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Relatório parcial do 1º Simpósio de pós-graduados e lideranças da Aty guasu Guarani e Kaiowá-MS;

Começou na quinta-feira (20/09/2012) o I Simpósio de Pós-Graduandos, Pesquisadores, Lideranças Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul, na Terra Indígena (TI) ArroioKorá, em Paranhos (MS), fronteira com o Paraguai. Encerrou-se no domingo (23/09/2012).

O I simpósio foi organizado por membros da Aty Guasu (grande assembleia do povo Guarani Kaiowá) juntamente com pós-graduandos/pesquisadores, com o objetivo de relatar as violências praticadas contra os indígenas nos processos de reocupação e recuperação de seus territórios tradicionais (tekoha guasu). O I simpósio de pós-graduando e Aty Guasu foram apoiados inclusivamente pelas lideranças da Aty Guasu, pesquisadores e comunidades Guarani e Kaiowá de Arroio Kora. Assim, evidentemente não recebeu nenhum apoio externo das instituições governamentais e nem das ONGs.

As relações dos pesquisadores externos inscritos no I simpósio: foram inscritos quatros (04) pesquisadores vinculados às três universidades federais, sendo três pesquisadores da UFMG e uma pesquisadora da UFAM, 03 funcionários da SESAI/Campo GrandeMS, sendo uma antropóloga, uma assistente social. Um (01) advogado/indigenista autônomo participou também do evento. As relações dos visitantes não indígenas que visitaram e observaram brevemente o 1º Simpósio e Aty Guasu e retornaram de modo rápido, visitaram 2 funcionários públicos federais não inscrito: 01 agente da FUNAI, 01 chefe de Pólo/SESAI/Paranhos-MS. Além disso, de forma igual, 1 padre/frei e uma acompanhante visitaram brevemente o

Simpósio. Essas 5 pessoas mencionadas meramente chegaram ao local, se apresentaram e retornaram. As relações dos palestrantes/depoentes/representantes Guarani e Kaiowá de territórios tekoha guasu em conflitos em que sofreram e ainda sofrem as violências variadas e ataque a tiro: Ñu porã - Dourados, Guyra Kambiy e Panambi-Douradina, Guaiviry-Aral Moreira, Kurusu Amba-Coronel Sapucaia, Ka’a Jari, Samakuã-Amambai, Pyelito kue e Mbarakay-Iguatemi, Sombrerito-Sete Queda, Ypo’i e Potrero Guasu-Paranhos, Jaguapiré e Sassoró -Tacuru-MS, Limão Verde-Amambai entre outros.

Registramos que neste 1º Simpósio, estiveram 85 lideranças/representantes de territórios em conflito do Sul de MS. Somando com os integrantes da comunidade de Arroio Kora, no total foram 650 indígenas Guarani e Kaiowá que participaram efetivamente do 1º Simpósio/Aty Guasu. A equipe da coordenação recebeu dezenas ligações telefônica das lideranças de territórios em conflito localizados em diversos municípios do Cone Sul de MS, comunicando que infelizmente, cada liderança indígena se virou, mas não conseguiu o carona e meio de transporte, etc., para participarem do 1º Simpósio. Durante os três dias a equipe da coordenação recebeu a ligação dessas lideranças da Aty Guasu, perguntando de ataque a tiros frequente sobre reunião e querendo saber como se encontravam o clima tenso no Arroio Kora. Assim, essas ligações telefônicas demonstraram a preocupação com as comunidades, lideranças e estudantes que se encontravam no 1º Simpósio Guarani e Kaiowá em Arroio Kora. Constatamos que essas comunidades Guarani e Kaiowá e seus territórios antigos reivindicados relacionados acima pertencem às duas coordenações da FUNAI, CRDourados-MS e CR-FUNAI-Ponta Porã. De modo similar, esses territórios em conflito destacados são pertencentes aos dois MPF/MS. Uma parte pertence à jurisdição de MPF/Ponta Porã, outra parcela dos territórios em conflito pertence ao MPF/Dourados/MS. Equipe da relatoria: foram dois pós-graduados, 01 pós-graduado pela UFGD, 1 pósgraduado pela UFRJ, 2 dois graduando pela UFGD, auxiliados por 3 assistente indígenas de pesquisa em Educação Indígena e Ciências Social, etc. Em relação à equipe de segurança e proteção da reunião, foi solicitada a segurança policial à coordenação, presidente da FUNAI e autoridades da Presidência da República

de Brasília-DF, mas não compareceu a segurança policial no local, diante disso, os mais ou menos de 90 membros indígenas (homens e mulheres Guarani e Kaiowá) permaneceram vigiando o entorno do 1º Simpósio, portanto o arco, flecha e pedaço de pau.

