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O DIREITO À INTIMIDADE E À VIDA PRIVADA EM FACE DAS NOVAS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO Allan Diego Mendes Melo de Andrade

Bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Piauí. Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Piauí.Especialista em Direito Público.Pós-Graduando em Direito e Processo do Trabalho

RESUMO

O presente trabalho analisa o contexto atual do direito à intimidade e à vida privada com o advento das novas tecnologias da informação, em especial a internet. A discussão sobre a temática mostra-se pertinente uma vez que muitos conflitos são gerados a partir da colisão entre o resguardo da intimidade e o direito de expressão e informação através do uso dos novos meios tecnológicos. Examinam-se diversas situações em que o mau uso de serviços e recursos disponibilizados através da internet pode acarretar lesões à privacidade do indivíduo. O estudo sustenta-se na análise doutrinária dos institutos jurídicos envolvidos, com suas evoluções históricas e teorias pertinentes, e na exposição e análise de casos concretos que foram apreciados pelo judiciário brasileiro. Conclui-se pela necessidade de uma inovação legislativa à nova realidade, que venha a tutelar a atual conjuntura do direito à intimidade e à vida privada em face das novas tecnologias. Palavras-chave: Direito, Intimidade, Vida Privada, Novas Tecnologias, Internet.

1. Introdução O direito à intimidade e à vida privada configura-se como uma tutela assegurada ao indivíduo para esse que possa repelir a interferência de terceiros em sua esfera íntima de vida, bem como ter controle das informações sobre ele divulgadas. Alçada ao núcleo de direitos basilares para o exercício pleno das liberdades individuais, a proteção à intimidade e à vida privada encontra-se amparada nas cartas constitucionais dos países que assentam a ordem jurídica em um estado democrático de direito. No que tange ao ordenamento jurídico brasileiro, verifica-se que tal direito encontra-se assegurado pela Constituição Federal de 1988, em seu art. 5º, X. A constitucionalização desse instituto jurídico surgiu como uma necessidade da própria vida moderna, uma vez que as grandes transformações tecnológicas geraram um estado de conflito entre a garantia à intimidade e a chamada “sociedade da informação”, com vistas a evitar que o exercício da livre circulação de fatos noticiosos pudesse gerar danos à vida privada do indivíduo.

máxime quando são utilizados para a elaboração de perfis pessoais dos usuários da Rede. os modernos computadores. com sua surpreendente capacidade de recolhimento (captura). aumenta também a possibilidade de invasão na privacidade das pessoas. Marcelo Cardoso. A inserção dessas novas tecnologias trouxe consigo também novos desafios para a sociedade. em especial a Internet. o desafio quanto a essa questão ainda revela-se instigante. Direito à intimidade na Internet. sobre a seara do direito à intimidade e à privacidade. portanto. apontando-se também diretrizes para a harmonização do conflito surgido a partir da livre circulação de informações e a proteção à esfera de vida íntima de uma pessoa. LIMBERGER. com problemáticas e situações novas a serem enfrentadas pelo homem moderno. em especial a Internet.2 O alcance cada vez maior das informações e o incremento das possibilidades e dos recursos tecnológicos fazem da Internet um espaço peculiar. No processo de reconhecimento desses direitos é fundamental se destacar que as revoluções liberais. p. p.31. Têmis. lançando. em especial a americana e a francesa. uma vez que com o advento das novas tecnologias da informação. armazenamento. em face das questões expostas.Contudo. tratamento e recuperação de informações.1 À medida que se amplia o número de usuários na Internet em razão da democratização das novas tecnologias. Sobre a presente temática Pereira aponta: Dessa forma. É a função limitadora da Constituição. conforme se observa nas palavras de Limberger: O Estado Constitucional surge no final do século XVIII e se inter-relaciona com o Estado de Direito e os direitos fundamentais. o acesso e a divulgação de dados e informações ganharam uma dimensão pouco imaginável para os padrões tecnológicos de algumas décadas atrás. A interligação dos computadores através de uma rede mundial possibilitou grandes avanços no que se refere às comunicações e o surgimento de inúmeros serviços e recursos que antes não estavam inseridos no dia-a-dia da humanidade. no presente trabalho far-se-á uma análise sobre os efeitos das novas tecnologias. As cartas constitucionais nascidas como frutos dessas revoluções foram influenciadas pelo pensamento liberal e consagravam os direitos individuais. Assim. unidos à grande velocidade de transmissão de ditos dados por intermédio das distintas redes informáticas (incluídas obviamente a Internet). representam um perigo a mais para a intimidade dos indivíduos. foram marcos históricos no que se refere às lutas pelas liberdades individuais. especialmente no que tange a proteção à intimidade e à vida privada. 143. Histórico do direito à intimidade e à vida privada O direito à intimidade e à vida privada consagra-se entre os direitos e liberdades fundamentais a serem assegurados ao indivíduo pelo sistema jurídico. perspectivas desafiadoras para a ciência do Direito. O direito à intimidade na era da informática: a necessidade de proteção dos dados pessoais. . 1 2 PEREIRA. “A quantidade de informações que podem ser armazenadas e transmitidas é de tal magnitude que se exige o estabelecimento de soluções para os problemas que podem resultar da relação entre informática e intimidade”. 2.

