TRICEVERSA

Revista do Centro Ítalo-Luso-Brasileiro de Estudos Lingüísticos e Culturais ISSN 1981 8432 www.assis.unesp.br/cilbelc TriceVersa, Assis, v.2, n.1, maio-out.2008

CILBELC

DUAS VIAGENS AO ALÉM. DESTINAÇÃO: INFERNO
Maria Teresa Arrigoni UFSC
RESUMO Neste trabalho, pretendo percorrer o espaço da punição eterna através de dois textos medievais de diferentes procedências, confrontando um imaginário do Oriente, com outro do Ocidente. Trata-se do Livro da Escada, narrativa que segundo a tradição teria sido de autoria do próprio Maomé e a Divina Comédia de Dante Alighieri. PALAVRAS-CHAVE Inferno, Dante, Livro da Escada. ABSTRACT In this work, I intend to cover the space of the eternal punishment through two different medieval texts from different origins, comparing an imaginary from the West and one from the East. It’s about Livro da Escada, narrative that according to the tradition was written by Mahomet himself and the Divina Comédia by Dante Alighieri. KEYWORDS Hell, Dante, Livro da Escada.

...e os lançará na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes (Mt, 13,42).

A proposta deste trabalho é a de apresentar duas viagens ao inferno realizadas por dois personagens distintos, em duas épocas distintas. Trata-se das narrativas contidas no Libro della Scala1 e na Divina Comédia.2 Da Divina Comédia conhecemos o autor, Dante Alighieri, sabemos que nasceu em Florença em 1265 e que morreu em Ravenna, em 1321, após ter sido exilado de sua cidade natal. Temos acesso também às outras obras que escreveu: Vita Nuova, De Vulgari Eloquentia, Convivio, Monarchia, Rime, para citar as mais conhecidas e podemos datar sua principal obra, colocando-a nos primeiros anos do século XIII. De fato, a primeira parte, o Inferno, escrita entre 1304 e 1305, segundo alguns autores, ou entre 1306 e 1307, segundo
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Utilizo a versão italiana, com posfácio e notas de Carlo Saccone. A versão utilizada apresenta os comentários e notas de Emilio Pasquini e Antonio Quaglio.

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a respeito do qual parece não haver dúvida. nos remete à sura da ‘viagem noturna’. a viagem de Maomé. vejamos um pouco da trajetória do Libro della Scala. além de detectar e defender a presença de fontes islâmicas na concepção da obra-prima de Dante. n. tal qual o lemos hoje. o Paraíso. pois. especificamente. L’escatologia islamica nella Divina Commedia. ou a partir de fatos ligados à vida do Profeta.2008 . Helmi Nasr. o Onividente. apresentados em 1949 por José Muñoz Sendino. 3 37 TriceVersa.outros.1. 1) Segundo o tradutor. Assis. maio-out. o profeta dirigiu-se à Mesquita de Jerusalém. enquanto que a última parte.2. a partir de dois manuscritos do século XIII. Deixando de lado. autor de Dante e l’Islam. Esses manuscritos têm sua história: Miguel Asín Palacios (1871-1944). reunidas e estudadas pelo arabista espanhol Miguel Asín Palacios. alguns de Nossos Sinais. saindo da Mesquita Sagrada de Meca. praticamente ocupou o poeta até a data de sua morte. Em termos de autoria. Deste ponto de partida. falecendo após ter realizado sua última peregrinação a Meca. realizou nessa obra um profundo estudo sobre as diferentes versões da viagem de Maomé. já que ocupariam um espaço bem maior e nos levariam a trilhar o caminho das fontes da obra em questão. conhecidas com Hadit. (Alcorão.3 no início do século XX. Já sobre o Libro della Scala (LS) será preciso reconstruir um caminho bem mais labiríntico. que não serão abordadas aqui. em que se lê: Glorificado seja Quem fez Seu servo Muhammad viajar à noite  da Mesquita Sagrada para a Mesquita Al-‘Aqsa. que viveu entre 570 e 632. segundo Helmi Nasr. insere-se nas narrativas das tradições. XVII. a narrativa começa a se fragmentar em um grande número de versões ao longo do tempo. era conhecida a partir de 1313. inspiradas em trechos do Alcorão. em nota da versão do Alcorão utilizada. Por certo. Ele é o Oniouvinte. que se configura. ruptura). v. os lugares abençoados referem-se ao local sagrado de adoração a Deus e os Sinais referem-se às revelações que o Profeta recebeu ao longo de sua viagem. essas diferentes versões. em seguida. Esta narrativa. dez anos depois do início da hégira (que significa exílio. provável época em que já se preanunciava o Purgatório. cujos arredores abençoamos  para mostrar-lhe.

