IBP2036_12 PROGRAMA DE MONITORAMENTO DO DESEMBARQUE PESQUEIRO REALIZADO ENTRE 2002 E 2011 NO BLOCO BMCAL-4 E BAS-97, BAIXO SUL DA BAHIA

. Cristiano Dapper1, Tony Ribeiro 2, Rodrigo Campos1, Athila Bertoncini3, Hugo Diogo1, Adriana Fraga4, Elisabete Costa5
Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corrigir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O presente artigo aborda uma iniciativa caracterizada pela inovação nas estratégias e abordagens de relacionamento entre uma empresa do segmento de óleo e gás, a El Paso Óleo e Gás do Brasil, e nove comunidades de pescadores artesanais no litoral do Baixo-Sul da Bahia. Ao longo de 10 anos a El Paso transforma um projeto condicionado ao licenciamento ambiental, caracterizado como um monitoramento do desembarque pesqueiro – geralmente sujeito a temporalidades na coleta de dados - em uma ação continuada de geração de dados e informações que passam a abrir caminho para uma troca recíproca de conhecimento, permitindo ainda análises mais robustas. Metodologicamente, o monitoramento pesqueiro da El Paso no Baixo-Sul se ajusta às realidades e especificidades das pescarias locais e inclui em sua rotina ações de devolutivas que permitem um aprendizado mútuo, promovendo ainda a contínua motivação dos pescadores na oferta de dados mais realistas sobre dinâmica temporal e espacial da produção pesqueira local/regional. Através dessa estratégia, as ações de compensação, mitigação e gestão dos conflitos inerentes ao processo de exploração de petróleo e gás se tornaram mais eficazes, bem como abrem-se caminhos para integrações com políticas públicas tidas como essenciais para os processos de gestão e desenvolvimento da pesca artesanal. Nesse sentido, são apresentados os principais resultados gerados no período de 2006 a 2011 concluindo o papel central da informação compartilhada como uma base em busca da viabilidade de usos múltiplos em espaços comuns.

Abstract
This article addresses an initiative characterized by innovation in strategies and approaches to relationship between an oil and gas Company, El Paso Oil and Gas in Brazil, and nine artisanal fishermen communities at Baixo-Sul coast of the state of Bahia. Along 10 years, El Paso turns an environmental licensing project, known as a fisheries landing monitoring which is generally subject to time gaps in data collection - in a continuous monitoring program, providing data and information that allow a mutual knowledge exchange, besides more robust analyzes. Methodological aspects of El Paso’s fisheries landing monitoring at Baixo-Sul considers the local reality and particularities of fisheries including results feed back in its cycle allowing mutual learning cycles, yet promoting a continuous fishermen motivation by offering high quality data on temporal and spatial dynamics of local/regional fish production. Through this strategy, compensation and mitigation actions as well as conflict management within oil and gas exploration processes became more efficient and in the same way they allow an integration with public policies considered essential to promote management and local development of the artisanal fisheries activity. Furthermore, the main results obtained from 2006 to 2011 are presented ummarizing the central role of shared information as the basis in the search of the feasibility of multiples uses in common spaces.

1. Introdução
1.1. O Monitoramento do Desembarque Pesqueiro e o Licenciamento Ambiental

______________________________ 1 MSc, Oceanógrafo - SOMA 2 Bacharel, Biólogo – SOMA 3 PhD, Oceanógrafo – SOMA 4 MSc, Engenheira de Pesca - SOMA 5 Engenheira Química – El Paso

