Utilidade pública Será mesmo a perda da identidade? Definitivamente o casamento mudou.

A forma de encarar essa relação e, principalmente, as cláusulas desse pacto foram alteradas de maneira inexorável por Carlos Messa Nas grandes metrópoles já está estabelecido o novo formato do casamento que até há pouco era referido como “test-drive”, uma forma de falar brincando para dissimular algum constrangimento quanto ao “morar juntos”. O “test-drive“ tomou o lugar do antigo (e ultrapassado) noivado, mas difere dele, de maneira significativa. Nas pequenas cidades isso ainda não acontece com muita facilidade, mas acontece, demonstrando que é essa a direção do movimento social. O “morar juntos” se apoiou inicialmente como justificativa racional, e portanto consciente, de que se obteria com isso um teste que comprovaria ou não que essa relação “daria certo”. Caso se obtivesse resultados indicativos de que o relacionamento estava “dando certo”, então se poderia casar(!). O que observamos é que não é dessa forma que as coisas ocorrem porque formar um par não é uma definição (apenas) racional, mas principalmente emocional com seus inúmeros fatores inconscientes e, racionalmente, o “test-drive” é falho por diversas razões, entre elas: não estabelecer um prazo para o teste, o que significa que ele pode nunca terminar; se as coisas estão “dando certo”, surge a questão: para que mudar?; se as coisas não estão “dando certo”... faz parte do teste – vamos “testar” mais um pouco!; não são fixados parâmetros de avaliação do teste: O que é “dar certo” em um relacionamento?; se a relação está em teste, “devemos deixar que ela flua naturalmente” - não há esforço consciente para fazê-la “dar certo”. O “test-drive” também pode agregar à relação alguns fatores prejudiciais como, por exemplo: a certeza de um menor engajamento nesse compromisso, o que resulta em um menor esforço construtivo; a identidade de cada um dos componentes do casal em tese não é alterada (dependendo da maturidade emocional de cada um); abre-se espaço para o distanciamento de objetivos como a intensificação dos laços (formalização, filhos, etc.) por um dos pares e o outro permanece com a ideia de apenas “um relacionamento”; não se abdica de nada “pelo” relacionamento; não apostamos nele! O CASAMENTO NOS OBRIGA(VA) A “CRESCER” E, ASSIM, LEVAVA AO CRESCIMENTO DA INDIVIDUALIDADE, NO MÍNIMO PORQUE UMA RELAÇÃO TÃO INTENSA EXIGIA MUDANÇAS: MAIOR FLEXIBILIDADE E PERCEPÇÃO DO “OUTRO”

Por tudo isso é que, mesmo que admitamos que um período de teste possa ser positivo, muitos fatores negativos e prejudiciais são agregados, fazendo com que, efetivamente, estejamos apenas criando etapas para adiar algo assustador: formar um par e assumir uma nova identidade que nos transformará de maneira irreversível. Casar é um processo de transformação e não apenas uma mudança de “status” social. Ele altera o nosso modo de ser e é por isso que dizemos: “sou solteiro, sou casado” e não “estou solteiro, estou casado”. Casando nos tornamos um par e, com isso, passamos a ser relativos à outra pessoa: “o João da Maria, a Vera do André”. O casal, mesmo antes de ter filhos, passa a ser uma família! Mesmo com a separação não voltamos a ser “solteiros” e sim passamos a ser descasados. O casamento faz parte, também, do processo de ampliação de nossa individualidade, ao contrário do julgamento de que o casamento é limitador (visão individualista). O casamento nos obriga a “crescer” e, assim, leva ao crescimento da individualidade, no mínimo porque uma relação tão intensa exige mudanças: maior flexibilidade, percepção do “outro” ou mesmo a definição de uma tendência preexistente ao autoritarismo, dependência, autocomiseração, etc. A quem já foi casado não é fácil namorar. Quem já passou por esta experiência pode ter sim prazer ao namorar, mas não em apenas namorar.

