03. The Lying Game - Duas Verdades e Uma Mentira

Two Truths And A Lie

(Duas Verdades e Uma Mentira)

SARA SHEPARD

SINOPSE:
Sutton Mercer assiste, em sua pós-vida, como sua irmã gêmea, Emma Paxton, fica em seu lugar para desvendar seu assassinato. Mas depois de fazer tudo o que podia, Emma ainda não tem pistas do assassino de sua irmã. Um monte de gente a quer morta ─ mas um só nome aparece em sua cabeça: Thayer Vega. Quando o maravilhoso e misterioso Thayer volta à cidade, Emma tem que agir rápido para descobrir se ele voltou para se vingar… ou se ele já se vingou.

Uma meia verdade é uma mentira inteira.

─Yiddish Proverbs

PRÓLOGO:
Um Visitante Indesejado
Se alguém estivesse espiando através da minha janela, teria pensado que era apenas uma festa de pijama normal, uma noite festiva com pipoca envolvida, manicures e seis belas garotas do grupo mais exclusivo da Hollier High fazendo maquiagem umas nas outras, partilhando suculentas fofocas e tramando a próxima brincadeira do Jogo da Mentira. Meu iPhone tinha dúzias de fotos das anteriores festas do pijama que pareciam exatamente como isso: uma foto da minha melhor amiga, Madeline, segurando uma foto de uma modelo com franja e perguntando se o look combinava com seu rosto em formato de coração; uma das minhas outras melhores amigas, Charlotte, sugando as bochechas para aplicar a nova tonalidade de blush que ela tinha comprado na Sephora; uma da minha irmã adotiva, Laurel, rindo da D-list de celebridades da revista Us Weekly; e uma grande quantidade de fotos de mim, Sutton Mercer, parecendo a glamurosa e poderosa “It Girl”* que eu sou. (*Expressão para as garotas mais populares.) Mas, naquela noite em particular, algo estava diferente... e cinco das seis meninas nem sabiam disso. A garota com quem minhas melhores amigas estavam rindo achando que era eu... não era. Porque eu estava morta. Minhas BFFs estavam falando com minha irmã gêmea pedida há muito tempo, Emma, que tinha tomado meu lugar. Eu morri há um mês e agora estou empoleirada em algum lugar entre a terra dos vivos e o além, observando minha vida continuar, mas com Emma como estrela. Em todos os lugares que ela ia, eu ia, como se ainda estivéssemos compartilhando o mesmo útero. Bizarro, né? Eu também não imaginava que a vida após a morte seria assim. Naquela noite, eu vi quando a minha irmã gêmea sentou-se entre as minhas amigas. As pernas dela estavam cruzadas debaixo dela sobre o sofá branco de pelúcia da mesma maneira

que eu costumava sentar. Suas pálpebras brilhavam com a minha sombra prata favorita da marca MAC. Ela até ria do mesmo jeito que eu ─ alto, interrupto e um pouco sarcástico. No mês passado ela tinha aperfeiçoado as minhas manias, respondia ao meu nome, e usava minhas roupas, tudo com o objetivo de ser eu até o meu assassino ser exposto. A pior parte? Eu nem sequer lembro quem me matou. Havia grandes pedaços da minha vida que haviam sido limpos da minha mente, e eu ficava me perguntando quem eu tinha sido, o que eu tinha feito, e quem eu tinha chateado tanto a ponto de me matar e então obrigar minha irmã a assumir a minha identidade. De vez em quando eu tinha um súbito clarão de lucidez e uma cena completa se encaixava com nitidez, mas os momentos de antes e de depois disso? Espaços completamente vazios. Era como assistir algumas cenas aleatórias de um filme de noventa minutos e tentar entender a trama inteira. Se eu quisesse descobrir o que aconteceu comigo, eu teria que contar com Emma... e torcer para que ela pegue meu assassino antes que ele a pegue. Havia algumas coisas que Emma e eu descobrimos: Todas as minhas amigas tinham álibis para a noite que eu morri. Assim como Laurel, o que significava que estão todas limpas. Mas ainda sobrava tantos suspeitos. Um em particular prolongava em nossas mentes: Thayer Vega, o irmão sumido de Madeline, que tinha fugido da cidade na última primavera. O nome dele não parava de surgir, e corriam rumores de que ele e eu estávamos de alguma forma envolvidos. Naturalmente, eu não conseguia me lembrar de nada sobre Thayer, mas eu sabia que alguma coisa tinha acontecido entre nós. Mas o quê? Eu assisti minhas melhores amigas rindo, fofocando e começando a relaxar. Às 02:46 as luzes foram apagadas, e a respiração de cada menina ficou lenta e profunda. O iPhone que eu tinha enviado centenas de textos antes de morrer de repente soou, e os olhos de Emma se abriram como se ela estivesse esperando a mensagem. Eu vi quando ela verificou a tela, franziu a testa, saiu da casa na ponta dos pés e atravessou o quintal. Ethan Landry, a única pessoa que sabia a verdadeira identidade de Emma ─ além do meu assassino, é claro ─ estava esperando por ela no meio-fio. E ali, na calçada iluminada pela lua, eu vi quando eles conversaram, se abraçaram, e compartilharam o primeiro beijo. Mesmo que eu não tivesse

mais um corpo, um coração, eu ainda sentia dor do mesmo jeito. Eu nunca mais iria beijar alguém novamente. Mas então, passos rangeram nas proximidades. Emma e Ethan se afastaram rapidamente com preocupação. Eu fui puxada com força por trás de Emma quando ela correu para dentro. Olhei por cima do ombro pouco antes de ela bater a porta, e vi Ethan correndo para a noite. Então, uma sombra passou pela varanda da frente. Eu podia ouvir a respiração superficial e nervosa de Emma. Eu sabia que ela estava com medo. Com outro solavanco, eu fui puxada adiante, enquanto ela corria em direção às escadas para ter certeza de que a janela do meu quarto estava trancada. Quando nós chegamos ao patamar, nós duas vimos um vislumbre do interior do meu antigo quarto. A janela estava realmente aberta, e em pé na frente dela estava um garoto parecendo familiar. O sangue drenou do rosto da minha irmã quando ela reconheceu as características dele. Deixei escapar um grito, mas ele desapareceu silenciosamente no ar. Era Thayer Vega. Ele deu um sorriso a Emma que dizia que conhecia todos os segredos dela ─ incluindo exatamente quem ela não era. E eu soube, por um instante, que tudo o que ele tinha significado para mim em vida envolvia mistério ─ e perigo. Mas não importa o quanto eu tentasse, eu não conseguia lembrar qual era esse perigo.

CAPÍTULO UM – ELA O VIU
“Thayer,” Emma Paxton disse, olhando para o adolescente na frente dela. Seu cabelo despenteado parecia preto na escuridão do quarto de Sutton. As maçãs do rosto eram proeminentes sobre seus lábios carnudos. Seus olhos castanhos profundos estreitaram sinistramente. “Oi, Sutton,” disse Thayer, esboçando o nome para fora. Um arrepio nervoso percorreu a coluna de Emma. Ela reconheceu Thayer Vega do cartaz de pessoa desaparecida ─ ele desapareceu de Tucson, Arizona, em junho. Mas isso foi muito antes de Emma fazer a viagem para Tucson para se reunir com sua irmã gêmea há muito perdida, Sutton. Muito antes de ela receber um bilhete anônimo dizendo que Sutton estava morta e que Emma tinha que tomar o lugar dela e não dizer a ninguém... Emma tinha se esforçado para descobrir tudo sobre Sutton ─ quem eram suas amigas, quem eram seus inimigos, o que ela gostava de usar, o que ela gostava de fazer, quem ela estava namorando. Ela veio para Tucson apenas para encontrar um membro da família ─ como era uma filha adotiva, ela estava desesperada por uma família, qualquer família ─ mas agora ela estava atolada em resolver o assassinato de sua irmã. Tinha sido um alívio excluir as amigas mais próximas de Sutton e a irmã, mas Sutton tinha feito um monte de inimigos... e um grande número de pessoas poderia ter sido o assassino. E Thayer era uma delas. Como tantas outras pessoas na vida de Sutton, o que Emma sabia sobre ele era o que ela caçava nas mensagens do Facebook, nas fofocas e no site ‘Nos Ajude a Achar Thayer’ que a família dele tinha criado depois que ele fugiu da cidade. Havia algo perigoso nele, todos diziam que ele estava envolvido com algum tipo de problema e que tinha um temperamento horrível. E de acordo com os rumores, Sutton teve algo a ver com o desaparecimento dele. Ou talvez, eu me perguntei, encarando o menino com grandes olhos no meu quarto, Thayer teve algo a ver com o meu. A memória surgiu na minha cabeça. Eu me vi de pé no quarto de Thayer, nós dois trocando um olhar gélido. “Faça o que quiser,” eu falei rudemente, virando em direção à porta. Thayer parecia magoado, então, seus olhos brilharam com

raiva. “Tudo bem,” ele retrucou. “Eu farei.” Eu não tinha idéia do motivo da briga, mas era óbvio que eu estava realmente chateada com ele. “Qual é o problema?” Agora, Thayer avaliou Emma, cruzando os braços sobre o tonificado peito de jogador de futebol. Sua expressão era idêntica a do cartaz de desaparecidos. “Está com medo de mim?” Emma engoliu em seco. “P-por que eu estaria com medo de você?” Ela perguntou com a voz mais dura que ela conseguiu, a voz que ela costumava usar com os idiotas irmãos adotivos, com mudanças de personalidade na frente das mamães adotivas, e os caras horripilantes e vagabundos dos bairros esquisitos que ela cresceu depois que a nossa mãe biológica, Becky, a abandonou. Mas era só fachada. Era quase 03:00 do sábado. As amigas de Sutton, que estavam no andar de baixo na festa do pijama Pós-Festa de Boas-Vindas, estavam dormindo. Assim como os Mercers. Até o grande e incrível Dinamarquês da família, Drake, estava roncando no quarto principal. Na estranha calma, Emma não conseguiu evitar pensar na mensagem que ela recebeu no carro de Laurel em sua primeira manhã no Arizona: Sutton está morta. Não diga a ninguém. Continue o jogo... ou você será a próxima. E as mãos fortes e terríveis que a tinham estrangulado com o medalhão de Sutton na casa de Charlotte, uma semana depois, ameaçando-a mais uma vez para ela ficar quieta. E a impressionante figura sombria que ela tinha visto no auditório da escola logo após uma luminária do teto cair a centímetros de sua cabeça. E se Thayer estava por trás de tudo isso? Thayer sorriu como se ele estivesse lendo a mente dela. “Tenho certeza que você tem suas razões.” E então ele se inclinou para trás e olhou para ela como se ele pudesse ver através dela ─ como se ele soubesse o motivo dela estar aqui, fingindo ser a irmã morta dela. Emma olhou em volta, avaliando as opções de escapar, mas Thayer agarrou o braço dela antes que ela pudesse colocar qualquer distância entre eles. O aperto dele foi forte, e ela soltou um grito agudo e instintivo. Thayer fechou a mão sobre a boca dela. “Você está louca?” Ele rosnou. “Mmm!” Emma gemeu, lutando para respirar através do aperto sufocante de Thayer. Ele estava tão perto que Emma podia sentir o cheiro do chiclete de canela dele e ver as sardas

minúsculas que pontilhavam a ponta do nariz dele. Ela lutou contra ele, o pânico jorrando em seu peito. Ela mordeu a mão dele com força, sentindo o gosto de suor salgado. Thayer xingou e recuou, soltando Emma. Ela girou para longe dele. O cotovelo dele bateu em um vaso verde-mar na estante de Sutton. O vaso se inclinou, caiu no chão e se espatifou em dezenas de pedaços minúsculos. Uma luz acendeu na sala. “Que diabos foi isso?” Uma voz falou. Passos soaram e, segundos depois, os pais da Sutton irromperam no quarto. Eles se moveram para o lado de Emma. O cabelo da Sra. Mercer estava despenteado e ela usava uma camisola amarela e larga sob um robe. A camiseta branca do Sr. Mercer estava desordenadamente escondida em uma calça de pijama de flanela azul e seu cabelo com mechas manchadas de prata estava esticado em sua cabeça. No momento em que os pais notaram o intruso, seus olhos se arregalaram. Sr. Mercer se meteu entre Emma e Thayer. A Sra. Mercer embrulhou um braço protetor em torno dos ombros de Emma e a puxou para mais perto. Emma se afundou agradecida no abraço da mãe adotiva de Sutton, esfregando as cinco marcas de raiva que tinha aparecido em sua pele, onde Thayer tinha apertado. Eu tinha sentimentos mistos sobre meus pais protegerem Emma de Thayer. Eles estavam simplesmente preocupados por ela ter gritado... ou era por causa de algo mais sinistro, algo que eles sabiam sobre o passado dele? “Você!” Sr. Mercer gritou para Thayer. “Como você se atreve? Como você conseguiu entrar?” Thayer apenas olhou para ele, um pequeno sorriso em seu rosto. As narinas do Sr. Mercer dilataram-se. Seu queixo quadrado estava imóvel ameaçadoramente, seus olhos azuis brilhavam, e uma veia estava proeminente na têmpora dele, visivelmente latejante. Por um segundo, Emma se perguntou se o Sr. Mercer presumiu que Sutton havia convidado Thayer para o quarto dela e estava irado porque sua filha tinha deixado um menino entrar às três da manhã. Mas então, ela notou a maneira como o Sr. Mercer e Thayer estavam curvados, como se estivessem prontos para lutar. Parecia que algo obscuro e cheio de ódio pairava no ar entre eles, algo que não tinha nada a ver com Sutton.

Mais passos golpearam as escadas. Laurel e Madeline apareceram na porta, vindo do andar de baixo de onde a festa do pijama estava acontecendo. “O que está acontecendo?” Laurel resmungou, esfregando os olhos. Então ela avistou Thayer. Seus olhos claros se arregalaram e ela cobriu a boca com os dedos trêmulos. Madeline estava vestida com uma camisola preta e seu cabelo preto estava preso em um coque perfeito, apesar de estar no meio da noite. Ela passou entre Laurel e a Sra. Mercer. Sua boca se abriu. Ela estendeu a mão até o braço de Laurel, como se ela pudesse cair no chão em estado de choque. “Thayer!” A voz de Madeline soou estridente, sua expressão era uma estranha mistura de raiva, confusão e alívio. “O que você está fazendo aqui? Onde você esteve? Você está bem?” Os músculos nos braços de Thayer se flexionaram quando ele apertou os punhos. Ele olhou ao redor, para Laurel, Madeline, Emma e os pais Mercers como se ele fosse um animal ferido querendo fugir dos agressores. Após uma pulsação, ele girou nos calcanhares e saiu correndo na direção oposta. Ele atravessou o quarto de Sutton, suspendeu a si mesmo no lado de fora da janela e se equilibrou no carvalho, o que serviu como uma rota de fuga do quarto de Sutton. Emma, Laurel e Madeline correram até a janela e viram Thayer correndo na escuridão. Seu modo de correr era irregular ─ ele se apoiava na perna direita, mancando enquanto atravessava a grama. “Volte aqui!” Sr. Mercer gritou, correndo do quarto de Sutton e descendo as escadas. Emma correu atrás dele, com a Sra. Mercer, Laurel e Madeline seguindo atrás. Charlotte e as Gêmeas do Twitter cambalearam para fora dos seus lugares, com olhares sonolentos e confusos. Todos se reuniram ao redor da porta aberta. Sr. Mercer havia corrido a metade do caminho do quintal. “Eu vou ligar para a polícia,” ele gritou. “Volte aqui, droga!” Nenhuma resposta veio. Pneus chiaram ao virar uma esquina. Desse modo, Thayer tinha ido embora. Madeline virou para olhar para Emma. Lágrimas enchiam os olhos azuis dela e seu rosto estava vermelho e manchado. “Você convidou ele para vir aqui?” Emma arfou. “O quê? Não!”

Mas Madeline atravessou a porta a toda velocidade. Alguns beeps agudos penetraram o ar, e as luzes do SUV de Madeline iluminaram a escuridão. Laurel atirou em Emma um olhar irritado. “Olha o que você fez agora.” “Eu não fiz nada,” Emma protestou. Laurel olhou para as outras garotas procurando apoio. Charlotte pigarreou. As Gêmeas do Twitter estavam com seus iPhones nas mãos, certamente ansiosas para postar uma atualização sobre isso em suas diversas contas nas redes sociais. O olhar de Laurel era hostil e incrédulo, e Emma podia adivinhar o motivo. Laurel e Thayer tinham sido melhores amigos antes dele desaparecer, e Laurel estava apaixonada por ele. Mas Thayer mal tinha percebido a existência de Laurel no quarto de Sutton. Pelo que Emma tinha reunido ao longo das últimas semanas em Tucson, algo grande tinha acontecido entre Sutton e Thayer antes dele desaparecer. “Não fez nada?” Laurel girou para enfrentar Emma. “Você o meteu em problema! Mais uma vez.” Sra. Mercer passou as mãos pelo rosto. “Por favor, Laurel. Agora não.” Ela deu um passo em direção a Emma, agarrando com força o cinto do roupão felpudo cor de rosa que ela tinha parado para pegar quando eles desceram. “Sutton, você está bem?” Laurel revirou os olhos. “Olhe para ela. Ela está bem.” Finalmente, Drake, o Incrível Dinamarquês, trotou pelas escadas e cutucou a mão da Sra. Mercer com o nariz molhado. “Grande cão de guarda você é,” a Sra. Mercer murmurou. Então, ela virou-se para Emma, Laurel e as outras três meninas na sala de estar. “Eu acho que as meninas deveriam ir para casa agora,” disse ela, cansada. Sem uma palavra, Charlotte e as Gêmeas do Twitter voltaram à sala de estar, provavelmente para recolher as coisas delas. Emma estava muito confusa para segui-las, então, ela caminhou de volta para cima e se refugiou no quarto de Sutton para entender sua situação. O quarto parecia exatamente como ela tinha deixado: Edições velhas da Vogue estavam empilhadas organizadamente na estante de Sutton, alguns colares estavam torcidos em cima do vestido dela, cadernos escolares estavam empilhados na mesa branca de carvalho, e o computador mostrava fotos de Madeline, Charlotte, Laurel e Sutton com

seus braços em volta uma das outras, provavelmente comemorando o sucesso de alguma brincadeira do Jogo da Mentira. Não faltava nada. Seja qual for a razão de Thayer ter entrado, não era roubo. Emma sentou no chão, o olhar magoado de Madeline aparecendo em sua mente mais uma vez. Uma coisa que Thayer definitivamente tinha roubado era a tênue paz que ela finalmente tinha conseguido formar com as amigas de Sutton e Laurel. Sutton havia tido muitos desentendimentos enquanto estava viva, e ela teve um enorme trabalho para conseguir consertar as relações dela. Eu estava enfurecida com os pensamentos de Emma. Era das minhas amigas que ela estava falando. Pessoas que eu tinha conhecido desde sempre e que eu tinha amado, e que me amavam também. Mas até mesmo eu não podia negar que eu tinha tomado algumas decisões questionáveis. Eu tinha roubado o namorado de Charlotte, Garrett. Eu claramente tive algum tipo de relação complicada com o irmão de Madeline. Eu tinha feito Gabby ter uma convulsão durante uma brincadeira do Jogo da Mentira ─ e então, disse a irmã dela que se ela contasse a alguém o que eu tinha feito, eu faria da vida dela na escola um verdadeiro inferno. E eu tinha desprezado os sentimentos de Laurel de muitas maneiras incontáveis. Uma coisa que eu tinha aprendido estando morta era que eu tinha cometido um monte de erros quando eu estava viva. Erros que eu nunca poderia consertar. Mas talvez Emma pudesse. Depois de alguns minutos de respiração profunda, Emma saiu do quarto de Sutton e lentamente desceu as escadas. O aroma de avelãs torradas cumprimentou-a na cozinha. O pai de Sutton estava olhando para uma xícara de café preto, o rosto dele ainda estava torcido em uma careta raivosa. A Sra. Mercer traçava círculos entre as omoplatas dele com as pontas dos dedos e sussurrava algo no ouvido dele. Laurel olhava distraidamente para fora da janela, girando um chaveiro de abacaxi. Quando a Sra. Mercer notou Emma, ela olhou para cima e a deu um pequeno sorriso. “A polícia estará aqui a qualquer minuto, Sutton,” disse ela suavemente. Emma piscou os olhos, querendo saber como reagir. Os pais de Sutton estavam esperando que ela esteja aliviada por esse detalhe... ou que ela comece a defender Thayer

veementemente? Ela formou uma expressão neutra no rosto, cruzou os braços sobre o peito e olhou para o pai de Sutton. “Você entende o quão perigoso é aquele menino?” O Sr. Mercer perguntou, balançando a cabeça. Emma abriu a boca para falar, mas Laurel foi mais rápida. Ela passou por Emma e segurou a parte de trás de uma das cadeiras de madeira que circulavam a mesa de carvalho redonda. “Esse garoto é um dos meus melhores amigos, pai,” ela resmungou. “E não entra na sua cabeça que Sutton ─ não Thayer ─ é a causa de todo o problema?” “O quê?” Emma gritou, indignada. “Como isso é minha culpa?” Eles foram interrompidos pelo apito distante de sirenes. O Sr. Mercer se dirigiu para a sala, e a Sra. Mercer o seguiu. As sirenes aumentaram cada vez mais de volume até que elas estavam exatamente do lado de fora da casa. Emma ouviu um carro parar e viu as luzes vermelhas e azuis piscando na varanda da frente. Ela estava prestes a seguir os pais Mercers até a varanda quando Laurel pegou o braço dela. “Você vai jogar Thayer embaixo do ônibus, não é?” Laurel sussurrou, os olhos dela em chamas. Emma olhou para ela. “O que você está falando?” “Eu não sei por que ele sempre vem até você primeiro,” Laurel continuou, como se não tivesse ouvido a pergunta de Emma. “Você acabou de tornar a vida dele pior. E você nunca está lá para consertar as coisas. Você deixa isso para mim, não é?” Emma brincava com o medalhão de Sutton que pendia do pescoço dela, implorando silenciosamente para Laurel se explicar, mas Laurel apenas olhava acusadoramente. Claramente o que ela estava falando era algo que Sutton deveria saber. Exceto que... eu não sabia. “Temos café,” a voz da Sra. Mercer ecoou da varanda. Emma se virou a tempo de ver os pais de Sutton levando dois oficiais para a cozinha. Um deles tinha cabelos vermelhos e sardas e não parecia muito mais velho do que Emma. O outro era mais velho, com orelhas grandes e usava uma colônia amadeirada. Emma imediatamente o reconheceu. “Olá de novo, Senhorita Mercer,” o segundo policial disse, atirando um olhar cansado para Emma. Era o detetive Quinlan,

o oficial que não tinha acreditado em Emma quando ela havia dito a ele sua verdadeira identidade no dia que ela chegou em Tucson. Ele assumiu que a história de que ela era a gêmea há muito tempo perdida de Sutton era mais um dos trotes ─ a polícia de Tucson tinha um dossiê inteiro dedicado as coisas erradas que Sutton fazia no Jogo da Mentira, um clube cruel que Sutton e suas amigas haviam inventado há cinco anos, que envolvia fazer brincadeiras com vítimas inconscientes. Uma das brincadeiras mais horríveis foi Sutton fingir que o carro dela havia parado nos trilhos de trem quando um trem vinha na direção dela e das amigas dela. Terminou com a hospitalização de Gabby por causa de uma convulsão. Emma tinha descoberto sobre isso apenas na semana passada, depois de ela propositadamente ser presa furtando para dar uma olhada no dossiê de Sutton. Ela bisbilhotou e pronto, mas ela não estava procurando por momentos de qualidade com a força policial de Tucson. Quinlan afundou em uma das cadeiras da cozinha. “Por que quando há uma chamada para mim, você tem algo a ver com isso, Senhorita Mercer?” Ele falou com uma voz cansada. “Você marcou este encontro com o Sr. Vega? Você sabia onde ele estava esse tempo todo?” Emma encostou-se na mesa e olhou para Quinlan. Ele tinha essa implicância com ela ─ er, Sutton ─ desde o dia que ela o conheceu. “Eu não fiz nada de errado,” ela disse rapidamente, tirando um fio de cabelo castanho do ombro. Sr. Mercer ergueu as mãos. “Sutton, por favor,” ele disse. “Coopere com a polícia. Eu quero aquela criança fora de nossas vidas para sempre.” “Eu já disse, eu não sei de nada,” Emma argumentou. Quinlan se virou para o pai de Sutton. “Nós temos três viaturas patrulhando a área procurando pelo Sr. Vega. Vamos encontrá-lo mais cedo ou mais tarde. Você pode ter certeza disso.” Havia algo na ameaça dele que fez Emma tremer. Eu tremi junto com ela, a mesma pergunta em nossas mentes: Mas, e se Thayer encontrar Emma primeiro outra vez?

CAPÍTULO DOIS – UM GAROTO CHAMADO PROBLEMA
“Sutton?” A voz da Sra. Mercer flutuou no andar de cima. “Café da manhã.” Os olhos de Emma se abriram bem devagar. Era sábado de manhã, e ela estava deitada na cama de Sutton, que era um zilhão de vezes mais luxuosa do que qualquer cama que ela tinha dormido nos lares adotivos. Ela teria pensado que os colchões de veludo, lençóis com infinitas listras, travesseiros de plumas, e edredom de cetim poderiam garantir um sono perfeito de oito horas todas as noites, mas ela dormiu irregularmente desde que chegou aqui. Ontem à noite, ela tinha acordado a cada trinta minutos para se certificar de que a janela de Sutton ainda estava trancada. Todas as vezes que ela ficou no parapeito da janela, olhando para o gramado tão bem cuidado que Thayer tinha corrido há apenas algumas horas antes, os mesmos pensamentos atravessaram a mente dela, repetidamente. E se ela não tivesse gritado? E se o vaso não tivesse quebrado? E se o Sr. e a Sra. Mercer não tivessem invadido o quarto de Sutton? Thayer iria ameaçar Emma, afinal? Ele iria dizer a ela para parar de bisbilhotar, ou então...? A Irmã Gêmea Há Muito Tempo Perdida Se Encontra Com Um Louco, Possivelmente Um Assassino Fugitivo, Emma pensou consigo mesma. Durante seus anos como uma criança adotiva, ela teve o hábito de titular as atividades diárias com um título impactante como treinamento para se tornar uma jornalista investigativa. Ela escrevia as manchetes em um caderno e o nomeou de O Dia A Dia De Emma. Desde que ela se mudou para Tucson e assumiu a vida de Sutton, suas aventuras eram realmente interessantes ─ não que ela pudesse contar a alguém sobre elas. Ela rolou na cama, os acontecimentos da noite passada inundando o cérebro dela mais uma vez. Thayer poderia ser o assassino de Sutton? O comportamento dele certamente não dissipou as suspeitas dela. “Sutton?” A Sra. Mercer chamou novamente.

O cheiro adocicado de xarope de bordo e waffles flutuou para o quarto de Sutton, e o estômago de Emma roncou com fome. “Estou indo!” Ela gritou de volta. Com um bocejo fraco, Emma levantou da cama e pegou uma camiseta do time de futebol americano Arizona Cardinals da gaveta da cômoda de madeira branca de Sutton. Ela arrancou a etiqueta com o preço $ 34,99 da gola e deslizou-a sobre o pescoço. A camiseta provavelmente era um presente do super fã do time, Garrett, que era namorado de Sutton antes dela morrer ─ agora, ex-namorado dela depois que Emma recusou o corpo nu e disposto dele na festa de aniversário de dezoito anos de Sutton. Havia algumas coisas que irmãs não deveriam compartilhar. Uh, yeah ─ como nossas vidas. Mas eu acho que era um pouco tarde demais para isso. O iPhone de Sutton zumbiu, e Emma verificou a tela. Uma foto pequena de Ethan Landry apareceu no canto direito superior, fazendo o coração de Emma bater forte. VOCÊ ESTÁ BEM? ele escreveu. OUVI DIZER QUE TINHA POLICIAIS EM SUA CASA NA NOITE PASSADA DEPOIS QUE EU SAÍ. O QUE ACONTECEU? Emma fechou os olhos e bateu os dedos sobre as teclas. LONGA HISTÓRIA. THAYER APARECEU. SUPER ASSUSTADOR. TALVEZ ELE SEJA UM SUSPEITO. NOS ENCONTRAMOS MAIS TARDE NO LOCAL DE SEMPRE? VOCÊ NÃO ESTÁ DE CASTIGO? Ethan escreveu de volta. Emma passou a língua sobre os dentes. Ela tinha esquecido que os Mercers haviam deixado ela de castigo por roubar a carteira da loja Clique na semana passada. Eles só a deixaram ir ao Baile, porque ela tinha ido bem na escola ─ novidade para Sutton, aparentemente. EU VOU DESCOBRIR UMA MANEIRA DE SAIR, ela digitou de volta. VEJO VOCÊ DEPOIS DO JANTAR. Estou certa de que ela vai descobrir uma maneira. Além do meu assassino, Ethan era a única pessoa que sabia quem Emma realmente era, e os dois tinham unido forças para tentar identificar o assassino. Ele definitivamente queria saber sobre Thayer. Mas essa não era a única razão de Emma querer ver Ethan. Após o tumulto de ontem à noite, ela tinha quase esquecido que eles tinham se reconciliado... e se beijado. Ela estava morrendo de vontade de vê-lo e levar as coisas para o próximo

nível. Ethan era o primeiro quase-namorado de Emma ─ ela sempre foi muito tímida e se enrolava quando tentava impressionar os caras ─ e ela queria que isso desse certo. Eu também estava torcendo para que isso desse certo. Pelo menos uma de nós deveria encontrar o amor. Emma desceu as escadas para o café da manhã, parando por um momento para olhar para as fotografias de família no corredor dos Mercers. Fotos com molduras pretas mostravam Laurel e Sutton com seus braços uma em volta da outra na Disneylândia, ostentando dois enfeitados e combinados óculos rosas de esqui em uma viagem de esqui, e fazendo um castelo de areia em uma linda praia com areia branca. A mais recente mostrava Sutton e o pai dela na frente de um Volvo de corrida Britânico verde, Sutton segurando a chave alegremente. Ela parecia tão feliz. Despreocupada. Ela teve uma vida que Emma sempre quis. Essa era uma pergunta que a atormentava constantemente: Por que Sutton conseguiu uma família e amigos maravilhosos, enquanto Emma passou treze anos em lares adotivos? Sutton havia sido adotada pela família Mercer quando era bebê, enquanto Emma tinha ficado com a mãe biológica delas, Becky, até completar cinco anos. E se os seus papéis fossem invertidos, e Emma tivesse vivido com os Mercers? Ela estaria morta agora? Ou ela teria vivido a vida de Sutton diferente, apreciando os privilégios dela? Eu olhava para as fotos, focalizando uma fotografia recente de nós quatro na varanda da frente. Minha mãe, meu pai, Laurel e eu, parecia a foto de uma família perfeita, todos nós vestidos com camisa branca e calças jeans azuis, o sol de Tucson brilhava no fundo. Eu me misturava muito bem com eles, meus olhos azuis quase da mesma cor que os da minha mãe adotiva. Eu odiava quando Emma assumia que eu tinha sido uma grande pirralha ingrata por toda a minha vida. Ok, talvez eu não tenha apreciado meus pais tanto quanto eu deveria. E talvez eu tenha machucado algumas pessoas com as brincadeiras do Jogo da Mentira. Mas eu realmente merecia morrer por causa disso? Na cozinha, a Sra. Mercer estava colocando a massa dourada dentro da maquina de waffles. Drake sentou-se pacientemente debaixo dela, esperando a massa escorrer nos lados e pingar no chão. Quando Emma apareceu na porta, a Sra. Mercer levantou os olhos com uma expressão preocupada. As linhas ao redor dos olhos dela estavam proeminentes, e havia

um pequeno indício de cabelo branco nas têmporas. Os pais Mercer eram um pouco mais velhos que a maioria dos pais que ela conhecia, possivelmente no final dos quarenta ou no começo dos cinquenta. “Você está bem?” A Sra. Mercer perguntou, fechando a parte superior da máquina de waffles. “Uh, estou,” Emma murmurou, embora ela estivesse muito melhor se soubesse onde Thayer estava. Uma pancada forte soou no outro lado da cozinha, e Emma virou-se e viu Laurel sentada na mesa da cozinha segurando uma longa faca de prata espetada sobre um abacaxi maduro e suculento. A irmã de Sutton encontrou o olhar dela e sorriu com zombaria, estendendo a fatia pingando. “Um pouco de vitamina C?” Ela perguntou friamente. A faca brilhava ameaçadoramente na outra mão. Se tivesse acontecido há uma semana, Emma teria ficado com medo dessa faca ─ Laurel estava no top-10 da lista de suspeitos dela. Mas o nome de Laurel havia sido apagado, ela estava na festa do pijama de Nisha Banerjee a noite inteira no dia do assassinato de Sutton. Não tinha como ela ter feito isso. Emma olhou para o abacaxi e fez uma careta. “Não obrigada. Abacaxi me faz vomitar.” Sr. Mercer, que estava em pé perto da máquina de café expresso, virou-se e a deu um olhar surpreso. “Eu pensei que você amava abacaxi, Sutton.” Um punho apertou o interior de Emma. Emma não tinha sido capaz de comer abacaxi desde os dez anos, quando sua antiga mãe adotiva, Shaina, ganhou um suprimento vitalício de abacaxi enlatado depois de apresentar uma receita de bolo de abacaxi de cabeça para baixo para uma revista de culinária. Emma tinha sido forçada a comer os pedaços amarelos escorregadios em todas as refeições durante seis meses. É claro que essa seria a fruta favorita de Sutton. Eram os pequenos detalhes sobre Sutton, coisas que ela não poderia saber, que ela sempre tropeçava. O pai de Sutton também parecia hiper-consciente das gafes dela ─ ele foi o único que perguntou a Emma sobre uma pequena cicatriz no início da chegada dela em Tucson, uma cicatriz que a gêmea dela não tinha. E ele sempre parecia avaliar com cuidado tudo o que dizia a ela, como se estivesse hesitando, escondendo algo.

Era como se ele soubesse que algo estava errado com sua filha, mas não soubesse dizer exatamente o que era. “Isso foi antes de eu descobrir que era muito rico em carboidratos ruins-para-mim,” Emma disse rapidamente, olhando para os pés. Parecia algo que Sutton diria. Vapor surgiu da cafeteira que estava sobre o balcão antes que alguém pudesse responder. O Sr. Mercer derramou leite em quatro canecas de porcelana estampadas com imagens de grandes cães dinamarqueses como Drake e, em seguida, virouse para Emma. “A polícia encontrou Thayer ontem à noite. O capturaram tentando pegar carona na rampa da Rodovia 10.” “Ele foi preso por entrada ilegal,” acrescentou a Sra. Mercer, colocando uma pilha de waffles em um prato. “Mas não foi só isso. Aparentemente, ele estava com uma faca ─ uma arma escondida.” Emma se encolheu. Um movimento errado na noite passada e Thayer poderia ter cortado ela. “Quinlan diz que ele resistiu à prisão,” Sr. Mercer continuou. “Parece que ele está realmente em apuros. Eles estão segurando-o na delegacia para ser interrogado sobre algumas outras coisas também. Como por exemplo, onde ele esteve esse tempo todo e por que ele preocupou a família dele por tanto tempo.” Emma manteve a expressão neutra, mas o alívio percorria o corpo dela. Pelo menos Thayer estava na cadeia, não perambulando por Tucson. Ela estava segura ─ por enquanto. Com Thayer atrás das grades, ela tinha tempo de se aprofundar na misteriosa relação dele com Sutton... e de descobrir se ela realmente precisava ter medo dele. “Podemos visitar ele na cadeia?” Laurel perguntou quando enfiou a coroa pontiaguda do abacaxi no lixo. Sr. Mercer olhou horrorizado. “Absolutamente não.” Ele apontou para suas duas filhas. “Eu não quero nenhuma de vocês indo visitá-lo. Eu sei que ele era seu amigo, Laurel, mas pense em todas as brigas que ele se meteu no campo de futebol. E se metade desses rumores sobre álcool e drogas são verdadeiros, então ele é uma farmácia ambulante. E o que ele estava fazendo carregando uma faca? O problema segue aquele garoto onde quer que ele vá. Eu não quero que vocês se misturem com alguém assim.”

Laurel abriu a boca para protestar, mas a Sra. Mercer a interrompeu rapidamente. “Ponha a mesa, ok, querida?” A voz dela estava instável, como se ela estivesse tentando amenizar tudo e varrer a sujeira para debaixo do tapete. Sra. Mercer empilhou um monte de waffles belgas na mesa da cozinha e encheu os copos de todos com suco de laranja. Sr. Mercer se afastou da máquina de café e se sentou no seu assento regular. Ele cortou um pedaço de waffle e colocou na boca. Seus olhos estavam na direção de Emma o tempo todo. “Então. Existe uma razão para Thayer ir sorrateiramente ao seu quarto?” Perguntou ele. Nervos dispararam através de Emma. Porque talvez ele tenha matado sua verdadeira filha? Porque ele queria ter certeza de que eu não ia sair por aí dizendo as pessoas sobre isso? “Você não estava esperando por ele, estava?” Sr. Mercer continuou, sua voz aumentando. Emma baixou os olhos e agarrou uma garrafa de xarope Mrs. Butterworth. “Se eu estivesse esperando ele, eu não teria gritado.” “Quando foi a última vez que você o viu?” “Na noite passada.” Sr. Mercer suspirou exageradamente. “Antes de ontem.” Estas eram perguntas que Emma não podia responder. Ela olhou ao redor da mesa. Todos os três Mercers estavam olhando para ela, esperando pela resposta dela. O Sr. Mercer parecia irritado. Sra. Mercer estava nervosa. E o rosto de Laurel tinha um brilho vermelho assassino. “Junho,” Emma deixou escapar. Era o mês que todos os panfletos na estação de polícia e nas páginas do Facebook diziam que Thayer tinha desaparecido. “Como todo mundo.” Sr. Mercer suspirou pesadamente, como se ele não acreditasse nela. Mas antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, a Sra. Mercer pigarreou. “Não vamos mais nos preocupar com Thayer Vega,” ela falou. “Ele está na cadeia ─ isso é o que importa.” A testa do Sr. Mercer enrugou. “Mas─” “Vamos falar de coisas felizes em vez disso, como sua festa de aniversário,” A Sra. Mercer interrompeu. Ela tocou o braço do seu marido. “É daqui a algumas semanas. Está quase tudo resolvido.” Até Emma sabia sobre os planos para a festa de

aniversário do Sr. Mercer. A Sra. Mercer esteve planejando as festividades no resort Loews Ventana Cânion há semanas. As listas de tarefas da festa foram espalhadas pela casa em brilhantes Post-its* amarelos. (*Um pequeno papel com adesivo. É usado para fazer anotações e são geralmente colocados em monitores de computadores, cadernos, etc.). O rosto do Sr. Mercer ainda era uma careta dura. “Eu disse que não queria uma festa.” Sra. Mercer zombou. “Todo mundo quer uma festa.” “Vovó vem, certo?” Laurel perguntou depois de engolir um gole de suco de laranja. A Sra. Mercer assentiu. “E vocês, meninas, saibam que são bem-vindas para convidar suas amigas,” disse ela. “Eu já enviei convites para os Chamberlains e o Sr. e a Sra. Vega. E eu acabei de pedir o bolo de Gianni, o padeiro especialista que fez o bolo para a festa do Sr. Chamberlain,” A Sra. Mercer continuou. “Aparentemente, eles são os melhores. É cenoura com cobertura de queijo cremoso. Seu favorito!” A voz dela aumentava mais e mais. Depois de Um Adolescente Suspeito de Assassinato Invadir a Casa, A Esposa Dedicada Tenta Amenizar o Humor com Conversa de Sobremesa, Emma pensou com um sorriso. “Vocês me dão licença?” Laurel perguntou, apesar de ter um waffle inteiro em seu prato. “Claro,” a Sra. Mercer disse distraidamente, os olhos ainda no rosto do marido. Emma levantou-se, também. “Eu tenho dever de casa de Alemão,” ela disse. “Eu deveria começar a fazer cedo.” Claramente, isso seria algo que Sutton não diria, mas ela estava ansiosa para fugir. Ela levou o prato dela para a pia e manteve a cabeça abaixada quando Laurel passou por ela. Laurel murmurou alguma coisa baixinho. Emma tinha quase certeza de que foi vadia. Quando ela passou pela mesa novamente, no caminho em direção ao corredor, ela sentiu os olhos do Sr. Mercer sobre ela. Ele estava dando a ela um olhar desconfiado que fez uma dor forte atravessar o estômago de Emma. De repente, sua mente recordou o olhar que o Sr. Mercer e Thayer haviam trocado na noite anterior. Era apenas sua imaginação ou algo grande havia acontecido entre eles? Eles tiveram algum tipo de... história

juntos? O Sr. Mercer sabia de algo sobre Thayer ─ algo potencialmente perigoso ─ que ele não estava compartilhando? Eu concordava ─ meu pai definitivamente sabia algo sobre Thayer. Enquanto eu seguia Emma subindo as escadas, peguei um vislumbre das montanhas fora da janela, e duas peças de quebra-cabeça se conectaram por um breve momento em minha mente. Eu vi sombras de ramos em toda a terra dura, enquanto o pegajoso ar de verão agarrava minhas pernas nuas. Eu vi Thayer caminhando ao meu lado, deslizando seu braço ao redor do meu enquanto nós caminhávamos em um caminho rochoso no crepúsculo. Eu o vejo abrir a boca para falar, mas a memória foi embora antes que eu pudesse ouvir o que ele ia me dizer. Mas talvez, apenas talvez, fosse algo que eu não quisesse ouvir.

CAPÍTULO TRÊS – TODOS AMAM UM POETA
Mais tarde naquela noite, Emma caminhou em direção ao parque local. Mesmo que fosse de noite, ainda havia muita gente correndo pelos caminhos de terra, se contorcendo em direção às montanhas, cozinhando hambúrgueres nas grelhas públicas e brincando com selvageria com seus cachorros na grama. O rádio tocava uma música de Bruno Mars, e um monte de crianças jogava uns nos outros a água de uma fonte. Apenas ver o parque me fazia sofrer. Ele ficava a apenas alguns quarteirões de distância da minha casa, e mesmo que eu não conseguisse lembrar dos detalhes, eu sabia que tinha passado muito tempo aqui. O que eu não daria para mergulhar os dedos na água fria da fonte ou morder um hambúrguer quente e suculento da grelha ─ mesmo que ele fosse direto para minhas coxas. Ainda havia um jogo de basquete violento, mas todos os campos de tênis estavam escuros. Emma caminhou até o mais longe e abriu o portão decrépito. Ela apenas conseguia distinguir uma pessoa deitada no chão, perto da rede. O coração dela inchou. Era Ethan. “Olá?” Emma sussurrou. Ethan se levantou e caminhou na direção dela, seu passo era regular e calmo. As mãos dele estavam enfiadas profundamente dentro dos bolsos dos seus gastos jeans Levi. Uma camiseta feita com um tecido fino agarrava-se em seus braços fortes. “Hey,” ele disse. Mesmo no escuro, ela sabia que ele estava sorrindo. “Você escapuliu?” Emma balançou a cabeça. “Eu não precisei. Os Mercers suspenderam minha punição ─ eu acho que todos os deveres de casa que eu fiz os fizeram mudarem de idéia. Mas o Sr. Mercer me fez um milhão de perguntas sobre onde eu estava indo.” Ela olhou por cima do ombro para as árvores escuras à distância. “É um milagre ele não ter me seguido. Por outro lado, eu acho que eu deveria ser grata. Ninguém nunca se importou o suficiente para querer saber onde eu estou o tempo todo.” Ela riu sem vontade.

“Nem mesmo Becky?” Ethan perguntou, levantando uma sobrancelha. Emma olhou para as árvores retorcidas além do pátio. “Becky me deixou em uma loja de conveniência uma vez, lembra? Ela não era exatamente uma mãe modelo.” Ela se sentia culpada por criticar duramente a mãe dela. Ela tinha algumas boas lembranças de Becky ─ como na vez que ela tinha deixado Emma vestir-se com uma roupa de seda e brincar de Branca de Neve ao redor do quarto de hotel, ou as diversas noites que Becky criava uma caça ao tesouro para ela ─ mas elas nunca a fariam esquecer de como ela havia abandonado Emma quando ela mais precisava dela. “Bem, eu estou feliz que você conseguiu,” disse Ethan, mudando de assunto. “Eu também,” respondeu Emma. Ela encontrou os olhos dele por um breve momento. Houve uma longa pausa, e ambos olharam para baixo. Emma chutou uma bola de tênis abandonada perto da rede. Ethan mexeu as mãos dentro dos bolsos. Então, ele estendeu a mão e pegou a mão dela. Ela sentiu o cheiro da cheirosa loção pós-barba dele quando ele se inclinou para perto. “As luzes acesas ou desligadas?” Perguntou ele. As quadras de tênis tinham luzes manuais ─ setenta e cinco centavos para cada trinta minutos. “Desligadas,” respondeu Emma, excitação inundando o corpo dela. Ethan a puxou para baixo até que os dois ficaram deitados no cimento. O chão ainda estava quente do calor do dia, e cheirava vagamente a alcatrão e tênis feitos de borracha. Acima deles, uma lua prateada brilhava. Uma coruja voou para um grande galho de uma árvore. “Eu não acredito que Thayer invadiu sua casa,” disse Ethan depois de uma pulsação, segurando-a perto. “Você está bem?” Emma descansou o rosto contra o peito dele, subitamente se sentindo exausta. “Estou melhor agora.” “Então, Thayer invadiu para ver Sutton?” Emma se inclinou para trás e suspirou. “Eu acho que sim. A não ser que...” “A não ser que o quê?” “A não ser que Thayer saiba quem eu realmente sou e veio para me lembrar de continuar na linha.” Apenas dizer as palavras em voz alta fazia Emma se arrepiar.

Ethan abraçou os joelhos contra o peito. “Você acha que Thayer matou Sutton?” “Definitivamente é possível. Ele foi o único dos amigos dela que nós não investigamos. O que você acha que aconteceu entre Sutton e Thayer antes dele fugir?” Emma colocou a palma da mão no chão, sentindo o calor. Ela precisava tocar em algo sólido, algo que ela compreendia. Uma expressão de pesar atravessou o rosto de Ethan. “Eu não sei,” ele admitiu. “Eu gostaria de saber, mas eles não eram do meu grupo.” “Um monte de pessoas insinuou que ele estava saindo com Sutton,” Emma disse. Uma delas era Garrett, o ex de Sutton ─ ele tinha mais ou menos acusado Sutton disso no Baile de BoasVindas na sexta-feira. E Nisha Banerjee tinha praticamente insinuado que Sutton havia roubado a paixão de Laurel. Então havia os olhares gelados que Laurel tinha atirado em Emma desde que Thayer tinha aparecido no quarto de Sutton, e a coisa enigmática que ela disse. Você acabou de tornar a vida dele pior. O que isso significa? “Então, novamente, outras pessoas deram a entender que Sutton fez algo que levou Thayer a deixar a cidade,” Emma disse lentamente. “Eu ouvi algo sobre isso.” Ethan chutou uma rachadura na quadra com o calcanhar do tênis. “Mas quem sabe se isso é verdade? As pessoas só começaram a falar isso recentemente. Quando Thayer desapareceu, todos pensavam que ele tinha fugido para escapar do pai dele. Ele sempre ficava gritando com Thayer durante as partidas de futebol e colocando uma tonelada de pressão sobre ele.” Emma fez uma careta, lembrando outra coisa da noite do baile. No Baile de Boas-Vindas, Emma havia notado contusões roxas nos braços de Madeline. Ela falou que tinha sido o pai dela. Ela também tinha dito que ele também era duro com Thayer. O momento foi de cortar o coração, mas também foi especial. Foi a primeira vez que Emma tinha tido uma conversa real e honesta com uma das amigas de Sutton. Ela ansiava por essa conexão: A não ser com a melhor amiga dela, Alex, que vivia em Henderson, Nevada, foi muito difícil ela ter uma amizade duradoura, porque ela se mudava muito. Eu tinha que admitir que me deixava um pouco triste saber que Emma tinha uma ligação com a minha BFF. De certa forma,

Emma era uma versão melhor de mim, uma Sutton 2.0, isso realmente doía. Madeline nunca tinha compartilhado o segredo dela sobre o pai comigo ─ ela mais ou menos deu a entender que ela achava que eu não me importava. Eu definitivamente sentia que acontecia algo com o Sr. Vega, no entanto. Uma noite, Charlotte, Laurel e eu estávamos sentadas no quarto de Madeline quando o Sr. Vega lançou panelas e frigideiras pela cozinha, gritando com Mads e Thayer sobre Deus sabe o quê. Quando Madeline voltou para o quarto dela, com os olhos vermelhos e inchados, todas nós fingimos que nada tinha acontecido. Se eu tivesse tido tempo para perguntar se Mads estava bem. Ela provavelmente me daria algumas pistas. Minha gêmea tornou uma melhor amiga para Mads e Char do que eu e agora não havia nada que eu pudesse fazer. Ethan recostou-se nos cotovelos, expondo uma linha de músculos do estômago bronzeado. “Thayer poderia ter ido embora por outro motivo a não ser o pai dele ou Sutton. Eu ouvi as pessoas dizerem que ele estava envolvido em alguma coisa realmente perigosa.” “Como o quê? Álcool? Drogas?” Emma perguntou, lembrando do que o Sr. Mercer havia dito. Ethan encolheu os ombros. “Eram apenas fofocas. Eu posso tentar perguntar por aí. Agora que ele está de volta, definitivamente as pessoas vão ficar falando sobre ele. Será apenas uma questão de separar o boato do fato.” Emma desabou na quadra dura. “Já mencionei o quão frustrante é isso? Eu não tenho nenhuma idéia de como descobrir exatamente o que aconteceu entre Thayer e Sutton sem dar dica de quem eu realmente sou.” Ethan entrelaçou os dedos nos dela. “Nós vamos descobrir. Eu prometo. Estamos muito mais perto do que estávamos há um mês.” Gratidão tomou conta de Emma como uma onda. “Eu não sei o que eu faria sem você.” Ethan acenou com a mão livre. “Pare com isso. Estamos juntos nisso.” Então ele deslocou seu peso e puxou um pedaço de papel amassado do bolso de trás. “Ei... então eu queria te perguntar... Você está interessada em ir para isso comigo?” Emma alisou o papel amassado. 10º CONCURSO DE POESIA, escrito com uma fonte de máquina de escrever. O evento era no início de novembro. Ela olhou para ele interrogativamente.