191)..]. encontra a sombra de Virgílio. os protagonistas conhecem seu guia: o anjo Gabriel será o guia durante todo o percurso da viagem de Maomé. que vai ser seu guia por 4 Helmi Nars. não enveredo por este caminho. Enrico Cerulli chegou aos manuscritos em questão. I. 833. e ter sido detido pelas três feras: a pantera. Desde o início. do Paraíso ao Inferno. o mi’raj. tendo que retornar em seus próprios passos. Maomé se encontrava em sua casa em Meca.2. Maomé e Dante. maio-out. narram em primeira pessoa a viagem que fizeram ao além. poiché Dio questa notte vuole mostrarti molti prodigi della sua potenza e molti dei suoi segreti. n. e se apresenta a ele dizendo: Maometto. no início de sua viagem. Essas duas traduções partem da tradução feita do árabe para o espanhol  e ainda não descoberta  que Alfonso X..I. Embora os autores citados se tenham envolvido nas polêmicas em torno das prováveis fontes da DC. Assis. o Sábio.4 No mesmo ano. o italiano Buonaventura di Siena. a partir de um momento particular. encomendara a Abraham al-Hakim. 10-12). Para começar. alzati e preparati: [. um pesquisador italiano. os manuscritos relatam a ascensão de Muhammad. “A Escatologia Islâmica da Divina Comédia”. a partir de alguns aspectos. 4) Também Dante. (LS.. vejamos como podemos continuar lendo e relendo as duas viagens propostas. p. v. e Dante se encontrava perdido na selva oscura: Io non so bem ridir com’ i’ v’intrai. mas por outro caminho. 38 TriceVersa. após ter tentado percorrê-la sozinho pela subida ao monte. o leão e a loba. tant’era pien di sonno a quel punto che la verace via abbandonai (Inf. tu che sei nunzio di Dio. lo mio maestro e ‘l mio autore (Inf.1. mas considero ambos os escritos a partir daquele livro do mundo tão familiar aos homens do Medievo. Feita esta apresentação sucinta. 1990. segundo Saccone. 85). em ambas as narrativas os protagonistas.. encontrando provas em outras obras literárias que atestavam o conhecimento dessa narrativa na Europa do século XIII (SACCONE. p. I.2008 .Traduzidos para o latim e para o francês por um contemporâneo de Dante. durante um momento de meditação seguido do torpor do sono.

