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FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE^^

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MARIA lOSÉ PALLA'

Propomo-nos analisar a feitiçaria em Portugal no século XVI a partir de um texto teatral. As personagens aqui estudadas são figuras literárias que se encontram u m pouco por toda a Europa nessa época. Estamos, portanto, no domínio da literatura e é curioso constatar como, mais uma vez, ficção e realidade se confundem. Analisaremos neste trabalho o mundo da feiticeira*^' e da alcoviteira*^' assim como o sabat na obra de Gil Vicente, autor activo entre 1502 e 1536, ano da sua morte e da instauração da Inquisição em Portugal. A sua obra compõe-se de mais de quarenta peças de teatio (religiosas, farsas, comédias e tragicomédias), em língua portuguesa e castelhana. Este autor escreveu para a corte portuguesa durante o reinado de três reis: D. João II, D. Manuel e D. João III, que o protegeram e foram seus mecenas. No ponto em que se encontiam os nossos estudos, não encontrámos vestígios da existência destas personagens na literatura portuguesa

* Departamento de Românicas. (^' Este trabalho é baseado num estudo por nós apresentado num colóquio sobre o sabat realizado em Paris: "Images du sabbat et figures de magiciennes dans Teouvre de Gil Vicente", Le Sabats des sorciers, XV-XVIII siécles sous le direction de Nicole Jacques-Chaquin et Maxime Préaud, Actes du colloque à Ecole Normale supérieure Fontenay-Saint-Cloud, Novembre, 1992, Paris, Jerõme MiUon, 1993, pp. 317-329. *^' Agradeço ao meu colega, Dr. Sequeira Torres, as conversas que tivemos sobre a feitiçaria em Portugal. *^' O mundo das feiticeiras na obra de Gil Vicente também foi objecto de estudo de um outro trabalho nosso: "La Sorcière et TEntremetteuse dans le Théâh-e de Gil Vicente", Actes du 115e Congrès International des Sociétés Savantes, Avignon, 9-15 avril 1990, publicado com o título Théâtre et spectacles. Hier et Aujourd'hui. Moyen Age et Renaissance, 1991, pp. 165-175.

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saludadores e nigromantes no século Lisboa. é impossível saber com exactidão por que vias lhes terá acedido.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS anteriores à do nosso autor*^'. por exemplo. Centro de estudos de história e cultura portuguesa. é natural que tais personagens não figurem nela. acrescentando-üie a imolação de um ser humano. 298 . Autores antigos tinham já descrito cenas do domínio da adivinhação e da feitiçaria. *^' Conhecem-se manuscritos dos séculos XVI. TUPET. já tratados em todas as épocas pelos autores mais diversos*^'. **' Francisco Bethencourt é o autor de um importante estudo sobre este assunto: O imaginário da magia. São no entanto. A imagem de Cristo ou de determinados santos é utilizada paralelamente ao sofrimento da vítima. figuras muito conhecidas na literatura e na pintura européias dos séculos XV e XVI. Gil Vicente estava certamente ao corrente desta literatura antiga. 163. interessa-se por um tema muitas vezes retomado posteriormente. sabemo-lo. O sincretismo de diversos ritos e religiões está na origem de sortilégios. No entanto. conhecia em pormenor os artifícios das artes no âmbito do sobrenatural. Arme Marie. dirigidos a santos. mas é com ele que este drama assume uma profundidade humana mais acentuada. feiticeiras. Paris. Eurípedes. 1976. Sôfocles. Projecto Universidade Aberta. e acreditamos que por vezes lhe tenha servido de inspiração. XVII e XVIII com testemunhos relativos a actos inquisitoriais sobre a bruxaria. litanias e esconjuros. não apenas em La Celestina (1499). Na Hécuba vai ainda mais longe e frata da evocação dos mortos por meio de libações e orações. por volta do século II antes da nossa era. retomando ritos orais pagãos a que associará influências do cristianismo. p. a fesus e à Virgem. La magie dans Ia poésie latine. De origem provavelmente oriental. na Medeia. A Hteratura grega. Dado que a pintura portuguesa desta época é quase exclusivamente rehgiosa. Gil Vicente certamente se inspirou. escrita pelo jurista castelhano Femando Rojas. expandiu-se por toda a bacia do Mediterrâneo. oferecia aos poetas latinos uma galeria de temas mágicos. mas também em figuras literárias da antigüidade e em personagens reais contemporâneas*^'. **' Cf. 1987. A magia erótica remonta à Alta Antigüidade.

