Capítulo 3

Nuclídeos instáveis e radioat-
ividade
3 Nuclídeos instáveis e radioatividade 102
3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
3.2 Radionuclídeos e séries radioativas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 103
3.3 Lei de decaimento exponencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
3.4 Decaimento multimodal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
3.5 Decaimento seqüencial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114
3.5.1 Produção de material radioativo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115
3.5.2 Equilíbrio secular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 116
3.6 Unidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
3.7 Abundância isotópica e datação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
3.8 Emissão de uma partícula pesada . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 124
3.9 Emissão de elétrons, pósitrons e neutrinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
3.10 Emissão de raios ¸ e o processo de conversão interna . . . . . . . . . . . . . . 129
3.11 Apêndice A: Método de transformada de Laplace . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
3.12 Problemas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
3.13 Bibliograa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
3.1 Introdução
A observação dos nuclídeos naturais, ou mesmo aqueles produzidos em laboratório,
mostra que nem todos são estáveis. Os nuclídeos instáveis ou radioativos, também
chamados radionuclídeos, foram amplamente estudados e classicados, sendo tam-
bém apresentados na chamada tabela de nuclídeos (veja as Figuras 1.4 e 1.5) jun-
tamente com seus diversos modos de decaimentos seqüenciais até alcançarem algum
nuclídeo estável. Emuma primeira abordagem, tipicamente fenomenológica, podemos
caracterizá-los sem intenção imediata de descrever os processos de busca da estabili-
dade de forma microscópica e completa. De fato, apresentaremos apenas descrições
102
Mizrahi & Galetti
3.2 Radionuclídeos e séries radioativas 103
gerais daqueles processos de transmutação.
Núcleos instáveis são aqueles que se desintegram ou se transformam
1
depois de sua
formação. Em um certo intervalo de tempo após a sua criação, eles perdem sua iden-
tidade transformando-se em outros núcleos de massas e/ou cargas diferentes; diz-se
também que sofrem uma transmutação. Cada espécie, ou nuclídeo, possui um tempo
característico próprio chamado tempo de meia-vida – que é o tempo aproximado que
uma amostra inicial com ·
0
núcleos leva para reduzir-se à metade, ou seja, a outra
metade tenha se transformado em outro ou outros nuclídeos. Por ser um processo prob-
abililístico não há previsão de quando, individualmente, um núcleo irá decair, contudo,
coletivamente cada radionuclídeo possui sua própria constante de decaimento (sendo
inversamente proporcional ao tempo de meia-vida), que é probabilidade por unidade de
tempo de transformar-se em outros nuclídeos menos instáveis, com massas menores,
que, por sua vez, também podem decair até alcançar um nuclídeo estável. Um decai-
mento ocorre com a emissão de partículas massivas, dotadas de energia cinética, ou com
emissão de radiação eletromagnética, os chamados raios ¸. Basicamente, os decaimento
ocorrem por emissão
(a) de um núcleon ou um núcleo leve, por exemplo: próton, nêutron, dêuteron,
partícula c;
(b) ,

(elétron e antineutrino), ,
+
(pósitron e neutrino) e captura eletrônica
2
(CE);
(c) de raios ¸ – fótons de alta energia.
Empiricamente, foi constatado que nos nuclídeos de massas leve e intermediária,
os mais instáveis decaem por emissão , para isóbaros mais estáveis; entretanto, para
os mais pesados – com mais massa – existe uma competição entre os decaimentos por
emissão c e ,. A maioria dos radionuclídeos catalogados é produzida articialmente
por reações nucleares induzidas, ou com o bombardeio de núcleos por nêutrons, o que
leva o novo nuclídeo a ser um emissor-c, ou emissor-,, ou ainda passar por um processo
de ssão, cujos fragmentos serão, em sua maioria, radioativos.
3.2 Radionuclídeos e séries radioativas
Os radionuclídeos naturais existentes na Terra têm duas origens: (1) há aqueles re-
manescentes – ou residuais – que são a herança dos radionuclídeos primordiais que so-
brevivem desde a formação da matéria (produzidos no interior de estrelas), cujos tempos
de meia-vida excedem o tempo decorrido desde a sua síntese
3
. (2) Existe também a pro-
dução contínua de radionuclídeos, cuja causa são os raios cósmicos que bombardeiam
1
Transformação tem aqui o sentido de o núcleo transmutar-se, decaindo por emissões c, o, ou ¸, ou, mais
raramente, por emissão de um núcleon ou um dêuteron; enm, perder sua identidade original. O dicionário
Houaiss Física (de I. Roditi, Editora Objetiva) indica que os verbos decair e desintegrar-se podem ser usados
com o mesmo sentido.
2
A captura eletrônica é o processo de captura de um elétron da camada 1 do átomo pelo núcleo,
A
Z
A +
c

K
!
A
Z1
Y +ie. Este processo compete com a emissão o
+
.
3
A maioria dos radionuclídeos primordiais decaiu nos últimos 4 bilhões de anos, tempo estimado para a
idade da Terra
Mizrahi & Galetti
104 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
a Terra desde a sua formação. Os raios cósmicos são partículas que provêm tanto do
Sol como de fontes mais distantes, são constituídos essencialmente por nêutrons, pró-
tons e partículas c que interagem com núcleos. Em particular, alguns interagem com
núcleos que compõem a atmosfera, produzindo assim continuamente radionuclídeos
leves. Estes, por sua vez, podem decair emitindo nêutrons secundários que podem ser
absorvidos por outros núcleos que se tornam radioativos. Exemplos típicos são: (i) o
trítio (
3
1
H), que pode ser produzido pelos processos,
: +
14
7
· ÷÷ T +
12
6
C,
: +
16
8
O ÷÷ T +
14
7
·,
e que existe na natureza exclusivamente devido à segunda reação. (ii) Oisótopo carbono-
14 é produzido na atmosfera pela reação
: +
14
7
· ÷÷j +
14
6
C,
e ele se se liga ao oxigênio para formar a molécula CO
2
, porém é encontrado em muito
maior abundância nos oceanos. Nos últimos 100 anos, a queima de combustíveis fós-
seis em grande escala lançou na atmosfera grande quantidade de CO
2
, causando assim
uma alteração no seu estado de equilíbrio natural com o meio ambiente, previamente
existente.
Os radionuclídeos naturais podem ser classicados em dois grupos:
(a) aqueles remanescentes desde a síntese dos elementos e que não fazem parte de
alguma cadeia radioativa, ou seja, não apresentam uma cadeia de decaimentos sequen-
ciais. São em número de 17 e seu tempo de meia-vida excede 5 bilhões de anos (tempo
este maior do que a idade do sistema solar); eles são apresentados na Tabela 3.1 e os
Mizrahi & Galetti
3.2 Radionuclídeos e séries radioativas 105
núcleos para os quais decaem (núcleos-lho) são estáveis.
RN Modo T
1/2
(a:o:) Abund. isot. (%)
40
19
1 ,

, C1 1, 277 10
9
0, 0117
50
23
\ ,

, C1 1, 5 10
17
0, 2500
87
37
1/ ,

4, 75 10
10
27, 84
113
48
Cd ,

7, 7 10
15
12, 22
115
49
1: ,

4, 4 10
14
95, 71
123
52
Tc C1 1, 3 10
13
0, 908
138
57
1a ,

, C1 1, 05 10
11
0, 090
144
60
·d c 2, 38 10
15
23, 80
147
62
o: c 1, 06 10
11
15, 0
148
62
o: c 7 10
15
11, 3
152
64
Gd c 1, 1 10
14
0, 20
176
71
1n ,

3, 78 10
10
2, 59
174
72
H) c 2, 0 10
15
0, 162
180n
73
Ta ,
+
, C1 1, 2 10
15
0, 012
187
75
1c ,

