IBP1989_12 Aspectos Relevantes para a Distribuição das Participações Governamentais no Novo Marco Regulatório do Petróleo e Gás Leandro José

Silva Cazeiro Castro1

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O presente estudo volta sua atenção para o novo Marco Regulatório do petróleo e gás no Brasil. Com a descoberta da camada Pré-sal e seu gigantesco potencial para geração de riquezas, a União achou por bem alterar a forma contratual estabelecida há 11 anos (Concessão) para regular a as atividades de petróleo e gás. O novo regime de Partilha de produção buscou um controle do Estado sobre a produção nacional de petróleo e gás. Com isto, a forma de arrecadação das riquezas do petróleo foi profundamente modificada. Não obstante, além da alteração da forma de arrecadação os Entes não produtores entenderam que tal riqueza deveria ser mais distribuída entre a Federação, ignorando diversos fatores históricos e técnicos. Em conclusão disto, Estados Produtores tiveram sua renda obtida pelo petróleo severamente prejudicada, possibilitando a ocorrência de “quebra” das contas estaduais e municipais. Em vista disto que o presente trabalho busca apresentar fatores que deverão ser levados em consideração para a promoção desta distribuição da renda petrolífera nacional.

Abstract
This study focus its attention to the new Regulatory Mark for oil and gas in Brazil. With the discovery of Pre-Salt fields and its enormous potential, the Federal Government starts the process to change the contractually form established 11 years ago (by Federal Law nº 9.847/97) to Production and Sharing Agreements contract to regulate the activities of oil and gas (Federal Law nº 12.351/2010). The new contract form increased the state control for national production of oil and gas and caused a new distribution of the government take to states. Nevertheless, the states that do not produce oil (25 of 27 states of Brazil), decide, arbitrarily, vote the new distribution of government take, ignoring many technical and historical elements. Therefore, states that produce oil suffering enormous financial impact in yours public account. In conclusion, this paper present some factors that should be taken into consideration to distribute.

1. Introdução
Com a descoberta de gigantescas reservas de petróleo na plataforma continental, na camada do Pré-sal, houve a alteração do Marco Regulatório do petróleo e gás. Em função do elevado valor do “ouro negro” e pela localização das reservas, todos os estados da Federação passaram a cogitar a hipótese de serem beneficiários de tal riqueza, criando um intenso conflito federativo por iniciarem uma modificação na distribuição das participações governamentais. Assim, com a introdução do novo marco regulatório na exploração de petróleo e gás natural, o Pré-sal e o tão polêmico regime de Partilha de Produção (Partilha) passam a ser os protagonistas do direito do petróleo brasileiro,

______________________________ 1 MBP em Petróleo e Gás (COPPE/UFRJ) e Pós Graduado em Direito da Energia, Petróleo e Gás (Universidade Cândido Mendes), Advogado – Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços, Assessor Jurídico.

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 deixando o regime de Concessão como forma secundária para balizar as relações entre o Estado e as empresas exploradoras do “ouro negro”. Ocorre que, com a introdução da Partilha, as participações governamentais sofreram significativas modificações (supressão da Participação especial, redução das alíquotas de royalties para entes produtores, dentre outras) e criam gigantescos impactos negativos nos Estados e Municípios produtores. O impacto causado pela queda brusca de arrecadação de receita dos royalties é avassalador para o Estado e, em especial, para os municípios que possuem elevada dependência desta fonte de renda, uma vez que a instalação da indústria petrolífera na região provoca um intenso aumento populacional e de demanda para os serviços públicos, assim como provoca impactos ambientais na estrutura da localidade. Vide o caso de Macáe, considerada a “Cidade do petróleo”. Atualmente, não há uma solução definitiva para a questão da distribuição das participações governamentais, e em função disto, está sendo gerada uma grande incerteza e insegurança para todos os envolvidos neste mercado (setor público e privado). Neste diapasão o Governo Federal já anunciou o início de rodadas de licitações do Pré-sal para o ano que vem (2013), porém, tal estimativa é extremamente dependente de uma solução na distribuição dos royalties.