Le manuel des inquisiteurs à Vusage des Inquisitions d'Espagne et du Portugal ou o Abregé du Directorium Inquisitorium composto em 1385 por Nicolas Eymeric. p. En general on peut reconnaitre assez facilement ceux qui invoquent les démons. & à un air terrible que leurs donnent les entretiens fréquents quils ont avec les diables. que julgava e condenava hereges. Lisboa. &cc. no Manuel des Inquisiteurs à Vusage des Inquisitions d' Espagne et du PortugaPK Curiosamente. aquele que dá ordens ao Diabo e menos culpado do que aquele que Hie faz pedidos. u m pedido feito ao Diabo não é considerado heresia. não se regista tal fenômeno.. cit. en mêlant les noms des diables aux nom des Saints dans les Utanies. en sacrifiant. Abée. resumido pelo abade Morellet em 1762. en brúlant de Vencens.Rei D. 16 et ss. é dito mais à frente que. fl. sobretudo em Portugal e em Espanha (à excepção do País Basco. La première de ceux qui rendent au démon un culte de latrie. *'' MORELLET. pp. à leur air farouche. en traçant desfigures magiques. nem com as mesmas proporções. op. &cc. que se conhece em Portugal sobre superstições populares. 299 . («' Segundo BETHENCOURT. data de 1385*^. en chantant des prières. en se servant d'une épée. La seconde est de ceux qui se contentent de rendre au diable un culte de Dulie ou d'Hyperdulie. La troisième classe comprend ceux qui invoquent les démons. en se prosternant. Arquivo da Câmara Municipal de Lisboa. durante um certo período). mas é sobretudo a partir do século XVI que passam a ser queimadas em Autos de Fé*^'. Tous ceux qui invoquent les démons de Vune de ces trois manières. & doivent être punis comme tels". Depois disso. en allumant des cierges. João I. 1762. 23: "enquanto nos países do Centro e do Norte da Europa a repressão sobre a bruxaria e a feitiçaria conhece um impulso ao longo da segunda metade do século XVI e da primeira metade do século XVII. en les priant d'être leurs médiateurs auprès de Dieu. 158-160. *^ O manuscrito deste documento encontra-se no Livro 2. Em 1358. a que se seguiram as Ordenações Manuelinas. en gardant Ia continence ou en jeênant en son honneur. nem com a mesma periodização". sont sujets à Ia Jurisdiction du Saint-Office comme hérétiques. en plaçant un enfant au milieu d'un cercle. &cc.de El. nos países meridionais. As feiticeiras foram punidas e perseguidas durante toda a Idade Média. temos conhecimento de u m esboço de inquisição a partir do século XIV.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE Exposição e precisões lexicais O mais antigo documento (em latim) atribuído a uma autoridade civil. d'un miroir. No artigo 3° desta obra encontramos a passagem seguinte: "Ceux qui évoquent les démons & dont on peut faire trois classes. Nicolaus Eymeric escreveu um livro acerca da Inquisição. d'une couche. em certos casos.

. (^'' Tratado de Confissom. segundo o mesmo dicionário. Chaves. coluna 1. mantendo relações com o Diabo e possuindo os seus dons desde a nascença. 187. A língua espanhola também contém duas palavras equivalentes: hechiceria e brujeria. p. o Tratado de Confissom^^°\ condena severamente a feitiçaria. mas podemos talvez afirmar que a "bruxa" é uma mulher idosa. os actos mágicos são sinais de desespero e frustração. as palavras stregoneria e fattucchiria podem ser identificadas.. versos 8-13.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS A importância destes ritos mágicos era tal que o primeiro Hvro impresso em Portugal. p. Rio de Janeiro. cit. (16) Neste processo. (^'^ Mysticisme et Folie. 1982. respectivamente. op. A língua francesa conhece apenas a palavra sorcière. a mulher acusada explica os diversos níveis de aprendizagem para se chegar a bruxa. (15) BETHENCOURT. com witchcraft e sorcer. Nele se escreve que é perguntado a quem se confessa: "se fez feitiços"*"' e que "todo aquele que usa de adivinhações ou de agoiros ou sortes ou encantamentos ou feitiços ou consente ou vai a eles.. mas na língua inglesa encontram-se os termos witch e sorcer e. 25-26. *^^' Ibidem.d. ("' Ibidem. Hexenei e Zauberei^^^\ Na língua italiana. Para Michelet e Malinowski. p. 343 300 . verso 26. 187. enquanto a "feiticeira" é mais jovem e aprendem as artes da magia posteriormente*^^'. Armand Marie relaciona os longos períodos de bruxaria com longos períodos de sofrimento físico*^^'. No léxico português existem os termos "feitiçaria"*^^' e "bruxaria"*^*'. também estabelece a distinção entre estes diversos termos. datando do século XVI. *"' Palavra do século XV. Notar que a palavra francesa "fetiche" tem como origem a palavra portuguesa "feitiço". segundo o Dicionário Etimólogico de Antônio Geraldo Cunha. s. do latim facticius. coluna 2. pp. Paris. Nova Fronteira. 1489. saiba e seja certo que arrenegou a fé de fesú"*^^'. É difícil estabelecer uma distinção nítida entre estes dois termos portugueses. de Pina Martins. *^'*' Palavra de origem desconhecida. edição de José V. na alemã.

