (...) VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação (...)”. Ora, se a Lei Maior do Estado brasileiro aponta a defesa do meio ambiente como um princípio da ordem e da atividade econômica, é evidente que o legislador simplesmente quis demarcar a preponderância daquela preocupação mundial, concatenando os anseios sociais, tanto nacionais, quanto internacionais. Como se não bastasse a clara mensagem deixada pelo Poder Legislativo, a Constituição da República dedica um capítulo inteiro ao Meio Ambiente (Capítulo VI do Título VIII – Da Ordem Social, CR/88). E mais, os seus artigos avançam no sentido de consagrar a preservação ambiental como um direito fundamental tanto quanto o direito à educação, na medida em que ambos devem ser prioridades da Administração Pública e estendidos a todos, sem distinção de qualquer natureza. O artigo 225 da Carta Magna tão somente reforça essa ideia, desmascarando qualquer um que olvide o meio ambiente e o trate como já o fora tratado antigamente: “Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preserva-lo para as presentes e futuras gerações. (...)§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados (...)”. Destarte, não restam quaisquer dúvidas da primazia da proteção ambiental, especialmente com a imperatividade dada pela Constituição, além da pertinência do tema que logo mais será tratado: a punição dos crimes ambientais. 2

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3. A proteção dada pela Lei dos Crimes Ambientais
Todavia, como é cediço no ordenamento jurídico brasileiro, a Lei Maior, apesar de analítica, traça diretrizes, indica objetivos e aponta orientações, cabendo à legislação infraconstitucional esmiuçar com mais profundidade esses elementos e detalhar a atuação do Estado e da população na garantia de direitos, sobretudo aqueles considerados fundamentais. Diante dessa perspectiva, a Lei – dos Crimes Ambientais – nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998 (LCA) se apresenta como um dos poucos diplomas capazes de, verdadeiramente, proteger o sistema ambiental brasileiro. O também chamado “Código Penal Ambiental” se revela um instrumento legal de repressão, punição e prevenção de condutas lesivas ao patrimônio ambiental da sociedade, dispondo-se a auxiliar o combate à degradação do meio ambiente, destoando das demais ferramentas usadas para tanto, pois oferece sanções determinadas, como, por exemplo, prestação de serviços à comunidade (no caso do agente tratar-se de uma pessoa jurídica), multa, penas restritivas de direitos e penas privativas de liberdade (reclusão, no caso do artigo 30 e detenção no caso do artigo 55; ambos da referida lei), bem como a controvertida hipótese de liquidação forçada prevista no seu artigo 24, questão cerne do presente trabalho, que será analisada mais adiante. No contexto criado pela Lei dos Crimes Ambientais, as dezenas de organizações e institutos ambientais que trabalham em prol da preservação, inclusive o Ministério Público, ganharam um forte aliado na tarefa incansável de proteger o meio ambiente. Entende-se, pois, que a legislação anterior, de caráter mais abstrato e de difícil aplicação, acabou caminhando no sentido de compreender a eficácia e a celeridade nos seus aspectos mais puros possíveis, uma vez que aperfeiçoou seu texto legal para garantir maior facilidade no momento de manejá-lo e operá-lo judicialmente. Além do mais, o novo Código Penal Ambiental passou a admitir medidas mais práticas e incisivas – os novos limites mínimos e máximos nos quais a multa pode variar –, permitindo, inclusive, a responsabilização da pessoa jurídica e da pessoa física autora ou coautora, até então imunes de punição por lesões ao meio ambiente. Destaque-se, igualmente, a adoção da “Disregard of Legal Entity”, porquanto passou-se a permitir a desconsideração da personalidade jurídica diante do abuso de direito, trazendo à tona a pessoa física que se escondia por trás da pessoa jurídica, utilizada, em muitos casos, como um “instrumento” do crime.

