Acesso á Justiça: garantia de cidadania.

José Reinaldo Barbosa
Delegado de Policia Civil/MA, Bel. em Comunicação Social – Universidade Estácio de Sá/RJ, Bel. em Direito – UNISANTOS/SP , Especialista em Ciências Criminais – Faculdades São Luís/MA, Mestrando em Direito – UNIMES/ SP. E-mail: dpcreinaldo@hotmail.com

1:RESUMO
Tendo como norte a perspectiva de Mauro Cappelletti e Bryant Garth, procuramos embasar o tema acesso à justiça, dentro dos parâmetros da justiça social, sem evidentemente termos a presunção de esgotarmos o assunto. O presente artigo foi desenvolvido a partir das três ondas renovatórias do “Projeto Florentino”. Procuramos entrelaçar os obstáculos e as soluções propostas pelo citado projeto, cujo universo de pesquisa foi o hemisfério norte, com a realidade brasileira e as soluções propostas pela Constituição Cidadã de 1988, fortemente influenciada pelas três ondas cappellettianas.

ABSTRACT:
With the north the prospect of Mauro Cappelletti and Bryant Garth, we seek to base the theme of access to justice, within the parameters of social justice, without of course under the assumption exhausted the subject.

This article was developed from three waves of the "Florence Project". We seek to weave together the obstacles and the solutions proposed by the aforementioned project, whose research universe was the northern hemisphere, with the Brazilian reality and the solutions proposed by the Citizen Constitution of 1988, heavily influenced by three wave’s cappellettianas.

PALAVRAS CHAVES:
Acesso à justiça, Projeto de Florença, coletivos e difusos, pobreza.

KEYS WORD:
Access to justice, Florence Project, collective and diffuse, poverty.

Bibliografia . essa desconhecida 4 – A Opacidade do Direito 5 – O Movimento Mundial de Acesso à Justiça 6 – O Projeto de Florença 7 – O Acesso à Justiça no Brasil 8 – Conclusão 9 .SUMÁRIO: 1 – Resumo 2 – Introdução 3 – Justiça.

ferramenta indispensável a qualquer estudo sério sobre o acesso á justiça e onde aponta três ondas renovatórias na efetivação do acesso à justiça. o alto custo econômico e a “opacidade do direito” . formam obstáculos quase intransponíveis para o direito de acesso à justiça. já colocadas em prática em alguns países. a pobreza. desenvolveu o mais amplo projeto de pesquisa para identificar os obstáculos e oferecer soluções. entendia-se como acesso à justiça a possibilidade de ingressar na Justiça para submeter-se à tutela jurisdicional do Estado. e aguardar sua sentença em litígios individuais. A primeira onda trata da assistência jurídica aos mais pobres. segundo Cárcova.2: INTRODUÇÃO Até o final dos anos 1960. O excesso de formalismo processual. no efetivo acesso à justiça ao maior numero de pessoas. de modo a agilizar e simplificar o tradicionalismo formal dos atos processuais. a segregação étnica e de minorias. . financiado por instituições europeias e norte-americanas. a segunda onda refere-se à tutela dos direitos difusos e coletivos e a terceira onda se relaciona com a reforma do processo. Mauro Cappelletti. Encerrado o minucioso trabalho de pesquisa. apresentou ao mundo o “Projeto de Florença”.

Debalde. Obstáculos e soluções para o efetivo acesso á justiça serão avaliados no decorrer deste nosso ensaio. o Ius. da equidade como a realização da justiça. irmãs siamesas. . ora aliada. se aperceberam que o direito aplicado nem sempre é expressão da justiça. soluções estas. Como o bem absoluto é inatingível. ou várias soluções serão apresentadas. uma. Se justiça é uma ideia. através dos tempos. ser a mesma a origem etimológica latina de direito e justiça. já formalizadas na Constituição Federal de 1988 e em fase de efetivação no ordenamento processual brasileiro. Os estudiosos do direito. 3: JUSTIÇA.A cada obstáculo. a intersecção de direito e justiça nem sempre resulta na consecução do bem. imposto pelo Estado. quase inimigas. cumpre-nos aceitar a visão aristotélica do equilíbrio. dar a cada parte o direito que lhes cabe. o conflito é recorrente. ora antagônicas. ou seja. ESSA DESCONHECIDA A justiça e o direito mantém historicamente uma relação conflituosa. uma virtude subjetiva na visão platônica e derivada da aplicação do direito positivo.

