IBP1578_12 DIFERENCIAIS ENTRE PREÇOS DE PETRÓLEO: AVALIANDO O IMPACTO DA DENSIDADE, ENXOFRE E ACIDEZ 1 Eduardo S. Lima , Marcelo A.

Duque 2, Raquel Nadal3

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
As diferenças físicas entre os petróleos são um fator determinante do valor das correntes comercializadas no mercado internacional. O trabalho busca avaliar, a partir de uma análise estatística, o impacto de diferenças de qualidade entre os petróleos sobre os diferenciais de preços entre os mesmos. Mais especificamente, são avaliados os impactos da densidade, acidez e grau de enxofre sobre o diferencial de preços dos petróleos em relação ao Brent. Para isso, foi utilizado um painel dinâmico com uma amostra de 90 petróleos ao longo do período de janeiro de 2009 a dezembro de 2010. Os resultados estimados apontam para um prêmio de US$ 0.002 por dólar de Brent para cada unidade de °API, um desconto de US$ 0,056 por dólar de Brent para cada percentual de enxofre e um desconto de US$ 0,09 por dólar de Brent para cada unidade adicional de TAN. O desconto encontrado para o TAN é superior a estimativas de estudos anteriores que utilizaram amostras com um período mais antigo, o que pode ser um indicativo de aumento do desconto para a característica de acidez ao longo do tempo.

Abstract
The physical differences between oils are a main factor on the value determination of the oil streams commercialized in the international oil market. This work seeks to evaluate, on the basis of a statistical analysis, the impact of differences in qualities over oil price differentials. More specifically, we evaluate the impact of density, acidity and sulfur levels on the differences of oil prices in relation to Brent. In order to do so, a dynamic panel with a sample of 90 streams over the period of January 2009 to December 2010 was used. The estimated results point to a long run premium of around US$ 0,002 per dollar of Brent for each additional unity of °API, a discount of US$ 0,056 per dollar of Brent for each percent increase of sulfur, and a discount of US$ 0,09 per dollar of Brent for each additional unity of TAN. The TAN discount is larger than previous studies estimates, which used samples with older time range, which might be an indicative of an increase of the acidity discount over time.

1. Introdução
As diversas correntes de petróleos comercializadas no mercado internacional apresentam características físicas distintas que, dependendo da configuração do parque de refino, determinam as frações de produtos a serem produzidos no processo de refino e, consequentemente, o valor da corrente de petróleo em questão. Este trabalho busca estimar os efeitos dos diferenciais de qualidade sobre os diferenciais de preços de petróleo a partir de uma análise estatística. Mais especificamente, a metodologia proposta busca avaliar o impacto de diferenças na densidade, grau de enxofre e acidez sobre os preços dos petróleos em relação a um petróleo marcador, o Brent. Desta forma, a segunda seção faz uma breve análise sobre diferentes características físicas do petróleo que impactam seu preço, os principais fatores que determinam os diferenciais de preços entre os petróleos e uma breve descrição da dinâmica dos diferenciais nos últimos anos. A terceira seção faz uma breve resenha dos resultados de análises estatísticas sobre o impacto dos diferenciais de qualidade sobre os preços, apresenta uma primeira avaliação a partir de simples correlações e, finalmente, descreve a metodologia proposta e os resultados encontrados. A quarta seção conclui o trabalho.

______________________________ 1 Mestre, Economista – PETROBRAS - Petróleo Brasileiro S.A. 2 Doutorando, Economista – PPE/COPPE-UFRJ 3 Doutorando, Economista – PPE/COPPE-UFRJ