4, 3 10
10
62, 6
186
76
O: c 2, 0 10
15
1, 58
190
78
1t c 6, 5 10
11
0, 01
Tabela 3.1. Radionuclídeos
primordiais isolados, i.e.,
sem cadeia de decaimentos
sequenciais, com seus modos
de decaimento, tempos de
meia-vida e abundâncias
isotópicas. O decaimento ,
+
compete com a captura
eletrônica (CE).
(b) Todo radionuclídeo com 7 83 é membro de uma de três longas cadeias de
decaimento, conhecidas como séries radioativas naturais. Nestas, os nuclídeos decaem
por emissão c ou ,
+
, e em cada série o número bariônico pode ser escrito da forma
4:+/, onde : é um número inteiro e / = 0, 1, 2, 3. As séries que ocorrem na natureza
são denotadas como: 4: (a série do tório-232), 4: + 2 (a série do urânio-238) e 4: + 3
(a série do urânio-235 ou actínio); os nomes tório e urânio são devidos ao fato de que
são esses os nuclídeos em que se iniciam os decaimentos sucessivos. Nas Figuras 3.1,
3.2 e 3.3 estão apresentadas, respectivamente, a série 4:+2, quando os decaimentos se
iniciam no
238
l (T
1/2
= 4, 47 10
9
a) e terminam no nuclídeo estável
206
1/, a série
4: com início no
232
T/ (T
1/2
= 1, 41 10
10
a) e término no nuclídeo estável
208
1/, e
a série 4: + 3 com início no
235
l (T
1/2
= 0, 7 10
9
a) e término no nuclídeo estável
207
1/; deve-se notar que todas as séries radioativas terminam em isótopos estáveis do
chumbo.
Atualmente, a série de decaimentos 4: + 1 não é observada na natureza, entretanto
ela já deve ter existido quando o elemento que encabeça a série, o neptúnio-237, foi
produzido juntamente com os demais elementos pesados, durante o processo de nucle-
ossíntese, e estava presente na formação do sistema solar. O desaparecimento desta
série ocorreu porque o elemento de vida mais longa, o
237
93
·j, tem meia-vida de ape-
nas 2, 17 10
6
anos, que é um tempo muito menor do que a idade da Terra; assim, os
radionuclídeos intermediários não existem mais por terem decaído nos nuclídeos mais
estáveis. Contudo, essa série pôde ser "ressucitada", i.e., produzida articialmente e ob-
servada, graças à existência dos reatores nucleares, nos quais produziu-se o nuclídeo
Mizrahi & Galetti
106 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
Figura 3.1: Asérie do urânio se inicia no
238
l e termina no chumbo-206, umnuclídeo estável. O
deslocamento de duas casas à esquerda em diagonal indica um decaimento c, uma casa à direita,
um decaimento ,

. No eixo das ordenadas está representado o número de nêutrons e na abcissa,
o número de prótons. Os decaimentos podem ocorrer por emissão ,

ou c, em quatro casos os
dois processos competem entre si, como pode ser visto nos radionuclídeos
218
1o,
218
¹t,
214
1i
e
210
1i.
Mizrahi & Galetti
3.2 Radionuclídeos e séries radioativas 107
Figura 3.2: A série do tório se inicia no
232
T/ e termina no chumbo-208, um nuclídeo estável. O
deslocamento de duas casas à esquerda em diagonal indica um decaimento c, uma casa à direita,
um decaimento ,

. No eixo das ordenadas está representado o número de nêutrons e na abcissa,
o número de prótons. Os decaimentos podem ocorrer por emissão ,

ou c, em dois casos os
processos competem entre si.
Mizrahi & Galetti
108 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
Figura 3.3: A série do urânio-235 (por vezes chamada série do actínio) se inicia no
235
l e ter-
mina no chumbo-207, um nuclídeo estável. O deslocamento de duas casas à esquerda em diago-
nal indica um decaimento c, uma casa à direita, um decaimento ,

. No eixo das ordenadas está
representado o número de nêutrons e na abcissa, o número de prótons. Os decaimentos podem
ocorrer por emissão ,

ou c, em vários casos os dois processos competem entre si.
Mizrahi & Galetti
3.3 Lei de decaimento exponencial 109
241
94
1n – que praticamente não existe na natureza – que decai, por emissão c, para o
237
93
·j, que então dá início à série de decaimentos, como mostrado na Figura 3.4.
3.3 Lei de decaimento exponencial
A formalização dos processos de decaimento pode ser feita de maneira direta. Consid-
eremos inicialmente que ` seja a taxa de decaimento ou probabilidade por unidade de
tempo da desintegração de um núcleo. Se, no tempo t = 0, uma amostra é composta
por ·
0
núcleos radioativos, em um tempo posterior t teremos
·
0
= ·(t) +·
J
(t), (3.1)
onde ·(t) é o número de núcleos que ainda guardam sua identidade (que não se trans-
formaram) e ·
J
(t) é o número de núcleos que sofreram desintegração. Pode-se estab-
elecer uma equação fundamental para a descrição do decaimento radioativo admitindo-
se que a taxa de variação do número de núcleos originais, `·, deve ser igual à taxa de
produção dos novos núcleos
4
, isto é,
`·(t) =

J
(t)
dt
, (3.2)
ou
`·(t) = ÷
d·(t)
dt
. (3.3)
A solução,
·(t) = ·
0
c
X|
, (3.4)
fornece o número de núcleos originais que ainda mantêm sua identidade em função do
tempo, é chamada lei do decaimento radioativo e é devida a Rutherford. Denindo o
tempo de vida-média como t = `
1
, temos
·(t) = ·
0
c
|/r
. (3.5)
Desta forma, t é o tempo necessário para que uma amostra contendo inicialmente ·
0
núcleos radioativos se reduza a ·
0
,c · 0, 368 ·
0
núcleos.
Note que j(t) = c
|/r
é a probabilidade de que um núcleo não se desintegrou ou
que ainda mantém sua identidade, desde sua formação no tempo t = 0 até um tempo
posterior t; complementarmente, ¡(t) = 1 ÷ c
|/r
é a probabilidade de que o núcleo
irá decair desde sua formação até o tempo t.
Uma outra medida de tempo de redução de uma amostra por desintegração nuclear
é o tempo de meia-vida T
1/2
, que é o tempo necessário para que uma amostra de ·
0
núcleos se reduza à metade, ou seja,
·(t) = ·
0
2
|/T
1=2
, (3.6)
4
Considera-se que A não varia com o tempo, outrossim, uma constante dependente do tempo seria um
indicador de que nos processos fundamentais as forças nucleares variam com o tempo.
Mizrahi & Galetti
110 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
Figura 3.4: A série articial neptúnio inicia-se no
237
·j e termina no bismuto-209 - um nu-
clídeo estável - diferentemente das outras séries que terminam em isótopos do chumbo. O deslo-
camento de duas casas à esquerda em diagonal indica um decaimento c, uma casa à direita, um
decaimento ,

.
Mizrahi & Galetti
3.4 Decaimento multimodal 111
o que permite estabeler uma relação entre os dois tempos característicos
T
1/2
= t ln2 · 0.693t, (3.7)
ou, em termos da constante de decaimento,
T
1/2
=
ln2
`
-
0, 693
`
.
A atividade ou intensidade da emissão radioativa ¹(t) representa o número de de-
caimentos por unidade de tempo; para um amostra contendo ·(t) núcleos é denida
como
¹(t) = ÷
d·(t)
dt
,
sendo proporcional ao número de núcleos radioativos da amostra, no tempo t,
¹(t) = `·(t). (3.8)
A atividade segue a mesma lei do decaimento radioativo, i.e., se um grama de uma
amostra de um material, ou de uma substância, possui em sua composição uma certa
percentagem de um radionuclídeo com tempo de meia-vida T
1/2
, e a amostra apre-
senta uma atividade ¹
0
= `·
0
em um momento t = 0, com o decorrer do tempo ela
diminuirá como ¹(t) = ¹
0
2
|/T
1=2
.
3.4 Decaimento multimodal
O decaimento bimodal é um fenômeno bastante comum na desintegração nuclear – ou
mesmo no decaimento de partículas elementares –, signicando que um núcleo
.
2
A
(núcleo-pai) tem duas opções possíveis de decaimento. Diz-se, também, que há dois
canais de decaimento que competem entre si. Por exemplo, o
206
84
1o pode decair tanto
por emissão de partícula c para o núcleo de
202
82
1/ como por decaimento ,
+
para o
núcleo
206
83
1i; cada ramicação tem sua própria probabilidade por unidade de tempo ou
taxas parciais de transição `
1
e `
2
. Esquematicamente, tem-se
206
84
1o
¸
¸
(`
1
) ÷÷
202
82
1/ (c, 5, 45%)
(`
2
) ÷÷
206
83
1i (,
+
, 94, 55%)
; (3.9)
os núcleos de
202
82
1/ e
206
83
1i são chamados núcleos-lhos. Cada modo tem a si associ-
ada uma percentagem: estatisticamente, 5, 45% dos decaimentos ocorrem por emissão
c e nos demais 94, 55% dos casos os decaimentos ocorrem por emissão ,
+
. A soma
das constantes de decaimento, `
1
+`
2
, fornece a taxa de transição total. As razões de
ramicação
5
para os decaimentos são denidas então por
)
1
=
`
1
`
1
+`
2
= 0, 0545, )
2
=
`
2
`
1
+`
2
= 0, 9455. (3.10)
5
Branching ratio eminglês, é a fração de núcleos (ou partículas) de uma determinadas espécie, que decaem
por um particular modo, com relação ao número total de núcleos (ou partículas) que decaem por todos os
possíveis modos.
Mizrahi & Galetti
112 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
Assim, dada uma amostra de núcleos
.
2
A, inicialmente com ·
·,0
núcleos radioativos,
com o passar do tempo este número irá diminuir, sendo sua variação dada pela equação

·
dt
= ÷`
1
·
·
÷`
2
·
·
, (3.11)
cuja solução é
·
·
(t) = ·
·,0
c
(X1+X2)|
,
de onde constata-se que t = (`
1
+`
2
)
1
é o tempo de vida-média da amostra inicial
no estado ou nível de energia em que se encontra. Pode-se também escrever
1
t
=
1
t
1
+
1
t
2
,
sendo t
1
e t
2
as vidas-médias para cada canal de decaimento
6
.
Se denotamos, de forma genérica, os núcleos-lhos como
.1
21
1 e
.2
22
\, sua produção
é representada pelas equações

