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Title: Os sonetos completos de Anthero de Quental Author: Antero Quental Contributor: Oliveira Martins Release Date: December 20, 2006

[EBook #20142] Language: Portuguese *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANTHERO DE QUENTAL ***

Produced by Pedro Saborano, Ricardo Diogo and Tiago Tejo, and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional Digital--http://bnd.bn.pt).

SONETOS

OS SONETOS COMPLETOS DE Anthero de Quental publicados por J. P. Oliveira Martins PORTO LIVRARIA PORTUENSE DE _LOPES & C.^a--EDITORES_ 119, Rua do Almada, 123* 1886

PORTO TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

Rua da Fabrica, 66

Escrevendo estas breves paginas á frente dos _Sonetos_ de Anthero de Quental tenho a satisfação intima de cumprir o dever de tornar conhecida do publico a figura talvez mais caracteristica do mundo litterario portuguez, e decerto aquella sobre que a lenda mais tem trabalhado. Estou certo, absolutamente certo, de que este livro, embora sem écco no espirito vulgar que faz reputações e dá popularidade, ha-de encontrar um acolhimento amoroso em todas as almas de eleição, e durar emquanto houver corações afflictos, e emquanto se fallar a linguagem portugueza. Procurarei, no que vou dizer, guardar para mim aquillo que ao publico não interessa: a viva amisade, a estreita communhão de sentimentos, o affecto quasi fraterno que ha perto de vinte annos nos une, ao poeta e ao seu critico de hoje, fazendo da vida de ambos como que uma unica alma, misturando invariavelmente as nossas breves alegrias, muitas vezes as nossas lagrimas, sempre as nossas dores e os nossos enthusiasmos ou o nosso desalento. Discutindo em permanencia, discordando frequentemente, ralhando a miudo, zangando-nos ás vezes e abraçando-nos sempre: assim tem decorrido para nós perto de vinte annos. Mas o leitor é que nada tem que vêr com esses casos particulares, nem com o abraço que trocámos no dia em que primeiro nos conhecemos e que só terminará n'aquelle em que um de nós, ou ambos nós, formos descançar para sempre sob meia duzia de pás de terra fria. I Eu não conheço phisionomia mais difficil de desenhar, porque nunca vi natureza mais complexamente bem dotada. Se fosse possivel desdobrar um homem, como quem desdobra os fios de um cabo, Anthero de Quental dava _alma_ para uma familia inteira. É sabidamente um poeta na mais elevada expressão da palavra; mas ao mesmo tempo é a intelligencia mais critica, o instincto mais pratico, a sagacidade mais lucida, que eu conheço. É um poeta que sente, mas é um raciocinio que pensa. Pensa o que sente; sente o que pensa. Inventa, e critíca. Depois, por um movimento reflexo da intelligencia, dá corpo ao que criticou, e raciocina o que imaginou.--O seu temperamento apresenta um contraste correlativo: é meigo como uma creança, sensitivo como uma mulher nervosa, mas intermittentemente é duro e violento. É fraco, portanto? Não. A vontade, em obediencia á qual, e com esforço, se faz colerico, fal-o tambem forte--d'esta força persistente, raciocinada e na apparencia placida, como a superficie do mar em dias de bonança. O Oceano, porém, é interiormente agitado pelo _gulf stream_ quente e invisível: tambem ás vezes a placidez extrema da sua face encobre ondas de afflicção que sobem até aos olhos e rebentam em lagrimas ardentes. Sabe chorar, como todo o homem digno da humanidade. É d'estas crises que nasceram os seus versos, porque Anthero de Quental não _faz_ versos á maneira dos litteratos: nascem-lhe, brotam-lhe da alma como solluços e agonias. Mas, apezar d'isso, é requintado e

exigente como um artista: as suas lagrimas hão de ter o contôrno de perolas, os seus gemidos hão de ser musicaes. As faculdades artisticas geradoras da estatuaria e da symphonia são as que vibram na sua alma esthetica. A noção das fórmas, das linhas e dos sons, possue-a n'um gráo eminente: não já assim a da côr nem a da _composição_. Aos quadros chama _paineis_ com desdem, e por isso mesmo tem horror á descripção e ao pittoresco. É artista, no que a arte contém de mais subjectivo. A sua poesia é esculptural e hieratica, e por isso phantastica. É exclusivamente psychologica e dantesca: não pode pintar, nem descrever: acha isso inferior e quasi indigno. Os seus versos são sentidos, são _vividos_ como nenhuns; mas o sentir e o viver d'este homem é de uma natureza especial que tem por fronteiras phisicas as paredes do seu craneo, mas que não tem fronteiras no mundo real, porque a sua imaginação paira librada nas azas de uma razão especulativa para a qual não ha limites. O poeta é por isso um mystico, e o critico um philosopho. O mysticismo e a metaphisica, o sentimento e a razão, a sensibilidade e a vontade, o temperamento e a intelligencia, combatem-se, ás vezes dilacerando-se. Eis ahi a explicação d'esta poesia que é o retrato vivo do homem. O genio, esse _quid_ divinatorio, que não é honra para nenhuma creatura possuir, porque só nos dá merecimento aquillo que ganhámos á força de intelligencia e de vontade; o genio, que é uma faculdade tão accidental como a côr dos cabellos, ou o desenho das feições; o genio, que pode andar ligado a uma intelligencia mediocre, mas que o não anda no caso de Anthero de Quental--é o predicado particular e a chave do enygma d'este homem. O genio presuppõe a intuição de uma verdade visceral ou fundamental da natureza. Essa intuição, essa aspiração absorvente, é para o nosso poeta a synthese da verdade racional ou positiva e do sentimento mystico: uma poesia que exprima o raciocinio, ou antes uma philosophia onde caibam todas as suas visões. O proprio do genio é querer realisar o irrealisavel; é ser chimerico, no sentido critico da palavra, quando por chimera entendemos uma verdade essencial que não pode todavia reduzir-se a formulas comprehensiveis, ou uma cousa cuja realidade se sente, sem se poder ver. Dos aspectos quasi inexgotavelmente variaveis d'esta singular phisionomia de homem, d'esta mistura excepcional de pensamentos e de temperamentos n'um mesmo individuo, resulta porém um typo de sinceridade e de rectidão mais singular ainda, porque mais facilmente podia resultar d'ella um grande cynico. É sobretudo um stoico, sem deixar de ter bastante de sceptico; é um mystico, mas com uma forte dose de ironia e humorismo; e um mysanthropo, quando não é o homem do trato mais affavel, da convivencia mais alegre; é um pessimista, que todavia acha em geral tudo optimo. Intellectualmente é a phisionomia mais dubia, complexa e contradictoria por vezes; moralmente é o caracter mais inteiro e melhor que existe. A sua intelligencia encontra-se permanentemente no estado de alguem que, querendo ir para um sitio, resiste por não querer ao mesmo tempo, sem todavia ter rasões bastantes para querer nem tambem para não querer. O nucleo da sua personalidade, se a encaramos pelo lado praticamente humano, está na energia do seu querer moral, e não na lucidez do seu pensamento; embora tenha a pretenção de julgar que a sua vontade obedece sempre á sua razão. É verdade que dentro de si tem permanentemente um espelho facetado que representa e critíca as modalidades do seu pensamento; mas, por isso mesmo, vê ou inventa faces de mais ás cousas, e tambem por vezes o cristal embacia. O que nunca esmorece é a bondade luminosa da sua alma. É um homem fundamentalmente bom.

no desejo chimerico da synthese. este homem soffreu! que singular hostilidade do mundo para com uma creatura humana!--E todavia o mundo nunca lhe foi propriamente hostil. penetrar-se. e até para o geral da gente em condições de felicidade. Longe d'isso. as luctas do dever com a paixão. esses que perderam os nervos da moralidade. procurando entender-se. ao ler as paginas d'este volume. ironico. A imaginação e a razão. felizes d'aquelles cuja inercia désse um livro comparavel a este! Mas é que as suas paginas foram escriptas com sangue e lagrimas! E doe ver a vida do mais bello espirito consumir-se em agonias de uma alma em lucta comsigo mesmo! O commum da gente. irrita-se ás vezes. as afflicções mais pungentes da saudade. ou não tem a energia correspondente á sua visão. do que a agonia de um poeta vendo passar diante de si. São fructos da imaginação. Depois de tudo isto dirão pessoas pouco dadas ao estudo do animal homem que Anthero de Quental é um assombro. desde o andrajo até ao velludo arrastado pela immundicie. descendo até á propria _charge_. combinar-se. desfaz toda a construcção. nenhuma desgraça o acabrunhou. As agonias dilacerantes da morte com as ancias do stertor. Os seus opusculos em prosa (da melhor prosa portugueza d'este tempo) têm em geral este caracter. Ainda assim. não ha ninguem como elle para soltar o carro da sua phantasia critica na ladeira de uma these. quando alguem lhe objecta um pequeno senão. e por isso ha apenas uma especie de homens que não sentem: são os cynicos. Vê de mais para poder ser activo. os horrores mais inverosimeis dos crimes monstruosos. Todas as afflicções têm o seu quê de imaginativas. placida. Elle proprio se embriaga. os anesthesiados do sentimento. a sua vida tem corrido serena. desde o cardo que dilacera os pés até ao punhal que rasga o coração: tudo isso é menos. são egualmente poderosas no seu cerebro para que qualquer d'ellas domine. não com as suas palavras.. irreductiveis nos cerebros humanos com as circumvoluções limitadas que contêm. com um dito. Não ha problemas mais difficeis do que os problemas do pensamento. as tristezas mais dolorosas da solidão. resiste. e.. Seria um orador. espirituoso. ou antes de philosopho. Luctam em permanencia. Conversador como poucos. que desgraças. os gritos do homem arruinado. são bem deduzidos--sem serem sufficientemente pensados. architectar uma theoria. defende-se. mas por fim é elle proprio que. tudo. seria verdadeiramente um assombro. são conversas escriptas. desde a miseria até á prostituição. e. atrophiando-lhe a energia activa. mas sim com aquella theoria passageira que inventou _ad hoc_. Se a tivesse. dirá então: Quantas catastrophes. quanto no mundo pode haver de doloroso. Tem demasiada imaginação para ver bem. humorista.A complexidade do seu espirito dá-lhe uma variedade de aptidões singular. original e suggestivo. a imaginação exacerbada vibra . em turbilhão medonho. d'essas conversas que durante horas seduzem os que o ouvem--porque é um _charmeur_. todavia essencial ao seu edificio logico. A sua força e a prodigalidade com que a natureza dotou o seu espirito. mas essa força é uma fraqueza. facil. desequilibram o homem. e. e por outro lado o raciocinio critico peia-lhe os vôos luminosos da phantasia. um jornalista de primeira ordem. se não tomasse apenas a sério a sua missão de poeta. tudo. É que o geral da gente não sabe que as tempestades da imaginação são as mais duras de passar! Não ha dores tão agudas como as dores imaginarias. São logicos. as lugubres miserias do mundo. os ais da orphandade faminta. Quando se é poeta como Anthero de Quental. espontaneo. nem crises mais dolorosas do que as crises do sentimento. explorando-a em todos os sentidos.

dominante hoje. de Vera-Hegel. e todavia tocavam! Nenhuma d'essas desgraças do mundo feriu a harpa da vida do poeta. Este poeta não se filia em escholas. terão o seu começo. solluça e grita. portanto. por um movimento do seu temperamento. Para não mais findar. têm o condão de o encher de enthusiasmo. Succedia. II Esta collecção de Sonetos é. de Quinet. porque pelas suas cordas passa o vento agreste das idéas. porem. contém em embryão todos os successivos. o ceu destino» diz n'um ponto. em sombras. Nenhum dedo lhes feria as cordas. Pois foi essa corrente. e a Coimbra chegavam por via de Paris os éccos do espirito novo. a outros ceus aspira: Se um momento a prendeu mortal belleza . E se ainda o dia. Alli. de 1860-2. systematicamente philosophico na Allemanha hegeliana. a luz.como as harpas que os gregos expunham ás virações da brisa nos ramos das arvores. Conta-nos as tempestades de um espirito. Tendo seu fim. «Seja a terra degredo. Denuncía uma alma sensivel. mas inquieto e perscrutador. ao mesmo tempo biographica e cyclica. vividas. O primeiro periodo. deixando antever a tempestade para o dia seguinte. nossos amores. mas a sua personalidade não se deixava absorver pelo optimismo que. ó Deus. expresso nas obras de Michelet. espontaneamente. e n'outro: Minha alma. Tudo isso fermentava no cerebro de Anthero de Quental. Romantica? De modo nenhum. e apresenta uns assomos de tristeza que são como os farrapos de nuvens quando velam intermittentemente o sol. vê no eterno feminino de que nos falla Goethe a synthese da existencia. Schopenhauer. afflictivo como os uivos de uma alcateia de lobos famintos. se espalhou na Europa. aquella em que o nosso poeta. da mesma fórma que as flores incluem em si a substancia dos fructos. passa o écco ullulante do egoismo dos homens. que n'esse tempo já os nossos bardos classicamente romanticos tinham passado da moda. é mister desconfiar de um homem mais caprichoso do que todas as mulheres. Aos dezoito ou vinte annos. depois dos romanticos. ignorante ainda. mas patenteia já a preoccupação metaphisica na sua phase rudimentar de duvida theologica. ninguem o lia. se achou levado. mas essas tempestades não são os quaesquer episodios particulares de uma vida de homem: são a refracção das agonias moraes do nosso tempo. não obedece a correntes litterarias: a sua poesia é exclusivamente pessoal. a idea pura Tropeço. Os seus amores já são phantasticos: só tem realidade no ceu. o sol _esposo amado_. lyricamente ingenuo no Occidente afrancezado. na imaginação de um poeta. porem. na materia dura E encontro a imperfeição de quanto existe. Estes primeiros sonetos são o balbuciar de uma creança. porque Pedindo á forma. em vão. e todavia essa harpa geme e chora. Não era moda. Esta nota é mais constitucionalmente verdadeira. etc. o poeta que desdenha sinceramente da fama e da gloria. ó lyrio dos celestes valles.