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

2. Preços de Petróleo e Diferenciais de Preços
2.1. Diferenciais de Preços de Petróleo O petróleo é uma commodity cuja comercialização segue uma gama de regras relacionadas às suas características geológicas. A discussão acerca da precificação das diversas correntes de líquidos incorpora as especificidades que determinam sua curva de destilação e rendimentos de derivados. Na busca de valorar adequadamente uma corrente, devese considerar as características físicas do petróleo, essencialmente a densidade, o teor de enxofre e o seu grau de acidez. De acordo com o American Petroleum Institute (API), que classifica os petróleos conforme sua densidade volumétrica ou seu grau API (Sklo, 2008), petróleos leves são aqueles com API acima de 31,1. Petróleos médios encontram-se na faixa de 22,3 até 31,1, os pesados entre 10 e 22,3, enquanto os extra-pesados possuem API abaixo de 10. A qualidade do cru é denominada pela indústria através do seu teor de enxofre, que varia em uma faixa de 0,02% e 4%. Petróleos com teor de enxofre acima de 2% são considerados azedos, podem provocar corrosão em equipamentos e contaminação de catalisadores em refinarias. Existe forte correlação positiva entre petróleos leves e doces, apesar de serem encontradas importantes correntes no mundo de óleos leves e azedos. Outro aspecto que também merece atenção no que diz respeito à formação dos preços do petróleo: o grau de acidez. Esta métrica é quantificada através de um indicador (Total Acid Number - TAN), que aufere a presença de determinados contaminantes, como o oxigênio, em uma corrente de petróleo. Considera-se um óleo ácido aquele com TAN > 1, embora um grau de acidez maior do que 0,5 já provoque dificuldades técnicas no processo de refino. Dessa forma, é esperado que óleos com grau de acidez acima de 0,5 já estejam sujeitos a descontos em seus preços, exclusivamente por essa característica. Tendo em vista que o petróleo não é uma commodity homogênea, esse mercado evoluiu ao longo das décadas de 1970 e 1980 na busca pela precificação das correntes a partir de diferenciais em relação a correntes de petróleos consideradas de referência. Estes petróleos, também denominados marcadores, seriam aqueles que, por apresentarem características específicas, poderiam ser considerados como um bom reflexo da situação do mercado. Dentre estas características, por exemplo, estão um volume significativo de produção e um mercado de tal corrente bem desenvolvido, que garanta transparência e liquidez às transações realizadas. Desta forma, ao negociar um petróleo qualquer a partir de um diferencial em relação a um marcador, o comprador e o vendedor simplificam o processo de avaliação das condições do mercado, focando a transação no valor das diferenças de qualidade intrínsecas do petróleo em questão e o marcador e, ainda, em custos logísticos que podem variar de acordo com o local de produção e centro de refino do óleo. De uma forma geral, dentre os principais petróleos de referência que evoluíram no mercado de petróleo estão o Brent (38º API, 0,4% de enxofre), referência para diversos petróleos na Bacia do Atlântico, o West Texas Intermediate (WTI – 40º API, 0,4% de enxofre), referência para petróleos no mercado dos EUA, além do Dubai Fateh (31º API, 2,0% de enxofre), referência para os petróleos asiáticos. Em geral, petróleos mais pesados, com maior teor de enxofre ou com maior nível de acidez do que os petróleos de referência são negociados usualmente com descontos em relação a estes, tendo em vista o menor rendimento de frações leves no processo de refino, além de cuidados especiais que podem ser necessários para o seu processamento. Tais diferenciais de preços determinados pelas características dos petróleos são definidos como diferencial leve-pesado, no caso da densidade, diferencial doce-azedo, no caso do teor de enxofre, e diferencial de acidez, no caso do nível de acidez. De acordo com Machado (2004), existem três fatores principais, e inter-relacionados, que afetam o diferencial leve-pesado, que podemos também generalizar para as demais qualidades intrínsecas dos óleos. Primeiro, o próprio balanço de oferta e demanda por tipo de óleo. Uma redução da oferta de petróleos leves, de baixo teor de enxofre ou de baixa acidez tenderá a provocar um impacto sobre os respectivos diferenciais de qualidade, tudo o mais constante. Um segundo ponto é o balanço de oferta e demanda por tipo de derivados. Diferenciais entre os derivados podem impactar a demanda por petróleos de qualidades específicas que rendem produtos de maior valor. No caso do diferencial levepesado, por exemplo, a demanda por derivados leves, médios ou residuais tem também um impacto sobre a qualidade do petróleo a ser processada na refinaria e, consequentemente, sobre a demanda por tal óleo. Um aumento do prêmio entre derivados leves e pesados, portanto, aumenta a demanda por petróleos leves, que rendem maiores frações de produtos leves, e pressionam os preços destes em relação aos demais petróleos. Por fim, um último ponto é a característica do parque de refino disponível, seja a questão de conversão, tratamento ou adaptação metalúrgica. Mesmo uma capacidade de processar óleos pesados de algumas refinarias, por exemplo, pode esbarrar na presença do alto teor de enxofre ou mesmo no grau de acidez de determinada corrente, que podem penalizar severamente os rendimentos, a qualidade dos derivados e até mesmo a estrutura metalúrgica das unidades de destilação e craqueamento. Cabe destacar que, dependendo do peso do teor de acidez do petróleo, maiores as chances de restrições ao processamento da carga. Nesse caso, a refinaria que processa um óleo ácido deve investir em metalurgia adequada, no sentido de evitar a corrosão dos equipamentos. Consequentemente, há impactos nos custos de refino, que devem ser creditados ao perfil da carga processada. Um aumento na participação de óleos ácidos na oferta global de petróleo que não seja acompanhado de concomitante adequação do parque de refino global resultaria em ampliação dos diferenciais entre petróleos associados a essas correntes. 2