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 A pesca artesanal é uma das atividades econômicas mais tradicionais no mundo, gerando trabalho e renda, fornecendo proteína de qualidade, além de manter um patrimônio cultural inestimável. Entretanto, a atividade depende diretamente da integridade ambiental dos ecossistemas que vem recebendo pressões e impactos de origens naturais (ex: mudanças climáticas) e antrópicas que podem ser divididas entre internas e externas à pesca. As internas dizem respeito a sobrepesca e consequências atreladas aos impactos de extração dos recursos pesqueiros de forma desordenada. Já os impactos tidos de origem externa vinculam-se ao exercício de outras atividades econômicas na zona costeira e marinha como o crescimento urbano-industrial de cidades e seus efeitos na geração de poluição, perda de habitats, dentre outros. Nisso, as atividades de, exploração e produção (E&P) de petróleo e gás passam a representar um ator que faz uso do espaço costeiro e marinho e, portanto, representam em alguma medida uma fonte externa de pressão e impactos para com a pesca artesanal. Nesse contexto, o Projeto de Monitoramento do Desembarque Pesqueiro (PMDP) representa uma das exigências da Coordenação Geral de Petróleo e Gás (CGPEG/DILIC/IBAMA) no âmbito do processo de licenciamento ambiental de petróleo e gás em áreas marítimas no Brasil, pautado na geração de dados e informações para fins de avaliação de impacto bem como um projeto para apoiar a gestão de conflitos entre essas atividades – pesca artesanal e indústria de petróleo. O PMDP aqui abordado esteve condicionado inicialmente ao processo de licenciamento de atividades de pesquisa sísmica 2D, 3D e de perfuração exploratória, ocorridas nos blocos BM-CAL-4 e BAS-97, localizados na bacia de Camamu-Almada, no Litoral Baixo Sul da Bahia, sob concessão da empresa El Paso Óleo e Gás do Brasil (El Paso). Deve-se ressaltar que não houve atividades de produção de óleo e gás. O PMDP ocorreu entre fevereiro e maio de 2002 como condicionante da licença de operação para realização de atividade sísmica 2D tendo por objetivo principal avaliar os impactos e interferências geradas sobre a atividade pesqueira artesanal. Em 2004 o projeto de monitoramento foi retomado pelos mesmos motivos, porém dessa vez para uma atividade sísmica 3D. Destaca-se que a partir do 2º semestre de 2005, até o final de 2011, a coleta de dados foi reiniciada voluntariamente pela empresa El Paso com objetivo de gerar informações sistemáticas das pescarias situadas na sua área de influência direta, visando promover a geração de conhecimento sobre a dinâmica das pescarias de forma a oferecer subsídios mais sólidos às decisões técnicas no processo de licenciamento ambiental. Ao longo desse período, houve uma 2ª campanha de perfuração exploratória realizada durante o ano de 2007 pela El Paso, de forma que o PMDP tornou-se mais uma vez condicionante da respectiva licença ambiental. A empresa SOMA Soluções em Meio Ambiente Ltda. (SOMA) foi a responsável tecnicamente pela elaboração e execução do referido projeto dentro do período mencionado. 1.2. O Desenvolvimento Contínuo de Conhecimento sobre a Dinâmica Pesqueira do Litoral Baixo Sul da Bahia Em mais de 6 anos de atuação contínua e voluntária, o PMDP veio sendo aprimorado e executado até novembro de 2011, monitorando diariamente, desde o seu início, 9 (nove) comunidades pesqueiras em 12 (doze) pontos de desembarque, distribuídos em 7 (sete) municípios, observando-se a dinâmica pesqueira, suas artes de pesca, o pescado capturado, suas embarcações, seus recursos tecnológicos e a distribuição espacial das pescarias. Para o desenvolvimento do PMDP, foi elaborado um desenho amostral específico capaz de gerar informações de qualidade acerca da atividade pesqueira no Litoral Baixo Sul da Bahia. Estas informações pesqueiras, coletadas pelos monitores em cada comunidade, seguiram uma rotina minuciosa de trabalho, que consiste em uma sequência lógica de passos, iniciadas com a coleta de dados em campo, tabulação e auditoria dos dados, culminando com a produção de relatórios e de ações devolutivas junto às comunidades. Para tanto, o acompanhamento mensal de técnicos em campo e a realização de treinamentos continuados com os monitores de pesca representou uma ação importante para a geração de dados de qualidade e de integração de pescadores e comunidades para com o PMDP. Nas ações devolutivas, o uso de abordagens pedagógicas baseado em ferramentas sob linguagem acessíveis permitiram uma considerável capilaridade dos resultados gerados de forma a aumentar gradualmente a adesão consciente dos pescadores para com o processo de repasse dos dados e informações. O PMDP ampliou ainda o foco e objetivos para que atendesse às necessidades do licenciamento ambiental da atividade de E&P de petróleo e gás, por um lado, e o alinhamento estratégico com as políticas públicas para o setor pesqueiro artesanal a partir de uma visão de gestão participativa e integrada para os recursos pesqueiros. Assim, no período de sua execução, desenvolveu-se uma parceria sólida e transparente com lideranças e os pescadores, esses assumindo um compromisso fundamental, dentro de suas possibilidades e rigor da lida árdua, quando ao voltar do mar dispondo-se a informar aos monitores os dados quali-quantitativos sobre suas pescarias. Seus interlocutores, os monitores, nativos das próprias comunidades, foram capacitados de forma a reconhecerem importantes valores como a qualidade das informações para a sustentabilidade do projeto e confiabilidade dos resultados alcançados, para que pudessem ser transformados em oportunidades para as comunidades pesqueiras. E a todos os participantes sempre foi ressaltado o quão importante era o envolvimento e a participação ativa das comunidades, não apenas no fornecimento das informações aos monitores, mas também nas apresentações e discussões dos resultados nas comunidades (devolutivas), para que assim, cada vez mais, os resultados pudessem auxiliar as necessidades futuras, relativas às pescarias no litoral Baixo Sul da Bahia. 2