pois o direito não é translúcido. Esse distanciamento e incompreensão é sentido através dos tempos. Conforme o filósofo do direito. o norte-americano John Rawls. este deve reproduzir o mais realisticamente possível os anseios da sociedade. alude que mesmo para os advogados. 4 : A opacidade do direito Como esperar que a justiça estivesse ao alcance de todos. como amiúde se observa resultado da distância entre a realidade do “Príncipe” e dos “súditos”. é tarefa árdua fazerem-se compreender junto aos seus clientes. O jurista argentino Carlos Maria Cárcova. Os homens devem decidir de antemão como devem regular suas reivindicações mútuas e qual deve ser a carta constitucional de fundação de sua sociedade. é opaco. O direito positivo deve refletir a realidade dos cidadãos e não a vontade do poder.” (Rawls. numa ação conjunta. quando este já se instalou e se socorre do judiciário. não deixa a luz atravessar . os direitos e deveres básicos e determinar a divisão de benefícios sociais. e ocorre mesmo antes da instalação do conflito.13).] devemos imaginar que aqueles que comprometem na cooperação social escolhem juntos. “[. os direitos não estão sujeitos a barganha política ou ao cálculo de interesses sociais. se para o homem comum. tornando dessa maneira um óbice ao acesso à justiça. a própria noção de direito é de difícil compreensão.Como o direito é imposição legislativa do Estado.12. ou acontece ainda na reparação do conflito. ao revés. John – 2000 p.. em uma sociedade justa. onde o direito tem a função de prevenção da situação conflituosa..

Se para profissionais do direito isso ocorre. até formar pirâmides egípcias de cuja existência não chegarão a se inteirar. extremenhos. do mesmo modo para a grande massa da região catalã e levantina ou do país basco ou galego. tempo e prazer de lê-las. tendo exigido obediência a certos decretos fiscais promulgados em segredo. Acrescente-se que. de que é toda a humanidade.) o povo ignora e tem de ignorar as leis castelhanas ou as catalãs do mesmo modo que as latinas. tanto vale escrever as leis em castelhano.conclui . fora daquilo que vive nas práticas das famílias. Em suma ..via nelas nosso Juan Luis Vives mais do que normas de justiça para viver segundo a lei da . Carlos Maria Cárvova preconiza: "(. em chinês ou em latim.mesmo se omitidas outras circunstâncias como as do tecnicismo . aragoneses. não as entenderia. os povos aos quais vão dirigidas pelo Poder. o que esperar então do homem médio? Nesse tema. os transgressores e muitas as multas a impor. burlou indiretamente o requisito da publicidade.uma fala diferente. É precisamente nisto que está a questão: as leis. portanto. quanto menos de seu texto.acrescenta para a grande massa de castelhanos. formando só por isso . Com quanto verdade . para que o povo não pudesse inteirar-se de seu teor e fossem muitos. e sequer se inteirar de sua existência.completamente. E somos tão cegos que ainda não nos demos conta de que Calígula não é simplesmente uma individualidade desequilibrada que passa de repente pelo cenário do mundo.. porque seu léxico é seis ou oito vezes mais rico que o do sermo plebeius. diante das queixas e protestos dos cidadãos. Há mais de dezoito séculos que os homens vêm lançando seu anátema sobre aquele execrável imperador romano que. mandado gravar o decretado em caracteres diminutos e fixá-lo bem alto do chão. como em grego. asturianos. mesmo se redigidas na língua nativa do povo. de que são sessenta gerações de legistas renovando e multiplicando suas tábuas e preceitos. o povo não pode aprendê-las nem lê-las. murcianos ou andaluzes. concordar com eles e retê-las na memória. das localidades ou das regiões. muito menos dominá-las. mesmo quando tivesse conhecimento de sua existência.