“Eu tenho lido meus poemas no Clube Congresso, nas últimas duas semanas,” explicou Ethan. “Eu só pensei que poderia ser legal ter alguém para dar apoio moral na audiência pelo menos uma vez.” Emma não pôde impedir o sorriso que se espalhou pelo rosto dela. “Você vai me deixar ouvir sua poesia?” A primeira noite que ela conheceu Ethan ─ que também foi a noite que ela chegou em Tucson ─ ela tinha visto rabiscos de poemas em um caderno. Ela ficou morrendo de vontade de ler, mas teve medo de pedir. “Contanto que você não ria dela.” Ethan abaixou a cabeça. “Claro que não!” Emma apertou a mão dele. “Eu absolutamente vou estar lá.” Os olhos de Ethan brilharam. “Sério?” Emma acenou com a cabeça, comovida por o quão vulnerável ele parecia. As pontas dos dedos dela tocaram o interior da palma da mão dele. Vaga-lumes piscavam à distância, voando para trás e para frente entre as árvores e os cactos. O vento soprou através das mechas escuras do cabelo de Ethan quando ele colocou o braço em volta dos ombros de Emma. Emma se aproximou mais dele, com os joelhos roçando contra o jeans de Ethan. Ela pensou no beijo deles de ontem à noite, de como os lábios macios dele estavam sobre os dela. Parecia egoísmo ela saciar seus sentimentos por Ethan enquanto o assassinato da irmã dela permanecia sem solução, mas Ethan era a única coisa que a mantinha sã. E estranhamente, vendo minha irmã fazer algo que a fazia se sentir tão feliz fez eu me sentir sã também. Emma se inclinou para frente e inclinou o queixo. Ethan se aproximou. Mas, de repente, um ruído metálico soou do outro lado da cerca. Emma se virou e apertou os olhos. Uma pessoa com pernas longas deslizou entre dois carvalhos. “Olá?” Ela chamou, “Quem está aí?” Ethan se levantou, colocou algumas moedas na máquina e acendeu as luzes. Elas eram tão fortes que Emma teve que cobrir os olhos por um momento. Ambos observaram o pátio, o ensurdecedor silêncio. O jogo de basquete tinha parado e nem mesmo havia qualquer tipo de tráfego na estrada. Quanto tempo fazia que estava quieto assim? O quão alto ela e Ethan estavam falando? Alguém tinha ouvido?

Quando a pessoa emergiu das árvores, Emma agarrou o braço de Ethan e abafou um grito. Então seus olhos se ajustaram. Ela viu uma menina com leggings pretas, um sutiã esportivo metálico e tênis branco. O cabelo loiro dela estava com um rabo de cavalo alto, e ela entrou correndo como se tivesse acabado de chegar. Emma ficou boquiaberta. Era Laurel. Os olhos de Laurel se arregalaram para Emma e Ethan. Depois de um momento, ela levantou a mão e deu um aceno com quatro dedos. “Oh, ei, pessoal!” Ela disse como se ela não tivesse espiado eles, mas Emma sabia melhor. Eu também. Especialmente quando a boca de Laurel exprimiu peguei você antes dela colocar seu fone de ouvido do iPod de volta. E então, com o rabo de cavalo balançando, ela correu por entre as árvores e desapareceu.

CAPÍTULO QUATRO – RESSACA DA FESTA DE BOASVINDAS
Na manhã de segunda-feira, o campus da Hollier High parecia que ainda estava se recuperando da festa do Baile de Boas-Vindas da noite de sexta-feira. A escola tinha uma tradição de criar um baile de Halloween temático, e o resto da bagunça da noite estava por toda parte. Um fio solitário de papel crepe laranja luminoso se agitava fora de uma janela do ginásio. Um conjunto de presas descartadas estava em uma grama remendada. Os restos de um balão preto estourado estavam espalhados pela calçada de cimento. E um chiclete rosa estava preso na tanga da estátua de granito de um nativo americano que soltava água pelo pátio. “Este lugar parece que está de ressaca,” Emma murmurou. Laurel, que estava sentada ao lado dela no banco do motorista do VW Jetta, nem sequer riu. Ela era a carona de Emma para a escola desde que Emma descobriu que o carro de Sutton havia desaparecido ─ que tinha sido apreendido por multas não pagas em algum momento antes de Sutton desaparecer, mas Sutton o tinha pegado de volta na noite que ela morreu. O carro estava desaparecido desde então. Emma tinha tentado ter uma pequena conversa com Laurel no caminho ─ ela não ousou confrontar Laurel sobre ela estar espionando ela e Ethan no parque no sábado, mesmo que ela estivesse morrendo de vontade de saber o que ela tinha ouvido. Mas Laurel apenas olhava para frente com firmeza, sua mandíbula imóvel e seus olhos estreitados, não querendo falar sobre o novo clipe da Beyoncé ou como o rímel Maybelline Great Lash não se comparava com o DiorShow. Suspirando, Emma saiu do carro e se desviou de uma máscara de carnaval esquecida. Ela estava tão cansada do humor quente-e-frio de Laurel. Na semana passada, ela e Laurel estavam às mil maravilhas, e parecia que qualquer rivalidade que tinha havido entre Sutton e Laurel estava começando a se dissolver, mas o aparecimento de Thayer tinha feito elas

retrocederem. Emma sentia falta de sorrir para Laurel no café da manhã, fazer maquiagem lado a lado no espelho do banheiro de manhã, e cantar junto com o rádio do carro no caminho para a escola. Laurel a tinha dado um gostinho de como era ter uma irmã, algo que ela nunca teve. Quando ela cruzou o gramado da frente, ela percebeu que todos estavam cochichando com entusiasmo. Um nome surgiu repetidamente: Thayer Vega. “Você ouviu falar que Thayer foi preso por invadir a casa dos Mercers?” Uma menina com um colete de pele falsa sussurrou. Emma congelou e se escondeu atrás de uma coluna, querendo ouvir a conversa. O amigo da garota, um cara com um pico de viúva, acenou animadamente. “Ouvi dizer que foi uma grande armação. Sutton sabia que ele viria o tempo todo.” “Onde você acha que ele estava?” Pele Falsa perguntou. Pico de Viúva deu de ombros. “Ouvi dizer que ele foi para Los Angeles para se tornar um modelo masculino.” “De jeito nenhum.” Uma menina jovem com cabelos loiros cacheados se juntou a Pele Falsa e Pico de Viúva. “Ele estava envolvido com uma gangue de mexicanos drogados e foi baleado na perna. Isso totalmente explica porque ele está mancando.” “Faz sentido.” Pico de Viúva acenou com a cabeça sabiamente. “Thayer invadiu o quarto de Sutton provavelmente para roubar o laptop dela para saldar a dívida com o traficante.” Pico de Viúva revirou os olhos. “Vocês estão errados. Ele invadiu o quarto de Sutton porque eles tinham negócios inacabados. Foi por causa dela que ele foi embora.” “Sutton?” Emma girou e viu Charlotte avançando na direção dela. As três crianças que estavam falando sobre Sutton se encolheram quando viram Emma atrás da coluna. Outras crianças que passavam encaravam-na com curiosidade. Dois meninos riram. Eu tive a impressão de que essa não era a reação que eu costumava causar quando eu andava pelos corredores da Hollier. As pessoas podiam sussurrar sobre mim, mas ninguém ousava rir.

“As notícias correm rápido, não é?” Emma disse quando Charlotte começou a acompanhar o passo dela. Emma puxou a bainha do short curto cinza-listrado de Sutton. Se ela soubesse que seria tão comentada hoje, ela não teria usado uma roupa tão reveladora. “Notícias como essas correm.” Charlotte jogou um cacho sedoso de cabelo vermelho por cima do ombro e entregou a Emma um café com leite da Starbucks. Então, ela olhou para uma menina gótica que estava encarando Emma. “Algum problema?” Ela perguntou com um tom irritado. A garota gótica deu de ombros e se afastou. Emma atirou para Charlotte um sorriso agradecido quando as meninas sentaram em um banco. Eram em momentos como esses que Emma apreciava o lado vadia e insensível de Charlotte. Ela era a mais escandalosa e controladora do grupo, o tipo de garota que você queria desesperadamente ao seu lado e não contra você. Na antiga vida de Emma, ela tinha conhecido muitas garotas como Charlotte, mas só de longe. Principalmente, porque as Charlottes do mundo olhavam para Emma como se ela fosse algum tipo de garota-adotada esquisita. Charlotte tomou um gole do seu próprio copo de café e olhou para o gramado. “Que bagunça,” ela murmurou. Em seguida, seus olhos verdes se arregalaram. Emma seguiu o olhar dela e viu Madeline saindo do SUV dela. Ela estava esticada em sua altura máxima enquanto caminhava por uma multidão de estudantes boquiabertos. “Mads!” Charlotte chamou, acenando. Madeline virou a cabeça e congelou ao ver Charlotte e Emma. Por uma fração de segundo, Emma pensou que ela ia se virar e correr na direção oposta. Mas então, ela caminhou em direção a elas com toda sua graça de bailarina e sentou ao lado de Charlotte no banco. Charlotte apertou a mão dela. “Como você está?” “Como você acha?” Madeline perguntou bruscamente. Ela estava impecavelmente vestida com um suéter de cashmere apertado e shorts da marinha passado ferro impecavelmente em cada centímetro, mas sua pele de alabastro parecia ainda mais pálida que o habitual. Então Emma percebeu um par de óculos de sol Chanel apoiados em cima da cabeça dela. Eles eram novos, apesar de Emma e Madeline terem escolhido um par vintage na semana passada, um acontecimento não-Sutton.

Mads tinha escolhido propositalmente não usar os óculos de sol hoje para mostrar que estava chateada com Emma, ou Emma estava interpretando demais as coisas? “A audiência de acusação de Thayer foi essa manhã,” Madeline explicou, olhando para Charlotte, mas não para Emma. “A fiança dele é de quinze mil dólares. Minha mãe não para de chorar. Ela está implorando para meu pai pagar a fiança, mas ele se recusa ─ ele diz que não vai desperdiçar o dinheiro dele socorrendo Thayer, porque ele só vai ser preso novamente. Eu mesma tiraria ele, mas onde é que eu vou conseguir 15 mil?” Charlotte colocou um braço em torno de Madeline e apertou o ombro dela. “Eu sinto muito, Mads.” “Na audiência ele apenas ficou sentado lá, olhando para nós.” O lábio inferior de Madeline tremeu. “É como se ele tivesse virado um estranho. Ele tem uma tatuagem sem explicação e está mancando. Ele nunca vai poder jogar futebol novamente. Era a coisa que ele mais amava ─ a coisa que ele fazia melhor ─ e agora o futuro dele está arruinado.” Emma estendeu a mão e colocou-a sobre Madeline. “Isso é terrível.” Os ombros de Madeline ficaram tensos e ela se afastou. “O pior de tudo é que Thayer não vai nos dizer onde estava esse tempo todo.” “Pelo menos você sabe onde ele está agora e que ele está seguro,” Emma falou. Madeline se virou e olhou para ela. Os olhos azuis dela estavam inchados e a boca em uma linha reta. “O que ele estava fazendo no seu quarto?” Ela perguntou sem rodeios. Emma se encolheu. Charlotte mexeu com um chaveiro em forma de coração pendurado em sua bolsa de couro, evitando contato visual com as duas. “Eu já te disse que eu não sei,” Emma balbuciou, sentindo os músculos do estômago aglomerados em um nó apertado. “Você sabia que ele ia para sua casa naquela noite?” Os olhos de Madeline se estreitaram. Emma balançou a cabeça. “Eu não tinha idéia. Eu juro.” Madeline levantou uma sobrancelha como se ela quisesse acreditar nela, mas não conseguisse. “Sem essa, Sutton. Você sabia que ele ia embora. Você estava se comunicando com ele

enquanto ele estava desaparecido, certo? Você sabia onde ele estava o tempo todo.” “Mads,” disse Charlotte. “Sutton não iria─” “Mads, se eu soubesse onde ele estava ou se eu estivesse me comunicando com ele, eu teria dito a você,” Emma interrompeu. Ela apenas podia imaginar a verdade nisso. É, ela não estava se comunicando com Thayer. Mas Sutton estava? Eu estava suspeitando de que Emma estava certa, mesmo que eu quisesse que fosse mentira a possibilidade de eu ter escondido isso de Mads. Eu tinha magoado tantas pessoas e tinha guardado tantos segredos. Se eu pudesse lembrar quais eram. Madeline descascou um pedaço dourado do esmalte de unha do seu dedo indicador. “Eu sei o que estava acontecendo entre vocês antes dele desaparecer.” Um forte gosto amargo encheu a boca de Emma. Ela inspirou para falar, mas não conseguiu encontrar as palavras. O que ela deveria dizer? Você poderia me dar mais detalhes? Então, um sino estridente soou por todo o pátio. Charlotte se levantou. “Nós deveríamos ir.” Mas Madeline apenas ficou sentada lá, olhando. Charlotte descansou a mão suavemente sobre a manga do suéter de Madeline. “A última coisa que precisamos é do seu pai recebendo um telefonema sobre você estar atrasada para a aula.” Finalmente, Madeline suspirou e colocou a bolsa no ombro. Charlotte murmurou algo sobre ver Emma no almoço, então, com o braço enrolado em Madeline, guiou-a para sua primeira aula. Apesar da aula de Emma ser na mesma direção, ela teve a nítida impressão de que não foi convidada. Uma mão apertou o ombro de Emma, e ela se encolheu. Quando ela se virou, Ethan sorriu timidamente atrás dela. “Eu não queria te assustar,” disse ele. “Eu só queria saber se você está bem.” Emma estendeu a mão para pegar a mão de Ethan, mas então, puxou-a de volta. Os olhos dela varreram furtivamente ao redor do pátio. Um par de crianças do teatro estava ensaiando uma cena perto do estacionamento. Havia uma pequena fila para tomar café no quiosque do outro lado das portas da escola. Ninguém estava olhando para eles, mas ela

ainda se sentia paranóica. Ethan não fazia parte do grupo de Sutton, e nem queria fazer. Ela suspirou. “Eu só estive aqui por dez minutos e está parecendo um longo dia,” ela gemeu. “E de acordo com Madeline, definitivamente havia algo acontecendo entre Sutton e Thayer antes dele sair da cidade.” Ethan assentiu. “Parece que Sutton estava brincando com Garrett, então.” “Eu acho,” Emma disse. Ela não queria supor que a irmã dela estava traindo, mas estava realmente parecendo que ela estava traindo-o. “Então, como você vai descobrir mais?” Ethan perguntou. Emma tomou um longo gole do café que Charlotte tinha trazido para ela. “Vou continuar escutando todas as fofocas, talvez.” Ela disse com um encolher de ombros. Ethan parecia que ia dizer outra coisa, mas ele foi cortado pelo último sino. Ambos se endireitaram. “Falaremos sobre isso mais tarde, ok?” “Tudo bem,” disse Ethan. Ele deu um passo para frente na mesma hora que Emma. Os pés deles colidiram e então recuaram. “Desculpe,” Emma murmurou. “Está tudo ok,” Ethan disse rispidamente, mudando sua grande mochila de ombro. Seus olhos se encontraram por um momento, mas depois Ethan baixou a cabeça novamente e foi em direção às portas. “Te vejo por aí,” ele murmurou. “Tudo bem,” disse Emma quando ele já tinha ido. Ela se virou e começou a caminhar na direção oposta. De repente, um ruído nos arbustos a fez parar. Alguém riu por trás de um pódio. Emma apertou os olhos, tentando decifrar quem era. Alguém estava olhando para ela? Era Laurel novamente, espionando ela e Ethan? Antes que ela pudesse olhar quem era, quem quer que fosse se enfiou na escola e disparou escada acima.

CAPÍTULO CINCO – JOGAR, MARCAR E DERROTAR
Depois da escola naquele dia, Emma estava caminhando para fora do campo de tênis da Wheeler High, a principal rival da Hollier, protegendo os olhos da radiante claridade e sorrindo timidamente para os aplausos. Todas as equipes de esporte da Hollier estavam jogando contra as equipes da Wheeler essa semana, e Emma tinha acabado de terminar um jogo cansativo contra uma pequena ruiva. Bem, supostamente não deveria ser cansativo ─ a treinadora Maggie basicamente tinha dito que a menina era tão abaixo da média que ela poderia ter ganhado mesmo com o tornozelo amarrado e uma raquete de badminton. Antes de Emma chegar em Tucson, o jogo mais parecido com tênis que ela já tinha jogado foi em uma mesa de pingue-pongue em um porão sujo com Stephan, seu irmão adotivo Russo. Ela tinha usado alguns dos palavrões russos que ele havia ensinado quando ela queria xingar durante uma partida sem se meter em problema. Para mim, isso era mais um lembrete do quão diferente nossa infância tinha sido. “Bom jogo, Sutton,” várias pessoas que Emma não reconheceu disseram quando ela passou. Ela desabou em uma cadeira da linha secundária, e começou a tirar o tênis moderno de tênis que ela tinha encontrado no guarda-roupa de Sutton ─ eles não a ajudaram em nenhum jogo ─ e deixou escapar um gemido. “Alguém ainda está fora de forma?” Uma voz falou alegremente. Emma olhou para cima e viu Nisha Banerjee encostada na cerca, com um sorriso no rosto. Os dedos longos e esguios de Nisha descansavam em sua cintura, seu uniforme de tênis branco brilhava ─ provavelmente, ela o branqueou após a partida ─ e não havia sequer uma pitada de suor na faixa de veludo que circulava seu cabelo escuro e liso. Ela era a co-capitã de tênis de Sutton, e ela nunca perdia a oportunidade de dizer a Emma o quão o título não era merecido. Emma mordeu o lábio e tentou dizer a si mesma que Nisha estava sendo malvada

porque ela estava sofrendo por dentro ─ ela perdeu a mãe no verão passado e estava lidando com muita dor. Em um universo paralelo, talvez ela e Emma tivessem uma ligação por causa de suas mães ausentes. Mas não neste universo, eu queria dizer a ela. Nisha Banerjee e Sutton Mercer eram inimigas e sempre seriam. Se Nisha não tivesse um álibi sólido para a noite do meu assassinato ─ ela estava com a equipe inteira de tênis na casa dela em uma festa do pijama ─ se não fosse isso, ela estaria no topo da minha lista de suspeitos. Emma agarrou a bolsa esportiva e se encaminhou para dentro da escola. A sala dos armários da Wheeler cheirava a meias velhas e spray de corpo com cheiro de morango. Um chuveiro pingava no canto, e um panfleto de uma competição de pólo aquático estava pendurado frouxamente na parede de concreto. Emma enfiou suas meias brancas suadas na bolsa e tirou o uniforme de tênis pela cabeça, calçou a sapatilha de balé cor de rosa, shorts jeans e uma camiseta com decote V. Enquanto caminhava, seus músculos das costas das coxas protestavam ruidosamente fazendo-a estremecer. Ela tinha mais oito partidas de tênis até o final da temporada. Provavelmente ela teria que substituir as coxas depois disso. Quando ela virou a esquina, viu as meninas com toucas de natação escritas com EQUIPE DE NATAÇÃO DA HOLLIER. A sala estava cheia de vapor, os chuveiros e as torneiras estavam espirrando água ruidosamente. Emma pegou alguns trechos das conversas: nado borboleta de alguém, então sobre algum nadador gostoso da Wheeler chamado Devon. Quando ela ouviu o nome Thayer Vega, seu cabelo da parte de trás do pescoço se arrepiou. Ela avançou em direção aos chuveiros. “Nós apenas sabemos que Sutton Mercer teve algo a ver com isso,” uma menina falou. “E ela não tem sempre?” Disse outra, sua voz mais irritante que a da outra. “É inacreditável como Thayer foi para a casa dela depois de todo mundo falar que ela colocou a vida dele em perigo. Quer dizer, o que esse cara estava pensando quando foi se envolver com ela de novo?” Emma sentiu a sensação de que espinhos rastejavam pelo corpo dela. Sutton havia colocado a vida de Thayer em perigo? De repente, ela se lembrou de algo que Ethan tinha dito na

sexta-feira, pouco antes deles se beijarem: Houve um boato de que Sutton havia quase matado alguém com o carro dela. Ela imaginou Thayer exageradamente manco enquanto corria da casa dos Mercers. Seria possível? O iPhone de Sutton zumbiu, e Emma se atrapalhou quando foi atender. Ela abaixou-se em um banheiro para que as nadadoras não pudessem vê-la espiando e verificou a tela. Era um número desconhecido com o prefixo 520. “Alô?” Ela sussurrou. “Sutton?” Resmungou uma voz baixa. “É o detetive Quinlan.” Ela segurou o telefone com mais força, seu coração disparando. Emma tinha crescido temendo a polícia. Becky tinha tido alguns desentendimentos com eles, e Emma sempre ficava com medo que os policiais também jogassem ela na prisão, por associação. “Sim?” ela rangeu. “Eu preciso que você venha para a delegacia e responda algumas perguntas,” Quinlan vociferou. “Sobre... o quê?” “Apenas venha.” Emma não podia dizer não a polícia. Suspirando, ela disse que estaria lá em breve. Então, ela colocou o celular na bolsa, se empurrou para fora do vestiário e entrou no corredor de mármore da Wheeler. Havia uma longa fila de armários na parede, muitos deles decorados com adesivos, mini pompons, e pichações que diziam coisas como VAI WHEELER ou INGLÊS É UMA DROGA ou JANE É UMA VADIA. A luz solar do final da tarde brilhava através de uma janela aberta e lançava retângulos dourados nas paredes azuis. Emma olhou para seu telefone novamente. A delegacia era exatamente ao lado da Hollier High, cinco quilômetros de distância. Como ela iria chegar lá? Laurel ainda não estava falando com ela, e ela, sem dúvida, iria contar aos Mercers que Sutton estava em apuros novamente. As perguntas poderiam ter algo a ver com Thayer, o que significava que ela não poderia chamar Madeline. Charlotte ainda estava terminando o jogo de tênis, e Ethan foi levar a mãe dele ao médico. As Gêmeas do Twitter eram a única opção que restava. Emma percorreu o iPhone de Sutton e encontrou o número de Lili.

“Claro que eu te levo,” disse Lili, quando ela atendeu, e Emma explicou a situação dela. “Pra que servem as amigas? Gabby e eu estamos a caminho!” Em minutos, o brilhante SUV das Gêmeas do Twitter foi arrastado até o meio-fio. Lili estava no assento do motorista, vestindo uma camiseta da banda Green Day e jeans rasgados, enquanto Gabby estava sentada no banco do passageiro, usando uma roupa listrada estilo colegial. Ambas estavam com seus iPhones no colo. Quando Emma entrou no banco de trás, ela pôde sentir os olhos das gêmeas sobre ela. “Então,” Gabby começou a falar quando o carro começou a se mover. “Você vai visitar Thayer na cadeia, não é?” “Nós sabíamos,” Lili disse antes que Emma pudesse responder. Seus olhos azuis estavam arregalados quando ela olhou no espelho retrovisor, salpicos de rímel manchavam seus cílios. “Nós sabíamos que você não conseguiria permanecer longe.” “Mas nós não twittamos sobre isso se você não quiser,” Gabby disse rapidamente. “Nós podemos guardar um segredo.” As Gêmeas do Twitter, como o nome indicava, eram as maiores caçadoras de fofoca da escola, elas publicavam a roupa suja de todo mundo em suas contas do Twitter. “Eu ouvi dizer que o julgamento dele está marcado para daqui a um mês e o pai dele vai deixá-lo apodrecer na cadeia até lá,” disse Lili. “Você acha que ele vai para a prisão?” “Aposto que ele fica bem com roupa laranja,” Gabby falou com entusiasmo. “Eu não vou ver Thayer,” disse Emma tão indiferente quanto pôde, se inclinando no banco traseiro de couro. “Eu, hum, só preciso assinar alguma coisa do furto fracassado. A lojista suspendeu todas as acusações.” Essa parte, pelo menos, era verdade. Ethan conhecia a vendedora da loja Clique e tinha convencido ela a tirar a queixa. Gabby franziu o cenho, parecendo decepcionada. “Bem, já que você vai pra lá, você poderia parar para vê-lo apenas por um segundo, não podia? Eu estou morrendo de vontade de saber onde ele esteve esse tempo todo.” “Você sabe, não é?” Lili se inclinou para cima, acenando com o dedo no ar. “Que feio, que feio, Sutton! Você sabia onde ele estava esse tempo todo e você não contou a ninguém! Então,

como vocês se comunicavam? Ouvi dizer que era por contas de e-mail secretas.” Gabby cutucou a irmã. “Onde você ouviu isso?” “A irmã de Caroline é amiga de uma menina que é amiga de uma garota que está ficando com o goleiro do time de futebol de Thayer,” Lili explicou. “Aparentemente, Thayer disse muitas coisas a ele, antes de ir embora.” Emma olhou para as Gêmeas do Twitter sentadas no banco da frente. “Eu acho que estou sentindo uma enxaqueca vindo,” disse ela friamente, convocando sua melhor voz de: Eu-souSutton-Mercer-e-você-vai-fazer-tudo-que-eu-pedir. “Que tal dirigir o resto do caminho em silêncio?” As gêmeas olharam desanimadas, mas abaixaram o rádio e dirigiram o resto do caminho em silêncio absoluto. Emma olhou pela janela para os edifícios cor de areia da Universidade do Arizona que passavam rapidamente. Sutton teria se comunicado com Thayer através de uma conta de e-mail secreta? Ela não tinha encontrado nada no computador de Sutton ou no quarto, mas Sutton não era nada além de sorrateira e inteligente. Eles poderiam ter se comunicado através de várias maneiras ─ celulares descartáveis, endereços de email falsos ou contas do Twitter, e-mail antigo... Eu forcei minha memória por algum tipo de contato com Thayer ─ secreto ou não. Eu me vi sentada na minha escrivaninha com a tela do computador em branco na minha frente, um sentimento familiar de inquietação em meu corpo, como se houvesse algo que eu precisasse contar a alguém. Talvez Thayer. Mas a tela do computador estava tão branca e intocada como a neve fresca, o cursor piscando e zombando de mim com sua vibração constante. O carro passou numa fazenda chamada Lone Range, onde três cavalos palominos pastavam em um pasto retangular. Havia uma mulher vestida com uma saia branca esvoaçante e um top da cor de uvas passas, ela vendia jóias de cor turquesa ao lado de uma placa com a propaganda manuscrita ALTA QUALIDADE, PREÇO BAIXO. O sol brilhava um pouco acima do horizonte. Quando elas entraram no estacionamento da delegacia, Lili chamou a atenção de Emma pelo espelho retrovisor. “Você quer que a gente espere por você?”

“Sim, poderíamos até entrar com você, você sabe, para dar apoio moral,” Gabby acrescentou. “Eu vou ficar bem.” Emma deslizou para fora do banco traseiro e fechou a porta. “Obrigada pela carona!” Eu e Emma não precisávamos virar para saber que Gabby e Lili observavam-na enquanto ela caminhava pelas portas de vidro escritas com DEPARTAMENTO DA POLÍCIA DE TUCSON.

CAPÍTULO SEIS – A PEQUENA EMMA NA GRANDE FLORESTA
O interior da delegacia estava exatamente igual a das outras duas vezes que Emma tinha ido: da primeira vez para relatar que Sutton estava desaparecida, então depois que ela havia roubado a carteira da loja Clique. A delegacia ainda tinha o cheiro de quentinha estragada. Os telefones tocavam alto e irritantemente. Um velho panfleto escrito com VOCÊ O VIU?, com o rosto de Thayer Vega e informações sobre ele, estava pendurado em um quadro de avisos no canto, ao lado de uma lista dos mais procurados de Tucson. Emma entrou e disse seu nome a uma mulher magra com cabelos cacheados que estava sentada na recepção. “S-U-T-T-O-N M-E-R-C-E-R,” a mulher repetiu, suas unhas roxas com brilho dando um tapinha em cada letra de um teclado antigo. “Vá se sentar que o Detetive Quinlan daqui a pouco irá falar com você.” Emma sentou em uma dura cadeira de plástico amarela e olhou para o quadro de avisos novamente. O calendário ainda estava em agosto. Emma deduziu que tinha sido a recepcionista que havia escolhido a foto de um gatinho perseguindo um novelo vermelho esfarrapado. Em seguida, ela examinou o pôster dos mais procurados. Parecia que a maioria dos caras estava sendo procurado por posse de drogas. Finalmente, ela deixou seus olhos pousarem no cartaz de DESAPARECIDOS. Os olhos castanhos de Thayer olhavam diretamente para ela, um pequeno sorriso em seus lábios. Por um momento, Emma jurou que o menino na foto realmente piscou para ela, mas isso era impossível. Ela passou as mãos na parte de trás do pescoço, tentando manter o controle. Mas Thayer estava em algum lugar desse edifício. Só a proximidade dele fazia-a estremecer. “Senhorita Mercer.” Quinlan apareceu na porta, vestindo calça marrom escura e uma camisa marrom claro de botão e manga comprida. Com seu um metro e oitenta, ele acabaria com uma pessoa imponente. “Vamos lá para trás.”

Emma se levantou e o seguiu pelo corredor ladrilhado. Quinlan abriu a porta da mesma sala interrogatória de concreto que ele tinha metido Emma na semana anterior, quando ele a questionou sobre os furtos da loja Clique. No momento em que a porta foi aberta, Emma foi envolvida com o cheiro do aerosol de lavanda da marca Febreze. Ela apertou a mão no nariz e tentou respirar pela boca. Quinlan se encostou em uma cadeira e acenou para Emma se sentar. Ela se sentou lentamente, então Quinlan se sentou de frente para ela. Ele nivelou seu olhar com o dela sobre a mesa, como se esperasse que ela começasse a falar. Emma observou a arma na cintura dele. Quantas vezes ele tinha usado ela? “Eu liguei para você por causa do seu carro,” Quinlan finalmente disse. Ele juntou suas mãos e olhou para Emma sobre as pontas dos dedos. “Nós o encontramos. Mas primeiro ─ há algo que você queira me dizer sobre isso?” Emma ficou tensa, sua mente em branco. Ela sabia muito pouco sobre o carro de Sutton ─ que ela tinha usado em uma brincadeira cruel contra suas amigas, há alguns meses, fingindo parar o veículo sobre os trilhos de trem enquanto um trem Amtrak estava correndo em alta velocidade sobre elas. Que ela o tinha tirado do estacionamento dos carros apreendidos na noite que ela morreu. E que ele tinha desaparecido, assim como Sutton. Eu gostaria de lembrar o que eu tinha feito com o carro naquele dia. Mas eu não conseguia. Apesar disso, o coração de Emma acelerava com emoção. Sutton estava dirigindo o carro no dia em que morreu. Talvez tivesse uma pista dentro dele. Talvez houvesse algum tipo de evidência lá. Ou talvez, ela se encolheu, talvez tivesse o corpo de Sutton lá. Eu esperava que não. Mas, de repente, um flash de memória despertou em minha mente. Senti meus pés batendo nas rochas e os meus tornozelos arranhando nos galhos e espinhos dos cactos enquanto eu corria em um caminho escuro. Medo pulsava em mim enquanto eu corria. Então eu ouvi passos martelando na terra atrás de mim, mas eu não me virei para ver quem estava me seguindo. À distância, eu era capaz de distinguir o contorno do meu carro parado em uma clareira além do matagal. Mas justamente antes que eu pudesse alcançá-la, a memória estourou como uma bolha de sabão.

Quinlan limpou a garganta. “Sutton? Você pode responder minha pergunta?” Emma engoliu em seco e afastou os pensamentos que estavam girando em torno dela. “Hum, não. Eu não tenho nada a dizer sobre o carro.” O detetive suspirou alto e passou as mãos pelo cabelo escuro. “Ótimo. Bem, o carro foi abandonado no deserto a poucos quilômetros do Sabino Cânion.” Ele sentou-se, cruzou os braços sobre o peito, e olhou para Emma significativamente, como se estivesse esperando por algum tipo de reação. “Quer explicar como ele chegou lá?” Emma piscou, suas terminações nervosas disparando rapidamente. “Hum... ele foi roubado?” Quinlan deu um sorriso falso. “É claro que foi.” Os cantos da boca dele se levantaram. “Então eu acho que você não sabe nada sobre o sangue que encontramos nele?” O corpo inteiro de Emma saltou para a vida. “Sangue? De quem?” “Nós não sabemos ainda. Ainda estamos fazendo testes com a evidência.” Emma colocou as mãos no colo para Quinlan não vê-las tremer. O sangue tinha que ser de Sutton. Alguém tinha atropelado a irmã dela, em seguida, tinha escondido o carro e o corpo de Sutton no deserto? Quem? Quinlan se inclinou para frente, talvez sentindo o medo de Emma. “Eu sei que você está escondendo algo. Alguma coisa séria.” Emma balançou a cabeça lentamente, não confiando em sua voz. Então, Quinlan esticou o braço para trás e puxou uma sacola de plástico de uma prateleira de metal enferrujada. Ele esvaziou o conteúdo sobre a mesa na frente de Emma. Um lenço de seda flutuou sobre a mesa, junto com uma garrafa de água de aço inoxidável, uma cópia da folha de registros do estacionamento de carros apreendidos com a assinatura de Sutton com grandes letras em negrito, e uma cópia do livro Uma Casa na Floresta. “Encontramos esses itens dentro do carro,” explicou ele, empurrando-os sobre a mesa. Os dedos de Emma traçaram uma linha sobre o lenço de seda. Cheirava exatamente como o quarto de Sutton ─ como

flores frescas, chocolate de menta, e essa essência natural de Sutton que ela não conseguia distinguir completamente. “E quanto ao carro, nós vamos mantê-lo apreendido ─ esses itens também ─ até descobrirmos de quem é o sangue do capô do carro.” Quinlan se inclinou para frente e olhou severamente para Emma. “A menos que você mude de idéia e nos esclareça.” Emma olhou para o detetive, o ar estava intenso entre eles. Por um momento, ela pensou em dizer a ele que o sangue era de Sutton. Que alguém havia matado sua irmã gêmea e que estava atrás dela também. Mas Quinlan não acreditaria nela agora do mesmo jeito que não tinha acreditado há um mês. E se ele acreditasse nela, ele poderia presumir exatamente o que Ethan havia alertado ela ─ que Emma tinha matado Sutton, tudo porque ela queria abandonar a sua personalidade de criança adotiva e assumir a vida encantada de Sutton. “Eu não sei de nada,” Emma sussurrou. Quinlan balançou a cabeça e bateu com a mão sobre a mesa. “Você só está tornando isso mais difícil para todos nós,” ele resmungou. Então, ele se virou no momento em que a porta da sala de interrogatório foi aberta. Outro policial enfiou a cabeça na sala e falou algo que Emma não entendeu. Quinlan levantou-se e se moveu em direção à porta. “Não vá a lugar algum,” ele alertou a Emma. “Eu já volto.” Ele bateu a porta com força. Emma esperou até ele caminhar pelo corredor, em seguida, olhou para baixo, para os itens que ele tinha deixado sobre a mesa. O lenço, fortemente perfumado com o cheiro de Sutton. A folha de registro, com a assinatura desenhada de Sutton na parte inferior. Então, ela olhou fixamente para a capa do livro Uma Casa na Floresta. Uma menina com um vestido vermelho segurava uma boneca morena. Emma tinha amado os livros quando era pequena, ela passava horas se perdendo no meio das dificuldades de Laura Ingalls Wilder ─ apesar de todas as situações de merda na casa de Emma, pelo menos ela não tinha que viver em uma cabana de barro como os exploradores. Mas o que Sutton fazia com uma cópia desse livro no carro? Emma duvidava que ela leria isso com dezoito anos ─ de maneira alguma. Eu tinha que concordar. Só olhar para a capa me fazia querer bocejar. Emma pegou o livro e vasculhou as páginas. Cheirava a mofo, como se não tivesse sido aberto há algum tempo.

Quando ela abriu na metade, um cartão postal caiu no chão. Ela inclinou-se e o virou. A frente foi impressa com uma imagem de um pôr do sol sobre dois cactos. BEM-VINDO A TUCSON, estava escrito em letras rosa na parte superior. Emma virou-o e leu o que estava escrito com tinta preta no verso: Estação de ônibus do centro. 09:30. 8/31. Me encontre lá. T. Seu coração começou a bater. Trinta e um de agosto. Essa foi a noite que Sutton morreu. E... T. Havia apenas uma pessoa na vida de Sutton com aquela inicial: Thayer. Então, Thayer estava com Sutton na noite que ela morreu? Ele não deveria estar fora da cidade? Emma correu os dedos pelo cartão. Não havia selo nele, ou seja, sem data para indicar quando o postal tinha sido enviado ─ ou de onde. Talvez Thayer tenha enviado em um envelope. Talvez ele tenha colocado debaixo da porta do quarto de Sutton ou no limpador do pára-brisa dela. Passos golpearam o corredor. Emma congelou, olhando para o cartão em suas mãos. De primeira, ela considerou empurrar ele de volta no livro ─ provavelmente era errado mexer em evidências ─ porém, no último minuto, ela guardou-o em sua bolsa. Quinlan entrou pela porta, e uma segunda pessoa o seguiu. De primeira, Emma pensou que seria outro policial, mas depois seus olhos se arregalaram. Era Thayer. Ela engasgou. Os olhos cor de avelã dele estavam encarando o chão. Suas maçãs do rosto estavam proeminentes, como se ele tivesse perdido peso rapidamente. Algemas circulavam seus pulsos, apertando suas mãos como se ele estivesse orando. Um bracelete sujo estava amarrado em seu antebraço. Estava tão apertado que parecia que tinha sido moldado em sua pele. Eu olhei pra ele também. Apenas vê-lo novamente fez um formigamento estranho disparar através de mim. Esses olhos profundos. Esse cabelo escuro e bagunçado. Aquele sorriso fixo. Havia algo sexy e perigoso nele. Talvez eu tivesse uma queda por ele. Quinlan fez um grunhido atrás de Thayer e empurrou-o em direção a mesa. “Sente-se,” ele ordenou. Mas Thayer ficou apenas lá em pé. Mesmo que ele não estivesse olhando para Emma, ela deslizou sua cadeira para longe, com medo dele se arremessar sobre ela.

“Suponho que ambos estão se perguntando porque eu trouxe vocês aqui para uma pequena reunião,” Quinlan disse em uma voz pegajosa. “Eu pensei que se eu falasse com vocês dois ao mesmo tempo, esclareceríamos algumas coisas.” Ele puxou outra sacola de plástico do bolso e segurou-a na frente do rosto de Thayer. Um longo pedaço retangular de papel estava dentro da sacola. “Acredito que isso é seu, Thayer,” ele disse, apertando a bolsa debaixo do nariz de Thayer. “Eu encontrei-a no carro da senhorita Mercer. Você se importa de explicar?” Thayer deu uma olhada na sacola. Ele não hesitou ─ nem mesmo piscou. Quinlan arrancou o papel da bolsa. “Não se faça de idiota, criança. Seu nome está ali.” Ele bateu o saco de plástico sobre a mesa e apontou para o pedaço de papel. Emma se inclinou para frente. Era um bilhete com um logotipo da estação de ônibus Greyhound no canto. O ponto de partida era Seattle, Washington, e o destino era Tucson, Arizona. A data era de trinta e um de agosto. E lá, impresso em letras pequenas e nítidas no fundo, estava o nome do passageiro: THAYER VEGA. Eu prendi a respiração ao mesmo tempo que Emma. Então Thayer estava no meu carro na noite que eu morri. Quinlan olhou para Thayer. A veia azul em sua têmpora pulsava. “Você voltou para Tucson em agosto? Você sabe o que você fez os seus pais passarem? O que você fez essa comunidade passar? Eu passei muito tempo e gastei dinheiro procurando por você, e acontece que você estava bem aqui, debaixo dos nossos narizes!” “Isso não é bem verdade,” disse Thayer em uma voz calma, firme e desconcertante. Quinlan cruzou os braços sobre o peito. “Então, que tal você me dizer o que é verdade?” Quando Thayer não respondeu, ele suspirou. “Há algo que você possa nos dizer sobre o sangue no capô do carro da Srta. Mercer? Ou como o seu bilhete foi parar no carro dela?” Thayer mancou até onde Emma estava sentada. Ele colocou as palmas das mãos sobre a mesa, olhando de Emma para Quinlan. Ele abriu a boca como se estivesse prestes a dar um longo discurso, mas apenas deu de ombros. “Desculpe,” ele

disse, sua voz rouca, como se ele não tivesse falado há dias. “Mas não. Não há nada que eu possa lhe dizer.” Quinlan balançou a cabeça. “Olha o que eu ganho por ser cooperativo,” ele murmurou, e então se levantou, pegou Thayer pelo antebraço musculoso e arrastou-o pela sala. Pouco antes de Thayer deslizar pela porta, ele virou a cabeça e deu um longo e estranho olhar para Emma. Emma olhou de volta, seus lábios se abriram. Seu olhar caiu do rosto de Thayer para suas mãos algemadas, e depois para o bracelete em volta do seu pulso. Olhei para a pulseira, também, e fui dominada por um sentimento estranho. Eu já tinha visto aquela pulseira em algum lugar. De repente, as peças se encaixaram. Eu vi a pulseira, e então o braço de Thayer, e então o rosto dele... e, em seguida, um cenário. Mais e mais dominós caíram, mais e mais imagens brilharam em minha mente. E antes que eu percebesse, eu estava caindo de cabeça em uma memória completa.

CAPÍTULO SETE – CAMINHADA NOTURNA
Eu paro na estação Greyhound em Tucson no momento em que um ônibus prata entra no estacionamento fazendo um enorme ruído. Eu rolo minha janela para baixo e o cheiro picante de um carrinho de cachorro quente flutua para dentro do meu Volvo verde britânico 122 de 1965. No início dessa tarde eu resgatei meu carro, meu bebê, do estacionamento de carros apreendidos. A papelada esvoaçava enquanto eu dirigia, minha assinatura nítida na parte inferior, um grande e vermelho 31 de agosto estampado no topo. Foi preciso semanas para eu conseguir o dinheiro para tirar o carro do estacionamento ─ de jeito nenhum eu pagaria com um cartão de crédito, pois meus pais sempre viam a fatura. A porta do ônibus se abre, e eu estico meu pescoço para examinar os passageiros que saem. Um homem acima do peso com uma pochete, uma adolescente com um iPod, uma família que parecia traumatizada com a longa viagem, todos eles segurando travesseiros. Finalmente, um menino desce a escada, seu cabelo preto despenteado e cadarços desamarrados. Meu coração salta. Thayer parece diferente, mais magro e um pouco imundo. Há um rasgo no joelho dos seus jeans Tsubi que eu comprei para ele antes dele ir embora, e o rosto dele parece mais anguloso, talvez até mais ousado. Eu observo ele examinar o estacionamento, procurando por mim. No momento em que ele vê meu carro, ele corre a toda velocidade do modo que é sua marca registrada, como uma estrela do futebol. “Você veio,” ele exclama quando puxa com força a porta do meu carro. “Claro que eu vim.” Ele entra no carro. Eu estendo meus braços e os enrolo em volta do pescoço dele. Eu o beijo com fome, sem me importar com quem possa nos ver ─ até mesmo Garrett, meu suposto namorado. “Thayer,” eu sussurro, sentindo a barba áspera de sua mandíbula contra a minha bochecha. “Eu senti tanto a sua falta,” responde Thayer, me puxando para perto. Ele coloca suas mãos em baixo das minhas costas e

seus dedos roçam o topo do meu short de algodão amarelo. “Obrigado por vir me encontrar.” “Nada poderia me impedir,” eu digo, obrigando-me a recuar um pouco. Eu checo o relógio de plástico com o desenho de um jacaré do meu pulso. Na maioria das vezes, eu uso o relógio da marca Cartier que meus pais me deram no meu aniversário de dezesseis anos, mas o que eles não sabem é que eu amo mais essa coisa barata. Thayer comprou para mim na Feira do Condado de Tucson, no último dia dele na cidade. “Então, quanto tempo nós temos?” Eu sussurro. Os olhos verdes de Thayer brilham. “Até amanhã à noite.” “E então você vai se transformar em uma abóbora?” Eu provoco. Essa é uma visita além do habitual, mas eu me sinto gananciosa. “Fique mais um dia. Eu vou fazer valer a pena.” Eu jogo meu cabelo sobre o ombro. “Aposto que sou mais divertida do que onde quer que seja que você vai.” Thayer passa o dedo ao longo da linha da minha mandíbula. “Sutton...” “Tudo bem.” Eu me afasto e aperto o volante com força. “Não me diga onde você esteve. Eu não me importo.” Eu estendo a mão até o rádio e coloco no canal de esportes. Aumento o volume. “Não faça isso.” A mão de Thayer cobre a minha. Seus dedos fazem um caminho pelo meu braço nu, até que eles fazem uma pausa no meu pescoço. Minha pele aquece sob suas mãos. Ele se inclina mais perto até que eu consigo sentir sua respiração no meu ombro. Menta, provavelmente ele mastigou um pacote inteiro de chiclete no caminho até aqui. “Eu não quero brigar com você no único dia que estamos juntos.” Eu viro de frente para ele, odiando o nó que se forma no fundo da minha garganta. “É que é muito difícil aqui sem você. Já fazem meses. E você disse que ia voltar definitivamente dessa vez.” “Eu vou, Sutton, você tem que confiar em mim. Mas ainda não. Não está certo.” Por quê? Eu quero perguntar. Mas eu prometi não fazer perguntas. Eu deveria estar feliz por ele ter saído de onde ele está morando para vir me ver, mesmo que seja apenas por vinte e quatro horas. Voltar aqui em segredo é um risco. Tantas pessoas estão procurando por ele. Tantas pessoas ficariam

furiosas se soubessem que ele esteve aqui e não entrou em contato. “Vamos para algum lugar especial,” diz Thayer, passando o dedo na minha perna. “Quer que eu dirija?” “Vá sonhando!” Eu provoco, checando meu retrovisor e acelerando o motor. E assim, eu me sinto melhor. Não vale a pena ficar pensando no que eu não sei e no que o futuro espera por nós. Eu e Thayer temos vinte e quatro horas felizes, e isso é o que importa. Eu saio do estacionamento e viro em uma estrada principal. Duas crianças, mais ou menos da nossa idade, vestidos com shorts jeans desfiados e carregando mochilas de acampamento, estavam tentando pegar carona ao lado de uma planta de deserto. As montanhas de Catalina elevavam-se na distância. “Que tal uma caminhada à noite?” Eu pergunto. “Ninguém mais vai estar lá agora ─ nós temos a montanha inteira para nós.” Thayer acena com a cabeça e eu ligo o rádio e coloco em uma estação de jazz estridente. O toque do saxofone soa através do carro. Eu me inclino para mudar, mas Thayer me pára. “Deixa,” diz ele. “Me deixa de bom humor.” “De bom humor para quê?” Eu pergunto, olhando de lado com um olhar astuto. Eu coloco meu dedo indicador nos lábios e dou um tapinha, como se eu estivesse pensando seriamente. “Eu aposto que eu consigo adivinhar.” “Vá sonhando, Sutton,” ele diz com um sorriso. Eu riu e estendo minha mão para o outro lado da cadeira e dou um soco no braço dele. Ficamos quietos pelo resto do caminho para o Sabino Cânion. Eu abro as duas janelas e o vento corre por nossos rostos. Passamos por uma cafeteria chamada Clube Congresso, que anuncia uma leitura de livros e uma noite de open-mic* (* “Microfone Aberto” Termo usado para um espaço dedicado a músicos e bandas que pretendem mostrar e divulgar a sua arte.), um pet shop chamado Mangy Mutts, e uma sorveteria com uma placa anunciando faça-seu-próprio sundae. Thayer pega minha mão livre quando nós passamos por um trecho tranquilo da rodovia. Cactos aparecem na distância. O perfume de flores silvestres flutua dentro do carro. Finalmente, subimos a estrada de terra que leva ao Cânion e estaciono em um lugar cercado por um bando de barris de lixo de metal. O céu noturno está negro, a lua é uma esfera brilhante

que flutua acima de nossas cabeças. O ar está quente e forte quando nós saímos do carro e encontramos a entrada para o caminho tortuoso que leva ao topo. Enquanto caminhamos, a mão de Thayer roça meu ombro, faz trilhas na minha espinha e pousa na parte de baixo das minhas costas. Seu toque deixa minha pele quente. Eu mordo meu lábio para não virar e o beijar ─ mesmo que eu quisesse, é mais delicioso resistir pelo tempo que eu conseguir. Andamos mais alguns metros em silêncio até o caminho pedregoso. Tecnicamente, o parque é fechado à noite, então não há uma alma à vista. Uma leve brisa me faz tremer. As rochas se destacam contra o luar. E então, depois de um minuto, eu ouço: um estalo de um galho seguido de algo que soa como um suspiro. Eu congelo. “O que foi isso?” Thayer pára e estreita os olhos na escuridão. “Provavelmente um animal.” Eu dou mais um passo, verificando com cuidado por cima do meu ombro, de novo. Não há ninguém lá. Ninguém está nos seguindo. Ninguém sabe que Thayer está aqui... ou que eu estou com ele. Perto do topo, Tucson inteira abaixo de nós, um mar de luzes brilhantes. “Uau,” Thayer sussurra. “Como você encontrou isso?” “Eu costumava vir aqui com o meu pai anos atrás.” Eu aponto para o chão precário abaixo. “Nós costumávamos colocar um cobertor ali, acampar e fazer um piquenique. Meu pai é um grande observador de pássaros, e ele me arrastou para isso também.” “Parece divertido,” Thayer diz sarcasticamente. Eu enganchei meu braço no dele. “Era.” Uma tristeza me encheu, de repente. Lembrei-me de como meu pai me colocava em cima de uma das enormes pedras daqui e me entregava um cantil roxo de água ─ o único que eu usava na escola primária. Nós batíamos nossos cantis e fazíamos brindes falsos. Para Sutton, meu pai dizia, a pioneira mais ágil que atravessou o Sabino Cânion desde 1962. Eu batia o meu cantil roxo contra o dele, e dizia: para papai, seu cabelo está ficando um pouco cinza, mas você ainda é o escalador mais rápido que esse lugar já viu! Nós ríamos e ríamos porque cada brinde se tornava mais estúpido do que o anterior.

