Glauber Rocha

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Paulo Henrique Rodrigue s Silva

Assinado de forma digital por Paulo Henrique Rodrigues Silva DN: cn=Paulo Henrique Rodrigues Silva, c=BR, o=Infohome, ou=Infohome, email=phrs14@yahoo. com.br Dados: 2007.03.22 01:11:11 -03'00'

GLAUBER ROCHA
Cineasta: 1939 - 1981

Ivana Bentes
QUANDO TUDO ACONTECEU...

1939: No dia 14 de março, em Vitória da Conquista, interior da Bahia, nasce Glauber de Andrade Rocha, primeiro filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e Lúcia Mendes de Andrade Rocha. - 1946: Alfabetizado pela mãe, entra para a escola, aos sete anos. - 1947: Acompanha o pai, engenheiro de estradas de rodagem, nas viagens pelo sertão da Bahia. - 1948: A família muda para Salvador. O pai sofre um acidente que deixa graves seqüelas, a mãe, aos 29 anos, assume a família. - 1949: Recebe educação religiosa em colégio presbiteriano de Salvador. - 1952: Participa, como crítico de cinema, do programa de rádio Cinema em CloseUp. Morre de leucemia a irmã Ana Marcelina. - 1953: Diz que será escritor. Lê Jorge Amado, Érico Veríssimo, clássicos da literatura juvenil, filosofia (Nietzsche e Schopenhauer). Vai ao cinema e lê histórias em quadrinhos. - 1954: Freqüenta o Clube de Cinema do crítico Walter da Silveira. - 1955: Dirige no colégio encenações combinando poesia e teatro. - 1956: Funda a produtora de cinema Yemanjá. - 1957: Filma O Pátio, primeiro curta-metragem influenciado pelo concretismo. - 1958: Trabalha como repórter de polícia e passa a escrever sobre cinema e cultura em jornais de Salvador. - 1959: Viaja para São Paulo e Rio e O PÁSSARO DA ETERNIDADE conhece cineastas, intelectuais e os futuros parceiros do NÃO EXISTE. SÓ O REAL É Cinema Novo. Casa-se em Salvador com a atriz de Pátio, ETERNO. Helena Ignez. Filma o curta-metragem inacabado Cruz na Praça. - 1960: Nasce a primeira filha, Paloma Rocha. Assume a direção de Barravento, primeiro longa-metragem. - 1961: Separa-se de Helena Ignez - 1962: Primeira viagem a Europa. Conhece Praga, Roma, Paris, Lisboa. Barravento é premiado em Karlovy Vary. - 1963: Publica Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. O Cinema Novo ganha
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visibilidade internacional. - 1964: Acontece o Golpe Militar durante viagem ao Festival de Cannes para exibir Deus e o Diabo na Terra do Sol , seu filme-revelação. - 1965: Lança o manifesto A Estética da Fome com as bases estéticas e políticas do Cinema Novo. É preso num protesto contra o regime militar no Rio de Janeiro. Viaja para o Amazonas e filma o curta-metragem Amazonas Amazonas.. - 1966: Filma o curta Maranhão 66. - 1967: Realiza o longa-metragem Terra em Transe, apresentado no Festival de Cannes. O filme é proibido no Brasil e se torna o manifesto de uma geração. Escreve os textos: A Revolução é uma Eztetyka; Teoria e Prática do Cinema Latino-Americano; Revolução Cinematográfica e Tricontinental. - 1968: Fala em sair definitivamente do Brasil. - 1969: Viagem à Europa para exibir O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro no Festival de Cannes 69 que lhe daria o prêmio de melhor diretor. Viaja para África, para filmar O Leão de 7 Cabeças. - 1970: Viaja para a Catalunha onde filma Cabezas Cortadas. Volta ao Brasil e passa a escrever para o semanário O Pasquim. - 1971: Inicia um exílio que duraria 5 anos, viaja pela América Latina, EUA, Europa. Vai para Cuba. - 1972: Trabalha em Cuba no projeto História do Brasil, um filme de montagem e vive com a jornalista Tereza Sopeña. Monta o filme Câncer, filmado em 68 . 1973: Vive entre Paris e Roma. - 1974: Polemiza ao declarar que o general Golbery do Couto e Silva, militar nacionalista, é um dos "gênios da raça". Se apaixona pela atriz francesa Juliet Berto e viaja com ela para o Egito. Em Roma, conclui História do Brasil. - 1975: Em Roma, filma Claro, com Juliet Berto. - 1976: Viaja para Moscou e visita o acervo do cineasta Sergei Eisenstein. Volta ao Brasil. Filma o velório do pintor Di Cavalcanti, sob protesto da família. O filme está proibido até hoje. - 1977: Morte trágica da irmã Anecy Rocha, incorpora o fato no romance Riverão Sussuarana. O curta-metragem Di Cavalcanti é premiado no Festival de Cannes. - 1978: Filma A Idade da Terra em Salvador, Brasília e Rio de Janeiro. - 1979: Nasce Ava Patria Yndia Yracema Gaitan Rocha, primeira filha de Glauber e Paula Gaitan, sua última mulher com quem teria mais um filho, Erik Arouak. Escreve para vários jornais, provocando polêmicas e reações. Inicia o programa Abertura, na TV Tupi, em que faz entrevistas com grande repercussão e inventa uma linguagem própria. - 1980: Morte
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do pai. Participa do Festival de Veneza com Idade da Terra . O filme, um dos mais radicais como linguagem, gera polêmicas em Veneza e é mal recebido no Brasil. - 1981: Viaja para Paris e depois Portugal. Se define como "sebastianista" e apocalíptico. Vive em Sintra - "um belo lugar pra morrer" - quando adoece de uma "pericardite viral". Volta ao Brasil em estado grave. Morre no dia 22 de agosto e é velado no Parque Lage, cenário de Terra em Transe, em meio a grande comoção e exaltação.

"SINTRA É UM BELO LUGAR PARA MORRER" *

Disse isso a Patrick Bauchau, ator que passou por aqui com a equipe de Wim Wenders, filmando O Estado das Coisas. Expliquei ao Patrick que "para a média de idade de um latino-americano, aos 42 anos já vivi bastante". A doença, a precariedade financeira e as incertezas me levam a pensar que vivo em Portugal meu segundo e último “exílio”, foi o preço que paguei no Brasil pela liberdade artística. Sintra, 26 de abril de 1981. “Aqui é bonito. Escrevo diante de uma panavisão sobre o Atlântico camoniano e sebastianista do alto de uma montanha antes habitada por Byron numa linda casa onde viveu Ferreira de Castro... O romancista João Ubaldo Ribeiro está hospedado aqui com a Berenice grávida... As coisas vão bem, estou feliz no
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meu feudo à beira mar plantado vendo todos os dias naves partindo na construção do IV Império de Sebastião Ressuscitado...” O clima em Sintra é ameno, a paisagem deslumbrante, parece que redescobri o paraíso. Vivo com Paula e as crianças, Ava e Aruak, florescem. “Me sinto reprojetado nas origens”. Em Paris foi duro, passei o Natal e o Reveillon de 1980 com a família e poucos amigos, acompanhando uma retrospectiva de meus filmes e apresentando A Idade da Terra", mal recebido no Brasil e no Festival de Veneza. Fiquei magoado. Quero “tempo e calma” para começar um novo filme, mas não vejo uma saída. “Briguei com mais de 200 pessoas no Festival de Veneza”, o júri rejeitou o filme, perdi o chão. “Não quero mostrar esse filme em Festivais. Talvez no Museu de Arte Moderna. Muitas pessoas comparam A Idade da Terra com Guernica”. Rompi com tudo, é uma obra radical: "Do filme DI CAVALCANTI para cá eu rompi com o cinema teatral e ficcional que fiz de Barravento até Claro. A Idade da Terra é a desintegração da seqüência narrativa sem a perda do discurso (...) "Esse filme materializa os símbolos mais
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das santas em revolucionárias. busco um outro cinema: "um filme que o espectador deverá assistir como se estivesse numa cama. a rebelião das mulheres.Glauber Rocha representativos do TERCEIRO MUNDO.. e não visto e ouvido.. gastei todo meu patrimônio nesse filme.” Longe do Brasil tento colocar a cabeça em ordem.”. Bahia. Brasília e Rio. É um novo cinema. o catolicismo popular. as forças negras. antiliterário e metateatral. Mas não se trata de loucura. Sintra ajuda. vendi nossa casa no Rio de Janeiro. o orçamento estourou e o filme é um fracasso de público. numa festa. ou seja: o imperialismo. O coração parece que vai explodir… A MÁQUINA DE ESCREVER: UM CAMPO DE BATALHA file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. que será gozado.) .” Dizem que estou louco. "Tudo isso está no filme dentro do grande cenário da História do Brasil e das três capitais. o militarismo revolucionário. “o cinema novo foi uma revolução cultural feita por garotos. as prostitutas que se transformam em santa.. os índios massacrados.(.. o terrorismo urbano. a prostituição da alta burguesia. numa greve ou numa revolução.htm (5 de 25)22/3/2007 01:09:08 . é difícil aos quarenta anos viver depois da revolução”.

Dos 13 aos 42 anos. poemas roteiros inacabados. roteiros. Na filosofia. rascunhos. seria a história de um sertanejo de Vitória da Conquista que chegou à compreensão científica do mundo e a exprimiu em cinema e letras e política. onde nasci e cresci lendo a Bíblia e ouvindo histórias do sertão. sudoeste da Bahia. Escrevi mais do que filmei. Abro os pacotes e malas que me acompanham em todas as viagens: cartas. textos. Kipling. Acredito na eternidade. Nietzsche. Somos um país sentimental. de file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. A morte é uma invenção da direita. Se fosse um filme. freqüentam os terreiros e praticam o candomblé.” “Tenho de trabalhar nesta máquina de escrever como se estivesse numa dessas terríveis batalhas ” .Glauber Rocha Diante do mar Português vejo minha vida desfilar pelo papel. Releio trechos de cartas. Detetive. fiz uma auto-análise sistemática através dos escritos. Passei a infância na pequena Vitória da Conquista.htm (6 de 25)22/3/2007 01:09:08 . lia histórias em quadrinhos. X-9. Aos 13 anos. Edgar Allan Poe e R. uma nação sem gravata". No cinema admirava Chaplin e Jean Cocteau. estou na Bahia. A família é protestante num país católico em que todos. mas também Jorge Amado. Schopenhauer. "Nossa cultura é a Macumba e não a ópera. mas não em Deus. Voltaire. Érico Veríssimo. as aventuras do Superman.