Essa dificuldade reside também. que a opacidade do direito não resulta somente de sua complexidade ou do desconhecimento. com a revelação para o mundo dos horrores do holocausto e dos demais crimes de guerra. 1988. mas de uma orquestração dos detentores do conhecimento jurídico. (Cárcova. normas que assegurassem aos seus tutelados a garantia de direitos fundamentais e. em ocultar. para os cidadãos comuns. há que salientar as dificuldades naturais impostas aos segmentos mais pobres e incultos da população. Após o término da 2ª grande guerra.razão. além dos obstáculos já assinalados. as atenções do mundo se volta para o Homem em sua inteireza e preservação de sua dignidade independente de quaisquer adjetivos ou condições. É arte que só alguns eleitos podem admirar. 5: O Movimento Mundial de Acesso à Justiça. que fizeram do Século XX.167) O jurista argentino acrescenta ainda. o mais sangrento da história da humanidade. segundo Cárcova. todas as constituições do mundo ocidental fizeram constar em seus textos. assim como as minorias alijadas da sociedade formal. emboscadas e laços armados à ignorância do povo”. p. O acesso à justiça. entre . torna-lo inacessível. Com a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”. na grande compartimentação do dificultando sobremaneira a transparência do direito.

com/doc/61399143/Carcova-Carlos-Maria-Accesoa-la-Justicia-exclusion-y-aculturacion) (p. em especial. De modo pues que. o mestre italiano propõe soluções exequíveis a todas as Nações para que pudessem fornecer aos seus cidadãos formas simples e baratas de acesso á justiça. mecanismos alternativos de re-solución de conflictos. ombusman. como descreve Cárcova: El denominado Proyecto Florentino. en 1979. descentralización de la administración de justicia. No cruzamento de dados coletados nos diversos países pesquisados. informalismo. tales como la emergencia de los llamados derechos difusos y la implementación de medios técnicos que pudieran coadyuvar a mejorar la vinculación de la ciudadanía con los Tribunales de Justicia: vg. ha estado presente en la agenda de las políticas de Estado. el de la inaccesibilidad de la justicia. foi apresentado ao mundo o ensaio intitulado “Acesso à Justiça”.os elencados.3) . el tema del “acceso a la justicia” o. de 30 diferentes países y se publicó en 6 tomos. desde hace cuatro largas décadas. Nasce um movimento mundial de acesso à justiça e coube ao professor da Universidade de Florença. bien mirado. Mauro Cappelletti encetar uma pesquisa à nível mundial para detectar a realidade do acesso à justiça e identificar os obstáculos e os programas instalados que inovaram nessa acessibilidade aos cidadãos. que ficou conhecido como o “Projeto Florentino”. aos menos desfavorecidos.scribd. contó con el aporte de más de 100 investigadores de distintas áreas. desarrollado durante cinco años. simplificación de los procedimientos. Allí se analizaba la cuestión de la pobreza extrema y de la exclusión social como obstáculos fundamentales. Itália. (http://pt. pero se reflexionaba también sobre otros tópicos. está o direito a tutela jurisdicional e o acesso à justiça a todos os cidadãos que tiverem seus direitos violados. Na conclusão da pesquisa. tendo como autores o próprio Mauro Cappelletti e o professor norte americano Bryant Garth. como queda dicho. etc.

16). financiaram o maior projeto de pesquisa a nível global. é muito dispendiosa na maior parte das sociedades modernas. O projeto assinala três obstáculos e propostas para o acesso à Justiça que foram denominadas de “ondas”. as custas judiciais tornam-se um obstáculo muitas vezes intransponíveis e para essa expressiva parcela da população. Através de Mauro Cappelletti e Bryant Garth. o mais completo trabalho científico já realizado sobre o tema e referência para quaisquer estudos que se faça sobre o acesso à justiça.” (CAPPELLETTI e GARTH. incluindo os honorários advocatícios e algumas custas judiciais. tendo como foco o acesso à justiça. como leciona Cappelletti e Garth: “A resolução formal de litígios. . o Conselho Nacional de Pesquisa e o Centro Florentino de Estudos Judiciários Comparados. O trabalho foi capitaneado pelo professor Mauro Cappelletti e é sem dúvida. pelos autores.6: O Projeto de Florença A norte americana Fundação Ford. os litigantes precisam suportar a grande proporção dos demais custos necessários à solução de uma lide. Se é certo que o Estado paga os salários dos juízes e do pessoal auxiliar e proporciona os prédios e outros recursos necessários aos julgamentos. 2002 p. na italiana Florença. A PRIMEIRA ONDA: ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA PARA OS POBRES Observou-se que para os litigantes de menor poder aquisitivo. ambos institutos italianos. foi apresentado ao mundo o resultado da pesquisa sob o nome de “Projeto Florentino”.

