AS MÚLTIPLAS FORMAS DE APROPRIAÇÃO DO UNIVERSO TELEVISIVO PELAS CRIANÇAS.

EDLAINE DE CASSIA BERGAMIN (UNICAMP - DOUTORANDA FACULDADE DE EDUCAÇÃO).

Resumo Ao criar histórias fantásticas, as crianças utilizam elementos extraídos de sua vida cotidiana, como as experiências familiares e escolares, as crenças religiosas, as narrativas populares e os conteúdos veiculados pelos meios de comunicação de massa. É neste último elemento que nos deteremos no trabalho em questão. Quando refletimos sobre as narrativas elaboradas por crianças mais pobres, percebemos que, dentre as diversas mídias, a televisão é a mais presente, de modo que optamos por discutir a apropriação que estes jovens narradores fazem dos conteúdos e formas veiculados por ela. Percebemos que este processo não ocorre de forma passiva e alienada, como defendem alguns autores que vêem a televisão como uma limitadora da capacidade do sujeito de viver de forma autônoma e criativa. Pelo contrário: em muitos casos, ela alimenta o imaginário e fornece imagens que ampliam as possibilidades de criação e de vivência. Além disso, descobrimos que as crianças não se apropriam apenas dos conteúdos televisivos, mas também das formas narrativas utilizadas por esta mídia. Exemplo disso é um conjunto de histórias, contadas por um garoto de 11 anos, que visivelmente segue a estrutura dos desenhos animados: a ordem vigente é modificada por algum personagem ou acontecimento, de modo que inúmeras peripécias são realizadas com o objetivo de restabelecê–la, o qual nem sempre é atingido; as ações são repetidas várias vezes, substituindo–se apenas alguns elementos, o que permite à criança a antecipação do que vai acontecer; a agressão não tem conseqüências reais e, unida à linguagem simbólica da magia, à rapidez dos acontecimentos e à constante reversibilidade das situações resulta em um inesperado efeito cômico. Finalizando: estas e outras narrativas nos deram pistas interessantes sobre as múltiplas formas de apropriação do universo televisivo pelas crianças. Palavras-chave: narrativas infantis, televisão, desenhos animados.

Como a televisão marca as histórias contadas por crianças? [1]

Edlaine de Cassia Bergamin Doutoranda em Educação - FE - UNICAMP

Ao criar histórias fantásticas, as crianças utilizam elementos extraídos de sua vida cotidiana, como as experiências familiares e escolares, as crenças religiosas, as narrativas populares e os conteúdos veiculados pelos meios de comunicação de massa. É nesse último elemento que nos deteremos no trabalho em questão. Quando refletimos sobre as narrativas elaboradas por crianças pobres, percebemos que, dentre as diversas mídias, a televisão é a mais presente, de modo que optamos por discutir a apropriação que os narradores fazem dos conteúdos e formas veiculados por ela. Apresentaremos as histórias de Rafaela e Alex, com 14 e

. a capacidade de viver de modo criativo e original. Tudo! Eu só não conheci um. entrelaçando todos esses elementos sem preconceito ou hierarquia. além de reflexões existencialistas e religiosas. é o Terra Samba. o tempo gasto diante do aparelho e a postura passiva ou ativa que produzirão diferentes consequências. Um rapazinho que usa brinco.. por outro. que propunha uma mistura indiscriminada de linguagens que resultasse em algo saboroso e revigorador. permite a identificação do telespectador com situações vivenciadas por outras pessoas. Erausquin (1983) vê a televisão como a responsável pela degradação do ser humano e justifica essa afirmação. fortalecendo seu orgulho cultural e autoconfiança. por um lado. como fazê-la procurar uma resposta ou modificar determinadas ações. adicionam os conhecimentos que receberam da tradição oral. Outros retratam de forma positiva e não estereotipada personagens de vários grupos excluídos. de qual é mesmo? Esqueci o nome! Ele canta música de amor.. a exposição continuada à fantasia ou à violência. Quando criam suas histórias.11 anos respectivamente. o pensamento crítico e reflexivo. Nossos jovens narradores sabem utilizar a televisão de modo personalizado e criativo. a faculdade de discernir quais os objetos realmente necessários ao consumo. o mais que eu quero conhecer é o Vavá. todos os cantores. É um rapaz que usa brinco. E minha vida é conhecer. a experimentação de emoções autênticas. o que nos lembra o movimento antropofágico. apresentavam dificuldades de socialização e provêm de famílias muito pobres.. Interlocutora: quem é o Vavá? O Vavá. Eu queria conhecer os dois. dos cantores.. argumentando que ela reduz a atividade física. mas só quando chegar no céu pra eu conhecer. o convívio familiar e social. Bem que eu queria! Foi o Leandro com o João Paulo. pode resultar em uma diminuição da sensibilidade do espectador ou em uma hipersaturação naturalizadora. é dooo. Minha tia . Silvio Santos. sem consequências no mundo real. aquele que mostrou no Gugu. Angélica e todos os que fazem essas coisas igual o Gugu. Já autores como Von Feilitzen e Greenfiels (2002) enfatizam que não é a televisão em si que gera efeitos negativos ou positivos. é o Vavá e o Leonardo. Quem é bonito. explicitam suas crenças religiosas e acrescentam conteúdos e formas extraídos da televisão. a habilidade de resolver problemas intelectuais que exigem concentração e esforço. modificando a visão das classes sociais privilegiadas. No discurso de Rafaela percebemos a admiração que sente por apresentadores de programas de auditório e por cantores famosos. Eu queria conhecer todos esses cantores. são os programas escolhidos.. mas elabora-o de forma sensível e personalizada: O meu sonho é conhecer o Gugu. dentre outros motivos. Não mostrou um rapaz que foi no Gugu por causa de uma moça que não tinha nem esse braço. Xuxa. mostrando que ela não absorve passivamente o conteúdo da televisão. principalmente o Leonardo (risos). Ele foi no.. Ambos ainda não dominavam os processos de leitura e escrita da Língua Portuguesa. nem o outro? É o rapaz que passeou com ela. Há programas educativos que usam técnicas selecionadas com o objetivo de transformar a criança em um participante ativo. A capacidade que a televisão tem de comunicar sentimentos é um benefício e um "perigo" ao mesmo tempo: se.