Parece que anos se passaram desde que meu pai e eu éramos próximos assim, e eu sei que é minha culpa tanto quanto é dele. Olho para as estrelas que pontilham o céu escuro, e resolvo tentar me entender com ele. Talvez eu consiga fazer com que nossa relação volte ao que era antes. Eu dou cuidadosamente um passo até a borda. “Papai tinha apenas uma regra,” Eu continuo. “Eu tinha que ficar longe dessa borda. Havia vários rumores de que pessoas caíram da borda. Ninguém pode descer para pegar os corpos ─ a descida é muito íngreme, então há um monte de esqueletos lá embaixo.” “Não se preocupe,” Thayer fala e envolve os braços em volta de mim. “Eu não vou deixar você cair.” Meu coração de repente se derrete. Eu me inclino para frente e pressiono meus lábios nos dele. Seus braços envolvem em torno da minha cintura, pressionando meu corpo no dele. Ele coloca as mãos no meu cabelo enquanto corresponde meu beijo. “Não me deixe de novo,” Eu imploro. Eu não consigo evitar. “Não volte para onde quer que seja que você está se escondendo.” Ele beija minha bochecha e se afasta para olhar para mim. “Eu não posso explicar agora,” diz ele. “Mas eu não posso estar aqui ─ não agora. Eu prometo, porém, que eu não vou estar longe para sempre.” Suas mãos seguram meu queixo. Eu quero entender. Eu quero ser forte. Mas é tão difícil. Então eu noto uma pulseira branca de tecido no pulso dele. “Onde você conseguiu isso?” Eu pergunto, beliscando o fio áspero entre os dedos. Thayer dá de ombros e evita meu olhar. “Maria fez pra mim.” “Maria?” Eu endureço. “Ela é bonita?” “Ela é apenas uma amiga,” diz Thayer, seu tom rude e rígido. “Que tipo de amiga?” Eu pressiono. “Onde você a conheceu?” Sinto os músculos dele tensos sob a camiseta cinza. “Não importa. De qualquer forma, como Garrett está?” Ele diz o nome de Garrett como se fosse uma doença. Eu me afasto, cheia de culpa. Eu amo Garrett ─ de alguma forma. Ele é um bom namorado. E ele está aqui, em Tucson, e não Deus-sabe-onde como Thayer. Mas há algo que eu não consigo explicar que me atrai para Thayer e que me faz querer

me esconder com ele. É como se todos os motivos que eu tivesse para parar, não importassem. Thayer se move para perto de mim. “Quando eu voltar, as coisas vão ser diferentes entre nós?” Ele pergunta em voz baixa. Ele enrola as mãos em torno dos ossos do meu quadril, agarrando-me apertado. Nossos corpos estão tão perto. Concentro-me em seu cheio lábio inferior, desejando que eu soubesse responder. Quando estou com ele, tudo que eu quero é ele. Mas eu não posso negar que em parte, o que faz nosso relacionamento funcionar, é mantermos em segredo. “Eu quero, mas eu não sei,” eu sussurro. “Tem Laurel. E Deus sabe como Madeline vai lidar com isso. É tão... complicado, você não acha?” Thayer se desenrola de mim, e chuta um galho de árvore caído. “Você é a única que continua me implorando para voltar.” Seu tom frio e severo volta. “Thayer,” Eu protesto. “Lembra que combinamos não brigar?” Mas ele não olha para mim. Ele murmura algo debaixo de sua respiração. De repente, seu pé voa. E há um som de estalo quando seus dedos dos pés entram em contato com uma das pedras grandes da clareira. “Você está tentando quebrar todos os seus ossos?” Eu grito. Thayer não responde. Dou um passo para mais perto e coloco ─ o que eu espero que seja uma mão suave ─ no ombro dele. “Thayer, ouça. Eu quero você aqui. Eu sinto sua falta como louca. Mas talvez, agora não seja o melhor momento para nós dizermos a todos como nos sentimos.” Thayer se vira. “Sério, Sutton?” Ele fala. “Bem, que pena que a nossa relação é menos importante do que manter as aparências.” Eu pego a mão dele. “Eu não quis dizer isso. Eu estava apenas dizendo─” “Já chega.” Ele contrai a boca. “Talvez tenha sido um erro voltar. Eu já tive o suficiente.” Seus olhos se escurecem quando ele arranca sua mão da minha. Eu giro para longe dele, meu coração de repente em minha garganta. Eu nunca vi Thayer desse jeito. De várias maneiras, ele está me fazendo lembrar do pai dele. Explosivo. Instável. Volátil.

Grilos zumbem à distância. Um monte de pequenas pedras cai em cascata sobre o penhasco. De repente, eu percebo o quão sozinha e vulnerável eu estou, aqui na beira da montanha com um garoto que fugiu para algum lugar misterioso que não vai me contar. O quanto é que eu realmente sei sobre o que Thayer está fazendo ultimamente, afinal? Eu ouvi vários tipos de rumores sobre ele ─ especialmente aqueles sobre os problemas que ele está metido por aqui, as coisas perigosas que ele fez. E se algum deles for verdadeiro? Mas então eu percebo o quão louco é meu medo. É claro que Thayer não iria me machucar. O que temos é especial ─ ele nunca iria me prejudicar. Eu fecho meus olhos e estico meus dedos, sentindo o ar fresco da montanha. Se eu puder reunir meus pensamentos, talvez eu possa explicar o que estou sentindo, porque eu acho que não é o momento certo para Thayer e eu sairmos em público. Eu solto um suspiro e abro meus olhos, mas Thayer não está. Eu olho para a direita e esquerda, mas tudo que eu vejo é a escuridão. “Thayer?” Eu chamo. Um rugido soa a poucos metros de distância. “Thayer?” Eu chamo novamente. Nenhuma resposta. “Ha, ha. Muito engraçado!” Uma sombra desliza através das árvores e algo desliza à distância. Folhas farfalham. Um arrepio percorre toda a extensão do meu corpo. “Thayer?” De repente tudo o que eu quero é estar longe dessa montanha. Eu olho em volta mais uma vez, pronta para ir em direção ao caminho de onde está meu carro, mas uma mão agarra com força o meu braço. Terror dispara através de mim. Eu sinto uma respiração no meu pescoço. Mas antes que eu possa gritar, antes que eu possa girar e ver quem é, a memória se quebra ao meio e se transforma em absoluta brancura.

CAPÍTULO OITO – E AGORA?
Emma estava sentada sozinha na sala de interrogatório, esperando Quinlan retornar. Ela respirou profundamente, obrigando-se a manter a calma. O peso do que ela tinha acabado de descobrir estava atravessando-a novamente. Thayer estava no carro de Sutton na noite que ela morreu. O sangue no carro tinha que ser de Sutton. Ela finalmente teria descoberto como sua irmã gêmea tinha morrido? Eu não conseguia parar de me perguntar se ela realmente tinha descoberto. A memória que tinha acabado de ver piscou e estalou em minha mente como uma placa de néon. O olhar confuso que tinha atravessado o rosto de Thayer. O medo que eu senti na trilha. Os policiais haviam encontrado meu carro manchado de sangue no Sabino Cânion, exatamente onde Thayer e eu tínhamos ido para a nossa caminhada noturna. Pensei na briga séria que tivemos. E depois houve a mão no meu ombro, pouco antes da memória desaparecer... Emma mal teve tempo para recuperar o fôlego antes de Quinlan retornar, uma carranca desfigurava seu rosto. Com um empurrão rápido de sua mão, ele acenou para Emma ficar em pé. “Eu desisto. Se vocês dois não se importam em falar a verdade, então estão desperdiçando meu tempo. Saia daqui.” Ele chutou a porta com a bota para abri-la e apontou para o corredor. Emma seguiu o detetive entorpecido até a recepção. As luzes estavam brilhantes e fizeram com que a cabeça dela doesse. Emma queria perguntar a Quinlan quando ela poderia ter o carro de Sutton de volta ─ ou se os policiais iriam dizer a ela de quem era o sangue do carro ─ mas Quinlan abriu com força a porta da sala de espera antes que ela pudesse perguntar. Ela observou pela pequena janela quando ele passeou de volta pelo corredor, com as mãos nos bolsos e as algemas tilintando em seu cinto. Okay. Então ela estava livre para ir embora? Engolindo em seco, Emma caminhou pelo corredor e se empurrou através das portas de vidro para o estacionamento. Quase uma hora tinha se passado desde que ela tinha entrado na delegacia. O sol se punha, e o ar estava fresco por causa disso. Emma cruzou seus braços sobre a camiseta e tentou se aquecer, embora ela duvidasse que mesmo o suéter mais aconchegante seria capaz

de afugentar o frio que se instalara em seus ossos depois de ver Thayer. Ela pegou o iPhone de Sutton e digitou uma mensagem para Ethan. VOCÊ PODE ME PEGAR? Ela digitou rapidamente, rezando para que ele tivesse terminado de levar a mãe dele ao médico. Felizmente, uma mensagem de resposta apareceu em minutos. ONDE VOCÊ ESTÁ? Ethan perguntou. DELEGACIA DE POLÍCIA. Emma escreveu de volta. Isso chamou a atenção dele ─ Ethan respondeu imediatamente. O QUÊ? EU ESTOU INDO. Emma sentou-se e esperou. Dois carros preto-e-branco da polícia saíram com rapidez do estacionamento com as sirenes fazendo barulho. Uma porta da delegacia se abriu, e dois policiais caminharam para fora para fumar. Eles olharam para ela com desconfiança, talvez a tivessem reconhecido. Um deles disse algo para o outro que soou muito como Thayer. Ela pensou na expressão endurecida de Thayer na sala de interrogatório. Quando Quinlan disse para ele se explicar, ele não tinha falado uma palavra. Foi por que ele era culpado de algo terrível? Ele tinha matado Sutton? Ele tinha voltado para Tucson no dia trinta e um exatamente por essa razão? Ou ele tinha vindo para passar um tempo com ela... e perdeu o controle? Talvez eles tivessem brigado. Talvez Sutton disse algo para magoá-lo. Talvez Thayer tivesse pegado as chaves do carro de Sutton e tinha atropelado-a, em seguida, escondeu o carro no Sabino Cânion. Mas onde ele colocou o corpo de Sutton? Quinlan teria dito alguma coisa se estivesse no carro. Com cada fibra do meu ser inexistente, eu não queria que Thayer fosse meu assassino. Na minha breve memória, eu vi que Thayer e eu compartilhamos algo muito, muito especial. Eu não era o tipo de garota que implorava para um cara ficar ─ ou ficava com ciúmes quando outra garota fazia uma pulseira estúpida. Se Thayer planejava me matar, eu tinha sido pega de surpresa por ele. Eu o amava, profundamente e verdadeiramente. Mas então algo me ocorreu: Na minha memória, quando Thayer correu da estação de ônibus para meu carro, seu andar tinha sido decidido e gracioso. Aparentemente ele não tinha mancado. O que quer que seja que havia acontecido com a perna dele, tinha ocorrido depois. Talvez ele tivesse se

machucado fugindo da polícia. Ou talvez arrastando um corpo para dentro de um esconderijo escuro e profundo. O Honda velho vermelho sangue de Ethan parou na frente da delegacia de polícia. Emma correu na direção dele, abriu a porta e deslizou no assento de couro. O rádio estava ligado, tocando uma música dos Ramones. O interior do carro cheirava levemente a cigarros, mesmo que Emma achasse que Ethan não tinha fumado. Ela se virou para encará-lo, e foi capturada pelos olhos azuis brilhantes e calmos, pela pele bronzeada que se estendia sobre as maçãs do rosto saliente. “Eu acho que eu nunca estive tão feliz em ver você,” ela deixou escapar. Ethan agarrou as mãos dela. “O que aconteceu?” “Só me tire daqui.” Emma puxou o cinto de segurança sobre o colo e apertou as costas contra a almofada desgastada. Quando Ethan saiu do estacionamento, Emma explicou sua visita à delegacia de polícia. “O cartão-postal e o bilhete provam que ele estava com ela no carro dela na noite que Sutton morreu,” ela concluiu. “Eu tomei uma decisão. Eu realmente preciso falar com Thayer sozinha e descobrir exatamente o que aconteceu. É a única maneira de eu chegar no motivo disso.” Ethan parou em um semáforo e entrou numa estrada lateral. Duas meninas pré-adolescentes cavalgavam em cavalos Appaloosa. Faixas refletoras cobriam as selas ocidentais e Ethan desviou para dar a elas mais espaço. “Você está louca?” Ele perguntou. “Você vai se entregar para o assassino de Sutton?” Emma deu de ombros defensivamente. “É a melhor maneira de conseguir respostas. Eu não vou dizer para ele quem eu sou. Vou agir como Sutton, fingir que não sei que ele está por trás disso.” “Você está ouvindo a si mesma?” Ethan bateu com força a palma da mão no volante. “Isso não faz muito sentido. É muito perigoso. Você não sabe com quem está lidando. Thayer é astuto ─ ele pode distorcer as coisas tão habilmente como Sutton. Ele poderia expor você à polícia. Você sabe o que aconteceria depois.” A voz dele era urgente. “Você está vivendo a vida de Sutton ─ todos vão pensar que você matou Sutton para roubar a identidade dela.” “Thayer já teve a chance de fazer isso hoje e ele não fez,” Emma lembrou.

“Bem, ele poderia fazer muito pior do que isso,” disse Ethan, passando a mão pelo cabelo escuro. “Se ele sair, ele pode te machucar.” Emma olhou pela janela, para os postes que iluminavam o caminho do carro na estrada deserta. Ela não queria pensar sobre essa possibilidade. Ela esperava que Thayer ficasse preso para sempre. E ela não tinha gostado do tom de Ethan. Talvez ele apenas estivesse sendo protetor com ela, mas, ter vivido há treze anos, sem ninguém cuidando dela, parecia estranhamente desagradável ter alguém dizendo o que ela podia e não podia fazer, especialmente um namorado, que supostamente deveria estar do lado dela. “Você não conhece Thayer,” Ethan insistiu. “Ele tem um temperamento, como o pai.” Emma olhou para ele. “Você acha que eu não consigo lidar com temperamentos? Eu não sou Sutton, Ethan. Eu não cresci em uma ilusória bolha feliz. Eu fui uma criança adotiva. Eu ouvi gritos em toda a minha vida. Fui abandonada por minha mãe biológica. Eu sou mais forte do que você pensa.” “Não precisa ficar com raiva,” Ethan protestou. “Eu só não entendo por que você não está me apoiando nisso. Eu pensei que você quisesse encontrar o assassino de Sutton tanto quanto eu.” “Eu não quero que você se machuque,” argumentou Ethan, sua expressão dura. “Sim, bem, me poupe com suas palestras paternais,” Emma disse sombriamente. Ethan soltou um fungo pequeno e incrédulo. Eles ficaram em silêncio por um tempo, dirigindo pelas ruas escuras que passavam as casas de tijolo e gramados de cascalho. “Eu só quero que você esteja segura,” Ethan disse finalmente. “Apenas adie a visita por agora ─ por mim? Talvez haja outra maneira de descobrirmos o que aconteceu naquela noite. Uma maneira que nos dê uma prova sólida para a polícia.” Emma soltou um suspiro. Ethan estava certo sobre os riscos envolvidos em uma visita penitenciária. E ela tinha que admitir que o pensamento de enfrentar Thayer novamente a aterrorizava. “Ótimo. Eu vou esperar mais alguns dias. Depois disso, se não tivermos feito nenhum progresso, não terei escolha a não ser falar com Thayer.”

Emma podia estar relutante, mas eu, por exemplo, mal podia esperar para ouvir o que ele tinha a dizer.

CAPÍTULO NOVE – FASCINADA COM AS ESTRELAS
“Sutton?” A Sra. Mercer chamou quando Emma entrou correndo na casa dos Mercer depois de Ethan deixá-la na frente da casa. “Você perdeu o jantar!” “Uh, é, eu tinha algumas coisas para fazer depois da partida de tênis,” Emma explicou vagamente enquanto subia as escadas. Ela ouviu os passos da Sra. Mercer no corredor. “Vou deixar um prato para você na gaveta de aquecimento, ok?” “Ok,” Emma disse, se escondendo no quarto de Sutton como uma fugitiva. Não que ela tivesse alguma idéia do que era uma gaveta de aquecimento. E ela não iria ter uma conversa com a Sra. Mercer agora. Uma olhada na expressão aflita e assustada de Emma, e ela saberia que algo estava acontecendo. Ela fechou a porta do quarto de Sutton e olhou em volta, tentando se orientar. Se controle, Emma, ela disse a si mesma, muito tensa até mesmo para fazer uma manchete sobre o que estava acontecendo agora. O que ela precisava fazer era descobrir mais coisas sobre Thayer e sua relação com Sutton. Foi uma amizade intensa? Um encontro romântico? Por que eles se encontraram secretamente na noite que Sutton morreu? Se Thayer tinha chegado em Tucson na noite do dia trinta e um, então ele foi a última pessoa a vê-la viva ─ ou era o assassino. Mas onde ele tinha se escondido desde então? Por que ele voltou agora? E como ela iria descobrir as respostas dessas perguntas sem perguntar à queima-roupa ─ ou revelando que ela não era Sutton? Emma queria que houvesse pistas no quarto de Sutton, mas ela já havia procurado várias vezes desde que chegou. Ela tinha encontrado informações sobre o que era o Jogo da Mentira, incluindo brincadeiras que Sutton e as outras tinham feito e as pessoas que elas tinham machucado. Ela tinha vasculhado na página do Facebook de Sutton e nos e-mails. Ela até mesmo tinha lido o diário de Sutton ─ que não tinha dito muita coisa, a maior parte do que tinha escrito era trechos vagos e piadas

internas. Novas evidências não iriam cair no colo dela só porque ela queria. Se acontecesse ao menos isso. Eu gostaria de transferir meus pensamentos para a mente de Emma e que ela soubesse que eu estive apaixonada por Thayer e que nós tínhamos ido caminhar juntos na noite em que eu morri. Essa coisa de um só meio de comunicação, era uma falha grave nessa coisa de estar morta. Emma ligou o laptop MacBook Air de Sutton e conectou no site da Greyhound, pesquisando os pontos de embarque e desembarque do ônibus da Greyhound em Seattle e Tucson. Era uma longa viagem, durava um dia, com uma mudança de piloto no meio do caminho, em Sacramento. Ela discou o número de atendimento ao cliente do site e esperou quase 10 minutos, ouvindo uma música da Britney Spears. Finalmente, uma mulher com uma voz suave e com um sotaque sulista respondeu. Emma limpou a garganta, controlou seus nervos, e começou a falar. “Eu realmente estou torcendo para que você possa me ajudar.” Emma tentou soar como se estivesse distraída. “Meu irmão fugiu e eu acho que ele pegou um dos ônibus de vocês para sair de Tucson. Tem alguma maneira de você poder me dizer se ele comprou uma passagem? Foi no início de setembro.” Ela não acreditava que a história tinha deslizado de seus lábios. Ela não tinha ensaiado isso de antemão, mas ela ficou surpresa com o quão natural soou. Era um velho truque que ela lembrava que Becky fazia de vez em quando: choramingar quando precisava. Uma vez, quando elas estavam em um restaurante IHOP e elas receberam uma conta que não podiam pagar, Becky disse à garçonete uma história longa sobre a tragédia quando seu marido caloteiro esvaziou sua carteira sem dizer a ela. Emma estava sentada ao lado dela, pasmada com sua mãe, mas sempre que ela inspirava para corrigir Becky, sua mãe a chutava com força por debaixo da mesa. A mulher do outro lado da linha tossiu. “Bem, eu realmente não deveria fazer algo assim, querida.” “Eu realmente sinto muito por ter que pedir.” Emma soltou um soluço alto. “É que eu estou tão, tão desesperada. Meu irmão e eu éramos muito próximos. Estou devastada por ele ter ido embora, e eu estou com medo que ele esteja em perigo.”

A mulher hesitou por um momento, e Emma sabia que ela tinha conseguido. Finalmente, ela suspirou. “Qual é o nome do seu irmão?” Bingo. Emma reprimiu um sorriso. “Thayer. Thayer Vega.” Ela ouviu uma série de cliques do outro lado. “Madame, eu vejo um Thayer Vega em um ônibus de Seattle para Tucson às 9 da manhã do dia 31 de agosto, mas essa é a única entrada que eu tenho com esse nome no sistema.” Emma mudou o telefone para o outro ouvido, sentindo-se esvaziada. “Você tem certeza? Talvez tenha saído de uma cidade diferente? E quanto a Phoenix? Flagstaff?” “É possível,” respondeu a mulher. “Eu só tenho o nome dele nessa viagem porque ele reservou on-line. Ele pode ter pago em dinheiro em qualquer estação ─ não há maneira de nós rastrearmos isso.” Emma se fixou neste pedaço de informação. “Existe alguma maneira de saber de onde ele reservou o bilhete on-line? Talvez com o endereço de IP?” Houve uma longa pausa. “Não, eu não tenho essa capacidade. E eu realmente falei mais do que deveria...” Percebendo que ela tinha conseguido o máximo que podia, Emma agradeceu a mulher e desligou. Merda. Ela sabia que ligar para a Greyhound era um tiro no escuro, ela teve sorte que eles tinham lhe dado alguma informação. Ela fechou o laptop e passou as mãos pela superfície lisa e brilhante. De repente, as quatro paredes pareciam estar se fechando sobre ela. Ela colocou o computador de volta na mesa de Sutton, calçou as sapatilhas de balé de Sutton e começou a descer as escadas. O anoitecer tinha caído lá fora, e a casa estava fria, escura e silenciosa. Emma não sabia para onde a família tinha ido ─ era muito cedo para irem dormir. Ela caminhou pelo corredor vazio, seus passos ressoando no chão, e entrou na cozinha. Os aromas pungentes de batata assada e carne grelhada encheram o ar. O forno ainda estava ligado, e Emma percebeu que tinha um prato esperando por ela em um compartimento pequeno. Ela não pôde evitar de se sentir emocionada. Nenhuma mãe adotiva tinha feito o prato dela. A maioria das vezes ela tinha que cuidar de si mesma. Mas ela não estava com fome agora. Emma entrou pela cozinha e saiu para o pátio detrás da casa dos Mercer. A noite

estava fresca depois de um dia quente, a sensação era de mergulhar em uma piscina depois de um banho em uma banheira de água quente. Ela puxou uma das espreguiçadeiras feitas de madeira para o canto mais escuro do gramado, em seguida, se esticou sobre ela. Ela sempre raciocinava melhor do lado de fora. O céu azul escuro estava coberto com estrelas. Elas brilhavam como luzes de Natal distantes, claras e luminosas. Fazia séculos que Emma tinha sentado do lado de fora e tinha ficado apenas observando o céu. Uma das últimas vezes que ela tinha feito isso foi na noite em que ela descobriu sobre o estranho vídeo on-line de Sutton, quando ela morava em Las Vegas. Ela olhou para o cosmo, observando suas estrelas favoritas, aquelas que ela tinha chamado de Mãe Estrela, Pai Estrela e Emma Estrela, que ela tinha escolhido logo após Becky tê-la abandonado, ela mantinha a esperança de que um dia sua verdadeira família iria se unir na terra assim como no céu. Mal sabia que alguns momentos depois, toda sua vida iria mudar. Ela iria encontrar um membro da família, uma irmã, o que ela mais queria no mundo inteiro. E de uma forma indireta, ela teria uma família, também. Ela até tinha conseguido um namorado. Mas nada disso tinha saído do jeito que ela queria. “O que você está fazendo aqui fora?” Emma saltou e se virou. A Sra. Mercer deslizou pela porta de vidro e se juntou a Emma no quintal. Ela estava descalça, e seu cabelo preto caia ao redor de seus ombros. Ela puxou um cachecol vermelho de caxemira em torno de seu pescoço longo e esguio. Emma se ajeitou em uma posição sentada. “Apenas olhando as estrelas.” A Sra. Mercer sorriu. “Essa costumava ser a coisa que você mais gostava de fazer quando era pequena. Lembra quando você deu nome as estrelas? Você disse que não era justo que outras pessoas nomeassem-nas apenas porque nasceram há milhares de anos antes de você.” “Eu nomeava estrelas?” Emma se encostou, assustada. “Como eu as chamava?” “Nada tão original. Eu acho que era A Mãe Estrela. O Pai Estrela. A Laurel Estrela. A Sutton Estrela. E a Constelação E, para sua boneca favorita.” Sra. Mercer apontou para um conjunto de estrelas no oeste. “De fato, acho que aquela

aglomeração lá em cima deve ser ela. Viu? Forma um E. Você amava isso.” Emma olhou para o céu, chocada. Sem dúvida, seis estrelas formavam uma grande letra E maiúscula. Um arrepio percorreu a espinha dela. Era o mesmo grupo de estrela que ela também tinha escolhido. Ela sabia que Sutton tinha uma boneca velha que ela chamava de E ─ talvez o E fosse de Emma ─ mas era estranho que Sutton houvesse se fixado nessas mesmas estrelas, tinha dado até mesmo os mesmos nomes. Era uma conexão cósmica de gêmeas? Lá no fundo Sutton sabia da presença de Emma, e vice-versa? Pela milionésima vez, Emma se perguntou como teria sido a vida dela se ela e Sutton não tivessem sido separadas. Elas seriam amigas? Elas teriam se ajudado a sobreviver com o temperamento maníaco de Becky? Elas seriam colocadas juntas em um orfanato, ou separadas? Eu não podia deixar de me perguntar, também. Se eu tivesse crescido com Emma, com uma gêmea para cuidar de mim, eu ainda estaria viva? A Sra. Mercer se afundou na outra espreguiçadeira e colocou as mãos atrás da cabeça. “Posso te perguntar uma coisa sem você arrancar minha cabeça?” Emma enrijeceu. Ela não estava a fim de perguntas curiosas. Ela teve o bastante com Quinlan. “Aham, eu acho.” “O que está acontecendo com você e sua irmã?” A Sra. Mercer deslizou para mais longe na cadeira. “Desde o que... o que aconteceu na sexta-feira à noite, as coisas estão piores do que o habitual entre vocês duas.” Emma afastou o olhar do céu e olhou para as unhas. “Eu gostaria de saber,” ela disse com uma voz desesperada. “Vocês pareciam estar se dando tão bem na semana passada,” A Sra. Mercer disse suavemente. “Vocês foram para o Baile de Boas-Vindas juntas, conversavam durante o jantar, não tinham as brigas habituais sobre coisas estúpidas habituais.” Ela limpou a garganta. “Impressão minha, ou as coisas mudaram porque Thayer apareceu no seu quarto?” A pele de Emma se arrepiou apenas ao som do nome de Thayer. “Talvez,” ela admitiu. “Eu acho que ela está... com raiva, de alguma forma. Mas eu não pedi para ele aparecer naquela noite.”

A Sra. Mercer mordeu o lábio inferior, pensando. “Sabe, Sutton, Laurel te ama, mas você não é exatamente a melhor irmã para se ter.” “O que você quer dizer?” Emma perguntou, cruzando as pernas e se inclinando para mais perto da Sra. Mercer. Um vento forte desgrenhou seu cabelo e adormeceu seu nariz. É, eu pensei, indignada. O que isso quer dizer, mãe? “Bem, você é bonita, você é inteligente, e tudo parece ir tão facilmente para você. Amigos, namorados, tênis...” A Sra. Mercer se inclinou para frente e empurrou uma mecha do cabelo de Emma para trás da orelha. “Thayer pode ter sido o melhor amigo de Laurel, mas ninguém pode negar o modo que ele olhava para você.” A respiração de Emma ficou presa na garganta dela. A Sra. Mercer sabia algo sobre o relacionamento de Thayer e Sutton? “E... como ele olhava pra mim?” A Sra. Mercer estudou Emma por um segundo, a expressão dela não deixava transparecer nada. “Como se ele pudesse fazer qualquer coisa para estar com você.” Emma esperou, mas sua mãe não continuou. Ela queria que ela dissesse algo mais concreto. Mas ela não podia perguntar, Ei, afinal, eu sempre namorei secretamente com Thayer? E, você acha que é possível ele ter perdido a paciência e me matado? Um sorriso melancólico puxou as bordas dos lábios da Sra. Mercer. “Seu pai costumava me olhar assim, você sabe.” “Mãe, não quero ouvir isso!” Emma fez uma careta, sabendo que teria sido a reação de Sutton. Mas secretamente gostava que a Sra. Mercer estava contando a ela sobre seu namoro e o do Sr. Mercer. Era bom ouvir falar de dois adultos apaixonados, dois pais que amavam suas filhas e faziam de tudo que estavam no alcance deles para dar a melhor vida a elas. Pessoas assim não existiam em sua vida antiga. “O quê?” A Sra. Mercer apertou a mão inocentemente sobre o peito. “Nós éramos tão jovens quanto vocês, você sabe. Há muitos, muitos anos atrás.” Emma olhou para as linhas suaves ao redor dos olhos da Sra. Mercer e seus cabelos recém-tingidos. Ela descobriu que os pais de Sutton tinham adotado-a quando tinham trinta e poucos anos, depois de estarem casados por quase vinte anos. Era um contraste gritante com Becky, que se gabava por ser uma “mãe jovem e legal,” com apenas 17 anos mais velha que

Emma. Mas ela sempre parecia mais como a irmã mais velha e rebelde de Emma. “Você está feliz por ter esperado tanto tempo para ter filhos?” Emma deixou escapar antes de poder parar a si mesma. Uma expressão tensa passou pelo rosto da Sra. Mercer. Um pica-pau bicava uma árvore próxima. Um carro acelerou na rua. Uma nuvem passou sobre a lua, escurecendo momentaneamente a noite. Finalmente, ela inspirou. “Bem, eu não sei se feliz é a palavra certa. Mas eu agradeço todos os dias por ter você e Laurel em nossas vidas. Eu não sei o que eu faria se algo acontecesse com uma de vocês.” Emma se moveu desconfortavelmente, culpa apertando-a. Era em momentos como esses que ela se arrependia de ter que esconder um segredo da família de Sutton ─ um grande segredo. A filha deles havia sido assassinada, e cada dia que passava era uma oportunidade perdida para encontrar o assassino. Quando Emma estava no ônibus para Tucson, ansiosa para encontrar Sutton, ela carregava uma pequena tocha de esperança de que talvez, apenas talvez, a família adotiva de Sutton quisessem ela, também, e deixassem ela viver o último ano da escola com eles. Ironicamente, ela tinha conseguido o que queria. O que eles fariam com ela se descobrissem a verdade? Expulsariam-na com certeza. Provavelmente ainda prederiam-na. Ela queria tanto ser honesta com a Sra. Mercer. Dizer a ela que algo ruim tinha acontecido com uma das filhas dela. Mas ela sabia que era impossível. Ethan estava certo. Ela não podia contar a ninguém quem ela era. Ainda não. A porta se abriu novamente, e uma segunda pessoa apareceu no pátio. Os cabelos loiros e encaracolados de Laurel estavam sendo iluminados pelos refletores do telhado. “O que vocês estão fazendo aqui?” “Observando as estrelas,” a Sra. Mercer falou alegremente. “Se junte a nós!” Laurel hesitou por um segundo, então atravessou a grama em direção a elas. A Sra. Mercer cutucou Emma, como se dissesse: Olhe! Essa é a sua chance de consertar as coisas! Laurel manteve a cabeça abaixada enquanto sentava em um lugar próximo à sua mãe. A Sra. Mercer inclinou-se para frente e começou a trançar o cabelo de Laurel.

“Vocês estavam olhando as estrelas?” Laurel perguntou incrédula. “Aham,” a Sra. Mercer falou. “E eu estava falando a Sutton sobre o quanto eu amo vocês duas. E o quanto eu quero que vocês duas se dêem bem.” Mesmo que estivesse mais escuro, Emma tinha certeza de que Laurel estava fazendo uma careta. A Sra. Mercer pigarreou, obviamente implacável. “E então, não é agradável, todas nós três passarmos um tempo juntas?” “Aham,” Laurel murmurou de modo não convincente, recusando-se olhar para Emma. “Talvez vocês duas pudessem se perdoar?” A Sra. Mercer pressionou. Os ombros de Laurel enrijeceram visivelmente. Após uma batida de coração, ela levantou-se e cruzou os braços na frente do peito. “Eu acabei de lembrar que tenho alguns deveres de casa que eu tenho que fazer,” ela murmurou, correndo para a porta. Era como se ela tivesse que ficar longe de Emma o mais rápido possível. A porta bateu com força. A Sra. Mercer parecia abatida, como se ela realmente pensasse que seus esforços funcionariam. Emma suspirou e olhou para sua constelação mais uma vez. Ela encarou as duas estrelas mais brilhantes perto da Mãe Estrela, Pai Estrela e Emma Estrela, e as nomeou de Sutton Estrela e Laurel Estrela, na esperança de que a proximidade delas lá em cima pudesse influenciar na relação daqui debaixo dela com Laurel. Mas pelo olhar de nojo e ódio no rosto de Laurel, eu tinha a sensação de que seria necessário muito mais do que isso. E Emma deveria saber a verdade sobre as estrelas ─ apesar delas parecerem estar juntas, lá em cima no céu, elas estavam a um zilhão de anos-luz de distância.

CAPÍTULO DEZ – VOU PEGAR VOCÊ
No dia seguinte, a campainha tocou e Emma agarrou o livro de Inglês e se juntou ao fluxo de alunos do corredor. Assim que ela virou a esquina para a ala de arte, ela ouviu os sussurros e sentiu os olhares. “Ela e Thayer...” “Vocês sabiam que ela mandou ele embora?” “A audiência dele é no mês que vem. Você acha que ele vai apodrecer na cadeia esse tempo todo?” Uma jogadora de basquete com luzes nos cabelos e um nariz arrebitado atirou em Emma um olhar curioso, então se inclinou para um garoto com tranças rastafári e ambos começaram a rir. Emma fez uma careta e manteve a cabeça erguida. Ela tinha muita experiência com os olhares estranhos das crianças das várias escolas que ela tinha frequentado. Na verdade, ela até compôs uma lista de vinganças desagradáveis que ela poderia falar se eles comentassem sobre suas roupas baratas e do fato de que ela era uma criança adotiva. Ela havia escrito a lista em um caderno de bolso Moleskine e mantinha ele com ela o tempo todo, assim como os turistas estrangeiros carregavam dicionários de inglês. Ela nunca tinha sido corajosa o suficiente para usar qualquer uma das réplicas, no entanto. Sutton provavelmente teria usado. De repente, alguma coisa no outro extremo do corredor chamou a atenção de Emma. Uma longa mesa havia sido organizada na porta, e uma fila de alunos estava de pé na frente dela, assinando algo. Quando a multidão se afastou, Emma viu Laurel e Madeline sentadas em cadeiras, ambas vestindo camisetas pretas com palavras impressas com a cor branca em seus peitos. Emma olhou, não acreditando nos seus olhos. As camisetas diziam LIBERTEM THAYER. Emma caminhou até a mesa, a curiosidade ganhando. “Oh, ei, Sutton!” Madeline disse em uma voz melosa. “Vamos almoçar em um segundo.” “O que é isso?” Emma perguntou, apontando para a prancheta que todas as crianças estavam assinando.

“Nada.” Laurel puxou-a para longe do garoto vestindo uma camisa de baseball que tinha acabado de assinar o papel, e a cobriu com a mão. “Você não estaria interessada.” “Ela tem que estar interessada,” disse Madeline baixinho. “É ela a razão dele estar nessa confusão.” Madeline empurrou a prancheta para Emma. PETIÇÃO PARA LIBERTAR THAYER VEGA, dizia no topo. Toneladas de assinaturas de estudantes foram rabiscadas nas linhas da página. Havia também uma jarra marcada como FUNDO PARA FIANÇA preenchida com algumas notas de cinco, dez e até mesmo uma ou duas nota de vinte dólares. “Quer contribuir, Sutton?” Madeline falou alegremente. “Quinze mil é muito dinheiro, cada dólar é válido. De jeito algum Thayer vai durar na cadeia até o próximo mês. Precisamos tirá-lo mais cedo.” Emma passou a língua sobre os dentes. A única coisa que a mantinha sã agora era o fato de que Thayer ficaria na prisão até a audiência. Mas ela não poderia dizer isso para Mads e Laurel. Ela se perguntou o que aconteceria se ela aparecesse amanhã com uma camiseta TALVEZ THAYER TENHA MATADO MINHA IRMÃ GÊMEA HÁ MUITO TEMPO PERDIDA. Ela olhou para cima e pegou Laurel olhando para ela. Ela pensou no que a Sra. Mercer havia dito ─ que para Laurel era difícil ser irmã de Sutton. Emma queria saber o motivo para Laurel ter ficado com tanta raiva com o retorno de Thayer. Foi por que Thayer foi ao quarto de Sutton, e não ao de Laurel? Laurel estava com ciúme por causa disso, ou ela sabia que Thayer estava apaixonado por Sutton? Ou talvez ela pensasse que Sutton tinha afastado ele dela. Mas talvez Laurel estivesse chateada com algo completamente diferente ─ algo que eu e Emma não poderíamos nem sequer imaginar. Felizmente, Emma foi salva de inventar uma desculpa para não assinar a petição por Charlotte, que colocou o braço em volta dos ombros de Emma. “Vamos lá, meninas. Até mesmo os militantes precisam comer,” ela falou em voz alta, acenando para Madeline e Laurel. “Eu já guardei nossa mesa favorita.” Dando de ombros, Madeline e Laurel colocaram as petições e os banners de volta em suas bolsas e se levantaram. Sem falar, Charlotte levou-as a uma mesa de madeira no enorme pátio fora da lanchonete. Havia flores do deserto ao redor.

Beija-flores voavam em direção aos pequenos alimentadores em forma de margarida. Na mesa ao lado delas, várias garotas em uniformes da banda estavam rindo de uma foto de um iPad. Calouros idiotas sopravam papel nos outros da mesa ao lado. Algumas meninas em calças skinny que estavam sentadas na parede de estuque, comiam pequenas porções de iogurte grego. Uma risada ecoou através da tensão e Emma virou-se e viu as Gêmeas do Twitter se aproximando. Gabby usava uma calça capri suspensa por uma fita de gorgorão e uma faixa de cabelo combinando. Pequenos corais cor pêssego estavam pendurados em uma corrente delicada entre os botões perolizados da camiseta de colarinho verde-limão que ela usava. Lili, por outro lado, parecia que tinha invadido o armário da Courtney Love, ela estava vestindo uma saia xadrez mantida unida por um zilhão de alfinetes de segurança, meias pretas rasgadas e um top preto de um ombro só que deixava o decote a mostra. “Olá, damas,” Gabby disse, enrolando uma longa mexa de cabelo loiro em torno do dedo indicador. “Hey,” Madeline disse simplesmente. “Não fique tão animada por nos ver,” Lili repreendeu. Laurel revirou os olhos e molhou um pedaço de sushi no molho de soja. As Gêmeas do Twitter sentaram e abriram suas bolsas com o almoço. Ambas trouxeram iogurte orgânico de morango e uma banana. “Então, meninas,” Lili disse quando descascou a fruta. “Agora que somos membros de carteirinha do” ─ ela olhou em volta e falou mais baixo ─ “Jogo da Mentira, quem vai ser a próxima vítima?” Seus olhos azuis brilhavam de excitação. Madeline encolheu um ombro. Ela passou as costas de sua mão no blush cintilante cor pêssego que salpicava sua pele de porcelana. “Eu não me importo,” disse ela, lançando um olhar desinteressado sobre a cabeça de Emma. Mas então, o rosto de Laurel brilhou. “Na verdade, eu tive uma idéia.” Ela olhou ao redor conspiratoriamente, em seguida, baixou a voz. “Que tal ele?” Ela apontou para alguém que estava atrás de Emma. Todo mundo se virou para seguir o olhar dela. Quando Emma viu quem era, seu coração afundou. Ethan estava de costas para elas, com os pés encostados na parede de tijolos e um livro na mão. “Ethan Landry?” Gabby disse, uma nota de surpresa em sua voz.

“Por que não?” Laurel perguntou. Ela olhou para cima e encontrou o olhar de Emma, e Emma sentiu um calor nas bochechas. Ela tinha admitido que gostava de Ethan quando elas foram comprar roupas juntas para o Baile de Boas-Vindas na semana passada. E Laurel tinha visto eles abraçados na quadra de tênis. Obviamente isso era um vá-se-ferrar, talvez como vingança por Thayer ter aparecido no quarto de Sutton. Charlotte entortou a boca, parecendo não convencida. “Ethan? Isso não seria uma repetição?” “Sim, nós combinamos não repetir, Laur,” Madeline a lembrou. Emma quase engasgou com o sanduíche de peru que ela tinha tirado da bolsa de almoço de Sutton. O que isso significava? Elas já tinham feito uma brincadeira com Ethan antes? Ela pensou nos vídeos do Jogo da Mentira que ela tinha visto no computador de Laurel. Nenhum envolvia Ethan. Quando isso tinha acontecido? Por que Ethan não tinha dito a ela? “Tecnicamente é uma repetição, eu acho,” Laurel concordou, apertando os lábios pensativamente. “Mas nós nunca descontamos por ele arruinar nossa brincadeira com você, Sutton.” Ela estava se referindo a noite que Ethan encontrou Charlotte, Madeline e Laurel. Sutton estava com os olhos vendados e elas estavam gravando um vídeo de um falso estrangulamento, o mesmo vídeo que apareceu na internet e levou Emma a pesquisar sobre Sutton pela primeira vez. Ethan tinha pensado que algo terrível estava acontecendo com Sutton e interveio para detê-las. Mas ele disse a Emma que Sutton riu e fingiu que não era nada. “E nós vamos ter certeza de que a brincadeira em si seja diferente.” Madeline jogou uma uva em sua boca. “Vocês sabem, Ethan é um alvo muito bom. Ele é tão sensível e emo. Ele provavelmente vai gritar ou algo assim.” “Boo hoo,” Lili falou alegremente. Ela postou algo no Twitter, seus dedos voando. “Eu acho que temos uma sessão de planejamento,” disse Madeline. “Minha casa, amanhã?” Emma engoliu em seco. Parecia que tudo estava correndo rápido demais, fora de seu controle. “Não deveríamos deixar Ethan em paz?” Ela deixou escapar, a voz embargada.

Todo mundo se virou e olhou para ela. “Por que, Sutton?” Laurel perguntou, claramente se divertindo. “Alguém está guardando um segredo que nós não sabemos?” Emma olhou ao redor da mesa para as amigas de Sutton, sentindo-se ressentida por Laurel ter colocado-a nesta posição. Laurel foi a única pessoa que ela confidenciou sobre Ethan ─ ela não tinha certeza se as outras meninas entenderiam. Namorar Ethan era uma coisa extremamente não-Sutton, uma escolha estranha depois do popular Garrett. E o que ela diria a elas? Ela não tinha certeza do que estava acontecendo entre ela e Ethan. Não era como se eles fossem namorados... ainda. Emma abriu a tampa de sua Coca-Cola Diet e sentiu pequenas bolhas de refrigerante contra as pontas dos dedos. “Eu não estou guardando segredos,” disse ela suavemente, convocando sua melhor voz arrogante de Sutton. “Especialmente sobre Ethan.” O coração dela doeu apenas por dizer essas palavras. “Bem, então, você não terá nenhum problema em nos ajudar a fazer uma brincadeira com Ethan,” disse Laurel, batendo palmas e dando uma dentada. Ela apontou para o outro lado do pátio, para Ethan. “Eu acredito, meninas, que o Sr. Garoto Emo é o próximo.”

CAPÍTULO ONZE – GRUPO DE QUATRO
Naquela noite, melodias de uma balada atual de hip-hop que Laurel estava obcecada atravessava o quarto, o corredor e os ouvidos de Emma. Emma empurrou os dedos indicadores e do meio em suas têmporas. O que ela não daria por uma tarde com Alex, sua melhor amiga de Henderson, que ouvia Vampire Weekend ou qualquer outra música que não envolvia “Baby, baby, baby” nas letras. Ela se perguntou se a irmã gêmea dela tinha compartilhado o gosto terrível de Laurel para música. Para constar, meu gosto musical sempre foi impecável. Talvez eu não pudesse indicar quais foram os shows incríveis que eu fui ─ tenho certeza de que eu fui a um monte ─ mas sempre que Adele, Mumford & Sons ou Lykke Li tocava no rádio, eu sabia que estava na minha lista do iTunes das mais tocadas. As letras vinham para mim como assombrações, vozes de sereia do meu passado. “Eu não posso ir, Caleb,” Emma ouviu Laurel gritar sobre a música. “Eu te disse, nós vamos jantar hoje à noite como uma família.” Suspirando, Emma se levantou e caminhou até o armário de Sutton e procurou através de uma fila de camisetas empilhadas mais cuidadosamente do que as camisetas da loja de roupas Gap. Sutton mantinha tudo perfeitamente ordenado quando se tratava de suas roupas. Emma tirou uma camiseta cor turquesa com um decote canoa da pilha, colocou-a sobre a cabeça, escolheu uma legging jeans escura e sandálias metálicas. “Sim, eu sei que isso é uma droga.” A voz de Laurel vibrou através das paredes. “Por isso eu não quero ir. Quanto menos tempo eu gastar com ela, melhor.” Emma imaginava a quem Laurel estava se referindo. Quando ela e Laurel chegaram em casa depois da prática de tênis, a Sra. Mercer havia anunciado que a família estava precisando de um tempo junta ─ em outras palavras, Emma e Laurel precisavam enterrar o machado de guerra ─ de modo que eles iriam ter uma refeição agradável no Arturo, um restaurante caro em um dos resorts de Tucson. Na vida antiga

dela, Emma provavelmente teria trabalhado no Arturo como recepcionista em vez de ir jantar com a família. Emma queria que ela pudesse dizer a Sra. Mercer para não se incomodar com um especial vamos-se-beijar-e-fazer-as-pases no jantar. Depois do anúncio vamos-fazer-uma-brincadeira-com-o-Ethan, ela também não tinha certeza se queria se reconciliar com Laurel. Outra gargalhada soou do quarto de Laurel. Emma olhou para seu reflexo no espelho, passando uma escova redonda através do cabelo. Caleb sabia sobre a paixão de Laurel por Thayer? O que ele achava dela acampar na mesa da petição para libertar Thayer, vestindo aquela estúpida camiseta preta? Ele tinha assinado a petição? E o que Laurel sabia sobre Thayer e Sutton, afinal? Mais uma vez, ela pensou no comentário vago de Laurel: Você o meteu em problema! Mais uma vez. Ao que ela estava se referindo? Como Emma poderia encontrar a resposta? “Eu te ligo quando chegar em casa,” prometeu Laurel, interrompendo os pensamentos de Emma. “Tchau!” E então a música foi desligada abruptamente, preenchendo o segundo andar com silêncio. Emma ouviu uma gaveta se abrir e fechar, e então a porta de Laurel rangeu. Ela viu uma sombra passar debaixo da porta de Sutton, e, em seguida, ouviu a voz de Laurel vinda do andar debaixo, da cozinha, chamando a Sra. Mercer. De repente, uma idéia veio a ela. Ela saltou da cama de Sutton e caminhou pelo corredor. A porta do quarto de Laurel estava entreaberta. A luz de uma mesinha de cabeceira iluminava o tapete. Ela ouviu para se certificar de que Laurel não ia voltar a subir as escadas, e na ponta dos pés ela foi em direção ao quarto. Em segundos, ela estava lá dentro. Ela fechou a porta, ouvindo a maçaneta fechar. O quarto de Laurel era assustadoramente semelhante ao de Sutton, até a cadeira branca em formato de bolha e as almofadas roxas na cama. Emma caminhou até a parede mais distante, onde uma colagem de fotos recentes da equipe de tênis estava pendurada ao lado de um calendário de cachorrinhos. OUTUBRO, dizia no título do calendário. Laurel havia coberto os dias com notas de deveres de casa, jogos de tênis e festas. Lentamente e em silêncio, ela tirou a tacha verde-limão do calendário e voltou as páginas do calendário para agosto, que apresentava três pequenos filhotes de cachorro Boxers. Laurel

tinha escrito FÉRIAS EM FAMÍLIA com as letras em negrito em todos os dias da primeira semana do mês. Os olhos de Emma imediatamente foram levados para o dia trinta e um de agosto, o dia que Sutton tinha desaparecido. Laurel tinha desenhado um coração azul no canto direito superior desse dia. Ela coloriu o coração com linhas rabiscadas, a tinta foi pressionada com força contra a página. Emma olhou para o desenho de coração por um momento, sem saber o que significava. Ela virou para setembro, olhando para as datas que marcavam a festa de Nisha Banerjee no final do verão, o primeiro dia de aula e a primeira partida de tênis. Nada estava errado. Mas então, algo na parte de trás da página do mês de agosto chamou a atenção dela: Pressionado no papel, logo atrás do quadrado do dia 31, estava escrito as iniciais TV. De Thayer Vega? O coração de Emma bateu rápido. Laurel obviamente tinha escrito as iniciais primeiro, e em seguida, cobriu-as com o coração azul. Mas por quê? Eu gostaria de saber. “O que você está fazendo aqui?” Emma deixou o calendário cair de volta para outubro, se virou e viu Laurel de pé na porta. Seus lábios estavam franzidos. Sua mão estava na cintura. Ela atravessou o quarto e empurrou Emma para longe do calendário dela. Emma procurou por uma desculpa. “A partida de Haverford,” disse ela rapidamente, apontando para uma sextafeira daqui a duas semanas. “Eu só queria ver o dia.” Laurel olhou para a mesa dela, como se estivesse se certificando de que nada estava faltando ou estava fora do lugar. “Com a porta fechada?” Passou uma batida de coração, e então Emma ficou ereta. “Um pouco paranóica, você não acha?” Ela retrucou, canalizando sua Sutton interior. “O ar condicionado deve ter fechado ela.” Parecia que Laurel ia dizer outra coisa, mas depois a voz da Sra. Mercer soou no fundo das escadas. “Garotas? Temos que sair agora!” “Estou indo!” Emma gritou, como se ela não tivesse feito nada de errado. Ela passou por Laurel, tentando manter-se equilibrada, inocente e indiferente. Mas ela podia sentir os olhares intensos de Laurel em suas costas.