6-16). assinalando le pacte qui les engageait. as *^«' REGO. Faziam reuniões todas as quartas e sexta-feiras. durante a regência de D. p. As feiticeiras beijavam-lhe o ânus e. symbolisant leur reniement volontaire de Ia collectivité politique et religieuse et leur responsabilité au plan juridique^'°\ Assim se tornavam bruxas. local também mencionado por Gil Vicente. com um juramento sobre um Hvro negro. e é proibido invocar Deus ou fesus. e elas voltavam para casa. de oHios redondos. *> Faziam-se receitas a partir do líquido dos sapos que servia para untar o " corpo das feiticeiras. e untavam o corpo com u m unguento feito a partir do sangue de crianças. O ritual inicia-se na presença do Diabo na figura de um bode. De acordo com esta confissão. Nicole. o demônio gravava-lhes u m pequeno sapo no corpo em sinal de reconhecimento. textos antigos portugueses. À meia-noite. barba e voz de burro. (pp. matérialisé par une marque corporelle. 13 e ss. mantinham relações sexuais com o Diabo e comiam came de bode. o Diabo insere uma marca com a forma de um pequeno sapo*^^' no corpo ou no dedo mindinho. fica-se a saber que uma mulher começa por ser "feiticeira" e que sô após um pacto com o Diabo se toma "bruxa". às dez da noite. <2°' JACQUES-CHAQUIN. o Demônio apresentava-se muito negro. Feiticeiros. Catarina.. Profetas e Visionários. n^ 19. 301 . p. cinco feiticeiras foram queimadas no Rossio de Lisboa. Em seguida. quelques réflexions sur l'imaginaire démonologique (XV-XVIIe siècles)". um galo negro (o demônio) cantava. Segundo u m outio testemunho. Lisboa. Paris. "Feux Sorciers. tal como é descrito no primeiro testemunho. Terrain. nomeadamente a declaração de uma mulher condenada porque se dizia feiticeira*^^'.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE Imagens do Sabat Em 1559. colocada em grandes mesas negras. Yvonne da Curüia. Conhecem-se vários testemunhos deste processo. E preciso renegar Deus e o baptismo. Ao chegarem a Vale de Cavalinhos. oct. de folhas igualmente negras. 1981. em seguida. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 1992. Num Auto de Fé^de 1610. As mãos eram iguais às patas das aves de rapina e os pés eram semelhantes às patas de um palmípede. que lhes permitia voar para se juntarem às assembléias de feiticeiras. 6.

Paris. maitre à jeter 2) des sorts et à fabriquer des vierges. aucune entremetteuse dans Ia comédie française ne possède Ia grandeur farouche et Ia complexe richesse de Ia Célestine'^\ As Noivas de Satanás Neste leque de feiticeiras. ("' Images littéraires de Ia femme à Ia Renaissance. 323. Paris.A. < * LAZARD. Le Puy en Velay 14-15 septembre 1992. (21' REGO. p. simbolizando a flagelação*^^'. p. cit. p.F. Nesta peça. 93-105. a primeira constituída por uma sessão de feitiçaria e pelo discurso de um monge. Segundo a mesma autora. a partir dos quais certamente Gil Vicente constmiu toda uma galeria de personagens*^^'. 15. 1993. glosando o tema de Virgílio — Omnia Vincit amor. A Celestina condensa os vários tipos Hterários da maga. Centre Culturel du Conseil General de Ia Haute Loire. o tema da feiticeira. colloque Images et conditions de Ia femme au XVlème siècle. 302 . Espasa-Calpe S. ( 3 "£iig avait six métiers. 212. *22' PALLA. "Images et conditions de Ia femme chez Gil Vicente — Vieillesse et jeunesse".U. Madeleine. La Celestina.U.. 1978. La Comédie humaniste au XVIe siècle et ses 2' ' personnages.. à savoir: lavandière. entremetteuse et un peu sorcière: son premier métier était Ia couverture des autres". magas ou bruxas. P. P... passemos ao estudo dos diversos modelos de feiticeiras vicentinas*^'. Colección Austral. da feitiçaria e do sabat.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS feiticeiras usavam mitias e tinham cordas à volta do pescoço. a protagonista da Farsa das Fadas. na qual Gil Vicente evoca. da maneira mais curiosa. op. o papel preponderante é atiibuído a uma mulher de poderes suspeitos e condenáveis. começaremos pela figura de Genebra Pereira. Na segunda parte. 23. Depois desta breve introdução. pp. Maria José.F. obra de data desconhecida. qu'elle permet une filiation directe *^'*'. Madrid. a corte participa num jogo de enigmas e estabelecem-se comparações entie animais e cortesãos. A farsa está dividida em duas partes. p. parfumeuse. Segundo Madeleine Lazard Ia parente de celle-ci (La Celestina) avec les autres entremetteuses italiennes et françaises est cependant sifrappante.

