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Periferia: Um olhar "buliçoso

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Antonio Elizeu de Sousa1
Fotos: Fábio Lima. Parede de uma casa de periferia.

"A vida é uma ciranda de recomeços". Talvez essa frase do Rubem Alves possa traduzir a intenção deste texto, que lança seu olhar sobre um recorte do cotidiano. Mais especificamente, adentra a sala de visitas de uma casa simples. Dessas que, antes de permitir o acesso à sala, bem poderia obrigar o visitante a passar de banda por entre um surrado carro e a parede. Carro esse que, outrora novo, teria ostentado ao volante a pose de seu primeiro dono lá pelos bairros "nobres". Agora, o veículo com os “faróis baixos” dificultaria o acesso à porta da sala, onde uma mulher de 63 anos, gentilmente, recebe um amigo para dar uma entrevista sobre o seu dia-a-dia. O entrevistador se esforça para ver, primeiro através do olhar que varre a sala, depois pelos sentidos atentos à descrição dessa parte da casa por sua dona, um pouco dos costumes da família. Aos poucos, a gentil senhora, vai atendendo à intenção do visitante e se entregando à conversa. Inicialmente, mostra e descreve a sala e os demais cômodos da casa. Na descrição revela as reminiscências de sua geração e as particularidades da interação entre ela, seus filhos e netos. Mais adiante, ela "traduz", a seu modo, os hábitos ali praticados por cada um dentro do espaço que ocupam. Assim, a percepção da entrevistada, Biba Pimentel, mulher simples, negra, animadora comunitária, vai descortinando as maneiras de fazer o dia-a-dia na periferia da grande cidade, lançando também o olhar sobre seus vizinhos e as “coisas” do cotidiano. A casa é na Periferia, numa região pobre: bairro Granja Portugal. Mas, para continuar esta conversa é preciso situar a periferia. É imprescindível dizer que esse território não é exatamente um lugar geográfico, com localização precisa. O olhar aqui "traduzido" revela um espaço construído. Nele, a localização geográfica é um ponto de partida, mas não o restringe. A periferia aqui é um "mundo" com elementos de composição tecidos nos afazeres e na lida cotidiana. Onde pairam alegrias, angústias, conquistas e medos. Nessa “tradução” são expostos os elementos de composição de um contexto onde estão reunidas "as idealizações normativas cotidianamente compartilhadas pelos indivíduos", como no dizer do pesquisador José Machado Pais, da Universidade de Lisboa, na obra Vida Cotidiana – Enigmas e revelações (2001). Voltemos à casa, pois é lá onde catamos catamos os detalhes relevantes para as pessoas daquele lugar. A disposição estética e funcional da sala principia as informações. A partir daí, as questões são lançadas,
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Jornalista, com especialização em Teoria da Comunicação e da Imagem.

expondo um recorte do cotidiano vivido. adverte a entrevistada. sem exceção. É "o tempo buliçoso da vida cotidiana – aquele tempo em que o presente parece prevalecer sobre o passado e o futuro" (Pais. À medida que a conversa extrapola o espaço familiar. indo do catolicismo ao pentecostalismo. Nas paredes singelas da sala: um quadro e uma mensagem bíblica. A resposta revela as "operações objetivas" das pessoas na elaboração do viver cotidiano. conservando o bem estar. o lugar da TV é na copa ou na cozinha. onde estão os quadros do Sagrado Coração de Maria ou do Sagrado Coração de Jesus que. Então. Agora. Mas. Os hábitos vão se formatando à medida que se assimila e se ajusta o viver diário aos novos desafios e às opções que fazem os membros da família. o parelho de TV já não se encontra na sala. Ainda na entrada. gerando outra questão: cadê a TV. A incidência de roubos levou as pessoas a acomodar a TV e aparelhos de áudio mais para o interior da casa. frequentavam essas paredes? Ícones que resistiram à sucessão de várias gerações. Ou ainda permanece na sala quando "se trata de casa de muro alto". verificando nessas informações um princípio de "paradigma das atividades táticas" dos moradores. dispõem desse tipo de aparelho? Nessa e em outras casas. segmentados em diversas práticas religiosas específicas também se deixam influenciar por novos hábitos que já não enfatizam tanto alguns costumes tradicionais. percebera um crucifixo sobre a porta. É preciso afrouxar as preocupações e minimizar o medo para viver melhor. A cadência temporal não inclui somente a rigidez e o ritmo do relógio. avança o entrevistador em sua prospecção casa à dentro. extensiva a toda a periferia da cidade: entre o . O entrevistador prossegue em sua busca. se todas as casas da rua. E os católicos. O olhar sobre a sala prossegue. Além disso. entra na conversa “em off”) respondem à questão: A investida evangélica pentecostal na Periferia contribui para essa mudança de hábito. Ali. Atenta. há poucas décadas. 2001). procurando preservar as conquistas materiais e se adequar a uma nova situação cotidiana. As famílias que adotam as novas denominações religiosas decoram suas salas com mensagens cristãs ou outros motivos que não sejam reproduções de santos católicos. a dona da casa e seu filho de vinte e oito anos (que de um cômodo contíguo. Essa mudança na disposição dos equipamentos resulta de táticas que atendem a estratégia da sobrevivência. Percebe ainda outra tática. Assim. Um outro tempo se apresenta. há um constante movimento migratório entre as opções religiosas. de porta fechada. são elaboradas soluções que dão mais tranquilidade às pessoas. junto ao rádio ou a um ou outro equipamento de som. passando por outras práticas como o espiritismo kardecista ou os cultos espiritualistas de constituições híbridas originados na tradição africana. a noção de tempo não se restringe à marcação de intervalo físico e biológico. maneiras e hábitos comuns ao viver da periferia vão-se desnudando.