22-23). maio-out. v. de rubi. o número de orações diárias de seus fiéis” (SACCONE.. pois Virgílio. e todos os outros de pedras preciosas. tão ricamente que nenhum coração humano seria capaz de conceber” (LE. tem início a jornada. e com quem “contrata. e o profeta. que pode ser também a de todos os homens. 39 TriceVersa. p. ele terá o suporte de mais de um guia. Assis. di color d’oro in che raggio traluce vid’io uno scaleo ereto in suso tanto. percorre os três reinos e coloca a ênfase na trajetória. Após ter chegado lá e ter sido acolhido e louvado pelos profetas. 28-30) Ao longo de sua viagem. que acompanhará Dante ao Paraíso e o deixará com são Bernardo.2008 . 5 Na escada de ouro vista e descrita por Maomé. A narrativa de Maomé enfatiza a viagem ao céu. a meu ver. 1997. Maomé também percorre nove céus e chega a ficar na presença de Deus no décimo. sob a exortação de Moisés. n. de esmeralda. p. Segundo o Libro della Scala. E nos faz chegar também ao céu de Saturno da Divina Comédia. Escada esta que remete o leitor de imediato ao sonho de Jacó: “Eis que uma escada se erguia sobre a terra e o seu topo atingia o céu. no cume da montanha do Purgatório. um animal alado. o Alcorão. depois de tê-lo acompanhado até o Paraíso Terrestre..2. che nol seguiva la mia luce (Par. para cumprir a parte final da viagem. cada qual segundo a sua natureza. 183). começa a subir pela escada de ouro5 que dá nome à obra. XXI.1. que o chama a fazer uma viagem até a mesquita de Jerusalém. 28. cavalgando Alborak. segundo a lenda. e na sua própria salvação.12). Maomé é acordado em seu sono pelo arcanjo Gabriel. Gabriel vai apresentar a Maomé o inferno. a narrativa de Dante.todo o Inferno. Na trajetória de Dante. do paraíso ao inferno. trabalhados com pérolas e ouro puríssimo. o terceiro. o segundo. os degraus eram assim: “o primeiro. Vejamos agora de que modo os dois viajantes têm acesso ao além. será substituído por Beatriz. de quem recebe. estimulado e acompanhado por Gabriel. de pérolas brilhantes. e anjos de Deus subiam e desciam por ela!” (Gen. em que uma escada de ouro leva os viajantes ao oitavo céu. Somente no final da viagem.

até o lago gelado de Cocito. será somente no canto XI. o lugar de Lúcifer. a ouvir os gritos.2. (Inf. Começa. maio-out. círculo após círculo. “son tre cerchietti di grado in grado. ou seja. “Figliuol mio. sendo que a própria porta “atua” como uma personagem.  e os exemplos confirmarão essa percepção. dentro da cotesti sassi”. que lemos no canto III: Per me si va ne la città dolente. pois.  que as personagens efetivamente percorreram e percorrem um espaço “concreto”. Assis. a dimensão da descida que ainda os espera.. voi ch’intrate (Inf. 1-3) Assim. v. que os círculos que deverão percorrer ainda. III.Já a viagem de Dante começa a partir do inferno e o viajante afirma sua presença “física” no inferno a partir do momento em que se encontra frente a frente com a fórmula emblemática gravada sobre a porta de entrada. introduzida com a força da anáfora que abre os três versos. em um primeiro momento. possuem a mesma forma dos que já foram percorridos. Dante. do qual é possível até mesmo desenhar a configuração. n. e. come que’ che lassi. o resumo do caminho já percorrido. per me si va tra la perduta gente (Inf. já que as trevas não consentiam o uso da visão. em uma pausa do percurso. é como se o inferno de Dante se apresentasse por si só. choros e lamentações dos condenados e vai percorrendo o inferno em trajeto descendente. 9).1.. assim. XI. deixa-se levar por Virgílio para a escuridão infernal e sua primeira sensação é auditiva.. per me si va ne l’etterno dolore. e retomada ao longo da mensagem escrita sobre ela. sua 40 TriceVersa. em resposta a uma pergunta de Dante. que o guia revelará ao peregrino a conformação infernal por inteiro. cominciò poi a dir. que terminam com aquele lapidar lasciate ogne speranza. depois de ter-se amedrontado diante daquelas palavras “di colore oscuro”. nas palavras de Virgílio. Fica bastante claro. pois. 16-19) Virgílio explica. Tutti son pien di spirti maladetti. maldições.2008 . Temos. III. Se a viagem de Dante vai sendo descrita à medida que ele e Virgílio vão descendo.

