UMA ÓPERA SOBRE O FIM DO MUNDO

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Uma Ópera Sobre o Fim do Mundo Gabriel Mourão Soares

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Aos meus avôs e avós. Todos eles.

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A poesia é a desbanalização do banal; é tornar inaudito um fato trivial (e todo fato é trivial, bem como inaudito). Neste sentido, a linguagem que substitui o filtro cinza por matizes coloridos é sempre poética, ao contrário da meramente descritiva, monótona. Mas a linguagem meramente descritiva não existe, e toda expressão é contaminada pelo lirismo. Assim: toda fala é musical; todo texto, lírico; todo andar, uma dança. – Tese nº 1, Igor de Camargo e Souza Camara Meu poder sobre o mundo Nem que seja num segundo se acaba numa volta e fico só com meus cachorros – Pequenos Deuses, Ricardo Koiti Abreu Miyada Se você colocar infinitos macacos para usarem o photoshop, um deles vai escrever a Bíblia. – Ruy George Otoni Vieira

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Prelúdio – Brincando de Deus Ao que parece, quanto mais inteligente, mais chata a pessoa. Talvez por isso não exista, nesse mundo, quem seja mais chato que os físicos. Físicos são chatos em tudo e não apenas em assuntos físicos; eles são chatos sobre as cores e segundo eles as cores primárias são vermelho, azul e verde, ao invés de amarelo. Também são chatos quanto ao preto e o branco, dizendo que essas cores não existem. Dizem que algo branco deveria cegar uma pessoa, e que o preto deveria absorver toda e qualquer luz. Em outras palavras, para um físico, algo não poderia ser verdadeiramente preto a não ser que, mesmo quando submetido à mais forte luz, não clareasse em nada. Aquilo era preto. E nem um físico ousaria discordar. Mais tarde, Gosh talvez não conseguisse detalhar o que lhe havia acontecido, mas isso não mudava nada. O fato de que sua mãe também não demonstrara grande crença em seu relato era igualmente irrelevante, assim como o comentário dela de que aquilo tudo fora apenas um sonho. Nada disso importava, porque Gosh se lembrava de ter vivido aquela sensação; de ter entrado em uma caverna que nunca antes havia visto pelas redondezas, e de ter sido englobado por uma espécie de escuridão tão preta quanto se poderia ser. Se lembrava do espanto com que percebera que a escuridão emanava da entrada da caverna, e de ter pensado que aquilo era improvável, pois a escuridão normalmente é somente algo que ocorre onde não há luz, e se lembrava de todas essas reflexões se tornando insignificantes diante da sensação de poder que o contagiava. Se aquilo tudo estava em suas memórias, como poderia não ter acontecido? Como poderia não ser verdade, ainda que não no sentido mais convencional? Tudo o que a mente de uma pessoa guarda existe para essa pessoa, e no caso de Gosh...

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Foi importante para o garoto de nove anos encontrar aquela caverna, porque ele possuía um desejo pouco convencional, e sabia que esse desejo não poderia ser realizado sem o auxílio de uma força externa, de algo verdadeiramente fantástico. Ao contrário de outros meninos de sua idade, Gosh não sonhava com doces, videogames ou parques de diversão. Gosh sonhava em ser Deus. Ninguém se importava com Gosh naquela reunião. Ninguém se importava de verdade com Deus. Isso não quer dizer, é claro, que não gostassem d'Ele; pelo contrário. No entanto, no que dizia respeito aos seus atos e às vontades de Deus, aqueles cavalheiros tendiam sempre a moldar estas àqueles ao invés de aqueles a estas. Em quase tudo o que importava, aqueles senhores eram clones perfeitos uns dos outros, com roupas e gestos e opiniões sempre coordenados. Naquela noite, discutiam a necessidade de que aviões, tanques e soldados fossem enviados para alguns países ao sul, enquanto dólares poderiam fazer o caminho inverso, e as discussões iam muito bem. O que menos interessava ali eram as pessoas que seriam tiradas de suas casas para se arrastarem em corpos, sangue e roupas de baixo sujas, ou as outras, o inimigo, cujas casas seriam tiradas e substituídas por ruínas cheias de corpos, sangue e roupas de baixo sujas. Sim, as discussões iam muito bem. Ao final de algumas horas acertando os detalhes, todos sorriam e apertavam as mãos uns dos outros, e baforejavam seus charutos felizes. Outra guerra estava para começar.

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Primeiro Ato (Gosh & ghoti)

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1º Movimento – Dois meninos As sombras eram belas e envolventes. Envolviam o corpo e a alma de Gosh, com um calor peculiar e uma sensação intrigante de poder. É curioso como o poder mexe com as pessoas. Gosh, com nove anos, sentia que aquilo era bom. E sentia que era perigoso. Outros homens, mais velhos e experientes, percebiam só a primeira das duas características. Mas a percepção não faz diferença, pois uma vez em contato com o poder, não há mais volta. Gosh queria ser Deus, e era estranho que para adquirir a onipotência, tivesse que se sujeitar à invasão que a escuridão lhe impunha. No entanto, era necessário, e ele faria o que fosse preciso. Além disso, algum canto remoto de sua percepção lhe dizia que não havia sujeição, porque as sombras não eram mais do que ele próprio. Gosh, segundo essa idéia que lhe aparecia na mente, apenas precisava de um fenômeno de caráter transformador que oficializasse sua divinização. E aquilo era exatamente o que precisava. Por isso, deixava correr em si o sentimento de torpor que advinha da entrega às sombras. Ele se sentia com um poder bruto em mãos, sentia que poderia fazer o que quisesse. Era agradável. Enquanto isso, dois jovens se encontravam debaixo de um carvalho. Não eram namorados, como suspeitaria qualquer observador. Mal eram amigos. Conheceram-se um dia embaixo do carvalho e não trocaram nenhuma palavra. Tiveram muitos outros encontros semelhantes, completamente mudos, no mesmo local, até que decidiram perguntar um pelo nome do outro. Ao mesmo tempo, como se tivessem combinado. Como se, no silêncio que os atraia, houvesse um turbilhão de palavras...

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O garoto, magricela e fraco, com cabelos desarrumados e de ar sensível, se chamava Marc. A garota, de cabelos pretos e pele branca, se chamava Sara. Depois, sabendo um o nome do outro, voltaram ao silêncio. Mas, em silêncio, ambos sorriram.

Marc era filho de um homem pequeno, curvo e magro, chamado Marco (criatividade não era o forte da família) que poderia muito bem ser a pessoa mais infeliz do mundo. Ele tinha uma esposa, Linda, que era, como o nome sugere, bastante atraente, mas completamente maluca. Ela tentava animá-lo, enquanto rodopiava pela casa, cantando músicas antigas de rock’n’roll, mas não era muito feliz nas tentativas, e não ligava muito para o fracasso. E ele tinha um filho. Um filho muito bom, um filho meio quieto, é claro, mas um filho que nunca dera problemas. Marc, na verdade, levava “não dar problemas” a uma dimensão quase perturbadora. No trabalho, Marco ganhava bem, mas não parecia se esforçar para progredir. Pelo tempo que tinha na empresa, poderia ter um cargo muito melhor. Poderia ser gerente. Ou proprietário. Mas não, ele limitava-se a sentar-se em sua cadeira e digitar lenta e incessantemente no laptop. Não trocava palavras além das necessárias com os colegas, e não comia nada durante o expediente. Chegava em casa tarde, com a mesma expressão de sempre, e comia o jantar frio que sua mulher preparava, sempre trocando ingredientes. Mas Marco nunca reclamava. Do jantar. Do trabalho. De nada. Marco vivia como se a vida apenas passasse por ele, sem afetá-lo. Como se ele fosse uma sombra. Gosh caiu no chão, de quatro. Ergueu a mão, suja de terra, a tempo de ver a escuridão viscosa escorrendo de volta para a caverna. Verificou os membros, bateu a terra da calça. Não havia nada de errado com ele. Mas havia algo de diferente. Ele sabia disso, tinha certeza. Quando

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olhou para trás, não havia sombra. Não havia nada. Apenas uma caverna normal. Dentro dela, sombras, mas não sombras como as de antes. Sombras comuns, mundanas. Por algum tempo, ele se perguntou se realmente houvera qualquer coisa de diferente lá ou se fora impressão, mas logo afastou a preocupação. Ele agora não devia se importar com isso. Não precisava: estava acima de tudo. Sentia o poder correndo pelas veias, e sabia que isso era bom. Olhou ao redor, e viu uma árvore de galhos secos, aparentemente morta. Olhou para ela por alguns minutos, e ergueu o braço. Seria impressão? Não. Uma folha realmente nascera na ponta do galho. E não foi coincidência. Não poderia ser. Aquele gesto, aquele simples movimento dos braços trouxera o verdejar de volta à árvore. Trouxera vida. E, Gosh sabia, podia trazer muito mais. Nas mãos certas, podia curar os males do mundo; nas mãos erradas, trazer o caos. Mas as mãos que agora detinham aquele poder — que detinham o poder de Deus — eram mãos inocentes, mãos pequenas. De um garoto de nove anos... Sonhos. Todos têm sonhos. Gosh tinha um sonho. E Marc, calado, imóvel, também. Sonhar é condição indispensável para o estabelecimento de metas; para que haja planos, objetivos e, claro, frustrações. A realidade se reflete nos sonhos, mas são os sonhos que moldam a realidade. E os sonhos são assim. Alguns, tão improváveis, tornam-se realidade. E garotos de nove anos viram Deus. Outros, tão simples, são dilacerados. E Marc, que nada mais buscava que o silêncio mútuo à sombra do carvalho, era mandado à guerra.

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2º Movimento – Espanto Vida! Vida jorrava onde outrora havia apenas morte! Não uma vida ideal, nem completamente isenta de uma profunda dor, mas vida. Agora, havia um objetivo. Um sonho. Marc não sabia o que lhe causava maior espanto: o homem na TV, anunciando uma guerra com naturalidade sinistra, a carta que, nas mãos do garoto, impunha apresentação obrigatória frente ao exército, ou o pai. Marco parecia receber, de uma vez, todos os sentimentos retidos durante anos. Raiva, principalmente. Mas uma raiva frenética, animada. Uma raiva repleta de vida. Gritava, corria, procurava alguma coisa incansavelmente. Pensando melhor, certamente o mais espantoso era o pai. Vida! A folha crescera de um galho morto, em segundos. Passara de um pequeno filamento verde claro a uma folha aberta e saudável. Mas isso era o de menos. Poderia ter sido uma folha retorcida e doente, e os resultados seriam os mesmos. Era vida, vinda do nada. Não. Do nada, não, porque nada vem do nada. A vida viera de uma fonte de energia, e um garoto de nove anos sabia exatamente qual era essa fonte. Gosh emanava poder. Finalmente, parecia ter encontrado o que procurava. Um baú, velho, sujo. Marco subiu a escada do porão correndo e gritando, carregando-o. Colocou-o no chão e praguejou quando viu que o cadeado estava trancado. Gritou e xingou até Linda aparecer com uma chave que servisse na fechadura. E, então, o baú foi aberto e de dentro dele, Marco tirou um livro grande e relativamente

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velho. Abriu-o. Era um álbum de fotografias. Gosh entrou em casa com os passos confiantes de quem sabia ter o poder de um Deus. Melhor dizendo, de quem tinha certeza que era Deus. Poucas pessoas podem ter tal confiança. Decidira dar a notícia à sua mãe, primeiro, mas tivera uma clara decepção com a reação. A mulher se limitou a sorrir e dispensar o garoto com um “claro, claro” de desprezo. Não é a atitude certa a se adotar quando se lida com Deus. Não mesmo. Gosh virou de costas, escondendo a expressão, mas de qualquer forma a mãe não teria visto, pois empenhava-se em pegar facas e colheres que começaram a despencar sem motivo aparente. Ela punha as peças no lugar, penduradas em pregos na parede, e elas tornavam a cair. E então Gosh saiu da cozinha, e os talheres, de forma tão inexplicável quanto as repetidas quedas, voltaram a se comportar em conformidade com a física e nada mais caiu. Clarissa, a mãe, voltouse para ver o filho, mas ele não estava mais lá. Ela deu de ombros, e voltou a cortar pedaços de legumes. O pai de Gosh trabalhava fora até tarde, de forma que o garoto decidiu ir aos vizinhos contar o que acontecera. Como a cidade era interiorana e montanhosa, a casa mais próxima ficava a alguns metros, e Gosh percorreu o caminho correndo. Esquecera-se do desapontamento causado pela reação da mãe, e corria tão animado que nem notou que, por onde passava, pequenas flores brotavam. Saltou por uma pedra, ignorando o fato de que uma larva que nela se encontrava transformara-se sem período de incubação em uma borboleta, e bateu na porta da casa. Lá vivia um casal de velhinhos, que recebia uma vez por ano, no período de férias escolares, a visita do neto, um garoto da idade de Gosh, e que vivia na cidade. Durante essas ocasiões, Gosh costumava

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brincar com o menino, de forma que era bem conhecido pelos donos da casa. Eles abriram a porta depois de um bom tempo, durante o qual Gosh não parava de bater, e surpreenderam-se com a visita inesperada do garoto. Claro que surpresa alguma no mundo se compararia à que tiveram quando Gosh deu a notícia. E Gosh também se surpreendeu. Esperava por uma saudação congratulando-no por seu recém adquirido caráter divino, mas já se preparava psicologicamente para uma reação semelhante à da mãe. É difícil ter credibilidade aos nove anos. Mesmo para Deus. Porém, Gosh não se preparara de forma alguma para a reação que o casal teve. Não se preparara para o olhar de repreensão, para as palavras duras. Gosh nem sabia o que significavam palavras como “heresia” ou “blasfêmia”. Mas coisa boa não podia ser. E ele não compreendia: o que havia de mal, afinal? Ele não era o demônio, não era mau... Era Deus, deveria ser amado e respeitado – não repreendido! As pessoas não deviam criticá-lo, e muito menos ignorá-lo. Deveriam segui-lo. Ele cuidaria para que isso acontecesse. Porque ele estava determinado, e ninguém poderia impedir que um garoto de nove anos cumprisse um destino que ele mesmo escolheu e que as Sombras tornaram possível. Ninguém poderia impedir Deus de fazê-lo. Marc estremeceu. Seu pai reagira de forma decididamente inesperada à notícia da guerra, e Marc temeu que o passado do pai fosse dotado de mais segredos do que ele supunha. Talvez Marco tivesse sido um militar de alto escalão, amante da guerra. Talvez tivesse matado, até. Quantas pessoas? Teria gostado? Parecia tão improvável... Marc olhou temeroso para as fotos, mas então viu símbolos, roupas e pessoas pelos quais não esperava. Viu promessas de paz e amor, viu música e jovens cheios de ideais. Porque Marco

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não fora um militar amante das guerras. Marco lutara contra a violência e evitara durante toda a vida se envolver com as batalhas. Não porque tivesse medo de lutar, mas porque seus ideais diziam que assim devia ser. Porque Marco não fora, durante toda a vida, um covarde sem objetivos na vida. Marco fora um hippie, assim como Linda. E agora, Marco decidira que era a hora de lutarem por Marc, porque havia uma guerra, e haveria mortes e injustiças. E Marco não permitiria que seu filho sujasse suas mãos nela. Não se pudesse fazer algo para evitar.

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3º Movimento – Planos e espetáculos Não era uma questão de agir estupidamente, Marc pensou. Era uma questão de agir estupidamente de forma que todos ficassem sabendo. O garoto ficou olhando por muito tempo, enquanto o pai e a mãe discutiam como fariam. Para a infelicidade de Marc, eles não planejavam algo tradicional, como fugir do país. Pareciam mais interessados em uma passeata. Em uma revolução. Linda falava em cartazes com mensagens pacifistas enquanto Marco decidia como espalhar a idéia, difundi-la. Ele parecia desejar o mundo inteiro marchando nas ruas em nome da paz. E seus olhos brilhavam. Marc abaixou a cabeça, em desespero. Disse Shakespeare que existem muito mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia. Alguém poderia sugerir que se acrescente “e ciência” ao final da frase. Essa pessoa certamente seria rechaçada, por macular uma frase clássica, mas não deixaria de ter sua cota de razão. Aquilo, por exemplo, era algo que nem a filosofia nem a ciência poderiam explicar. As pessoas que estavam lá na hora começaram a se aglomerar para ver o que ocorria. Outras, vendo que havia gente reunida, juntavam-se ao grupo. Deve ser alguma espécie de instinto humano, o de olhar para a mesma direção que os outros olham, mesmo que você não saiba por que — ou para que — estão olhando. Talvez só isso justifique continuarmos vivendo em sociedade, mesmo depois de tantas evidências contrárias ao bom funcionamento dela. É a necessidade de estar junto, de ser igual, de fazer parte. Seja como for, ninguém que ficou lá se arrependeu, e se tivessem ignorado o tal instinto,

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teriam perdido algo muito, muito bom. Algo que, definitivamente, não se vê todo dia, e que poderia ser comparado ao lançamento de um ônibus espacial, se esse tipo de evento tivesse peixes. Muitos peixes. E os peixes pulavam da fonte, atrás do garoto, de forma que o chão ao seu redor parecia estar – e de fato estava – vivo. Os peixes não paravam de pular para fora da água, para se debaterem desesperados no piso da praça, mas ninguém parecia se perguntar o motivo pelo qual faziam isso. Todos estavam mais preocupados em saber como, durante anos, ninguém nunca soube que havia peixes naquela fonte. Ou, e era uma pergunta pertinente, como poderiam caber tantos peixes lá. O garoto, com um gesto, chamou a atenção de todos, que pela primeira vez o notaram. Os peixes pararam de pular e as pessoas fizeram silêncio, embora ninguém entendesse por que ouviriam um garoto de nove anos. E então, Gosh falou. Marco decidiu telefonar para todos os seus amigos, e o filho não conseguia entender como um homem tão sozinho podia conhecer tanta gente. Havia mais de duas horas que o telefone não saia de suas mãos, enquanto ele repetia expressões como “estamos organizando...”, “não deixe de vir”, ou “obrigado, até breve, então!” e isso era preocupante para o garoto. Como se não bastasse o pai estar louco, o resto do mundo também parecia estar, visto que o plano absurdo parecia estar dando certo. Já havia confirmado a presença de músicos, artistas e pessoas de nome respeitável. Marco não poderia estar mais entusiasmado, e Marc, preocupado. O jovem tinha plena consciência da fraqueza do pai, e sabia que qualquer atitude dele jamais poderia impedir o mundo de entrar em guerra. Era simplesmente utópico demais.

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No entanto, enquanto Marc se entregava ao pessimismo – ou “realismo” seria uma palavra mais apropriada? –, o pai cuidava de organizar um novo Woodstock. E, enquanto o filho esfregava o rosto em desalento, os olhos do pai, pela primeira vez em anos, demonstravam algo que não um pesar opaco e fosco. Depois do acontecido na casa dos vizinhos, Gosh decidiu pensar melhor antes de tomar qualquer atitude. Palavras, pelo visto, não bastavam como forma de convencer os outros. Era necessário algo que tocasse em algum ponto mais decisivo. E mesmo um garoto de nove anos sabia que a melhor forma de conquistar um homem – ou, nesse caso, toda a humanidade – era pelo estômago. Ele, criança que era, não dominava muito bem a arte da oratória ou da retórica, mas julgou que uma boa forma de chamar a atenção da população seria um discurso em praça pública. Sem saber direito como utilizar seus recém adquiridos poderes, decidiu se concentrar em matar a fome da cidade, enquanto escolhia um ponto qualquer para discursar. Não tinha, porém, um plano muito bem definido a esse respeito, valendo-se apenas de idéias vagas sobre como proceder. Dessa forma, os peixes foram uma surpresa tão grande para ele quanto para qualquer outro. Quando, enfim, conseguiu se concentrar no que estava fazendo, tendo vencido a surpresa dos peixes e o nervosismo infligido pela platéia, Gosh subiu na mureta da fonte e, com um gesto, tomou a palavra. Havia muita gente olhando para ele e ele conseguiu sentir a importância daquele momento em que, enfim, espalharia a sua palavra e juntaria seus primeiros seguidores, mas ele estava cheio por uma confiança infinita. Por isso, aguardou pacientemente até que todos estivessem em silêncio e abriu a boca para formar suas primeiras palavras como Deus. E talvez não tivesse falado meia palavra quando o pai chegou, pegou-o nos braços com

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algumas palavras rudes, colocou-o no carro e foi para casa, deixando uma multidão perplexa para trás. Mesmo Gosh demorou para entender o que estava acontecendo, e mal pôde protestar, enquanto o pai condenava-o por ter se afastado tanto de casa, por se meter no meio dos peixes (“olha o cheiro!”) e, por fim, por querer transformar aquilo em um pequeno show. Marco desligou o telefone, tendo acabado uma conversa, mas logo recomeçou a discar. Estava ligando para amigos que não via havia muito tempo, que moravam em outro país. Em outro continente. E, enquanto Gosh entrava em casa acompanhado pelo pai, o telefone tocou.

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4º Movimento – A proteção do carvalho Marc sempre foi diferente. Disso, não restava sombra de dúvidas, e seu olhar arisco, seu corpo encolhido — como se passasse todo o tempo tentando se esconder em si mesmo, com relativo sucesso —, suas poucas palavras e a expressão vazia eram prova. Era o tipo de pessoa para quem o mais perto que se pode chegar de encarar alguém é fitar a estratosfera em um ponto aproximadamente acima da cabeça da pessoa. Nunca foi ridicularizado ou agredido, mas sim ignorado. E, no final das contas, acabava se esforçando muito para que assim fosse. Os pais nunca se importaram com isso, visto que estavam muito ocupados sendo donas de casa alucinadas ou trabalhadores derrotados. O garoto parecia se importar menos ainda e, portanto, tudo continuava como era, para desespero de professores com veia para a psicologia e vizinhas com espírito maternal mais desenvolvidos. No colégio, Marc era o tipo de garoto que fazia as atividades que deveriam ser em duplas, trios ou grupos, em geral, sozinho e, no final, colocava, por obrigação, medo, indiferença ou outro motivo qualquer, o nome de pessoas com as quais nunca falara, mas que, por uma razão ou outra não haviam feito absolutamente nada que se pudesse entregar à professora (ou, ao menos, que não se podiam entregar esperando uma nota decente em troca), no trabalho. Isso certamente fez com que fosse alvo de muito apreço por certos indivíduos menos esforçados do colégio, mas não gerou nenhuma amizade de verdade. E era por isso que Marc buscava proteção. Porque não tinha ninguém com quem contar no mundo, e, embora agisse da forma oposta à conduta que se deve ter para obter amigos, em algum canto obscuro de sua alma, ele procurava por pessoas que pudessem, no mínimo, se isolar junto com ele. Marco e Linda viveram em um país rico do primeiro mundo, em uma cidade pequena em

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que as pessoas tinham casas grandes e bonitas, as ruas eram calmas e, no outono, as folhas caiam sobre a calçada, farfalhando enquanto os pedestres passavam sem sequer notar que presenciavam uma cena maravilhosa. Marco virou hippie pelos ideais, e Linda o fez para seguir Marco, mas, no final, acabou se apaixonando igualmente pela ideologia da Paz e do Amor. Eles fizeram passeatas, e se drogaram e participaram de situações que a grande maioria das pessoas jamais poderia conceber, mas, no final, tiveram que amargar o conformismo. Foi por isso que se mudaram. Para o sul, para um país pobre para onde nenhum outro morador das vizinhanças do casal pensaria em se mudar. De certa forma, eles também buscavam proteção. Queriam se proteger de algum sentimento obscuro que vinham guardando, de alguma coisa dentro deles que não se encaixava na nova vida que adotaram. E Marc nasceu num país subdesenvolvido, e não sentia vergonha, orgulho ou rancor disso. Para ele, as coisas são como são; eis tudo. Assim, Marc cresceu em uma cidade pequena, de ruas de terra e casas pobres, e era quase um milionário por lá, em contraste aos demais. A maioria das casas por ali ficava afastada, e tinha as paredes desgastadas e a tinta saindo, tijolos se expunham e as janelas sequer tinham vidros, mas todos eram felizes. Marc passou doze anos lá, os primeiros de sua vida, e estudou em uma escola pequena, na qual se sentava no fundo e observava moscas andando na parede. Ele nunca jogou futebol com os outros garotos, nunca foi com eles pescar, nunca participou das inúmeras brincadeiras realizadas pelos meninos, mas, no fundo, e embora não demonstrasse, se divertia demais. Marc amava aquele lugar e aquele povo. Apenas... Tinha medo. E, por isso, buscava proteção. Nessa escola, havia apenas uma professora. Uma figura feminina autoritária. Quase maternal. Sempre presente, dando suporte, broncas, apoio e, claro, protegendo. Marc a amava, mas não como uma criança ama sua professora, e sim como um cão ama seu dono,

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ou — e talvez essa comparação seja melhor — como um rei, cercado pelos exércitos inimigos, ama cada tijolo dos muros do castelo. Marc não mandava bilhetes, não andava junto dela, não levava maçãs. Ele apenas se sentava no fundo da classe e, quando sentia um frio repentino na barriga, ou uma depressão inexplicável, voltava os olhos para a professora, os ouvidos se concentravam naquela voz, e a sensação passava. Leila era o nome dela. E ela foi seu primeiro carvalho. É curioso pensar que o que incomoda as pessoas, forjando criminosos, suicidas e alcoólatras, não é a pobreza, a miséria, em si, mas a falta de dignidade. Um homem sem absolutamente nada na vida pode ser alguém até relativamente feliz, até o momento em que precisa usar o seu “nada” para sustentar uma família. Em outras palavras, passar fome pode não ser um problema, ao contrário de saber que outras pessoas passam fome “por sua culpa”. No campo, talvez as coisas sejam um pouco diferentes. Na pequena cidade em que Marc nasceu, a pobreza era realmente abundante, mas no que diz respeito à dignidade, os moradores não tinham muito do que reclamar. As famílias, por mais humildes que fossem, eram mantidas com considerável eficiência e, como todas as outras famílias estavam em situação semelhante, não havia muito o que cobiçar. As crianças brincavam juntas, e se divertiam como iguais, de forma que nenhum pai precisava se preocupar com qualquer complexo de inferioridade dos filhos. E havia Marc, é claro. Mas as outras crianças sempre chamaram-no para participar das brincadeiras, até cansarem de serem ignoradas, e passarem a fingir que o menino não existia. Para todos acabou ficando tudo muito bem, inclusive para Marco e Linda. E os dois, aliás, nessa época, eram pessoas bem diferentes. Eles já apresentavam os traços de derrotismo e insanidade que apareceriam tão

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intensamente mais para a frente, mas ainda eram pessoas felizes (em algum sentido mais amplo da palavra) e tinham relações, na medida do possível, boas com os vizinhos. Por assim dizer, naquela época, embora já fossem tomados pelo conformismo que tirou a vontade de lutar, ainda não tinham perdido a vontade de viver. O único problema que de fato apresentavam era em relação ao filho. Se Marc buscava proteção, os pais eram o pior lugar para procurar. Ele — assim como qualquer tipo de relação afetuosa em família — parecia despertar no casal uma lembrança vaga de momentos de luta, de uma época em que ainda não tinham se entregado, e isso era constrangedor demais para eles. Marc era como um lembrete, vivo e falante, de que haviam se entregado, de que, embora tivessem jurado mudar o mundo, viam, agora, o mundo mudá-los. A existência de um filho dava, de alguma forma, a ideia de que o tempo deles havia passado e eles não haviam feito nada, e agora uma nova geração chegara e eles não poderiam fazer mais do que dar espaço para ela. Por isso, nunca conseguiram manter com ele a relação que deveriam ou gostariam. E, se Marc já não tinha a personalidade mais fácil de ser entendida — e, com alguma sorte, corrigida —, esse tipo de atitude dos pais pode ter sido decisivo para deixá-lo da forma como era: alguém que, quando confrontado diretamente, desvia os olhos e se esconde. Depois a família se mudou para uma cidade maior devido ao emprego de Marco, e Marc teve que esquecer toda a vida que conhecia. Claro que alguém ter que fazer alguma coisa não significa que a coisa seja feita, especialmente em um caso desses. Em sua nova casa, Marc passava o dia todo fechado, um tanto claustrofóbico, sem fazer quase nada, a não ser ignorar os vizinhos que, por algum tempo, tentaram enturmá-lo. Na opinião de Marc, a cidade grande podia ser resumida a um céu acinzentado, garoa,

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trânsito e fios de eletricidade. Muitos fios. E muitos carros, e muita gente; gente demais para ele. Faltavam-lhe a simplicidade, a descontração e aquele sentimento de igualdade rústica presente no interior, e sobravam pressa e indiferença. Claro que os convites dos vizinhos do condomínio tiveram lá seu efeito sobre o ego de Marc (embora em todas essas ocasiões ele optara por fingir não estar em casa), mas simplesmente não havia a mesma magia de sua vida anterior. E foi só Marc começar a freqüentar o colégio novo para perceber que faltava, também, Leila. As primeiras coisas que desagradaram o garoto foram a quantidade absurda de alunos, e Marc não ter podido escolher em qual lugar sentar. Não pôde escolher quase nada, na verdade, sentia-se acuado e impotente como nunca antes. E não havia na professora a qualidade de mãe que Marc tanto buscava; em nada na cidade havia. Tudo lá parecia distante e frio, como se a garoa e o metal dos carros tivessem, pouco a pouco contaminado tudo, e o que sobrava era... ferrugem. Parecia algum poder misterioso da dureza do mármore dos prédios e da nebulosidade acinzentada do céu: tornar duras e nebulosas também as pessoas. E, em contraste à feição fechada das pessoas, que, mesmo por trás de sorrisos e cumprimentos pareciam evitar um real contato, o colégio novo de Marc era grande e cheio de áreas abertas. Havia um grande pátio, onde os alunos passavam o intervalo das aulas, ao ar livre. Era uma tentativa bizarra de propiciar uma visão do azul do céu ou do vermelho alaranjado do pôr-do-sol, e era uma tentativa ineficiente, também, mas isso não faria diferença porque as pessoas simplesmente pareciam incapazes de olhar. Mesmo que olhassem, não enxergariam mais que nuvens e fumaça, e, naquele dia em especial, seriam atingidas em cheio pelas gotas grossas de chuva que se jogavam ao solo, suicidas. Naquele dia, todas as pessoas correram para debaixo dos toldos, e, lá, se amontoaram para se proteger de água, como se fosse tóxico. Todas menos uma. Havia muitas teorias possíveis para explicar porque Marc não correra junto com o resto das pessoas. Algumas pessoas supunham

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que ele queria evitar a multidão, outras achavam que, tendo vindo do campo, não se incomodava tanto com a chuva. A maioria concordava, no entanto, que ele era simplesmente estranho, e que não valia a pena perder tempo tentando entendê-lo. Talvez, porém, ninguém tenha pensado que Marc, ao parar debaixo de uma árvore, encontrara, mais que proteção, uma pequena ilha de verde em meio ao cinza, uma pequena lembrança de sua antiga vida. E, se essa decisão rendeu ao garoto um resfriado e alguns olhares estranhos, proporcionou, também, uma espécie de templo e, anos mais tarde, um encontro silencioso que poderia ter mudado sua vida. Se não fosse pela guerra.

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5º Movimento – Caminhos de Gosh Um homem alto, com longa barba branca, bem aparada, uma roupa pálida parecida com um pijama, sentado em sua poltrona, de onde vê os anos passarem. Não se preocupa com o resultado da loteria, nem com os vencedores de reality shows ou dos campeonatos estaduais. Não porque essas coisas não lhe digam respeito, mas porque já sabe tudo o que ocorre ou vai ocorrer. Tem consciência de tudo o que ocorre do mundo, assistindo à vida humana em seu camarote feito de nuvens. Outra teoria diria que Deus fica ocupado controlando todos os rumos da vida no planeta. No universo, talvez. Essa teoria é bastante agradável à maioria das pessoas, pois tira um pouco da responsabilidade dos ombros delas, e o caos parece ser algo menos aleatório. Por outro lado, ela desperta questões importantes, como o porquê de haver guerras, epidemias, injustiças. Mesmo quando as coisas parecem estar dando certo, uma hora, tudo vai por água abaixo, e Roma pega fogo, é dividida e invadida, Alexandre morre de febre após conquistar tudo o que era conquistável, os Astecas são atacados por espanhóis e os últimos não resistem, também, à história. Talvez seja uma espécie de sadismo, mas, vindo de um Ser de bondade incomparável, é mais provável que seja uma forma de manter um certo equilíbrio. De fato, as pessoas acreditam em muitas teorias, sendo que a maioria não consegue atingir toda a grandeza de um ser onipresente, onisciente e onipotente, até porque esses conceitos são muito difíceis de assimilar, alheios que são à realidade humana. Ainda assim, por mais numerosas e variadas que fossem as teorias a respeito dos termos que nomeiam essas características ou da divindade que as detém, nenhuma poderia explicar como um garoto de nove

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anos poderia vir a ser Deus. E Gosh certamente era um garoto de nove anos absolutamente normal. Na verdade, sempre foi normal, desde pequeno — ou, melhor dizendo, “desde menor”. Se fosse preciso determinar um exemplar que represente perfeitamente os garotos da idade e realidade social de Gosh, ele seria uma opção tão boa quanto se poderia ser, porque brincava com e como os outros garotos, demonstrava curiosidade por assuntos tradicionais da idade, tinha desempenho razoável na escola e todas essas coisas que, aos olhos adultos, definem o que é uma criança de nove anos. Nunca se destacou, mas também nunca ficou abaixo da média dos colegas, era comportado, bom com os pais e, acima de tudo, era feliz. É importante, contudo, ressaltar que se as pessoas, a partir de uma determinada idade, poderiam considerar esse excesso de “normalidade” como uma qualidade negativa, isso se deve total — ou ao menos majoritariamente — a uma conseqüência terrível da ação do tempo a que as mesmas pessoas, arrogantemente, se referem como “complexidade”. Porém, na realidade, a insatisfação com a normalidade ocorre apenas porque significa que a pessoa não seguiu um caminho diferente do dos demais, não escapou da necessidade de trabalhar e formar uma família, não se destacou em algum ramo específico. Em outras palavras, após certo tempo, a normalidade preocupa porque significa que a maioria dos sonhos cultivados durante a vida nunca chegaram — e, em alguns casos, a quantidade de tempo disponível evidencia que nunca chegarão — a se realizar. Mas Gosh não estava na fase de se lamentar por sonhos não realizados. Ele estava, pelo contrário, na fase de sonhá-los. E Gosh, desde que se lembrava, sonhava ser Deus.

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Se havia algo de diferente em Gosh em relação aos outros garotos de sua idade, era que ele observava. A vida, as pessoas, a Terra. O garoto não sabia o que era o capitalismo, o socialismo ou qualquer outro conceito da política ou da economia, mas ele percebia que algo simplesmente não estava certo no mundo. A maioria das concepções de mundos felizes que ele conhecia — de contos de fadas e desenhos animados em geral — parecia completamente distinta do mundo em que vivia, e ele não conseguia entender porque as mesmas pessoas que idealizavam mundos coloridos e pacíficos, em que a única lei era ser feliz, construíam, na realidade, uma sociedade tão diferente. Se em um mundo que, embora imaginariamente, tinha sido criado completamente por humanos, reinava a felicidade, então a culpa pela situação do mundo real não poderia — ou assim um garoto de nove anos supunha — ser creditada às pessoas. Elas simplesmente não poderiam ser tão incoerentes. E se a culpa não fosse das pessoas, teria de ser de Deus. Gosh nunca achou — na verdade, nunca pensou a esse respeito — que Deus fosse mau, ou que estava agindo de forma errada. Isso nem lhe passava pela cabeça. Mas — e isso fora sua mãe que respondera certa vez, ao tentar afastar de si as questões cada vez mais impertinentes do menino —, talvez, para uma entidade tão poderosa, o mundo fosse repleto de coisas pequenas demais para serem vistas lá de cima, e por isso a administração não conseguia funcionar com cem porcento de eficácia. Essa teoria surtiu um efeito na mente de Gosh bastante diferente do que a mãe havia esperado. Ela fez com que ele tivesse idéias. E agora, embora suas tentativas até o momento não tivessem surtido efeitos animadores, e ele estivesse, pelo que entendera das conversas dos pais, prestes a viajar, Gosh pensava nessas idéias e em formas de levá-las adiante.

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6º Movimento (aquele que resume e encerra o primeiro ato) – Dois diálogos e dois monólogos (o casal discute, entre malas e roupas) —Rápido, querida, vamos! —Você sabe que isso é loucura, não? —Não é loucura. Não completamente... —Você sabe que é! —Defina “loucura”. —... —Está bem, está bem, talvez seja loucura, mas... E daí? —Se você entende que é loucura, por que quer fazer isso? —É nosso... Dever... —Não, não é! —Claro que é! Eles são nossos amigos! Bem... Meus amigos, de qualquer forma. Seja como for, o filho deles vai para a guerra! Você pode imaginar isso? —Não, mas, bem... —“Bem”? —Olha, simplesmente não é nosso problema! —Querida! —Olha, não pense que eu não ligo, mas... A verdade é que não, eu não ligo. —Querida! —Bem, eu ligo, claro, eu gostaria de ajudá-los, mas... Essa idéia é simplesmente absurda! Nunca vai dar certo! —Disseram o mesmo de Colombo, quando ele disse que conseguiria chegar à Índia

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rodeando o mundo todo! —É, e ele não conseguiu chegar. —Bem, mas poderia ter conseguido. E não importa, são nossos... São meus amigos, nós vamos e pronto. Eles precisam de ajuda, você devia entendê-los. —Eu entendo! Não ache que eu sou uma monstra insensível ou coisa do tipo. Eu só... Preferia que eles vivessem em um país decente... Civilizado. —Ah, você sabe como é... E não deve ser tão ruim assim, é sempre bom viajar, conhecer novas... hum... Culturas. —Bem, está bem. É uma viagem; são férias... Você é quem sabe. Eu preciso mesmo de descanso. E o Gosh vai se divertir. —É, é, o Gosh. Agora, por favor, ande logo com as malas! —Ah, mas por que eu tenho que arrumar a sua mala? —Querida... (na sombra, debaixo das folhas de um carvalho, garoto e garota observam o infinito) —... —... —... —... —... —... —... —...

