rais que influenciaram a democracia social do Ocidente”, disse-nos Archie Brown numa entrevista por email.

“A sua doutrina, ideologicamente focada na tomada revolucionária do poder e na construção do socialismo, não admitia princípios como a divisão de poderes, pesos e contrapesos, um pluralismo político genuíno ou a responsabilização política”. Não surpreende, por isso, que, até pelo facto de o primeiro estado comunista ter sido criado na Rússia, um país de antiga tradição autocrática, o regime legado por Lenine fosse “altamente autoritário, mesmo totalitário entre 1930 e a morte de Estaline”. Ou seja, para Archie Brown “a culpa foi mesmo das ideias”: “não se tratou de um caso em que boas ideias foram mal aplicadas – as ideias originais eram incompatíveis com uma democracia genuína”. Por isso mesmo “nenhum Estado governado por um Partido Comunista se tornou numa democracia – até a própria União Soviética só se democratizou quando Gorbachev começou a abandonar o leninismo e a aceitar, entre outras coisas, o pluralismo político e a transferência do poder supremo dos ór-

gãos do partido para os órgãos do Estado”. “Ascensão e Quedo do Comunismo” conta-nos, por isso, antes de tudo o mais, a história de como o movimento comunista não só tomou realmente forma na Rússia de Lenine, como quase toda a sua história está ligada à história quase paralela da ascensão e queda da União Soviética. Com enorme erudição e uma grande mestria na escolha dos detalhes que melhor ilustram o seu imenso painel sobre a história do comunismo, Archie Brown conta-nos como o leninismo se afirma como doutrina autónoma nas esquerdas socialistas e, depois, como o triunfo dos bolcheviques deu aos comunistas não só um exemplo a seguir ou uma retaguarda para se refugiarem, mas também lhe deu, ou impôs, uma liderança universalista. Entre as duas guerras a história do comunismo é a história de como Estaline sucedeu a Lenine e impôs a sua vontade quer na URSS, usando e abusando do “terror”, quer ao movimento comunista internacional, forçado a uma obediência incondicional. A vitória na II Guerra – que Estaline crismou de “Grande Guerra Patriótica”

Como se chegou aqui a partir do utopismo ainda presente em Marx, para não falar de todos os que antes dele namoraram a ideia da igualdade absoluta que o comunismo um dia proporcionaria? A resposta passa por Lenine e pelo triunfo do seu partido na Revolução Russa de Outubro de 1917

– possibilitou a ascensão ao poder de mais partidos comunistas, primeiro no Leste europeu e na zona de influência de Moscovo. É interessante a forma como nesta obra se descreve a forma como os diferentes partidos comunistas chegaram ao poder “aos ombros” do Exército Vermelho e como, nos dois únicos países onde isso não sucedeu – na Jugoslávia e na Albânia os comunistas locais dirigiram lutas de libertação vitoriosas – isso possibilitou um grau de autonomia que, em poucos anos, levaria à ruptura com Moscovo. O mesmo sucederia, poucos anos depois, na China, onde a revolução encabeçada por Mao Tse-Tung também triunfaria longe da influência directa dos soviéticos, não tardando muito um divórcio que se transformaria no maior cisma da história do movimento comunista, pois as suas ondas de choque reflectiram-se em dezenas de outros partidos por todo o mundo. O comunismo asiático (com a improvável companhia do comunismo cubano) revelar-se-ia contudo mais resiliente do que o comunismo centro-europeu. Quatro dos cinco estados onde o poder continua nas mãos
SERGEI KARPUKHIN/REUTERS

de um Partido Comunista ficam na Ásia, o que Archie Brown pensa dever-se, antes do mais, ao facto de “o anti-colonialismo e o nacionalismo ter reforçado os movimentos comunistas asiáticos, exactamente o contrário do que sucedeu na Europa Central, sobretudo nos países que só se tornaram comunistas por força da presença do Exército Vermelho”. Mas Marx não se surpreenderia apenas com a singular geografia do comunismo contemporâneo: também ficaria surpreendido com o papel que as mais diferentes figuras históricas tiveram no seu desenvolvimento, muitas vezes, senão sempre, contrariando os determinismos económicos e sociais. Pelo menos na visão de Archie Brown que, de forma consistente, explica ao longo das mais de 700 páginas deste volume o papel de Estaline no totalitarismo dos anos 30 e 40, o papel de Khrushchev na desestalinização dos anos 50, o papel de Mao nos desvarios do Grande Salto em Frente e da Revolução Cultural, o papel de Fidel na opção cubana pelo comunismo, o papel de Dubcek na Primavera de Praga, por fim o papel de Gorbatchov em todo o processo que, entre 1985 e

Como foi que Gorbatchov permitiu uma abertura que acabaria por provocar o fim da própria União Soviética? Porque era um reformista que evoluiu durante o próprio processo da Perestroika e que, ainda antes do fim da URSS, já nem sequer seria um comunista, antes um social-democrata

brigado” a Gorbatchov
Ípsilon • Sexta-feira 3 Dezembro 2010 • 31

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