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A propósito da justificação da pena em Kant
Publicado por Paulo Queiroz em Direito Penal, Filosofia |

Para Kant, a pena se justificava pelo simples fato de retribuir (justamente) um crime praticado. A pena constituía, então, uma reação estatal legítima à ação ilegítima do indivíduo, independentemente de considerações de caráter utilitário, razão pela qual era de todo irrelevante investigar se a pena seria ou não capaz de motivar ou dissuadir delinquentes, e assim prevenir, em caráter geral ou especial, novos delitos. Enfim, a pena se justificava quia peccatum est. Com efeito, de acordo com Kant, “as penas são, em um mundo regido por princípios morais (por Deus), categoricamente necessárias”. Justamente por isso, “ainda que uma sociedade se dissolvesse por consenso de todos os seus membros (v. g., se o povo que habitasse uma ilha decidisse separar-se e dispersar-se pelo mundo), então, o último assassino deveria 2 ser executado”. Por isso, a lei de talião (dente por dente, olho por olho) seria o paradigma da verdadeira justiça, pois “só a lei de talião proclamada por um tribunal pode determinar a qualidade 3 e a quantidade da punição”, já que “o mal imerecido que tu fazes a outrem, tu fazes a ti mesmo, se tu o ultrajas, ultrajas a ti mesmo, se tu o roubas, roubas a ti mesmo, se tu 4 o matas, matas a ti mesmo” . Consequentemente, “todos os criminosos que cometeram um assassinato, ou ainda os que ordenaram ou nele estiveram implicados, hão de sofrer também a morte; assim o quer a justiça enquanto ideia do poder 5 judicial, segundo leis universais, fundamentadas a priori.”. Se déssemos razão a Kant, não faria sentido algum a previsão, entre outras situações, de causas de extinção de punibilidade (prescrição etc.), nem de causas especiais de isenção de pena (v.g., alguns crimes patrimoniais praticados contra ascendentes e descendentes), por implicarem a renúncia à punição do autor (em tese) culpado de crime. E uma teoria que veja a pena como uma retribuição jurídica pura e simples não tem como explicar tais casos. É que as citadas hipóteses de isenção de pena só fazem sentido se tivermos em conta que o direito penal e os conceitos com os quais trabalha (crime, pena etc.) são dimensões do poder político, razão pela qual, antes de tudo, cumpre saber o que pode e deve o Estado, num dado momento histórico, criminalizar/descriminalizar e como fazê-lo. E uma teoria retributiva simplesmente não tem como responder a questões dessa ordem, visto pressupor já decidido o
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Paulo Queiroz » Impressão » A propósito da justificação da pena em Kant http://pauloqueiroz. pp. cit. Saraiva. 2006. p. Ferrajoli. seja qual for a finalidade (declarada) assinalada à pena. p. em verdade. p. cit. cit. nesse sentido.149.net URL: http://pauloqueiroz. Quanto a isso. E tampouco pode dar resposta às críticas das teorias que. Madrid: Trotta editorial. Madrid: Trotta editorial.net/a-proposito-da-justificacao-da-pena-em-kant/ pauloqueiroz. que tem a ver com a legitimação interna.. 6No mesmo sentido. portanto. pretendem deslegitimá-lo e aboli-lo. 144. logo. Parte 1. 1916. 1995. La metafisica. partindo do pressuposto de que o sistema penal é estruturalmente injusto. é. com razão judicial (quando castigar). 3Kant. Giovanni Vidari. trad. 3ª edição. 256-258. ela sempre deverá ter como pressuposto irrenunciável o cometimento de uma infração penal. Derecho y razón. p. 5Kant.256. estamos todos de acordo.. quando assinala que as teorias retribucionistas confundem razão legal (por que castigar). Professor do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) e autor do livro Direito Penal. que se refere à legitimação externa da intervenção penal. e que consiste precisamente na retribuição. é Procurador Regional da República. Paulo. Impresso de Paulo Queiroz: http://pauloqueiroz. uma retribuição. parte geral. 1Citado 2La por Welzel. La metafisica. Milano: Studio Editoriale Lombardo. p.net/a-proposito-da-justificacao-da-pena-em-kant/print/ problema de saber o que pode e deve ser punido e como punir. S. Derecho penal alemán. desse segundo 7 problema. p. 1995. 4Kant. 6 total ou parcialmente. 142. Ferrajoli tem razão.net Paulo de Souza Queiroz: doutor em Direito (PUC/SP). Lisboa: Edições 70. Metafisica dos Costumes.. parte 1ª. 2 de 2 23/09/2012 15:05 . E Kant só se ocupou. 7Derecho y razón. 284. Apesar disso. 142-143. metafisica dei costumi: la dottrina del diritto.