Minha mãe falou: . fico doida pra conseguir um violão pra começar a cantar! Eu... Morrer sentada. amanheceu morta sábado. Minha mãe falou assim: . Mas eu falei assim: .também morreu! Morreu minha tia. junto com umas meninas. lá para frente.. No outro dia.Está bem! Mas eu fiquei tão chateada com as duplas! . eu vou para Aparecida com a professora. você não quer conhecer ninguém! Só se um dia você virar cantora. mas fazer o que? Ela foi pro céu! É morta. conhecer os artistas. Aí veio. queria conhecer todo esse mundo. Mas.. . Nós íamos fazer um show aqui na rádio (a rádio nos convidou). professora.Nossa menina. o maior sonho meu é conhecer todos esses artistas. com o meu dinheiro que eu pegar de artista. O terceiro sonho na minha vida é. menina! Você tem muita vida pela frente! Eu não sei. foi tudo bem. Nunca mais converse comigo! (em tom bravo) Depois passou. se eu for cantora. as duplas não queriam mais participar. O segundo sonho é abrir na minha casa uma comunidade.Você não manda em mim. Depois eu mudava de lá e ia com outra turma.Larga de dizer bobagem.. Falei pra minha mãe que eu queria morrer igual a ela.. com sete anos eu consegui tocar violão. Depois. eu não minto pra ela.Vim convidar as suas duplas para cantar. que nós íamos. morta. ir para Aparecida do Norte. nós também podemos. Pegava umas duplinhas assim. com sete anos. com o dinheiro pra Nossa Senhora. A gente tem que conhecer tudo o que a gente quiser. falou assim: . Se eles podem cantar. O que eu vou fazer amanhã? Falei assim: . Então. Fico tão triste quando eu lembro da minha tia. eu canto.Ai mãe. É morta assim instantânea! Não foi nada. começava a cantar.Mãe. Mas eu queria conseguir um violão. a gente vai ser todo mundo da minha família artista. passou. Falei: .. o maior sonho meu é. vou mandar o Gugu trazer todos os cantores do Brasil. Quando eu quero. Dormiu sexta.Se eu conhecer o Gugu.. primeiro sonho meu. A gente queria cantar. Falei assim: ... tenho uma bisavó que morreu. se eu não conhecer. aí o moço foi lá na minha escola.

crianças e jovens não reprimem os sentimentos gerados por esses programas. atores. Envolto em um turbilhão de sensações desconhecidas. já que as mudanças físico-psicológicas dessa fase exigem que redefinam seus papéis e desejos. conselheiros. logo depois. veremos uma adolescente fascinada por apresentadores populares e cantores especializados em música romântica. No processo de individualização. Quando atingimos esse ponto da análise. ao mesmo tempo em que diminui a aspiração a profissões como as de professor. o amor. modelos. Disfarçados entre os elementos da mídia. Geralmente sonhadores. que sua devoção a Nossa Senhora Aparecida foi herdada da . emocionam-se com os migrantes que reencontram suas famílias depois de longos anos de separação. problemas existenciais e várias outras tramas que permitem a identificação do telespectador. ela seleciona cuidadosamente os elementos que têm afinidade com suas inquietações e desassossegos. pedagógicas. escapando. a amizade.. esses personagens são transformados em novos mitos e passam a ocupar um lugar de destaque na sociedade.Se olharmos apenas o conteúdo televisivo. Mesmo conscientes das estratégias criadas para aumentar a audiência . imaginam-se recebendo tratamentos estéticos que os tornem mais belos e desejados. espaço onde são realizadas atividades religiosas. Se não conhecêssemos a garota. transformando-se em modelos de comportamento. a religiosidade. pelo contrário. pensadores políticos e exemplos de competência nas mais variadas áreas. a profissão. Colocam-se no lugar dos indivíduos que conheceram seus ídolos. como muitas outras pessoas.como a cuidadosa seleção da trilha sonora. como ocorre no momento em que ela relaciona o falecimento dos cantores Leandro e João Paulo com o da tia e da bisavó. de uma vida medíocre e rotineira e conquistando a possibilidade de eternização. Neste mundo do espetáculo. expressão carinhosa utilizada pelas pessoas do bairro para se referirem ao Centro Comunitário. Rafaela. em sua casa. a exploração das imagens de miséria e tristeza . a morte.. Rafaela se emociona com a lembrança do cantor Vavá passeando com a moça deficiente e promete que. descreve seus sonhos. uma "comunidade". se um dia tiver recursos financeiros. poderíamos pensar que seus sentimentos religiosos e filantrópicos originam-se dos programas televisivos. mostrando que esses dois elementos estão relacionados em seu imaginário. a família. o prolongamento dos quadros sensacionalistas. pilotos. desta forma. lúdicas e políticas. para uma reflexão sobre o seu próprio destino. sentem que há solução para a miséria quando observam famílias pobres recebendo doações. a diversão e o humor. partindo. os jovens incomodam-se com as injustiças sociais. Sabemos. Fala da morte e. encontramos na narrativa de Rafaela a maioria desses temas. Nos programas de auditório. No desejo de se tornar uma cantora estão embutidas também necessidades emocionais como a de ser querida e admirada . Assim. Novelas e filmes oferecem histórias de amor. encontrando na programação televisiva algumas opções que merecem sua análise. de modo que vêem de forma positiva os quadros sensacionalistas que mostram os famosos auxiliando pessoas que necessitam de ajuda financeira ou emocional. Rafaela está atenta aos inúmeros caminhos que pode percorrer. que tanto incomodam as garotas de sua idade. conflitos familiares. Já os programas de auditório prometem o lado espetacular da vida. percebemos que a narradora não é meramente uma receptora passiva do conteúdo televisivo. torcem pelas pessoas que estão procurando seu "par ideal". homenageará Nossa Senhora Aparecida e criará. Poderíamos nos arriscar a afirmar que o principal objetivo de sua narrativa é tratar de questões existenciais. jogadores de futebol. sonha com a possibilidade de dividir o palco com seus ídolos. os ideais. o anormal é travestido de regra. aumenta o número de jovens que desejam ser cantores. criando a ilusão de que qualquer pessoa talentosa e batalhadora pode ter sucesso e reconhecimento. o processo de crescimento e amadurecimento exigirá que o sujeito reflita sobre a sexualidade. vendedor ou artesão. em seguida. no entanto.e de realização profissional e financeira ao exercer um trabalho prazeroso e que possibilite o acesso aos bens de consumo.

