You are on page 1of 7

MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão

Exmo Sr. Juiz Federal da Vara da Seção Judiciária do Estado do Maranhão

Ref: PA/PR/MA 1.19.000739/2003-45

O Ministério Público Federal, pela Procuradora da República signatária, vem à presença de V. Exa., nos termos do art. 129, III, da Constituição da República, art. 6º, inciso VII, alínea “b”, da Lei Complementar nº 75/93 e arts. 1º, inciso III c/c 5º da Lei nº 7.347/85 , propor a presente

AÇÃO CIVIL PÚBLICA

em face da FUNDAÇÃO JOSÉ SARNEY, pessoa jurídica de direito privado, com sede nesta cidade, na Rua Giz nº461, Qda. 138, Centro, pelos motivos de fato e de direito a seguir expostos:

MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão I DOS FATOS Em 15 de julho de 2002. Em data anterior. in verbis: “O imóvel em questão. na fachada os dois vãos de janela rasgada ao lado direito haviam sido transformados em um único vão. fechado com porta metálica de enrolar. encontra-se em área tombada pelo Governo Federal. inscrição nº 64 no Livro do Tombo Arqueológico. originalmente uma morada inteira.) Em vistoria realizada ao imóvel no dia 14/97/99. Centro. 04/05) da qual destacamos as seguintes ponderações. As obras foram paralisadas e foi solicitado encaminhamento de projeto constatando o uso a ser . porém não foram executados (processo nº 01494. de acordo com o decreto-lei nº 25 de 30/11/37 é parte integrante do Centro Histórico inscrito na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Qda.000088/99-21. (. ainda. Rua do Giz. segundo processo nº454-T-57. foi verificada a realização de obras sem a prévia autorização desta Superintendência Regional. nº 461.. aprovada por esta 3ª SR/IPHAN. Este possuía paredes internas rebocadas e pintadas com tintas à base d’agua. Etnográfico e Paisagístico e nº 513 no Livro do Tombo de Belas Artes e.. O referido embargo se baseou na Informação Técnica nº 166/2002-DT/3ºSR/IPHAN (fls. a 3ª Superintendência do IPHAN comunicou a Procuradoria da República do Estado do Maranhão que procedeu a um embargo extrajudicial no imóvel situado nesta cidade. mais precisamente em 07/04/99 foram solicitados serviços de recomposição da fachada.) Conforme vistoria técnica realizada em 14/09/98 foi constatado que o imóvel possuía ocupação do pátio por edícula térrea. 138. solta do imóvel original. em razão da realização de obras de reforma sem a devida aprovação do projeto pelo Instituto.

06/09.37. No entulho depositado em terreno baldio localizado na Rua do Giz. após denúncia de terceiros. até a altura de 1. trata-se de situação fática diversa (outra causa de pedir).80 metro.MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão dado a cada ambiente. além da utilização de forro PVC e o mais agravante. distribuída à 6ª Vara Federal da Seção Judiciária do Maranhão. encontramos vários pedaços de azulejos portugueses (inclusive uma peça quase inteira). não foi aprovado. Observamos ainda que a maioria das paredes internas foram revestidas com cerâmica esmaltada (30x30 cm). tendo sido a obra concluída a revelia do Instituto (fls. Corroborando a tese de que alterações substanciais foram realizadas no imóvel. sob o nº 1998. 461. Foi solicitado ainda a recuperação do nível original do piso e a retirada da laje da lateral direita do imóvel. construção em dois pavimentos no pátio interno (área livre). Em 03/07/2002. vez que. Curial destacar que já foi proposta pelo Ministério Público Federal ação civil pública. porém. esquina com a Jacinto Maia.” Original sem grifo. proveniente da fachada do citado prédio. Em 20 de novembro de 2003. no que concerne . a Superintendência do IPHAN confirmou que o projeto de reforma do imóvel situado na Rua do Giz. 17). 30). onde são demonstradas a situação do imóvel antes e após a reforma. Em 31 de maio de 2004. tendo como objeto o imóvel em questão. tendo sido adquirido em 18 de novembro de 2001 (fls. onde verificamos mais uma vez a realização de obras no imóvel em questão sem a prévia aprovação do projeto pela 3ª SR/IPHAN. de forma a se ajustar o programa à recuperação do imóvel.002948-0. realizamos vistoria técnica. pode-se observar fotografias às fls. a 3ª SR do IPHAN informou que o imóvel em questão é de propriedade da Fundação José Sarney. desde o alinhamento do lote até a varanda.

dentre outros. aplicável ao caso por força do art. de 20 de maio de 1993. artístico e paisagístico. situando-se entre aqueles denominados interesses difusos. III. a titularidade do Ministério Público da União para instaurar o inquérito civil e propor ação civil pública em defesa. do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos. Cacilda Sales Serejo). 21 da Lei nº 7. segundo processo nº454-T-57.347/85. inciso “b”. no art. III. . turístico e paisagístico. 1º. previstos no art. histórico. Não fosse o bastante. Semelhante disposição encontra-se no art. pois se trata do patrimônio histórico. tem-se ainda que a tutela ajuizada se volta para a salvaguarda de direitos não fracionáveis interpessoalmente e titularizados por toda a coletividade. Por sua vez. da Lei 7. inciso I. no seu art. para proteção do patrimônio público e social. 129. 81. dos bens e direitos de valor artístico.078/90. competência para promover o inquérito civil e a ação civil pública. III DA RESPONSABILIDADE DO PROPRIETÁRIO DA COISA TOMBADA O imóvel em questão encontra-se em área tombada pelo Governo Federal. da Lei nº 8. detalha a Lei Complementar nº 75.347/85. inscrição nº 64 no Livro do Tombo Arqueológico. II DA LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL A Constituição da República confere ao Ministério Público. 60.MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão aos fatos elencados naquela ação civil pública o imóvel ainda não era de propriedade da ré (pólo passivo diferente – Sra.