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Nos próximos anos haverá importante incremento da produção mundial de petróleo, cujas frações ácidas e azedas irão assumir um papel cada vez mais importante na oferta global de líquidos (OPEC, 2009). Essa perspectiva aumenta a relevância de uma metodologia de precificação de óleos caracterizados por um peso maior de contaminantes. Vale ressaltar, ainda, o impacto do grau de acidez sobre uma série de eventos, tais como: a necessidade de investimento em adequação metalúrgica nas refinarias, as margens de refino, alterações nos diferenciais entre leves e pesados, novos fluxos mundiais de líquidos e a trajetória do preço do petróleo. 2.2. Evolução dos Diferenciais no Mercado de Petróleo Ao se fazer uma breve retrospectiva da evolução dos diferenciais entre correntes de petróleo, observa-se elevada volatilidade desse indicador, refletindo mudanças importantes no mercado internacional da commodity e, consequentemente, na rentabilidade da atividade de refino. A primeira década do século XXI é emblemática acerca das oscilações dos diferenciais e de seus impactos sobre as margens de refino. O início de um ciclo virtuoso da economia mundial mostrou que novas forças, representadas pelos países emergentes, principalmente pela China, emergiam no cenário internacional. Eles se tornaram a principal força motriz da demanda global, assumindo um papel cada vez mais importante na esfera política. Contudo, o perfil de crescimento econômico dessas nações está embasado num modelo energo-intensivo, caracterizado pelo consumo marcante de combustíveis fósseis. Como ingrediente adicional, a política regulatória desses países implementou regras para controle de preços sobre derivados, com finalidade de controle inflacionário. Um dos resultados foi o choque de demanda que a economia passou a absorver a partir de 2004, impulsionado pelo controle de preço de derivados combinado com o aumento da renda da população dos países em desenvolvimento. Nesse sentido, o balanço de petróleo e o balanço de derivados passam a pressionar o diferencial leve-pesado, que se eleva de forma espetacular ao longo dos anos subsequentes. Enquanto crescia a demanda por derivados leves e se acirravam as restrições ambientais sobre as emissões de poluentes dos combustíveis automotivos, grande parte do perfil do refino internacional não estava preparado para processar cargas pesadas, azedas e ácidas. A inadequação do parque de refino mundial à carga disponível para atendimento da demanda por derivados levou a uma ampliação ainda mais expressiva dos diferenciais entre petróleos, promovendo o aumento de margens de refino para níveis extraordinários, atingindo o ápice em 2007, quando foi cunhado o termo da era de ouro do refino. A crise deflagrada no segundo semestre de 2008 gerou nova dinâmica ao mercado de petróleo e derivados, resultando em um significativo estreitamento do diferencial entre petróleos leves e pesados. A reversão do quadro anterior do balanço de petróleo e derivados culminou com a partida de inúmeros projetos de modernização do parque de refino mundial, investimentos planeados e iniciados no período anterior com objetivo de aumentar a capacidade de processamento de óleos pesados e com alto teor de poluentes. O resultado foi a redução da carga processada e o fechamento de diversas refinarias, principalmente na Bacia do Atlântico, na costa leste dos EUA e na Europa. Ao longo de 2010, a retomada da atividade econômica nos países emergentes, a redução do compliance da OPEP e a recuperação do preço do petróleo (impulsionado principalmente pela expectativa de crescimento da economia mundial), viabilizaram uma melhora nos patamares dos diferenciais. Em 2011, questões geopolíticas e eventos naturais impactaram o mercado de petróleo e os diferenciais entre os preços. O conflito armado na Líbia e o terremoto no Japão tiveram forte influência na disponibilidade da oferta de óleo leve e na demanda de frações pesadas na Ásia, voltadas para o atendimento de demanda térmica. Desde então, os diferenciais entre correntes leves e pesadas vêm se ajustando às questões de mercado, aumentando sua correlação com o preço do petróleo.