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—? —! —... (o homem na sala, a mulher na cozinha) —Meus amigos estão chegando, e precisamos arrumar lugar para eles! —Música, e luzes por todo lado! —E precisamos da mídia presente... E de um lugar amplo para o show. —E toda a gente pulando e cantando em um só tom! —Também devemos providenciar para que os músicos apareçam... Nada pode dar errado, ou ficaremos mal vistos. —Sem contar os fogos! —O dinheiro também está apertado... —Fogos de todas as cores! —Eu vou ter que fazer hora extra no escritório... —Fogos, explodindo em um zilhão de cores! —Mas vai valer a pena. —Aliás, quanto é um “zilhão”? —Será um esforço recompensado, você vai ver! O mundo vai ver! —Será mais que um milhão? —Nosso Marc não vai para a guerra! Eu não permitiria isso. —Será que existe um “zilhão” de cores? —Até porque, essa guerra... qual a justificativa dela? Não faz sentido, é ilógica!

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—Tem o azul, o amarelo, vermelho, verde... Tem que contar as diferentes tonalidades, também? —Não entendo como as pessoas podem aceitar uma guerra assim! —Porque se contar, aí são cores demais... Talvez até mais que um zilhão. —Mas afinal, do que diabos você está falando? Está me ouvindo? —Quê? —Ah, esquece!

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1º Intervalo – Poesia

“Por que sair de casa
Se lá fora não poderei Tocá-la, beijá-la, acariciá-la? Por que sair de casa Se lá fora não serei alvo de seus Suspiros, elogios, cantadas? Por que sair de casa Se lá fora não farei parte de seus Sonhos, desejos, noitadas? Mas por que, por fim, ficar em casa Se aqui não há a parte (Pequena, que seja), sua, que me cabe?”

Marc escreveu essas palavras em uma folha de papel, e leu-as. Leu-as, e não as achou de todo ruim e pensou que, recitadas, agradariam a Sara. Leu-as, e achou que jamais teria coragem de dizê-las. Leu-as uma vez mais, antes de amassar a folha e jogá-la no lixo.

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Segundo Ato Gosht

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1º Movimento – Profecia Abriu os olhos e viu que o mundo ainda rodava. Fechou de novo. Dentro de sua mente — e, de certa forma, fora dela também —, uma realidade pouco convencional se misturava com os elementos externos, as dores intensas e o gosto de álcool. O mundo é muito diferente quando visto de dentro de um saco de pano. Especialmente quando não se come há dias e o único líquido ingerido é a cachaça. As pessoas passando, os carros, uma bicicleta, tudo se confunde em um grande e psicodélico borrão de existência questionável. Era um mundo muito, muito maior, mais curvo e certamente muito menos estável do que aquele no qual a maioria das pessoas vive, mas ainda era um lugar mais aconchegante que a realidade. Mas agora ele sabia que precisava lutar contra isso, e tentou abrir os olhos novamente. E viu uma cidade grande, movimentada e inclinada em noventa graus. A vida parecia bastante com um filme que deveria exibir 24 imagens por segundo, mas do qual foram arrancados alguns quadros, de forma que os personagens apareciam em uma posição, ficavam assim por alguns instantes e materializavam-se pouco depois em outra pose. Foi assim que Pobre Homem — e esse talvez não fosse seu nome, mas era a forma como a maioria das pessoas o chamava — se viu prestes a levantar, completamente ereto, começando a andar, alguns metros a frente, prestes a trombar com Filho de Deus — e esse também é um nome atribuído pelo costume, não por registro — e já no chão, embaraçado com o outro mendigo. —Putaquipariu — disse, ignorando algumas vogais e prolongando outras. Foi mais um cumprimento que um praguejar. —Oi — respondeu Filho de Deus, fazendo as duas letras durarem muitos segundos antes de saírem completamente da boca.

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—Oi . Pobre Homem levantou desajeitado e ajudou o outro a fazer o mesmo. Ao completarem o processo, após muitas tentativas, pareciam dois espantalhos sujos de graxa. Só que com mais barba. —Iscuta... Eu pri... Eu pres... Eu pricizu falar uma coisa... Pobre Homem olhou para os lados. Os dois mendigos estavam em um beco vazio, sujo e fedido. Não parecia haver ninguém por perto. Pelo menos, ninguém vivo. Parecia seguro falar, portanto, continuou, com pronúncia assustadoramente melhor. —Eu estive pensando. — sussurrou, ainda olhando cauteloso para os lados. — Eu acho que Ele vem hoje. —Você tem certeza disso? —Bem, eu diria que os cálculos estão quase... — começou, mas as últimas palavras nunca foram ditas. —Então vamos! Filho de Deus segurou Pobre Homem pela manga (ou pela parte do saco que exercia essa função nas vestimentas do colega) e o puxou, quase rasgando os trapos que agarrara. Os dois correram por algum tempo, até chegarem a um ponto mais movimentado, onde, diante de outras pessoas, começaram a cambalear depressa. A casa não era “feia”, ou “velha”, nem sequer “sucateada”. Nenhum desses termos é bom o bastante para descrevê-la. Talvez ela tenha sido digna desses adjetivos há alguns séculos, mas certamente, não mais. Seja como for, ela ainda tinha algo — uma espécie de mistura de madeira podre e preta com algum metal misterioso já quase se esfarelando — que podia ser o teto, mas

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talvez fossem as paredes, e os dois mendigos se enfiaram embaixo da mistura (mas também do lado dela e, às vezes, em cima e no meio), passando sobre pilhas de estranhas massas pegajosas e entrando no que poderia ser o salão principal da casa, ou o banheiro. Fosse o que fosse, era do tamanho de uma cabine de banco 24h, e nela havia, agora, os dois mendigos e uma mulher que provavelmente já deveria ter morrido, a julgar pela quantidade de rugas na face. A mulher não esboçou nenhuma reação quando os dois entraram, mas eles pareciam já esperar por isso, se sentaram no chão, que parecia mais seguro que os objetos de madeira que deveriam se passar por bancos, e explicaram tudo. A mulher ficou quieta por alguns segundos, e passou pela cabeça dos mendigos que talvez ela tivesse, de fato, morrido. No entanto, por fim, ela acabou balançando levemente a cabeça, enquanto abria uma boca que parecia destreinada, endurecida pela falta de uso. E então, ela falou, com uma voz rouca, mas estranhamente jovial, dotada de uma inesperada energia, ou empolgação. —No aeroporto, você diz? —Sim, foi o que eu vi — respondeu Pobre Homem, tentando impor um tom respeitável à voz. —Para o aeroporto, então — disse a velha, e ao final da frase, pareceu que toda a sua energia vital tinha se esvaído. Ela respirou em silêncio por um período no qual Pobre Homem e Filho de Deus ficaram completamente calados e imóveis. Depois, concluiu o que dizia. —Não podemos deixar de recepcioná-Lo. A maioria das pessoas simplesmente desconsidera os mendigos. Eles não participam de pesquisas eleitorais, não têm direitos, não têm deveres. Para muita gente, não passam de um elemento desagradável da paisagem, algo de que se deve desviar ao andar na rua e a quem, vez ou

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outra, para satisfazer o ego ou garantir uma vaga no céu, atira-se uma moeda quase sem valor. O mundo deles também fica à parte do real, de certa forma. À margem da sociedade e da lucidez, imerso em embriaguez, fome e Deus sabe quais pensamentos. De fato, mendigos têm muito mais tempo para pensar, e embora não possuam bagagem cultural para formularem pensamentos baseados na cultura, certamente poderiam refletir sobre assuntos mais empíricos. Poderiam, também, filosofar sobre as mais variadas questões. E é provável que em toda a história da humanidade, o tema sobre o qual mais se pensou é a vida, sua origem, seu sentido. E, se por um lado os mendigos não têm a chance de divulgar suas descobertas e teorias com as demais pessoas, é fato que alcançaram resultados formidáveis. Uma linha de pensamento bastante difundida entre eles, por exemplo, incluía Deus, um garoto de nove anos uma guerra e, eventualmente, o fim do mundo.

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2º Movimento – Um capítulo que já não importa Luís Antônio era um homem de classe média alta, relativamente bem sucedido, satisfeito com seu emprego de alto posto em uma empresa de produtos eletrônicos, casado e pai de uma menina. Era um desses caras que traçou um plano na sua vida e veio cumprindo-o com sucesso ao ponto de poder considerar-se realizado tanto profissional quanto amorosamente. Ele nasceu em uma família sem maiores preocupações financeiras e que — embora não fosse verdadeiramente rica — estava acima da maioria das famílias do país, o que, de qualquer maneira, também não queria dizer grande coisa. Ele estudou em escolas boas e caras e, quando teve que escolher sua profissão, não se sentiu pressionado pelas necessidades financeiras. Entrou em uma faculdade conceituada de engenharia e se especializou em mecatrônica, mas, quando, anos depois, estabilizou-se no cargo atual, reconheceu que teria sido mais útil fazer algo mais voltado para a parte administrativa. No entanto, não se aborreceu verdadeiramente com isso, porque o mundo é desse jeito que é, e no final, ele conseguiu emprego na empresa por indicação de um amigo do pai. Sua ascensão lá dentro, porém, deu-se por méritos próprios. Esforçava-se para merecer o que tinha, mas, principalmente, se empenhava porque o trabalho lhe era prazeroso; tanto quanto o trabalho pode ser. No expediente, era expansivo e falava muito, com todos. Quando começou a trabalhar na empresa, irritava-se, no caminho, caso andasse a pé, porque os motoristas passavam sem ligar para o fato de haver um pedestre tomando chuva e cansando as pernas, enquanto eles estavam sentados confortáveis com o ar condicionado ligado, o rádio tocando e, acima de tudo, secos. Assim, Luís teria que esperar e, em alguns casos, receber os jatos d’água espirrados quando as rodas, velozes, passavam em poças, enquanto carros zuniam,

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impedindo-o de atravessar a rua. Quando começou a ir de carro, xingava os pedestres que se enfiavam na frente do automóvel, forçando-o a brecar, atrasando-o e quase causando acidentes. —Depois reclamam, quando morrem — costumava dizer, porque, tanto quanto o mundo, as pessoas são desse jeito que são. Foi por isso que começou a andar de metrô. Ele poderia ir de ônibus, mas o metrô era mais limpo, mais rápido e mais seguro. Na verdade, Luís parecia amar o metrô, e dizia a quem quisesse ouvir o quão maravilhoso era o meio de transporte. Contava casos que ocorreram a ele, ou a algum conhecido, ou até a ninguém, mas que poderiam ter acontecido, e não economizava elogios, até o dia em que seu horário mudou, perdendo um pouco da flexibilidade de que costumava dispor, e ele começou a pegar o metrô às 19h. Nesse horário, havia três vezes mais gente em cada vagão do que sua capacidade, o trem parava entre as estações e demorava muito mais do que o tempo necessário para aquela distância. Era terrivelmente quente, e as pessoas fediam. De repente, aturar pedestres suicidas não parecia uma idéia tão ruim, e ele voltou a usar o carro. Não obstante, foi no metrô que ele conheceu Marcela. Durante suas viagens, ele já havia reparado em muita gente, e muitas delas carregavam livros religiosos, romances baratos comprados em bancas de jornal, material escolar ou cadernos, e até discmans. Ele já havia visto garotos com seus game boys, mas nunca havia visto alguém com um objeto caro como um laptop. E que mulher maravilhosa era aquela que digitava, imersa, com a mente distante dos demais passageiros!

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Marcela era jovem, bonita, inteligente e, para poupar maiores detalhes, acumulava adjetivos positivos. Ela era, também, uma sonhadora. Apaixonada por livros, por filmes e romances, decidira se tornar uma escritora e, por isso, comprou um laptop. Ao escrever seu primeiro livro, achava — e que escritor iniciante não acha? — que faria maravilhas, que suas letras rodariam o mundo, que num futuro não muito distante, seus netos receberiam sorrisos capciosos das professoras de literatura, quando essas mencionassem as importantes obras de Marcela Bastos, entrando nos mais fascinantes detalhes sobre a influência de sua obra na estruturação do pensamento contemporâneo ou qualquer coisa do tipo. Depois que sua obra foi um fracasso retumbante, lida apenas por familiares e amigos, no entanto, ela percebeu que a vida não era tão bela, e que não seria tão fácil fazer nome como escritora. Todavia, ao contrário do que supunham os parentes mais próximos, que achavam que ela deveria arrumar uma “profissão de verdade”, Marcela não desistiu, e continuou escrevendo sem se submeter a determinados temas só por pressões financeiras, como sugerira certa vez um colega. Ela escrevia sobre coisas de sua vida, coisas que sentia e que achava que mereciam ser expostas e debatidas, escrevia sobre romances imaginários que tinham tudo de real, e sobre histórias completamente verossímeis, que não passavam de uma grande abstração, sem em nada se ligarem às vidas que pareciam narrar. Aconteceu de, certa vez, uma de suas filosofias despretensiosas cair nas graças do povo, e o livro fez bastante sucesso, chegando às listas de mais vendidos de algumas livrarias, e rendendolhe algumas noites de autógrafos, uma ou duas reportagens em revistas medianas, uma boa quantia de orgulho e uma soma de dinheiro que, pelo menos, não era risível. Era, na verdade, o livro que ela menos gostara de escrever, por ter um tema não tão original. Enquanto ela escrevia, sentia que faltava honestidade e sentimento à obra, mas o sucesso acabou por apagar essa sensação. Ela ficou extasiada e decidiu se dedicar em dobro a seu próximo

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livro, que ela decidira que falaria de um romance proibido, envolvendo membros de famílias rivais.

—Apesar do sucesso, não mudei meu modo de pensar — costumava dizer quando questionada —, e só escrevo um livro que eu sinto que traz aquilo que eu realmente penso, não algo banal, que não tem nada a acrescentar, e só quer vender.
Pode-se, com razão, alegar que o que ela dizia estava absurdamente distante da realidade, mas é impossível negar que ela acreditava em cada uma daquelas palavras. O sucesso é impressionante como é justamente porque tem a força de mudar qualquer um e a sutileza de fazer isso de forma discreta. Marcela, dizíamos, era uma sonhadora. E ela dedicava ao livro o máximo de tempo que podia, e foi por isso que naquele dia, naquele trem do metrô, Marcela digitava concentrada, sem reparar no homem que a observava com o mesmo olhar apaixonado que o personagem de seu livro — o personagem mais artificial que ela já havia criado — fitava a amada.

Naquele dia, Marcela, em seus pensamentos, não notou quando o trem passou pela estação em que ela queria descer e Luís Antônio, em seu voyeurismo, também não. Ambos continuaram no trem por muito mais tempo do que o necessário, e isso, de certa forma, foi um acontecimento infeliz, pois, por uma curiosa coincidência, ambos teriam descido na mesma estação. Mais infeliz ainda porque eles ficaram tempo suficiente para um grupo mal encarado entrar no vagão. Os cinco jovens ficaram em um canto, conversando alto e gesticulando mais do que o

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necessário, e só tomaram conhecimento da presença da escritora e do recém-apaixonado gerente quando ouviram um grito vindo do fundo do vagão: —Ah! — e era Marcela quem gritava — Perdi a estação! Nessa hora, de alguma forma, o encanto que atuava sobre Luís foi diluído, e ele percebeu que também já havia passado de casa e que estava era fazendo um belo papel de tonto ali, vidrado e tão desatento. —Deus! Eu também! Os dois acabaram descendo juntos na estação seguinte, sob os risos do grupinho mal encarado, e iam para a área de embarque na direção contrária, para voltarem, quando Luís notou que os indivíduos que riram deles no vagão haviam descido, também, e andavam em direção a Marcela. Eles se aproximaram da garota, e um deles cochichou algo ao seu ouvido. Luís notou a expressão assustada no rosto dela, e viu que ela se desviou do caminho que vinha fazendo e saiu da estação acompanhada pelos jovens. Luís sabia que ela não poderia querer sair à rua ali, pois notara que ela havia perdido o ponto, e não precisava ser muito esperto para perceber que alguma coisa estava errada. Por outro lado, já havia sido ridículo o bastante no trem, e era bem verdade que talvez sua imaginação estivesse indo longe demais ao imaginar que a moça precisaria da ajuda dele. Se fosse atrás dela e descobrisse que não havia nada de verdadeiramente errado, ele pareceria ainda mais besta, e talvez até mesmo levasse a garota a desconfiar de sua própria idoneidade. Afinal, eu estaria seguindo ela, também, pensou. No entanto, assim que seu intelecto parou por um segundo de se preocupar com tudo isso, ele se deu conta de que as pernas já haviam decidido a questão, e ele estava, já, seguindo os passos do grupo.

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Ao sair da estação, Luís percebeu que os jovens aguardaram Marcela estar a alguns metrôs do metrô, em uma esquina onde ficariam escondidos, para abordá-la. Ele correu para lá, a tempo de ouvir um pedaço da conversa. —Eu posso, pelo menos, fazer backup? Os assaltantes pareceram não esperar por essa reação. —Quê? —É: salvar esse texto em um pen drive... — Marcela explicava. —Ah, eu sei, eu sei, é só que... Isso não costuma acontecer... —Mas eu posso? —Eu acho que não tem problema — interveio outro jovem. — Contanto que a gente fique com o computador... —É, acho que não tem problema — murmurou, ainda confuso, o primeiro. —Certo! — Marcela falou com um tom que, conforme Luís não pôde deixar de notar, era excessivamente animado para a situação. Foi então que Luís decidiu agir. —Alto lá! — Gritou, por falta de idéia melhor. — Deixem a moça em paz! —Como é? — perguntou um dos assaltantes, tirando uma arma do bolso. O gesto provocou espanto em Luís, mas não tanto quanto ouvir Marcela falando: —Calma! Eles me deixaram fazer backup. Mas Luís se aproveitou da distração do garoto com a arma, e segurou seu braço, torcendo-o. Ele não era muito forte, mas achava que conseguiria se virar se pegasse a arma, e foi isso o que ele fez. Só não esperava que, tendo acabado de desarmar o jovem, acabaria na mira de

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quatro outras armas. —Ih! Quando a polícia chegou, Marcela estava debruçada sobre o corpo ensangüentado de Luís, mas, ao contrário do que se esperava, ela xingava e gritava com ele. —Meu livro! Você me fez perder meu livro! —Calma, senhora — interveio, com o máximo possível de delicadeza, um policial. — Ele vai ficar bem. —Eu não sou “senhora”, e que me importa se ele vai ficar bem? — Marcela bradava, furiosa. —Isso, ele vai ficar bem. Tudo vai ficar bem — o policial repetia, sem ligar para o que a mulher falava. — Tudo muito bem, senhora... Luís tomara um tiro na perna, e, embora a bala tivesse pegado de raspão, não sendo nada grave, estava, agora, caído no chão, segurando o sangue. Durante toda a conversa, ele só murmurara coisas como “Minha perna! Minha perna!”, ou “Oh, mundo”, mas agora estava em silêncio, enquanto os médicos chegavam e tentavam conter o sangue que, de toda forma, já nem escorria mais. Apesar da raiva, Marcela acompanhou as ambulâncias, até o hospital.

—Olha, me desculpe por gritar, mas é que... — Marcela falava evitando o olhar de Luís.
Andava pelo quarto do hospital, eventualmente mexendo em alguma coisa. — Sabe, você me fez perder o texto! —Ah... Bem... — Luís falava devagar, como se estivesse mortalmente ferido, embora o

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machucado não tivesse nada de grave. — Eu só queria ajudar... —É, é, e no final acabou levando um tiro por mim, mas... Não foi muito inteligente... —Não, não foi. Mas... O pior já passou, não é? De qualquer forma, era só um texto, mesmo. Marcela lançou um olhar para Luís que dizia, com tantas letras quanto fossem necessárias, que aquele não era só um texto, mas ele pareceu não perceber e continuou falando. —Por sorte não era nada importante, como fotos de família, ou músicas. —Era a minha vida. —Como? —O texto! — Marcela falando lembrava assustadoramente um psicopata. — Era meu livro, minha profissão, a maior história que eu já concebi! —Oh! — Luís ficou alguns segundos em silêncio, constrangido com o tamanho da bobagem que dissera. Depois, tentando parecer interessado, perguntou: — Do que se tratava? —Era um livro de fantasia, um pouco juvenil, mas não muito. E era uma história de amor! —A moça estava bastante animada, agora. — Mas não um amor qualquer — e ela fez uma pequena pausa dramática. — Era um amor proibido! E também tinha um urso, e um gigante! E era na lua, mas não a parte do gigante. Só a dos crocodilos. Eu mencionei os crocodilos? Sempre achei que esses livros assim, com fantasia e tudo, podiam usar um pouco mais os répteis... —De fato! — Disse o lado apaixonado do cérebro de Luís, embora a parte mais racional tendesse a suspeitar que o roubo, no final das contas, não teria significado uma perda lá muito grande para o mundo de um modo geral. —Sim, era uma bela história... —Eu realmente lamento muito.

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—Ah — disse Marcela sombria —, não tem importância. Não foi sua culpa, de qualquer forma. Ela se virou em direção à porta, e repousou a mão sobre a maçaneta. Depois, sem olhar para trás, disse: —Estou indo. Tenho muito o que escrever. —Parece — começou Luís, juntando coragem — que eu arruinei seu trabalho. Sei que não é muito, mas talvez ajude a me fazer sentir melhor se nós fossemos jantar algum dia desses. —Talvez, algum dia — disse Marcela, saindo. —Pegue meu telefone, pelo menos — arriscou Luís. Ela pegou, sem dar qualquer sinal de que fosse ligar algum dia. Cinco dias depois, ela ligou.

—Alô?
—Ah, oi. Luís? —Quem... Marcela? Os dois conversaram por algum tempo sobre assuntos que não interessavam a nenhum dos dois, até Luís descobrir que Marcela estava em uma fase ruim, e que não conseguia escrever. Ela estava desanimada, cansada das noites em claro infrutíferas, e então achou o telefone dele e decidiu ligar, como último recurso. Claro que um resquício de educação impediu que ela dissesse tudo isso, nesses termos, mas também não foi muito difícil deduzir. Não obstante, Luís aceitou, feliz, e eles saíram. Marcela escolheu o restaurante, Luís dirigiu. Ela escolheu pratos caros e um vinho, ele fez o pedido ao garçom. Ele fez piadas idiotas, ela riu.

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Quando, ao final da noite, saíram do restaurante se beijando, e se beijaram enquanto esperavam o manobrista trazer o carro, e se beijaram dentro do carro e nas escadas do prédio e na porta do apartamento de Marcela e continuaram se beijando por toda a madrugada, Luís soube que sua vida seria muito melhor do que ele podia esperar. E foi. Eles namoraram por anos, e foram anos extremamente felizes. Luís se sentia bem, rendia no trabalho, fazia piadas, falava bastante. Marcela desistiu de seu antigo texto, mas criou um novo romance, consideravelmente mais original, que acabou lhe rendendo a vitória em um concurso, vendas regulares e até alguns fãs. Eventualmente, se casaram e tiveram uma filha. A partir daí, poder-se-ia dizer que a vida de Luís era perfeita, e ele mesmo não se cansava de repetir tal fato. Metaforicamente falando, passava a vida a cantar. E assim foi até o dia em que ele foi despedido. Despedido. Tanto esforço, tanto trabalho... Despedido. Tantos anos dedicados ao emprego, para, no fim, acabar assim: despedido. Luís chegou cambaleando em casa, ainda sem saber o que fazer. Deixou a porta da frente aberta, e deitou na cama e assim ficou, acordado, imóvel, até que, horas mais tarde, Marcela chegou com a menina, e, ao ver a porta escancarada, gritou preocupada. Ela correu até o quarto, deixando a filha pelo caminho, e encontrou o marido deitado, imóvel, os olhos abertos vidrados, fixos no teto. —Aconteceu alguma coisa? — Perguntou desesperada, procurando no quarto qualquer sinal de um roubo. Não recebendo resposta do marido, insistiu. — Diga, o que aconteceu aqui?

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—Despedido — foi tudo o que ele disse. —O quê? — Agora, ela estava mais confusa que espantada. —Eu. —Você o quê, criatura? —Despedido. Então, Marcela entendeu. —Despedido... Mas por quê, como? —Despedido. —Fale direito! O que aconteceu, você estava tão bem na empresa! —Ações. Caíram. Despedido. —Mas por que você? Estava em um posto elevado, não deveria cair com meros cortes de pessoal. —Eu não sei, está bem? Disseram que eu não estava correspondendo às expectativas! Que queriam alguém mais novo! Argh! — Ele levantou, urrando, assustando a filha. Passou pela porta ainda escancarada e andou. Andou, e andou, e continuou andando até que as pernas não agüentaram, e então ele se sentou em um bar e bebeu até acabar com o dinheiro de sua carteira, e então já não sabia mais o que estava acontecendo ao seu redor e, quando acordou, estava caído encostado à parede, no meio da sujeira, com a cabeça latejante de dor, e a roupa rasgada. Ao seu lado, encontrou algumas moedas, que alguém provavelmente jogara enquanto dormia, bêbado. Ele pegou o dinheiro, foi a um bar e bebeu mais. Continuou assim por uma semana, até não se lembrar mais de quem era, seu nome, sua esposa, sua filha. Já não se lembrava que fora gerente, que fora feliz e orgulhoso. As pessoas na rua chamavam-no de Pobre Homem, e era assim

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que ele passou a ser conhecido, a despeito de tudo pelo que passara, tudo o que sentira. O fato de que um dia teve tudo o que quis já não importava.

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3º Movimento – Os Pensadores Algumas pessoas acreditam que se pode prever o futuro por meio de premonições, astrologia, runas e outros métodos pouco científicos. Outras, de mente mais racionalizada (o que nem sempre é um adjetivo positivo) duvidam de tudo isso. Para esses céticos, a única forma de prever o futuro é baseando-se em cálculos complexos, análises de fatores variados, equações com base em princípios físicos. Mesmo estes, se soubessem que uma viagem de avião foi prevista com grande precisão por um bando de mendigos, dariam o braço a torcer e creditariam o fenômeno a habilidades paranormais. No entanto, estariam errados. Contra todas as expectativas, os mendigos usavam a razão, cálculos complexos e análise das mais ínfimas variáveis, em suas previsões. A primeira atitude de Pobre Homem após receber esse nome foi beber, e ele fez bastante disso. Depois, passou a negar sua situação, seu novo nome, seu novo lar. —Eu não moro na rua — repetia, bêbado, para ninguém. — Só estou passando uns dias longe de casa. Mas os dias e as garrafas de cachaça se multiplicavam, e o discurso parecia ficar desatualizado. A realidade insistia em penetrar seus devaneios, e, então, ele repetia para os cães de um beco, em tom defensivo. —E quer saber? Eu também nem casa tenho! Para onde voltaria? E nem casa ele tinha, nem emprego, nem uma filha (como ela chamava, mesmo?), nem uma esposa, nem motivo para contar vantagem para os colegas. E, afinal, que colegas? Seus colegas, agora, eram os ratos, o mijo que escorria pela sarjeta, o lixo de onde tirava restos de

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comida. Nessa época, só conseguia pensar em sua vergonha. Mas, por fim, começou a refletir. Mais cedo ou mais tarde, todos começam. A principal pergunta que se faz é “por que eu estou aqui?”, e Pobre Homem tinha uma resposta fácil para essa. —Porque fui despedido, cacete! — Gritava sozinho, de repente, assustando quem passava. — Porque fui despedido! — E, então, caia no chão, e suas lágrimas eram invisíveis sob a sujeira. Mas essa resposta não era completa, e a tarefa de conclui-la foi muito mais difícil, e exigiu uma verdadeira análise de toda a sua vida. Por que, afinal, fora despedido? Cortes no pessoal, insistia, mas sabia que isso não bastava. A verdade é que ele vivia um conto de fadas, com seu casamento, seu emprego, sua filha, e acabou deixando de lado coisas que também eram importantes. Coisas que, deixadas de lado, foram roendo os pilares que sustentavam o conto. Cada resposta levava a uma nova pergunta, infinitamente, e o cérebro do novo-mendigo nunca trabalhara com tamanha intensidade. Por que vivera um conto de fadas? Por que tinha tamanha necessidade de gabar-se de seus sucessos? Por que? Por que? Ad infinitum. Essa era a primeira fase, e todos passavam por ela. Depois, percebiam algo bastante reconfortante: as respostas continuavam se desencadeando até antes de nascerem. Em outras palavras, tudo o que acontecera com eles era resultado lógico de uma seqüência de ações e acontecimentos que remetiam à origem do universo. Daí, chega-se a duas conclusões interessantíssimas. A primeira é de que se poderia determinar todo o passado da humanidade, por meio de uma análise da situação atual. Basta ir regredindo por uma cadeia de acontecimentos que formam uma sequência lógica. Se agora está assim, então antes aconteceu tal coisa. Se tal coisa aconteceu, é porque antes estava assim.

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Um computador super potente poderia calcular todos os detalhes, chegando a uma resposta correta sobre as origens. E, de certa forma, havendo tempo livre de sobra e muitas cabeças para pensar, os mendigos poderiam fazer o mesmo, com um pouco de paciência. Podia não ficar pronto nessa geração, talvez nem na próxima, mas um dia, teriam a resposta para a origem do universo. Só que, para isso, eles precisariam se interessar por essa pergunta, e isso não parece ocorrer. É por isso que o que importa de fato é a segunda conclusão a que se chegou: pode-se, também, prever o futuro com base na situação atual. Analisa-se todos os fatores, e eles indicarão o que deve acontecer a seguir. Então, é só seguir a seqüência invertida dos “por quês”, e voilá! Teremos o futuro se desdobrando a nossa frente! Esse cálculo certamente é mais importante, visto que o passado se perde muito facilmente entre uma dose e outra da cachaça. Por isso, por gerações, foram computados os mais diversos fatores, em uma grande equação. Quando Pobre Homem e Filho de Deus começaram a calcular, quase tudo já estava pronto, de forma que eles foram privilegiados. Porque foram eles que, após séculos de trabalho, descobriram duas coisas importantíssimas a respeito do fim do mundo. Primeiro, que ele seria antecedido pela chegada do Messias, de avião. Segundo que ele estava muito próximo de acontecer.

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4º Movimento – Enquanto Deus está em seu céu... Gosh nunca havia pisado em um avião, mas também não estava nervoso por fazê-lo pela primeira vez. Estava, pelo contrário, bastante animado. Passara mais de uma hora em um aeroporto, perguntando sobre tudo o que via, acompanhando números em telas de TV e, por fim, ao chegar à sala de embarque, encantando-se com o tamanho das máquinas do lado de fora. Na posição de Deus, sentia que não deveria se impressionar com construções humanas, mas não conseguia evitar, e acabou decidindo que não havia vergonha em tal fascínio, e que a comoção que sentia nada mais era que o orgulho de um pai assistindo à obra do filho. Não pôde deixar de se perguntar, contudo, como um objeto daqueles seria capaz de voar. Dentro da nave, continuava a admirar o corredor, as poltronas, o monitor em que em breve passariam os filmes da viagem (embora ele não soubesse disso, ainda) e, por último, com maior interesse e por muito mais tempo, a janela. Era praticamente uma ofensa que um avião daquele tamanho tivesse janelas tão pequenas. E com tanto para ver do lado de fora, por que não colocar janelas maiores? Ainda assim, Gosh conseguia ver as pessoas lá fora, alguns veículos estranhos que passavam e, o que lhe era mais atrativo, uma parte da asa do avião. Pela janela, observara enquanto os procedimentos de decolagem começavam, com manobras pela pista, e, por fim, uma aceleração maior que resultara no desprendimento do solo. Que mágico, aquilo! Quase sem que se sentisse, um amontoado de metal absurdamente pesado se lançava ao céu, e subia! Gosh podia ver o aeroporto ficando para trás, as pessoas diminuindo de tamanho, as casas parecendo brinquedos, rios e campos distantes, e, por fim, nuvens. Elas começaram a aparecer como flocos de algodão, próximas, e logo tomaram conta da

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paisagem, de forma que o menino acabou desviando a atenção para o monitor que agora exibia instruções que deveriam ser tomadas em caso de emergência. Ignorando o vídeo, Gosh fechou os olhos e imaginou como seria o país de destino. Pensava se as pessoas acreditariam nele do outro lado do oceano. Se acreditariam em Deus, lá. De olhos fechados, ignorava questões como eventuais dificuldades de comunicação por conta da língua, mas, afinal, desde quando isso foi empecilho para Deus? De olhos fechados, continuou ressonando, sonhando com um país diferente e, quando viesse a abrir os olhos novamente, a janela mostraria algo bastante inesperado. Mostraria uma multidão vestida em trapos, cercando e dominando o aeroporto. Mostraria uma verdadeira revolução, em que nenhuma arma fora levantada. Uma revolução que daria certo não pela violência, nem por estratégias avançadas. Daria certo simplesmente porque ninguém poderia esperar por ela, e porque a sociedade estava tão acostumada a ignorar seus revolucionários que perceberiam tarde demais o que acontecia. E, enquanto isso, no país a que se dirigia, a notícia de sua chegada havia se espalhado como os gafanhotos no Egito, chegando sem aviso a todo canto, crescendo, se multiplicando. Os mais diversos preparativos eram feitos. De um lado, mendigos de todas as partes se juntavam, em direção ao aeroporto. Ainda faltavam horas para a chegada, mas eles não queriam perder esse acontecimento por nada. De todos os becos, de todas as ruas, eles saíam. As outras pessoas, de um modo geral, nem ligavam, como estavam acostumadas a nem ligar, mas quem passava perto do aeroporto não podia deixar de notar. O problema é que aparentemente o cérebro das pessoas desenvolvera um mecanismo de defesa contra a imagem da miséria absoluta, de forma que a imagem dos seres humanos famintos,

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sujos e doentes era rapidamente esquecida, mesmo estando eles aglomerados. Entre essas pessoas, as únicas que, durante toda a carreira profissional, conseguiam notar os indigentes eram policiais, seguranças e similares, para quem parecia ser uma diversão ímpar expulsá-los de qualquer canto em que estivessem, ignorando os fatos de que eles não teriam outro lugar para ir (e, mesmo que tivessem, provavelmente seriam expulsos de lá, também) e de que já estavam em situação ruim o suficiente sem serem hostilizados. Nesse caso, porém, os mendigos eram tantos, que os seguranças acharam mais seguro observar a uma distância ideal, na qual estavam longe o bastante para não precisarem interferir, mas perto o suficiente para que um eventual observador achasse que eles estavam interferindo. E, de qualquer maneira, eram mendigos, apenas! O que poderiam fazer de mais?