através de critérios científicos os contornos da chamada privacidade (privacy).Conceituação e Diferenciação entre Intimidade e Vida Privada 3 4 5 LIMBERGER. b) divulgação de fatos embaraçosos que afetam o cidadão. Op. assim. é fundamental que se exponha sobre o famoso ensaio Warren-Brandeis. d) apropriação (com vantagens para a outra parte) do nome ou do aspecto físico do litigante.que coincide com a idéia de constituição escrita e encontra expoentes máximos na Constituição dos Estados Unidos (1787) e na Constituição Francesa (1791). configurando-se na relação entre o particular e sua vida privada e. em conseqüência. 30. O senador Samuel Warren e o jurista Brandeis analisaram os excessos da imprensa norte-americana. A garantia da intimidade como direito fundamental. p. aprovada pela Assembléia Geral da ONU em 1948 foi um marco da internacionalização dos direitos fundamentais. AIETA. No tocante à realidade brasileira. Têmis. observa-se que o institutos jurídicos em análise.5 É importante se colocar que a consolidação da tutela à intimidade não veio a macular o exercício do direito à informação. sendo o individualismo sua marca. As conclusões do trabalho foram publicadas num artigo em 1890. Não se evoca a censura. com a faculdade de tornar públicas ou não certas manifestações de sua esfera íntima de vida. p.3 No que se refere às bases doutrinárias acerca do direito à intimidade e à vida privada. 57. na verdade. a matéria passou a ser tratada com o status de teoria.4 Foram delimitados. 83. São constituições com características do Estado liberal. A partir do amadurecimento e posteriores trabalhos dos estudiosos norte-americanos realizados sobre a matéria. mesmo já estando consagrado nas cartas constitucionais de muitos países há várias décadas. inserindo-se entre eles o direito à intimidade e à vida privada.. Aponta Aieta que “a partir do ensaio de Warren-Brandeis. quando era flagrante o seu abuso. cit. que têm duas funções básicas: limitar o poder do Estado e garantir os direitos fundamentais. c) publicidade que poderia desprestigiar o indivíduo ante a opinião pública. acostumada a constantemente romper a tranqüilidade do universo familiar e privado dos cidadãos. o que a doutrina quis assentar foi uma defesa contra a irresponsabilidade do exercício ao direito de informação. p. somente com o advento da Constituição Federal de 1988 é que foram alçados à categoria de norma constitucional. cit. Limberger aponta: A violação à intimidade se constrói através de quatro situações básicas: a) intromissão na solidão de vida de uma pessoa ou nos seus assuntos privados. adentrando na seara de fatos que envolvem aspectos comezinhos da vida de um indivíduo. ao contrário. Cumpre destacar que a declaração universal dos direitos do homem.. Têmis. aquela garantia deve ser relativizada quando se manifesta o interesse público acerca do fato a ser divulgado. propiciando as bases técnico-jurídicas da noção de privacy e confugurando-a como uma real right to be let alone”. Op. . Vânia Siciliano. LIMBERGER. 3.