o _Idyllio_. Se estou cheio de fel e de tristeza. sem conseguirem porem estrangular os monstros que defendem os áditos do templo da Sabedoria. outras vezes furias de desespero. de orgia e de abatimento. O _Sonho oriental_. o _Palacio da Ventura_.É pela eterna patria que suspira. que umas vezes tem os sonhos dos que mastigam haschich. outros penaram eguaes dores. Nerval e Baudelaire viveram vidas inteiras n'esse estado de ironia e de sarcasmo. A nebulose do primeiro periodo começava a resolver-se n'uma tragedia mental. e tornar-se systema o que até ahi . O traço mais seguro de todos e o mais significativo está n'este verso: Que sempre o mal peior é ter nascido. artisticamente é a mais brilhante. Heine e Espronceda. Achando apenas silencio e escuridão onde tinham sonhado venturas. até de colorido. ficavam-se por aqui.. Talvez por isso mesmo que o estado de espirito do poeta o não obrigava a tirar tanto de si. Descobre-te.. nas suas imagens. para nos mostrar que o poeta não saiu ainda das espheras da representação elementar dos seres. como foi amarga esta epocha! Outros soffreram tambem. á maneira de Baudelaire. ou suicidavam-se como Nerval. cultivando com amor as _Flores do Mal_. cheio de dor. com fragor. porque Deus não passa ainda de uma interrogação: Pura essencia das lagrimas que choro E sonho dos meus sonhos! Se és verdade. vê-se a onda negra da desolação espraiar-se. e porque n'esta epocha viveu mais á lei da natureza. ou davam em bebedos como Espronceda. de furia e de atonia. Os sonetos d'esta primeira serie desenrolam-se no terreno da phantasmagoria transcendente. Psychologicamente é a menos original. são obras primas. visão. talvez por isso mesmo a sentiu e pintou melhor nas suas côres. Mas dentro encontro só. vê-se o «silencio e a escuridão» que antes surgiam como surprezas medonhas. para a esphera comprehensiva das abstracções racionaes. A segunda serie tem a data de 1862-6. mais ou menos satanistas ou satanisados. Meu pobre amigo. É de crer que só eu seja o culpado. bastam.. em si mesmo e no proprio modo por que estão expressas. no ceu ao menos! As luctas infantís d'este primeiro periodo para saber se Deus é ou não é verdade. De 1864 a 74. vê-se o espirito do philosopho reagir sobre o temperamento do poeta. de desespero e de raiva. Não acreditemos tambem demasiadamente n'isto.. n'esses dez annos em que a tempestade caminha. embora eminente. no regimen das cousas. que para ti representam quatro annos apenas! Mas é que não havia em nenhum d'esses homens a semente de abstracção que se descobre no _Palacio da Ventura_: Abrem-se as portas d'ouro. ironias como punhaes e gritos lancinantes: Se nada ha que me aqueça esta frieza. ganharem um logar apropriado. Silencio e escuridão--e nada mais! Os romanticos. ou faziam-se cynicos.

o Summo bem. o Verbo. a ironia transcendente. que todavia o poeta não terminou ainda. a sós comsigo.. Sabia eu tudo isso. anarchista como politico: é tudo o que fôr negativo. O seu pessimismo torna-se systematico: é uma philosophia inteira. Da sinceridade não é licito duvidar. Mas eu por mim não sei como me chamo.. mas essas linhas de estatuas incorporeas tem uma nitidez dantesca. levantam-se como auroras os sonetos stoicos. Deus responde aos atheus: Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil. A nevrose contemporanea. e foi isso o que lhe inspirou o bello _Hymno á Razão_. ridiculas creanças. diz assim: Chamam-me Deus ha mais de dez mil annos. o seu espirito attribulado não conseguiu manter o equilibrio. porque. para o curar mais tarde d'essa metaphisica. embriagados na negação universal. caindo esmagado pelo anniquilamento. quando define a _Idea_ acabando por estes versos diamantinos: A Idea. que por isso mesmo hesitamos em crer na consciencia com que o é.era furia. como expressão sentimental. apellou para as energias do seu instincto de homem. a que corresponde. ao lado dos sonetos crepuscularmente desolados. que produzira n'elle a terceira epocha.. quando chama ao sol «O claro sol amigo dos heroes». servir-lhe-ha a reacção do sentimento moral sobre a razão especulativa. que a experiencia o educava com mais de um caso doloroso ou apenas triste--apurava-se-lhe a imaginação até ao ponto de ver claramente o que para o commum dos espiritos são apenas concepções do entendimento abstracto. . e muito mais! No _Inconsciente_. Para curar o poeta da vertigem satanica serviu-lhe a methaphisica pessimista. A sua poesia despe-se então de accessorios: não ha quasi uma imagem. Anthero de Quental _ensimismou-se_ (para usar de uma feliz expressão hespanhola) metteu-se dentro de si. Na _Disputa em Familia_. mas contra a segurança depõe a propria violencia. sem se lembrarem de que são contradictorios no proprio facto de prégarem o que quer que seja? Ora a isto responde esta propria serie. é tudo o que fôr excessivo. Bom prenuncio. este heroe metaphisico. mas se poude galgar a saltos por entre a floresta incendiada que devorou e consumiu os satanicos. Quando pede _Mais luz_.. tão dogmatico e tão affirmativo. N'esta epocha Anthero de Quental é nihilista como philosopho. porque as suas exigencias de critico e philosopho (alimentadas agora por leituras variadissimas e profundas) contrariavam ou contradiziam as suas vizões de poeta. a Essencia Só se revela aos homens e às nações No ceu incorruptivel da Consciencia! sentimo-nos bem distantes das phantasmagorias do principio e das loucuras da viagem. Porem na lucta entre o temperamento de stoico e a imaginação metaphisica. e é-o de um modo tão terminante. não poderá tambem sair da steppe lugubre onde apodrecem os pessimistas. Á maneira que a intelligencia se lhe cultivava. dá de si ainda a quarta. ha apenas linhas. Luctando furioso contra a desillusão. que o saber lhe crescia.

d'esta epocha em tudo similhante á alexandrina. com aquella violencia propria de um caracter intermittentemente meigo e frenetico como o de uma mulher. por paradoxal que isto pareça. sorrindo já bondosamente. O Absoluto é o Nada. a realidade inteira. A theoria da Substancia levou-os a elles a uma concepção do Ser que produziu o mytho do Verbo christão. Sentia remorsos por alguma vez ter estado n'uma disposição de animo que agora considerava com horror.. Eis ahi o que a reacção moral conseguiu. são modalidades. Á bella luz da vida. Emerge a custo d'esse mundo morto E torna a olhar as cousas naturaes. Já me descança em paz o coração. D'esse naufragio onde se perderam verdadeiras obras-primas. e uma das linguagens da verdade. agora tem como expressão a ironia que é uma das formas conhecidas do saber. a religião mais philosophica e menos phantasmagorica inventada pelos homens. e fariam mal a muita gente. e salvei-as porque as possuia entre os originaes remettidos em cartas. depois de tanta lucta. primeiro cobertos de espuma. No periodo anterior a negação era violenta e terminante. acompanhada pelo esclarecimento da razão.. que só se tornam verdades racionaes quando nos . Ora hoje tudo isso vale apenas como documento historico. salvei eu as poesias que vão no fim d'este ensaio. Anthero de Quental resolveu destruir todas as suas poesias _lugubres_. vemol-o agora na pelle de um pessimista systematico. encarnado popularmente em Jesus-Christo. e. assim absorto. pois. depois nos appareciam brancos de agonias. O Universo. É por este motivo que o buddhismo attrae hoje em dia todos os espiritos a um tempo racionalistas e mysticos. Destruiu-os. a evolução do pensamento creador na segunda metade do nosso seculo? Quando escreveu o primeiro soneto da quarta serie (1880-4) Já socega. invectivando-os pelos terem creado. O Nirvâna é o ceu do buddhismo. segundo a metaphisica contemporanea. houve um progresso. Mas os deuses com voz ainda mais triste Dizem:--Homens! porque é que nos creastes? Como se vê. e mais de uma vez como texto de noticias do estado do seu espirito. Entendia que esses versos tetricos não podiam consolar ninguem.Na _Divina Comedia_ os homens queixam-se aos deuses do que soffrem. Que especie de paz era porem essa em que o seu coração descançava? Era o _Nirvâna_: E quando o pensamento. Não tinha eu razão para chamar cyclica a esta collecção de sonetos? Não tem sido este o movimento das idéas. transformado em um nihilista. aspectos fugitivos. o Não-Ser é. ampla. com a ironia n'esses proprios labios que. O antigo poeta satanico. a essencia de tudo o que existe. da intelligencia e do conhecimento. ou cartas rimadas. infinita Só vê com tedio em tudo quanto fita A illusão e o vasio universaes. menos no volume do saber positivo que já se não compadece com muitas das theorias sobre que os néoplatonicos especulavam.

Sobre desertos. A existencia está pois consagrada racionalmente: falta consagral-a sentimentalmente. talvez os mais bellos de todo o livro. e o Nirvâna. soledade. esse ideal é a Liberdade. com effeito. agitando-se. e o buddhismo é a única religião que attingiu esta conclusão. evolução que seria absolutamente inexpressiva se não tivesse um destino. desde que existe e trabalha. racionalmente absurda. na esphera do sentimento. Nada é egual a Nirvâna. movendo-se na direcção do anniquilamento final. O Universo está pois construido e sanctificado na mente do poeta e na razão do philosopho. absolutamente affirmativo. Porém o coração feito valente Na escola da tortura repetida. com effeito. Esse destino. E no uso do penar tornado crente. E como é pelos accidentes apenas que nós. Na esphera do invisivel. é o Nada transcendente. O Nirvâna é esse estado em que os seres. summaria do pensamento scientifico moderno. puro Não-Ser para a intelligencia. as conhecemos. O pessimismo torna-se d'esta fórma um optimismo gigantesco. toda a inercia é condemnada. o termo de todas as vidas--a morte. por serem . o soneto _Evolução_) desde a rocha até ao homem. o symbolo e o vehiculo de toda a perfeição e virtude: radicalmente negativo na esphera da razão. adquirem a não-realidade (o não-contingente) e com ella a existencia absoluta e a absoluta liberdade. condições que os limitam distinguindo-os entre si. A tempestade acalmou. Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão. A theoria do progresso indefinido é. despindo-se de todas as suas modalidades e accidentes. é. um ideal.apparecem despidas de todos os accidentes. é. Morte libertadora e inviolavel! e ver-se-ha quanto estamos longe do desespero tragico de outros annos. move-se e agita-se no sentido de uma liberdade evolutivamente progressiva até attingir a plenitude. como critico. idealisada agora e tornada luminosa e appetecivel por essa idealisação. da intangivel. a realidade verdadeiramente e em si é Nada. e comprehender-se-ha melhor o que fica dito. progride sempre. se é isto a vida. para o sentimento moral. para os neo-buddhistas. no termo. um fim. vacuo. Na communhão da paz universal. Essa liberdade é o typo e a essencia da vida espiritual. conciliada a visão com a razão. Vôa e paira o espirito impassivel presidindo á evolução dos seres (V. distinguindo-as. de todas as condições de realidade. mas progride em tres estradas parallelas que. o problema resolvido. e que nos não resta mais do que fazermo-nos todos buddhistas? Supprema illusão! Creia-o embora o poeta: eu. Nem foi de mais o desengano e a dor. e o systema das cousas. Religiosamente. Leia-se o _Elogio da morte_ Dormirei no teu seio inalteravel. Leiam-se os dois sonetos _Redempção_. O Universo é uma grande vida que tem. Dir-se-ha portanto que a chimera de que a principio fallámos ficou desvendada. Falta ainda ao systema um medianeiro: é o Amor. observando que o pensamento humano.

porém. preferindo a harmonia mais ou menos equilibrada.parallelas. tem na cabeça uma imaginação mystica. o inferno do christianismo. e. E deixa-me sonhar a vida inteira! A visão é a Virgem Santissima. ou mais ou menos claudicante do hellenismo. Estes tres temperamentos são correspondentes a typos eternos e irreductiveis da consciencia humana. nem é affirmativo. e que da coexistencia necessaria d'elles resulta um terceiro--o sceptico. em se tirando a metempsycose ao buddhismo. Ao christianismo. incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte. Ó visão. tirando-se-lhe tudo quanto a imaginação semita deu para a sua formação. o dever como uma condição da vida. Dorme o teu somno. saturado de sciencia e derreado de cogitações. isto é. o critico. o christianismo. entre os europeos. soffreriamos as agonias. considerando a existencia como um compromisso. Em prosa. Pobre humanidade. tão verdadeira. nunca podem encontrar-se. e a poesia é tão sincera. e por isso não tem côr. á orgia desenfreada dos orientaes. dando-se melhor com a natureza do que com a phantasmagoria. Dorme na mão de Deus eternamente! . racional ou imaginativamente concebido. g. tendo no peito um coração activo. por que a corôa não nos póde assentar na cabeça. por isso mesmo que todo o nosso conhecimento racional das cousas assenta apenas sobre axiomas do senso commum--ao passo que. D'este cruel estado vêm os documentos que attestam a transformação soffrida pela ironia dos periodos anteriores. e declaro que nunca vi cousa parecida posta em verso. hade eternamente satisfazer melhor os scepticos e os naturalistas. Fundar o principio da acção na inercia systematica. e. que eu sei de mais de um livro de resas onde andam copias escriptas. só é praticamente acceitavel para o commum de homens quando acreditem na metempsycose. ha mais de um periodo de Renan inspirado por um espirito similhante. «Um hellenismo coroado por um buddhismo» eis a formula com que mais de uma vez Anthero de Quental me tem exprimido o seu pensamento--a sua chimera! Chimera. mas tambem a fraqueza como uma condição dos homens. a realidade no não-ser. assim chorosa. o buddhismo reduz-se a uma nevoa de abstracções. para obedecer ao pensamento. cujo numero é e foi sempre infinitamente maior. sem poder tambem esmagal-o sob o mando da intelligencia. como directo herdeiro do hellenismo. a vida no anniquilamento. digo. dogma tão infantilmente mythico do buddhismo como v. tão cheia de piedade e uncção. visão triste e piedosa! Fita-me assim calada. um idealismo mais ou menos pantheista e uma theoria moral--cousas que eu não affirmo que resistam a uma analyse rigorosamente logica. atrevo-me a affirmar a irreductibilidade do mysticismo. Atrevo-me a dizer que estes dois feitios ou temperamentos são constitucionaes do espirito humano. fica ainda o hellenismo. tortura o coração. sob pena de a crivar de espinhos e de a deixar escorrendo sangue. embora menos agudo. e do naturalismo. experimentariamos as afflicções do poeta que. Que nome se hade dar ao sentimento que inspira os sonetos _Á Virgem Santissima_ e o _Na mão de Deus_ que fecha o volume? Eu por mim chamarei humorismo transcendente a essa liga intima da piedade e da ironia. coração liberto. se o buddhismo é a melhor religião para um mystico do seculo XIX. ponderada ou orgiacamente realisado. se se visse condemnada á coroação buddhista! Nós europeos. o que provêm da comparação de ambos.

fundida a ponto de não distinguir uma arvore de um cazal. nem Anthero de Quental o é. pois. a nossa intelligencia. quando as olhamos das cumiadas luminosas da critica. impassivel ao analysar e classificar os phenomenos do espirito humano. o phenomeno? Por acaso subiu já o leitor ao cume de um monte sufficientemente alto para que toda a paysagem lhe apparecesse á vista. os nossos pensamentos. Blasphemar era bom n'outros tempos.. Esse trabalho.Um monge christão escreveria isto. E Anthero de Quental nem é christão. ha-de misturar ao sorriso que provocam todas as vaidades e illusões. é mais que provavel que o declinar da vida de Anthero de Quental enriqueça o peculio por signal bem pobre da philosophia portuguesa com algum trabalho tão digno de se conservar na memoria dos tempos. não importam os accidentes. egualmente santas e egualmente humoristicas. para aquelle que tem coração para sentir as cousas por dentro. como estes _Sonetos_ que são as amargas flores de uma mocidade. o amor que merecem todos os sentimentos ingenuos e fundamentalmente bons. e como a sua alma é san e a sua intelligencia firme e sempre activa. . e Deus finalmente incomprehendido. exigindo que o homem seja activo. E eis ahi as razões porque eu não sou buddhista. hade alliar á comprehensão da nullidade extrinseca das cousas. a que eu prefiro chamar impassibilidade subjectiva: um estado que permitte comprehender todas as cousas. trouxe ao espirito do poeta uma paz illuminada de bondade e sabedoria. esta longa e tempestuosa viagem atravez do mar tenebroso da phantasia metaphisica. nem crê em Deus. acima de tudo. Cada qual sente-o a seu modo. simples e fugitivas contingencias. o Nirvâna apenas intellectual. porque a actividade é boa por ser indispensavel á saude do espirito.. segundo o sentido ordinario da palavra crer. e olhos para as ver de fora--objectivamente. quando considerados em si proprios e isoladamente. Deus percebido pela intelligencia vulgar. A edade. porem. porque a sabedoria nos diz que toda a pretenção de Verdade é illusoria. nem na Virgem. como os allemães dizem. Vêem-se as cousas na sua essencia. pela sabedoria. e sabio é aquelle que se limita a registrar as relações das cousas. finalmente para o _exercicio litterario_ nunca se inclinou a penna que o poeta molhou sempre no seu sangue. consoante a natureza e o estado de educação dos homens. Como explicar. não pode ser nenhuma revelação milagrosa do _verdadeiro_ systema. uma planta ou um animal. analysando-as e classificando-as. o architecto universal dos pensadores livres. e nós diremos criticamente. para a ironia tambem a idade passou. a imagem perante a qual se prostra o commum dos crentes. a comprehensão da sua excellencia intrinseca. é loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. parece ter concluido. sem todavia nos transmittir essa especie de frialdade de coração. E todas essas modalidades de uma mesma impressão. pois sendo nós. O fetiche que o selvagem adora. O philosopho. Deus percebido pelo saber incipiente. não será um cathecismo buddhista. propria dos naturalistas quando estudam uma rocha. segundo o seu temperamento. Eis ahi a suprema liberdade do espirito. são egualmente verdadeiras. e finalmente esse _quid_ innominado a que a philosophia moderna chamou Inconsciente--tudo isso é egualmente Deus: sómente é Deus percebido pela imaginação infantil. recebida e representada de fórma diversa. embora julgue sel-o. talvez. A evolução dolorosa que terminou com o seu ultimo soneto. embora os objectos da actividade sejam as mais das vezes irritos e nullos. mas sentido. nem um rio de um valle sem curso de agua? Pois succede assim nas campinas da historia do pensamento humano.