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2. Metodologia
A área de estudo contemplada para a execução do PMDP, localizada no Baixo Sul da Bahia, compreende a área de influência direta dos blocos de exploração BMCAL-4 e BAS-97, atualmente extintos. São nove comunidades pesqueiras onde o PMDP foi desenvolvido, sendo elas: Valença, Boipeba, São Sebastião, São Francisco, Barra dos Carvalhos, Barra de Serinhaém, Ilha do Contrato, Barra Grande e Camamu (Figura 1). O delineamento amostral utilizado é do tipo aleatório estratificado segundo Sparre & Venema (1998) e Sparre (2000); sendo os estratos compostos pelas artes de pesca e comunidades de ocorrência dos desembarques das frotas sediadas na região do Bloco BM-CAL-4 e BAS-97. São doze artes de pesca, agrupadas nas modalidades armadilhas (manzuá, gaiola, camboa); redes (arrasto de fundo com guincho, arrasto de fundo sem guincho, redinha, calão, emalhe); linha e anzol (linha de mão, grozeira); outras artes (mergulho e mariscagem). A unidade amostral considerada é o evento de desembarque e o registro dos mesmos foi diário. O período de coleta de informações sobre as pescarias foi de 2002 a 2011. No entanto, para fins de análise e apresentação de resultados, foram considerados apenas os anos de 2006 a 2011, já que os mesmos apresentam séries temporais contínuas, o que possibilita fazer comparações entre os anos.

Figura 1: Comunidades e respectivas artes de pesca monitoradas no Baixo-sul.

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3. Resultados
Com o objetivo de identificar e buscar possíveis soluções para eventuais conflitos futuros entre a pesca artesanal e a atividade de E&P de petróleo naquela área de interesse, o ponto de partida foi a geração de conhecimento sobre a pesca artesanal no litoral Baixo Sul da Bahia, numa visão local e regional, que foi sendo periodicamente devolvido e compartilhado com aquelas comunidades monitoradas. O conhecimento da dinâmica pesqueira, a partir de séries temporais consistentes, é imprescindível ainda para subsidiar a discussão e elaboração de políticas mais apropriadas de apoio ao setor. Especificamente na pesca artesanal, a diversidade dos tipos de pescarias e o caráter difuso e informal das mesmas representam fatores complicadores na produção de informações de qualidade. Assim, o desenvolvimento de um banco de dados pesqueiros gerados a partir do monitoramento dos desembarques individualizados é fundamental para o planejamento presente e futuro das ações de ordenamento e desenvolvimento pesqueiro na região. Assim, os resultados apresentados a seguir contemplam os itens de (i) estrutura da frota pesqueira; (ii) características das pescarias (quanto às artes de pesca empregadas); (iii) produtividade pesqueira, e (iv) espécies capturadas. O conjunto destas informações permite caracterizar cada comunidade de pesca, enaltecendo as peculiaridades/especificidades de cada uma que podem ser utilizadas com maior eficiência no processo de tomada de decisão, visando estabelecer medidas mitigadoras de impacto, bem como soluções para o melhor desenvolvimento e organização da atividade pesqueira nas comunidades de pesca sob influência dos possíveis impactos sócio-econômicos e ambientais. 3.1. A Estrutura da Frota Pesqueira O cadastro da frota pesqueira nas nove comunidades contabilizou 717 embarcações, sendo destas, 53% motorizadas (Figura 2). A presença de equipamentos de auxílio à navegação ou localização de cardumes, como RÁDIO, GPS e SONDA, ocorre apenas nas embarcações motorizadas. Em relação ao GPS e SONDA, na maioria dos casos as embarcações são desprovidas destes equipamentos, enquanto o RÁDIO e a BÚSSOLA estão presentes na maioria dos casos (Figura 3). Estas frotas apresentam uma característica peculiar da pesca artesanal, que se refere ao uso de diversas artes de pesca (Figura 4), utilizadas de acordo com a sazonalidade das espécies-alvo, bem como com características ambientais favoráveis (ventos, luas, correntes, marés). A arte de pesca linha de mão (LIM) é a mais utilizada, seguida das redes de emalhe (EMA) e de arrasto (ARR) (Figura 4).

