IBP2064_12 APROVEITAMENTO DO POTENCIAL ENERGÉTICO DO LODO DE ESGOTO DOMÉSTICO ATRAVÉS DA PIRÓLISE RÁPIDA Shyrlane T. S. Veras1, Renata S. L.

Carvalho2, Marília R.F.S. Moraes3, Roger Frety4, José Geraldo A. Pacheco5

Copyright 2012, Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis - IBP Este Trabalho Técnico foi preparado para apresentação na Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012, realizado no período de 17 a 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro. Este Trabalho Técnico foi selecionado para apresentação pelo Comitê Técnico do evento, seguindo as informações contidas no trabalho completo submetido pelo(s) autor(es). Os organizadores não irão traduzir ou corr igir os textos recebidos. O material conforme, apresentado, não necessariamente reflete as opiniões do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis, Sócios e Representantes. É de conhecimento e aprovação do(s) autor(es) que este Trabalho Técnico seja publicado nos Anais da Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012.

Resumo
O lodo resultante do tratamento de esgoto doméstico, decorrente de processo aeróbio ou anaeróbio, nem sempre pode ser utilizado na compostagem ou como fertilizante devido a possibilidade de acúmulo de compostos tóxicos no solo. Uma alternativa é o seu aproveitamento através da pirólise rápida para obter bio-óleo que pode ser usado como biocombustível renovável. O objetivo deste trabalho foi realizar um estudo comparativo entre a pirólise térmica de amostras de lodo anaeróbio coletadas e estocadas em períodos distintos, visando a obtenção de biocombustíveis renováveis ou bioprodutos. A reação foi realizada num micropirolisador acoplado a cromatógrafo GC-MS, a 450ºC, 600ºC e 750ºC para as duas amostras com granulometria menor ou igual a 120 mesh. Os resultados das pirólises foram melhores para o lodo coletado em período chuvoso e estocado por mais tempo, onde este apresentou maiores teores de hidrocarbonetos (8,9% a 450°C, 15,7% a 600°C e 19,3% a 750°C). O menor teor de compostos oxigenados, nitrogenados e ácidos foi obtido a 450ºC e 600ºC. Quanto à pirólise do lodo coletado em período de estiagem e estocado por um tempo menor, observou-se que ele apresentou melhores resultados a 450°C, gerando em torno de 3% a mais de hidrocarbonetos. Nas temperaturas mais altas, o teor de hidrocarbonetos foi cerca de 10% menor do que no lodo estocado por longo período.

Abstract
The sludge resulting from treatment of domestic sewage, due to aerobic or anaerobic process, cannot always be used in compost process or as fertilizer because of the possibility of accumulation of toxic compounds in soil. An alternative is the fast pyrolysis of the sludge to obtain bio-oil which can be used as biofuels. The aim of this work was a comparative study between the thermal pyrolysis of anaerobic sludge samples collected and stored in different periods, in order to obtain renewable biofuels. The reaction was taken place in a micro-pyrolyser coupled with gas chromatograph GC-MS at 450 °C, 600 ºC and 750 °C with particle size less than 120 mesh. The results were better for pyrolysis of the sludge collected in the rainy season and stored for long period, in which the concentrations of hydrocarbons were 8.9% at 450 °C, 15.7% at 600 ° C and 19.3% to 750 °C. The lowest levels of oxygenated, nitrogen and acids compounds were obtained at 450 °C and 600 °C. The pyrolysis of the sludge collected in the dry season and stored for a short period produced 3% more hydrocarbons than the another sludge at 450 °C. At higher temperatures, the hydrocarbon content was about 10% lower than the sludge stored for long period.