3. Análise Estatística sobre os Diferenciais
Existem diversas abordagens para avaliar o valor relativo de petróleos com diferentes especificações. Normalmente, as refinarias valorizam seus petróleos com base em análises laboratoriais, o que dá uma descrição detalhada dos rendimentos de frações produzidas em destilação padrão. Com base nessas informações, a refinaria estima qual o valor ideal do petróleo através de simulação ou programação linear, levando em consideração sua tecnologia e as unidades de refino disponíveis. No entanto, tais análises laboratoriais de diferentes petróleos são caras e consomem tempo, o que as torna menos práticas quando o analista requer apenas uma ideia média de diferenciais de preço do petróleo. Neste sentido, vários estudos utilizam abordagens estatísticas, como comparações diretas entre petróleos ou regressões múltiplas para lidar com este problema. Em geral, os estudos estatísticos geralmente focam-se nos diferenciais leve-pesado e doce-azedo. Por exemplo, Wang (2003), a partir de um modelo de preços hedônico, estima que cada grau de API aumenta o preço de um petróleo em US$ 0,13/bbl, utilizando um conjunto de dados de 1992. Uma exceção é Bacon e Toro (2004) que também avaliam a questão da acidez sobre os diferenciais de preços. Utilizando um conjunto de dados mais recentes, de abril de 2004 a junho de 2005, e uma análise de painel dos preços de diversos petróleos, os autores estimam que cada grau adicional de API aumenta o preço de um petróleo em cerca de US$ 0,28/bbl, a um preço de Brent de US$ 40/bbl. Os autores concluem 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 ainda que, para cada unidade adicional de TAN, o preço é reduzido em US$ 2,04/barril em relação ao Brent, também a um nível de US$ 40/bbl para o petróleo de referência. Em um estudo recente, Stratiev et al (2010), com base em diferenças entre preços médios de grupos de petróleos com qualidades distintas, no período de junho de 2009, avalia que um petróleo de alta acidez (com TAN> 0,5 mg KOH / g) pode ser aproximadamente US$ 9/bbl menor do que outros petróleos de baixa acidez, mas com mesma densidade e teor de enxofre. A análise estatística efetuada neste trabalho segue duas etapas expostas nas subseções seguintes. Primeiro é realizada uma análise de correlações simples entre petróleos de qualidades distintas, o que apresenta uma primeira estimativa para os diferenciais de qualidade e, ainda, explicita a relação positiva entre os diferenciais e o próprio nível de preços do petróleo de referência. A segunda subseção apresenta uma análise mais robusta: um painel com mais de oitenta correntes de óleo foi estimado com o objetivo de medir os efeitos parciais dos diferenciais de qualidade sobre os preços de petróleo controlando para demais variáveis que afetam os preços. 3.1. Correlação Simples entre Preços e Diferenciais Uma primeira estimativa para o impacto da qualidade sobre os diferenciais de preços pode ser calculada a partir das diferenças médias dos preços de petróleos que, em geral, apresentam características físicas similares, com exceção de apenas uma característica de qualidade. Desta forma, em uma primeira aproximação, a diferença de preços entre duas correntes pode ser atribuída a esta característica destoante. Por exemplo, o diferencial entre leve-pesados pode ser calculado a partir das correntes Abu Attifel e Cabinda. A primeira é oriunda da Líbia, enquanto a segunda, de Angola. Ambas apresentam baixo teor de enxofre e acidez, isto é, são hidrocarbonetos com pequena quantidade de impurezas na sua constituição. No entanto, divergem consideravelmente no que diz respeito à densidade. Enquanto o petróleo líbio possui API = 43,3, no caso do angolano o API é em torno de 31. Dessa forma, o desconto relativo a essas duas correntes está fortemente associado ao nível de densidade. Já o diferencial doce-azedo foi definido com base nas correntes Cabinda e Dubai. O Dubai é uma corrente proveniente dos Emirados Árabes e ambos os petróleos são commodities de elevado grau de comercialidade no mercado internacional. A densidade destes dois tipos de óleo apresenta forte similaridade, com API entre 30 e 32. Da mesma forma, a acidez também é baixa em ambos os casos. No entanto, o teor de enxofre presente nessas correntes mostra indicadores muito diferentes. Enquanto o Cabinda é um óleo doce, com apenas 0,12% de enxofre, o Dubai contém níveis acima de 2% deste contaminante. Nesse sentido, o diferencial entre esses dois óleos pode ser, em uma primeira aproximação, atribuído em grande parte à participação do enxofre na sua constituição. Por fim, o grau de acidez do petróleo é definido a partir das correntes Marlim e Vasconia. O Marlim é um petróleo brasileiro produzido na Bacia de Campos, enquanto o Vasconia é um petróleo venezuelano. Ambos são óleos que possuem densidade relativamente alta, embora o Vasconia apresente °API sensivelmente maior, 26 contra 19. No entanto, ambos estão distantes daqueles considerados leves. As duas correntes caracterizam-se por serem relativamente “doce”, pois possuem aproximadamente o mesmo teor de enxofre, em torno de 0,75. Desta forma, o grau de acidez é o principal elemento diferenciador entre as correntes, tendo o Marlim um TAN=1,32, enquanto o Vasconia possui um nível de acidez significativamente menor, com TAN=0,24. O nível do preço do petróleo é uma variável relevante na amplitude dos diferenciais de qualidade. Em geral, no mercado de petróleo, quanto maior o preço dos petróleos de referência, maior o prêmio negociado para petróleos de maior qualidade. Essa afirmação pode ser comprovada através de uma regressão linear, dos diferenciais de qualidade sobre o preço do petróleo de referência, neste caso, o Brent. Para esta análise foram utilizados séries de preços mensais de julho de 2003 a dezembro de 2011. A Tabela 1 apresenta os resultados das estimativas das três regressões por mínimos quadrados ordinários, com as estatísticas t e respectivos p-valores. Pode ser observado que os coeficientes para o Brent são estatisticamente significantes, evidenciando a relação positiva do nível de preços sobre o diferencial. De acordo com as estimativas, para o caso do diferencial leve-pesado e doce-azedo, cada variação positiva de US$ 1/bbl no preço do petróleo marcador, há um aumento de US$ 0,02/bbl nos diferenciais. Ainda, observa-se que para cada variação positiva de US$ 1/bbl no preço do petróleo marcador, há um aumento de US$ 0,034/bbl do diferencial de acidez.