Não sei que voz. e a sua lingua perdeu o habito de fallar portuguez. Um dos nossos mais queridos amigos. Exige uma porção de sentimento ingenuo que já não ha nos ares que respiramos. que eu mesmo desconheço. a que hoje se chama dissidentes. reunido. Deus sem vontade. um dos que conhecem de perto Anthero de Quental--e sómente o conhece quem com elle viveu largo tempo na intimidade--interroga-me geralmente d'este modo: «E _santo_ Anthero. sem intelligencia e sem consciencia. as afflicções. se tivesse vivido no seculo VI ou no seculo XIII. a caridade. porque a todos os tempos foram indispensaveis os herejes. as tentações. no logar do coração. as lagrimas. que o não sou. igual a cousa nenhuma. _Oliveira Martins_. No seculo XIX é um excentrico. a vida asceta inclusivamente: essa virtude austera para comsigo. a quem são vedados os mysterios da metaphisica buddhista. e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem. é. embora indifferente com frequencia. Em segredo protesta e affirma o Bem. que sondo e meço. pousar o olhar da alma sobre um d'estes sonetos e não sentir o que os sequiosos sentem ao encontrarem um arroio de agua limpida. seria um dos companheiros de S. fundamentalmente bom. é por que tem dentro do peito. mas eu. E para nada faltar a este mystico. é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido. como n'uma oração. roçando os braços pelas arestas cortantes que a erriçam de angulos. porem. as crises. tenho a pôr embargos. o amor. Somente o seu Deus. Só no meu coração. as duvidas cruciantes e as dores angustiosas: tudo o que. Bento ou de S. esse observar constante de si proprio e o dispensar de um sorriso sempre bom. porque a santidade não é planta adequada ao clima do nosso tempo. para nós outros. tem tambem uma fé ardente--uma fé buddhista. A vida contemplativa. a abnegação. OS CAPTIVOS .III Quem deante d'estes versos não sentir elevar-se-lhe o espirito. mas d'esse feitio de excentricidade que é indispensavel. anachronicamente perdido no meio do borborinho de um seculo activo até á demencia. no meio do lidar da vida. Quem. Francisco de Assis. áquella especie de Deus que é compativel com o seu temperamento ou com o estado de educação do seu pensamento. um seixo polido e frio. Quem. aos que alguma vez o rodeiam. Este homem. é porque tem a alma feita apenas de egoismo. forma uma alma mystica--tudo isso móra na alma d'este poeta arrebatada pela visão inextinguivel do Bem. deitar os olhos sobre estas paginas. emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente. tolerante para com tudo e para com todos. como vae?» Dil-o com a convicção quente dos artistas.

E os captivos suspiram. E dizem os captivos: Na amplidão Jamais se extingue a eterna claridade. Como absortos em pensamentos graves. A ave tem o vôo e a liberdade. o abysmo. lentamente. Como quem soffre e cala algum tormento. a escuridão. Já com raios obliquos. Como vagos desejos indistinctos. em jorro. fugitivos.Encostados ás grades da prisão. Surge e perpassa esquivo e inquieto. Como quem ama e vive inconsolavel. primitivos vos attrahem? Que luz fitaes no centro d'onde saem A flux.. vagamente. E dizem os captivos: Que tristezas. á escuridão. Surgem do escuro os astros. O homem tem os muros da prisão! Aonde ides? qual é vossa jornada? Á luz? á aurora? á immensidade? aonde? --Porém o bando passa e mal responde: Á noite. Como absortos em intimos cuidados. A tristeza das cousas.. E dizem os captivos: Que problemas Eternos. mysteriosos.. Surge o vento. Como quem traz algum pezar secreto.. Caminheiro de estradas infinitas. Cae do espaço. Contemplam-se de longe. Despede o sol um ultimo clarão. Bandos de aves Passam velozes. em silencio indecifravel. o abysmo. Entre sombras. no longe. lentamente.. Te levam a gemer pelas devezas? Tu que procuras? que visão sagrada Te acena da soidão onde se esconde? --Porém o vento passa e só responde: A noite. o nada!-- . E fitam-se. a escuridão. pesada. Morrem as vozes na extensão saudosa. que desditas. ao nada!-E os captivos suspiram. Que segredos antigos. silenciosa. Como quem tem segredos dolorosos. ao abysmo. Como antigos pezares mal extinctos. o nada!-E os captivos suspiram novamente. as intuições supremas? Por que esperaes? n'essa amplidão sagrada Que soluções esplendidas se escondem? --Porém os astros tristes só respondem: A noite. passam apressados.. Olham o céo os pallidos captivos.

Pela justiça heroica.Assim a noite passa.. Irmãos. erguendo os braços. amei--amei e fui amado. com mão potente. como os que moram Entre os astros.» Responde-lhe o segundo cavalleiro. os captivos Olham o céo e choram silenciosos. E o primeiro dos tres. em gotas. Como em carro de luz. Em desalinho trazem os vestidos. contente e bom. pelos espaços! Com largo vôo. Têm os corceis poentos e abatidos. E corre lentamente um sangue esquivo Em gotas. Cae a noite do céo. arrebatado. traiçoeira e pavorosa. Encostados ás grades. Diz n'um soluço: «Amei e fui amado! Levou-me uma visão. A derrota. No horisonte escuro do poente Destaca-se uma mancha sanguinosa. Por isso vago incerto e fugitivo. de meu peito alanceado. Das feridas lhe cae o sangue. OS VENCIDOS Tres cavalleiros seguem lentamente Por uma estrada erma e pedregosa. . na eterna primavera. Porque irrompe no azul do puro amor O sopro do desejo pestilente? Ai do que um dia recebeu de frente O seu halito rude e queimador! A flor rubra e olorosa da paixão Abre languida ao raio matutino. Vacilam-lhes nas mãos as armas rotas. Livre. Geme o vento na selva rumorosa.. Pelo direito. Rumorosos Susurram os pinhaes meditativos. ao mundo inteiro. Mas seu profundo calix purpurino Só reçuma veneno e podridão. penetrei na esphera Onde vivem as almas que se adoram. Com sorriso de tragica amargura: «Amei os homens e sonhei ventura. ergui a voz ardente No meio das revoltas homicidas: Caminhando entre raças opprimidas. As fontes lhes curvou. pesadamente.

Que vento de ruina bate os muros Do templo eterno.Fil-as surgir. com ancia e sobresalto. com fé profunda. frios e escuros! Vacila o sol e os santos desesperam.. Irmãos.... desfolhando as rosas-- . Por isso vago sem conforto e incerto. amei a Deus. com fragor e espanto. Procurei-o. Sondando mil sciencias duvidosas. Arrastando entre as urzes do deserto Um corpo exangue e uma alma moribunda. unindo a voz n'um ai supremo. o livro do futuro. O povo dorme em paz no seu monturo. N'um gesto inerte de abandono extremo. E deixando pender as mãos cançadas Sobre as armas inuteis e quebradas. amei os homens e contente Por elles combati. Quando ha de vir o dia da justiça? Quando ha de vir o dia do resgate? Trahio-me o gladio em meio do combate E semeei na areia movediça! As nações. Tedio reçuma a luz dos dias vãos.. com mente justa. como um clarim fremente... Sumiram-se na sombra duvidosa Da montanha calada e formidavel. Por isso morro á mingoa e a areia adusta Bebe agora meu sangue. Sumiram-se na selva impenetravel E no palor da noite silenciosa. Como em leito de purpura real. Fiz do seu nome fortaleza e escudo No combate do mundo traiçoeiro Invoquei-a nas horas affrontosas Em que o mal e o peccado dão assalto. ENTRE SOMBRAS Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim --A noite desce. desabam. Os astros pelo céo. Abrem. ingloriamente.» Diz então o terceiro cavalleiro: «Amei a Deus e em Deus puz alma e tudo. o templo sacrosanto? Rolam.. com sorriso bestial. Ai dos que juntam com fervor as mãos! Ai dos que crêem! ai dos que inda esperam! Irmãos. sem ler.» E os tres.

n'um pasmo doloroso absorto --A noite é erma como campa enorme-Fito-a com olhos turvos de quem dorme E respondo: Bem sabes que estou morto! HYMNO DA MANHÃ Tu. ás horas duvidosas. em tua busca. A noite solitaria... irmã do desespero. Uma visão. onde astro não palpita. Assim me fala essa visão nocturna --No vago espaço ha vozes dolorosas-São as suas palavras carinhosas Agua correndo em crystalina urna. Porque eu habito a região distante --A noite exhala uma doçura infinda-Onde ainda se crê e se ama ainda.. O vacuo mudo. com azas de setim. pobre amigo.. Mas eu escuto-a immovel.. E diz-me essa visão compadecida --Ha suspiros no espaço vaporoso-Diz-me: Porque é que choras silencioso? Porque é tão erma e triste a tua vida? Vem commigo! Embalado nos meus braços --Na noite funda ha um silencio santo-N'um sonho feito só de luz e encanto Transporás a dormir esses espaços. Fito-a. somnolento --A noite verte um desconsolo immenso-Sinto nos membros como um chumbo denso.. densa.. luz immaculada! Mas a mim pões-me tu tristeza immensa No desolado coração.Vem ter commigo.. casta e alegre luz da madrugada.. E enche de força o coração triumphante Dos que ainda esperam. Habito ali. pura e vibrante. Mais quero A noite negra. E mudo e tenebroso o pensamento. . Onde uma aurora igual brilha constante. cresce no céo. e tu virás commigo --Palpita a noite n'um clarão que offusca-Porque eu venho de longe. immovel.... Sobe. Trazer-te paz e alivio... Pousa de leve a delicada mão --Rescende amena a noite socegada-Pousa a mão compassiva e perfumada Sobre o meu dolorido coração.

Porque nas trevas sonda. miserias. fita em paz serena O vacuo augusto.. de queixas. Ponham outros seu bem.. da universal traição. D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada. de agonias! O sol.. de terrores! que são feitos? de illusões.. Onde sómente ha dor e falsidade. E adormece o proprio pensamento. nem susurra o vento. Como reu o renega e o condemna. E. O nada universal o pensamento. . como quem está já morto. radiante luz. Que envolve o mundo e o coração humano Em rede de mil malhas. sua confiança Nas promessas e a luz dos dias vãos. com fé. inexoravel semeador.. Do que a luz matinal. com esperança... luz formosa! Antes nunca existisses! e o Universo Ficasse inerte e eternamente immerso Do possivel na nevoa duvidosa! O que trazes ao mundo em cada aurora? O sentimento só. Eu não! Ao ver-te. Mas tu. De que és symbolo tu? do eterno engano. E virando-se. E olvida. penso: Que agonia E que tortura ainda não provada Hoje me ensinará esta alvorada? E digo: Porque nasce mais um dia? Antes tu nunca fosses.. de dores. mysteriosa! Symbolo.. Porque a noite é a imagem da Verdade. placido e divino. Outros estendam para ti as mãos. de maguas... Que anceia o mundo. a luz bemdita! Porque a noite é a imagem do Não-Ser.Nem ave canta. Do insaciavel desejo. farto de soffrer. luz gloriosa. fixo e absorto... Imagem do repouso inalteravel E do esquecimento inviolavel. incuravel impotencia. Tu.. só a consciencia. que o devora! De De De De que são feitos os mais bellos dias? combates. interrogando intrepido o Destino. Que está além das cousas transitorias. D'uma eterna.. E despreza o viver e o seu tormento.. mãe da Vida e mãe da Illusão. Supplicantes. Das paixões e das formas illusorias. sim.

Serena luz. vomitando Contra o céo. chorando aniquilados As lagrimas caladas dos vencidos! E porque? para que? para que os chamas.. mas esquecidos. percorre o espaço. Em ondas de cruel fecundidade.. Para a luz matinal as armas novas. Da antiga podridão do chão fatal. De ardor carnal e de attracções poeticas. É esse aroma que envenena o mundo! Como um clarim soando pelos montes. Onde é vencida sempre e nunca extincta! Quantos erguem n'esta hora. Pedindo a lucta e as formidaveis provas. Uma extrema e importante imprecação! Quantos tambem. com que os inflamas? Para serem o brinco d'um só dia Na mão indifferente do Destino. Ha-de a noite encontrar. Com as falsas visões.. colerica.Sem jamais se cançar.... mortal Lhe reçuma da seiva peçonhenta. A aurora acorda. E em borbotões lhe jorram do regaço As sementes innumeras da Dor! Oh! como cresce. faminta. As miserias da terra: e a hoste horrivel. . Alegres e crueis e sem remorso. Que esta tarde ha-de ver. sós e encostados A algum marco. placida e inflexivel. Uma fragrancia morbida. Com a força e a subtil tenacidade Invencivel das plantas venenosas! De podridões antigas se alimenta. no páramo enfadonho. magneticas. em ondas voluptuosas. com esforço. Á vida incerta e á lucta inexpiavel. Enchendo de clamor e horisontes. ó luz inexoravel. Torva. de pé. Clarão de fogo-fatuo repentino.. A seara maldita! como treme Sob os ventos da vida e como geme N'um susurro monotono e plangente! E cresce e alastra. com o sangue miserando. E é esse aroma languido e profundo. no duro chão Cahidos e sangrentos. Para serem. cega. Surge mais uma vez e arma-se á pressa Para o bruto combate. Feito de seducções vagas. Cruzando entre o nascer e a agonia. que não cessa. sob a luz ardente..