O presente relatório da equipe da coordenação do 1º Simpósio/Aty Guasu pretende apresentar os resumos de depoimentos das lideranças e, sobretudo os encaminhamentos, destacando as reivindicações e decisões definitivas das lideranças de territórios tradicionais em conflito. Como ficará claro nos itens subsequentes.

Inicialmente, pretendemos destacar que, durante os três (03) dias, os participantes (pesquisadores indígenas e não indígenas) do 1º Simpósio de pós-graduados e Aty Guasu ouviram vários barulhos de disparos de armas de fogo, vindo da fazenda Porto Domingos do senhor Luiz Bezerra. Os tiros foram lançados pelos pistoleiros/funcionários das fazendas cada três (03) em três (03) horas consecutivamente. Assim, todas as vezes que se ouviam os barulhos de tiros, o palestrante do Simpósio parava e os participantes e comunidades indígenas se dispersavam por 20 minutos e logo depois retornavam e continuavam o s depoimentos e narrações.

De fato, este 1º Simpósio mencionado começou-se à noite, no dia 20/09/2012, em território Indígena Arroio Kora, no momento em que de longe se ouviam os sons de instrumentos de ritual religiosos (maraká e takua) associados à reza/canto Guarani e Kaiowá e ao mesmo tempo, pertinho dali, cada duas e três horas, se escutava também os barulhos de tiros de armas de fogo. Domingo (23/09/2012) às 09h00min quando se encerrou o 1º Simpósio com ritual de proteção foram ouvidos mais de dez (10) tiros de armas de fogo sobre indígenas de Arroio Kora. Importa ressaltar que apesar de centenas tiros lançados sobre o local de 1º Simpósio, o objetivo central de 1º simpósio indígena proposto foi alcançado. Visto que a maioria das vítimas de violências praticadas pelos fazendeiros de Cone Sul/fronteira com o Paraguai prestaram depoimentos e narraram em detalhes no seio do 1º Simpósio/Aty Guasu e enfim as lideranças elaboraram um prazo para os fazendeiros a saírem das terras indígenas, uma vez que depois do prazo vencido a decisão definitiva é de reocupar todos os territórios já homologados pelo Governo Federal/Presidente da República. Os vários depoimentos relatados dos indígenas idosos (as) evidenciam que todas as comunidades Guarani e Kaiowá que decidiram a recuperar os seus territórios tradicionais sofreram e sofrem ainda as diversas violências de forma similares, mencionamos a seguir. Em geral: 1ª- as violências praticadas contra vida das comunidades Guarani e Kaiowá que retornam ao seu território é a ameaça de morte coletivo/genocídio associado ao ataque a tiros dos pistoleiros, queima de casas e pertences, prática de tortura, espancamento, assassinatos e ocultação de cadáver das lideranças entre outros.

Em geral: 2ª- as violências praticadas contra a vida dos Guarani e Kaiowá espancados e torturados são abandonos pelos autores, mandantes e, sobretudo pelos Governos e Justiças. Estes dezenas indígenas Guarani e Kaiowá que foram agredidos, espancados e torturados ficaram doentes e inválidos totalmente em decorrência de violências sofridas. A maioria das vítimas de violências e não recebem nenhum tipo de assistências médicas especializadas e adequadas. Em geral: 3ª- Uma das violências praticadas contra a vida dos guarani e Kaiowá é não mais utilização dos recursos naturais existentes nos seus territórios tradicionais, isto é, há acesso proibido aos fontes de recursos naturais, tais como: rios, córregos, matas, campo e cerrados entre outros. Os indígenas não podem mais pescar, nem caçar e nem fazer coleta de frutas e plantas medicinais, etc. Em geral: 4ª- Relativo à posse dos territórios tradicionais homologados e usufrutos exclusivos dos recursos naturais pelos indígenas fica evidente que os vários territórios antigos já foram identificados, demarcados e homologados pelo presidente da Republica do Brasil, há anos e décadas, porém os fazendeiros continuam utilizando normal, mas os indígenas não podem usufruir os recursos existentes nos territórios indígenas declarados como território indígena. Esta realidade é uma das graves violências constatadas que atingem e assassinam diretamente a vida de todos os Guarani e Kaiowá. Importa destacar que durante os três dias de nossos 1º Simpósio indígenas, os pósgraduandos indígenas, em algum momento, traduziram vários documentos oficiais escritos, tais como: relatórios, inquéritos policiais investigativos instaurados, decretos, portarias, legislações, atas, cartas, discursos e manifestações das autoridades federais diversas. Além disso, no que diz respeito à divulgação de conflito fundiário na mídia foram traduzidos e socializados os textos jornalísticos local, estadual, nacional e internacional, etc. Encaminhamentos e reivindicações Em resumo, diante dessas violências históricas e genocídios evidentes constatados, 1º pedimos indenização de reparação com urgência. Assim, decidimos cobrar em dinheiros aos fazendeiros que ocupam e utilizam ainda os nossos territórios tradicionais declarados e homologados pelo ministro da Justiça e Presidente da República. Além disso, estamos planejando um prazo curto, isto é, menos de um (01) anos para os fazendeiros desocuparem os nossos territórios já homologados pelo Presidente da República. É muito claro que esses territórios já são nossos novamente, por isso já decidimos e vamos reocupar os nossos territórios após os esgotamentos dos prazos. Nós como povos Guarani e Kaiowá nativo/autóctones/originários desses territórios que não viemos de outros lugares distantes, somos daqui mesmos, e hoje vemo-nos no caminho de extinção/dizimação física e culturais por conta de não devolução de nossos territórios tradiconais. De fato estamos sendo ameaçado de extinção todos os dias. Cada dia está sendo ameaçado e morto um indígena de modo cruel, humilhados, ignorados e atacado a tiros, como não fossemos seres humanos desse planeta, por exemplo: que ocorreu durante o 1º Simpósio mencionado, a nossa Aty Guasu não foi protegido pelas instituições do Governo Federal e, por isso fomos atacado e intimidado a tiros, nenhuma autoridade federal competente não compareceu ao local de 1º Simpósio. Desse modo, sentimos que fomos enganados, desrespeitados, ignorados e humilhados como indígenas