apressa-se a fazer uma demonstiação dos seus dotes e das vantagens da sua arte perante o rei. foi educada na corte.15-24. pois. onde não vejo lugar em que homem queira mijar nem ouço espirrar somente por alguém não se soltar antre a gente. 12-20) Identifica-se em seguida. está desesperada: O vergonhosa de mi como vou abrasiada amara. Giardini Editori. Está envergordiada. de tipo carnavalesco*^^'. Pisa. Solteira. 36-41) ALÇADA. já velha amara sem marido e sem nobreza. idade canônica). 303 (26) . Eu sou Genebra Pereira que moro ali à Pedreira. o celibato confere-lhe mais poderes mágicos (cf. (vv. (vv. (vv. corrida e torvadal Mas pressa me traz aqui. fui criada em gentileza dentro nas tripas do Paço. a sua idade (quarenta anos. 15. Genebra Pereira entra em cena muita agitada. Quaderni Portoghesi. a sua origem nobre. e que. "Charivari. Casta Diva). segundo ela. 33-34) Conhecemos o seu nome. p. estamos em presença de um serão mundano. e por feitiços qu'eu faço dizem que sou feiticeira.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE Segundo João Nuno Alçada. com medo que a prendam. sabemos também da sua castidade. e. João Nuno. tentando justificar o seu papel importante e indispensável na sociedade. rébus e heresia na fala do Diabo picardo do 'Auto das Fadas'". tal como muitas alcoviteiras do teatro humanista francês do século XVI. ruboriza-se. 198288.

ligaduras ou faixas. enquanto que Samaitha trabalha em seu próprio proveito. Durante esta "lição" de magia. durante a qual faz a demonstração dos seus talentos para chamar o demônio. uma "mise-en-abyme". etc. Images littéraires de Ia femme à Ia Renaissance. parece que era possível fazer-se inocentar se se demonstrasse que não se estava a fazer nada contra as leis de Deus. Genebra recorre a todo um arsenal de sortilégios típicos destas cerimônias: o alguidar. Teócrito faz uma espécie de inventário das práticas de magia amorosa da época. pois acredita estar ao serviço da sociedade. poema dramático de 166 versos. 304 . é literalmente um golpe de teatro dentio do próprio teatro. ao mesmo tempo. LAZARD. tenta atraí-lo de novo através dos segredos da sua arte. O Rei. c'est ma principale profession que de subvenir aux pauvres affligés d'amour^^'^. ( 8 Teócrito. *2'' LARIVEY. O rei e os seus seguidores assistem a esta sessão de magia na qualidade de público e. p. descreve nos 2) primeiros 63 versos uma cerimônia de magia amorosa. Esta sessão. "Méduse Ia magicíenne. de iniciados. que corresponde ao forno dos alquimistas. No início do poema descreve os preparativos para a sessão de feitiçaria. local onde se fazem as misturas e poções. assim como a Celestina. a obra começa com Simaitha reclamando os acessórios necessários: louro.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS Genebra pode dizer. p. tal como a Méduse de Fidèle. est Ia seule entremetteuse de Ia comédie humaniste dont on mentionne les pratiques religieuses". um aprendiz das artes mágicas? No Aido das Fadas estamos perante a teatralização de um acto social e a originalidade de Gil Vicente reside no facto de toda a corte assistir à dramatização de uma sessão de feitiçaria*^^'. Prestou auxílio a pessoas da corte e sô deseja praticar o bem. para chamar o sobrenatural e o saco negro onde se guardam os sortilégios. lã vermelha. leva a sua profissão muito a sério. a candeia. Pierre. A diferença entre as duas magas reside no facto de Genebra Pereira trabalhar para bem dos outros. 26. filtros. no Idílio. A maga Simaitha. Tal como no Auto das Fadas. Esta mulher. Fidelle. abandonada pelo seu amante Delphis. Saliente-se que estes dotes de necromante são possíveis porque ela é ajudada por um enforcado que lhe fala ao ouvido. Será que Genebra Pereira vem fazer uma demonstração das suas artes mágicas para que o rei a perdoe? Com efeito. 29. a representação dentro da representação.