Eu também podia. Era óbvio que ela não tinha acreditado na mentira de Emma. A Sra. Mercer estava na ponta da escada, mexendo no BlackBerry. Ela sorriu para as meninas enquanto elas desciam a escada. “Vocês estão lindas,” ela disse em uma voz entusiasmada. Provavelmente, entusiasmada demais. Emma sabia que ela iria ficar desapontada com o resultado desta noite. Sr. Mercer dobrou a esquina e balançou um molho de chaves no ar. Ele tinha mudado a roupa hospitalar por um par de calças cáqui sem rugas e uma camisa de botão cor salmão, mas os olhos dele pareciam cansados e seu cabelo estava despenteado. “Prontas?” Ele disse, um pouco sem fôlego. “Prontas,” a Sra. Mercer ecoou. De mau humor, Laurel cruzou os braços sobre o peito. Emma apenas deu de ombros. Elas caminharam até o SUV do Sr. Mercer e entraram. Quando Emma sentou-se no banco detrás da mãe de Sutton, o Sr. Mercer encontrou o olhar dela no espelho retrovisor. Ela rapidamente olhou para baixo. Além de algumas conversas no corredor, ela mal tinha falado com o pai de Sutton desde a manhã de sábado ─ ele vinha trabalhando dia e noite no hospital. Agora ele estava olhando para ela como se soubesse que ela estava escondendo algo. Quando o Sr. Mercer dirigiu para a rua, a Sra. Mercer passou um pó tom ouro que estava na bolsa e uma camada de batom lilás. “Esse clima é tão estranho para o início de outubro,” ela tagarelou. “Eu não consigo lembrar da última vez que esperamos uma chuva como esta.” Ninguém respondeu. A Sra. Mercer limpou a garganta, tentando novamente. “Eu consegui uma banda mariachi* incrível que você ama para sua festa, querido,” ela disse, colocando a mão no braço do Sr. Mercer. “Lembra como eles estavam brilhantes na festa beneficente do zoológico Desert Museum?” (* uma banda com quatro integrantes, dois músicos tocam violinos, um toca uma harpa pequena, o outro toca um pequeno violão de cinco cordas.) “Incrível,” Sr. Mercer respondeu sem grande entusiasmo. Parece que ele também não estava no clima de um jantar familiar. A Sra. Mercer ficou em silêncio, parecendo derrotada.

Eu observei todos eles ficarem em silêncio. Alguma coisa dessa situação me pareceu familiar. Fiquei imaginando quantas outras vezes meus pais tinham adotado todos os meios necessários para forçar a mim e a Laurel a sermos amigas. Nós já fomos próximas, algum dia ─ eu tive vislumbres de nós duas juntas espiando nossos pais durante umas férias em família, brincando de um jogo que eu tinha inventado chamado Modelo de Passarela no porão, e até mesmo ensinei Laurel a segurar uma raquete de tênis e dar um decente backhand* (*Uma jogada do tênis: dar um golpe com as costas da raquete). Mas algo tinha acontecido após esses anos ─ Eu tinha começado a afastar Laurel. Parte disso pode ter sido ciúmes ─ Laurel era a filha verdadeira dos meus pais, enquanto eu era a filha adotiva. Eu me preocupava com quem eles amavam mais. Talvez Laurel estivesse apenas reagindo a mim. E as coisas tivessem acabado como uma bola de neve até que chegamos na fase de mal falar uma com a outra. Após quinze minutos e nenhum tópico de conversação, o Sr. Mercer diminuiu a velocidade do SUV para passar por uma lombada e entrou no estacionamento do resort. Uma pequena gruta com o nome ARTURO gravado em uma pedra estava iluminada com luzes de Natal. Fora da entrada principal, um homem de terno com uma maleta falava em seu BlackBerry. Uma mulher estava ao lado dele, agitando seu cabelo loiro. Dois garçons vestidos com calças escuras e camisas brancas de manga tiraram uma pausa para fumar ao lado de um cacto comprido. Emma seguiu a família de Sutton pelos degraus de pedra que se contorciam através de um jardim cheio de pequenas flores amarelas e violetas. Por dentro, grossas e escuras madeiras emolduravam as janelas das paredes de adobe. Havia vigas expostas penduradas no teto, e uma suave música clássica flutuava dos pequenos alto-falantes. O lugar estava cheio de pessoas, e os garçons rodavam com pratos com cordeiros aparentemente gostosos, bifes desfiados e lagosta. Um garçom chefe com um bigode e um terno cinza escuro verificou a reserva deles, e depois levou-os para a mesa. Enquanto caminhavam pelo lugar, Emma ficou um pouco mais ereta, sentindo-se deslocada.

“Aqui é agradável,” a Sra. Mercer murmurou quando eles se sentaram, pegaram o cardápio e olharam com atenção os vinhos referidos. “Não é, meninas?” Emma murmurou em aprovação. Mas o olhar de Laurel estava em alguma coisa ─ alguém ─ do outro lado do restaurante. “Eu acho que você vai ter uma visita, Sutton,” ela disse maldosamente. Emma olhou para cima e viu um garoto com uma mandíbula angular e cabelos loiros e curtos avançando em direção a mesa deles. O estômago dela revirou desconfortavelmente. Era Garrett, o ex de Sutton. E ele não parecia feliz. “Olá, Garrett!” A Sra. Mercer disse, estreitando a boca e enviando um olhar preocupado para Emma. Emma se moveu no assento. Ela disse ao pai de Sutton que ela e Garrett não estavam mais juntos, e sem dúvida ele tinha dito a mãe dela. O que eles não sabiam era que ele tinha abordado ela em um armário no dia do Baile de Boas-Vindas na sexta-feira. Na verdade, ele tinha sido um pouco... violento. “Olá, Sr. e Sra. Mercer.” Garrett acenou educadamente para os pais de Sutton. Então se virou para Emma. “Posso falar com você por um minuto?” Ele deslizou seus olhos em direção a um corredor na parte de trás do restaurante. Era evidente que ele quis dizer sozinhos. “Hum, eu estou aqui com minha família,” Emma disse, fugindo um pouco mais para perto da mãe de Sutton. “Estávamos prestes a fazer o pedido.” “Eu só quero fazer uma pergunta rápida,” Garrett disse. Sua voz era bastante agradável, mas seus olhos eram frios e calculistas. Subitamente, Emma soube do que se tratava: Ele, sem dúvida, ouviu falar que Thayer tinha invadido o quarto de Sutton. Garrett tinha ficado chocado quando Emma o rejeitou, e ele estava convencido de que ela esteve traindo ele. Sem dúvida, ele ia acusar Emma de ver Thayer escondido dele ─ e talvez Sutton realmente tenha feito isso. Eu observei a camisa de botão da marca Abercrombie de Garrett e sua calça cáqui, sentindo uma vaga cintilação dos momentos divertidos que passamos juntos, caminhando, indo para longos passeios de bicicleta e fazendo piqueniques no parque. Eu tinha certeza de que houve algum momento que eu estive satisfeita de ele ser meu namorado. Mas o que aconteceu

que me fez escolher Thayer em vez dele? Pensei novamente na memória que tinha voltado para mim, o puxa-e-empurra da culpa que eu sentia por enganar Garrett e a emoção de beijar Thayer. Garrett estava certo sobre mim: eu era uma traidora. Ele tinha todo o direito de estar irritado. “Sinto muito,” disse Emma. “Mas eu acabei de sentar.” “Ok, eu posso perguntar aqui mesmo se você preferir,” Garrett disse desafiadoramente, colocando as mãos nos quadris. Ele olhou para os pais Mercers. “Eu só queria saber como foi sua visita à delegacia de polícia de ontem, Sutton.” Emma enfureceu-se. Como ele sabia disso? Os Mercers enrijeceram. “Você foi à delegacia de polícia?” A Sra. Mercer perguntou. “Por que você não nos disse?” Garrett fez um falso olhar de surpresa. “Oh!” ele disse. “Achei que você tinha dito alguma coisa. Vou deixar vocês em paz.” Então ele se afastou, retornando à mesa de seus pais. Emma enfrentou os pais de Sutton, sentindo o rosto ficar vermelho. Ela tinha uma pequena esperança de que eles não descobrissem sobre a ida dela para ver Quinlan. “Você se meteu em problemas de novo?” A Sra. Mercer perguntou, olhando com o coração partido, sem dúvida pensando no dia que ela foi à delegacia de polícia para repreender a filha por furto, na semana anterior. “Aposto que ela foi lá para ver Thayer,” Laurel disse, sua voz gotejando com ódio. “Eu não me meti em problemas,” disse Emma, erguendo a voz. “E eu não fui lá para ver Thayer, também. Eu só fui porque Quinlan me ligou. Eu não disse a vocês porque não era importante.” “Sim, certo,” Laurel disse baixinho. “Como você é uma ótima filha. Você conta tudo a eles.” Emma lançou um olhar para Laurel. “E você? Você já disse a eles sobre a campanha para libertar Thayer? Que você está pedindo as crianças para contribuir com o fundo para fiança dele?” O Sr. Mercer virou-se para ela por um momento, olhando horrorizado. Laurel ficou vermelha. “É um projeto para minha aula de governo,” ela disse rapidamente. “Estamos aprendendo qual a influência das petições, e tivemos que colocar em prática.”

“Você poderia fazer uma petição para algo diferente de libertar o rapaz que invadiu sua casa e assustou sua irmã,” o Sr. Mercer disse com firmeza. Então ele levantou uma mão. “Nós vamos chegar nisso em um segundo. Por que você foi à delegacia de polícia, Sutton? Tratava-se de Thayer?” Ele se inclinou para frente, encarando Emma. Medo passou através da espinha de Emma. O pai de Sutton parecia tão furioso quanto na noite que encontrou Thayer no quarto de Sutton. “Eu...” Emma começou. Mas ela não soube o que dizer. A garçonete apareceu ao lado deles, então notou as expressões da família. Acenou educadamente com as mãos, e afastou-se para a cozinha. Sr. Mercer colocou as mãos sobre a mesa, seu rosto suavizando. “E então, Sutton?” Ele disse com uma voz suave. “Por favor, nos diga. Nós não vamos ficar chateados. Estamos apenas preocupados. Thayer está com problemas. Nenhum cara normal foge e depois invade seu quarto. Estamos apenas tentando mantê-la segura.” Emma baixou os olhos, o coração desacelerando. O pai de Sutton estava usando a mesma voz suave-mas-protetora que ele tinha usado na garagem, na semana passada quando ela o ajudou a ajeitar a motocicleta. Ele só estava tentando ser um bom pai. Ainda assim, de jeito algum ela poderia dizer a ele o que tinha acontecido na delegacia. “Eu só estava assinando a papelada sobre o incidente dos furtos,” disse ela, pensando rapidamente. “Nada mais aconteceu. Eu prometo. Garrett estava apenas tentando me causar problemas porque ele está chateado por não estarmos mais juntos. Você está dando muita importância para isso.” Ela escondeu as mãos trêmulas sob a mesa, esperando que eles acreditassem na história. O Sr. Mercer olhou para ela. A Sra. Mercer mordeu o lábio lilás. Laurel fungou, claramente não acreditando em uma palavra. Mas, finalmente, os pais Mercers suspiraram e encolheram os ombros. “Da próxima vez que você estiver na delegacia de polícia, talvez você possa nos informar,” a Sra. Mercer sugeriu calmamente. “Vamos esperar que não haja uma próxima vez,” disse o Sr. Mercer rispidamente, formando uma linha entre seus olhos. Emma olhou para o lado desconfortavelmente, seu olhar flutuando para onde Garrett e a família dele estavam sentados. Naquele exato momento, ele olhou e atirou-lhe um sorriso. Imbecil, ela pensou. Ela não queria se meter em problemas por

causa de Thayer. Mas quando ela olhou de volta para os pais dela, eles estavam discutindo se deveriam pedir uma garrafa de Shiraz ou Malbec da lista de vinhos. Ela estava fora do anzol ─ por agora. Será? Eu não pude deixar de notar que Laurel estava olhando para Emma sobre a mesa. E eu não pude deixar de lembrar das iniciais minúsculas rabiscadas no calendário dela na noite em que eu morri. TV. Laurel sabia alguma coisa. Eu só esperava que Emma descobrisse o que era antes que fosse tarde demais.

CAPÍTULO DOZE – EU SOU MULHER, OUÇA-ME RUGIR
No dia seguinte, Emma estava parada no estacionamento da Hollier, queimando abaixo do sol brutal de Tucson. O time de futebol das meninas corria em torno de um campo empoeirado à distância. Emma não tinha idéia de como elas não tinham desmaiado ─ devia estar com quase 45 graus. Ela havia praticado tênis durante trinta minutos e parecia que precisava de uma transfusão para reidratação. Lembrei-me das ardentes práticas de tênis como essa. Mas estranhamente, flutuando ao lado de Emma, eu não me sentia nem com calor e nem com frio. Apenas... nada. Parecia estranho, mas eu adoraria estar suada e sem fôlego outra vez. Fiquei surpresa por desesperadamente sentir falta até mesmo dessas partes de estar viva. Uma buzina soou, e Charlotte parou sua Mercedes prata. “Entre, vadia,” ela gritou da janela. “Obrigada pela carona,” Emma disse, jogando os equipamentos de tênis e a bolsa no banco de trás. “Minha irmã é tão má por me abandonar.” As meninas estavam todas na casa de Madeline planejando uma brincadeira depois do tênis, e Laurel havia desaparecido sem esperar por Emma. Felizmente, Charlotte não havia saído da escola, no entanto, Emma teria dado qualquer coisa para faltar ao encontro. A última coisa que ela queria fazer era constranger Ethan. Quando ela o viu hoje no corredor ela se sentiu muito mal, com certeza ele sabia que ela estava escondendo alguma coisa dele. Ela se sentia presa: Se ela dissesse a Ethan o que elas estavam tramando e atrapalhasse a brincadeira, as amigas de Sutton nunca iriam perdoá-la. Mas se ela não dissesse, ela poderia perdê-lo para sempre. Assim que Emma entrou, Charlotte pisou no acelerador e o carro se lançou do estacionamento para a estrada. Em poucos minutos elas estavam passando um longo trecho do deserto, em seguida, um mini-shopping cheio de lojas de roupas locais, uma sorveteria com aparência da década de 1950, uma Starbucks e uma loja televisiva. Charlotte virou a direita em um

conjunto habitacional familiar. Emma estava contente por Charlotte estar dirigindo. Ela só foi à casa dos Vegas uma vez, quando ela e as meninas estavam planejando fazer uma brincadeira com as Gêmeas do Twitter, e ela realmente não se lembrava onde era. Era uma das vantagens do carro de Sutton estar desaparecido por esse tempo todo ─ se as amigas de Sutton soubessem que ela não conseguia dirigir em Tucson, provavelmente iriam levá-la ao hospital psiquiátrico. Enquanto esperavam em um semáforo na Avenida Orange Grove, começou o noticiário local. “Tucson está alvoroçada com a história de Thayer Vega, o menino que desapareceu neste verão,” disse uma repórter. Emma sentou-se ereta e tentou não arfar. “O Sr. Vega invadiu a casa de uma suposta namorada de manhã cedo no sábado, e agora ele está sendo mantido sob uma fiança de quinze mil dólares por invasão de domicílio, resistência à prisão e por carregar uma arma escondida,” a repórter continuou. “No entanto, Geoffrey Rogers, o advogado designado ao caso, está convicto de que ele vai ser liberado.” Uma voz de homem apareceu através dos alto-falantes estéreo. “Meu cliente é menor de idade, ele não deve ser julgado como um adulto,” O advogado de Thayer disse. “Esta é uma questão de animosidade entre ele e um determinado membro da força policial de Tucson.” “Animosidade?” Emma disse em voz alta antes que ela pudesse se conter. Charlotte olhou para ela. “Sim, entre ele e Quinlan. Lembra que esse cara liderou a campanha para encontrar Thayer? Thayer era como a baleia branca dele. Ele estava furioso por não encontrá-lo. Todo mundo está dizendo que é por isso que a punição foi tão severa ─ e que Quinlan inventou a parte de Thayer ter resistido à prisão.” Emma ergueu as sobrancelhas. E se fosse verdade? E se o advogado conseguisse liberar Thayer antes do julgamento? Ela não queria pensar no que poderia acontecer. “Então, Laurel está muito chateada com você, hein?” Charlotte perguntou. Emma acenou com a cabeça. “Ela acha que Thayer está na cadeia por minha culpa.” “Certo,” Charlotte disse evasivamente, sua expressão não demonstrava nada. Emma se perguntou em que lado ela estava

no debate sobre Thayer. Enquanto Madeline e Laurel estavam totalmente contra Emma, Charlotte havia defendido ela. E, no entanto, Emma vira ela assinar a petição Liberte Thayer hoje cedo. Talvez ela só quisesse ficar em cima do muro e não escolher nenhum lado. “Então, como você acha que Mads está lidando com essa coisa toda com Thayer?” Emma perguntou casualmente, jogando uma bala Life Saver de morango na boca. “Não é como se ela fosse falar comigo sobre isso.” Charlotte e Madeline tinham saído recentemente, talvez Madeline houvesse revelado alguma coisa para Charlotte sobre Thayer que poderia ajudar Emma a entender a relação dele com Sutton. Charlotte manteve os olhos na estrada. “Ela não está feliz, disso eu tenho certeza. Aparentemente, o pai dela está sendo mais idiota do que o habitual. As coisas estão tensas na casa dela.” “Você acha que ela está escondendo algo...?” Emma perguntou, quebrando o doce entre os dentes. “Sobre o quê?” Boa pergunta, Emma pensou. Ela estava dando facada às cegas no escuro, tentando se agarrar a qualquer coisa. “Sobre Thayer, talvez. Sobre onde ele esteve esse tempo todo.” Charlotte tirou o olhar da estrada e deu a Emma um olhar longo e incrédulo. “Eu acho que Mads está se perguntando a mesma coisa que você.” Emma engoliu em seco, sem saber como responder. Sutton sabia para onde Thayer tinha ido? Eu tinha a sensação de que eu não sabia. Eu não teria feito a Thayer todas essas perguntas sobre os segredos que ele estava guardando se eu soubesse. Do lado de fora da janela, duas crianças do ensino fundamental andando de skates subiram numa rampa caseira em uma garagem ao lado da casa de Madeline. As mães deles estavam com os braços cruzados sobre o peito e uma expressão descontente nos rostos. Finalmente, Charlotte encolheu os ombros. “Eu não me surpreenderia se Madeline estivesse escondendo alguma coisa, no entanto.” “Por quê?” Emma perguntou, tentando não parecer muito ansiosa.

“Porque...” Charlotte colocou o carro no estacionamento e descansou a ponta dos dedos no console entre elas. “Todos da família Vega têm segredos.” Antes que Emma pudesse perguntar mais, Charlotte saiu do carro, ajeitou a minissaia jeans, e começou a subir a calçada da frente da casa de estuque. Emma saiu também, e a seguiu até a porta da frente dos Vegas. Quando Emma ergueu o dedo para pressionar a campainha da porta, Charlotte disse: “Não precisa,” ela vasculhou em sua bolsa preta. “Eu tenho a chave.” Ela puxou da bolsa um chaveiro ligado a uma boneca minúscula e segurou uma chave cor de bronze entre o dedo polegar e o indicador. “Você tem a chave dos Vegas?” Emma perguntou abruptamente. Charlotte deu a Emma um olhar estranho. “Uh, sim. Eu tenho desde a oitava série. Eu tenho a sua também ─ e você tem a minha, paciente com amnésia.” Ela franziu a testa. “Você não perdeu a minha chave, não é? Meu pai vai enlouquecer. Ele vai ter que mudar todas as fechaduras.” “Não, eu ainda tenho,” Emma disfarçou, mesmo que ela não fizesse idéia de onde a chave de Charlotte poderia estar. Um pensamento veio em sua mente. Ela pensou na pessoa que havia tentado estrangulá-la na casa de Charlotte, há algumas semanas. No início, ela pensou que tinha sido uma das amigas de Sutton ─ o alarme não tinha sido acionado, portanto, quem tinha tentado estrangulá-la era alguém que estava dentro da casa desde o início ou alguém que sabia o código do alarme. Thayer teria roubado a chave que Charlotte deu a Madeline? Ele poderia saber o código do alarme de alguma forma? “Você poderia me dizer o código do seu alarme de novo?” O coração de Emma bateu com força, se perguntando o quão longe ela poderia chegar com esse tipo de questionamento. “É algo muito fácil, certo? 1-2-3-4?” Talvez Thayer tenha tentado adivinhar o código e acertado. Charlotte bufou. “Em que planeta você vive? É 2-9-3-7. Basta colocar no seu telefone e perguntar a mim a cada duas semanas. Madeline coloca no celular e agora ela nunca tem que perguntar.” “Madeline tem o código do seu alarme no celular dela?” Emma repetiu. “Não parece seguro.” O coração dela bateu mais rápido. Formidável. Thayer pode não apenas ter roubado a

chave de Madeline da casa de Charlotte, mas ele pode ter encontrado o código do alarme de Charlotte no telefone de Madeline, também. Ela pensou nas mãos fortes no pescoço dela na cozinha de Charlotte. O sussurro no ouvido dela dizendo que ela precisava parar de investigar. Aquelas mãos pareciam com mãos de homem. E aquela voz pode ter sido a mesma que sussurrou para Emma no quarto de Sutton na manhã de sábado. Eu me perguntava se era verdade. Eu pensei na caminhada que nós tínhamos feito, a maneira que Thayer facilmente manobrou as trilhas rochosas e as subidas íngremes, sempre esperando impacientemente eu acompanhá-lo. Enfiar-se na casa de Charlotte ou subir as vigas da escola para soltar uma luminária do teto perigosamente perto da cabeça de Emma não teria sido nenhum desafio para ele. Eu pensei em mim mesma sozinha no Sabino Cânion com Thayer na noite em que eu morri. E se ele me jogou do penhasco que eu ia com meu pai desde que eu era criança? Charlotte abriu a porta da casa de Madeline, e atravessou o saguão. O interior cheirava a uma mistura de perfumes e culinária mexicana, quatro pares de sapatos, que eram desde sapatilhas Tory Burch até saltos Boutique 9, estavam alinhados no armário. Havia um monte de fotos em uma mesinha perto da parede. Uma foto do casamento do Sr. e da Sra. Vega, outra de uma Madeline muito mais jovem usando uma saia de bailarina e sapatilhas de ponta. Emma franziu a testa, sentindo que algo estava faltando. A última vez que ela esteve aqui, ela jurava ter visto uma foto de Thayer nessa mesinha, também. O Sr. Vega tinha tirado a foto? Eles estavam tentando remover todos os indícios de Thayer? Eles estavam envergonhados por ele ser filho deles? Lili apareceu no topo da escada. “Finalmente,” ela falou, ajustando a dúzia de fios pretos de couro que envolvia o pulso esquerdo dela. “Estamos aqui em cima.” Emma e Charlotte pisaram no quarto de Madeline. Música tocava em volume alto, e passava um episódio do reality show The Rachel Zoe Project na TV de tela plana. Madeline, Gabby e Laurel tiraram o olhar de suas revistas quando Emma, Charlotte e Lili entraram. Edições antigas das revistas Vogue e W estavam empilhadas em mini torres no chão de madeira. Na distância, as montanhas de Catalina eram sombras cor de café. Posters

emoldurados de bailarinas em diferentes poses estavam espalhados pelas paredes pintadas de amarelo claro, juntamente com uma foto de Madeline e Thayer em um passeio de esqui. Emma não conseguiu levar o olhar para longe. Os olhos profundos dele olhavam para fora da fotografia, aparentemente olhando para ela e somente ela. Laurel encontrou uma edição da revista Cosmopolitan debaixo da cama de Madeline e abriu-a em um artigo intitulado “Como Fazer Seu Homem Rugir Como Um Tigre.” “Quem escreveu essas coisas?” Ela zombou, revirando os olhos. “Espere!” Charlotte se inclinou para dar uma olhada. “Eu estou morrendo de vontade de saber como fazer meu homem rugir como um tigre!” Ela estreitou os olhos e apertou os lábios em um bico sexy. Laurel balançou um frasco de esmalte verde escuro da marca Essie, e colocou divisores de espuma rosa choque entre os dedos dos pés. “Eu me pergunto o que faria Ethan Landry rugir,” disse ela maliciosamente. O estômago de Emma embrulhou. Lili sentou-se ereta e disparou um olhar para Gabby. Gabby deu um pequeno aceno de cabeça, seus olhos arregalados. “Então, Gabs e eu passamos a noite passada pensando em várias idéias para nossa primeira brincadeira oficial,” Lili anunciou. Ela olhou para Emma com respeito. Claro, Emma pensou. Ela acha que eu sou Sutton. Ela está prestes a lançar idéias de brincadeiras e aguardar minha aprovação. Foi interessante ver à distância o quão poderosa eu era. Lembrei-me de quantas sugestões eu dispensei, quantos encontros eu cancelei quando eu simplesmente não estava sentindo vontade de ir, e quantas noites eu tinha gastado fazendo exatamente o que eu tinha planejado. Afinal, minhas idéias eram as melhores. E todos sabiam disso. Emma rangeu os dentes, então decidiu usar o poder de Sutton em sua vantagem. Ela soltou uma risada e inclinou a cabeça para o lado. “Boa tentativa,” ela disse friamente. “Mas eu não acho que o Jogo da Mentira está recebendo sugestões dos novatos ainda.” “Sim, observem e aprendam, meninas.” Charlotte fechou a revista Cosmo e sentou-se ereta. “Então. Alguém sabe alguma coisa sobre Ethan?”

Um sorriso atravessou o rosto de Laurel. “Sutton sabe, não é, Mana?” A garganta de Emma apertou. As meninas olharam para ela. “E por que você sabe alguma coisa sobre Ethan Landry?” Madeline perguntou incrédula. “Eu não sei,” retrucou Emma, atirando um olhar desagradável a Laurel. “Claro que você sabe,” Laurel disse alegremente. Ela pegou um cachorro de pelúcia da cama de Madeline e embalou-o em seus braços. “Não seja tão modesta, Mana. Você sabe de toda a sujeira.” Ela virou-se para as meninas. “Sutton me disse no fim de semana passado que Ethan vai recitar secretamente uma poesia no Clube Congresso no centro da cidade.” “Eu nunca te disse isso!” Emma gritou, calor subindo ao peito, forçando seu cérebro para se lembrar quando ela e Ethan haviam discutido sobre o recital de poesia. E então... ela recordou. No parque, no sábado. Então Laurel tinha espionado. Mas, o que mais ela tinha ouvido? “Claro que ele escreve poesia.” Charlotte revirou os olhos. “Todo bom emo escreve.” Ela pegou o telefone dela e carregou o Google. Depois de um momento, ela soltou um grito. “Aqui está ele! Ethan Landry, listado como concorrente número quatro da lista. Podemos fazer uma brincadeira incrível com isso!” Madeline chegou mais perto. “Poderíamos contratar pessoas para sentar na platéia para vaiar ele ou jogar tomates nele.” “Ou colocar um editor falso na platéia?” Lili inspirou. “Ele poderia dizer que está super interessado no trabalho de Ethan e que quer fazer propaganda dele ─ mas somente se Ethan voar para Nova York e se encontrar com o editor. Mas quando Ethan chega lá, eles iriam dizer que nunca ouviram falar dele!” Gabby balançou a cabeça, com os olhos arregalados. “Ele se sentiria como um perdedor.” “Ou...” Laurel disse, balançando as sobrancelhas, “Nós poderíamos invadir a casa dele, roubar um par dos poemas e publicá-los online com um nome falso. Então, quando ele fosse lê-los, poderíamos contratar alguém para fingir ser o autor real e acusar Ethan de plágio. E quando ele mostrasse que ele postou os poemas duas semanas antes da leitura, Ethan iria se sentir tão humilhado.”

“Isso é genial!” Charlotte gritou. “Nós vamos gravar a coisa toda e colocar no YouTube!” Madeline fez um gesto de aprovação para Laurel. “Totalmente brilhante.” Gabby fez um gesto dramático, como se ela estivesse recitando um monólogo de Shakespeare, e gorjeou, “As rosas são vermelhas, violetas são azuis, Ethan Landry, a brincadeira é com você!” Laurel se virou e olhou para Emma. “O que você acha, Sutton?” O corpo inteiro de Emma ficou vermelho de calor, como se ela estivesse prestes a ficar doente. Ela se afastou das meninas, fingindo examinar um dos quadros do pintor Degas na parede de Madeline para que elas não vissem o olhar em seu rosto. Cada fibra do seu ser queria atrapalhar essa brincadeira, mas ela não conseguia pensar em uma maneira de pará-la. Sutton provavelmente pensaria. Sutton teria feito um comentário mordaz que teria colocado todas em seus lugares. Isso a fez se sentir como a Velha Emma novamente ─ língua presa, submissa e covarde. “Eu, hum, tenho que ir ao banheiro,” ela deixou escapar, se levantando e correndo para o corredor. Se ela ficasse no quarto de Madeline mais um minuto, ela poderia explodir em lágrimas. Ela caminhou pelo corredor com tapete bege, arrastou a mão pelas paredes de adobe. Onde diabos ficava o banheiro de Madeline, afinal? Ela olhou para a primeira porta disponível, mas era apenas um armário de roupa de cama. Na segunda porta era um escritório com um computador e uma impressora de tamanho industrial. Passou pela terceira porta, que estava entreaberta, e deu uma espiada dentro. Era um quarto com um tapete azul claro, paredes azuis escuras e uma colcha preta. Posters de futebol estavam grudados nas paredes e troféus brilhantes estavam em uma prateleira perto da janela. O quarto de Thayer. O estômago dela embrulhou. Claro. Por que ela não pensou nisso antes? Se Sutton e Thayer tiveram um relacionamento secreto, talvez houvesse algum tipo de evidência disso por aqui. Ela lançou um rápido olhar por cima do ombro, em seguida, abriu a porta com o cotovelo e entrou na ponta dos pés. Livros estavam empilhados ordenadamente sobre uma escrivaninha. Não havia vestígio de poeira ou desordem em lugar algum. A cadeira giratória com estofamento de couro estava enfiada

debaixo de uma mesinha de madeira escura. Ninguém se preocupou em passar os meses do calendário do time de baseball Arizona Diamondbacks que estava pregado na parede ─ com a foto de um jogador uniformizado balançando um bastão e prestes a lançar uma bola branca pendurada acima das letras maiúsculas do mês de JUNHO. Ficou claro que este quarto já havia sido exaustivamente vasculhado, provavelmente pela polícia ─ por Quinlan ─ quando Thayer desapareceu. Emma passou os dedos pelo aparelho de som. Ela ergueu um iPod e depois colocou-o de volta. Ver o iPod e o aparelho de som fez a minha cabeça expandir. Eu me vi no quarto de Thayer, ouvindo uma música da banda Arcade Fire nesse iPod. Thayer estava ao meu lado no tapete, passando as pontas dos dedos no meu joelho. Os fios do tapete fazendo cócegas nas costas das minhas pernas nuas. Eu me inclinei para frente, para brincar com a parte baixa de sua camisa verde claro, levantando-a um pouco para tocar seus músculos rígidos do estômago. Thayer segurou meu queixo com as palmas das mãos e inclinou-se até sua boca estar quase encostada na minha. Seus lábios cobriram os meus e eu senti meu corpo inteiro faiscar. E, em seguida, uma porta se abriu. Nós congelamos por uma fração de segundos antes de nos separarmos, descermos as escadas e deslizarmos para a sala de estar. Assim que o Sr. Vega cruzou o saguão e olhou para nós com olhos grandes e suspeitos, a memória desapareceu. Emma circulou pelo quarto, passando as mãos sob as almofadas da cama de Thayer, olhou dentro da escrivaninha, das gavetas e do guarda-roupa quase vazio. O quarto era tão vazio e impessoal como um quarto de hotel. Nada era fora do comum. Não havia batons que poderiam ter sido de Sutton. Não havia fotos dela no quadro de fotos dele. Se Thayer teve um relacionamento com Sutton, ele manteve em segredo. Mas então, de repente, ela viu. Lá, sobre a estante, empilhado ao lado dos romances policiais, estava um esfarrapado livro amarelo claro. Pequena Casa Na Pradaria, dizia na lombada do livro. Emma andou até ele. Se Sutton ter um livro da série Pequena Casa era aleatório, a estrela-dofutebol Thayer ter um era totalmente bizarro. O livro parecia leve nas mãos de Emma. Quando ela o virou, ela percebeu que as páginas tinham sido removidas e que o livro era oco. Tremendo, ela enfiou a mão na abertura e sentiu

os dedos tocarem um monte de papéis. Quando ela os tirou, ela sentiu um cheiro de uma fragrância floral que ela imediatamente reconheceu. Era o mesmo cheiro almiscarado que Emma tinha borrifado em si mesma, era de um frasco de aparência cara com um rótulo dourado escrito ANNICK que ficava na cômoda de Sutton. Com dedos trêmulos, ela desdobrou os papéis. A letra nitidamente arredondada de Sutton olhou para ela. Querido Thayer, dizia. Eu penso em você o tempo todo... Eu mal posso esperar até nós nos encontrarmos de novo... Eu estou tão apaixonada por você... Ela virou para a próxima, mas dizia mais ou menos a mesma coisa. Assim como as seis cartas seguintes. Cada uma foi endereçada a Thayer e assinada com um enorme S. Sutton havia escrito uma data no topo de cada uma, as cartas começaram em março e continuaram até junho, pouco antes de Thayer desaparecer. Eu olhei para as cartas, também, tentando fazer uma conexão, mas nada veio. Eu devo ter escrito elas. Um encontro secreto com Thayer deve ter sido intoxicante para mim. Eu era uma garota que vivia no limite, afinal. Emma enfiou as cartas no bolso da frente do casaco, voltou para o corredor, puxou a porta e deixou-a quase fechada atrás dela, da mesma forma que ela a encontrou. “Sutton?” Emma virou com uma arfada. O Sr. Vega estava bem atrás dela, parecendo com quase o dobro do tamanho dela. Seu cabelo escuro estava penteado para trás com gel, expondo um pico de viúva fazendo parecer que ele deveria estar jogando cartas em uma sala escura e cheia de fumaça. A pele bronzeada de sua testa enrugou quando suas sobrancelhas se encontraram no centro. Ele olhou para a mão de Emma na maçaneta do quarto de Thayer. “O que você está fazendo?” Ele perguntou. “Hum, só indo ao banheiro, senhor,” Emma falou. O Sr. Vega olhou para ela. As cartas de Sutton faziam volume no bolso dela. Ela cruzou os braços na frente do peito, tentando esconder a protuberância. Finalmente, o Sr. Vega apontou para outra porta. “O banheiro de hóspedes está do outro lado do corredor.”

“Oh, certo!” Emma deu um tapa na testa. “Só estou um pouco tonta. Tem sido uma longa semana.” O Sr. Vega franziu os lábios. “Sim. Tem sido um tempo difícil para todos nós.” Ele arrastou os pés, parecendo desconfortável. “Na verdade, já que você está aqui, eu queria pedir desculpas pelo comportamento do meu filho. Estou profundamente envergonhado por ele ter invadido sua casa. Acredite em mim quando eu digo que eu vou garantir que ele aprenda a lição.” Emma acenou com a cabeça tristemente, pensando nas contusões no braço de Madeline. Ela podia imaginar como o Sr. Vega planejava dar essa lição para o filho. “Bem, provavelmente eu deveria voltar para as meninas,” ela murmurou. Ela começou a caminhar ao lado do Sr. Vega, mas ele a segurou pelo braço. Emma inspirou fortemente, com o coração pulando na garganta. Mas o Sr. Vega a soltou rapidamente. “Por favor, peça a Madeline para vir falar comigo por um minuto, você pede?” Ele disse em voz baixa. Emma soltou um suspiro. “Oh. Claro.” Ela foi em direção ao quarto de Madeline, mas ele a segurou mais uma vez. “E Sutton?” Emma virou-se, erguendo as sobrancelhas. “Você nunca me chamou de ‘senhor’.” Seus lábios estavam pressionados em uma linha reta e ele estudou Emma abertamente. “Não precisa começar agora.” “Oh. Ok. Sinto muito.” O Sr. Vega segurou o olhar de Emma por mais um momento, inspecionando-a detalhadamente e profundamente. Emma lutou muito para manter a expressão neutra. Finalmente, ele se virou e suavemente caminhou em direção as escadas. Ela se apoiou contra a parede e fechou os olhos, sentindo o pedaço de papel no bolso. Muito perto. Talvez perto demais, pensei.

CAPÍTULO TREZE – COM AMOR, S
Uma hora depois, Emma sentou-se rigidamente ao lado de Laurel no VW. Laurel podia abandoná-la na escola, mas não havia nenhuma maneira dela escapar de levá-la da casa de Madeline para a casa delas. Ela não disse a Emma uma palavra o tempo todo, e estava enrugando o nariz para Emma como se ela cheirasse a esgoto. Avistando um Shopping Center que continha uma quitanda, uma loja Big Lots, e um monte de outras lojas aleatórias no canto, Emma agarrou o volante e desviou o carro para a pista da direita. Laurel pisou nos freios. “Que diabos você está fazendo?” “Fazendo você parar o carro,” Emma disse, apontando para o estacionamento. “Nós precisamos conversar.” Para a surpresa de Emma, Laurel sinalizou, entrou no estacionamento e desligou o motor. Mas então ela saiu do carro e andou em direção ao shopping sem esperar Emma segui-la. No momento em que Emma a alcançou, Laurel entrou em uma loja chamada Boot Barn. O lugar cheirava a couro e purificadores de ar. Chapéus de cowboy cobriam as paredes, e havia prateleiras e prateleiras com botas de cowboy, tanto quanto os olhos podiam alcançar. Uma cantora de country cantava pelo alto-falante com uma voz fanhosa sobre algo a ver com sua picape Ford, o único cliente da loja era um cara grisalho com um tabaco de mascar na boca. A lojista, uma mulher obesa vestindo um colete com um cavalo galopando bordado na frente, olhava para elas ameaçadoramente de atrás do balcão. Ela parecia o tipo que conhecia bem uma espingarda. Laurel caminhou até uma camisa preta do faroeste, que tinha botões pratas ao redor dos ombros. Emma riu. “Eu acho que isso não é seu estilo.” Laurel colocou a camisa de volta na prateleira e fingiu interesse em uma prateleira de cintos com fivelas enfeitadas. A maioria deles tinham forma de chifres de bois. “É sério, esse negócio de ficar me ignorando está ficando um pouco velho,” Emma disse, andando atrás dela.

“Pra mim não,” disse Laurel. Emma estava grata por ela pelo menos ter falado alguma coisa. “Olha, eu não sei porque Thayer entrou no meu quarto, e─” Laurel se virou e olhou para ela. “Oh, sério? Você realmente não sabe?” O olhar dela foi em direção a cintura de Emma. Emma prendeu a respiração, sentindo as cartas dobradas que ela tinha encontrado no quarto de Thayer sendo pressionadas contra ela. Parecia até que Laurel sabia que elas estavam lá. “Eu realmente não sei,” disse Emma. “E eu não sei porque você está tão chateada com isso, mas eu gostaria que você me dissesse o que eu posso fazer para fazer as pazes com você, para que você não fique mais irritada.” Laurel estreitou os olhos e recuou. “Ok, agora você está me assustando. Sutton Mercer não se arrepende. Sutton Mercer não faz as pazes com ninguém.” “As pessoas mudam.” Ou às vezes morrem e sua gêmea boa toma seu lugar, pensei sombriamente. Uma nova música country soou nos alto-falantes, essa era sobre amar o bom e velho EUA. Laurel distraidamente pegou um par rosa de botas de cowboy e colocou-as de volta novamente. Sua expressão parecia amolecer. “Tudo bem. Há uma coisa que você poderia fazer para fazer as pazes comigo.” “O quê?” Laurel se inclinou para frente. “Você poderia convencer papai a desistir das acusações contra Thayer. Ou você poderia dizer a Quinlan que você convidou Thayer. Dessa forma, os policiais seriam obrigados a deixar ele ir.” “Mas eu não convidei ele!” Emma protestou. “E eu não vou mentir para a polícia escondida do papai.” Laurel exalou ar de sua boca raivosa. “Isso nunca te parou antes.” “Bem, eu estou tentando virar uma nova página. Tentando não fazer mamãe e papai ficarem chateados comigo outro dia, ao menos uma vez.” “Sim, certo.” Laurel bufou. Emma apertou os punhos em frustração, olhando para o tapete cor tabaco. Os sinos da loja tilintaram, e uma garota alta em uma saia de camponesa entrou. Ela estava vestindo uma camiseta que dizia RECITAL DE POESIA DO CLUBE CONGRESSO.

A expressão de Laurel mudou, ela obviamente tinha notado a camiseta também. “Olha,” Emma disse, olhando para a menina, “se você estiver com raiva de mim, fique com raiva de mim. Não arraste Ethan para isso. Não deveríamos estragar o recital de poesia dele.” Por um segundo Laurel pareceu culpada. Mas então, suas feições endureceram de novo. “Desculpe, Mana. Não podemos fazer isso. O plano já está em andamento.” “Poderíamos avisá-lo,” Emma tentou. Laurel sorriu. “Sutton Mercer poupando alguém de uma brincadeira? Isso não é seu estilo.” Ela encostou-se numa prateleira do que pareciam ser capas. “Vou fazer um acordo com você. Você tira Thayer da cadeia, eu paro a brincadeira.” “Isso não é justo,” Emma assobiou. “Bem, então não posso fazer nada.” Laurel girou nos calcanhares. “Eu acho que você não se importa tanto com seu namorado secreto, hein? Porém não é nenhuma surpresa. Você trata todos os seus namorados secretos como merda.” Com isso, ela disparou um olhar sagaz a Emma, se empurrou contra a porta e saiu para o sol. Os sinos zombaram de Emma quando a porta se fechou.

Poucas horas depois, Emma pedalou até a calçada de uma familiar casa de fazenda no Sabino Cânion. As pernas dela doíam da corrida de bicicleta de dezesseis quilômetros da casa de Sutton, e sua pele estava escorregadia de suor, mesmo o pôr do sol tinha caído e o ar havia esfriado. Ela não tinha escolha a não ser ir até a casa de Ethan esta noite ─ Laurel com certeza não a traria. E ela tinha que vê-lo. A casa de Ethan era ao lado da de Nisha Banerjee, onde Emma tinha participado de uma festa em sua primeira noite como Sutton. A propriedade Landry estava situada em um pequeno pedaço de terra rodeado por uma cerca de estacas brancas que precisavam de pintura. Havia pardais nos galhos finos de uma árvore de carvalho na borda do quintal e o sol poente lançava longas sombras sobre o gramado crescido em excesso. Pequenas flores roxas em potes de barro forravam a varanda da frente, e uma cadeira de balanço com a tinta amarela lascada continha jornais de três dias enrolados em

sacos plásticos azuis. Mesmo que a casa fosse melhor do que qualquer casa que Emma já tivesse vivido, parecia pequena quando comparada com o bangalô de cinco quartos dos Mercers. Era estranho a rapidez com que as pessoas se acostumavam ao luxo. Ela bateu com força na porta. Alguns segundos depois, o rosto de Ethan apareceu na janela. Ele deu um sorriso surpreso para Emma quando destrancou a porta da casa. “Desculpe não ter ligado antes,” disse Emma. Ethan ergueu um ombro. “Tudo bem. Meus pais não estão em casa.” Ele deu um passo para o lado, deixando espaço para Emma. “Entre.” Ela girou as cartas nas mãos quando o seguiu por um longo corredor com um papel de parede rosa claro com uma estampa floral. Nas paredes tinha pinturas do tipo que Emma só tinha visto em casas funerárias, várias aquarelas de rosas e pores do sol. Não havia fotos de Ethan. A casa tinha um cheiro estranho também ─ um pouco de casa fechada e de mofo. Ela definitivamente não era acolhedora. Ethan levou Emma para um quarto pequeno e escuro. “Este é meu quarto,” disse ele, passando a mão pelos cabelos. “Obviamente,” acrescentou, como se tivesse envergonhado de repente. Emma olhou em volta. Ela tinha imaginado como seria o quarto de Ethan muitas vezes desde que eles tinham se tornado amigos, conhecer o quarto era um pouco estranho, ela imaginou que seria cheio de mapas de estrelas, peças de telescópios, velhas ferramentas de química, livros com as páginas dobradas nos cantos, e toneladas e toneladas de livros de poesia. Mas este quarto era impecável. As trilhas de um aspirador de pó eram visíveis no tapete. Um par de luvas pretas de escalar repousava sobre o criado-mudo junto com um diário de couro que Emma tinha visto no primeiro dia em que ela conheceu Ethan. O único item em cima da mesa era um velho laptop, nada mais, nem mesmo uma caneta esferográfica. A cama tinha sido feita tão impecavelmente que poderia ter passado pela inspeção de um serviço de hotel, o edredom bem esticado, os travesseiros empilhados um em frente ao outro. Emma havia trabalhado como empregada doméstica em um hotel luxuoso Holiday Inn, e os gerentes dela sempre gritavam com ela por não afofar os travesseiros corretamente.

Ela olhou para Ethan, querendo perguntar a ele se esse era realmente o quarto dele. Era quase totalmente desprovido de personalidade. Mas Ethan parecia tão vergonhoso que ela não queria fazer ele se sentir pior. Em vez disso, ela se sentou na cama e pegou o maço de papéis no bolso. “Eu encontrei isso no quarto de Thayer hoje,” disse ela. Ela espalhou as cartas na cama. “Sutton escreveu para ele. Isso prova que eles tinham um relacionamento romântico.” Ethan pegou cada carta e leu o conteúdo. Emma sentiu um lampejo de culpa, como se ela estivesse traindo sua irmã, revelando seus sentimentos secretos. Embora eu entendesse a razão de Emma estar mostrando as cartas a Ethan, eu senti uma pontada de proteção, também. Esses eram meus pensamentos privados. “Eu nunca pensei que poderia estar tão afim de alguém,” Ethan leu em voz alta. Ele virou para a próxima página. “Eu quero te beijar no estádio de futebol da Universidade do Arizona, no mato atrás da casa dos meus pais, no topo do Monte Lemmon...” Ele parou, limpando a garganta. Emma sentiu um calor subir para suas bochechas. “Obviamente eles gostavam um do outro.” “Mas ela ainda estava com Garrett,” Ethan disse, apontando para uma linha de uma das cartas que dizia, Eu quero terminar com Garrett e ficar com você, eu juro. Mas não é o momento certo, e nós dois sabemos disso. “Talvez Thayer estivesse chateado por Sutton manter o namoro durante esse tempo todo... e matou-a.” Um arrepio passou por mim. Eu pensei em como Thayer tinha mudado rapidamente quando o nome de Garrett foi mencionado naquela noite em nossa caminhada. A raiva dele foi intensa ─ mesmo que ele admitisse que essa era sua pior qualidade, a característica mais parecida com seu pai. Apenas isso seria suficiente para fazê-lo explodir? Emma recostou-se na cama e olhou para o teto. “Isso parece muito extremo. Matar alguém por não terminar um relacionamento?” “As pessoas já mataram por muito menos.” Ethan olhou para as mãos. Ele parecia distante, como se algo estivesse incomodando ele. Quando ele finalmente falou, suas palavras eram lentas e ponderadas. “Talvez Sutton deixou ele louco. Ela era uma mestre em manipulação.”

“O que é que isso quer dizer?” Emma perguntou abruptamente. Ela não gostou do tom de voz de Ethan. Ou do que ele disse sobre a irmã dela. “Em um minuto ela gostava de você,” disse Ethan. “E no seguinte, ela te tratava como lixo. Eu a vi fazer isso com um milhão de caras.” Ele franziu a testa. “Talvez ela estivesse fazendo isso com Thayer. Talvez ela estivesse deixando ele louco e ele apenas... explodiu.” As palmas das mãos de Emma pareciam frias. O comportamento inconstante da irmã dela foi a única razão de Thayer enlouquecer? Se ela tivesse sido calorosa e fria com ele ─ enquanto namorava Garrett ─ isso poderia ter desencadeado fúria dentro dele. “Talvez,” ela sussurrou. “Então o que você acha que devemos fazer?” Ethan perguntou. “Poderíamos chamar a polícia,” Emma sugeriu. “Ou não.” Ethan balançou a cabeça. “Se fizermos isso, você vai ter que dizer que é gêmea da Sutton. É muito arriscado.” Ele cruzou a perna sobre o joelho e balançou seu tênis Converse da marinha. “Estamos chegando perto, no entanto. Você precisa de provas mais concretas. E o sangue no carro? Definitivamente é de Sutton, certo?” Emma levantou da cama e começou a andar ao redor do quarto. “Provavelmente. Embora a polícia não tenha feito o teste ainda. Eu supondo que eles também vão olhar as impressões digitais do volante ─ talvez combine com as de Thayer.” Então ela fez uma careta. “Mas a pessoa não tem que estar no sistema criminal para eles encontrarem um DNA compatível?” “Thayer esteve em apuros antes,” Ethan falou. “E eles tiraram as impressões digitais dele quando ele foi preso.” “E já sabemos que ele estava no carro,” Emma continuou. “Mesmo que as impressões dele estejam no volante, o que isso prova?” “Verdade,” Ethan disse, soando cansado. “Significa apenas que nós vamos ter que cavar mais fundo. Descobrir qual foi o motivo. Descobrir algo que realmente o jogue contra a parede.” “Sim,” murmurou Emma, mas ela se sentia exausta. Ela estava tão perto... mas tão longe.