) “não credito file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. São machos. e tenho verdadeira reverência por Bertold Brecht. Acho que devemos fazer revolução. “Cuba é um acontecimento que me levou às ruas. eles estão construindo uma civilização nova no coração do capitalismo. me deixou sem dormir. Mas "a poesia e a política são demais para um só homem!" CINEMA COMO GUERRILHA CULTURAL Maio de 1961.” (. jovens geniais. (. “Saúdo a nova República Socialista Cubana” em nome dos “jovens universitários. que iriam virar filme.. fui até Moscou em 1976. raçudos. Prefiro os escritores brasileiros aos europeus.” Arte ou revolução? “Não acredito no cinema mas não posso viver sem o cinema.. operários. e como eu um “amante das antíteses e das hipérboles”.. artistas brasileiros”. Sofro da mesma exaltação poética! Ao longo da minha vida.) Cuba é o máximo.” Amo o poeta Castro Alves. para ver seus arquivos. Queria me tornar um escritor. Precisamos fazer a nossa [Revolução] aqui.. morto aos 24 anos.htm (7 de 25)22/3/2007 01:09:08 .Glauber Rocha matadores de aluguel e cangaceiros. mas só tinha uma certeza "escreverei sobre minha terra. como eu. nascido na Bahia no mesmo dia 14 de março. a admiração pelo poeta abolicionista só foi superada pela identificação com o cineasta russo Sergei Eisentein.

Disse ele. vários filmes longos e curtos. um novo cinema. mas também França e Itália são as referências imediata: “Estão fazendo um novo cinema. o cinema direto de Jean Rouch. na Itália: “Hoje conversamos com Jean Rouch . com a câmera na mão. o novo cinema argentino e…o Cinema Novo brasileiro. a nouvellevague de Godard em Paris. Joaquim Pedro de Andrade. Vamos agir em bloco. o Cinema Novo.htm (8 de 25)22/3/2007 01:09:08 . que no cinema moderno file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha.” Um cinema político e esteticamente revolucionário será a nossa resposta. David Neves. fazendo política. Estou articulando com eles um congresso latino-americano de cinema independente. Gustavo Dahl sobre a contrapartida estética e européia da Revolução Cubana: o neo-realismo italiano em curso. Sem dinheiro nenhum.Glauber Rocha nada à palavra arte neste pais subdesenvolvido. O cinema pode dar uma resposta estética para o desejo de revolução social. Paulo César Saraceni escreve do Festival de Santa Margherita. Cuba. Do contrário eu me suicido. Precisamos quebrar tudo. possuem uma grande revista [Cine Cubano].ele nos contou como fez Pirâmide Humana e Moi un noir.” Da Europa e dos festivais recebo cartas igualmente entusiasmadas de Paulo César Saraceni.

submisso e místico e o malandro Firmino. Estamos na Praia de Buraquinhos. filmado na África em 1970.um filme místico.htm (9 de 25)22/3/2007 01:09:08 .Glauber Rocha não existe mais tripé. Bahia. … um filme de tensão crescente . O mise-en-scène está fundamentado na coreografia popular dos passos e gingas daqueles capoeiristas latentes. ao Leão de Sete Cabeças (Der Leone have sept cabezas). feito na Bahia em 1960. É meu primeiro longa-metragem: “É um filme gritado. vivos. ele mesmo? Talvez seja mesmo uma contradição. o negro consciente de Barravento. Espero que no fundo seja um filme. modestamente.” De Barravento. estética e economicamente. reviravolta. num dia de finados. responder. em pleno set de filmagens de Barravento. “Estou usando atores negros. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Barravento quer dizer mudança súbita. seguindo o personagem.sensualismo. deste selvagem Brasil. Tornei-me diretor de cinema “por acaso e incidentes vários ”. que os travellings são feitos com a mão. com o câmera andando. Espero. flexíveis. quentes e cheios de violência plástica .Assumi a direção de Barravento para salvar o empreendimento. revolução. vemos Glauber transformar o personagem do negro Aruan. fabulosos. alguma coisa à dança de cena do cinema japonês. Só a verdade importa". Salvador. … filme de explosões. "UMA IDÉIA NA CABEÇA E UMA CÂMERA NA MÃO" 2 de novembro de 1960.

Glauber filma Deus e o Diabo na Terra do Sol. mas transforma isso em duelo. negro marxista-leninista ou maoísta disposto a fazer a Revolução sem perder um milímetro da sua africanidade e dos seus mitos. Entretanto.htm (10 de 25)22/3/2007 01:09:08 . emissários da cólera da Terra para além de Deus e do Diabo. Beatos e cangaceiros são os nossos rebeldes primitivos. onde a violência. o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Glauber parte de todo o imaginário euclidiano de Os sertões. Deus e o Diabo na Terra do Sol explode nas telas como uma revelação. Desejo de popularização que o faz combinar cinema. a fome e a revolta são atributos ou condições do homem e da Terra. FOLHETIM REVOLUCIONÁRIO Glauber persegue a fórmula do folhetim revolucionário (épico e didático) que alcança em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e no Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). dança.Glauber Rocha num Zumbi guerreiro. e a juntar misticismo e revolução. A história não é contada é cantada. política e mitologia popular. Um filme solar. Num ato de paroxismo Glauber começa a construir uma “esquerda” mítica e mística. portadores de uma ira revolucionária difusa. como num cordel nordestino. Glauber parte da convulsão e violência da terra sertaneja para chegar a rebeldia em estado puro. a ferocidade. com sua própria mitologia. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha.

"NEGROS. Los Angeles. na América do Sul. western politizado. O marxismo de Glauber tem algo de sádico e histérico. Transforma beatos. A violência não é um simples sintoma. escreve no manifesto A Eztetyka da Fome em 1965. As cartas que recebe do Brasil são escritas sob o signo do desespero e da perplexidade. "a revolução florida entrou pelo cano" e tivemos tortura. é um desejo de transformação. é “a mais nobre manifestação cultural da fome”. Quando o Golpe Militar de 64 estourou. o colonizador pode compreender a força da cultura que ele explora”. um massacre. No filme toda rebeldia. Nova Iorque. O luto político contrasta com o deslumbramento de toda uma geração diante de file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. matadores de aluguel em agentes da Revolução. Para ele.htm (11 de 25)22/3/2007 01:09:08 . a revolução tem que ser precedida por um crime.Glauber Rocha Cronológica. VERDES ANOS": A REVOLUÇÃO QUE NÃO VEIO Mas. perseguições. O filme explode internacionalmente e Glauber vai da Europa para o México. Glauber viajava com Deus e o Diabo em direção a Cannes. “somente pela violência e pelo horror. opressão ou fascismo será o embrião de uma ira revolucionária. exílio. Para explodir. vaqueiros.

de 1967 será esse "vômito triunfal" traduzindo a frustração e a impotência pós-64. transe da câmera. filmando na África. em vários níveis. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. filmado na Espanha e lançados em 1970. aborto monstro.htm (12 de 25)22/3/2007 01:09:08 . e Cabezas Cortadas. a liberação sexual. Em menos de um ano Glauber faz os dois filmes. o francês Claude-Antoine. o tropicalismo e também com o prestígio crescente de Glauber dentro e fora do Brasil. Der Leone Have Sept Cabeças. produtor em Barcelona. e pela primeira vez recebe propostas internacionais para filmar fora do Brasil. dos atores: Glauber filma Terra em Transe. Era o início de um novo ciclo. com total liberdade e cem mil dólares. convida Glauber para um filme na Espanha. Pere Fages. as experiências com drogas. Construção barroca. o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica. Terra em Transe. Delírio de um poeta que morre. é o pânico de minha visão. qualquer coisa que pudesse ser desastrosamente polêmica. propõe um filme na África. Em 1969 ganha o prêmio em Cannes por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. O produtor de O Dragão. O próximo filme. Terra em Transe é uma “ruptura consciente.Glauber Rocha Deus e o Diabo na Terra do Sol. do político ao estético Terra é a minha visão. parto a forceps.” Mas pior época da repressão política coincide com o auge da contra-cultura. Entretanto. delírio e transe de ditadores e governantes na América Latina.

Glauber. com dezenas de viagens. os seis anos que Glauber fica fora do Brasil são um quebracabeças biográfico e geográfico. Glauber “enterra” o movimento. mudanças de endereço. de amigos. onde escrevia e o cineasta Walter Lima Jr. Com a prisão da equipe do jornal O Pasquim no final de 1970. um nomadismo radical e vital e centenas de cartas escritas de quartos de hotel.htm (13 de 25)22/3/2007 01:09:08 . Terra em Transe foi proibido em todo o território nacional em 67. num artigo para O Pasquim que file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Em 1970 as prisões e tortura tornam-se praxe. produtores ou mulheres. Mas o que poderia significar o exílio quando “o país chamado Brasil está tão dentro da gente que é impossível sair”? Glauber só deixou de vez o Brasil. de países. fala de uma fossa terrível e antes de deixar o país de vez. no mesmo ano seu apartamento é desmontado e revirado pela polícia. Já tinha sido preso em 65. em 1971. decide sair do país no início de 71.. quando a repressão tornouse insuportável. Um périplo romanesco. de mulheres. num gesto de humor modernista e estratégico contra os críticos do Cinema Novo.Glauber Rocha EXÍLIO 70 O período que vai de 1969 a 1976. Nas cartas do período. apartamentos provisórios dos amigos.

comercial. como no filme Macunaíma. NOMADISMO No exílio. político. obra síntese de tudo o que o Cinema Novo buscou: um filme erudito e popular. O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas são filmes-colagem. seu filme africano. E Cabeças Cortadas. Glauber define O Leão . indicava esse caminho: o do filme popular. de Joaquim Pedro de Andrade. de Glauber. com encenação de conceitos e slogans. em menor escala.htm (14 de 25)22/3/2007 01:09:08 . como um funeral das ditaduras e ditadores latinos. Glauber iria realizar seus filmes mais "impopulares" e até hoje pouco exibidos no Brasil. com humor fino. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Também O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. como uma tentativa de “alcançar a síntese dos mitos históricos do Terceiro Mundo por meio do repertório nacional do drama popular” . filmado na Espanha e francamente surrealista. O “fim” decretado aponta também para um caminho possível. com retorno comercial e apelo de público. Era o início de incontáveis viagens e batalhas.Glauber Rocha anuncia: o Cinema Novo acabou. político e ousado na linguagem.