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Tabela 1. Resultado das estimativas para diferenciais leve-pesado, doce-azedo e acidez Diferencial Leve-Pesado Diferencial Doce-Azedo (Abu Attifel -Cabinda) (Cabinda-Dubai) 0.02 0.02 3.64 2.67 0.00 0.01 0.95 2.48 0.01 0.12 0.07 0.13 0.90 0.07 Diferencial Acidez (Vasconia-Marlim) 0.034 5.89 0.00 1.56 3.54 0.00 0.26

Brent Estat. T P-Valor Constante Estat. T P-Valor R2

Generalizando, como sugerido anteriormente, considerando um nível de Brent de US$ 100/bbl, o prêmio de densidade por °API adicional seria de, aproximadamente, US$ 0,24/bbl (dividindo o valor previsto da relação estimada pela diferença de 12,3°API entre os petróleos). De forma similar, o desconto de enxofre estimado, por %S adicional, é de US$ 1,00/bbl e o desconto pelo aumento da acidez em uma corrente de petróleo, por TAN adicional, é estimado em, aproximadamente, US$ 4,00/bbl. No entanto, apesar de uma primeira aproximação, tais estimativas para os diferenciais de qualidade podem apresentar diversos problemas. As variações entre os diferenciais de preços escolhidos, particulares a relação destes petróleos, pode não ser necessariamente extrapolada para a relação dos demais petróleos. Ainda, a falta de um controle por demais variáveis explicativas pode ocasionar um viés nestas estimativas. A próxima seção tenta explorar estas questões, através de uma análise estatística considerada mais adequada para o problema em questão, por incluir a relação dos diferenciais de qualidade de diversos petróleos ao longo do tempo, além da inclusão de variáveis de controle. 3.2. Análise de Painel dos Diferenciais A metodologia para a estimação do impacto dos diferenciais de qualidade sobre os diferenciais de preços é baseada em Bacon e Tordo (2005). O modelo é estimado a partir de uma análise de painel de diversos petróleos em relação a um marcador ao longo do tempo. A hipótese utilizada é que tais diferenciais de preços dependem dos diferenciais de qualidade dos petróleos em relação ao marcador e, ainda, que o impacto do diferencial de qualidade é distinto de acordo com o nível de preços do petróleo de referência. Desta forma, a relação entre os diferenciais de preços e de qualidade entre os petróleos pode ser dada pela Equação 1 abaixo:

preçoit    ( pit * qualidadeit )

(1)