hoje.Montar uma família era considerado obrigatório na vida de um indivíduo nos últimos séculos e deixou de sê-lo nas últimas três décadas.br . Será que um dia.com. Carlos Messa é psicólogo psicoterapeuta de casais. que tanto defendemos. Porém. parece mesmo engraçado que essa união formal seja negada. continua presente e lutamos racionalmente para defender a ideia de que precisamos “de nosso espaço” e de “vida autônoma” ou “independente”. A ambiguidade.se à carreira profissional. O casal. mas toda sua forma e estrutura seja reproduzida no “morar juntos”. Olhando de fora.br e contato@vinculum. Autor do livro O Poder dos Pais no Desenvolvimento Emocional e Cognitivo dos Filhos. inclusive com a natural (e frequentemente imprevista) vinda de filhos. é apenas uma etapa de nosso desenvolvimento e a permanência nela nos torna estéreis? Sim. Confundimos nossas necessidades e a forma cíclica como nossas emoções têm existência. mais tarde do que ocorria anteriormente. ainda hoje encontramos homens que visam relacionamentos com mulheres que não se tornem dependentes financeiramente e mulheres que lutam com sentimentos ambivalentes em relação a ter filhos e dedicar. nos daremos conta de que nos falta algo? Que essa nossa identidade. Em função disso. www. ao menos ao que nos permite a consciência. acostumou-se a olhar para a perda e não para o ganho. com a manutenção de uma suposta independência que nos remete à antiga identidade (de solteiros). no entanto.vinculum. “casar” tornou-se mais assustador do que já era. no entanto.com. essa consciência acontece mais cedo ou mais tarde e é quando ela chega que começamos a assumir nossa família.

mediante essas similitudes. Uma perspectiva moralista poderia imputar uma análise apurada da constituição da moda como algo espúrio ou intelectualmente inferior. A palavra “moda” é de origem latina. 267. circunstância que comprova a extrema importância da problematização contínua dessa questão. p.Moda: uma sociedade com os sentidos embotados A sociedade de consumo encontrou na neofilia a droga estimulante perfeita para as infinitas frustrações causadas pela publicidade e suas promessas não cumpridas. “costume”. e não pode fazer outra coisa a não ser transmiti-la². Para Lipovetsky. a moda se enraíza na organização capitalista como uma espécie de extensão sutil da estrutura normativa da sociedade disciplinar: a massa de consumidores é simbolicamente pressionada a seguir gostos predeterminados pelos “sacerdotes do consumo”. uma vez que a moda é um fenômeno comportamental arraigado nas sociabilidades. A moda é uma das tendências sociais que acompanha o desenvolvimento das civilizações desde tempos imemoriais. ²QUESSADA. Tal como argumenta o sociólogo alemão Siegfried Kracauer. 155. Dessa maneira. “maneira”. mores. O Império do Efêmero. Assim. O Ornamento da Massa. Enquanto a moral tradicionalmente se encarrega de orientar as vidas humanas através de prescrições universalistas de conduta visando o estabelecimento da ordem social e do bem comum. regulando o uso de vestuários. A tirania da moda e a servidão para a marca Na contemporaneidade. consumo de bens e critérios de gosto. Nada mais preconceituoso. ³LIPOVETSKY. sociais e econômicas. e. e significa “modo”. ele a propaga. diversos filósofos. p. pois. conseguiu fazer do superficial um instrumento de salvação. os publicitários. professor do curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA. estetizou e individualizou a vaidade humana. da Faculdade Flama . sociólogos. a moda. ela representa a expressão de valores estéticos e padrões de gosto de uma época ou