Y
dt
= `
1
·
·
e

V
dt
= `
2
·
·
, (3.12)
cujas soluções são respectivamente
·
Y
(t) = )
1
·
·,0
_
1 ÷c
(X1+X2)|
_
(3.13)
e
·
V
(t) = )
2
·
·,0
_
1 ÷c
(X1+X2)|
_
. (3.14)
Verica-se que há conservação do número de núcleons no decorrer do tempo, isto é,
·
·
(t) + ·
Y
(t) + ·
V
(t) = ·
·,0
, e, assintoticamente, o nuclídeo A deixa de ex-
istir, transmutando-se no nuclídeo 1 ou no \, com frações )
1
e )
2
do valor inicial:
lim
|!1
·
·
(t) = 0, lim
|!1
·
Y
(t) = )
1
·
·,0
, lim
|!1
·
V
(t) = )
2
·
·,0
. Esta é
uma forma de se estimar o tempo de meia-vida de um nuclídeo; no exemplo do
206
1/
o tempo de meia-vida é T
1/2
= 8, 8 d ou 7, 6 10
5
:, e ` = `
1
+`
2
= 9, 12 10
7
:.
Generalizando para decaimentos multimodais, tem-se, da mesma forma, ` =

I
`
I
e t
1
=

I
t
1
I
. Por exemplo, para um processo de decaimento trimodal temos
64
29
Cn
¸
÷÷
¸
(`
1
) ÷÷
64
28
·i(,
+
, 17, 4%)
(`
2
) ÷÷
64
30
7: (,

, 39, 0%)
(`
3
) ÷÷
64
28
·i (C1, 43, 6%),
(3.15)
onde o tempo de meia-vida do
64
29
Cn é T
1/2
= 12, 7 / e ele pode decair tanto por
emissões ,

quanto por captura eletrônica.
6
As quantidades
i
= ~¸t
i
e = ~¸t são chamadas largura de linha parcial e largura de linha total,
pois os níveis de energia dos núcleos que decaem não são bem denidos, tendo um intervalo de energia, ou
largura, de ordem , em torno do valor médio 1, e para cada canal dene-se uma largura de linha
i
.
Mizrahi & Galetti
3.4 Decaimento multimodal 113
Na Figura 3.5 estão apresentados quatro decaimentos típicos de nuclídeos instáveis.
Em 3.5-a o núcleo de
226
89
¹c pode decair de três diferentes modos que competem entre
si: (1) por captura eletrônica,
226
89
¹c + c

÷
226
88
1a + i
t
(j + c

÷ : + i
t
), (2)
por decaimento c e (3) por decaimento ,

, cada um com sua razão de ramicação )
I
,
como mostrado na Tabela 3.2. Por sua vez, o
226
88
1a pode decair para o
222
86
1:, em
seu primeiro estado excitado ou para o estado fundamental. Se decair para o estado
excitado, haverá um decaimento para o estado fundamental com emissão de um raio ¸.
Decai. do
226
89
¹c T
1/2
= 29 / )
I
= `
I
,

I
`
I
C1
226
89
¹c + c

÷
226
88
1a + i
t
(j +c

÷: +i
t
)
0, 17
c
226
89
¹c ÷
222
87
1r + c 6 10
5
,
226
89
¹c ÷
226
90
T/ +c

+ i
t
0, 83
Decai. do
226
88
1a T
1/2
= 1 600 a
c
226
88
1a ÷
222
86
1:

+ c
222
86
1:

÷
222
86
1: + ¸ (T
1/2
= 0, 3 ::)
0, 06
c
226
88
1a ÷
222
86
1: +c 0, 94
Tabela 3.2. Decaimento multimodal do nuclídeo
226
89
Ac, por captura eletrônica, por emissão c
e ,

, com tempo de meia-vida de 29 horas. Nas últimas duas linhas está descrito o decaimento
bimodal do
226
88
Ra, que pode decair tanto para o primeiro estado excitado do
222
86
Rn, como
para o seu estado fundamental por decaimento c.
Mesmo no caso de partículas subatômicas instáveis pode ocorrer o decaimento mul-
timodal, como, por exemplo, com o méson 1
+
, que é (como todos os mésons) uma
partícula instável
7
. Ele tem uma vida-média t
1
+ = 1, 238 10
8
:, ou taxa total de
decaimento ` = (t
1
+)
1
= 8, 078 10
7
:
1
. De resultados de diversos experimen-
tos constata-se que o méson 1
+
decai por seis diferentes modos, como visto na Tabela
7
O sinal + é um lembrete de que o kaon carrega uma unidade de carga elétrica positiva. No modelo a
quarks ele é constituído de um quark & e de um antiquark c.
Mizrahi & Galetti
114 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
nucleares
5.¸¡¸
Figura 3.5: Alguns processos de decaimento. (a) O actínio-226 apresenta três processos de de-
caimento: a CE, a emissão c e o decaimento ,

competem entre si; (b) o zircônio-95 decai por
dois decaimentos ,

seqüenciais; (c) o césio-132 se transmuta por dois processos competitivos:
decaimentos ,

e ,
+
; (d) o criptônio-73 decai inicialmente para o bromo-73 por decaimento
,
+
para diferentes níveis de baixa energia; do nível mais excitado ele decai para o selênio-72 por
emissão de um próton.
Mizrahi & Galetti
3.5 Decaimento seqüencial 115
3.3, com respectivas razões de ramicação.
Decaimentos 1
+
÷÷ )
I
`
I
10
7
= 8, 078 )
I
:
1
j
+
+i
µ
0, 635
¬
+

0
0, 212
¬
+

+

0, 056
¬
+

0

0
0, 017
¬
0
+j
+
+i
µ
0, 032
¬
0
+c
+
+i
t
0, 048
Tabela 3.3. Modos de decaimento do méson K
+
; f
I
são as razões de
ramicação para cada modo.
Note-se que antes e depois do decaimento a carga elétrica total é a mesma, portanto
ela é uma quantidade conservada; isto vale em todas as reações e decaimentos, tanto em
física nuclear como na física de partículas subatômicas e elementares. As partículas que
aparecem como produto do decaimento são também partículas subatômicas.
3.5 Decaimento seqüencial
Chama-se decaimento seqüencial o processo pelo qual um núcleo sofre pelo menos dois
decaimentos sucessivos 1 ÷÷ 2 ÷÷ 3 ÷÷ 1, iniciando-se no radionuclídeo 1 e
terminando no nuclídeo estável 1, como ocorre nas séries radioativas. As equações que
regem as taxas de variação do número de núcleos de cada espécie são equações do tipo
ganhos-e-perdas, e são escritas como
_
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
_
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
¸
_
JÞ1
J|
= ÷`
1
·
1
,
JÞ2
J|
= ÷`
2
·
2
+`
1
·
1
.
.
.

K1
J|
= ÷`
11
·
11
+`
12
·
12
,

K
J|
= `
11
·
11
,
(3.16)
onde ·
1
(t) é o número de núcleos-pai, ·
2
(t) é o número de núcleos do primeiro lho,
etc, respectivamente – elas são conhecidas como equações de Bateman. Supondo que,
inicialmente, apenas o nuclídeo 1 existe em uma amostra, ·
1
(0) ,= 0, ·
2
(0) = =
·
1
(0) = 0, a solução dessas equações pode ser obtida usando, por exemplo, o método
da transformada de Laplace (veja o Apêndice A para os detalhes formais).
Em uma amostra radioativa a atividade de um radionuclídeo /, ¹
|
(t) = `
|
·
|
(t), é
a quantidade medível de referência, por ser o número de transmutações por unidade de
Mizrahi & Galetti
116 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
tempo. Em particular, para 1 = 3, as atividades dos radionuclídeos são escritas como
¹
1
(t) = ·
1
(0)`
1
c
X1|
,
¹
2
(t) = ·
1
(0)
`
1
`
2
(`
2
÷`
1
)
_
c
X1|
÷c
X2|
_
(3.17)
e o número de átomos do nuclídeo estável aumenta com o passar do tempo como
·
3
(t) = ·
1
(0)
_
`
2
_
1 ÷c
X1|
_
÷`
1
_
1 ÷c
X2|
_
`
2
÷`
1
_
. (3.18)
Assintoticamente (t ÷ ·), as atividades se anulam ¹
1
(·) = ¹
2
(·) = 0, restando
apenas o nuclídeo estável na amostra, ·
3
(·) = ·
1
(0).
3.5.1 Produção de material radioativo
Aqui vamos considerar o seguinte caso particular: uma amostra de uma substância que
contém um isótopo de um determinado elemento é exposta à ação de um uxo con-
stante de nêutrons. Ocorrerá que muitos núcleos desse isótopo absorverão um nêutron
e poderão se tornar radioativos por emissão
8
de raios ,. Como exemplo, vamos consid-
erar a reação
: +
23
11
·a ÷÷
24
11
·a ÷÷
24
12
'q +c