Nestes termos. sem nenhuma repercussão social. pensamentos. podem requerer a comunicação a terceiros (na aquisição. No que se refere à vida privada. 7 PEREIRA. Tércio Sampaio.. É oportuna a exemplificação dada pelo professor Tércio Sampaio Ferraz com vistas a aclarar tal situação: A vida privada pode envolver. as próprias convicções. Tércio Sampaio. não exclui o segredo e a autonomia. 449. por exemplo. pode-se entender o direito à intimidade como a esfera de proteção ao que há de mais íntimo na pessoa. em uma primeira aproximação. é possível identificá-la: o diário íntimo. Acerca desta questão discorre Tércio Sampaio Ferraz: A intimidade é o âmbito do exclusivo que alguém reserva para si. em que a não publicidade é essencial para o desenvolvimento pleno de tais faculdades. Não há um conceito absoluto de intimidade.7 Seria. portanto. é sempre um viver entre os outros (na família. 4. por mais isolada que seja. p. mas que. Marcelo. no trabalho. guardando aspectos em que é possível uma diferenciação. as situações indevassáveis de pudor pessoal. idéias e emoções. mesmo que usualmente os conceitos de ambos se confundam. no lazer comum). ou seja.A intimidade e a vida privada são direitos que se interpenetram. Marcelo Cardoso Pereira esclarece que “a vida privada seria. como no caso dos amigos íntimos. como os colegas de trabalho. Por aí ela difere da intimidade. ou de contato diário. seja por razões familiares. Contudo. Sigilo de dados: direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado. nem mesmo ao alcance da sua vida privada que. 140. os desejos. aquela seara da vida que pressupõe interação com pessoas que estão ligadas ao individuo de forma mais intensa.6 Assim. dando possibilidade ao indivíduo para que desenvolva com liberdade e plenitude sua personalidade livre da invasão ou ingerência de terceiros. Aquilo que pertence a um “território” exclusivo. não transparece à esfera pública”. que não experimenta esta forma de repercussão. tanto a esfera mais exclusiva (intimidade). mas que. o segredo íntimo cuja mínima publicidade constrange. como o âmbito de fatos e acontecimentos compartilhados com pessoas íntimas (vida privada). situações de opção pessoal (como a escolha do regime de bens no casamento). p. Op. eles são distintos. tudo o que não pertença ao âmbito da intimidade. . guardando entre si grande vinculação. Sigilo de dados: direito à privacidade e os limites à função fiscalizadora do Estado.8 O direito a intimidade e vida privada apresenta-se. assim. em certos momentos. assuntos do dia-a-dia e até mesmo segredos. excluindo uma publicidade mais ampla de tais acontecimentos. ou por afinidade. por sua vez. como o direito de que gozam as pessoas de defender e preservar um âmbito íntimo de suas vidas. embora se possa dizer que o seu atributo básico é o estar só. pois. mas que não extrapola esse contexto. de um imóvel). cit. 450. Tal diferença reside no fato de a intimidade pertencer a um círculo mais restrito do que o direito à vida privada. 8 FERRAZ. É um campo em que se compartilha com essas pessoas os fatos. o segredo sob juramento. p. O Direito à Intimidade e a Vida Privada e as novas tecnologias da informação 6 FERRAZ.