1. Introdução
O desenvolvimento das atividades industriais e o crescimento da população promovem em conjunto um maior consumo de água, gerando níveis elevados de esgotos e resíduos sólidos. O tratamento e disposição desses resíduos,

______________________________ 1 Mestranda, Engenheira Química – UFPE 2 Engenheira Química – UFPE 3 Doutoranda, Engenheira Química – UFPE 4 Professor Dr., Engenheiro Químico – UFPE 5 Professor Dr., Engenheiro Químico – UFPE

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 principalmente do lodo proveniente das estações de tratamento de esgoto, exige maior atenção por ser uma atividade de grande complexidade e associada a um alto custo. Outro grande problema para as empresas públicas ou privadas responsáveis pelo saneamento é a destinação deste material (Cassini, 2003; Pedroza, et al., 2010). O gerenciamento do lodo resultante do tratamento de esgoto é um assunto que vem sendo bastante discutido devido às restrições que as destinações convencionais proporcionam. Geralmente, os resíduos sólidos das estações de tratamento de efluentes são dispostos em aterros, mas também podem ser utilizados como fertilizantes ou incinerados. Porém, diante da elevada produção desse material, tem-se que sua disposição em aterros exigiria um maior espaço, e sua utilização como adubo no solo poderia ser responsável pela acumulação de compostos tóxicos, principalmente metais pesados. Sua incineração não é sempre indicada, visto que esse processo libera compostos voláteis tóxicos (Jindarom et al., 2007; Domínguez et al., 2006). Como o lodo de esgoto doméstico apresenta compostos orgânicos em sua composição, ele pode ser utilizado como fonte de energia renovável. O aproveitamento desta energia pode ser feita através de processos termoquímicos como: combustão direta, gaseificação e pirólise (Domínguez et al., 2006; Tian et al., 2011). A pirólise tem recebido crescente atenção porque as condições do processo podem ser otimizadas para a obtenção de produtos desejados e, além disso, todos os produtos da pirólise têm uso potencial como é o caso das cinzas, que podem ser utilizadas como adsorventes ou fonte de material cerâmico, do gás, que pode ser utilizado como combustível e do bio-óleo, que além de combustível pode ser utilizado como matéria-prima para combustíveis ou produtos químicos (Pokorna et al., 2009). A pirólise é um processo de degradação térmica de qualquer material orgânico que ocorre na ausência total ou parcial de um agente oxidante. Ela geralmente é utilizada em uma temperatura que varia de 400ºC até o início do processo de gaseificação (Pedroza, et al., 2010). Existem dois tipos de pirólise: a convencional, conhecida também como pirólise lenta, e a rápida. A primeira é utilizada priorizando a produção de carvão, enquanto que a segunda, considerada como um processo avançado favorece quantidades consideráveis de bio-óleo. Eles se diferenciam de acordo com algumas variáveis do processo como taxa de aquecimento, temperatura, produtos desejados e tempo de residência das fases sólida e gasosa. Portanto, o processo de pirólise é aplicado visando à obtenção de compostos com uma maior capacidade energética em relação ao material inicial e que possa contribuir para a reutilização de materiais, principalmente dos que apresentam problemas quanto à destinação e disposição, por exemplo, como é o caso do lodo de esgotos. Dados existentes sobre a pirólise do lodo foram revisados recentemente (Fonts et al., 2012). O presente trabalho estuda a pirólise de lodo anaeróbio coletado na estação de tratamento de efluentes de uma empresa pública que os trata através de processos anaeróbios, em dois períodos distintos: período chuvoso e período seco.

2. Experimental
2.1. Coleta e Preparação das Amostras As amostras submetidas à pirólise foram coletadas no leito de secagem de uma estação de tratamento de efluentes domésticos de uma empresa pública que utiliza o processo de tratamento anaeróbio, porém em períodos distintos. A primeira coleta foi realizada em período chuvoso e três meses antes da segunda coleta, que foi feita em um período de estiagem. O material referente a cada coleta passou por peneiramento em malha de 120 mesh, foi homogeneizado, separado em pequenas quantidades através do processo de quarteamento e estocado em frascos de vidro. Para a determinação do teor de umidade, uma determinada quantidade da amostra foi colocada numa estufa a 105ºC por 2h. Depois de atingir temperatura ambiente, realizaram-se pesagens até peso constante e, em seguida, o percentual de umidade foi determinado conforme mostra a Equação 1.