+ i
t
.
Os núcleos do isótopo do sódio,
23
11
·a, são bombardeados com nêutrons produzidos em
um reator nuclear operando a potência constante (o uxo de nêutrons está estabilizado)
e se transmutam no isótopo
24
11
·a. Se a taxa de transmutação dos núcleos de
23
11
·a
for muito baixa, tal que, para um dado intervalo de tempo, possa ser desconsiderada em
relação ao tamanho da amostra (`
0
t ¸1), a taxa de produção do isótopo
24
11
·a deve ser
essencialmente constante, não dependendo da quantidade de núcleos de
23
11
·a. Assim,
a Eq. (3.5) para o número de núcleos de
23
11
·a pode ser escrita na forma aproximada
·23
Þo
(t) = ·23
Þo
(0) c
X0|
· ·23
Þo
(0) (1 ÷`
0
t) (3.19)
para `
0
t ¸1, portanto
·23
Þo
(t) ÷·23
Þo
(0) = ÷jt,
onde j = `
0
·23
Þo
(0). Podemos então escrever a equação para a taxa de transformação
de núcleos de
23
·a como
d·23
Þo
dt
· ÷j. (3.20)
Contudo, os núcleos de
24
11
·a decaem por emissão , a uma taxa `, portanto a equação
para a taxa de produção de núcleos de
24
11
·a é
d·24
Þo
dt
= j ÷`·24
Þo
(3.21)
8
Isso não ocorrerá se o nuclídeo for deciente em nêutrons, i.e., precise de mais nêutrons para ser mais
estável.
Mizrahi & Galetti
3.5 Decaimento seqüencial 117
com a condição inicial ·24
Þo
(0) = 0. A solução desta equação é
·24
Þo
(t) =
j
`
_
1 ÷c
X|
_
, (3.22)
e vê-se daí que, após um tempo t ¸`
1
, a quantidade de núcleos de
24
11
·a estabiliza-se
em ·24
Þo
= j,`. Assim, a atividade do nuclídeo
24
·a é exatamente a constante j,
¹24
Þo
= j.
Agora pergunta-se: como variará o número de núcleos de
24
12
'q com o tempo,
sabendo-se que inicialmente não havia nenhum? Deve-se observar que a taxa de pro-
dução de ·24

deve ser a mesma que a taxa de perda de núcleos de
24
11
·a, isto é,
d·24

dt
= `·24
Þo
(3.23)
e, portanto, integrando-se esta equação obtém-se aquele número
·24

(t) = jt ÷
j
`
_
1 ÷c
X|
_
. (3.24)
Note-se que para ` ¸ `
0
, assintoticamente ·24
Þo
÷ j,` e ·24

÷ jt ÷ j,`, ou
seja, há um crescimento linear do número de núcleos de
24
'q, na mesma proporção
com que os núcleos de ·23
Þo
(0) se desintegram, menos a quantidade xa de núcleos
de
24
·a. Em resumo, o número de núcleos de
24
·a se mantém constante e o número
de núcleos de
24
'q cresce com a mesma taxa com que os núcleos de
23
·a perdem sua
identidade. Veja na Figura 3.6 as diferentes escalas de decaimentos radioativos para os
isótopos
23
·a
_
c
X0|
¸
e
24
·a
_
c
X|
¸
, note-se que até um tempo ta curva sólida pode
ser aproximada por uma linha reta como foi feito na Eq. (3.19).
3.5.2 Equilíbrio secular
Para uma série de decaimentos radioativos, onde o tempo de meia-vida do núcleo-pai
é muito maior que aqueles dos núcleos-lhos, `
1
¸ `
2
, `
3,
..., `
1
, em uma amostra
que não esteve sujeita a uma exposição radioativa (não perturbada), um equilibrio se
estabelece entre as populações dos núcleos. Olhando para o conjunto de Eqs. (3.16),
podemos escrever a atividade do núcleo-pai como uma quantidade essencialmente con-
stante, ¹
1
(t) = `
1
·
1
(t) - ¹
c
, uma vez que a quantidade de núcleos não diminui apre-
ciavelmente nos tempos de meias-vidas dos núcleos-lhos. A equação para o primeiro
núcleo-lho é escrita como

2
dt
= ÷`
2
·
2

c
,
e o número de núcleos ·
2
não pode diminuir mais rapidamente do que a taxa de sua
produção, portanto a atividade desse núcleo-lho é
¹
2
(t) = ¹
c
_
1 ÷c
X2|
_
,
que não pode ser maior que ¹
c
, de forma que em um tempo de observação sucien-
temente maior que (`
2
)
1
, i.e., descartando o tempo transiente resulta, ¹
2
(t) - ¹
c
.
Mizrahi & Galetti
118 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
Figura 3.6: As duas taxas de decaimento: a linha sólida é para o
23
·a e a linha tracejada é para
o
24
·a. Os tempos considerados vão até o valor t; a comparação entre as curvas justica a
aproximação feita na adoção de uma taxa de decaimento constante para o
23
·a.
Procedendo da mesma forma para os sucessivos núcleos-lhos, constatamos que, com
respeito às atividades, um equilíbrio se estabece entre todos os radionuclídeos da cadeia,
eles cam com o mesmo valor ¹
c
,
¹
c
= `
1
·
1
(t) = `
2
·
2
(t) = = `
1
·
1
(t) . (3.25)
Estas equações caracterizam o chamado equilíbrio secular.
As equações (3.25) podem ser usadas para calcular o tempo de meia-vida de um
nuclídeo, se este for bastante longo. Por exemplo, um minério contém
238
92
l e
226
88
1a
como núcleo-pai e núcleo-lho, respectivamente, e que estão em equilíbrio secular.
Sabe-se que a meia-vida do
226
1a é de 1 620 anos e que na amostra a razão entre o
número de átomos é ·226
1o
,·238
I
= 1,(2, 75 10
6
), portanto pelas Eqs. (3.25 )
temos
`238
I
= `226
1o
_
·226
1o
·238
I
_
,
ou
T
1/2
_
238
92
l
_
= T
1/2
_
226
88
1a
_
·238
I
·226
1o
= 4, 46 10
9
a.
Mizrahi & Galetti
3.6 Unidades 119
3.6 Unidades
As unidades de medida de radioatividade são separadas em duas categorias: aquelas
especicadas pela atividade da fonte emissora e aquelas ligadas aos efeitos da radiação
sobre a matéria.
Assim, no que se refere à primeira categoria, observamos que, entre as diversas
unidades de medida para quanticar a radioatividade de um corpo material, vamos men-
cionar duas, classicadas no SI
9
, que são as mais importantes no presente contexto: (i)
o becquerel (1¡) e (ii) o curie (Ci). Ambas as unidades quanticam a atividade de
uma fonte radioativa, com referência direta ao número de transformações nucleares por
unidade de tempo. Assim, 1 1¡ (unidades de :
1
) corresponde a uma atividade média,
associada a uma desintegração por segundo, enquanto que 1 Ci é o número de desin-
tegrações de um grama do isótopo
10 226
86
1a, em um segundo, ou seja 3, 7 10
10

[1, 2]. Por exemplo, sabe-se que, devido essencialmente aos isótopos
40
19
1 e
14
6
C ex-
istentes nos tecidos orgânicos, uma pessoa com massa corporal média de 70 /q emite,
aproximadamente, uma radiação de 10
7
Ci = 3, 710
3
1¡. Ou então, 1 /q de tecido
orgânico irradia aproximadamente 53 1¡. Note que 1 1¡ equivale a 2, 7 10
11
Ci
(2, 7 10
11
q de
226
86
1a).
Para ilustrar essas denições iremos discutir, em uma abordagem reversa, a relação
entre a massa de um radionuclídeo e a sua atividade; ou seja, a determinação da massa
de um determinado radionuclídeo, necessária para construir uma fonte radioativa com
uma atividade pré-estabelecida.
Sabendo-se que o trítio (T ou
3
H) tem uma meia-vida de 12, 6 anos, quantos gramas
serão necessários para produzir uma fonte com atividade de 1 Ci? Usando a expressão
para a atividade (3.8) e escrevendo ` = ln2,T
1/2
, tem-se
3, 7 10
10
1¡ =
ln2
12, 6 a
·
T
(3.26)
onde ·
T
é o número de átomos de trítio. Como um grama de trítio contém ·
o
,3
átomos (·
o
é o número de Avogadro), logo, dividindo os dois membros da Eq. (3.26)
por ·
o
,3, obtemos
3, 7 10
10