2. Ausências de concentração de riquezas no Rio de Janeiro
Este é o principal foco da discussão, isto é, quem são os verdadeiros proprietários das participações governamentais oriundos da atividade petrolífera? Tal questionamento não é discutido a fundo no cenário nacional, sendo amplamente difundido que tais receitas são de todos os brasileiros, se limitando a dizer que, pelo fato do petróleo ser bem da União, todos os Estados e Municípios deveriam receber seu quinhão. Nesta premissa de “o petróleo é para todos”, buscando vencer uma concentração de riqueza nos estados do sudeste, não são divulgados diversos dados que permitem demonstrar com clareza que as riquezas do país não estão concentradas nas mãos dos estados do sudeste. Neste ponto, vale transcrever dado de extrema relevância suscitado pelo i. Senador Lindbergh Farias que destaca “(...) que, em 2009, a União arrecadou, no Rio de Janeiro, R$ 115,5 bilhões e devolveu apenas R$ 14,5 bilhões (já incluídos os royalties). O Rio de Janeiro tem a menor razão federativa do Brasil. Essa injustiça manifesta será ainda maior o caso seja aprovado o Substitutivo do Senado ao PLS nº 448/2010, que retirará parcela expressiva desses R$ 14, 5 bilhões.”1. Vale aqui mencionar que a concentração de riquezas está nas mãos da União Federal, uma vez que não promove a devida distribuição do que é arrecado durante o ano, senão vejamos nos gráficos abaixo:

Figura 1: Demonstra a arrecadação direta das esferas governamentais brasileiras durante o período de 2009 a 2010.
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FARIAS, Lindbergh, Royalties do petróleo: as regras do jogo – para discutir sabendo. Editora Agir, 2011, p. 83.

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Figura 2: Demonstra a porcentagem da receita total disponível para cada ente governamental no período de 2009 a 2010. Em vista dos gráficos acima é possível verificar que a União arrecadou 67,9% de toda a carga tributária brasileira em 2010, quando feita a distribuição entre os Entes da Federação, a União permaneceu com 57% do arrecadado. Deste modo, torna-se notória a afirmativa que não há uma concentração de riquezas nos estados do sudeste, não apenas pelos dados acima informados, mas pela soma dos demais casos, tais como: inversão de ICMS, regra de repartição do Fundo de Participação dos Estados, dentre outros que serão abordados a seguir.