. para o peccado. Me envolves. de illusões: e vacillante. Que esconde. por toda a parte. A meus olhos. E beijou-me em silencio. Com seu olhar sem cor. Tomou-me nos seus braços sepuleraes. Sob o eterno sorriso o eterno Mal. Tomou-me sobre o seio ermo e vasio. me penetras. De olhos sem cor.. O gelo Do seu bafo seccava mais que o fogo. és triste triumphante! e as seducções.... já marcado Para a dor. longamente.Á luz de astros malignos e enganosos. Dentro em meu coração inerte e exangue Um silencio de morte se engolfava. a carne logo Myrrou-se e encaneceu-se-me o cabello. Como tocha esquecida que allumia Vagamente uma crypta monstruosa. sê maldito! A FADA NEGRA Uma velha de olhar mudo e frio. e em vão. Longamente me unio á face fria. Um grande mar de nevoa. Como sombras correndo atraz d'um sonho. Causas-me espanto a mim. Como um bando de espectros lastimosos. E a luz do sol como um luar de mortos. causas-me horror. de labios glaciaes. de illusão. para o mal.. Symbolo da existencia... nas moventes perspectivas. com amor. Oh! como a minha alma se estorcia Sob os seus beijos. Symbolo da Illusão. Surges em vão.. E não te posso amar--não quero amar-te! Symbolo da Mentira universal. ó luz do dia. . Meus ossos confrangeram-se. és baça e luctuosa E amarga ao coração. Da apparencia das cousas fugitivas. que me fitava. O mundo pareceu-me uma visão... dolorosamente! Onde os labios pousou. A Fada negra me qualhou o sangue.. que do infinito Fez surgir o Universo. E volvendo em redor olhos absortos. do teu manto A meus olhos. Oh! não! luz gloriosa e Sacode embora o encanto Sobre mim.

Que és tu aqui? olhar de piedade. Não é mortal o que eu em ti adoro.. Inerte e já da cor d'um moribundo. bemdita sejas tu! Bemdita sejas tu pela agonia E o lucto funeral d'aquella hora Em que eu vi baquear quanto se adora. visão. Ruina aerea que sacode o vento. E quanto adora quem adora o mundo. sorrir.. pela paz austera D'um morto coração..Como o espectro d'um mundo já defuncto. que nada espera. nevoento... nua e velha. ao céo ao menos! . Pura essencia das lagrimas que chóro E sonho dos meus sonhos! se és verdade. pender.. Dentro em meu coração. Brilho e ventura.. Ó sonhada visão d'esta alma ardente.. Fada negra. Vi de que noite é feita a luz do dia! Pelo pranto e as torturas bemfazejas Do desengano. pobre crente. Lá como sobre o mar o sol se espelha? O mundo é grande--e esta ancia me aconselha A buscar-te na terra: e eu. Sem cor. Um farrapo de mundo. esperar..... cahir. sem consistencia. sem conjuncto.. Eu vi tudo oscilar. n'esse momento. Fez-se um buraco enorme--e n'esse abysmo Senti ruir não sei que cataclismo.. bemdita sejas! *1860--1862* IGNOTO DEO Que belleza mortal se te assemelha. Pelo mundo procuro um Deus clemente. Como um universal desabamento. Que reflectes em mim teu brilho ingente. Nem deseja tambem. Gota de mel em taça de venenos. Razão! velha de olhar agudo e cru E de halito mortal mais do que a peste! Pelo beijo de gelo que me deste. Mas a ara só lhe encontro. Descobre-te.

Serei filho. Revolto mar ou golfo congelado....... como o oceano é largo e fundo. quando passa incerta peregrina.. Do teu limpido olhar na luz radiosa. filha.. Aonde ha ser de Deus tão olvidado Para quem paz e alivio o céo não tenha? Deus é Pae! Pae de toda a creatura: E a todo o ser o seu amor assiste: De seus filhos o mal sempre é lembrado. Pousaste n'este solo angustiado. e eu só posso ser triste.. Anjo! Deu-te o Senhor um mundo á parte. E comtudo nossa alma. O cális amargoso da desgraça. mulher! o que é vedado. mas filho abandonado! A M. a mim o que me ha dado? Voz... que te cante. e uma alma para amar-te! A Santos Valente Estreita é do prazer na vida a taça: Largo. pelo mundo.C. descendo na onda harmoniosa.LAMENTO Um diluvio de luz cae da montanha: Eis o dia! eis o sol! o esposo amado! Onde ha por toda a terra um só cuidado Que não dissipe a luz que o mundo banha? Flor a custo medrada em erma penha. a quem deu olhos para ver-te. E a mim. posso eu acaso merecer-te? Deu-te o Senhor. sê formosa!» E tu.. E disse-te: «vae. de amor velado. Sem poder mais. Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa: O que fada o poeta e o soldado Volveu a ti o olhar. Mas eu. E como elle em venturas infecundo. . Ah! se Deus a seus filhos dá ventura N'esta hora santa. Estrella envolta n'um clarão sagrado.

Porque a miragem cria. Logo outra lembra de mais puros gosos. E comtudo a illusão impoz à vida. Minguar. ASPIRAÇÃO Meus dias vão correndo vagarosos Sem prazer e sem dôr. a maior nau ou torre. embora a dôr me fira. a idea pura. bem como a nuvem que erra Ao pôr do sol e sobre o mar discorre. É com essa esperança que se abraça. na ardente lida.Prazer só pede à vida. e até parece Que o foco interior já desfallece E vacilla com raios duvidosos. se a belleza aqui nos apparece. olhando aos pés a terra E o mar... E manda buscar luz e dá-nos treva! Ah! se Deus accendeu um foco intenso De amor e dor em nós. na materia dura. Porém do presentir dá-me a certeza... em sombras. ou porque a leva? Tormanto do Ideal Conheci a Belleza que não morre E fiquei triste. amor fecundo. Mas. É lei de Deus este aspirar immenso.. Tropéço. ó Deus! a outros céos aspira: Se um momento a prendeu mortal belleza. Eu sempre bemdirei esta tristeza! . E nunca ao peito amante o amor fallece. em vão.. É bella a vida e os annos são formosos. sob a luz que jorre: Assim eu vi o mundo e o que elle encerra Perder a côr. Pedindo à fórma.. Dá-ma! e sereno. vê tudo. Recebi o baptismo dos poetas. É pela eterna patria que suspira. E assentado entre as fórmas incompletas Para sempre fiquei pallido e triste. fundir-se. Como quem da serra Mais alta que haja.. E encontro a imperfeição de quanto existe. Minh'alma.

. que aspiro a elle.. E o que as segue. Vejo que são bem como arteira dama.. meu pae e abrigo! espero!. acção. Ha-de fugir-me. Se é lá do amor o foco. que o chamo. Quem pela noite andava desgarrado. No céo. Elle. Luz. essa vem d'alma! PSALMO Esperemos em Deus! Elle ha tomado Em suas mãos a massa inerte e fria Da materia impotente e. No céo. eu creio! A M. Nasce do orgulho aquelle esteril goso E a gloria d'elle é cousa fraudulenta. para as magoas de quem soffre tanto.. Que a prece escuta e encharga o nosso pranto. e a mim... n'um só dia... movimento. Mas a gloria do amor. Que anceio por mais vida e maior brilho. tudo lhe ha dado. Céo. como homem leviano Que por um vão prazer deixa quem ama. puro e santo. Que sob honesto riso esconde o engano.A FLORIDO TELLES Se comparo poder ou ouro ou fama. Como quem na vaidade tem a palma: Tem na paixão seu brilho mais formoso E das paixões tambem some-o a tormenta. mas que não devora.. que o amo.. como a ingrato filho? Ó Deus.. se existe um céo para quem chora. ha tributado Desvelo e amor: elle conduz á via Segura quem lhe foge e se extravia.C. E a mim. a mim. Chama que brilha. Com aquele outro affecto soberano. Que amor se diz e é luz de pura chama. se uma alma n'esse espaço mora. ao mais pobre de alma.. Ha-de negar-me o termo d'este anceio? Buscou quem o não quiz. Venturas que em si têm occulto o damno..

Uma crença. que Ser vã toda a Em vez da luz Ser uma queda rege o escuro pensamento. Tem um laço que o prenda a este fadario. Para não mais findar. A Alberto Telles Só!--Ao ermita sósinho na montanha Visita-o Deus e dá-lhe confiança: No mar. Buscar. em tanto engano? Se uma hora crê de fé. terão o seu começo. Ali. achar a escuridade. Só!--Mas quem se assentou em riba estranha.. Mas passar. ó virgem! findarão meus males: Hei-de lá renascer.. solitario. é ser abandonado! . ó lyrio dos celestes valles! Tendo seu fim. que eu não sinto agora. lá tem inda a lembrança: E Deus deixa-lhe ao menos a esperança Ao que á noite soluça em erma penha. um desejo. A João de Deus Se é lei.. Longe dos seus. nova cada invento. nossos amores. É lei tambem. Isto é ser só. E só ter como certa realidade O que nos mostra claro o entendimento.. Só!--Não o é quem na dor.. No céo. e inda um cuidado. que estenda sobre nós o manto Do amor piedoso.Se ha Pae. quem nos cançaços. o desatino! Só Deus póde acudir em tanto damno: Esperemos a luz d'uma outra vida.. o céo destino. entre turbas... Seja a terra degredo.. só acha. inertes braços. que o tufão balança.. com desdem. O que ha-de a alma escolher. Mas cruzar. sempre buscar a claridade. o nauta. eu que pareço Aqui ter só nascido para dôres. pesquisa da verdade.. embora cru tormento. logo duvida: Se procura.... Espera um sopro amigo que o céo tenha.

. que sobre o abysmo anda suspenso. sempre! e o presente Nunca! Que seja esta hora em que se existe De incerteza e de dor sempre a mais triste.A J. se inclemente Essa hora. uma sombra mentirosa. em penhor. E só farte o desejo um bem ausente! Ai! que importa o futuro.. aos poucos. mulher. Se me foge.. que assim perdida Buscas em vão n'este ermo solitario? Que signo obscuro de cruel fadario Te faz trazer a fronte ao chão pendida? Nenhum! intacto o bem em ti assiste: Deus. pobre e triste... vou sacrificar. E animado de fogo mais intenso. C. te deu a formosura. Assim a vida passa vagarosa: O presente.. Porque descrês. Felix dos Santos Sempre o futuro. em que hei-de eu crer agora? A Alberto Sampaio Não me fales de gloria: é outro o altar Onde queimo piedoso o meu incenso. Assim. do sudario Te aperte o seio a dobra humedecida? Que visão te fugio. Bençãos te manda o céo em cada hora. E descrês do viver?. espectro impuro.. é presente. Se tu descrês. a aspirar sempre ao futuro: O futuro. e só á dor assiste?. Chega. é miragem enganosa.. A gloria! pois que ha n'ella que adorar? Fumo.. em que a esperança nos consiste. peor. E eu. Que só no teu olhar leio a ventura.. A M. Se me espera. De fé mais viva.. O que procuro.. qual é a esperança que não mente? Desventura ou delirio?. . da vida? Porque esse Hermon transformas em Calvario? Porque deixas que... do amor.

Que vislumbre nos dá do amor immenso? Esse amor que ventura faz gosar? Ha outro mais perfeito, unico eterno, Farol sobre ondas tormentosas firme, De immoto brilho, poderoso e terno... Só esse hei-de buscar, e confundir-me Na essencia do amor puro, sempiterno... Quero só n'esse fogo consumir-me!

A Germano Meyrelles Só males são reaes, só dor existe; Prazeres só os gera a phantasia; Em nada, um imaginar, o bem consiste, Anda o mal em cada hora e instante e dia. Se buscamos o que é, o que devia Por natureza ser não nos assiste; Se fiamos n'um bem, que a mente cria, Que outro remedio ha ahi senão ser triste? Oh! quem tanto pudera, que passasse A vida em sonhos só, e nada vira... Mas, no que se não vê, labor perdido! Quem fôra tão ditoso que olvidasse... Mas nem seu mal com elle então dormira, Que sempre o mal peor é ter nascido!

A M. C. Não busco n'esta vida gloria ou fama: Das turbas que me importa o vão ruído? Hoje, deus... e amanhã, já esquecido Como esquece o clarão de extincta chama! Foco incerto, que a luz já mal derrama, Tal é essa ventura: eccho perdido, Quanto mais se chamou, mais escondido Ficou inerte e mudo á voz que o chama. D'essa coroa é cada flor um engano, É miragem em nuvem illusoria, É mote vão de fabuloso arcano. Mas coroa-me tu: na fronte ingloria Cinge-me tu o louro soberano... Verás, verás então se amo essa gloria!

AD AMICOS Em vão luctamos. Como nevoa baça, A incerteza das cousas nos envolve. Nossa alma, em quanto cria, em quanto volve, Nas suas proprias redes se embaraça. O pensamento, que mil planos traça, É vapor que se esvae e se dissolve; E a vontade ambiciosa, que resolve, Como onda entre rochedos se espedaça. Filhos do Amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um presentir divino; Mas n'um deserto só, arido e fundo, Ecchoam nossas vozes, que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo.

A um crucifixo Ha mil annos, bom Christo, ergueste os magros braços E clamaste da cruz: ha Deus! e olhaste, ó crente, O horizonte futuro e viste, em tua mente, Um alvor ideal banhar esses espaços! Porque morreu sem eccho o eccho de teus passos, E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente? Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente Arrojáras de nova á campa os membros lassos... Agora, como então, na mesma terra erma, A mesma humanidade é sempre a mesma enferma, Sob o mesmo ermo céo, frio como um sudario... E agora, como então, viras o mundo exangue, E ouviras perguntar--de que servio o sangue Com que regaste, ó Christo, as urzes do Calvario?--

Desesperança Vae-te na aza negra da desgraça, Pensamento de amor, sombra d'uma hora, Que abracei com delirio, vae-te, embora, Como nuvem que o vento impelle... e passa. Que arrojemos de nós quem mais se abraça, Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora

D'essa alma o sangue, com que vigora, Como amigo commungue á mesma taça! Que seja sonho apenas a esperança, Emquanto a dor eternamente assiste. E só engano nunca a desventura! Se era silencio soffrer fôra vingança!.. Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, Talvez sem esperança haja ventura!

BEATRICE Depois que dia a dia, aos poucos desmaiando, Se foi a nuvem d'ouro ideal que eu vira erguida: Depois que vi descer, baixar no céo da vida Cada estrella e fiquei nas trevas laborando: Depois que sobre o peito os braços apertando Achei o vacuo só, e tive a luz sumida Sem ver já onde olhar, e em todo vi perdida A flor do meu jardim, que eu mais andei regando: Retirei os meus pés da senda dos abrolhos, Virei-me a outro céo, nem ergo já meus olhos Senão á estrella ideal, que a luz d'amor contém... Não temas pois--Oh vem! o céo é puro, e calma E silenciosa a terra, e doce o mar, e a alma... A alma! não vês tu? mulher, mulher! oh vem!

1862--1866

AMOR VIVO Amar! mas d'um amor que tenha vida... Não sejam sempre timidos harpejos, Não sejam só delirios e desejos D'uma douda cabeça escandecida... Amor que vive e brilhe! luz fundida Que penetre o meu ser--e não só beijos Dados no ar--delirios e desejos-Mas amor... dos amores que têm vida... Sim, vivo e quente! e já a luz do dia Não virá dissipal-o nos meus braços Como nevoa da vaga phantasia...

