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1952: a primeira eleição de Cascavel

Caminhão do vereador Jacob Munhak transporta eleitores para votar: nada era proibido, nem comprar votos

O domingo amanheceu chuvoso. Nas ruas e estradas, o barro vermelho se agarrava às galochas, mas o eleitorado compareceu às urnas em peso. Pela primeira vez, os cascavelenses iam às urnas para eleger seu prefeito. Concorriam Tarquínio Joslin dos Santos (PR), Neves Formighieri (PTB) e Ramiro de Siqueira (UDN). É o dia 9 de novembro de 1952. Nada era proibido. Um tempo de comícios alegres, sem tiroteios. O convívio amistoso entre os candidatos, que se respeitam. Nenhum panfleto apócrifo caluniando adversários. O que mais se pareceu com isso foi uma faixa no centro da “cidade” – nada além de uma vila espichada nos dois lados da rodovia federal – “acusando” o farmacêutico Tarquínio Joslin dos Santos, o favorito nessa disputa, de pertencer ao clandestino Partido Comunista Brasileiro (PCB). Menos o PCB, tudo é permitido, até comprar voto. Candidatos transportavam livremente os eleitores às urnas em caminhões cobertos de faixas e cartazes, driblando as poças d’água. Não há “cabos eleitorais”. Os próprios candidatos e suas famílias entregam os “santinhos” na boca de urna.

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Tarquínio e dona Diva Santos ladeiam o filho Ozíres, vereador de Cascavel que se elegeu prefeito de Foz do Iguaçu em 1965

Terminada a votação, uma caravana parte em direção a Foz do Iguaçu, sede da Comarca, levando as urnas. Há uma certeza geral de que Tarquínio venceu a eleição. De estranho, apenas a ausência do candidato favorito no comboio de veículos, a maioria jipes, que seguiu para Foz. O que havia acontecido com Tarquínio? Como seu eleitorado era mais urbano e a maioria dos eleitores vivia no interior, Tarquínio saiu bem cedo para fazer o transporte de eleitores às urnas. Retardado pelas chuvas e por uma pane em seu veículo, ele só pôde retornar à cidade no fim da tarde, quando a votação já havia se encerrado. Ele próprio nem conseguiu votar em si mesmo.

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Só Ramiro de Siqueira, da UDN, reconheceu a derrota. Tarquínio entrou com recurso junto ao TRE, mas apresentou desistência em 1955 por estar satisfeito com a gestão de Neves Formighieri (foto)

D. Diva, esposa de Tarquínio, esclareceu o que houve nesse domingo de eleição: “O Tarquínio não esqueceu de votar. Ele estava no interior, lá pelas bandas de São João, buscando eleitores e o carro, que era velho, quebrou”. Como as urnas já haviam seguido para Foz do Iguaçu, Tarquínio imediatamente seguiu para a fronteira. Ao chegar, a junta de escrutínio já havia conferido os votos dos demais municípios da região e começava a apuração de Cascavel. Os primeiros votos davam boa dianteira a Tarquínio, como todos esperavam. Nesse momento ele se sentiu mal: fazia muito calor e estava cansado pelas viagens. Alguém o convidou a “tomar um ar lá fora”. Ele foi, mas minutos depois quis retornar. Quando volta, ouve um alarido: José Neves Formighieri comemora a vitória por um voto de diferença.

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Acampamento militar em Cascavel, em 1951, ano da criação do Município

O candidato petebista somou 383 votos contra 382 de Tarquínio. Ramiro de Siqueira conquistara 128 votos. Imediatamente correu a versão de que Tarquínio havia se esquecido de votar. O próprio caráter renhido do pleito, em que cada voto é extremamente necessário, desfez essa versão, que assumiu contornos de lenda em Cascavel. Se tivesse votado, provocaria o empate e estaria automaticamente eleito, sendo mais velho que Formighieri. “A junta de apuração anulou, ou melhor, separou 35 votos meus que estavam duvidosos. Se precisasse, comprovaríamos que aqueles 35 votos foram para mim. Apenas estavam sujos de barro. Choveu naquele dia e as estradas estavam intransitáveis, e naturalmente os eleitores sujariam as cédulas” (José Neves Formighieri, depoimento à memória histórica de Cascavel). Como havia suspeita de erro na apuração, Tarquínio imediatamente entrou com recurso na Justiça Eleitoral, que só em 1955 reconheceu sua vitória, segundo d. Diva. O farmacêutico então declarou oficialmente ao TRE que desistia da ação por estar satisfeito com a administração de Formighieri. Sentindo-se desiludido com a morosidade da Justiça, Tarquínio prometeu nunca mais retornar às lutas eleitorais. Ele não voltou, mas seu filho Ozíres fez por ele: foi vereador em Cascavel e prefeito em Foz do Iguaçu. **
Alceu A. Sperança – escritor alceusperanca@ig.com.br