Dá uma bebi. E o homem falou assim: . criando histórias que combinam elementos cuidadosamente selecionados de cada um desses gêneros televisivos: Era uma vez uma casa assombrada. Já era de noite. Além de ouvir as emissoras locais de rádio. Um dia. ao contrário dos anteriores. Minas Novas (MG). saiu. Era uma senhora. O homem do bar falou assim: . humor e terror Ao contrário de Rafaela. dos filmes de aventura e terror e dos programas humorísticos. E o dono do bar falou: . é claro. Quando ele foi .Você sabia que essa casa aí é assombrada? E o homem falou assim: . elas limparam a casa.Então. tocando para o marido dela. de aproveitar a chance de passar de mera receptora à participante de um meio eletrônico. A garrafa caiu no chão. ele se assustou e falou para o homem do bar: . eu quero que o fantasma venha aqui agora. nem os amigos e parentes do pai.mãe e da avó.Foi um acidente. alimentados por uma infância diante desses aparelhos. arrumou algumas faxineiras. O desejo de ser cantora. e participava com frequência de alguns programas que permitiam a transmissão de mensagens para os moradores. Mas chegou um dia em que um homem quis morar nela. só olhou para os cantos. Rafaela explicita seu gosto pelos programas de auditório e o sonho de cantar no rádio. Ele embrenha-se principalmente no mundo dos desenhos animados. Alex não se refere diretamente aos programas televisivos. especialmente à televisão e ao rádio. Dá uma cerveja. ele escutou o piano tocar sozinho. A casa estava solitária e ninguém queria morar nela. complementando a rica experiência que ela trazia do espaço de moradia. Um dia ele saiu da casa. que morreu há muito tempo. Já o sonho do Centro Comunitário foi alimentado pela prazerosa vivência e convivência neste espaço público. ela fazia questão de manter esse contato com suas origens e tornar mais reais as histórias que ele lhe contava.. nossa narradora gostava da programação da cidade natal de seu pai.Não mexe com essas coisas! E ele foi pra casa. Aventura. Apesar de não conhecer a cidade. foi no bar que ficava perto da casa assombrada. está mais relacionado à mídia eletrônica. se é assombrada. mas não é difícil perceber que o conteúdo e a forma de algumas de suas narrativas podem ser associados a essa mídia. Lá morava um monte de fantasmas. ambos citados em sua narrativa.. além. que tiveram o cuidado de transmitir oralmente as tradições culturais brasileiras para as novas gerações.

Homem ao mar! E o pirata começou a nadar. foi um acidente. Arrumou. Não tinha ninguém. Só a garrafa se mexendo sozinha. E a noite ela viu alguém. ele falou assim: . nadar. quando foi dormir também. feijão. Ela pegou a cesta. A cesta caiu no chão.Homem ao mar! ..Você sabia que essa casa é assombrada? Ela não acreditou. Era uma vez um navio que navegava sozinho. cantando assim: ¯Uma garrafa de rum. Ela se assustou. Ela também foi pra antiga casa.¯ Ele saiu lá fora. Ela falou: . escutou um homem cantando: ¯Uma garrafa de rum. um pirata quis navegar nele.Ah. Ele escutou um cara lá fora. Ela foi fazer compras no mercado ao lado também. Mas era um homem louco. rum. tomar banho no mar. ele viu um monte de risada no quarto ao lado. até na margem. só pensava que era. mas foi dormir. ele foi dormir. O fantasma caiu no chão.. Chegou lá.. que eram as crianças. não era o Superman. Foi morar nela. ela viu a água do chuveiro caindo e a bucha se esfregando sozinha. Aí ninguém quis mais morar nela. Falou: . Aí o homem não gostou da casa! Foi embora pra antiga casa dele. Fim. mas quando caiu a noite. rum. rum.. deixou o navio navegando sozinho. E ouvia um homem no cafezal. Quando ela foi falar com o caixa. Ele foi navegar. o fantasma caiu lá em baixo e o homem corajoso foi comer. chorando porque o filho morreu. quebrou o alçapão. ouviu uma voz falando: . E ele quebrou a garrafa na cabeça do fantasma. Quando o pirata foi pular na água. Então chegou o Superman ! Quis navegar nele também. rum.dormir. foi para a casa.Ah. quando ouviu: . a cadeira de balanço mexendo sozinha. navegou. Comprou arroz. ninguém quis navegar nele! Mas chegou um dia. não tinha ninguém. os filhos da moça. eu quero que o fantasma também venha aqui. depois foi nadar um pouco. Chegou uma senhora.