. flor. ...Nem murchará do sol á chama erguida. et cor meum vigilat. Do meu casebre á humida pousada?. Que não quero imperar nem já ser rei Senão tendo meus reinos em teu seio E subditos.. fulgente. A fronte que ao soffrer logo se inclina. A folhinha do til que se balança.. recendente.. Mas. A receber com pompa. Que és no juizo apenas a _criança_. flor do cardo. Mas que filha de reis. filha. dignamente. em teus bonecos! A SULAMISA Ego dormio. nem fadas. Pois que podem os astros dos espaços Contra debeis amores. Pouco mais.. Era a tua lembrança que batia Ás portas de ouro e luz do meu amor! PEQUENINA Eu bem sei que te chamam _pequenina_ E tenue como o véo solto na dança. que anjo ou que fada Era essa que assim a mim descia. Tanto me enchi de angustia e de receio Ouvindo do infinito os fundos ecchos.. Mysteriosa visita a quem aguardo. lá nos montes onde andei. Nem princezas. que a _menina_. CANTICO DOS CANTICOS.. Ungi as mãos e a face com o nardo Crescido nos jardins do Oriente. Que és o regato de agua mansa e fina. como um bardo.. se têm vida? VISITA Adornou o meu quarto a Perfumei-o de almiscar Vesti-me com a purpura Ensaiando meus cantos. O peito que em correndo logo cança. Era. nos vestidos. criança.

divagas ao luar. Tu. O aroma da magnolia e da baunilha Paira no ar diaphano e dormente.. Quinze annos Eu amo a vasta sombra das montanhas. não sei que tinha.. Que estendem sobre os largos continentes Os seus braços de rocha negra. D'ali o nosso olhar vê tão estranhas Cousas... Onde a noite é balsamica e fulgente E a lua cheia sobre as aguas brilha. ao meu amado Correi.. Pareceu-me sentil-o aqui tão perto. como a flor e o viço . por esse céo! e tão ardentes Visões. Sutil nos passos e espreitando incerto. Bem como braços colossaes aranhas.. Mas que póde ir contente e descançado. Môças da minha terra. Tendo aos pés um leão familiar. pela vinha Na sombra do luar meio cacoberto. Lambe a orla dos bosques. O mar com finas ondas de escumilha. vê-as tamanhas! Amo a grandeza mysteriosa e vasta.... n'alguma ilha. olhae. nos mares do Oriente. Quem ama até em sonhos adivinha. ingentes. meu amor. Sonho oriental Sonho-me ás vezes rei. A grande idea.. d'ali. Do profundo jardim pelas clareiras.. Ou descanças debaixo das palmeiras.. absorto n'um scismar sem fim. Com brando respirar de criancinha? Um sonho me accordou... Seja alta noite.. E emquanto eu na varanda de marfim Me encosto. Muito longe. lá n'esse mar de ondas trementes! E ás estrellas.Quem anda lá por fóra. conforme É meu costume. Pois se tão cedo adormeci.. vagamente.. seja n'um deserto. dormia embora. dizei-lhe que eu dormia agora. Porque o meu coração é que não dorme..

e empallideces. e basta: Sabe amar e sorrir. que me consome.. criança. Como um canto longinquo--triste e lento-Que voga e sutilmente se insinua.. o eterno Bem. E a poesia das cousas se insinua Lenta e amorosa em nossos corações.. Ou. sê tu boa. d'um folego as colinas da noite inda orvalhadas. quando o vento Adormece no mar e surge a lua. O vento e o mar murmuram orações. de mãos dadas. é pouco isso? Mas a ti só te quero pequenina! IDYLLIO Quando nós Colher nos E galgamos Dos rocios vamos ambos. Tu só entendes bem o meu tormento. Genio da Noite. e mais ninguem! SONHO . A ti confio o sonho em que me leva Um instincto de luz. Filho esquivo da noite que fluctua. das ermas cumiadas. no horisonte. Sinto tremer-te a mão. Contemplamos as nuvens vespertinas. E tu entendes o meu mal sem nome. NOCTURNO Espirito que passas. Tu vertes pouco a pouco o esquecimento.. valles lyrios e boninas. Que parecem phantasticas ruinas Ao longe. Buscando. de subito. vendo o mar.... entre visões.. Mas tu.. emmudeces! Não sei que luz no teu olhar fluctua.. A febre de Ideal. Tu só.. que tumultua. amontoadas: Quantas vezes.Da arvore colossal que nos domina.. rompendo a treva. Sobre o meu coração.

que guardam a manhã. que creste na virtude! O que será velhice e desalento. Contar ás tuas puras irmansinhas Quanto és falsa. Atravez d'esse espaço constellado Onde uma aurora eterna ri louçã. Á beira do caminho me assentei. a nossa irmã? Mas eu baixava os olhos.Sonhei--nem sempre o sonho é cousa vã-Que um vento me levava arrebatado.. Vejo os votos da minha mocidade Receberem sómente escarneo e insulto. E quando surge a lua e o mar se acalma. Meu amor. que te adoro. Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo! E nem sequer te lembres de que eu chóro. Nem ousava contar-lhes. Levo as flores d'uma intima piedade. meu bem. flores o solo.. pobre amigo.. Exclamando: assim passe quando amei!-Oh minh'alma. esquece.. em vão.. receoso Que trahissem as grandes magoas minhas. da Verdade. De templo em templo. Escutarei passar o agreste vento. levo o meu culto.. Olhavam-me e dixiam com cuidado: Onde está. E passava furtivo e silencioso. e indigna d'ellas! AMARITUDO Só por ti. em anciedade mim sepulto. ás estrellas.. minha pomba e meu consolo! Dê-te estrellas o céo. Se isto se chama aurora e juventude? ABNEGAÇÃO Chovam lyrios e rosas no teu collo! Chovam hymnos de gloria na tua alma! Hymnos de gloria e adoração e calma. Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.. Ao verem-me passar triste e calado. astro ainda Sombra do Amor e sonho Divago eu pelo mundo e Meu proprio coração em e sempre occulto. . As estrellas. Esquece até.

como d'antes. se o sonhar quebranta Este meu vão soffrer. ao ver-me. Como sobe cantando a cotovia... como um sonho.. Da lamparina ao tremulo clarão. e sonho o meu amor! MÃE. espectro vão. sem te escutar. . Possam das minhas lagrimas crueis Nascer sob os teus pés flores fieis. Os meus cantos de luz. E tu. Mas... ás vezes. esta agonia. Larva fugida ao sepulcral degredo.. Fugirei. a alvorada... Que ao mundo traz piedosa mais um dia. estenderás os braços Tentando segurar-te aos meus vestidos.. anjo adorado. Para o céo a minh'alma sobe e canta. --«Ouve! espera!»--Mas eu.. entre gemidos E afflictos ais.--A noite é negra e muda: a dor Cá vela.E ao passares por mim. Ante ti surgirei. Canta o enlevo das cousas.. a alegria Que as penetra de amor e as alevanta. da casta alcova no segredo. Então.. Que já sinto estalar-me o coração!) Recordarás com dor e compaixão As ternas juras que te fiz a medo. São sonho só.. Canta a luz. Que pises distrahida ou rindo esfolhes! APPARIÇÃO Um dia. de repente. meu amor (e talvez cedo. ao meu lado. a estrella santa.. aos teus abraços E como fumo sumir-me-hei no ar! ACCORDANDO Em sonho. sem que me olhes. um vento humido e frio Sopra sobre o meu sonho: um calafrio Me accorda. meu anjo.

.. em quanto da floresta A sombra se infiltrava lenta e mesta. Descuidada. de mil cores. Depois. vulcões de estranho monte. á tarde. Me banhe e lave a alma lá no rio Da clara luz do seu olhar querido. dos dois. Fitavamo-nos mudos--dor igual!-Nem. lá no fundo. igual miragem Nos roçou pela fronte.. Se eu podesse dormir sobre o teu seio.. Ao passar pelo sitio mais sombrio. sem receio. Ora fumam. E ora espalham no céo vivos ardores... docil tambem. Igual traição.. martyres do Fado. E em debil criancinha me tornava. Vencidos ambos... Nos deu supplicio ás mãos da villanagem. . ali. mais triste e mais cançado. querida. E me vele esta noite de tal frio.... Que me leve comsigo.. oh sol.. Apago o meu charuto quando apagas Teu facho. que escaldava.. e crescem. E com as mãos piedosas ate o fio Do meu pobre existir. que o affecto mascarava. por entre luz e horrores. feliz... O Christo. Que parecem sonhar loucos amores? Almas que vão..Mãe--que adormente este viver dorido.. perdida entre a folhagem. saberei dizer-vos qual Mais pallido. Passando a barca d'esse aereo Acheronte. adormecido.. Velut Umbra Fumo e scismo.. agonisava.. ficamos todos sós. meio partido. Eu dava o meu orgulho de homem--dava Minha esteril sciencia. Os castellos do horizonte Erguem-se. a minha mãe! Na capella Na capella. que formas vagas vêm defronte. E agora. Se tu fosses. Oh! como intimamente se casava Com minha dor a dor d'aquella imagem! Filhos ambos do amor.

Não chamo á existencia hora sombria. cheio de dor. Se estou cheio de fel e de tristeza. pois. Bem vos entendo a cor. Se nada ha que me aqueça esta frieza. com fragor. Quebrada a espada já.. A Natureza é minha mãe ainda.. Mas dentro encontro só. Acaso. Abri-vos. E o homem vá subindo insecto o seixo. Ah.. Nem chamo ao céo da vida noite fria. exhausto e vacillante. por noite escura. á ordem. Por desertos. roda a armadura. portas d'ouro... busco anhelante O palacio encantado da Ventura! Mas já desmaio. oh cousas vagas. Paladino do amor. se eu á face linda Não sei sorrir: se estou desesperado. nem á lei desleixo. por sóes. Não chamo a Deus tyranno. fulgurante Na sua pompa e aerea formosura! Com grandes golpes bato á porta e brado: Eu sou o Vagabundo... como a vós. Silencio e escuridão--e nada mais! JURA . Que o homem suba e vá da noite ao dia.. E eis que subito o avisto. o Desherdado. É minha mãe. É de crer que só eu seja o culpado! O Palacio da Ventura Sonho que sou um cavalleiro andante.É n'esta solidão que me consumo! Oh nuvens do Occidente... ante meus ais! Abrem-se as portas d'ouro... Belleza e altura se me vão em fumo! MEA CULPA Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia. nem me queixo.

Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes! Respirariam meus pulmões contentes O ar de fogo do circo ensanguentado... cuja mão suspeita Compõe filtros mortaes entre ruinas... que quanto ha mixto De sombra e de pavor sob uma lousa.. Não tem as formas languidas. Pelo olhar que interroga--e não vê nada. sem uma hora . que eu adoro... Que ora amostra ora esconde o meu destino. Ideal... Nuvem. Ou cahira radioso... Pelo estertor da chama que crepita No ultimo arranco d'uma luz minguada. não é feita De lyrios nem de rosas purpurinas... tenho visto Cousas terriveis--mas jamais vi cousa Mais feroz do que um riso de criança! IDEAL Aquella. divinas Da antiga Venus de cintura estreita. Não é a Circe... amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes! Já não veria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos. sonho impalpavel do Desejo..Pelas rugas da fronte que medita. Pelo grito feroz da abandonada Que um momento de amante fez maldita. Emquanto outros combatem Empunhasse eu a espada dos valentes! Impellisse-me a acção. Pela miseria e pela mão gelada Que apaga a estrella que nossa alma fita. É como uma miragem. pomba de esperança! Eu t'o juro.. menina. e não atino Com o nome que dê a essa visão. que entrevejo. embriagado. que se agarra ás crinas D'um corcel e combate satisfeita.. Nem a Amazona.. que nasceu na solidão. Oh pomba meiga.. Por quanto ha de fatal. A mim mesmo pergunto...

E nem em sonhos possa ver-te o rosto! Metempsychose . Pergunto em vão. a quem roubaram Ninho e filhos e tudo.. Que a leve o ar sem fim da soledade Onde as azas partidas a levaram. uma a uma.... a alma lastimosa.. Quando a noite surgio da immensidade. deixal-a ir. Deixal-a ir.. sem piedade. as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade! DESPONDENCY Deixal-a ir. a vida! Das Unnennbare Oh chimera. Quando os ventos do Sul levantaram.. com olhos anciosos... mysteriosa fada! Mas que destino o meu! e que luz baça A d'esta aurora.. que passas Na onda de meus sonhos E roças co'os vestidos A minha fronte pallida embalada dolorosos... E a vida.. e o amor... vaporosos e cançada! Leva-te o ar da noite socegada. a ave.. e a ultima esperança. que arrojaram Os tufões pelo mar. Deixal-a ir... a nota desprendida D'um canto extremo. á morte silenciosa.Viver mais que de sonhos e anciedade! Já não veria em minhas mãos piedosas Desfolhar-se.. a vela.. Quando só nuvem livida esvoaça! Que nem a noite uma illusão consinta! Que só de longe e em sonhos te presinta. igual á do sol posto. Que nome é que te dão os venturosos No teu paiz. Deixal-a ir. Á morte queda. Que perdeu fé e paz e confiança. na escuridade.

que os não vejo.. Outros me causam mais cruel tormento Que a saudade dos mortos... depois da orgia? Acaso nunca a imagem fugidia Do que fostes. De dentadas de amor um corpo exangue.. Para ver o meu mal. Mordei pois esta carne palpitante.. uma só rosa. bebei meu sangue! UMA AMIGA Aquelles. Que não são d'este mundo e onde eu leio .. para dor nasceste. Inda volves teus olhos radiantes..Ausentes filhas do prazer: dizei-me! Vossos sonhos quaes são. não sei que vento Os dispersou no mundo... Feras feitas de gaze fluctuante.. Tudo o vento varreu.. leôas ou pantheras. Que corpo tinheis? que materia fria Vossa alma incendiou. e se accende um outro dia.. aonde geme Outro vento. que eu invejo. e escarnecel-o! A uma mulher Para tristezas.. Em vez d'este areal onde cresceste: Podia abrir-te as flores--com que veste As ricas e as felizes--n'esse peito: Fazer-te. o que a Fortuna ha sempre feito. como d'antes. Teus olhos fitos. Podia a sorte por-te o berço estreito N'algum palacio e ao pé de regio leito. com fogo estreme? Vós fostes nas florestas bravas feras.. que eu amei. Lobas! leôas! sim. Passam por mim... Terias sempre a sorte que tiveste! Tinhas de ser assim.. queimou o gelo! Tu só foste fiel--tu. mas como que têm pejo Da minha soledade e abatimento! D'aquella primavera venturosa Não resta uma flor só..... em vós se agita e freme? N'outra vida e outra esphera. Arrastando. Estendo os braços e nas trevas beijo Visões que á noite evoca o sentimento....