naturalmente.” (CAPPELETTI e GARTH.. A “mais importante despesa individual para os litigantes consiste. 2002 p. em proporcionar serviços jurídicos aos pobres. Levando-se em consideração este obstáculo.. em virtude de não terem como suportar as despesas e as necessidades que se fazem prementes em suas vidas.Os autores acrescentam ainda: “De qualquer forma. o auxílio de um advogado é essencial. necessários para ajuizar uma causa”. nos honorários advocatícios”. a pesquisa do mestre florentino demostra que: “Os primeiros esforços importantes para incrementar o acesso à justiça nos países ocidentais concentraram-se. principalmente para os mais fracos economicamente. Este obstáculo força os litigantes em desvantagem econômica a aceitarem acordos espúrios. senão indispensável para decifrar leis cada vez mais complexas e procedimentos misteriosos. A falta de um “prazo razoável”. Cabe ressaltar ainda que o tempo absurdamente estendido dos processos judiciais faz encarece-los ainda mais.32). atenta contra os direitos fundamentais do cidadão. e isto não é um demérito.18). tornando a justiça inacessível para considerável parcela da sociedade. em uma economia de mercado os melhores profissionais são sempre os mais bem pagos. tornando um fardo maior a ser suportado. torna-se claro que os altos custos. Ora. pois o que rege o mundo capitalista é o dinheiro.] Qualquer tentativa realística de enfrentar os problemas de acesso à justiça deve começar por reconhecer esta situação: os advogados e seus serviços são muito caros. na medida em que uma ou ambas as partes devam suporta-los. Até pouco tempo a assistência judiciária era proporcionada por . (CAPPELLETTI e GARTH. constituem uma importante barreira ao acesso à justiça”. 2002 p. Na maior parte das modernas sociedades. muito adequadamente. “[.

Esta é uma solução que realmente oferta o acesso à justiça a todos os cidadãos. (CAPELLETTI e GARTH. . restando mais uma vez aos pobres uma assistência jurídica de qualidade duvidosa. então. a distribuição acabava por recair em advogados sem experiência e por vezes ainda não plenamente profissionalizados”.] a qualidade dos serviços jurídicos era baixíssima. Com o sistema Judicare foi possível o Estado prestar um serviço de qualidade aos cidadãos mais pobres. e Estados unidos trataram de remunerar melhor seus advogados. “[. surge nos Estados Unidos os chamados “Escritórios de Vizinhança”. Canadá. dando origem a primeira grande onda de reforma nesse serviço. e ainda Austrália. pois os melhores profissionais da advocacia dispendem seu tempo em causas patrocinadas por particulares. o Estado. nos anos 1970. vários países europeus. ausente a motivação económica.advogados dativos.35). são pagos pelo Estado.. p. que certamente remuneram melhor. mas logo as falhas desse sistema apareceram. Focado no fracasso da assistência judiciaria semi-caritariva.. os advogados particulares. Os países ocidentais começaram a remunerar os profissionais que prestassem seus serviços aos mais necessitados. A finalidade do sistema judicare é proporcionar aos litigantes de baixa renda a mesma representação que teriam se pudessem pagar um advogado”. Sistema judicare: “Trata-se de um sistema através do qual a assistência judiciária é estabelecida como uns direitos para todas as pessoas que se enquadrem nos termos da lei. 2003. Após este sistema. (múnus honorificum) uma espécie de caridade o que obviamente não proporcionava uma prestação jurisdicional de qualidade. pois os profissionais agora bem remunerados atendem a todos e a única diferença é quem paga os honorários. 171). uma vez que. 2002 p. que visava que promover um verdadeiro combate à pobreza. (SANTOS.