·
o
,3
=
ln2
12, 6 a

_
·
T
·
o
,3
_
[q] .
Um cálculo direto fornece o valor procurado
·
T
·
o
,3
[q] =
3, 7 10
10
:
1
12, 6 a
(6, 02 10
23
) ,3 ln 2
= 1, 06 10
4
q,
ou seja, cerca de 100 jq de trítio têm a mesma atividade que um grama de
226
86
1a.
9
Sistema Internacional de Unidades.
10
O rádio-226 tem uma meia-vida de 1 620 anos e decai só por emissão c.
Mizrahi & Galetti
120 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
No caso do
238
l (emissor c), que tem uma constante de decaimento ` = 4, 88
10
18
:
1
, a massa necessária para 1 Ci de atividade é
·238
I
·
o
,238
[q] =
3, 7 10
10
:
1
[(6, 02 10
23
) ,238] 4, 88 10
18
= 3, 00 10
6
q,
ou seja, são necessárias cerca de três toneladas de
238
l.
Já no que diz respeito à segunda categoria de unidades, deve-se levar em conta o
efeito da radiação sobre meios materiais, lembrando o papel essencial da ionização, i.e.,
da remoção de elétrons dos átomos e moléculas, com a conseqüente produção de íons
positivos. A grandeza física que expressa a ionização produzida por raios ¸ e A no ar é
a exposição. Embora a unidade tradicional dessas grandeza seja o roentgen (1) – 1 1 é
denido como sendo a quantidade de radiação que produz a carga elétrica de 1 c:n em
1 c:
3
de ar –, a unidade proposta pelo SI é o coulomb por quilograma (C,/q) de ar.
Em condições normais de temperatura e pressão a relação entre essas unidades é
1 roc:tqc: (= 1 1) = 1 c:n,1 c:
3
de ar = 2, 58 10
4
C,/q de ar.
Uma pessoa submetida a uma radiograa de abdómen ca exposta, tipicamente, a 0, 15
:C,/q.
Para diferenciar dos efeitos da radiação no ar, há uma grandeza relacionada com a
quantidade de energia produzida pela passagem da radiação, ou de partículas, em um
dado meio material. Tal grandeza é a dose absorvida e sua unidade tradicional é o rad
1 rad = 10
2
J,/q = 100 crq,q do material.
A unidade respectiva do SI é o gray (Gj), denida como
1 Gj = 1 J,/q do material = 100 rad.
Dado um material, há uma relação entre exposição e dose absorvida; para tecidos moles
do corpo, 1 1 · 1 rad. Para o ar 1 1 · 0.9 rad.
Danos biológicos causados pela radiação não dependem somente da energia deposi-
tada mas também da natureza da radiação ionizante. Para se ter uma medida dos danos,
que seja livre dessa dependência, criou-se uma grandeza física – a dose equivalente –
obtida da dose absorvida multiplicando-se essa por um fator de qualidade, .
1
, que de-
pende na natureza e da energia da radiação ou partícula ionizante. Essa grandeza tem
como unidades o rem (roentgen equivalent man)
1 rc: = dose em rad .
1
e, no SI, o sievert (o·), sendo sua denição
1 o· = dose em Gj .
1
= 100 rc:.
Os valores do fator de qualidade são tabelados e varrem um intervalo de valores que vai
de 1 (raios ¸ e A) a 20 (partículas c, fragmentos de ssão, núcleos pesados). Veja as
referências [1, 2, 3]
Mizrahi & Galetti
3.7 Abundância isotópica e datação 121
3.7 Abundância isotópica e datação
O conceito de abundância isotópica
11
, denotada como ¸
|
, foi introduzido no capítulo
1, subseção 1.3.1, refere-se à fração (em percentagem) de um dado isótopo em relação à
quantidade total dos átomos de um determinado elemento presente em alguma amostra,
em uma rocha na crosta terrestre ou em algum outro lugar do universo. Contudo, quanto
à crosta terrestre, para alguns elementos a fração do isótopo não é a mesma em todas
as rochas, mas irá depender da origem da amostra, ou seja, do local de onde foi ex-
traída. Por exemplo, as abundâncias isotópicas dos isótopos estáveis do chumbo são
¸208
82
1b
= 52, 4%, ¸207
82
1b
= 22, 1%, ¸206
82
1b
= 24, 1%, e elas estão imutáveis desde a
formação da Terra. Contudo, em certos minérios que contêm os elementos urânio ou
tório, além do chumbo, as abundâncias isotópicas adquirem valores diferentes porque
os isótopos radioativos
238
l e
232
T/ decaem produzindo, no nal da cadeia, um dos
isótopos estáveis do chumbo,
206
1/ e
208
1/, respectivamente, causando assim aumento
da sua concentração, comparativamente ao minério que não contém urânio ou tório.
Um dos aspectos interessantes, de cunho prático, do conhecimento da abundância
isotópica é que se pode usar a atividade dos radioisótopos para estimar a idade de certos
minérios, rochas e mesmo de tecidos biológicos. Os decaimentos funcionam como
relógios nucleares que operam com taxa de variação constante. A seguir apresentamos
dois exemplos emblemáticos.
Datação de tecidos biológicos com o isótopo
14
6
C O isótopo
14
6
C é produzido na at-
mosfera terrestre devido à absorção de um nêutron cósmico, ou um nêutron secundário,
por um núcleo de
14
7
·. O processo todo é representado pela reação
: +
14
7
· ÷÷j +
14
6
C
¸
14
7
· +c

+ i
t
+ 0, 156 'c\ .
(3.27)
Sendo radioativo, o núcleo de
14
6
C decai por emissão ,

no mesmo nuclídeo
14
7
· e seu
tempo de meia-vida é de cerca de 5 730 anos. No processo de fotossíntese, as plantas
incorporam o carbono por meio da absorção de CO
2
, o dióxido de carbono, constituído,
principalmente, pelos dois isótopos estáveis,
12
6
C (99%) e
13
6
C (1%) e por uma ínma,
mas não menos importante, fração do radioisótopo
14
6
C (10
10
%, ou, um átomo do
isótopo
14
6
C para cerca de 10
12
átomos de carbono). Apesar de decair, a concentração
de
14
6
C atinge um valor estável por ele estar sendo constantemente renovado nos teci-
dos enquanto a planta estiver viva. Quanto aos animais, os herbívoros irão incorporar
em seus tecidos o
14
6
C na metabolização de plantas ingeridas, que também atingirá uma
concentração estável. Em seqüência, mesmo os animais exclusivamente carnívoros irão
incorporar o
14
6
C em seu organismo quando forem se alimentar de animais herbívoros.
Portanto, quase todas as plantas e os animais têm em seus tecidos orgânicos o isótopo
14
6
C. Apesar de sua contínua desintegração, também nos animais o estoque de
14
6
C é
11
Às vezes é usado o termo abundância relativa de um isótopo.
Mizrahi & Galetti
122 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
permanentemente renovado, permanecendo sua concentração constante enquanto con-
tinuaremvivos e se alimentando regularmente. Porém, quando uma planta ou umanimal
morre ou é carbonizado, em um certo tempo t
0
, a partir deste exato momento não há
mais renovação de
14
6
C e com o passar do tempo a fração deste radioisótopo, em relação
aos outros isótopos de carbono presentes nos tecidos mortos ou nos restos calcinados,
irá decrescer. Este fato permite usar o
14
6
C como um datador, pois o valor de seu tempo
de meia-vida está bem estabelecido.
Se um grama de um dado tecido orgânico continha ·
0
átomos de
14
6
C quando vivo,
decorridos 5 730 anos após a sua morte, serão encontrados aproximadamente ·
0
,2 áto-
mos deste isótopo. A equação que permite calcular o número de átomos remanescentes
é a (??), assim, conhecendo-se ou medindo-se inicialmente ·
0
e medindo-se posterior-
mente ·(t) infere-se o tempo decorrido desde que um material orgânico que contenha
carbono deixou de renovar seu estoque de
14
6
C,
t = T
1/2
log
2
(· (0) ,·(t)) .
De forma prática, em uma dada amostra mede-se a razão do número de átomos de
carbono-14 em relação a todos os átomos de carbono, ·14
c

c
= 1, 23 10
12
, este
é o valor padrão que se mantém constante nas últimas dezenas de milhares de anos.
Logo o tempo calculado é
t = T
1/2
log
2
_
·14
c
(0) ,·
c
·14
c
(t),·
c
_
, (3.28)
expresso em termos de quantidades medíveis. Entretanto, é mais conveniente medir a
atividade especíca do
14
C em uma amostra, que é a atividade por grama de carbono
/14
c
= ¹14
c
,q (C),
/14
c
=
¹14
c
·
c
'
c
=
`14
c
·14
c
·
c
'
c
=
_
·
o
ln2
T
1/2
12 q
__
·14
c
·
c
_
,
por ser uma quantidade proporcional à fração ·14
c

c
, onde '
c
é a massa de um
átomo de carbono. Substituindo os valores das constantes, ·
o
= 6, 022 10
23
, T
1/2
=
1, 807 10
11
:, a atividade especíca pode ser expressa em 1¡ por gramas ou em Ci
por grama,
/14
c
=
_
1, 925 10
11