3 – Inversão de regra do ICMS
A Constituição Federal, mais precisamente em seu art. 155, II, determina a competência estadual para instituir o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS, bem como regras gerais para a vigência do referido imposto. Para a arrecadação do referido imposto, o Estado de origem da operação é aquele que deve receber o ICMS, contudo, a Constituição Federal, em seu art. 155, § 2º, X, alínea “b” cria uma exceção, senão vejamos: “Art. 155. Compete aos Estados e ao Distrito Federal instituir impostos sobre: (...) § 2.º O imposto previsto no inciso II atenderá ao seguinte: (...) X - não incidirá: (...) b) sobre operações que destinem a outros Estados petróleo, inclusive lubrificantes, combustíveis líquidos e gasosos dele derivados, e energia elétrica;” (grifo nosso) Conforme demonstrado, a regra de arrecadação do ICMS na origem não ocorre quando a operação envolver os citados produtos, neste caso, a arrecadação do ICMS é zerada, isto é, o Estado de origem não recolhe esse imposto. A ideia teve origem na Assembleia Constituinte em 1988, determinando que a alíquota de ICMS (à época ICM) para os Estados que produziam petróleo, e os demais produtos ali descritos, não receberiam o imposto em função de já receberem royalties, bem como para não onerar demais os estados que importam tal produto, conforme se extrai da nota taquigráfica abaixo descrita: “O SR. NELSON JOBIM (PMDB- RS Sem revisão do orador) - Sr Presidente, é fundamental que sejam relembrados, nesta Casa, os entendimentos do primeiro turno Quando em reunião da Liderança do PMDB, presidida, então, pelo Senador Mário Covas, houve um entendimento e um acordo do qual esta Liderança não se afastará em hipótese alguma. Esse entendimento e esse acordo foi no sentido de que seria votada a aprovação do royalty e os Estados que pretendessem o ICM renunciariam a esse imposto. A Liderança do PMDB mantém esse acordo e apela àqueles 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 participantes. Fundamentalmente ao Senador Mário Covas, aos Constituintes Renato Johnsson, Sérgio Spada e aos Constituintes do Pará que estiveram presentes à reunião, que atentem para o que ficou acordado naquele momento: que aprovaríamos o royalty e não aprovaríamos o pagamento do ICM. (...) O SR. JOSÉ SERRA (PSDB - SP.) - Sr. Presidente, Srs. Constituintes, é muito importante que fiquem claras algumas coisas. Trata a emenda do nobre Constituinte Ronan TIto, que funde várias outras, sobre ICM nas transações interestaduais de energia elétrica e derivados de petróleo Hoje essa cobrança não acontece. Se a alíquota interestadual desses produtos for maior que zero, de acordo com o espírito da emenda do Constituinte Ronan Tito alguns estados ganharão à custa de outros. Mas se as alíquotas forem zero, esses Estados apenas deixarão de ganhar. Nada perderão, pois hoje nada cobram. Este é um ponto muito importante. Com a alíquota zero nada se está tirando de ninguém. Em segundo lugar, relativamente a recursos naturais, há um dispositivo nesta Carta, resultante de renegociação, dispondo sobre o pagamento de royalties por extração de petróleo, utilização de recursos hídricos e outros recursos naturais. Naquela ocasião ficou claro, mediante entendimentos, que seriam mantidas as alíquotas interestaduais zero. O que acontece? No Brasil, não mais de sete ou oito Estados têm refinarias de petróleo. Ora, caso seja aprovada a emenda, os Estados que tiverem essas refinarias - como, por exemplo, a Paraíba ficarão em situação muito difícil, porque terão de pagar um ICM que hoje não pagam. Isso é um absurdo. É uma situação que fomentará, no Pais, gravíssimos conflitos dentro da Federação (...) Esta a razão pela qual deixamos a alíquota zero. É um problema de defesa da Federação e de proteção dos Estados em cujos territórios há refinarias. (...) É importante ficar claro. Estados que não têm refinarias ficarão numa situação muito difícil, e 05 que importam energia elétrica, além do royalty, terão de pagar ICM. ou seja, vão pagar duplamente Essa medida, portanto, é antifederação e literalmente vai ferir Estados pequenos em cujos territórios não há refinarias. Esta a razão pela qual mantivemos a alíquota zero. Isso é absolutamente fundamental, E invoco, repito, o testemunho dos líderes do PMDB e de outros partidos que participaram do acordo na ocasião.”.2 Conforme demonstrado acima, a Constituição de 1988 nasceu com a ideia de retirar o ICMS dos estados produtores em função destes já receberem royalties, bem como por onerar demais estados importadores de petróleo, ou seja, a alíquota para petróleo e os demais produtos citados seria de 0%. Porém, em 11 de dezembro de 2001, a Emenda Constitucional nº 33 promoveu a inversão da regra geral do ICMS, fazendo com que o citado imposto deixasse de ter alíquota de 0% e passasse a ser recolhido no destino. Conforme se vê abaixo: “Art. 2º O art. 155 da Constituição Federal passa a vigorar com as seguintes alterações: (...) § 4º Na hipótese do inciso XII, h, observar-se-á o seguinte: (...) I - nas operações com os lubrificantes e combustíveis derivados de petróleo, o imposto caberá ao Estado onde ocorrer o consumo;”. Em vista da alteração em nossa Carta Magna, torna-se nítida a intenção do Legislador em promover maior distribuição de renda para demais estados da Federação. Deste modo, é possível observar que a distribuição de renda não apresenta tamanha concentração como afirmado em discursos propalados na mídia nacional.
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Discurso dos Parlamentares Nelson Jobim e José Serra, proferido na Assembleia Nacional Constituinte, acessado em 28/08/1988, páginas 13409/13410, disponível no endereço eletrônico:www.camara.gov.br/internet/sitaqweb/resultadoPesquisaDiscursos.asp?txOrador=jose+serra&txPartido=&tx UF=&dtInicio=01%2F01%2F1986&dtFim=01%2F01%2F1990&txTexto=&txSumario=petr%C3%B3leo&basePesq=pl enario&CampoOrdenacao=dtSessao&PageSize=50&TipoOrdenacao=DESC&btnPesq=Pesquisar#, acessado em 05/01/2012. 4