Ela fechou os olhos, de repente sobrecarregada com a tarefa à frente dela. A estrela de futebol adolescente não se tornou um assassino do nada. Algo fez Thayer Vega mudar. Quando ela abriu os olhos novamente, ela percebeu que a tela do laptop de Ethan estava brilhando. Uma janela do navegador Safari foi aberta na página do Facebook de Sutton. “Você está no Facebook?” Emma sorriu. “Você não parece ser do tipo.” Ethan levantou da cama e fechou o laptop. “Eu realmente não sou. Quero dizer, eu tenho uma conta, mas eu realmente não posto nela. Eu só estava pensando em deixar uma mensagem no seu ─ no de Sutton. Mas eu não sei.” Ele olhou para ela com cautela. “Seria estranho? Suas amigas não sabem realmente sobre... que nós nos falamos.” Emma sentiu uma onda de prazer por eles estarem discutindo sobre a possível relação deles. Mas então, um buraco se formou no estômago ela. Ela lembrou que as meninas tinham rido enquanto planejavam a brincadeira. Ela considerou dizer a Ethan sobre o plano para arruinar a leitura de poesia dele, mas o pensamento a enojou. Ela simplesmente teria que atrapalhar o plano. “Na verdade, Laurel sabe sobre nós,” Emma disse ao invés. Ela corou instantaneamente. Tudo bem ela dizer isso? Chamálos de nós? Eles não eram um casal ainda. “Isso te incomoda?” Ethan perguntou, um leve sorriso puxando na borda dos lábios dele. “Isso te incomoda?” Emma contra-atacou. Ethan deu pequenos passos em direção a Emma e se sentou na cama ao lado dela. “Eu não me importo com quem sabe. Eu acho que você é incrível. Eu nunca conheci ninguém como você.” O coração de Emma se apertou. Ninguém nunca tinha dito algo parecido com isso para ela antes. Ethan se inclinou para frente, e passou os dedos pela nuca dela. Beijou-a delicadamente, seus lábios quentes e macios, e Emma instantaneamente se esqueceu de tudo o que tinha acontecido desde que ela chegou à Tucson. Ela esqueceu o quão animada ela estava quando desceu do ônibus para conhecer a irmã. Ela esqueceu a rapidez com que as esperanças de seu encontro com Sutton foram destruídas. Ela esqueceu da nota mandando ela ser Sutton ─ ou ameaçando-a. Ela esqueceu da

investigação sobre Thayer, ou quem quer que tivesse matado Sutton. Nesse momento, ela era apenas Emma Paxton, uma menina com um namorado novo. E eu era apenas a irmã dela, feliz por ela ter encontrado alguém com quem ela realmente se importava.

CAPÍTULO CATORZE – SE A CHAVE ENCAIXAR
Essa noite, o corpo de Emma se enrolou entre o lençol azul claro de Sutton quando ela se virou de um lado para o outro. Alguns bichos de pelúcia de Sutton estavam alinhados ao pé da cama e olhavam para Emma com os olhos vidrados à luz da lua. Eles não tinham nada a ver com Sutton, eles eram uma das únicas coisas sentimentais que Emma tinha achado que a irmã tinha mantido do passado. Eles lembravam Emma dos brinquedos que ela guardara ─ um boneco monstro feito a mão que uma professora de piano deu a ela por dominar uma parte difícil de uma música, e um polvo de brinquedo, que Becky tinha comprado para ela em uma viagem para Four Corners* (*“Quatro Cantos” uma região do oeste dos Estados Unidos com a particularidade de ser o único lugar do país onde se encontra quatro estados, que, no sentido horário, são Colorado, Novo México, Arizona e Utah.). Os brinquedos de Sutton faziam Emma pensar no tempo que elas tinham perdido, as memórias que elas poderiam ter tido, de brincar juntas por horas em um quarto compartilhado, inventando mundos secretos que só elas duas compreenderiam. Horas que nunca poderiam voltar. Uma coruja fez um som no carvalho do lado de fora da janela de Sutton. Emma olhou para os galhos, notando que era a mesma árvore que ela tinha usado na noite em que ela escapou com Ethan e a mesma árvore que Thayer tinha usado para invadir o quarto de Sutton. De repente, ela sacudiu-se com um sobressalto. A janela estava aberta. E uma pessoa musculosa estava no canto do quarto, a respiração dele saia irregularmente. “Você realmente acha que seria tão fácil assim se livrar de mim?” A voz dele falou. Mesmo que ele estivesse nas sombras, Emma o reconheceu imediatamente. “Thayer?” Ela grunhiu, o nome mal escapando da boca dela. Ela se afastou e se encostou na cabeceira da cama, mas já era tarde demais. Thayer lançou-se para frente e fechou as mãos em volta do pescoço dela, os lábios a centímetros do dela.

“Você me traiu, Emma,” ele sussurrou, apertando a garganta dela com as mãos. Seu lábio inferior roçou o dela. “E agora está na hora do seu reencontro com Sutton se tornar realidade.” Emma afundou as unhas na pele de Thayer quando o suprimento de oxigênio dela foi diminuindo e sua vida foi sendo esvaziada lentamente. “Por favor, não!” “Adeus, Emma,” zombou Thayer. Suas mãos apertaram e apertaram... aparentemente no ritmo da música Mr. Know It All da Kelly Clarkson. Emma sentou na cama. A mesma música da Kelly Clarkson soava em seus ouvidos. Ela olhou em volta. Ela estava no quarto de Sutton, os lençóis de Sutton estavam colados em sua pele molhada. A luz do sol entrava através da janela ─ que de fato estava aberta. Mas o canto do quarto estava vazio. Ela tocou o pescoço, não sentindo nenhuma evidência de que tinha sido estrangulada. Ela sentiu a pele lisa. Nada machucado. Um sonho. Foi apenas um sonho. Mas parecia tão real. Parecia muito real para mim também. Olhei fixamente para o canto, assustada por Thayer não estar realmente ali. Ainda me choca ser carregada junto com Emma em todos os lugares que ela vai, até mesmo nos sonhos. Os dedos de Emma tremiam quando ela puxou a blusa do pijama azul claro sobre a barriga e olhou ao redor do quarto de Sutton mais uma vez. A tela do computador brilhava com imagens familiares de Sutton e suas melhores amigas ─ esta foto foi tirada depois de uma vitória da equipe de tênis. As meninas estavam com seus braços agarrados uma ao redor das outras e mostravam sinais de paz para a câmera. Um livro de alemão estava aberto na mesa de Sutton, juntamente com um pequeno livro de poesia que Ethan havia dado a Emma na semana anterior. Ali não tinha bichos de pelúcia em nenhum lugar ─ a verdadeira Sutton tinha sido muito madura para brinquedos. Mas lá estava essa janela aberta novamente. Emma podia jurar que tinha fechado e trancado na noite passada. Ela jogou as cobertas de lado, caminhou até a janela e olhou para fora. O gramado impecável dos Mercers expandia-se em ondas verdes na frente dela, não havia uma cadeira branca de vime ou um vaso de planta fora do lugar. O sol de Tucson era uma bola de fogo sobre as montanhas de Catalina e o som dos pássaros tagarelando entrava no quarto.

Bzz. Emma saltou e se virou. Algo estava soando debaixo da cama de Sutton. Ela percebeu quase imediatamente que era o BlackBerry da vida antiga dela. Ela se abaixou para pegá-lo e verificou a tela. Era Alex, sua melhor amiga de Henderson. Limpando a garganta, ela apertou o botão verde de atender. “Hey.” “Hey. Tudo bem? Você parece estranha.” Emma se encolheu. Mas Alex não podia saber o que Emma tinha acabado de sonhar. Ela nem sabia que Emma estava em perigo ─ pelo que ela sabia, Sutton ainda estava viva, e Emma estava experimentando a vida dos sonhos de uma garota adotada com a irmã há muito tempo perdida. “Claro que está tudo bem,” ela resmungou. “Eu estava apenas dormindo.” “Bem, se levante, dorminhoca,” Alex deu uma risadinha. “Eu não soube de você há anos. Eu queria saber como estão as coisas.” “Está tudo bem,” disse Emma, obrigando-se a soar otimista. “Ótima, na verdade. A família de Sutton é demais.” “Eu mal posso acreditar que você ganhou essa vida num piscar de olhos. Você deveria estar no programa da Oprah ou algo assim. Quer que eu envie sua história?” “Não!” Emma disse, talvez muito vigorosamente. Ela caminhou até o closet de Sutton, em parte para selecionar uma roupa para o dia, mas em parte porque era mais privado lá ─ tinha menos chance de Laurel ouvi-la. “Ok, ok! Como está a escola? Você gosta das amigas da Sutton?” Alex perguntou. Emma parou na frente de um top de seda azul. “Honestamente, as coisas com elas estão um pouco tensas agora.” “Como assim? Elas não conseguem lidar com duas de vocês?” A voz de Alex foi momentaneamente abafada, Emma conseguia imaginá-la se vestindo para a escola, escovando os cabelos e empurrando um bolo de canela na boca. Alex era a rainha da multitarefa e tinha um fraco por doces. “Elas são apenas um grupo muito unido,” disse Emma. “Elas têm tanta história que eu não consigo sequer começar a entender.”

Alex mastigou e engoliu. “História é apenas ─ história. Planeje algo divertido e crie suas próprias histórias com elas, talvez até mesmo sem Sutton.” “Sim, talvez,” disse Emma, percebendo que ela quase nunca saia sozinha com qualquer uma das amigas de Sutton. Drake soltou um latido baixo no andar de baixo e Emma ouviu a Sra. Mercer mandá-lo fazer silêncio. “Escute, eu tenho que ir ─ eu prometi a Sutton que eu ia ajudá-la com o dever de casa antes do início das aulas.” Ela desligou a ligação depois de prometer que iria manter mais contato, então saiu do closet de Sutton e se jogou de costas na cama, a cabeça latejando de repente. Foi horrível mentir para Alex. Ela pensou em todas as tardes que ela tinha passado no quarto de Alex, encontrando novas músicas na rádio Pandora e prevendo o futuro uma da outra. Elas tinham compartilhado um diário roxo, que revezavam para atualizá-lo com novas anotações todos os dias. Elas o tinham escondido dentro de um alçapão* (*Porta ou tampa horizontal que se fecha de cima para baixo.) debaixo da cama de Alex para que ninguém encontrasse. Elas tinham segredos que guardavam do mundo, mas não uma da outra ─ até agora. Emma sentou-se. Se Thayer manteve as cartas de Sutton, talvez ela mantivesse as dela, também. Mas onde ela as escondeu? Emma pôs as pernas do lado da cama de Sutton e olhou debaixo da cama. Duas caixas de sapatos estavam empilhadas contra a parede, mas ela já tinha olhado dentro delas há algumas semanas. Mas ela pegou-as de qualquer maneira, despejando o conteúdo em cima da cama, no caso de ela não ter notado alguma coisa. Testes antigos e documentos da escola estavam juntos com um elástico de borracha verde neon e um ingresso de um show da Lady Gaga. Uma boneca Barbie com olhos azuis vazios olhava para Emma, com seus cabelos loiros e enrolados em cascata sobre um enfeitado vestido de baile de seda. Essa não era E, a boneca que Sutton provavelmente tinha nomeado com o nome de Emma ─ ela estava em um baú no quarto dos Mercers. Emma já tinha visto todas essas coisas antes. Emma foi até a cômoda de Sutton e abriu todas as gavetas, jogando o conteúdo no chão. Tinha que haver algo que ela não estava achando. Ela vasculhou as camisetas e os shorts, e

enfiou as mãos nas meias de tênis. Ela olhou em todas as páginas dos três cadernos velhos repletos de anotações de história e equações de álgebra, olhou embaixo dos tubos de brilho labial, meia dúzia de brincos com o formato de candelabro e um pequeno pote de hidratante cujo rótulo prometia revitalizar a pele cansada. Depois de também procurar nas gavetas da escrivaninha de Sutton, ela se encostou contra a parede, observando as fotos antigas para se certificar de que não tinha deixado passar nada nas doze primeiras vezes que ela tinha visto. Mas o que seria? Uma figura à espreita em uma partida de tênis? Alguém segurando uma placa dizendo EU MATEI SUA IRMÃ na festa de aniversário dela? Alguém segurando uma faca nas costas dela no baile? Emma endireitou a coluna e levantou a cabeça. A Barbie Rainha do Baile. Ela não se encaixava com as coisas que Sutton tinha escondido debaixo da cama e dentro das gavetas. Emma puxou a boneca que estava caída em um emaranhado azul e de cabeça para baixo. As dobras do tecido tinham subido, expondo uma pequena bolsa costurada na camada mais interna do vestido de baile. Bingo. Bom trabalho. Mesmo sabendo que eu não teria pensado em verificar a boneca ─ supostamente, eu fui a única a colocar a bolsa lá. Emma colocou o dedo indicador dentro da bolsa e tocou um metal frio. Era uma pequena chave de prata. Ela ergueu-a na luz. Parecia o tipo de chave que abriria um diário ou uma caixa de jóias. Uma batida soou e a porta de Sutton foi aberta. Laurel apareceu na porta em uma nuvem de perfume e com as mãos nos quadris. Havia uma expressão amarga em seu rosto. “Mamãe quer você lá embaixo no café da manhã.” Então, ela olhou ao redor, para as coisas espalhadas pelo chão. “O que diabos você está fazendo aqui?” Emma olhou para a bagunça. “Hum, nada. Apenas procurando um brinco.” Ela ergueu um brinco de prata em formato de estrela que ela tinha acabado de encontrar debaixo da cama. “Achei.” “O que é isso?” Laurel apontou acusadoramente para a chave na palma da mão de Emma.

Emma olhou para ela também, xingando a si mesma. Se ela tivesse pensado em escondê-la antes de Laurel ver. “Oh, apenas uma coisa velha,” disse ela vagamente, deixando a chave na mesa de cabeceira de Sutton como se ela não ligasse. Somente quando Laurel foi embora que ela pegou-a de volta e enfiou-a no bolso da calça jeans de Sutton. Se a chave era importante o suficiente para estar escondida, talvez esteja guardando um grande segredo. E Emma não iria descansar até descobrir qual era. O que significava, sem dúvida, que eu também não iria descansar.

CAPÍTULO QUINZE – PROJETO: FUGIR
Na tarde de quinta-feira, Emma sentou-se na sala de Design de Moda, a última aula de Sutton do dia. Manequins sem cabeças cobertos de musselina drapeada cercava a sala. Havia uma passarela improvisada no centro. Os alunos estavam sentados em mesas de trabalho com tecidos, tesouras, botões, zíperes e fios espalhados ao redor deles. O professor de design de moda, o Sr. Salinas, passeava pela sala, vestindo calças de corte fino e um lenço azul-claro amarrado no pescoço. Ele parecia com o irmão mais novo do consultor de moda Tim Gunn. “A apresentação de hoje vai ultrapassar os limites da forma versus função,” anunciou em uma voz anasalada. Ele bateu um dedo magro e comprido na capa brilhante da revista Vogue francesa, que ele tinha chamado várias vezes de “Bíblia.” “A pergunta que está na ponta da língua de todo editor,” ele meditou. “qual a forma de traduzir o que está na passarela para a vida real?” Emma olhou para a manequim. A criação dela não estava traduzindo exatamente nada. Uma manta de flanela atravessava o meio da manequim, fixada desajeitadamente na cintura onde Emma tinha tentado fazer uma roupa A-Line* (*Roupa em formato de A). Com um top preto com um chiffon pendurado torto e com babados no colarinho. A pior parte era o alfinete: Emma tinha tentado fazer uma flor com um broche e um tecido xadrez. Finalizado com marcas de caneta vermelha que pontilhavam os braços nus do manequim, o conjunto disso fazia a manequim parecer uma estudante bêbada e gótica com um caso grave de catapora. Apesar de Emma amar moda ─ ela vasculhava brechós e fazia um monte de roupas baratas parecerem caras ─ costurar roupa realmente não era para ela. Ela suspeitava que Sutton tinha escolhido essa aula pela mesma razão que a levou a escolher um monte de outras disciplinas do seu horário de aulas ─ porque elas eram bem fáceis, para ganhar um A não exigiam muita leitura.

“O que o artista dentro de vocês tem a dizer?” O Sr. Salinas tagarelou. “Isto é o que devemos perguntar a nós mesmos.” Emma se encolheu, torcendo para que o Sr. Salinas não a mandasse falar ─ ela não tinha exatamente tentado expressar alguma coisa. Ela tinha coisas mais importantes para se preocupar do que ultrapassar os limites da forma versus função, como por exemplo, descobrir se Thayer havia matado sua irmã, antes que ele conseguisse sair da cadeia e ir atrás dela de novo. “Madeline?” O Sr. Salinas chamou dramaticamente, com ênfase na primeira sílaba do nome dela. “Diga-nos o que você criou aqui com sua bailarina da vanguarda.” Madeline se levantou e alisou sua minissaia preta de couro. Ela era a melhor da classe e sabia disso. “Bem, Edgar,” ela começou. Ela também era a única aluna que chamava o Sr. Salinas pelo primeiro nome. “O look que eu criei é chamado Dança Obscura. É uma espécie de balé-e-rua. É uma dançarina após o expediente. Para onde ela vai? O que ela vai fazer?” Ela fez um gesto em direção a manequim que usava um blazer sobre um vestido preto e apertado. “Essa é a parte obscura, a parte em que todos nós mentimos sob a fachada da perfeição.” Sr. Salinas bateu palmas. “Brilhante! Absolutamente divino. Pessoal, este é o tipo de trabalho que eu espero que todos vocês façam.” Madeline sentou-se, parecendo satisfeita consigo mesma. Emma cutucou o joelho dela. “Seu vestido ficou incrível. Eu estou super impressionada.” Madeline simplesmente concordou com a cabeça, mas Emma percebeu pela forma como suas feições se suavizaram que Madeline ficou comovida. A opinião de Emma ─ ou melhor, a opinião de Sutton ─ realmente importava para ela. Enquanto o Sr. Salinas chamava mais alguns alunos ─ suas respostas eram claramente chatas em comparação com a de Madeline ─ os pensamentos de Emma perambulavam. Ela praticamente tinha memorizado os recados de sua irmã para Thayer, e frases como: Algum dia nós poderemos ficar juntos quando for a hora certa e Nós vamos resolver todos os nossos problemas, passavam pela mente dela. Apesar de Sutton ter escrito quase trinta páginas para Thayer, ela não tinha sido particularmente específica. Por que eles não podiam ficar

juntos? Por que não era o momento certo? Quais eram os problemas que precisavam resolver? Eu fiz o possível para tentar lembrar o que eu quis dizer. Mas nada veio. Em seguida, Emma pensou na chave escondida em segurança no bolso dela. Hoje, ela tentou encaixá-la em todo lugar possível, uma caixa de jóias no closet de Sutton, uma caixa de ferramentas na garagem dos Mercers e uma pequena porta de um quarto no segundo andar da casa que ela nunca tinha visto antes. Ela ainda tinha ido à agência de correios mais próxima no almoço, no caso de a chave ser de um armário do correio, mas o proprietário disse a Emma que a chave era muito pequena para qualquer uma das caixas de correio. Talvez isso também fosse um beco sem saída. Emma resistiu ao impulso de descansar a cabeça sobre a mesa e adormecer. Isso estava ficando cansativo. Claro, ela queria ser uma jornalista investigativa quando fosse adulta, e descobrir escândalos corporativos e crimes horríveis, mas era diferente quando a vida dela estava envolvida. “Terra para Sutton!” Unhas bem feitas estalaram na frente do rosto de Emma. Os olhos verdes de Charlotte encararam-na. “Você está bem?” Charlotte perguntou, parecendo preocupada. “Você ficou por um segundo em um tipo de coma.” “Estou bem,” Emma murmurou. “Apenas um pouco... entediada.” Charlotte levantou uma sobrancelha. “Se é que você se lembra, foi você que nos convenceu a fazer Design de Moda.” Ela cruzou os braços sobre o peito. “Eu continuo dizendo isso, mas você parece tão estranha ultimamente. Você sabe que pode conversar comigo, certo?” Emma passou os dedos pelo tecido do vestido, considerando. Se ela pudesse dizer a Charlotte sobre Thayer. Mas seria um erro ─ se dissesse a ela que Sutton e Thayer estavam juntos romanticamente, Charlotte iria imediatamente acusá-la de trair Garrett. Garrett era sempre um assunto delicado com Charlotte ─ ele tinha terminado com Charlotte para ficar com Sutton e Emma suspeitava que ela nunca tinha superado. Eu tinha quase certeza de que era verdade.

Mas então, Emma teve uma idéia. Ela enfiou a mão no bolso e mostrou a pequena chave de prata. “Achei isso no meu quarto essa manhã e não consigo lembrar o que ela abre. Você sabe?” Charlotte pegou a chave da palma da mão de Emma e viroua em suas mãos. Ela brilhava fortemente. Emma percebeu Madeline olhando para ela com o canto do olho, mas depois ela rapidamente se virou e olhou para frente. “Parece que ela abre um cadeado, talvez,” disse Charlotte. “De um armário?” Emma supôs ansiosamente. Talvez Charlotte tenha visto Sutton abrir um armário secreto que Emma não sabia da existência. “Talvez um gabinete de arquivos.” Charlotte devolveu a chave para ela. “O que uma chave tem a ver com sua atitude bizarra de ultimamente? Ela vai desbloquear sua sanidade mental?” “Eu não estou com uma atitude bizarra,” Emma disse defensivamente, deslizando a chave de volta para o bolso. “Você está imaginando coisas.” “Você tem certeza?” Charlotte perguntou. Emma franziu os lábios. “Positivo.” Charlotte olhou para ela por um segundo, em seguida, pegou o lápis de desenhar. “Tudo bem.” Ela furiosamente rabiscou espirais e estrelas em seu caderno de moda. “Seja misteriosa. Eu não ligo.” O sinal tocou e Charlotte levantou-se rapidamente. “Char!” Emma a chamou, sentindo que Charlotte estava mais irritada do que deixava transparecer. Mas Charlotte não se virou. Ela caminhou ao lado de Madeline e desapareceu no corredor. Emma permaneceu em sua mesa, sentindo-se esgotada. Quando ela caminhou até o corredor, ela suportou olhares de diferentes tipos de estudantes cujos nomes ela ainda não sabia. “Você soube que um olheiro de futebol da Stanford veio aqui perguntar por Thayer?” Uma menina vestindo uma jaqueta jeans sussurrou para a amiga de cabelos escuros que usava uma blusa listrada estilo anos oitenta com um ombro de fora. “Com certeza,” respondeu a amiga murmurando. “Mas como Thayer está na prisão não tem chance de ele entrar.” “Oh, por favor.” A garota de jaqueta jeans acenou com a mão. “O advogado dele vai tirá-lo de lá. Ele estará livre até a próxima semana.” Por favor, não, Emma pensou.

“Mas, mesmo assim, ele está mancando,” Listras Anos Oitenta disse. “Ouvi dizer que ele está mancando muito. Como você acha que ele conseguiu entrar, afinal?” Para elas a resposta era óbvia. As duas meninas viraram e olharam para Emma quando ela passou, seus olhos brilhando. Parecia que todos estavam cochichando sobre ela, até mesmo os professores. Frau Fenstermacher, a professora de alemão dela cutucou Madame Ives, uma professora de Francês. Dois funcionários da lanchonete pararam de conversar e olharam. Calouros, veteranos, todos olhavam para ela como se eles soubessem tudo sobre ela. Vocês poderiam me deixar em paz? Emma queria gritar. Isso era irônico: Quando ela ia para a escola como uma criança adotiva, ela era uma ninguém, uma fantasma nos corredores. Ela queria que todo mundo a conhecesse. Mas notoriedade vinha com um preço. Disso eu não sabia. Quando Emma virou a esquina em um corredor com várias janelas que tinham vista para um pátio cheio de cactos e samambaias em vasos, ela avistou um vislumbre do cabelo escuro de Ethan a alguns centímetros acima dos outros estudantes. O coração dela batia com força contra o peito enquanto ela manobrava o caminho através da multidão. “Oi,” ela disse, unindo seus braços. Um sorriso iluminou o rosto de Ethan. “Oi para você também.” Então ele notou a expressão sombria de Emma. “Você está bem? O que aconteceu?” Ela encolheu os ombros. “É um daqueles dias em que é um pouco difícil ser Sutton Mercer. Eu daria qualquer coisa para sair daqui. Dar uma pausa por um tempo em ser Sutton.” Uma ruga se formou na testa de Ethan, em seguida, ele levantou um dedo num gesto de aha. “Definitivamente. E eu sei exatamente onde eu posso te levar.”

Três horas depois, Ethan guiou seu carro para fora da Rodovia 10 e entrou em uma saída com a placa PHOENIX. Emma fez uma careta. “Você não pode me dizer alguma coisa sobre para onde estamos indo?” “Não,” Ethan disse, com um sorriso malicioso nos lábios. “Apenas que é um lugar onde ninguém nunca ouviu falar de Sutton Mercer, Emma Paxton ou Thayer Vega.”

Eu queria rir. Quando eu estava viva, eu achava que todos tinham ouvido falar de mim ─ em todos os lugares. E foi doce Ethan ter levado minha gêmea até Phoenix para levá-la para longe dessa loucura. Fora da rodovia, Ethan reduziu a velocidade em uma rua degradada do centro da cidade de Phoenix, a rua era repleta de grandes lixeiras cheias com restos de gessos, vidros quebrados e latas de tinta vazias. Um prédio inacabado elevava-se sobre a rua, ostentando um cartaz que dizia que os apartamentos estariam disponíveis para alugar a partir de novembro. Levando em conta que o prédio estava sem janelas, Emma tinha sérias dúvidas de que a afirmação era verdadeira. “Ok, agora você vai me dizer?” Emma implorou quando Ethan saiu de um beco assustador, entrou em um estacionamento e parou na frente de um velho hotel estilo Art Déco. “Paciência, paciência!” Ethan brincou, tirando o cinto de segurança. Ele trancou a porta do carro e esticou-se preguiçosamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. Emma bateu o pé. “Eu estou esperando.” Ele atravessou o carro e colocou os braços ao redor dela. “Esperando o quê?” Ele perguntou. “Isso?” Ele baixou os lábios nos dela, e ela o beijou de volta, relaxando nos braços dele. Ela sorriu quando eles se separaram, o corpo inteiro dela formigava. Então ela começou a rir. “Espere um minuto. Você me trouxe para Phoenix apenas para que pudéssemos namorar em público?” “Não, isso é apenas um bônus.” Ethan se virou e fez um gesto para o hotel Art Déco. “Estamos aqui para ver um show da minha banda favorita, os Sem Nomes.” “Sem Nomes?” Emma ecoou. “Nunca ouvi falar deles.” “Eles são fantásticos ─ punk rock, mas com uma pitada de blues. Você vai amá-los.” Ele pegou a mão dela, enganchando seus dedos nos dela, e a levou para dentro do hotel, que aparentemente tinha sido construído nos anos cinquenta. Havia desenhos tribais cafonas cor turquesa e salmão nas paredes, luminárias Déco, e até mesmo uma velha caixa registradora atrás do balcão da portaria, em vez de um computador fino de tela plana. Uma placa de metal apontava para o clube no final do corredor, embora não fosse necessário ─ Emma conseguia ouvir o som

abafado do baixo e do amplificador do feedback enquanto eles atravessavam as portas giratórias. O ar tinha cheiro de cigarros, cerveja barata e corpos suados dançando. Um bando de garotos descolados-demais-para-o-show andava no corredor, fumando e verificando os recém-chegados. Depois de pagar dez dólares, Emma e Ethan entraram no clube. O lugar era grande, quadrado e escuro, exceto pelas luzes do palco e um monte de luzes de Natal ao redor do bar, que estava em uma plataforma elevada na parte traseira. Havia corpos por toda parte ─ caras que se recusavam a dançar, meninas que se balançavam com os olhos fechados, presas em seus próprios sonhos musicais, uma fila com seis adolescentes, todos com os braços entrelaçados. Alguns deles olharam para Emma com tédio. Em qualquer outro momento, ela teria sido intimidada pela indiferença deles, mas hoje, isso era maravilhosamente bem-vindo. Ninguém a reconheceu. Ela não tinha história aqui. Ela era apenas uma fã qualquer dos Sem Nomes, como todo mundo. Emma subiu em direção ao bar, sentindo centenas de esbarrões nos ombros e escutando milhões de “com licença e desculpa.” O barulho na plataforma era tão alto que os ouvidos de Emma imediatamente começaram a ficar abafados e tampados. Ethan e Emma chegaram ao bar, se espremendo contra o balcão, como se tivessem enfrentado um furacão. O garçom arrumou vários copos na frente deles e os dois pediram cervejas. Emma avistou a última mesa vazia, jogou a bolsa no encosto da cadeira e olhou para o palco. Uma banda de três integrantes estava no meio de uma música rápida e murmurada. O baterista se contorcia como um polvo. O baixista balançava para frente e para trás de um pé para o outro, seu longo cabelo escondendo seu rosto. A vocalista, que tinha o cabelo rosa choque estava no meio do palco, tocando violentamente a guitarra e cantando sedutoramente com o microfone. Emma olhou para ela, paralisada. Ela estava com o cabelo amontoado em cima da cabeça em um estilo colméia dos anos cinquenta, e estava usando um vestido elegante preto, botas pretas, meias arrastão e luvas pretas e longas de seda. Se ela conseguisse ser tão desinibida e descolada.

“Você está certo! Essa banda é incrível,” Emma gritou para Ethan. Ele sorriu e brindou sua cerveja com a dela, balançando a cabeça com o ritmo. Emma olhou para a multidão outra vez. A luz criava auréolas ao redor do topo das cabeças das pessoas. Muitos adolescentes estavam dançando. Outros estavam tirando fotos com seus celulares. Vários fãs estavam amontoados contra o palco ─ muitos deles garotos, provavelmente querendo dar uma olhada por debaixo do vestido da vocalista. “Minha amiga Alex de Henderson estaria por todo lado se estivesse aqui,” Emma disse com tristeza. “Ela adorava ir a shows como esse. Ela que me indicou todas as bandas legais que eu escuto.” A bola de discoteca brilhava sobre o rosto de Ethan, iluminando seus olhos azuis. “Talvez eu possa conhecê-la quando tudo isso acabar.” “Eu adoraria,” Emma disse. Alex e Ethan iriam amar um ao outro ─ eles gostavam de poesia e não se importavam com o que os outros pensavam sobre eles. Quando eles terminaram as bebidas, Emma puxou Ethan do banquinho e arrastou-o para a pista de dança. Ethan pigarreou, constrangido. “Eu não sou exatamente um bom dançarino.” “Nem eu,” gritou Emma acima da música. “Mas ninguém aqui nos conhece, então quem se importa?” Ela pegou a mão dele e girou em torno dele. Ele puxou-a de volta com uma risada, e eles começaram a dançar juntos, pulando e dançando ao som da música. Quando os Sem Nomes finalizaram a apresentação, Emma estava exausta e coberta de suor, mas ela se sentia leve como um vestido de seda. “Tem outra coisa que eu quero te mostrar,” Ethan disse, apontando para uma porta de saída de emergência e a conduziu através de um corredor escuro. Uma porta de metal pesado dizia PLATAFORMA DE OBSERVAÇÃO. Ethan abriu a porta com o cotovelo e eles subiram uma escada estreita. “Você tem certeza que é permitido estar aqui?” Emma perguntou nervosamente, seus sapatos ecoando nos degraus de metal. “Sim,” disse Ethan. “Estamos quase lá.”

No topo, eles atravessaram outra porta pesada e saíram para o ar livre. A plataforma de observação não era muito mais do que um telhado plano com um par de cadeiras caindo aos pedaços e mesinhas, uma lata de lixo cheia de garrafas vazias de cerveja Corona Light, e uma samambaia grande que parecia meio morta plantada em um vaso, mas também a cidade de Phoenix ao redor dela, cheia de luzes, brilho e barulho. “Que lindo!” Emma inspirou. “Como você sabia que tinha isso aqui em cima?” Ethan caminhou até o corrimão e inclinou o rosto para o céu noturno. “Minha mãe ficou doente por um tempo. Ela tinha um monte de consultas médicas por aqui. Eu pude conhecer a cidade muito bem.” “Ela está... ok?” Emma perguntou baixinho. Ethan nunca tinha dito a ela sobre a mãe dele estar doente. Ethan encolheu os ombros, parecendo um pouco reservado. “Eu acho que sim. Tão boa quanto ela poderia estar.” Ele ficou olhando para as luzes cintilantes. “Ela teve câncer. Mas ela está bem agora, eu acho.” “Sinto muito,” Emma arfou. “Está tudo bem,” disse Ethan. “Eu fui o único que a ajudou com isso, no entanto. Você lembra quando eu te disse que meu pai praticamente vive em San Diego? Bem, ele nunca veio para nenhum dos tratamentos de quimioterapia dela. Que surpresa!” “Talvez ele não conseguisse lidar com ela estar doente,” disse Emma. “Algumas pessoas não lidam com essas coisas muito bem.” “Sim, bem, ele deveria ter conseguido,” Ethan falou, seus olhos brilhando. Emma recuou. “Sinto muito,” ela sussurrou. Ethan fechou os olhos. “Eu sinto muito.” Ele suspirou. “Eu realmente nunca disse a ninguém sobre minha mãe. Mas, bem, eu quero que sejamos totalmente honestos um com o outro. Eu quero que a gente compartilhe tudo. Mesmo que seja ruim. Espero que você compartilhe tudo comigo, também.” Emma inspirou, se sentindo comovida e horrivelmente culpada. Havia algo importante que ela não estava compartilhando com Ethan: a brincadeira contra ele. Ela deveria dizer alguma coisa? Ele ficaria com raiva por ela ter passado tanto tempo sem contar a ele? Talvez fosse melhor simplesmente não dizer nada e descobrir uma maneira de

impedir a brincadeira antes que ela acontecesse. O que Ethan não sabia não iria machucá-lo. Um modo de ser totalmente honesta, Mana. Mas eu entendia a situação que ela estava. Emma colocou os braços em volta da cintura de Ethan e inclinou o rosto contra as costas dele. Ele se virou e a abraçou, beijando-a na testa. “Podemos ficar aqui para sempre?” Perguntou ela com um suspiro. “É tão maravilhoso pela primeira vez não ser Sutton. Apenas ser... eu mesma.” “Nós podemos ficar o quanto você quiser,” Ethan garantiu. “Ou, bem, pelo menos até que tenhamos de ir à escola amanhã.” Carros buzinavam nas ruas lá embaixo. Um helicóptero zumbia em cima, havia um feixe branco de um poste perto das montanhas. Um alarme de carro tocava, pessoas andavam de bicicleta através de uma série de bips irritantes, gritos e zumbidos até alguém os deter. Mas enquanto ela estava quente e segura nos braços de Ethan, Emma decidiu esse era o dia mais romântico que ela já teve.

CAPÍTULO DEZESSEIS – A RECONCILIAÇÃO
Na tarde de domingo, Emma, Madeline, Charlotte, Laurel e as Gêmeas do Twitter esperavam na fila do Pam’s Pretzels, um quiosque localizado em um canto do Shopping La Encantada, nos arredores de Tucson. Apesar das amigas de Sutton terem jurado cortar carboidratos, os pretzels valiam quebrar suas dietas. Eles eram cobertos de queijo mexicano e tinham uma combinação de especiarias que era, nas palavras de Madeline, “melhor do que sexo”. O cheiro de pão e mostarda impregnava o ar. Os clientes pareciam que iam desmaiar quando davam grandes mordidas pastosas. Uma mulher parecia que estava realmente desmaiando de prazer enquanto mastigava. A fila era longa e um monte de garotos com idade de estar na faculdade, com camisetas de bandas e cabelos longos e bagunçados, estava na frente delas. Madeline estava se afastando deles como se tivessem pulgas. Charlotte, cujo cabelo vermelho flamejante estava amarrado em um coque apertado, deu uma cotovelada em Laurel, que estava ocupada mandando algumas mensagens de texto para Caleb. “O que traz de volta boas lembranças?” Disse ela, apontando para uma caixa de jardim de pé quatro por quatro coberta com feltro. Laurel deu uma risadinha para o que Charlotte estava apontando. “Aquela árvore de Natal era muito mais pesada do que parecia. E eu fiquei com enfeites no meu cabelo por dias.” Ela sacudiu os cabelos para fazer efeito. Madeline cobriu a boca e soltou um grunhido. “Essa foi impagável.” “Foi mesmo,” disse Emma, mesmo que ela não tivesse idéia do que as meninas estavam falando, provavelmente era uma velha brincadeira do Jogo da Mentira. A fila moveu-se rapidamente e logo foi a vez das Gêmeas do Twitter. “Um pretzel com queijo com molho extra.” Lili deslocou o peso de uma de suas botas pretas de salto fino na altura do joelho, para a outra. As outras garotas

pediram mais ou menos a mesma coisa e uma vez que os pretzels estavam prontos, os levaram para uma mesa do pátio e sentaram-se. Apenas Emma e Madeline permaneceram no balcão, lentamente temperando seus lanches. Emma olhou em volta. O lado de fora do shopping estava movimentado hoje, com as meninas em shorts curtos, blusas de mangas no formato de asas de morcego e saltos altos. Todas carregavam sacolas da Tiffany, Anthropologie e Tory Burch. Ela esticou o pescoço e olhou para o brechó no segundo andar. Não muito tempo atrás, ela e Madeline tinham ido a essa loja vintage e se divertiram. Ela se sentiu como Emma naquele dia, não A Menina Que Supostamente Seria Sutton. Madeline suspirou. Quando Emma se virou, ela percebeu que Madeline estava olhando para a loja vintage também. Em seguida, ela enfrentou Emma, com uma expressão contemplativa e um pouco estranha. “Escute, eu não quero mais ficar chateada com você,” ela disse. “Eu não quero que você fique com raiva de mim também!” Emma exclamou com gratidão. Madeline ergueu a mão para sombrear os olhos. “Não importa o quão chateada eu estou por causa de Thayer, eu sei que o desaparecimento dele não é culpa sua. Eu realmente sinto muito. Eu tenho sido tão terrível com você.” Um alívio percorreu Emma. “Sinto muito, também. Eu não posso imaginar o que isso tem sido para você e sua família, e me desculpe se eu piorei as coisas, de qualquer forma.” Madeline abriu um sachê de mostarda com os dentes. “Você tem uma maneira de causar drama, Sutton. Mas você tem que me dizer a verdade. Você realmente não sabe por que meu irmão apareceu em seu quarto?” “Eu realmente não sei. Eu prometo.” Passou-se alguns segundos. Madeline inspecionou Emma cuidadosamente, como se estivesse tentando ler sua mente. “Tudo bem,” disse ela finalmente. “Eu acredito em você.” Emma soltou um suspiro. “Que bom, porque eu senti falta de você,” disse ela. “Eu senti falta de você também.” Elas se abraçaram fortemente. Emma apertou os olhos, mas de repente ela começou a ter uma nítida sensação de que alguém estava olhando para ela. Ela abriu os olhos e olhou para a garagem escura ao lado do quiosque de pretzel. Ela pensou

ter visto alguém agachado atrás de um carro. Mas quando ela olhou melhor, ela não viu ninguém. Madeline enganchou um braço no de Emma quando voltaram para as meninas. Charlotte sorriu, parecendo aliviada também. “Tenho notícias emocionantes, damas,” Madeline anunciou. “Vamos dar uma festa na noite de sexta-feira.” “Vamos?” As Gêmeas do Twitter perguntaram em uníssono, sacando seus iPhones, animadas para dar a notícia aos seus seguidores fanáticos. “Onde?” “Você saberá quando for informada,” disse Madeline misteriosamente. “Eu quis dizer Sutton, Char e Laurel.” Ela estreitou os olhos para Gabby e Lili. “É super privada, de modo que não sejamos pegas e vocês não são exatamente boas em guardar segredos.” Os lábios rechonchudos de Gabby estalaram fazendo um bico que era sua marca registrada. “Tudo bem,” disse Lili, com um suspiro excessivamente dramático. Laurel jogou os restos de seu pretzel em uma lata de lixo embrulhada com um cartaz verde brilhante que tinha escrito VOCÊ PODE FAZER ISSO POR UM PLANETA MELHOR! Ela fechou uma fivela que estava aberta na alça de sua bolsa. “O que podemos fazer para ajudar? E qual é o código de vestimenta? Vestidos de verão?” Madeline tomou um longo gole de sua água lima-limão com gás. “Vai começar às dez, mas vamos ter que chegar cedo para preparar. Deixem as comidas e bebidas para mim e Char. Você lida com a lista de convidados, Laurel, e Sutton, você escolhe uma lista de músicas. E quanto a vestimenta, talvez shorts, saltos e uma blusa elegante? Definitivamente algo novo. Vamos lá. Vamos às compras.” Ela agarrou a mão de Emma e puxou-a para cima. Emma sorriu, apreciando o gesto de boa vontade de Madeline. As meninas caminharam para uma boutique chamada Castor e Pollux. Assim que elas passaram pela porta da frente, o cheiro de roupa nova e perfume adocicado giravam em suas narinas. Tinha manequins com olhos vidrados vestidos com saias plissadas chiffon e jaquetas em forma de zigue-zague com as mãos pousadas em seus quadris estreitos. Tinham saltos

agulha muito maiores do que qualquer coisa que Emma já tivesse usado, alinhados no perímetro da loja. “Eles ficariam impressionantes em você, Sutton,” Charlotte disse, segurando um sapato prata. Emma tomou dela e discretamente verificou o preço. Quatrocentos e setenta e cinco dólares? Ela tentou não engolir a língua enquanto ela o guardava de volta. Mesmo que ela estivesse aqui há um mês, ela ainda não estava acostumada com a maneira de as amigas de Sutton comprar com abandono. O custo de cada item individual no armário de Sutton era perto do que Emma normalmente gastava em seu guarda-roupa de um ano inteiro. E esse foi um ano bom ─ quando ela tinha catorze anos, ela não tinha dinheiro para roupas novas. Sua mãe adotiva, Gwen, que morava em uma pequena cidade há trinta milhas de Las Vegas, insistia em costurar para todos os filhos adotivos roupas de volta às aulas, em uma máquina de costura Singer 1960 ─ e ela se considerava uma espécie de designer de moda. E o pior era que Gwen era uma gótica romântica, o que significava que Emma começou a oitava série vestindo saias longas de veludo, blusas creme que pareciam espartilhos e sandálias de palmilha de cortiça de segunda mão. Não é necessário dizer que Emma não era a garota mais popular na Escola Cactus Needles Middle. Depois disso, ela sempre fez questão de ter um emprego, para que ela pudesse comprar pelo menos o básico. Lili gravitou para uma mesa empilhada com camisetas tão finas quanto papel e sem mangas, enquanto Gabby fez um caminho mais curto para uma de camisas pólo. Charlotte dirigiu Emma para uma fila de mini vestidos, apontando para um deles. “Aquele lavanda ficaria incrível com seus olhos,” ela ofereceu. As meninas se reuniram do lado de fora das cortinas do provador ao ar livre, cercado por quatro espelhos de três vias. Quando elas tentaram combinar saias curtas e camisetas leves, era como se uma dúzia de cópias Xerox estivessem sendo refletidas de volta para elas. “Ela é linda, Mads,” Emma elogiou, olhando para a saia verde limão de algodão que Madeline havia vestido. Ela mostrava suas longas e ágeis pernas de dançarina de balé. “Você deve totalmente ficar com ela,” disse Charlotte. “Eu não posso,” murmurou Madeline.

“Por que não?” Uma ruga formou-se na testa de Charlotte. “Não tem dinheiro? Vou comprá-la para você.” Madeline chutou-a para fora. “Não ficou boa em mim.” “Não é verdade!” Charlotte pegou a saia do chão. “Eu com certeza vou comprá-la.” “Char, não se preocupe,” retrucou Madeline, aumentando a voz. “Meu pai nunca vai me deixar usá-la. Ele vai dizer que é muito curta.” Charlotte deixou a saia deslizar entre os dedos e a boca achatou em uma linha reta. O provador ficou em silêncio. As meninas se viraram, ocupando-se com suas pilhas de roupas e olhando para qualquer lugar, menos para Mads. A menção do Sr. Vega tinha esse efeito. Emma puxou um vestido lavanda sobre sua cabeça, deslizando cuidadosamente as alças finas sobre os ombros. A seda era suave contra sua pele e ajustado na cintura perfeitamente, fazendo o corpo magérrimo de Emma parecer que tinha um pouco mais de curvas do que o habitual. “Ooh, Sutton!” Charlotte assobiou. “Olá, deslumbrante,” vibrou Laurel, aparentemente esquecendo seu ressentimento entre irmãs. Emma tentou não olhar para si mesma atentamente no espelho, mas ela não conseguiu. O vestido a fazia parecer surpreendente. Sutton teria provado roupas caras que a fazia parecer como um milhão de dólares, mas Emma sempre usava peças doadas ou de segunda mão de outros filhos adotivos. Era tão especial usar algo que se encaixava nela como uma luva. Laurel colocou a mão no ombro de Emma. “Você sabe quem gostaria de ver você nele? Ethan.” Emma se encolheu. “O que?” “Eu o vi falando com você na escola,” Laurel disse. “É óbvio que ele tem uma queda por você.” Emma arregalou os olhos para Laurel, esperando que ela pudesse telepaticamente dizer a ela para calar a boca. Mas Laurel continuou, enrolando um cacho de cabelo loiro em volta de seus dedos. “Sabe o que você deveria fazer? Fazer com que ele convide você para a casa dele, assim você poderia roubar seus poemas.” “Ooh, você quer dizer para a brincadeira?” Lili disse.

“Uh-huh,” disse Laurel. “Precisamos dos poemas para publicar on-line para fazê-lo parecer um plagiador. Você é a pessoa perfeita para isso, Sutton, uma vez que ele já se deu mal por causa de você. E você é muito boa em roubar, como o seu pequeno deslize na Clique.” Laurel bateu em seu quadril. Emma olhou duramente para ela, raiva fervendo sob sua pele. Aparentemente, Laurel ainda estava furiosa com ela. Então, novamente, ela não tinha dito nada para conseguir tirar Thayer da cadeia, o que significava que Laurel não ia parar a brincadeira com Ethan. Ela endireitou-se, decidindo não deixar Laurel ganhar dela. “Se ele perceber que os poemas dele desapareceram, ele saberá que fui eu quem os pegou.” “Oh, você vai descobrir uma maneira de passar despercebida,” Laurel disse vibrante. “Vamos lá, Sutton. Este plano é demais.” Madeline sorriu. “Talvez você devesse mesmo convidá-lo para vir nos ajudar a preparar a festa, para realmente fazê-lo pensar que somos amigos. Além disso, vamos precisar da força de um homem.” Agora todo mundo estava olhando para Emma. Gotas de suor escorriam atrás de seu pescoço. No espelho, ela podia ver uma coloração vermelha se espalhando por todo seu rosto. Elas foram interrompidas por uma vendedora de cabelo loiro platinado que enfiou a cabeça em torno da cortina de veludo escuro e perguntou se elas iam comprar alguma coisa. Charlotte entregou suas diversas camisetas, um vestido e um par de jeans. Madeline empurrou a saia verde para ela, dizendo que ela não queria. As Gêmeas do Twitter ambas compraram leggings. Emma olhou para a pilha de roupas, seu cérebro correndo. Como era que ela ia sair dessa brincadeira com Ethan? Ela pensou sobre o que Ethan tinha dito no telhado: Eu quero que sejamos totalmente honestos um com o outro. Ela não estava exatamente cumprindo sua parte no trato. “Sutton, você vem?” Emma saltou e olhou para cima. O vestiário estava vazio. Charlotte tinha enfiado a cabeça para trás através da cortina com um olhar estranho no rosto. Todas as outras meninas estavam no caixa com roupas em suas mãos. “Uh, claro,” Emma murmurou, pegando o vestido lavanda e a bolsa de Sutton. Quando ela passeou em direção ao caixa, sentiu Laurel olhando para ela com um sorriso no rosto.

Mas então, ela sentiu um segundo par de olhos a perfurando da calçada. Ela olhou ao redor e semicerrou os olhos. Desta vez, a figura não foi rápida o suficiente para se esconder. Os cabelos na parte de trás de seu pescoço se eriçaram. A pessoa era definitivamente do sexo masculino. Ele apareceu completamente em sua visão e encontrou o olhar de Emma. Emma suspirou. E eu também. Era Garrett, e ele parecia chateado. Após uma pulsação, ele foi para longe.