in verbis: “Art. nem. ser destruídas. pintadas ou restauradas. em nome de interesses pessoais.1 Diante de tais circunstâncias. sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. de modo que a alteração pretendida não o descaractize. portanto. somente lhe é permitido reparar. artística. As coisas tombadas não poderão. portanto. Destarte. pinturas ou restaurações no bem. Assim. 621. preservando a memória nacional. pp. 10ª ed. Manual de Direito Administrativo. sob pena da multa de cinqüenta por cento do dano causado. Será.” Grifo nosso. cumpre transcrever os ensinamentos de SONIA RABELLO DE CASTRO2: “A mutilação do bem tombado deve ser compreendida junto com o disposto no final do art. 2 O Estado na Preservação de Bens Culturais. demolidas ou mutiladas. 118 e 119. em cada caso.MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão Etnográfico e Paisagístico e nº 513 no Livro do Tombo de Belas Artes. que determina a audiência do órgão competente para autorizar reparos. ser reparadas. Rio de Janeiro: Renovar. 17 do Decreto-Lei nº 25/37. 17. artístico e cultural brasileiro. o Poder Público impõe certas restrições quanto ao uso da coisa tombada pelo proprietário. científica. pintar ou restaurar o bem tombado mediante prévia aprovação do órgão competente. cultural. Caberá. Neste sentido. 2003. Cumpre destacar que o tombamento é uma forma de intervenção na propriedade pela qual o Poder Público procura proteger o patrimônio histórico. o que poderá ser feito no bem tombado. turística e paisagística. 17. conforme dispõe o art. 1991. o proprietário não pode. 1 .. mutilando-o. sendo parte integrante do Centro Histórico inscrito na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. p. em nenhum caso. o JOSÉ DOS SANTOS CARVALHO FILHO. alterar as características de seus bens se estes traduzem interesse público por atrelados a fatores de ordem histórica. Rio de Janeiro: Lumen Juris. ao órgão ao qual a lei conferiu o poder de polícia específico determinar.

do Dec. Com efeito. requer o Ministério Público Federal: a) b) a citação da ré para. bem como a condenação do réu em face dos danos que provocou. aquele que viola esta determinação estará cometendo infração à norma legal. dentro dos seus limites de seu poder discricionário. posteriormente. Tal conduta enseja a obrigação de promover a restauração do imóvel. devendo ser observadas as disposições legais que impõe limitações ao exercício do direito de propriedade.347/85. . ou não. contestar a ação. não remanesce qualquer dúvida quanto ao dever do proprietário no que tange a reparação dos danos causados ao imóvel em questão. sob pena de revelia. pode-se afirmar que a vontade do proprietário não é absoluta. Assim sendo. a ser considerada admissível. art.” Original sem grifo. nos termos do art. sem qualquer amparo legal.406/2002) IV DO PEDIDO Ante o exposto. multilação ao bem tombado. sendo realizadas a revelia do IPHAN. 186 e 187 do Novo Código Civil (Lei nº 10. querendo. Se existe a proibição de alterar o bem tombado sem a autorização da autoridade competente. seja determinado à requerida que se abstenha de realizar qualquer obra no imóvel sem a autorização do IPHAN. As obras descaracterizaram o bem tombado.-Lei nº 25 e arts.MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão órgão do patrimônio que determinará o que será. 3º da Lei nº 7. ainda que sua alteração venha. sob pena de responsabilização pelos atos praticados.

Atribui-se à causa o valor de R$ 100. a notificação do IPHAN. Rua do Giz. Termos. 13 da Lei 7. 13 da Lei 7. 02 de junho de 2004. São Luís.MI NIS TÉR IO PÚ BLIC O F ED ERA L Procuradoria da República no Estado do Maranhão c) d) e) seja imposta a ré multa diária pelo não cumprimento do comando judicial. condenação da ré ao pagamento de indenização em dinheiro pelos danos causados. nos termos do art. proceda a obra de restauração dos elementos alterados no imóvel de acordo com plano a ser elaborado pelo IPHAN. Centro. Pede deferimento.00 (cem mil reais). em especial a realização de perícia e oitiva de testemunhas a serem oportunamente arroladas. através de seu 3ª Coordenação Regional. outrossim.000. Protesta o Ministério Público Federal pela produção de todas as provas juridicamente admissíveis. Requer.347/85. CAROLINA DA HORA MESQUITA Procuradora da República . para acompanhar o feito. a ser revertido em prol do Fundo previsto no art. nº 235. N. localizada nesta cidade.347/85.