Roma.Glauber Rocha Glauber iria rodar o mundo. Suas cartas tornam-se relatórios minuciosos da sua vida. o Chile de Allende. dos encontros clandestinos com a elite comunista e socialista brasileira. João Goulart em Punta del Leste. Em Paris aproxima-se da ALN (Aliança de Libertação Nacional) de Carlos Marighella. Miguel Arraes na Argélia. Glauber vai formar um pensamento político original que rejeita modelos e pensa uma via para a Revolução brasileira. Darcy Ribeiro e Luís Carlos Prestes em Paris e Moscou. Havana.).. Santiago do Chile. Munich. Aos poucos vai assumindo uma máscara trágica: “Eu sou um apocalíptico que morrerei cedo (. diz numa carta de junho de 1973. os guerrilheiros cubanos e exilados em Havana. a Paris dos exilados e guerrilheiros brasileiros. Fala de um “sentimento do mundo” exacerbado por esse nomadismo. Londres. As vezes sinto-me louco e absolutamente feliz dentro de uma infinita solidão “. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Em 1976 encontra Luís Carlos Prestes em Moscou. Cuba (onde faria História do Brasil).. Glauber faz uma espécie de peregrinação pelos centros do comunismo e da esquerda internacional: o socialismo africano no Congo (onde filmou O Leão).htm (15 de 25)22/3/2007 01:09:08 . Dessas viagens. a Roma do PCI. de Paris. o Peru de Alvarado. Entre 1970 e 1973 suas cartas chegam de Paris. Nova York. Barcelona. De 1971 a 1976.

Numa carta de 71 escreve do Marrocos: “Estou nos desertos d'Oriente! Meu coração é grande demais! Viajando sem parar pelas rotas fantásticas de príncipes e ladrões e guerreiros: raptando princesas e negociando segredos ao sabor das fumaças e ao som dos tamborim. Mas também seria "expulso" do paraíso. Não tem volta! É a felicidade que dói de tão boa ”. donas de casa e o povo de Portugal. VOLTO PARA CASA file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Glauber entrevista trabalhadores. Mesmo sentimento de felicidade que o toma em Cuba. onde vive entre 1971 e 1972. por desentendimentos políticos e liberalidade com as drogas.htm (16 de 25)22/3/2007 01:09:08 . Mário Soares ou o líder do Partido Comunista. casa-se com a jornalista Maria Tereza Sopeña. Glauber parece encontrar na Cuba revolucionária..Glauber Rocha O exílio torna-se menos amargo na África ou em Cuba. torna-se um militante de organizações clandestinas de esquerda e produz o filme História do Brasil. duas Bahias para Glauber. Em 1975 realiza em Lisboa um documentário sobre a Revolução de Abril em meio às ruas e ao entusiasmo do povo. o paraíso perdido no Brasil. com a mesma fala desconsertante e hiperbólica que usaria mais tarde no programa de Tv Abertura.

A Idade da Terra e O Nascimento dos Deuses.Bagdá México . “equivocada” para muitos aparece claramente formulada numa série de cartas anteriores a 1974 e está perfeitamente integrada à lógica glauberiana e ao seu file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha.Glauber Rocha A vinda de Glauber para o Brasil. Crise política.Roma . em 1974. em 1976. A idéia. antes de retornar para o Brasil. um dos mentores do Golpe Militar de 64 é "um dos gênios da raça" e os militares “legítimos representantes do povo”. América Latina. O fim do relacionamento com a atriz francesa Juliet Berto. Moscou ou Hollywood consegue condições para continuar como cineasta.Los Angeles. Antes de voltar ao Brasil. Cuba.New York . é precedida por uma grande crise. descrença nos modelos socialistas.Moscou .Georgia . Viaja entre Paris . Glauber queima todas as possibilidades.Lisboa . ícone da Nouvelle Vague. Crise profissional. um escândalo. A declaração.htm (17 de 25)22/3/2007 01:09:08 . atriz de Godard. afetiva. “fora de hora”. Entre 1974 e 1976. Bagdá. Percorre a América Latina tentando levantar a produção dos projetos: America Nuestra. não consegue financiar nenhum de seus projetos.Canadá . Mas nem na Europa. para a revista Visão de que o general Globery do Couto e Silva.

a possibilidade de uma virada política radical. passar de matador e torturador a defensor do povo. Em duas cartas explica por que é “militarista” e via numa elite militar “esclarecida”. personagem de Deus e o Diabo. um Antônio das Mortes.Glauber Rocha messianismo romântico. como de fato aconteceu mas.” "EU SOU OU NÃO SOU O INCONSCIENTE COLETIVO?" file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. A idéia não vinha do nada e seduziu um Glauber disposto a encontrar na cultura militar brasileira um líder revolucionário popular.htm (18 de 25)22/3/2007 01:09:08 . sou sobretudo florianista e acho que o exército é legítimo representante do povo ou não está na cara que Domingo Jorge Velho Antônio das Mortes é a metáfora profética inspirada por Alvarado e Kadafi. capaz de mudar de lado. um militarismo revolucionário que realizaria as mudanças que a esquerda não soube ou não pôde fazer. porque não?. “Sou militarista terceiro mundista e comprei uma capa verde numa boutique de Saint Germain. Não simplesmente a “abertura lenta e gradual”. que acenava com a “Abertura” do regime militar no Brasil. Glauber seria "linchado" em praça pública.

a China morta.Glauber Rocha A volta de Glauber ao Brasil se dá num clima de esgotamento e descrença. a única solução é fundar no Brasil um Estado Novo com Cinema Novo. rompantes provocam debates apaixonados. Usando na trilha sonora do filme marchinhas file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Elizabeth Cavalcanti.. para o amigo cineasta Cacá Diegues. uf. Próximo escândalo.. Bahia. but não dá pé.. é deserto. América Latina subdesenvolvida. Ásia morta.... ah...htm (19 de 25)22/3/2007 01:09:08 . Glauber teria desrespeitado a memória do pai. entrevistas. o mundo todo triste.. por que estou nesta situação? o que é que há comigo? Tenho planos de filmar aqui. 1977. África pré-histórica... Rússia morta. ah. Em carta de Los Angeles. São Paulo... se expressa assim: “Estou cansado desta odisséia. Invade o velório do pintor modernista Di Cavalcanti e narra o enterro como se fosse uma partida de futebol.. invadindo o velório de Di no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro com sua equipe.. Glauber ocupa simultaneamente todas as páginas dos cadernos culturais dos principais jornais e revistas do Rio. but aqui se pode ganhar facilmente muito dinheiro.. de junho de 1976.... é triste.. Europa morta. Brasília... Protestos e a interdição do filme pela filha do pintor..” De volta ao Brasil. Seus artigos..

as páginas de jornais são o seu quintal e tribuna. com música. batucada. Em resposta à proibição. Resume o caso de forma anedótica: “O velório durou só três horas. Talvez se tivessem levado seu corpo para um terreno de umbanda.htm (20 de 25)22/3/2007 01:09:08 . mas eu acredito na volta por cima ”. dança. Já tinham estabelecido que ele estava morto e pronto. em 77. que ganharia prêmio especial do júri em Cannes. Anecy Rocha. Tive a impressão que ele ria para mim quando começamos as filmagens. Até o hoje o filme. Podiam ter dado mais um pouco de tempo.Glauber Rocha carnavalescas sobre as imagens do cadáver do pintor de mulatas. “Sou protestante e não choro diante da morte”. Glauber repete seu credo. Sua atuação no programa Abertura da TV Tupi file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. as células vivas que ainda restavam nele teriam dado a volta por cima das mortas e o homem poderia até acordar. A morte trágica de sua irmã. está proibido judicialmente no Brasil. Interrompe o romance Riverão Sussuarana e incorpora a morte da irmã à narrativa do livro. E podiam ter levado Di para um lugar menos careta do que o MAM. energia. publicado em 78. Glauber produz revoluções por minuto. que cai no poço de um elevador em 1977 o deixa transtornado.

A década de 80 começa cheia de impasses. Seu nomadismo. Sua escrita cortante e irada.htm (21 de 25)22/3/2007 01:09:08 .Glauber Rocha vira referência na Tv brasileira. Nos cinco anos de exílio Glauber se afastou da língua portuguesa. afeto & negócios. nos jornais. entrevistas e artigos de Glauber na imprensa. Esse fluxo desestruturante atravessa seus escritos. O que deveria ser prestação de contas e acertos financeiros torna-se diário. adquirem um papel crucial na sua obra. agitação cultural. mulheres em diferentes países. escrita. a morte do pai. amizades. Adamastor. forjam um idioma singular. Glauber “desburocratiza” sua vida. correspondência. fala e filmes num mesmo movimento de exorcismo. sua fala-fluxo. Cinema. Fala de política. Transbordamento. entrevista os amigos e gente do povo. translinguístico que marca também os artigos para o Pasquim. As cartas de Glauber em outras línguas são file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. quase um monólogo. como no programa de TV Abertura. além das incontáveis polêmicas. negócios. A obra e a vida de Glauber caminham para um apagamento das fronteiras. A realização de A Idade da Terra e sua rejeição no Festival de Veneza e no Brasil. Cartas “oficiais” tornam-se confessionais e vice-versa. intervenções. filmes. oracular. política.

truncada e poética que atravessa barreiras. espanhol com a estrutura do português. K. borrões. É de 1977 o início da revolução ortográfica a que Glauber submete todos seus escritos. está seriamente doente. rabiscos. Z. Y.Glauber Rocha escritas num idioma selvagem que combina francês. escreve. “é preciso fechar essa miserável década”. zelo gramatical. Glauber nunca se preocupou com ortografia. inclusive textos antigos. reescritos substituindo-se algumas letras por X. inglês. como fez no enterro de file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Do avião vai para o hospital e morre no dia 22 de agosto de 1981. dizia em 1979. Seu enterro foi um happening. "NÃO CURTO ESSA DE SER MÁRTIR!" 1981. Mesmo escrevendo em português.htm (22 de 25)22/3/2007 01:09:08 . sua correspondência e escritos estão cheios de erros. até hoje não se sabe ao certo de quê. Uma língua descolonizada. “Detesto Houaiss”. Sua morte foi carnavalizada. cultura dicionarizada. disciplina. mas ao mesmo tempo o coloca numa posição desconfortável com seu barbarismo lingüístico inculto e belo. Quando volta ao Brasil. depois de curto período em Sintra e Portugal. Um inferno gramatical e ortográfico que nega toda idéia de cultura como correção.