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5º Movimento – Revolução E então, eles fizeram. Saíram das sombras — literais e metafóricas — aos gritos, bradaram com um fôlego que vinha sendo poupado havia anos, e correram com pernas acostumadas a rastejar. De todas as partes, de trás de cada pilha de entulho, vindos de cada esquina, eles chegaram à rua em frente ao aeroporto e então já era tarde demais. Não havia nada que pudesse ser feito nem ninguém que pudesse fazer qualquer coisa. Um minuto, talvez menos, foi o tempo que tudo aquilo tomou. E então, havia o caos. O avião havia acabado de pousar e as pessoas começavam a tomar as providências necessárias para o desembarque — a saber, desatar os cintos de segurança e tirar a bagagem de mão das prateleiras — quando tudo aconteceu. Quando Gosh, pouco antes do pouso, abrira os olhos, ele talvez tenha sido o primeiro a ver o que se passava, mas de qualquer forma, não faria diferença. Ele não precisava saber o que estava acontecendo. Bastava que eles soubessem o que estava acontecendo com Gosh. E eles sabiam. Eles sabiam e seguiam certos, inexoráveis. As pessoas, quando começaram a notar o que ocorria, fugiram e gritaram, mas, acima de tudo, ficaram perplexas. Por algum tempo, custaram a acreditar em seus olhos, a entender o que viam. E então, quando finalmente compreenderam, ficaram sem reação. Mas, de qualquer maneira, não haveria reação com que pudessem contar. Os mendigos, em uma fração de segundos, deixaram de ser um conceito meramente abstrato, uma preocupação distante e alheia à vida cotidiana, e passaram a ser uma realidade terrivelmente concreta. E, sem que ninguém os pudesse parar, invadiram o aeroporto. Em busca de um fator

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novo na matemática de suas vidas, de algo que pudesse mudar a miséria em que viviam. Dominaram toda a frente do aeroporto em busca de uma criança — em busca de Deus. Os guardas se olhavam aterrorizados, mas nenhum deles era capaz de tomar qualquer atitude. Não podiam ignorar o que viam, mas reprimir os indigentes certamente estava fora de questão, de forma que eles se encontravam em uma situação bastante delicada. Por algum tempo, ninguém soube o que fazer, diante da novidade do que presenciavam. Por fim, alguns fugiram, alguns gritaram coisas sem sentido só para manter um pouco da atmosfera de autoridade e outros simplesmente olharam atônitos para o que acontecia. Em retrospecto, os últimos foram os mais perspicazes. Alguns olhavam ao redor, com medo de que os cidadãos, ao notarem a omissão, criticassem seu comportamento, mas as outras pessoas estavam ocupadas demais correndo para todo lado, e não tinham tempo de se preocupar com a reação dos seguranças. Enquanto isso, os mendigos assumiam sua posição, em frente às portas do aeroporto. E então chegou o exército, e mais viaturas policiais e os guardas do aeroporto puderam se organizar de forma razoável. Uma barreira foi erguida, e os mendigos acabaram tendo que ficar do lado de fora, mas não pareciam muito incomodados com isso. Em primeiro lugar, estavam acostumados a ficar de fora de tudo. E em segundo lugar, por algum motivo que os guardas não foram capazes de determinar, os indigentes pareciam... saber de tudo o que aconteceria... E em meio à multidão maltrapilha, uma mulher — ou talvez fosse uma múmia ou uma memória ancestral — se destacou, andando escoltada por dois homens tão sujos e miseráveis quanto todos os outros. Ela não pronunciou uma palavra e nem pareceu tomar conhecimento dos soldados que se preparavam para impedir qualquer tentativa de seja lá o que fosse que aqueles

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indigentes resolvessem fazer. Isso era curioso, já que eles, os mendigos, sempre haviam sido vistos como uma camada da população que não podia fazer nada — ou talvez fosse mais justo dizer que se tratava de uma camada que simplesmente nunca fora vista de maneira nenhuma. A Velha apenas ficou lá, olhando para os outros mendigos que demonstravam grande respeito. E então, ela esperou. Na saída do avião, Gosh, como os demais passageiros, foi escoltado por soldados até uma sala no alto do aeroporto, onde estariam seguros da invasão. Lá, esperariam pela solução do inusitado conflito que o país vivia, ou receberiam informações de suas embaixadas. Era uma sala grande, cheia de cadeirinhas e sem nenhum grande atrativo a não ser um bar em que eram servidos café e lanches de qualidade suspeita e a enorme janela — na verdade uma única vidraça que ocupava toda a parede. De lá, era possível ver toda a pista de pouso, os aviões e a cidade mais além. Era possível ver prédios, casas e praças, mas, mais que isso, era possível ver os miseráveis que ocupavam cada canto da cidade. Imóveis, no aguardo do momento certo. E Gosh e seus pais olhavam a cena, perplexos e temerosos. Obviamente as crianças parecem ter maior facilidade para se adaptar a situações novas, já que não possuem tantas ideias formadas sobre as coisas; e obviamente Deus deve poder ficar sossegado em qualquer parte de sua própria criação. Então Gosh se esforçava para se manter o mais calmo possível, desviando sua atenção para temas distantes da realidade ao seu redor. Mas sua mente cismava em tomar rumos tortuosos que acabavam chegando aos mesmos questionamentos desagradáveis. O mais racional era “Por que os questionamentos sempre são tão desagradáveis?”, mas os outros, involuntários e subconscientes, acabavam tomando mais tempo da mente do garoto. Ao ver aquela situação toda, as preocupações já mencionadas quanto a erros na

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administração do universo afloraram na mente do garoto, e ele começou a tentar definir formas de melhorar a vida daquelas pessoas, mas isso parecia mais difícil do que ele poderia supor. Certamente os problemas sociais eram muito mais simples quando observados através da tela da televisão por poucos minutos, antes de o pai concordar em mudar para o canal de desenhos. É bem verdade que aquele dia, na sombra de uma caverna em sua cidade, ele sentira o poder fluindo por seu corpo, e era inegável que ele tirara peixes de uma fonte onde ninguém nunca tinha visto nenhum, mas estes acontecimentos, diante da melancolia do momento presente, pareciam terrivelmente distantes, agora que, finalmente, ele tomava consciência de sua situação geográfica em um país completamente diferente. Um país completamente diferente. As palavras se demoraram um pouco mais na mente do menino, e então ele se pegou sentindo-se pequeno diante do tamanho do mundo. A descoberta dessa suposta insignificância pode ser terrível para certas pessoas. E é pior ainda para Deus. Deus. Mais uma vez, os pensamentos se alongaram, fitando esse novo termo. Deus. Será que Deus poderia mesmo se sentir pequeno diante de qualquer coisa? Talvez os humanos estivessem abusando da boa vontade dEle, com toda essa coisa de modelar o mundo a seu bel prazer, mas ainda parecia estranho que alguém onipotente pudesse se sentir diminuído. Foi mais ou menos nesse ponto que os devaneios de Gosh começaram a ficar complicados demais para um cérebro de nove anos, então acabaram se diluindo como a neblina que, conforme o sol termina de aquecer a cidade, vai desaparecendo lentamente, quase imperceptivelmente, até que de repente só havia uma pequena nuvem na mente do menino. Conforme Gosh começava a dar atenção a essa nuvem, seus detalhes ficavam mais visíveis, e

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então ela se revelou uma pergunta. Uma pergunta terrível, a pior que poderia florescer em sua mente. Ele tentava não olhá-la, tentava virar os olhos de sua mente para outro lado, mas... Tarde demais. A curiosidade era irresistível, ele não conseguia evitar. Acabou olhando, e a pergunta começou a tomar forma em sua cabeça, palavra pro palavra, por mais que ele se esforçasse para evitar. —Será... Não, eu posso me esquivar da Pergunta... —...que... É só eu provar que ainda consigo... —...eu... É só eu provar que ainda tenho Poder. —...sou... Basta fazer algo simples, como... —...mesmo... Um terremoto. Isso, basta eu fazer o chão tremer que terei provado! —...Deus? A pergunta ecoou em sua mente por alguns segundos. Gosh parou. O mundo ficou silencioso. E então, o chão tremeu.

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6º Movimento (aquele que continua o movimento anterior após uma pausa dramática e encerra o segundo ato) – Revolução De repente, a espera acabou, e a figura funesta que, em uma sociedade em que a educação ainda tem um mínimo de relevância, chamaremos de “a mulher” somente ergueu os braços e os mendigos começaram a agir. Batendo os pés, gritando, correndo para cima dos guardas. Fazendo o chão tremer. Eles avançaram sobre os guardas, que, apesar de esboçarem alguma resistência, não foram capazes de impedir o ímpeto com que corriam os mendigos. E então, passaram pelos portões e já não havia quem os segurasse; era uma questão de tempo até chegarem à sala em que Gosh estava. E, andando calmamente, mas sem nunca ficar para trás, a mulher, sempre escoltada por Pobre Homem e Filho de Deus, seguia como se o caminho lhe fosse plenamente familiar. Por algum tempo, nem Gosh entendia o que se passava. As cafeteiras caíram no chão, miniaturas de aviões despencaram — demonstrando graves falhas de aerodinâmica — das paredes que enfeitavam, e alguma poeira se desprendeu do teto, o que era preocupante. As pessoas corriam, gritavam e algumas se escondiam de baixo das cadeiras de forma aleatória. Em comum, porém, havia o horror diante do que acontecia. Todos sentiam. Menos Gosh. Pois, em meio ao tumulto, só havia uma certeza: Gosh quisera que o chão tremesse, e ele tremeu. Disso dependera a confiança em sua própria divindade, e agora já não restavam dúvidas. Não podiam restar. O menino olhava entusiasmado para as próprias mãos, e quase gritou de alegria ao sentir a Fé voltar —e o que é mais importante para quem quer ser Deus?—, mas foi calado pela visão de centenas de milhares de pessoas correndo em sua direção, vestidas de trapos, os rostos e corpos sujos. Alguns gritavam, alguns cantavam, muitos sorriam e todos corriam em direção a

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Gosh. Eram eles que causavam o tremor de terra, mas isso não fez com que o jovem Deus questionasse seus poderes. Na verdade, ele nem se preocupava, no momento, com esse tipo de futilidade. Parecia mais urgente descobrir como não ser pisoteado. Talvez devesse congelar o tempo... Não, seria muito óbvio. Não teria o menor estilo. Flutuar sobre os corpos, sim, seria algo realmente impressionante. E impressionar era importante, se você pretendia ser Deus. Afinal, para ser Deus, você precisava ser sobre-humano, transformar água em vinho, andar na água, esse tipo de coisa. Assim, seria unir o útil ao agradável, fazer algo que todo mundo notasse e que resolvesse seu problema. E talvez tivesse sido realmente impressionante se ele tivesse flutuado sobre os indigentes, mas isso não aconteceu, pois, antes que ele pudesse concluir seu pensamento, todos os mendigos pararam à sua frente, primeiro observando-o como se o menino fosse algum tipo de atração bizarra, depois fazendo comentários e murmurando perguntas e — após ser possível ouvir alguns “é ele, mesmo” — ajoelhando-se e abanando os braços respeitosamente em sua direção. Aquilo podia não ser tão divertido quanto flutuar no ar, mas certamente era impressionante.

“Espaço” é um termo muito relativo. Especialmente quando se está constantemente
alcoolizado. E, embora fosse inegável que os mendigos tivessem sua própria cidade — seu próprio mundo —, não era fácil determinar onde exatamente ela estava. O mundo deles se misturava e se confundia com o mundo normal, mas ao mesmo tempo não estava em lugar nenhum. Em cada beco escuro, em cada canto, debaixo de cada construção. A verdade é que a cidade deles estava em qualquer lugar para onde as pessoas mais afortunadas não desviavam o olhar. E isso representava uma área enorme. A miséria é responsável pelo surgimento de todo tipo de problema social, da

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criminalidade e coisa do tipo. Mas essa é uma miséria que deixa o miserável diante da porta de uma mansão e ri da cara dele porque ele não tem a chave. E aí ele vai querer fazer qualquer coisa para entrar, e quem está lá dentro olha pelo olho mágico receoso, pois sabe que se ele entrar, alguém vai ter que sair. Mas existe outro tipo de miséria. Uma miséria de verdade. A miséria que joga o miserável na sarjeta do outro lado da rua, atrás de uma lata de lixo. E aí a mansão parece distante demais para tentar qualquer coisa, e ele se contenta em não ser atingido pela água que os carros espirram. E nem os moradores da mansão nem aqueles que estão perto da porta do lado de fora olham para ele. E aí ele se sente um lixo, e – pior!— sabe que as outras pessoas o consideram isso ou menos. E quando elas o veem bêbado (se é que elas o notam), elas acham um absurdo, e dizem que ele jogou a vida fora, como se houvesse alguma vida para dispor. Vida... Há! Vida... É um tipo de miséria que se fosse mãe, deixaria o filho bebê sozinho e iria curtir a vida. É um tipo de miséria que conseguiria jogar os ossos no lixo depois de ver o olhar pedinte de um cãozinho. Que, além de não levantar quem cai, ainda pisa na sua mão. E cospe. E era esse o tipo de miséria que pairava no local para onde os mendigos levaram Gosh.

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2º Intervalo – Cinema Quando o espectador de um filme de ficção se depara com um futuro fantástico, ele não tem parâmetros sobre os quais se apoiar; não há um conhecimento prévio que gere comparações e questionamentos como “e você acha mesmo que os humanos sobreviventes ao vírus que emanou do meteoro e deu poderes estranhos a todos realmente agiriam assim?”. Até porque, a situação da qual se parte é tão distante da realidade do espectador que qualquer contradição posterior é escusável com uma desculpa do tipo “ah, mas o vírus também mexeu com os hormônios deles... E, bem, com o metabolismo e o DNA, de um modo geral”. Da mesma forma, em muitos casos, os espectadores de filmes mais focados na realidade, mas com enfoque em países exóticos, localidades remotas ou classes sociais distantes, sentem-se desprovidos de base para sustentar uma opinião. De fato, certas realidades são tão distantes do diaa-dia do espectador quanto a ficção, e são, portanto, encaradas de forma quase idêntica, do ponto de vista da compreensão. No segundo caso, porém, ao contrário do primeiro, há a possibilidade de a história contada fazer parte do cotidiano do roteirista, ou do diretor, ou ao menos do passado semiesquecido de algum ator — antes de ele se adequar ao estilo de vida Hollywoodiano — que trabalhe na obra, de forma que se diferenciaria, aí, a ficção completa — ainda que passada em local real e com personalidades históricas — de um relato que, embora não completamente real, traz em sua experiência um tanto de memórias verdadeiras. Em outras palavras, muitas vezes não há diferença entre uma história que se passa em uma batalha de trincheiras da 1ª Guerra Mundial e outra a respeito de um conflito entre espaçonaves em alguma galáxia distante, no sentido de que se tratam de meras representações de como o roteirista imaginaria serem essas situações. A mesma observação permite liberdades similares para o roteirista de um filme de ficção,

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que lance um olhar para o futuro, e o de um filme sobre situações que, embora possivelmente reais, fogem do cotidiano do ser humano médio. Para espectadores leigos, a recepção seria praticamente a mesma para qualquer dos casos. Normalmente, afinal, assim como quase ninguém — ou, ao menos, quase nenhum espectador de cinema — conhece as realidades mais extremas em que vive o homem, ninguém conhece exatamente o que nos reserva o futuro. Daí depreende-se o espanto ao descobrir-se que um mesmo grupo de pessoas conhece ambas as coisas.

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Terceiro Ato (Gauche)

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1º Movimento – Sonhos e pesadelos Marc estava sentado sobre uma caixa de papelão, com a mente dispersa e os olhos alheios a tudo o que se passava a sua volta. Tratava-se de uma espécie de técnica autodefensiva, já que se continuasse a enxergar as ações do pai, não demoraria muito a ficar louco. Mais louco, de qualquer forma, pois, se Marc nunca fora o exemplo de um menino padrão de sua idade, certamente os acontecimentos recentes haviam contribuído para que pequenos distúrbios tomassem proporções gigantescas. E, se Marc não estivesse alheio ao que ocorria a sua volta, essas proporções se ampliariam ainda mais, porque Marco agora se ocupava em colocar as últimas caixas no carro, encomendar serviços pelo telefone e gritar com Linda, que gritava de volta, sem que o conteúdo dos gritos fosse realmente relevante. A mãe, além de berrar, organizava fogos de artifício em sacolas de super mercado, e cantava alegremente. O garoto, resignado, observava a tudo, sentindo-se impotente e desejando apenas que aquilo fosse um sonho ruim. Por outro lado, reconhecia que nunca vira o casal tão animado. O pai sempre fora abatido, e essa era a primeira vez que Marc o via dedicando-se com tanto empenho a uma causa qualquer. E a mãe sempre lhe parecera um pouco louca, mas agora... Bem, era uma louca, ainda, mas agora com um objetivo. Os devaneios do garoto tiveram que ser interrompidos quando ele precisou se levantar para que o pai carregasse a caixa em que estava sentado até o carro. Depois, os pais entraram no veículo, e chamaram pelo filho, que foi, contra a vontade. Não queria ir, mas não sabia o que mais poderia fazer, então acabou obedecendo, já que era o que costumava fazer em qualquer situação. Ele entrou no banco de trás da caminhonete, fechou a porta displicentemente e ficou observando o mundo pela janela. As pessoas, um cachorro, uma família passeando — por que Marc não podia ter uma família mais...normal, também? — e então as pessoas começaram a rarear, e Marc

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observava a estrada, uma plantação distante, um grande descampado, e então, ao longe, uma imagem foi se formando e o pânico começou a crescer dentro do garoto. Ainda distante, mas cada vez mais nítida, estava a figura de uma espécie de palco de madeira, rodeado por gente. Ninguém mais deve duvidar que um mesmo estímulo, quando captado por pessoas diferentes, ou quando visto por perspectivas diferentes, pode gerar as mais variadas interpretações. O senso-comum evidencia isso, mas ainda que não o fizesse, poderíamos apelar para Machado de Assis, quando ressalta a diferença da beleza de um cabo de um chicote quando observado por quem o segura e por quem recebe as chibatadas. E, realmente, Marco se animou como nunca antes Marc tinha o visto se animando; quase dava para ver uma onda de satisfação e ânimo lhe subindo pelo corpo, deixando-o em estado de quase êxtase.Então, nesse momento, o homem tinha plena certeza de que cumprira a função para a qual fora enviado a esse mundo — e ignorava, como costumam ignorar as pessoas, a possibilidade de que simplesmente não exista tal função. Inconscientemente, suas mãos pressionavam com maior intensidade o guidão do carro, e seus pés davam maior velocidade ao veículo, como se já não pudesse mais agüentar um segundo que fosse distante do local a que se dirigiam, como se estivesse a se afogar no fundo de uma piscina, e nadasse desesperadamente para a superfície, que, no caso dessa metáfora, seria o tal palanque cercado de gente. Marc, por outro lado, sentiu o suor escorrer, gelando-lhe as costas. As mãos começaram a tremer, enquanto tentava secar o rosto com elas. Estando sentado no banco, não pôde perceber, mas caso estivesse de pé, notaria que as pernas perdiam as forças, e tremeriam caso tivessem que sustentar o peso do corpo. Peso maior, porém, sentia sobre os ombros, devido à preocupação crescente. Porque ele sabia que o momento de ele tomar um partido se aproximava rapidamente (e cada vez mais rápido, já que o pai continuava acelerando), e, ao que tudo indicava, a decisão seria

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muito mais difícil e muito mais importante do que Marc cogitara, mesmo em suas suposições mais pessimistas. Porque quando foi descrita a existência de gente ao redor do palco de madeira, ainda que não se tenha faltado com a verdade, certamente não foi feita uma descrição que fizesse jus à cena, sendo o eufemismo justificado somente pelo desejo de que se criasse um certo suspense na narrativa. Em verdade, ao redor do palco, dezenas de milhares de pessoas gritavam, cantavam, pulavam e, Marc sabia, esperavam por ele.

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2º Movimento – Woodstock às avessas Marc quis voltar para casa, chorar, pedir socorro à mãe ou ao pai, mas acabou não fazendo nada disso. De certa forma, foi bom que não fizesse, já que não ajudaria em nada. Sabia que não havia como retornar; que por mais lágrimas que derramasse, as pessoas em frente ao palco não desapareceriam e, mais ainda, sabia que os pais, não bastando serem incapazes de resolver o problema, teriam enorme satisfação em tornar tudo ainda pior. Uma parte especialmente teimosa do garoto repetia baixinho “você também quer pedir socorro a Lella, não quer?”, mas outra, perdida nas profundezas abissais do subconsciente, palpitava que talvez fosse Sara a pessoa que ele buscava. Sara. Certamente, ele gostaria de tê-la por perto, agora, embora soubesse que ela não poderia fazer nada. E, em verdade, sabia até que ela sequer falaria qualquer coisa, mas é isso o que torna tudo tão interessante. Quanto conforto pode ser encontrado em um silêncio, desde que seja um silêncio cúmplice e sensato! Quanto conforto a mais que em uma fala insana e perigosa! E era assim, em meio a dúvidas quanto a como agir e quanto a como pensar, que Marc estava quando o carro parou e Marco desceu o mais rápido que pôde, correndo para o palco. Linda também desceu e começou a apressar o filho, arrancando-o do automóvel e empurrando-o em direção aos fundos do alambrado. A essa altura, Marc já podia ouvir a voz do pai falando ao microfone, em meio aos urros da multidão, mas, embora percebesse que uma banda que vinha tocando fizera uma pausa no show, o garoto não prestou muita atenção ao discurso de Marco. Isso significa que ignorou falas como “querem assassinar crianças e torná-las, também, assassinas”, ou “faço isso, sim, por meu filho, mas faço-o também por cada filho de cada pai desse mundo”, pois estava muito ocupado em tomar uma decisão — o que, de fato, era algo em que Marc nunca fora particularmente bom, preferindo deixar que as ondas da vida o

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arrastassem. Infelizmente para ele, parecia que a correnteza tinha sido forte demais, e estava na hora de remar de volta para a praia da sanidade, antes que fosse necessário olhar para cima para ver a superfície da água, além, claro, de possuir guelras para respirar. Marc, nesse momento, tocou o pescoço, mas jurou para si mesmo que foi coincidência. —Bem, eu ainda não estou louco — pensou —, apesar de tudo isso, o que é um ótimo sinal. Talvez ainda tenha fôlego para nadar, e se me esforçar o suficiente, talvez algum salva-vidas me socorra —concluiu, aproveitando a metáfora. Depois, lembrou-se de Sara, que, de fato, parecia ter os coletes e bóias necessários para resgatá-lo. Um lado ainda mais obscuro não pôde deixar de notar que uma respiração boca a boca não lhe faria nenhum mal, mas Marc afastou o pensamento. Agora, a banda voltara a tocar, e Linda estava soltando fogos de artifício aleatoriamente, atrapalhando profundamente a performance, mas sem parecer se importar (ou notar), de forma que Marco apareceu atrás do palco, animado. Sorrindo como nunca — ou, ao menos, como não sorria havia muitos anos — levou o filho para um local de onde a multidão podia ser vista, o que fez o garoto engolir em seco. —Vê? Essas pessoas estão aqui por você! Pela paz! —Pai, você não acha que isso é... —Elas estão aqui porque acreditam que algo pode e deve ser mudado —continuou, sem prestar atenção ao filho. —Elas sabem que é nossa obrigação fazer alguma coisa, e que não podem ficar caladas diante do que ocorre no mundo. E é por isso, filho, que você deve falar, você entende? Você vê o quanto isso é importante? —Importante para você! —gostaria de ter gritado Marc, mas, ao invés disso, disse: — Eu...vou falar? —Claro que vai! Eu até preparei um discurso para você! Vamos, vamos, já é hora de você

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subir... Marco deu uma folha a Marc, com aquilo que o garoto deveria falar, e levou-o para o palco. As pernas do menino fraquejaram, e ele tremia e tremia e encolhia-se mais do que de costume, desejando profundamente que fosse invisível. A cabeça rodava, enquanto ele tentava focar a multidão à sua frente. As mãos suavam, geladas, trêmulas, quase derrubando o papel que segurava. Ele foi posicionado próximo a uma espécie de apoio, onde ajeitou o papel. Então, respirou fundo, tentando se acalmar, evitou olhar para o povo à sua frente, e começou a falar. —A guerra — disse, e sua voz saía fraca, trêmula, estridente — é uma afronta à racionalidade humana, um ato bárbaro, que só pode levar à autodestruição —disse, e, nesse momento, ele fez uma pequena pausa, durante a qual a platéia aplaudiu, provavelmente querendo incentivá-lo O gestou, porém, acabou deixando-o mais nervoso. Ele lia o papel de forma atrapalhada e lenta, sem firmeza alguma. — É uma vergonha que ainda hoje existam guerras, e que gente ainda tenha que morrer por motivos tão mesquinhos. E eu, que nunca briguei ou tive motivos para brigar, fui chamado para uma. Para ir a algum lugar distante, matar gente que eu não conheço, em benefício de alguém que não vai me pagar nada em troca. — Ele pausou novamente, recebendo novos aplausos. É preciso dizer algo a respeito de Marc. Durante toda a vida, ele aceitara as coisas como elas eram, porque era assim que deveria ser. Durante toda a vida fez o que lhe disseram acreditando que as pessoas o deixariam em paz caso ele não se destacasse, mas a estratégia parecia não estar funcionando. Agora era a hora de ele ser corajoso. Dessa vez, ele sabia o que faria a seguir, de forma que fechou os olhos e ignorou o papel, reuniu os trapos de coragem que lhe restavam, e continuou a falar. Marc falou tudo o que pensava e então correu, e continuou correndo até que não podia mais ouvir os murmúrios inconformados e confusos da multidão, e correu ainda mais, até que caiu

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e chorou por horas, tentando, em vão, esquecer a figura do pai. Mas, que poderia ter dito? Havia uma guerra, e não fora ele que a havia começado, nem seria ele que acabaria com ela. Ele jamais acreditara que o país viveria um confronto militar, mas tinha consciência de que, caso isso acontecesse, seria convocado, e não restava alternativa. Havia leis, no final das contas! E pra que serviriam elas, se fossem contestadas sempre que não fossem agradáveis? Talvez houvesse, por fim, algum motivo para a guerra, e talvez fosse melhor lutar do que cantar músicas antigas, vivendo uma utopia que simplesmente não traria nenhum resultado. Para Marco, seria terrível se o discurso de Marc tivesse deixado essas idéias subentendidas, mas ele não deixou. Pelo contrário, o garoto expressou cada uma dessas idéias diretamente, com o máximo de convicção que conseguiu juntar, para horror do público e desespero do pai. E Marc ainda estava chorando, quando um carro parou ao seu lado. Eram os pais, e ele entrou no carro cabisbaixo, com os olhos ainda molhados. Ele não sabia que reação esperar do casal, mas nenhum dos dois disse nada. Pelo retrovisor, Marc ficou a observar as feições do pai, distorcidas em lágrimas, durante toda a viagem de volta para casa. Lá estava o rosto do Marco que ele conhecia, com a mesma expressão vazia de quem já não tem sonhos que carregara nos últimos anos.

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3º Movimento – Explicações Peculiaridades legais sempre são um problema na vida dos cidadãos. Ninguém nunca ouve falar em leis que existem só no seu próprio país, e que asseguram que ninguém vai precisar trabalhar, ou que os parceiros amorosos nunca vão envelhecer e se encher de gordura, rugas e manias irritantes. Por outro lado é bastante comum que ouçam falar em leis que só existem no seu país (“Só aqui! Em nenhum outro canto esquecido do mundo!”) e que acabam por destruir sua vida, ou que, no mínimo, o coloquem como reservista do exército, mesmo quando ser reservista no exército é a última coisa que se quer — ou, melhor dizendo, a penúltima, ficando à frente, claro, de ser membro ativo do corpo militar. Esse era, obviamente, o país de Marc, e ele já se considerava satisfeito pelo mero fato de, devido à maior quantidade de jovens voluntários do que de vagas nas milícias, ele ter sido dispensado, podendo levar uma vida livre e feliz — fosse qual fosse o significado que esses termos podem ter no caso de Marc — com a condição de que estivesse disponível prontamente caso as tropas julgassem sua presença necessária. Parecia claro para o garoto que sua presença nunca fora necessária em parte alguma, e dificilmente viria a ser, de forma que ele já nem se lembrava de seu dever para com a nação e dedicava seus pensamentos a assuntos agradáveis, envolvendo, particularmente, uma garota e um carvalho, quando a notícia de que o país entrava em guerra chegou ao seu conhecimento e a súbita consciência de que as tropas precisariam de mais gente para lutar começou a se formar em sua mente. Segundo ouviu — e as notícias eram obscuras, e ainda mais obscurecidas devido à posição de Marc em relação aos fatos —, o país estava para ser invadido em algum canto longínquo o bastante para que Marc mal pudesse considerá-lo parte da mesma realidade que a em que vivia, por países nitidamente mais ricos, poderosos e dotados de muito maior tradição bélica, por algum motivo econômico qualquer, escondido atrás de alguma desculpa com cunho humanitário,

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democrata, ou coisa do gênero. Ele recebera uma convocação tão luxuosa que seria digna de ser plastificada e colada na parede, ou guardada junto com cartões-postais, caso seu conteúdo não soasse em seus ouvidos como “Olá, vimos seu nome numa lista e achamos que se você morresse, nós não iríamos nos importar, mesmo, de forma que decidimos te convocar para a guerra. Para que isso não parecesse uma coisa tão terrível, decidimos fazer uma carta bonitinha. Esperamos que tenha gostado”. Por alguns instantes, isso parecera a pior coisa que poderia ter-lhe acontecido, mas essa sensação só durou até Marco começar seus planos de mudar o mundo, pois, se Marc nunca quisera lutar pelo seu país, certamente também não queria lutar contra ele. Por isso, ele se recusara a colaborar com os planos do pai, mesmo que estes tivessem tomado proporções muito maiores do que o previsto por qualquer um. De fato, pessoas de diversos países já haviam demonstrado interesse em colaborar com o show pacifista, bandas tinham prometido apresentações gratuitas, doações haviam sido feitas e, como Marc pôde perceber, muita gente tinha se reunido para ver o espetáculo e, no mínimo, colaborar com sua presença. Ainda assim, Marc estava, agora, andando para um quartel, sem muita vontade ou convicção, a bem da verdade, mas inabalável. Se, por um lado, não tinha certeza de que essa era a coisa certa a fazer, sabia que era a única coisa a fazer. Esse tipo de mentalidade pode não ser muito animador, mas pelo menos facilita muitas decisões na vida. Mais que isso: as elimina. Inabalável que era o caminhar de Marc, era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por chegar ao local. No entanto, embora não fosse nenhum fã particular de conceitos matemáticos ou filosóficos, Marc parecia determinado a testar certas teorias a respeito de hipérboles, pois andava cada vez mais devagar, à medida em que se aproximava. Na teoria,

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funciona assim: ao sair de um ponto em direção a outro, primeiro tem-se que chegar à metade entre os dois pontos. Daí até o final, haverá outra metade. Dessa metade até o final, outra e assim por diante até você perceber que está andando de metade em metade sem chegar ao destino. Na prática, porém, Marc chegou. A longa fila que se estendia ao redor da casa cujo número fora indicado na carta demonstrava que Marc não era o único naquela situação, e ele caminhou para o final dela, com um mínimo resquício de satisfação resultante da certeza de que ainda teria um bom tempo antes de efetivamente se apresentar para o exército. Ele poderia até ter pensado que, havendo tantas pessoas lá, talvez ele nem viesse a ser necessário, sendo dispensado uma vez mais do serviço militar, mas esperança não era um dos sentimentos mais recorrentes em Marc. Assim, ele se limitou a sentar sob o sol escaldante, pensando em como uma vida miserável podia se tornar tão mais miserável devido única e exclusivamente a causas externas e absolutamente alheias a ela — mais precisamente, causas que estavam a milhares de quilômetros de distância. Ele ainda se encontrava em tal posição — tanto física quanto mentalmente — quando alguém mais juntou-se à fila, sentando-se atrás dele, e começou a tentar puxar conversa. Marc talvez fosse a última pessoa do mundo com quem alguém deveria puxar conversa, e deve ser fácil perceber que a situação não era nada convidativa. Ainda assim, o estranho se empenhava, fazendo comentários a respeito do calor, ou de alguma garota ou carro que passasse na rua em frente, para os quais Marc não despendia mais de quatro segundos em respostas, e, em dado momento, Marc decidiu que valia a pena, no mínimo, virar-se para olhar a fisionomia do garoto. Foi mais ou menos quando o rapaz — que, como Marc pôde então perceber, parecia uma criança que cresceu demais, sem pelos ou barba, mas bem mais alto que Marc — disse, dando um soco amistoso, mas forte, no braço de Marc:

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—Que merda, não? —O quê? —Marc foi pego de surpresa pelo inesperado exagero na ação do outro. —Como, “o quê”? — Para o outro, aparentemente, a conversa era muito mais natural e corriqueira do que a situação de fato. — Isso tudo! Essa merda de guerra, e essa fila, e pensar que daqui a alguns dias, estaremos metidos até as orelhas em sangue! —Ah, é. A resposta de Marc foi tão decepcionante para o outro que, por um instante, todo o que se o mundo tivesse ombros e nuca e rosto, contraria aquele, eriçaria esses e contorceria este, como se sentisse um arrepio. Mas o estranho logo se recompôs, em uma demonstração bastante impressionante de determinação. Decidiu, então, mudar o rumo da conversa, para que, com alguma sorte, ela chegasse a um nível em que pudesse ser chamada de diálogo sem que algum crítico mais exigente sugerisse que o termo fosse substituído por monólogo. —Bem, qual o seu nome? —Perguntou, como último recurso. —Marc. O outro garoto esperou por alguns segundos pela pergunta “e o seu?”, mas como ela não veio, respondeu sem que viesse. —Eu me chamo Thiago. Sou ator, quer ver? —Pode ser —respondeu Marc, indiferente, somente porque isso parecia mais adequado do que dizer “não”.

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4º Movimento – Dons teatrais, estereótipos e a vida no quartel Thiago se levantou e deu uma boa olhada em volta, como se analisasse sua platéia, ou o que quer que fosse. O resultado não poderia ser pior, visto que todo o público — ou seja lá como ele chamaria as pessoas que estavam na fila no momento, ignorando totalmente qualquer ato teatral — estava nitidamente entediado, e parecia muito mais propenso a atirar pedras em atores que se aventurassem a tentar entretê-los do que flores. Na verdade, parecia mais provável que atirassem uma faca extremamente afiada, caso tivessem uma. Ou uma granada. Ainda assim, o garoto se animou, parecendo ter se convencido de que um público tão desanimado precisaria de algum entretenimento, e ele estaria fazendo um grande favor a todos. Por isso, virou-se bruscamente em direção a um jovem magricela que estava inadvertidamente por perto, e começou a gritar com ele. No exato instante em que todos começaram a virar a cabeça para ver o que se passava, Thiago se jogou de costas no chão, como se tivesse sido atingido por um soco particularmente forte. A interpretação ficou ainda mais realista pelo fato de ele ter caído sobre uma pedra, mordendo a língua, de forma que pôde cuspir um pouco de sangue ao levantar. “Estou com sorte!”, pensou. A essa altura, a atenção de todos na fila estava voltada a ele ou ao desafortunado magricela escolhido para contracenar com ele, de forma que ele ignorou a dor, ficando bastante satisfeito. Então, levantou, xingou a mãe do garoto, disse que ainda acabaria com a raça de toda a sua linhagem e que ia começar sua vingança ao revelar um grande segredo do passado do suposto agressor, e isso fez com que todos destinassem a Thiago ainda mais atenção. Marc se encolheu, tentando não ser visto, mas ninguém o veria de qualquer forma, pois Thiago estava dando um show, e se ele sabia fazer alguma coisa, essa coisa era dar shows.

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—Esse jovem — começou, com o ar mais imponente que conseguiu assumir, o que, é necessário dizer, era um ar mais imponente que a maioria dos ares imponentes que se vê por aí — é filho de um general desse quartel, e está aqui com o intuito de... —prosseguiu, mas nunca chegou a concluir a frase, pois foi agarrado pela gola da camisa por um general do quartel. Se não tivesse ficado tão chocado, teria se sentido no mínimo feliz pelo fato de que sua platéia não apenas estava muito impressionada com seu show, como tinha ainda mais um motivo para acreditar na história, já que o tal garoto realmente era filho de um general. Nada disso teria importância alguma para a narrativa, se, ao ser levado, Thiago não gritasse por ajuda a Marc, que acabaria sendo levado pelo general, também. Mas Thiago gritou. O general, que se chamava Otaviano, parecia, se desculpado o jogo de palavras, um general bastante genérico, trazendo um grande e vistoso bigode, uma barriga proeminente e vestígios do que certamente já foi um corpo musculoso, mas que hoje está mais acostumado a gritar ordens do que a suar a camisa obedecendo-as. Sua voz era grossa e ligeiramente rouca, bastante adequada para ofensas e comandos duros, de forma que não foi nenhuma surpresa quando ele começou a berrar com os dois garotos, ordenando que se endireitassem, encolhessem a barriga e seguissem-no; e também era imponente o bastante para justificar, por si só, a obediência total por parte dos dois, sem qualquer questionamento, de forma que não seria necessário lembrar os fatos de que ele era um general e os dois eram meros recrutas, e que, ainda que a voz do primeiro fosse trêmula e cansada, não seria uma boa idéia desobedecê-la. Foi autoritária e segura, portanto, a voz que despejou no ouvido dos garotos centenas de palavrões, em meio aos quais foi possível distinguir algumas expressões-chave, como “é uma

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vergonha”, “causando caos e desordem” e “noite na prisão”, antes de o oficial gritar para um cabo para que viesse levá-los embora e acrescentar sarcasticamente um “cuide bem desses garotos”. E no que diz respeito a essa última recomendação, não há quem possa culpar o referido cabo de negligência, pois o restante da tarde definitivamente não foi agradável para Marc e Thiago, que tiveram que fazer flexões, passar horas de pé sob o sol forte e limpar chãos encardidos até que brilhassem, entre outros castigos que o leitor espera ver aplicados em quartéis. Foi uma lição bem dada. Ou pelo menos seria, não fosse a latente dificuldade de Thiago em assimilar ensinamentos, que Marc pôde notar logo que chegaram, suados, famintos e fedidos, aos quartos dos recrutas, onde os outros já arrumavam suas coisas em beliches velhos, que rangiam sob o peso das malas e afundavam, parecendo canoas sob o peso da bagagem. Nesse momento, o jovem aspirante a ator decidiu presentear a todos com mais uma apresentação, que contou com uma longa descrição sobre o quanto ele e Marc supostamente teriam apanhado naquela tarde e envolvendo chicotes e instrumentos de tortura (incluindo alguns medievais), humilhação e promessas de tratamento ainda mais severo durante os próximos meses. Os outros recrutas ficarem realmente impressionados com a narrativa, especialmente pela perspectiva de que o tal tratamento severo fosse aplicado a eles nas ocasiões futuras, e mesmo Marc, que sabia a distância entre o que se passara e a história contada pelo companheiro, ficou espantado ao notar que, embora não tivesse passado por agressões físicas, sentia dor na maior parte de seu corpo, inclusive naquelas em que ele não se julgava capaz de sentir qualquer coisa. Ao levantar os braços para erguer a sacola com seus pertences, na tentativa de colocá-la sobre a cama de cima de um beliche, sentiu os membros tremerem, fracos, e concluiu que os próximos dias seriam difíceis. Com o corpo latejante, deitouse, sujo, na cama, após algum esforço para nela subir, e repassou mentalmente os acontecimentos

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do dia. Ele costumava fazer isso inconscientemente todos os dias, mas nunca tivera tanto trabalho para relembrar suas ações quanto nesse dia em que destruíra os sonhos do pai, trocara a proteção da família pela expectativa de uma guerra e partira sem sequer se despedir de Sara. E então nem toda a dor física do mundo poderia se comparar ao que Marc sentia por dentro.