ele pegou um barco a motor. Quando o homem falou assim: . Quando questionados sobre os motivos dessas escolhas. sexo e aventura. além de escolher de maneira eficiente os elementos que agradam às crianças mais velhas e aos jovens. também louco. O fantasma caiu no alçapão e o homem que pensava que era o Batman foi tentar caçar baleia. não gostava mais da aventura dele. rum. que não se contenta em copiar passivamente os personagens da mídia. o jovem sente prazer em não cumprir as regras criadas pelas gerações mais velhas. ele inclui algumas brechas para que possamos respirar e sentir um pouco de alívio e conforto. A interrupção do incômodo ocorre principalmente por meio do acréscimo de elementos cômicos e absurdos . alternando expressões vocais e faciais que evocavam medo. O fantasma caiu no alçapão. típico de comédia. O homem cansou do navio. o fantasma de novo: .. Quando ele foi dormir. um barquinho a motor. E um cara. foi embora. é a repetição das situações. Nem sempre Alex opta por um final feliz para gerar tranquilidade e consolo. Ele pegou a cama e tacou na cabeça do fantasma. O fantasma caiu também no alçapão. ele sabe adequar os conteúdos às representações imagéticas e sonoras mais propícias.E ele jogou a âncora na cabeça do fantasma (riso). como todo bom narrador. principalmente daquelas que falam de terror.como a inclusão do "louco" disfarçado de super-herói . rum. E o fantasma de novo: . Ele pegou a coisa de caçar baleia e quebrou na cabeça do fantasma! O fantasma caiu lá embaixo na cama. de novo o fantasma: ¯Uma garrafa de rum. gerando no espectador a sensação de familiaridade com a piada e o riso por antecipação. Quando ele foi tentar voar. filmes e desenhos animados.Capitão.. Fim. em função de horários ou conteúdos considerados impróprios pelos adultos. Outro recurso utilizado por Alex. como ocorre na segunda história. O importante é que as narrativas sejam emocionantes e tenham o significado de uma transgressão. afirmam que gostam muito de histórias. No entanto. Alex demonstrava enorme prazer. . gravidade. Além da experimentação de novas sensações. pensava que era o Batman ! Ele navegou também. sabe? Foi embora até a margem também. essenciais para suportarmos a tensão do enredo. tomar banho de mar. aí.Homem ao mar! E ele pegou três âncoras. Fischer (1984) entrevistou crianças da idade de Alex e pouco mais velhas e descobriu que eles apreciam igualmente as novelas. de novo! Quando o homem foi nadar.Homem ao mar! Então ele jogou quatro âncoras. só de fantasma.. está na hora de caçar baleia. caiu no mar. Como todo bom telespectador. entusiasmo e humor. tacou na cabeça do fantasma de novo! Quando ele tacou.estratégia que evidencia a irreverência do autor.. Ao contar essas histórias.

permitindo a liberação de tensões reprimidas pelo consciente. Fisher. Luiz Roberto S. A violência também pode ser aceita e até mesmo apreciada quando é justificada e/ou tem um executor atraente (a assombração não permitia a tranquilidade de pessoas que queriam apenas navegar.leitura interpretativa do discurso infanto-juvenil sobre televisão. 1983. Trad. nas quais animais. Trad.B. o ser humano faz perguntas de teor existencial. proporciona prazer e possibilita o afrouxamento dos controles morais. Além da capacidade de unir de forma coerente e criativa imagens. Perspectivas sobre a criança e a mídia. metaforicamente. 2002. Catharina. dentre outras possibilidades. dadas segundo a racionalidade e a inteligibilidade do adulto. seres sobrenaturais ou extraterrestres oferecem. Malta. O mito na sala de jantar .baseada na rapidez dos acontecimentos e na constante reversibilidade das situações . palavras faladas e escritas. In: Educação e Pesquisa. no animismo e no egocentrismo. jan.resultam em um inesperado efeito cômico. A agressão sem verdadeiros efeitos danosos e a linguagem simbólica da magia . 1984. Nas histórias cômicas. como nos filmes de aventura ou terror: algum personagem ou acontecimento modifica a ordem vigente. Exemplo disso é a diversão de Alex ao narrar a insistência do fantasma em voltar a assombrar. VON FEILITZEN. para causar a impressão de variação de conteúdo. os desenhos animados apresentam outra característica que conquista as crianças: a explicação da realidade a partir do ponto de vista do pensamento infantil. objetos. baseado na fantasia. explicações para seus questionamentos. Cecília.B. Fisher. Daí a importância das histórias mágicas. liberando sensações nitidamente sádicas nos receptores. São Paulo: Summus. Rosa M.1. . assim como nos casos em que as consequências para a vítima são mínimas (o fantasma rapidamente se recupera das pancadas e quedas). apesar de todos os objetos jogados em sua cabeça. SEDH/Ministério da Justiça. v. As ações são repetidas várias vezes e alguns elementos são substituídos. S. n. a humilhação e a violência dirigidas a determinados indivíduos são naturalizadas. Alfonso. Porto Alegre: Movimento. Matilla. Desde pequeno. Miguel. O enredo em si é muito simples. O dispositivo pedagógico da mídia: modos de educar na (e pela) TV. irresponsabilidade ou ceticismo (como os moradores da casa assombrada). São Paulo. tudo em movimento./jun 2002. Os teledependentes. que se sentem superiores aos sujeitos agredidos e percebem sua auto-estima reforçada. Rosa M. sem causar mal a ninguém). a vítima precisa apresentar alguma característica que justifique o mau trato: demonstrar demasiada ingenuidade. ser desumanizada (como os fantasmas). Luis. BUCHT. mas algumas respostas.8. Bibliografia Erausquin. Essas histórias de Alex são muito semelhantes a alguns desenhos animados no que se refere à estrutura narrativa e aos conteúdos. não o satisfazem. pertencer a grupos marginalizados socialmente (como o louco que acredita ser um super-herói). Patrícia de Queiroz Carvalho. que pode ser restabelecida ou não depois de inúmeras peripécias. Vásquez.O humor promove uma mitigação do desgaste psíquico e físico. músicas. Para que esse mecanismo funcione. Brasília: UNESCO. M. estupidez.