prata. cobre. ouro. Gabriel responde que embaixo daquelas terras há uma pedra e. que já se tornou conhecida através dos esquemas e gravuras ao longo dos séculos. (ASÍN PALACIOS. um peixe que com o corpo forma um círculo.1. Moisés. 176). Pelo que afirma o narrador Maomé. após ter percorrido os sete primeiros céus e descrito de que eram feitos: ferro.289). Mais adiante. escuta de Gabriel as seguintes palavras: Sappi. nela há um mar de fogo. di quelle che vivono e di quelle che hanno già lasciato il mondo. v. acompanhado de Gabriel. Os exegetas muçulmanos. filho de Zacarias e Jesus. E quali le pene e tormenti vi soffrono gli infedeli. e estavam uma sobre a outra” (LS... assumem o duplo sentido de ‘porta’ e de ‘patamar’. dando ao inferno a topografia afunilada. Retomando a narrativa. Aaron. encontra-se outra terra feita de fogo. Assis. 2005. segundo Asín Palácios. Mas antes de nos adentrarmos nos particulares topográficos do inferno da Divina Comédia. debaixo da pedra. .6 que eram sete. a personagem afirma que Gabriel conduziu-o “para um lugar de onde vi o inferno e suas portas. esmeralda. pérola. n.  “Agora vou contar da segunda. LV. filho de Jacó. todas de fogo.circunferência vai diminuindo à medida que se desce. e quais profetas haviam encontrado em cada um deles  João. Abraão e Adão  e após ter percorrido os outros três lugares divinos até a presença de Deus. che il nostro Signore ti ama al punto da volere che io ti mostri le immagini di tutte le genti.2. LXXI. somente trevas. (LS. Maometto.2008 . e sucessivamente José. filho de Maria no primeiro céu. na qual todos que lá se encontram são também de fogo. 139). como ele [Gabriel] ma mostrou” (LS. E vuole anche che tu veda in che modo è fatto l’inferno e che cosa vi è in esso.  somos levados a acreditar que ele realmente “viu” as terras infernais. LIII. p. a uma dúvida de Maomé a respeito do inferno. rubi e topázio. e nele estão peixes de fogo. como se o acesso a cada patamar fosse através de uma porta. proponho uma pausa para olharmos mais de perto a configuração do inferno que presenciou Maomé. A uma pergunta de Maomé. Enoch e Elias. Sete são as terras. abaixo dele. também presentes nos hadit e podemos pensar em ambas as coisas. 6 41 TriceVersa. 134) E Gabriel conta a Maomé que debaixo da terra onde vivem as pessoas. Maomé. maio-out.

42 TriceVersa. e depois delas. uma que leva ao grande inferno. No meio dessa terra. LVIII. que se incendeiam e junto com elas se incendeia o pecador em cujo pescoço uma delas foi atada. LIX. que tem nome Halgelada. está cheia de feras infernais. Assis. para que seja visto por todos. ele. A descrição das terras infernais é momentaneamente interrompida por considerações a respeito do dia do juízo final e do que acontecerá aos homens. imobilizam os pecadores e os atingem com o veneno. no entanto. é a moradia do demônio. 172). um castelo encontra-se no Limbo e hospeda os ‘espíritos magnos’ dos sábios e heróis. esfolando-os e derramando neles o veneno. Hagib. encontra-se um castelo7 que contém o trono do demônio. a um comando de Deus. animais e coisas. se encontra preso e acorrentado com correntes de ferro. além de beber das águas que lhes desmancham os corpos. possui duas portas. 145). A quarta terra tem o nome de Alhurba e é a terra das serpentes gigantes. maio-out. fazendo-os derreter como cera. canto IV do Inferno. outra que leva ao vento de nome Azaukaril (LS. de suas milícias e de seus seguidores. A quinta terra é Malca. A sétima terra.1. e lá estão também mares de águas muito amargas. e ao falar dela o narrador complementa: “segundo o que Gabriel me referiu” (LS.2. e os fossos que circundam esse castelo são de veneno. que torturam os pecadores. n. E prosseguiu mostrando as sete portas que eram quentes em tal intensidade “que se a menos quente delas estivesse no 7 No caso da DC. 149-50. por sua vez. 147). Contou Gabriel a Maomé que “Deus elevará o inferno para o alto. Essa quinta terra está toda coberta de pedras de enxofre. A terceira terra. e com um veneno mais destruidor que o fogo. A sexta terra tem nome Zahikika. O castelo. que estará sobre ele” (LS. quentes e repugnantes nas quais os pecadores são obrigados a entrar. que com as presas atacam os pecadores inoculando seu veneno destruidor. de muitos tipos. v. grifo meu). voltando a dar a idéia do relato de Gabriel a Maomé. moram escorpiões enormes e venenosíssimos. e também o Paraíso. e lá estão todos os papéis com todos os pecados cometidos pelos homens. LXIX. LX. existe uma barreira de trevas.Mas voltemos às terras: na segunda terra. “segundo o que me mostrou Gabriel” (LS. Area. do tamanho de montanhas.2008 .