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5º Movimento (aquele que faz a história pegar no tranco e encerra o terceiro ato) – Medidas urgentes O sol decidiu nascer miseravelmente cedo, ou ao menos foi isso que Marc pensou ao ser sacudido da cama por seus companheiros, ao som dos brados do mesmo general que torturara seus ouvidos na tarde anterior. Rapidamente, porém, descobriu que não era do astro a decisão de o privar das horas de descanso, visto que ainda estava completamente escuro do lado de fora do quarto quando eles saíram. Ainda que Marc soubesse que não deveria esperar por grandes mordomias enquanto estivesse no exército, sentia sono suficiente para deduzir que alguma coisa de errado havia acontecido durante a noite, ou a vida de recruta seria muito pior do que ele poderia conceber. Para seu azar, a primeira alternativa estava certa. Quando terminou de vestir o uniforme que lhe haviam dado e saiu para a noite que reinava absoluta no pátio do quartel, o general já se encontrava em meio às explicações sobre o que acontecia. Marc não se incomodou muito em perder o começo do discurso, já que, por um lado, sabia que seria muita inocência esperar tamanha consideração por parte do oficial a ponto de ele esperar até que todos os recrutas — e, em especial, aqueles que haviam causado problemas logo no primeiro dia — saíssem do quarto antes de começar suas explicações e, por outro, sabia que não tinha o menor interesse nos motivos pelos quais acordava cedo, sendo-lhe relevante somente saber que o fizera. Ainda assim, alguma coisa conseguiu das longas e enérgicas explicações ministradas pelo general acabou rompendo seu descaso e chegando a algum nível mais desocupado de sua consciência. Foi o suficiente para preocupá-lo.

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Então, ao final das contas, a guerra começara. E, pior que isso, em dois níveis e em dois locais diferentes. Ao norte, onde as cidades têm território vasto e densidade demográfica baixa, onde as fronteiras se estendem infindavelmente, escondidas entre a mata virgem, chegaram, surpreendentemente cedo, as tropas estrangeiras que pelas previsões e expectativas dos membros de alto cargo do exército, ainda deveriam se manter por um bom tempo em espera. Porém, para piorar, dias antes começara um outro conflito, interno, na cidade em que Marc reside, ao sul do país. O garoto não prestou muita atenção aos detalhes, mas surpreendeu-se ao ouvir que foram indigentes que se rebelaram por qualquer motivo que fosse. O problema era que, quando a rebelião dos mendigos estourou, uma espécie de guerra civil começou na cidade, espalhando-se e assumindo um tamanho quase surreal. Como a polícia não estava conseguindo conter os indigentes, parte do exército foi enviado para lá, o que aumentou a deficiência de tropas para proteger as fronteiras que agora eram atacadas. Por essa razão, outras tropas menos preparadas precisariam ser mobilizadas e enviadas para a região norte o mais rápido possível, na tentativa de evitar uma invasão de maiores proporções. Não é, portanto, difícil imaginar a razão da agitação do general responsável pela tropa de Marc. Ele teria que comandar crianças despreparadas e, em pouquíssimo tempo, deixá-las prontas para viver uma situação de perigo real, uma guerra de verdade contra pessoas de verdade. Claro que, tecnicamente, essa é a razão de existência do exército nacional, mas a bem da verdade, ninguém ali de fato esperava um conflito bélico antes dos últimos acontecimentos. E era por isso que, agora, os treinamentos se iniciavam horas antes do nascer do sol, para terminarem somente ao cair da noite, quando os recrutas, exaustos e famintos, já não agüentariam realizar os mais básicos exercícios.

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Dada a costumeira passividade do país em suas relações internacionais, os custos de se sustentar constantemente um contingente demasiado grande de militares tornaram-se supérfluos, de modo que, passada a fase de preparação inicial, em que se pratica ações básicas, a grande maioria do corpo militar retoma suas atividades habituais, deixando o exército com a ressalva de que, frente a qualquer necessidade, podem ser chamados para retomarem o treinamento. Assim, era bem verdade que ninguém ali — nem mesmo Marc — era totalmente estranho aos procedimentos de manuseio de armas ou aos exercícios intensos. Contudo, o treinamento inicial era extremamente superficial, e jamais deixaria alguém pronto para um conflito verdadeiro, especialmente após o tempo em que estiveram liberados e em que muita coisa fora esquecida. Era por isso, também, que se Marc pensara que a situação já estava ruim o bastante antes, ele estava terrivelmente enganado.

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3º Intervalo – Teatro

O garoto revezava o pé sobre o qual apoiava o peso do corpo e abria, timidamente, a boca, como se estivesse prestes a pronunciar alguma coisa, mas desistisse no último momento. Mas, acima de tudo, ele tremia. Em suas mãos, algumas folhas eram apertadas de tal forma que a tensão parecia se desprender do rapaz e emanar para toda a platéia — que, no caso, era formada apenas por cinco pessoas, sendo duas delas professoras de teatro, dois garotos, presumivelmente amigos do temeroso rapaz sobre o palco, e um homem gordo, com óculos de armação preta, uma boina da mesma cor, uma camisa xadrez e toda a pinta de ser o diretor de uma peça de teatro. E era isso mesmo o que ele era. Era um diretor e, nesse exato momento, repetia mentalmente a seguinte pergunta: — O que diabos eu estou fazendo aqui? Talvez ele tenha esquecido, ou talvez fosse apenas a péssima exibição do garoto que o levasse a questionar, mas, de qualquer forma, ele estava ali para fazer a seleção de atores que participariam de sua nova peça. E era por isso que ele, agora, lançava um olhar crítico (embora não totalmente isento de pena) para o garoto que, finalmente, dava indícios de que começaria sua interpretação. Ou talvez os movimentos mais bruscos fossem apenas novos espasmos, ficava difícil determinar. De qualquer forma, ele agora pronunciava algumas palavras, mas elas saíam tão ofuscadas pelos gaguejos e pelas engolidas em seco que mal podiam ser identificadas como as primeiras palavras do texto da Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente.

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—Grande — pensou o diretor, com pesar. — O garoto mal consegue se manter em pé e ainda decide interpretar sozinho uma peça enorme que nem sequer é um monólogo... Alheios ao desânimo do diretor, contudo, os olhos do jovem candidato se mantinham fixos às folhas de papel que ele segurava, seguindo a página de lado a lado, da esquerda para a direita, e de novo, e de novo. Eram olhos arregalados, vidrados, que se moviam rapidamente e quase não piscavam.

“...Vinha agora pereli
Ó redor da minha vinha, E hum clérigo, mana minha, Pardeos, lançou mão de mi; Não me podia valer Diz que havia de saber S'era eu fêmea, se macho...” De tempos em tempos, quando o garoto, aparentemente, terminava uma página, ele parava de falar e tentava, vencendo a tremedeira que lhe roubava o domínio sobre os membros, passar para a folha seguinte. Nesses intervalos, suas pernas pareciam ainda mais incapazes de assegurar o equilíbrio do corpo, e os olhos, timidamente, se lançavam por um instante ao encontro da platéia, com o cuidado de nunca encontrarem os olhos do diretor.

“...Leixai-me ouvir e folgar,
Que não me hei-de contentar

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De casar com parvoíce. Pode ser maior riqueza Que um homem avisado?...” Com o tempo, ao contrário do que se poderia supor, o desempenho do garoto, ao invés de apresentar as melhorias comuns a quem se acostuma com uma situação, aprendendo a ignorar os elementos causadores do nervosismo e controlando, ainda que parcialmente, os tremores e espasmos, apenas piorou. As pernas fraquejavam, a garganta mal se fazia ouvir e os dedos apertavam o papel com intensidade cada vez maior. Em dado momento, quando o tormento do diretor parecia que não acabaria e até os amigos do suposto ator já tinham ido embora havia tempos, foram reconhecíveis, vagamente, as palavras finais da obra, para alívio de todos e, em particular, do garoto no palco.

“...Pois assi se fazem as cousas.”
Alívio, aliás, surpreendente. O garoto não apenas não tremia mais como demonstrou habilidade ímpar no uso das palavras quando se dirigiu ao diretor, pedindo desculpas pela duração da apresentação. O avaliador se espantou ainda mais quando, ao cumprimentar o jovem, notou que ele, além de apresentar grande firmeza, não possuía as mãos suadas, ou sequer úmidas. —Então, estou contratado? — Perguntou Thiago, entregando para o diretor suas folhas. Todas estavam em branco.

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Quarto Ato (Gosh, gosht, gauche & ghoti)

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1º Movimento – Devoção Gosh pisou com cuidado sobre o lixo espalhado pelo chão, enquanto os mendigos o cercavam, como uma escolta. Mas não era proteção a sensação que desprendia daquelas pessoas. A princípio, o jeito como elas olhavam para Gosh foi muito importante para evitar que ele se apavorasse, pensando que aquilo fosse um sequestro, mas com o tempo, o significado das expressões daquelas pessoas começou a lhe parecer mais complexo. Havia uma verdadeira multidão em torno de uma criança, mas todas aquelas pessoas não pareciam enxergar em Gosh um menino de nove anos, mas sim um ser superior, alguém que merecia ser tratado e encarado de uma forma diferenciada. Eles pareciam ver em Gosh, e era a primeira vez que alguém além do próprio demonstrava isso, a figura de Deus. E era por isso que ao olhar ao redor enquanto era guiado — sempre com gentileza, como se os mendigos apenas o estivessem acompanhando enquanto ele mesmo determinava o caminho por entre aquelas ruas que nunca visitara —, Gosh sentia que era alvo de uma espécie diferente de respeito, embora ele não tivesse em seu vocabulário um termo que definisse razoavelmente aquilo. E, de fato, ainda que conste em nossos dicionários a palavra “devoção”, essa é uma daquelas coisas que existem, e todos sabem que existem, mas que não podem ser completamente expressadas pelas pessoas de forma verbal. A única forma eficaz de expressar devoção é sendo verdadeiramente devoto de alguma coisa — e mesmo isso é difícil de se observar. Em geral, toda aparente devoção é maculada por interesses próprios. Claro que não há nada de errado em ser devoto a algo por esse algo ser absolutamente essencial à sua sobrevivência. Mas a devoção implica em um reconhecimento da importância do objeto de seu sentimento, e de uma verdadeira entrega. Os mendigos podiam esperar de Deus a solução para seus problemas, mas esse não era o motivo da idolatria. O fato de

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serem devotos é que justificava tais esperanças. A devoção implica em se estar sempre pronto para colocar a pessoa ou a coisa acima de qualquer interesse, sem qualquer hesitação, e isso é algo muito raro de acontecer. Mas a devoção que aquelas pessoas demonstravam por Gosh era concreta, quase sólida. Eles nunca haviam visto o garoto antes, mas pareciam ter certeza de que ele era divino. Além disso, embora Gosh ainda não soubesse muito bem quais eram as intenções de toda aquela gente, era fácil perceber que depositavam nele grandes esperanças. Seria terrivelmente fácil desapontar pessoas com tamanha ambição, mas Gosh não temia nada, porque sabia que desde que entrara naquela misteriosa caverna ele era Deus e jamais decepcionaria gente como aquela. Especialmente porque aquela gente o enchia de coragem e determinação, espantando de vez as dúvidas que ainda restavam em sua cabeça. Quando o chão tremeu no aeroporto, ele teve certeza de sua divindade, mesmo depois de descobrir que o chão tremeu por causa da invasão dos mendigos. Mas agora, pela primeira vez, além de ele ter certeza, ele conhecia mais gente que também tinha. O terreno, a princípio, era plano, mas, aos poucos, começou a apresentar uma certa elevação, cujo ângulo aumentava gradativamente. Gosh continuou andando normalmente, mas o caminho era difícil, repleto de pedras e barrancos escorregadios, nos quais a erosão havia feito seu trabalho de forma particularmente eficiente, e, em um dado momento, foi necessário que o menino se escorasse no chão para poder prosseguir. Ao fazê-lo, foi surpreendido pelos mendigos que, notando a dificuldade do garoto, tomaram-lhe nos braços e ergueram-no sobre os ombros de um indigente. Gosh ficou um pouco envergonhado por não poder subir sozinho, mas estar assim, nos

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ombros de um fiel, parecia adequado a Deus. A caminhada continuou ainda por algum tempo, sempre subindo, assumindo caminhos ora estreitos entre casas decadentes, ora amplos em meio ao mato alto, até que Gosh já podia divisar vários quilômetros de cidade no horizonte. Depois, porém, seus olhos começaram a confundir prédios acinzentados com as nuvens imundas que rodeiam todos os grandes centros urbanos. Não havia, no entanto, nenhuma limitação à sua visão além da sua própria capacidade de enxergar, pois nenhuma parte do terreno próximo se erguia até a altura em que ele agora se encontrava. E foi quando ele chegou ao ponto mais alto deste morro que os indigentes colocaramno no chão e indicaram uma cadeira para que sentasse. Era uma cadeira velha, meio quebrada, e Gosh se perguntou o que ela fazia num lugar como aquele, mas parecia forte o bastante para segurar o peso de uma criança, de forma que ele sentou e observou as pessoas ao seu redor. E elas olhavam para ele com um olhar apreensivo, como se esperassem alguma coisa dele. E, embora nenhuma palavra a esse respeito lhe tivesse sido proferida, ele sentia em seu interior que sabia o que era que eles esperavam. Porque não era necessário ser Deus para saber qual era a única esperança de gente como aquela, que chafurdava no lixo atrás de comida e encontrava nos trapos uma alternativa para as roupas. Gosh sabia do que elas precisavam, e sabia qual era a única coisa que poderia tirá-las daquela situação. Um milagre.

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2º Movimento – Outras terras O avião voava a uma altura intermediária, baixa o bastante para que seus passageiros pudessem ver as terras abaixo, mas alta o suficiente para que as casas, rios, estradas e demais objetos que preenchiam essas terras fossem vistos como miniaturas de brinquedo largados por alguma criança. As pessoas no avião, àquela altura, podiam, também, pensar levianamente que esta criança que as deixara jogadas por aqueles campos era, na verdade, Deus. Essas pessoas, obviamente, divertiam-se com o pensamento, e ignoravam que em outro canto, um menino havia, de fato, assumido a posição de deidade. De qualquer forma, se soubessem, seus pensamentos não seriam muito diferentes, já que haviam aprendido com o tempo a ignorar as brincadeiras das crianças da mesma forma que ignoravam certas camadas da sociedade. Ambos enganos perigosos, como se sabe, mas compreensíveis. Outra coisa que aqueles passageiros ignoravam era que o avião voava baixo o suficiente, também, para que os passageiros de um ônibus, rodando como um carrinho de controle remoto pelas estradas distantes visíveis pela janela, pudessem observá-los com inveja. E Marc era um dos passageiros desse ônibus. E estava um calor dos infernos, e o ônibus era velho, apertado e chacoalhava muito mais do que parecia necessário, a julgar pelo estado relativamente conservado da estrada. Na verdade, a impressão que se tinha era a de que o motorista, ao avistar um buraco, fazia tudo o que era possível para cair nele, e para cair nele da forma que fizesse a maior quantidade possível de passageiros bater a cabeça na janela. Havia mosquitos, claro, e, como era de se esperar em um ônibus com dezenas de garotos

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vestindo uniformes militares a uma temperatura superior à do corpo humano, havia um cheiro bastante desagradável. A maioria tinha sede, alguns, fome e outros tinham necessidades biológicas que em nada contribuíam para o odor do veículo. Uns poucos felizardos conseguiam dormir, outros riam em jogos de baralho repletos de trapaças, fazendo amizades que, a despeito de novas, pareciam bastante sinceras. E um deles, quieto em um canto, olhava pela janela para a paisagem vazia, fitando o avião que se afastava. Esse, não é difícil imaginar, era Marc, e ele estava pensando em muitas coisas, e em nada, ao mesmo tempo, o que era curioso. Ele via aquele avião e era compreensível que sua mente pensasse em liberdade, mas algo nele continuava a lembrar que mesmo o vôo dos aviões seguia orientações bastante rígidas, em rotas milimetricamente calculadas e controladas. E se um avião, capaz de percorrer os céus, desfrutava apenas de uma liberdade aparente, o que dizer de um garoto que, mais do que estar preso ao chão, se encontrava trancado em um ônibus militar velho e sacolejante? Seu pai... O que ele esperava? Mudar o mundo? Ridículo! Tão ridículo quanto... E então ele olhou para o corredor, e para a outra pessoa que se destacava entre as demais, não seguindo nenhum padrão aparente. Havia duas pessoas assim no ônibus, e, se uma era Marc, isolado em seus pensamentos, a outra parecia seguir um rumo totalmente contrário. Era um garoto que, se equilibrando em pé no corredor, caindo, às vezes, conforme os buracos se demonstravam mais acentuados, imitava a voz de um locutor de rádio, fazendo piadas e chamando participantes para suas pegadinhas. Com uma voz que a maioria dos outros garotos concordou ser hilária, arrastando algumas letras e encurtando outras, chamou Marc para a brincadeira, mas este não demonstrou muito ânimo e acabou sendo deixado em paz, após alguma insistência.

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Thiago, que estava muito ocupado entrevistando os jogadores de truco, não viu o sorriso esboçado por Marc ao virar de volta para a janela. E foi assim que, pela janela, Marc viu as plantas rarearem e uma tonalidade amarelada dominar a paisagem. A noite caíra e o sol retornara, acordando os garotos cujo sono venceu os solavancos do ônibus e iluminando um cenário seco e pobre que seguia até onde os olhos podiam ver. Aqui e ali, havia algumas casas de paredes de barro cheias de rachaduras, telhados simples, feitos de telhas improvisadas ou palha, janelas irregulares e sem vidros e portas de madeira quebradiça, quase sempre abertas. Não se via muros ou cercas, mas também não havia criações de gado ou plantações. Olhando pela janela, Marc observava um povo miserável, que, em retribuição, olhava despreocupadamente o ônibus que cruzava as estradas de terra, como se o passar do tempo fosse algo questionável. O vento soprava em um ritmo diferente, assim como as folhas, secas e escassas, das árvores caiam sem muita pressa. Marc focou sua atenção em um desses detalhes bucólicos do cenário e, por um instante, uma sensação agradável o invadiu e ele fechou seus olhos. Naquele momento, Marc mal podia sentir o ônibus parando, ou a voz do general que, aos gritos, indicava que a calma não duraria muito.

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3º Movimento – Aqueles que buscam um Salvador

“Então, é isso. Cálculos e mais cálculos, até chegar em qualquer coisa imaginável.
Mesmo as questões genéticas podem ser calculadas com alguma aproximação. Se você analisar toda a árvore genealógica da pessoa — e nós quase podemos fazer isso — dá pra ter uma noção boa dos genes que ele pode ter ou não. É tudo uma questão de ir deduzindo a partir dos elementos que nós temos. Pode parecer impossível prever, por exemplo, a reação de uma pessoa a algum fato, mas na verdade, é até bem simples. A soma das influências, dos genes e das experiências do indivíduo — e nós conseguimos calcular quase todos eles — resulta em sua personalidade, e a soma dos fatores que atuam sobre ele num determinado momento resulta em seu estado de espírito, seu humor etc. Aí, é só jogar tudo isso e dá pra prever com uma probabilidade bem grande de acerto qual vai ser a próxima decisão que a pessoa vai tomar. E, na verdade, essa é a parte mais importante do que a gente faz. É a parte que tem que ser feita com o maior cuidado, pois só assim a gente consegue prever para onde o mundo vai andar. Foi assim, por exemplo, que a gente previu que Você estava por vir.”

“E essa é a base de toda ciência. Antigamente, as pessoas achavam que chovia porque
chovia, e pronto. A hora que uma chuva começava ou terminava, a época do ano em que chovia mais ou menos, tudo parecia aleatório e natural. Depois, a ciência mostrou que não, que havia um motivo por trás das chuvas: uma série de fatores (dentre os quais as correntes de ar, a evaporação das águas etc) que, unidos, resultavam na chuva em uma determinada época do ano, em uma data e um horário precisos.

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E isso vale para tudo no universo. Por exemplo, jogue uma moeda. Ela pode cair em ‘cara’, ‘coroa’, ou ainda pode ser que caia de pé, ou que nem caia. Mas alguns elementos — a gravidade, o equilíbrio — permitem, de cara, que você exclua algumas dessas possibilidades. Mas e as outras duas? Será que é somente a sorte quem define se a moeda vai cair em cara ou coroa? Na verdade, não. Pense na força que você aplicou na moeda. Ela implicará em quantos giros a moeda haverá de dar, certo? E há ainda alguma possível umidade em seu dedo, um leve vento, o deslocamento de ar causado por algum pássaro, a temperatura do dia — que influi, inclusive, no tamanho da moeda, por todas aquelas questões de dilatação... Algo que você ainda não deve entender —, entre uma infinidade de outros fatores.” —Puxa — interrompeu Gosh, que ouvia atentamente o discurso da Velha, apesar de não entender muito bem algumas coisas. — Vocês parecem saber muita coisa! —Mas não o bastante — respondeu a mulher. Seus lábios se moviam de forma lenta e secular, como ruínas antigas se desfazendo ou um imenso bloco de gelo desmoronando de um iceberg sem muita pressa. — Existem alguns detalhes mínimos que nós não vemos, algumas sutilezas que não podemos calcular. Sabendo a cor dos olhos de dez gerações de uma família, é fácil prever quais genes poderão ser enviados pelos espermatozóides de um pai, e quais poderão ser enviados pela mãe, mas ainda assim, não dá pra ter certeza do resultado antes que o filho nasça. Restam duas possibilidades que não temos como analisar. Claro que nós atualizamos nossos cálculos sempre que alguma coisa nova é descoberta. Após o nascimento, outros indícios poderão nos levar a crer que o olho do filho é castanho, ou azul, e a partir desse momento, nós podemos refazer os cálculos alterando o que for necessário. Com isso, a gente conseguiu saber tudo o que sabe, mas não é o suficiente. Para um ser humano, é impossível perceber tudo o que o cerca. Cada

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átomo, cada reação química e cada fênomeno precisariam ser computados. Mas para saber tudo isso, seria necessário alguém onisciente. Algum... Ela parou por um tempo, como que para pensar. Sua pele retorceu-se mais do que pareceria ser humanamente possível, e seu olhar se perdeu por um instante, vago e opaco. Gosh pareceu hesitar por um instante, uma fração de segundos, que seja, mas foi o suficiente para sentir que a Velha parecia querer que o complemento da frase não saísse de seus lábios secos e torcidos, em sua voz rouca e antiga, mas sim da boca jovem do garoto que encarava. Por isso, atendendo ao pedido silencioso da mulher, Gosh concluiu a sentença: —...Deus. Gosh continuava naquela cadeira velha, solitária no topo do morro, de forma que a imagem formada por ele, no patamar mais elevado da cidade, e os indigentes que, às centenas, o rodeavam alguns metros abaixo, era quase majestosa. A menos que você levasse em conta aspectos como a precariedade do “trono”, os trapos que vestiam os “súditos”, o lixo espalhado ao redor e o cheiro do ambiente, de um modo geral, é claro. De resto, contudo, um retrato tirado do ângulo mais apropriado teria um certo ar de glória difícil de descrever. Acima dos outros indigentes, mas abaixo de Gosh, sentada de forma tão rígida que parecia estar lá desde eras remotas, a Velha olhava Gosh com interesse, ou pelo menos o garoto achava que sim. Ela também pareceu ficar satisfeita com o fim que o pequeno Deus dera à sua frase, embora os músculos de sua face enrugada parecessem incapazes de realizar qualquer movimento que assim indicasse. Mas algo nela emanava satisfação, e Gosh se sentiu mais confiante por isso. Ele não sabia por que motivo obscuro os mendigos estariam interessados em calcular com

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tamanha precisão o futuro da humanidade — já que a humanidade em si não parecia muito interessada no futuro dos miseráveis —, nem se sentia realmente capaz de ajudá-los, mas isso não o preocupava, porque ele havia, finalmente, encontrado um lugar em que as pessoas pareciam ver nele alguém necessário e importante. Ele sabia que não poderia decepcioná-los, porque estava, finalmente, diante de gente que não desconsiderava sua opinião por causa de sua idade. Finalmente, alguém acreditava nele. E era só isso o que importava.

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4º Movimento – Calmaria Tudo parecia preocupantemente seco. Marc pisava no chão trincado e via levantar uma poeira de cheiro forte, que já fazia alguns garotos tossir. O ar era seco e ressecava a garganta, e não havia nuvem no céu ou árvore na terra que pudessem proteger os recrutas do sol escaldante. O calor parecia até distorcer o cenário, criando ondulações no horizonte. Marc não sabia se as distorções se deviam a eventuais vapores liberados do chão ou se era sua cabeça que começava a ser afetada pela ensolação, mas tinha uma preocupante certeza de que não havia, no chão, água de onde desprenderem-se vapores. Por via das dúvidas, desviou a atenção para algo menos desagradável, e esse algo era a cidade, ou a aldeia, ou como quer que se chamasse o conjunto daquelas pequenas casas. Eram casas feitas de barro, todas iguais àquela primeira que Marc avistara do ônibus, e estavam espalhadas aleatoriamente pelo terreno. Havia algumas cabras magras e galinhas, todas soltas, e havia crianças, também, embora fossem poucas e magras. Pareciam felizes, porém, dessa forma que somente aqueles que realmente não têm nada sabem ser, e corriam entre as galinhas, gritando e se escondendo atrás de caixotes de madeira, bebedouros secos (que deveriam servir, em tempos mais felizes, para matar a sede dos animais) ou das paredes das casas. Eram crianças pequenas, fracas e desnutridas, frágeis, mesmo, mas Marc podia sentir que não havia nelas qualquer ressentimento pela situação em que se encontravam. Era um pensamento curioso, esse, mas Marc o afastou após breve reflexão, pois os brados do sargento ordenavam que os recrutas dedicassem ao oficial toda a sua atenção. Os brados obtiveram, também, como um efeito colateral, a atenção das crianças e de alguns homens locais, que desviavam disfarçadamente os olhos dos instrumentos de trabalho. Em algumas janelas, mulheres se debruçaram, olhando

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alternativamente para os serviços em andamento nas cozinhas e para o exército. E o grupo militar era bastante pequeno, contando apenas com dezessete garotos, o que fez Marc imaginar o tipo de batalha que viria a enfrentar. Suas dúvidas, contudo, logo foram sanadas pela voz agressiva do general, que expunha de forma coerentemente belicosa a situação de guerra em que se encontravam. —Isso não é nenhuma brincadeira — bradava quando Marc conseguiu tirar de sua cabeça seus outros pensamentos —, e se alguém pensa que veio aqui para virar algum maldito herói, é melhor se preparar para grandes decepções, seus pequenos amontoados de bosta. Nós não tivemos tempo para treiná-los, tivemos? Não, e agora eu tenho pena de vocês, porque o que vocês vão enfrentar é algo grande e quem estiver na linha de frente vai ver de perto a cara dos filhos da puta dos inimigos, e vão ver o sangue nos olhos deles e é melhor que haja sangue nos seus olhos, também, porque eu não quero nem imaginar o que vai acontecer se não tiver. Aquelas não foram as primeiras palavras rudes ditas pelo general, mas traziam em seu tom um senso de urgência que não poderia não ser reconhecido, e a despeito do ar raivoso, o general transpirava uma pena tão sincera por aqueles garotos que Marc não pôde evitar que um arrepio lhe subisse pelas costas, causando um estremecimento involuntário que não fugiu aos olhos do general. O oficial, porém, apenas fechou os olhos por alguns instantes, e prosseguiu como se nada tivesse acontecido. —Vocês são um bando ridículo de pirralhos mimados — continuou —, e aposto que a maioria de vocês só está aqui por causa do maldito recrutamento obrigatório, mas é melhor cada um de vocês agradecerem até o último pêlo desses seus cus imundos por essa obrigatoriedade, porque graças a ela nós vamos nos encontrar com outras centenas de garotos mimados como vocês, e embora eu continue a ter pena de suas existências curtas e medíocres, isso pelo menos

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significa que vocês têm uma mínima chance de sobreviver. Marc, já incomodado com o discurso e a posição de sentido que precisava manter, procurou, movimentando o mínimo possível seus olhos, localizar Thiago em meio aos garotos, e encontrou-o no meio do grupo. Estava bastante sério, impassível diante das palavras de Otaviano, e Marc refletiu sobre a forma como até mesmo o despreocupado e quase louco ator havia tomado uma postura militar diante da perspectiva palpável de guerra. Mesmo Marc, que julgava ser incapaz de se submeter à vida rigorosa e exigente do exército — apesar da indiscutível tendência a seguir ordens sem contestá-las — estava, já, se habituando àquela vida. Chegava a ser assustador. No resto do dia, porém, os recrutas foram dispensados, e foram autorizados a divertir-se da melhor forma que conseguissem naquelas terras secas e miseráveis. Marc se debruçou em uma cerca de madeira, após checar se a tábua não se soltaria com seu peso, mas, apesar da aparência velha, o cercado foi capaz de segurá-lo. Ele havia feito mais coisas nos últimos dias do que no resto de sua vida, então achou que seria bom aproveitar o tempo livre para descansar um pouco, no máximo observando as ações dos outros garotos. Estes, por sua vez, logo foram procurar algum lugar para matar a sede, uma sombra sob a qual cochilar ou garotas com quem conversar. Thiago, no entanto, não estava entre esses jovens. Marc logo imaginou que deveria estar representando qualquer coisa, mas para isso o jovem artista costumava juntar um público razoável, e não havia nenhuma aglomeração perceptível pelas redondezas. Marc não queria admitir que se importava, mas a verdade era que o jeito brincalhão e despreocupado do ator haviam cativado o menino de uma maneira muito maior do que ele gostaria de deixar transparecer, e agora essa afeição havia prevalecido sobre a vontade de se manter impassível, de forma que Marc levantou-

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se, ouvindo o ranger da cerca e limpando um pouco da sujeira da madeira que ficara em seus braços. Depois, saiu para procurar o “amigo”.

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5º Movimento – Calmaria 2 (ou Uma Atuação Especial) Marc caminhou por algum tempo entre as casas, procurando distraidamente, observando aqui e ali alguns fenômenos mais interessantes da vida da região, como uma mulher gritando com seu marido, um grupo de homens correndo, de faca na mão, atrás de uma cabra ou uma pequena aranha que, despreocupadamente, construía uma teia de beleza hipnótica. Em pouco tempo de caminhada, ele havia deixado a região ocupada pelas casas, e se encontrava em um espaço amplo, quase sem vegetação, de onde foi fácil localizar um pequeno aglomerado. Alguns metros além do ponto em que Marc se encontrava, havia uma pequena quantidade de árvores, todas pequenas e retorcidas, exceto uma, que ficava aproximadamente no meio da pequena vegetação, e sob a qual havia uma espécie de encontro. Eram crianças que se juntavam, pulando em franca felicidade, sob a sombra das folhas que se agitavam com o vento, e Marc se pegou refletindo que aquela árvore contrastava demasiado com a paisagem, pois era uma árvore bastante grande, com uma copa ampla e verdejante, erguendo-se sobre o caule robusto, em forma de arco, inclinando-se e jogando sua sombra sobre o grupo. Era impossível ver o motivo pelo qual as crianças estavam se amontoando naquele ponto, mas Marc não teve nenhuma dúvida quando à razão. Ele tinha plena certeza de que, fosse aquilo o que fosse, Thiago tinha alguma coisa a ver. Não que ele conseguisse enxergar o companheiro de exército, e também não havia nenhum indício que realmente o levasse a acreditar que alguma de suas atuações estava ocorrendo ali, mas Marc tinha uma sensação viva de que Thiago seria alguém capaz de criar um pólo de divertimento mesmo em meio àquela terra seca e miserável. Era um pensamento curioso, mas Marc, que normalmente afastaria qualquer idéia daquele tipo sem dedicar a ela qualquer atenção especial, dessa vez, permitiu que sua imaginação

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continuasse a trilhar aquele caminho, enquanto ele mesmo trilhava o caminho que o separava do grupo. Ele seguia devagar e evitava fazer qualquer barulho, pois, no final das contas, é de Marc que estamos falando, e já era estranho o bastante que ele estivesse saindo de sua redoma de solidão e se dirigindo a um aglomerado humano como aquele. De qualquer forma, contudo, sua preocupação em ficar quieto foi desnecessária, porque assim que se aproximou um pouco, Marc pôde ouvir que a gritaria das crianças abafaria qualquer ruído. Cauteloso, e aproveitando-se de que, vidrados na atração que se desenrolava no meio do grupo, os garotos não haviam notado sua presença, Marc utilizou-se do que sabia devido à sua infância interiorana, subindo em uma das outras árvores e observando, sentado em um de seus galhos, o que se passava. E, com efeito, era Thiago quem se encontrava no meio das crianças, mas, ao contrário do que imaginava nosso protagonista, não havia nenhuma grande atuação se passando. Pelo contrário, o jovem ator estava sentado, de pernas cruzadas, apenas falando. Seus únicos movimentos eram gestos exagerados dos braços, com os quais parecia enfatizar suas palavras. Marc procurou se concentrar para, entre os gritos entusiasmados das crianças, distinguir do que se tratava a reunião. —...uma bela surra, foi o que ganhamos! — dizia Thiago, quando Marc começou a ouvir. — Isso mesmo! Uma surra, depois de termos salvado a vida de todos, ali! Eu contei, não contei? Dos soldados inimigos? Não? Deus! Pois era isso mesmo, naquela hora que eu mencionei, em que estávamos nós dois, eu e aquele amigo que mencionei, debaixo do sol escaldante, naquela grande fila de guerreiros, como que esperando pela hora de morrer por uma bala inimiga, eis que surge um pelotão adversário que ninguém sabia de onde tinha vindo! Nós estávamos despreparados, claro! Quem poderia imaginar aquilo? Deviam ser mil inimigos! Não! Um milhão! Isso mesmo, um milhão de inimigos, e nossos homens cansados, e todo mundo achou que aquilo seria um grande

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massacre! As crianças se empolgavam com a história, e faziam perguntas, mas Thiago apenas sinalizava com a mão, pedindo que esperassem que ele terminasse de contar. E eles, obedientes e entusiasmados, ouviam com atenção, ainda que fosse uma atenção envolta em berros, pulos e simulações de brigas. —Um massacre, sim, mas ninguém, isso mesmo, ninguém contava com o que eu e meu amigo faríamos a seguir! As crianças prenderam o fôlego em ansiedade. — Eis que nós nos esgueiramos (vocês sabem o que é esgueirar? É assim, olha...) por trás de um muro, de onde estávamos escondidos de todos. Então, eu, servindo de distração, pulei sobre o muro e comecei a gritar coisas sobre um general inimigo, enquanto meu amigo, aproveitando-se da distração, bradou sua espada (sim, nós estávamos lutando com espadas! Quem falou em armas de fogo? O que? Ah, não, você não entende mesmo de guerra! Éramos nós e as lâminas vibrantes, ali!) e, sozinho, derrotou toda uma tropa inimiga! Os homens vinham, tentando atacá-lo pelos flancos (é, pelos lados), mas ele gingava a espada para lá e para cá, como um dançarino! Isso mesmo, ele fez uma chuva de sangue, e eu parei de gritar sobre o tal general, me jogando no meio da bagunça! Não dá pra descrever a adrenalina! Mas e não é que, nessa hora, aparece o tal general? Isso mesmo, ele estava lá, o tempo todo, e depois de tudo o que eu falei, era óbvio que eu seria o alvo preferido dele... Mas foi então que... E então a narrativa morreu, junto com a empolgação, pois Otaviano gritava, novamente, reunindo os recrutas. Assim, as crianças, contrariadas, foram para suas casas, enquanto Thiago seguia os demais soldados para junto do general. Somente um garoto demoraria um pouco mais para se juntar aos outros.

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Porque ele estava no topo de uma árvore, rindo sozinho.

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6º Movimento – Tempestade Se o sol quente fora um problema anteriormente, causando em Marc distúrbios preocupantes em seus pensamentos e sentidos, agora sua pele ardia e parecia pegar fogo. Se Otaviano tivesse açoitado sua pele, a ardência não seria tamanha, pensou o garoto, obviamente sem nenhum conhecimento de causa. Suas pernas, que antes moviam-se como que por impulso, seguindo os outros de forma surpreendentemente coordenada com o ritmo imposto pelo general, agora pareciam incapazes de sequer arrastarem-se. Mas aquilo não era, de longe, o que mais preocupava o menino. Ruim, mesmo, era saber que desde que o ônibus quebrara, alguns quilômetros após deixarem a vila, eles vinham marchando sem parar em direção ao ponto em que encontrariam os demais recrutas, sob o calor dos raios solares, sob a promessa de que apenas mais alguns poucos metros os separavam do destino. Mas, desde que a promessa lhes fora feita pela primeira vez, muitos metros já se haviam passado. E, durante todo o percurso, não se viu nenhum sinal de que estivessem mudando de cenário, ou de que haveria água após terem secado os cantis que levavam.

—Ah, mas isso é uma desgraça! — Repetia Thiago, evitando elevar demais o tom de sua
voz. A preocupação era relativamente desnecessária, porém, pois, embora o general soubesse como intimidar, ninguém ali estava satisfeito com a situação, e Otaviano figurava entre aqueles que mais se queixavam do calor. —Sucata filha de uma... — Resmungava o oficial, xingando o ônibus enguiçado. — E essa terra maldita, quente como o inferno! Seca como uma bosta velha, sem uma mísera árvore para fazer sombra!