até mesmo o símbolo do grupo detentor do padrão estilístico de uma organização cultural. Podemos então afirmar. “uma vez que uma moda se impõe. os estilistas e seus tentáculos comerciais. Cabe ressaltar que há ainda uma proximidade semântica entre as palavras “moda” e “moral”. que a moda se caracteriza na era moderna como uma espécie de moralidade secularizada. logo é imitada por todos e o mundo inteiro tenta apoderar-se dela”¹. O indivíduo que não se submete aos padrões estabelecidos pelo sistema normativo da moda é excluído dos grupos sociais regidos pela lógica identitária da igualdade de estilo. pois exige do indivíduo que anseia participar da lógica social das aparências uma devoção incondicional pelo padrão estabelecido. O Poder da Publicidade na Sociedade Consumida Pelas Marcas.39. E a moda é peça-chave para esse mecanismo. a moda apresenta um teor tecnicamente fascista. Neste texto enfatizaremos duas características fundamentais dos processos constituintes do discurso da moda: sua falsa noção de singularidade e sua excitação psíquica pelo novo. p. 2006. modus. aceitando-a. primeiro grande dispositivo a produzir social e regularmente a personalidade aparente. DIFERENTE DO REBANHO SOCIAL ANÔNIMO Renato Nunes Bittencourt é doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. isto é. Mais ainda. Cada homem que expõe uma marca se mantém na servidão voluntária. não pode fazer outra coisa senão sustentar e transmitir a tirania. uma finalidade da existência³. psicólogos e demais pensadores de porte dedicaram valiosos escritos ao estudo da moda nas suas mais diversas interfaces éticas. “hábito”. ¹KRACAUER. O filósofo e ensaísta francês Dominique Quessada salienta que cada homem que aceita uma marca demonstra sofrer a tirania desta. O DISCURSO DA MODA PROMETE AO CONSUMIDOR A FALSA POSSIBILIDADE DE SE TORNAR UMA PESSOA SINGULAR. a moda visa estabelecer padrões de estilo.

em todas as inovações criadas pelas culturas e pelo próprio setor6. fazendo-o acreditar que ele se diferencia dos demais usando determinada roupa ou consumindo dado produto. Entretanto. Assim. circunstância que revela a incompatibilidade entre o projeto filosófico do Iluminismo e as falácias publicitárias associadas aos paradigmas normativos da moda. a moda ilude a consciência do consumidor. Essa “revolução” nos padrões da moda. marca de excelência social. isto é. quando em verdade vivencia experiências repetitivas sem perceber a nuance dessa relação de forças. cada indivíduo sonha em se destacar da cuba humana e atingir um patamar social de venerabilidade.e do Departamento PAIXÃO PELO MODERNO de Filosofia do O filósofo francês Gilles Lipovetsky (1944-) destaca que. os esportes radicais. Todavia. mas porque significa status e exclusividade. aparece uma das Colégio Pedro II. com a moda. que nos mantêm subjugados ao estado de menoridade existencial. deve ser interpretada de maneira rigorosamente crítica: tal assimilação das diferenças até então excluídas nasceu da necessidade capitalista de ampliação do mercado de consumo. como a vanguarda. que visa obter emoções fortes supostamente unívocas em cada ato de consumo. Há assim uma redução estética do indivíduo. denunciado com tanta frequência ao longo dos séculos³. A liberdade humana perante o universo da moda e dos seus objetos consagrados consiste apenas na possibilidade de escolher entre a marca “A” ou “B”. em verdade. claro está. no entanto. Percebemos dessa maneira quão falseador é o mecanismo publicitário apresentado cotidianamente nos meios de comunicação de massa. O sociólogo estadunidense Richard Sennett (1943 -) destaca que o consumidor busca o estímulo da diferença em produtos cada vez mais homogeneizados. o consumidor encantado por esse discurso idolatra piamente os seus próprios controladores ideológicos. o fashion. PROMESSAS NÃO CUMPRIDAS O discurso da moda promete ao consumidor a falsa possibilidade de se tornar uma pessoa singular ao adquirir determinado produto. Ele se parece com um turista que viaja de uma cidade clonada para outra. primeiras manifestações de uma relação social que encarna um novo tempo legítimo e uma Também é membro do grupo de pesquisa nova paixão própria ao Ocidente. regras de comportamento adotadas que só agradam pela novidade. ou seja. a voz sedutora da moda não é direcionada apenas para um indivíduo eleito dentre a multidão. . associada de imediato a produtos previamente criados visando satisfações universais. são acompanhadas do “dever” de adoção e de assimilação. impõemse mais ou menos obrigatoriamente a um meio social determinado – tal é o “despotismo” da moda. cabendo assim o comentário do sociólogo estadunidense Don Slater: “As pessoas compram a versão mais cara de um produto não porque tem mais valor de uso do que a versão mais barata (embora possam usar essa racionalização). e sim para uma coletividade de consumidores economicamente aptos a adquirir os produtos e seguir padrões estilísticos extrínsecos. é preciso seguir “o que se faz” de novo e adotar as últimas mudanças do momento1. que sabem pensar por ele em todos os quesitos do gosto. A dinâmica da moda requer cada vez mais especialização em segmentos diferenciados. Moda na Antiguidade: afresco encontrado em Pompeia mostra tinturaria romana da época de Vespasiano (século I) As especialistas do mercado de moda Daniela Dwyer e Marta Feghali afirmam que já se foi o tempo em que a moda se voltava quase que de maneira integral ao atendimento de seus públicos básicos – masculino e feminino – e de maneira uniforme. antes de se tornarem (concorda com „regras‟)costume. O processo de efervescência social dos ditames da moda foi analisado de maneira perspicaz por Immanuel Kant (1724-1804). e. diferenciando-se assim do rebanho social anônimo. A novidade tornou-se fonte de valor Spinoza & Nietzsche mundano. Lipovetsky aponta que a moda é um sistema original de regulação e de pressão sociais: suas mudanças apresentam um caráter constrangedor. Ocorre nesse processo a aniquilação da autonomia do consumidor. terão de ser trocadas por outras formas igualmente passageiras”². comprando em cada uma delas o mesmo produto5. ele apenas transferiu sua capacidade de decisão aos ditames duvidosos dos estilistas. esse status provavelmente será indicado pela etiqueta de um designer ou de uma loja de departamentos”4. a do “moderno”. circunstância que demonstra a relevância filosófica do tema para a elaboração de uma análise crítica dos signos sociais: “O engenho é inventivo na moda. visitando as mesmas lojas. utilizando-se de todos os meios econômicos para obter tal distinção. quando. e. Afinal.

em mercados virtualmente saturados. subvertendo. as preferências e as modas. A busca compulsiva pelo novo leva a escolhas cada vez mais parecidas (mas que pretendem ser distintivas). a única forma de crescimento possível é a rapidez com que se sucedem os gostos. Daniela Dwyer e Marta Feghali salientam ainda que. o filósofo e etólogo austríaco Konrad Lorenz (1903-1989) sentencia que o método mais irresistível para manipular grandes massas humanas pela sincronização de suas aspirações é fornecido pela moda. tradicionalmente excludente. Esse discurso sedutor representa a essência fetichista