176). podemos ter uma idéia da topografia deste inferno. LXXIX. 181). a terceira. como a amputação dos lábios com tenazes ardentes. daqueles que não cumprem as orações e não dão esmolas. LXXI. Halhatina. Pode parecer estranha a forma com que se repetem as fórmulas. dos avarentos.] é preferível perder-se um só dos teus membros. torturas em seus sexos. castelos. e a sétima. a que o teu corpo todo seja lançado na geena (Mt. dos irados. que parece a “transcrição” de um relato. Halgahym. aos adúlteros. e as características dos povos que participaram da criação desta viagem. a sexta. al di sopra dell’inferno” e subdividida em sete pontes.. Eis que. cada um atormentado com suplícios diferentes. v. Gehena. colocada “in alto.2008 . os jejuns. Halkehuya. n. a segunda. dos enganadores.oriente e um homem olhasse para ela do ocidente. dos jogadores. Haveria também que mencionar a ponte de nome Azirat. maio-out. que blasfemam. ao longo de diferentes épocas. LXXII. 43 TriceVersa.29). as situações e às vezes as próprias descrições. daqueles que não acreditam nos profetas.. dos crentes que abandonam sua crença. Zakahar. com suas portas. a quarta. 201). as abluções e o honrar o 8 “[. que servirão como lenha para o fogo. mitos. a ida à Meca.2. para as falsas testemunhas. e principalmente de imagens e metáforas.1. apesar da fragmentação da narrativa. que queimarão e serão torturados. Cada uma das portas possui um nome: a primeira. mas não podemos deixar de refletir sobre duas questões que me parecem fundamentais: a oralidade implícita nesta narrativa. Falta somente extrair da narrativa da viagem de Maomé a descrição dos suplícios que os pecadores sofrem no inferno. para aqueles que semearam discórdia. Assis. o conhecimento do Alcorão. fogueiras para os ricos e bem vestidos. o cérebro sairia de sua cabeça devido ao calor excessivo” (LS. as orações diárias. de acordo com o pecado de cada um” (LS. Halzahir. E Maomé conclui: “Assim vi todos os pecadores. e às meretrizes. dos fraudadores (LS. com seu acervo próprio de lendas. 5. Lada. culpados de soberba e de injustiças. a quinta. rios e montanhas. ao chegar às quais os humanos seriam questionados sobre a fé.8 a porta de entrada dos idólatras. a amputação da língua.