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4 –Fundo de Participação (FPE)
Os fundos de Participações de Estados (FPE), conforme divulgado no site do Tesouro Nacional 3, consistem em “parcela das receitas federais arrecadadas pela União repassada aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios. O rateio da receita proveniente da arrecadação de impostos entre os entes federados representa um mecanismo fundamental para amenizar as desigualdades regionais, na busca incessante de promover o equilíbrio socioeconômico entre Estados e Municípios. Cabe ao Tesouro Nacional, em cumprimento aos dispositivos constitucionais, efetuar as transferências desses recursos aos entes federados, nos prazos legalmente estabelecidos. Dentre as principais transferências da União para os Estados, o DF e os Municípios, previstas na Constituição, destacam-se: o Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE); o Fundo de Participação dos Municípios (FPM) (...)”. Como bem frisado na explanação acima, a intenção é promover o equilíbrio socioeconômico entre estados e municípios, para isto, à época em que foram criados, tais fundos levaram em consideração critérios de desenvolvimento da região, concedendo àqueles menos desenvolvidos uma parcela maior dos recursos. Pelo critério empregado com base na atual redação do art. 2º da Lei Complementar nº 62/89, os Recursos do FPE são distribuídos da seguinte forma: a) 85% (oitenta e cinco por cento) às Unidades da Federação integrantes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; b) 15% às Unidades da Federação integrantes das regiões Sul e Sudeste. Conforme demonstra a Tabela 1: Tabela 1. Participação dos Estados Brasileiros no Fundo de Participação dos Estados (FPE) UF RR AP AC TO SE RO PI RN AL PB MA CE PA AM PE MT BA MS GO ES PR DF MG RS SC RJ SP BR
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Part (%) 2,5 3,4 3,4 4,3 4,2 2,8 4,3 4,2 4,2 4,8 7,2 7,3 6,1 2,8 6,9 2,3 9,4 1,3 2,8 1,5 2,9 0,7 4,5 2,4 1,2 1,5 1,0 100,0

FPE (R$mil) 980.043 1.347.970 1.351.525 1.716.605 1.641.623 1.112.351 1.707.244 1.678.161 1.643.519 1.891.938 2.851.675 2.898.569 2.414.651 1.102.396 2.726.043 911.918 3.712.136 526.236 1.123.216 592.601 1.139.058 272.876 1.759.638 930.304 483.286 603.544 395.067 39.514.196

População 395.725 587.311 655.385 1.243.627 1.939.426 1.453.756 3.032.421 3.013.740 3.037.103 3.641.395 6.118.995 8.185.286 7.065.573 3.221.939 8.485.386 2.854.642 14.080.654 2.265.274 5.647.035 3.351.669 10.284.503 2.455.903 19.273.506 10.582.840 5.866.252 15.420.375 39.827.570 183.987.291

FPE per capita (R$) 2.477 2.295 2.062 1.380 846 765 563 557 541 520 466 354 342 342 321 319 264 232 199 177 111 111 91 88 82 39 10 215

Informação disponível no site: http://www.stn.fazenda.gov.br/estados_municipios/transferencias_ constitucionais.asp, tendo como acesso o dia 10/02/2012. 5

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Torna-se possível observar que os Estados do Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo), por serem considerados como desenvolvidos, são um dos que menos recebem recursos do FPE. Acerca dos citados Fundos, o Supremo Tribunal Federal 4, entendeu que os critérios para a repartição estavam ultrapassados, tendo em vista terem sido feitos há aproximadamente 20 anos, determinando a constitucionalidade de tal divisão até 2012.

5 – Impactos nos Estados Produtores
A presença de petróleo provoca uma mudança profunda na região onde as empresas se instalam para desenvolver a atividade petrolífera. A região passa a receber um grande número de pessoas buscando oportunidades e, em função disto, os serviços públicos devem ser desenvolvidos, bem como a cidade deve ter controle de habitação a fim de evitar favelização. Outro impacto de grande repercussão ocorre quando há vazamento de óleo durante o desenvolvimento da atividade. Neste caso, importante ressaltar o vazamento ocorrido na Baía de Guanabara em 2000, que, segundo estudo elaborado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços do Rio de Janeiro, provocou danos irreparáveis, senão vejamos: “A mancha de óleo se estendeu por uma faixa superior a 50 quilômetros quadrados, atingindo o manguezal da área de proteção ambiental (APA) de Guapimirim e várias praias banhadas pela Baía de Guanabara. E em poucas horas, manguezais e a fauna da região sucumbiram à contaminação e com isso os pescadores perderam o sustento. O vazamento provocou danos irreparáveis ao meio ambiente, com grandes reflexos na economia das famílias de pescadores e catadores de caranguejos. Até hoje os poucos pescadores que ainda pescam na Baía de Guanabara, verificam uma queda na produção superior a 70% na captura do pescado, sem falar que após o desastre ambiental de 2000, muitas espécies de peixes desapareceram, muitos pescadores trazem as redes de pesca sujas de óleo, que ficou depositado no fundo da Baía de Guanabara e até a data de hoje se verifica muito óleo bruto no interior dos manguezais.”5. Deste modo, em vista dos pontos acima demonstrados, é cristalina a diferença entre os entes que produzem petróleo e aqueles que não sofrem nem com os bônus e muito menos com os ônus trazidos pela instalação de grandes indústrias.