(1)

Para obter uma indicação da quantidade de material orgânico presente nas amostras, e, portanto, o grau de possibilidade de se produzir hidrocarbonetos durante o processo de pirólise, foi feita uma estimativa da quantidade de sólidos nas amostras de lodo. Para isso, após o processo de determinação da umidade, o mesmo material seguiu para a mufla a 550ºC por 1h seguido de novas pesagens nas mesmas condições para determinação do teor de sólidos totais, totais fixos e totais voláteis. 2.2. Pirólises das Amostras de lodo de Esgoto Anaeróbio A pirólise rápida ocorreu em um micropirolisador CDS Pyroprobe 5200, acoplado a um cromatógrafo a gás com espectrômetro de massa Shimadzu GC/MS QP 2010 Plus, usando como gás de arraste o hélio, coluna DB-5MS com 2

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 espessura de 0,25 µm, 30 m de comprimento e diâmetro de 0,25 mm; a qual foi submetida a uma temperatura inicial de 40°C por 5 minutos, seguida de uma rampa de aquecimento sob uma taxa de 5°C min-1 até atingir 300°C, na qual permaneceu por 30 minutos. A fonte de íons foi mantida a 230°C e a interface a 250°C, sendo a análise realizada no modo scan adquirindo massas no intervalo de 25-533 m/z. A pirólise foi realizada nas temperaturas de 450, 600 e 750°C para as duas amostras, numa taxa de aquecimento de 10.000 K s-1 e um tempo total de aquecimento de 40 segundos. A interface do pirolisador foi aquecida a 110°C por 1 minuto, para secar a biomassa, aumentando-se para 325°C por 4 minutos. A linha de transferência e a valve oven do pirolisador foram mantidas a 325°C. Os produtos de reação foram identificados com ajuda da biblioteca de compostos NIST de espectros de massa. Foram considerados apenas os picos com percentual de área superior ou igual a 0,5%. 2.3. Determinação do Teor de Oxigênio e Nitrogênio nos Produtos de Pirólise Para realizar um estudo da obtenção de compostos oxigenados e nitrogenados obtidos nos produtos pirolíticos, foi realizado o cálculo do teor médio de oxigênio e nitrogênio em termos percentuais de massa através das Equações 2 e 3.

(2)

Sendo: TO = teor de oxigênio nos produtos, n = número de compostos identificados; nOi = número de átomos de oxigênio no composto i; Ai = área percentual do composto i; MMi = massa molar do composto i.

(3)

Sendo: TN = teor de nitrogênio nos produtos, n = número de compostos identificados; nNi = número de átomos de nitrogênio no composto i; Ai = área percentual do composto i; MMi = massa molar do composto i.