LXXVI. estaremos pisando em um terreno um pouco mais firme. p. sem dúvida temos na obra italiana uma descrição topográfica muito bem detalhada do reino infernal. em segundo.2.pai e a mãe. segundo Segre. da violência (VII círculo). Em cada um dos círculos. fronteira do inferno. levando em conta o legado característico da cultura ocidental. 1990. Por outro lado. ao percorrer os círculos infernais até o centro da terra. Assis. ora embaixo da terra dos homens. 192).2008 . 29). somente quem superar esses questionamentos. o pântano. em parte. com exceção do sexto. que incessantemente as faz atravessar o rio Aqueronte. que nem no inferno podem entrar e os habitantes do primeiro 44 TriceVersa. o LS apresenta uma topografia em que paraíso e inferno ocupam um espaço menos definido.1. terá acesso ao Paraíso. ora acima. o rio de sangue fervente. A partir da entrada da porta. porque o inferno dantesco é. que. com exceção dos ignavos. já mencionada. a expansão e a reinvenção daquele que se encontra na Eneida (canto VI). Em cada círculo está sendo punido um pecado específico. os demais “cadranno nel fuoco dell’inferno e vi saranno tormentati in eterno” (LS. é “a mais ampla e orgânica descrição do além antes da Divina Comédia” (SEGRE. muralhas. De qualquer forma. abismos. n. Parece-me também ser possível uma leitura em que as “terras infernais” sejam relacionadas a um pré-inferno  ou até mesmo a um purgatório avant lettre  que levaria à consideração de toda a questão envolvendo esse reino intermediário e seu “nascimento” através dos séculos. da heresia (VI círculo). Sem desconsiderar a riqueza dos detalhes que acabamos de relevar no Libro della Scala. maio-out. Podemos pensar em dividir o inferno em diferentes categorias de pecados: da incontinência (círculos de II a V). fogo e gelo. o transportador de almas. da fraude (VIII círculo) e da traição (IX círculo). além de Caronte. Dante vai percorrer um difícil trajeto que o levará a superar obstáculos concretos: descidas abruptas e pedregosas. encontramos um demônio guardião. acompanhando Virgílio e Dante. porque existe uma ordenação espacial muito mais próxima da ordem escolástica e hierárquica medieval que conseguimos mais facilmente absorver. Em primeiro lugar. v. ora fora.

Na primeira das três partes. com a convocação do monstro Gerião. maio-out. violentos contra si mesmos. Entre o sétimo e o oitavo círculos existe um grande abismo que Dante só vai poder superar com a ajuda de Virgílio. os primeiros e completamente afundados na lama do fundo. são dilacerados por negras cadelas. sodomitas e usurários. em cujo leito corre sangue fervente. o barqueiro do pântano de Stige. guardados por Flégias. os sedutores e rufiões. divididos em duas fileiras que se encontram e se chocam a cada percurso realizado em torno do círculo. os dilapidadores de fortuna. em que estão os condenados pelo pecado da fraude. estão mergulhados nas águas pantanosas. são punidos os violentos contra Deus e a natureza: blasfemos. É guardado pelo Minotauro. são punidos os luxuriosos. O sétimo círculo apresenta uma característica única dentre os círculos infernais: se subdivide em três partes distintas. outra categoria de violentos. sem que nunca possam ter repouso ou parada. Na segunda parte. os gulosos. subdivididos em dez categorias: no primeiro. os avarentos e os pródigos. são punidos os suicidas. guardados pelo deus Plutão. os simoníacos. presas nos troncos das árvores. estão no chão de lama. empurram enormes rochedos. cuja pena é a eterna ausência de Deus. cada qual delimitando um ou mais tipos de violência.círculo. no terceiro. n. sob uma chuva de água fétida e são ensurdecidos e esquartejados pelo cão infernal. no segundo. o próprio patrimônio. a dominada pelo rio Flegetonte. que em parte guardam. os aduladores. estão também os centauros. v. guardião dos dez fossos de Malebolge. no terceiro. mergulhados no rio e flechados pelos arqueiros guardiões.2008 . enterrados pela 45 TriceVersa. cujas almas. Na terceira das partes. em parte torturam os condenados: aí são punidos os homicidas e os predadores. os segundos. sob uma chuva de fogo incessante. no quinto. perderam o direito à forma humana. o Limbo.1. perseguidos e chicoteados pelos diabos. imersos no esterco. guardados por Cérbero. que permeia o inferno inteiro.2. além deles. os irados e os rancorosos. No segundo círculo. Assis. constituída de uma floresta de árvores secas e habitada pelas harpias. guardados por Minós e sua pena consiste em estarem em um turbilhão de vento e tempestade que incessantemente os arremete para todos os lados. violentos contra os bens. no quarto.