os últimos discursos inflamados de agosto. revendo cada filme de Glauber. filmes. mais de 500 cartas arquivadas no Tempo Glauber. É uma fala mítica. Lendo essas cartas. manual de cinema. no Rio de Janeiro. tratado de humor negro. funcionam como um romance épicodidático. O velório no Parque Lage. as últimas polêmicas culturais. seu brado retumbante. cartilha de história do Brasil.htm (23 de 25)22/3/2007 01:09:08 . não o corpo de um revolucionário enterrado em meio a comoção lírica. a ira. mas toda uma outra mitologia. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. descobre-se que a cultura brasileira. “Não curto essa de ser mártir!” dizia Glauber. é uma ventania que vem desestabilizar os discursos prontos. Teríamos então. popular e populista baiana. na tradição romântica. Lúcia Rocha. as últimas brigas e acusações. autobiografia. escreveu o cineasta português Paulo Rocha. A fala de Glauber. “O que faltou para Glauber?” “A possibilidade de envelhecer como um patriarca”. a "tumba do faraó" protegida pela mãe. o povo brasileiro é matéria mítica de tão bom estofo quanto outras que flutuam em nosso imaginário. provocando o transe. Seus textos. sua eloquência e oratória. fechou uma era cultural no Brasil. guia do guerrilheiro cultural.Glauber Rocha Di Cavalcanti. memorábilia. livro teórico. o choro. cenário de Terra em Transe.

cor. longa-metragem. Roteiros do Terceyro Mundo. 1974 As Armas e o Povo. longametragem. p&b. 1970 Cabeças Cortadas (Cabezas Cortadas). longametragem. 1977 Jorjamado no Cinema.1981. cor. 1975 Claro. Rio de Janeiro. 1968 O Dragão da maldade Contra o Santo Guerreiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. curta-metragem. p&b.Glauber Rocha Os textos e filmes de Glauber funcionam também como uma reflexão a quente sobre a cultura brasileira contemporânea. longa-metragem. 1985. 1970 Câncer. Ed. cor. 1977 A Idade da Terra. capítulo vertiginoso e desconsertante de um romance pan-americano. 1967 1968. 1972 História do Brasil. 1969 O Leão de Sete Cabeças (Der Leone Have Sept Cabeças). 1966 Maranhão 66. p&b. Cor. cor. Embrafilme e Alhambra. 1966 Terra em Transe. p&b 1961 Deus e o Diabo na Terra do Sol. Curta-metragem. curta-metragem. 1975 DI. p&b. FILMOGRAFIA Pátio. p&b. Civilização Brasileira. cor. 1964 Amazonas Amazonas. Org. média-metragem. 1985. p&b. editada em livro e matérias de jornais. longa-metragem. Alhambra/Embrafilme. p&b. Orlando Senna. curta-metragem. todas as citações de Glauber foram retiradas de sua correspondência. 1959 Barravento. 1981 BIBLIOGRAFIA Livros de Glauber Rocha: Revolução do Cinema Novo. curta-metragem. média-metragem. Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. -------------------------------------------------------------------------------(*) Neste trabalho. Alhambra.htm (24 de 25)22/3/2007 01:09:08 . p&b. 1959 Cruz na Praça. longa-metragem. longa-metragem. longa-metragem. p&b. luso-afro-tropical. O século do Cinema. file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. média-metragem. média-metrage. cor. cor.

"Transe. Angela Dias. Messianismo e Marxismo". Ed. Organização e apresentação: Ivana Bentes.htm (25 de 25)22/3/2007 01:09:08 . "Glauber e o fluxo audiovisual antropofágico" :in A Missão e o Grande Show: políticas culturais nos anos 60 e depois.(org. Rio de Janeiro. GATTI. 1987. Vozes. Ideário de Glauber Rocha. Ed. "Romantismo. Glauber Rocha. Petrópolis. Ed. Sidney .1977. 1987. Cahiers du Cinéma. Glauber Rocha. O Mito da Civilização Atlântica: Glauber Rocha. Sertão Mar . São Paulo. XAVIER. Brasiliense.Glauber Rocha Rio de Janeiro. REZENDE. Companhia das Letras. Universidade de Santa Catarina. Rio de Janeiro. Record. 1986. ------.Ed. GERBER. Raquel. [Página Principal] [Página As Vidas] file:///C|/Glauber%20Rocha/Glauber%20Rocha. Editora Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro. "Estéticas da Violência".Glauber Rocha e a Estética da Fome. Glauber Rocha. Política e a estética do inconsciente.) Glauber Rocha. 1977 PIERRE. Barravento: A Estréia de Glauber. Ismail. Paris. Sylvie. 1997. Crença e Povo". Ed. 1996. José. 1978 Cartas ao Mundo. Paz e Terra. 1999. Philobiblion. Papirus. 1963 Riverão Sussuarana (romance). Sobre Glauber Rocha: BENTES. São Paulo. Cinema. Ivana. Org. 1983.

como a Presidência da República". que os Generais Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva promoveriam a abertura política do país. mas sabíamos que sua doença era fatal. o cineasta confirma sua fama de polêmico ao afirmar. "Está na galeria dos grandes filhos da Bahia e do Brasil contemporâneo. entre outras dezenas de coisas. João Ubaldo Ribeiro José Sarney Rogério Sganzerla Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto Antonio Carlos Magalhães Por João Bernardo Caldeira Comunista. ele possuía um pensamento avançado. Para alimentar a polêmica. como o Golbery e eu. O baiano chamaria ainda Golbery de "gênio da raça".Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. e publicada pela revista Visão em 74. ou de direita? Glauber Rocha fazia da luta anti-colonialista um de seus baluartes. e coloca o cineasta no mesmo hall das grandes personalidades do Estado. apesar de sua irreverência". ao lado do sociólogo Darcy Ribeiro.. Glauber por. Apesar disso . pois eles ficam muito acima de nós". Antônio Carlos Magalhães conheceu Glauber no final da década de 50 e lamenta a perda antecipada do amigo: " Morreu muito cedo. resume. daí seu relacionamento com figuras que não pertenciam a esquerda. estava desenganado. entre outros. O radicalismo é sempre prejudicial. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20ACM. que é quem soluciona o aparente paradoxo: "É difícil o exame dos gênios. Glauber era amigo pessoal do conterrâneo Antônio Carlos Magalhães." Antônio Carlos Magalhães lembra ainda da perda de Jorge Amado. este mês. Na Bahia sua figura foi muito respeitada.JB Online . Ele inclusive não escondia sua admiração por mim e seu desejo de que alcançasse postos maiores. não podia ser tido como direitista ou esquerdista.." "Foi a grande figura do cinema brasileiro".htm (1 de 2)22/3/2007 01:09:08 ... Portanto. Procuramos ajudá-lo na medida do possível. afirmou ao JB Online.e da certeza do crítico José Carlos Avellar de que seu posicionamento era de esquerda -. O exgovernador da Bahia e ex-senador aproveita para criticar o radicalismo da esquerda: "Glauber não dava confiança para a esquerda o patrulhar. o apoio da esquerda. em carta enviada da Itália ao produtor Zelito Viana. O ex-senador não deixa de esconder sua satisfação e orgulho ao lembrar dos planos do cineasta para ACM :"Falo com muita emoção porque éramos amigos pessoais. o que lhe conferiu.

htm (2 de 2)22/3/2007 01:09:08 .Especial Glauber Rocha file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20ACM.JB Online .

para muitos. sem dúvida. "Eu era um grande amigo de Glauber Rocha. feitas durante minha posse. Em se tratando de Glauber Rocha. tema tão caro em seu trabalho. Quando fui eleito governador do Maranhão. a voz do Governador: ele modificou a ciclagem para que essa voz parecesse a voz de um fantasma profético. uma surpesa. em 1966. convidado pelo JB Online a dar algumas parcas declarações em memória do cineasta.Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. Viajou a São Luís e documentou a minha posse. João Ubaldo Ribeiro Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto José Sarney Por João Bernardo Caldeira Pesquisando as obras de Glauber. jornalista. em sua obra: Maranhão 66 . e afeto. poeta. no meio de tudo aquilo. com a marca polêmica de sua visão do mundo: "Não me file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20José%20Sarney. juntamente com o poeta e escritor Ferreira Goulart e o arquiteto Oscar Niemeyer. ele colocou a minha voz. José Sarney. e acrescentava. Na década de 60. hoje um clássico do cinema..JB Online .. um documentário sobre a posse do então governador do Estado. fazendo aquele documentário Maranhão 66 . filmou as esperanças que nasciam no Maranhão.. o cineasta marcou de genialidade todas essas atividades do espírito. ele filmou a miséria do Maranhão. Na qualidade de presidente do Festival de Cinema de Brasília. mas não colocou a minha voz. que freqüentava a minha casa. Na história da inteligência brasileira Gláuber Rocha foi. dos hospitais. convite que ele aceitou imediatamente. a Nelson Pereira dos Santos e a outras figuras importantes do Cinema Novo. para o seu filme Terra em Transe.htm (1 de 4)22/3/2007 01:09:10 . exaltou-se e transpirou saudade. nos anos sessenta. dos casebres. Jose Sarney.: ''Ele não filmou a minha posse. Ele resumiu sua presença nesses campos como sendo apenas um "intelectual". Romancista. convidei o Gláuber Rocha a fazer um documentário. o político maranhense.'' Hoje senador. ao lembrar do amigo. diante daquela coisa entre o impossível e o que era a miséria do Estado. era muito ligado a Luiz Carlos Barreto. um dos instantes maiores. muito mais do que um documento. ele filmou a pobreza do Maranhão. Glauber por. eu era da Fundação Educacional de Brasília. Curioso é que aproveitou muitas das cenas de multidão do documentário. a obra atravessa a miséria brasileira. Como atesta o ex-presidente da República.. dos tipos de rua e.