CAPÍTULO DEZESSETE – O FUNDO FALSO
Na tarde de terça-feira, a equipe de tênis da Hollier High foi para o pátio para uma partida amistosa em duplas. O céu estava abençoadamente nublado, o que significava que na verdade era suportável para jogar. Os sons da estação de rádio pop XM enchiam o ar ─ a Treinadora Maggie gostava de ter sempre música animada para fazer as meninas se moverem. Uma garrafa grande da bebida isotônica Gatorade ficava ao lado, os tubos de bolas extras estavam perto da lata de lixo, e Maggie, que estava usando a sua onipresente camisa pólo do Tênis da Hollier e calças cáqui de pára-quedas, desfilava para cima e para baixo no pátio, avaliando ataques e saques. “Fora!” A voz estridente de Nisha Banerjee soou através da rede para o lado de Emma. Ela apontou a raquete preta brilhante na linha branca e atirou um olhar para Emma que dizia Que pena, vadia. “E esse é o jogo!” Laurel, que estava na linha de base ao lado de Nisha, riu alegremente. “Nem mesmo Sutton Mercer poderia retornar esse saque poderoso!” Ela levantou a mão e deu um tapa em Nisha como um gesto de aprovação. “Parece que a melhor mulher ganhou!” Nisha jogou seu rabo de cavalo preto por cima do ombro. Emma revirou os olhos quando Nisha e Laurel pularam do outro lado da quadra com suas raquetes erguidas. Maggie tinha enviado para a equipe na noite anterior uma lista de quem competiria com quem no amistoso em duplas, e Laurel e Nisha tinham planejado antecipadamente shorts rosa de treinamento, tops apertados brancos e pulseiras verdes contra suor. A coisa toda me fez eriçar. Desde quando minha irmã estava aliada com Nisha, a minha maior rival? Obviamente, essa coisa toda de Thayer estava fazendo-a ir a extremos. Emma virou-se para Clara, uma menina do segundo ano que tinha sido designada como sua parceira de duplas para hoje. “Desculpe. Eu não estou jogando bem hoje.” “Não, Sutton, você está indo muito bem!” A voz de Clara elevou-se esperançosamente. Ela era bonita o suficiente, com

um cabelo de um preto forte e lustroso, um nariz empinado e arrebitado, olhos azuis surpreendentes, mas ela tinha um olhar tão desesperado em seu rosto. Ela tinha sido atenciosa com Emma toda a tarde, elogiando seus péssimos saques, contestando as zombarias contra as jogadas de Emma, embora fosse claro que as bolas tinham ido para fora, dizendo a Emma repetidamente o quão bonita ela estava com sua brilhante bandana. Era ridículo o medo que as pessoas tinham de Sutton, andando na ponta dos pés em torno dela como se ela governasse a escola. Ou talvez, eu pensei, elas ficavam na ponta dos pés ao meu redor para se certificarem de que eu não ia fazer uma brincadeira do Jogo da Mentira com elas. Depois de assistir mais alguns jogos, Emma foi para o vestiário. A treinadora Maggie chamou a atenção de Emma perto do pátio e ergueu os dedos em um gesto de simpatia. Ela bateu na base do queixo e balbuciou Mantenha sua cabeça erguida. O vestiário estava fresco e cheirava a azulejo recém-lavado. O cartaz brilhante e colorido da pirâmide alimentar tinha sido desprendido de um lado e pendurado torto. Um bando de meninas em trajes de banho entrou pelas portas giratórias que levavam para o vestiário da piscina. O cheiro espesso de cloro encheu o ar enquanto faziam seu caminho para os chuveiros. Emma virou para uma fila de armários cinza-azulados e viu que Laurel havia chegado primeiro. Ela já havia mudado sua roupa do treino de tênis para confortáveis shorts esportivos e uma camiseta branca e estava sentada de pernas cruzadas no banco comprido de madeira, de costas. Seu iPhone estava à sua orelha, e ela estava dizendo algo em voz baixa. Parecia Se ela é realmente fiel, ela vai concordar com isso. “Desculpe,” ela interrompeu, colocando a raquete de Sutton contra o banco. Laurel pulou e deixou cair o telefone. “Oh. Hey.” Seu rosto ficou vermelho, e Emma percebeu chocada que Laurel devia estar falando sobre ela. Mas o que aquelas palavras significavam? Emma girou a fechadura da combinação do armário de esportes de Sutton entre os dedos. A porta abriu-se com um barulho. Enfiou o tênis de Sutton no armário e verificou seu reflexo no pequeno espelho magnético.

“Um bom empenho hoje,” Laurel disse sarcasticamente. “Eu acho que você não pode vencer todos eles, hein?” “Tanto faz,” Emma atirou de volta. Ela estava cansada demais para entrar em uma briga com a maldosa Laurel agora. “Falando sério,” Laurel disse. “Quando foi a última vez que perdeu para mim ou Nisha? Sem ofensa, Sutton, mas Clara estava jogando bem. Era você quem não estava.” Nervos pularam no estômago de Emma. Falando em eufemismo. Ela não estava jogando bem desde que ela tinha tomado a vida de Sutton. “Eu acho que estou apenas fora do meu ritmo ultimamente,” disse ela, tentando parecer indiferente. Laurel ajustou a correia de sua sandália de ouro e levantouse do banco. “Eu vou dizer.” Ela deu uma olhar sagaz para Emma. “Talvez alguém esteja apenas distraída, porque ela tem que fazer uma brincadeira com seu namorado secreto.” Emma mordeu o lábio e olhou para o armário de Sutton. “Lili me mandou uma mensagem. Ela criou o site que o nosso falso poeta vai publicar os trabalhos de Ethan,” Laurel anunciou. “Ela fez?” Emma perguntou fracamente. “Sim! Mas você ainda pode apagá-lo. Você sabe o que você tem que fazer para que isso aconteça!” Laurel disse vibrante. Então ela tilintou as chaves do carro. “Estou levando Drake para o pet shop às seis horas. Não deixe a mamãe começar o jantar sem mim.” Ela virou-se e saiu do vestiário. Emma ouviu quando a porta bateu, em seguida, soltou um suspiro. Lentamente, ela tirou seus tênis e calçou as alpercatas de Sutton. Uma figura moveu-se ao lado dela, e quando Emma se virou, viu Clara de pé no final do corredor com um sorriso de desculpas em seu rosto. “Está tudo bem se eu pegar minhas coisas?” Perguntou ela. “Claro,” Emma disse, rindo. Clara correu para seu armário. Emma olhou para dentro, observando quão precisamente suas camisetas extras foram dobradas, e como ela mantinha seu desodorante, xampu e sabonete líquido enfileirados na parte inferior. Então, sua respiração ficou presa em seu peito. O fundo de metal do armário de Clara era dois centímetros mais baixo do que o de Sutton.

Clara percebeu seu olhar e se encolheu. “Oh, Meus Deus. Eu geralmente mantenho o meu armário muito mais limpo do que isso.” Emma olhou para ela. Será que Clara achava que ela iria puni-la ou algo assim? “Não seja boba. Na verdade eu estava admirando como é organizado.” “Sério?” Os olhos de Clara brilharam. E então ela mordeu o lábio nervosamente. “Ei, Sutton, eu ouvi que vai ter uma festa ultra-secreta nesta sexta-feira. Talvez em uma casa abandonada ou algo assim?” “É verdade,” disse Emma. Madeline tinha dito a ela os detalhes sobre a festa, dizendo que era em uma casa que tinha sido hipotecada há alguns meses. Ela viu a expressão ansiosa de Clara e então deu um passo à frente. “Você quer vir? Posso mandar um torpedo com os detalhes.” “Sério?” Clara parecia que ia cair de prazer. “Isso seria incrível!” Clara agradeceu Emma pelo menos mais seis vezes antes de ela terminar, pegar suas coisas e desaparecer. Emma olhou em volta do vestiário. Estava cheio de meninas do tênis e da equipe de natação. Não tinha como ela investigar o armário de Sutton agora. Ela teria que esperar em um canto quieto até a escola esvaziar... e depois agir.

Às sete, a escola estava completamente silenciosa. As luzes piscaram desligando-se e envolveu Emma na escuridão de onde ela estava sentada fora da biblioteca. Alguns professores passaram a caminho de seus carros, mas ninguém perguntou por que ela estava lá. Finalmente, ela fez o caminho de volta pelo corredor e voltou aos armários do vestiário das meninas. A porta se fechou atrás dela, deixando-a cega na escuridão de breu. O cheiro de água sanitária apenas mascarava o cheiro de roupas de ginástica suadas. Água pingava dos chuveiros, e um som parecido com um suspiro ecoou no ar. Emma tateou até o interruptor e a horrível luz fluorescente encheu o vestiário. Ela dirigiu-se para o armário de Sutton, seus dedos trêmulos enquanto destrancava o armário. Ela tirou os tênis, as meias enfeitadas de rosa do tênis, uma caixa de bandaids e um protetor solar em spray, jogando-os no banco. Ela enfiou os dedos no canto do armário e vasculhou a base,

vacilando com o barulho de raspagem de metal que reverberou por toda a sala vazia. Logo abaixo, onde o fundo do armário costumava estar, tinha um espaço estreito e sujo. Aninhado entre coelhinhos empoeirados e alfinetes enferrujados, tinha um comprido e fino cofre de prata. Com o coração batendo forte, Emma vasculhou a carteira e encontrou a chave pequena que tinha achado no quarto de Sutton. Lentamente, ela inseriu-a na fechadura. Ela se encaixa. Emma virou a chave e abriu a caixa. Dentro havia uma confusão de papéis. Ela tirou o papel que tinha em cima e olhou para a caligrafia estreita e bonita. Era uma carta, assinada com o nome de Charlotte, na parte inferior. Eu sinto muito sobre tudo, Sutton, Charlotte escreveu. Ela sublinhou tudo três vezes. Não só sobre Garrett, mas sobre como eu não te apoiei enquanto você estava tendo momentos difíceis com você-sabe-quem. Olhei para a nota. O que isso significa? Que tipo de dificuldade que eu estava tendo, e com quem? Um momento passou pela minha mente, então eu me lembrei de Charlotte e eu estarmos do lado de fora da Hollier com sacolas penduradas sobre nossos ombros, curvadas uma em direção à outra e falando em voz baixa. Ela sabe, Sutton, ela sabe, Charlotte sussurrou. Ela não é boba. E depois acrescentou, Você precisa pensar sobre onde está sua lealdade. Eu tentei duramente segurar a memória por mais tempo, mas fugiu mais rápido do que veio. Emma redobrou a mensagem de Charlotte e cavou mais fundo na caixa. Havia uma lista de razões pelas quais Gabby e Lili deveriam ser permitidas no Jogo da Mentira, a maioria delas tendo a ver com o seu “estilo incrível e talento para o drama”. Depois tinha um teste de Alemão; todas as respostas estavam preenchidas e tinha escrito CÓPIA DO PROFESSOR no canto superior direito. Emma deixou-a cair como se fosse fogo, paranóica de que Frau Fenstermacher aparecesse no vestiário e a pegasse em flagrante. O barulho do chuveiro pingando foi reduzido a quase nenhum. Uma janela abriu-se e uma tosse ecoou em algum lugar distante. Emma sacudiu os seus nervos e continuou cavando através dos papéis. Ela folheou uma antiga nota de detenção, um questionário com um gordo F vermelho sobre ele,

e então ela olhou através de uma nota com orelhas de burro escrita em uma caligrafia inclinada e juvenil: Querida Sutton, me desculpe. Eu não quero ficar assim com você ─ com raiva. É como se algo dentro de mim estivesse me fazendo ficar irritado. Mas eu estou preocupado que, se as coisas com a gente mudar, vou explodir. ─T Um arrepio percorreu a espinha de Emma. Esta era de Thayer. Tinha que ser. Ela não sabia pelo que ele estava se desculpando, mas a carta soava como uma ameaça e mostrava o quão instável era Thayer. Um caroço se formou na garganta de Emma quando ela releu a nota de Thayer. Ela estava cansada de dúvidas e de adivinhação. Havia apenas uma maneira de saber exatamente o que diabos estava acontecendo. Ela tinha que ver Thayer.

CAPÍTULO DEZOITO – VISITA PARA VEGA
A prisão era ligada à delegacia, apesar de as portas da entrada serem separadas e com diferentes conjuntos de guardas. Emma hesitou em frente ao portão de aço, respirando ofegante. Finalmente, um guarda gordo e careca em um uniforme da Marinha e carregando um livro de bolso apareceu na porta e olhou para ela. “Posso lhe ajudar?” Ele perguntou, sacudindo um molho de chaves longas e de prata do cinto. “O horário de visita está quase no fim,” ele continuou, emburrado. Emma verificou o relógio da marca Cartier que ela havia encontrado em uma caixa de jóias de Sutton. 19:42 “Vai ser apenas alguns minutos,” ela disse, forçando o rosto para dar o sorriso mais doce que ela conseguia fazer. O guarda olhou com raiva para ela. Emma pegou um vislumbre do livro dele. A capa mostrava um homem excessivamente musculoso com uma espada amarrada nas costas, beijando uma flexível mulher loira. Quando Emma era pequena, ela tinha lido romances desse tipo da editora Harlequin ─ eles geralmente eram os únicos tipos de livros nas prateleiras das mães adotivas dela. Uma vez, ela tinha fingido que uma morena vestida como uma pirata na capa do livro “Shipwrecked and Heartbroken” era Becky. Finalmente, o guarda a deixou entrar. Ele pegou uma prancheta com uma lista de presença. Emma tentou manter a mão firme quando assinou SUTTON MERCER sob a coluna sinalizando VISITANTE e THAYER VEGA sob a coluna sinalizando PRESO. Ela sabia que o que ela estava fazendo era arriscado, mas ela havia descoberto muita coisa sozinha. Agora ela precisava ouvir isso da boca de Thayer. E cara a cara em uma prisão, onde eles estariam separados por um vidro à prova de balas, ela estaria tão segura quanto ela poderia estar com essa conversa. O guarda olhou para o nome que Emma tinha escrito, depois assentiu. “Venha comigo.” Ele a conduziu através de uma porta de aço e por um longo corredor.

Um segundo guarda, vestindo um uniforme da Marinha com o nome STANBRIDGE impresso em uma placa de identificação em seu peito forte, esperou por Emma em uma sala pequena e quadrada separada no meio por uma parede de vidro. Emma ficou feliz ao ver que não era Quinlan ─ ela não estava afim de lidar com ele hoje. “Você vai sentar aqui,” disse Stanbridge, apontando para um compartimento de frente para o vidro que era alinhado uniformemente com o cubículo do outro lado. Emma sentou-se numa cadeira de plástico laranja e dura. Havia dois painéis de madeira que a enquadravam, provavelmente para privacidade, não que Emma precisasse deles na sala vazia. Várias pichações estavam espalhadas nos painéis com canetas coloridas e tintas: CP LUVS SN. APAIXONADOS P/ SEMPRE. Datas como 5/4/82 foram talhadas na madeira. A porta se abriu do outro lado do vidro, e Emma se encolheu, com o coração pulando na garganta. Lá, atravessando a porta, escoltado por um guarda gorducho com um corte de cabelo em formato de tigela, estava Thayer. Sua pele parecia pálida e esticada contra seus ossos. Quando ele viu Emma, ele parou. Sua boca apertou-se nas bordas. Por um momento, Emma teve certeza de que ele iria se virar e ir embora. Mas então, o guarda colocou a mão entre os ombros de Thayer e deu-lhe um pequeno empurrão na direção dela. Thayer relutantemente deu um passo para frente e sentouse no banco oposto ao de Emma. Quando ele pegou o telefone no lado oposto do vidro, a manga do macacão laranja dele caiu e revelou uma tatuagem que Emma não tinha notado na delegacia. Uma águia foi desenhada na parte inferior do pulso dele com as iniciais SPH em letras minúsculas abaixo dela. Essa era a tatuagem estranha que Madeline havia falado? Eu examinei Thayer cuidadosamente, observando cada centímetro dele. Tentei me imaginar amando ele. Tendo um relacionamento secreto. Arriscando amizades só para estar com ele. Mesmo morta, mesmo sem memória, pude sentir algo mexendo dentro de mim por causa dele, uma atração magnética que me fazia querer chegar tão perto dele quanto fosse possível. Ao mesmo tempo, quando eu olhei para seus olhos escuros e sua expressão ameaçadora, eu senti medo. Eu sabia que havia algo sério em minhas memórias que eu não tinha visto ainda, um momento terrível que eu tinha bloqueado.

Emma pegou o telefone e respirou fundo. “Precisamos conversar,” ela disse com a voz mais forte que ela pôde reunir. “Eu tenho algumas perguntas para você sobre aquela noite,” ela continuou, o que significava a noite que Sutton morreu. “Sobre tudo,” ela acrescentou. Thayer levantou os olhos para os dela. Havia escuras e azuladas olheiras na área abaixo dos olhos dele, parecia que ele não tinha dormido há dias. “Você recebeu minhas mensagens. Você não deveria ter mais perguntas. Mas ao invés, você agiu como uma completa psicopata e arruinou tudo.” Mensagens? Um sentimento frio e úmido banhou Emma. Ele estava falando sobre a mensagem: SUTTON ESTÁ MORTA. CONTINUE O JOGO OU VOCÊ SERÁ A PRÓXIMA. E o que ele tinha escrito no quadro-negro no comitê de formatura do Baile de Boas-Vindas depois de quase matar Emma com a luminária. Emma abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. Thayer se inclinou para trás e deu a ela um olhar frio e calculado. “Ou isso é apenas um jogo? Você não ouviu? Eu não vou jogar. Não quando eu sou o único que sabe quem realmente você é.” O corpo de Emma ficou fraco dos pés ao pescoço. Os dedos dela tremeram em torno do telefone e ela lutou para segurá-lo contra a orelha. Era extremamente óbvio. Thayer sabia quem Emma era... e quem ela não era. Ele tinha feito isso. Ele havia matado Sutton. Ela estava sentada na frente do assassino da irmã dela. “Thayer, o que você fez?” A voz dela saiu em um sussurro. Eu estava morrendo de vontade de saber também. As palavras de Thayer, a postura, todo o seu ser parecia irradiar raiva. Como ele poderia ter dito que me amava e então me machucar? “Você amaria saber, não é?” Thayer sorriu, mostrando os dentes brancos. “De qualquer forma, você ouviu a boa notícia? A audiência foi adiada para a próxima semana. Eu vou sair daqui em breve.” “Você vai sair na próxima semana?” Emma repetiu, começando a tremer. Isso significava que ela estaria segura apenas por mais oito dias. “É. Meu advogado está tentando conseguir com que indefiram o processo. Sou menor de idade e eles me prenderam com acusações falsas como adulto, mas o meu advogado vai

provar que isso é tudo papo-furado. Esta é a idéia de vingança de Quinlan ─ aquele cara me odeia. Ele odeia você também, Sutton.” Ele deu-lhe um longo olhar. “E quando eu estiver fora daqui, vamos finalmente poder falar pessoalmente. Assim como nos velhos tempos.” As palavras que Thayer disse eram inocentes, mas a voz dele gotejava sarcasmo e ódio. Ele se inclinou para frente, a centímetros do rosto de Emma. Ele se inclinou tão perto do vidro que Emma podia ver as manchas da respiração dele contra o vidro. As pupilas dele estavam dilatadas em esferas pretas. Emma apertou com mais força o telefone, sentindo o suor entre os dedos e o plástico bege. Então, ele colocou o telefone de volta no gancho. Um zumbido monótono apareceu no ouvido de Emma. Uma mão bateu no ombro de Emma, e ela pulou e se virou. Stanbridge olhou para ela com firmeza. “O horário de visita acabou agora, senhorita.” Entorpecida, Emma acenou com a cabeça e seguiu-o para fora da sala. Eu me arrastava atrás dela, impulsos elétricos estalando e piscando dentro de mim. Por ver Thayer ─ e ver esse guarda bater a mão no ombro de Emma ─ fez algumas portas desbloquearem em minha mente. Eu senti o cheiro de poeira e das flores do deserto do Sabino Cânion. Senti o ar fresco na minha pele nua. Senti uma mão ao redor do meu ombro ─ talvez a mão de Thayer. Talvez antes de ele me matar. Mais uma vez, eu fui levada para meu passado...

CAPÍTULO DEZENOVE – PEGUE-ME SE PUDER
Eu giro ao redor e vejo o rosto de Thayer. Sua mão está no meu ombro, e ele não parece feliz. Ele olha para baixo duramente, seus dedos segurando a pele macia em cima da minha clavícula. “Você está me machucando!” Eu grito, mas sua outra mão tapa minha boca antes que eu possa pedir ajuda. Ele puxa-me para trás da borda do penhasco, puxando meu corpo contra seu peito. Meus dedos agarram seus braços e meus pés chutam freneticamente contra o chão. Meu cotovelo apunhala suas costelas. Estou lutando como um animal selvagem, mas eu não consigo me afastar dele. Ele é muito forte. “O que você está─” Minha voz é abafada sob sua mão. Eu finalmente consigo me libertar de suas garras e giro por todo o caminho miserável para longe dele. Mas ele avança em minha direção novamente, com os braços estendidos. Minha mente gira. Eu procuro em meu cérebro qualquer coisa que eu possa dizer para acalmá-lo. O que eu fiz para deixá-lo tão irritado? É por causa do que eu disse sobre Garrett? Ou por que eu o pressionei para me dizer onde ele esteve nos últimos meses? “Thayer, por favor,” eu começo. “Não podemos apenas falar sobre isso?” Há fúria nos olhos de Thayer. “Fique quieta, Sutton.” E então ele se atira em mim novamente. Tento gritar, mas sai como um grito sufocado quando sua mão tapa minha boca novamente. Seus tênis arranham contra as folhas secas abaixo de nossos pés e seus músculos se flexionam quando ele me puxa contra ele. Sua respiração é quente em meu ouvido. Tem sangue em meus pés e uma sensação de medo rasteja por todo meu corpo. De repente, um grito soa alto e claro à distância. É difícil dizer se é humano ou animal. Thayer gira na direção do grito, momentaneamente distraído. Seu aperto solta apenas o suficiente para eu morder o interior da palma da mão dele. Eu sinto o gosto do seu suor salgado quando eu afundo meus dentes em sua pele.

“Jesus!” Thayer grita. Ele puxa sua mão para longe, tentando recuperar o equilíbrio. Eu vou para longe, minhas pernas queimando com a adrenalina. Triturações de terra e folhas estalavam debaixo de mim quando eu pisava a terra. Eu vôo por toda a trilha, meu cabelo selvagem e meus braços bombeando. Um galho corta a minha bochecha, fino como papel e afiado. Eu posso sentir a umidade na minha pele. Não tenho certeza se são lágrimas... ou sangue. As coisas tinham sido tensas entre eu e Thayer antes, mas eu nunca o vi assim. Uma corrente de ar frio bate no meu corpo enquanto eu me impulsiono para frente. Ouço os passos de Thayer, e posso dizer que ele está ganhando terreno. Porém, eu andei por este caminho várias vezes e a escuridão me dá uma vantagem. Prossigo através das árvores espinhosas com galhos cortados. Atrás de mim, ouço o barulho do corpo de Thayer colidindo contra uma árvore ou uma pedra. Eu ouço ele xingar sob sua respiração, me amaldiçoando. Eu reduzo exatamente em torno da pedra onde eu e meu pai costumávamos parar para intervalos e tomar água. “Sutton!” É uma voz de homem, mas as rochas deviam estar distorcendo-a, porque não chegava a soar como Thayer. Eu continuo em frente, meus pulmões queimando, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, meu coração batendo de medo. Eu me lanço em torno de um galho de árvore enorme que bloqueia o caminho e corro para baixo na inclinação íngreme, indo para o fio de água que passa por um riacho ─ a única forma de água do Cânion. Eu aperto meus calcanhares na terra para me equilibrar quando eu deslizo mais para dentro da vala. Minhas mãos tentam alcançar algo ─ qualquer coisa ─ que possa se agarrar e aterrissar sobre as raízes retorcidas ao longo do leito do riacho. Eu chego ao fundo e salto sobre os meus pés, indo na direção do estacionamento. Eu estou perto. Eu só preciso chegar até o meu carro. Eu corro pela trilha em direção ao estacionamento. Eu quase apago quando meus pés batem no cascalho. Eu acho que eu nunca estive tão feliz por ver o meu amado carro. Derrapando através do estacionamento, eu remexo dentro da minha bolsa procurando as chaves. Meus dedos apertam em volta do pesado e redondo chaveiro do Volvo, mas estou tremendo tanto que ele

voa para fora de minhas mãos, pousando com um tinido próximo ao pneu dianteiro. “Merda,” eu sussurro. “Sutton!” Uma voz rugiu. Viro-me para ver Thayer emergir da clareira. Ele vem em direção a mim, as mãos apertadas em punhos, os ombros rígidos. Eu grito. O tempo pára. Meus membros não se movem. Eu tento pegar minhas chaves no chão, mas não dá tempo. Tento fugir, mas seus braços envolvem-se em torno de mim. Seus dedos cavam em minha carne. “Não, não!” Eu grito. Sua pele queima contra a minha. “Thayer, por favor!” “Acredite em mim,” sussurra Thayer no meu ouvido. “Isso está me machucando mais do que você.” Eu sinto ele me arrastando para os bosques densos ao lado do estacionamento. Mas antes que eu pudesse ver o que acontece, meu último momento, certamente, a memória explode como uma bomba, deixando-me com nada.

CAPÍTULO VINTE – SANGUE NÃO MENTE
Trinta minutos depois, Emma saiu de um táxi em frente à casa de Ethan. Tinha começado a chover, um fenômeno bizarro para Tucson. Isso fez o ar cheirar a ozônio e asfalto molhado. O cascalho no jardim da frente brilhava sob a lua. Emma correu pelo gramado, evitando os pingos de chuva, e bateu na porta branca. Ela inclinou seu ouvido perto da madeira até que ouviu o som de passos vindo do fundo do corredor. A porta se abriu para revelar um hall de entrada. Os pálidos olhos azuis de Ethan se arregalaram com a visão dela. Seu cabelo escuro estava despenteado, como se estivesse dormindo. “Emma?” Perguntou, cuidadosamente dando um passo à frente e tocando seus ombros. “O que aconteceu?” “Eu precisava vê-lo.” Emma olhou por cima do ombro dele. “Posso entrar?” Ethan se afastou. “Claro.” Emma fechou a porta atrás dela e desmoronou nos braços de Ethan. O peso de tudo o que aconteceu com Thayer pressionava sobre ela até que sua cabeça caiu em suas mãos. Ela soluçou por uns bons cinco minutos, o nariz enchendo-se, lágrimas queimando seus olhos. Ethan esfregou suas costas o tempo todo. Eu estava feliz por minha irmã ter alguém para confortá-la. Se eu tivesse alguém assim. Eu era a única que tinha acabado de ver aquela memória horrível, afinal de contas ─ eu era a única que tinha sido brutalmente assassinada por alguém que eu amava. Senti como se meu interior houvesse sido esvaziado. O Thayer que eu tinha pego na estação de ônibus não parecia nada com o louco que ele se tornou no final. Como pude ser tão estúpida a ponto de ter me envolvido com ele? Depois dos soluços de Emma virarem lamúrias, Ethan a levou até a cozinha e deu a volta no balcão de café da manhã. Um conjunto de cardápios de quentinhas cobria o granito cor de areia. Duas latas de Coca-Cola estavam em cima da longa mesa de madeira ao lado de uma caixa de pizza vazia. O diálogo forçado de um programa de crimes verdadeiros soava

da sala de estar. Ele chutou a porta de seu quarto abrindo-a e acendeu a luz. “Aqui, sente-se,” disse a Emma, apontando para a cama. “Diga-me o que está acontecendo.” As pernas de Emma se sentiram entorpecidas quando ela afundou no edredom azul escuro. Ela pegou um travesseiro de penas e abraçou-o em seu peito. “Eu vi Thayer,” ela começou, olhando nervosamente para Ethan. Previsivelmente, o rosto de Ethan nublou-se. “Na cadeia? Eu disse para você não ir lá!” “Eu sei, mas eu─” “Por que você não ouve?” Lágrimas inundaram os olhos de Emma novamente. Ela não precisava de uma lição de moral agora. “Eu não sabia mais o que fazer,” disse ela na defensiva. “Eu precisava de respostas. E ele me deu. Ele me disse que era o único que sabia quem eu realmente era.” “Ele disse isso?” Os olhos de Ethan se arregalaram. “Uh-huh.” Emma acenou com a cabeça. “Ele falou sobre as cartas que ele me enviou, também. Ele deve ter querido dizer a nota que estava no carro de Laurel, a mensagem no quadronegro no comitê de formatura. Ele fez isso, Ethan. Eu sei disso.” Ethan colocou sua cabeça entre as mãos. “Eu sinto muito.” Então Emma puxou a nota de Thayer para Sutton do bolso e desdobrou-a. “Eu achei isso hoje,” disse ela, passando o papel para Ethan. Ele fez uma careta enquanto lia a carta. Quando ele terminou, dobrou-a e entregou-a de volta para ela. “Nossa. É como se ele basicamente confessasse que poderia machucá-la, a não ser que as coisas mudassem entre eles.” “Eu sei. E então... ele a machucou.” Eu tremi ao ouvir as palavras de Emma, a memória mais uma vez girando em minha mente. Mas onde Thayer havia me levado? Tinha que ter algo a ver com o meu carro, certo? Havia sangue sobre ele, afinal de contas ─ certamente o meu sangue. Se eu pudesse ter visto o resto da memória. Eu me sentia como um quebra-cabeça que estava quase completo, exceto por uma peça estar faltando. “Toda as vezes que eu o vi, ele me olhou como se ele soubesse que eu não era Sutton,” Emma sussurrou. “Thayer deve ter matado Sutton e me atraiu até aqui,” disse ela suavemente. “E pense nisso. Já que ele estava desaparecido, ele

nunca tinha que estar em algum lugar em nenhum momento. Ele teria sido capaz de deslizar por Tucson facilmente, me espionando, deixando-me as notas, me ameaçando.” “Você está certa,” Ethan disse suavemente. “Teria sido fácil para ele.” “Ele me tem onde ele quer que eu esteja. Se eu disser uma palavra contra ele, ele vai dizer aos policiais quem eu sou. E então eles vão me culpar pela morte de Sutton. Isso terminaria exatamente como você disse que seria.” Ela fechou os olhos e começou a chorar novamente. “Ele me disse que o advogado dele está trabalhando bastante para tirá-lo da prisão até a próxima semana. Isso poderia ser em questão de dias! O que eu vou fazer?” “Shhh,” Ethan sussurrou. Ele pegou a mão de Emma e descansou-a contra seu jeans. “Está tudo bem,” ele sussurrou. “Thayer ainda está preso. Você ainda está segura. Ainda há tempo para provar o que ele fez. Eu estou aqui com você, ok? Eu não vou deixar você passar por isso sozinha. Eu vou mantêla segura.” Emma colocou a cabeça em seu ombro. “Eu não sei o que eu faria sem você.” “E eu não sei o que eu faria sem você. Se algo acontecesse com você...” Ethan interrompeu-se, sua voz embargada. “Eu não poderia suportar.” Era um alívio tão grande só ouvir aquelas palavras. Emma engoliu um soluço e sorriu agradecida a Ethan. Seus lábios estavam prestes a tocar os dele, quando ela notou um caderno de couro ao lado da cama. Estava aberto em uma página na parte de trás e letras bonitas formavam versos curtos, como um poema. De repente, a culpa a inundou. A brincadeira. Laurel lhe pedira para roubar o seu trabalho. Ela estremeceu, em seguida, afastou-se dele. “Eu preciso lhe dizer outra coisa,” disse ela. “Algo que você não vai gostar.” Ethan inclinou a cabeça. “Claro. Você pode me dizer qualquer coisa.” Emma olhou para as mãos de Ethan entrelaçadas com as dela, odiando o que ela tinha que dizer a seguir. Mas ela tinha que avisá-lo. Ela respirou fundo. “As amigas de Sutton estão planejando uma brincadeira com você. Tem a ver com o seu recital de poesia.”

Ethan encolheu-se. “O quê?” “Eu tentei detê-las. Mas elas realmente─” Ethan acenou com as mãos, cortando-a. Ele piscou para ela duramente, como se Emma tivesse acabado de bater-lhe na cabeça com uma pá. “Há quanto tempo você sabe sobre isso?” Emma baixou os olhos. “Hum, alguns dias,” disse ela em voz baixa. “Alguns dias?” “Sinto muito!” Emma chorou. “Eu tentei pará-las! Não foi idéia minha!” Lentamente, a expressão de Ethan mudou de mágoa para desapontamento e depois repulsa. “Eu acho que você deveria ir,” disse ele entorpecido. “Ethan, eu─” Emma tentou alcançar a mão dele, mas ele já estava indo até a porta. “Ethan!” Ela gritou para ele, correndo para o corredor. Estavam quase no hall de entrada quando ela pegou seu braço e girou em torno dele. “Por favor! Você me disse que eu poderia ser honesta sobre tudo! E eu pensei─” “Você pensou errado,” Ethan interrompeu, arrancando o braço para longe. “Você poderia ter me contado isso imediatamente. Elas pensam que você é a toda-poderosa Sutton Mercer. Uma palavra sua e a brincadeira acaba. Por que você não fez isso? É porque você não quer que elas saibam sobre mim? Você─,” sua voz falhou, e ele limpou a garganta rudemente “─ tem vergonha de mim?” “Claro que não!” Emma chorou, mas talvez Ethan tinha razão. Por que ela não tentou com mais empenho cortar o mal pela raiz? Como ela deixou isso ficar tão fora de controle? A mão de Ethan girou a maçaneta. “Basta ir, ok? Não se preocupe em falar comigo até que você se lembre quem você é ─ Emma Paxton, a gêmea boa.” “Ethan!” Emma chorou, mas ele empurrou-a para fora e bateu a porta na cara dela. Estava chovendo mais forte agora, e as gotas misturaram-se com as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Parecia que ela tinha acabado de perder a única coisa boa que ela tinha no mundo. Ela colocou as mãos contra o vidro da janela lateral e olhou para dentro da casa, observando enquanto Ethan voltava pelo corredor, derrubando uma pilha de livros sobre a mesa da sala, enquanto ele passava. Foi uma cena que eu odiei assistir. Mais uma vez, amaldiçoei o Jogo da Mentira. Se minhas amigas e eu não

tivéssemos começado esse clube estúpido, Emma certamente não estaria com o coração partido agora. Seu único aliado a odiava. Emma tocou a campainha algumas vezes, mas Ethan não respondeu. Ela mandou uma mensagem pedindo que ele por favor falasse com ela, mas ele não respondeu. Depois de um tempo, não adiantava mais persistir ─ Ethan deixou seus sentimentos claros. Ela se arrastou por todo o gramado da frente, de imediato ficando encharcada, perguntando como ela ia voltar aos Mercers. Quando ela estava pegando o celular de Sutton para ligar para o serviço de táxi novamente, o telefone iluminou em suas mãos. Emma fez uma careta. O número era da delegacia de polícia de Tucson. Um pensamento horrível veio à sua mente: E se os policiais estivessem chamando-a sobre Thayer? E se ele estava sendo solto? “Uh, Alô?” Emma gritou sobre a tempestade, tentando acalmar os nervos em sua voz. A voz do detetive Quinlan aumentou na outra extremidade. “Boa noite, Srta. Mercer. Nós temos os resultados do sangue na parte da frente de seu carro.” Emma ficou tensa. “Q-Quais são eles?” Ela se preparou, com certeza ele ia dizer que o sangue era de Sutton. “O sangue é uma combinação perfeita do de Thayer Vega,” a voz baixa de Quinlan pronunciou. Emma parou no meio da rua, certa de que tinha ouvido errado. “Thayer?” “Isso mesmo,” disse Quinlan. “Alguma idéia de como ele chegou lá? O Sr. Vega certamente não vai falar.” “Eu...” Emma parou, não tendo uma única coisa a dizer. Ela parou ao lado de uma árvore algaroba comprida e estreita, tentando recuperar o fôlego. Ela se sentia completamente surpreendida. “Sutton?” Quinlan solicitou. “Existe algo que você precisa me dizer?” Emma encolheu-se debaixo da árvore, que não forneceu muito abrigo da tempestade. Havia tanta coisa que ela precisava dizer-lhe. Será que ela se atreveria? Será que ela de alguma forma o convenceria desta vez que ela era a gêmea de Sutton, mas que ela não queria roubar a vida de Sutton? Será que ele acreditaria se ela lhe dissesse que Thayer tinha lhe enviado mensagens de ameaças ─ e que Thayer matou Sutton?

Ela duvidava disso. Claro, ela tinha a nota de Thayer no armário de Sutton, aquela que dizia que ele ia explodir, mas enquanto a nota era prova suficiente para ela, era improvável que a polícia a considerasse uma prova definitiva. “D-Desculpa. Eu não tenho nenhuma idéia de como ele chegou lá,” Emma respondeu finalmente. Ela fechou os olhos, pensando. “Havia outras impressões digitais no carro?” Quinlan suspirou. “Apenas suas e de seu pai. Ele era um coproprietário do veículo, correto?” “Uh-huh,” disse Emma distante. Lembrou do Sr. Mercer falando sobre como ele e Sutton haviam restaurado o Volvo juntos. Houve uma tosse na outra extremidade. “Bem, já que não há mais nenhuma razão para manter o seu carro, você pode vir buscá-lo,” disse Quinlan rispidamente. “Obrigada,” disse Emma, mas Quinlan já havia desligado. Ela segurou o telefone estendido, olhando para ele como se fosse uma forma de vida alienígena. O vento jogou uma folha fria e úmida contra seu tornozelo. Um motor lamentou à distância. O mundo ainda estava girando como sempre, mas Emma sentia-se totalmente mudada. Sangue de Thayer. Mas... como? Eu estava tão surpresa quanto ela. Pensei sobre a memória que eu tinha acabado de recuperar. Não fazia sentido ─ Thayer era o louco atrás de mim, não o contrário. Havia apenas uma resposta: eu devia ter de alguma forma conseguido entrar no meu carro e batido em Thayer antes que ele me matasse. Eu estava feliz por isso ─ Thayer pode ter tomado a minha vida, mas pelo menos eu tirei um pedaço dele no caminho.

CAPÍTULO VINTE E UM – MÃE SABE MAIS
Naquela noite, Emma rolou na cama e olhou para os brilhantes dígitos verde néon do relógio de alarme de Sutton. Eram 02:12. Ela havia chorado desde que o táxi a tinha deixado em casa e a garganta dela estava tão seca que ela mal conseguia engolir. Em toda a vida dela, ela nunca tinha se sentido tão confusa e sozinha. Nem quando ela teve que sair de Henderson e dizer adeus a Alex. Nem quando ela teve que ficar em um lar adotivo por um mês inteiro, quando os serviços sociais não conseguiram encontrar uma família adotiva para ela. E nem mesmo quando Becky a deixou na casa da vizinha e nunca mais voltou para buscá-la. Todos esses momentos foram difíceis e tristes, mas quando ela deixou Henderson, ela ainda pôde ligar para Alex. Quando ela esteve no lar adotivo, ela pôde brincar com a garota que compartilhava a cama de beliche dela. E quando Becky foi embora, ela pôde chorar com a mãe da amiga dela e dizer que ela sentia saudades de Becky. Mas agora, ela estava vivendo com um segredo tão grande, que ela tinha certeza que o peso dele iria esmagá-la. E com Ethan com raiva dela ─ com tanta raiva, que ele poderia nunca mais falar com ela novamente ─ ela não tinha ninguém para recorrer. Ela não podia contar a ninguém quem ela realmente era. Ela não podia fazer uma lista de: Coisas Que Eu Odeio Em Ser Sutton ou Coisas Que Eu Sinto Falta De Ser Emma ou mesmo ter um diário, por medo de que alguém o encontre e descubra a verdadeira identidade dela. E a notícia sobre o sangue de Thayer tinha apavorado ela. Isso significava que Sutton tinha atropelado ele? Foi isso que deixou ele manco? A voz de Madeline ecoou na mente de Emma: Ele nunca vai poder jogar futebol novamente. Era a coisa que ele mais amava ─ a coisa que ele fazia melhor ─ e agora o futuro dele está arruinado. Talvez houve um motivo. E se Thayer ficou tão furioso com Sutton por machucá-lo que se vingou dela... matando-a?

Emma caiu para trás no travesseiro de Sutton, as penas macias modelaram-se perfeitamente à forma da cabeça dela. Tudo parecia tão impossível. Por que ela estava fazendo tudo isso? Qual era o propósito? Talvez ela devesse ir embora e deixar tudo para trás. Se ela quisesse correr, a hora era agora. Com Thayer atrás das grades, ele não poderia acompanhar cada movimento dela. Ela poderia finalmente ser livre. Ela tinha dezoito anos. Ela poderia pegar o GED (Gerenciamento Eletrônico de Documentos) dela, declarar residência em algum lugar e solicitar uma matrícula em uma instituição de ensino... Mas mesmo quando ela pensou nisso, Emma sabia que ela não iria embora. Ela estava vivendo a vida de alguém que ela queria desesperadamente conhecer, tentando conseguir justiça para a irmã dela. Ela não seria capaz de perdoar a si mesma se ela simplesmente desistisse, porque desistir significava que a pessoa que havia assassinado Sutton, que havia roubado de Emma a chance de conhecer a irmã gêmea dela, estaria livre. Era inimaginável que meu assassino pudesse sair impune. Eu não podia aceitar isso e eu torcia para que Emma tivesse a força de permanecer aqui ─ embora eu também soubesse que estava ficando cada vez mais perigoso para ela permanecer aqui. Emma tirou o lençol de cima das pernas e atravessou o quarto. Ela abriu a porta e andou pelo corredor escuro na ponta dos pés, descendo as escadas e evitando por pouco a pilha de revistas que Laurel tinha deixado no último degrau. Uma planta babosa desgrenhada lançava longas sombras no azulejo. Um ruído de pingos soou do lado de fora da janela da sala e Emma viu a chuva cair em gotas lentas do cano de escoamento. No corredor, o luar lançava um brilho fantasmagórico nas fotografias de família. Emma viu o reflexo dela em um espelho ondulado com moldura dourada que ficava no final do corredor. Seu cabelo escuro longo e solto, e seu rosto oval que parecia com um lençol branco contra a escuridão. Ela virou a esquina e entrou na cozinha, sentindo o azulejo frio sob os pés descalços. Ela estava prestes a abrir o armário, quando a sombra de uma pessoa se moveu no canto. Ela pulou para trás, seu quadril bateu contra um botão do fogão. “Sutton?” Os olhos de Emma focaram na Sra. Mercer, seu corpo curvado para frente enquanto ela segurava Drake pela coleira. O cão soltou um latido baixo.

“O que você está fazendo aqui tão tarde?” A Sra. Mercer endireitou-se e soltou Drake. Ele se aproximou e cheirou a mão de Emma antes de se enrolar em uma bola no pé da geladeira. Emma amarrou o cabelo assanhado em um rabo de cavalo. “Eu não conseguia dormir, então eu desci para pegar um copo d’água.” A Sra. Mercer colocou a mão na testa de Emma. “Hmmm. Você está se sentindo bem? Laurel disse que você chegou em casa encharcada da chuva.” Emma forçou uma risada fraca. “Bem, eu não tinha um guarda-chuva. Que eu saiba, nós vivemos no Arizona.” Ela observou o cabelo assanhado e o robe amassado da Sra. Mercer. “O que você estava fazendo?” A Sra. Mercer balançou a mão com desdém. “Oh, Drake estava choramingando, então me levantei para deixar ele sair.” Ela foi até a pia, encheu um copo e colocou dois cubos de gelo nele. Os cubos caíram na água com um som alto. Ela se sentou no balcão e empurrou o copo para Emma, que deu um agradável gole. “Então...” A Sra. Mercer apoiou o queixo na mão. “Porque você não consegue dormir? Quer conversar sobre alguma coisa?” Emma colocou a cabeça no balcão e suspirou. Havia tanta coisa que ela queria falar. Ela não podia falar sobre o assassinato de Sutton, mas talvez ela pudesse conseguir alguns conselhos em relação a Ethan. “Eu machuquei um cara que eu me importo e eu não sei como consertar isso,” ela deixou escapar. A Sra. Mercer parecia compreensiva. “Você tentou se desculpar?” Houve um suave ruído quando a máquina de gelo depositou um novo lote de gelo no congelador. “Eu tentei... mas ele não quis ouvir,” disse Emma. “Bem, talvez você precise tentar novamente. Descobrir exatamente o que você fez de errado e exatamente o que você pode fazer para corrigir, em seguida, fazer isso.” “Como vou fazer isso?” Emma perguntou. A Sra. Mercer recostou-se na cadeira e passou os dedos em um pano de prato com um desenho de abacaxi. “Às vezes, as ações falam mais do que palavras. Mostre a ele que você está arrependida e torça para que tudo volte ao lugar. Apenas seja a

melhor Sutton que você possa ser. Ele tem que entender que as vezes as pessoas cometem erros. E se ele não te perdoar, não vale a pena mantê-lo por perto.” Emma pensou nisso por um momento. A mãe de Sutton estava certa: Ela apenas cometeu um erro, nada mais. E talvez ela não pudesse ser uma melhor Sutton, mas ela definitivamente poderia ser uma melhor Emma. Ethan tinha dito a Emma que ela tinha esquecido quem era ─ a gêmea boa. Com tanta coisa acontecendo, era difícil manter a identidade dela ─ e saber o que ela necessitava. As necessidades de Emma pareciam tão secundárias em comparação com o que aconteceu com Sutton. Querer outra coisa além de permanecer viva e resolver o assassinato da irmã dela parecia luxo. Ela sentou-se ereta, uma forte vontade de resolver as coisas invadiu-a. Ela só precisava manter o plano. Ela ia provar que Thayer assassinou a irmã dela. Dessa forma, ela poderia voltar a ser Emma Paxton. Mas, entretanto, ela iria se comportar de uma maneira que ela pudesse se orgulhar, mesmo que suas ações não fossem cem por cento Sutton. Emma levantou-se e abraçou a Sra. Mercer. “Obrigada, mamãe. Isso foi exatamente o que eu precisava ouvir.” A Sra. Mercer abraçou-a por um momento, depois se inclinou para trás e olhou surpresa para a menina que ela achava que era sua filha. “Essa é a primeira vez que você me agradece por lhe dar conselhos.” “Bem, talvez eu devesse ter lhe agradecido há muito tempo.” Quando minha mãe pegou Drake e subiu as escadas com ele, eu senti uma pontada de culpa. Pelo que minha mãe tinha acabado de dizer e pelo que eu tinha juntado sobre o meu relacionamento com meus pais, eu duvidava que minha mãe e eu já tínhamos tido uma conversa íntima de madrugada quando eu estava viva. Eu não valorizava as opiniões dos meus pais de modo algum e talvez isso tenha sido um erro ─ mais um em uma longa lista de arrependimentos que eu não poderia corrigir. Voltei minha atenção para Emma, que estava sentada com o queixo na mão, um sorriso distante em seu rosto. Mesmo que eu soubesse que era errado, um pequeno ressentimento amargo fluiu através de mim. Emma estava tendo problemas em se lembrar de quem ela era, mas pelo menos ela ainda tinha um

corpo, uma identidade. Na verdade, ela tinha duas identidades ─ a minha e a dela. E agora ela tinha que viver por nós duas.

CAPÍTULO VINTE E DOIS – PROCURAS E ACHARÁS
Nos próximos dois dias, Emma tentou manter a sua decisão, manter a cabeça erguida e fazer atos aleatórios da Emma Bondosa, mesmo que eles fossem completamente antiSutton. Ela retwitou as últimas mensagens das Gêmeas do Twitter sobre a dificuldade de encontrar roupas dignas da sua gostosura com muitas gargalhadas. Ela elogiou o backhand, um golpe com as costas da raquete, de Charlotte durante a prática de tênis. Ela ainda disse a Nisha Banerjee que seu laço de cabelo era bonito. Nisha pareceu surpresa e um pouco desconfiada, mas agradeceu a Emma. Emma não teve nenhum sucesso com Ethan ou Laurel, no entanto. Na quarta-feira, ela ia deixar Laurel ficar com o último iogurte com sabor de romã do compartimento frigorífico na fila do refeitório, sabendo que era o favorito de Laurel, mas Laurel apenas resmungou e avidamente o tomou. Quando Emma avistou Ethan no corredor, ele puxou sua mochila mais alto em seu ombro e disparou pelo corredor para evitá-la. Na quinta-feira após a prática de tênis, ela olhou para os carros no estacionamento e percebeu que um VW não estava em seu espaço de estacionamento regular. Ela soltou um longo gemido. “Laurel largou você de novo?” Madeline apareceu atrás de Emma, carregando uma pilha de livros. Seus olhos azuis estavam brilhantes e seus brincos de pena roçavam seus ombros. “Foi,” disse Emma, incapaz de esconder sua irritação. “Ela está sendo uma verdadeira vadia esta semana.” Madeline soltou o primeiro riso verdadeiro que Emma tinha ouvido há semanas. “Ela com certeza está.” Ela tocou o cotovelo de Emma. “Não se preocupe. Ela vai superar isso. Como eu.” Dois meninos do primeiro ano passaram atrás dela, segurando patins e dando cotoveladas um no outro. Um capturou o olhar de Emma e seu rosto abriu-se em um sorriso enorme. Ele balançou a cabeça em sua direção e ergueu sua

mão em um lento aceno. Emma sorriu de volta em mais um ato da Emma Bondosa. Madeline tirou as chaves do carro para fora de sua bolsa de couro. “Quer uma carona?” Emma olhou para o chaveiro de Madeline. “Na verdade, eu estou indo para a delegacia. Eu vou finalmente pegar meu carro.” Madeline hesitou um pouco com a palavra delegacia, então franziu o cenho. “Não estava apreendido?” Um dardo de nervos baleou o estômago de Emma. As amigas de Sutton achavam que seu carro havia sido apreendido porque ela acumulou muitas multas e ela simplesmente não o tinha pago ainda. Elas não sabiam que Sutton havia recuperado o carro dela no dia em que morreu. Ou usou para pegar Thayer. Ou talvez atropelou Thayer com ele. “Uh, o estacionamento de carros apreendidos estava cheio, então eles mudaram para o estacionamento por trás da delegacia,” Emma mentiu, cruzando os dedos para que Madeline acreditasse. Ela odiava mentir, mas ela não ia dizer que o carro de Sutton era na verdade uma evidência com sangue do irmão de Madeline sobre ele. Por sorte, Madeline apenas deu de ombros e abriu seu SUV com dois beeps altos. “Entra. Eu vou te salvar de uma caminhada de dois quarteirões.” Emma entrou, descansando sua bolsa no colo. “Então, animada para amanhã na Charlotte?” Madeline perguntou quando ela virou a ignição. “Já faz um tempo desde que tivemos um jantar nos Chamberlains. Eu senti falta da comida de Cornelia. Não seria maravilhoso ter um chef pessoal?” Emma fez um uhum concordando, lembrando que as meninas tinham combinado de passar a noite em Charlotte para o jantar. Ela não se surpreendeu por os Chamberlains terem um chef pessoal, a casa deles era enorme. “Claro, eu não deveria dizer isso.” Madeline fez uma careta. “Se meu pai me ouve falar sobre o quanto eu queria um chef pessoal, ele provavelmente diria que eu estava agindo como uma mimada e gananciosa.” Ela revirou os olhos e tentou rir de leve, mas acabou parecendo um franzido.