da moda: a roupa adquire propriedades mágicas e serve de interposto entre as pessoas. ela deriva simplesmente da aspiração humana generalizada de tornar visível a própria dependência de um grupo cultural ou étnico9. hoje. JEAN BAUDRILLARD É INCISIVO AO AFIRMAR QUE A MODA – E O CONSUMO. acentuar. Esta é criada pelas experiências do indivíduo no decorrer de sua existência. Poderíamos afirmar que tal inclinação hodierna decorra da efetiva aceitação dessas tribos pelo sistema capitalista. no design e na moda. conforme a exigência normativa da moda. no sentido de possibilitar respostas rápidas às mudanças de tendência e às demandas do consumidor8. criar a volatilidade. criando-se assim uma distorcida noção de identidade. visando o aumento do consumo per capita Constatamos. o caráter efêmero das modas e dos desejos. ele se torna intrinsecamente belo. a concorrência se faz no estilo. Se porventura o indivíduo está “bem vestido”. estabelecida pelos critérios normativos da moda. O mesmo ocorreu com os grupos sociais relativamente emancipados na (mal)dita pós-modernidade. diz-se que uma pessoa vestida de maneira elegante. em verdade negros. os capitalistas conscientizaram-se da “necessidade da criação de necessidades” artificiais. suas redes sociais. a mentalidade de produção era voltada para a satisfação de necessidades consideradas “reais”. opor-se a toda normalização e a todo senso de normalidade7. nessas circunstâncias. na origem. Ora. para as empresas. sua interioridade e sua subjetividade.se assim o Ser pelo Ter10. ATÉ OS anos 1920. Podemos afirmar que se trata de fenômeno similar ao ocorrido na abolição da escravidão nos países que realizavam tal prática: não obstante o autêntico humanitarismo de diversos intelectuais contrários a esse sistema terrífico. como uma essência capaz de ser plenamente revelada por roupas e signos estilísticos. Não se trata simplesmente. no decorrer do capitalismo passa a ser submisso ao poder mágico do capital.RAD LORENZ SENTENCIA QUE O MÉTODO MAIS IRRESISTÍVEL PARA MANIPULAR MASSAS PELA SINCRONIZAÇÃO DE SUAS ASPIRAÇÕES É FORNECIDO PELA MODA O filósofo austro-francês André Gorz (1923-2007) aponta de modo categórico que. QUE É INSEPARÁVEL DA MODA – MASCARA UMA INÉRCIA SOCIAL PROFUNDA . Na experiência prosaica. exigindo capacidade de organizar a produção de maneira flexível. de “responder” de maneira quase instantânea à “demanda” cada vez mais volátil dos clientes: devem adiantar-se a ela. a essência do sujeito é determinada por aquilo que ele veste e sua palavra de ordem é “eu sou aquilo que eu visto”. a inconsistência. dentro de possibilidades cada vez mais limitadas Nesse contexto. obesos e outros segmentos são representados por estilos da moda porque os estrategistas do capitalismo perceberam que todo grupo dotado de razoável poder aquisitivo não deve mais ser posto de lado em uma dinâmica econômica que exige cada vez mais participação da esfera de consumidores. o apreço por dado estilo ou tendência representa um fragmento de sua identidade. Na sociabilidade das aparências. mas jamais a identidade em si. a motivação maior para a extinção desse regime ocorreu em função da necessidade da ampliação do mercado de consumo. Certamente. Após a crise da bolsa de 1929. a efervescência de inúmeras tendências de moda que agregam uma miríade de grupos humanos e de estilos. está “bonita”. Nesse juízo de valor não entram em questão as qualidades interiores desse indivíduo nem mesmo sua beleza aparente. Se antes o escravo era submisso ao senhor. na conjuntura do capitalismo tardio. mediadas a partir de então por objetos.