impulsionadas com o advento da Internet.. J. algumas ações de cunho totalitário por parte dos Estados. Marcelo Cardoso. A intimidade e a vida privada frente às novas tecnologias da informação. Os serviços e recursos que se inseriram no dia-a-dia das pessoas. AZUMA. Orkut. Contudo. muitas vezes.9 Os dados e informações divulgados na Internet são de difícil controle.com. o conflito entre vida privada e direito de expressão e informação. Sobre a questão explicita Pereira: No que tange à utilização da informática e da telemática no tratamento das informações pessoais. fato que fomenta a possibilidade de vulneração do direito à intimidade dos usuários da Rede. torna também cada vez mais difícil repelir-se eventuais invasões na privacidade do indivíduo. gerando em diversas situações. p. que a popularização das novas tecnologias ao mesmo tempo em que possibilita a liberdade do acesso à informação. Acerca da colisão de direitos J. As informações disponibilizadas na web. à medida que se amplia o número de usuários e de informações disponibilizadas na web em razão da democratização das novas tecnologias. 10 . fornecidas ingenuamente pelo próprio usuário. circulam de forma irrestrita pela Rede.br/doutrina/texto. Eduardo Akira. Quanto à matéria do direito à intimidade e à vida privada nos dias atuais.10 Observa-se. Resta evidente a colisão de direitos fundamentais. A intimidade e a privacidade ganham status de grande importância em razão da valorização e comercialização de dados pessoais. ressaltamos o volume de dados pessoais que circulam diariamente pela Internet.. Gomes Canotilho esclarece: Considera-se existir uma colisão autêntica de direitos fundamentais quando o exercício de um direito fundamental por parte do seu titular colide com o exercício do direito fundamental por parte de outro titular [. Eduardo Akira Azuma aponta: A importância de tais direitos vai crescendo na medida em que a autonomia da vida privada é ameaçada pelas novas modalidades de invasão científica e tecnológica. tornando-se. Op. são uma grande conquista para a humanidade e não há dúvidas de que elas possibilitaram uma ampla democratização do acesso e do fluxo da comunicação. assim.uol. sites de cadastro.. uso nocivo dos meios tecnológicos entre outros. cit. surgem também os conflitos gerados por essa miríade de informações e a progressiva invasão na privacidade das pessoas. cada vez mais freqüente a divulgação de dados e de fatos que deveriam se manter circunscritos à intimidade das pessoas. uma vez que a própria estrutura em que ela é baseada (interligação entre computadores em todas as partes do mundo) tem caráter essencialmente libertário. As informações circulam em grande velocidade e atingem um número vasto de pessoas.As novas tecnologias da informação.asp?id=6168 . acúmulo e divulgação de informações na Internet. portanto. sites de busca. Youtube etc possibilitaram uma gigantesca capacidade de acesso. 143.] A colisão de direitos em 9 PEREIRA. tais como a como e-mail. em razão da ampla liberdade de divulgação de informações possibilitada pelas novas mídias. ação implacável da cultura de massas. Disponível em http://jus2.

o seu usuário deveria receber.sentido impróprio tem lugar quando o exercício de um direito fundamental colide com outros bens constitucionalmente protegidos. p. Têmis. agrupando-a por determinados interesses e essas informações são extremamente valiosos para empresas que atuam na área de marketing e publicidade. apresentando limites ao seu exercício quando este afrontar o direito de outras pessoas ou da própria sociedade. Esses dados são colhidos.. Essencial salientar. art. mensagens somente de pessoas a quem forneceu o 1 1 0 1 1 CANOTILHO. 5°. profissão. J.“Spam”e outras invasões à intimidade. . XIV) entra em colisão com a intimidade e a vida privada das pessoas (CF. ou para participarem de um sorteio pela Internet ou pelo simples fato de visitar determinadas páginas da web. J. que são aquelas inúmeras mensagens que abarrotam as caixas de entrada de e-mail sem que tenham sido solicitadas pelo usuário. Nada impede também que a comercialização de dados coletados na web sirva para formar verdadeira listagem para determinadas empresas. Gomes. limites imanentes da ordem social. ainda segundo Canotilho. art. estarão cientes das preferências de cada público e de seus hábitos. Uma vez compilados os dados pessoais. 440. 5°. Outro exemplo comum de invasão à intimidade também passa despercebido da maior parte dos usuários das novas tecnologias acontece com os chamados “spams”. é caso de choque no exercício de direitos fundamentais. Disponível em < http://www.12 Na maioria das vezes as pessoas não percebem que ao preencherem um simples questionário para se cadastrar em um site.br/v2/artigos.org. Portanto. gostos e preferências de inúmeros usuários de Internet é possível traçar um perfil pessoal de cada pessoa. IX) ou de acesso à informação (CF. Conforme a lição do doutrinador supracitado constata-se que os direitos. 2 LIMBERGER. art. Um exemplo em que se mostra evidente a invasão no âmbito de vida privada das pessoas em face das novas tecnologias é descrita por Têmis Limberger: Fornecemos nosso endereço eletrônico a alguém em uma relação de confiança e. em tese. 5°. que poderão ter a sua disposição inúmeros perfis pessoais e consultá-los quando na hipótese em que necessite contratar empregados. limites eticamente imanentes” 11. pois assim.asp>.10 Assim.J. o uso das novas tecnologias comunicacionais termina por interferir na esfera de intimidade das pessoas. cit. uma vez que a liberdade de comunicação. mesmo os fundamentais. estão fornecendo. logo este é repassado e utilizado para fins comerciais ou até mesmo para transmitir vírus. Os dados pessoais (nome. quando o exercício da liberdade artística. incluindo-se aí. até vendidos.amprs. intelectual. 1238. idade. p. no caso presente à intimidade e à vida privada. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. científica ou de comunicação (Constituição Federal. sobre “a existência de limites originários ou primitivos que se imporiam a todos os direitos: limites constituídos por direitos dos outros. por vezes. renda etc) hoje são colhidos sem o consentimento informado das pessoas e são armazenados e transmitidos uma infinidade de vezes e. armazenados e transmitidos uma infinidade de vezes e por vezes até vendidos. X). endereço. O correio eletrônico é um serviço de caráter estritamente pessoal. não apresentam caráter absoluto. inocentemente inúmeros dados pessoais. CANOTILHO. escolaridade. à liberdade de comunicação deve ser exercida tendo como balizas os limites impostos por outros direitos. Gomes. J. Op.