as assistências judiciárias ofertadas aos mais pobres evoluíram muito. ou seja. como observamos no Brasil a criação e fortalecimento das Defensorias Públicas. transcendendo os problemas individuais. a reparação do direito ofendido em uma ação será também coletiva. aqueles que ultrapassam a esfera de um único indivíduo. quase sempre obscuros. trata agora de promover o acesso jurisdicional aos direitos difusos e coletivos. que abraça o coletivo e não pode ser fracionado. XX. p. fazendo com que muitas barreiras de acesso à Justiça começassem a ruir. diferentemente da representação aos hipossuficientes. promovendo o interesse dos pobres como classe. e ultrapassando barreiras geográficas este acesso pode ser ofertado na América Latina. 2003. 172). No final do Sec. transcendendo o individuo. assim denominada por Cappelletti e Garth.procurando esclarecer aos pobres quais são seus direitos. com um ar respirável sendo que a violação deste direito atinge a todos e dessa forma. como o direito a um ambiente equilibrado e sadio. A SEGUNDA ONDA: REPRESENTAÇÃO DOS INTERESSES DIFUSOS A chamada segunda onda. “Verifica-se um grande movimento mundial em direção ao que o Professor Chayes denominou „litígios de direito público‟ em virtude de sua vinculação com . Trata-se do direito de toda uma coletividade. (SANTOS. “localizados nos bairros mais pobres das cidades e seguindo uma estratégia advocatícia orientada para os problemas jurídicos dos pobres enquanto problemas de classe”. qualificando para isso profissionais identificados com os problemas do bairro.

a proteção de tais interesses tornou-se necessária uma transformação do papel do juiz e de conceitos básicos como a „citação‟ e o „direito de ser ouvido‟. A TERCEIRA ONDA: NOVOS MÉTODOS DE ACESSO À JUSTIÇA A terceira onda renovatória de acesso à justiça. atenta para os ritos processuais tradicionais. todos os interessados na manutenção da qualidade do ar. de gênero. torna-se necessário que as associações civis e organizações não governamentais. pois muitas vezes contraria interesses políticos. 2002. pois é notório que o Estado. em sua tibieza. minorias étnicas e sexuais. Uma vez que nem todos os titulares de um direito difuso podem comparecer em juízo – por exemplo. (CAPPELLETTI e BRAYTH. que já não proporcionam um efetivo acesso á justiça . Em primeiro lugar. para um efetivo acesso à justiça.assuntos importantes de politica publica que envolvem grandes grupos de pessoas. mesmo que os membros do grupo. por fim. com relação a legitimação ativa. de uma combinação dos particulares e o Estado na consecução da defesa desses direitos. p. numa determinada região – é preciso que haja „um representante adequado‟ para agir em benefício da coletividade. Em segundo lugar. não consegue ou não deseja agir em favor desses direitos. ainda que nem todos tenham tido a oportunidade de ser ouvidos”.. etc. ajam em defesa de grupos identificados com o meio ambiente. O caminho passa sem dúvida por uma solução mista.50) Com o surgimento dos novos direitos. as reformas legislativas e importantes decisões dos tribunais estão cada vez mais permitindo que indivíduos ou grupos atuem em representação dos interesses difusos. relações de consumo.

e uns dos piores IDH do planeta. a desinformação e uma administração da justiça insuficiente. 7: O ACESSO À JUSTIÇA NO BRASIL O Brasil.67). em parte. arbitragem. como a criação de tribunais especiais. mediação de conflitos. p. Nesta fase. as atenções volta-se para a criação de novos métodos de acesso à justiça. quinta potência econômica mundial. pois onde grassa a pobreza. tais com a morosidade. caro. que nos remete a “Kafka” em seu memorável “O Processo”. os custos. com preceitua o Professor florentino: “O progresso na obtenção de reformas da assistência jurídica e da busca de mecanismos para representação de interesses públicos é essencial para proporcionar um significativo acesso à justiça. já o foram – no objetivo de alcançar proteção judicial para interesses que por muito tempo foram deixados ao desabrigo”. o direito fundamental de acesso à justiça ainda é letra morta da Constituição. é necessário que se criem mecanismos eficientes de acesso à justiça como forma de garantir a proteção estatal aos jurisdicionados. conciliação. Não basta reconhecer os direitos insertos na Carta Constitucional. Essas reformas serão bem sucedidas – e. multiplicou a legião dos despossuídos devido a uma cruel disparidade na distribuição de renda. 2002. juízes leigos etc. (CAPPELLETTI e GARTH. Os obstáculos processuais são muitos. onde o acesso à justiça é premio para alguns eleitos em função de um Judiciário lento. elitista e desaparelhado. Temos muito que realizar para que possamos enfrentar as três ondas elencadas por Mauro Cappelletti.. a complexidade dos procedimentos jurídicos que leva os litigantes a um processo interminável.para grande parte da população. .