vemos que o demônio se encontra preso. possibilita aos dois viajantes descerem por seu corpo para ter acesso ao caminho subterrâneo que os levará por baixo da terra à montanha do Purgatório. 149) E por Dante: Lo ‘mperador del doloroso regno da mezzo ‘l petto uscia fuor de la ghiaccia. os corruptos e peculadores. os falsários. graças à ajuda de Anteu. dos hóspedes e dos benfeitores. respectivamente. Após superarem o enorme poço dos gigantes. che i giganti non fan con le sue braccia (Inf. e con le due corna sbuca al di sopra di essa.. Ma è così grande che.1. políticos. Bruto e Judas. douradas por fora. acorrentado. no sétimo.2008 . mordidos e incinerados por serpentes de vários tipos. os hipócritas. 28-31) 46 TriceVersa. os maus conselheiros. retalhados pelas espadas dos diabos.cabeça em um buraco. n. gli angeli buoni precipitarono lui e i suoi dal cielo.2. dal luogo in cui si trova. XXXIV. dividida em quatro zonas: Caina. atemorizador. una mano davanti e l’altra dietro. os ladrões. e in modo simili i piedi. No fundo do inferno os viajantes encontram o imenso Lúcifer. v. no quinto. no oitavo. como se o inferno fosse sua morada. E così lui si trova legato nella settima terra. em suas três bocas mastiga Cássio. nell’istante stesso in cui disubbidì a Dio. Assim é descrito por Maomé: Infatti. com as pernas para fora e fogo nas plantas dos pés. o lago gelado de Cocito. com a cabeça voltada para trás. Assis. na última das terras: em LS. e no fundo do poço infernal dantesco. Tolomea e Giudecca. sob pesadas capas de chumbo. no nono. tocca col capo questa terra in cui ora siamo. LX. no sexto. presos em chamas soltas no ar. maio-out. Dante e Virgílio atravessam a última região do inferno. Antenora. mas não o seu reino. com suas três caras. os adivinhos. que. embora quase completamente inerme. e piú con un gigante io mi convegno. no quarto. acometidos de várias doenças. imersos no piche fervente e fisgados pelos ganchos dos diabos. Retomando as duas narrativas. e poi lo presero e lo legarono con catene di ferro. (LS. no décimo. os semeadores de discórdia e de cismas. em que se encontram os traidores de familiares.

Um primeiro momento em que isso ocorre.1. Mas na narrativa do Libro della Scala.. III. se afirma que: verrà il tempo in cui sarà sciolto e inviato nel mondo. os seis olhos e a sanguinosa bava (idem. maio-out. despedindo-se de Maomé. 8). e em seguida complementa: . fica o corpo do demônio. LIII. Assis. que engloba o inferno como um todo. n.. (LS. Lui porterà con sé tutta la superbia e il furore dell’inferno. v. Muitos ainda poderiam ser os pontos de contato. E vuole anche che tu dica ai tuoi di fare ciò che comanderai loro. 82 e 84). ao longo das duas narrativas. LX.. v. Allora molti altri demoni verrano con lui. por semelhança ou dessemelhança. cada uma de uma cor. dizendo-lhe: 47 TriceVersa. e le anime peccatrici degli infedeli. 49-50). / [.[il nostro Signore] vuole che tu dica e mostri al tuo popolo quel che vedrai.. Assim. O corpo de Lúcifer serve assim de apoio para os dois viajantes e Virgílio diz a Dante: “Attienti bem. retoma um capítulo já citado.2008 . (LS.2. v. ambos se fazem portadores de uma incumbência divina de divulgar o que espera os pecadores. enquanto que o inferno narrado por Dante eterniza-se naquele espaço nitidamente a partir daquela escrita sobre a porta infernal: e io etterno duro (Inf. aparentemente menos apavorante. as asas. servindo de escada para a saída e o fim da primeira parte da viagem dantesca. Gabriel abraçou-o. que “non avean penne. ma di vispistrello / era lor modo” (idem. v. 38). na ocasião em que Gabriel vai introduzir Maomé à visão do inferno. affinché sappia chi dovrà andare ai supplizi infernali e chi no.] conviensi dipartir da tanto male” (idem. ché per cotali scale. negro e branco-amarelada. o inferno narrado por Maomé parece estar sujeito a sofrer alterações em seu espaço ao longo do tempo.. vermelho. 149) Nesse sentido.Que continua em sua descrição com le tre facce a la sua testa (v. antes de começar a descida. 134) E no final da narrativa. 54). mas uma questão não pode deixar de chamar nossa atenção e serve de fechamento para esse encontro de viajantes no espaço infernal: ambos recebem instruções precisas para relatar o que viram.