4. O fundamento das sanções previstas na legislação ambiental
Sendo o crime ambiental uma conduta positiva (ação) ou negativa (omissão) que desponta num dano razoável ao meio ambiente, e tendo em vista a vasta proteção dada ao equilíbrio ecológico desse sistema, o mesmo deve ser prontamente repreendido por meio de uma sanção e, por conseguinte, envolvido por uma iniciativa de prevenção. A Lei dos Crimes ambientais se revela protagonista nessa tarefa, principalmente por trazer especificações quanto a penalização de tais comportamentos, tipificando-os, por exemplo. Acontece que, grande parte das agressões praticadas contra o meio ambiente são decorrentes de atividades de exploração por parte de imensos conglomerados empresariais, como bem identificaram Tercio de Sousa Mota, Erivaldo Moreira Barbosa e Gabriela Brasileiro Campos Mota (MOTA, BARBOSA, MOTA, 2011). É de bom alvitre lembrar que a responsabilização por crimes ambientais é reiterada pelo § 3º do artigo 225 da Constituição da República, quando bem determina tal responsabilização tanto no campo administrativo, como no civil e no penal. Entendimento, esse, amparado na certeza de que o meio ambiente é um bem essencial à vida, notadamente no que diz respeito à saúde e ao bem-estar dos indivíduos.

5. Os sujeitos na Lei nº 9.605/98 (LCA)
Antes de se debruçar sobre as peculiaridades de tal situação, faz-se mister compreender o que há por trás dos sujeitos que emergem do “Código Penal Ambiental”. Para tanto, cumpre determinar que: podem ser sujeitos ativos – isto é, agentes ou autores dos crimes ambientais – qualquer pessoa física ou, até mesmo, jurídica (COPOLA, 2012). No caso da primeira possibilidade, a pessoa física a qual se refere o artigo 2º da LCA, especificamente na sua primeira parte, tratase daquela mesma pessoa física que se depreende do Código Penal. Todavia, quando a possibilidade for a imputação de crime à pessoa jurídica, vale salientar que, além da pena ordinariamente prevista, também poderá ser penalizado o diretor, administrador, membro de conselho de órgão técnico, auditor, gerente, preposto ou mandatário – nos dois últimos casos a culpabilidade é caracterizada por omissão. Por derradeiro, é de bom alvitre transcrever o que preceitua o artigo 3º da LCA: “As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de ser representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade”. 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 A problemática da responsabilização da pessoa jurídica é igualmente ultrapassada pelos ensinamentos de José Afonso da Silva, quando dita o seguinte: “(...) cabe invocar, aqui a tal propósito, o disposto no artigo 173, § 5º, que prevê a possibilidade de responsabilização das pessoas jurídicas, independente da responsabilidade de seus dirigentes, sujeitando-as às punições compatíveis com sua natureza, nos atos praticados contra a ordem econômica, que tem como um de seus princípios a defesa do meio ambiente” (SILVA, 2002).

6. As penas previstas no Código Penal Ambiental
Pelo caráter e pelos apontamentos já exaustivamente debatidos nas linhas acima, a Lei dos Crimes Ambientais traz consigo diversos tipos de penalização, cujos objetos e aplicações são diversos. No entanto, faz-se mister analisar de forma concisa aquelas sanções impostas às pessoas jurídicas – relacionadas no artigo 21 da aludida lei –, no intuito de contextualizar o cerne da presente pesquisa. No que tange à pena de multa, por exemplo, o legislador aplicou de forma subsidiária o Código Penal, na medida em que determinou que a multa seria calculada segundo os critérios do referido diploma legal, conforme se depreende do texto do artigo 18 da Lei nº 9.605/98. O artigo 22 do Código Penal Ambiental, por sua vez, tratou de definir as penas restritivas de direitos em face, exclusivamente, das pessoas jurídicas, quais sejam, a suspensão parcial ou total da atividade (inciso I), interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade (inciso II) e, por fim, a proibição de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações (inciso III). Há, ainda, a prestação de serviços à comunidade, que abarcam medidas como custeio de programas e de projetos ambientais, nos termos do inciso I do artigo 23; execução de obras de recuperação de áreas degradadas, conforme o inciso II do mesmo artigo; manutenção de espaços públicos, indicada no inciso III também do artigo 23; e contribuições a entidades ambientais ou culturais públicas, sob a ótica do inciso IV do mesmo artigo, sendo todos os dispositivos da Lei dos Crimes Ambientais (nº 9.605/98).