Mesmo tendo como premissa coibir o abuso realizado por muitos usuários e de não permitir que menores de idade participem do site. uma vez que fazem um apanhado do conteúdo desejado pelo usuário. sendo assim. Difícil.shtml 1 5 ALVAREZ. Orkut.uol. 36. trocando mensagens. Disponível em <http://portalimprensa. discutindo assunto de interesses comuns etc.br/colabora/n13/artigos/n_13/pdf/id_05. visto que muitas vezes dá-se a utilização desses de forma abusiva. porém útil: todos os órgãos públicos e os grandes órgãos privados devem desenvolver uma política de clara de privacidade (e. de preferência. 4 3 . que expõe informações sem o conhecimento do criador. Ou ainda: o direito de não ter as informações sobre si próprio acessadas para uma finalidade que não aquela para a qual foi originariamente colhida. pertinente colocação aponta Rodrigues: Relevante é conhecer o direito à intimidade com sua manifestação positiva: não apenas proteger-se da intromissão.com. Disponível em < http://www. É uma forma ágil e prática de se encontrar o assunto e os dados desejados. sem a autorização dos seus criadores ou responsáveis”.pdf>. Youtube: abuso no uso das novas tecnologias Outros serviços e tecnologias que utilizam também a Rede mundial de computadores como suporte não apresentam um controle eficaz quanto à segurança à intimidade e a vida privada.14 Outros serviços disponíveis na Rede também costumam estar envoltos em polêmica. dependendo de como se processa a busca por informações.15 É flagrante o desrespeito a intimidade dos usuários que se utilizam desse serviço. “Por conseguinte é comum encontrar-se pessoas que ao exporem suas vidas no Orkut. a partir da construção de perfis pessoais pudessem interagir com outros usuários. que peca pela exposição acentuada e pela vulnerabilidade do controle que é exercido sobre o seu 1 1 Revista Visão Jurídica. tal como acontece no procedimento adotado do site Google. Ana Maria Torres. O site surgiu com a idéia de formar uma grande comunidade virtual em que em as pessoas.13 Acerca das informações que existem na Internet sem nenhum controle. Víctor Gabriel. Os sites de busca facilitaram o acesso às informações disponibilizadas na rede. 5. se destinam. cumpri-la). o que se vê na realidade é uma verdadeira falta de controle no conteúdo do material vinculado e qual uso é feito desse conteúdo. mas direito de o indivíduo controlar as informações que existam sobre si próprio. Comunidades virtuais: intercâmbio de conhecimentos x privacidade.ricesu.com.br/portal/ultimas_noticias/2006/02/14/imprensa7046. Edição nº 01. pode haver abuso na coleta e divulgação dos dados. ficam sujeitas a especulação alheia e ao mau uso que podem fazer dessas informações”. O caso Google e o direito à intimidade: da imprensa ao controle de informações sobre si mesmo. No entanto. um ato invasivo abrir diariamente a caixa de mensagens e ela estar abarrotada de mensagem indesejadas. Sites de Busca. como é caso do site de relacionamentos Orkut. de fato. Sobre eventuais invasões no campo do direito à intimidade entende-se que o site de busca Google deve ter “responsabilidade sobre o assunto divulgado já que cadastra páginas da Internet através de um processo de varredura efetuado por um robô e que lista todo e qualquer site. que ninguém sabe ao certo de onde veio e a qual propósito. RODRIGUEZ. Editora Escala.endereço. p.