Sempre que eu via Gláuber Rocha.htm (2 de 4)22/3/2007 01:09:10 . o que é realmente um fato capaz de provocar dentro de cada um de nós a indagação de um sentimento de incompreensão. porque tudo dentro dele era uma busca incessante pela causa das causas. Só que com o grande cineasta era inteiramente o contrário. sem peias. sem dúvida. chega primeiro. sem dúvida. Duelou com as patrulhas ideológicas. medo de que ele morresse. antes de chegar ao niilismo. De tal modo as coisas se arrumavam. perto da angústia eterna. que marcaram sua vida.JB Online . invoco a frase que li do jornalista Oliveira Bastos : "Glauber Rocha foi assassinado pela intolerância da direita e da esquerda. Gláuber sempre falava que tinha medo da morte. a angústia maior de toda a sua vida. ao começar a matar tudo. É esse sentimento absoluto da angústia essencial que possuía. Montaigne dizia que não tinha medo da morte. num encadeamento lógico. Para dizer de sua morte. mas acho que mais do que ele ter medo da morte. tínhamos nós. tinhase a impressão de que ele era uma máquina de pensar. sem dúvida. que usava sua liberdade até ao limbo de uma santa demência. dessa liberdade feita da vastidão de todos os gestos. O testemunho que posso dar é que poucas pessoas amaram tanto este país. mas tinha medo de morrer. coisa. a alma deste grande homem que foi Glauber Rocha. Gláuber Rocha era. deixando-as ao largo. nada. na história da inteligência brasileira. Enfrentou os fanatismos. quando Shan Thiago Dantas falava. um homem indomável. sem dúvida. nenhum homem. dentro dele. cuspiu na mediocridade e enfrentou a incompreensão de todos. Paixão límpida." Sempre ouvi no Senado que. à sua próxima dúvida. como um feiticeiro. chegando às raias até de uma réstea de revolta. paixão pura. numa atividade ininterrupta de negações e afirmações. um caminho sem remédio. uma paixão por esta terra capaz de superar todos os ressentimentos. sem limites.Especial Glauber Rocha cobrem coerência. Havia. nenhum Deus conseguiu aprisionar o seu espírito." Ele vivia. Ele venceu a tudo. em que a racionalidade surgia em pequenos instantes. que jamais acontecerá. nenhuma ideologia também conseguiu prendê-lo. como disse. me lembrava dessa definição que ouvíamos sobre Shan Thiago no Senado. brasileiros. paixão desvencilhada de tudo. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20José%20Sarney. ele será um ponto imortal. nenhuma mulher conseguiu escravizá-lo. porque. sentiram tanto esta Pátria quanto Gláuber Rocha. sem conveniências. porque era uma dádiva absoluta e. ao buscar a causa de todas as causas. Este homem morre com 42 anos. havia um desejo de liberdade. em lampejos desnecessários. nenhum carisma. que se tinha a impressão de que ali era a morada exclusiva de um conjunto de racionalidades servidas pela cultura e uma inteligência extraordinárias. numa indagação permanente e numa angústia intelectual. aquele sofrimento absoluto de que nos fala Hegel. Nada conseguiu dominá-lo. quando achava que o homem. no que falava e pulsava. Tinha-se a impressão de um permanente vulcão intelectual. porque. Gláuber era um homem extraordinário.

De Gláuber Rocha não cabe mais o descobrimento do nascer. sem compromissos. dos tipos de rua e. na trilha sonora. que espírito estranho. em que a racionalidade apareceria em madrugadas desnecessárias. como tinha que reagir. É o universo fantástico criado pelo homem. em busca da unidade da imagem. Foi ele quem lhe trouxe o toque da genialidade. na transcedência das cores. mas não colocou a minha voz. num fundo branco. E quando o público viu que. Esse documentário foi passado numa sala de cinema de arte.JB Online . Era um vulcão de negações e afirmações.Especial Glauber Rocha Fui seu amigo por quase vinte anos. porque antecede a criação. no argumento. A sua liberdade. na voz de comando ao iluminador. Tomava posse no governo do Maranhão. reagiu. Foi ela quem fez o mundo. na luz. Mas ele foi. que um amigo não lhe devia ter feito. O resto é obra da ciência e não da arte. depois. A poesia é a arte de Deus. que na síntese de tudo redescobria o mundo. a noite e o dia. gera emoções. delirante e escravo dos seus afetos. Vou citar um exemplo simples. nos atores. amassada pela paixão. numa sessão de cinema de arte. E como é feita de nada. nem do morrer. Interessa a vida. a vastidão de todos os seus gestos era uma permanente busca do infinito. diante daquela coisa entre o impossível e o que era a miséria do Estado. essa paixão constante entre a angústia e a alegria. faz chorar e exige emoções e lágrimas. no meio de tudo aquilo. Mas aí o documentário começou a ser passado e quando terminaram os 12 minutos de projeção. Mas. sete vezes morta. seria uma prova de humildade aceitar um convite insólito. a ambição do definitivo e a busca de um grande lugar. o homem. A alegria pura. mil vezes acabada e milhões de instantes possuída. ele colocou a minha voz. Para um homem da sua dimensão. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20José%20Sarney. o público levantou-se e aplaudiu de pé. Conheci de perto aquela chama extraordinária. a voz do Governador: ele modificou a ciclagem para que essa voz parecesse a voz de um fantasma profético. Na tela é apenas o talento e a luz. ia ser passado um documentário. e fiz uma ousadia que não se deve fazer com um amigo da estatura de Gláuber Rocha : "Gláuber. Por quê ? Ele não filmou a minha posse. filmou as esperanças que nasciam no Maranhão. A angústia eterna que não exaure nunca. você pode documentar a minha posse no Governo do Maranhão". que podia ter o sentido de uma promoção publicitária. sem senhoras. remoído entre a controvérsia e o fogo? Ninguém jamais o domaria. dos hospitais. ele filmou a pobreza do Maranhão.htm (3 de 4)22/3/2007 01:09:10 . de nada também é a poesia do cinema. O cinema para Gláuber foi a sublimação do poeta. aquele fogo intelectual que aquecia as pessoas com quem privava ou com quem conversava. Gláuber deu ao cinema brasileiro o direito de figurar nos momentos mais altos da inteligência nacional. mas. não o tema do documentário. Em tudo o que pegava. Foi pioneiro e profeta. sem amarras. vida e morte. dos casebres. Gláuber dava um toque de genialidade. Eu o canto o Glaúber poeta. Exige um ritmo para o corpo e um ritmo para o espírito. que se nutre de lágrimas e de acalantos. ele filmou a miséria do Maranhão. a bailarina e o beija-flor. e fez o documentário. e sete vezes renascida. paradoxalmente. mas como um grande artista pôde transformar um simples ato protocolar numa obra de arte. oleiro desse barro do nada que.

htm (4 de 4)22/3/2007 01:09:10 . que Unamuno chamou de imortalidade.Especial Glauber Rocha Quem o matou ? Foi a vida dilacerada. Depois. Mas." file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20José%20Sarney. o sentimento das coisas infinitas. quem entra na eternidade sem provar o saibro dessas amarguras que só os artistas. santos e heróis acalentam ? Para nós.JB Online . o seu coração parado nos dá um princípio de revolta. com gosto do sal e de orvalho. Acontecer é um verbo que dilacera coragens e põe á prova o nosso sentimento trágico.

Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. José Sarney Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto João Ubaldo Ribeiro lamenta perda do cineasta Por João Bernardo Caldeira "Conheci Glauber Rocha ainda no Colégio Estadual da Bahia. ele já era um homem extraordinário. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20JUR. hoje com 60 anos. Portugal.htm22/3/2007 01:09:12 . afirmou o escritor João Ubaldo Ribeiro ao JB Online. afirma. desde cedo. Ubaldo estava presente em Sintra. como especulou-se na época. lamentou o escritor. "É um dos grandes valores da Bahia. quando o cineasta foi gravemente hospitalizado. "Não posso dizer porque não sou médico. Mas não creio nessa possibilidade". Ele não acredita que tenha havido imperícia dos médicos portugueses..JB Online . em 56 ou 57 e... E mais um amigo que se foi antes de mim e que faz falta ao Brasil".. polêmico e agitador". provocador. João Ubaldo Ribeiro Glauber por. outro baiano ilustre com saudades do amigo.

no plano político e artístico.htm (1 de 2)22/3/2007 01:09:13 . completa. expoentes do Cinema Novo. outra figura crucial do Cinema Novo . Glauber Rocha foi mais do que um amigo:"Era quase que um irmão mais novo". Fotografou Terra em Transe (Glauber Rocha) . lembra. Foi quando o fotógrafo da revista O Cruzeiro abraçou de vez a nova atividade. Não apenas ao cinema mas ao país. Fica a saudade: "Estava em pleno vigor criativo. Luiz Carlos Barreto Glauber por. Mais do que isso. João Ubaldo Ribeiro Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla Nelson Pereira dos Santos José Sarney "Faz falta demais. ao Brasil". Não apenas ao cinema mas ao país....JB Online . file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20LCB. Depois ele me convenceu a fazer o roteiro de Assalto ao Trem Pagador (de Roberto Farias) e a produzir e fotografar Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos)". revolucionário.e produziu ainda filmes de Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade..com a câmera de Dib Luft. Estava sempre à frente nas coisas". Barreto fez parte da atmosfera que gerou o movimento. Para Barreto. "Foi tudo no cinema: inovador. Faz falta demais.Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. "Conheci o Glauber quando ele resolveu fazer Barravento. grande militante da cultura e profeta. ao Brasil" Por João Bernardo Caldeira O produtor Luiz Carlos Barreto talvez possa ser considerado o principal produtor do Cinema Novo. diz.

htm (2 de 2)22/3/2007 01:09:13 .Especial Glauber Rocha file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20LCB.JB Online .

20 anos depois da morte do companheiro de Cinema Novo. "Depois ele me convidou para montar Barravento". combativa. Naquela época. com quem diz ter tido uma relação familiar. Para Nelson o legado de Glauber e do Cinema Novo continua vivo. o povo.JB Online . morei na pensão da mãe dele. "O Cinema Novo está presente como se fosse uma hóstia que todo mundo come um pedacinho. os cineastas não precisam mais se preocupar com isso". em 61. relembra os velhos tempos Nelson Pereira dos Santos. quebrar tabus significava colocar o negro na tela.. de amizade e companheirismo Por João Bernardo Caldeira "Lembro de quando Glauber me visitou no Rio nas filmagens do Rio Zona Norte (lançado em 1960) e me deu um roteiro pra ler. já que quebrou paradigmas. lembra a parceria no primeiro longa-metragem de Glauber. a Dona Lúcia". "Era uma relação familiar de amizade e companheirismo". Glauber Rocha era uma pessoa polêmica. disse ao JB Online. Nelson Pereira dos Santos Glauber por. ele sabia tudo que queria". diz orgulhoso. a miséria e assumir a língua portuguesa.. de file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20NPS. José Sarney Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla João Ubaldo Ribeiro Luiz Carlos Barreto "Está faltando hoje um cinema com a força e a paixão que o Glauber tinha" Nelson Pereira dos Santos relembra a experiência de trabalhar e conviver com Glauber. Para Nelson. Quando fui para a Bahia filmar Vidas Secas (1966) ele me ajudou muito. "Hoje.Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. Tivemos que enfrentar um monte de preconceitos e quem faz cinema hoje não tem mais que se preocupar com isso". Logo a amizade e as afinidades intelectuais e cinematográficas começaram a florescer. O menino de 22 anos já tinha personalidade no momento de criar: "Na montagem.. tida como não cinematográfica.htm (1 de 2)22/3/2007 01:09:14 .. revela. lembra o diretor. afirma.

htm (2 de 2)22/3/2007 01:09:14 . Dentro da pluralidade do cinema brasileiro faz falta autores que trabalhem temas com a força e paixão que o Glauber tinha". file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20NPS.JB Online .Especial Glauber Rocha grande humor e que deixa saudades:"Está faltando um cinema nesse aspecto.