Emma puxou o lábio inferior de sua boca, sentindo o sofrimento de Madeline. “Você sabe, se você quiser falar mais sobre seu pai, eu estou aqui.” “Obrigada,” Madeline disse suavemente. Ela enfiou a mão na sua bolsa rosa metálica Not Rational, arrancou os óculos escuros de sua caixa e colocou-os sobre os olhos. “Está tudo indo bem? Está ficando melhor?” Emma pressionou. Madeline esperou até ela sair do estacionamento antes de falar novamente. “É praticamente o mesmo, eu acho. Eu odeio ir para casa. Meu pai anda como um furacão por toda parte e ele e minha mãe não estão se falando agora. Eu acho que eles nem mesmo estão dormindo no mesmo quarto.” Seus lábios brilhantes apertaram-se em uma linha reta. “Você é sempre bem-vinda em minha casa, você sabe,” Emma ofereceu. Madeline olhou para ela com gratidão. “Obrigada,” ela suspirou. Então, ela tocou o braço de Emma. “Você nunca ofereceu isso antes.” Eu senti um zincar de aborrecimento. Eu teria oferecido, se eu soubesse que Madeline precisava. Um minuto depois, pararam na delegacia e Madeline deixou Emma na calçada do lado de fora. “Sutton,” ela disse, inclinando-se para fora da janela. “Estou muito feliz por nós termos feito as pazes. Eu provavelmente não digo o suficiente, mas você é minha melhor amiga.” “Estou muito feliz também,” disse Emma, com o coração aquecido. Quando ela entrou, a mesma recepcionista que tinha estado lá da última vez que ela foi lá, ergueu os olhos do tablóide e olhou para Emma. “Você de novo?” Ela perguntou em uma voz entediada. Tão profissional. “Eu estou aqui para pegar o meu carro que estava como evidência,” disse Emma vivamente. A recepcionista virou-se e pegou o receptor de seu telefone. “Um momento.” Emma girou e olhou para o quadro de avisos. O cartaz de DESAPARECIDO de Thayer havia sido retirado e substituído pelo anúncio: HEITOR, O MECÂNICO HONESTO QUE VOCÊ TEM QUE RECOMENDAR AOS AMIGOS.

Depois de um momento, a recepcionista apontou para fora, onde um guarda baixinho estava na frente de uma cerca de arame. “O policial Moriarty irá ajudá-la,” disse ela, torcendo a língua para estourar uma bolha roxa de seu chiclete. Um cheiro de uva adocicado flutuava no ar da sala de espera. Emma caminhou de volta para fora, reuniu-se com o policial Moriarty e assinou a papelada do carro de Sutton. O policial Moriarty destrancou a cerca e levou-a para baixo em direção a uma fila de veículos empoeirados. BMWs e Range Rovers parados orgulhosamente ao lado de ferro-velhos quebrados que pareciam que não andariam nem dez quilômetros. “Aqui estamos nós,” o policial Moriarty disse, apontando para um carro verde vintage com um brilhante cromo polido. Emma tocou no carro, impressionada. Tinha linhas elegantes e uma sensação retrô, o tipo de carro que ela poderia ter escolhido para si mesma se ela pudesse bancar um. Era além do legal. Claro que era legal. Eu gritei quando vi o meu carro novo. Mas o sentimento era agridoce. Eu não podia sentir o couro macio contra minhas coxas enquanto eu estava sentada no assento do motorista. Eu não podia mudar de marcha e sentir o carro responder. Eu não podia sentir o vento no meu cabelo enquanto eu dirigia pela Rodovia 10, com as janelas abertas. Emma pegou as chaves do policial. Ela inspecionou o exterior do carro, olhando para o sangue denunciador que os policiais tinham encontrado, mas ela não viu nada além de um pequeno amassado onde Sutton provavelmente tinha batido na perna de Thayer. Talvez eles tenham limpado ele. Então ela abriu a porta do motorista e se sentou no assento de couro. Uma sensação estranha tomou conta dela. Alguma coisa sobre este carro a fez distintamente sentir Sutton, como se de repente sua irmã gêmea estivesse presente. Ela fechou os olhos e quase conseguiu imaginar sua irmã gêmea atrás do volante, seu cabelo agitado e rindo de alguma coisa que Charlotte ou Madeline disse. Emma brincou com um enfeite de um anjo guardião de prata que pendia sobre o espelho retrovisor, jurando que ela podia sentir um rastro do cheiro do perfume de Sutton pairando no ar. Ela sabia o quanto teria irritado sua irmã gêmea seu carro estar nas mãos do Departamento de Polícia sendo examinado.

Eu vou cuidar bem dele para você, Emma pensou quando ela bateu os dedos no volante embrulhado de couro. Eu sorri. É melhor você cuidar mesmo. Alguém bateu no vidro. Emma hesitou e olhou para cima para ver o policial Moriarty. Ela lentamente abriu a janela. “Posso ajudá-la com mais alguma coisa, Srta. Mercer?” Ele perguntou rispidamente. “Não, policial, eu estou bem,” Emma disse, forçando um inocente tom de confie em mim em sua voz. “Muito obrigada por sua ajuda.” “Então é melhor você sair do local,” disse o policial, o polegar preso no seu cinto. Emma acenou com a cabeça e fechou a janela, então colocou a chave na ignição. Ela não precisou ajustar o espelho ou o assento ─ eles se encaixavam perfeitamente para ela, assim como se encaixavam para Sutton. Quando ela estava saindo do estacionamento, algo em cima do assento ao seu lado chamou sua atenção. Havia algo alojado no vinco do couro na parte inferior do fundo do assento. Parecia um pequeno pedaço de papel. Ela dirigiu pela estrada até a delegacia estar fora de vista, então apertou no freio e encostou o carro no parque. Sua atenção voltou-se para o papel preso no assento. Ela puxou-o com a testa enrugada. Finalmente, ele se libertou. Era um pequeno pedaço de papel com as palavras DR. SHELDON ROSE rabiscado nele. Ela reconheceu a escrita angular imediatamente da carta que ela havia encontrado no fundo do armário de esportes de Sutton. Era de Thayer. Seu coração batia forte. Ela olhou por cima do ombro, assim que um carro da polícia saiu do estacionamento, com as sirenes ligadas. Por alguns segundos de agonia, ela tinha certeza de que os policiais estavam vindo até ela, que talvez tivessem plantado esta evidência importante no carro como um teste e ela estava em apuros por não tê-lo mostrado. Mas então o carro passou por ela, o policial ao volante olhando para frente. Ela soltou um longo suspiro. Os policiais não estavam atrás dela. Eles nem sequer sabiam que ela o tinha encontrado. Eu só esperava que ele levasse a uma resposta.

CAPÍTULO VINTE E TRÊS – O TESTE DE PSICOPATA
Emma dirigiu exatamente uma milha e meia antes de parar novamente, desta vez no estacionamento do Jardim Botânico de Tucson. Flores brilhantemente coloridas podiam ser vistas do outro lado dos portões. Os Beija-flores voavam rapidamente em direção aos alimentadores. Mas os jardins estavam fechados à tarde e o estacionamento estava quase vazio. Parecia o lugar perfeito para se sentar e pensar. De jeito algum ela ia conseguir esperar para procurar o Dr. Sheldon Rose depois de ir para casa. Ela tinha que investigar isso agora. Emma pegou o iPhone de Sutton do assento do passageiro e digitou DR. SHELDON ROSE na barra de pesquisa. Os resultados apareceram em segundos, listando dezenas de médicos em todo o país. Gastroenterologistas. Cardiologistas. Um cara que fazia Limpeza de Chakra*. *(Segundo a filosofia ioga são os pontos de energia física e espiritual.). Havia depoimentos de clientes, endereços e números de telefones. Documentos escritos por vários médicos com o nome Sheldon Rose apareciam com títulos como: “O Cérebro em Movimento” e “Fígado Saudável, Vida Saudável.” E então o PhD dos médicos ─ um Sheldon Rose que ensinava literatura Vitoriana na Universidade da Virginia, um Sheldon Rose que trabalhava com terapia para parar de fumar em New Hampshire e um que comandava o departamento de ciência da computação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Emma clicou no link de um clínico geral, talvez Thayer tenha pego algum tipo de gripe ou infecção enquanto estava escondido. O site mostrava seis médicos que trabalhavam em um Centro Médico de tijolos brancos chamado Centro de Saúde de Wyoming. O Dr. Sheldon Rose da cidade de Casper, em Wyoming, encarava ela com um olhar orgulhoso no rosto cheio de marcas de varíola. Isso não parecia ser o que ela estava procurando. Um carro buzinou na rua. Um bando de crianças passeava em bicicletas BMX. Uma sombra ao lado de um posto de gasolina do outro lado da rua chamou a atenção de Emma, mas

quando ela olhou melhor, ela não viu ninguém. Acalme-se, ela pensou. Ninguém está te seguindo. Ninguém sabe que você está aqui. Ela percorreu a próxima página dos resultados da pesquisa. Ela não tinha certeza do que exatamente estava procurando ─ ou quanto tempo levaria para encontrar ─ mas tinha que haver alguma coisa e ela saberia quando a encontrasse. Ela clicou em links após links, becos após becos sem saída. Depois de dez minutos, quando estava prestes a desistir, de repente ela encontrou um site de um Dr. Sheldon Rose em Seattle, Washington. Quando ela abriu, sua respiração ficou presa na garganta. A página inicial apresentava um símbolo de uma águia com as asas esticadas e a cabeça inclinada para cima e para a esquerda. Havia as minúsculas iniciais SPH abaixo das garras. Parecia a mesma águia da tatuagem de Thayer. O pulso dela disparou quando ela clicou no link. Uma foto do Dr. Sheldon Rose com olhos negros quase ocultos por trás de óculos grossos com a armação vermelha. A cabeça raspada e a mandíbula larga faziam ele parecer mais um segurança de um moto bar do que um médico. Uma sensação de mal estar atravessou o estômago de Emma enquanto ela examinava a biografia dele: DR. SHELDON ROSE É UM PSIQUIATRA QUE SE ESPECIALIZOU EM COMPORTAMENTO PSICOPÁTICO E OUTROS TIPOS DE TRANSTORNOS MENTAIS. Ele tratava seus pacientes no Hospital Psiquiátrico de Seattle ─ HPS. Um hospital psiquiátrico. As palavras na tela minúscula embaçaram-se diante dos olhos de Emma. Thayer estava internado em um hospital psiquiátrico? É por isso que ele tinha uma tatuagem de uma águia no braço? E o que isso quer dizer em relação ao estado em que ele estava na noite do desaparecimento de Sutton? Pensei de novo em como Thayer estava furioso quando me perseguiu pela trilha. Era como se ele realmente tivesse perdido o controle. Ou talvez não tivesse tomado seus remédios. Emma ergueu o celular de Sutton com os dedos trêmulos e discou o número principal listado pelo hospital. Um barulho soou em seu ouvido antes de uma mulher atender e falar: “Psiquiatria de Seattle.” “Eu estou ligando para ver se você tratou um paciente aí,” Emma disse. “O nome dele é─”

“Sinto muito, senhora. É confidencial. Não podemos dar os nomes dos pacientes.” Um clique irritante soou do outro lado. Dã. É claro que eles não iam dar esse tipo de informação. Emma passou a mão pelo cabelo, se perguntando como ela iria descobrir isso. Um caminhão de lixo fez barulho quando passou. O vento soprou forte, trazendo consigo os aromas misturados do lixo em decomposição e das flores dos jardins. Emma olhou para o posto de gasolina do outro lado da rua, procurando a imaginária sombra. Quando ela teve certeza de que ninguém estava lá, ela limpou a garganta e rediscou o mesmo número. “Psiquiatria de Seattle.” Desta vez era uma voz de homem. “Estou ligando para falar com o Dr. Sheldon Rose,” disse Emma, assumindo um tom profissional. “Eu digo a ele que quem está ligando?” A voz soava entediada, como se ele quisesse estar em qualquer lugar do mundo que não fosse em um balcão de recepção. “Dra. Carole Sweeney,” Emma disse, escolhendo o nome de uma médica do nada. Esse era o nome da pediatra favorita dela ─ e ela teve pelo menos uma dúzia de pediatras. Durante os dez meses que ela viveu com uma família adotiva no norte de Nevada, a Dra. Sweeney tratou Emma e as outras seis crianças adotadas. A mãe adotiva deles não podia pagar uma babá, por isso cada vez que um dos seis ficava doente, ela arrastava todos para o consultório dela. A sala de espera da Dra. Sweeney era cheia de blocos coloridos para construir, bichos de pelúcia rasgados e livros para colorir espalhados sobre uma mesa vermelha de plástico no centro. Quando Emma e os irmãos adotivos dela usavam a mesa para perseguir uns aos outros, fazendo toneladas de barulho, a Dra. Sweeney nunca gritava com eles. “Por favor aguarde,” disse a voz masculina. O coração de Emma bateu com força. Uma música de piano tilintou através do telefone enquanto ela esperava. “Escritório do Dr. Rose,” uma voz de mulher disse. “O médico está disponível?” Emma tentou soar apressada e arrogante. “Não, ele não está, quer deixar uma mensagem?” “Com quem eu estou falando?” Emma perguntou. Houve um som alto de inspiração do outro lado da linha. “Com Penny, a enfermeira do Dr. Rose,” a voz disse, finalmente.

“Aqui é a Dra. Carole Sweeney, médica de Tucson,” Emma falou sem pensar. Ela manteve a voz urgente, como se ela estivesse no meio de uma situação de vida ou morte. “Acabei de aceitar a entrada de um paciente com o nome Thayer Vega. Ele está em mau estado.” “Mau estado? O que você quer dizer?” Emma sentiu uma pontada de culpa. Ela odiava mentir. Mas eu estava impressionada. Essa era a mesma garota que costumava questionar a moralidade do Jogo da Mentira e das brincadeiras que nós fazíamos? E aqui estava ela, se passando por uma médica ─ que deve ser ilegal ─ enquanto estava tentando conseguir informações médicas confidenciais. Minha nossa, como o jogo da Sutton Mercer tinha mudado ela. “Ele está, hum, inconsciente,” Emma continuou. “Eu apenas preciso saber a data que ele foi liberado dos seus cuidados.” A enfermeira deixou escapar um suspiro irritado. “Um momento.” Seus dedos clicaram nas teclas de um computador. “Aha. Thayer Vega estava em tratamento e foi liberado definitivamente em vinte e um de setembro deste ano ─ contra ordens médicas. E então, qual era o seu nome mesmo? Você é de que hospital?” Emma rapidamente desligou. De repente, ela estava tremendo tanto que o telefone saiu de suas mãos e caiu em seus pés. Descrença e medo se misturaram em sua mente. Era verdade. Thayer tinha estado em um hospital psiquiátrico... tinha feito o tratamento e depois largou-o contra ordens médicas. Sem cura. À solta. Ele poderia ser ─ provavelmente era ─ um psicopata. E eu provavelmente mexi com o cara errado.

CAPÍTULO VINTE E QUATRO – QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
“Esta noite vai ser incrível,” disse Charlotte, na manhã de sexta-feira enquanto ela e Emma desciam da ala de ciência da Hollier. O ar cheirava a produtos químicos queimados e de gás em bicos de Bunsen. “Cornelia está planejando uma refeição incrível para nós. Vamos nos encontrar na minha casa, comer e nos arrumar, então vamos planejar a preparação da festa secreta. Parece bom?” “Claro,” Emma disse cautelosamente, olhando para seu joelho nu aparecendo através dos jeans cuidadosamente rasgados de Sutton. Ela nunca tinha compreendido porque as pessoas compravam calças jeans de 300 dólares que pareciam velhas ─ por que elas simplesmente não iam à Goodwill e obtinham um par realmente desgastado? Uh, porque as coisas da Goodwill não são legais? Eu não me importava com quão esclarecida Emma era em fazer coisas baratas parecerem elegantes. As marcas sempre dominavam meu mundo. “Te vejo mais tarde!” Charlotte disse vibrante quando elas se voltaram para a ala de língua estrangeira, dirigindo-se para a aula de espanhol, enquanto Emma entrou na sala de alemão. Uma anotação desbotada em giz branco das conjugações verbais permaneceu no quadro negro e alguém tinha desenhado uma figura carrancuda com um balão de diálogo ao lado que tinha escrito EU PREFERIA ESTAR EM QUALQUER LUGAR, MENOS AQUI. Um leve cheiro de cola flutuava no ar. Emma avistou Ethan sentado em uma cadeira no canto da sala de aula. Ele olhou para ela e rapidamente desviou os olhos. Seu estômago revirou. Frau Fenstermacher não estava na classe ainda, então Emma seguiu até a cadeira onde Ethan estava sentado. Ela ficou lá por quase dez segundos, mas ele claramente não ia olhar para ela. “Precisamos conversar,” ela finalmente disse, sua voz determinada.

“Eu acho que não,” disse Ethan, sua cabeça ainda voltada para a janela. “Eu acho.” Emma agarrou o braço de Ethan, até que ele levantou-se e puxou-o para fora da sala de aula. Um casal de adolescentes parou e olhou, provavelmente se perguntando por que Sutton Mercer estava puxando Ethan Landry pela mão. Mas Emma não se importava com o que parecia. Ela precisava resolver isso com Ethan agora. Um punhado de estudantes filtrava-se através do corredor, agitados nos momentos finais antes do sinal tocar. Emma olhou para a esquerda e viu uma forma disforme de Frau Fenstermacher se aproximando. Emma conduziu Ethan para o próximo corredor, rezando para que eles ficassem invisíveis. Eles empurraram-se através de duas portas de vidro que levavam para um longo trecho de gramado contíguo à pista. Ethan enfiou as mãos profundamente nos bolsos das suas bermudas cargo cor-de-barro. “Temos que voltar para dentro.” “Tem algumas coisas que eu preciso dizer,” Emma interrompeu, andando em direção à pista. “E você precisa ouvir.” Ela abriu o portão e eles cruzaram o gramado remendado que se estendia até a linha branca de partida. Obstáculos de prata foram montados em colunas retas. Uma garrafa de água estava tombada ao lado de uma prancheta esquecida. Subiram as arquibancadas lentamente, seus sapatos fazendo ruídos metálicos sobre as pranchas metálicas. Emma vagou até um assento na arquibancada a meio caminho do topo. Ela sentou-se no metal duro e Ethan seguiu o exemplo. O vento soprava no rosto de Emma. Ela puxou os longos cabelos em um rabo de cavalo e se virou para Ethan. “Eu não quero fazer uma brincadeira com você,” disse ela. “Eu nunca quis e eu não vou deixá-las ir em frente com ela. É muito difícil, com tudo o que está acontecendo, saber a melhor forma de acabar com a brincadeira, sem deixar a mim mesma de fora.” Ethan fingiu estar fascinado com a costura de seus bolsos. Dois alunos da classe de Design de Moda passaram em bicicletas, aparentemente, também cabulando aula. “Ethan,” Emma disse, sua voz cheia de frustração. “Fale comigo! Eu sinto muito! Eu não sei mais o que dizer. Por favor, não fique bravo mais.”

Finalmente, Ethan soltou um suspiro e olhou para as palmas das mãos abertas. “Okay. Sinto muito, também. Eu acho que quando você disse que as amigas de Sutton estavam preparando uma brincadeira comigo... eu me assustei.” “Mas por que você não acreditou em mim quando eu disse que eu não ia?” Ethan balançou a cabeça. Quando ele finalmente falou, suas palavras eram lentas e tensas. “Você parece tanto com ela. Você está usando as roupas dela. Você está saindo com as amigas dela. Você tem o medalhão dela.” “Então?” Um músculo no pescoço de Ethan ficou tenso. Quando ele desviou o olhar, Emma percebeu que havia algo mais, algo que ele não estava dizendo a ela. Seu olhar se encontrou com o dela e ela viu um lampejo de mágoa passar sobre seus olhos claros. “Eu nunca te disse isso,” ele disse finalmente. “Mas durante o primeiro ano, logo após Sutton e as amigas dela começarem o Jogo da Mentira, elas fizeram uma brincadeira comigo. Foi horrível e arruinou as minhas chances de conseguir uma bolsa de estudos de ciências num curso que eu queria muito. Minha família não tinha dinheiro para eles mesmos pagarem. Eu estava quase garantido no local, mas depois da brincadeira... eu não estava.” Houve um som estridente quando ele bateu seu tênis contra as arquibancadas. “Eu pensei que tinha superado isso, mas acho que talvez eu não tenha.” Me aproximei, sentindo-me terrível. Era mais um exemplo de como as minhas brincadeiras tinham realmente machucado as pessoas. Tentei me lembrar da brincadeira com Ethan, mas eu não consegui ver nada. A memória que eu tinha de Ethan era de quando ele interrompeu minhas amigas no falso estrangulamento no deserto. Por uma fração de segundo, eu tinha sentido pura gratidão por ele ter me salvado... mas depois eu fiquei irritada porque ele tinha visto o quão assustada eu tinha ficado. “O que elas fizeram, exatamente?” Emma perguntou. Ethan encolheu os ombros. “Não importa. Basta dizer que acabaram com as minhas chances.” Emma pegou a mão de Ethan e apertou-a firmemente. “Escute, eu não sou Sutton, ok? Talvez sejamos iguais em certos aspectos, mas eu nunca iria machucá-lo. Você tem que saber disso.”

Ethan balançou a cabeça lentamente, ligando os dedos nos dela, voltando a apertá-los. “Eu sei que não. Eu juro. E eu sinto muito por ter estado tão distante. Eu deveria ter acreditado em você.” Houve uma longa pausa. Os dois assistiram um bando de melros* aterrissando no centro da pista e depois decolando novamente. (*Tipo de pássaro preto cantante.) “Você sabe o que devemos fazer?” Emma disse lentamente, incapaz de parar o sorriso que se espalhou por todo seu rosto. “Vamos descobrir um plano para enganá-las.” “As amigas de Sutton?” Ethan deu-lhe um olhar incrédulo. “Você tem certeza?” “Tenho. Eu me preocupo com elas, mas parece que elas precisam provar seu próprio veneno. Estou farta de pregar peças nas pessoas e talvez, se nós pudermos ser mais espertos que elas, todo o Jogo da Mentira perderá seu brilho.” Ela virouse na arquibancada de modo que ela estivesse de frente para Ethan. “No momento, as amigas de Sutton estão pensando em roubar seus poemas antes do seu recital de poesia e colocá-los on-line em nome de outra pessoa. Elas querem que pareça que você os plagiou.” Ethan soltou um assobio. “Uau. Isso é baixo.” Seus olhos claros escureceram e ele olhou para a pista. “Por que elas fariam isso comigo?” Uma nuvem passou sobre o sol e Emma viu sua sombra desaparecer. “Laurel está furiosa comigo agora por colocar Thayer em apuros. Esta é a idéia dela de vingança. Ela sabe que eu...” ─ ela engoliu meio sem jeito ─ “gosto de você, e ela está me batendo onde dói.” Um pequeno sorriso tocou na borda dos lábios de Ethan. “Entendi. Talvez possamos nos encontrar no nosso lugar de sempre para pensar em idéias?” “Bem, eu acho que temos que encontrar um novo local, já que Laurel agora sabe que nós nos encontramos lá,” Emma destacou. Seu interior estava quente e tranquilo. Graças a Deus Ethan estava de volta ao seu lado. “Agora que isso está fora do caminho,” disse ela, “há mais uma coisa que eu preciso informar a você.” Ela examinou a pista, certificando-se de que eles ainda estavam sozinhos. As sobrancelhas de Ethan levantaram-se. “Mais o quê?”

Quando Emma lhe contou que o sangue encontrado no carro era de Thayer, não de Sutton, Ethan olhou para ela, incrédulo. “E isso não é tudo,” Emma continuou. “Eu fui pegar o carro de Sutton no estacionamento de evidências e eu achei uma coisa estranha.” Ela explicou sobre o pedaço de papel com o nome do Dr. Sheldon Rose e sobre como ela o achou em um hospital psiquiátrico em Seattle. “A enfermeira do Dr. Rose disse que Thayer fechou a conta e saiu no dia vinte e um. Contra as ordens do médico.” Ethan olhou para ela, o rosto pálido. “Thayer estava em uma instituição mental?” Perguntou ele, balançando a cabeça. Ele apertou as mãos sobre as de Emma. “Foi ele. Tem que ser. Ele agarrou e matou Sutton. O que há para impedi-lo de fazer a mesma coisa com você?” Ele segurou as mãos dela com as suas. “Como é que eu vou te proteger?” Emma respirou fundo, sentindo-se um pouco mais segura agora que ela tinha Ethan ao seu lado novamente. “Você não pode,” disse ela, observando o rosto de Ethan entristecer com suas palavras. Ela apertou as mãos dele e continuou, “Nós precisamos encontrar provas de que ele fez isso. A única maneira de eu estar segura novamente é Thayer continuar atrás das grades, permanentemente.” Uma porta que dava para a escola bateu alto e ambos olharam para cima. O sino soou, indicando que o período havia acabado. Emma tinha perdido a aula toda. Em sua antiga vida, ela nunca tinha chegado atrasada na escola. Mas fazer as pazes com Ethan valeu a pena. “Temos que voltar,” ela disse suavemente. “Nós temos?” Ethan perguntou. “Prefiro passar o dia inteiro juntos.” “Eu também,” Emma murmurou. Então ela virou-se para Ethan, tendo uma idéia. “As amigas de Sutton estão planejando uma festa secreta e eu tenho que estar lá cedo para ajudar a prepará-la. Você quer vir? Eu sei que as festas não fazem seu estilo, mas talvez seja hora de fazermos algo para tirar de nossas mentes que eu estou sendo perseguida por um psicopata.” “Não é engraçado,” disse Ethan, empurrando a mão pelos cabelos. “Mas...” Ele olhou para seus tênis. “Você tem certeza? Suas amigas vão estar lá. Estar comigo não é algo que Sutton faria. E vai arruinar nossa contra-brincadeira.”

Emma pensou por um momento. “Bem, então vamos esquecer a contra-brincadeira. A melhor maneira de cancelar a brincadeira no recital de poesia é nós aparecermos juntos na festa. E mesmo se não for algo que Sutton faria, é o que eu quero fazer,” disse Emma bravamente. Agora que ela decidiu ir a público, ela não queria que eles passassem mais nenhum tempo separados.

CAPÍTULO VINTE E CINCO – TOQUEM O ALARME
Naquela noite, Emma colocou o Volvo dentro da garagem redonda de Charlotte e desligou a ignição. Os Chamberlains moravam em uma casa de pedra com seis quartos e duas varandas no segundo andar. O esplendor dela ainda tirava o fôlego de Emma, mesmo que ela já tivesse ido lá várias vezes. Ela nunca tinha conhecido ninguém com tanto dinheiro. Laurel destrancou a porta do carro e saiu, não se incomodando em agradecer a Emma pela carona. Elas vieram juntas porque não queriam trazer muitos carros para a festa e chamar a atenção dos policiais. Emma tinha considerado abandonar Laurel em casa para se vingar de todas as vezes que ela tinha abandonado ela no tênis, mas ela achou que não iria ajudar a consertar o relacionamento delas. Antes que qualquer uma delas pudesse tocar a campainha, a porta se abriu e Madeline sorriu para elas, usando um vestido vermelho brilhante que parava no meio de suas coxas. “Olá, que-ri-das,” ela gritou dramaticamente. “Bem-vindas ao jantar! Vocês duas estão maravilhosas!” “Obrigada,” Emma disse timidamente, olhando para o vestido verde-esmeralda de um ombro só, que ela tinha encontrado no armário de Sutton. Ela tinha ficado nervosa com a escolha de uma roupa, experimentando pelo menos seis vestidos antes de escolher esse. Ela queria algo especialmente bonito para combinar com seu recente penteado de cabelo e a maquiagem cuidadosamente aplicada. Essa era a primeira vez que ela e Ethan seriam vistos juntos em público e caças fofocas intrometidos, sem dúvida, tirariam milhões de fotos para o Facebook e Twitter. Era irônico: Nas escolas antigas dela, Emma secretamente almejava fazer parte dos grupos populares cujas vidas pessoais eram espalhadas pelas páginas dos sites das redes social. Mas agora que ela era uma daquelas meninas, ela só queria ser deixada em paz. A grama do vizinho é sempre mais verde, eu suponho. Laurel e Emma seguiram Madeline por um longo corredor que levava à grande cozinha dos Chamberlains. Ela parecia com

as cozinhas de demonstração da revista House Beautiful que Glenda, a mãe de Alex, sempre rasgava páginas e entulhava em uma pasta marcada como CASA DOS SONHOS. O ar cheirava a carne assada, pão fresco e ─ é claro ─ ao perfume Chanel Chance de Charlotte. Por um momento, Emma encarou a ilha da cozinha onde o invasor desconhecido tinha vindo atrás dela e apertado o medalhão de Sutton contra sua garganta. Só que o agressor não era mais desconhecido. Era Thayer. Emma olhou para Madeline, sentindo uma pontada estranha. O que Mads iria fazer quando descobrisse que seu amado irmão era um assassino? Ela estaria duplamente abalada: Ela não apenas descobriria que sua melhor amiga estava morta, mas ela também perderia Thayer. “Refrigerantes, meninas?” Charlotte apareceu por trás da porta da geladeira. Ela estava usando um vestido preto apertado com triângulos de couro que cruzavam seu quadril um pouco amplo. Era um vestido que Emma não estava cem por cento certa de que aparentava bonito nela, mas ela não se atreveu a dizer nada. “Pena que não pode ser champanhe!” Alguém falou. A Sra. Chamberlain surgiu da sala de jantar e colocou uma mão no ombro de Charlotte. “Se vocês, meninas, esquecerem essa festa e aproveitar a noite aqui, eu abro uma garrafa de Veuve Clicquot para vocês. Mas eu não posso deixar vocês beberem e dirigirem!” “Tudo bem, mamãe,” Charlotte disse, parecendo um pouco embaraçada. Se houvesse um Real Housewives em Tucson* (*Reality show que mostrava o dia-a-dia de mulheres ricas.), a mãe de Charlotte já faria parte dos participantes. Ela parecia dez anos mais jovem que a idade ─ que Charlotte tinha afirmado ser o resultado de injeções de botox mensais e horas na máquina elíptica ─ e ela usava roupas muito mais modernas do que a maioria dos adolescentes da Hollier. Ela atualmente estava coberta com um vestido apertado preto que mostrava seu decote cirurgicamente reforçado. Ela também, Emma achava, estava morrendo de vontade de ser a melhor amiga de Charlotte, em vez de mãe dela. Muito diferente das mães adotivas dela que só falavam com os filhos adotivos quando iam gritar com eles ou precisavam deles para mentir para os assistentes sociais para que eles passassem nas verificações mensais.

“Bem, eu estou feliz que vocês chegaram a tempo para o jantar,” a Sra. Chamberlain continuou, levando as meninas para a sala de jantar. Havia cinco lugares na mesa e cada lugar tinha um cartão de mesa na frente, como se fosse um casamento. O lugar de Emma estava ao lado do de Charlotte e de frente para Madeline. Quando a Sra. Chamberlain foi pegar as taças para todos, Emma se inclinou para frente. “Onde estão as Gêmeas do Twitter?” Ela de repente percebeu que estava faltando os envios de mensagens. Laurel olhou brevemente para Madeline e Charlotte, depois deu de ombros. “Você não soube? Elas estão no cabeleireiro. Podem acreditar, serem convidadas para a primeira festa na casa super-secreta como verdadeiros membros do Jogo da Mentira está totalmente subindo a cabeça delas.” Charlotte estudou os cartões de mesa, então olhou para a mãe, que tinha acabado de voltar da sala de jantar. “Não precisa de mais uma taça para o papai?” Um olhar tenso passou pelo rosto da Sra. Chamberlain. “Ele não vem,” disse ela rapidamente. “Ele ficou preso no trabalho.” “De novo?” A voz de Charlotte estava um pouco irritada. “Você pode pegar a garrafa de Sancerre para mim, por favor, Charlotte?” A Sra. Chamberlain sugeriu, tensa. Uma longa pausa se seguiu. Emma recordou quando ela tinha visto o Sr. Chamberlain no Sabino Cânion no dia em que ela chegou em Tucson, quando supostamente ele deveria estar fora da cidade. Talvez ele estivesse escondendo alguma coisa ─ e talvez, Charlotte e a mãe dela tivessem suas suspeitas do que era. Charlotte pegou uma garrafa cor-de-rosa de um frigobar de vinho que foi construído em um armário ao lado da pia, abriu a rolha com um abridor de garrafas e derramou na taça da mãe. Então, ela levantou pela haste a própria taça com água mineral com gás Perrier e segurou-a no ar. A Sra. Chamberlain, Madeline, Emma e Laurel a imitaram. “Para um jantar fabuloso,” a Sra. Chamberlain disse. As cinco brindaram e tomaram goles. Cornelia, a chefe de cozinha pessoal, que tinha cabelos grisalhos e um rosto redondo, estava carregando um assado, batatas vermelhas, uma grande salada picada e pães de alho quentes.

“Então, me contem sobre essa festa que vocês estão planejando,” disse a Sra. Chamberlain depois de dar uma delicada mordida na carne. “Onde é mesmo?” “Num clube campestre do outro lado da cidade,” Charlotte mentiu. Ela não ia dizer a Sra. Chamberlain que elas iriam para uma casa abandonada. “Vai ser incrível,” Madeline disse. “Todo mundo da Hollier vai estar lá.” “Nós convidamos algumas pessoas de umas escolas de cursinho pré-vestibular também,” Charlotte acrescentou. “O que ela quer dizer é que convidou os garotos das escolas de cursinho pré-vestibular.” Laurel ajeitou o grampo de penas de seu cabelo. Charlotte deu um soco brincalhão nela. “É melhor estar agradecida por nós deixarmos você ir.” Emma olhou de uma para outra, espantada por elas estarem falando sobre isso na frente da Sra. Chamberlain ─ os pais não deveriam franzir a testa com a menção de festas? Mas a mãe de Charlotte estava sorrindo e acenando com a cabeça como se ela achasse que tudo era incrível. Eu me lembrei de que eu tinha inveja da mãe de Charlotte, desejava que a minha mãe fosse mais parecida com ela. Mas olhando de longe, vendo quão doce minha mãe tinha sido com Emma, eu me perguntava: A mãe de Char dava conselhos a ela no meio da noite ou apenas dicas de beleza e dicas de cirurgia plástica? Isso me fez perceber mais uma vez o quanto eu não tinha valorizado minha mãe. O iPhone de Sutton vibrou no colo de Emma. Ela pegou-o e olhou para a tela por baixo da mesa. ALGUMA CHANCE DE VOCÊ VIR ME BUSCAR? perguntava uma mensagem de Ethan. MEU CARRO NÃO LIGA. Os nervos de Emma se agitaram. Isso realmente estava acontecendo. Eles realmente iriam para uma festa... juntos. SEM DÚVIDA, ela escreveu de volta. ESTAREI AÍ EM 1 HORA. Ela clicou em enviar. “Para quem você está escrevendo, Sutton?” Laurel perguntou, olhando para Emma do outro da mesa. Emma cerrou os punhos no colo. “Isso interessa apenas a mim, mas você vai descobrir,” disse ela despreocupadamente. As meninas saberiam quando ela e Ethan chegassem na festa, ela não queria que isso dominasse a conversação do jantar.

Enquanto a refeição estava em andamento, a Sra. Chamberlain alegrou-as com algumas de suas memórias favoritas do ensino médio, muitas das quais envolviam ela se tornando rainha do Baile de Boas-Vindas dois anos consecutivos. Depois que as meninas carregaram seus pratos para a pia e esperavam pela sobremesa, Emma pediu licença para ir ao banheiro feminino do corredor. Assim que a mão dela roçou a maçaneta da porta, ela notou uma brilhante luz esverdeada no fundo do corredor, perto do hall de entrada. O sistema de alarme dos Chamberlains. Ela olhou em volta. As meninas estavam na sala de jantar, conversando sobre o encontro mais recente de Laurel com Caleb. A Sra. Chamberlain estava na varanda de trás, fumando um cigarro. Ninguém estava prestando atenção. Ela andou na ponta dos pés pelo corredor e olhou para o sistema de segurança. Era um sistema simples com um LCD touchscreen, como um iPad, com botões numerados para colocar um código. Quem quer que tenha desativado o alarme teve que usar os dedos. Se Thayer não tiver limpado a tela depois de usar, talvez as digitais dele ainda estejam no alarme. “Sutton?” A voz de Madeline chamou. Emma ergueu os olhos e viu-a de pé no corredor, olhando para ela. “O que você está fazendo?” “Apenas olhando essa foto,” Emma mentiu, apontando para uma fotografia emoldurada em preto-e-branco de um Paul McCartney jovem, pendurada ao lado do alarme. Ela voltou correndo para a mesa de jantar, assim que a Sra. Chamberlain trouxe mousses de chocolate em taças. “Especialidade da Cornelia!” Exclamou ela. “Deve estar muuuito bom!” As meninas fizeram barulhos apreciativos e atacaram. Quando a Sra. Chamberlain voltou à cozinha, Laurel se inclinou sobre a mesa com os lábios sujos de chocolate. “Vocês sabem o que vai ser bom? Nossa brincadeira com Ethan Landry.” Ela olhou para Emma, erguendo as sobrancelhas. “Eu espero que você tenha pedido para ele nos ajudar essa noite.” “Com certeza.” Charlotte juntou as mãos. “A brincadeira vai ser incrível!” Madeline riu com prazer. Apenas Emma olhava para o prato, uma sensação incômoda passando pelo estômago dela.

Laurel fez beicinho para ela do outro lado da mesa. “O que há de errado, Sutton? Você não acha que é uma brincadeira perfeita?” Emma engoliu um gole de Perrier, a acidez borbulhante fazendo cócegas no nariz dela. Pelo jeito, ela tinha duas opções: ceder aos caprichos de Laurel e continuar com isso ou se defender e fazer a velha Emma arrogante. Ela respirou fundo. “Na verdade, eu acho que é uma idéia terrível,” ela disse. “Nós já pegamos Ethan uma vez, lembra? Eu já decidi. Eu não vou fazer parte da brincadeira. Vocês terão que fazer sozinhas.” O rosto de Madeline caiu. Charlotte franziu o nariz. As bochechas de Laurel ficaram vermelhas. “Você o quê?” Ela retrucou. Emma sabia que ela estava fazendo um pouco de dano à reputação de Sutton, mas ela não se importava. Ela se levantou, colocando a colher ao lado de seu mousse intocado. “Charlotte, por favor, agradeça a sua mãe pelo delicioso jantar. Tem um lugar que eu preciso ir agora. Eu vejo vocês, damas, na festa.” Ela olhou para Laurel. “Você pode pegar uma carona com uma delas?” Laurel olhou para Emma, sua boca aberta. Ela não disse uma palavra quando Emma deixou a sala de estar e saiu pela porta da frente, de cabeça erguida. As amigas de Sutton olharam para ela por todo o caminho. Ninguém disse uma palavra. E assim, eu pensei, é como se faz uma saída dramática.

CAPÍTULO VINTE E SEIS – IMPEDIDA, MAS NÃO ESQUECIDA
Quando Emma entrou na garagem de Ethan, ela ainda estava flutuando por finalmente impor-se para as meninas sobre a brincadeira. Ela tinha um grande sorriso em seu rosto quando ela saiu do carro, mas sua expressão mudou rapidamente quando Ethan se esgueirou para sua porta da frente e bateu a porta fechando-a, sua postura, furtiva e culpada, como a de alguém andando sorrateiramente. “Tudo bem?” Emma perguntou quando Ethan correu pelo gramado. “Claro.” Ethan passou a mão no seu cabelo cortado bem curto. “Minha mãe estava falando merda sobre tarefas. Isso é tudo.” “Não faz mal,” disse Emma. “Devo ir lá dizer um oi? Eu gostaria de conhecê-la.” Houve uma pausa minúscula. “Outra hora,” Ethan finalmente disse. Então ele se inclinou e beijou sua bochecha. “Você está linda. Adorei este vestido.” Você percebeu, Emma pensou, borboletas arrastando-se em seu estômago. Ela alisou a saia do vestido verde-esmeralda. “Você está muito bonito também.” Ethan estava usando jeans Levi de lavagem preta e uma justa camisa de botão verde oliva, que mostrava sua cintura e ombros largos. Emma fez um gesto para o carro de Sutton e Ethan deu um baixo assobio apreciativo e entrou no banco do passageiro. “Eu só via este carro passeando à distância ─ Sutton o usava para assustar qualquer um, menos suas amigas, que chegassem perto dele no estacionamento. Eu nunca pensei que eu realmente iria me sentar nele.” “Bem, há uma nova Sutton na cidade,” Emma deu uma risadinha. Isso não significava que a nova Sutton poderia estragar o meu carro, eu pensei com um aborrecimento. Era melhor Emma mantê-lo.

“Então, a festa é em uma mansão hipotecada nas montanhas, aparentemente em algum lugar chamado Legend Road,” disse Emma. “Sabe onde é?” “Eu vou te mostrar o caminho.” Um sorriso se espalhou pelo rosto de Ethan. “Uma casa abandonada. É uma loucura. Parece muito mais interessante do que normalmente são as festas da Hollier.” Emma sorriu. “A quantas festas da Hollier você realmente já foi, garoto solitário?” “Você me pegou.” Ethan abaixou a cabeça. “Não muitas.” Houve uma longa pausa. Algo pulsou no ar entre eles. Talvez esta noite fosse a sua primeira aparição como um verdadeiro casal. Quando Emma mudou de marcha e acelerou pela rua de Ethan, ela percebeu que seu estômago estava repleto de nervos. Ela olhou para Ethan, percebendo como ele repetidamente lambia os lábios. Talvez ele estivesse nervoso também. “Então, o que há de errado com seu carro?” Emma perguntou. Ethan encolheu os ombros. “Provavelmente só precisa ser ajustado. Eu vou lidar com isso amanhã.” Eles se voltaram para a estrada principal e passaram pelo Sabino Cânion. Emma sentiu uma pontada de medo, era o local onde ela marcou o primeiro encontro com Sutton, e onde os policiais haviam encontrado o carro de Sutton. E talvez, eu pensei, onde eu atropelei Thayer... e ele me matou. Emma dirigiu para mais alto nas montanhas, as Montanhas Catalinas brilhando vermelho no sol poente. A estrada era torcida e Emma agarrou o volante para navegar pelas curvas. Quanto mais ao norte eles iam, maior e mais grandiosa as casas se tornavam. O céu escureceu quando passaram por um shopping center de luxo composto por uma loja de vinhos, um estúdio de Pilates, um monte de agências imobiliárias, outra sinalização para uma trilha e dezenas de mansões estilo Sudoeste enfiadas nas rochas. “Ei, é esta a rua?” Emma interrompeu, apontando para uma placa pintada de amarelo e verde marcando LEGENDS ROAD. “Parece que sim,” Ethan disse, apertando os olhos para a penumbra.

Emma virou para a estrada e quase atingiu um papa-léguas que corria pela pista. O deserto se alinhava ao lado da calçada e Emma dirigiu o carro em torno de uma rocha que devia ter caído dos penhascos vizinhos. “Temos que encontrar um lugar isolado para estacionar,” explicou ela, procurando um bom lugar sobre o ombro. “Mads disse que não podemos estacionar na frente da casa ─ para não dar dica à polícia que nós estamos dando uma festa lá.” Mas ela não queria estacionar em qualquer lugar, já que o carro de Sutton havia sido apreendido, em parte, por infrações de trânsito não pagas. Tudo o que ela não precisava agora era o detetive Quinlan encontrar mais um motivo para arrastá-la até a delegacia. A estrada era em zigue-zague, a terra árida em qualquer lado deles. “Não existem outras casas aqui?” Emma perguntou em voz alta. “Estranho.” Ethan olhou pela janela um galho de árvore ramificado que atingiu como dedos o pára-brisa. “Talvez, a quem quer que esse lugar pertencesse, a terra ao redor também o pertencia. É uma maneira de garantir a vista.” Emma dirigiu mais um quilômetro antes de uma imponente mansão de pedra branca entrar em vista. Arcos ovais apontavam para o alto do céu noturno e imaculadas venezianas pretas largas emolduravam as janelas iluminadas. Uma varanda enorme se projetava do lado da casa e pairava sobre um penhasco que tinha pelo menos uns trinta metros de profundidade de pedras. Uma placa de A VENDA estava derrubada no gramado da frente, há muito abandonada. O caminho circular estava vazio. Então, era o caminho em torno dele. “É linda,” Emma suspirou, parando o carro. “Mas onde estão os carros das outras garotas? Elas deveriam estar aqui agora para prepará-la.” Ela checou o relógio. Ela chegou tarde ─ era quase 9:30. “Talvez haja um outro caminho por trás? Ou talvez elas estacionaram ainda mais longe para evitar suspeitas.” Ethan soltou o cinto de segurança e os dois saíram do carro. Uma porção prata da lua estava alta no céu. Uma rajada de vento assobiou entre as rochas e jogou o cabelo de Emma sobre seus ombros. Ela seguiu Ethan ao longo dos degraus de pedra tortos incorporados em uma pequena colina que levava à casa.

Subiram ao longo dos metros finais do percurso e sobre uma plana varanda de granito sólido. As juntas dos dedos de Ethan bateram na porta da frente. Ele olhou para Emma enquanto esperavam e inclinou seu ouvido mais perto da porta. “Estranho. Eu não ouço ninguém dentro,” disse ele, estreitando os olhos. “Nem música, nem nada.” Emma bateu novamente. “Olá?” Ela chamou. Quando ninguém respondeu, ela girou a maçaneta de ouro e empurrou a madeira de carvalho. A porta se abriu, revelando uma escadaria dupla que circulava para cima do segundo andar a céu aberto. Tinha um lustre de cristal apagado pendurado no hall de entrada. As estrelas brilhantes eram visíveis através de clarabóias maciças. Um relógio de pêndulo no canto direito do saguão era o único ornamento visível, fora isso, a casa estava completamente vazia. “Olá?” Emma chamou novamente. As meninas já deviam estar aqui. Sua voz ecoou pela casa vazia. À luz escurecida do luar, ela podia ver teias de aranha brilhando nos cantos. Ela se virou para olhar para Ethan. “Talvez elas não estejam aqui ainda?” “Talvez?” Ethan recuou e olhou para as escadas. Thwap. Emma e Ethan se viraram. A porta da frente tinha batido atrás deles. Emma correu para a porta e tentou girar a maçaneta. Ela não se mexia. “Quem está aí?” Gritou ela. Algo elétrico estalou ao longo de seu corpo. Não havia janela voltada para a varanda da frente, então ela não podia dizer quem tinha acabado de trancá-los dentro. Ethan puxou Emma mais para perto dele. Scraaaaatch. Um som como de unhas descendo de uma vidraça ecoou no ar. “O que é isso?” Emma guinchou. “Alguém está lá fora,” disse Ethan. Ele puxou a maçaneta novamente, mas ainda não cedeu. “Quem está aí?” Ele gritou. “Deixem-nos sair!” “Oh meu Deus,” Emma sussurrou no peito de Ethan, agarrando os lados de sua camisa. “E se for Thayer? E se ele saiu da prisão mais cedo e nos seguiu?” Um sentimento sinistro passou pela minha forma leve quando uma idéia horrível me ocorreu. Talvez fosse Thayer. E

se ele descobriu que Emma tinha ligado para seu antigo hospital e estava vindo calá-la para sempre? “Eu não vou deixar ele te machucar,” Ethan disse, abraçando Emma apertado. “Eu prometo.” Outro gemido soou do lado de fora. Em seguida, houve sons de raspagem, como se alguém estivesse tentando entrar “Nós temos que nos esconder, Ethan!” Emma gritou, olhando para os cômodos vazios, as paredes brancas. Ela pegou sua mão e começou a subir as escadas, mas seu calcanhar prendeu no primeiro degrau. Ela caiu sobre Ethan e ele pegou-a pela cintura. Outro baque soou do lado de fora. Mais arranhões horríveis. Uma sombra passou pela parede de trás. E então, um grito. Emma respondeu com um grito, mas quando um segundo grito veio, ela levantou-se ereta. Aquela voz não era de um cara, mas o lamento agudo de uma menina. Risos soaram do lado de fora. E, de repente, Emma sentiu o cheiro da fragrância distinta de Chanel Chance. De repente, ela entendeu o que estava acontecendo. Claro. Emma agarrou a mão de Ethan. “Esta é uma brincadeira. Nós somos a brincadeira. As amigas de Sutton estão brincando com a gente.” Confusão acomodou-se através dos dedos de Ethan. “Você tem certeza?” “Tenho.” Os ombros de Ethan caíram com alívio. Ele aproximou-se de Emma e deslizou as mãos ao longo do vestido de Emma para a pele lisa de suas costas. Ele a puxou para mais perto. “Bem, então esta é a melhor brincadeira de todas. Eu não me importaria de passar toda a noite trancado sozinho com você aqui.” Emma sentiu seus nervos afiados por uma razão completamente nova. Seu corpo estava tão perto do de Ethan, e ela se perguntou se ele podia sentir seu coração batendo através da seda fina do vestido. Ela olhou para o rosto de Ethan assim que ele inclinou o queixo para beijá-la. Ela sentiu-se ganhando vida quando os seus lábios encontraram os dela. Ela colocou os braços em volta do pescoço de Ethan e retribuiu o seu beijo, desejando que o momento nunca acabasse. A porta se abriu com um rangido e uma ondulação de ar fresco da noite rodeou em volta de Emma. Madeline pisou na

casa, ladeada por Charlotte, Laurel e as Gêmeas do Twitter, que estavam vestidas de preto da cabeça aos pés e tirando rapidamente fotos em seus iPhones. “Te pegamos!” Madeline gritou. Charlotte juntou as mãos e as Gêmeas do Twitter soltaram gritinhos excitados. “Você estava tão assustada!” Gabby falou. “Eu não estava,” disse Emma rapidamente. “Estava bastante.” Laurel sorriu. “Seu novo cara não faz você se sentir segura?” Seus olhos cintilaram para Ethan. “Pelo menos isso explica por que você não queria fazer uma brincadeira com ele,” disse Madeline, balançando a cabeça. “Você vai nos apresentar, Sutton?” Emma olhou para as amigas de Sutton. Elas não pareciam particularmente irritadas ou enojadas por elas terem acabado de pegá-la beijando Ethan ─ completamente fora do esperado. Ela agarrou a mão de Ethan. “Este é Ethan Landry. Meu... namorado.” Sua voz se levantou no final, como um pequeno ponto de interrogação. Ela olhou para Ethan para certificar-se de que este título era certo. Ethan balançou a cabeça com um sorriso lento se espalhando pelo seu rosto. “Então, vocês dois estão, tipo, apaixonados?” Lili perguntou. Seu delineador raccoon-ish* (*Semelhante ou característico de um guaxinim; num estilo gótico) estava ainda mais dramático do que o normal, fazendo o branco de seus olhos brilhar. Gabby fazia barulhos de beijos com os lábios carnudos e Laurel e Charlotte riam. Emma riu a despeito de si mesma. “Há quanto tempo vocês estão planejando isso?” Perguntou ela. “Desde que Laurel explicou há alguns dias porque você não estava totalmente entusiasmada com a brincadeira com Ethan.” Charlotte enrolou um cacho vermelho em torno de seu dedo. “Nós estávamos brincando com você durante toda a semana. Assim que você saiu do jantar, nós entramos em ação. Lili e Gabby estavam na base da estrada para se certificar de que ninguém chegasse aqui cedo. Queríamos que você chegasse aqui quando a casa estivesse vazia e super-assustadora.” “E nós desconectamos os cabos do carro de Ethan, assim você teria que lhe dar uma carona,” Lili disse com orgulho. “Você fez o quê?” Ethan ficou boquiaberto.