UNICAMP. Dissertação de Mestrado em Educação. 2007.A multiplicidade de sentidos em histórias contadas por crianças. Faculdade de Educação. . Edlaine C.[1] Para aprofundamento ver: BERGAMIN. Campinas. O recado do conto . 160p.

contadas por um garoto de 11 anos. principalmente com aquelas que gostavam de brincadeiras fantasiosas. Campinas. de modo que optamos por discutir a apropriação que estes jovens narradores fazem dos conteúdos e formas veiculados por ela. que transmitia as histórias para que elas não fossem esquecidas. Descobrimos que as crianças não se apropriam apenas dos conteúdos televisivos. que vê essa mídia como a responsável pela degradação do ser humano e justifica essa afirmação. filha de migrantes oriundos do Vale do Jequitinhonha. o pensamento crítico e reflexivo. Ele relacionava-se melhor com crianças mais novas. Enquanto os jovens de famílias abastadas dividem seu tempo de lazer entre vários aparelhos eletrônicos. dentre as diversas mídias. Faculdade de Educação. como defende Erausquin (1983). argumentando que ela reduz a atividade física. brincadeiras e narrativas fantasiosas. Rafaela cursava a 5ª série e. Compartilhava com Alex. que visivelmente segue a estrutura dos desenhos animados. mas também das formas narrativas utilizadas por esta mídia. UNICAMP. assim como Alex. que herdou dos pais vastos conhecimentos e crenças da cultura popular brasileira. o que implicava em desconforto e problemas de auto-estima. Dissertação de Mestrado em Educação. 160p. orgulhosa. a habilidade de resolver problemas intelectuais que exigem concentração e esforço. Exemplo disso é um conjunto de histórias. a televisão é a mais presente. as narrativas populares e os conteúdos veiculados pelos meios de comunicação de massa. Sofria zombarias dos garotos de sua idade ou pouco mais velhos que preferiam jogos que privilegiassem a ação e a agressividade. Edlaine C. Quando refletimos sobre as narrativas elaboradas por crianças pobres. aqueles sem recursos despendem mais horas diante da televisão. É neste último elemento que nos deteremos no trabalho em questão. Afirmava. demonstrava muita dificuldade na leitura e escrita da língua portuguesa. Gostava de recontar as narrativas fantásticas que havia aprendido com a mãe e a avó. O recado do conto – A multiplicidade de sentidos em histórias contadas por crianças. Aos 14 anos. em Minas Gerais. mas não necessariamente de forma passiva e alienada. as crianças utilizam elementos extraídos de sua vida cotidiana. 1 Para maior aprofundamento ver: BERGAMIN. ele freqüentava a 3ª ou 4ª série do Ensino Fundamental e ainda não dominava os processos de leitura e escrita da língua portuguesa. percebemos que. Quando gravamos as histórias de Alex. 2007. que morava ao lado de sua casa. .Como a televisão marca as histórias contadas por crianças? 1 Edlaine de Cassia Bergamin Doutoranda em Educação – FE – UNICAMP Ao criar histórias fantásticas. como as experiências familiares e escolares. Apresentaremos também uma narrativa de Rafaela. a experimentação de emoções autênticas. as crenças religiosas.

mostrando que ela não absorve passivamente o conteúdo da televisão. Outros retratam de forma positiva e não estereotipada personagens de vários grupos excluídos. adicionam os conhecimentos que receberam da tradição oral. são os programas escolhidos. A capacidade que a televisão tem de comunicar sentimentos é um benefício e um “perigo” ao mesmo tempo: se. por um lado. Minha tia também morreu! Morreu minha tia. o que nos lembra o movimento antropofágico. Falei pra minha mãe que eu queria morrer igual a ela. Tudo! Eu só não conheci um. Bem que eu queria! Foi o Leandro com o João Paulo. dentre outros motivos. menina! Você tem muita vida pela frente! . o mais que eu quero conhecer é o Vavá... Eu queria conhecer os dois.. é dooo. Angélica e todos os que fazem essas coisas igual o Gugu. É morta assim instantânea! Não foi nada. aquele que mostrou no Gugu. a exposição continuada à fantasia ou à violência. Já autores como Von Feilitzen e Greenfiels (2002) enfatizam que não é a televisão em si que gera efeitos negativos ou positivos. Quando criam suas histórias. é o Terra Samba. Dormiu sexta. mas só quando chegar no céu pra eu conhecer. sem conseqüências no mundo real. Há programas educativos que usam técnicas selecionadas com o objetivo de transformar a criança em um participante ativo. Silvio Santos. Um rapazinho que usa brinco. nem o outro? É o rapaz que passeou com ela. pode resultar em uma diminuição da sensibilidade do espectador ou em uma hipersaturação naturalizadora. fortalecendo seu orgulho cultural e autoconfiança. além de reflexões existencialistas e religiosas. mas fazer o que? Ela foi pro céu! É morta. Interlocutora: quem é o Vavá? O Vavá.o convívio familiar e social. Nossos jovens narradores sabem utilizar a televisão de modo personalizado e criativo... mas elabora-o de forma sensível e personalizada: O meu sonho é conhecer o Gugu. que propunha uma mistura indiscriminada de linguagens que resultasse em algo saboroso e revigorador. a faculdade de discernir quais os objetos realmente necessários ao consumo. o tempo gasto diante do aparelho e a postura passiva ou ativa que produzirão diferentes conseqüências. E minha vida é conhecer. todos os cantores.... Fico tão triste quando eu lembro da minha tia. modificando a visão das classes sociais privilegiadas. de qual é mesmo? Esqueci o nome! Ele canta música de amor.. Eu queria conhecer todos esses cantores. principalmente o Leonardo (risos).. Quem é bonito. entrelaçando todos esses elementos sem preconceito ou hierarquia. dos cantores. morta.. Não mostrou um rapaz que foi no Gugu por causa de uma moça que não tinha nem esse braço. amanheceu morta sábado. por outro.Larga de dizer bobagem. a capacidade de viver de modo criativo e original.. explicitam suas crenças religiosas e acrescentam conteúdos e formas extraídos da televisão. Xuxa. tenho uma bisavó que morreu. é o Vavá e o Leonardo. Morrer sentada. É um rapaz que usa brinco. No discurso de Rafaela percebemos a admiração que sente por apresentadores de programas de auditório e por cantores famosos.. permite a identificação do telespectador com situações vivenciadas por outras pessoas. Ele foi no. como fazê-la procurar uma resposta ou modificar determinadas ações. Minha mãe falou assim: .