em vez de andar. impondo um jejum de idéias que resulta na pior diarréia. valorização do inconsciente coletivo. Jejum de idéias . interessa na sua obra é justamente essa noção de religiosidade histórica. nunca mais deixaram de file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20RS. uma alma doce e com a grandeza típica dos obstinados. Fundaremos. De certa forma.Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber por. já que em sétima arte. Terno. Fundamentalmente. aplicada ao auto-conhecimento. Efetivamente. Trilogia . considerava sua obra acima da compreensão brasileira. o Brasil. que sobreviveremos ao fim do mundo que acontecerá um dia. como prova nossa política. desde que foram projetados. onde predomina a política do desperdício. carangueja. então. Deus e o diabo e Terra em transe. desenvolveu uma sensibilidade voltada para a alma popular. provavelmente em Otariolândia. Segundo Oswald de Andrade (que Glauber aprendeu a amar depois de inúmeras discussões) o ''que nos une é a Antropofagia. terapêutica social do mundo moderno''. para alegria de censores de todas as épocas). Por isso não há quem se surpreenda com a inépcia das elites.JB Online .htm (1 de 2)22/3/2007 01:09:14 . Os intelectuais nacionais continuam brincando de roda nessa aparente ''terra sem males'' (aparentes) que os acumula sem parar.Tudo o que estou tentando dizer é uma busca de Nova Experiência.. um reino de justiça eterna pois somos o único povo da Terra que pratica diariamente a política do desperdício em nome da burrice ou a lógica do ilógico. buscando uma ascese e a conseqüente elevação do povo brasileiro. dramalhão e diluições afins... tentando pensar pequeno e agindo menor ainda. via a lei do pior esforço.. no fundo de nossos corações brasileiros. Isso poderia ser definido como um yoga ao contrário. os gênios e os criadores não são necessários no Brasil. Já os chamados filmes de arte brasílica como a trilogia constituída por Barravento. Seria necessário mais que o automatismo psíquico dos surrealistas. piratas ou simplesmente papagaios de piratas? Estamos firmemente persuadidos. Sentia em si mesmo quase um vulcão de idéias livres e tinha sensibilidade à flor da pele.. bem longe de nós. Glauber Rocha é também um caso exemplar de lucidez ontológica. (E tome novela. toda uma nefasta inversão de valores que precisam ser reajustados. mesmo ao espectador mais bitolado. Terra de papagaios. Rogério Sganzerla Glauber por..A produção cinematográfica convencional é feita em série justamente para ser esquecida e não faz nenhuma falta a ninguém. João Ubaldo Ribeiro José Sarney Antonio Carlos Magalhães Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto Vulcão de idéias O andarilho quixotesco representa o melhor cinema nacional Pessoas verdadeiramente grandes não conseguem duvidar de uma existência futura porque sentem em si próprios a imortalidade.

Já disse o bardo imortal: ''A necessidade é a mãe da invenção''. que Glauber amava e que continua ainda ignorado pelos seus opressores. foi necessário um exemplo de dedicação. * Rogério Sganzerla é diretor de ''O Bandido da Luz Vermelha'' e ''Nem tudo é verdade''. diga-se de passagem. entre outros títulos. Mas para que a trilogia existisse alguém deu o melhor de si mesmo. para que negar o óbvio? O quixotesco e quase expatriado andarilho internacional representa o maltratado cinema brasileiro de livre exportação poética como a própria essência da resistência cultural. quando deu passagem deste nosso universo de expiação para novos e melhores mundos. Lúcia Andrade Rocha ofertou à cultura brasileira essa vida sacrificada pelas circunstâncias. Não encontrou aqui lugar para o seu talento internacional. sacrifício e abnegação. enfim. subvivendo de migalhas que políticos tentam esconder e os próprios cineastas não conseguem mostrar em toda a sua lancinante dimensão. a fábula grotesca dispensa até o poder de imaginação.JB Online . E para que nascesse tal monstro sagrado. longe da boçalidade brasileira. discutidos e vivenciados. Para a queridíssima dona Lúcia vão os meus cumprimentos nessa exposição de grandeza inaugurada e exposta há mais de 20 anos. generoso povo brasileiro.Especial Glauber Rocha ser lembrados.htm (2 de 2)22/3/2007 01:09:14 . file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha%20-%20por%20RS. Que afinal encerra o que há de mais pungente e urgente na sensibilidade de nosso povo. Seja feita honra à verdade. Nesse caso.

ele foi internado num hospital próximo de Lisboa. editava-se Revolução do Cinema Novo. Glauber foi um grande pensador a seu modo.JB Online . declarou Cacá Diegues. Nos primeiros dias de agosto.''Mais do que um artista ou um cineasta. No Brasil.. Lisboa: o Ciclo Glauber Rocha na Cinemateca Portuguesa era interrompido por um incêndio no quarto dia de exibição (destruindo algumas cópias).. Visionário controverso e em transe convulsivo. com um método metafórico e uma disciplina revolucionária que inventava a cada dia conforme as necessidades de seu projeto.Especial Glauber Rocha [AD-IMG] O transe que não terminou Artistas e intelectuais divergem sobre legado de cineasta mas se encontram numa certeza: ele ainda perturba e reflete o Brasil Carlos Adriano Glauber Rocha ainda é .o que nos permite dizer que ele pode não ter mudado o file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. Para saber sobre a permanência e a atualidade do artista. No início daquele ano. Tieta do Agreste e Orfeu. para tratar de problemas pulmonares. Pensador . um pensador-poeta. Abril.entre cineastas. de suas iluminações''. críticos e artistas .em depoimentos exclusivos. foram ouvidas personalidades da cena cultural brasileira . Glauber era trazido para o Rio de Janeiro. Glauber pegara a estrada de Sintra. Para o realizador de A Grande cidade. coletânea constelacional de textos de Glauber. deflagrou uma revolução no cinema e deu um nó (ainda não desatado e nem engolido) na cultura nacional. Em 21 de agosto. já em coma.htm (1 de 8)22/3/2007 01:09:16 Glauber por. nasceu em 14 de março de 1939 e morreu em 22 agosto de 1981. ''acreditar sem limite nessas iluminações foi o grande ensinamento da vida e da obra de Glauber .ao mesmo tempo .o maior e mais desconhecido cineasta brasileiro? Com uma cabeça cortada a mais. José Sarney Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla João Ubaldo Ribeiro Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto . a qualidade urgente e necessária de sua obra.

pensou em tudo. professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas até que ponto a personalidade polêmica obscureceu o papel e a percepção de Glauber? Para Ismail Xavier. apostando no bom efeito de sua estratégia sempre envolvida na questão: quem usa quem?. Professor da Universidade de São Paulo. Incansável.JB Online . deduz Ismael. ''a intervenção do artista nos debates que mobilizam a sociedade o torna visível a um contingente de pessoas que ultrapassa em muito os que têm contato direto com a sua obra. observar o teor de sua invenção formal e o que está aí implicado como afirmação de sentidos nos mais diversos planos . chegam a ela muitas vezes com predisposições criadas na relação com alguém de maior exposição à mídia''. mas este país nunca mais será visto da mesma maneira depois de sua existência''. ''a personalidade de Glauber iluminou e obscureceu a percepção de sua arte'': ''Seu legado estético é inseparável de sua lenda pessoal. ''é contra tais olhares redutores que julgo crucial fazer a leitura paciente das obras. autor do livro Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome. ''O impacto de sua palavra e comportamento não seria o que foi caso não se apoiasse no conteúdo efetivo de nossa experiência diante dos filmes (e no futuro assim também será)''. por outro lado. inteligência e o idealismo que não excluía a vontade de poder .Especial Glauber Rocha Brasil. Muitos o assumem de forma mais agressiva. ''Por que secar e dissecar sua obra.htm (2 de 8)22/3/2007 01:09:16 . quis mexer em tudo. ''Era preciso fazer acontecer o cinema e o país desejados''. para fazer cinema relevante no Brasil. e Glauber foi longe nesta aposta. Caetano . seria ''redutor e empobrecedor analisar apenas sua obra ou apenas sua biografia file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. vindo da tela e não de outros lugares. continua Ismail. cada vez mais mercantilizada. atenta ao que. pergunta Ivana Bentes. estes que. Para ela. sabia que. ele explica: ''A lógica da esfera pública. Invenção . faz de Glauber essa figura ímpar''. Conseguiu vitórias notáveis. dado estrutural com que o artista tem de lidar.Para o compositor e cantor Caetano Veloso.Segundo o ensaísta.esta é a principal função da crítica que deve dizer (e isto não tem ponto final) o que tem sido e será o seu cinema. mas pagou o preço da energia dispendida em tantas frentes que assumiu com o vigor típico de uma liderança que leva o poder e o fardo. inibe a relação com a arte e favorece a relação com personalidades. mitos. era preciso inventar uma pessoa em si mesmo.esta que Terra em transe tematizou''. quando ela é indissociável dessa persona?''. grandes jogos de cena. desde cedo na Bahia. uma pessoa que se pusesse acima das limitações que ser do Brasil representa''. E ele. alimentado pela sua sensibilidade.

textos que só pela miopia crítica poderiam ser negadas como relevantes num estudo do seu cinema''.JB Online . embora decorrentes. ''partindo da sua correspondência. já que ele faz parte de um tipo de artista político e performático para quem fazer cinema. ''não obscureceu em nada .personalidade está mais raro que verba''.ou negar o biográfico em nome do que seria um estudo sério dos filmes'': ''No caso de Glauber. esses universos se interpenetravam. são ''documentos da cultura brasileira contemporânea . biografia e história. que tem um caráter biográfico. Cacá Diegues define: ''Glauber não era um artista burguês e convencional. o que mais interessa é que o artista tenha uma personalidade . podemos acessar facilmente o conjunto da atividade de um autor e entender que o processo do pensamento se encontra estilhaçado em várias direções. uma retórica conservadora. ''os seus filmes e o fato de ter sido o grande responsável pela divulgação do Cinema Novo no exterior são mais importantes. numa época dominada por um cinema burocrático e publicitário. artista que une várias mídias. obra e performance pública são indissociáveis. Segundo Ivana. mas também conceitual. o problema não é que a personalidade obscureceu a percepção do artista. pois ''tudo interessa''. Com as novas tecnologias digitais. O que se convencionou chamar de file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. de sua personalidade controvertida e angustiada''. escrever e discutir idéias publicamente através dos jornais constitui um único movimento. No momento. ''o Glauber exibicionista está sendo esquecido. então hoje o Glauber artista aparece mais''. ela trabalha com os artigos que Glauber publicou desde a juventude até sua morte. ''o que acontece é uma malversação. O diretor de Bye Bye Brasil e Xica da Silva conclui: ''De tal modo que é impossível traçar uma fronteira entre a vida privada e a obra pública de Glauber. para desqualificar os filmes''. e esclarece pontos importantes de seu pensamento estético e político. Omar.era do corpo a corpo com esse mundo que tirava sua obra''. O problema é justamente querer dissociar o artista do personagem público''. Para Arthur Omar. A própria vida de Glauber foi uma obra de arte''. Segundo a diretora de Um céu de estrelas e Através da janela. afirma: ''É um erro crítico reduzir a obra de um cineasta apenas a seus filmes. desses que se retiram do mundo para se inspirar e criar.eu diria mesmo que hoje. obscuro etc. onde a biografia de Glauber serve para uma conversa de comadres.Em seu livro Cartas ao mundo. Nesse sentido.Especial Glauber Rocha . Sua inspiração e sua criação vinham do mundo em que vivia cotidianamente sua angústia . sem deixar de analisar os filmes ou fazer referência constante a eles''. Tata Amaral acha que o personagem público de Glauber obscureceu ''muito pouco'' o entendimento da produção e da ação do diretor baiano juízo que talvez possa ser estendido para a geração que chegou ao longametragem nos anos 90. Malversação .Segundo o escritor Valêncio Xavier. Há percepções artísticas que só podem se expressar em intervenções menores que uma obra. nele não havia essa marca divisória entre público e privado. se faziam uma coisa só. Ivana buscou relacionar criador e figura pública. que usa rótulos como incoerente.htm (3 de 8)22/3/2007 01:09:16 . Para Ivana. Personalidade .