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O cansaço, contudo, não lhe parecia afetar, como notou Marc, antes de virar-se para ouvir o que dizia, ainda mais baixo, Thiago ao seu lado. —Agora ele diz isso da terra que pisa — sussurrou o ator —, mas anteontem o discurso fora bem diferente. De fato, na referida tarde, após descer da árvore, cuidando para que ninguém notasse seu pequeno ato de espionagem, Marc juntou-se aos demais recrutas a ponto de ouvir o discurso exaltado de Otaviano. O oficial tentava, conforme ditam as regras de comportamento de líderes militares — mesmo, ao que tudo indicava, daqueles que lideravam grupos medíocres de pirralhos inexperientes, conforme descreveria o próprio general — dar aos recrutas alguma motivação para lutar, a empolgação que lhes daria força às pernas e pontaria aos braços. Tentava, também, mas com menor taxa de sucesso, explicar as razões para aquele conflito, que deveria ser travado em solo da própria Pátria, uma terra de tradições pacíficas, ao menos no passado recente. —Vocês lutarão... Nós lutaremos! Lutaremos em nosso solo, e o cobriremos com o sangue desses bastardos, para que eles deixem de sujá-lo com suas botas imundas! Eles vêm e nem querem realmente estar aqui, acham que é só um maldito ponto estratégico, então eles não dão o menor valor ao terreno em que entraram. E é esse o erro deles! Ele parou um pouco, para observar a reação dos recrutas. Todos estavam silenciosos, cansados debaixo do sol quente, mas a iminência de uma batalha de verdade começava a fazer seu efeito. O patriotismo ganha força nesses momentos, e Otaviano sabia que seu discurso ecoaria pela cabeça daqueles jovens durante um combate real, e então aquelas palavras ganhariam um novo sentido. Por isso, continuou: —Eles estão enganados se pensam que vão invadir nossas casas, cuspir em nossas

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famílias, esnobar nossa cultura e destruir nossa honra. Eles estão enganados porque essa terra nos conhece e nos ama e vai nos dar força pra jogá-los pra fora daqui, e podem apostar que é isso o que faremos. Eles sairão daqui escurraçados e irão chorar para suas mães na terra deles! Porque vocês vão pisar neles como baratas imundas! Então eu digo que nós entramos naquele ônibus, viajamos de encontro a esses gringos filhos de uma cadela e acabamos com eles a tempo de assistir à final do campeonato mundial em nossas casas. Alguns jovens aplaudiram essa parte, embora Marc tenha ficado um pouco desorientado. Nunca fora fã de esportes. De qualquer forma, aproveitando a aprovação, Otaviano emendou: —E no Mundial, diga-se de passagem, acabaremos com eles novamente! Novamente, o comentário foi recebido com entusiasmo, e o entusiasmo durou por bastante tempo. Mas, então, o ônibus quebrou, e o sol queimava os jovens e a sensação de patriotismo evaporava com o calor. E era duvidoso que aquele grupo fosse acabar com fosse quem fosse o inimigo. Depois de algum tempo caminhando, o grupo da frente começou a se agitar, e Thiago levantou a cabeça para ver a causa do reboliço. Ao longe, algumas manchas no horizonte pareciam fumaça, o que indicava que, enfim, chegavam a um acampamento. —Parece que estamos chegando, finalmente — disse, e virou para Marc. — Vamos lá, se anima um pouco. Com o calor que tá, a fumaça só pode significar uma coisa: em breve, estaremos comendo um churrasquinho esperto, você vai ver! Marc, porém, não se animou, mesmo com a promessa de comida — que certamente seria bem vinda. De fato, a previsão de Thiago se concretizara, e havia churrasco, mas a carne era dura e passada demais. Ainda levaram algum tempo para chegar, e tiveram que se ajeitar em barracas mal

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armadas antes de poderem comer, então Marc já estava bastante faminto quando sentou-se em um canto afastado, longe da agitação próxima à fogueira, para comer um pedaço indefinido de carne. O sol se punha no horizonte e seus raios projetavam sombras compridas que, contrastando com o dourado da luz sobre a terra seca, formavam um desenho quase hipnótico. —É muita gente, hein? — perguntou Thiago, sentando-se ao lado de Marc com um pouco de comida. — Veio muita gente do centro, também do sul. Bom, claro que lá eles não têm o problema que nós tivemos, então o exército marchou completo. Soube que vão chegar mais moleques da nossa cidade. Parece que estão chamando todo mundo, sem nenhum critério. Um negócio meio desesperado, né? —Parece — respondeu Marc, vago. —Mas pelo menos tem gente aqui que sabe lutar, gente que teve algum treinamento, e coisa do tipo. E tem gente pra caramba, mas eles ainda acham pouco, e isso significa que o inimigo não está assim tão desinteressado nas nossas terras. O que você acha? —Ah... Tanto faz... —Você é engraçado — disse Thiago de forma um tanto enigmática, reclinando-se, depois e deitando na grama após engolir o último pedaço de carne. A lua surgia grande e amarelada no horizonte, e a silhueta de centenas de jovens completava a paisagem. A noite era nova, uma criança, como se costuma dizer, mas o dia já agonizava em suas últimas horas. Nix apenas começa seu reinado, pensou Marc, sem saber por quê, mas o cansaço do exercício praticado durante a soberania de Apolo agora pesava sobre seus corpos doídos. Foram, portanto, para sua barraca, onde deitaram-se em sacos de dormir desconfortáveis para entregarem-se ao sono — a Morfeus, se pretendermos nos reter à mitologia. Deitaram-se, seja como for, ao som dos risos dos companheiros do lado de fora, e do

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canto de gafanhotos notívagos. Naquela noite, Marc ainda pensou sobre os milhares de quilômetros que o separavam de sua casa, onde seu pai provavelmente se entregava novamente à apatia, após ver seus sonhos destruídos pelas palavras do próprio filho. Marco fora humilhado naquele dia que já parecia tão distante, e Marc sabia disso. E além disso, ainda havia o inimigo, mais forte e numeroso, que se preparava para um ataque que ainda parecia um tanto surreal. Surreal. A palavra parecia descrever bem os últimos dias de Marc. O garoto passou a vida toda tentando não se fazer notar, mas agora... O mundo todo parecia esperar tanto dele! Os olhos de Marc estavam úmidos quando ele finalmente adormeceu. E sonhou que estava só, nú e apavorado, em meio à tempestade.

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7º Movimento (aquele que traz alguns acontecimentos estranhos e encerra o quarto ato) – O primeiro milagre De cima da montanha, era possível ver nuvens de cima, o que foi interessante para Gosh por algum tempo. Depois, o silêncio começou a incomodar. Nenhum dos mendigos o estava pressionando a nada, mas ele sabia que esperavam alguma coisa dele, e que, cedo ou tarde, ele precisaria fazer algo. Na verdade, Gosh havia chegado a uma conclusão quanto aos principais problemas daquela gente, mas eles pareciam esperar mais do que água e sabão, e Gosh, ainda que fosse Deus, era, também, uma criança. Não que ele estivesse, novamente, duvidando de sua capacidade, afinal, acabara de se encher de auto-estima. Só que ele enxergava os problemas sociais como uma criança, e não conseguia encontrar soluções que não parecessem infantis demais. Por fim, cansado da espera incômoda, ele levantou de uma maneira que lhe parecia razoavelmente solene. A Velha assentiu tão lentamente que Gosh não teve certeza se ela havia realmente se movido e Pobre Homem e Filho de Deus ergueram-se. Os dois formavam uma espécie de escolta para Gosh, posicionados dos lados do garoto, e viraram-se para ele quando ele falou. —O Senhor não precisa fazer nada... — começou Pobre Homem, mas foi Filho de Deus quem terminou: —...a menos que estaja pronto. O Senhor está? —Ah...Bem, eu acho que... — O Senhor compreende o que queremos de você? Quero dizer, não que esperemos que o Senhor faça qualquer coisa especialmente para nós, ou só porque nós esperamos que faça, mas... O

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Senhor entende, não? Aquilo que precisamos? —Bom, vocês precisam de...milagres? —Isso, de certa forma. Nós sabemos para onde o mundo está indo, e... —...nós precisamos que isso mude. Quero dizer, ele não pode estar certo do jeito que está, pode? Nós conseguimos calcular as variáveis, mas... Só você... Só o Senhor pode alterá-las. Gosh sabia disso, mas ouvir de novo facilitava as coisas. Na verdade — e seu lado criança gostou de saber disso — era como uma brincadeira. Bastava alterar as coisas o suficiente. E se havia um problema urgente (mais do que o da falta de água e sabão), esse problema era a fome. Então, Gosh pensou por mais algum tempo em algo que poderia resolver o problema ao mesmo tempo que criaria impacto o suficiente, até chegar a uma solução que lhe pareceu adequada. Divertida, principalmente, mas também adequada. Era hora de fazer seu milagre. Richièv e sua esposa só conseguiram sair do aeroporto depois de muitas horas. Além do pavor pelo ataque sofrido, haviam perdido o filho, e os seguranças não os deixavam assistir às câmeras de vigilância, o que havia irritado bastante o homem. Clarissa, a esposa, havia se desesperado, como seria de se esperar. Ela gritou com os funcionários, chutou carrinhos com malas, correu pelo aeroporto todo e, mesmo agora, ainda tinha lágrimas nos olhos, mas parecia muito mais calma. Certamente, mais calma que o marido. Depois de muita discussão com os guardas e seguranças do aeroporto, os dois foram orientados a irem para o hotel e aguardar notícias da polícia local. Enquanto esperavam o táxi, o chefe de polícia tentou tranquilizá-los, mas era evidente a insegurança em suas palavras, e mesmo ele parecia a ponto de se desesperar com os acontecimentos recentes.

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—Descansem um pouco, ajeitem suas coisas no hotel. Até o fim da tarde, devemos ter notícias para vocês. Ele fechou a porta do táxi e observou o veículo se afastar com ar sério. Depois, quando os estrangeiros já haviam sumido de vista, virou-se, levou a mão à testa e murmurou: —Ai, Deus, o que é que vai ser, hein? No táxi, Clarissa teve de dar as indicações ao motorista, enquanto o marido xingava a janela e tudo o que por ela passava, sentado no banco da frente. O motorista não ousou tecer nenhum comentário, em uma decisão muito sensata, limitando-se a acelerar o veículo em direção ao hotel. Durante todo o percurso, o casal não conversou, e as únicas palavras proferidas eram as pragas de Richièv, as orientações da mulher quanto ao caminho e uma ou outra eventual pergunta do taxista à guisa de confirmação sobre a direção a tomar. O casal sequer trocou um olhar, e o clima dentro do carro era tão tenso que uma tempestade de relâmpagos poderia ter se formado no interior do automóvel. O vidro ao lado de Richièv embaçava com sua respiração pesada, e ele praguejava ainda mais, o que deixava a mulher nervosa, provocando-lhe recaídas no choro. O taxista já estava bastante nervoso quando chegou ao hotel e ajudou o casal a descarregar as malas. Depois que o motorista já fora embora, levando passageiros novos em sua viagem de volta ao aeroporto, o casal foi cuidar dos procedimentos de chek in, e, embora já não se ouvissem as pragas e já não se visse o choro, o semblante dos dois contrastava com o dos demais turistas lá hospedados, de forma que eles foram acompanhados por olhares curiosos enquanto seguiam para o elevador e, enfim, para o quarto. Lá, o desabafo teve sua chance.

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—Minha culpa, minha maldita culpa! — bradou Richièv, furioso, jogando-se na cama.
Depois, chutou um travesseiro e continuou: — Minha culpa essa viagem desgraçada e essa idéia estúpida, e agora... Gosh, porra! Ele também permitiu que as lágrimas escorressem, e Clarissa, que também beirava um ataque de nervos, parecia que ia, também, jogar a culpa no marido. Afinal, fora idéia dele viajar para as terras de um amigo maluco, e ninguém poderia dizer que ela não o avisara. No entanto, durante o tempo que passaram no aeroporto, ela, mais acostumada aos dramas e às lágrimas, tivera tempo de degustar o desespero e transformá-lo em algo menos irracional. —Não é sua culpa — disse, mantendo a cautela. Ela sabia que não valia a pena jogar mais peso nos ombros do marido, e o melhor seria que os dois se acalmassem como pudessem, para que pudessem procurar o filho. A lembrança do garoto, porém, lançou-lhe as lágrimas sobre a face, de forma que sua tentativa de tranquilizar o esposo perdeu boa parte das perspectivas de sucesso. —Claro que é minha culpa! Ele é meu filho, e eu simplesmente deixei que aqueles mendigos imundos o levassem! Fui eu que trouxe ele para essa merda de país! Eu! —Mas você não podia saber que uma coisa dessas ia acontecer, e você não podia fazer nada contra aquela multidão! —Mas eu podia ter tentado! Eu tinha que ter tentado! O silêncio pairou pelo quarto por alguns segundos. Por um instante, Richièv pensou que havia encontrado um argumento que sua esposa não poderia rebater, mas então ela tomou-lhe entre os braços e falou baixinho, perto de seu ouvido. —Você fez o que você podia — disse —, e ninguém no mundo poderia culpá-lo. Eu não o culpo e Gosh também não. Você viajou por metade do mundo para ajudar um amigo e o filho dele.

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Você tinha uma boa causa. E isso não quer dizer que você tenha descuidado do seu filho. A conversa parecia começar a surtir efeito, então ela concluiu: —Agora, o que você precisa fazer é tomar um banho. Depois, a polícia vai ligar, e então nós poderemos pensar no que fazer. — Está bem — respondeu Richièv no tom de uma criança que acaba de ser repreendida. Então, ele foi, e Clarissa ficou deitada, na cama, chorando. Quando ouviu a água parar, enxugou o rosto rapidamente, e fingiu que ficara olhando a paisagem pela janela durante todo o período. Curiosamente, como ela levantou da cama num pulo para chegar ao parapeito da janela e teve de virar-se rapidamente para encarar o marido que saía do banheiro, ela sequer pôde olhar o que acontecia do lado de fora. Quando o marido olhou pela janela, então, ele surpreendeu-se ao ver o que acontecia, e não pôde conter um grito de espanto. Clarissa virou-se para olhar e também chocou-se com o que via. Sequer passou pela cabeça de qualquer um dos dois que a mulher não poderia ter se assustado com a visão, já que, supostamente, vinha assistindo à cena desde que Richièv estava no banho, pois o absurdo da situação era tamanho que questionamentos como esse pareceriam irrelevantes. —Você também está vendo, não está? —Sim — balbuciou a esposa. —Eu quero dizer, todas essas... —É. —E esses... —Sim. —Mas antes... Eles não estavam... Estavam?

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—Não. —Quero dizer, no táxi... Eles não poderiam estar lá, poderiam? —Dificilmente... —Mas então, como...? —Não me pergunte. —Eu sabia que esse era um país subdesenvolvido... — Continuou Richièv, tentando por em ordem seus pensamentos. —Pois é. —E que boa parte de sua economia dependia da produção rural... —Sim. —Mas isso... Isso é ridículo! — Concluiu, e então ambos viraram-se novamente, para observar o que ocorria nas ruas da cidade, outrora repletas de carros e pedestres que rivalizavam pelo espaço e pela preferência nas travessias. Agora, até onde conseguiam enxergar, em cada esquina, em cada pedaço de rua ou de calçada, havia... Gado...

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4º Intervalo – Biologia Muitos animais, por mais perigosos que sejam, geram nas mais variadas pessoas uma certa simpatia. Os mamíferos, em particular — talvez por serem mais próximos dos sereshumanos, só que sem o inconveniente de poderem ser responsabilizados por seus atos de selvageria —, possuem um séquito tão fanático de seguidores que se uma família pobre do norte de algum país gelado não encontrar forma melhor de se sustentar que matando pequenos filhotes felpudos para arrancar-lhes a pele, é melhor que ela vá se habituando às pedras arremessadas. Outros vertebrados, também privilegiados, talvez, pela proximidade evolutiva, costumam ser admirados em zoológicos, observados pela TV ou guardados como ornamentos, em aquários. Os filos mais afastados, porém, fomentam a antipatia de algumas pessoas, especialmente as do sexo feminino, que se sentem enjoadas pela mera observação de certos platelmintos ou nematelmintos, por exemplo. Em particular, porém, os artrópodes parecem ter se especializado em ser odiados por essas pessoas. O grupo reúne aranhas e escorpiões, baratas e mariposas, centopéias e lacraias. São animais com um potencial enorme para gerar horror nos seres humanos, mas nenhum desses é tão preparado para nos incomodar quanto o pernilongo. Eles sabem como atacar. Entram pela janela aberta, escondem-se nas sombras e lá ficam, aguardando o momento mais adequado para saírem atrás de seu alimento. E eles se alimentam do terror a que submetem suas vítimas. Há um entendimento mais ou menos generalizado de que os pernilongos se alimentam de sangue, mas o sangue que sugam não passa de uma desculpa para nos importunar. É só uma forma

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de fazer com que as pessoas se apavorem frente à presença desse minúsculo inimigo. A picada é apenas uma forma de o pernilongo ser lembrado por um tempo mais longo. E tudo começa no verão, quando está quente demais para o uso de roupas que os mantenham afastados. Começa, também, à noite, quando as pessoas se sentam no sofá e começam a ler um livro à juz do abajour. A luz é o sinal. De repente, uma sombra cambaleante projeta-se na parede. O pavor é imediato. O inseto voa perto da lâmpada, gerando uma sombra monstruosamente grande que dança por um tempo — tempo suficiente para ser notada — e depois desaparece. Quando o leitor interrompido decide averiguar o fato, nada encontra — os pernilongos são mestres em desaparecer. Pode-se seguir um com os olhos atentos até que, cedo ou tarde, ele fatalmente sumirá. Já preocupado, o leitor considera, enfim, que já é hora de ir dormir. É o primeiro erro. É na cama que, com o perdão da brincadeira fácil, começa o pesadelo. Deitado, no escuro, o indivíduo ouve o familiar zunido. Não há nenhuma justificativa evolutiva que explique o zumbido do pernilongo. Quando se leva em conta que é um animal furtivo, que se aproxima sem ser percebido, o barulho parece ser somente um empecilho. Porém, agora que sabemos que o pernilongo se alimenta de pavor, podemos desvendar a verdadeira razão para o famigerado som, um dos mais temidos do universo conhecido. Voltemos ao nosso personagem. Estava ele, dissemos, deitado quando ouviu o som. Tentar acender as luzes para localizar a fera é inútil: o animal desapareceria imediatamente. De qualquer forma, matar um, dois, cem deles também não solucionaria o problema — sempre haverá outro. A solução, portanto, é cobrir o corpo todo com o lençol. O calor atordoará o corpo, mas o

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desconforto da temperatura não se compara ao horror de dormir exposto ao inimigo. De qualquer forma, se a vítima, suada, decidir descobrir-se um tantinho que seja, logo um zunido oportunista far-se-á ouvir, jogando-a novamente para debaixo das cobertas. Aqui, cabe mais um comentário sobre o zumbido dos pernilongos. Ele não é emitido por ondas sonoras, como se poderia supor. Trata-se de uma vibração no espaço-tempo propagando-se através de abalos dimensionais diretamente para dentro da mente da vítima. Agora, por exemplo, nosso personagem, além da coberta, pôs sobre a cabeça dois travesseiros, na tentativa de tampar os ouvidos, mas continua a ouvir os zumbidos. E há muitos outros aspectos da engenhosidade destes insetos que merecem reflexão. Por exemplo, os animais, que surgem nas férias de verão, têm por conveniente habitat justamente as casas de praia e de campo. Apreciam, também, atacar regiões das costas impossíveis de serem coçadas ou voar daquele jeito inconstante que, embora menos eficiente como locomoção, dá às sombras projetadas um ar mais fantasmagórico e hipnótico. Em sua cabana em meio ao exército, rodeado pelos mosquitos, porém, Marc não pensou em nada e limitou-se a se enfiar mais no saco de dormir, tapando os ouvidos com as mãos, inutilmente.

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Quinto Ato (Ghoti, gauche & guache)

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1º Movimento – Um pouco de caos Os mendigos viraram-se para olhar. No alto da montanha, Gosh parecia bastante concentrado no que fazia, e a vista era realmente privilegiada, de forma que o show seria muito bom. Ao menos uma vez na vida, estavam no camarote. Os olhos do menino, que até então estavam fechados, abriram-se e um sorriso formou-se em seus lábios, que antes contorciam-se determinados. —Pronto. Pronto, de fato, e ninguém duvidava disso. A visão era espetacular. De longe, de algum lugar que os olhos não conseguiam enxergar, vinha uma massa negra, que se movia inexorável, tomando cada canto do caminho por onde passava, derrubando postes, quebrando vidros, dominando a paisagem. Quando chegaram mais perto, foi possível ver que se tratavam de vacas, bois, cabras, ovelhas e outros tantos animais, mas a essa altura, os seguidores de Gosh já gritavam e pulavam em êxtase. —Meu Deus do céu! — Gritou alguém, aparentemente sem perceber a brincadeira escondida em suas palavras. Lá, ninguém parecia se importar com o fato de que os animais, ao destruírem as ruas, casas e lojas por onde passavam, causavam um verdadeiro caos na cidade. Bastava observar a realização de um milagre, a prova concreta de que as variáveis com as quais os cálculos sobre a vida eram feitos podiam, sim, ser alteradas. Assim, a vida daquela gente poderia mudar. E havia, claro, a perspectiva de um almoço rico em proteínas. Muitos quilômetros de terra e muitos mais de oceano separavam o morro, onde Gosh encantava os miseráveis, de um país conhecido por características exóticas e divindades

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interessantíssimas. Imagens de alguns de seus deuses espalhavam-se pelo mundo, sevindo, na falta de fé, como ornamentos. Essas divindades possuíam características de diversos animais, como o elefante, o gato ou o tigre. Nenhum animal, porém, era tão sagrado quanto a vaca. Lá, esses animais moviam-se livremente pelas ruas da cidade, e, embora aquele fosse o maior rebanho bovino do planeta, ninguém ousaria matar um boi para tirar-lhe um bom pedaço de alcatra, e tampouco lhes apeteciam a picanha,o T-Bone, o ojo del bife ou qualquer outro corte que fosse. A mera idéia já configuraria ato de heresia. Nesse país, o trânsito pararia quando uma vaca decidisse deitar-se em um cruzamento importante, e ninguém sequer pensaria em buzinar para que o animal se movesse. Seria uma honra esperar pelo descanso da criatura divina que lhes dava o privilégio de sua presença. E lá, também, havia um camponês cuja fazenda, aos pés de um morro próximo ao mar, jamais fora agraciada com a presença de um bezerro, sequer. Vaca alguma passava por ali, e o pequeno lote de terra ficava distante demais de qualquer civilização para que ele e sua mulher levassem o filho, bebê, ainda, para que ele tivesse contato com o animal. E foi sua mulher quem primeiro notou o que se passava. —Querido! Querido — gritou, correndo para dentro da casa. — Você precisa ver isso! O bebê, em seu colo, sacodia, mas ela não dedicou ao choro mais que uns “calma, calma” despreocupados. Havia algo mais importante acontecendo, no momento, e o choro logo haveria de passar. Ah, se haveria! —Querido, elas estão vindo para cá! Às centenas! Na verdade, aos milhares. Um rebanho incalculável marchava na direção daquela fazenda. Era uma forma um tanto inusitada de atender aos pedidos do casal, mas ninguém poderia negar, que eles estavam sendo atendidos. Na verdade, foi o marido quem encontrou a palavra ideal

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para descrever aquilo. —Milagre! É um milagre! E também ele correu, enlouquecido. —Traga o bebê! Ele precisa estar aqui! Ele precisa presenciar esse milagre! De fato, era um milagre, mas ele nem poderia imaginar de onde o milagre vinha. Ele não tinha como saber, é claro, mas sua fazenda ficava em um dos pontos do continente mais próximos das terras em que Gosh era tratado como uma divindade. Tudo o que lhe importava, agora, era a alegria de ver as vacas — as divindades desse pedaço do mundo — vindo como um batalhão para suas terras. Uma pena que a felicidade logo daria lugar ao horror de ver todas aquelas vacas marchando sem hesitar para dentro do oceano. No mundo todo, fenômenos similares eram observados, segundo o jornal transmitido com cenas ao vivo pelo televisor. A idéia de que não era um problema específico daquela cidade poderia ter tranquilizado Richièv e Clarissa, mas a tranquilidade era abalada pelo fato de que todos os animais, independente de onde estivessem, pareciam querer ir justamente para lá. Além disso, o tumulto se somava ao problema maior que os preocupava acima de qualquer outra coisa, e a polícia, ocupada, agora, não apenas com a rebelião dos indigentes, mas também com os animais, não entrara em contato com eles, e o casal já começava a se desesperar. Gosh era só uma criança, por Deus! O que seria dele em meio a tudo aquilo? Deitado na cama do hotel, Richièv desligou a TV, que mostrava cenas de caos pelo mundo todo. Até mesmo a guerra, que já começava a demonstrar seus conflitos em alguns pontos do globo havia sido posta de lado dos noticiários. O pai de Gosh virou-se de um lado para o outro,

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atormentado. Depois, falou: —O maldito policial não vai nos ligar, mesmo, não é? —Bom, com tudo isso acontecendo... —Mas é o nosso filho! — Gritou, como se fosse começar um discurso. Depois, respirou fundo, afundou o rosto sob o travesseiro e apenas praguejou. —Porra! Clarissa, de pé diante da janela do quarto, observava, desolada, a cena bizarra. Os animais continuavam a chegar, e as pessoas aproveitavam o caos para todo tipo de atitude ilícita. Alguns jovens quebravam as vitrines de uma loja e levavam os objetos de seu interior, enquanto um velhinho gritava obcenidades para algumas moças que, apavoradas, haviam se refugiado dentro de um ônibus. Algumas viaturas passavam, e a polícia parecia se esforçar para conter alguns atos de vandalismo, mas a situação estava claramente fora de controle. —Acho que eles não vão fazer nada, por enquanto — disse, resignada. —E eles acham que a gente vai ficar de braços cruzados, esperando? —Sabe o que eu acho? — Ela perguntou após alguma reflexão. —O quê? — Perguntou Richièv, jogando o travesseiro para o lado em um gesto irritado. —Que a gente deveria sair atrás dele.

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2º Movimento – Antes do amanhecer Marc acordou porque tinha o sono leve. Saiu da barraca, e encontrou a maior parte do acampamento ainda dormindo. Estava escuro, ainda, embora a lua cheia iluminasse a paisagem, pintando-a com alguns tons de azul pálido. As barracas eram tingidas pela luminosidade fraca, e Marc observou que alguns poucos recrutas também haviam acordado, curiosos com o que acontecia. Um ruído indistinto dominava a escuridão e, embora os olhos não dessem conta de enxergar nada, os pés de Marc percebiam que a areia seca erguia-se no ar, a despeito da ausência de qualquer vento. Os garotos do exército estavam a quilômetros de distância de qualquer povoado, e não havia vida nas proximidades, exceto por arbustos secos e retorcidos, cobras e lagartos, alguns pássaros e os malditos pernilongos. Ainda assim, o chão tremia. Agora, Clarissa e Richièv estavam, finalmente, na rua. A princípio, os seguranças do hotel não quiseram deixá-los sair, julgando, com toda a razão, que seria uma exposição grande demais a riscos imprevisíveis, mas os dois conseguiram se esquivar em meio ao tumulto, e passaram pela grande porta da frente, atingindo a larga calçada. Havia gente correndo por toda parte, enquanto outros, curiosos, apenas observavam de um lugar seguro. Os empregadores liberaram seus funcionários, mães aflitas foram buscar seus filhos no colégio e os estabelecimentos comerciais fecharam suas portas, de forma que agora o trânsito tomava todas as ruas, e as buzinas enchiam, em vão, o ar de ondas sonoras perturbadoras. O casal se encontrava, agora, em meio ao caos, e sem a menor noção de para onde ir, ou onde encontrar o filho. Não seria possível contar com as autoridades, que já possuíam suas

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próprias preocupações, e a população em geral não parecia disposta a ajudar muito. Nesse tipo de situação, quando não é possível escolher uma atitude baseada na razão, a mente acaba nos levando a fazer coisas engraçadas. De seu lado, Richièv apenas seguia Clarissa. E ela rumava para o centro da confusão. Antes que mais alguém saísse das barracas, Marc se afastou um pouco, buscando refúgio na escuridão. A lua ressaltava-lhe a silhueta, mas algumas pedras serviram-lhe de disfarce. Marc não compreendia muito bem por que estava se escondendo, mas agora já estava lá. A princípio, parecia confortável estar sozinho, e quando os outros começaram a acordar, o instinto o fez recuar. Agora, estava agachado no meio de algumas pedras, sentindo-se ridículo. Talvez fosse medo. Medo porque o chão tremia e porque agora, na escuridão, percebia que estava longe de casa, com um monte de gente que não conhecia, e um exército inimigo estava vindo. E porque ele sentia que ia morrer, e que não teria feito nada que prestava no mundo. Marc estava apavorado e envergonhado, mas forçou-se a ficar calado em seu canto, enquanto o resto do acampamento se perguntava sobre o que ocorria. Levantaram-se suspeitas sobre a chegada do inimigo, e os recrutas começavam a criar um grande alvoroço, a despeito dos esforços dos oficiais de mais alto escalão. —Fiquem calmos, todos vocês! Nenhum exército poderia fazer isso! Deixem de bobagem! — Gritou um coronel. —Além disso, se fossem pessoas, veríamos luzes, não veríamos? — Perguntou outro. — E o barulho... Não é o barulho de homens marchando, por Deus! —Pessoas nunca poderiam fazer isso — confirmou um terceiro. Mas, pensou, se não eram pessoas, ele preferia não imaginar o que seria.

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De qualquer maneira, antes da manhã seguinte, quando se comunicassem com outras bases, nenhum deles jamais desconfiaria que o tremor se devia ao deslocamento de uma enorme quantidade de gado. O caos reinava por toda a parte, e Clarissa não podia contar com a ajuda de ninguém. Todo mundo estava enlouquecido, correndo e gritando, a polícia tentava deter o caos prendendo meia dúzia de arruaceiros que quebravam vitrines de lojas, e Richièv... Richièv estava em transe. Ele ainda não se recuperara completamente da angústia por ter sido responsável por trazer Gosh a um país em que seria sequestrado, e a situação de um modo geral fugia de sua capacidade de compreensão. Ele seguia a esposa, mas seus olhos estavam vidrados e distantes. Não respondia às perguntas de Clarissa, e não dava sugestões do que fazer. Uma quantidade absurda de informação tentava ser processada por seu cérebro, e inúmeros pensamentos aleatórios lhe vinham à mente, impossibilitando qualquer tentativa de raciocínio lógico. Clarissa, por outro lado, estava calma. Nem ela sabia por que, mas estava. Em sua mente, tudo funcionava corretamente, e havia um objetivo único a ser atingido, que norteava todos os seus pensamentos. E esse objetivo era encontrar o filho, e para ela não importava a culpa pelo que ocorrera, nem o fato de o mundo ter sido tomado por vacas. Todo o seu corpo estava voltado para a procura de Gosh, e ignorava tudo o mais. Não que isso lhe ajudasse em alguma coisa, porque nenhum fator lógico lhe servia para indicar o caminho. Ela só podia seguir sua intuição. E um rastro de destruição. O tempo passou, e o tremor continuou. E aos poucos, todos foram voltando para seus

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sacos de dormir, e só bem depois o tremor começou a enfraquecer. A lua se fora, e agora a escuridão reinava, mas os olhos de Marc já estavam acostumados com a falta de luz, e ele já seria capaz de enxergar as silhuetas da paisagem. Se seus olhos não estivessem fechados. Os olhos são, como poderia ser alardeado por qualquer pretenso poeta, espelhos da alma da pessoa. De fato, da mesma forma que importam as imagens do mundo exterior para dentro da pessoa, os olhos são capazes de exportar os sentimentos mais íntimos, e imprimi-los na fisionomia da face. E agora, assim como um cachorro que, com medo, baixa o rabo para esconder seus cheiros — que o identificariam frente a outros cães —, Marc fechou seus olhos, temendo que fosse identificado por outras pessoas. Isso também o ajudou a fechar-se consigo mesmo. E ele tinha muito o que discutir consigo mesmo. Ele estava sozinho na escuridão, e se escondera quando os outros saíram porque não queria participar do convívio social. Agora, trancafiado em seus pensamentos, permitia-se envolver em uma discussão turbulenta. —Todos estão dormindo — questionava-se silenciosamente — e eu continuo aqui, como um idiota. Só porque não queria essa gente falando comigo — concluiu, mas depois pareceu mudar sua linha de pensamento. — E fiz muito bem, se você quer saber — explicou a si mesmo, parando um pouco para refletir sobre o uso da segunda pessoa. Em outras ocasiões, por diversas vezes, divagara, refletindo sobre as formas como pensava consigo mesmo, mas agora estava concentrado em outro tema. — Fiz muito bem, porque as pessoas não sabem realmente conversar. Elas expõem seu ponto de vista, acreditam estar sempre certas e chamam isso de diálogo. A essa altura, Marc realmente parecia ter chegado a uma conclusão filosoficamente relevante. Sentia-se, de certa forma, aliviado, porque encontrara uma verdade universal que

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explicava diversos de seus problemas. Era assim que pensara o pai, ao colocar sobre os ombros do filho a responsabilidade de parar uma guerra. —O que ele esperava? — Indagou-se, cheio de ressentimento, ao pensar sobre o pai e suas utopias. — Que eu subiria lá e realizaria o sonho dele? Que eu acabaria com essa guerra? E quem disse que era isso o que eu queria? Não que eu goste de estar aqui, claro — acrescentou, respondendo a uma segunda voz que surgira sem ser convidada em sua cabeça —, mas certamente também não queria estar naquela droga de palco. —E por falar nessa bosta de guerra — continuou —, alguém me perguntou se eu queria estar aqui? Quem liga para essa merda de país? Se a gente for mesmo atacado, quem disse que o inimigo vai ser pior do que nós mesmos? Pra que impedi-los? E de qualquer jeito, até parece que eu faria alguma diferença! Ha! Tá bom! Melhor seria se ficassem quietos, todos, que nem... E então ele parou por um momento, assustado, porque a perspectiva do silêncio como uma alternativa ao diálogo lembrou-lhe de Sara. E assustou-se porque lembrava dela com uma frequência cada vez maior, o que sugeria uma paixão que ele nunca imaginara para si. E então seus pensamentos foram interrompidos por um ruído vindo do acampamento, e ele não precisou abrir os olhos para saber de quem eram os passos que se aproximavam. —Não vai voltar para o quarto? — Perguntou a voz familiar. E quando Marc abriu os olhos, sorriu, porque a mão de Thiago se estendia para ajudá-lo a se levantar.

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3º Movimento – O segundo milagre O sol, agora, já havia surgido e Gosh não estava muito feliz com o rumo que as coisas tomavam. Ele havia conseguido seu milagre, e os mendigos ficaram bastante animados, mas agora a coisa toda mudara de figura. A alegria fora substituída por um ataque desordenado às vacas, resultando em uma carnificina nojenta, na qual animais foram mortos a pedradas. Agora, o cheiro era insuportável, sangue e tripas estavam espalhados por toda a parte e alguns mendigos faziam uma espécie de churrasco sobre as chamas de um carro que haviam capotado. Ao seu redor, continuavam impassíveis a Velha, Pobre Homem e Filho de Deus, embora os dois últimos tenham demonstrado claramente que preferiam compartilhar da festa. Já era ruim o bastante estarem sóbrios há tanto tempo e ainda por cima, estavam com fome, mas um olhar preventivo da Velha garantiu que mantivessem a postura. —Isso não está certo — disse Gosh, olhando a cena em desespero. — Não era para ser assim. —Você nos deu comida — respondeu Pobre Homem calmo. — Eles estão comendo. —O que O incomoda? — Perguntou Filho de Deus. —Isso... Isso é horrível! Tem sangue por todo lado! —Eles estão comendo, apenas — era Filho, novamente, quem falava. — Não era Sua vontade que comêssemos? — Perguntou, lançando um olhar malicioso à Velha. — Essa forma de comer pode não ser bela, mas certamente a comida vale mais do que a beleza. Não vale? Valia? Gosh não estava bem certo, diante do horror que presenciava. —A beleza com certeza é importante — disse, enigmático. — Acho que é hora para mais um milagre.

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Ao ouvir isso, a Velha deu um sorriso indefinido e fechou os olhos. Pobre Homem e Filho de Deus trocaram olhares e depois voltaram-se para o horizonte, tão distante do topo daquela colina. E Gosh ergueu-se para fazer seu serviço. Uma vez mais, o chão tremia. O exército já deixara suas barracas e as guardava nas mochilas; os recrutas estavam prontos para tomar seus lugares nos ônibus e caminhões, e agora já haviam recebido, não sem certo espanto, a notícia de que o terremoto da noite anterior se dera por causa de uma enorme e inexplicável migração de todos os bovinos do mundo. Mas, uma vez mais, o chão tremia. Marc entrou em um dos ônibus que levariam o exército ao próximo acampamento com certa preocupação, e notou que o sentimento era compartilhado por todos. Seriam as vacas voltando, ou alguma outra migração bizarra? Era possível, mas era possível, também, que fosse a maquinaria do exército inimigo se aproximando, e isso gelava a espinha dos recrutas. Talvez pressentindo o temor, Otaviano decidiu adotar uma postura que acalmasse os jovens, conforme entrava no veículo. —Mais alguns dias, ainda, antes que encontremos os malditos bastardos — disse, colocando sua mochila no bagageiro sobre os assentos. — E então poderemos empurrá-los de volta para seu país, de onde não deveriam ter saído. — Depois, pensou um pouco e acrescentou: — E que esses malditos animais parem de migrar e deixem o chão quieto por um instante! Marc suspirou, pensativo. Nem os animais se comportavam normalmente ultimamente. E ele? Mal conseguia aceitar a idéia de que nos últimos dias, tivera que conviver com as utopias pacifistas do pai e acabara indo parar no meio do nada, de uniforme militar, com uma arma que ele

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mal aprendera a usar. Então, pensou na arma. Ele a recebera e tivera instruções sobre como utilizá-la nos últimos dias, mas desde então, a deixara guardada, sem tocá-la. Agora, só de pensar que ela estava guardada logo acima de sua cabeça, um nervosismo tomava conta de si. Alguém realmente esperava que ele a usasse! Que ele matasse alguém! Aquilo parecia tão absurdo que sua mente recusava-se a aceitar a idéia como real. Mas ao seu lado, jovens vestiam a farda do exército, falavam em um inimigo distante e olhavam para a frente, onde a terra seca escondia uma batalha que decidiria mais que seus futuros: o futuro de dois países. Reinava no veículo um clima de descontração que deixava Marc ainda mais nervoso, e seus olhos, instintivamente, procuraram Thiago como um ponto de referência. O rapaz era alegre e despreocupado, mas não parecia insensato como a maioria dali. Marc não sabia explicar exatamente por quê, mas Thiago apresentava lampejos de maturidade realmente impressionantes, em meio às representações teatrais e brincadeiras. E agora ele estava sentado próximo a um grupo de jovens que jogavam cartas. Não percebeu que Marc o fitava e ele ficou feliz por isso. Por fim, Marc fechou os olhos por algum tempo, quando o ônibus começou a se mexer. A poeira se ergueu e começou a ofuscar a paisagem que corria pela janela, sob o olhar distraído de Marc. Alguém, em um ônibus que seguia à frente, atirou um cigarro pela janela, e Marc o viu cair e desaparecer em meio ao pó erguido pelo progresso dos veículos. Por um instante, o garoto pensou em como logo eles também seriam engolidos pelo pó, e como no final, não faria diferença nenhuma. E então, como em uma pequena explosão de fogos de artifício, a bituca ergueu-se atendendo a sabe-se lá qual lei da física, lançando sua luz em um último e fulminante suspiro.