6 – Ausência de isonomia
Como demonstrado acima, existem outros fatores que influenciam na divisão de royalties. Falacioso é o argumento de concentração de riquezas no Sudeste. Os dados acima mencionados apresentam uma distribuição mais favorável para demais estados das riquezas do país. O FPE é distribuído de maneira preferencial para os estados situados no norte e nordeste do Brasil, bem como, a regra de inversão do ICMS sobre o petróleo e demais produtos concede a tais estados uma participação significativa nos resultados obtidos pela exploração de petróleo. Além destes fatores, cumpre dizer que a exploração petrolífera demanda investimentos do poder público nas regiões onde as indústrias serão instaladas, que caso não sejam efetuados ou mal administrados, provocarão um verdadeiro caos na região. O aumento desordenado da população superlotaria hospitais, escolas e demais serviços públicos. Não obstante, os impactos ambientais gerados por tal atividade não atingem em grau nenhum os estados não produtores. Nos casos de vazamento na história nacional não afetaram em nada os estados não produtores. Neste foco, torna-se pertinente demonstrar trecho extraído do Voto do Ministro Sepúlveda Pertence no RE 228.800/DF, litteris: “A compensação se vincula, a meu ver, não à exploração em si, mas aos problemas
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STF, ADI 875/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, DJ 24.02.2010. A Indústria do Petróleo e Gás e seus Impactos no Estado do Rio de Janeiro, relatório da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços - SEDEIS, p. 18. 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 que gera. Com efeito, a exploração de recursos minerais e de potenciais de energia elétrica é atividade potencialmente geradora de um sem número de problemas para os entes públicos, especialmente ambientais (...), sociais e econômicos, advindos do crescimento da população e da demanda por serviços públicos. (...) Pois bem. Dos recursos despendidos com esses e outros efeitos da exploração é que devem ser compensadas as pessoas referidas no dispositivo” (grifo nosso). A história, a lógica e a razoabilidade demonstram que os royalties do petróleo foram concentrados nos estados do sudeste em função destes estarem produzindo tal produto e por serem eles que sofrem os impactos (socioeconômico, ambiental, dentre outros) causados pela atividade petrolífera. O petróleo pode ser de todos, mas os ônus decorrentes desta atividade não são repartidos para todos.

7 – Aumento indireto proporcional de receita dos Estados não produtores de petróleo
O presente capítulo faz-se presente apenas para ressaltar um dado importante que não vem sendo muito abordado na mídia e nos debates parlamentares. Atualmente, como já demonstrado acima, a regra do ICMS de arrecadação na origem é invertida no caso, dentre outros, do petróleo. Isto é, os Entes não produtores recebem tal parcela quando o produto é transportado para seus limites. Em vista disto, aumentando a produção de petróleo com o Pré-sal, a arrecadação de ICMS, obrigatoriamente aumentará e, por força da inversão acima citada, os Entes não produtores são beneficiados por esta renda. Deste modo, com a repartição proposta de royalties atualmente em discussão permite, não apenas um incremento de receita para os Entes não produtores por parte da citada participação governamental, mas também proporciona um vultoso aumento de arrecadação de ICMS. Isto é, enquanto os Estados Produtores arcam com todos os ônus da indústria petrolífera, os não produtores terão um duplo aumento, um pela distribuição “igualitária” dos royalties e outro pelo aumento de arrecadação do ICMS com regra invertida.