affinché in virtù della tua esposizione quelle sappiano discernere la verità e l’errore. Divina Commedia. Dio ti venga in aiuto e ti guidi ovunque tu andrai. a possibilidade de percorrer as páginas do Libro della Scala e da Divina Commedia. Comentário e notas de Emilio Pasquini e Antonio Quaglio. Assis.“Ah. LE GOFF. 2005. quais profetas-escritores e escritores-profetas entrega a nós. Miguel. 1999. Roma-Bari: Laterza. São Paulo: Edições Paulinas. NARDI. Traduzione di Roberto Rossi Testa. (LS. cumprida pelos viajantes. LXXX. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALIGHIERI. Maometto. 130-5) E essa tarefa. Dante. Chè. 2005.. n. ASÍN PALACIOS. XXXIII. Roma: Newton Compton. e tenere la retta via. L’escatologia islâmica nella Divina Commedia.2. L’immaginario medievale. Inferno. se la voce tua sarà molesta nel primo gusto. J. IL LIBRO della Scala di Maometto. Milano: Arnoldo Mondadori.1. E ciò non fa d’onor poco argomento (Par. Torino. maio-out. v. 1993. e ti dia la grazia di poter ricordare tutto ciò che vedesti e di illustrarlo alle genti. por sua vez. vital nutrimento lascerà poi. 48 TriceVersa. BÍBLIA de Jerusalém. Traduzione di Anna Salmon Vivanti.1988. Bruno. Tutte le opere. Dante e l’Islam. Milano: Il Saggiatore. Dante e la cultura medievale. ______. no céu de Marte. Garzanti. Bari: Laterza. habituados na nossa tragédia pós-moderna a viver “infernos” quotidianos. e guardarsi dal male lungo il cammino”. recebeu dele o estímulo para dar voz ao que havia visto e ainda iria ver. 203) Dante. leitores do século XXI.2008 . entremeando sempre novos fios em nosso próprio tear literário. Traduzione di Roberto Rossi Testa e Younis Tawfik. 1989. quando sarà digesta Questo tuo grido farà come vento Che le più alte cime più percuote. no encontro que teve com seu antepassado Cacciaguida. 1942.

Eneide. A Escalotogia Islâmica na Divina Comédia. ______. Arábia Saudita: Complexo do Rei Fahd. 831-65.S. maio-out. 1992. Carlo. SEGRE. 1990. Il mi’râj di Maometto: una leggenda tra Oriente e Occidente. p. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. 49 TriceVersa. Traduzione di Cesare Vivaldi. VIRGILIO. SACCONE. In: O Islã Clássico. 2005. Cesare. n.A. Torino: Einaudi. Milão: Garzanti. Helmi. v. In: Libro della Scala di Maometto. Assis.2008 .NASR.1. São Paulo: Perspectiva. Al-Madinah Al-Munauarah K. p. Fuori del mondo. Itinerários de uma Cultura.2. 2007. I modelli nella follia e nelle immagini dell’aldilà. 175-235. 2 vols.