Glauber está aí. ''Glauber expressa isso melhor que ninguém (Deus e o Diabo é genial). numa encruzilhada. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. em que não haja a sombra da invenção de Glauber.ninguém faz campanha para fundar uma estatal de cinema e. O autor de Revisão crítica do cinema brasileiro partiu do puro curta formalista Pátio (1959) para a alegoria exasperada da crise com Deus e o diabo na terra do sol (1963) e o deflagrador Terra em transe (1967). Deus e o diabo não teria atravessado nem o Canal da Mancha)''. ''sua presença marcou a fogo a segunda metade do século 20 brasileiro''. sem ele. direta ou indiretamente. O compositor do disco Cinema transcendental completa: ''Glauber está tanto em São Jerônimo quanto em Orfeu . conversas. ouvir uma canção. Glauber pode fornecer balizas ou bússolas de rota no mapa cultural do Brasil (Mapa foi o nome da revista que ele editou com um grupo de amigos em 57/58 . Após o exílio. Interpretou a si mesmo em Vent dest (1969). canção de Caetano e Gil. Quando o papa da nouvelle vague pergunta para onde vai o cinema do terceiro mundo. marcadas pela dor e o êxtase: cartas. reconciliou-se (atormentado e totalizante) com um teor mais experimental em Di Cavalcanti (1977) e A idade da Terra (1980). depoimentos.Especial Glauber Rocha obra acabada. Segundo Caetano. E continua: ''Direta e indiretamente. Mesmo (e talvez sobretudo) nas coisas que são o oposto de sua atitude revolucionária e subversiva. Coppola e Scorsese. como o cineasta que aponta ''o caminho verdadeiro para o cinema revolucionário''.e batizou a produtora que fundou com cinemanovistas em 65). Embrafilme . Para Cacá. em escala mundial. maravilhoso. do Brasil como território com grande potencial criativo de cinema) e alardear a destruição de estruturas como artista individualista. Ter feito Câncer quase ao mesmo tempo que O dragão da maldade contra o santo guerreiro é o retrato dessa contradição fértil''. uma linha de jornal.Sismo incômodo. ''a invenção e a destruição da Embrafilme são gestos que têm Glauber na origem . um filme. de Jean-Luc Godard e o Grupo Dziga Vertov (Jean-Pierre Gorin e Gérard Martin). escreviam elogiando etc. por exemplo. inventaria Omar. o papa do Cinema Novo. esboços. torra o dinheiro em A idade da Terra: só Glauber''. um discurso político. notas.O realizador do filme Cinema falado explica: ''O primeiro é um mergulho no underground que viria a ser a área de Sganzerla e Bressane. Mas o legado de Glauber sobrevive ainda hoje no cinema e na cultura do Brasil? Para Caetano. o segundo.a ''geração Mapa'' . e a contribuição milionárias de todos os seus erros .htm (4 de 8)22/3/2007 01:09:16 .a sua percepção artística é justamente essa invasão''. em toda parte''. depois. Ele sempre viveu a tensão entre construir uma indústria cinematográfica no Brasil (via afirmação. e foi esse Dragão que conquistou Leone. ''sim. mas a força poética de Glauber invade todas as áreas. intervenções políticas e corporais. fantasias persecutórias.JB Online . o Orfeu negro do sertão para francês ver (e que deu certo: os ingleses no meu exílio diziam o mesmo que os franceses. Mapa . Ele diz que não consegue ''ver uma imagem. muitas vezes é apenas uma pequena parte de uma investigação maior''. canta Divino.e São Jerônimo [de Julio Bressane]está em Eu tu eles [de Andrucha Waddington]e Cacá está na manutenção que Glauber não tinha paciência para fazer''. ler um verso.

''o legado de Glauber é demonstrar a arte como movimento global da personalidade. Para Valêncio Xavier. Magnetismo . seja nas práticas políticas que Terra em transe focalizou como drama barroco. compõe a energia formadora do transe nas horas decisivas''. O fotógrafo da série Antropologia da face gloriosa prossegue: ''Temos bons cineastas. A filmagem como acontecimento. Glauber deve estar mudando constantemente de opinião''. Estão aí. política e religião que ele muito bem analisou. quando olhamos para a nossa experiência de hoje. Como radicalidade de um ato criativo que se dá naquele instante. dilacerado entre fragmentação e totalização''. Os culturalmente ingênuos.um cinema tenso. as questões que o mobilizaram ao inventar o seu cinema. explicita o diretor. ''o legado de Glauber hoje se limita apenas aos seus filmes e ainda não desapareceu''. ''existe um campo glauberiano muito específico . da câmara-na-mão. ainda se perguntam o que Glauber pensaria disso. como implantação no presente. ''Nisso o seu legado file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. continua Omar. pensar a relação entre mito e história. valendo os debates sobre o modo de produção.ele está no ato de filmar''. Isso realmente não foi seguido. inclusive até hoje. e exercê-la no risco de um pensamento que vive sob a ameaça permanente de aniquilação . Segundo Omar. ''É como se Glauber tivesse inventado um país que o Brasil não pára de plagiar''. No círculo de fogo da filmagem glauberiana os atores se tornam figurantes reais de um drama especificamente glauberiano. o teatro populista e a retórica dilacerada dos poetas. com a presença ritualizada do corpo e da voz. Mas o único de quem se poderia pensar a idéia delirante de ser aquela pessoa é Glauber Rocha.Especial Glauber Rocha através de sua obra ou das conseqüências dela''. forma cinematográfica original que teatralizou os espaços abertos e surpreendeu os rostos para produzir a gestalt de uma experiência social complexa. no entanto.htm (5 de 8)22/3/2007 01:09:16 .Para Arthur Omar. Filmar como o ato vigoroso de uma intervenção teatral e desestabilizadora. e vivemos uma reiterada interação entre economia. Câmera-na-mão . Magnetismo.um dos poucos artistas deste século no Brasil de quem se poderia realmente dizer isso''. 20 anos após da sua morte. mostrando como uma alegoria formada nos modes de uma experiência dos séculos 16 e 17 era a figuração-chave para escancarar a fisionomia dos conflitos de classe e da vida política de todo um continente no século 20: intrigas palacianas. Segundo o autor de O discurso cinematográfico. seja nas formas de consciência correlatas a uma vivência dramática da questão da propriedade da terra. ''permanecem hoje os impasses do cinema brasileiro num mercado adverso. e tudo pode acontecer''. um mundo estruturado pelo princípio de exclusão do povo que. ainda não resolvidas. ''Esse cinema não é mais o nosso''. entre matrizes de percepção já dadas e a abertura para o presente vivido . desafiadora.Ismail ressalta: ''Filmes como Deus e o diabo e Terra em transe fizeram convergir um momento privilegiado de invenção formal na escassez de recursos e uma reflexão sobre a sociedade ainda hoje contundente. sedução.JB Online . O autor dos livros O mez da grippe e Minha mãe morrendo ressalta: ''Mas surgiram nomes mais fortes do que Glauber no cinema e na cultura no Brasil''. ao compor esse estilo que fez a junção do olhar tátil. ou daquilo provavelmente durante o tempo em que se mantém morto. E comenta: ''Não se filma como Glauber.

Como um grande artista de alma heróica. perturbador. Estava deslocado quando fez Cabeças cortadas. Sua participação nesses canais de imprensa ecoava o coro dos contrários e descontentes entoado por seus textos críticos e seus filmes inconformistas. A autora de Joaquim Pedro de Andrade: A revolução intimista avalia: ''Glauber está num lugar de cruzamento. só que da forma mais fossilizada e retrógrada possível. Ivana. de passagem entre o cinema moderno e o contexto contemporâneo.JB Online . só pensa em parecer cinema. a intervenção de Glauber no debate político-cultural do país pautou-se pelo discurso desbragado. identidade nacional. luta anti-imperialista e anti-burguesa. apresentaria na Universidade de Columbia (Nova York) outro manifesto: A estética do sonho. Um nacionalismo engessado''. dizia. Eu estou nessa linha. Autor do livro Verdade tropical. Cruzamento . Os europeus apostaram nele e ele aprontou. sem precisar ser cinema. afirma: ''Nega-se o que há de mais vivo. o ultrapassado. A página escrita mais famosa é o manifesto A estética da fome.htm (6 de 8)22/3/2007 01:09:16 . Com ironia e admiração. Fez filmes inviáveis. o problema é esse: ''o legado explosivo e desestabilizador de Glauber é negado e o discurso nacionalista anima um cinema chapabranca''. Em 1971. E nos livros dele a gente lê profissões de fé marxista. Seria bom vê-lo reagindo file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. que vê no cinema uma volta dos temas glauberianos (sertão. ele nunca traiu esse movimento inicial. Ele chamava Fernando Henrique de o príncipe da sociologia brasileira. Os burocratas se apropriam do discurso nacionalista. desde sempre''.Mas a presença e a forma de atuação do último Glauber estariam deslocados na atual configuração sócio-cultural do país? Caetano argumenta: ''Ele estava deslocado quando fez Di e A idade da Terra. personagens da pobreza). O leão de sete cabeças e Claro. como questão. ou que se limita a ouvir alguém sentado numa cadeira falando sem parar até parecer humano. Para Ivana. Do Suplemento Dominical do Diário de Notícias de Salvador (fim dos anos 50) ao programa Abertura da TV Tupi (fim dos anos 70). Uma possibilidade radical e desacreditada por um cinema brasileiro que. Deslocado . nossas raízes. Mas eu preferiria que ele tivesse podido continuar''. num pensamento apressado e francamente conservador. Mas é que ele sempre esteve deslocado: era o deslocamento necessário para violentar a timidez provinciana brasileira. o cantor confessa: ''Não só sinto saudades dele: diante de cada situação que se apresenta. Os problemas colocadas por ele não foram superados ou resolvidos. Glauber é.Ivana Bentes acha que o legado sobrevive ''de forma ainda problemática''. tentam relacioná-lo com o velho. desconfortável no seu pensamento e ao mesmo tempo se ergue um altar em que é venerado como personalidade nacional.Especial Glauber Rocha sobrevive como uma potência não atualizada. o signo de um passado que se quer enterrar muito rapidamente. em sua maior parte. de verve e violência. Diante disso Glauber é inumano. cinema brasileiro. que ele apresentou em 1965 em Gênova (Itália). me pergunto: cosa farebbe Glauber?'' ''Ele me disse mil vezes que queria Antônio Carlos Magalhães para presidente: é tropicalista. virulento.isso falando de um artista contemporâneo que morreu na década de 80''. valorizando seu candidato com o nome do movimento que ele elegeu na França como definidor do seu cinema. Ao mesmo tempo. o datado .