270 240 210 180 150 120 90 60 30 0 70

Número de embarcações

261
76

104 72 18
11 46

80 60 49
28 9 20

39

34
19

60

BGR

SFR

SSE

ICO

BSE

BOI

CAM

VAL

BCA

Motorizada

Não motorizada

Figura 2. Número de embarcações que compõem a frota das nove comunidades monitoradas no Baixo sul da Bahia. Comunidades: BGR: Barra Grande, SFR: São Francisco, SSE: São Sebastião, ICO: Ilha do Contrato, BSE: Barra de Serinhaém, BOI: Boipeba, CAM: Camamu, VAL: Valença, BCA: Barra dos Carvalhos.

4

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Equipamentos de navegação
GPS
38%

Artes de pesca

a
GRO
11% 89%

b

62%

MER
Sonda
47%

20%

80%

53%

Artes de pesca

MAZ EMA LIM

12%

88%

Rádio

96%

4%

52%

48%

59%

41%

Bússola

78%

22%

ARR

49%

51%

% da frota que apresenta o equipamento

Não apresenta o equipamento

Utilizam o artefato de pesca

Não utilizam

Figura 3. Percentuais da frota motorizada em relação à presença ou não dos equipamentos de auxílio à navegação e localização de cardumes (a) e em relação ao uso ou não dos artefatos de pesca (b). GRO=grozeira, MER=mergulho, MAZ=manzuá, EMA=emalhe, LIM=linha de mão, ARR=arrasto. 3.2. Os Tipos de Pescarias Segundo as Comunidades As artes de pesca empregadas para a captura caracterizam o tipo de pescaria. Na maioria dos casos, as artes são direcionadas para uma ou um grupo de espécies-alvo. Este fato reflete em uma sazonalidade no uso das artes de pesca, o que pode ser observado a partir da análise da Tabela 1. Os valores percentuais mais elevados indicam um maior número de desembarques registrados nos respectivos meses ao longo do ano. Desta forma, pode-se observar que a camboa (CAM) é praticada principalmente entre abril e outubro; a gaiola (GAI), praticamente ao longo de todo ano; o manzuá (MAZ), nos meses de janeiro e fevereiro; o arrasto de fundo (ARM e ARG), entre janeiro e março e junho e agosto; a mariscagem (MAR), entre julho e outubro; a linha de mão (LIM), entre abril e julho; o emalhe (EMA), ao longo de todo ano; a redinha (RED), de junho a agosto; o mergulho (MER), entre outubro e março; o calão (CAL), ao longo de todo ano; a grozeira (GRO), entre os meses de janeiro e abril e entre julho e outubro. Tabela 1. Calendário de ocorrência dos principais tipos de pescarias (artes de pesca) observadas no Baixo sul. Os números no interior das células correspondem aos percentuais de desembarques registrados ao longo do ano. Artes de pesca: CAM=camboa, GAI=gaiola, MAZ=manzuá, ARM=arrasto de fundo manual, MAR=mariscagem, LIM=linha de mão, EMA=emalhe, RED=redinha, MER=mergulho, CAL=calão, ARG=arrasto com guincho, GRO=grozeira.