3. Resultados e Discussão
3.1 Preparação e Caracterização do Lodo Como as amostras utilizadas na pirólise foram lodo obtido através de processo anaeróbio, esperou-se que estas apresentassem uma menor quantidade de matéria orgânica do que se fossem geradas através de um processo de lodos ativados (Vieira et al., 2009). Isto acontece porque no tratamento anaeróbio o esgoto passa por uma digestão anaeróbia dentro do próprio reator (UASB). Neste reator, o efluente entra e é distribuído pela parte inferior, no qual flui pela zona de digestão. Em seguida, ocorre uma mistura entre o material orgânico contido no esgoto e o lodo que está no leito. Durante este processo de mistura, uma parte da matéria orgânica é biodegradada e digerida anaerobicamente, resultando na produção de biogás e no crescimento da biomassa bacteriana, que contribui para o consumo do material orgânico presente no efluente, neste caso, do esgoto doméstico (Fernandes, 2011). Com os resultados das pesagens da amostra coletada em período chuvoso (primeira coleta) antes e após o aquecimento a 105ºC e aplicando esses valores na Equação 1, calculou-se a umidade da amostra que ficou em torno de 5,0%, portanto, o percentual em base seca foi aproximadamente 95,0%. Após o aquecimento à 550ºC, e tomando o valor obtido em base seca como sólidos totais, encontrou-se a quantidade referente aos compostos fixos ou inertes contidos na amostra que foi 74,7%. Pela diferença entre o valor total em peso seco e este último obteve-se 25,3% referente aos sólidos voláteis. O mesmo procedimento foi realizado na amostra referente à segunda coleta, na qual encontrou-se um valor em torno de 2,6% de umidade e, portanto, o percentual da amostra seca foi 97,4%. Quanto ao percentual dos sólidos totais fixos ou inertes e dos voláteis, foram obtidos 91,6% e 8,4% respectivamente. Levando em consideração o período de coleta das amostras, também foi esperado que elas apresentassem diferenças quanto à quantidade de matéria orgânica e fixa contida em cada uma. Isto porque em período chuvoso, espera-se que o tempo de retenção no reator seja menor em virtude da elevada vazão de esgoto e águas pluviais que a estação de tratamento recebe, proporcionando um menor tempo de contato entre o efluente e a biomassa bacteriana do leito de lodo. O resultado é um menor consumo de material orgânico. No período de estiagem observa-se o contrário porque o esgoto chega à estação mais concentrado, então a quantidade de biomassa bacteriana para a de matéria orgânica disponível é suficiente para degradar uma maior parte do material orgânico. 3

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012 E, como pode ser visto, a diferença entre a quantidade de material orgânico que cada amostra apresentou foi bastante diferente 25,3% para a primeira coleta e 8,4% para a segunda. Esses resultados permitem dizer que a probabilidade da amostra referente à primeira coleta gerar uma maior quantidade de hidrocarbonetos e bioprodutos é bem maior do que a referente à segunda coleta. Por isso, uma análise da quantidade de sólidos totais voláteis apresentou grande importância no estudo da pirólise do lodo de esgoto, porque forneceu uma indicação da quantidade de matéria orgânica presente nas amostras, permitindo, portanto, estimar a possibilidade de obtenção de hidrocarbonetos e compostos com valor agregado por via pirolítica. O processo de peneiramento das amostras em malha de 120 mesh foi realizado para eliminar a parte grosseira contida no lodo obtido do leito de secagem, como areia e sementes, por exemplo. Desta forma, uma parte do que seria contabilizado como material fixo ou inerte seria eliminado. Embora, nos processos em grande escala, a areia presente no lodo pode ser utilizada como inerte para facilitar a transferência de calor entre as partículas e fluidizar o leito, ou seja, não seria necessário realizar o processo de peneiramento, caso fosse realizado em escala industrial. 3.2. Estudo da Pirólise Rápida do Lodo de Esgoto A pirólise do lodo anaeróbio gerou uma mistura de hidrocarbonetos na faixa de C4-C23, ésteres, éteres, aminas, cianetos orgânicos, ácidos carboxílicos, alcoóis, cetonas, aldeídos, aromáticos oxigenados e nitrogenados, CO 2, e em alguns casos N2O. Como o interesse é a possibilidade de utilização da fração líquida, ou seja, do bio-óleo como biocombustível, foram observados principalmente a produção de hidrocarbonetos, ésteres e alcoóis que podem ser transformados em hidrocarbonetos por desidratação; ácidos carboxílicos e teores de oxigenados e nitrogenados. Realizando as pirólises rápidas do lodo coletado em período chuvoso e estocado por seis meses e do coletado em período de estiagem (quatro meses de estocagem), percebeu-se que maiores teores de hidrocarbonetos foram obtidos no lodo referente à primeira coleta (período chuvoso), sendo estes de 8,85% a 450°C, 15,68% a 600°C e 19,26% a 750°C, conforme mostra a Figura 1.