com. parte significativa delas por terem sido vítimas de intromissão e devassa na sua vida privada. . uma vez usada de forma abusiva.br/artigos.ultimosegundo. É salutar que exista a devida proteção jurídica para casos semelhantes e o fato de tratar-se de uma pessoa pública não torna legítimo que impere apenas uma espécie de ditadura das massas. Renato Malzoni Filho. Eduardo Akira. observa-se que o judiciário não usou de razoáveis critérios de proporcionalidade para garantir a satisfação do pedido dos autores. pode acarretar acentuados danos à intimidade e à vida privada das pessoas. O primeiro deles é que. disponibilizando desde fatos noticiosos de conhecimento geral até imagens capturadas em qualquer lugar com uma câmara acoplada ao aparelho celular. Telefônica e Embratel.asp?cod=416FDS003>. afinal quando menos se imagina imagens captadas sem a autorização dos envolvidos podem estar sendo transmitidas por toda a Rede e acessadas por milhões de pessoas. é possível que qualquer usuário cadastrado no serviço disponibilize vídeos e esses podem ser acessados por qualquer pessoa com computador conectado a web. a medida adotada de bloquear o site Youtube é questionável sob vários aspectos. em setembro de 2006 e mantendo relações sexuais dentro do mar. Azuma posiciona-se: Neste aparente conflito de direitos fundamentais. A questão é que essa tecnologia. Azuma coloca que: O caso da modelo brasileira é um exemplo de como o uso da Internet pode ser potencialmente ofensivo à imagem do cidadão. A modelo e o namorado não autorizaram a gravação. É cada vez maior o número de pessoas que ingressam com ações buscando a tutela jurisdicional para repelir a invasão em suas vidas em face do abuso na utilização dessas tecnologias.ig. Na página.conteúdo. 6.16 No entanto. Disponível em <http://observatorio. trocando carícias na praia espanhola de Cádiz. Casos concretos e os Tribunais brasileiros Os conflitos gerados a partir do confronto entre a liberdade de comunicação e a violação da intimidade e da vida privada em face das novas tecnologias da informação têm chegado ao Judiciário brasileiro. Outra tecnologia que veio revolucionar a maneira de interação e comunicação através da Internet foi o site de vídeos Youtube. O fato tem feito muitas pessoas cancelarem seus perfis. no presente caso. o que fez com que o casal ingressasse com uma ação perante à Justiça paulista alegando violação do direito à intimidade e à imagem do casal. Ainda sobre a questão. uma vez que a decisão da 4ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o bloqueio do Youtube para os assinantes do provedor de acesso à Internet Brasil Telecom. Poucos casos ganharam tanta notoriedade no país como o vídeo disponibilizado no Youtube com cenas de uma gravação feita com a modelo Daniela Cicarelli e seu namorado à época. Youtube: novos desafios para o direito. se o bloqueio ao site é motivado pela necessidade de se proibir o acesso ao vídeo da 1 6 AZUMA. tampouco a sua divulgação na web. Cicarelli vs. É um recurso que possibilita a divulgação de um número infindável de vídeos.