7. A Liquidação Forçada respaldada pela Constituição
Todavia, as penas até então estudadas e pormenorizadas não se desdobram em controvérsias tão pontuais e veementes quanto àquelas que orbitam em torno da “Liquidação Forçada” predita na Lei dos Crimes Ambientais, objetivo maior deste trabalho. De início, cumpre partir, invariavelmente, do zero, lendo e relendo a previsão legal desse instituto no artigo 24 da Lei nº 9.605/98: “Art. 24. A pessoa jurídica constituída ou utilizada, preponderantemente, com o fim de permitir, facilitar ou ocultar a prática de crime definido nesta Lei terá decretada sua liquidação forçada, seu patrimônio será considerado instrumento do crime e como tal perdido em favor do Fundo Penitenciário Nacional”. Destrinchando o tipo acima transcrito, é preciso, primeiramente, reiterar uma verdade constantemente atacada: as pessoas jurídicas podem sim ser responsabilizadas pelos atos praticados como tal. A liquidação forçada, no entanto, pressupõe uma finalidade específica, não encontrada em outros dispositivos, qual seja, a constituição ou utilização preponderante da entidade jurídica como um verdadeiro disfarce para a prática criminosa. Ora, seria o caso de uma empresa ser criada para viabilizar a prática de um crime ambiental, utilizada como instrumento para a realização do delito e, portanto, quase sempre indispensável para a sua consumação. Todavia, a mesma empresa pode ser operacionalizada para ocultar o delito ambiental, perfazendo uma figura tão deletéria quanto a consumação do crime propriamente dito. Deve-se, então, partir do sentimento que transborda as fronteiras da individualidade e atingir a sociedade numa perspectiva coletiva, porquanto se entende o meio ambiente como um direito fundamental difuso, devendo ser protegido, preservado e, quando infelizmente necessário, recuperado. Assim, não há alternativa mais harmônica com o ordenamento jurídico positivado acerca da preservação ambiental do que a liquidação forçada para as pessoas jurídicas que se destinam a mitigar essa conquista do povo. Longe de obstaculizar a livre iniciativa ou a atividade empreendedora, é preciso admitir que tais entidades empresárias não são, nem de perto, empreendedoras, mas, senão, devastadoras e predadoras do meio ambiente: utilizar a roupagem de outros direitos estatuídos na ordem econômica para, em verdade, disfarçar uma prática criminosa não garante o direito de menosprezar outros ditames – nesse caso o direito a um meio ambiente saudável e equilibrado –, notadamente muito mais imperativos do ponto de vista da comunidade nacional e internacional, especialmente no contexto hodiernamente vivido. Todo esse posicionamento pode ser revelado diante de uma interpretação sistemática da Lei dos Crimes Ambientais e inclusive da própria Constituição da República, tendo em vista que a LCA vislumbra a possibilidade da pessoa jurídica como agente de um delito ambiental e a Constituição permite a hipótese de perda de bens – liquidação do patrimônio e posterior incorporação a um fundo social como espécie de penalização, nos termos do art. 5º, inciso XLVI, alínea ‘b)’, da Constituição da República. Entretanto, como esse entendimento se baseia na proporcionalidade e na razoabilidade, é de igual importância 4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 ressaltar que a liquidação forçada se trata de uma exceção à regra, já que a sanção prevista para as entidades que são criadas ou utilizadas para permitir, facilitar ou ocultar crimes ambientais é a sua dissolução total. Não faz sentido preservar uma pessoa jurídica de atividade nitidamente perniciosa que, eivada de vícios e ilegalidades, se propõe a auxiliar a degradação do meio ambiente numa finalidade absurdamente desvirtuada. O princípio da ordem econômica e da atividade comercial que confere primazia à preservação de empresas em crise tem como motivação a importância socioeconômica do referido estabelecimento, em razão dos recursos financeiros e humanos envolvidos naquela atividade, mas não há pretensão alguma de assim agir quando a pessoa jurídica se utiliza desses mesmos recursos financeiros e humanos para a prática de crimes; repito: crimes contra a natureza partilhada por todos; há, portanto, que se fazer uma ponderação, na qual sairá invariavelmente vencedora a coletividade e, por conseguinte, o meio ambiente saudável para todos – saliente-se, ainda, que o patrimônio da empresa liquidada por práticas ilegais deverá ser revertido ao Fundo Penitenciário Nacional, como forma de destinar um capital, até então utilizado em favor do crime, a uma ação que busca incansavelmente reabilitar os condenados e prevenir a prática de novos delitos. Resumindo, penaliza-se a função meio para a consumação de crimes ambientais com a perda dos bens da respectiva pessoa jurídica, sendo eles incorporados a uma função social tão honrada quanto a preservação da própria natureza. É de igual importância firmar o posicionamento mais coerente com a Constituição da República quanto a pertinência da preservação ambiental como matéria protegida pelo direito penal. Partindo-se, então, da nova roupagem assumida pela política criminal após a Constituição de 1988, a ultima ratio passou a ser interpretada com base nos direitos fundamentais e por eles abalizada: não há como conceber a qualidade de bem jurídico de maior importância e, assim relevante, se este não estiver sob a manta da Constituição. Sendo assim, não há outra conclusão senão a de que a preservação do meio ambiente, aqui já exaustivamente consagrada como direito fundamental, merece sim o amparo do direito penal, o que, por si só, reforça a imperatividade da Lei dos Crimes Ambientais e renova a esperança de um desenvolvimento verdadeiramente sustentável. Tal entendimento tem fundamentação, inclusive, na doutrina. Para confirmar o que foi dito, faz-se mister simplesmente relembrar a lição dada por Luiz Regis Prado, quando asseverou que “o legislador constituinte brasileiro, ao erigir o ambiente – ecologicamente equilibrado – em direito fundamental, sufragou a noção de bem jurídico veiculada e, logo, a imprescindível conformação entre o injusto culpável ambiental e o sentir constitucional”; para o autor, é dever do poder legiferante sempre orientar-se na Carta Magna para eleger ou selecionar os bens jurídicos, assim como foi feito com a preservação ambiental (PRADO, 2005). Destarte, liquidação forçada assume um papel de notável relevância nas perspectivas sentidas em toda a sociedade, tendo em vista que se perfaz numa alternativa extremamente eficaz para coibir e prevenir futuros interesses pautados na degradação do ambiente saudável garantido a todos. É, por si só, uma medida de repressão aos que vão de encontro a preservação do meio ambiente e de toda a mobilização que há por trás da Lei dos Crimes Ambientais: esse diploma legal veio para, de fato, transformar a mentalidade da sociedade, no sentido de promover um desenvolvimento sustentável, sem que a atividade econômica seja utilizada para desprezar e ferir este direito fundamental, como é feito nos casos em que a liquidação é e deve ser aplicada. Sucintamente, trata-se da sanção mais incisiva ou severa, uma “desapropriação judicial da empresa” (SILVEIRA, OLIVEIRA, et al, 2003) Por fim, diante das preocupações acerca da legalidade ou razoabilidade da liquidação forçada, faz-se mister destacar que todo o raciocínio desenvolvido até aqui tem respaldo na própria Constituição da República. Partindo-se, então, da permissão dada pelo constituinte para a “perda de bens” como pena, conforme se depreende da alínea ‘b)’ do inciso XLVI do artigo 5º da Carta Magna, tal dispositivo se encaixa instantaneamente na liquidação forçada, especialmente quando esta determina que o patrimônio da empresa condenada pela viabilização, facilitação ou ocultação de crimes ambientais deve ser retirado de sua esfera de disponibilidade e passar a ser gerido pelo Fundo Penitenciário Nacional. De toda sorte, o artigo 170 da Lei Maior, por diversas vezes citado neste trabalho, corrobora com a solução ventilada de liquidação forçada, porquanto reafirma a defesa do meio ambiente em seu inciso VI como princípio da ordem econômica. Veja que a mesma ordem econômica que dá relevância à preservação da atividade empresarial é a mesma dimensão que consagra a preservação ambiental com a preponderância de um princípio, daí a incidência plena da desconstituição de uma pessoa jurídica por permitir, facilitar ou ocultar a prática de crimes ambientais. Por fim, nada mais conclusivo do que um capítulo inteiro dedicado ao meio ambiente, com ênfase no “dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (art. 225, caput, CR/88).