e, sobretudo como seres humanos. Em decorrência disso, estamos profundamente indignados com os modos que fomos tratados pelos agentes do Governo Federal e Justiça Brasileira. Não acreditamos nos termos de que nós Guarani e Kaiowá estariam sendo priorizados pelo Governo Federal e Justiça. Um pesquisador indígena disse: “O termo/verbo priorizar Guarani e Kaiowá não confere em forma de atuar dos agentes locais das instituições do Governo Federal”. A FUNAI é uma das instituições do Governo Federal que deveria ser mais transparentes e dialógicas com as lideranças Guarani e Kaiowá. Um dos exemplos, as lideranças Guarani e Kaiowá não têm acessos aos orçamentos da FUNAI local, etc. Tal de CTL/FUNAI nunca funciona, no papel existe, mas na prática não funciona. Um dos agentes da FUNAI local foi envolvido no assassinato do líder Nisio Gomes em Guaiviry. Um ano atrás cesta de alimento vencido foi distribuída pela coordenadora CR-FUNAI Dourados-MS, frente a esses fatos graves não foram explicados para lideranças da Aty Guasu que providências foram tomadas pelo presidente da FUNAI e Governo Federal Assim, sobre a atuação da FUNAI local foi constatado que há várias dúvidas nos modos de discursar e praticar as promoções de direitos indígenas, etc. Assim, observamos que tanto pelos fazendeiros quanto pelos poderes do Brasil e da Justiça estamos sendo tratados ainda como não seres humanos. Nas nossas visões, essa é a verdade constatada por nós nesse contexto atual em territórios em conflito do sul de Mato Grosso do Sul. Frente aos fatos narrados, já sabemos e sentimos claramente que sem esses nossos territórios antigos nós estamos no caminho de extinção/dizimação bem como sem atuação séria e boa vontade de coordenadores e servidores da FUNAI locais não serão efetivados os nossos direitos básicos. Assim, neste 1º Simpósio citado, concluímos em parte que nós Guarani e Kaiowá somos também um dos povos nativos do Planeta/Mundo que estamos em abandonos e no processo sistemático de extinção/dizimação. Concluímos que os nossos territórios já se encontram detonados/devastados e em processo avanço de extinção. Essa constatação de extinção física e cultural do povo Guarani e Kaiowá foi apresentada tanto pelas lideranças religiosas da Aty Guasu como pelos pesquisadores Guarani e Kaiowá. Isso é a nossa justificativa para exigir a atuação séria e real dos agentes da FUNAI locais, mesmo que tenha recursos limitados e insuficientes para atender a todas as nossas demandas indígenas. Além disso, solicitamos uma política de indenização/reparação, com urgência, pelo Governo e Justiça Federal e demandamos a devolução imediata de nossos territórios tradicionais pelos fazendeiros, isto é, os fazendeiros que ocupam os nossos territórios reconhecidos e já homologados tem que retirar os seus bens e as suas fontes de riquezas dos nossos territórios tradicionais de modo imediatas. Essa é nossa decisão definitiva imutável e inegociável. Atenciosamente, Tekoha Guasu Arroio Kora, 23 de setembro de 2012 Comunidade Guarani e Kaiowá de Arroio Kora-Paranhos-MS Pós-Graduados e pesquisadores Guarani e Kaiowá-MS. Lideranças da Aty guasu Guarani e Kaiowá-MS