atores. eu não minto pra ela. esses personagens são transformados em novos mitos e passam a ocupar um lugar de destaque na sociedade. ao mesmo tempo em que diminui a aspiração a profissões como as de professor. Quando eu quero. a gente vai ser todo mundo da minha família artista. primeiro sonho meu. Mas eu queria conseguir um violão. Se eles podem cantar. Nunca mais converse comigo! (em tom bravo) Depois passou. Então. Mas eu falei assim: .. O segundo sonho é abrir na minha casa uma comunidade. passou. conhecer os artistas. pensadores políticos e exemplos de competência nas mais variadas áreas. No outro dia. escapando. No desejo de se tornar uma cantora estão embutidas também necessidades emocionais – como a de ser querida e admirada – e de realização profissional e financeira ao exercer um trabalho prazeroso e que possibilite o acesso aos bens de consumo. fico doida pra conseguir um violão pra começar a cantar! Eu.. que nós íamos. aí o moço foi lá na minha escola. Nós íamos fazer um show aqui na rádio (a rádio nos convidou). sonha com a possibilidade de dividir o palco com seus ídolos. Falei assim: .. lá para frente. com o dinheiro pra Nossa Senhora. vendedor ou artesão. Pegava umas duplinhas assim. começava a cantar. conselheiros. O terceiro sonho na minha vida é. pilotos. jogadores de futebol. Rafaela. A gente tem que conhecer tudo o que a gente quiser. Neste mundo do espetáculo. o maior sonho meu é conhecer todos esses artistas. Minha mãe falou: . com sete anos.Eu não sei. Aí veio. modelos. as duplas não queriam mais participar. com o meu dinheiro que eu pegar de artista. O que eu vou fazer amanhã? Falei assim: . aumenta o número de jovens que desejam ser cantores. Se olharmos apenas o conteúdo televisivo. o anormal é travestido de regra. junto com umas meninas..Ai mãe.Você não manda em mim. como muitas outras pessoas. ela seleciona cuidadosamente os .Se eu conhecer o Gugu. Mas. Assim. se eu não conhecer. professora. transformando-se em modelos de comportamento. nós também podemos. Depois eu mudava de lá e ia com outra turma. falou assim: . queria conhecer todo esse mundo. eu canto. Quando atingimos esse ponto da análise.Está bem! Mas eu fiquei tão chateada com as duplas! . de uma vida medíocre e rotineira e conquistando a possibilidade de eternização.Nossa menina. Falei: . pelo contrário. vou mandar o Gugu trazer todos os cantores do Brasil. veremos uma adolescente fascinada por apresentadores populares e cantores especializados em música romântica.Mãe. se eu for cantora. Depois. percebemos que a narradora não é meramente uma receptora passiva do conteúdo televisivo. eu vou para Aparecida com a professora. com sete anos eu consegui tocar violão.Vim convidar as suas duplas para cantar. criando a ilusão de que qualquer pessoa talentosa e batalhadora pode ter sucesso e reconhecimento. desta forma. A gente queria cantar. Nos programas de auditório. ir para Aparecida do Norte. o maior sonho meu é. você não quer conhecer ninguém! Só se um dia você virar cantora. foi tudo bem.

partindo. sentem que há solução para a miséria quando observam famílias pobres recebendo doações. Fala da morte e. no entanto. Geralmente sonhadores. poderíamos pensar que seus sentimentos religiosos e filantrópicos originam-se dos programas televisivos. já que as mudanças físico-psicológicas dessa fase exigem que redefinam seus papéis e desejos. descreve seus sonhos. logo depois. como ocorre no momento em que ela relaciona o falecimento dos cantores Leandro e João Paulo com o da tia e da bisavó. emocionam-se com os migrantes que reencontram suas famílias depois de longos anos de separação. imaginam-se recebendo tratamentos estéticos que os tornem mais belos e desejados. de modo que vêem de forma positiva os quadros sensacionalistas que mostram os famosos auxiliando pessoas que necessitam de ajuda financeira ou emocional. para uma reflexão sobre o seu próprio destino.elementos que têm afinidade com suas inquietações e desassossegos. a religiosidade. Envolto em um turbilhão de sensações desconhecidas. lúdicas e políticas. encontrando na programação televisiva algumas opções que merecem sua análise. o prolongamento dos quadros sensacionalistas. que tanto incomodam as garotas de sua idade. os ideais. Poderíamos nos arriscar a afirmar que o principal objetivo de sua narrativa é tratar de questões existenciais. Rafaela está atenta aos inúmeros caminhos que pode percorrer. complementando a rica experiência que ela trazia do espaço de moradia. a profissão. Se não conhecêssemos a garota. a morte. Já os programas de auditório prometem o lado espetacular da vida. . os jovens incomodam-se com as injustiças sociais. torcem pelas pessoas que estão procurando seu “par ideal”. expressão carinhosa utilizada pelas pessoas do bairro para se referirem ao Centro Comunitário. espaço onde são realizadas atividades religiosas. em sua casa. problemas existenciais e várias outras tramas que permitem a identificação do telespectador. o processo de crescimento e amadurecimento exigirá que o sujeito reflita sobre a sexualidade. Já o sonho do Centro Comunitário foi alimentado pela prazerosa vivência e convivência neste espaço público. se um dia tiver recursos financeiros. a exploração das imagens de miséria e tristeza – crianças e jovens não reprimem os sentimentos gerados por esses programas. que tiveram o cuidado de transmitir oralmente as tradições culturais brasileiras para as novas gerações. Colocam-se no lugar dos indivíduos que conheceram seus ídolos. Mesmo conscientes das estratégias criadas para aumentar a audiência – como a cuidadosa seleção da trilha sonora. mostrando que esses dois elementos estão relacionados em seu imaginário.. em seguida.. Novelas e filmes oferecem histórias de amor. conflitos familiares. a amizade. Rafaela se emociona com a lembrança do cantor Vavá passeando com a moça deficiente e promete que. uma “comunidade”. a família. a diversão e o humor. Disfarçados entre os elementos da mídia. encontramos na narrativa de Rafaela a maioria desses temas. o amor. que sua devoção a Nossa Senhora Aparecida foi herdada da mãe e da avó. pedagógicas. Sabemos. homenageará Nossa Senhora Aparecida e criará. No processo de individualização.