q
_ _
·14
c
·
c
_
=
_
5, 20
Ci
q
_ _
·14
c
·
c
_
(3.29)
= 6, 4
jCi
q
. (3.30)
(1 jCi, ou picocurie, equivale a 10
12
Ci). Portanto, a idade de um tecido ou de uma
amostra de vegetal que sofreu carbonização é
t = T
1/2
log
2
_
·14
c
(0) ,·
c
·14
c
(t),·
c
_
= T
1/2
log
2
_
/14
c
(0)
/14
c
(t)
_
, (3.31)
Mizrahi & Galetti
3.7 Abundância isotópica e datação 123
onde /14
c
(0) é a atividade especíca do material antes de haver ocorrido a interrupção
da renovação contínua de
14
C, e /14
c
(t) é a atividade especíca do material no mo-
mento da medição.
Um exemplo: qual é a idade de um pedaço de carvão – resíduo de lenha queimada
– encontrado em um sítio arquelógico, que apresenta uma atividade especíca de 1, 2
jCi q
1
?
t =
5 730
ln2
ln
_
6, 4
1, 2
_
= 13 840 a.
Datação de rochas contendo os isótopos
87
1/ (rubídio) e
87
or (estrôncio) Sabe-se
que o radionuclídeo
87
37
1/ tem fração isotópica ¸87
37
1b
= 0, 2784 (a fração isotópica é
a abundância isotópica dividida por 100; aqui usamos a mesmo símbolo para ambas) e
decai por emissão ,

com um tempo de meia-vida bastante grande, T
1/2
= 4, 7510
10
a; assim, este isótopo sobrevive desde a formação do sistema solar e ainda está presente
na crosta terrestre. Um núcleo de
87
37
1/ decai para o
87
38
or que é um nuclídeo estável
87
37
1/ ÷÷
87
38
or +c

+ i
t
.
Agora, nos minérios que contêm apenas o elemento estrôncio, as frações isotópicas são
¸87
S:
= 0, 0700 e ¸86
S:
= 0, 0986, mas nos minérios que contêm os isótopos dos
dois elementos, 1/ e or, a fração isotópica ¸87
S:
será ligeiramente maior por causa
do decaimento do
87
37
1/ ÷
87
38
or (~ ¸87
S:
= 0, 07 + -). O excesso - provém daquele
decaimento. Assim, nesses minérios a razão j
2
= (0, 07 +-) ,0, 0986 é maior do
que naqueles que não contêm o 1/, j
1
= 0, 07,0, 0986 = 0, 71. É justamente o
conhecimento de j
2
e j
1
que permite então calcular a idade da formação de uma rocha
que contenha os dois elementos, 1/ e or.
Pode-se então perguntar: qual é a relação que existe entre - e a idade da rocha?
Considerando que o núcleo de
87
37
1/ tem um único canal de decaimento,
87
37
1/ ÷
87
38
or,
este inicia-se logo a partir da formação da rocha (tempo t = 0) e o número de núcleos
de cada nuclídeo da amostra variará com o tempo como
·87
1b
(t) = ·87
1b
(0)c
|/r
e
·87
S:
(t) = ·87
S:
(0) +

·87
S:
(t),
com

·87
S:
(t) = ·87
1b
(0)
_
1 ÷c
X|
_
= ·87
1b
(t)
_
c
X|
÷1
_
, (3.32)
então
·87
S:
(t) = ·87
S:
(0) +·87
1b
(t)
_
c
X|
÷1
_
, (3.33)
onde ·87
S:
(0) e ·87
1b
(0) são as quantidades iniciais de núcleos na amostra. A se-
gunda igualdade na Eq. (3.32) representa uma relação entre o número de átomos de
87
38
o
:
e
87
37
1/ no tempo t, ou seja, no momento da medição e a Eq. (3.33) representa o
número total de núcleos de
87
38
or, os já existentes mais aqueles provindos da transmu-
tação, no tempo t. Com o decorrer do tempo, enquanto o número de núcleos do
87
37
1/
Mizrahi & Galetti
124 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
decresce, o número de núcleos de
87
38
or aumenta. Agora, as abundâncias isotópicas são
expressas em termos das quantidades medidas em amostras.
a) Em uma amostra 1, que só contém estrôncio, escrevemos as frações isotópicas e
a razão entre as mesmas,
j
1
=
¸87
S:
¸86
S:
, com ¸87
S:
=
·
(1)
87
S:

I
·
(1)
i
S:
e ¸86
S:
=
·86
S:

I
·
(1)
i
S:
,
e a soma

I
é feita sobre os dois isótopos do estrôncio.
b) Em outra amostra 2, que contém estrôncio e rubídio, da mesma forma tem-se
j
2
=
~ ¸87
S:
~ ¸86
S:
com ~ ¸87
S:
(t) =
·
(2)
87
S:
(t)

I
·
(2)
i
S:
; ~ ¸86
S:
=
·86
S:

I
·
(2)
i
S:
.
Assim, obtemos uma relação entre as frações
j
2
(t) =
·
(2)
87
S:
(t)
·86
S:
=
·
(1)
87
S:
+

·87
S:
(t)
·86
S:
= j
1
+

·87
S:
(t)
·86
S:
= j
1
+
_
·
(2)
87
1b
(t),·86
S:
_
_
c
X|
÷1
_
,
onde usamos a Eq. (3.33) para a amostra 2. Note que j
2
(t) depende de quantidades
constantes, j
1
, ·86
S:
e de outras que dependem do tempo, ou seja, do momento t em
que é feita a medição; a presença do fator c
X|
, que contém o tempo de forma explícita,
é crucial.
Conhecendo-se o valor de `, medindo-se j
1
, j
2
(t) e a razão ·
(2)
87
1b
(t),·86
S:
entre
o número de isótopos da amostra 2, obtém-se a idade t da rocha,
t = `
1
ln
_
1 +
1
·
(2)
87
1b
(t),·86
S:
(j
2
(t) ÷j
1
)
_
=
T
1/2
ln2
ln
_
¸
¸
¸
¸
_
1 +
1
·
(2)
87
1b
(t),·86
S:
. ¸¸ .
amostra 2
_
_

(2)
87
S:
(t),·86
S:
. ¸¸ .
amostra 2
÷·
(1)
87
S:
,·86
S:
. ¸¸ .
amostra 1
_
_
_
_
¸
¸
¸
¸
_
.
Um exemplo: se são medidas as razões ·
(2)
87
S:
(t),·86
S:
= 0, 80 e ·
(2)
87
1b
(t),·86
S:
=
1, 48 na amostra 2, então calcula-se a idade da rocha
t =
_
6, 85 10
10
_
ln
_
1 +
0, 8 ÷0, 71
1, 48
_
= 4, 04 10
9
a.
Mizrahi & Galetti
3.8 Emissão de uma partícula pesada 125
3.8 Emissão de uma partícula pesada
Para tratar o problema da emissão de uma partícula pesada por um núcleo, considera-se,
em primeira aproximação, que os núcleons se movemno núcleo sob a ação de umpoten-
cial médio central e atrativo. A descrição do processo de emissão de partículas eletrica-
mente carregadas (j, c, etc.), deve então levar em conta, além da força nuclear atrativa,
também um potencial coulombiano, em razão da existência da carga elétrica nuclear.
De forma geral, o potencial total (central) sentido por um próton ou por um nêutron
pode ser visto na Figura 3.7,onde 1
b
corresponde à energia (negativa) de um núcleon
Figura 3.7: Forma da função energia potencial de um (a) próton ou uma partícula c, e (b) um
nêutron, no campo de um núcleo.
ligado. Na Figura 3.7-a, 1 corresponde à energia de um próton livre que pode estar as-
sociado ao núcleo por um tempo que varia entre 10
12
e 10
21
:, tempo necessário para
atravessar o núcleo; a existência do máximo do potencial é devida à interação coulom-
biana. Para tornar-se livre, o próton deverá atravessar a barreira de potencial por efeito
túnel, ou seja, manifestam-se suas propriedades ondulatórias. Na Figura 3.7-b, 1 é a
energia de um nêutron associado ao núcleo; neste caso não há barreira coulombiana. No
capítulo 8 voltaremos a este assunto.
Mizrahi & Galetti
126 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
3.9 Emissão de elétrons, pósitrons e neutrinos
O decaimento , é caracterizado pela emissão, por núcleos, de léptons tais como elétrons
(c

), pósitrons (c
+
), neutrinos (i
t
) e antineutrinos ( i
t
), enquanto que a carga nuclear
total aumenta ou diminui de uma unidade, 7 ÷7±1, e o número de massa ¹(número
bariônico) permanece inalterado. Por conseguinte, na realidade, ocorre uma transmu-
tação e o decaimento , de um núcleo consiste, efetivamente, no decaimento , de um
núcleon, coma emissão de umelétron (pósitron) acompanhado de umantineutrino (neu-
trino), que repartem entre si o excesso de energia do núcleo original. É importante
ressaltar que os léptons não existem no núcleo antes de sua ejeção. Eles são criados
durante o processo de interação fraca. Tipicamente, os processos são representados
como
,