8. Conclusão
Pelo exposto, percebe-se que a defesa do meio ambiente, tão discutida ao longo dos anos, deve continuar sendo um dos objetivos principais da sociedade como um todo, uma vez que o mesmo é considerado um patrimônio da coletividade, sendo importante não apenas para os nossos contemporâneos, como também para as gerações vindouras, as quais devem continuar zelando para que esse meio ambiente continue sendo preservado. Diante disso, o processo de liquidação forçada possui importância ímpar no combate à destruição de diversos 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 patrimônios ambientais da humanidade, visto que submete ao mencionado processo, aquelas pessoas jurídicas que foram constituídas com o objetivo de permitir, facilitar ou ocultar a prática de crime definido na Lei de Crimes Ambientais. Tal medida, constitucionalmente aceita, deve ser aplicada com o intuito de proteger e preservar o meio ambiente e, quando necessário, recuperá-lo. Tudo isso se encontra amplamente respaldado pela Constituição da República de 1988, estando em indubitável consonância com os ditames constitucionais que norteiam as políticas criminais brasileiras, com o enfoque direcionado para a preservação do meio ambiente como direito fundamental. Por fim, defende-se a utilização da liquidação forçada nos casos definidos em lei, com a digna finalidade de auxiliar na constante luta contra as práticas criminosas que põem em risco a manutenção de um meio ambiente ecologicamente equilibrado; lembrando, inclusive, sua função social, na medida em que o patrimônio da empresa liquidada por práticas ilegais deve ser revertido ao Fundo Penitenciário Nacional, ou seja, destina-se um capital que, até então era utilizado a favor do crime, a uma ação louvável que busca reabilitar os condenados e prevenir a prática de novos delitos.

