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— GEAC (Grupo de Estudos em Análise Conversacional - CLUNL) — A PARÁFRASE COMO METODOLOGIA DE ANÁLISE

DO VALOR SEMÂNTICO-PRAGMÁTICO DOS CONTORNOS ENTOACIONAIS

os Juízos de valor em sequências conversacionais de retoma
Michel G. J. BINET (CLISSIS) Tiago FREITAS (ILTEC)

Os contornos entoacionais desempenham importantes funções semântico-pragmáticas que a Análise Conversacional (AC) tem necessidade de abordar (Elizabeth CouperKuhlen and Margret Selting, 1996). Operacionalizar e testar para o efeito uma Metodologia de analise adequada, eis o principal objectivo perseguido pela presente comunicação. A metodologia proposta instrumentaliza a paráfraseabilidade dos valores semânticopragmáticos dos contornos entoacionais. Esta actividade metalinguística ocorre espontaneamente nas trocas conversacionais autênticas. Os próprios falantes retomam falas suas ou do seu interlocutor acabadas de terem sido produzidas, reformulando e explicitando o seu “sentido” (sequências de retoma). Estas falas correspondem por vezes a enunciados entoacionalmente marcados cujo valor semântico e pragmático se encontra parafraseado lexicalmente na sequência de retoma. A orientação etnometodológica constitutiva da Análise Conversacional leva os investigadores a encarar estas sequências de retoma como dados de elevado valor que documentam os etnosaberes e os etnométodos que permitem aos falantes enquadrar e gerir co-enunciativamente as suas interacções verbais. Esta competência metalinguística dos falantes, capazes de reformular os seus enunciados por outros semanticamente equivalentes, é bem atestada nos corpora de dados autênticos recolhidos em AC. As sequências de retoma com função de explicitação semântica ocorridas espontaneamente em trocas conversacionais constituem documentos de elevado interesse científico. As sequências de retoma desempenham outras funções. A presente comunicação se centra na função axiológica de certas sequências de retoma parcial ou completa de um enunciado do interlocutor. Ao repetir uma(s) palavra(s) do seu interlocutor, o locutor pode formular entoacionalmente juízos de valor. O encadeamento dado conjuntamente pelos próprios falantes à sua conversa, nos turnos de fala que se seguem, é passível em certos casos de confirmar a realização de um Acto de Linguagem (AL) axiologicamente marcado e entoacionalmente produzido no quadro de uma sequência de retoma. O tema do enunciado corresponde nestes casos ao sintagma lexical; o rema ao contorno entoacional, veículo de uma informação nova de valor semântico-pragmático (Rossi, 1999: 27). O problema com o qual se defrontam recorrentemente os analistas consiste na ausência de explicitação verbal do valor semântico-pragmático dos AL realizados e dos seus respectivos contornos entoacionais no próprio texto conversacional. No entanto, se os falantes não necessitam de parafrasear permanentemente o sentido dos padrões entoacionais que enformam os seus enunciados, são capazes de faze-lo. A metodologia aqui proposta explora esta capacidade metalinguística.

2 A metodologia tem por base empírica dados conversacionais autênticos, o que limita o perigo de descontextualização dos usos da linguagem inerente a uma abordagem de teor experimental. Nos corpora, os analistas procuram repetidas ocorrências de contornos entoacionais semântica e pragmaticamente relevantes. É dada máxima atenção à ocorrência espontânea de sequências de retoma com função explicitativa ou de encadeamentos retroactivamente elucidativos. Um vez isolado, o contorno entoacional seleccionado é apresentado a sujeitos falantes experimentalmente encarregados de o parafrasear. As paráfrases assim produzidas em condição laboratorial, retidas de acordo com um critério de consensualidade, integram um segundo teste experimental, no qual se pede aos sujeitos de relacionar (1) enunciados deslexicalizados e entoacionalmente formados bem como (2) enunciados (lexicalizados) entoacionalmente formados com (3) paráfrases semanticamente equivalentes seleccionadas num leque de opções variadas. Os sujeitos responsáveis pela reformulação parafrasica dos contornos entoacionais terão por instrução de procurar no seu saber enciclopédico expressões proverbiais entoacionalmente semelhantes semanticamente equivalentes. O repertório de expressões idiomáticas e proverbiais é sociologicamente encarado como o produto de uma actividade etnocientífica que importa reconhecer e conhecer, Numa perspectiva etnometodológica, considera-se que as comunidades falantes fixam sob uma forma proverbial resultados da sua actividade metalinguística espontânea de explicitação semântica dos seus enunciados e respectivas entoações, constituindo assim um saber enciclopédico socialmente partilhado de elevado valor documental. Esta metodologia, que instrumentaliza experimentalmente a parafraseabilidade dos valores semântico-pragmáticos dos contornos entoacionais, assenta na competência metalinguística dos sujeitos. Os falantes são assim colocados em posição de colaborar na análise e na validação experimental dos resultados. [Incompleto : descrição do Corpus / expressões proverbiais como etnosaberes / Etc.]

Julho 2007

Bibliografia COUPER-KUHLEN, Elizabeth, and SELTING, Margret (ed.) (1996), Prosody in conversation : interactional studies, Cambridge : Cambridge University Press. DANON-BOILEAU, Laurent et MOREL, Mary-Annick (1998), Grammaire de l’intonation. L’exemple du français oral, Paris : Ophrys. FUCHS, Catherine (1994), Paraphrase et enonciation, Paris : Ophrys. ROSSI, Mario (1999), L’intonation, le système du français : description et modélisation, Paris : Ophrys.