dos filmes de aventura e terror e dos programas humorísticos. isto é. Mas chegou um dia em que um homem quis morar nela. Rafaela tem como modelos cantores famosos e especializados em músicas românticas nos estilos sertanejo. pagode ou pop. Um dia ele saiu da casa. Ser aprovado pelo júri. criando histórias que combinam elementos cuidadosamente selecionados de cada um desses gêneros televisivos: Era uma vez uma casa assombrada.Dá uma bebi. Quando se imagina cantando. saiu. mas não é difícil perceber que o conteúdo e a forma de algumas de suas narrativas podem ser associados a essa mídia.O desejo de ser cantora. humor e terror Ao contrário de Rafaela. que deve preservar as leis de acesso à carreira artística. é claro. Rafaela explicita seu gosto pelos programas de auditório e o sonho de cantar no rádio. só olhou para os cantos. nem os amigos e parentes do pai. Dá uma cerveja. ao contrário dos anteriores. no entanto. Lá morava um monte de fantasmas. composto de pessoas supostamente competentes no ramo. ela fazia questão de manter esse contato com suas origens e tornar mais reais as histórias que ele lhe contava. de aproveitar a chance de passar de mera receptora à participante de um meio eletrônico. e participava com freqüência de alguns programas que permitiam a transmissão de mensagens para os moradores. Ele embrenha-se principalmente no mundo dos desenhos animados. além. E o homem falou assim: . vêem a frustração dos seus mitos. Nas últimas décadas. haveria tantas pessoas desejosas de participarem desses concursos? Dentre as estratégias de atração dos calouros e do público está a criação de uma atmosfera de realismo: há sempre um júri. Além de ouvir as emissoras locais de rádio. que prometiam ascensão e sucesso aos candidatos capacitados. Apesar de não conhecer a cidade. nossa narradora gostava da programação da cidade natal de seu pai. os telespectadores vêem pessoas iguais a ele sendo ridicularizadas.. Contratos e gravações são cada vez mais raros em programas de calouros. ambos citados em sua narrativa.. especialmente à televisão e ao rádio. Antes de ser um espaço de possível descoberta de novos talentos. A casa estava solitária e ninguém queria morar nela. A grande maioria dos candidatos não consegue passar das glórias daquele dia. . fato mais próximo da realidade na época dos grandes festivais musicais. Mas se a mensagem fosse exclusivamente negativa. esses programas funcionam como um espelho negativo: ali. não garante o sucesso. Aventura. É provável que tenha crescido assistindo aos programas de calouros. alimentados por uma infância diante desses aparelhos. porém. Minas Novas (MG). foi no bar que ficava perto da casa assombrada. está mais relacionado à mídia eletrônica. há poucos candidatos sérios e muitos que são escolhidos com a finalidade exclusiva de divertir o público. Alex não se refere diretamente aos programas televisivos.

eu quero que o fantasma também venha aqui. E ouvia um homem no cafezal. Só a garrafa se mexendo sozinha. Quando ele foi tentar voar. ouviu uma voz falando: . deixou o navio navegando sozinho.. não era o Superman. arrumou algumas faxineiras. Aí o homem não gostou da casa! Foi embora pra antiga casa dele. que morreu há muito tempo. ele escutou o piano tocar sozinho. depois foi nadar um pouco. Era uma senhora. sabe? Foi embora até . caiu no mar.Homem ao mar! E ele pegou três âncoras. ele foi dormir. Um dia.. nadar. escutou um homem cantando: Uma garrafa de rum. Chegou uma senhora. Falou: . quebrou o alçapão. ela viu a água do chuveiro caindo e a bucha se esfregando sozinha. Ela foi fazer compras no mercado ao lado também. Ele foi navegar. A garrafa caiu no chão.. rum. ele viu um monte de risada no quarto ao lado. ninguém quis navegar nele! Mas chegou um dia. mas quando caiu a noite. foi um acidente. Ela pegou a cesta. chorando porque o filho morreu. não tinha ninguém.Homem ao mar! E o pirata começou a nadar. um pirata quis navegar nele. O homem cansou do navio. elas limparam a casa. Ele escutou um cara lá fora. tacou na cabeça do fantasma de novo! Quando ele tacou. Arrumou. A cesta caiu no chão. Mas era um homem louco. Já era de noite. foi para a casa. um barquinho a motor.Foi um acidente. Chegou lá. Ela também foi pra antiga casa. Então chegou o Superman ! Quis navegar nele também. quando ouviu: . Ela falou: .Você sabia que essa casa é assombrada? Ela não acreditou.Ah. ele pegou um barco a motor. ele se assustou e falou para o homem do bar: . só pensava que era. tocando para o marido dela. ele falou assim: . Era uma vez um navio que navegava sozinho.Ah.Homem ao mar! E ele jogou a âncora na cabeça do fantasma (riso). Não tinha ninguém. Ela se assustou.Você sabia que essa casa aí é assombrada? E o homem falou assim: . E a noite ela viu alguém. navegou. eu quero que o fantasma venha aqui agora. rum.E o dono do bar falou: . Comprou arroz. tomar banho no mar. só de fantasma. Aí ninguém quis mais morar nela. os filhos da moça. a cadeira de balanço mexendo sozinha. Foi morar nela. cantando assim: Uma garrafa de rum. mas foi dormir. Ele saiu lá fora. O fantasma caiu também no alçapão. Quando ele foi dormir. se é assombrada.Não mexe com essas coisas! E ele foi pra casa. E ele quebrou a garrafa na cabeça do fantasma.Então. rum. feijão. E o fantasma de novo: . até na margem. que eram as crianças.. O fantasma caiu no chão. não gostava mais da aventura dele. rum. Quando o pirata foi pular na água. quando foi dormir também. Fim. o fantasma caiu lá em baixo e o homem corajoso foi comer. Quando ela foi falar com o caixa. foi embora. O homem do bar falou assim: .