Figura 1. Distribuição dos produtos da pirólise rápida do lodo coletado em período chuvoso a 450°C, 600°C e 750°C. Sendo “NI” os compostos não identificados. A pirólise do lodo relativo ao período de estiagem só atingiu valor superior a 450°C, gerando em torno de 3% a mais de hidrocarbonetos; porém, nas demais apresentaram em torno de 5% - 10% a menos de hidrocarbonetos em termos de área, como pode ser observado na Figura 2.

4

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Figura 2. Distribuição dos produtos da pirólise rápida do lodo coletado em período de estiagem a 450°C, 600°C e 750°C. Sendo “NI” os compostos não identificados. À medida que aumenta o tempo de estocagem do lodo, tem-se menor acidez do produto de pirólise, o que é interessante para aplicação do mesmo como combustível nos motores de veículos. O aumento da temperatura não promoveu mudança significativa na acidez do bio-óleo obtido com o lodo referente à segunda coleta, porém proporcionou significativa redução da acidez na pirólise do lodo da primeira coleta. Este último, também apresentou maiores teores de ésteres e alcoóis nas pirólises, enquanto que no caso do lodo coletado em período de estiagem não foi gerado ésteres e obtiveram-se alcoóis apenas a 750°C. O produto pirolítico do lodo referente ao período chuvoso apresentou menores teores de oxigenados e nitrogenados, esses valores foram 3,51% a 750ºC e 0,50% a 600ºC, respectivamente. Para a segunda coleta esses valores foram 8,67% a 600ºC e 0,69% a 450ºC para os teores de oxigênio e nitrogênio, como pode ser observado nas Figuras 3 e 4. Nas quais, o CO2 e o N2O não foram considerados nestes cálculos.

Figura 3. Teor de oxigênio nos produtos da pirólise rápida das amostras de lodo anaeróbio nas temperaturas de 450°C, 600°C e 750°C. 5

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Figura 4. Teor de nitrogênio nos produtos da pirólise rápida das amostras de lodo anaeróbio nas temperaturas de 450°C, 600°C e 750°C. No trabalho de Pokorna et al. (2009), no qual estudou óleos e bio-óleos obtidos a partir da pirólise rápida do lodo de esgoto, foi encontrado um maior percentual para ácidos carboxílicos e nitrogenados. Esta variação está relacionada a vários fatores como o tipo de pirólise, lenta ou rápida, tipo de lodo utilizado e composição do esgoto que varia bastante, principalmente quando se trata de países diferentes, no qual se tem costumes e climas diferentes. No caso do material referente à primeira coleta, a redução do teor de oxigênio com o aumento de temperatura pode estar associada à ocorrência de possíveis reações de descarbonilação e descarboxilação resultando numa elevado teor de CO2 observado na pirólise a 750ºC. A menor quantidade de nitrogenados no lodo estocado a mais tempo (primeira coleta) pode estar relacionado ao fato de amidas, aminas, nitrilas, entre outros, serem compostos potencialmente suscetíveis à degradação. A menor produção de ácidos carboxílicos coincidiu com a maior formação de CO2, explicando maior quantidade de hidrocarbonetos. Analisando a eliminação de gases como o CO2 e o N2O, observou-se para o lodo referente à primeira coleta uma formação em torno de 2,0-3,5% de N2O a 450ºC e 600ºC e, para o dióxido de carbono, o menor valor obtido foi 8,1% a 600ºC. Enquanto que para a segunda coleta, houve formação de N 2O apenas a 450ºC com valor em torno de 4,60% e para o CO2, o menor valor encontrado foi 7,10% a 750ºC. Comparando os resultados da pirólise rápida do lodo de esgoto com o trabalho de pirólise lenta de Sanchéz et al. (2009), que estudou o efeito da temperatura de pirólise sobre a composição de óleos obtidos através de lodos de esgoto, observou-se que este apresentou compostos em comum ao nosso estudo como: benzeno, tolueno, estireno, fenol, piridina, pirrol, indol, ácidos carboxílicos de cadeia longa, por exemplo, que podem ter surgido devido à presença de óleos vegetais. Através das áreas percentuais obtidas para as funções orgânicas como hidrocarbonetos, alcoóis, ésteres e éteres, que são consideradas pré-combustíveis, foi possível analisar em qual temperatura e tipo de amostra obteve-se um bioóleo com composição mais adequada para ser aplicado como biocombustível. Para cada temperatura de pirólise foram somadas as áreas referentes às funções orgânicas citadas anteriormente. A partir destes dados construiu-se o gráfico comparativo conforme a Figura 5. Com a análise dos dados apresentados na Figura 5, pode-se dizer que a amostra coletada em período chuvoso e estocada por mais tempo forneceu melhores teores de compostos pré-combustíveis. Então, relacionando estes resultados com a estimativa da quantidade de matéria orgânica, tem-se que conforme esperado, a amostra com um percentual maior de sólidos voláteis, que representa a matéria orgânica, fornece melhores resultados. Por isso, uma análise prévia do material a ser analisado é importante, pois fornece uma estimativa do rendimento das frações de bio-óleo a serem produzidas através a pirólise. Outro motivo que destaca a necessidade do estudo prévio da amostra é a variação da quantidade de matéria orgânica contida nos esgotos que depende de vários fatores e interfere na qualidade e quantidade de biocombustíveis ou bioprodutos a serem obtidos.