estabelece a falsa relação de causalidade entre “novo” e “bom”. quanto mais nervosa for uma época. Ora. em nossa necessidade de substituir cada vez mais depressa as coisas mundanas que nos rodeiam. tanto mais depressa se alteram as suas modas. Com efeito. de objetos. Hannah Arendt (1906-1975) percebeu o dispositivo alienante existente na obsolescência dos produtos veiculados pelo sistema da moda ao afirmar que. novos desejos de compras. E a moda é peça-chave para esse mecanismo . a neofilia se afirma como paixão cotidiana e geral. temos de consumir. de respeitar e preservar sua inerente durabilidade. já não podemos nos dar ao luxo de usá-las.se sociedades reestruturadas pela lógica e pela própria temporalidade da moda. por meio das mudanças à vista. Detectando essa nuance própria da realidade capitalista. que. aquilo que é novo não é de modo algum necessariamente dotado de qualidade. afirma que “a mudança da moda mostra a medida do embotamento da sensibilidade. independentemente de critérios morais de conduta. Konrad Lorenz argumenta que a neofilia é um fenômeno bem-vindo aos grandes produtores. nossas casas. A neofilia é o impulso psicológico decorrente da necessidade de investir em uma miríade de aquisições como forma de manter a consciência direcionada para o ato de consumo das novidades outorgadas pela moda. destaca: “Enquanto o princípiomoda „tudo o que é novo apraz‟ se impõe como rei. com sua perspicácia característica. as esperanças do futuro pelo êxtase do presente sempre novo”14. na medida em que. Moda: uma sociedade com os sentidos embotados A sociedade de consumo encontrou na neofilia a droga estimulante perfeita para as infinitas frustrações causadas pela publicidade e suas promessas não cumpridas. criando tendências “novas e obrigatórias” Nessa conjuntura. cria a excitabilidade ansiosa pela aparição daquilo que é “novo” no regime do consumo. Haveria uma necessidade de “devorá-las” embutida no receio de vê-las deterioradas A vida na civilização regida pela sôfrega erupção das novidades exige de cada indivíduo uma capacidade mais potente de assimilação dos múltiplos estímulos comunicacionais despejados pela tríade composta por moda. um dos sustentáculos essenciais de toda a moda. por assim dizer. sociedade de consumo e publicidade. Para Hannah Harendt já não era possível usar as coisas que nos cercam respeitando e preservando sua durabilidade. de modo constante. Lipovetsky. Ela própria é fator de falência social. mantendo-se assim o círculo vicioso que amalgama confusão interior. que é inseparável da moda – mascara uma inércia social profunda. o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) é incisivo ao afirmar que a moda – e mais amplamente o consumo. a tradição pelo movimento. SENTIDOS SATURADOS E BUSCA DE ESTÍMULO A busca das novidades de consumo apresenta dois problemas cruciais para a situação psicológica do indivíduo regido pelos signos efervescentes da moda: 1. graças ao doutrinamento das massas. de uma singularidade própria. um presente que substitui a ação coletiva pelas felicidades privadas. de vestuários e de ideias. caminha de braço dado com o esgotamento das energias nervosas”13. para cada pessoa. exploram a fundo essa tendência. é imprescindível que o regime capitalista se aproveite das ondas cada vez mais aceleradas da moda para conseguir frustrar continuamente as pessoas. por sua vez. nossos móveis. todo estilo que escapa do limitado âmbito do princípio de identidade – tal como estabelecido pelo sistema normativo da sociedade regida pelos ditames da moda – é estigmatizado como “estranho”. graças à qual a tendência para a igualização social se une à tendência para a diferença e a diversidade individual num agir unitário11. em outras palavras. nela se ilude e desilude a exigência de mobilidade social real12. e muitas vezes cíclicas. Estilistas da alta costura como o ítalofrancês Pierre Cardin (1922-) atuam como oráculos pósmodernos. Instalaram. frustração psicológica e os estímulos intermitentes para o consumo. capaz de lhes dar grandes lucros15. caracterizada pela existência. axiologicamente intransferível. fazendo com que brote nelas. 2. nossos carros. Georg Simmel. como se fossem as “boas coisas” da natureza que se deteriorariam caso não fossem logo trazidas para o ciclo infindável da mutabilidade do homem com a natureza16.O filósofo-sociólogo austríaco Georg Simmel (1858-1918) aponta que a moda nada mais é do que uma forma particular entre muitas formas de vida. devorar. Por conseguinte. Essa disposição coercitiva é uma espécie de violência simbólica contra a dignidade da condição humana. porque a necessidade de estímulos diferenciadores. ansiedade.