Para a estimação do modelo, foram utilizados 90 petróleos provenientes de diversas regiões do globo e com características físicas distintas. O petróleo utilizado como referência foi o Brent, um dos principais petróleos marcadores internacionais, sendo leve, com baixo teor de enxofre e baixo nível de acidez. Dentro da amostra de petróleos, o grau API varia de 16,5 (o petróleo venezuelano BCF-17) a 54,4 (Senipah, da Indonésia). O petróleo mais azedo dentro da amostra é sírio Souedieh (com teor de enxofre de 4,2%) e o de maior acidez é o Lokele, do Camarões (2,7 TAN). Como problemas de acidez do petróleo só se tornam significantes no processo de refino a partir de certo nível de TAN, o diferencial de qualidade para a acidez foi definido a partir de uma variável de excesso de acidez. Caso o TAN do petróleo em questão seja maior do que 0,5, a variável apresenta o valor do diferencial de acidez, sendo igual a zero caso contrário. Dentro da amostra, 14 petróleos apresentam nível de acidez acima de 0,5. Os dados são mensais e compreendem o período de janeiro de 2009 a dezembro de 2010, momento de recuperação dos preços de petróleo internacionais pós-crise de 2008 e em que o mercado de petróleo mostrou certa estabilidade em termos de seus fundamentos. Desta forma, em relação ao período pós-crise, exclui-se da análise os anos de 2008 e 2011, que apresentam choques de demanda, com a crise internacional, e de oferta, com disrupcões na Líbia e demais países afetados pela Primavera Árabe. Os preços dos petróleos foram obtidos via Platts ou Bloomberg, enquanto suas características físicas são dadas pelo International Crude Oil Market Handbook (Energy Intelligence Group, 2010). Além dos diferenciais de qualidade, foram incluídos no modelo como variáveis explicativas o frete entre regiões e dummies mensais. O objetivo da inclusão do frete é permitir que o modelo capture diferenças nos preços de petróleo devido a variações nos custos de transporte, sendo o frete definido como o custo de transporte entre a região de origem do petróleo ao Noroeste da Europa, região onde é produzido o petróleo utilizado como marcador, o Brent. Os preços dos fretes foram obtidos pela Bloomberg. Já as dummies mensais identificam possíveis diferenças sazonais que podem existir entre os preços. Assim como no artigo original, foi incluído na modelagem um ajuste dinâmico através de um termo de defasagem da variável dependente. Tal ajuste determina que mudanças no nível de Brent, na qualidade ou nos fretes não 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 são diretamente transferidas para os diferenciais de preços, ocorrendo um ajuste parcial a cada período e ao longo do tempo. Tendo em vista a estrutura dinâmica do painel e o problema de endogeneidade da variável defasada, o modelo foi estimado a partir do estimador dinâmico de Arellano e Bond, que utiliza variáveis defasadas como instrumentos para o modelo (Bond, 2002). Os resultados das estimativas do modelo são apresentados na Tabela 2. Tabela 2. Resultado das estimações do painel