6

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

Figura 5. Teores de pré-combustíveis (HC + álcool + éster + éter) obtidos a partir da pirólise rápida das amostras de lodo a 450°C, 600°C e 750°C. Sendo: HC = hidrocarbonetos. O lodo anaeróbio, mesmo apresentando uma baixa quantidade de compostos orgânicos quando comparado ao resultante de processos aeróbios como é o caso dos lodos ativados, por exemplo, pode apresentar uma vantagem em relação a este último, que é a produção de uma menor quantidade de compostos oxigenados entre os produtos da pirólise, favorecendo a qualidade dos compostos pré-combustíveis produzidos. Os ácidos carboxílicos e aromáticos oxigenados obtidos podem ser fortemente desoxigenados por tratamentos termoquímicos em presença de catalisadores de hidroprocessamento, uma importante parte dos compostos formados pela pirólise de lodo anaeróbio tem um excelente potencial para serem adicionados aos combustíveis líquidos atuais. Obviamente, estudos complementares devem ser realizados para em particular: i/ diminuir a quantidade de compostos não identificados, ii/ estreitar a faixa das temperaturas de pirólises, 500 e 650°C sendo as temperaturas mais usadas nos estudos reportados na literatura, iii/ examinar o efeito de pré-tratamentos visando simplificar a química do lodo, tais como lixiviação, extração seletiva, e aumentar de maneira externa o teor de hidrocarbonetos pela adição de resíduos selecionados tais como resíduos de açucares, de óleos vegetais. Enfim, pode ser necessário verificar o papel de alguns catalisadores, pois a literatura tem mostrado que argilas e zeólitas têm um efeito positivo na desoxigenação dos produtos tipo bio-óleo.

4. Conclusão
A pirólise rápida do lodo decorrente do tratamento de esgoto doméstico representa uma alternativa para a questão da destinação final desse resíduo, visto que é possível obter compostos que permitem aplicá-lo como fonte de energia renovável ou em diversos fins em indústrias químicas. Os principais produtos formados através da pirólises foram hidrocarbonetos na faixa de C4-C23, ácidos carboxílicos, aromáticos oxigenados e nitrogenados e CO 2. Os melhores resultados obtidos vieram das análises do lodo coletado em período chuvoso: menor acidez, maior percentual de hidrocarbonetos (19,26% a 750ºC) e menor teor de oxigenados e nitrogenados que foram 3,51% a 750ºC e 0,50% a 600ºC, respectivamente. A diferença observada entra as amostras pode ter acontecido devido à menor degradação da amostra durante o processo de tratamento e o período de coleta. Com os resultados obtidos, tem-se que a pirólise do lodo de esgoto apresenta-se como uma alternativa atraente de fonte energética, visto que as frações líquidas possuem elevado poder calorífico, fazendo com que ele possa ser reaproveitado. Além disso, o resíduo sólido também pode ser reutilizado tanto como adsorvente em indústrias ou como material cerâmico na construção civil. A pirólise do lodo torna desnecessária sua disposição em aterros, reduzindo a preocupação com a contaminação do solo por compostos tóxicos, como também pode acontecer caso seja destinado para fins agrícolas. Outro ponto importante é que a pirólise também torna desnecessária a incineração desse material, que apesar de ser um processo eficiente na redução do volume do lodo de esgoto, gera gases nocivos. 7