e não falta nada para sua realização. Gerald Thomas. sem repetir. como sempre esteve. ''ele viveu a paixão da história e. nos filmes em que a inquietação e a linguagem são uma questão.a envergadura estética do seu drama define um momento decisivo do cinema brasileiro. hipoteticamente. e na constituição de um pensamento audiovisual latino-americano''. como Zé Celso. ''Glauber não estaria deslocado . A cada momento dado a realidade está sempre completa.temos artistas da sua geração muito próximos em termos de performance pública. Para a pesquisadora. Segundo o editor da antologia A experiência do cinema. é um valor admirável e raro''.JB Online . conclui Ivana. para crédito seu. ''Glauber seria necessário como são necessários todos os artistas que não burocratizaram sua obra. estaria nos revelando uma luz que.e esse embate com o caos num contexto tão plano e sem riscos.Ivana constata: ''A influência mais forte e produtiva de Glauber está no cinema experimental. tal como se adaptou à cultura da ditadura militar . E adverte: ''Não se esqueça de que só depois de morto é que Glauber se tornou glória nacional. nacionalismouniversalismo etc. que não o de Central do Brasil''. Valêncio Xavier acha que ''estaria deslocado. Tunga. sentencia Ismail. como aconteceu com Glauber . Tata Amaral hesita e comenta: ''Não sei se ele seria hoje necessário. o qual resolveu muito bem em sua obra . de forma cada vez mais nítida. porém ele se adaptaria.é um modo de estar no mundo''. resta perguntar pelo que está assim tão no lugar no cinema brasileiro a ponto de podermos. Arthur Omar''. Ela acha que ''essa dissolução entre performance e obra não é datada nem vai desaparecer . que não se tornaram reproduções de si mesmo para o mercado . governo-oposição. E fazendo um filme como Zé Celso dirige Beckett''. ele estaria certamente deslocado. embora diante de nós.htm (7 de 8)22/3/2007 01:09:16 . Ismail Xavier aponta: ''Para quem pensa na diferença entre as épocas como uma suposta razão para alguém dos anos 60-70 estar fora do lugar hoje. Performance . sem monumentalizar''. dispensar o que de melhor tivemos e que. sempre em tensão com a conjuntura. pois conseguiu articular a reflexão sobre a experiência imediata e o engate em tradições de longo prazo''. file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha.essa mesma tensão que deveria ser assumida hoje de forma mais incisiva''. Inimigo número um do lugar. se estivesse vivo. Ele sempre escolheu mesmo ser deslocado na vida''. Cabe a nós arriscar a própria pele''. Necessário .Arthur Omar decreta: ''Glauber paradoxalmente não é necessário hoje. Em vida. ''Os cineastas têm nada a perder ao dialogar criativamente com ele.e talvez Glauber fosse necessário para mostrar que existe um outro cinema. ele sempre foi um freak incômodo na festa de medalhas''. vanguarda-classicismo.são obras em que você encontra a vida mesmo e o pensamento antes de se tornarem clichês . deveríamos supor teria caminhado. vislumbra Caetano. de toda a configuração sócio-cultural acostumada ao conforto das dicotomias do tipo direitaesquerda.Especial Glauber Rocha agora à cena nacional e internacional. Certamente. no sentido de um padecimento dentro dela. Cacá pondera: ''É impossível prever o que estaria Glauber fazendo hoje em dia. não estamos sendo capazes de ver.comum e da preguiça mental.

há um anacronismo na pergunta''.JB Online . para franquear novas formas de criação em conexão com as questões centrais do tempo.Especial Glauber Rocha Talvez ele hoje estivesse deslocado e muito ressentido. Ismail Xavier prossegue: ''Mas. José Sarney Antonio Carlos Magalhães Rogério Sganzerla João Ubaldo Ribeiro Nelson Pereira dos Santos Luiz Carlos Barreto file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha. Cacá Diegues rebate: ''Por que Glauber seria hoje necessário? Meu Deus. Oxalá não''. por tudo e por tanta coisa. curador de cinema e programador cultural Glauber por. Pelo carinho de sua solidariedade irrestrita. embora tenha sido tarefa de uma geração e não apenas de um cineasta''. Pela implacável ira contra a burrice. a título de simulação. tal como fez o Cinema Novo e não o teria feito da mesma forma sem Glauber. Ressalvando que ''rigorosamente. Pela compreensão.htm (8 de 8)22/3/2007 01:09:16 . Pela incansável atitude crítica''. Pela inspiração explosiva de suas idéias novas.. Carlos Adriano é mestre em cinema pela USP e realizador dos filmes ''Remanescências'' e ''A voz e o vazio: a vez de Vassourinha'' * Colaborou Bernardo Vorobow. Pela retomada do projeto abandonado.. Pela sonoridade de seu riso ancho. pode-se dizer que seria muito bom se artistas como ele aparecessem em grande número e a qualquer momento no cinema brasileiro.

Eles que querem esta solidão. popular. Para além do Cinema Novo: fardos e benesses de um cinema que sobrevive file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha2.uma das publicações de maior repercussão no cinema novo. Jean-Luc Godard concedeu esta entrevista ao Cahiers du Cinema . caras e ocas?".Especial Glauber Rocha [AD-IMG] Glauber Rocha: da Bahia para o mundo Por João Bernardo Caldeira "A solidão dos atores vem do fato de que meus filmes não procuram mais um assunto e os atores se tornaram seu próprio assunto. movendo a busca por uma nova linguagem. Essas palavras poderiam ter sido ditas por Glauber Rocha. tornou-se um dos marcos dos primeiros passos do cinema novo. "Existe melhor exemplo de produção do que a nouvellevague? Discordo no terreno das idéias. Eduardo Escorel -. naquele clima de esperança dos anos 60. um novo mundo.htm (1 de 2)22/3/2007 01:09:16 . A diferença é que eu faço o filme em cima disso. Mas não foram. dizia um precoce baiano. autenticamente brasileira. "A história do cinema novo está muito ligada na sua origem ao Jornal do Brasil". lembra ainda Escorel. se os compararmos às bibliotices italianas e às monumentalidades americanas. O antólogico manifesto. como lembra o mais importante montador do movimento nascido no Brasil. publicado no Brasil no livro organizado por Luis Rosemberg Filho. em artigo publicado no badalado suplemento dominical do Jornal do Brasil. pela primeira vez a miséria era assumida na telona. coloridas. isso faz parte do filme". de 22 anos. de transformar o mundo. quebrando tabus.JB Online . em julho de 61. Jean-Luc Godard. Ali começava-se a discutir o que era fazer um cinema livre. Um momento em que fazer um novo cinema era também construir o projeto de um novo Brasil. Mas são ou não são filmes mais baratos e válidos. reproduzido aqui.

disse em sua última entrevista antes de morrer. Ultrapassava em muito a caricatura emprestada ao seu cinema e ao cinema novo: a do cinema do improviso. ao Cahiers du Cinema. A causa de sua morte não foi esclarecida até hoje. Gênio? Louco? Profeta? Brigão? Talvez tudo isso. Glauber acabou sucumbindo em uma morte igualmente polêmica.htm (2 de 2)22/3/2007 01:09:16 .. Está cheio de uma poesia sangrenta". Talvez muito mais. "Sou poeta. em relação ao filme Deus e Diabo na Terra do Sol. que dura três horas. no fim de sua vida. Tudo era muito bem estudado.JB Online . Para além do Cinema Novo: fardos e benesses de um cinema que sobrevive file:///C|/Glauber%20Rocha/JB%20Online%20-%20Especial%20Glauber%20Rocha2. Jean Renoir. Ou menos. há 20 anos. é a coisa mais bonita que vi nos últimos dez anos. (. Tem uma força extraordinária. Assim declarou outro dos grandes. Seu filme. sonhador. autor da Estética da Fome. premiado internacionalmente. Rosselini e Godard. pintor e sou músico. Glauber Rocha. Portugal.. Faço cinema porque o cinema é a síntese das artes". Dos filmes iniciais cheios de esperança no projeto de um novo cinema. são unânimes em afirmar o ator Othon Bastos. como ressalta Avellar: "A trajetória que vem de Barravento até Idade da Terra é uma trajetória que sai para a briga e se desencanta com a luta. segundo longametragem do baiano: "É um brasileiro surpreendente que vai dar o que falar. o espanhol Luís Buñuel. idealizador do Cinema Novo. Foi hospitalizado gravemente em Sintra. testemunhas oculares desse passado ainda presente. e um novo país.) a cada vez que ele avança há uma certa dose de desesperança que cresce um pouquinho". em 67 ta. morria um brasileiro que um dia foi capaz de se fazer ouvir por cineastas como Francis Ford Copolla. o crítico José Carlos Avellar e o montador Eduardo Escorel. Do menino polêmico e ousado. escritor. já não parecia acreditar em suas próprias palavras de duas décadas antes.Especial Glauber Rocha Assim como Godard. crítico. Em 22 de agosto de 1981. Glauber Rocha incorporava os elementos que se apresentavam em todas as etapas de criação de um filme: o roteiro. maior representante da Nouvelle Vague. a filmagem e a montagem. Martin Scorcese. e trazido às pressas para o Brasil.

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