dinâmico de Arellano e Bond Variável Constante Diferencial Preçot-1 Preço x API dif. Preço x S dif. Preço x Excesso TAN D_jan D_fev D_mar D_abr D_mai D_jun D_jul D_ago D_set D_out D_nov Frete Norte America Frete Asia-Pacifica Frete África Frete America Latina Frete Golfo Pérsico Coef. 0.384 0.52 0.001 -0.027 -0.044 0.625 -0.152 0.007 -0.857 0.247 0.048 0.102 -0.233 0.021 0.566 0.148 1.303 -0.153 0.450 -0.015 0.671 Std. Err. 0.366 0.034 0.002 0.011 0.021 0.160 0.117 0.148 0.138 0.125 0.103 0.116 0.101 0.091 0.099 0.066 0.309 0.094 0.145 0.252 0.130 z 1.05 15.2 0.54 (2.47) (2.05) 3.90 (1.30) 0.05 (6.22) 1.97 0.47 0.88 (2.30) 0.23 5.70 2.22 4.22 (1.63) 3.10 (0.06) 5.18 P>|z| 0.29 0.59 0.01 0.04 0.19 0.96 0.05 0.64 0.38 0.02 0.82 0.03 0.10 0.00 0.95 [95% Int. Confiança] -0.333 1.102 0.451 0.586 -0.002 0.004 -0.049 -0.006 -0.086 -0.002 0.311 0.939 -0.381 0.077 -0.284 0.298 -1.128 -0.587 0.001 0.493 -0.154 0.251 -0.126 0.330 -0.432 -0.034 -0.157 0.198 0.372 0.761 0.017 0.278 0.697 1.909 -0.337 0.031 0.166 0.734 -0.509 0.480 0.417 0.926

As dummies para ajuste sazonal e de frete apresentam valores pequenos, mas, em geral, significativos. Já os coeficientes de qualidade apresentam os sinais esperados, mas a estimativa do impacto em relação à densidade não se mostrou significativa. Os coeficientes de qualidade são mensurados em unidade de qualidades por dólar de Brent. Desta forma, tomando os valores de longo prazo (o valor de longo prazo é calculado a partir da divisão do coeficiente de qualidade por um menos o coeficiente da variável dependente defasada), cada unidade adicional de API aumenta o diferencial de preços em US$ 0,002 por dólar de Brent. Já para o caso de enxofre, cada ponto percentual a mais reduz o diferencial de preços em US$ 0,056 por dólar de Brent. Por fim, cada unidade adicional de TAN reduz o diferencial de preços em US$ 0,09 por dólar de Brent. Desta forma, a um Brent com nível médio de US$ 100/bbl, seria esperado, tudo o mais constante ao longo do tempo, um desconto de US$ 2/bbl para um petróleo com 10°API a menos que o Brent, um desconto de US$ 5,6/bbl para um petróleo com 1% de enxofre a mais que o Brent e US$ 9/bbl para um petróleo com nível de acidez 1 TAN maior que o Brent. Estas estimativas são, de uma forma geral, similares àquelas obtidas por Bacon e Tordo (2005), caso avaliadas a um nível de Brent de US$ 40/bbl. A diferença mais significativa se dá no impacto da acidez sobre os descontos nos diferenciais, sendo a estimativa neste período cerca de 80% maior que a de Bacon e Tordo (2005), que foi feita para o intervalo entre janeiro de 2004 e abril de 2005. No entanto, o valor é coerente com o resultado encontrado por Stratiev et al (2010), que utilizou uma amostra mais recente. Este resultado pode ser um indicativo de que adaptações metalúrgicas e outros investimentos necessários para possibilitar o refino de petróleos de maior acidez estejam ocorrendo em um ritmo mais lento do que a expansão da oferta de tais petróleos, resultando em maiores descontos ao longo do tempo.