Artes de pesca
CAM GAI MAZ ARM MAR LIM EMA RED MER CAL ARG GRO

JAN 2,1 4,5 43,9 8,4 3,4 6,5 8,0 8,0 20,0 11,9 8,8 9,5

Percentuais (%) de Desembarques FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET 3,1 4,2 10,0 12,9 10,1 10,4 10,1 11,0 6,8 8,6 10,4 7,7 7,4 12,3 11,8 9,6 25,1 1,5 3,5 5,0 2,0 1,5 4,3 2,4 10,7 13,0 0,1 8,2 10,3 13,4 12,3 4,7 7,2 4,4 8,4 4,4 2,0 13,3 17,1 15,7 6,1 7,5 11,3 11,4 11,2 15,5 10,0 7,0 8,4 9,6 9,7 9,1 6,1 8,9 7,9 9,0 2,4 2,8 1,4 9,1 15,7 22,0 11,2 5,9 13,8 10,3 7,6 2,0 1,4 6,5 3,3 2,5 6,0 7,4 9,8 12,8 7,8 6,1 6,4 8,1 7,6 6,5 0,3 15,3 14,6 20,6 12,7 4,0 8,5 12,5 10,8 6,7 4,1 8,1 9,6 9,0

OUT NOV DEZ 11,4 8,5 6,1 9,0 6,8 5,2 2,2 2,6 5,8 0,1 10,8 8,1 11,4 7,2 5,6 6,1 3,4 3,9 9,3 6,3 7,6 6,3 6,6 8,4 11,3 9,3 12,0 8,1 6,1 9,5 0,0 6,4 2,9 10,8 3,7 6,6

Uma análise de Cluster foi conduzida e revelou que existem similaridades entre as comunidades em termos de pescarias praticadas (artes de pesca empregadas) (Figura 5, Tabela 2). Três grupos principais são observados: o primeiro é composto por Valença (VAL), Boipeba (BOI), Barra dos Carvalhos (BCA), São Francisco (SFR) e Barra de Serinhaém (BSE). A semelhança observada neste grupo se refere à prática da pesca de arrasto, principal arte de pesca empregada nestas comunidades. O segundo grupo, que se assemelha pelo uso das artes emalhe (EMA), calão (CAL) e gaiola (GAI) é 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 formado pelas comunidades de Ilha do Contrato (ICO), São Sebastião (SSE) e Camamu (CAM). Barra Grande se distingue de todas as demais por apresentar suas pescarias voltadas essencialmente para a arte de pesca camboa (CAM).
Análise de Cluster - Conglomerado hierárquico

VAL BOI BCA SFR BSE ICO SSE CAM BGR

0

10

20

30

40
Linkage Distance

50

60

70

80

Figura 5. Dendograma de cluster agrupando as comunidades por semelhança quanto às artes de pesca utilizadas. Tabela 2: Distribuição percentual do número de desembarques registrados em relação às artes de pesca empregadas em cada comunidade (percentuais calculados em relação aos totais da linha). Artes de pesca: ARM=Arrasto de fundo manual; CAM=Camboa; LIM=Linha de mão; EMA=Rede de emalhe; CAL=Calão; GAI=Gaiola; MER=Mergulho; MAN=Manzuá; ARG=Arrasto de fundo com guincho; MAR=Mariscagem; GRO=Grozeira; RED=Redinha). A escala de cinza reflete os valores percentuais do maior (cinza escuro) para o menor (cinza claro/branco).

Comunidades Valença S. Francisco B. Grande I. Contrato S. Sebastião Camamu Boipeba Camamu B. Serinhaém

Percentuais (%) de desembarques ARM CAM LIM EMA CAL GAI MER MAN ARG MAR GRO RED 41,2 0,1 24,3 12,3 0,1 0,0 0,0 0,1 18,6 0,0 3,3 0,1 47,3 28,2 13,2 3,1 0,0 0,3 0,0 0,1 7,6 0,0 0,1 0,0 0,7 84,8 4,9 1,0 0,0 0,3 1,3 1,1 5,7 0,1 0,0 0,0 0,2 0,3 9,3 36,9 20,5 26,8 0,4 3,3 0,1 0,2 1,7 0,3 0,0 0,1 2,8 38,0 0,3 32,6 10,2 0,0 0,0 10,0 1,0 4,9 0,0 5,5 3,7 52,8 35,8 1,4 0,2 0,0 0,0 0,0 0,6 0,0 54,8 0,0 29,1 15,2 0,4 0,0 0,0 0,2 0,2 0,0 0,2 0,0 70,5 0,0 7,4 6,8 2,0 11,1 1,0 0,0 0,3 0,0 1,0 0,0 15,6 0,3 2,2 28,5 0,4 12,8 2,6 11,9 23,0 0,0 2,7 0,0