8- Interferência pela proximidade das eleições municipais
Visando aumentar a arrecadação de receita para seus municípios, os prefeitos dos Estados não produtores promoveram Marchas no Distrito Federal buscando pressionar os Poderes Executivo e Legislativo para que o principal Projeto de Lei que versa sobre a questão seja votado o mais breve possível, bem como que seja aprovada uma distribuição igualitária, sem nenhum critério de distinção entre os entes federados. Neste ponto, emblemático foi o evento ocorrido no dia 15 de maio de 2012, na 15ª Marcha dos Prefeitos, no qual a Presidente Dilma Roussef, ao aconselhar que os prefeitos presentes se preocupassem com o futuro, ao invés do passado, foi vaiada6. Destarte, a pressão e a pressa em promover a nova definição da repartição dos royalties não demonstra ser a melhor opção para sociedade, pois tal decisão, em função da burocracia legislativa brasileira, seria definitiva.

9- Andamento do Projeto de Lei 2.565/2011
Apenas no intuito de atualizar e situar o prezado leitor acerca do andamento do principal Projeto de Lei que versa sobre a distribuição dos royalties do Regime de Partilha de Produção o presente capítulo apresentará o trâmite do Projeto de Lei 2.565/2011, de autoria do Senador Wellington Dias. O referido Projeto de Lei foi submetido à avaliação de uma Comissão Temporária criada exclusivamente para a análise da questão. Nesta, o Deputado Federal Carlos Alberto Rolim Zarattini, de São Paulo, atua como relator do Projeto, buscando um acordo entre Entes produtores e não produtores. Vale ainda dizer que a citada comissão é composta por seis deputados representantes de ambos os lados do conflito. Atualmente, segundo divulgado na mídia nacional, o Relator do citado Projeto apresentará um texto substitutivo ainda no primeiro semestre deste ano (2012) e tal será votado no Plenário da Câmara dos Deputados para aprovação ou não do texto apresentado. Vale dizer que tal previsão não é totalmente segura, uma vez que tal questão necessita de muita discussão para encontrar um denominador comum.
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Dilma é vaiada por prefeitos após falar sobre distribuição de royalties, Portal G1, publicada em 15.05.2012, disponível em: http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/05/dilma-e-vaiada-por-prefeitos-apos-falar-sobre-distribuicao-de-royalties.html. 7

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10 - Conclusão
Pelo exposto, torna-se possível afirmar que a nova distribuição das participações governamentais está sendo motivada e divulgada de maneira errada para a população. Não há isonomia nesta divisão, os entes que participam desta discussão não possuem condições iguais e, em função disto, não estão sendo tratados desigualmente de uma maneira equivalente à diferença. Ignorar a inversão da regra de ICMS na Constituição, a repartição preferencial para o norte e nordeste do FPE, os impactos socioeconômicos e ambientais, dentre os demais fatores exemplificados que cada ente sofre é cometer um grave ato de injustiça. Não se pode impor puramente a vontade da maioria sobre a minoria, ainda mais quando não há fundamento para isto. De fato, deve ser feita uma distribuição sobre a riqueza extraída da atividade petrolífera, porém, de maneira honesta e justa, levando em consideração todos os fatores e dados que estão envolvidos na questão.

11. Agradecimentos
Agradeço aos meus amigos da espiritualidade; aos meus pais, Yone e Ricardo; minhas tias Norma e Carmem e aos meus amigos da ASJUR-SEDEIS, em especial ao Dr. William, Drª. Selma e Dr. Anderson. Sem estes, nada disso seria possível. Muito obrigado.

12. Referências
Constituição Federal Lei 9.478, de 6 de agosto de 1997. Lei 12.351, de 22 de dezembro de 2010. Jurisprudências extraídas do Supremo Tribunal Federal. FARIAS, Lindbergh, Royalties do petróleo: as regras do jogo – para discutir sabendo. Editora Agir, 2011. A Indústria do Petróleo e Gás e seus Impactos no Estado do Rio de Janeiro, relatório da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Energia, Indústria e Serviços – SEDEIS. Fonte da figura 1, disponível em CargaTribut%C3%83%C2%A1ria2010.pdf. Fonte da figura 2: disponível em CargaTribut%C3%83%C2%A1ria2010.pdf. http://www.joserobertoafonso.ecn.br/attachments/article/2101/1109-

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