p. 1 2 LIPOVETSKY. seguem-se daí o vício e o luxo (ou seja. Os Quatro Grandes Erros. abastada e pela ditadura da moda. segundo a perspicaz colocação de Friedrich Nietzsche (1844-1900): “A Igreja e a moral dizem: „o vício e o luxo levam uma estirpe ou um povo à ruína‟. 37. p. KANT. 3 LIPOVETSKY. “na medida em que não somos determinados pelo interior. O Império do Efêmero. a paixão pelo novo. de modo a manter a personalidade razoavelmente ativa. 81. 18 NIETZSCHE. p. 39-40. incapaz de perceber a frugalidade e a sobriedade da simplicidade da vida. 8 DWYER & FEGHALI. Permanece. Misérias do Presente. I. O Ornamento da Massa. estas características e tendências favorecem o surgimento da moda. Lipovetsky constata que “a sociedade de consumo criou em grande escala a vontade crônica dos bens mercantis. degenera-se fisiologicamente. 13 SIMMEL. 4 SLATER. como sabe toda natureza esgotada)”18. A Felicidade Paradoxal. Moda e consumismo se tornam temperos que concedem sabores pretensamente mais sofisticados a um paladar doente. diluída em um ritmo de vida alienante. A Condição Humana. Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático. 12 BAUDRILLARD. 9 LORENZ. 138. 50. o anseio cada vez maior pela satisfação das necessidades desiderativas. p. Os Oito Pecados Mortais do Homem Civilizado. 33. O Império do Efêmero. significa a impotência humana de preservar sua serenidade psíquica. ou a sociedade hipermoderna. Filosofia da Moda. Os Oito Pecados Mortais do Homem Civilizado. Para uma Crítica da Economia Política do Signo. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína. o organismo embotado exige um tônico estético que intensifique a existência despersonalizada. p. p. 11 SIMMEL. no contexto alienante da sociedade de consumo. p. 267. exigindo a constante intensificação das sensações. 137. tornamo-nos nervosos. o público consumidor de moda O próprio luxo. As Engrenagens da Moda. 119. dirigir várias atividades e expressões de acordo com seus próprios desejos. Tempo contra tempo. p. 19 LIPOVETSKY. Os especuladores do sistema da moda prosperam economicamente em função da ausência de pensamento e senso crítico dos consumidores capitalistas. § 2. In Crepúsculo dos Ídolos. p. 6 DWYER & FEGHALI. p. Cultura do Consumo e Modernidade. 24. p. p. p. o vírus da compra. Além disso. 14 LIPOVETSKY. 99. considerado sinônimo de sofisticação pela sociedade busca sempre uma “droga mais forte”. p. a necessidade de estímulos cada vez mais fortes e mais frequentes. 10 MARX. As Engrenagens da Moda. intrinsecamente insatisfeitas. Com efeito. bombardeada por estímulos sensórios intensos. 15 LORENZ. 16 ARENDT. Essas experiências negativas de insatisfação existencial tendem a criar uma personalidade dependente da elevação constante do índice de consumo para que se venha assim a obter estados fugazes de prazer.O desejo extremado pelo novo. 36. e os signos da moda e os bens do mercado de luxo se encaixam nesse dispositivo de fortalecimento artificial da existência. 35. Riqueza do Possível. a moda pode impor seu próprio domínio em quase todas as esferas do ser. 7 GORZ. degradante. 156. um modo de vida centrado nos valores materialistas”19. . 5 SENNETT. 17 KRACAUER. 60-61. O Capital. nada mais seria do que sintoma de decadência existencial. 23. amamos a mudança e talvez por isso mesmo queiramos fugir do esvaziamento da alma. 30. Vol. p. 10. longe de representar uma abertura existencial para a contínua capacidade de transformação das condições corriqueiras de vida para uma experiência pessoal mais criativa. que legitima ideologicamente aquilo que o “novo” acaba sendo sinônimo de “bom” é de bom gosto ou vulgar. Como um adicto. Para ele. p. Tal como argumenta Siegfried Kracauer (1889-1966). do nosso desejo por tudo o que é novo”17. Filosofia da Moda. p. A Cultura do Novo Capitalismo. p. todavia.