Até que se desfaça e. seja levado Nos turbilhões que o vento levantar. Com suas luctas. os sopros violentos Lhe revolvam em torno o arido chão.. ainda infante. e assim o creio. que amaste) Com odio e raiva e dor.. Do que emballar-te a Fada da Belleza. (Sem ver uma só flor. Ter gemido. O que te diz a voz da Natureza: --«Mais te valera. seu cançado anceio. e os ventos Erguem pelo areal os seus lamentos.. Tudo me diz a mim. meu cançado coração. Depois. já tornado Em impalpavel pó. das mil. Tua voz rara e esse ar vago e esquecido. Ter nascido em asperrima soidão.Uns mysterios tão tristes e infinitos. onde o mar quebra. que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!»-- Sepultura romantica Ali. Queimem-no os sóes da adusta solidão Na fornalha do estio. no inverno. Como emballou. nú e sem defeza.. d'esse amargo mar! 1864--1874 . dissolva-se no seio D'esse infecundo. n'um cachão Rugidor e monotono. em dias lentos. Seu louco amor. Que para isto só tinhas nascido! Voz do Outomno Ouve tu. Ali se ha-de enterrar meu coração.. no berço da Illusão! Mais valera á tua alma visionaria Silenciosa e triste ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia. sobre o chão Frio e cruel da mais cruel deveza..

A apagaram os ventos inimigos. . Se nos negam aqui o pão e o vinho. Não. não se fecha o mundo! e além. Pois que o Sinai se ennubla e os seus pacigos. que acceite a nossa prece. A palavra sagrada do Destino Na bocca dos oraculos seccou-se: A luz da sarça ardente dissipou-se Ante os olhos do vago peregrino! Ante os olhos dos homens--porque o mundo Desprendido rolou das mãos de Deus. immenso esse horizonte.. Seccos á mingua de agua. Como uma cruz das mãos d'um moribundo! Porque já se não lê seu nome escrito Entre os astros.. em terra sem abrigos. defronte.A IDEA I Pois que os deuses antigos e os antigos Divinos sonhos por esse ar se somem. Pois que o céo se fechou e já não desce Na escada de Jacob (na de Jesus!) Um só anjo. como se fosse Teu grande coração perdendo o tino. como atheus. E á luz do altar da fé. e os astros. oh conductor divino! A custo agora a tua mão tão doce Incerta nos conduz. Avante! é largo. E os prophetas d'outrora todos dormem Esquecidos.... se consomem. em Templo ou Dolmen.. Já não querem mais lei que o infinito! III Força é pois ir buscar outro caminho! Lançar o arco de outra nova ponte Por onde a alma passe--e um alto monte Aonde se abre á luz o nosso ninho. É que o lyrio da Fé já não renasce: Deus tapou com a mão a sua luz E ante os homens velou a sua face! II Pallido Christo.

Homem--proscrito rei--mendigo escuro! Se não tens que esperar do céo (tão puro. sacudindo Como o pó da estrada os velhos cultos! Doce e brando era o seio de Jesus. Nuvem. Já que os celestes guias te hão deixado.. Mas tão cruel!) e o coração magoado Sentes já de illusões desenganado.. Reflectindo. Prendendo a immensidade eterna e viva No circulo de luz da tua Idea! V Mas a Idea quem é? quem foi que a vio. vida e carinho! Avante! os mortos ficarão sepultos. Mas os vivos que sigam. Tu não tens outra amante em todo o mundo Mais que essa fria virgem desdenhosa! VI Outra amante não ha! não ha na vida Sombra a cobrir melhor nossa cabeça. Que importa? havemos de passar.. estendei-lhe os vossos braços. alma chorosa... oh alma triste. que a agua de algum rio... a essa encoberta peregrina? Quem lhe beijou a sua mão divina? Com seu olhar de amor quem se vestio? Pallida imagem. na magestade estoica D'uma vontade solitaria e altiva. que trouxe o ar.. Magros da febre d'um sonhar profundo. então. Se além do seio d'elle houver mais luz! IV Conquista pois sósinho o teu futuro. levou. Das illusões do antigo amor perjuro: Ergue-te. que mal bruxulêa pequenina. Estendei.. Sobre uma terra ignota abandonado. Vós todos que a seguis n'esses espaços! E emtanto. . N'um esforço supremo de alma heroica! Faze um templo dos muros da cadeia. e o ar sumio.E em toda a parte ha luz.. incerta e fina Luz. Jámais. seguindo.

.. o Verbo. os céos ingentes. Verdade! VIII Lá! Mas aonde é _lá_?--Espera. Até voltar comtigo. astros. o céo. a Essencia. tendo pendentes Os astros por docel e cortinado! As bodas do De ventura.. Seguir-te-ha a travez do infinito.. embriagado a final! visões ferventes braços vae de ideaes ardentes sem termo arrebatado! Lá. triumphante! VII Oh! o noivado barbaro! o noivado Sublime! aonde os céos. Lá. quem sabe amar e amar confessa. a secular ferida! Quer Como Quer Será fuja esquiva. Oh mundos. oh fria. Só se revela aos homens e ás nações No céo incorruptivel da Consciencia! . aonde A noite tem mais luz que o nosso dia. É que te havemos abraçar. no seio da eterna claridade. por onde se perde a phantasia No sonho da belleza: lá. Podes fugir. De quem nos Por espaços Desejo. Em vão o buscas n'essa immensa esphera! O espaço é mudo: a immensidade austera De balde noite e dia incendeia. sóes. em nenhum sol se alteia A rosa ideal da eterna primavera! O Paraiso e o templo da Verdade. bem como os braços do proscrito Para as bandas da patria. Em nenhum astro.. o céo da Idea. que adormeça Em nós a antiga.Nem balsamo mais doce. Se erguem. Serão leito de amor. que anceia A alma fiel. delirante. nossa alma. sempre ella a esposa promettida! Nossos desejos para ti. Coração indomado! o céo. nas nuvens se esconda ou appareça. constellações! Nenhum de vós o tem na immensidade. ou se offereça erguida. o summo Bem.. Aonde Deus á humana voz responde. A Idea. noite e dia.

um homem novo: De ti data essa tragica linhagem. que amarrado ao poste Morreste como vil e faccioso. abysmo e jaula. eu sou a Natureza! MAIS LUZ! (A Guilherme de Azevedo) Amem a noite os magros crapulosos. ao monte aspero e mudo: --Que és tu. Revoltosa. Sou eu só: sou a paz.. Que entre nossos avós se conta Christo. Paz aos homens e guerra aos deuses!--poz-te Em vão sobre um altar o vulgo ocioso.. Ao valle obscuro. amor. ao pensar n'isto.^a que tem o mesmo titulo Não se perdeu teu sangue generoso. aonde tudo Vive na dor e em lucta cega e brava? Sempre em trabalho.. condemnada escrava..A um crucifixo Lendo. Do pobre que protesta foste a imagem: Um povo em ti começa. firmeza. tu és a guerra! Sou o espirito. quem quer que foste. . tu és tristeza. és só fogo e horrida lava.. passados 12 annos. Plebeu antigo. a luz!. herdeiros d'esse povo.. Por isso nós.. Nem padeceste em vão. Que fazes tu de grande e bom. Lembraremos. DIALOGO A cruz dizia á terra onde assentava. Mas a mim não ha alta e livre serra Que me possa igualar!. a Plebe. comtudo? Resignada. o soneto da parte 1. és só lodo informe e rudo.. D'esse sangue maldito e ignominioso Surgio armada uma invencivel hoste. Oh lodo escuro e vil!--Porêm a terra Respondeu: Cruz.

vive e agita-se incessante: Enche o ar da terra o seu pulmão possante. que vive estavel. Tu.E os que sonham com virgens impossiveis. Como bacchante após lubrica ceia. Como aos longos cuidados dolorosos! Eu amarei a santa madrugada. A idea encarna em peitos que palpitam: O seu pulsar são chamas que crepitam.. com teus raios vaporosos. Cobre-os. és luz! II N'um céo intemerato e crystallino Póde habitar talvez um Deus distante. não és fogo.. lua.. Seja-me dado ainda ver. Tu. Verbo ao estampido de pelouro e obuz. como espectaculo divino. em vida refervendo. Quando a vejo nas ruas desgrenhada. Torva no aspecto. á luz da barricada. O claro sol.. Mas a idea é n'um mundo inalteravel.. E a tarde rumorosa e repousada. Vendo passar em sonho cambiante O Ser.. E os que inclinam. Tanto aos vicios crueis e inextinguiveis. Cá da terra blasphema ou ergue um hymno. morrendo. amigo dos heroes! These e Antithese I Já não sei o que vale a nova idea.. Á borda dos abysmos silenciosos. Mas o homem.. pensamento. E o meio-dia.. N'um crystallino céo. mudos e impassiveis. Respira fumo e fogo embriagada: A deusa de alma vasta e socegada Eil-a presa das furias de Medea! Um seculo irritado e truculento Chama á epilepsia pensamento. ... Sanguinolento o olhar se lhe incendeia. tapa-os e torna-os insensiveis. na terra onde o destino O lançou. Viva e trabalhe em plena luz: depois..

á chuva e ao vento: Não ha como eu espectro macilento.. que aqui estou morto. Ha mais alta missão.. enterrado em vida!» o meu tormento É isto só. Té que a fecunde o sangue dos heroes! Justitia Mater Nas florestas solemnes ha o culto Da eterna. Mas nas negras cidades. a Idolatria Deu-me um altar e um culto. do resto não me importo. Que vivi sei-o eu bem. Nem mais disforme que eu nenhum aborto. e amortalharam-me! A UM POETA _Surge et ambula_! . e mais. Do coração. mais alta gloria: O combater. inexoravel pensamento: «Morto. Só o espirito vive: vela absorto N'um fixo..Paixões ardentes como vivos soes! Combatei pois na terra arida e bruta. Os combates eternos da Justiça! Palavras d'um certo Morto Ha mil annos. que os soes aviva: No mar ouve-se a voz grave e afflictiva D'um deus que lucta.. Posto sobre um rochedo. o grito audaz da alma captiva.. em seu combate inulto: No espaço constellado passa o vulto Do innominado Alguem.. poderoso e inculto. mas foi um dia. Como se eu fosse _alguem_! como se a Vida Podesse ser _alguem_!--logo em seguida Disseram que era um Deus. onde sôlta Se ergue.... Um dia só--no outro... Té que a revolva o remoinhar da lucta. de sangue medida. Como incendio que um vento bravo atiça.. ai! adoraram-me. intima força primitiva: Na serra. a revolta. á grande luz da historia.

Por ti é que a poeira movediça De astros e soes e mundos permanece. Afugentou as larvas tumulares. mudos.. Posto á sombra dos cedros seculares. ramos do arvoredo.. que combatem Tendo o teu nome escrito em seus escudos! 1874--1880 HOMO Nenhum Astros Nenhum Nenhum de vós ao certo me conhece. Como um levita á sombra dos altares. soldado do Futuro.. Accorda! é tempo! O sol.. irmã do Amor e da Justiça. e são vozes de rebate! Ergue-te pois. É a voz d'um coração que te appetece. que dormes. faze espada de combate! Hymno á Razão Razão. as nações Buscam a liberdade. E a flor do heroismo medra e viça. Por ti. Longe da lucta e do fragor terreno. Para surgir do seio d'esses mares. espirito sereno.. E é por ti que a virtude prevalece.Tu. Um mundo novo espera só um aceno. . do espaço. só a ti submissa. já alto e pleno.. adivinhou o meu segredo. interpretou a minha prece. que se erguem! são canções. Sonhador. Mãe de filhos robustos. Por ti. podem soffrer e não se abatem.... D'uma alma livre. entre clarões: E os que olham o futuro e scismam. E dos raios de luz sonho puro.. na arena tragica. Escuta! é a grande voz das multidões! São teus irmãos. Mais uma vez escuta a minha prece. Mas de guerra.

neste degredo. ó Deus forte..--talvez um filho Bastardo de Jehovah. Solitario em teus Céos acastellados: «--Cessou o imperio emfim da força bruta! Não soffreremos mais.--talvez ninguem! Disputa em familia Dixit insipiens in corde suo: non est Deus. Deixou matar seu filho no Calvario. Ó Deus grande. parece Que ha dez mil annos já. ó Deus terrivel. O tyranno. Sou talvez Satanaz. Sem achar mais do que erro e desacerto. Não passas d'uma van banalidade!--» II Mas o velho tyranno solitario. Que mil annos nos trouxe arrebanhados! Emquanto tu dormias impassivel. de mão tenaz e astuta.. atrevido. I Sae das nuvens. Do humus primitivo e tenebroso Geração casual. Erguia a voz em grita ao seu sacrario: «--Vanitas vanitatum! (disse).. Sou um parto da Terra monstruoso. ouvindo o vario Tumultuoso côro e alarido Do povo insipiente. É certo Que o homem vão medita mil mudanças. de enjoado ou distrahido. Topámos no caminho a liberdade Que nos sorrio com gesto indefinivel. vê-me o rochedo E me contempla a aurora que alvorece. Já provámos os fructos da verdade. emancipados. . Mixto infeliz de trevas e de brilho. e mais.. que..Ninguem sabe quem sou. Sorrio com rir extranho. Velho Jehovah de longa barba hirsuta. De coração austero e endurecido. levanta a fronte e escuta O que dizem teus filhos rebellados.. Que um dia.. sem pae nem mãe. Me vê passar o mar....

.. grave.» O Inconsciente O Espectro familiar que anda commigo. Todo involto na noite que projectas. e nada digo. Que umas vezes encaro com desgosto E outras muitas ancioso espreito e sigo. É um espectro mudo. Chamam-me Deus. Sem que podesse ainda ver-lhe o rosto. --«Se esta espada que empunho é coruscante. Mas eu por mim não sei como me chamo.... E. sou a Liberdade. Só uma vez ousei interrogal-o: Quem és (lhe perguntei com grande abalo) Phantasma a quem odeio e a quem amo? Teus irmãos (respondeu) os vãos humanos. ridiculas crianças. sombrio cavalleiro. Que rasga a escuridão como um luzeiro. Prostro e desbarato. sendo a Morte.. Firo.. Só o gladio de luz com fulvas betas Emerge do sinistro nevoeiro.. ha mais de dez mil annos.. Que parece a conversas mal disposto.. mas resgato. Mas consólo. antigo. (Responde o negro cavalleiro-andante) É porque esta é a espada da Verdade. MORS-AMOR (A Luiz de Magalhães) .... e muito mais!--» Mors liberatrix (A Bulhão Pato) Na tua mão. Subverto. Brilha uma espada feita de cometas. Sabia em tudo isso.... Cavalleiro vestido de armas pretas.. Caminhas no teu curso aventureiro. mas salvo. ascetico e composto Mil vezes abro a bocca..Muito antes de nascerem vossos paes D'um barro vil. Ante esse vulto.

nem esperas. mas placido. em pé. --Porque suspiras... Vestido de armadura reluzente. . impudente. E. Cavalga a fera extranha sem temor. D'onde vem elle? Que regiões sagradas E terriveis cruzou.Esse negro corcel. no porte. diante de mim. Cobarde coração? Debalde intentas Oppor á Sorte a queixa do egoismo. só oiço um não. Atravessando regiões austeras. nem amas. seus vãos fulgores. que assim parece Tenebroso e sublime. e lhe estremece Não sei que horror nas crinas agitadas? Um cavalleiro de expressão potente. E o corcel negro diz: «Eu sou a Morte!» Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!» ESTOICISMO (A Manoel Duarte de Almeida) Tu que não crês. Que eternamente ecchoa entre as espheras. Espirito de eterna negação. Formidavel... Sim. Teu halito gelou-me o coração E destroçou-me da alma as primaveras. deixa aos sonhadores A esperança van. diante... porque te lamentas.. como serpente Que dormisse na estrada e de repente Se erguesse sob os pés do caminhante. cujas passadas Escuto em sonhos. Como n'um sonho mau. Cheias de noite e cava escuridão.. Deixa aos timidos. Era de ver a funebre bacchante! Que torvo olhar! que gesto de demente! E eu disse-lhe: «Que buscas. quando a sombra desce. me apparece Da noite nas phantasticas estradas. Sabe tu encarar sereno o abysmo! ANIMA MEA Estava a Morte alli. passando a galope.

disperso. immerso O mundo em densa e algida neblina. Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera. illusão. pelo mundo errante?» --Não temas.. Lhe torceu cruelmente a bocca fria).Loba faminta. Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses. com voz inda mais triste. respondeu (e uma ironia Sinistramente estranha.. Empeçonhou a criação divina. vago. Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe. Nem astro já reluz. José Falcão) Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis. Fez-se noite de subito. inestinguiveis. Dor. Nem flor sorri no seu aereo berço. mysteriosa.. no meio da noite monstruosa. peccado. Os homens clamam:--«Deuses impassiveis. d'onde a morte pende. Um veneno sutil. A Duvida soprou sobre o Universo. Só uma flor humilde. que paira e estende O seu sudario. luctas horriveis. A quem serve o destino triumphante. Era um tropheu Glorioso de mais. N'um turbilhão cruel e delirante. . E. Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?» Espiritualismo I Como um vento de morte e de ruina. atroz e calma.. Eu não busco o teu corpo. nem ave trina. Do silencio glacial. Busco a tua alma-Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!» Divina comedia (Ao Dr...