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Os mendigos se levantaram, também, deixando de lado o caos de sangue e fogo que haviam construído. Ainda seguravam e mastigavam a carne quase crua, cujo sangue escorria pelos braços e pelas barbas mal cortadas, enquanto se mantinham firmes e sérios, seguindo o exemplo de um garoto de nove anos. Ele estivera em dúvida durante algum tempo, porque seu primeiro milagre não havia trazido um mundo mais harmoniozo, conforme imaginara. Na verdade, havia trazido caos para as ruas, embora fosse bem verdade que os mendigos pareciam satisfeitos. Mas agora ele sabia o que precisava ser feito, e sabia que só ele poderia fazê-lo. Gosh já havia feito aquilo antes. Foi alguns dias antes, mas parecia que anos haviam se passado. Na época, ele estava perto de casa, e fez uma folha surgir em uma árvore. Agora, teria que fazer a mesma coisa. Mas em escala maior. Antes, ele tocara um galho seco. Agora, precisaria tocar o mundo inteiro.

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4º Movimento – Primavera O chão tremia, mas dessa vez era perceptível que não eram forças externas que causavam impacto ao solo. Dessa vez, vinha de dentro. O chão parecia sofrer pressão proveniente do centro da Terra, e logo depois recolhia-se novamente, contraindo-se e trincando. Rachaduras surgiam e se estendiam, pedaços do solo se desprendiam e eram atirados longe, conforme o planeta bombeava como um enorme coração. O mundo pulsava. E, por toda a parte, flores cresciam, mudas se desenvolviam e um perfume delicado parecia predominar sobre os odores do dia a dia. Pássaros voavam atônitos em meio aos ventos anormais, e muitas pessoas se esqueceram da cidade cinzenta ao seu redor e de todo o caos que predominara nos últimos tempos. Por um instante, as pessoas repararam nas flores heróicas que despontavam em meio ao asfalto. Gosh pensou ter ouvido uma espécie de cântico, e seus olhos se fecharam enquanto ele baixava a cabeça e relaxava os braços. Respirou aliviado, com a sensação de que, finalmente, havia acertado e dado ao mundo o aspecto belo que ele julgava ser o correto. E então abriu os olhos para admirar sua obra. O resultado foi um pouco surpreendente, pois a combinação de animais e a vegetação que começava a se desenvolver em meio ao asfalto não foi tão harmoniosa quanto esperado. No geral, porém, as flores davam uma certa beleza à paisagem, e havia uma certa alegria no ar. Os mendigos pareciam mais calmos, passada a euforia do primeiro milagre, e Gosh entendeu que as coisas pareciam caminhar corretamente. Talvez ele fosse, mesmo, capaz de mudar o mundo. Mas ele queria checar, saber o que se passava nas outras regiões, e não somente com seus seguidores. Por

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isso, levantou-se para caminhar. —Onde vamos? — Perguntou um dos mendigos, já pronto para seguir Gosh fosse qual fosse a resposta. —É um mundo grande — respondeu Gosh enigmático. — Vamos explorá-lo. Marc havia refletido muito sobre a bituca que vira. Não porque uma bituca fosse algo extremamente poético, mas porque a forma como até mesmo os restos de um cigarro jogado fora haviam sido capazes de gerar tamanho brilho o chocara. Era como se até mesmo a terra seca que agora atravessavam fosse capaz de gerar vida; era como se até mesmo ele... —No que está pensando? — Perguntou Thiago, que agora sentara ao lado de Marc. Marc virou-se para ele, um tanto frustrado pela interrupção de seus pensamentos. Por um instante, cogitou se deveria abrir-se com o outro, mas depois decidiu ser mais vago. O clima do ônibus estava descontraído demais para que assuntos como os que pensava surgissem à tona. —Nessa terra seca — respondeu. —Ah, sim — disse Thiago, desviando sua atenção para a janela. Depois, emendou: — Nem tanto. —Como assim? — Perguntou Marc olhando intrigado para ele. —Ali — disse Thiago, apontando. Marc virou-se para a direção em que o dedo do colega indicava, e forçou a vista para enxergar através da poeira. O mundo visível parecia todo pintado de bege, mas depois algo chamou sua atenção, e ele sorriu, espantado. Porque havia uma flor solitária em meio ao chão seco.

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Agora, todos os recrutas se apertavam próximos às janelas do ônibus. Os que não conseguiam um bom lugar esticavam-se na tentativa de enxergar por cima das cabeças dos demais, ou pediam para que fosse feito um revezamento. Alguns ainda não sabiam exatamente o que deveriam ver, e por isso surpreendiam-se quando enfim viam. Do lado de fora, em meio ao solo seco, centenas de plantas nasciam, lançando suas folhas verdes em contraste com a paisagem bege. As plantas nasciam e imediatamente começavam a padecer com a seca, murchando, secando, morrendo. E, no entanto, imediatamente duas novas plantas cresciam sobre os restos de cada uma que morria. Incessantemente, inexoravelmente. O ciclo da vida em forma de rascunho. Os jovens se espantavam, comentavam e divertiam-se com o que viam, mas Otaviano procurava manter-se impassível. Sem muito sucesso, é verdade. — Chega de bagunça! São só plantas, diabos! — Mas, depois de refletir um pouco, desistiu de achar uma forma razoável de completar a frase, de forma que disse: — Plantas nascendo e morrendo muito rápido, só isso. — Não poderia ser um sinal? — Perguntou alguém do fundo do ônibus. — Sinal? — Replicou Otaviano, zangado. — Fique com seus sinais, se isso for te ajudar. Mas eu acho que nós vamos ganhar isso no braço e que essas plantas são só plantas. — Se for um sinal — refletiu alguém, baixo o bastante para que Otaviano não ouvisse —, é um péssimo sinal. As plantas não param de morrer! Mas, em sua caminhada, Gosh deve ter percebido o mesmo, porque imediatamente, em todo o planeta, nuvens fracas se formaram, e a garoa começou a cair.

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5º Movimento – Filosofia de guerra Por fim, o ônibus parou. Os garotos desceram, a ansiedade tomando conta de seus espíritos. A garoa caía sobre a terra árida e as plantas brotavam por obra divina, literalmente, enquanto malas eram retiradas dos porta-malas e barracas eram montadas. Os recrutas se esticavam, olhando para o noroeste, onde sabiam que ficavam os acampamentos inimigos, mas Marc tinha o pensamento distante. —O inimigo virá por ali — disse Otaviano, e Marc se espantou porque o sargento lhe falava com ar de cumplicidade. Nesse instante, Marc sentiu que seu receio quanto ao que viria era correspondido pelo mais improvável entre os homens, e isso só serviu para alimentar seu pavor. — Como o espaço é amplo, eles se aproveitarão da vantagem numérica e tentarão nos cercar. Se conseguirem, estaremos perdidos, mas nós estamos preparados para eles. Nós vamos construir barricadas ao redor daqueles pontos — disse, apontando – e vamos nos aproximar daquela cidade. Havia, de fato, um vilarejo abandonado próximo, e Marc fitou-o, imaginando se aquele seria o local em que morreria. Marc já tinha ouvido falar em cidades que, com o tempo, haviam sido cobertas pela areia. Com tempo o suficiente, qualquer coisa poderia acontecer, e os grãos vinham sem pressa. Por mais que fossem varridos, se acumulavam, até tomarem as casas, cobrirem as soleiras, espantarem as pessoas. Passados anos o bastante, os corpos dos que não sobrevivessem à batalha que se aproximava acabariam sendo soterrados e não haveria nenhuma marca para que um viajante de passagem soubesse que naquele lugar, alguém lutou e morreu. Marc cogitou se deveria dizer alguma coisa, mas não teve a chance. —Isso não vai nos encurralar? — Perguntou Thiago, que havia se aproximado dos dois. —Estaríamos encurralados entre os fogos deles, de qualquer forma. De todo modo,

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espero que vocês lutem como animais encurralados. Como lobos! — Brincou o oficial, e depois retirou-se deixando os dois sozinhos. Após algum tempo, Thiago voltou a falar. —Eles têm medo de ataques aéreos, eu acho. Como nossas bases da aeronáutica são próximas, temos uma força considerável, então eles devem esperar retardar boa parte das forças adversárias antes que elas cheguem até a gente. Dentro da cidade, ficamos menos expostos, e a infantaria inimiga só vai poder avançar aos tropeços, se fizermos um bom trabalho com as barricadas. Então, o único perigo seria se os aviões inimigos fizessem um ataque massivo sobre as nossas forças. Deve ser isso o que eles estão tentando evitar, mas sinceramente, eu acho perigosa a idéia de nos apertarmos e esperarmos... —Ah, que seja — interrompeu-o Marc, que enfim juntara coragem para falar. —Como assim? Isso faz uma diferença absurda! —E o que isso te importa? Não vamos fazer diferença nenhuma! O que eles decidirem estará decidido! Vamos morrer lá por causa dessa terra seca em que não nasce...Essa maldita terra que costumava ser seca e na qual não nascia nada! —Esse é o nosso país! Você não liga? —Eu só nasci aqui. Não é como se eu tivesse escolhido... Qual o sentido em defender um tanto de terra que nunca fez nada por mim? —É um ideal. Ideais não precisam fazer sentido. Eles servem justamente para que nossas vidas tenham sentido. —Me parece bem idiota – disse Marc, com o ar valente de quem se orgulha da própria inflexibilidade. —São como os sonhos! — Thiago já não podia se conter. — Servem para nortear nossas ações.

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—Ainda assim... — Marc estava decidido a provar seu ponto. — São só formas de as pessoas se enganarem. De alimentarem falsas esperanças, criarem expectativas altíssimas e depois... Depois se decepcionarem porque não podemos mudar o mundo. —O que podemos ou não fazer nunca determinou os limites dos nossos desejos! —Desejos? —Claro! Não venha dizer que você não tem desejos! —Eu desejo que as pessoas parem de me arrastar para os seus sonhos idiotas e me deixem em paz! — Bradou Marc, nervoso por lembrar das experiências recentes. — Agora eu estou aqui para morrer por causa do desejo de alguém! —Sei. Então, se você achasse uma lâmpada mágica ou algo do tipo, é só isso o que pediria? Para ser deixado em paz? —Talvez — disse, mas depois pensou melhor. — E pediria também para sempre tomar as decisões certas; aquelas que mais me beneficiariam. Thiago pensou um pouco sobre a idéia, tentando chegar a uma conclusão. Depois disse, enquanto virava-se para ir embora, desistindo da discussão: —Pedido estranho. Saber sempre qual é a decisão certa é como não ter poder de escolher.

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6º Movimento – Sobre o espírito do homem Marc ergueu os olhos e deu uma volta ao redor de si mesmo. Nesta ordem, ele viu: terra seca, plantas nascendo loucamente, terra seca, uma cidade em ruínas, flores brotando sem parar, terra seca, Thiago, terra seca, terra seca, os demais recrutas. Depois, terra seca, e depois parou porque ficou um pouco tonto. Resumidamente, era esse o aspecto do palco da futura batalha. Incluindo a tontura. Ele entrou em uma das casas em ruínas. Nelas, agora, era montado o acampamento, em meio à poeira e sob os tetos desmoronados. Isso não seria um grande problema se não fosse pela garoa incessante. Tinha isso, também. Aquela chuva não poderia ser normal ou o chão não seria tão seco. E além de tudo, aquelas flores não paravam de nascer, e três camponeses já haviam aparecido reclamando e culpando o exército por suas vacas terem fugido para o sul. —Esse mundo não pode estar normal — comentou, casualmente, Thiago, que parecia vir pensando mais ou menos nas mesmas coisas. Ali, a garoa também caía, as flores também davam seu show e, no céu, um arco-íris enchia a paisagem de cores. Mas ninguém parecia olhar. Gosh não podia entender. Os mendigos riam e dançavam, sujos de sangue e de álcool. Mas pelo menos eles pareciam valorizar os milagres do garoto, ainda que de forma tão repugnante e estranha aos olhos de Gosh. Já as outras pessoas... Bem, alguns poucos admiravam a beleza, mas a maioria se dividia em dois grupos, o daqueles que, ensandecidos, aproveitavam o caos para cometer todo tipo de ato ilícito ou imoral e o daqueles que fugiam dos primeiros. Gosh não podia entender por que os homens, cercados de beleza, viravam a cara e recusavam-se a vê-la. Não fazia sentido. Havia comida para todos, mas as pessoas continuavam a

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brigar; havia água e um céu bonito, havia flores e até um arco-íris, então por que ninguém ligava? Não era justo, ele tinha se esforçado e dado àquelas pessoas mais do que elas mereciam, mas ninguém dava a menor bola! —Eu lhes dei beleza! — Bradou. — Por que não a admiram? As pessoas o ignoravam. Um homem agarrou uma mulher em meios às vacas, e por sorte Gosh não viu o que fez depois de arrastá-la para um beco, ignorando seus gritos e tentativas de fuga. De lá de dentro, saíram dois homens correndo um atrás do outro. O de trás gritava alguma coisa sobre sua carteira. No geral, as coisas estavam muito mais distantes do mundo ideal do que antes de Gosh começar a fazer seus milagres. Seria sua culpa, afinal? —As pessoas não entendem, não é? — Perguntou uma voz por trás do menino. Era a Velha. —Eu me esforcei — disse Gosh em um tom um tanto resignado. — Eu tentei fazer coisas boas, mas estraguei tudo! —Oh, não, não! Não é sua culpa! A culpa não é de Deus, ainda que as pessoas finjam que seja. O problema é que eles insistem em deixar a maldade tomar conta de tudo. Insistem em não ver os seus milagres. —Mas eles vão ver — disse Gosh, sombrio. — Eles vão ter que ver. No acampamento, Marc decidira conversar melhor com Thiago. Apesar de tudo, o menino era o mais próximo de um amigo que Marc teve em anos. Além disso, não havia muito mais o que fazer, e se ele ficasse quieto como de costume suas preocupações voltariam a incomodá-lo. Era um tanto constrangedor, então ele respirou fundo, juntou coragem e foi.

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—Então, você é a favor disso? — Perguntou, meio sem jeito. —Disso o quê? —Da guerra. —Deus, não! Não se lembra de quanto contestei isso tudo no quartel? —Lembro — disse Marc, e ficou em silêncio um pouco, porque não estava acostumado a liderar uma discussão daquele jeito, e também porque não conseguia entender muito bem o amigo, que antes parecia sempre tão simples. — Mas então, porque agora está aí, defendendo tudo? —Não estou defendendo tudo. Estou defendendo meu país, porque sou contra essa guerra, mas já que ela existe, acho que devemos ganhá-la. E não só porque somos nós, mas porque eles estão invadindo isso aqui só para atacarem outro país. Para eles, essas cidades são como partes de um tabuleiro de War ou coisa do tipo. Marc se tranquilizou um pouco, porque pelo menos o raciocínio do outro tinha certa lógica. No entanto, ainda lhe era difícil engolir aquela idéia. E afinal, por que logo ele tinha que lutar? —Isso faz sentido — disse. — Mas acho que não é o melhor jeito de solucionar as coisas. — Ele aceitava bem a idéia de que não se deve combater violência com violência. O raciocínio, no entanto, legitimava a iniciativa de Marco, de forma que Marc, que adquirira o costume de organizar os meios para que eles justifiquem os fins, ao invés de chegar a estes como decorrência natural daqueles, disse: — Não que fosse adiantar alguma coisa fazer diferente, claro. —Alguma coisa tem que dar certo, você não acha? —De verdade? Não. O silêncio que seguiu essa fala incomodou Marc, que então decidiu que deveria dizer mais alguma coisa.

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—Eu sei que é difícil entender. Nem eu entendo, às vezes... —Ah, não, eu entendo perfeitamente — riu Thiago. — Mas já que você falou da eficácia do que eu estou fazendo, acho que eu deveria contar meus planos para você. Gosh estava de pé, com os braços abertos havia algum tempo, já, então algumas pessoas pararam para olhar. Além, claro, dos mendigos. A indiferença ainda predominava no que dizia respeito aos demais, mas a curiosidade sempre foi uma constante entre as emoções humanas. No entanto, como o tempo passava e nada acontecia, o sentimento ia diminuindo gradativamente. Foi justamente quando a maioria pensava em desistir que a vibração começou. Não era como antes, quando o mundo tremia, como se a terra estivesse se movendo. Dessa vez, algo percorria as pessoas por dentro, como uma espécie de comichão. Além disso, parecia haver uma descarga, uma corrente elétrica que, no entanto, não provocava choques, somente pequenos espasmos. E então cabelos se eriçaram, mas ninguém se incomodou, porque todos estavam mais preocupados com o céu. Que estava rosa. E roxo. E alaranjado e cheio de desenhos lindos, que dançavam formando trilhos por onde anjos poderiam desfilar, brilhando de tal forma que as estrelas, ofuscadas e envergonhadas, não ousariam aparecer na tentativa de competir. Porque, em um país tropical, as pessoas, de repente, podiam ver uma aurora boreal.

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7º Movimento (aquele que revela os planos de Thiago e encerra o quinto ato) – Para mudar o mundo Agora, as pessoas acreditavam. Até porque, depois de o céu ser pintado de todas as cores, ficava difícil ser cético. Claro que, nas TVs — o caos jamais impediria o trabalho dos jornalistas, que, pelo contrário, previam níveis de audiência inéditos —, apareciam físicos dando as mais variadas explicações para os fenômenos. Supostamente, distúrbios na movimentação do magma teriam provocado os tremores nas placas tectônicas. Segundo um físico — que certamente veria problemas nas conceituações do preto e do branco —, isso teria resultado em uma mudança nos pólos magnéticos da Terra, o que justificaria a presença das auroras boreais em regiões incomuns. Quanto às mudanças climáticas e ao comportamento dos animais, deveriam estar relacionados, respectivamente, com uma leve mudança da posição do planeta em sua órbita e com algum instinto primitivo, um sexto sentido obscuro que previa alterações climáticas. No entanto, muitas pessoas tendem a ser mais facilmente influenciadas por evidências sobrenaturais do que por fatos científicos demasiado teóricos, especialmente em casos em que a realidade se distorcia de forma tão evidente. Além disso, quem defendia as teses científicas eram os físicos e eles — todos sabiam — são chatos por natureza. Dessa forma, Gosh viu sua credibilidade crescer vertiginosamente. Finalmente, não eram apenas os mendigos que acreditavam nele, e isso o deixou bastante satisfeito. Era hora, parecialhe, de saborear um pouco seu sucesso. Se os mendigos queriam que as variáveis com que faziam suas contas fossem modificadas, ele certamente tinha conseguido um bom resultado, e se eram necessárias pessoas para iniciar mudanças, lá estavam elas, também. Uma multidão estendia-se sob seus pés e ele julgou ter total controle sobre aquela massa. Mas estava terrivelmente enganado.

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Marc estava nervoso. Vinha se sentido assim com uma freqüência assustadora, recentemente, mas agora o caso era outro. Thiago o levara para uma casa abandonada e não havia nenhum traço do tradicional bom humor no rosto do jovem ator. Ele parecia realmente disposto a confessar algo que vinha escondendo havia tempos, e Marc não tinha muita certeza de que estava pronto para aquilo. Já fora difícil desabafar suas críticas a tudo o que lhe vinha ocorrendo, e seu estado psicológico — que nunca foi dos melhores — estava um tanto abalado. Mas ele não sabia como impedir Thiago e um vestígio de compaixão o compelia a escutar o que o outro tinha a dizer. Na pior das hipóteses, poderia fechar-se novamente, isolar-se em seus pensamentos e esquecer que um dia quis ter um amigo. Na verdade, Marc era muito bom em fazer isso, e a idéia chegou a animá-lo um pouco. Ele se sentou em um canto e passou algum tempo olhando para o chão, assumindo uma posição passiva, como de costume. No entanto, Thiago não falou nada e Marc acabou ficando incomodado. Quando ergueu os olhos, porém, viu que o amigo estava tirando uma folha de jornal de dentro de sua mochila. Ele a abriu sobre o chão, e Marc viu que se tratava de um jornal de pouco antes de sua partida com o exército. Havia uma matéria grande sobre a guerra, ressaltando a importância de o país defender seus territórios; Thiago apontou para ela, mas Marc continuou sem entender muito bem, de forma que o ator teve que falar. —É o meu pai. —O quê? Você diz o repórter? —Isso. É o meu pai e ele é um dos maiores entusiastas a favor dessa guerra. —Ah — disse Marc —, então é por isso que você quer lutar.

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—Hein? Não! Não, não! Escute. Meu pai é um puta repórter — disse casualmente —, embora eu não concorde muito com algumas posições dele. Mas muita gente concorda. E as pessoas são influenciadas, sabe? Então muita gente acaba ficando a favor da guerra por causa dele. Entende? —Sim, isso quer dizer que se ele não quisesse, talvez eu não estivesse aqui. —Ah, é, é, pois é. Enfim, o ponto é que ele é a favor da guerra, mas ele não queria que eu viesse. Ele se prontificou a falar com alguns conhecidos e me tirar do exército, até. —E por que você está aqui? —Porque isso não ia adiantar. Eu não deixei ele fazer isso e acabei vindo. Aqui, tem uma coisa que eu posso fazer. —E o que é? — Perguntou Marc, sem disfarçar a falta de interesse. —Morrer.

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5º Intervalo – Semântica

“O homem tinha todo o aspecto de um político, posto que sua fisionomia fosse inteligente
e transpirasse honestidade”. A frase, escrita em um bilhete, foi estudada com desinteresse. —Ok — disse a mãe, devolvendo o papel ao filho —, agora vamos jantar. Desanimado, o garoto guardou o papel, mas correu para mostrá-lo ao pai, quando soube, pelo ruído das chaves na porta da frente, que ele havia chegado. A reação deste, porém, também não foi das melhores. Estava cansado, era verdade, mas bem poderia ter dado maior atenção à produção que tanto orgulho dera ao garoto. Aparentemente, porém, o orgulho fora infundado, porque uma após a outra, as pessoas escolhidas para avaliarem sua frase — a empregada, a tia, um colega da escola — transmitiram comentários vagos de descaso. Em um último lampejo de determinação, ele saiu às ruas, disposto a encontrar alguém que valorasse sua obra prima. Depois de caminhar um pouco, localizou um sujeito que parecia adequado. Vestindo um terno bege e desfilando um vistoso bigode, o homem carregava, com olhar sério, uma pasta preta, dessas de escritório. Assustou-se um pouco ao ser abordado pelo rapaz, mas deu um sorriso depois, ao saber da intenção da abordagem. Ainda sorrindo, tomou o papel em sua mão esquerda — a que estava livre da pasta — e leu em um instante. —Muito bom, garoto — disse, com um ar simpático. — No entanto, a partir de agora, saiba que a expressão “posto que” não significa “já que”, mas sim “ainda que”. Thiago, que a essa época não tinha mais que 13 anos, olhou o homem com ar curioso. —Eu sei disso — respondeu.

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Sexto Ato (Gauche & gosht)

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1º Movimento – Enfim, uma pista a seguir Clarissa já havia desistido de pedir ajuda, especialmente depois de as três últimas tentativas terem resultado em quatro assaltos. Richièv estava sentado em um canto, abatido e alheio a tudo, de forma que ela teve que se contentar em praguejar baixinho, enquanto explicava ao terceiro homem — um senhor de idade, aparentemente inofensivo, mas que curiosamente levava, escondida em um bolso, uma faca de cortar carne — que não possuía mais dinheiro (o que não era inteiramente verdade), nem jóias nem celular, porque tudo isso já havia sido levado antes. Irritada, voltou para o lado do marido, sentando-se, também, e deixando a melancolia dominá-la. Estavam em uma praça, cercados por vacas e flores. A garoa ainda caía, e a aurora boreal já não causava mais nenhum espanto, passado tanto tempo. Mesmo sua beleza era esquecida diante da situação.As pessoas se acostumam a tudo. Depois de algum tempo, chacoalhando a cabeça como se assim pudesse atirar longe a tristeza, levantou-se e puxou Richièv, que a seguiu, mudo. Sentindo um pouco de fome, mas incapaz de participar da chacina que algumas pessoas promoviam, realizando grotescos churrascos coletivos, Clarissa seguiu para um supermercado que ainda funcionava, apesar de tudo o que ocorria. As portas estavam quase fechadas, para evitar os saques, e dois homens mantinham-se ao lado da abertura que restava, cumprindo o papel de seguranças. Eles inspecionaram Clarissa e Richièv, e permitiram que os dois entrassem. Lá dentro, havia um retrato do caos observado do lado de fora; apesar dos esforços realizados pela equipe para manter a ordem, havia prateleiras derrubadas, itens quebrados, comida pelo chão. Pessoas comiam biscoitos escondidas em cantos de difícil acesso, mas alguns ainda se mantinham na fila dos caixas.

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Richièv apanhou alguns biscoitos. Depois, pensou melhor e pegou, também, uma mochila, sem a qual não poderiam levar a comida. Vendo aquilo, Clarissa se animou um pouco. —Ah, está um pouco melhor, então, não? Consegue raciocinar, já! Richièv sorriu em resposta. “A fome faz milagres”, pensou a mulher, e então estremeceu, porque pensou em Gosh, sozinho e faminto. Foi então que notou um televisor que exibia uma reportagem sobre o caos. A maioria das TVs rodava DVDs com cenas de animações tridimensionais, ou filmes repletos de efeitos, mas aquela estava ligada em um canal de TV aberta. A princípio, ela não ligou muito, já que sabia bem o que se passava — afinal, ela estava lá fora até então. Seguiu, então, com suas compras, mas o marido parou e ficou vendo uma entrevista com um físico, que dissertava sobre as origens dos sintomas estranhos que o planeta vinha apresentando. A esposa já estava a alguns metros de distância quando ele a chamou, aos berros. Encerrada a entrevista, um helicóptero da emissora circundava o centro de um dos maiores focos de tumulto. Richièv ficara chocado com a massa humana, composta por flagelados de todos os tipos, que se aglomerava formando uma espécie de círculo. No entanto, o choque foi muito maior quando a câmera focalizou o centro da circunferência, mostrando quem estava chamando tamanha atenção. Definitivamente, era melhor chamar a esposa.

Agora, ambos olhavam atentamente para a tela. Os nomes de ruas citados pelo repórter eram repetidos mentalmente até serem decorados, mas não diziam muito aos dois estrangeiros, de forma que o casal se empenhava em localizar pontos de referência. Uma ponte, um edifício peculiar, qualquer coisa. Eles precisavam de tudo o que os pudesse levar até o filho, e aquela era a melhor oportunidade de que dispunham. Nem mesmo o

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absurdo de ver Gosh liderando uma multidão de indigentes era capaz de desviar sua atenção do processo de memorização, que, no momento, era muito mais importante. —Uma folha! — gritou o marido. — E algo para escrever! Rápido! As pessoas ao redor se assustaram com a reação, mas, enfim, alguém esticou uma mão com um pedaço de papel e uma caneta. Clarissa os agarrou bruscamente, sem sequer notar a pessoa que fazia a gentileza. Anotou nomes incompletos que conseguia captar, fez rápidas indicações de aspectos da paisagem que lhe chamaram a atenção — um bosque cheio de eucaliptos, um lago em formato de borboleta, uma estátua de um homem feio e barbudo — e devolveu a caneta à pessoa errada. Depois, correram. Pularam sobre prateleiras, com uma pressa quase sufocante; as mãos dadas, os braços esticados, como se um tentasse puxar o outro para a frente, apressando-lhe os pés além dos limites do possível. Saltaram sobre um caixa e de lá para a rua, empurrando os seguranças que guardavam a porta e juntando-se — meio sem querer — àqueles que se aproveitavam do caos para levar mercadorias sem pagar. Depois, chegaram à rua e perceberam o quanto tudo aquilo era inútil. A começar porque não faziam idéia de para onde ir. Não conheciam as ruas, não podiam pedir ajuda a ninguém — a julgar pelas experiências anteriores — e mesmo no que dizia respeito aos pontos de referência escolhidos, dificilmente seriam encontrados em uma cidade daquele tamanho. Possuía mais de uma dezena de milhões de habitantes, e tamanho quase suficiente para abrigar todos eles. Andar pelas ruas atrás de “um bosque de eucaliptos” era inviável, e não havia táxis funcionando, nem mapas públicos com indicações de ruas. O desespero começou a tomar conta dos dois novamente, até o ponto em que Richièv, aparentemente, chegou à conclusão de que seria

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necessário um pouco de vandalismo, porque ele pegou um pedaço de pau e quebrou a janela de um dos carros estacionados nas ruas próximas. Esse tipo de atitude já era tão comum que ninguém destinou a ele muita atenção, mas a mulher não pôde deixar de fitá-lo com ar surpreso. —O que...? — Começou a perguntar, mas não chegou a concluir a frase, porque o marido respondeu primeiro, na forma de uma ordem. —Tente outro! Uma hora, vamos ter que achar um que tenha GPS!

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2º Movimento – Marc toma uma atitude Nos dois dias que se seguiram, Marc se afastou de Thiago. Em parte, foi por causa das tarefas atribuídas por Otaviano, que mandou os jovens cavarem valas, trincheiras, posicionarem armas escondidas entre outras atividades típicas de uma batalha. Pouco depois de os recrutas chegarem, vieram outras tropas mais bem equipadas, repletas de tanques, jipes e todo tipo de veículos cabíveis. Segundo Otaviano, havia uma centena de aviões à disposição, mas estes ficariam em um campo a alguns quilômetros, por ora. O clima belicoso já tomava conta de todos, e Marc aproveitou isso para distanciar-se do colega e evitar maiores considerações a respeito da última conversa que tiveram. O idealismo do ator era demasiado para ele, que já não vinha lidando bem com outros sentimentos que estavam em jogo, e não queria que seu fardo pesasse ainda mais. No entanto, de tempos em tempos, não podia deixar de olhar pesaroso para Thiago, deixando a mente perder-se em pensamentos sobre o caráter e a coragem do amigo. Nessas ocasiões, era repreendido, e voltava ao trabalho com um certo sentimento de alívio. Pelo menos, o trabalho braçal impedia a cabeça de funcionar. A repetição dos movimentos, o ritmo constante, tudo favorecia a completa alienação, mas, ao invés de sentir-se incomodado em fazer um serviço maquinal, Marc via naquilo uma bênção. Desde que tudo começara, ele tivera que enfrentar mais situações delicadas do que em todo o restante da sua vida, e somente nessas situações de labor ele conseguia livrar-se de todos os resquícios de preocupação. Por isso, o peso da inchada, o sol quente e a dor nos braços e pernas eram de certa forma ignoradas pelo jovem, outrora avesso a qualquer trabalho pesado como aquele. Havia até uma espécie de satisfação quando Marc, sentia os músculos latejar, porque eram um indício de que

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estivera por horas trabalhando sem tomar conhecimento dos problemas que, de outra forma, lhe afligiriam. No terceiro dia, os sinais dos inimigos no horizonte já pareciam bem mais próximos, sendo possível observar, como miniaturas, as tendas em que dormiam. Foi nesse dia, também, que Thiago sentou-se ao lado de Marc, no final da tarde. Marc estava encostado na parede de uma casa, escondido do restante do batalhão. O sol se punha em um espetáculo impressionante em meio às cores do céu, mas ele não prestava atenção. Em meio a tantas preocupações, que hora para lembrar-se de Sara! —Ta chegando a hora — disse Thiago, sem seu tom tranqüilo habitual. —É, está. —Não vai demorar para eles atacarem... —Não — disse Marc, tentando esconder um leve estremecimento. —Então... — Thiago tentava desesperadamente manter um diálogo, mas Marc não estava contribuindo. — Só estou esperando o ataque começar. Parece que em uns dois dias, posso começar meu show. Marc começou a passar mal. A conversa era insuportável, e ele queria sair dali, mas sabia que não adiantaria. Também não poderia discutir. Tentara — ainda que de forma meio tímida — persuadir Thiago a desistir dos planos na noite em que tomara conhecimento da idéia suicida, mas seus esforços de nada valeram. Ainda lembrava nitidamente da conversa, e parecia que as palavras do colega ainda lhe doíam nos ouvidos, enquanto repetiam-se infinitamente. —Eu vou fugir do acampamento — dissera, então, Thiago — e correr em direção ao inimigo. Vou levar uma arma e atirar de qualquer jeito, se for preciso, porque eles não podem querer me levar como prisioneiro. Eu preciso ser morto. Só isso vai mudar as coisas.

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Era loucura, alegara Marc, e ainda por cima, era uma loucura prepotente. Mas as pessoas são prepotentes, mesmo, e Thiago estava determinado. —Meu último show — acrescentou Thiago, melancolicamente, mas depois animou-se. — É gostoso pensar em mim mesmo como um herói! —Um herói morto! — Inconformou-se Marc. —Exatamente, mas ainda assim, terei feito algo marcante. Imagina quantas vidas eu alterarei! Com a influência do meu pai, boa parte da imprensa se voltaria contra a guerra, daria pra causar uma comoção. Eu vou colocar meu nome na história, estou efetivamente alterando o futuro. É assustador, claro, mas você não acha isso empolgante? —Acho idiota — disse Marc de forma seca. —Eu imaginei que acharia. O ponto é que para mim isso importa, e eu me sinto bem, apesar de tudo. Espero que você possa entender isso, porque eu sei que a maioria das pessoas aqui não poderia. São um bando de idiotas, se você me permite a sinceridade. Marc ficou em silêncio por um tempo, porque a repentina demonstração de consideração lhe pesava sobre os ombros. Vista sob certo ângulo, a atitude do colega assumia um certo charme, era preciso reconhecer. —Eu compreendo — disse, por fim, tentando convencer mais a si mesmo do que a Thiago. Todavia, não demoraria a dar uma grande demonstração de que não compreendia. O sol estava prestes a surgir no horizonte, depois de descansar um pouco do outro lado do mundo. Mas Marc não sabia, porque estava zonzo demais. Fora acordado abruptamente, quando dois soldados invadiram o quarto com uma lanterna que mais parecia um holofote. Em um primeiro momento, acreditou que o ataque havia começado, e que não tardaria até

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que todos estivessem mortos. Depois, porém, percebeu que os dois seguiam direto para uma cama em particular, o que seria inadequado caso estivessem lá para anunciar uma tragédia que se abateria sobre todo o grupo. Com um pouco mais de atenção, Marc percebeu que a cama em questão era a cama de Thiago, e então um arrepio subiu por sua espinha. Os policiais arrancaram Thiago da cama. Isso foi um pouco constrangedor, porque ele estava usando uma camiseta larga, de desenho animado. E só isso. O constrangimento, porém, não durou muito, porque os gritos se sobrepuseram a ele. Thiago, nitidamente, não entendia o que se passava. —Que porra é essa? — Perguntou, ainda assustado pela interrupção abrupta do sono. —Olha a boca, moleque! — Gritou um dos soldados, dando um tapa no jovem ator, à guisa de repreensão. —Mas por quê... Por que estão me levando? — Perguntou, de forma mais educada. — E aonde? — Acrescentou. —Para ver a chefia — respondeu o soldado que não lhe batera, sem maiores explicações. E assim os dois o levaram, cada um segurando um de seus braços. Ele não tentava se soltar, o que era bastante sensato, mas fazia questão de arrastar-se levemente, sem nunca atingir o ritmo que os outros dois queriam ditar, o que os irritava profundamente, fazendo com que chutassem suas pernas ou batessem-lhe na cabeça. Quando, enfim, se foram, Marc refletiu que aquilo tudo era muito estranho, e perguntouse por alguns instantes se o amigo tinha feito algo de muito errado, que justificasse aquilo. Levou um tempo para perceber que talvez tivesse sido ele quem causara toda aquela cena. Thiago foi levado para uma outra tenda, onde ficavam os oficiais de mais alto escalão.