Rio Oil & Gas Expo and Conference 2012

5. Referências
CASSINI, S. T. Digestão de resíduos orgânicos e aproveitamento do biogás. Rio de Janeiro: ABES, 210 p, 2003. DOMÍNGUEZ, A; MENÉNDEZ, J. A.; INGUANZO, M.; PÍS, J. J. Production of bio-fuels by high temperature pyrolysis of sewage sludge using conventional and microwave heating. Bioresource Technol. Spain, v. 97, p. 11851193, 2006. FERNANDES, C., Reatores UASB: Parte1, 2011. Disponível em: <http://www.dec. ufcg.edu.br/saneamento/UASB01.html> Acesso em: 23 de Mar. de 2012. JINDAROM, C.; MEEYOO, V.; KITIYANAN, B.; RIRKSOMBOON, T.; RANGSUNVIGIT, P. Surface characterization and dye adsorptive capacities of char obtained from pyrolysis/gasification of sewage sludge. Chem. Eng. J. Thailand, v. 133, p. 239-246, 2007. PEDROZA, M. M.; VIEIRA, G. E. G.; SOUSA, J.F.; PICKLER, A. C.; LEAL, E. R. M.; MILHOMEN, C. C. Produção e tratamento de lodo de esgoto – uma revisão. Revista Liberato, Novo Hamburgo, v. 11, p. 147 - 157, 2010. POKORNA, E.; POSTELMANS, N.; JENICEK, P.; SCHREURS, S.; CARLEER, R.; YPERMAN, J. Study of bio-oils and solids from flash pyrolysis of sewage sludges. Fuel, Czech Republic, v. 88, p. 1344-1350, 2009. FONTS, I.; GEA, G.; AZUARA, M.; ABREGO, J.; ARAUZO, J.; Sewage sludge pyrolysis for liquid production: A review, Renew. Sustain. Energy Review, v. 16, p. 2781-2805, 2012 SÁNCHEZ, M. E.; MENÉNDEZ, J. A.; DOMÍNGUEZ, A.; PIS, J. J.; MARTÍNEZ, O.; CALVO, L. F.; BERNAD, P. L. Effect of pyrolysis temperature on the composition of the oils obtained from sewage sludge. Biomass Bioenerg. Spain, v. 33, p. 933-940, 2009. TIAN, Y.; ZUO, W.; REN, Z.; CHEN, D. Estimation of a novel method to produce bio-oil from sewage sludge by microwave pyrolysis with the consideration of efficiency and safety. Bioresource Technol. China, v. 102, p. 20532061, 2011. VIEIRA, G. E.; PICKLER, A.; LEAL, E.R.M.; MILHOMEM, C.C.; PEDROZA, M.M.; CARVALHO, M.B.; CARDOSO, A.S.; FIGUEIREDO, R.L.; MAFRA, W.A.; LIMA, M.M.; SILVA, F.C.; BOAS, V.F.V. Rendimento dos produtos obtidos a partir da pirólise de lodo de esgoto doméstico proveniente de reator UASB da ETE Vila União – Palmas/ TO. Simpósio Nacional de Biocombustíveis, 2., 2009, Recife.

8