O nome da autora constava no resultado da busca efetuado no site associado à pornografia e práticas sexuais ligadas à zoofilia. Revista Consultor Jurídico. isso porque ao se fazer uma consulta com o nome da advogada. por se revelar uma demanda social extremamente recente e por se fundar também numa colisão de direitos fundamentais. duas correntes doutrinárias já se apresentam a fim buscar soluções ao conflito existente. não tivessem acesso ao restante do conteúdo do Youtube. Marcelo Cardoso. Op. atinge mais de 5 milhões de usuários). uma vez que não seria justo o buscador Google não ser responsabilizado por essa associação sem sentido. Disponível em <http://conjur. qual seja. O juiz da 3ª Vara Cível de Porto Alegre julgou procedente o pedido. cit. Vê-se.8 mil salários mínimos. entendendo claro o dano por ela suportado em razão do erro do site que culminou por trazer-lhes prejuízos de cunho moral e à sua vida privada. os danos que o mau uso das novas tecnologias pode causar às pessoas. impedindo que milhões de usuários completamente indiferentes ao vídeo da modelo. para a proteção de dados pessoais. A empresa foi condenada a pagar a indenização no valor de 10. 8 7 . também parte do equivocado pressuposto de que as pessoas que acessam o site o fazem exclusivamente para ver o conteúdo referente às cenas da modelo. a decisão do magistrado mostrou-se pautada por critérios de razoabilidade.17 Assim. tendo em vista que o bem jurídico protegido segue sendo o mesmo. A proteção jurídica da intimidade frente às novas tecnologias No que é pertinente à proteção jurídica da intimidade e da vida privada em face da Internet e das novas tecnologias. em especial. A situação evidenciou. Entretanto.19 1 1 AZUMA.modelo. restava claro o direito de o casal ver cessar a situação de flagrante violência à intimidade e à vida privada. agregado ao alcance mundial da lesão.br/static/text/53648.. Nas palavras do magistrado grande peso teve na decisão o fato de “o nome da vítima ter estado associado a materiais de cunho vulgar e depreciativo à sua honra. ante o uso das novas tecnologias. de fato. Frente à complexidade da questão. a autora entrou com uma ação visando que a Justiça gaúcha determinasse que o site criasse um filtro para corrigir o erro que fazia a ligação de seu nome às informações que em nada diziam respeito à sua vida. que na presente situação. Outro caso que chegou à Justiça brasileira e que ganhou espaço nos sites e publicações direcionadas para o público jurídico é o que envolveu uma advogada de Porto Alegre e site Google. o tribunal paulista acabou por conceder medida liminar que bloqueou por várias horas o acesso de milhões de pessoas ao site. provocando dano gravíssimo e irreparável à esfera pessoal da autora”18 7. Para a primeira “não há necessidade de criação de um novo direito para a proteção da intimidade e. 148. a intimidade”. assim. Em dezembro de 2005. alguns magistrados agem com desproporcionalidade ao efetivar a tutela. Op. Nomes trocados: Google é condenado por ligar advogada com Surfistinha. o resultado ligava-a ao nome de uma garota de programa que ganhou notoriedade com um livro me que detalhava sua vida sexual.estadao. Cit.com. além do excesso e da desproporcionalidade da medida (conforme visto alhures.1> 1 9 PEREIRA. além de um pedido de indenização pelos danos sofridos.

Por isso. à publicidade. pois se apresenta como um veículo de comunicação sem fronteiras. não pode se esquivar de adotar medidas semelhantes que visem a coibir os abusos causados pelo uso da Internet e os recursos dela decorrentes. que não corresponderia com bem jurídico protegido por esse novo direito. assim deve ser. O Brasil. dado maior proteção ao indivíduo. Conclusão Observa-se. Marcelo Cardoso. faz-se necessário que a opinião pública e o debate político fomentem a discussão sobre o tema. propõe uma tutela específica para a intimidade frente às novas tecnologias. cit. daquilo se fizer necessário. especialmente no tocante à utilização massiva das tecnologias da informática. que o direito à intimidade e à vida privada encontra-se consagrado nas cartas constitucionais da maioria dos países que se sustentam numa ordem democrática. especialmente aquilo que se relacione à informação. assim. como país inserido no mercado global. esses direitos têm sofrido contínuo desrespeito à medida que cresce o desenvolvimento de novas tecnologias da informação.20 Essa segunda corrente. Op. Alemanha e França contam com dispositivos legais que visam a proteger a intimidade de seus cidadãos em face das invasões geradas pelo advento de novas tecnologias. propondo assim o nascimento de um direito novo. Pereira explicita os argumentos que amparam essa outra corrente doutrinária: A insuficiência dos instrumentos de tutela jurídica do clássico direito à intimidade para a proteção dos indivíduos frente aos avanços tecnológicos. uma vez que a proteção dada tradicionalmente ao referido direito não seria suficiente ao caso em tela. enquanto não houver adaptação legislativa. especialmente a Internet. tais como Espanha. que fosse gerado especialmente com vista à pacificação desse novo conflito social. Alessandra de Azevedo. e a particularidade do bem jurídico protegido pela concepção clássica do direito à intimidade. Vários países que compõe a União Européia. portanto. perigosa. DOMINGUES. contudo. podendo as informações e publicidades que nela navegam atingir uma pessoa em qualquer parte do globo.. Responsabilidade Civil e Direitos de Liberdade. 2 2 0 1 PEREIRA. as disposições legais que possam ser aplicadas.php?comissao=7>. Acredita-se que é fundamental uma atualização da legislação a fim de adequá-la ao novo contexto social que já está inserido no cotidiano das pessoas.21 Portanto.abdi. Alessandra de Azevedo Domingues também aponta interessante questão acerca da matéria: Sob este ponto de vista a Internet torna-se. analogicamente. 8. Disponível em < http://www. . especialmente. ou a criação de normas específicas. a tudo que envolve a Internet.org. com o escopo de se estabelecer garantias que protejam os cidadãos das constantes agressões à sua intimidade e à vida privada.150. ou mesmo à população de todo o mundo.A segunda corrente é favorável ao reconhecimento de um novo direito específico para a proteção de dados e informações pessoas na Internet.br/artigos. incluindo-se o Brasil.