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Havia alguns homens lá que ele não conhecia, tenentes, coronéis, generais, e todos o olhavam de forma repressora. Quem se dirigiu a ele, porém, talvez por conhecer-lhe melhor, talvez por ser responsável por seu pelotão, foi Otaviano. Ele estava furioso. Sua face estava vermelha, de forma que ele parecia uma espécie de tomate incandescente, as mãos tremendo e o olhar espremido, encarando Thiago como se fosse preciso (e provavelmente era) um esforço enorme para não se atirar contra o menino. Parecia realmente inconformado, e ficou algum tempo encarando Thiago, incrédulo, antes de falar. —No que diabos você estava pensando? Thiago não entendia exatamente o que se passava, mas, por julgar-se inocente de seja lá o que fosse, tentou justificar-se. —Senhor, eu... A tentativa foi vã. —“Senhor”, o cacete! — Bradou o general. Depois, voltou-se para os demais oficiais, no tom de voz que um pai usaria para explicar aos amigos os atos de um filho levado. Aparentemente, queria convencer os demais de que aquilo tudo era só uma brincadeira de mal gosto. — Dá para acreditar nesse garoto? — E voltou-se novamente a Thiago, assumindo o ar possesso de antes. — Você acha que isso é uma maldita brincadeira? Depois dessa pergunta, ele ficou alguns segundos em silêncio, o que poderia dar a entender que esperava uma resposta. Thiago duvidava que fosse esse o caso, mas o silêncio tornou-se incômodo rapidamente, de forma que, resignado, tentou, novamente, falar. —Senhor — começou Thiago de novo, paciente, sabendo que seria interrompido e procurando não se irritar com isso.

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—Você suja o nosso nome, moleque! Otaviano passou algum tempo respirando profundamente, tentando controlar a própria raiva. Depois, recuperando-se, falou de forma mais calma, como um professor. —Mas agora já passou e está tudo bem. Por via das dúvidas, vamos ter que ficar de olho em você. Pedimos para alguns cabos improvisarem uma prisão, e você vai ficar lá. Com o tempo, vai perceber que toda essa idéia de ser um mártir era uma loucura, e vai até agradecer ao seu colega. —Colega...? — Indagou Thiago, que começava a entender, mas não conseguia acreditar. —É, o seu amiguinho, o esquisitinho que fala pouco. Foi ele quem nos contou.

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3º Movimento – Rompendo o silêncio Andavam havia três dias. Gosh estava empolgadíssimo, guiando a multidão — que crescera um bocado, embora ainda fosse formada principalmente por mendigos — pela cidade. Pobre Homem e Filho de Deus, porém, pareciam preocupados. Em certo momento, voltaram-se para a Velha, sussurrando para não serem ouvidos por mais ninguém na multidão e especialmente pelo menino. —Não acha que já andamos demais? — Perguntou Pobre Homem, em tom de súplica. Os milagres certamente haviam deixado o mundo mais belo e havia comida, mas sua vida não parecia mais digna, e não havia perspectivas de mudanças nessa realidade. —O garoto não deveria voltar aos milagres? — Completou o outro. A Velha sorriu como quem sabia que aquilo aconteceria, e os dois trocaram um olhar temeroso, porque suspeitavam que ela, de fato, havia previsto aquilo. Para o bem ou para o mal, havia pouco que eles não fossem capazes de prever, e ela era quem mais sabia, dentre todos os mendigos. —Ele está saboreando seu sucesso — respondeu ela, pronunciando as sílabas lentamente. — E vocês também poderiam estar. Mas ao contrário dele, são homens. Por um tempo, Pobre Homem refletiu sobre essa resposta. Não estava certo quanto ao significado da última palavra, que poderia dizer respeito à sua idade, contrapondo-se à criança que Gosh era, ou poderia indicar seu caráter humano, em oposição à divindade do menino que era Deus. No entanto, aquilo não parecia ter real importância no momento. O que ele queria era que o menino começasse a influenciar a forma como os dados do Destino rolavam, se é que não era o próprio Gosh quem rolava esses dados. Fosse como fosse, seria possível comemorar os sucessos

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depois, quando tudo estivesse certo. —Ainda assim — disse Filho de Deus, tirando as palavras da boca de Pobre Homem —, creio que é cedo para comemorar. Eles — disse, indicando a multidão com um gesto da cabeça, mas logo corrigiu-se — nós precisamos de mais. —Eu posso falar com o menino, se é o que querem — disse a Velha, no mesmo tom de sempre. — Mas é triste que vocês precisem de intermediários para falar com Deus. Mais uma vez, Pobre Homem teve que pensar sobre a frase da líder. Não sabia se a fala fora uma crítica deliberada a instituições como a Igreja, ou se ela apenas se referia ao fato de que Deus estava ali, próximo, tangível e acessível, mas os dois tinham medo de tocar nesse assunto com Gosh. Uma vez mais, porém, teve que deixar os pensamentos de lado, porque eles constituíam uma preocupação secundária. Dessa vez, Pobre Homem falou antes do colega. —Por favor, Senhora, fale com ele. Diga que nós apreciamos o que foi feito, que o louvamos, mas que ainda nos sentimos mal. Diga que esses milagres — embora seja certo que tenham melhorado nossa condição —, esses milagres não foram, ainda, capazes de livrar-nos de nosso fardo. —Ou de livrar a Terra de seu fardo — concluiu, enigmática, a Velha, antes de afastar-se dos dois para falar com Gosh, deixando Pobre Homem imerso em reflexões a cerca do fim do mundo. Agora, era para valer. O começo fora uma confusão de gritos e tiros, uma correria desenfreada, mas agora a guerra havia chegado com força total. Os recrutas se enterravam na terra e disparavam da melhor forma possível, tanques marchavam, bombas explodiam e, aos poucos, a garoa que se acumulava no chão começava a assumir um tom róseo.

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Os recrutas sentiam o medo e a adrenalina fluindo pelas veias. Mas não Marc. Porque Marc estava sentado no chão, encostado na parede, com uma pilha de papeis do lado esquerdo e outra do lado direito. Ele tirava uma folha de cada vez da pilha esquerda, lia, fazia anotações e a colocava na pilha da direita. O procedimento era repetido indefinidamente, e tudo era ainda mais chato porque nas folhas só havia dados sobre provimentos, uniformes, armamentos e outros bens de que dispunha o exército. Marc não se lamentava por isso, já que assim, ao menos, se livrava da situação em que estavam os outros, lá fora, morrendo e matando. O que o incomodava de verdade era o fato de que a parede em que apoiava as costas era justamente a parede da cela em que estava Thiago. Por algum tempo, esperou que o garoto dissesse algo lá de dentro. Qualquer coisa que diminuísse o peso que Marc sentia sobre os ombros, mas nada foi dito. Depois, pensou que caso se empenhasse no serviço com a papelada, livraria a cabeça do sentimento de culpa, mas também não adiantou. Tentava, ainda, convencer-se de que agira corretamente e, a bem da verdade, nunca havia agido de forma tão bem intencionada antes. No entanto, alguma coisa nele insistia em dizer que ele fizera com Thiago o mesmo que já havia feito com Marco, e que isso, por mais que ele tentasse alegar o contrário, não era motivo de orgulho. Por fim, Marc pensou ter ouvido alguma coisa de dentro da cela. Era uma frase muito baixa, que ele ouvira, mas não conseguira entender. Depois que a frase acabou, porém, já não tinha certeza de que havia de fato ouvido alguma coisa. Sua mente provavelmente lhe pregava uma peça, e ele já não podia sequer saber se isso o preocupava por causa da insanidade que a situação sugeria ou se era porque significava que Thiago não havia rompido o silêncio. Como alguns minutos de espera não implicaram em nenhuma outra fala por parte de

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Thiago, Marc decidiu, enfim, que o silêncio não fora rompido. Levaria ainda algumas horas até que percebesse que era ele quem deveria rompê-lo. Marc, agora, limpava o rosto. Ok, ok, a decisão de entregar os planos de Thiago podiam ter decepcionado o colega, mas a cuspida que recebera no rosto parecia um pouco deselegante. Afinal, ele só estava tentando se desculpar! Tentou novamente falar com o amigo, mas dessa vez, por precaução, encostou-se na parede, evitando que ficasse à vista do outro, através das grades colocadas na janela de um quarto em uma das casas. —Olha, eu sei que eu te decepcionei... Esperou uma resposta, mas Thiago não falou nada. Então, prosseguiu: —Eu sei que você só me contou porque confiava em mim, mas eu não queria te aborrecer. Eu — era mais difícil dizê-lo do que havia parecido durante as horas que dedicara à análise do assunto —, eu gosto de você. —A frase saiu de forma quase dolorosa. Depois, julgando que devia dar um ar mais informal àquilo, emendou: — Cara. Havia sido duro dizer aquilo, e ele esperava um mínimo de reconhecimento, mas Thiago continuava quieto. —Eu gosto de você — repetiu, porque achava que a frase poderia, ainda, ter seu valor reconhecido —, e não queria que você fizesse uma besteira. E achei que eles deveriam saber dos seus planos; não podia imaginar que te prenderiam assim. Do outro lado da parede, silêncio. —Olha, eu não sei o que dizer, não sei como me desculpar, estou fazendo o que posso. Eu sei que você espera de mim mais do que isso — disse em desabafo, quase para si mesmo —, mas esse é meu máximo.

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Finalmente, vieram de dentro da cela palavras frias e cortantes. —É pouco.

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4º Movimento – Uma parede explode Gosh fitava a Velha, com ar incrédulo. Ela, que parecera tão compreensiva ao falar na falta de reconhecimento, vinha, agora, pedir-lhe mais milagres? Era quase ultrajante, embora o menino nem conhecesse essa palavra, e ele sentia que estava sendo explorado. —Mas eu dei comida! E água, e essas coisas no céu! —Eu sei — disse a Velha, paciente, mas sua calma só irritou mais Gosh —, mas o povo quer mais... Veja, essas pessoas queriam ver o mundo mudando... —E não mudou? —Elas queriam algo mais...radical... —Mais radical? —É. Lembra do que eu lhe falei sobre as variáveis com as quais nós calculamos o futuro e o passado? Eles querem algo que revolucione essas variáveis. —E o que eu fiz foi pouco? —Não foi pouco, mas creio que não foi o bastante. Gosh virou-se para os mendigos. Pensou por um tempo, juntou coragem e falou, tão alto quanto pôde. —Não foi o bastante? — Bradou no grito quase histérico de uma criança de nove anos. O tom assustou um pouco os mendigos, especialmente Pobre Homem e Filho de Deus, que julgaram ter despertado a ira do menino. — Querem mais milagres? — Perguntou o jovem Deus, eliminando a tensão do ar. Diante disso, os mendigos mudaram de postura, entendendo que Gosh estava, mesmo, disposto a novos feitos. Foi então que alguém gritou em meio à multidão. No começo, foi um grito isolado, mas as pessoas são como cordeiros, e logo todos urravam em uníssono.

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—Mais milagres! Mais milagres! Gosh lançou à multidão um olhar fulminante. Queriam mudanças radicais no mundo, certo? Pois as teriam. E não queriam fazer nada para isso, também; esperavam que tudo caísse do céu. Pois bem, as coisas, então, cairiam do céu. E não haveria nada que pudessem fazer. A partir de então, o clima melhorou um pouco. Pelo menos no que dizia respeito exclusivamente à relação entre Marc e Thiago. Depois das primeiras palavras, as outras vieram sem tanto esforço, embora ainda fossem frias. O jovem ator não havia perdoado o companheiro, mas finalmente estava disposto a conversar sobre o tema. Lá fora, porém, os barulhos da guerra chegavam ofuscados pelas paredes da prisão improvisada. Alguns brilhos ocasionais passavam por frestas da construção abandonada, mas a realidade da guerra não conseguia ultrapassar o concreto. Para Thiago e Marc, a batalha — que, na verdade, ocorria alguns bons quilômetros além — não parecia mais perigosa do que um filme de guerra assistido numa sala pareceria para quem apenas ouvisse o som, estando no quarto ao lado. Ainda assim, Marc estremeceu quando um estouro se destacou entre os outros sons. Thiago estava em silêncio fazia algum tempo, e era melhor não deixar o clima esfriar de novo, então ele se esforçou para dizer algo útil. —Queria mesmo estar lá, não? —Sim. —Morto? —Sim. —Não sei, me parece errado.

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—Não é. Isso é errado. Essa merda toda. Marc estremeceu. Definitivamente, não fora a melhor forma de começar uma conversa, mas agora era melhor ir adiante do que enfrentar novo silêncio. —Será que sua morte faria tanta diferença assim? —O que quer dizer? Já expliquei, meu pai manipula as pessoas. E ele tem contatos, que manipulam ainda mais. —Mas qual o alcance? Nossa cidade? O estado? O país? Dessa vez, foi Thiago quem não pôde responder. Uma coisa curiosa das atitudes altruístas é que de uma forma ou de outra, elas sempre podem ser encaradas por uma perspectiva que as torna mais egoístas do que as atitudes egoístas por natureza. E as primeiras sofrem ainda mais, porque não estão vacinadas contra isso: são pegas desprevenidas e despencam sem ter em que se apoiar, normalmente de alturas vertiginosas. Era terrível pensar que seu suicídio, tão bem planejado de forma a atender aos interesses da sociedade, atenderiam somente a uma parcela pequena das pessoas, podendo trazer, inclusive, prejuízos maiores às demais. Se o país se voltasse contra a guerra, que diferença isso faria? O governo não poderia se omitir enquanto suas terras eram invadidas, e se o fizesse, estaria escolhendo a paz em troca de parte da população que deveria proteger. Marc, que não acompanhara esse raciocínio, não compreendeu quando Thiago disse: —Nem sempre a escolha certa é a óbvia. — No entanto, o tom de voz do ator transpirou algo de tranqüilizador, que animou Marc. Ele queria dizer alguma coisa para manter nesse caminho o espírito de Thiago, mas este falou antes daquele. — Deve haver, porém, algo que possamos fazer. Algo que mobilize as pessoas, ao menos. Tudo o que eu não quero é ficar aqui, sentado, assistindo!

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—Mas o que, então? —Não sei — disse Thiago, de repente desanimado, mas não de todo incrédulo. — Alguma coisa. Richièv e Clarissa estavam, agora, andando em um carro; os vidros quebrados, o rádio ligado em uma das poucas estações funcionais. Estavam abatidos porque não conseguiam encontrar nada que os levasse em direção a Gosh, mesmo possuindo um endereço como referência, e estavam chocados pelo que ouviam. Ao contrário da maioria dos noticiários, esse não estava a falar sobre os acontecimentos locais. Falava sobre locais distantes, locais como aquele em que o casal vivia. E as notícias não podiam ser piores. A fuga do gado por todo o mundo, a despeito das explicações científicas, continuava a causar caos. A pecuária em crise arruinava mercados pelo mundo, provocava suicídios e disseminava uma fome que já fazia suas primeiras vítimas, mesmo entre a população mais abastada. O assalto indiscriminado a todo tipo de estabelecimento comercial, porém, parecia não ocorrer com tanta freqüência em outros locais, já que somente ali havia um rebanho quase infinito justificando a balbúrdia. Por um instante, Richièv refletiu sobre como o ser humano baseia seu comportamento pelo que o cerca, de forma que onde o caos já está instaurado, a preocupação com a ordem desaparece até entre as pessoas mais sérias. Até nele, que agora estava no carro de um desconhecido que ele mesmo arrombara, com a ajuda da esposa. Afastando da mente as questões sociológicas, voltou-se à reportagem, que agora narrava como a agricultura sofria, também, com as mudanças climáticas e com uma misteriosa praga de flores, que cresciam por toda a parte. A comida no mundo todo parecia condenada, por todo o

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mundo multiplicavam-se os programas de assistência, mas ao mesmo tempo, crescia a relutância por parte dos abastados quanto a dividir seus bens, que pareciam valorizar-se a cada dia. Em defesa dos abastados, cabe lembrar que a valorização nada tinha de pecuniária. Ocorre que, de fato, conforme se tornavam escassos os alimentos disponíveis, mais importante era cada pão que se pudesse guardar. De outro lado, a chuva incessante causava enchentes em diversas localidades, o que resultou na perda de diversas residências. Doenças se espalhavam rapidamente, países inteiros decretavam estado de emergência, a Cruz Vermelha revelava-se incapaz de dar qualquer resposta aos problemas e a guerra tornava-se cada dia mais violenta, não apenas pelos problemas citados, mas também pelos caminhos que já vinha tomando anteriormente. Disputas religiosas há tempos adormecidas escolheram o momento para despertar, já que, de fato, as pessoas voltavam-se a seus deuses com maior fervor diante dos acontecimentos. Judeus culpavam os cristãos, que culpavam os muçulmanos, que culpavam os ateus. Politeístas de toda sorte apareciam pelas ruas e, em meio a tudo isso, os ambientalistas mais ferrenhos tornavam-se tímidos diante da perspectiva de lembrar a todos de que as baleias continuavam morrendo. Clarissa comentou que o mundo estava perdido pouco antes de a reportagem ser interrompida por um chamado urgente. A voz que começou a falar dizia trazer notícias de última hora a cerca do Garoto que Guiava Mendigos, alcunha que o casal não teve dificuldades de associar a Gosh. A excitação crescia entre ambos, mas diante dos últimos fatos, não conseguiam esperar por nada que não fosse terrivelmente catastrófico. Durante o instante em que esperaram pela voz do repórter, sentiram-se tão vazios e angustiados que lhes pareceu bastante adequado o tom negro que o céu foi tomando.

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Não era noite. Ou ao menos, não deveria ser. Instantes antes, o sol estava alto no céu, mas agora a escuridão tomava conta de tudo. E ela irradiava de Gosh. O garoto olhava vidrado para o nada, e aparentemente contemplava algo que surgia em sua mente. Algo grandioso. A Velha parou do lado de Gosh, mas não fez nada. Depois de alguns minutos, foi ele quem abriu os olhos e sorriu para ela, sem se surpreender com o ar de compreensão absoluta que a mulher trazia no rosto. A próxima coisa que Gosh fez foi erguer os dois braços. E então o mundo rugiu. Nos verões dos trópicos, é comum que surjam tempestades do nada, com nuvens que cobrem completamente um céu outrora ensolarado e derramam sobre as cidades uma quantidade aparentemente infinita de água até que, minutos depois, partem para outras terras, deixando para trás um dia novamente bonito e ruas que se transformaram em rios. A física explica isso de forma simples, com o ciclo da água, o calor excessivo que provoca grandes evaporações, encontros de massas de ar ou o que quer que seja. O que a física teve trabalho para explicar foi como isso pôde ocorrer no mundo todo ao mesmo tempo, naquele momento. Dizer que chovia, aliás, é quase injusto. O céu desabava sobre todos, as nuvens escureciam todas as cidades que deveriam estar no período matutino, enquanto os relâmpagos enchiam de luz os céus das cidades que deveriam dormir. E então veio o vento, que também soprava com intensidade muito superior à que se costuma observar quando não se está no meio de um furacão. Em todo o mundo, a natureza, que já não vinha se comportando normalmente, parecia enlouquecer completamente, tomada de fúria. E, contudo, em meio à terra que se rachava, às casas que se desfaziam, às torrentes que levavam tudo e todos que cruzavam seu caminho, havia a beleza

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das flores, que insistiam em nascer em substituição a cada uma que era arrancada; havia o brilho das auroras boreais que dançavam pelos céus do mundo, como em um lembrete de que nem tudo estava perdido. E tudo isso passou nas notícias exibidas pelo jornal, antes de o casal ter que abandonar o carro, que já não podia prosseguir pelas ruas encharcadas. Não que, a essa altura, Richièv e Clarissa precisassem do jornalista para lhes dizer quão feia a situação estava. Eram indescritíveis os barulhos que passavam pelas paredes e atingiam o cômodo em que Marc e Thiago estavam. Marc poderia sair para ver o andamento das coisas, mas isso não seria sensato nem corresponderia a nenhum desejo particular do garoto. Além do mais, Thiago continuava preso e era ele quem mais se interessava pela batalha travada. —Tem que ter uma chave! — Gritou ele, sem poder ajudar Marc que, por sua vez, revirava todo o cômodo. —Não tem, não tem! Não havia móveis no recinto, e mesmo o serviço de tratar das papeladas de que Marc ficara encarregado vinha sendo feito no chão, o que reduzia as possibilidades de lugar para terem escondido as chaves que liberariam o ator. Pedir as chaves para Otaviano ou qualquer outro superior também não faria sentido, visto terem sido eles os responsáveis pela prisão, para não mencionar a falta de tato que Marc demonstraria se os interrompesse no meio da guerra para pedir qualquer coisa. Parecia não haver forma de abrir o maldito portão, e, no entanto, não podiam ficar mais tempo ali. Apesar de que Marc ainda não havia compreendido bem essa parte. Até onde podia compreender, estava havendo uma guerra lá fora, e ele e Thiago deveriam se considerar com sorte

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por estarem relativamente alheios a ela. Bombas estavam caindo a todo momento, de acordo com os ruídos, e, pelos sons que haviam começado alguns minutos atrás, parecia mesmo que as coisas haviam ficado feias. —E essa água toda entrando pela janela, por Deus! — Desbafou. A janela estava fechada, mas sua madeira pouco ou nada adiantavam contra o vento e a chuva. —Esqueça isso e ache a maldita chave! Marc voltou a procurar. Ele não queria realmente sair dali, e não parecia sensato que alguém quisesse. No entanto, sentia-se em dívida com Thiago. E, quando o amigo explicara as razões pelas quais queria sair dali, elas lhe haviam soado convincentes. O problema era que, agora, quando avaliadas as condições do campo de batalha, os motivos que o haviam convencido pareciam cada vez mais nebulosos e esquecidos. A verdade, porém, era a de que não havia sentido, também, em continuarem naquela casa, já que suas paredes não representariam grande proteção contra um ataque direto. Isso ficou particularmente claro poucos minutos depois, quando, com um estrondo, uma das paredes explodiu, jogando Marc ao chão e espalhando todos os papéis que haviam sido cuidadosamente separados, embora Marc não soubesse para quê. Com a explosão, Thiago também fora atirado ao chão. Mas, em uma demonstração de incrível falta de sorte, a parede derrubada não libertava o jovem ator.

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5º Movimento – O Fim do mundo? Marc puxou mais um tijolo, e, enfim, Thiago conseguiu sair. Com as paredes enfraquecidas pelo tempo e pela recente explosão, haviam tido pouco trabalho para abrir um buraco pelo qual o garoto fosse capaz de passar, e, agora, Marc se perguntava o que exatamente iam fazer. Para seu desgosto, porém, Thiago também não parecia muito seguro de si. Tanto que foi o próprio ator quem perguntou primeiro: –E então, o que é que vai ser agora? Marc sentiu um desânimo ainda maior, pois acreditava, realmente, que o outro tinha alguma idéia. Podia bem ser que ainda não ambicionasse mudar o mundo, mas também é verdade que não achava de todo ruim a idéia de sair daquelas terras. Como se não bastassem a distância de casa e a própria guerra, havia, ainda, aquele clima absurdo. Quando tudo era apenas seco, não havia muito problema; era desagradável, mas esperado. Só que, agora, havia flores crescendo por toda a parte, e aquelas auroras boreais, uma chuva torrencial e uma ventania que arrastava tudo. Assim que saíram da casa – ou, antes, assim que o exterior entrou pela parede explodida – ficou claro que as coisas estavam muito piores do que se poderia imaginar a julgar somente pelos sons que atravessavam o barro das paredes. Na verdade, para a maioria das pessoas, a visão representa um modo tão completo para captar o mundo que nos rodeia, que os demais sentidos tornam-se quase acessórios nessa missão e acabam sendo rebaixados a tarefas, por assim dizer, menores, como a de aproveitar uma música, degustar um prato mais saboroso do que nutritivo ou identificar o perfume na roupa de algum marido que se atrasa para o jantar. Assim, fica fácil compreender o choque de Thiago e Marc quando se depararam com aquilo que, antes, apenas ouviam. Na verdade, a cena que se desdobrava do lado de fora da casa jamais poderia ser traduzida em sons, e menos ainda em palavras escritas. Estas, aliás, não

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deveriam ser desperdiçadas em tentativas vãs de descrever seja o que for, a menos que se trate de um caso muito específico, como um anúncio publicitário — em que a descrição, lamentavelmente, é um requisito essencial — ou que se tenha como objetivo inspirar no leitor algum sentimento, como o suspense que decorre de um corredor mal iluminado, a calma proveniente de uma paisagem bucólica ou a comicidade de um personagem exoticamente vestido. De outra forma, qualquer tentativa de usar a linguagem, para descrever seja o que for será inútil, servindo apenas para limitar a imaginação do leitor. Na verdade, melhor faz aquele que apenas indica os elementos essenciais à paisagem, dizendo, por exemplo, que havia trincheiras, e que elas estavam cobertas por soldados — alguns vivos, outros, não —; que havia bombas, tiros, aviões, tanques, e outras coisas que o leitor julgar que cabem à guerra; e que havia uma infinidade de fenômenos naturais absurdos, impossíveis, flores, auroras, enxurradas, tufões. De resto, basta deixar que a mente de cada um coloque, aqui e ali, pessoas arrastando corpos em meio a sangue, corpos e roupas de baixo sujas.

— Putaquelparioputaquelpario! O que vocês estão fazendo aqui, agora? — Bradou
Otaviano, que não parecia no melhor dos humores. E não estava, mesmo. — A gente só estava — começou Marc. — ...e aí explodiu — apontou Thiago, indicando a casa em ruínas. — Que seja, que seja, putamerdaDeusdocéu, agora me deixem, sim? — Disse o coronel, e virou-se para outros soldados, gritando informações. Thiago puxou Marc pelo braço, sugerindo que saíssem dali, mas Marc o fez esperar. Otaviano estava preocupado com alguma coisa, e, embora naquele contexto nenhum tipo de preocupação fosse descabida, algo realmente importante parecia estar ocorrendo.

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Era difícil entender qualquer coisa com todo o barulho ao redor, e ainda era necessário filtrar as informações adequadas, porque Otaviano interrompia a conversa o tempo todo para bradar ordens para outros recrutas. Os soldados de ambos os países trocavam tiros, e a desvantagem que os inimigos tinham por estarem mais mal situados no terreno era facilmente compensada por ataques aéreos fulminantes, que, conforme Thiago havia previsto tempos antes, faziam um grande estrago nas forças amigas. Naquele exato instante, enquanto Marc focava sua atenção na conversa do coronel, a sorte dos exércitos parecia mudar, porque os tufões e a tempestade derrubavam os aviões e impediam esses ataques aéreos. A salvo das bombas atiradas pelas aeronaves, a própria infantaria podia agir melhor e uma reviravolta parecia vir acontecendo. No entanto, Otaviano permaneceu impassível; sua preocupação não sofreu nenhum abalo com as boas novas. Apenas uma informação, gritada e repetida como um zumbido por toda a parte, lhe ocupava a mente, e Marc sentiu um arrepio quando também ele a ouviu. Em algum canto do mundo, irreversivelmente, preparava-se o lançamento das primeiras bombas nucleares.

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6º Movimento (aquele que dá maior pressão e um fim ao sexto Ato) – Homo Ex Machina Os mendigos urravam em aprovação, enquanto se agarravam a qualquer coisa que alcançassem, para não serem levados pelas enxurradas que desciam as colinas. Vacas se amontoavam, brigando contra as correntes, e os mendigos gritavam em júbilo ao vê-las, também. Apesar de todo o terror, respondiam bem à demonstração de poder incontestável, e acatavam tudo quanto lhes era dito pela Velha, que prometia proezas ainda maiores vindas do menino. Todos naquele monte haviam participado do cálculo que previra o fim do mundo, mas nenhum deles conhecia o processo em sua totalidade, com exceção da idosa e, talvez, do menino ao seu lado. Dessa forma, a consciência do Fim era vaga e incompleta na mente de todos aqueles, como, de fato, a consciência dos fins costuma ser na mente daqueles que os promovem, em todas as épocas, em todas as sociedades. Naquele caso, porém, não havia enganação, não havia manipulação. Os mendigos sabiam, ainda que de forma turva, o que lhes esperava, mas viam no poder de Gosh uma demonstração de que os últimos dias, fossem quantos fossem, seriam melhores do que todos os anos que já se haviam passado. No mínimo porque, dessa vez, eram eles quem faziam as coisas acontecerem, enquanto os outros baixavam a cabeça e aceitavam as conseqüências. No fundo, esse é um desejo tão comum nos corações humanos que ninguém teria condições de julgá-los. Ademais, sentiam pelo garoto uma mistura de admiração e temor, e essa combinação é perigosa. Viam ali um potencial a ser trabalhado, e, embora soubessem dos riscos de tentar liberar tudo o que Gosh podia fazer, a tentação corromperia qualquer um, ainda que tivesse muito a perder. E eles, naquele morro, não tinham nada. Por isso, bradavam e bramiam e imploravam por mais milagres; uma multidão formando

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um único coro, um corpo apenas, composto por milhares de células que subiam lentamente o morro, ocupando, já, todos os lados da encosta, de forma que Gosh começava a ser acuado no cume. Após as primeiras tormentas, o garoto se surpreendera com a reação positiva daqueles homens, e percebera que alguma coisa não estava certa. Achava que se amedrontariam, mas não foi o que ocorreu. Agora, estava diante de uma série de catástrofes e de pessoas que pediam por mais mazelas que atingissem o planeta, e sentiu a alma despedaçar-se ao ver que aquele mundo de caos — em que mesmo a mais completa beleza das flores e das auroras era obscurecida pelos cataclismos — era obra sua, e não de mais ninguém. Percebeu angustiado que não havia a quem culpar por tudo aquilo, e lembrou-se com pesar de quando primeiro quisera tornar-se Deus, e de suas reflexões a cerca de como o mundo poderia ser mais belo. Seus braços, outrora abertos em desafio, agora encolhiam-se e cobriam a dor do rosto, mas ninguém parecia notar ou se importar. Pela primeira vez, percebeu que para os homens são os milagres, e não Deus, que importam, e embora não duvidasse mais de seu poder de mudar o mundo, sentia que não poderia mudá-lo para melhor. Estremeceu. Não havia o que fazer. A multidão se aglomerava pedindo milagres e ele não poderia desafiá-la mais, mas também não sabia o que fazer para satisfazer-lhes. De sua desolação, surgiu um véu negro que cobriu aos poucos o céu, como uma noite que chegava em pleno dia. O menino estava à beira do desespero, quando a Velha voltou-se para ele e colocou as mãos em seus ombros. Ele não sabia por que o gesto o tranqüilizava, mas ficou feliz que assim fosse. A mulher era sábia e parecia ter total controle do que estava acontecendo. Gosh se envergonhou por não ser como ela, mas aceitou com submissão que ela falasse em seu nome. E foi então que a mulher se voltou para os demais, falando em sua forma lenta e poderosa, como se uma civilização extinta falasse por aqueles lábios, o que deveria ser verdade, dada a idade indefinível dela.

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—Vocês pedem milagres! — Começou ela, e a multidão calou-se para escutar. Não havia somente mendigos no morro, depois de a confusão agregar centenas de curiosos e novos fiéis, mas a maioria a conhecia de longa data, e os novatos não demoraram a reconhecer nela uma figura que deveriam respeitar. — Vocês imploram por um novo mundo, mas vocês não conseguem ver que esse menino não está em condições de dar-lhes o que querem! Alguns murmúrios se fizeram ouvir em meio ao povo, mas Gosh relaxou os músculos, com um pouco mais de sossego. A Velha prosseguiu: —Não pode restar dúvidas de que estamos diante de Deus! — Disse, para mais alguns ruídos, agora de tímida aprovação. — Mas não podemos nos esquecer de nosso papel nessa peça. Sim! Todos nós desempenhamos papéis em uma imensa ópera, e não podemos esperar que tudo ocorra sem nossa intervenção, que uma resposta simplesmente caia do céu — disse. — Esse garoto fez muito por nós, nos deu tanto, e está disposto a nos dar tanto a mais. Mas para isso, precisamos dar a ele algo. A multidão calou-se novamente, Gosh retesou o olhar e a Velha deu um sorriso estranho, antes de prosseguir. —É hora de darmos a ele um sacrifício humano.

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6º Intervalo – Pintura J. D. Silva tinha tudo o que precisava para ser um grande pintor, ou seja, nada. Ele morava em uma casa feita de terra, rodeada por nada além de terra. Ele plantava legumes na terra, mas tudo o que nascia era seco e parco e pouco, e ele ficou bastante animado quando encontrou em um baú uns pincéis velhos que consertou com crina de um cavalo e umas telas que ele remendou com panos e uma tinta quase seca que ele diluiu em água e misturou como pôde para formar cores. E então ele pintou e era mesmo talentoso, e concebia coisas maravilhosas justamente porque não as tinha e só pintava o que era absurdo e incrível porque, no meio da terra, era só nisso que queria crer. Cada elemento da monotonia de sua rotina lhe escapava pelos dedos e o que ele produziu jamais poderia ser reproduzido por quem tivesse sido contaminado por uma realidade mais interessante. Viver uma experiência nos força a pensar nela da forma como ela realmente é, e somente por nunca ter experimentado nada é que J. D. podia criar. Era assim que o Destino de J. D. Silva pretendia levá-lo por uma vida de miséria seguida pela descoberta póstuma de sua arte e por séculos de glórias e elogios e premiações tardias. E ele estava apenas iniciando seus trabalhos na tela que acreditava que viria a se tornar a maior de sua Obra, pois nela imprimiria tudo aquilo que de mais fabuloso sua alma podia imaginar, quando vieram a chuva e as flores e por fim, as vacas, que encontraram a pintura já abandonada e o artista já arruinado.

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Último Ato (Gosh, gauche, posh et caetera)

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1º Movimento – Quinze dias depois Nada havia mudado. Depois de sair da cela, Thiago voltou a se integrar à batalha, ajudando os outros na infantaria. Marc, sem saber como proceder, o seguiu, tomou um uniforme, disparou alguns tiros no escuro e torceu para não ter acertado ninguém. A luta estava indefinida em meio à turbulência, e nas últimas duas semanas o céu tornara-se escuro sem voltar a clarear. Marc não parava de pensar na possibilidade de que a qualquer momento uma bomba nuclear despencaria do céu acabando com tudo aquilo, e não podia evitar um certo sentimento de alívio, exceto... Exceto pela lembrança de Sara, e de Marco e Linda, e de uma vida confortável, embora jamais valorizada por ele. Era estranho que, depois de tão pouco tempo fora de casa, já fosse difícil visualizar com precisão os rostos das únicas pessoas que lhe importavam. Tanto coisa acontecera naqueles últimos meses que era mesmo difícil pensar em sua vida antes da convocação, da guerra, das mudanças climáticas e, bem, das flores, e auroras, e... O cotidiano agora lhe parecia uma ficção inatingível, um passado que não lhe pertencia, algo tão improvável de ser restaurado que não havia motivação para tentar. Assim, ele disparava sem vontade, preferindo ficar escondido, sentado na proteção das trincheiras. Claro que isso não lhe trazia a melhor das reputações frente aos demais recrutas, mas a maioria sequer o notava, e nem os militares de mais alto escalão sabiam exatamente o que fazer depois de tudo o que ocorrera, então sua omissão só era reparada por Thiago, que sabia esconder o fato dos demais. Agora, o jovem ator parecia ter adotado definitivamente o novo papel, e empolgava-se nos tiroteios, expondo-se e cravejando inimigos como se tudo não passasse de um filme. —O pior — revelou Marc, certo dia — é que é realmente difícil lembrar-se de que os

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inimigos são reais. Você olha pra alguém pela mira de uma arma e é tão fácil disparar que é mais fácil comparar tudo isso com um videogame do que com a realidade. —Sim — respondeu Thiago pensativo; e depois, demonstrando uma reflexão que não condizia com seus atos: —, se não fosse o horror. —Então, por que você continua atirando? —O que mais eu poderia fazer? Sem resposta, Marc encolheu os ombros e deixou-se deslizar sentado no chão, resignado. Libertara o amigo motivado pela promessa de que poderia fazer a diferença, mas logo percebia que tudo não passava de uma ilusão, de forma que ele estivera certo o tempo todo: era inútil tentar. Com o cair da noite — ou o que os relógios biológicos dos soldados calculavam ser a noite, já que, pela iluminação, não se podia dizer —, vieram os momentos de sossego, em que outro turno assumia e eles podiam retornar para as ruínas em que haviam firmado acampamento. Marc olhou para o céu negro, cortado somente pelas faixas de luz dos campos magnéticos que ainda bailavam, e sentiu-se vazio. —Vou dar uma volta — falou, e saiu antes que Thiago respondesse, de forma a deixar claro que não queria companhia. Todo mundo precisa de um tempo sozinho, e Marc, que passara a vida toda assim, começava a se sentir sufocado com a presença constante de Thiago. Por isso, abandonou a casa e andou um pouco, tentando evitar ser notado enquanto caminhava. Na verdade, o que mais queria era se lembrar dos rostos que deixara para trás. Era revoltante que não pudesse imaginar os detalhes. Foi então que, ao longe, ouviu um ruído. Pensou em avisar alguém, mas sua passividade logo prevaleceu, e ele imaginou que fosse algum recruta voltando de uma excursão a alguma moita que lhe permitisse aliviar o intestino, o que era bastante comum. Mesmo assim, escondeu-se atrás

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da parede de uma casa, sem querer ser visto. Não possuía amigos além de Thiago, e por isso surpreendeu-se quando o homem que se aproximava chamou seu nome. —Marc? Marc? — Repetia diante da ausência de resposta. Por fim, o garoto, espantado, decidiu se manifestar, fazendo um ruído proposital que chamasse a atenção do estranho. — Ah! Marc, é você? Marc decidiu que não fazia mais sentido ficar no esconderijo, então decidiu expor-se. E o que viu era assustador. Era um homem, claro, mas só em um sentido muito amplo do termo. Vestia trapos, estava imundo, a barba e o cabelo grandes, sujos e emaranhados, a postura curva e o corpo frágil e machucado. Mas muito pior era seu rosto, ossudo e arranhado, doente e sofrido, mas terrivelmente familiar. Marc sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha, enquanto esperava por alguma explicação. —Você precisa voltar — disse o homem. — Por Sara.