:
.
2
A ÷÷
.
2+1
1 +c

+ i
t
, ==
_
: ÷÷j +c

+ i
t
_
(3.34)
e
,
+
:
.
2
A ÷÷
.
21
1 +c
+
+i
t
, ==
_
j ÷÷: +c
+
+i
t
_
. (3.35)
Do ponto de vista histórico, é interessante apontar que, em 1914, Chadwick (o
mesmo que viria a descobrir o nêutron em 1932) percebeu que, diferentemente do que
acontece com partículas c ou com os raios ¸, o elétron emitido no decaimento , de
um núcleo radioativo não emerge com uma energia cinética denida, mas apresenta
um espectro contínuo, que vai de zero a um valor máximo especíco do núcleo que o
emite. Este fato contraria o princípio de conservação da energia, caso em que a ener-
gia do elétron deve ser igual à diferença das energias inicial e nal do núcleo que o
emite, mantendo-se xa para cada nuclídeo radioativo. Em 1927, C. D. Ellis e W. A.
Wooster mediram a energia total produzida por uma amostra de
210
1i e constataram
que, contra as expectativas, a energia por núcleo não era igual à energia máxima dos
elétrons emitidos, mas correspondia à energia média. Este resultado foi conrmado por
Meitner e W. Orthmann em 1930. Isto gerou uma crise na Física e, face ao inusi-
tado da situação, ninguém menos do que Niels Bohr colocou em dúvida o princípio de
conservação da energia no decaimento ,. Contudo, uma solução menos radical foi pro-
posta por Pauli em 1930, a qual ainda manteria o princípio de conservação da energia.
Em uma carta enderaçada a amigos, ele conjecturou que no decaimento , uma outra
partícula – eletricamente neutra, e que não seria um raio ¸ – deveria estar sendo emitida
concomitantemente com o elétron. Essa nova partícula compartilharia com o elétron a
energia liberada pelo núcleo instável, quando ainda caria conservado também o mo-
mentum linear. Tal partícula interagiria tão fracamente com a matéria que sua energia
cinética não se converteria em calor, em quantidade apreciável, para ser detectada no ex-
perimento de Ellis e Wooster. Portanto, seria uma partícula furtiva, de difícil detecção.
Após a descoberta do nêutron essa partícula passou a se chamar neutrino, por sugestão
de Fermi. Sua massa deveria ser muito pequena, quase nula (:
i
< 5 10
4
:
t
) e seu
spin seria o mesmo que o do elétron, :
i
= 1,2.
Embora os neutrinos sejam realmente de detecção muito rara, sua existência poderia
ser inferida indiretamente. Finalmente, um quarto de século após sua postulação, em
Mizrahi & Galetti
3.9 Emissão de elétrons, pósitrons e neutrinos 127
1956, C. L. Cowan Jr. e F. Reines (PNF-1995) conseguiram comprovar sua existência,
sendo que, de fato, a zeram indiretamente. A experiência levada a efeito em um reator
nuclear por ser uma fonte que produz nêutrons em profusão (originários dos processos
de ssão nuclear), e que decaem pela reação (3.34). A hipótese de Cowan e Reines foi
a seguinte: se a reação (3.34) for verdadeira, um uxo intenso de antineutrinos seria
produzido no reator, e isto favoreceria a ocorrência de reações inversas (captura por
um próton) que, por sua vez, produziriam um uxo de pósitrons que, estes sim, seriam
detectados
i
t
+j ÷÷: +c
+
.
E assim foi o que de fato se vericou.
Na cadeia de decaimentos , ocorre um fenômeno peculiar de decaimentos sequen-
ciais a partir de radionuclídeos diferentes e terminando em um mesmo nuclídeo estável,
como já observado na seção 3.2 e ilustrado nos seguintes exemplos:
,

:
77
32
Gc ÷÷
77
33
¹: +c

+ i
t
+ 2, 75 'c\
|
77
34
oc +c

+ i
t
+ 0, 68 'c\
(3.36)
e
,
+
:
77
36
1r ÷÷
77
35
1r +c
+
+i
t
+ 2, 89 'c\
|
77
34
oc +c
+
+i
t
+ 1, 36 'c\.
(3.37)
Daí segue que o nuclídeo
77
33
oc é o único com número de massa
12
¹ = 77 estável. A
Figura 3.8 exibe esses decaimentos , seqüênciais.
Um outro processo relacionado com as transformações nos núcleos, chamado cap-
tura÷K (que compete com o decaimento ,
+
), consiste na captura pelo núcleo de um
elétron da camada eletrônica 1 (que é a mais próxima do núcleo, no sentido de que sua
função de onda é aquela que tem maior sobreposição com a do núcleo) e a emissão de
um neutrino,
j +c

1
÷÷: +i
t
, (3.38)
como, por exemplo, nas reações
77
35
1r +c

1
÷÷
77
34
oc +i
t
+ 2, 37 'c\ (3.39)
e
7
4
1c +c

1
÷÷
7
3
1i +i
t
+ 0, 86 'c\ . (3.40)
O estado vacante do elétron capturado é preenchido por um elétron menos ligado, de
uma camada “mais externa”. A energia liberada na transição se manifesta com a emis-
são de um fóton (no comprimento de onda dos raios A), ou pela ejeção de um elétron,
geralmente da camada eletrônica 1, chamado elétron Auger
13
, fenômeno que também
surge no processo de conversão interna, como será discutido na seção seguinte.
12
Ge (Germânio), Se (Selênio), As (Arsênio), Br (Bromo) e Kr (Criptônio).
13
O efeito Auger é um fenômeno no qual a emissão, ou captura pelo núcleo, de um elétron de um átomo
causa a emissão de um elétron secundário. Quando um elétron das camadas “mais internas” do átomo se
torna livre (é ejetado) ou desaparece (capturado pelo núcleo) surge uma vacância; então, um elétron com
menor energia de ligação irá ocupar o estado vacante, resultando assim em uma liberação de energia que será
Mizrahi & Galetti
128 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
beta sequencial
8.¸¡¸
Figura 3.8: Decaimentos ,

e ,
+
seqüênciais.
Outro processo ainda, previsto teoricamente e que foi constatado experimentalmente
em 1987, é o decaimento ,

duplo [4]. Formalmente, ele é representado pela reação
82
34
oc ÷÷
82
36
1r + 2c

+ 2 i
t
+ 3, 03 'c\, (3.41)
e ilustrado pelo esquema da Figura 3.9. Diferentemente dos processos sequenciais
(3.36) e (3.37), ele ocorre quando dois elétrons ou dois pósitrons são emitidos simul-
taneamente em um processo direto
.
21
A ÷÷
.
2+1
1 . Um processo genérico é visto
na Figura 3.10. Note-se que diferentemente do processo da Figura 3.8, na Figura 3.10
o nuclídeo com número atômico 7
0
deixa de ser o isóbaro mais estável, ele pode decair
nos isóbaros vizinhos, 7
0
±1, pelos processos competitivos ,

e ,
+
. Se o decaimento
se der para o isóbaro 7
0
÷1, por ,
+
, então este sendo menos estável que o isóbaro mais
estável 7
0
+ 1, decairá para este por decaimento ,

duplo.
transferida a outro elétron, que também será ejetado do átomo. Este elétron secundário ejetado é chamado
elétron Auger. Historicamente, esse efeito foi descoberto em 1925 por Pierre Victor Auger ao fazer incidir
raios A de alta energia para ionizar partículas de um gás em uma câmara de Wilson (vapor-supersaturado).
Auger observou a emissão de fotoelétrons cujos traços (deixados na câmara de Wilson) eram independentes
da freqüência dos raios A. Isto lhe sugeriu um mecanismo pelo qual a ionização seria causada por uma
conversão interna de energia em uma transição sem radiação.
Mizrahi & Galetti
3.9 Emissão de elétrons, pósitrons e neutrinos 129
Figura 3.9: Representação pictórica para o decaimento , duplo para o nuclídeo
82
36
Kr, que é es-
tável.
Mizrahi & Galetti
130 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
beta duplo
10.¸¡¸
Figura 3.10: De forma genérica, vê-se os esquemas de decaimento ,