A sobrecarga dos tribunais e as despesas excessivamente altas com os litígios podem tornar particularmente benéficas para as partes as soluções rápidas e mediadas. Ademais. o Estatuto da Criança e do Adolescente L: 8069/90. Após a promulgação da Constituição Cidadã de 1988. tornando exequíveis as ferramentas existentes. como leciona Cappelletti: “Existem vantagens óbvias tanto para as partes quanto para o sistema jurídico. que por ser da esfera privada. Lei da Ação Civil Pública L: 7344/85. que é semelhante a mediação e que permite com grande eficácia a resolução de conflitos entre trabalhadores e empresa.000. obrigando seu cumprimento entre as partes litigantes. amparada pela Lei 9958/00. Como.000 magistrados para 150. sem ferir as leis ou a Constituição. o Código de Defesa do Consumidor L: 8778/90.Hoje seria necessário sairmos dos atuais 15. Grande ferramenta otimizadora do acesso à justiça foi a conciliação. a Lei da arbitragem L: 9307/96 dentre outras. É significativo que um processo dirigido para a conciliação – ao contrário do processo judicial. que esta meta é impossível torna-se urgente a efetivação dos novos mecanismos que permitam acelerar a produtividade judiciária. a sentença tem o mesmo efeito da justiça convencional. criaram-se alternativas facilitadoras para viabilizar o acesso à justiça. A Lei da Arbitragem teve um papel fundamental para desafogar o Judiciário. parece que tais decisões são mais facilmente aceitas do que decretos judiciais unilaterais. que geralmente declara uma parte „vencedora‟ e outra „vencida‟ – ofereça a possibilidade de que as . tais como a Lei dos Juizados Especiais L: 9099/95. até as pedras sabem. para atingirmos números germânicos e oferecer a todos os jurisdicionados um acesso à justiça digno. tais como o juízo arbitral. se o litígio é resolvido sem necessidade de julgamento. uma vez que eles se fundam em acordo já estabelecido entre as partes.

o . na Carta Constitucional de 1988. conhecido por “Tratado Florentino” ou “Tratado de Florença”. pois somente com número suficiente de juízes e serventuários. torna a Defensoria Pública. Os brasileiros. o Brasil será um país à altura de sua Carta Republicana. direcionada à defesa e orientação jurídica aos necessitados e. passou a ter importância fundamental para a humanidade a partir do final do terceiro quarto do Século XX e apresentado ao mundo através do mais completo trabalho científico até então realizado.84). instituição essencial à função jurisdicional do Estado. como pudemos observar. através do artigo 134. LXXIV onde assegura a assistência judiciária integral aos necessitados. determina a todas as esferas da União a criação dos Juizados Especiais. a de defender o regime democrático e os interesses difusos e coletivos da sociedade. No artigo 98. O ser humano sai da retórica jurídica elitista e ingressa no mundo da cidadania. entre outras atribuições. não substituem o Judiciário convencional e cada vez mais necessário se torna o investimento de recursos para que novos profissionais possam integrar os cargos da administração da justiça. normatizou as ondas renovatórias de Cappelletti através do artigo 5º. 1988 p.causas mais profundas de um litígio sejam examinadas e restaurado um relacionamento complexo e prolongado”. Cabe ressaltar que todos esses novos instrumentos de ofertar meios de acesso à justiça. (CAPPELLETTI e GARTH. quer individual ou coletivo e assegurado o acesso à justiça em todos os seus níveis. capitaneado pelo Professor Mauro Cappelletti. nos artigos 127 e 129. O Brasil. 8: CONCLUSÃO O acesso à justiça. além de uma maquina aparelhada. passam a ter a garantia constitucional de seus direitos fundamentais. a partir da Constituição Federal de 1988. delega ao Ministério Público.

.efetivando como cidadão de direitos. como preceitua o artigo 5º. XXXV: “a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de direito”.

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