Luta Contra O Crime Económico 2007-02 -09 00:05 Filipa Ambrósio de Sousa e Paula Cravina de Sousa

PJ e Fisco atacam crime económico
Direcção-Geral de Impostos e Polícia Judiciária reúnem -se na Segunda-feira à porta fechada.

Agentes do fisco a trabalharem com as equipas da Polícia Judiciária. É assim que o Ministério das Finanças e a polícia criminal juntam esforços para tratar os crimes económicos. A colaboração já está no terreno e o combate à corrupção, ao branqueamento de capitais e à evasão e fraude fiscais foram assumidos como prioridades para 2007. Claro que, com uma economia paralela calculada em 22% do PIB nacional, muito está ainda por fazer. O quê e como? É isso que o ministro da Justiça, Alberto Costa, o director nacional da Polícia Judiciária (PJ), Alípio Ribeiro, o director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, e o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, vão discutir numa reunião agendada para a próxima segunda-feira, à porta fechada, no Porto.

Para já, envolver as direcções-gerais do Ministério das Finanças no processo significa actuar na nascente. Afinal, pela suspeita de evasão fiscal pode chegar-se mais facilmente aos responsáveis pelos crimes de “colarinho branco”. A estratégia para 2007 deve basear-se, portanto, numa actuação conjunta entre uma polícia de retaguarda, infiltrada ou com rosto, e as entidades fiscais. “A relação com o fisco é fundamental”, referiu o director nacional em Dezembro, numa entrevista ao Diário Económico. Aliás, Alípio Ribeiro não poupa elogios a Paulo Macedo. “É um excelente parceiro. É uma pessoa muito pragmática e muito dinâmica no sentido do interesse público”, defende o responsável pela PJ, acrescentando que “Sentiria pena se Paulo Macedo saísse”.

Actuação conjunta e articulada
A questão que se coloca agora é o método, porque no terreno, na execução da política criminal é a Polícia Judiciária quem mais ordena. Buscas, escutas telefónicas, levantamento do sigilo bancário e agentes de políc ia com identidade falsa poderão ser a nova arma. Os polícias infiltrados, os ‘undercover agents’, são uma realidade em vários países da Europa - como Reino Unido, Alemanha e França -, e podem ser uma estratégia a utilizar também em Portugal no combate aos crimes económicos.

São “crimes sem cadáver e de difícil resolução”, salienta Alípio Ribeiro na entrevista ao DE. “Tem de se andar à procura, porque é um crime escondido no armário. São crimes de bastidores, com algum ‘glamour’ social”, sublinha o director nacional da PJ. É por isso que esta luta vai passar também por uma maior mobilização de esforços no campo preventivo. Para a Judiciária é essencial a colaboração de outras entidades, como os tribunais administrativos e fiscais, para uma fiscalização mais eficaz. A falta de articulação entre o Ministério Público - que segundo a lei é o órgão máximo responsável pela execução da política criminal - e a PJ já foi assumido pelo próprio director nacional da PJ: “Não há ‘feedback’. Não chega ao Ministério Público o que se passa”.

O caminho é mesmo esse. Segundo Alípio Ribeiro, “o que falta é uma boa investigação . Uma boa articulação com o Ministério Público, uma boa articulação com as entidades tributárias, com os bancos e com todas as entidades que nos podem trazer acréscimos de prova”.

Reunidos pela prevenção
Ao mesmo tempo que aposta na colaboração no terreno, a PJ já convocou os vários intervenientes para debater a prevenção do branqueamento de capitais e do financiamento do terrorismo. No próximo dia 12 e 13 de Março, o Ministério da Justiça, a Direcção-Geral dos Impostos, o Banco de Portugal e a Associação Portuguesa de Bancos, a Caixa Geral de Depósitos, o Millennium bcp e o BES juntam -se nesta discussão. O que é normal se tivermos em conta que a “Operação Furacão”, desencadeada em 2005 e que levou a investigações no BES, BCP, BPN e Finibanco, relançou a questão do papel das instituições financeiras no processo de branqueamento de capitais. Da parte do Executivo, a corrupção e branqueamento de capitais já lideram a lista de prioridades de investigação criminal, a aprovar em Abril deste ano pelo Parlamento, para vigorar nos próximos dois anos. Quase pronta está a lei orgânica da PJ, que cria a Unidade de Combate à Corrupção, que dará especial atenção à área desportiva.

Segundo o relatório apresentado pela “Finantial Action Task Force” (FATF), organização inter-governamental que promove medidas de combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento de actos terroristas, Portugal duplicou o número de transacções suspeitas de branqueamento de capitais entre os anos de 2002 e 2005, passando de 166 para 330. Nos relatórios que enviou ao Ministério Público, a FATF refere mesmo transacções consideradas suspeitas e os documentos já foram analisados pelos magistrados do MP e

enviados, de seguida, para a Unidade de Investigação Financeira, afecta à PJ, que regula a actividade suspeita desenvolvida pelas entidades bancárias.

Al Capone: infractor fiscal
Um dos gangsters mais famosos na história dos Estados Unidos, Al Capone, está associado ao crime organizado. Jogo, prostituição, tráfico de álcool, assassinato, extorsão, violência, suborno de polícias, vereadores e responsáveis fiscais são alguns dos crimes que praticou. No entanto, as autoridades judiciais só conseguiram acusá-lo em 1931 de fraude e evasão fiscal. Foi condenado a onze anos de prisão. Em 1939, recuperou a liberdade e viveu retirado em Miami Beach até à sua morte. Al Capone é também associado ao tráfico de bebidas alcoólicas durante o proibicionismo.

Prioridades para 2007

Reforço da colaboração quer entre os corpos inspectivos do Ministério das Finanças e da Administração Pública, quer destes com o sector da Justiça.

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Redução dos níveis de fraude e evasão ligados à economia paralela. Definição de estratégias nacionais de combate à fraude ‘carrossel’ e à emissão de facturação falsa.

Aumento do número de apreensões, em particular