1964. Coimbra. A sua única companhia é um talismã muito antigo que usa ao pescoço. Contos populares e lendas. 16. mas sem nunca pronunciar esta palavra. p. Serve-se também de substâncias de animais ou de seres humanos já mortos. 20 305 . p. o número sete e a cor negra. o pão que amassou e até os ratos vêm de sua casa. composto por dois triângulos entielaçados. ( 1 Ygj. que lançam um grito rouco — ligado à palavra e ao discurso — e apreciados pelas suas virtudes proféticas. Apresenta-se como semelhante ao demiurgo. entie outras coisas. rasando as oliveiras*^^': <2" REGO. completamente nua. lugar mítico dos sabats lusitanos*^*" e é também para aí que Genebra Pereira voa. O sabat de Genebra Pereira Genebra Pereira invoca muitas vezes o demônio e refere freqüentemente as suas deslocações ao sabat. VASCONCELOS. por Ordem da Universidade. *^°' Sabe-se que este local se situa em plena Lisboa. As feiticeiras são muitas vezes canibais. o luar. (Esta informação foi-me transmitida por Francisco Bethencourt). Esta feiticeira tem orgulho em afirmar que tudo aquilo em que toca vem de si própria. "fel de morta excomungada". o "sino salmão". Conta que viaja e voa sobre os adros das igrejas. associada aos objectos e aos pássaros — o corvo e a pega — pássaros negros associados muitas vezes à magia. pois ela é fonte de todas as coisas. almas do outro mundo. para ir em socorro das pessoas que sofrem de amor. 405. função simbólica redundante. cit. para condensar a sua força mágica. encontramos uma geografia do sabat em Portugal: uma feiticeira do século XVII*^^' viaja em direcção ao Vale dos Cavalinhos. op. yjj^ refrão de um conto popular português: "vamos por cima da 3) silva/ e por baixo da oHva" (Cf. Colocara este amuleto no interior de um coração de gato negro. pois estamos em presença de duas figuras simbólicas sobrepostas. o que não sucede com Genebra Pereira. Tal como no resto da Europa.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE Evoca. Tudo o que manipula é doméstico. perto da Fonte Luminosa. objecto profiláctico contia o mau olhado. onde actualmente se realizam "meetings" políticos.. o Selo-de-Salomão. José Leite. Verificam-se apenas tiaços de canibalismo ao nível das vísceras.

Draguinho. a parteira está intimamente ligada ao feto e ao sangue menstrual do parto. (vv. p. não encontramos a palavra "bruxa" em Gil Vicente. op. 76-79 ) Se bem que Genebra Pereira obedeça a todas as característica da "bruxa". pp. a qual convocará quatio diabos*^^'. 6. das suas mentiras e enganos e os sortilégios deixam de funcionar*^^'. 306 . vol. No Sul de (32) Ygj. Segimdo Claude Gaignebet. "Le Diable et V Enfer dans Toeuvre théâtrale de Gil Vicente". manda chamar uma feiticeira. Caroto e Legião. La méthode philologique. 15-24. acima citado.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS Cavalgo no meu cabrão e vou-me a Vai de Cavalinhos e ando quebrando osfocinhos por aquelas oliveiras. pois voa no seu "cabrão" para se deslocar ao sabat. *3'" JACQUES-CHAQUIN. pp. onde é dito. Num determinado momento da peça. que são bruxas. cit. ver o artigo de Luciana Stegagno Picchio. Esta parteira não trabalha com o demônio.. cita a Bíbha. A parteira bendicidera A parteira-bendicidera é um oufro tipo de personagem de outia peça. Sobre o diabo vicentino. Em seguida. a propósito das parteiras. Esta auxilia Rubena a dar à luz. a Comédia de Rubena. Esta figura situa-se no topo da hierarquia das bruxas visto que comunica directamente com Satanás e é sua serva na terra. Paris. ela toma-se vítima do seu próprio poder. mas quando se dá conta que não consegue continuar a ajudá-la porque o parto se complica (note-se que o recém-nascido é filho de um frade. certamente proveniente do teatio medieval francês. Esta é benéfica*^'. Centro Cultural Português. o diabo deixa de lhe obedecer. Q notável artigo de João Nuno ALÇADA. os dons sobrenaturais de Genebra Pereira enfraquecem e. cada um com características especiais. conhece as virtudes das poções e das plantas. n. Este Diabo necromante fará entrar em cena dois frades infernais. a partir daí. Não encontiamos neste personagem vestígios do que se pode ler no Marteau des Sorciers (1486). 137-164. portanto filho da transgressão). (33) piutão. invoca o Diabo e utiliza cadáveres humanos. 1982. surge um Diabo picardo.