4. Conclusões
Este trabalho buscou avaliar os impactos dos diferenciais de qualidade de petróleo sobre os seus preços a partir de uma análise estatística de dados de painel. Observou-se que, para o período de 2009 e 2010, o nível de acidez e de enxofre nos petróleos foram fatores determinantes nos descontos dos mesmos em relação ao petróleo utilizado como referência, o Brent. O desconto no preço do óleo pelo diferencial de enxofre ao foi similar ao encontrado por estudos anteriores, como o de Bacon e Tordo (2005) e Stratiev et al (2010). De acordo com os resultados, uma elevação de 1% do teor de enxofre, a um preço do Brent de US$ 100/bbl, leva a um aumento do diferencial de cerca de US$ 5,6/bbl. 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 Já para o caso da acidez, o desconto no preço dos óleos em relação ao petróleo de referência foi bastante superior ao encontrado por Bacon e Tordo (2005), embora similar ao encontrado por Stratiev et al (2010). Os diferentes resultados podem sinalizar diferentes períodos do tempo para os quais a análise foi realizada (de 2004 a 2005 no caso de Bacon e Tordo (2005), e um período mais recente, entre 2009 a 2010, em Stratiev et al (2010) e neste trabalho). Uma hipótese que pode ser levantada para explicar tal diferença de resultado é a de que, no período de 2004 a 2010, mudanças na indústria de refino podem ter ocorrido, como, por exemplo, investimentos em adaptação metalúrgica aquém dos necessários para o processamento de petróleos de maior acidez, o que justificaria o maior desconto encontrado para óleos mais ácidos. Dessa maneira, para trabalhos futuros, interessante seria realizar uma análise qualitativa do mercado de refino e da estratégia de comercialização de petróleos ácidos, com o objetivo de verificar/justificar as evidências quantitativas encontradas neste trabalho. Ainda, o uso de outras metodologias para avaliar a questão dos descontos de qualidade entre estes períodos de análise pode ser outro ponto de estudo futuro para comparação dos atuais resultados encontrados.

5. Referências
BACON, R., TORDO, S. Crude Oil Prices. The World Bank Group, Public Policy for the private sector - Note Number 275, Outubro 2004. BACON, R., TORDO, S. Crude Oil Price Differentials and Differences in Oil Qualities: A Statistical Analysis. ESMA Technical Paper 81, Outubro 2005. BOND, S. R. Dynamic panel data models: a guide to micro data methods and practice. Portuguese Economic Journal Vol 1, n°2, p-141-162, 2002 ENERGY INTELLIGENCE GROUP, International Crude Oil Market Handbook 2010. 2010 MACHADO, G. Geopolítica do Petróleo e Suas Implicações Sobre as Estratégias Produtivas e Tecnológicas para o Aproveitamento dos Recursos Nacionais. Trabalho Técnico. Rio Oil & Gas Expo and Conference 2004, 2004 SKLO, A., ULLER, V. Fundamentos do refino de petróleo: tecnologia e economia 2ª Ed. Ver. e ampl. – Rio de Janeiro: Interciência, 2008 STRATIEV, D., R.DINKOV, K. PETKOV E K. STANULOV (2010) “Evaluation of Crude Oil Quality” Petroleum and Coal Journal vol.52 (1), 2010 OPEC (2009) “World Oil Market Outlook 2009”, OPEC Secretariat, 2009 WANG, Z. (2003). “Hedonic prices for crude oil.” Applied Economics Letters (10): 857-861.

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