Virou-se para Deus minha alma triste! Amortalhei na fé o pensamento.. Mas. Desabroxa no fundo da Consciencia. abalou-se-me a firmeza. Como o ultimo suspiro do Universo. cheia de tedio e de quebranto. E achei a paz na inercia e esquecimento. cuspi no altar avito Um rir feito de fel e de impureza. geme a tristeza ancia impotente de infinito.. Só me falta saber se Deus existe! ESPECTROS Espectros que velaes... Como o alento final d'um moribundo.. A treva primitiva conglobada. emquanto a custo Adormeço um momento. Rompendo os diques ao represo pranto.Como um vago protesto da existencia.. O CONVERTIDO (A Gonçalves Crespo) Entre Tomei Onde. e teu perfume extremo No vacuo eterno se esvahirá disperso. pedindo um ultimo clarão Aos soes que ruem pela immensidão. Deu-me rebate o coração contrito! Erma. Um ai supremo. e que inclinados Sobre os meus somnos curtos e cançados ... sob o folgar. um dia. Tu morrerás tambem.. Ha-de ecchoar. Arrastando uma aureola apagada. Sobe do poço eterno. II Dorme entre os gelos. flor immaculada! Lucta. Em vão! Do abysmo a bocca escancarada Chama por ti na gélida amplidão. Na noite universal que envolve o mundo. Como os outros. D'uma os filhos d'um seculo maldito tambem o logar na impia meza.. em turbilhão.

Se a minh'alma ha-de ver... que ruge e desvaria. ao menos. abafas os lamentos..Me encheis as noites de agonia e susto!. Ó visão. sobre si fitos. Mãe de Misericordia_ N'um sonho todo feito de incerteza.. E deixa-me sonhar a vida inteira! NOX (A Fernando Leal) Noite... até nem sei se as ha na natureza. vão para ti meus pensamentos... Bem os sinto verter sobre o meu leito. É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza. Sempre esses olhos tragicos. assim chorosa. Uma a uma verter sobre o meu peito As lagrimas geladas da descrença! Á Virgem Santissima _Cheia de Graça. Quando olho e vejo. outra luz. Tanto esteril luctar.. Que se exhalam da tragica enxovia.... á luz cruel do dia. Um mystico soffrer.. E inuteis tantos asperos tormentos.. o ardor banal da mocidade.. De nocturna e indizivel anciedade.. com angustia immensa. uma ventura Feita só do perdão. O eterno Mal. alguns momentos. E entre combates sempre renovados Disputar dia a dia á mão dos Fados Uma parcella do saber augusto. só da ternura E da paz da nossa hora derradeira. tanta agonia. Oh! antes tu tambem adormecesses . visão triste e piedosa! Fita-me assim calada.. era outra suavidade. De que me vale a mim ser puro e justo. Em ti descança e esquece. Tu. Não Nem Era Que era o vulgar brilho da belleza.... malditos! Se até dormindo.

tragica ironia. não morreste. Cahindo sobre o mundo. Bemvindos. te esquecesses. o mundo. ou ave. Não. Da tua eterna. Conheço-vos.Por uma vez. Param.. Morte. e tu. vendo-os defronte. Pelo caminho estreito entrei sem susto E sem susto encarei. noite do Não-ser! EM VIAGEM Pelo caminho estreito. Meus guias derradeiros Sereis vós. empallidecem! . Quem sois vós. mais pungente. sem mais luctar nem ver. bemvinda! Quia aeternus (A Joaquim de Araujo) Não morreste. Tedio. Atraz d'elles a Morte espreita ainda. ou fonte. aonde a custo Se encontra uma só flor. Noite sem termo. Mas só bruta aridez de aspero monte E os soes e a febre do areal adusto. e estremecendo. Phantasmas que surgiam do horizonte A accommetter meu coração robusto. espectro! o Pensamento Como d'antes te encara. e eterna.. E os que folgam na orgia impia e devassa Ai! quantas vezes ao erguer a taça. e esse triumpho ingente Com que a Razão--coitada!--se inebria. Não se sacode assim tão facilmente O jugo da divina tyrannia! Clamam em vão. Dormisse no teu seio inviolavel. Silenciosos companheiros.. e és o tormento De quantos sobre os livros desfallecem.... inalteravel. pois. apenas.. por mais que o brade á gente Uma orgulhosa e van philosophia. É nova forma.. peregrinos singulares? Dor. E elle. Desenganos e Pesares.

E só a propria voz na immensidão Fatigada nos volve. por mar e terras procuramos O Espirito que enche a solidão. sem me encontrar! NO CIRCO (A João de Deus) Muito longe d'aqui.. IGNOTUS (A Salomão Sáragga) Onde te escondes? Eis que em vão clamamos. Arrebatado em vastos turbilhões.. Mas tão longe. E d'onde sáem gritos e lamentos. a espaços. as feições. em que eu vivia. N'uma espiral. Que me fitaes com formidavel calma. desde toda a eternidade... Suspirando e erguendo as mãos em vão! Já a voz enrouquece e o coração Está cançado--e já desesperamos.No turbilhão (A Jayme Batalha Reis) No meu sonho desfilam as visões. Tambem me busco a mim.... nem eu sei quando... meus irmãos e meus algozes? Quem sois.. Em tom de grande tedio e de pezar: --Não vos queixeis.. que até dizer podia .. Levados na onda turva do escarceo.. de estranhas contorsões. aonde? aonde?-Mas o Espirito antigo só responde. visões miserrimas e atrozes? Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!. Espectros dos meus proprios pensamentos. Distingo-lhes. em grupos nevoentos. Vejo-os passar. e não te achamos! Céos e terra. Nem onde era esse mundo. Quem sois vós. Que eu mesmo. ó filhos da anciedade.. Por céo.. clamai. Como um bando levado pelos ventos. --Phantasmas de mim mesmo e da minha alma..

Cahi e achei-me. E quando o pensamento. leve como a luz. A onda d'esse mar tumultuoso Vem ali expirar. assim absorto. a espreitar.Que emquanto lá andei. Só vê com tedio. Senti um monstro em mim nascer n'essa hora. infinita. --É assim que rujo entre leões agora! NIRVÂNA (A Guerra Junqueiro) Para além do Universo luminoso.. Cheio de fórmas. ampla.. Mas ellas perturbaram-se--coitadas! .. Onde um bruto furor bramia solto. Emerge a custo d'esse mundo morto E torna a olhar as cousas naturaes.. Abre-se como um vacuo tenebroso. de desejos e de vida. E eu. acaso. que ás noites.... em tudo quanto fita. E lucida a existencia amanhecia.. involto Em lucta bestial.. andei sonhando. na arena fera. e vim rolando.. Porque era tudo ali aereo e brando.. de repente.. De forças.. sobre o meu peito. E achei-me de improviso feito fera.. em anciedade Ter nascido? dizei-mo com verdade. inerte... E disse-lhes:--No mundo immenso e estreito Valia a pena. ocioso.. Fórmas vagas. esmaecida... Pobres memorias que eu ao seio estreito. até que um dia Um vento me tomou. N'uma immobilidade indefinida Termina ali o ser. Se inclinam. A illusão e o vasio universaes. de rumor. com piedade. CONSULTA (A Alberto Sampaio) Chamei em volta do meu frio leito As memorias melhores de outra edade.. Á bella luz da vida. de lida.

A quem serve o destino triumphante. não valia a pena! Divina comedia (Ao Dr.. Na attitude convulsa do tormento.. N'um turbilhão cruel e delirante. illusão. a mais serena. pungente. E arrancava das aras destroçadas A uma e uma as pennas maculadas. Soluço de odio e raiva impenitentes. Me respondeu:--Não.. M. lentamente. contristadas. Pois não era melhor na paz clemente Do nada e do que ainda não existe. Todo envolto n'um nimbo pardacento.. peccado.. Torcia e retorcia os magros braços. José Falcão) Erguendo os braços para o céo distante E apostrophando os deuses invisiveis. como espectro. com voz inda mais triste.E empallideceram. Ter ficado a dormir eternamente? Porque é que para a dor nos evocastes?» Mas os deuses. Eça de Queiroz) Eu vi o Amor--mas nos seus olhos baços Nada sorria já: só fixo e lento Morava agora ali um pensamento De dor sem tregoa e de intimos cançaços. inestinguiveis.. Soltando a espaços um soluço fundo. Porque é que nos criastes?! Incessante Corre o tempo e só gera... Ainda a mais feliz. Pairava. E cada uma d'ellas. Com um sorriso morbido. Dor. Dizem:--«Homens! porque é que nos criastes?» VISÃO (A J. nos espaços. luctas horriveis. Os homens clamam:--«Deuses impassiveis.. E do phantasma as lagrimas ardentes Cahiam lentamente sobre o mundo! ..

monstro primitivo. Tronco ou ramo na incognita floresta. com fronte não enxuta. Elogio da Morte . quebrando-me na aresta Do granito. Hoje sou homem--e na sombra enorme Vejo. Não é no vasto mundo--por immenso Que elle pareça á nossa mocidade-Que a alma sacia o seu desejo intenso.. soledade. Ou. do intangivel. Rugi. No sacrario do templo da Illusão. emfim... a escada multiforme.. de quanto é vão O bem que ao Mundo e á Sorte se disputa. em espiraes. Trevas e pó. Oliveira Martins) Já socega. vacuo. uma materia bruta.. buscando abrigo Na caverna que ensombra urze e giesta.. com dor e confusão.. a meus pés. Que desce.. Interrogo o infinito e ás vezes chóro. Cahi na conta. espumei. antiquissimo inimigo.. depois de tanta lucta. Sobre desertos.. Só encontrei. Mas. em tempo. P. e fui.. Penetrando. ergui a testa No limoso paúl. na immensidade.. Vôa e paira o espirito impassivel! EVOLUÇÃO (A Santos Valente) Fui rocha.. glauco pacigo. no mundo antigo. Onda. estendendo as mãos no vacuo. Na esphera do invisivel.1880--1884 Transcendentalismo (A J.. adoro E aspiro unicamente á liberdade. fera talvez. Já me descança em paz o coração.

. Nada! o fundo dum poço. Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte. a phantasia. e. Que mysticos desejos me enlouquecem? Do Nirvâna os abysmos apparecem. Atravesso. No cairel dos abysmos do Futuro . Nem phantasmas nocturnos visionarios. Se interna meu dorido pensamento. Não que de larvas me povôe a mente Esse vacuo nocturno. E ao longe os passos sepulcraes da Morte. Entre as fórmas da noite. Basta sentir-te ao pé de mim. sem abalo. a nevoa fria D'um mundo estranho. dia a dia.Morrer é ser iniciado. humido e morno. mudo e augusto. Nem desfilar de espectros mortuarios.. Um muro de silencio e treva em torno. II Na floresta dos sonhos. no escuro. Morte! irman do Amor e da Verdade! III Eu não sei quem tu és--mas não procuro (Tal é minha confiança) devassal-o. A meus olhos. na muda immensidade! N'esta viagem pelo ermo espaço. com que encara a custo. Atravez do silencio frio e obscuro Teus passos vou seguindo. que povôa o vento. Assim me pára o coração robusto. I Altas horas da noite. no escuro. Nas regiões do vago esquecimento Me conduz. Ou forceje a razão por que afugente Algum remorso. o Inconsciente Sacode-me com força. Só busco o teu encontro e o teu abraço. E meu queixoso e incerto sentimento Só das visões da noite se confia.. e accórdo em susto.. Como se o esmagassem de repente. passo a passo. Anthologia Grega. com quem falo.

Invocando-te. Noite e dia. que andavas a meu lado. Mas eu confio em ti.. austera imagem.. escritos. Cobre o rosto e recúa apavorada.. . alumiou-me. afinal. Filha do mesmo pae. impassivel companheira.. já sei teu nome. Luz intima. para sondal-o. Fixal-o. Morte.. Funerea Beatriz de mão gelada. Por ti me engolfo no nocturno mundo Das visões da região innominada. Filha da noite. Morte libertadora e inviolavel! VI Só quem teme o Não-ser é que se assusta Com teu vasto silencio mortuario. Muitas vezes.. A ver se fixo o teu olhar profundo. irman coeterna da minha alma! V Que nome te darei. Dormirei no teu seio inalteravel..... amiga derradeira. sombra velada. os lemmas do Ideal. na canceira... Mais claros vejo. Para ti levantei o olhar turbado... Mas não te amava então nem conhecia: Meu pensamento inerte nada lia Sobre essa muda fronte. austera e calma. basta uma hora. comprehendel-o. é certo. Nos teus olhos profundos sempre fitos.. Quando me desmaiava a alma prostrada Do cançaço e do tedio da viagem? Em teus olhos vê a turba uma voragem. E cuido perceber tua linguagem. No tedio extremo d'um viver maguado. Que avisto já n'um angulo da estrada. a cada passo. Mas unica Beatriz consoladora! IV Longo tempo ignorei (mas que cegueira Me trazia este espirito ennublado!) Quem fosses tu.Me inclino á tua voz.. Na communhão da paz universal.

.. fragmentos de existencias.. Lacrimae rerum (A Tommaso Cannizzaro) Noite. Não-ser. que conduz o Fado? E o homem porque vaga desolado E em vão busca a certeza que o conforte? ..Noite sem fim. como cohorte De almas inquietas.. A mim sorri-me a tua face adusta. É a queixa. Contemplação (A Francisco Machado de Faria e Maia) Sonho de olhos abertos.. Que envolve o eterno amor no eterno luto. Noite da Morte. que és o Ser unico absoluto.. caminhando Não entre as formas já e as apparencias. Visões sem ser. Talvez seja peccado procurar-te. Quantas vezes tenho eu interrogado Teu verbo. E d'entre a nevoa e a sombra universaes Só me chega um murmurio. Mas vendo a face immovel das essencias.. teu oraculo sagrado. espaço solitario. A mim seduz-me a paz santa e ineffavel E o silencio sem par do Inalteravel. Uma nevoa de enganos e impotencias Sobre vacuo insondavel rastejando. Eu não: minh'alma humilde mas robusta Entra crente em teu atrio funerario: Para os mais és um vacuo cinerario. o profundissimo gemido Das cousas. outro fim só presentido.. Confidente e interprete da Sorte! Aonde vão teus soes. Que é o mundo ante mim? fumo ondeando. tenebrosa e augusta.. que procuram cegamente Na sua noite e dolorosamente Outra luz. feito de ais.. Entre ideas e espiritos pairando. Mas não sonhar comtigo e adorar-te. irmã da Razão e irmã da Morte..