A alcoviteira é especialista em questões amorosas. já citado. mas recebem recompensas. evitam-se os malefícios. A alcoviteira desempenha uma função um pouco mais moderada que a feiticeira.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE França. como se viu. embora ambas pratiquem o ofício de unir casais. é uma fada-feiticeira da qual não se sabe o nome. As Alcoviteiras Podemos associar à feiticeira uma outra personagem. (vv. que foneticamente nos faz lembrar "a gata". Têm o dom da palavra. os homens e as mulheres. ocupa-se de diversos assuntos. e confecciona poções mágicas no seu alguidar. Em princípio estas mulheres não agem por dinheiro. o lume-de-cera. Dominam a arte de bem mentir. Há uma hierarquia muito marcada entre estas mulheres que praticam actos do domínio do sobrenatural. A feiticeira vai mais longe nas suas relações com o sobrenatural. Santa Ágata é a padroeira das parteiras e das feiticeiras — Santa Ágata. chamadas para esta ocasião. persuadindo com evocações e ladainhas. 309-310) A feiticeira desta peça. sobretudo no domínio do amor. são celibatárias e tentam ajudar os outros nos domínios em que elas mesmas fracassaram. já foi castigada com açoites. objecto que também aparece noutras peças. sobre ^' O "fogos mágicos". da sua miséria e das dificuldades da profissão. Diz-se que. Ela mantém o fogo característico*^^'. Será por isso que a parteira vicentina urina antes de chamar a feiticeira? Dizei-lhe uma Ave Maria em quanto eu vou mijar. a alcoviteira. Ambas desempenham papéis de intermediárias e de mediadoras a vários níveis: entre o céu e a terra. Tal como as outras. convocada pela parteira. é a boa fada. cujo destino abençoa através de três fadas verdadeiras. S 307 . * ^ Recordo o interessante artigo de Nicole Jacques-Chaquin. a madrinha de Cismena. queixam-se muitas vezes da sua sorte. e sempre ligado à feitiçaria. o real e o sobrenatural. cobrindo de urina as relíquias desta santa. Estas mulheres não têm vida própria nem família.

ICALPE. Assim. Está acompanhada por outros pecadores: um frade. Maria José. na qual Brízida. um fidalgo. sapatos novos*^'^. sinal da sua profissão. farsa sobre o amor de um velho por uma rapariga (tema recorrente nos quadros de Dürer. Encontia-se de preferência nas encruzilhadas e consegue fazer com que as mulheres voltem a ser virgens ("vfrgos postiços"). aguarda o Julgamento Final. o equivalente do saco ou caldeirão. Branca Gil será condenada. várias pessoas mortas aguardam a viagem para o Céu ou para o Inferno. ou seja para ter uma "nova pele": uma combinação de seda. serve de intermediária entie eles. peça rehgiosa influenciada pela Nave dos Loucos. Maria José. etc. pede dinheiro ao velho para comprar roupas novas. 308 . pp. Foi flagelada e tem de ir para o Inferno como todas as oufras. de Sebastian Brandt. será flagelada e talvez queimada. já morta. * ^ Sobre o vestuário das personagens vicentinas ver PALLA. uma touca. Sünula a respeitabiHdade. PALLA. levará a mifra. Os sapatos que usa estão gastos. Entre elas encontra-se Brízida Vaz. aparece no Velho da Horta. Editorial Estampa. Traz consigo a mala dos sortilégios. No fim da peça. Tem de entrar ou na barca do Diabo ou na barca do Anjo. Branca Gil. Desejando mudar de estatuto. "sapatas rompidas". como vimos. Temas Vicentinos. faz o elogio do velho e tranquiliza-o acerca da sua capacidade de sedução. condenada. os jardins de amor). uma saia. Na Barca do Inferno. aludindo freqüentemente ao "vai-e-vem" da sua profissão. um judeu usurário. só o Parvo vai para o Céu*^^'. Branca Gil que já foi punida pela lei. e pelas danças macabras. Lucas Cranach e Hans Baldung Grien). uma jóia com um rubi. arranjou amantes a eclesiásticos e praticou abortos como a Medusa do teatio francês. um sapateiro. outra alcoviteira. 1992. A peça decorre num jardim. "O Parvo e o mundo às avessas — algumas reflexões". Brízida queixa-se muito de ter os sapatos gastos. local onde o par se encontra (Cf. Lisboa. Nesta obra. acaba por arruinar o velho. Actas do colóquio em tomo de Gil Vicente. 87-101. *^^' Cf.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS Brízida Vaz é a alcoviteira-feiticeira do Auto da Barca do Inferno (1517). Do ^ Essencial e do Supérfluo. Notemos a originalidade desta cena. Traz consigo uma "cestinha". 1992.