simples e o decaimento
,

duplo,
.
201
X÷÷
.
20+1
Y.
3.10 Emissão de raios e o processo de conversão interna
A emissão de fótons nucleares, chamados raios ¸, ocorre na transição entre níveis de
energia nucleares quando o núcleo passa de um nível mais excitado para um menos
excitado, sem perder sua identidade. Este processo será estudado mais detalhadamente
no capítulo 10.
Há ainda um outro processo chamado conversão interna, que consiste na desexci-
tação de um núcleo, que efetua uma transição de um nível de energia maior para um
de menor energia, sem emissão de um raio ¸; a energia liberada é depositada em um
elétron das camadas mais próximas do núcleo, i.e., 1, 1, ',... que então é ejetado do
átomo.
O processo de conversão interna não deve ser confundido com o similar efeito fo-
toelétrico, que também pode ocorrer com raios ¸ associados com a emissão de um
elétron, quando um raio ¸ emitido pelo núcleo interage com um elétron, expelindo-o do
átomo. Este efeito fotoelétrico também pode fazer com que um elétron com grande en-
ergia cinética seja emitido de um átomo radioativo, no entanto, sem decaimento ,, ou
seja, sem que a interação fraca esteja envolvida.
Mizrahi & Galetti
3.11 Apêndice A: Método de transformada de Laplace 131
No processo de conversão interna, não há emissão de um raio ¸, acontece que a
função de onda do elétron, digamos da camada eletrônica 1, se sobrepõe com a função
de onda do núcleo, acoplando-se com o estado excitado. O elétron adquire sua energia
cinética da desexcitação nuclear diretamente da transição, sem a necessidade que um
raio ¸ seja produzido como etapa intermediária. A energia cinética do elétron emitido
é igual à energia de transição entre os dois níveis nucleares, menos a energia de ligação
do elétron no átomo. A maioria dos elétrons de conversão interna provém da camada
1. Em analogia ao processo de captura eletrônica (ou captura-K), depois de ser emi-
tido, o elétron deixa um estado eletrônico vacante que é preenchido por um dos elétrons
pertencentes às camadas de menor energia de ligação. Devido à diferença de energia
entre os níveis atômicos, um raio A poderá ser emitido, ou então essa energia será trans-
ferida a outro elétron da camada eletrônica que, por sua vez, será ejetado do átomo; tal
elétron (secundário) é um elétron Auger. O processo de conversão interna é favorecido
quando o hiato entre níveis de energia no núcleo é pequeno, sendo o único processo de
desexcitação para a transição 0
+
÷ 0
+
(transição eletromagnética 10, quando o nú-
cleo perde energia sem a necessidade de efetuar uma mudança no momento elétrico ou
magnético).
3.11 Apêndice A: Método de transformada de Laplace
Aqui apresentamos uma forma bastante sucinta do método de transformada de Laplace
(TL), com a única nalidade de mostrar como se chega às soluções (3.17) e (3.18). A
TL de uma função )(t) denida como
~
) (:) =
_
1
0
)(t) c
s|
dt = /)(t) (3.42)
e a expressão da TL da derivada de )(t) é obtida fazendo uma integração por partes em
(3.42)
/
_
d)(t)
dt
_
=
_
1
0
d)(t)
dt
c
s|
dt =
_
)(t)c
s|
¸
1
0
+:
_
1
0
)(t) c
s|
dt
= ÷) (0) +:
~
) (:) , (3.43)
onde admitimos que a função )(t) satisfaz a condição de limite lim
|!1
[)(t)c
s|
] = 0.
Usando as denições (3.42) e (3.43) transformamos o conjunto de equações diferenciais
(3.16) em um conjunto de equações algébricas,
÷·
1
(0) +:
~
·
1
(:) = ÷`
1
~
·
1
(:) ,
÷·
2
(0) +:
~
·
2
(:) = ÷`
2
~
·
2
(:) +`
1
~
·
1
(:) ,
÷·
3
(0) +:
~
·
3
(:) = ÷`
3
~
·
3
(:) +`
2
~
·
2
(:) ,
.
.
. .
Mizrahi & Galetti
132 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
A título ilustrativo vamos considerar um conjunto de três equações apenas, admitindo
que ·
2
(0) = ·
3
(0) = 0 como condições iniciais, as soluções deste conjunto de
equações são
~
·
1
(:) = ·
1
(0)
1
`
1
+:
~
·
2
(:) = ·
1
(0)
`
1
(`
1
+:) (`
2
+:)
(3.44)
~
·
3
(:) = ·
1
(0)
`
2
`
1
(`
1
+:) (`
2
+:) (`
3
+:)
.
Para obter as expressões para ·
|
(t), basta efetuar, em cada uma das funções
~
·
|
(:), a
TL inversa de (3.42) denida como (também conhecida como transformada de Mellin)
)(t) = /
1
_
~
) (:)
_
=
1
2¬i
_
I1+c
I1+c
~
) (:) c
s|
d:,
onde a integração deve ser feita no plano complexo usando o método de cálculo de
resíduos. Entretanto, sem precisar entrar nos detalhes do formalismo, existe um pro-
cedimento simples para o cálculo da TL inversa (simbolicamente /
1
) para a forma
especíca das funções (3.44),
/
1
_
1
(`
1
+:) ... (`
|1
+:) (`
|
+:)
_
=
|

l=1
_
(`
l
+:) c
X
l
|
(`
1
+:) ... (`
l
+:) ... (`
|1
+:) (`
|
+:)
_
s=X
l
.
Assim, para / = 1, 2, 3 obtém-se
·
1
(t) = ·
1
(0) /
1
_
1
`
1
+:
_
= ·
1
(0) c
X1|
,
·
2
(t) = ·
1
(0) `
1
/
1
_
1
(`
1
+:) (`
2
+:)
_
= ·
1
(0) `
1
_
c
X1|
(`
2
÷`
1
)
+
c
X2|
(`
1
÷`
2
)
_
,
e
·
3
(t) = ·
1
(0) `
1
`
2
/
1
_
1
(`
1
+:) (`
2
+:) (`
3
+:)
_
= ·
1
(0) `
1
`
2
_
c
X1|
(`
2
÷`
1
) (`
3
÷`
1
)
+
c
X2|
(`
1
÷`
2
) (`
3
÷`
2
)
+
c
X3|
(`
1
÷`
3
) (`
2
÷`
3
)
_
.
Mizrahi & Galetti
3.12 Problemas 133
No caso geral tem-se
·
|
(t) = ·
1
(0)
_
|1

I=1
`
I
_
|

l=1
_
¸
¸
¸
¸
¸
_
(`
l
+:) c
X
l
|
|

I=1
(`
I
+:)
_
¸
¸
¸
¸
¸
_
s=X
l
, / = 1, 2, .
3.12 Problemas
1. Avida média de umelemento radioativo (tempo médio que leva desde a sua formação
até o seu decaimento) é denido como
t =
_
0
Þ0
t d·(t)
_
0
Þ0
d·(t)
,
onde ·(t) é o número de núcleos que ainda não decaíram no tempo t. Empiricamente,
verica-se que · = ·
0
c
X|
é a lei para o decaimento de núcleos radioativos, então:
(a) determine o valor de t;
(b) determine a lei para os núcleos desintegrados ·
J
(t).
2. Considere `(t) dependente do tempo na Eq. (3.3), obtenha a solução ·(t).
Suponha que `(t) = `
0
, (a +/t) e analise o resultado.
3. (a) Se um nuclídeo existe no tempo t = 0, qual é a probabilidade de que ele decaia
num intervalo de tempo t, entre t e t + t, se a taxa de decaimento é constante, `?
Escreva esta expressão para tempos 0 < t ¸t.
(b) Como exemplo considere o núcleo de
238
92
l que decai no
234
90
T/ por emissão de
uma partícula c. A vida média do
238
92
l é - 4, 5 10
9
anos. Se um núcleo de
238
92
l foi
formado há um milhão de anos, qual é probabilidade dele decair no próximo milhão de
anos?
4. Obtenha as soluções (3.13) e (3.14).
5. Obtenha as Eq. (3.17) e (3.18). Discuta os possíveis casos, levando em conta a
razão `
1
,`
2
.
6. Obtenha a solução (3.24).
7. Analise e esboce o gráco da atividade dos radionuclídeos no decaimento ,

seqüencial
90
38
or
T
1=2
= 29,1 o
÷÷
90
39
1
T
1=2
= 64 |
÷÷
90
40
7: (estável)
Mizrahi & Galetti
134 Capítulo 3. Nuclídeos instáveis e radioatividade
8. Complete a terceira coluna da Tabela 3.3 calculando as constantes de decaimento.
9. Considere o processo de formação do isótopo carbono-14, Eq. (3.27). É veri-
cado que um grama de carbono recém extraído da atmosfera fornece, em média, 15, 0
decaimentos por minuto.
(a) Qual seria a proporção do isótopo carbono-14 relativamente ao elemento car-
bono?
(b) Qual seria a contagem esperada de um grama de carbono extraído dos restos cal-
cinados de uma choupana de madeira cuja idade é estimada em 4 000 anos?
10. Em um experimento que usa 14 q de selênio contendo 97% do isótopo
82
34
oc,
foram contados 35 eventos associados ao decaimento duplo-,

,
82
34
oc ÷÷
82
36
1r + 2c

+ 2 i
t
,
em um período de 7 960 horas. Supondo que a eciência do detetor seja de 6, 2%, es-
time a vida-média desse decaimento.
11. Se um decaimento duplo-,

, sem emissão de neutrinos, fosse possível na forma
82
34
oc ÷÷
82
36
1r + 2c

,
qual seria a sua assinatura?
3.13 Bibliograa
[1] Okuno, E., 1988, Radiação: Efeitos, Riscos e Benecios, Ed. Harbra, São Paulo.
[2] Shultis J. K. e Law R. E., 2002, Fundamentals of Nuclear Science and Engineer-
ing, Marcel Dekker Inc.
[3] Okuno E., Caldas I. e Chow C., 1986, Física para Ciências Biológicas e Biomédi-
cas, Ed. Harbra, Brasil.
[4] Klimov, Nuclear Physics
Mizrahi & Galetti

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