. arvores e mares. Accordareis um dia na Consciencia. É tudo. como um sonho vão. escuto O suspiro das cousas tenebrosas..) I Vozes do mar. um dia... dolorosas Como um pranto de larvas tumulares. Eu julgo igual ao meu vosso tormento. E eu comprehendo a vossa lingua estranha. almas captivas! II Não choreis. Verbo crepuscular e intimo alento Das cousas mudas. .. filhas da Illusão... Da sombra das visões crepusculares Rompendo. já puro pensamento. queixume vaporoso. surgireis radiosas D'esse sonho e essas ancias affrontosas. R. Vozes do mar.. Muda. Me embala o vosso canto poderoso. Não serás tu. Côro antigo de vozes rumorosas. ventos.Mas. n'um sonho doloroso. Das vozes primitivas. na pompa de immenso funeral.^{ma} Snr. Que exprimem vossas queixas singulares.. Almas irmans da minha. E pairando.... do vento! Quando ás vezes.. perdido n'um sonho immenso. E acabará por fim vosso tormento. B. O suspiro do mundo e o seu lamento? Um espirito habita a immensidade: Uma ancia cruel de liberdade Agita e abala as formas fugitivas.^a D. REDEMPÇÃO (Á Ex. Vereis as Formas. Celeste C. duvida e luto: E. Cahir desfeitas. das arvores. da selva. da montanha. Almas no limbo ainda da existencia. Passa volvendo as horas vagarosas. psalmo mysterioso.. sinistra e triumphal. em torno de mim. a noite.

Fito inconsciente as sombras visionarias. um tragico gemido Echoa sem cessar ao meu ouvido...... Um ai sem termo. Adormeceu o vento. Em segredo protesta e affirma o Bem! LUCTA Fluxo e refluxo eterno. Adormeceram valles e campinas. Emquanto pelas praias solitarias Echoa. LOGOS (Ao snr. Dorme a noite encostada nas colinas. E já prostrado E estupido á força de fadiga. Tropeçando n'um povo de visões. D. Apavorado Recúa o pensamento!.. Não sei que voz... cheia de attracções divinas. tropel nevoento. Sinto em volta de mim. Atravez d'uma luz de exhalações... Rodeia-me o Universo monstruoso. Os Destinos e as Almas peregrinas! Insondavel problema!. que eu mesmo desconheço... monotono vaivem. que sondo e meço..Voz interior (A João de Deus) Embebido n'um sonho doloroso. Como um sonho de paz e esquecimento Desponta a lua. João de Deus. Com um bramir de mar tempestuoso Que até aos céos arroja os seus cachões.. ó mar. Dá-me a noite rebate ao pensamento. a tua voz antiga. Mas a mim. Se agita meu pensar tumultuoso. Só no meu coração. Que atravessam phantasticos clarões. Com horrivel. Nicolau Salmeron) .

. calo.. scismando. vultos submersos. dispersos. Mas se paro um momento. se consigo Fechar os olhos. Na communhão ideal do eterno Bem.. no ruir dos universos. e adoro-te! Com os mortos Os que amei. e tremo e exoro-te. que erguia gravemente A tragica voz rouca. e vens attento. Oceano Nox (A A. . com os pés tambem immersos Na corrente e á mercê dos turbilhões. E eu mesmo. Só vejo espuma livida. Vejo-os.. Junto do mar sentei-me tristemente. e estás ao pé de mim E... Que estranho ser és tu (se és ser) que assim Me arrebatas comtigo e me passeias Em regiões innominadas. E entre ella. de não e sim. És um pae. aqui e ali.. E em vez de te encarar com fronte calma. Arrastados no gyro dos tufões. E interroguei. no amor sagrado. onde estão? idos. És um reflexo apenas da minha alma. és um tyranno... o que é mais. Levados. inquieto e intermittente. vagamente.. entre visões... Falo-te. um irmão. e é um tormento Ter-te a meu lado. dentro de mim--que me rodeias Com um nimbo de affectos e de ideas. sinto-os a meu lado De novo..Tu.. esses que amei: vivem commigo.. Na fuga. de Azevedo Castello Branco) Junto do mar. esse lamento Que sahia das cousas. Juntos no antigo amor. em cachões. cheias De encanto e de pavor. ouço-os e ouvem-me tambem. Sobresalto-me ao ver-te.. em quanto o vento Passava como o vôo d'um pensamento Que busca e hesita... meio e fim. calas. Que são o meu principio. Olhando o céo pesado e nevoento... como em sonho. que eu não vejo.

E sou eu mais do que elles? igual fado Me prende á lei de ignotas multidões. Nem foi de mais o desengano e a dor. Communhão (Ao snr. onde foi luz de primavera! Olha a teus pés o mundo e desespera Semeador de sombras e quebrantos!-Porém o coração. antes de nós vagaram.. --Luz morta! amarga a propria primavera!-Mas seus pacientes corações luctaram.. Respondeu: D'esta altura vejo o Amor! Viver não foi em vão. João Lobo de Moura) Reprimirei meu pranto!. onde houve flor e encantos! E noite. E no uso do penar tornado crente. que os retempera. força obscura? Em volta de que idea gravitaes?-Mas na immensa extensão. Na humilde fé de obscuras gerações. e nada mais. Considera Quantos. . Solemnia Verba Disse ao meu coração: Olha por quantos Caminhos vãos andámos! Considera Agora. se é isto a vida. Na communhão dos nossos paes antigos.-Seguirei meu caminho confiado.. Crentes só por instincto... mas amigos. Quantos as mãos incertas levantaram Sob este mesmo céo de luz austera!.. onde se esconde O Inconsciente immortal. feito valente Na escola da tortura repetida. só me responde Um bramido. e se apoiaram Na obscura e heroica fé. Seres elementares. Pó e cinzas.Que inquieto desejo vos tortura... um queixume... Os ermos que regaram nossos prantos. d'esta altura fria e austera. minh'alma. Entre esses vultos mudos.

mares. de que escarnecem. sorrindo vagamente. Que a mãe leva ao collo agasalhada E atravessa. mais rutilante. onde o mar quebra. na sua mão direita. Selvas. E os que cheios de magua e tedio encaram As proprias obras vans. [pag. Dorme o teu somno. Depuz do Ideal e da Paixão A forma transitoria e imperfeita. Descançou a final meu coração.^a Victoria de O.. [pag. em mim desapparecem. mais retumbante Que o clamoroso mar. na sua mudez. Como as flores mortaes. Duvida e Mal. n'um cachão Altas horas da noite. os que padecem. Na sua noite.) Na mão de Deus. Dorme na não de Deus eternamente! INDICE A cruz dizia á terra. Verbo velado. Como criança. Deixai-os vir a mim. se desvanecem. [pag. muda e fria. que nunca param. Silencioso interprete sagrado Das cousas invisiveis. Do palacio encantado da Illusão Desci a passo e passo a escada estreita. com que se enfeita A ignorancia infantil. Paixão. 64] 26] 52] 103] 25] . em lobrega jornada. os que lidaram. [pag. Na mão de Deus (Á Ex. coração liberto. do que a luz do dia. Como n'um mar. M. despojo vão.. o Inconsciente Amar! mas d'um amor que tenha vida [pag. os Soffrimentos que não saram. areias do deserto. Em mim.^{ma} Snr.-Assim a Morte diz... É. As torrentes da Dor. onde assentava Adornou o meu quarto a flor do cardo Ali.O que diz a Morte Deixai-os vir a mim.

a ave. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. por mais que o brade á gente Não se perdeu teu sangue generoso Não me fales de gloria: é outro o altar No céo. [pag. cujas passadas Estava a morte ali. [pag. e fui. [pag. [pag. [pag. deante Estreita é do prazer na vida a taça Eu amo a vasta sombra das montanhas Eu bem sei que te chamam pequenina Eu não sei quem tu és mas não procuro Eu vi o Amor--mas nos seus olhos baços Força é pois ir buscar outro caminho! Fui rocha. [pag. em pé. [pag. [pag. [pag. 65] 44] 49] 48] 96] 35] 84] 7] 58] 120] 46] 22] 119] 114] 85] 113] 45] 37] 19] 86] 83] 87] 10] 32] 80] 82] 6] 30] 27] 103] 97] 57] 102] 40] 20] 69] 66] 101] 117] 62] 106] 38] 59] 77] 8] 94] 34] 104] 121] 78] 68] 18] 41] 112] 91] 63] 16] 11] 75] 110] . em quanto a custo Esperemos em Deus! Elle ha tornado Espirito que passas. [pag. não é feita Aquelles. ás vezes. [pag. aos poucos desmaiando Disse ao meu coração: Olha por quantos Dorme a noite encostada nas colinas Dorme entre os gelos. [pag. [pag. [pag. arvores e mares Não morreste. [pag. [pag. que eu amei. que aqui estou morto Já não sei o que vale a nova idea Já socega. [pag. [pag. [pag. e mais. que erguia gravemente Lá! mas aonde é _lá_? aonde? Espera Longo tempo ignorei--mas que cegueira Mãe. [pag. [pag. [pag. [pag. irmã da Razão e irmã da Morte [pag. bom Christo. [pag. ventos. em tempos. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. quando o vento Esse negro corcel. [pag. [pag. [pag. [pag. dizei-me Chamei em volta do meu frio leito Chovam lyrios e rosas no teu collo Como um vento de morte e de ruina Conheci a belleza que não morre Conquista pois sósinho o teu futuro Deixae-os vir a mim. sombrio cavalleiro Nas florestas solemnes ha o culto Não busco n'esta vida gloria ou fama Não duvido que o mundo no seu eixo Não choreis. [pag. [pag. [pag. dia a dia Na mão de Deus. [pag. que eu adoro. [pag. [pag. não sei que vento Ardentes filhas do prazer.Amem a noite os magros crapulosos Aquella. a quem roubaram Depois que dia a dia. no mundo antigo Fumo e scismo. Os castellos do horizonte Ha mil annos. [pag. os que lidaram Deixal-a ir. se existe um céo para quem chora Nenhum de vós ao certo me conhece Noite. flor immaculada Embebido n'um sonho doloroso Empunhasse eu a espada dos valentes! Em sonho. nem eu sei quando Na capella. perdida entre a folhagem Na floresta dos sonhos. [pag. que adormente este viver dorido Mas a Idea quem é? quem foi que a vio Mas o velho tyranno solitario Meus dias vão correndo vagarosos Muito longe d'aqui. [pag. [pag. [pag. [pag. [pag. se o sonhar quebranta Em vão luctamos! Como nevoa baça Entre os filhos d'um seculo maldito Erguendo os braços para o céo distante Espectros que velaes. na sua mão direita Na tua mão. [pag. ergueste os magros braços Ha mil annos. [pag. depois de tanta lucta Junto do mar.

[pag. [pag. caminhando Sonho que sou um cavalleiro andante Tu. aonde a custo Pois que os deuses antigos e os antigos Porque descrês. [pag. [pag. nem amas. que anda commigo Oh chimera. ou fama Se é lei. [pag. [pag. [pag. [pag. pela vinha Razão. [pag. que passas embalada Oh! o noivado barbaro! o noivado Onde te escondes? eis que em vão clamamos Os que amei. [pag. astro ainda e sempre occulto Sonho-me ás vezes rei. [pag. e talvez cedo Um diluvio de luz cáe da montanha Vae-te na aza negra da desgraça Vozes do mar. [pag. [pag. mulher. meu cançado coração Pallido Christo. [pag. [pag. [pag.txt or 20142-8. [pag. [pag. do vento [pag. meu amor. [pag. [pag. que rege o escuro pensamento Sempre o futuro. Considera Sáe das nuvens. austera imagem Quem anda lá por fora. [pag. que dormes. [pag. do amor. de mãos dadas Que belleza mortal se te assemelha Que nome te darei. [pag. 89] 92] 67] 88] 79] 47] 61] 93] 116] 60] 31] 56] 93] 50] 43] 90] 55] 15] 5] 31] 3] 107] 28] 71] 118] 76] 9] 12] 14] 13] 17] 108] 34] 29] 33] 109] 42] 115] 70] 81] 36] 4] 21] 111] Porto Typographia Occidental. irmã do Amor e da Justiça Reprimirei meu pranto!. para dar nasceste Pelas rugas da fronte que medita Pelo caminho estreito. [pag. oh conductor divino! Para além do Universo luminoso Para tristezas. [pag. [pag. vão para ti meus pensamento No meu sonho desfilam as visões N'um céo intemerato e crystalino N'um sonho todo feito de incerteza O espectro familiar. onde estão? idos. [pag.. [pag. sempre! e o presente Só! Ao ermita sósinho na montanha Só males são reaes. [pag.. levanta a fronte e escuta Se comparo poder.zip ***** . [pag. dispersos Outra amante não ha! não ha na vida Ouve tu. [pag. só dor existe Só quem teme o Não-Ser é que se assusta Só por ti. das arvores. n'alguma ilha Sonhei--nem sempre o sonho é cousa vã Sonho de olhos abertos. [pag. [pag. [pag. [pag. nem esperas Um dia. [pag. by Antero Quental *** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ANTHERO DE QUENTAL *** ***** This file should be named 20142-8. que eu não vejo e estás ao pé de mim Tu. da vida? Poz-te Deus sobre a fronte a mão piedosa Quando nós vamos ambos. [pag. Fabrica 66 End of the Project Gutenberg EBook of Os sonetos completos de Anthero de Quental. [pag.Noite. [pag. [pag. [pag. [pag. espirito sereno Tu. [pag. que não crês. ou ouro.

B. understand. If you do not charge anything for copies of this eBook. Redistribution is subject to the trademark license. you may obtain a refund from the person or entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1. set forth in the General Terms of Use part of this license. They may be modified and printed and given away--you may do practically ANYTHING with public domain eBooks. you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg-tm License (available with this file or online at http://gutenberg.E.This and all associated files of various formats will be found in: http://www. There are a few .org/2/0/1/4/20142/ Produced by Pedro Saborano.gutenberg. Updated editions will replace the previous one--the old editions will be renamed. unless you receive specific permission. *** START: FULL LICENSE *** THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free distribution of electronic works. Project Gutenberg is a registered trademark. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm electronic work. Creating the works from public domain print editions means that no one owns a United States copyright in these works. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement.bn. reports. and may not be used if you charge for the eBooks. apply to copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase "Project Gutenberg").A. performances and research. you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm electronic works 1. Section 1. Special rules. and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional Digital--http://bnd. Ricardo Diogo and Tiago Tejo. "Project Gutenberg" is a registered trademark. agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement.org/license). especially commercial redistribution.pt). you indicate that you have read.8. complying with the rules is very easy. 1. If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the terms of this agreement. so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works. It may only be used on or associated in any way with an electronic work by people who agree to be bound by the terms of this agreement.

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