. Segundo Francisco Bethencourt "a palavra. A certo momento da peça. os efeitos desejajjQg"(38) ^ Beata é a personagem que mais se serve da retórica e da erudição. Albin Michel. uma verruga e uma meia-lua de pelos no seio direito. A palavra desempenha um papel crucial nas artes mágicas. tais como a mezzana e a pinzochera do teatio itahano. Cahiers de l'Hermetisme. A importância do discurso O discurso é primordial nestas mulheres que têm que dominar a arte da retórica para persuadir. aludindo a romances de ca\alaria muito em moda na época: "Ler-vos-hei Carcel d'Amor / e Peregrino Amador" (w. encarnando o espírito de um morto chamado Pedranes (palavra que corresponde a Pedro João). 907). Cezília advinha o futuro de um jovem: casar-se-à com uma mulher que tem a perna esquerda torcida. apresenta-se disfarçada com um hábito de religiosa — "o hábito m'o dá" (v.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE A Beata A peça Comédia de Rubena apresenta outras personagens que mantêm ligações com o sobrenatural. 309 . aHás. adquire uma capacidade autônoma de provocar. "como vende mesturadas".. da peça Clérigo da Beira (1529-30?). Actes du coHoque tenu à Bordeaux. pp. Paris. por si própria. 961-2). três características das feiticeiras. o dom da adivinhação e a capacidade de encontiar objectos perdidos. Chamam-lhe o demônio: "esta é o demônio". Deseja que Cismena tenha um amante e tenta persuadi-la de uma forma muito subtil e erudita — "pois falei-lhe tão sutil. em Lisboa. ou seja. tem os poderes de um médium. Sabe-se da existência. irmã da Raffaela de PicColommi. 56-65. de uma mulher com o mesmo nome e os mesmos dons.". na época de Gil Vicente. a Beata. Está "demoninhada".. Uma delas.. constitui ainda outio tipo de personagem ligada ao sobrenatural.. um dos requisitos da sua "profissão" é persuadir. Esta beata dissimulada também prepara filtros de amor e poções estianhas. (^*' Magie et littérature. possuída pelo demônio.. Um caso singular Cezília.

Paris. Esta língua é comum às velhas. citado por Isaías e Belial. a Beata. feiticeiras e curandeiras. alcoviteiras regateiras. de origem judaica. Como se sabe. matronas.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS Estas magas fazem parte de um conjunto de muHieres a que Paul Teyssier chama as commères (comadres). 1959. Os nomes de origem celta provêm certamente do Ciclo do Rei Artur... referido pelo próprio Cristo. no seio da corte portuguesa. Durante a Idade Média. Genebra. Nomes de feiticeiras vicentinas e sua simbologia Podemos identificar diversas origens nos nomes destas magas: de origem celta. empregam um d intervocálico na segunda pessoa do plural ("olhade" em vez de "olhai" e "fazede" em vez de "fazei"). o de CeziHa. os relatos de aventuras e cavalaria eram muito difundidos pelos trovadores durante os *^'' La langue de Gil Vicente. para não se trair. Encontramos "Satanás" no Antigo Testamento: é o chefe supremo. O fel aparece muitas vezes. vem depois Leviathan. Filtros e demônios vicentinos Gil Vicente refere em várias obras diversas receitas para confeccionar filtros de amor e de morte. Pereira Dias**"'. conhece bem as plantas e as drogas com efeitos curativos. não emprega nenhuma destas formas. assim com a fressura de sapo. *''°' Há também dois alcoviteiros judeus: Vidal e Latão. suspeitava-se que os judeus também praticassem feitiçaria. Falam portanto uma língua arcaica. Librairie Klincksiek. forma verbal que desapareceu do português Hterário na primeira metade do século XV. Brásia da Farsa dos Físicos. personagens que têm uma língua específica*^^'. será porque pertencem a um mundo do passado e a um saber mais antigo? Curiosamente. foi buscá-lo à realidade. As feiticeiras invocam o demônio e a cada demônio corresponde um nome. 310 . 182 ss. O Novo Testamento acrescentará Belzebu ou Belzebuth. pp. por exemplo. a alcoviteira clandestina.