3.3. A Produtividade Pesqueira A produtividade pesqueira foi analisada a partir de um índice relativo de capturas considerando o esforço de pesca empregado para obter estas capturas. O índice aqui apresentado é a Captura por Unidade de Esforço (CPUE), e expressa a quantidade em kilogramas de pescado capturada em um dia de pesca (kg/dia) (Equação 1). CPUE = Capturas (kg) / Esforço (dias) (1)

A CPUE mediana calculada para todas as comunidades monitoradas no Baixo sul entre os anos 2006 a 2011 está apresentada na Figura 6. Pela análise da figura observa-se um decaimento da CPUE mediana de 2006 até 2009, e uma tendência de estabilização nos dois anos seguintes. Considerando as artes de pesca (Figura 7), observa-se que o decaimento entre 2006 e 2009 ocorreu especialmente nas artes de emalhe (EMA) e linha de mão (LIM), as quais também 6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 apresentaram um aumento em 2010 e 2011. As artes de arrasto (ARM e ARG) e calão (CAL) apresentaram oscilações entre os anos, não sendo possível detectar uma tendência clara em mais de 5 anos de monitoramento.

50

Captura por Unidade de Esforço - CPUE
40

cpue (kg/dia)

30

20

10

0 2006 2007 2008 Ano
Figura 6. Valores de CPUE mediana e respectivos erros padrões para o conjunto de dados entre os anos de 2006 e 2011.

2009

2010

2011

Captura por Unidade de Esforço - CPUE
90

cpue (kg/dia)

60

30

0
2006 2007 2008 2009 2010 2011

ARM

LIM

EMA

CAL

ARG

Figura 7. Valores de CPUE mediana e respectivos erros padrões por arte de pesca entre os anos de 2006 e 2011. 3.4. A Composição de Espécies Desembarcadas A composição de espécie registradas nos desembarques pode ser analisada a partir das Figuras 8, 9, 10 e 11. Em relação às comunidades (Figura 8), observa-se que os camarões constituem uma parte significativa das capturas em praticamente todas as comunidades, com exceção de Camamu (CAM), Ilha do Contrato (ICO) e São Sebastião (SSE).

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Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Figura 8. Composição de espécies dos desembarques registrados para as diferentes comunidades. Período: 2006 a 2011. Comunidades: BCA=Barra dos Carvalhos, BGR=Barra Grande, BOI=Boipeba, BSE=Barra de Serinhaém, CAM=Camamu, ICO=Ilha do Contrato, SFR=São Francisco, VAL=Valença. Em relação às artes de pesca, é possível observar quatro grupos distintos que se assemelham pelas espécies que compõem suas capturas. O primeiro grupo é formado pelas artes de arrasto (ARM e ARG) e redinha (RED) que se assemelham por apresentarem essencialmente elevadas capturas de camarões. O segundo grupo é composto pelas artes de emalhe (EMA), grozeira (GRO), linha de mão (LIM). A similaridade entre estas artes está na presença de espécies e proporções em comum, como arraia, cação e cioba. O terceiro grupo é formado pelas artes de gaiola (GAI) e manzuá (MAN), pois apresentam grande percentual de siri em sua composição de espécie. O quarto grupo é formado pelas artes mergulho (MER) e mariscagem (MAR), apresentando em comum em suas composições de captura elevado percentual de polvo (Figura 9). A comparação entre os anos (Figura 10) revela que não houve mudanças muito significativas na composição de espécies desembarcadas, sendo que os camarões apresentaram sempre os maiores percentuais anuais.

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Figura 9. Composição de espécies dos desembarques registrados para as diferentes artes de pesca. Período: 2006 a 2011. Artes de pesca: MAR=mariscagem, OUT=outras artes, ARR=arrasto de fundo, CAL=calão, CAM=camboa, EMA=emalhe, GAi=gaiola, GRO=grozeira, LIM=linha de mão, MAN=manual, MER=mergulho, RED=redinha.

Figura 10. Composição de espécies dos desembarques registrados para os diferentes anos.