que abrangem atos de canibalismo. casas e navios assombrados.Homem ao mar! Então ele jogou quatro âncoras. típico de comédia. têm elementos de terror. Outro recurso utilizado por Alex. assassinatos. o fantasma de novo: . os fantasmas são os responsáveis pelo amedrontamento do ouvinte. que não se contenta em copiar passivamente os personagens da mídia. em função de horários ou conteúdos considerados impróprios pelos adultos. Quando ele foi dormir. exerce uma função mais cômica. de novo o fantasma: Uma garrafa de rum. Alex demonstrava enorme prazer. filmes e desenhos animados. como ocorre na segunda história. além de escolher de maneira eficiente os elementos que agradam às crianças mais velhas e aos jovens. principalmente daquelas que falam de terror. ele inclui algumas brechas para que possamos respirar e sentir um pouco de alívio e conforto.. tomar banho de mar. Quando questionados sobre os motivos dessas escolhas. mesmo os contos de fadas.Capitão. rum. gerando no espectador a sensação de familiaridade com a piada e o riso por antecipação. Ele pegou a cama e tacou na cabeça do fantasma. Ao contar essas histórias. sexo e aventura. também louco. como acontece com o do navio que. Como todo bom telespectador. aí. como todo bom narrador. está na hora de caçar baleia. Fischer (1984) entrevistou crianças da idade de Alex e pouco mais velhas e descobriu que eles apreciam igualmente as novelas.a margem também. A interrupção do incômodo ocorre principalmente por meio do acréscimo de elementos cômicos e absurdos – como a inclusão do “louco” disfarçado de super-herói – estratégia que evidencia a irreverência do autor. o jovem sente prazer em não cumprir as regras criadas pelas gerações mais velhas. Todas as histórias contadas por Alex.. de novo! Quando o homem foi nadar. O fantasma caiu no alçapão. essenciais para suportarmos a tensão do enredo. semelhante à dos personagens de desenhos animados ou filmes que misturam comédia e aventura.. especialmente os que vivem na casa assombrada e conseguem expulsar as pessoas que tentam morar nela. Algumas vezes os fantasmas não são assustadores. Fim. afirmam que gostam muito de histórias. No entanto. E um cara. O fantasma caiu no alçapão e o homem que pensava que era o Batman foi tentar caçar baleia. O importante é que as narrativas sejam emocionantes e tenham o significado de uma transgressão. Quando o homem falou assim: . ele sabe adequar os conteúdos às representações imagéticas e sonoras mais propícias. é a repetição das situações. entusiasmo e humor. Além da experimentação de novas sensações. surrado por um falso super-herói. pensava que era o Batman ! Ele navegou também. Nem sempre Alex opta por um final feliz para gerar tranqüilidade e consolo. Nos discursos transcritos acima. alternando expressões vocais e faciais que evocavam medo.. gravidade. rum. conflitos entre Jesus e o Diabo etc. Ele pegou a coisa de caçar baleia e quebrou na cabeça do fantasma! O fantasma caiu lá embaixo na cama. .

que pode ser restabelecida ou não depois de inúmeras peripécias. que se sentem superiores aos sujeitos agredidos e percebem sua auto-estima reforçada. Para que esse mecanismo funcione. permitindo a liberação de tensões reprimidas pelo consciente. proporciona prazer e possibilita o afrouxamento dos controles morais. Exemplo disso é a diversão de Alex ao narrar a insistência do fantasma em voltar a assombrar. estupidez. a humilhação e a violência dirigidas a determinados indivíduos são naturalizadas. baseado na fantasia. Essas histórias de Alex são muito semelhantes a alguns desenhos animados no que se refere à estrutura narrativa e aos conteúdos. Não há nada impossível no mundo do desenho animado: os personagens que não morrem. foi a de agredir a assombração. para causar a impressão de variação de conteúdo. mas algumas respostas. outra característica importante dos filmes de aventura. o ser humano faz perguntas de teor existencial. no animismo e no egocentrismo. são exibidos sem qualquer necessidade de explicação lógica. As ações são repetidas várias vezes (de modo que a criança já sabe de antemão o que vai acontecer. A violência também pode ser aceita e até mesmo apreciada quando é justificada e/ou tem um executor atraente (a assombração não permitia a tranqüilidade de pessoas que queriam apenas navegar. o que lhe proporciona tranqüilidade. Nas histórias cômicas. dadas segundo a racionalidade e a inteligibilidade do adulto. sem causar mal a ninguém). pertencer a grupos marginalizados socialmente (como o louco que acredita ser um super-herói). tanto pelo pirata quanto pelos falsos super-heróis. A agressão sem verdadeiros efeitos danosos e a linguagem simbólica da magia – baseada na rapidez dos acontecimentos e na constante reversibilidade das situações – resultam em um inesperado efeito cômico. palavras faladas e escritas. os desenhos animados apresentam outra característica que conquista as crianças: a explicação da realidade a partir do ponto de vista do pensamento infantil. como nos filmes de aventura ou terror: algum personagem ou acontecimento modifica a ordem vigente. apesar de todos os objetos jogados em sua cabeça. prazer e identificação) e alguns elementos são substituídos. O enredo em si é muito simples. que dificilmente apresentam aos espectadores alternativas que não sejam violentas. a vítima precisa apresentar alguma característica que justifique o mau trato: demonstrar demasiada ingenuidade. dentre outras possibilidades. ser desumanizada (como os fantasmas). Interessante observar que a única solução encontrada. liberando sensações nitidamente sádicas nos receptores. Além da capacidade de unir de forma coerente e criativa imagens. apesar de serem submetidos a atos de extrema violência. irresponsabilidade ou ceticismo (como os moradores da casa assombrada).O humor promove uma mitigação do desgaste psíquico e físico. assim como nos casos em que as conseqüências para a vítima são mínimas (o fantasma rapidamente se recupera das pancadas e quedas). músicas. Desde pequeno. . de terror e de desenhos animados. tudo em movimento.

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