Internet. como é caso da intimidade frente às novas tecnologias da informação. especialmente la internet. Nuevas Tecnologias. hoje ganharam novos contornos e carecem. A divulgação de dados pessoais e de informações que interferem diretamente na vida intima das pessoas e até mesmo a veiculação de vídeos não autorizados são situações que se tornam cada vez mais comuns no chamado “espaço virtual”. Os institutos jurídicos existentes não são mais suficientes para dirimir os conflitos surgidos com as inúmeras inovações tecnológicas. O Direito à intimidade e à vida privada ganhou novos contornos e o Brasil não pode ficar alijado desse processo de modernização legislativa. Vida Privada. . já que o processo informático encontra-se. Muitos países já implementaram reformas em seu ordenamento jurídico no sentido de dar maior proteção aos dados e informações que circulam na Internet. É fundamental se destacar que o advento das novas tecnologias requer uma mudança de comportamentos.Surge a partir dessa situação uma colisão de direitos fundamentais. uma vez que o direito à liberdade de expressão e de informação afronta-se diretamente com a intimidade dos indivíduos. amplamente utilizado nas relações sociais e profissionais. tutelando situações que. Cabe ao Judiciário adequar-se a essas situações. El estudio se sostiene en el análisis de los institutos jurídicos pertinentes. o cidadão ainda continua vulnerável a lesões. aperfeiçoando o processo de ponderação de direitos a ser aplicado nos casos concretos a ele apresentados. Mesmo cercado de todos os cuidados possíveis. Palabras llave: Derecho. Se concluye por la necesidad de creación de nuevas leyes que puedan proteger los ciudadanos en esa nueva realidad y que controlen la actual situacíon del derecho a la intimidad y a la vida privada ante las nuevas tecnologias. pois esses deverão ter precaução ao disponibilizar informações ou dados pessoais junto a serviços oferecidos na web. hoje. La discusión acerca del tema se demuestra muy pertinente ya que muchos problemas surgen a partir del choque entre la proteción de la intimidade y el derecho de expresión e información por medio del uso de los nuevos medios tecnológicos. algo se mostra extremamente importante em todo o contexto apresentado é a necessidade de uma inovação legislativa com o fim de garantir ao cidadão o respeito a direitos fundamentais que são constantemente violados em face das novas tecnologias. O Direito deve acompanhar a evolução social. inclusive dos próprios usuários da Internet. se outrora pareciam pacificadas. visto que as novas tecnologias apresentam caráter libertário. con sus evoluciones históricas y teorías. Intimidad. uma vez que o fim a que se destinam muitas vezes é incerto e pode trazer conseqüências gravosas à sua intimidade e vida privada. No entanto. a fim de se evitarem prejuízos excessivos às partes litigantes. pois de uma proteção especifica. Se analizan diversas situaciones en que el malo uso de los servicios y recursos accesibles en la internet pueden causar lesiones a la privacidad del individuo. RESUMEN El presente trabajo analisa el contexto actual del derecho a la intimidad y a la vida privada com el advenimiento de las nuevas tecnologias de la información. já que qualquer pessoa pode ser emissora ou receptora de informações. así como la exposición y análisis de casos concretos que fueron analizados por la Justicia brasileña.

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