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4. Considerações Finais
O conhecimento e monitoramento a respeito de uma atividade econômica propicia maior solidez nos processos de tomada de decisão estratégica para sua gestão. Historicamente, a pesca artesanal segue alijada de investimentos nessa perspectiva de geração de informações para fins de planejamento. Considerando seu valor cultural e de segurança alimentar, por um lado, e o nível de vulnerabilidade a potenciais impactos oriundos de atividades econômicas por outro lado, a empresa El Paso passa a inovar a partir de uma política de relacionamento calcada em séries de dados robustas e estatísticas continuadas, não vinculadas apenas ao processo de licenciamento. O acúmulo de uma base de conhecimento, compartilhada gradativamente com lideranças e comunidades, abre uma nova perspectiva de diálogo, com foco no debate, nas análises coletivas e nas possibilidades de encaminhamentos concretos. A partir dos resultados obtidos pela análise de uma série temporal coletada sistematicamente foi possível detectar peculiaridades das pescarias de cada comunidade, conforme os resultados apontaram, sejam em termos de estrutura de frota, artes de pesca empregadas e produtividade, bem como da composição de suas espécies capturadas. A constatação destas diferenças e semelhanças entre as práticas pesqueiras são de suma importância para promover políticas públicas e projetos melhor direcionados às necessidades de cada comunidade. Dessa forma, o uso efetivo dessas informações no processo de diálogo e gestão é importante para que as a indústria de óleo e gás minimize os conflitos de interesse quanto à ocupação do espaço marinho e o uso dos recursos naturais costeiros. As informações geradas ao longo de 6 anos pelo PMDP puderam embasar processos de licenciamento ambiental da El Paso, estudos acadêmicos e políticas públicas focadas na realidade local das comunidades pesqueiras. Dentre os processos em que o PMDP pôde fornecer subsídio técnico-informacional, cita-se a definição de projetos de compensação da atividade pesqueira bem como a avaliação do status das pescarias para dar suporte a estruturação da cadeia produtiva no âmbito de Políticas Federais do Ministério da Pesca e Aquicultura – MPA. É oportuno destacar que foram desenvolvidas somente atividades de pesquisa (sísmica e perfuração exploratória) e não de produção de petróleo e gás. Deve-se ressaltar ainda que outros projetos relacionados ao processo de licenciamento e gestão pesqueira (e. g. projeto de compensação pesqueira, projeto de comunicação social) devem ser considerados para uma análise completa, que tenha por objetivo avaliar o efetivo convívio entre as duas atividades (da indústria de petróleo e pesca) e seus eventuais conflitos. Embora estes projetos não estejam no escopo das ações do PMDP, estão intimamente relacionados ao mesmo, à medida que necessitam de informações pesqueiras fidedignas para cumprir seus objetivos a contento. Dentre as inúmeras questões que poderiam ser respondidas a partir das informações do PMDP, o que se pretende destacar aqui é sua contribuição e relevância no contexto geral. Uma base de dados robusta, com informações consistentes coletadas sob critérios estatísticos adequados, e associadas a devolutivas, levando informações às comunidades pesqueiras para que as mesmas se apropriem destas, contribui significativamente para avaliar como ambas atividades podem conviver em uma determinada região. Para a indústria de óleo e gás, os resultados desse projeto ainda ultrapassam o valor científico das informações coletadas. O diálogo entre comunidades e empreendedor tende a assumir um novo patamar, onde a presença da empresa e o reconhecimento da pesca como atividade econômica é assumido e passa a pautar as negociações e as ações de compensação e mitigação focadas na busca de respeito mútuo.

5. Agradecimentos
Aproveitamos para agradecer e destacar a visão da empresa El Paso Óleo e Gás do Brasil Ltda. por investir, de forma voluntária, em um projeto com diferencial, buscando o desenho mais eficaz de levantamento de dados e resultados que possibilitem ações de mitigação de impactos e gestão de conflitos condizentes com a realidade da pesca local, não só no âmbito da indústria de E&P de petróleo. Agradecemos a todos os participantes do Projeto de Monitoramento do Desembarque Pesqueiro: monitores de pesca, tabuladores de dados, técnicos e analistas que estiveram envolvidos por todos esses anos. E sem sombra de dúvidas, um agradecimento especial a todos os pescadores e marisqueiras que diariamente cederam preciosos minutos para compartilhar conosco suas informações pesqueiras e suas experiências de vida.

6. Referências
SPARRE, P. Manual on sample-based data collection for fisheries assessment. Exemples from Viet Nam. FAO Fish. Tech. Pap. 398. Roma, FAO 171 pp. 2000. SPARRE, P.; VENEMA, S.C.. Introduction to tropical fish stock assessment. Part 1. Manual. FAO Fisheries Technical Paper. No. 306.1, Rev. 2. Rome, FAO. 1998. 10