2. se vai espraiando rapidamente por todos os territórios que guardam características semelhantes de fragilidade e impotência diante da violência urbana. 1. a casa se converte numa permanente arena de disputa de preferências das gerações que ali coabitam. mais raramente. afetivo dessa da comunidade familiar. . com brevidade. E aí aparece um novo hábito: manter a televisão ligada durante a conversa. são negociadas tacitamente ou. Nesse horário. Nesse caso. Petrópolis. O drama cotidiano. Ainda em relação à conversa com Biba. as pessoas estranhas ao convívio familiar são despachadas ainda na calçada da rua. A exceção se dá quando se trata de pessoa íntima. os pontos de comércio fecham suas portas. se dá a preponderância de quem detém o poder econômico ou. E a sensação de desconfiança também invadiu a casa. Aí. o caminho da cozinha é facilitado e a permanência pode ser demorada. José Machado. São operações práticas como essas que (re) significam o espaço da Periferia de forma bem concreta. econômicos. mediante relações conflituosas. é possível destacar a emaranhada convivência entre as gerações de avós. este recorte retrata um ponto de acesso ao que Michel de Certeau. em A Invenção do Cotidiano(1994). PAIS. quase sempre. culturais e políticos que a visita aqui descrita não consegue abarcar em sua totalidade. Cortez Editora: 2003. São Paulo. redimensionado nas novelas ou nos noticiários. Dessa forma. novas regras de convivência das quais prospera uma ordem transitória. Portanto. "É o toque de recolher" da Periferia. Dessa forma. As maneiras de fazer o cotidiano na periferia dão conta de uma teia de relações entre redes de matizes religiosos.meio dia e as duas horas da tarde. reduzindo a presença ou a permanência de visitas na sala de estar. seja resolvido o motivo da visita. Vida cotidiana: enigmas e revelações. Em que. Mas. A Invenção do Cotidiano. Nesse sentido. senão o redimensionamento de atos para configurar novos hábitos. O temor aos assaltos fez emergir essa nova conduta que. Editora Vozes: 2005. Michel de. invade o espaço doméstico promovendo a consonância de hábitos e alguma superficial inovação. Só quando merecem alguma confiança lhes é concedido o acesso à sala para que. são as atuações "silenciosas" e continuadas dessas redes que estabelecem novas fronteiras para a cultura cotidiana. as ruas ficam quase vazias. filhos e netos numa mesma casa. operadores de redes". tacitamente. às vezes. apontando tendências e novos hábitos na Periferia. evoca como uma teoria dessas práticas: da bricolagem que extrapola o reaproveitamento de coisas para estabelecer novos produtos. A teoria trata do "misto de ritos e bricolagens. manipulações de espaços. CERTEAU. ocorre uma triangulação de atenção entre os interlocutores e as cenas que se sucedem na TV.