9. Agradecimentos
Agradecemos, pois, o incentivo dado por toda a equipe de discentes e docentes que integram o Programa de Recursos Humanos em Direito do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PRH-ANP/MCT Nº 36), notadamente pelo estímulo à pesquisa e à iniciação científica, prestando o apoio necessário a preparação e elaboração do presente trabalho, além do auxílio indispensável da instituição a qual estamos vinculados, a UFRN, que sempre propiciou as condições mais positivas para um verdadeiro desenvolvimento acadêmico.

10. Referências
CAVALCANTE, Amanda Barcellos; MEDEIROS, Hirdan Katarina de; FREITAS, Larissa Roque de. Lei de crimes ambientais: aplicações e reflexos atinentes à indústria do petróleo e gás. in: Direito ambiental aplicado à indústria do petróleo e gás natural. Organizadores: Edilson Pereira Nobre Júnior et al. Fortaleza: Fundação Konrad Adenauer, 2005. COPOLA, Gina. A lei dos Crimes ambientais comentada artigo por artigo: jurisprudência sobre a matéria. 2. ed. rev e atual. Belo Horizonte: Fórum, 2012. MOTA, Tercio De Sousa. BARBOSA, Erivaldo Moreira. MOTA, Gabriela Brasileiro Campos. A “pena de morte” da pessoa jurídica que comete crimes ambientais. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, 86, 01/03/2011. Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9100>. Acesso em 12/04/2012. PRADO, Luiz Regis. Direito penal do ambiente: meio ambiente, patrimônio cultural, ordenação do território e biossegurança (com a análise da lei 11.105/2005). São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2005. SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. São Paulo: Malheiros, 2002. SILVEIRA, André; OLIVEIRA, Eduardo Rodrigues Albuquerque de et al. A responsabilidade penal da pessoa jurídica e a Lei dos Crimes Ambientais. Jus Navigandi, Teresina, ano 8, n. 141, 24/11/2003 . Disponível em: <http://jus.com.br/revista/texto/4504>. Acesso em: 21/04/2012.

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