evoca o pior. Dinis e outros poetas aludem muitas vezes a personagens literárias: Tristão e Isolda. é uma descendente de Guenièvre. o ciclo da Demanda do Santo Graal (e certamente outias obras) são traduzidas do francês. 1986. No imaginário popular português. é igualmente curioso. O nome de Brásia Caiada. Genebra Pereira tem um duplo nome diabólico: Genebra. *' Contribidções para um mitologia popular portuguesa. um tom menos feliz em comparação com albus. do gato. diz-se que as feiticeiras se vestem de branco**^'. Eram obras muito apreciadas. igualmente ligado ao branco. esta obra continuou a ser difundida. o da Virgem (luz-luminusidade). O primeiro nome vem de Brás. Complutense. associado ao Diabo. o branco da luz. por consonância. aquela que vai ao sabat. O branco contrasta com o negro. foi a partir da versão portuguesa que se realizou a tradução casteUiana. "De Martha à Marta ou les mutatíons d'une identité transculturelle" Culturas Populars. (42) Ver o artigo de François Delpêche. A sua forma também lembra as chamas do Inferno. e Pereira de "pêra". se bem que não original. Brásia está Hgada ao fogo-brasa. Será que podemos concluir que Branca Gil pratica a feitiçaria branca. 311 . outra alcoviteira. alvo. O apehdo Caiada significa branqueada com cal. a mulher do rei Artur. "As bruxas na tradição do nosso povo". sobretudo por razões religiosas e morais. Madrid. dado que ela não evoca demônios? O branco é a cor da alma dos mortos e as fadas são denominadas Damas brancas. A palavra "pêra" vem do latim popular pira. Lisboa. Consiglieri. "a mulher má". Merlim. Do século XIII ao século XVI. mas finalmente salva por ele. Publicações Dom Quixote. que. Assim. do sapato. O rei D. < ^ PEDROSO. Univ. O Ciclo do Graal é um dos textos portugueses mais antigos. No fim do século XIII. de tom pálido. que deriva do latim clássico pirum. Genebra Pereira. O nome Branca Gil remete para a gama dos brancos. o patrão dos demônios. Muitos desses relatos foram depois passados à prosa. pp.FIGURAS LITERÁRIAS DE MAGAS E IMAGENS DO SABAT NA OBRA DE GIL VICENTE serões no paço. a única feiticeira genuína. de Guenièvre. p. com o qual as feiticeiras praticam as artes mágicas (cor do saco. 55-92. O apelido Gil lembra-nos também Gillot. Brancaflor. Trata-se de uma prosa destinada a ser recitada e não Hda. a que engana Lancelot e que será queimada. Marta*''^' do Rego e Branca Denisa são outras duas comadres-alco viteiras. do corvo). Temos portanto uma oposição entre os dois nomes (Brasa Branco). 1988. 106.

que encantava a corte com as suas personagens de feiticeiras. não seria ao mesmo tempo o bobo e o feiticeiro do rei. Gil Vicente se inspirou numa personagem que sabemos ter vivido realmente em Lisboa nessa época. Talvez nos possamos interrogar se Gil Vicente. Na obra do nosso autor cruzam-se ritos e lendas. num caso.. a brancura evocada pelos seus nomes é posta em oposição com as suas actividades tenebrosas. Note-se também que. Por exemplo.. estamos portanto no cruzamento de uma cultura popular com uma cultura de elite. bem como traços de uma literatura de origem erudita. Observe-se que o nome das feiticeiras funciona por antítese ou por associação com as suas práticas. 312 . A imagem que ele nos dá corresponde à imagem literária que encontramos por toda a Europa e que está ligada ao Carnaval e a um mundo invertido. o que nos pode sugerir que tenha seguido a mesma via em relação a outras personagens. a influência de uma literatura de transmissão oral.REVISTA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS Conclusão Gil Vicente foi o primeiro autor português a infroduzir feiticeiras na literatura.