Gabby acenou com a mão com desdém. “Não se preocupe. Você só precisa reconectar os cabos. Eu vi um vídeo do YouTube sobre isso.” Ethan balançou a cabeça, mas riu. “Então, a verdadeira festa ainda é aqui?” Emma perguntou. “Sim!” Laurel gorjeou. Ela apontou para dois sacos plásticos escondidos no canto da sala de jantar que Emma não tinha notado antes. E então, como se fosse combinado, a porta se abriu e um bando de gente entrou. Todos os meninos da equipe de baseball. Nisha e suas comparsas do tênis. Um bando de gente que sempre dizia Olá a Emma nos corredores e um monte de gente que Emma não reconheceu. Por último, mas não menos importante, Garrett entrou pela porta, carregando um barril enorme. Quando ele pôs os olhos sobre Ethan e Emma, que ainda estavam de mãos dadas, a sua expressão azedou. “Oi, Garrett,” Emma testou, sabendo o quão fútil a tentativa de amizade era. Os braços musculosos de Garrett ficaram tensos quando ele ajustou seu controle sobre o barril. “Então agora você está com Ethan?” Ele rosnou. “Estou,” respondeu orgulhosamente Emma, ignorando o olhar de ódio de Garrett. Ela não ia deixar nada incomodá-la esta noite. As coisas de repente pareciam perfeitas. Uma música tecno de repente soou de um aparelho de som portátil que alguém tinha trazido. Copos plásticos foram passando ao redor e as bebidas foram entornadas. “Whoooo!” Charlotte gritou, acenando com as mãos sobre a cabeça para dançar. Emma puxou Ethan para o círculo e começou a dançar também. A festa tinha começado.

CAPÍTULO VINTE E SETE – VOOU DA GAIOLA
A mansão lotou num instante. Corpos quentes misturados e flertando, copos de plástico vermelhos na mão. Emma serpenteou por entre a multidão de braços dados com Ethan, sentindo-se mais feliz do que ela tinha sido há muito tempo. “Eu vou pegar uma cerveja,” Ethan disse, olhando para o seu telefone antes de enfiá-lo no bolso. “Quer uma?” Emma lançou-lhe um sorriso. “Eu ainda tenho que nos levar para casa, lembra? A menos que você queira acampar esta noite no meio do nada...” Ela gesticulou para o lado de fora para os paredões rochosos que cercavam a mansão. Ethan sorriu e se inclinou para frente. Seus lábios roçaram seu rosto enquanto ele sussurrou, “O que exatamente você está sugerindo?” Suas bochechas coraram com o que ela tinha implicado ─ uma festa do pijama com Ethan. “Alguns de nós têm um toque de recolher,” ela sussurrou. “Que pena,” Ethan sussurrou de volta. Seus lábios tocaram os dela. Um bando de garotos assobiou. Emma sentiu o flash de uma câmera de telefone. Sutton Mercer estar namorando Ethan Landry era um grande acontecimento. Mas ninguém estava rindo deles ─ em vez disso, todo mundo estava olhando para Ethan como se tivessem de repente percebido o quão bonito ele era. Quando um bando de meninos tiraram fotos num canto e uma multidão de gente dançou uma antiga música de Michael Jackson na pista de dança improvisada, Emma sentiu a bolsa de Sutton vibrar. Ela largou a mão de Ethan e pediu-lhe para pegar para ela uma Sprite. Então, ela se afastou do fluxo de foliões e puxou o iPhone de Sutton da bolsa dela: UMA CHAMADA PERDIDA. Havia um número que ela não reconheceu no registro de chamadas junto com um alerta de correio de voz. Emma chamou a atenção de Ethan do outro lado da sala e fez sinal de que ela voltaria logo. Em seguida, ela caminhou através da

multidão suada para a parte traseira da casa, onde era esperado ser mais silencioso. Ela dobrou a esquina para a cozinha, onde garrafas de bebidas alcoólicas estavam alinhadas num balcão junto com sacos de salgadinhos Fritos meio-comidos e copos de plástico abandonados. Uma menina com cabelo preto curto derramou tequila e margarita mix* (*Bebida com mistura de limão e outros ingredientes.) em um liquidificador e apertou um botão, fazendo o conteúdo girar. O zumbido estridente do liquidificador e o cheiro doce de limão encheu a cozinha e seguiu Emma por um corredor escuro. Ela arrastou a ponta dos dedos ao longo da parede para se orientar e mergulhou para dentro de um quarto. O luar se derramava por uma janela aberta iluminando os pisos de madeira escura e as grandes janelas. Havia apenas dois objetos no quarto: um espelho muito rachado encostado no canto e uma boneca pequena com olhos vazios sentada no peitoril da janela. Emma afastou-se da boneca, um sentimento estranho tomando conta dela. Pressionando o ícone de correio de voz, ela levantou o celular de Sutton até a orelha. A voz trovejou através do altofalante. “Olá. Esta mensagem é para Sutton Mercer. É o detetive Quinlan. Eu preciso falar com você. Por favor, me ligue neste número ─ é o meu celular. Vou ficar com ele a noite toda. É urgente, então me ligue assim que você ouvir isso.” Uma emergência? As pontas dos dedos de Emma formigaram. Ela agarrou o telefone, pronta para discar o número, quando um estrondo soou do lado de fora do quarto. Ela pulou e se virou. Um baixo reverberava por toda a casa. Risos ecoavam nas paredes. Mesmo que ela estivesse sozinha, era ainda muito alto para ela ter uma conversa de verdade. Ela saiu do quarto, olhando mais uma vez para os sinistros olhos vidrados da boneca e seguiu para a porta dos fundos. A parte de trás da casa ostentava um pátio que dava de encontro com as montanhas. Havia uma pequena trilha na borda do imóvel; Emma caminhou em direção a ela, querendo colocar a maior distância possível entre ela e a festa barulhenta. Galhos e folhas secas estalavam sob seus pés. Ela rolou a tela do celular de Sutton e selecionou a chamada perdida mais recente. Quinlan atendeu no primeiro toque. “É Sutton,” Emma disse com a voz trêmula.

“Olá, Srta. Mercer.” A voz de Quinlan estava tensa. “Eu achei que você deveria saber que Thayer pagou a fiança. Não tivemos escolha, a não ser libertá-lo.” “O quê?” Emma arfou. “Quando?” “Há poucas horas atrás.” Seu coração batia tão rápido que ela tinha certeza de que ia explodir de seu peito. Thayer havia sido solto há algumas horas? “O Sr. Vega mudou de idéia?” Será que Madeline sabe? Por que ela não disse nada? “Não foi o Sr. Vega,” disse Quinlan. “Quem foi?” Emma exigiu, passando pela placa de madeira que marcava o início da trilha. Houve uma longa pausa. Emma ouviu a respiração do outro lado. “Olha,” Quinlan finalmente disse. “Percebi como você estava apavorada por causa de Thayer na delegacia no outro dia. Se há qualquer coisa que você queira me dizer sobre ele, qualquer motivo pelo qual você tenha medo dele, você deve me falar agora. Normalmente eu não acredito em uma palavra do que você diz, mas eu sei que você está escondendo algo ou está realmente com medo de alguma coisa. O que é, Sutton?” Emma passou a língua sobre os dentes. Se ela pudesse dizer a verdade a Quinlan. Se ele acreditasse nela. “Depois de meses escondido, ele ressurgiu em seu quarto, Sutton,” Quinlan continuou. “Se há algum motivo para ele querer prejudicá-la, podemos protegê-la.” Emma fechou os olhos. Proteção era o que ela mais queria no mundo todo. Mas Quinlan não acreditaria se ela lhe dissesse a verdade. Ele pensaria que ela estava inventando. Ou, pior, se ele comprasse a história de que ela era gêmea de Sutton, ele pensaria que ela era a assassina. “Eu vou ficar bem,” ela murmurou. Quinlan suspirou na outra extremidade. “Tudo bem,” disse ele após uma pausa. “Bem, você sabe onde me encontrar se você mudar de idéia.” A linha ficou muda. Em algum lugar distante, um coiote uivou. Os dedos de Emma tremiam quando ela enfiou o celular na bolsa de Sutton. E se ela estivesse apenas cometendo um grande erro? Ela deveria ter dito a verdade a Quinlan, agora que Thayer estava à solta? Estalo.

Emma virou-se, de repente, em estado de alerta. Ela vagou para tão longe na trilha durante a sua conversa com Quinlan que ela estava rodeada pela escuridão. Ela não conseguia mais ver a casa. Ela girou em todas as direções, tentando descobrir para que lado ela caminharia para voltar para a festa. O vento assobiava por entre os arbustos do deserto. “Olá?” Ela gritou. Silêncio. Ela deu um passo em uma direção, depois outro. “Olá?” Todo o som tinha parado. Era como se ela estivesse no meio do nada. Uma mão pousou na parte de trás do seu ombro. Emma congelou, seu corpo esfriando. De repente, ela percebeu que foi um erro vagar do lado de fora, sozinha na escuridão. Era Thayer. Tinha que ser. Ele tinha voltado para machucá-la, exatamente como ele havia machucado sua irmã. Ela não tinha ouvido suas mensagens com cuidado suficiente. Ela não estava jogando junto com ele. “Sutton,” uma voz sussurrou. O assobio do meu nome ecoou várias vezes na minha cabeça. De repente, senti a mesma sensação brilhante e brusca e um formigamento familiar. Outra lembrança foi chegando, talvez a peça final para o que aconteceu comigo naquela noite terrível. Eu me rendi à visão, deixando-me levar para longe.

CAPÍTULO VINTE E OITO – TODOS NÓS CAÍMOS
“Sutton!” Os dedos de Thayer apertam meu braço enquanto ele me puxa pelo abundante matagal. Eu chuto e grito quando ele coloca a mão sobre minha boca e me arrasta para mais longe do estacionamento. Os matos grossos e as agressões deixam minha pele com arranhões. Lágrimas aparecem nos meus olhos e embaçam minha visão, mas não posso enxugá-las ─ ele prende meus braços contra os lados do meu corpo, me carregando através da sujeira. “Thayer, pare!” Minha voz sai abafada contra a mão dele. Meus pés chutam e levantam folhas e terra. Thayer me desce cuidadosamente para o chão e apoia meu corpo contra a casca áspera de um tronco grosso de uma árvore. “Jesus, Sutton, pare de gritar por um maldito segundo.” Eu arranco a mão dele da minha boca e dou uma repiração profunda. Eu estou prestes a gritar outra vez quando vejo os ombros de Thayer relaxarem. Ele deixa os braços caírem e coloca as palmas das mãos nos joelhos, sem fôlego. “Você é mais rápida do que eu pensava,” ele diz. Seus olhos examinam o matagal por cima do ombro. “Eu estou tentando proteger você. Acho que conseguimos fugir a tempo.” “Espere, o quê?” Eu pergunto, piscando com força. Leva um momento para meus pensamentos se reajustarem enquanto Thayer atravessa o matagal até a estrada principal. Eu me arrasto atrás dele. “Alguém está nos perseguindo? Quem?” Thayer balança a cabeça. “Confie em mim, você não vai querer saber,” ele fala, ofegante. “Thayer, me diga o que você─” Pneus chiam atrás de nós e eu me viro a tempo de ver um carro descontrolado saindo do Sabino Cânion. Faróis amarelos desligados e perfeitamente redondos avançam rapidamente sobre nós e com choque eu percebo que é o meu Volvo ─ eu e meu pai restauramos os faróis antigos, por isso são diferentes dos atuais faróis de xenônio.

Minhas entranhas reviram de medo e surpresa. Eu me lanço para fora do caminho, quase me espetando em uma pêra espinhosa. Então eu viro para Thayer que está ao meu lado. “Alguém está no meu carro!” “C-como?” Thayer pergunta lentamente, ainda respirando com dificuldade. Mas não há tempo para explicar que eu tinha deixado as chaves caírem na frente da porta. O carro se movimenta em alta velocidade exatamente na nossa direção, os pneus guinchando. Eu não consigo destinguir o rosto do motorista, mas quem quer que seja está com os braços firmes e determinados travados no volante. Thayer congela no meio da estrada, bem no caminho do carro. “Thayer!” Eu grito. “Saia da frente!” Mas é tarde demais. O carro bate nele com uma repugnante pancada. O tempo passa lentamente enquanto o corpo de Thayer voa no ar, chocando contra o pára-brisa com um estalo alto. “Thayer!” Eu choramingo novamente. Com um chio de borracha no pavimento, o carro dá marcha a ré. Thayer rola para fora do capô do carro que se afasta em alta velocidade. Os faróis se apagam e o carro desaparece, nos deixando num silêncio sombrio. Eu mal consigo sentir minhas pernas enquanto tropeço para onde o corpo mole de Thayer está no chão. Sua perna está torcida estranhamente. Há sangue em sua cabeça. Ele olha para mim de modo debilitado, deixando escapar um gemido baixo. “Meu Deus,” eu sussurro. “Temos que ir ao hospital.” Meu raciocínio está claro como cristal. Eu coloco a mão no bolso para pegar meu celular. “Vou ligar para o 911.” “Não,” Thayer geme e agarra minha mão com o restante da força que ele tem. “Eu não quero que meus pais saibam que eu estou aqui. Eles não podem saber que eu estou de volta à cidade.” Sua respiração se eleva. “Eu preciso ir para um hospital diferente. Algum fora da cidade.” “É impossível. Eu não posso te levar para nenhum lugar. Algum maníaco roubou meu carro,” eu protesto. “Laurel.” Thayer coloca uma mão dentro do bolso de sua bermuda e tira o celular. “Ela vem. Eu vou ligar para ela.” Uma pontada de ciúme perfura minhas entranhas. Eu não quero Laurel fazendo isso por ele. Eu não quero que minha irmã

partilhe o nosso segredo: ele ter voltado. Mas essa não é hora de ser territorial. Eu me sento, sentindo-me impotente. “Ok. Ligue para ela.” Thayer disca e eu ouço chamar. “Laurel?” Ele diz quando ela atende. “Sou... eu.” Há uma respiração profunda do outro lado, certamente Laurel está incrédula. Ela tem todo o direito de estar. Pelo que eu saiba, Thayer não tinha feito contato com ninguém desde junho. Com exceção de mim. “Eu estou ferido,” Thayer continua. “Eu preciso que você venha me buscar.” Thayer levanta uma mão. “Eu não posso explicar, ok? Eu só preciso que você vá comigo. Eu estou no Sabino Cânion.” Ele dá a ela o resto dos detalhes e eu percebo pela expressão aliviada dele que Laurel disse que viria. Quando ele desliga, eu descanso minha mão no queixo com a barba por fazer de Thayer. Ele parece muito gelado e seus olhos estão selvagens como o de um animal. Sangue pinga da ferida da cabeça. Toda vez que ele se move, ele estremece, sua perna está dobrada horrivelmente. “Sinto muito,” eu digo baixinho, tentando não chorar novamente. “Eu não entendo o que aconteceu. Eu não sei quem poderia estar nos seguindo. Eu nunca deveria ter sugerido para nós virmos aqui.” “Sutton.” As sobrancelhas de Thayer se estreitam em concentração. “Não foi sua culpa.” Mas não consigo deixar de achar que é. Eu tinha me assustado e fugido de Thayer. Eu tinha deixado minhas chaves caírem perto do meu carro. Eu curvo meu rosto para perto do de Thayer e descanso minha cabeça em seu peito. Todos os meus medos em relação a ele parecem tão infundados. Eu tinha me deixado ser pega pelos rumores sobre ele, em vez de confiar que ele me amava. Antes de eu perceber, faróis aparecem na estrada, como se Laurel estivesse esperando na esquina. Eu me levanto e Thayer me olha com surpresa. “Onde você vai?” “Eu tenho que me esconder,” eu digo a ele. “Ninguém pode saber que estávamos conversando. Laurel vai manter em segredo que você está de volta à cidade, mas não se ela souber que eu estou envolvida.”

Thayer olha chocado, talvez até um pouco assustado. “Mas...” “Acredite em mim,” eu interrompo. “Esse é o melhor jeito.” Eu pressiono meus lábios nos dele. Eu mal consigo forçar a mim mesma a se afastar, mas quando eu me afasto, eu digo a ele: “Eu vou entrar em contato assim que eu puder ─ procure meu bilhete.” Eu escalo até o lado de uma pequena colina cheia de areia do deserto e me escondo atrás de vários arbustos grossos. Os faróis ficam mais brilhantes e refletem pela trilha, iluminando as rochas e a lama escorregadia. O carro de Laurel derrapa, pára e a porta se abre. Ela sai rapidamente do carro e corre para o lado de Thayer, seu cabelo loiro voando. “Thayer,” ela grita, se agachando e colocando a mão no braço dele. “O que aconteceu? Você está bem?” “Eu vou estar.” O rosto de Thayer se enruga em uma careta. “Acho que minha perna está quebrada. Eu preciso que você me leve para um hospital... fora da cidade.” “Mas nós temos médicos incríveis aqui! Você poderia─” “Sem argumentos, Laurel. Por favor.” Laurel acena com a cabeça, olhando para o ângulo esquisito da perna de Thayer e parecendo assustada. “Vou fazer tudo o que você precisar que eu faça,” ela diz. Eu sei que ela está tentando parecer forte. Minha irmã ajuda Thayer a entrar no banco traseiro do carro para que ele possa se sentar com as pernas esticadas. Ele geme quando estica o corpo no banco. Eu tento ver um vislumbre dele, mas eu só consigo ver os tênis brancos de futebol balançando na borda do assento. Algo dentro de mim se rompe. Eu tenho um pressentimento horrível: Essa seria a última vez que eu veria ele. Esse pequeno beijo nos lábios seria o nosso último beijo de adeus. Logo depois que Laurel fecha a porta de Thayer, ela olha ao redor do matagal que cobre a clareira. Suas mãos tremem dos lados do corpo. Eu observo, impotente, enquanto ela encara com os olhos semicerrados. Ela procura através de cada arbusto e ramo espinhoso, um por um. Eu começo a me abaixar, mas é tarde demais. Seus olhos fixam nos meus. Ela pisca e respira profundamente antes de correr para o lado do motorista e fechar a porta com uma batida.

Uma rajada forte de vento sopra os galhos acima da minha cabeça. Minhas pernas estão trêmulas e eu enfio meus dedos na terra úmida para me equilibrar. Laurel dá a volta, girando o carro sobre a lama e as rochas. Ela liga os faróis dianteiros para iluminar o caminho traiçoeiro à frente. Então, ela acelera para a noite. Eu observo as luzes traseiras vermelhas desaparecem à distância, tentando não pensar em Thayer. Mas eu não consigo evitar. Eu penso nele estremecendo cada vez que o carro dá um solavanco. Eu penso em quando eu vou vê-lo outra vez ─ se eu vou vê-lo outra vez. E eu penso em como alguém usou meu carro para atropelar o garoto por quem eu estava apaixonada... Mas... quem?

CAPÍTULO VINTE E NOVE – COMO VENENO
Emma virou-se ao redor, pronta para se encontrar cara a cara com Thayer, pronta para defender-se contra alguém duas vezes o tamanho dela no meio do deserto, sem testemunhas. Mas ao invés disso, os olhos azuis penetrantes de Laurel olharam para ela. “O que você está fazendo aqui?” Laurel retrucou, retraindo a mão do ombro de Emma. Emma respirou, seu corpo ainda tenso. “Apenas dando um passeio,” disse ela, abrindo os punhos e descansando-os ao seu lado. Laurel colocou um dedo sobre os lábios. “Espere, deixe-me adivinhar,” disse ela, suas palavras cantadas com aborrecimento. “Eu aposto que você está aqui ligando para Thayer agora que ele saiu da cadeia.” Emma se encolheu. “Você sabe que ele saiu?” “O que, você achou que fosse a única?” O rosto de Laurel tornou-se uma carranca. “Eu gostaria que você o deixasse em paz. Ele não precisa mais de você, Sutton. Você já fez o suficiente.” Emma olhou para ela. “Do que você está falando?” Será que Laurel queria dizer quando Sutton tinha atropelado Thayer com seu carro? Como ela poderia saber sobre isso? Laurel cruzou os braços sobre o peito e revirou os olhos. “Eu estou tão cansada disso. Eu sei. Eu sei o que você está escondendo.” Emma piscou para ela. O ar da noite estava pesado e silencioso entre elas. O pânico tomou conta de seus membros. Escondendo? Ela estava falando sobre a verdadeira identidade de Emma? E se ela tivesse descoberto? Thayer tinha dito a ela? “Você vai ficar aí e fingir que você não tem idéia do que estou falando, não é?” Laurel perguntou, seus olhos arregalados. Pequenos ruídos de raspagem soaram na vegetação rasteira enquanto alguns animais corriam entre os cactos. Um arrepio correu ao longo da parte de trás das pernas de Emma e ela

tentou manter seu olhar fixo mesmo assim. A última coisa que ela queria era mostrar o quanto ela estava com medo. “Eu fui a única que o salvei, afinal,” Laurel cuspiu. Ela puxou seu cabelo loiro mel em um rabo de cavalo e olhou para Emma como se ela estivesse esperando que ela se defendesse. Um baixo ruído de zumbido soou. Emma não podia ter certeza se era a música da festa ou os insetos do deserto que pululavam à distância. De quem Laurel o tinha salvo? De Sutton? “Eu não tenho idéia do que você está falando, Laurel,” disse ela, finalmente, fazendo sua voz soar tão condescendente quanto possível. Laurel inclinou a cabeça para o lado e cavou os calcanhares no chão. “Eu vi você se esconder nos arbustos após Thayer ser atropelado por um carro no Sabino Cânion. Ele negou, mas eu sei que você estava com ele.” Ela mudou seu peso e cruzou os braços sobre o peito. “Por que você estava se escondendo? Por que você o jogou para cima de mim? Para que eu pudesse leválo ao hospital para ser tratado? Era muito para você lidar?” Ela deixou cair o queixo e balançou a cabeça. “Ou era apenas o seu MO* habitual?” (*Modus Operandi: Modo de Operação). Ela olhou para Emma por um longo momento antes de baixar a voz para dizer, “Você criou confusões demais para você mesma lidar.” “Não!” Eu gritei para minha irmã. “Eu me escondi porque estava com medo de que você não fosse ajudar Thayer no que ele precisasse se você soubesse que eu estava envolvida! Eu estava tentando fazer o melhor para ele!” Mas é claro que ela não me ouviu. Pensei de novo sobre a memória que eu tinha acabado de ver. Eu me sentia idiota por estar tão convencida de que Thayer tinha me assassinado a sangue-frio, quando agora eu percebo que ele estava apenas tentando me proteger. A angústia de vê-lo deitado, torcido e ferido, estava fresca e crua. Quem poderia tê-lo atingido com meu carro e apenas fugir assim? Talvez quem tinha estado nos perseguindo. O que significava que Thayer poderia saber quem é meu assassino, mesmo sem saber que estou morta. Emma, por sua vez, piscou para as palavras de Laurel. Ela tentava entender o que elas significavam. Parte disso fazia sentido ─ Thayer foi atropelado por um carro que o deixou manco. Mas ela não tinha idéia de que Laurel tinha sido

envolvida naquela noite. E pela maneira que Laurel estava falando, parecia que Sutton não tinha sido a única a atropelar Thayer. “O que mais você sabe?” Perguntou ela lentamente. “O que mais você viu?” Se Laurel tinha visto Sutton se escondendo, talvez ela tivesse visto alguém lá também. O verdadeiro assassino de Sutton. Um coiote uivou sobre as rochas. Laurel olhou em sua direção e suspirou. “Se você quer dizer se eu vi o que vocês dois estavam fazendo, eu não vi. E eu também não sei quem atropelou nele. Ele não me disse nada do que aconteceu. Você sabe quem o atropelou? Você está fazendo ele ficar quieto sobre algo?” “Eu não sei de nada,” disse Emma. Era a verdade. O vestido de seda de Laurel ondulava ao vento. Ela correu as palmas das mãos sobre os braços nus. “Tudo o que você fez no mês passado foi me importunar sobre a noite de trinta e um de agosto, tentando me fazer contar que eu estava com Thayer. Pensando que eu não sabia que você estava lá. É por isso que você me perguntou repetidamente o que eu estava fazendo naquela noite, não é? Porque você queria saber se eu vi você? Bem, eu vi. Eu vi você, escondida entre os arbustos e abandonando Thayer quando ele mais precisou de você.” Ela franziu o rosto dela com repugnância. “Como você pode ter feito isso? E como você pode ter gritado quando ele entrou em seu quarto? Você está tentando arruinar a vida dele?” “Sinto muito,” Emma deixou escapar. “Desculpa não é bom o suficiente,” Laurel rosnou. “Você precisa ficar longe dele. Ele me disse isto. Toda vez que você está ao redor dele, algo terrível acontece.” “Espere, ele disse isso?” Emma perguntou, rebobinando. “Quando você falou com ele?” Laurel baixou as mãos para seus quadris. “No caminho para o hospital. Eu sou a única que se preocupa com ele, Sutton. Eu fui a única que o levou para o hospital, onde ele ficou em cirurgia durante toda a noite. E eu fui a única que pagou sua fiança, no caso de você não ter percebido isso ainda, enquanto você estava andando por aí, junto com seu novo namorado.” “Você pagou a fiança dele? Como?” Laurel cruzou os braços sobre o peito. “Se você quer saber, eu tinha dinheiro guardado. E com o título que vovó me deu

anos atrás e todo o dinheiro que as pessoas contribuíram para a campanha Thayer Livre, foi o suficiente. Mas por que você se importa? Thayer, obviamente, não importa para você. Então, basta deixá-lo em paz, ok?” Com isso, ela virou-se e marchou de volta para a festa. Emma passou as mãos ao longo de sua face, repassando repetidamente tudo o que Laurel havia dito em sua mente. As coisas tinham dado uma reviravolta novamente. Então... Thayer não tinha matado Sutton? Ele tinha deixado Sutton viva, então Laurel o tinha levado para o hospital. Mas havia muitas perguntas sem respostas. Tinha que ter sido o carro de Sutton que atingiu Thayer, mas quem estava dirigindo? Era outra pessoa que estava com eles naquela noite, alguém que não queria que eles ficassem juntos? Ou alguém que tinha roubado o carro de Sutton? Se eu soubesse de quem Thayer estava me protegendo. De quem estávamos fugindo. Quem estava sentado ao volante quando o carro foi em direção a ele. Mas eu não sabia de nada disso. Tudo o que vi a partir daquele momento, quando Laurel e Thayer fugiram, era escuridão. E com a escuridão veio uma compreensão horrível: Emma e eu estávamos de volta à estaca zero.

CAPÍTULO TRINTA – QUEIJO, LEITE E EX-PRESIDIÁRIO
Na manhã de sábado, Emma entrou no estacionamento da mercearia Trader Joe e estacionou o Volvo de Sutton em um local privilegiado em frente à loja. Depois que ela desligou o motor, ela abriu a lista de compras que a Sra. Mercer lhe dera naquela manhã. Ela incluía coisas como manteiga tahini, suco kimchee e leite de amêndoa sem açúcar. “Você sabe quão detalhista a vovó é,” a mãe de Sutton havia avisado quando ela lhe deu a lista, explicando cada item. “Compre estas coisas exatamente como eu descrevi, ou eu vou ter uma sogra muito mal-humorada em minhas mãos.” Toda a família estava se preparando para a chegada da Avó dos Mercers na próxima semana para a festa de aniversário de seu filho. Aparentemente, a vovó era um pouco difícil de se lidar. Emma observou uns clientes saírem da mercearia, sorrindo e segurando sacolas de papel pardo, e suspirou. Todos eles pareciam tão felizes e despreocupados. Ela tinha certeza absoluta de que ela era a única cliente da Trader Joe que tinha passado a noite anterior atormentada por um suspeito de assassinato sair de sua lista. Quando ela saiu do carro, o ar quente de Tucson grudou-se na parte de trás de seu pescoço. Ela puxou seus cabelos castanhos em um rabo de cavalo e verificou seu reflexo na janela do carro. Ela estava prestes a ir em direção as portas da frente quando viu uma figura familiar saindo de um BMW azulmarinho do outro lado do estacionamento. Ela sentiu seu interior revirar e um aumento de calor nas bochechas. Thayer. Ele não tinha visto ela. Emma poderia virar e correr em outra direção, mas agora que ela sabia que ele era inocente, ela lhe devia um pedido de desculpas. Suas pernas estavam inseguras quando ela atravessou o estacionamento em direção ao carro. Ela forçou-se a ir para a frente até que ela estava a poucos centímetros dele. “Thayer?” Sua voz saiu trêmula. Alguma coisa sobre ele ainda a deixava muito nervosa.

Thayer se virou e olhou. Sua camiseta branca estava amarrotada e sua bermuda cargo verde do exército pendia para baixo como se fossem grandes demais para ele. Sua mandíbula se apertou e ele passou a mão pelos cabelos. “Oh. Oi.” “Você saiu da prisão,” disse Emma, imediatamente sentindo-se estúpida. “Isso é um problema?” Thayer inclinou-se sobre o capô do BMW, examinando Emma cuidadosamente. Quase como se ele soubesse que ela não era a garota por quem ele se apaixonou. Mas Emma estava sendo paranóica. Sabia agora que Thayer não tinha idéia sobre a troca de gêmeas. Ele não era o assassino de Sutton. “Olha, eu sinto muito sobre a maneira como as coisas aconteceram,” disse ela suavemente. “Com respeito a... você sabe. Àquela noite. Ao hospital.” Ela segurou o olhar de Thayer, querendo fazer ele acreditar nela, querendo que ele soubesse que Sutton não queria machucá-lo. Eu também queria que Thayer soubesse disso. O rosto de Thayer suavizou-se ligeiramente. Ele mexeu com a alça da mochila preta pendurada em seu ombro. “Olha, Sutton. Eu realmente não deveria ficar por perto de você.” “Eu sei,” disse Emma rapidamente, de repente nervosa. Ela levantou a mão para sombrear seus olhos e mudou seu peso das sandálias de Sutton. “Laurel me disse. Eu arruíno a sua vida cada vez que eu estou perto de você.” Um olhar confuso passou pelas feições de Thayer. “Uh, não. Eu não posso ficar perto de você porque o seu pai me disse isso. Eu recebi um telefonema dele esta manhã.” Sua expressão escureceu com a menção do Sr. Mercer. “Ele disse que se ele me pegasse saindo com você ou Laurel, ele descobriria como me jogar de volta na cadeia.” Emma fez uma careta. “Por que ele te odeia tanto?” Thayer inclinou seu queixo e deu a Emma um olhar ponderado que a fez sentir como se ela tivesse feito uma pergunta que Sutton saberia a resposta. “Quero dizer...” Emma continuou, deixando uma pausa pesada entre eles, esperando que Thayer contasse a ela tudo o que ele não estava dizendo. Mas ele apenas olhou para ela de forma significativa, os olhos em pequenas fendas. “Eu tenho que ir,” ele murmurou finalmente, e virou em direção à loja. Mas alguns passos de distância, ele se virou e

olhou para trás, correndo a mão bronzeada sobre a nuca. “Na verdade, há algo que eu tenho vontade de lhe perguntar.” Emma engoliu em seco. Algumas filas atrás, um alarme de carro disparou. Um idoso empurrou um carrinho de compras vazio na área dos carrinhos. Ela olhou para Thayer e esperou a sua pergunta. Ela esperava que ela soubesse a resposta. Thayer olhou para os seus surrados Converse. “Por que você não respondeu às minhas notas?” Emma mexeu-se para pensar. Quando ele tinha se referido às suas notas, ela assumiu que ele queria dizer a nota que alguém tinha deixado presa no carro de Laurel, alertando Emma que Sutton estava morta e que ela precisava jogar junto dele. Mas agora ela percebeu que ele deve ter querido dizer outra coisa. “Eu mandei e-mails e e-mails,” continuou Thayer. “Mas você nunca me respondeu de volta. Foi por causa do acidente? Porque eu quebrei minha perna e não seria mais o Sr. Atleta?” “Não é nada disso,” Emma disse suavemente. “Claro que não é,” eu sussurrei junto. A mente de Emma correu, juntando os pedaços do que Thayer estava dizendo. Sutton e Thayer tinham algum tipo de correspondência por e-mail secretamente. Claro que Sutton não teria escrito a ele após a última noite que eles viram um ao outro ─ ela estava morta. E, naturalmente, quando Emma tomou o lugar de Sutton, ela não tinha como saber qual era o endereço de email secreto. “Me desculpe por eu não entrar em contato com você,” disse Emma. “Eu teria, se...” “Me poupe,” Thayer interrompeu. Ele encolheu os ombros e levantou o olhar para dar-lhe um olhar longo. “Eu senti sua falta, Sutton. E eu estava com tanta raiva quando você me tirou de sua vida. Você foi a única pessoa que me entendeu. Mas agora você está agindo como se você não soubesse quem eu sou. Eu fui ao seu quarto naquela noite, porque eu queria te dizer a verdade sobre onde eu estive. Eu mandei um e-mail para você dizendo que eu estava chegando, mas eu acho que você não o viu. Mas então você agiu com medo de mim. Como se eu fosse te machucar.” “Eu sei e eu sinto muito,” disse Emma, com os olhos baixos. “Eu estava confusa e surpresa. E estúpida. Foi um erro.” “Eu só queria que você ouvisse,” disse Thayer. Ele parecia tão perdido que Emma estendeu a mão e tocou-lhe o braço. Ele

não se afastou, então ela chegou um pouco mais perto e cruzou os braços sobre os ombros dele, apertando firmemente. De primeira, Thayer permaneceu rígido e fechado, mas logo ele derreteu-se para ela, enterrando a cabeça em seu pescoço e passando as mãos para cima e para baixo de seus braços. O movimento era tão apaixonado e real. Estava evidentemente claro para Emma o quanto ele se importava com Sutton. E a dor que eu sentia por dentro tornava notavelmente claro o quanto eu gostava dele. E como eu tinha sido estúpida ao deixá-lo ir. Se eu tivesse ido com Laurel para o hospital. Se tivéssemos ido todos juntos, talvez eu não estivesse morta agora. Thayer traçou uma linha do ombro de Emma até seu pulso antes de puxar a mão e olhar envergonhado. “Eu não deveria ficar irritado, realmente,” disse ele. “Você teve suas razões para não ler minhas mensagens e não escrever de volta. Eu sei que eu venho sendo duro. Eu sei que eu fiquei muito exaltado, furioso e insensível. E eu não estava contando tudo a você. Você queria saber o que aconteceu comigo e eu nunca te disse. Mas não era porque eu não confiava em você. Era porque... bem, eu estava envergonhado.” Um sorriso triste atravessou seu rosto. “Eu fui para a reabilitação, Sutton. Por abuso de álcool. Era apenas algo que eu tinha que fazer por conta própria. Eu estava tão irritado, o tempo todo. Eu bebia para anestesiar tudo, mas apenas tornava tudo pior.” “Reabilitação?” Emma piscou. “Você está... bem?” Thayer assentiu. “Eu tinha um médico fantástico e foi uma experiência tão significativamente útil que eu fiz isso.” Ele arregaçou a manga e mostrou-lhe a tatuagem em seu braço de uma águia voando. Emma olhou para ele, pensando em sua conversa com a enfermeira do Dr. Sheldon. “Você fez todo o programa?” “Bem, eu fiquei preso no hospital por causa da minha perna por um tempo, e então eu saí pouco antes de meu médico me dar alta, mas eu estava pronto para voltar a Tucson. Para ver você,” disse Thayer sinceramente. “Eu também disse aos meus pais onde eu estava. Meu pai ficou horrorizado, é claro, mas ele está se recuperando, especialmente agora que eu estou limpo. Ele até me deixou voltar para casa, mas vamos ver em que isso vai dar.”

“Isso é... incrível,” disse Emma lentamente, absorvendo tudo. Ela pensou sobre o site do HPS. Emma tinha acabado de assumir que Thayer foi trancado na ala psiquiátrica do hospital, mas é claro que um centro de reabilitação poderia ser parte de uma instalação de saúde mental. “E depois há isto.” Thayer mostrou-lhe a pulseira de cordão em seu pulso, sorrindo ironicamente. “Lembra quando nós brigamos por isso porque uma garota o fez pra mim? Mas Sutton, ela tem cinquenta e dois anos, tem um marido e três filhos.” Deixei escapar um longo suspiro, lembrando a briga que eu e Thayer tínhamos tido no Sabino Cânion, a única que tinha expulsado dessa cadeia de acontecimentos estranhos. Eu sentia ciúmes, certa de que Thayer foi em algum lugar legal e interessante sem mim. Se ele tivesse sido honesto. Se eu não tivesse tirado conclusões. Thayer soltou um suspiro e descansou a mão grande sobre o capô de seu carro. “Sabe, Sutton, você parece... tão diferente. O que mudou?” Emma lambeu o lábio inferior e sentiu o sabor de melancia do brilho labial de Sutton. Sem dúvida Thayer conhecia bem sua irmã gêmea. Uma parte dela desejava lhe dizer a verdade, agora que ela sabia que ele era inocente. Ele se importava tanto com a sua irmã que ele poderia ajudar ela e Ethan. Mas ela não o conhecia bem o suficiente para confiar-lhe o seu segredo, ainda não, de qualquer maneira. “Nada mudou,” disse ela tristemente. “Eu sou exatamente quem eu sempre fui. Acabei... crescendo um pouco.” Thayer assentiu, embora parecia que ele não entendia o que ela estava dizendo. “Eu acho que eu cresci, também,” ele murmurou. “Reabilitação e cadeia fazem isso com você.” Os dois olharam um para o outro. Emma não tinha certeza o que mais havia a dizer. Dando de ombros, ela deu-lhe um pequeno aceno e virou em direção à loja. Quando ela olhou por cima do ombro, Thayer ainda estava olhando para ela, talvez esperando que ela voltasse para ele. Mas ela não o fez. Ela não conhecia Thayer e ela estava com Ethan agora. Quando Emma não voltou para ele, o rosto de Thayer desmoronou. Ele parecia devastado.

Eu estava devastada também. Thayer não entendia por que eu já não o amava mais. E a menos que Emma resolvesse o meu assassinato, ele nunca iria obter a resposta.

CAPÍTULO TRINTA E UM – CONHEÇAM OS MERCERS
Naquela tarde, Emma sentou-se na varanda da frente dos Mercers e folheou uma edição brilhante da revista Elle de Laurel. Um fraco cheiro cítrico flutuava do pé de limão do vizinho e os sons de um caminhão de sorvete tiniam na rua ao lado. A mãe de alguém da equipe de tênis que caminhava com seu golden retriever, deu a Emma um aceno justamente na hora em que Ethan estacionou seu Honda no meio-fio. O motor engasgou e bravejou quando Ethan desligou a ignição. O coração de Emma deu uma pequena sacudida quando ele saiu do carro. Ethan parecia nervoso quando levantou a mão para acenar. Naquele momento, o Sr. Mercer surgiu da garagem segurando um pano branco coberto de manchas pretas de graxa. Ele ergueu os olhos com surpresa, mas depois deu de ombros e deu a Emma um pequeno sorriso. Ethan subiu os degraus da frente, também observando o pai de Sutton. “Está tudo bem que eu esteja aqui?” “Está mais do que bem,” Emma respondeu. “Eu disse a eles sobre nós no café da manhã.” De agora em diante, não haveria mais nada para esconder. Eles poderiam ser amigos ─ e mais ─ abertamente. O telefone do Sr. Mercer de repente tocou alto. O pai de Sutton, que estava fingindo estar concentrado em polir sua motocicleta, mas claramente estava observando a interação entre Emma e Ethan, olhou para o identificador de chamadas. Seu rosto escureceu e ele xingou em voz alta. Ele foi para dentro da garagem para atender a ligação. “Que estranho,” disse Emma, com os olhos na garagem. “Talvez seja uma ligação de trabalho.” Ethan forçou um sorriso, mas Emma sabia que ele estava desconfortável. “Um paciente do hospital descontrolado.” A porta do carro bateu e um motor foi ligado. O Audi do Sr. Mercer saiu da garagem de ré. Emma deu um aceno de adeus para ele, mas o Sr. Mercer nem sequer a notou. Seu rosto estava tenso quando ele levou o carro até a rua e pisou no acelerador. Ele desviou e apertou a buzina quando dois garotos passaram

de skate perto dele. Emma fez uma careta. Talvez aquele telefonema tenha sido uma emergência de trabalho. “Lembre-me de não irritar esse cara,” disse Ethan, passando a mão pelos cabelos escuros. Ele se sentou ao lado dela e Emma contou a ele tudo o que ela tinha descoberto na noite anterior ─ a festa tinha sido muito barulhenta e povoada para conversar, e Laurel estava com eles no carro no caminho de volta para casa. As sobrancelhas de Ethan subiram mais e mais quando ela explicou que Thayer não poderia ter matado Sutton. “Deixe-me ver se eu entendi,” Ethan falou depois que Emma terminou. “Na noite que Sutton morreu, alguém atropelou Thayer com o carro de Sutton?” Emma acenou com a cabeça. “Definitivamente não foi Sutton que atropelou ele. Alguém deve ter roubado o carro e deixado no deserto. Talvez essa pessoa tenha voltado e matado Sutton, também.” “Mas quem?” “Eu não sei. Eu quis perguntar a Thayer, mas poderia me fazer parecer suspeita se eu não soubesse.” Uma rajada forte de ar irrompeu e Ethan se encolheu de repente, fazendo Emma sorrir. “Com medo de um pouco de vento?” Ela brincou. “Muito engraçado,” Ethan disse, examinado o gramado. “Eu estou com medo de quem quer que tenha matado Sutton ainda estar lá fora,” ele sussurrou. “Eu sei,” Emma disse, tremendo apesar do calor. “Eu também.” Uma carranca se formou no rosto de Ethan. “Se não foi Thayer, quem foi? Todos os sinais apontavam para ele. Fazia todo sentido ser ele. E eu ainda acho que ele é perigoso.” Emma deu de ombros. “Mesmo ele sendo problemático, não foi ele. Acha que é demais achar que o assassino deixou a cidade? Eu não tenho notícias dele, ou dela, desde o baile.” “Talvez.” Ethan dobrou o tornozelo sobre o joelho e olhou de soslaio para Emma. “Mas algo me diz que seria bom demais para ser verdade. Quem quer que seja ainda pode estar lá fora. Eu estou pronto para descobrir a verdade se você estiver.” “Definitivamente,” Emma sussurrou. Ela descansou o rosto no ombro de Ethan. Ele beijou o topo da testa dela e ela inclinou o queixo para encontrar os lábios dele. Ethan retribuiu

o beijo, envolvendo os braços em volta da cintura dela e puxando-a para perto. Ele estendeu a mão para acariciar os cabelos macios que emolduravam o rosto dela. Ele beijou-a suavemente, seus lábios se encaixando perfeitamente com os dela, fazendo Emma querer que o tempo congelasse. Ela nunca teve um namorado de verdade, e agora ela tinha alguma coisa ─ alguém ─ mais maravilhoso do que ela poderia ter imaginado. Um carro parou na calçada, e Emma e Ethan se separaram. A porta de um carro BMW azul se abriu e Thayer saiu. Emma sentiu Ethan endurecer ao lado dela. “Oh!” Emma disse. “Uh, ei, Thayer.” O que ele estava fazendo aqui? Não foi justamente essa manhã que o Sr. Mercer o havia advertido que se mantivesse longe? “Não pare por minha causa,” Thayer disse com uma voz sarcástica, seus braços cruzados sobre o peito. Ele caminhou lentamente pelo jardim da frente. Mesmo mancando, ele tinha esse tipo específico de confiança que o fazia parecer tranquilo. “Então. E aí?” “Nós já estamos saindo,” disse Emma estupidamente, atrapalhando-se com as palavras. “Nós?” Os olhos claros de Thayer foram levados a algum lugar perto de Emma. Quando Emma virou a cabeça, ela viu Ethan andar rapidamente para fora da varanda. Seus tênis chutavam o cascalho enquanto ele percorria a calçada em direção ao seu carro. “Ethan?” Emma chamou. “Para onde você vai?” Ethan não respondeu, ele apenas caminhou a passos largos. Era como se ele não pudesse fugir rápido o suficiente. Suas mãos se atrapalharam com as chaves quando ele entrou no carro. Ele pisou no acelerador e num piscar de olhos, ele tinha ido embora. Emma olhou para a fumaça saindo do cano de escape. Que diabos foi aquilo? Próximo a ela, Thayer fez um tsk com a língua. “Por que você e suas amigas não deixam o pobre rapaz em paz?” “O que você quer dizer?” Emma perguntou raivosa. Thayer levantou as mãos em sinal de rendição. “Não se irrite comigo!” Ele apoiou um tênis na varanda e se inclinou para frente, flexionando sua panturrilha. “Na boa, Sutton. Primeiro foi a brincadeira que o pobre garoto perdeu a bolsa de

estudos de ciências e agora você está fingindo um relacionamento com ele?” Emma encarou ele, tentando entender. Lentamente, ela compreendeu. Thayer tinha presumido que Sutton estava beijando Ethan, que isso tinha sido parte de alguma brincadeira que ela e suas amigas estavam tramando para o Jogo da Mentira. Emma abriu a boca, querendo deixar claro que ela e Ethan definitivamente eram um casal real, mas ela se lembrou de como ele parecia magoado no estacionamento e não quis jogar sal na ferida. “Então o que você está fazendo aqui?” Emma perguntou, decidindo mudar de assunto. “Eu pensei que você estava com medo do meu pai.” Thayer deu de ombros. “Laurel disse que está tudo limpo. Eu vim por causa dela ─ faz muito tempo que conversamos.” Ele se moveu na direção de Emma para entrar na casa e pausou um momento ao lado dela, como se quisesse dizer mais alguma coisa. Ele estava tão perto que Emma podia sentir o cheiro do sabonete e das roupas limpas. Suas pernas descobertas eram longas e musculosas. Seus tênis brancos de futebol eram gastos e estavam cobertos de sujeira, como se ele tivesse acabado de sair do campo. Ele lembrava ela de todos os atletas gostosos e inatingíveis com quem Emma nunca tinha falado na escola, aqueles que nunca tinham prestado atenção nela. Ela rapidamente voltou à realidade. Ok, então Thayer era bonito. Mas Ethan era o namorado dela. De repente, uma sensação de picadas atravessou toda a parte de trás do pescoço de Emma. Ela virou-se, certa de que estava sendo observada. Uma brisa balançou as folhas de um salgueiro alto. Aves subiram em grupo, chamando umas as outras com pequenos gritos. Emma olhou ao redor, finalmente percebendo um rosto na janela. Era Laurel, olhando para ela e para Thayer da sala de estar. Emma levantou a mão em um aceno, mas Laurel apenas continuou olhando. Seus olhos claros enviaram um arrepio diretamente para os ossos de Emma. Ela parecia furiosa o suficiente para matar.

EPÍLOGO
Enquanto eu observava Laurel olhar furiosa para Emma, um flash de memória passou invadindo minha visão. Eu me vi escondida no matagal depois de Thayer ter sido atropelado. Eu me senti tão perturbada, tão dominada pela culpa e medo pela segurança dele. E então, eu vi dois olhos se encontrarem com os meus. Laurel olhava para mim com uma raiva ardente. Através de seus olhos ela me disse que me culpava pelo que tinha acontecido com Thayer. E eu tive uma sensação estranha de que ela ia fazer mais do que apenas olhar para mim. Seu olhar me dizia que ela queria atravessar o mato e me ensinar uma lição para todas as vezes que eu estraguei tudo. Ela parecia querer me machucar ─ e ela parecia que queria fazer o mesmo com Emma agora. Em instantes, o rosto de Laurel desapareceu da janela. Thayer entrou na casa para vê-la. Minha gêmea permaneceu na varanda, rebobinando tudo o que tinha acontecido, com muito medo de admitir o que ela tinha acabado de ver. Mas eu não conseguia deixar de meditar em minha mente sobre isso. Sim, eu tinha excluído Laurel como suspeita. Ela tinha estado na festa do pijama de Nisha a noite inteira na noite em que eu morri. Mas havia algo nesse fato que não se encaixava. Se Laurel havia resgatado Thayer do Sabino Cânion, então ela não tinha estado na casa de Nisha a noite inteira. Ou Nisha havia se enganado... ou mentido ... ou Laurel havia escapado sem que ela soubesse. E se Laurel tinha escapado de Nisha, por que não poderia ter escapado de Thayer, também? Ela o deixou no hospital, depois voltou para onde eu estava, enquanto ele estava em cirurgia. Ela parecia tão furiosa. Eu havia arruinado sua vida amorosa. Eu tinha tido um encontro secreto com ele, um encontro que ela queria ter. Eu tinha conseguido tudo o que ela sempre quis... Eu odiava pensar que alguém com meu próprio sangue poderia ter feito tal coisa. Mas esse era o problema: Laurel não era do meu próprio sangue. Claro, nós havíamos crescido sob o

mesmo teto, vivíamos pelas mesmas regras que os nossos pais haviam imposto, mas sempre houve um abismo muito grande entre nós. Eu era adotada; ela não era. Nós nunca deixávamos a outra esquecer disso. A única que tinha o mesmo sangue que eu era Emma. E Emma precisava de respostas, e rápido. Porque parecia que meu assassino poderia estar mais perto do que qualquer uma de nós tínhamos percebido, talvez até mesmo sob o mesmo teto.

FIM...
A história continua no terceiro livro: “Hide and Seek”

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