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Inserção (aquilo que poderia ter sido um intervalo se não fosse tão importante) – Desculpas tardias e Reflexões sobre espelhos Na maioria dos casos, é difícil aceitar que toda situação tem mais de um lado, e mais difícil ainda é compreender que, em geral, tudo tem mais de um lado certo. O ser humano dificilmente entende alguém que não seja ele mesmo, e isso deve ser levado em consideração sempre, para que se compreenda, por exemplo, a discriminação quanto à chatice dos físicos. Basta observar que, para eles, os leigos devem soar insuportáveis, assim como os jovens não toleram os costumes dos velhos e vice e versa. A humanidade costuma se dividir em grupos com afinidades comuns, porque assim podem se compreender de alguma maneira, e, juntos, dedicam seu tempo à não-compreensão das demais “tribos”. Isso não é um problema do ser humano, nem um defeito. É uma característica. Além disso, é importante observar que, por vermos o mundo de dentro de nós mesmos, o ser humano não consegue enxergar a si próprio, de um modo geral e literal. É muito mais fácil observar os outros, que nos rodeiam, e os vemos sempre sob nosso próprio ponto de vista. Não há como mudar isso, e mesmo que você tente analisar uma questão pelo ponto de vista de outra pessoa, acabará formando uma opinião própria quanto à opinião alheia. Nesse contexto, tornam-se essenciais duas características dos espelhos. A primeira é que ele nos permite mudar nosso foco de observação. Ele nos deixa ver mais além, às vezes, ou revela coisas que estavam escondidas, invisíveis a partir de nosso ponto de vista habitual. Através de um espelho, podemos ver o que está atrás de nós sem pararmos de olhar para a frente; podemos notar o que se esconde. A segunda característica é que ele nos dá o poder de vermos-nos. Com um espelho, podemos nos olhar pelo lado de fora, e nos ver como os outros nos vêem: como um ser humano,

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também, repleto de falhas e de impurezas, além de adquirirmos parte da imparcialidade que nossa própria mente nos nega na hora de nos julgarmos. Poucas pessoas julgam a si próprias como julgam aos demais. A maioria cede ou à tentação de fazer vista grossa aos próprios atos indignos, ou ao orgulho de impor rigor maior nos auto-exames. E é justamente isso o que o espelho nos tira. Com um espelho, vemos as rugas que o tempo nos trouxe, vemos as cicatrizes que a vida deixou, e vemos o brilho que nossos olhos nos escondem. Metaforicamente, existem situações em nossas vidas que agem exatamente como espelhos. Situações em que percebemos que o mundo não estava sendo injusto conosco, apenas estava olhando para nós da mesma forma que olhávamos para ele. Nessas ocasiões, temos a chance de ver que várias pessoas que condenávamos por esperar muito de nós, na verdade, não cometiam crime maior do que o de acreditar em nossas forças. Nesse mesmo sentido metafórico, pode-se dizer que, diante do mendigo que lhe falava, Marc estava na frente de um espelho.

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2º Movimento – Só você pode salvar o mundo! Marc correu, já sem muitas preocupações quanto a quem o poderia ver em meio à escuridão. Havia um sentido de urgência, agora. Pela primeira vez em sua vida, ou pelo menos no tempo em que se lembrava, ele se sentia realmente animado com alguma coisa. Assim, percorreu o caminho que o separava de seu alojamento, entrou no quarto tentando conter a afobação para não acordar os demais e cutucou Thiago, que fingia que dormia. O jovem ator quis demorar mais para acordar, encenando uma sonolência insistente, mas a curiosidade quanto ao que motivava o amigo era maior do que a devoção à arte. Portanto, inclinou-se para ouvir o que Marc tinha a dizer. —Tem um cara aí fora! — Disse ele, agitado. — Um mendigo, eu acho. Ele me conhece de algum jeito. Algo a ver com cálculos milenares, ou algo assim. —Cálculos? —É! Ele e mais uma legião de miseráveis vêm calculando todas as possibilidades do que pode acontecer com o mundo desde que o tempo é tempo, ou coisa do gênero. Parece que conseguiram juntar todos os fatores que influenciam a humanidade e assim começaram a prever tudo o que acontece pelo mundo. E o que ainda vai acontecer. —Marc, cara, tem certeza de que você não está sonhando, ainda? Juntaram todos os fatores? Isso não faz o menor sentido! —Ele me mostrou... Em parte. Ele disse que são milhares de pessoas se dedicando a isso, e que fazem isso desde sempre. Quando a primeira pessoa foi jogada à sarjeta, ela se perguntou: “O que diabos eu estou fazendo aqui?”, e foi assim que tudo começou. Desde, sei lá, a Babilônia. Ou antes; desde que inventaram o álcool, talvez. Ou o dinheiro. —Ok, não quero cortar a sua animação — disse Thiago, que, de fato, se sensibilizava

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com a comoção do outro, e não queria empurrar o amigo rápido demais à sua inércia peculiar —, mas você não acha isso muito estranho? —Sim! Quero dizer, eu achava, mas ele sabia tudo sobre mim — sobre nós. Ele sabia sobre tudo, sobre a guerra, e nosso encontro na fila, e sabia que você tinha sido preso. Sabia até sobre a bomba. —Sobre a bomba atômica? —É. Ele disse que falta pouco tempo. E que o mundo vai acabar. —Grande previsão! Marc lançou um olhar reprovador a Thiago, com a insegurança típica de quem faz algo pela primeira vez. Thiago deu de ombros, e balançou a cabeça indicando que o amigo podia prosseguir com sua história. —Olha — disse Marc —, se você não acredita, tudo bem. Mas lembre-se que normalmente as coisas eram o contrário, e você era quem me incentivava a fazer alguma coisa. Pois bem, surgiu um cara do nada, que sabia tudo sobre mim, e dizia que eu era o único que poderia fazer alguma coisa para impedir o fim do mundo. Thiago fez uma força para não rir, sabendo que era verdade o que Marc dissera sobre ter que fazer alguma coisa. Marc passara muito tempo desacreditado, e Thiago não queria ser o responsável por jogá-lo de novo naquela situação. No entanto, não queria ver o amigo tão iludido. —Certo — disse Thiago, em tom conciliador —, então será que você poderia me levar a esse homem? Quero dizer, eu adoraria conhecer quem te animou tanto. E saber o que ele tem a dizer sobre mim. Marc concordou e guiou o amigo, puxando-o pelo braço. Saíram para a noite negra e caminharam por alguns instantes pelo acampamento, até ficar claro que não havia ninguém lá.

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Marc olhava para todos os lados, incrédulo, e um pesar profundo caiu sobre Thiago. Talvez fosse melhor não ter exposto o amigo àquilo, tê-lo segurado no alojamento e fingir que acreditava. —Eu — balbuciou Marc — juro... —Não tem importância — disse Thiago, pondo a mão no ombro de Marc. — Venha, vamos dormir logo, pois amanhã acordamos cedo. Além do mais, não é bom bobear aqui. Estamos em uma guerra, ainda. —Não! — Gritou Marc, empurrando violentamente a mão de Thiago. — Você não entende! Você não acredita! O ator olhou, perplexo, a postura inesperada do colega. Não disse nada, e esperou que Marc se recompusesse e continuasse a falar. —Eu tinha certeza. Foi a primeira vez em que acreditei de verdade. Em mim, no mundo... Sabe o que é isso? Quando finalmente alguém me convence a fazer alguma coisa, descubro que era tudo mentira. Thiago trocou o pé de apoio, enquanto pensava no que dizer. Realmente, não estava preparado para aquilo. Por fim, falou: —Não precisa ser. Pode ter sido real. —Qual é? Não tem ninguém aqui! —Não disse que foi corpóreo — corrigiu Thiago. — Disse que foi real. —Ah, sei. —Sério. Olha, uma coisa não precisa ser real fisicamente para existir. Um sentimento não existe? Uma memória não existe? E ainda assim, cadê eles? Eles não podem ser vistos por mais ninguém, mas quem duvida da existência deles? —É diferente — censurou-o Marc.

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—Não é. Os sentimentos existem porque provocam mudanças nas pessoas. É a mesma coisa. Esse cara provocou uma mudança em você. Ele existe só por causa disso. —Bom, agora eu mudei de volta. —Mas não deveria. Seja quem for esse homem que apareceu para você, ele falou uma coisa verdadeira. Mais verdadeira ainda se tiver saído de você mesmo, do seu subconsciente. Afinal, quem mais saberia do que você é capaz? —Isso é ridículo. —Não, não é. É óbvio, não é? Seja como for, eu acredito. Acredito que você pode salvar o mundo.

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3º Movimento – Ao pai, à filha

—Como assim você não me contou isso antes? — Perguntou Thiago, verdadeiramente
indignado. — E eu pensando em me matar! —Desculpe... Eu não lembrei! Não julguei relevante! —Não julgou relevante? — Ambos caminhavam, agora. Haviam fugido do campo de batalha, e correram por quilômetros com medo demais para conversar. Depois, puderam se acalmar. — Isso é só o que importa! É a grande chance de mudarmos isso! De você cumprir o que o cara falou! Marc ficou em silêncio. Sentia-se envergonhado, e não por ter se esquecido de pensar em algo tão básico. Ele sabia muito bem por que não havia pensado nisso. Porque não acreditava no pai. Ele sabia o que um movimento como o que Marco planejava podia fazer. Ele já tinha visto aquilo antes, pelo menos em livros de história. Uma mobilização grande podia mesmo mudar as coisas. E se ele não tinha vontade de aparecer, de ser parte do show... Agora ele conhecia a pessoa perfeita para esse papel. Participar de algo assim era mais do que Thiago poderia sonhar, e Marc achava que tinha que ter mencionado isso havia semanas. E, no entanto, só lhe ocorrera depois do que Thiago falara sobre o tal mendigo. Podia ser tarde demais, mas valia a pena tentar. Por isso, voltaram a correr. A rua, as casas, aquele portão, tudo lhe era familiar. Depois de dias de viagem a pé ou tomando carona com pessoas que, querendo fugir do caos, não sabiam que estavam indo mais afundo nele, enfim algo que o remetia à antiga vida. Mas ainda assim, o coração pulsava de um

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jeito estranho. A verdade era que estava morrendo de medo. Depois de meses fora de casa; depois de enfrentar o treinamento de um exército e o horror do campo de batalha, estava com medo de encarar sua família, de olhar nos olhos do pai e enfrentar o estrago que causara. Estava com medo de assumir seus erros e se responsabilizar pelo que se passara, e esse medo o impedia de estender o braço até o batente da porta à sua frente. Thiago compreendia, em parte, esse sentimento, e por isso permaneceu em silêncio, observando, apenas. Finalmente, Marc abriu a porta e encarou definitivamente que tinha retornado. Sua casa estava igual a antes, e isso foi bastante impactante para ele, depois de toda a bizarrice no mundo ao redor. Por um instante, questionou sua decisão, mas sabia que não havia volta. Por isso, entrou em silêncio, sendo recebido de igual maneira pela mãe e pelo pai, ambos tendo retornado ao estado de letargia em que passaram tantos anos, mas que distinguia tanto da forma como agiam pouco antes de Marc os ter abandonado. O ambiente continuou quieto por bastante tempo, até que Marc tomou coragem para falar. —Eu voltei. — Não houve resposta, mas ele não esperava que fosse diferente. — Eu estava errado e voltei. Agora, Marco virou-se para ele, mas ainda não havia vida em seu olhar. Linda suspirou e Marc olhou-a com esperança, mas ela não disse nada. —Este é Thiago — disse Marc. — Acho que ele pode ajudar. Um novo silêncio pousou sobre o cômodo, mas depois de algum tempo, o pai decidiu falar algo, o que, de certa forma, foi um alívio para Marc. —Ajudar? Não há ajuda possível —Há! — Disse Marc. — Ele é ator. Ele sabe falar com as pessoas, é exatamente o que você precisa!

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—Precisava, Marc. Precisava. Marc recebeu as palavras em silêncio, sem saber o que responder. Reconhecia a verdade na decepção do pai, e não sabia como cobrar dele uma empolgação que o próprio filho nunca tivera. Felizmente para ambos Thiago decidiu que era hora de intervir. —Marc me contou sobre tudo o que você fez. Sobre o movimento que você organizou. Achei demais! —Mas não funcionou — disse Marco, sem ser afetado pelo orgulho. —Porque não chegou a ser realizado por inteiro! Mas você não pode parar agora! Quero dizer, e as pessoas que você convocou? E todos os que quiseram ajudar? —São fracassados como eu. —Fracassados? Eles vieram do mundo todo por acreditarem em algo. E em algo bom! E você? — Thiago aproximou-se, colocando uma mão no braço de Marco.— Você conseguiu colocar nessas pessoas uma crença tão forte! Como pode se dizer fracassado? Foi por acreditarem em você que elas vieram e se mobilizaram. Marco sorriu diante da empolgação do menino, e Thiago relaxou um pouco. Sabia quando tinha feito um trabalho bem feito. Marc olhou ao redor, e não pôde conter um sorriso. Fora difícil despertar o interesse do pai, mas agora estava feito. O homem estava animado, ligando para os amigos, combinando datas e atividades. Thiago, também, estava empolgadíssimo; seria o show da sua vida. Um espetáculo de verdade. Linda voltava a se distrair com ornamentos e fogos de artifício, e Marc se perguntava qual a chance de eles se destacarem em meio às cores do céu boreal. Não importava, na verdade. Marco desligou o telefone.

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—A maioria está confirmada, novamente! — disse. — Richièv não atende o telefone do hotel e os Wutsnieck voltaram para o país deles, mas ainda assim, teremos bastante gente. E o pai do menino — disse, lançando um olhar maravilhado para Thiago — nos garantiu uma matéria no único telejornal que ainda funciona! Transmissão internacional! Ele olhou para a mulher, dedicada em seus afazeres, e sentiu-se realmente feliz. Depois, desviou os olhos para o filho. —Tem certeza de que não quer participar? — Perguntou. — Poderíamos pensar em alguma coisa para você fazer. —Tenho certeza — disse Marc, com um sorriso paciente. — Eu também farei minha parte, mas em outro lugar. Ele sentia um desejo sincero de ficar com a família e o amigo, mas tinha algo mais importante para fazer. Quando o mendigo apareceu, ele deixou bem claro que Marc tinha um papel a cumprir, e se o garoto estava disposto a acreditar nas palavras do indigente — fossem elas ou não fruto do seu subconsciente —, então era melhor acreditar direito. —Eu tive medo — disse Marc, meio inesperadamente. — Eu achei que era coragem, mas era medo e eu estraguei tudo. Ele olhou para o pai, encabulado. Mas Marco sorriu e pôs a mão no ombro do filho e não precisou dizer nada para perdoá-lo. A cena durou quase um segundo, e então Marc saiu correndo pela porta, tentando esconder as lágrimas. Tinha que ir logo. O mendigo mencionara um lugar ao sul, um morro com vacas e uma multidão. Parecia estranho, mas nenhum fato estranho era capaz de surpreender Marc a esta altura. Além disso, foi para esse lugar que o mendigo dissera que Marc tinha que ir, e não a nenhum outro. Havia um motivo bem definido pelo qual o menino, segundo o indigente, precisava

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abandonar o campo de batalha. Ele precisava voltar por Sara.

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4º Movimento – O primeiro encontro Tinha parecido uma boa idéia, a princípio, mas agora Marc via que as coisas não eram assim tão fáceis. Seguir para o sul, encontrar Sara, salvar o mundo. Ele havia previsto dificuldades na terceira etapa, mas se percebeu incapaz de cumprir até mesmo a segunda. O mendigo tinha falado sobre um morro e uma multidão, dando a entender que tudo aquilo seria fácil. Só que quando mais o garoto seguia para o sul, mais fortes pareciam ser os efeitos das anomalias temporais, e a cidade era grande demais. Em certo momento, Marc se encontrou praticamente flutuando, tal a altura a que haviam chegado as águas em certas ruas. Desesperado, ele se debruçou encostado a um muro e pensou em desistir. Em situação normal, já seria difícil localizar Sara em uma cidade tão grande, mas agora as coisas estavam ainda piores. Suspirando, Marc pensou no encontro com o mendigo e nas conversas com Thiago e com o pai, e pensou que não podia parar agora. De qualquer forma, era Sara quem estava em jogo. A única pessoa com quem se sentira confortável por anos, a única companheira que conseguira encontrar. Ele precisava achá-la, de forma que continuou andando, resignado, sem saber exatamente para onde ir. Seguiu por ruas estreitas tentando não chamar a atenção, visto que quanto mais avançava, mais se encontrava com vândalos quebrando tudo o que encontravam. Considerando que o mendigo lhe havia dito para seguir o caos, julgou estar no caminho certo, especialmente quando as vacas começaram a surgir em número cada vez maior. Como os animais pareciam seguir uma mesma direção, Marc decidiu acompanhá-los. Em pouco tempo, as ruas começaram a se tornar íngremes, formando descidas cada vez mais acentuadas, pelas quais a água escorria em violência crescente. Mais alguns metros, e Marc teve

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que montar em um dos bovinos para continuar o caminho, surpreendendo-se ao ver que o animal — que de fato parecia sob hipnose, enquanto seguia o caminho — sequer percebeu quando o garoto sentou em seu lombo. A vaca cambaleava contra a torrente, trombando com outros animais e exigindo de Marc certas precauções. Além disso, a cada passo acelerava o ritmo, correndo com urgência crescente. Marc se segurava como podia, sentindo os ossos do animal batendo contra si durante o galope. De repente, viu surgir uma onda que varreu a rua, fazendo o animal escorregar. O garoto saltou como pôde, salvando-se de ser esmagado pelo animal que caía. Depois, foi sendo carregado pelas águas, agarrando-se a qualquer coisa que pudesse, sem conseguir conter o movimento. Finalmente, esticando as pernas para amortecerem o impacto, Marc conseguiu parar colidindo com um muro, e, apoiado nele, levantou-se. Tentar descer a rua a pé seria suicídio, mas ele tinha certeza de que era para lá que deveria ir. Não podia desistir, mas não teria como continuar a menos que tivesse alguma ideia. Assim, olhou ao redor, em busca de alguma solução. E, por meio de um acaso particularmente conveniente, percebeu que, poucos metros acima, na mesma rua, havia uma loja destinada à prática de esportes radicais. Um sorriso estampou-se-lhe no rosto quando lhe veio à mente a palavra “rafting”. Richiév e Clarissa estavam, agora, após semanas errando pelas ruas, agarrados a um poste, cerca de um metro e meio acima do chão. Estavam flutuando, na enchente, junto com mais vários outros. Depois de tanto esforço, parecia que simplesmente não teriam como ir atrás do filho, já que quanto mais se aproximavam do local, mais difícil era continuar — e, agora, parecia ser mesmo impossível. O vento fustigava toda a região, soprando ininterruptamente, levando tudo

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aquilo que a água não arrastava. E esta, por sua vez, carregava até mesmo carros, tamanha sua ira. Ao lado mesmo de onde estavam, passavam pessoas que não deram a sorte de encontrar algo em que se agarrar; passavam desesperadas, semi-afogadas, gritavam somente na proporção em que lhes permitia a falta de ar. Crianças passavam rápidas como bólidos, seguidas por suas mães desesperadas, e Clarissa e Richiév compreendiam suas dores e delas compartilhavam. Encontravam-se em situação complicada antes, já quando só precisavam encontrar o filho. Essa era uma causa complicada, mas foi uma missão em que puderam se embrenhar. Mas agora não poderia haver nenhuma esperança nesse sentido, porque estavam literalmente ilhados e não poderia haver nenhum modo de se locomoverem. Clarissa se deixou levar pela tristeza decorrente dessa certeza, de forma que, no começo, sequer sentiu os puxões que Richiév lhe dava. Quando, porém, os puxões se tornaram mais fortes, dedicou-lhes alguma atenção, até perceber o que os motivava: do alto da rua vinham, se aproximando veloz e quase descontroladamente, um grupo escandaloso de homens e mulheres. Eles vinham em um bote.

Entrar na loja não foi difícil. Poucas portas de vidro continuavam intactas na cidade e embora aquela rua estivesse livre de vândalos, estava evidente que eles já haviam passado por ali. Felizmente, não haviam levado tudo, e Marc não teve problemas em encontrar um bote inflável que pudesse encher usando uma bomba encontrada na mesma loja. Sorriu ao pensar que estava sendo fácil demais, mas essa ideia passou assim que pôs os pés na rua, segurando o bote. A água descia violenta, a rua era irregular e havia uma centena de pessoas e animais servindo de obstáculos pelo caminho. Em sã consciência, Marc jamais se lançaria a uma queda tão vertiginosa, mas agora não lhe restava alternativa, e, diante de tudo o que ocorrera, era difícil ter

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certeza de que se estava em sã consciência. Por isso, correu com o bote, jogou-o sobre a água ainda o segurando e saltou para dentro, encolhendo-se para se proteger dos choques que certamente viriam. Por um instante, perguntou-se como faria para parar quando assim o quisesse, mas logo viu que essa preocupação de nada lhe serviria por enquanto. “Cada coisa no seu tempo”, pensou, e depois xingou quando o bote deu um pulo depois de trombar com uma vaca. Agora, já havia mais gente com ele. Homens e mulheres haviam encontrado formas de subir no bote, única alternativa para escapar do caos das águas que cascateavam pelas ruas. Isso não tornara o percurso mais fácil — pelo contrário, o bote perdia sua estabilidade com a agitação dentro dele, e cada vez mais água entrava —, mas pelo menos era bom saber que Marc, literalmente, não estava mais sozinho naquele barco. Depois de reconhecer algumas ruas pelas quais já havia passado, Marc conseguiu calcular sua localização na cidade. Não tinha controle quanto ao caminho, mas sabia que as ruas continuariam descendo até chegar a um vale, onde provavelmente seria mais fácil parar o bote. Lá, talvez fosse mais fácil caminhar, visto que havia avenidas mais largas e planas. E logo depois, havia o morro que marcava o término da zona urbana da cidade. Marc teve certeza de que era o local a que o mendigo se referira, e isso o encheu de motivação. Nesse exato instante, passaram ao lado de um poste do qual saltou um casal de estrangeiros, que se juntou aos demais ocupantes da embarcação. Marc não poderia saber, mas compartilhava com eles mais do que o local para onde se dirigia.

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5º Movimento – Antes de avançarmos quinze dias (ou “Um capítulo que ainda importa”) Foi um desses momentos em que o tempo parece estacionar. Um silêncio pesado pairou sobre a multidão, e Gosh perdeu completamente a capacidade de falar. Apenas ficou sentado, sentindo vagamente as lágrimas que escorriam pelo rosto. As coisas haviam, definitivamente, fugido de controle. E isso ficou claro quando o povo, rompendo o silêncio, lançou um urro de aprovação. Pobre Homem, Filho de Deus e um terceiro indigente, chamado Some do Meu Quintal (que fora batizado por uma velhinha encantadora, católica devota e generosa com os semelhantes) se aproximaram da Velha, atendendo a um gesto dela. As previsões seguiam perfeitas, e isso os excitava, de forma que serem escolhidos para providenciar o sacrifício seria uma honra enorme. Por isso, andaram com jeito solene, a despeito das roupas rasgadas e do corpo imundo. Ao chegarem perto da Velha, se debruçaram formando um círculo, para que pudessem ouvir as ordens em meio ao barulho dos demais. Com calma, e esboçando um sorriso secular, a Velha dirigiu-se, enfim, a eles. —Vocês precisam buscar a garota — disse ela. — Creio que já sabem o endereço, não? Já devem tê-lo previsto — decretou, e depois virou-se para Pobre Homem, dirigindo-lhe a palavra. — Exceto você. Você não o previu, correto? Eu sabia que não. Porque você deve ficar. Vão, vocês! — Ordenou, sinalizando com o braço em direção a Filho de Deus e Some do Meu Quintal. Pobre Homem encarou-a, perplexo. Durante muito tempo, fora o mais próximo da Velha, segredara-lhe ao ouvido incontáveis vezes, ouvira em primeira mão o resultado de certos cálculos. E agora, lhe era tirado o privilégio de buscar a oferenda de seu Deus? Isso não fazia o menor sentido! Protestou. Implorou para que ela reconsiderasse, mas ela se manteve impassível até que

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ele se acalmou. Então, ela olhou-o com ar compreensivo, e começou a explicar. —Você não deve ir, Pobre Homem, porque não é seu destino. Não é esse o futuro para o qual os acontecimentos passados direcionaram você. Você tem uma missão importante para fazer. Uma missão essencial diante dos fatos e do fim do mundo. Por isso, você não podia ir. Ele olhou para ela com ar intrigado, antes de ela concluir: —Além disso, seria crueldade mandar você trazer sua própria filha para o sacrifício. Pobre Homem hesitou. Quando fugira correndo do morro, ninguém o tentou impedir, mas agora ele já não sabia o que fazer. Não poderia ir para casa impedir o rapto da garota, porque os outros dois eram mais fortes do que ele. Além disso, temia encarar a esposa, embora não ousasse admitir esse motivo. Por outro lado, não havia autoridade a quem recorrer em meio ao caos em que a cidade se encontrava, e ele não tinha muitos amigos capazes de ajudá-lo nas atuais circunstâncias. No mais, precisava de alguém com algum potencial para influenciar nos eventos ligados ao fim do mundo, e deveria ser alguém que se interessasse em ajudar Sara. Mas ela não tinha amigos. Exceto aquele jovem que costumava passar o tempo com ela. Foi preciso algum esforço de memória para evocar os cálculos referentes a ele, e um estalo de animação veio quando Pobre Homem se lembrou dos detalhes. Os mendigos sabiam coisas sobre quase todo ser humano, mas os cálculos sobre Marc eram particularmente detalhados em virtude da conexão com Marco, cuja tentativa de promover um evento pacifista tinha potencial para influenciar bastante na guerra. No entanto, Pobre Homem se surpreendeu ao perceber que os cálculos referentes ao garoto eram interrompidos abruptamente. Por ordem da Velha, o futuro do garoto parou de ser previsto pouco depois do começo do combate ao norte, e Pobre Homem não sabia nada sobre o

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destino do rapaz. De qualquer forma, decidiu que ele viria a ser uma das variáveis a ser calculadas, caso alguém quisesse retomar essas contas. Porque só Marc podia ajudá-lo.

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6º Movimento (aquele em que há o “Resumo da Ópera”, mais dois encontros, e em que se encerra a história) – O Fim do Mundo E de repente, é isso. As pessoas gritando pelas ruas, sujas de sangue bovino; o caos urbano; Deus acuado em um morro, oprimido por seguidores que não se satisfazem; uma garota prestes a ser sacrificada; um evento pacifista sendo reorganizado; um mendigo e um menino querendo salvar a tal garota e, talvez, também o Mundo; uma guerra generalizada e, por fim, uma bomba nuclear com lançamento irremediável passível de ser contado em horas, e já não mais em dias. Marc chegou aos pés do morro encharcado, e já não se importava com a água que descia pelas encostas. Richiév e Clarissa também saíram do bote, ensopados, e lançaram um olhar firme para a frente. Milhares de pessoas estavam entre eles e o pico, no qual algo parecia estar acontecendo. Eles começaram a subir a colina, mas logo tiveram uma queda no ritmo do avanço por não conseguirem passar pelo meio das pessoas. E, de repente, um grupo de mendigos gritou e apontou na direção deles, e saíram correndo em perseguição. Os três tiveram pouco tempo para se dar conta do que ocorria e correr, tentando ao mesmo tempo fugir daqueles que os seguiam e manter o caminho em direção ao topo do morro. —Separem-se! — Gritou Richiév, empurrando a esposa no exato instante em que um mendigo se atirava sobre ela. Ele e o indigente acabaram se chocando e rolando agarrados, encosta a baixo. — Apenas chegue lá em cima e tire ele dali! — Bradou para a mulher, enquanto se levantava tentando imobilizar o outro, ao perceber que ela hesitava em deixá-lo para trás.

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Enquanto isso, Marc corria na direção contrária. Hordas de mendigos corriam do topo do morro em sua direção. Ele nunca fora muito bom em esportes, mas esse não era o momento para se importar com suas limitações, pensou, enquanto se lamentava por nunca ter jogado rugby. Com certeza, seria útil agora. Ele saltou um mendigo que tentava segurar suas pernas e depois parou atrás de um grupo de devotos que não entendia muito bem o que estava se passando, visto que nem todos no morro compartilhavam os conhecimentos dos cálculos dos mendigos. Usando uma mulher desesperada como escudo, Marc ousou avançar para cima da colina. Depois, empurrou-a sobre um grupo que se aproximava, derrubando-os e pulando mais alguns metros para cima. Os mendigos haviam recebido carne e água, mas ainda eram fracos em comparação com o garoto que acabara de passar semanas com o exército. Marc surpreendeu-se ao agradecer a autoridade de Otaviano nos exercícios e então empurrou mais dois mendigos que o agarravam. Uma dezena deles havia se concentrado sobre Richiév, que lutava em vão para se levantar. De repente, o homem saltou deixando todos para trás e atraindo mais atenção. Aproveitando-se da distração e do tumulto gerado pelas outras pessoas que aguardavam, Clarissa também avançava pela encosta. Ziguezagueando por entre os meros curiosos, conseguiu se afastar dos perseguidores e subiu rápido. Com exceção de Richiév, que mais uma vez era dominado por dezenas de mendigos, eles avançavam com sucesso pelo morro, e em um instante contavam com o apoio de alguns dos presentes que, como se acordados de repente de uma alucinação, percebiam o horror do sacrifício que se realizaria. De repente, Clarissa já era capaz de ver Gosh, e seu coração pulsou com tanta força que ela achou que era um enfarte. O menino estava acuado e claramente chorava. Ao seu lado, uma mulher que mais parecia uma bruxa se erguia com um sorriso sinistro no rosto. E, mais

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além, visível também aos olhos de Marc, estava Sara. Sara. Ela estava deitada sobre uma mesa de madeira, amarrada pelos braços e pernas. Ao seu lado, dois homens seguravam lâminas sujas e retorcidas. Ambos olhavam para a bruxa como se esperassem apenas uma ordem para concluir tudo aquilo. Por enquanto, a mulher esperava, mas não era possível confiar que ainda houvesse muito tempo. Marc correu mais. Otaviano olhou com os olhos pesados para o céu negro. Agora, era definitivo. Cinco aviões haviam saído de três diferentes países, todos eles carregando as armas nucleares, para disparar em cinco pontos diferentes do planeta. O coronel duvidava que o planeta pudesse sobreviver àquilo. Poucos metros além, os homens ainda se matavam com metralhadoras e granadas, mas tudo parecia pequeno demais diante do que estava prestes a acontecer. Majores, generais e demais oficiais se juntavam a Otaviano agora em uma das casas, diante de um rádio que sintonizava mal em meio ao caos eletromagnético que enchia os céus de auroras. Eles ouviam com expectativa as notícias sobre a guerra e sobre o avanço inexorável das bombas. A cada nova frase pronunciada em meio aos chiados, todos prendiam a respiração. Por enquanto, podiam respirar aliviados após ouvir os comentários, pois se tratavam somente de dados sobre navios afundados e aviões derrubados. Mas por quanto tempo isso duraria? Quando a Velha deu o sinal, Marc ainda estava na metade do caminho. Ao ver a mão erguida da mulher, engoliu em seco, mas ainda não era o momento de Sara morrer. Os dois

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homens com as lâminas começaram uma espécie de ritual e Marc apressou-se. Nesse instante, Gosh levantou-se esboçando um protesto, mas foi logo retido por dois outros mendigos que atenderam à ordem silenciosa da Velha. Seguravam-no com cuidado e reverência, como se segura um doente ou alguém muito fraco, mas seguravam-no de qualquer maneira. Clarissa retesou os músculos dos ombros, empurrou algumas pessoas à frente e também correu com mais forças. Porém, conforme avançavam, mais se aproximavam do grupo mais condensado de mendigos, e todos se viravam para eles, prontos para defender o prosseguimento do ritual. Gosh tentava se insurgir, tentava dizer-lhes que aquela não era a sua vontade, mas não tinha forças. Haviam exigido muito dele e ainda exigiam. Ele queria fazer algo, mas não podia e encolhia-se ainda mais, porque isso não combinava com sua onipotência. Ele podia criar vida e mudar o mundo; por que não podia salvá-los? E então, Marc sentiu os braços agarrando-lhe os ombros, conforme invadia a massa de indigentes. Ele escorregava na lama e mal podia respirar. A cena parecia seguir em câmera lenta, com mais e mais homens segurando o jovem, mas a cada vez que Marc caía, arrumava uma forma de se levantar novamente e avançar mais alguns metros. Clarissa, alguns metros além, fazia o mesmo, já com as roupas rasgadas e os olhos mareados, mas a determinação inabalável. Cada metro era mais difícil que o anterior, mas seguiam. E então Clarissa saltou, sentiu puxarem-lhe as pernas e caiu, mas ao erguer os olhos, percebeu que já não havia ninguém entre ela e a elite formada pela Velha e seus ajudantes mais próximos. Marc também alcançou tal patamar, empurrando dois mendigos que o seguravam. E, como se houvessem rompido alguma barreira invisível, agora podiam levantar-se e caminhar sem que ninguém os tentasse impedir. Clarissa correu para perto de Gosh e não entendeu por que os mendigos não a impediram

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de abraçar o menino. Também não se importou com isso. Bastava-lhe ter o filho entre os braços. —Eles querem tanto! Tanto a mais do que eu posso dar! — Gemia incoerentemente o menino, mas a mãe lhe apertava entre os braços e secava-lhe as lágrimas. —Não, não! Mamãe está aqui! Está tudo bem! — E as lágrimas desciam, confundindo-se com a água da chuva ininterrupta. Do outro lado, porém, Marc notou o gesto da Velha que fez cessarem os esforços dos seus guardas. O menino se aproximou dela com passo firme e um olhar tomado de uma determinação que ele nunca julgara possuir. Porém, de repente, diante da magnitude da mulher, sentia-se pequeno e vulnerável. —Por quê? — Perguntou, enfim. —Porque era preciso — respondeu ela com sua voz cavernosa, e sorriu lentamente. — Porque toda história precisa de vilões. —Mas do que você está falando? —Da vida. Alguma coisa precisava ser feita e infelizmente, uma vez mais, tivemos que ser o lado ruim. Mas acredite, foi por uma boa causa. —Boa causa? — Indignou-se Marc, e então ele virou-se de repente para Sara, correndo para ela. — Como essa causa pode ser boa? — Perguntou, empurrando Filho de Deus e Some do Meu Quintal e abraçando Sara. —Eu não espero que você entenda nem nos perdoe — disse a Velha. — Fiz o que precisava ser feito e só me arrependo de, para isso, ter tido de manipulá-los — continuou, indicando com a cabeça os mendigos. — Tive que esconder uma parte importante dos cálculos — acrescentou, dando de ombros. Marc pensou se o gesto indicava uma resignação quanto ao que ela tivera que fazer ou se ela simplesmente não se importava com o fato de que ele nem imaginava do

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que ela estava falando. Por fim, ele decidiu tirar logo Sara dali antes que aqueles malucos mudassem de idéia. A Velha, porém, lançou mais uma frase que lhe deixaria pensativo. — O importante é que alguém saberá a importância do que fizemos.

—Os aviões — disse o rádio, fazendo com que os oficiais prendessem o fôlego —, os
aviões com as bombas... Com as bombas nucleares. É inacreditável! Inacreditável! — O som era chiado e a própria pessoa que falava ao rádio não conseguia organizar o pensamento corretamente. Mas nenhum dos militares ouvindo teceu qualquer comentário enquanto a mensagem não era terminada. — Os aviões caíram! Foram derrubados pelas tempestades ou pelo eletromagnetismo! Todos eles! É inacreditável! É um milagre! E Marco chorava. Seus olhos não enxergavam nada, em meio às lágrimas, mas ele balançava a cabeça ritmadamente enquanto ouvia a música entoada. Em poucos dias, fora capaz de organizar um evento maravilhoso, e grandes nomes se revezavam no palco. As redes de televisão internacional cobriam o evento e uma multidão cantava em uníssono. Pedindo paz. E então, acabou. No campo de batalha, as tropas continuavam tensas, mas logo viriam as ordens de cessar fogo. Os oficiais eram informados aos poucos dos últimos acontecimentos, e pelo menos já não tinham o medo das bombas. E em um morro repleto de miséria, Deus voltava a ser uma criança. Gosh, ainda abraçado na mãe, voltou os olhos para a Velha, com medo de que ela estivesse decepcionada. Mas ela não estava.

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—Eu mudei o mundo pensando em vocês — disse ela, indicando Marc, Sara, Gosh, Clarissa e Richiév, que agora subia o morro, também, libertado, enfim. Depois, ela olhou para seus companheiros de miséria e dirigiu-se novamente a Gosh. — E você tentou mudar o mundo pensando em nós. Por isso, somos gratos. Mas você é uma criança, apenas, ainda que fosse Deus. Espero que cresça e continue tentando. Gosh riu, divertido, e abraçou mais forte a mãe e o pai. Os três se retiraram, como também se retiraram Marc e Sara, aquele com o braço sobre o ombro desta. Os mendigos abriram espaço para que eles passassem e aos poucos o céu foi clareando. Apenas as auroras durariam um pouco mais, porque Gosh realmente gostara delas. E foi assim que, sem mais nem menos, o mundo não acabou.

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Fecham-se as cortinas

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Epílogo – Lá e de volta outra vez No topo do morro, Filho de Deus olhou para Pobre Homem — que agora era Luís, novamente — por alguns instantes, pensativo. Por fim, falou: —Puxa, isso foi realmente imprevisível! E o magnetismo ia voltando ao normal, mas o céu ainda conservava algumas fagulhas brilhantes, resíduos das auroras boreais que dançavam, coloridas, contra o sol, formando um cena maravilhosa. Era como se fosse um arco-íris gigante e ainda mais maravilhoso. Marc e Sara observavam a cena, sentados na grama, um ao lado do outro, as mãos dadas. Ficaram assim por horas e horas, sem dizer nada. Não havia carvalho. Só havia uma espécie de cumplicidade muda. E não precisavam de mais nada.

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